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Revista Psicolog 42

Entre a utopia e o cotidiano:


uma análise de estratégias viáveis nos delineamentos culturais
Kester Carrara1
1
Livre Docente do Depto. de Psicologia da UNESP, campus de Bauru.
Bolsista de Produtividade do CNPq.

Resumo. Em face do processo de consolidação da área de planejamento cul-


tural como campo de atuação do analista do comportamento, a resolução de al-
gumas pendências teórico-epistemológicas e o desenvolvimento de estratégias
de enfrentamento dos problemas de consecução efetiva de projetos passam a
constituir aspectos a serem verticalmente abordados na literatura recente e di-
retamente superados a partir da experimentação cultural. Dois desses obstácu-
los – que mais constituem características próprias dos delineamentos culturais
– são abordados neste artigo: 1) os critérios ético-morais a serem considera-
dos legitimamente elegíveis quando da proposição de intervenções sociais sob
a ótica da Análise do Comportamento e 2) os limites tecnológicos para tal em-
preendimento. Para tal análise, examinam-se as características e conseqüên-
cias prováveis dos convites de Skinner e Glenn aos analistas do comportamento
para que se empenhem na análise cultural.
Palavras-chave: Delineamentos culturais, Práticas Culturais, Metacontingên-
cias, Análise do Comportamento, Behaviorismo Radical.

Ao final do seu Metacontingencies


in Walden Two, Sigrid Glenn (1986) faz
O “caminho agreste” mencionado
algumas perguntas aos analistas do com-
por Glenn tem explicação. Está contex-
portamento: tualizado pela idéia de que, por mais que
a ciência – e, em particular, a Psicolo-
Somos capazes de separar os re- gia – busque soluções completas ou muito
forçadores tecnológicos dos reforçadores abrangentes para as mazelas sociais, tal em-
cerimoniais e virar as costas a estes últi- preendimento parece destinado ao fracasso,
mos? O que podemos fazer para criar um restando plausíveis apenas as soluções por
ambiente de trabalho para os outros que os aproximações sucessivas de metas menores
coloque em contato com reforçadores tec- e que atendam a aspirações apontadas por
nológicos e sejam minimizados os efeitos determinada instância social. Ou seja, é
de contingências cerimoniais? ... Existe agreste o caminho em direção à utopia da
algum modo de organizarmos um sistema, sociedade ideal e a visibilidade dos resul-
mesmo que pequeno, no qual o comporta- tados desse empreendimento está compro-
mento de todos seja igualmente valorizado, metida por princípio, dada a magnitude
no qual todos contribuam para o bem-estar de tal utopia e as limitações estratégico-
do grupo, partilhando igualmente os pro- metodológicas da Análise do Comporta-
dutos do esforço do grupo? Em qualquer mento e da própria Psicologia para realizá-
grau que consigamos atingir tais objetivos, la cabalmente neste momento da História.
estaremos progredindo por um caminho Em contrapartida, Glenn (1986) deixa entr-
agreste (p. 8). ever alternativas através de pequenas inicia-
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tivas de delineamento cultural: bretudo, felicidade irrestrita para qualquer


sociedade parecem constituir, ao fim e ao
““Podemos, portanto, começar
aqui mesmo... e lidar com a menor área cabo, verdadeiras utopias, dada a amplitude
inalcançável de mudanças sociais definiti-
possível, aquela com a qual temos contato
vas e tão abrangentes.
contínuo e direto – nosso ambiente domés-
tico, nosso ambiente de trabalho, nossos A decisão de aceitar ou não o con-
projetos de lazer” (p. 8) vite que nos foi feito por Glenn há mais
de vinte anos, portanto, implica um ex-
ame acurado de várias questões e possi-
O convite de Glenn (1986) bem
pode constituir uma resposta, se não um es- bilidades. Parte de tal exame exige retomar
os conceitos de contingências cerimoniais
clarecimento conceitual, à crítica de que a
e tecnológicas. Para isso, no entanto, em
Análise do Comportamento e o Behavior-
primeiro lugar, tal como definido no con-
ismo Radical constituem, respectivamente,
texto da Análise do Comportamento, tome-
ciência e filosofia de ciência intrinseca-
mente limitadas: 1) pela própria estraté- se em conta que as contingências referem-
se, especificamente, às condições (ao modo
gia de análise da realidade (análise que
com que, à maneira pela qual) estão (ou
busca descrever o comportamento nas suas
serão) arranjadas as relações entre um de-
relações com o contexto ambiental) e 2)
terminado comportamento e o seu contexto.
pela incipiente tecnologia até aqui pro-
duzida (uma vez que não seria viável a Elas não constituem, de modo algum, os
descrição funcional de relações entre var- próprios eventos antecedentes e/ou os even-
tos subseqüentes de um comportamento
iáveis do ambiente e do comportamento em
específico, embora tal confusão (a de se
contexto de largo espectro, como é o caso
designar, indiscriminadamente, como refer-
dos eventos sociais complexos). Essa es-
entes ao mesmo processo e mesmos even-
pécie de argumento crítico, via de regra,
está atrelada a uma lógica de busca e de- tos, “conseqüências” e “contingências”)
constitua equívoco comum e presente na
fesa de políticas públicas, formas de gov-
rotina verbal (e, por vezes, na literatura) da
erno e ideologias que sejam capazes de
Análise do Comportamento. Contingên-
conduzir à justiça social nações inteiras,
cias, portanto, descrevem relações entre
de uma só vez. Tal lógica, quando trans-
posta ao mundo das relações interpessoais comportamento e ambiente. Ou seja, con-
tingências referem-se a uma descrição, es-
concretas, ainda que – a despeito da du-
pecífica e clara, das maneiras pelas quais
vidosa abrangência a ser alcançada por
estão relacionadas uma ou mais respostas
seus resultados e, eventualmente, apesar
de uma classe e o ambiente com o qual in-
de seus supostos méritos ético-morais –
possa ser plausível e consensual, parece terage determinado organismo vivo. Assim,
procura-se e se estabelece, através dessa
carecer de substrato científico-tecnológico
descrição de relações, baseada em alguma
para consubstanciar-se. Para além dessa
medida concreta das variáveis implicadas,
falta de consolidação tecnológica, tal im-
sob qual conjunto de circunstâncias (em
plicação parece padecer da constatação, via
literatura científica, de uma possível inex- que contexto) uma específica relação fun-
cional entre comportamento e ambiente se
eqüibilidade em princípio, uma vez que –
instalou, ou foi consolidada, ou se tornaria
nestes termos – qualquer “utopia” inspi-
possível. A lógica central skinneriana de
rada em qualificativos assemelhados aos de
tríplice relação de contingências se ref-
justiça social para todos, eqüidade com-
pleta de oportunidades, solidariedade e, so- ere ao modus operandi teórico behaviorista
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radical, suportado pela variação da “força” ual de uma resposta caligráfica a um mod-
do comportamento face às conseqüências elo: por exemplo, quando se ensina a uma
produzidas por sua emissão, sob condições criança os padrões de contornos gráficos
particulares. Se – e apenas se – a classe aceitos para escrever uma letra qualquer do
de respostas a que pertence o operante alfabeto), a latência entre a apresentação de
que produziu as conseqüências tiver sua um estímulo discriminativo e a ocorrência
“força” ampliada, será possível dizer que de uma resposta (como quando se busca
tal conseqüência constitui um reforçador instalar repertórios típicos de “atenção”
positivo. Se, ao contrário, sua “força” for como pré-requisito para a emissão de op-
diminuída, tal conseqüência será consider- erantes complexos). Nesse contexto, ainda
ada um reforçador negativo (ou estímulo mais precisamente, pode-se estar interes-
aversivo). Note-se, por oportuno, que aqui sado em aspectos como a quantidade de
se mencionam reforçadores, com referên- vezes que um operante ocorre, sua precisão
cia necessária aos eventos produzidos. Mas em relação a um modelo ou quanto tempo
eles não equivalem a reforçamento, que im- leva um organismo para apresentar uma re-
plica, para além do evento, um procedi- sposta típica diante de uma configuração es-
mento específico (no reforçamento positivo, pecífica de eventos antecedentes, tais como
um evento particular produzido pelo com- os estímulos discriminativos. O objetivo,
portamento leva a um aumento da “força” em todas as situações acaba, em última
do operante; no reforçamento negativo, um análise, sendo a freqüência, já que: 1) se
evento particular que é removido pelo op- são aceitáveis várias respostas topografica-
erante leva, igualmente, a um aumento da mente semelhantes com vistas a uma função
“força” do operante; respectivamente, tais comum, reforça-se qualquer que preencha
eventos são os reforçadores positivos e os esses requisitos e, assim, dependendo do es-
reforçadores negativos). quema de reforçamento em vigor, obtém-se
um determinado padrão de freqüência; 2)
mesmo que se exija uma força-peso mín-
Todavia, para melhor esclareci-
mento do conceito de contingência, ainda ima (como no caso da pressão à barra),
há algo a ser dito. Trata-se da metafórica também acaba adjunta à medida de se tal
força é suficiente para que a barra pro-
expressão “força do operante”. As aspas
duza um som que demarque seu adequado
utilizadas com a expressão força, neste
funcionamento, uma outra contagem, que
caso, denotam apenas – e nada além – que
alguma medida comparativa do operante implica freqüência: em outras palavras, a
(antes e depois de este produzir determi- resposta estará estabelecida quando, difer-
encialmente, se conseguir uma modelagem
nada conseqüência), tornará possível aferir
segundo a qual restem instaladas apenas as
sua mudança e, nesse sentido, tornará pos-
respostas com a força pré-estabelecida; 3)
sível dizer que tal evento conseqüente tem
o mesmo vale para os casos em que há in-
ou não algum efeito reforçador. De modo
mais específico, via de regra é possível uti- teresse na topografia específica da resposta,
ou seja, reforçam-se, por aproximações su-
lizar como unidade de medida do operante
cessivas, as respostas que – passo a passo –
sua freqüência de ocorrência, mas, algu-
contemplem os critérios de parecença com
mas vezes, outras medidas mais incomuns
uma determinada unidade do alfabeto; a
podem ser empregadas ou agregadas à fre-
qüência: força-peso (como quando um rato freqüência com que tais respostas de aprox-
imação acontecem participa do critério de
pressiona uma barra), topografia (como nas
avanço para a etapa seguinte da seqüência.
situações em se afere a aproximação grad-
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Assim, a Análise do Comporta- imo passo consiste em avaliar se esse con-


mento sempre busca algum tipo de medida ceito pode ser genericamente utilizado para
razoavelmente precisa das relações entre toda e qualquer relação dos organismos
o operante e as demais instâncias da trí- vivos com o contexto ambiental com o
plice relação em que se insere: eventos an- qual interagem. Ferster e Skinner (1957)
tecedentes e eventos conseqüentes. Buscar desenvolveram muitas pesquisas a partir
tais medidas contribui para que se possa do conceito skinneriano básico de esque-
conhecer com razoável precisão se e quanto mas de reforçamento. Tais esquemas con-
um determinado comportamento mantém stituem a representação formal – e, num
uma relação de interdependência com o certo sentido, a explicitação paradigmática
contexto ambiental em que ocorre. Se, por através de uma fórmula cujos símbolos de-
um lado, é fácil a compreensão das razões finem relações de dependência entre com-
pelas quais identificar com clareza uma portamento e suas conseqüências - das con-
relação de contingências assegura maior tingências, no contexto de uma determi-
probabilidade de uma intervenção consis- nada classe de respostas e suas interações
tente para aumentar, manter ou diminuir com o ambiente. Não é vã a recuper-
a “força”/freqüência de um operante, por ação de aspectos particulares desses es-
outro nem sempre é tarefa simples eleger o quemas, face à complexidade que se de-
melhor procedimento para alcançar tal fi- preende da distinção entre contingências e
nalidade. metacontingências. Dessa forma, falar em
reforçamento contínuo implica dizer que,
num dado episódio (planejado ou não) de
Para compreender tais dificuldades
e para adentrar à complexidade da mensu- interação, a cada resposta de uma classe
ração das relações do organismo com seu segue-se uma conseqüência singular e disc-
reta, de modo que, sob certos parâmetros
ambiente físico-químico-biológico-social,
espaço-temporais, fique claro um padrão,
via comportamento (o que implicará, por
um tipo, uma condição particular dentro da
último neste texto, ampliar a probabilidade
de compreensão das interações sociais com- qual respostas e conseqüências estão rela-
plexas e bem e criteriosamente examinar o cionadas. No esquema de reforçamento
contínuo, por óbvio, a relação entre re-
convite de Sigrid Glenn), é preciso detal-
sposta e reforço é da ordem de uma para
har outras noções associadas e implicações
um, ou seja, toda resposta (de dimensões
do conceito de contingências. Nessa per-
que necessitam ser descritas com precisão)
spectiva, acompanhando Souza (1999) a
relevância da análise de contingências está é reforçada. Em contrapartida ao reforça-
mento contínuo, é possível falar em re-
no fato de que ela assegura a possibilidade
forçamento intermitente, onde nem todas
de se identificar os elementos envolvidos
as respostas são reforçadas. O padrão de
numa dada situação, constatar se existe re-
respostas sob esquemas intermitentes – e a
lação de dependência entre tais elementos e
avaliar qual o padrão dessas relações de de- literatura ilustra sobejamente tal achado - é
muito distinto daquele dos esquemas con-
pendência. Em decorrência disso, torna-se
tínuos. Sua resistência à extinção é muito
viável uma programação de contingências
maior, as freqüências de resposta podem se
precisa, concreta e plausível.
ampliar significativamente e as característi-
cas do responder podem mostrar fluxos dis-
Reiterado o conceito de contingên- tintos de respostas, por exemplo, antes ou
cias no contexto da Análise do Comporta- depois do exato momento do reforçamento.
mento e do Behaviorismo Radical, o próx- Todavia, não há um único esquema intermi-
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tente: existem esquemas onde o critério de


reforçamento é temporal (intervalo fixo e Tais perguntas adquirem tão maior
intervalo variável), outros em que o critério significado quanto mais precisa, abrangente
é o número (razão fixa e razão variável) e e relevante é a intervenção pretendida pelo
outros, ainda, em que há uma combinação
analista do comportamento, seja na clínica,
complexa de critérios baseados no tempo,
seja nas organizações, seja no cenário das
freqüência, duração e mesmo topografia de práticas culturais. Dito de outro modo, o
respostas. analista do comportamento não pode pre-
scindir de todos os dados que puder obter
Essa recuperação de conceitos as- dentre os que permeiam as relações entre
sociados aos esquemas de reforçamento comportamento e ambiente, sob risco de
busca, prioritariamente, explicitar uma uma avaliação incompleta e, conseqüente-
parte de conceitos caros à Análise do Com- mente, de uma proposição de programação
portamento, na medida em que esta procura de contingências superficial. Por mais que
descrever relações entre organismos e am- necessária é insuficiente, por exemplo, a
biente, sob mediação do comportamento. simples reorganização programada de con-
Trata-se, reiteradamente, do esclarecimento tingências vinculadas unicamente às es-
do conceito de contingência, ou seja, da tratégias de ensino de um educador na sua
idéia central do Behaviorismo Radical, se- interação com os alunos: mudar apenas
gundo a qual a lógica aí prevalente de ex- seus “métodos” implica deixar fora da ex-
plicação do comportamento está baseada plicação outros eventos da história com-
em relações. Mas não em quaisquer re- portamental do aprendiz que estão além
lações, senão as relações funcionais entre do contexto de sala de aula: as variáveis
comportamento e eventos que o contextual- econômicas, as variáveis relacionadas à
izam, na dimensão temporal antes-depois. saúde, as variáveis vinculadas às relações
Os esquemas de reforçamento, portanto, familiais. Mesmo que o argumento para
constituíram na literatura skinneriana uma excluí-las de uma análise seja a sua “dis-
sistematização prática da maneira pela qual tância causal” em relação ao comporta-
as relações funcionais entre comportamento mento do estudante em sala de aula, em
e ambiente são (ou estão) estabelecidas. Es- contrapartida à “proximidade causal” (var-
pecificamente, descrevem contingências. iáveis proximais) da conduta do professor
No entanto, a questão que se apresenta é: em interação com o aluno, tais variáveis
diante desse instrumento conceitual ofer- podem desempenhar importante papel na
ecido por Skinner, estaria definitivamente compreensão do comportamento individual
pronto um arcabouço teórico-prático que e do comportamento da classe. Assim, nem
daria conta de todas as complexas situações razões teóricas, nem razões baseadas em
nas quais contingências comportamentais dificuldades práticas eximem o analista do
estão implicadas? Seria possível especificar comportamento de seu necessário interesse
todos os condicionantes dos padrões com- em relação à influência das variáveis rela-
portamentais envolvidos nas relações soci- cionadas às práticas culturais com vistas à
ais complexas, por exemplo? Como des- compreensão de grande parte do comporta-
ignar, nesse caso, um esquema em que as mento cotidiano.
contingências entre comportamento e even-
tos antecedentes dizem respeito a múltiplas
Se, por um lado, a literatura está
variáveis pertencentes ao contexto ambien- repleta de resultados de pesquisa que con-
tal corrente? substanciam os argumentos de Skinner em
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favor do uso do conceito de contingên- Pelo menos quatro textos de Skin-


cias e do modelo de esquemas de reforça- ner (1948/1977, 1953/1967, 1974/1982,
mento para explicar nossas atividades mais 1989/1991) são altamente representativos
simples, permanecem algumas lacunas ra- de seu objetivo perene de explicação dos
zoáveis na extensão do uso desse mesmo “fenômenos sociais”. O caso de Ciência
instrumental para a descrição dos com- e Comportamento Humano, em particular,
portamentos sociais complexos. Mas, o constitui exemplo seminal do investimento
que especifica que possamos considerar al- skinneriano no campo das práticas cultur-
guns comportamentos sociais como “com- ais, ao proceder a um exame exploratório do
plexos” e, eventualmente, outros como “não tema das agências de controle e dos delin-
complexos”? Nada que seja tão preciso, se eamentos culturais sob a ótica behaviorista
se pensar nas características intrínsecas ao radical. A coerência lógico-teórica do texto
próprio comportamento. Nada quanto à skinneriano é o dado proeminente da obra,
sua estrutura. No entanto, quando os com- em que pesem as interpretações críticas já
portamentos de um indivíduo implicam in- veiculadas a respeito do tipo de prescrições
terdependência com o comportamento de éticas do autor. De qualquer maneira, uma
outros indivíduos, tal como o que ocorre vez que o que está em jogo, no momento,
naquilo que Skinner (1953/1967, p. 239) é um conjunto de reflexões que nos con-
designou como “práticas culturais”, essa duza a tomar a decisão de aceitar ou não o
complexidade fica mais clara. Ela diz re- convite de Sigrid Glenn, parece relevante
speito, especialmente, ao modo pelo qual selecionar, da leitura de Skinner, quais in-
estão estabelecidas, nesse caso, as relações strumentos e sob que condições o autor sug-
funcionais entre comportamento, eventos ere serem úteis à análise do comportamento
antecedentes e suas conseqüências. E esse das pessoas em grupo.
modo “causal” implica uma relação de de-
pendência entre o comportamento de al-
Nessa perspectiva, sobressai em al-
gumas e o de outras pessoas: sua natureza
guns textos de Skinner (1984, 1990) sua
“social” está no fato de que esses comporta- enfática sugestão de três tipos de variação
mentos vão além da interação do indivíduo e seleção que inspiram a lógica da análise
com o seu ambiente particular (embora se
de contingências: 1) A seleção natural, re-
possa argumentar, no limite, que sempre e
sponsável pelo processo evolutivo e, con-
finalmente o que será conseqüenciado é o
seqüentemente, pelo comportamento típico
comportamento de um indivíduo e não o de das espécies. A história evolutiva da espé-
um grupo social, que não é um organismo cie retrata a seleção de comportamentos im-
ele próprio). Portanto, é nesse contexto portantes para sua sobrevivência, de modo
ainda um pouco incerto de ampliação de
que os indivíduos que a compõem estarão
complexidade que surgem, na Análise do
preparados para um presente que seja simi-
Comportamento, algumas perguntas sobre lar ao ambiente passado que os selecionou.
qual será a fórmula “objetiva” para a ex- A “similaridade” é, por certo, um conceito
tensão do trabalho do analista às práticas relativo, assim como a “regularidade” do
culturais. Serão suficientes o modelo de
ambiente é um tanto incerta. Diante dessa
tríplice relação de contingências skinneri-
dinâmica e dentro de um largo espectro
ano, o próprio conceito de contingências e temporal, os comportamentos (e todas as
a matriz instrumental dos esquemas de re- características a eles relacionadas) da espé-
forçamento? cie que sejam funcionais para a sua adap-
tação ao ambiente acabam por reproduzir-
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se geração a geração; mutações favoráveis a é o controle por regras que exerce um papel
uma adaptação ambiental mais consistente extremamente importante. Tal controle é, a
poderão ser responsáveis pela dinâmica do um só tempo, econômico e funcional para
processo; 2) Quando o ambiente não é es- manter a efetividade das práticas cultur-
tável por tempo suficiente para assegurar ais a um “custo de aprendizagem” bastante
mudanças filogenéticas (e é este o caso de baixo.
grande parte dos repertórios comportamen-
tais da espécie humana), outra dimensão O primeiro e o segundo tipo de se-
dos processos de variação e seleção está em leção constituem bases importantes para
jogo: trata-se da suscetibilidade do compor-
a compreensão das atividades dos organis-
tamento (operante) à seleção ontogenética.
mos, mas nosso interesse neste texto está di-
Está aí presente, prioritariamente, o âmbito rigido para além das dimensões filogenéti-
das interações individuais com o ambiente, cas e para além dos já tão bem estabeleci-
sem a concorrência complexa das situações dos princípios do comportamento operante
comunitárias em que o comportamento das
que se sustentam na lógica da evolução on-
pessoas em grupo e as conseqüências com-
togenética. Aceitar ou não o convite de
partilhadas articuladamente é que são re- Glenn implica explorar a terceira dimen-
sponsáveis pela instalação, manutenção e são do processo de seleção em termos de
extinção de condutas discretas. Nessa di- seus conceitos e de seu alcance pragmático,
mensão, ainda permanecem claras as simili-
mas não apenas isso: implica explorar al-
tudes entre o modelo de seleção natural dar-
guns argumentos essenciais da autora para
winiano e o processo de condicionamento a compreensão do conceito de metacon-
operante skinneriano. A semelhança entre tingências, por ela proposto para descrição
a evolução filogenética e a ontogênese ex- das relações das pessoas entre si e com to-
plicita o pensamento behaviorista radical dos os demais componentes dos ambientes
sobre aparecimento e curso dos repertórios
interativos que caracterizam práticas cultur-
comportamentais; a dimensão temporal ex-
ais e comportamento social na perspectiva
tensa (no primeiro caso) e reduzida (no behaviorista radical.
segundo) respondem, parcialmente, pelas
diferenças essenciais dos dois processos; 3)
O terceiro tipo de variação e seleção im- Ao lidar com práticas culturais, nat-
plica contingências especiais mantidas por uralmente, lidamos com o comportamento
um ambiente social que, para Skinner, rep- social. Desde 1953, Skinner conceitua o
resenta a cultura (1974/1982, 1987). Note- comportamento social como sendo “... o
se que o contexto da cultura, para Skinner, comportamento de duas ou mais pessoas,
compõe-se de uma articulação indissociável uma em relação à outra ou, em conjunto,
entre comportamento e ambiente, no sen- em relação a um ambiente comum” (p.
tido de que as práticas culturais (que, no 171). No comportamento social, portanto,
limite, são comportamentos) e as dimen- outra pessoa deve estar envolvida, seja con-
sões (sociais, biológicas, químicas, porém stituindo evento ou parte de evento diante
todas, em última análise, referenciadas por do qual o organismo responde, seja consti-
alguma materialidade física) do contexto tuindo a fonte de conseqüências que contro-
ambiental compõem o cenário vital para a lam o comportamento desse organismo. O
existência de alguma sociedade. Observe- comportamento social adquire dimensões
se que, embora o controle por conseqüên- mais complexas quando se passa ao âmbito
cias diretas se mantenha nos níveis men- das práticas culturais. Nelas, está implícita
cionados em 2) e 3), nesta última dimensão a repetição/replicação de comportamentos
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similares (coerentes, compatíveis e/ou anál- última análise, também remetem aos com-
ogos), com especial ênfase no aspecto da portamentos dos indivíduos, mas com uma
funcionalidade para a produção de conse- especificidade distintiva: são tipicamente
qüências para vários indivíduos que con- comportamentos articulados responsáveis
stituem um grupo. Uma outra dimensão das pela produção de conseqüências compartil-
práticas culturais que ultrapassa o conceito hadas pelos membros do grupo. Esse é um
de comportamento social (embora o incor- dos sentidos pelos quais é possível falar de
pore) está na transmissão cultural de tais contingências entrelaçadas: os comporta-
repertórios, na medida em que eles sejam mentos operantes individuais dos membros
funcionais para a preservação dessa mesma do grupo são controlados por parâmetros
cultura. Nesse sentido, um dado básico das de freqüência (e/ou duração, intensidade,
práticas culturais é sua replicação através topografia ou outra medida) compatíveis e
das gerações. Naturalmente, o fato de que funcionais para a produção (a curto ou em
algumas práticas culturais sejam – no logo longo prazo), de contingências funcional-
prazo – deletérias para a sobrevivência dos mente equivalentes para os participantes
indivíduos que compõem uma cultura, não dessa comunidade. Via de regra, quando se
significa que deixem de ser práticas cul- examina o envolvimento de uma coletivi-
turais ou que práticas culturais necessaria- dade na produção de práticas culturais entre
mente mantenham como princípio a sobre- si coerentes e dirigidas à produção de con-
vivência de todos os indivíduos que par- seqüências compartilháveis, está-se diante
ticipam de determinada cultura, durante de um conceito, proposto por Glenn (1988)
todo o tempo. A poluição industrial, sem no contexto da área de delineamentos cul-
dúvida, produz efeitos nocivos à saúde do turais: o de produto agregado. Esse con-
coletivo de indivíduos, mas, apesar disso, ceito tem implicações para a descrição de
pode reproduzir-se por muito tempo como certo caráter de conformidade ou, mesmo,
produto de uma prática cultural à custa acordo cooperativo entre os participantes,
de arranjos de contingências que provêm algumas vezes atrelado à caracterização
conseqüências reforçadoras outras impor- de práticas culturais. De fato, em muitas
tantes para quem assim procede (poluindo). culturas é comum observar práticas que,
Embora Skinner (1953/1967, 1981) reit- embora produzam conseqüências de curto
eradamente mencione os “efeitos para o prazo reforçadoras para todos ou a maioria
grupo”, sempre é bom lembrar que tudo in- dos membros do grupo, no longo prazo po-
dica tratar-se de uma metáfora: o grupo não dem levar a conseqüências nefastas, como
constitui organismo, de modo que não in- é o caso do uso indiscriminado de recur-
terage, ele próprio, com o ambiente. São as sos naturais, de que todos podem usufruir
pessoas que o compõem que são suscetíveis num certo momento mediante benefícios
ao arranjo de contingências. Mas, natural- individuais imediatos que alcançam a todos
mente, nas práticas culturais, existe uma do grupo, mas que, ao final, podem rep-
relação inevitável de articulação necessária, resentar o advento de conseqüências aver-
por vezes uma dependência, entre compor- sivas atrasadas em larga escala. Portanto,
tamentos (coerentes entre si) dos compo- não é um caráter intrinsecamente “bom” ou
nentes do grupo e o contexto ambiental. “mau”, no sentido ético-moral, das próprias
Ou seja, as conseqüências que agem sobre práticas, que leva à sua preservação, mas a
o indivíduo selecionam suas respostas par- disposição (muitas vezes não planejada) de
ticulares; já as conseqüências que atuam contingências que tornam menos ou mais
sobre os membros de um grupo enquanto provável a emissão de certos comportamen-
tal selecionam práticas culturais que, em tos que compõem tais práticas.
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tamentos interligados de várias pessoas que


Parece claro, neste ponto, que em- compõem um grupo. As metacontingên-
bora os esquemas de reforçamento previs- cias, ao incluírem a proposta de um produto
agregado, sinalizam com o fato de que, com
sem certa multiplicidade de arranjos de con-
freqüência, é possível identificar nas ações
tingências, em termos práticos a Análise do
articuladas do grupo o surgimento e com-
Comportamento não avançou quanto seria
partilhamento de um produto, um resultado
teoricamente possível depois da competente
análise de Skinner (1953/1967) a respeito que afeta aqueles que o compõem. Um
estudo bem sistematizado, incluindo repre-
– seja provendo estruturas sistemáticas de
sentações paradigmáticas de contingências
análise funcional de práticas culturais com-
entrelaçadas e metacontingências, pode ser
plexas, seja apresentando progresso rápido
encontrado em Andery, Micheletto e Sério
e seguro na aplicação de estratégias asso-
ciadas a tecnologias apropriadas para in- (2005). Nesse estudo, as autoras sugerem:
tervenção social. Nesse sentido, os con-
ceitos associados aos esquemas de reforça- “ ...parece que temos muito a gan-
mento foram prioritariamente aprisionados har em termos de nossa compreensão das
à pesquisa experimental, de maneira que variáveis de controle de fenômenos soci-
a literatura passou a exibir com maior fre- ais complexos com tentativas de desen-
qüência discussões teóricas sobre estraté- volver análogos experimentais a esses fenô-
gias para avanço do interesse e possibili- menos” (p. 163).
dades da Análise do Comportamento ao es-
tudo das questões sociais complexas. Nesse
Nesse sentido, ainda que indireta-
contexto de discussão, Glenn (1986, 1988)
mente, pode estar aí expressa uma boa me-
propõe uma nova unidade conceitual, for-
dida da compatibilidade da estratégia de de-
mulada com a finalidade de tornar possível senvolvimento de estudos sociais em situ-
melhor descrever as intrincadas relações ação experimental com o convite de Glenn
funcionais presentes nas práticas culturais.
(1986) para que passemos a nos deter em
Tal unidade conceitual – metacontingências
questões sociais implicadas diretamente no
– se distingue das contingências de reforça-
nosso cotidiano (critério da proximidade) e
mento pelo fato de que se estas descrevem cujas dimensões sejam menores (mas não
relações entre uma classe de respostas e menos complexas ou menos importantes)
uma conseqüência comum à classe, aque- do que as almejadas soluções de delinea-
las se referem a relações entre uma classe
mentos culturais para toda a sociedade a
de operantes e uma conseqüência cultural
um só tempo (critério da plausibilidade).
comum. Aduz-se ao conceito de metacon-
tingências o fato de que envolve contingên-
cias individuais entrelaçadas que, articu- Se tais ponderações são parcimo-
ladas, produzem um mesmo (ou equiva- niosas – e toda a literatura parece responder
lente) resultado no longo prazo. É nessa positivamente – resta à responsabilidade do
perspectiva que o conceito proposto por analista do comportamento a tarefa de con-
Glenn retorna à idéia central de Skinner tinuar examinando a pertinência teórico-
(1981), revelando que as práticas cultur- técnica da noção de metacontingências,
ais são, tal como o comportamento indi- agora sem qualquer preocupação no sen-
vidual, selecionadas pelas conseqüências tido de que esta seja utilizada como um
que produzem, com a diferença que, neste substituto conceitual para a terminologia
caso, tais conseqüências afetam os compor- proposta por Skinner ou um conceito que se
Revista Psicolog 51

incompatibilize com a análise skinneriana analista enquanto cidadão-cientista (Abib,


das práticas culturais. O conceito glenni- 2001, 2002; Dittrich, 2004)).
ano, sem dúvida, por um lado preserva os
argumentos centrais do Behaviorismo Rad- Quaisquer que sejam os encamin-
ical com relação a questões sociais e, por
hamentos de solução para esses dois con-
outro, enfatiza claramente a importância
juntos de questões, permanece dinâmica a
de que se produza uma trajetória de con- atuação do analista e parece convulsiva a
dutas estratégicas do cientista que impli- geração de problemas que poderiam con-
cam não apenas a identificação de variáveis tar com algumas propostas alternativas de
que controlam o comportamento individ-
solução. Ou seja, a esperar pela solução
ual, mas a identificação e descrição cuida-
final de todos os problemas sociais, per-
dosa da rede de relações que se estabelece maneceremos por tempo indeterminado no
entre classes de comportamentos dos indi- campo das utopias. Ao escolher uma re-
víduos que compõem o grupo e produzem sposta positiva ao convite de Sigrid Glenn,
um efeito de compartilhamento social, no
estaremos optando, com algum risco ético
sentido anteriormente descrito neste texto.
que deve ser sempre tornado transparente,
por colocar à disposição da demanda o es-
Existem, naturalmente, entraves tado atual da tecnologia comportamental
para uma “psicologia social” behaviorista aplicada às práticas culturais, no mínimo
radical. Tais dificuldades possuem muitas sob o abrigo institucionalmente estabele-
facetas, que talvez, de modo simplista, cido das prescrições contidas nas instân-
possam ser resumidas em duas dimensões cias que controlam nosso exercício profis-
essenciais: o aspecto tecnológico e o as- sional (código de ética do psicólogo, con-
pecto ético da questão dos delineamentos stituição brasileira e legislação complemen-
culturais. Duas velhas perguntas, nessa per- tar, por exemplo). O critério da urgência e
spectiva, devem ser sempre retomadas: 1) a visibilidade de alguns problemas soci-
Os novos e os antigos instrumentos con- ais de fácil consenso (aquecimento global,
ceituais serão suficientes, independente- poluição ambiental, conservação de recur-
mente, para garantir uma boa descrição sos naturais, prevenção a problemas de
de fenômenos? e 2) A que norte ético- saúde pública, saneamento básico e vários
moral, em cada caso de delineamento cul- outros) talvez possam controlar nosso com-
tural, deve responder o analista do compor- portamento em direção a essa resposta pos-
tamento? itiva. Se isso é razoável, teremos, então,
que nos haver, entre outras providências,
com o detalhamento e compreensão da pro-
Ao que tudo indica, se por um lado
a literatura recente parece tornar muito posta de desenvolvimento de “processos e
produtos” tecnológicos em detrimento dos
otimista a idéia de que o desenvolvimento
cerimoniais. Agências de controle insti-
estratégico-metodológico e o campo de
tucional, como Família, Igreja e Estado,
aplicação da Análise do Comportamento
em muitas circunstãncias exemplificariam
às práticas culturais está se ampliando para
situações até recentemente pouco imagi- o uso prioritário de controle cerimonial do
comportamento social. Essa espécie de
nadas, por outro a questão das prescrições
controle é bastante inflexível, por vezes
ético-morais nos delineamentos continua
dogmático e, nesse sentido, pouco adap-
mantendo um fórum aberto de análises e ar-
tativo para sugerir mudanças sociais pela
gumentos que buscam esclarecer a possibil-
idade de regras aceitáveis para a atuação do explicitação de conseqüências. Os códigos
Revista Psicolog 52

e a legislação vigente em cada país podem Ociosa, sugeria que costumes ou usos que
exemplificar controle cerimonial. Na maior pareciam não ter conseqüências mensu-
parte das vezes, esses instrumentos não es- ráveis e que eram explicados em termos
pecificam diretamente as condições sob as de princípios duvidosos de beleza ou gosto
quais o comportamento deve ou não deve também podiam ter efeitos importantes so-
ser emitido e, tampouco, as conseqüên- bre o comportamento do grupo, ou seja, no
cias previstas para o seguimento dessas contexto das práticas culturais. O exemplo
regras. Já o controle tecnológico assegu- dado por Skinner (1953/1967) é:
raria, conforme Todorov (1987), a possi-
bilidade de estabelecimento de regras es-
“...uma universidade americana
pecíficas, de providenciar conseqüências
moderna constrói edifícios góticos não
imediatas para a observância de tais regras porque os materiais disponíveis se assemel-
e de avaliação dessas regras e de suas con- hem àqueles que originalmente foram re-
seqüências. Porém, o controle tecnológico sponsáveis por esse estilo de arquitetura ou
também pode tornar-se cerimonial quando
porque o estilo seja belo em si, mas porque
as contingências passam a não se coad-
assim a universidade exerce um controle
unar com a evolução da cultura e quando mais eficaz fazendo lembrar instituições ed-
ocorre rápida desatualização da relação en- ucacionais medievais...” (p.234)
tre comportamento e conseqüência estab-
elecida primariamente. Nota-se, na liter-
atura, que as expressões “tecnológicas” e e que, nesse sentido, inspiram com-
“cerimoniais” têm sido associadas, indis- portamentos quando pareados seus aspec-
tintamente, com várias outras expressões: tos estético-arquitetônicos com alguns con-
fala-se em processos, conseqüências, con- ceitos valorizados no contexto da cultura,
tingências ou metacontingências cerimoni- como o parecer “tradicional”, “séria”, “con-
ais e tecnológicas. Naturalmente, cada qual fiável”.
dessas expressões associadas adquire sua
pertinência ou não em função do contexto Tomando essa dimensão como pres-
no qual estão inseridas e não constituem, suposto, talvez o conceito que mais perto
entre si, sinônimos (conseqüências e con- está do pareamento plausível com “ceri-
tingências, como vimos, estão fortemente monial” ou “tecnológico” seja o de cont-
articulados, mas não são a mesma coisa). role. Nesse sentido, falar em controle ce-
Assim, por ser fundamental que o objeto rimonial implica a influência atualmente
de referência para “tecnológico” e “ceri- exercida pelas regras institucionais (na
monial”, nesse caso, seja o tipo de relação acepção das “agências” estudadas por Skin-
de dependência estabelecido entre determi- ner, 1953/1967) emanadas de uma figura
nadas condições e as respostas específicas (pessoal ou organizacional) de “autoridade”
de uma classe, ficando ou não claras num e constituída (por exemplo, o presidente, o di-
noutro caso, respectivamente, as condições retor, o superintendente, o pai, a lei, as nor-
e conseqüências para a emissão de algum mas, certos padrões morais de costumes,
comportamento social no contexto de práti- a polícia, o reitor, todos eles a depender
cas culturais, parece plausível convencionar dos tipos de pareamentos com específicos
a utilização dessas duas expressões no sen- padrões de conseqüências). Tal controle
tido que originalmente inspirou Skinner é comumente exercido através de regras
(1953/1967, p. 234-235), ao citar Thorstein (verbais orais, escritas, sinalizadas) que
Veblen. Na interpretação skinneriana, Ve- adquiriram controle para além da exigência
blen (1899/1965), em sua Teoria da Classe
Revista Psicolog 53

(ou possibilidade) de uma discriminação – nosso ambiente doméstico, nosso ambi-


mais acurada das reais conseqüências que ente de trabalho, nossos projetos de lazer”
poderiam ou efetivamente deveriam exercer (p. 8). Como já mencionou Skinner (1974):
sobre as pessoas. Na mesma direção, o
controle tecnológico constitui conceito ab-
“Um reputado filósofo social disse:
sorvido no contexto do exame das práticas
‘Só através de uma mudança de consciên-
culturais como referência à possibilidade cia é que o mundo será salvo. Cada um
de descrição de contingências (ou metacon- de nós deve começar por si mesmo’. Mas
tingências) completas, ou seja, algo como ninguém pode começar por si mesmo e, se
“diante das condições tais, se o comporta-
pudesse, certamente não seria mudando a
mento for emitido com as características ora
própria consciência” (p. 212).
especificadas, produzem-se estas e/ou aque-
las conseqüências”. Se, quando falamos em
contingências ou metacontingências, esta- Ou seja, estamos diante de uma
mos falando na forma pela qual se exerce questão de rearranjo de contingências. Mais
algum tipo de controle, então parece per- particularmente, de delineamentos cultur-
tinente falar em contingências (ou meta- ais. Por essa e por todas as razões anteri-
contingências) cerimoniais ou tecnológi- ores, independentemente de que sejam ou
cas. Mas essa divisão não pode ser tomada, não imprescindíveis o conceito de meta-
no limite, como necessariamente e sem- contingências e os demais que lhe são adja-
pre representando controle despótico versus centes, parece bastante consistente o velho
controle democrático, por exemplo. A van- convite de Glenn (1986) aos analistas do
tagem das contingências tecnológicas está comportamento. Aceitando-o, talvez pos-
no fato de que elas têm um caráter constru- samos contribuir decisivamente para a sub-
tivo para as práticas culturais, na medida stituição gradual, mas consistente, de certas
em que especificam claramente um con- contingências cerimoniais por contingên-
junto de condicionantes e isso, por sua vez, cias tecnológicas apoiadas em padrões
permite um caráter de “experimentação” ético-morais subsidiários da justiça social.
social - típico dos delineamentos culturais
- mais transparente. Amplia-se a dinamici- Referências
dade das regras pela sua constante referên-
cia às conseqüências de onde se originaram.
ABIB, J. A. D. (2001) Teoria Moral
de Skinner e Desenvolvimento Humano.
Essa é, portanto, a dimensão da Psicologia: Reflexão e Crítica, 14 (1), p.
diferença entre aguardar a realização com- 107-117.
pleta de uma utopia (permanecendo à es-
pera que uma teoria integral da vida so- ABIB, J. A. D. (2002) Ética de
cial, uma estratégia milagrosa ou um líder Skinner e Metaética. In: H.J. Guilhardi,
altruísta completamente despido dos val- M.B.B.P. Madi, P.P. Queiroz, M.C. Icoz
ores de sua própria história pessoal iniciem (orgs.), Sobre Comportamento e Cognição,
tal processo) e começar uma reconstrução vol. 10 (Contribuições para a construção
gradual das práticas que estão muito próx- teórica do comportamento), p. 125-137.
imas de nós, que são razoavelmente con- Santo André: ESETec
sensuais, que afetam o nosso cotidiano e ANDERY, M. A. P. A,
que, como sugere Glenn (1986) assegu- MICHELETTO, N., SÉRIO, T. M. A. P. A.
ram nosso “... contato contínuo e direto (2005) A análise de fenômenos sociais: es-