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Marie Corelli

VIDA SEMPITERNA

Romance de Mane Corelli

COORDENAÇÃO E SUPERVISÃO
Charles Vega Parucker, F.R.C.
Grande Mestre

BIBLIOTECA ROSACRUZ

ORDEM ROSACRUZ, AMORC


GRANDE LO JA DO BRASIL
1- Edição em Língua Portuguesa
ÍNDICE
Outubro, 1990

ISBN-85-317-0131-7 PRÓLOGO DA AUTORA .............................................................. 7

I - A Heroína Inicia sua H istó ria.........................................31


II - O Navio M ág ico ................................................ 49
Direitos Autorais em 1966 Dl - O Anjo do S o n h o .......................................................... 61
por Borden Publishing Co-, IV - Um Ramalhete de Urzes ...............................................69
por especial acordo com V - Um Encontro Inesperado...............................................87
o espólio de Marie Corel! i.
VI - Reconhecimento ............................................................103
VII - Lembranças ...................................................................119
Proibida a reprodução em parte ou no todo VIII - Visões ........................................................................... 139
IX - Destino O bscuro............................................................167
X - Estranhas Associações.................................................. 185
XI - Um Modo de A m a r.......................................................203
XII - Uma Carta de A m o r.................................................... 227
Composto, revisado e impresso na
Grande Loja úo Brasil
Xffl - A Casa de A selzion...................................................... 251
Rua Nicarágua, 2620 - Bacachen XIV - A Cruz com a E s tre la ................................................. 269
Caixa Postal 307 - Tel.t (041} 256-6644
80001 - Curitiba - Paraná
XV - A Primeira L iç ã o ........................................................... 285
XVI - Sombra e S o n s ..............................................................297
XVII - O Livro M ág ico ........................................................... 309
XVIII - Um Sonho Dentro de um S o n h o ..................................321
XIX - A Desconhecida P rofundeza......................................331
XX - Mergulhando na L u z ....................................................349

Biblioteca Rosacruz 367


AVIDA

UMA REALIDADE DO ROMANCE

PRÓLOGO DA AUTORA

Nos Evangelhos do único Amigo Divino que o mundo já teve ou


virá a ter, lemos a respeito de uma Voz, uma “ Voz que Clama no
Deserto” . Houveram milhares dessas Vozes, a maioria delas cla­
mando em vão. Ao longo de toda a história do mundo, o eco dessas
vozes se integrou aos registros universais; desde o início dos tempos
elas ressoaram inutilmente com suas advertências ou súplicas. O De­
serto nunca se dignou ouvi-las. O Deserto continua a não querer ou­
vi-las agora.
Por que, então, acrescento mais uma nota indesejável ao coro das
rejeitadas súplicas? Como ouso levantar a minha voz no Deserto, se
outras vozes, muito mais poderosas e encantadoras, são abafadas
pelo riso dos tolos e o escárnio dos profanos? Na verdade não sei.
Mas tenho certeza de que não me move o egotismo ou a arrogância.
É simplesmente por amor e compaixão pela sofredora humanidade
que me arrisco a tomar-me mais uma Voz rejeitada —uma voz que,
se por acaso for ouvida, só servirá para despertar a zombaria barata
e o menosprezo dos insensatos.
Entretanto, ainda que assim seja, eu não podería agir de outra
forma. Nunca, em tempo algum, me esforcei para me ligar ao mun­
do, ou para adequar meu discurso docilmente ao humor convencio­
nal do momento. Sofro freqiientes ataques, mas não me magôo; com
a mesma frequência recebo encomios, mas não me sinto orgulhosa.
Não tenho tempo para me preocupar com a expressão de opiniões
que, sejam favoráveis ou desfavoráveis, me deixam indiferente. E se

[7)
sofri ou sofro alguma dor ao experimentar a maldade humana, foi e seu redor todo o Universo a girar em poderosos e benéficos círculos
continua sendo pelo fato dessa maldade humana existir, e não pelas de poder defensivo, protetor e perenemente recriador - um poder
ofensas que ela tente me infligir. Pois não tenho um sò momento a que é deles para que o utilizem e controlem - imaginam que todo o
perder entre as meras sombras da vida, que não são a Vida em si Cosmo é produto do mero Acaso cego e despido de inteligência, e
mesma. Viso a glória, não a obscuridade. que a Vida Divina que se agita em seu interior não serve a nenhum
Por isso, se tu, que vagas nas trevas por tu mesmo criadas, dese­ propósito que não o de levã-Ios à Morte! O mais espantoso e deplo­
jares vir para a pequena luz que me conduz, ou preferires afastar-te rável é que essa insensatez, essa blasfêmia, continue prevalecendo, e
de mim e penetrar por inteiro nas mais obscuras profundezas de tua que a humanidade continue a atribuir ao Todo-Poderoso Criador
própria criação, é coisa que não me diz respeito. Não posso obri- menos sabedoria e amor do que ele concedeu a Suas criaturas. Pois a
gar-te a me fazer companhia. O próprio Deus não podería fazê-lo, primeira lição que dá início ao conhecimento é que a Vida é o Ser
pois por sua Lei e Vontade cada alma humana deve moldar seu pró­ essencial de Deus, e que cada resultado inteligente individual da Vi­
prio e eterno futuro. Nenhum mortal pode decidir a felicidade ou a da é tão isento da moite quanto o próprio Deus.
salvação de outro. Eu, como todos que me lêem, estou no “ deserto” , O “ Deserto” é imenso; dentro dele todos nós estamos, alguns va­
mas sei que há maneiras de fazê-lo florescer como a rosa! Mesmo gando perdidos ao longe, alguns acocorados indiferentemente nas
que todo o meu coração e meu amor se derramassem sobre ti, eu não sombras, enfastiados demais para se moverem, outros caminhando
podería ensinar-te o transfigurador encanto Divino —a menos que tu, em preguiçosa indiferença, questionando de quando em vez onde e
igualmente com todo o teu coração e o teu amor, resoluta e irrevo- quando a jornada irá terminar, e alguns poucos descobrindo que não
gavelmente DESEJASSES aprender. se trata de um “ Deseito” mas de um jardim cheio de deleitosas vis­
Não obstante, apesar de tua possível indiferença, tua frequente­ tas e sons, onde cada dia deve ser uma glória e cada noite uma bên­
mente total inércia, não posso deixar-te de lado, usufruindo de paz e ção. Pois quando o véu da mera Aparência é levantado não mais nos
conforto, sem pelo menos oferecer-me para partilhar contigo essa iludimos aceitando o que Parece pelo que É. A Realidade da Vida é
paz e esse conforto. Muitos dos que me lêem são muito tristes, e eu a Felicidade; a Ilusão da Vida, que nós próprios criamos pelo equilí­
preferiría vê-los todos felizes. Seus modos de viver são triviais e in­ brio inadequado e pela imperfeita compreensão de nossos próprios
satisfatórios - seus supostamente “ aprazíveis” vícios os levam a pe­ poderes, necessariamente causa a Tristeza, porque em nossa auto-
nosas e imprevisíveis perplexidades - seus ideais quanto ao que lhes ilusão só vemos a verdade de modo vago, como uma pessoa nascida
parece melhor para seu deleite e progresso estão muito aquém de cega adivinha precariamente a beleza do brilhante dia. Entretanto,
seus sonhos ~ seus divertimentos debilitam seus sentidos demasia­ para a Alma que Se encontrou, não existem mais luzes que confun­
damente fatigados - sua juventude se desfaz como a penugem dos dem nem sombras entre sua própria eternidade e a eternidade de
espinhos ao vento - e passam a vida na febril tentativa de viver sem Deus.
compreender a Vida. Vida, a primeira entre todas as coisas, a essên­ No mundo exterior hã religiões de diferentes espécies, mais ou
cia de todas as coisas - A Vida que é deles para ter e conservar menos adequadas aos vários tipos e raças humanas. A maior parte
e recriar incessantemente em sua própria pessoa - essa jóia preciosa dessas formas de fé evoluíram no cérebro pensante do próprio ho­
que desperdiçam, e que quando foge de sua posse por causa de seus mem, e nada têm de “ divino” . Nas eras mais primitivas quase todos
próprios atos, julgam que tal fim foi necessário e inevitável. Pobres os credos religiosos eram simples métodos para aterrorizar os fracos
e infelizes mortais! Tão auto-suficientes, tão orgulhosos, tão igno­ e ignorantes, e alguns eram tão revoltantes, tão sanguinários e bru­
rantes! Como um tolo selvagem que, ao encontrar um diamante, não tais, que não conseguimos ler a respeito deles sem estremecimentos
sabe a diferença entre ele e um caco de vidro, esses seres que têm ao de repulsa. Não obstante, desde a primeira aurora de sua inteligên­

19]
cia, o homem parece ter sentido a constante necessidade de acreditar riquezas e ãs vantagens puramente materiais deste mundo? És tão
em alguma coisa mais forte e mais duradoura do que ele próprio —e feliz na pobreza como na riqueza, és independente da estima social?
suas primeiras tentativas na busca da verdade o levaram a desenvol­ Estás voltado para os mais elevados ideais de vida e conduta? Não
ver noções desesperadas de algo mais cruel, mais implacável e mais
afirmo que não estejas, apenas pergunto se estás. Se tua resposta é
maléfico do que ele mesmo, ao invés de ideais ligados a alguma coi­
afirmativa, não desmintas tua crença por teus hábitos do dia-a-dia,
sa mais bela, mais justa, mais fiel e amorosa do que ele podería ser.
por teus modos e tuas conversas; pois isso é o que milhares de cris­
O surgimento do cristianismo trouxe consigo o primeiro vislumbre
tãos confessos fazem e disso o clero não estã isento de forma algu­
de que um evangelho de amor e compaixão podería servir melhor as ma.
necessidades do mundo do que um código inexorável de morte e Naturalmente sei bem que não devo esperar tua apreciação, ou
vingança, embora a História nos demonstre que os próprios anais do mesmo tua atenção, em assuntos puramente espirituais. O mundo
cristianismo estão manchados por crimes e pela vergonha do derra­
está demasiadamente em ti, e te toma obstinado em tuas opiniões e
mamento de sangue inocente. Só nos últimos tempos o mundo se
enraizado no preconceito. Não obstante, como já disse, isso não é de
tomou tenuemente consciente da Força real que age por trás e atra­
minha conta. Teus humores não são os meus, e nada tenho a ver com
vés de todas as coisas —a alma do Divino, ou o elemento Psíquico
teus preconceitos. Minha crença eu a tiro da Natureza - a Natureza
que anima e inspira toda a Natureza visível e invisível. Essa alma do
que é justa, invencível e no entanto delicada - a Natureza, que nos
divino, esse elemento Psíquico, entretanto, está quase que totalmente
mostra que a Vida, tal como a conhecemos hoje, neste tempo e neste
ausente dos ensinamentos do credo cristão de hoje, fazendo com que
mundo, é uma bênção tão rica em seus poderes e possibilidades ain­
essa crença perca o seu poder. Aventuro-me a dizer que uma peque­
da por serem utilizados, que se pode dizer honestamente a respeito
na maioria dos milhões de pessoas que prestam culto nas várias mo­
da grande maioria que quase nenhum ser humano chegou sequer a
dalidades da Igreja Cristã real e verdadeiramente acreditam naquilo
aprender como viver.
que publicamente professam. O clero e os leigos igualmente se apre­
Shakespeare, o maior expoente humano da natureza do homem no
sentam com a mancha da pior das hipocrisias - a de chamar o teste­
seu melhor e no seu pior aspecto - o profundo Pensador e Artista
munho de Deus para sua fé, sabendo que não têm fé. Pode alguém
que lidou corajosamente com os fatos do bem e do mal como eles
perguntar como me atrevo a fazer essa afirmação. Atrevo-me porque
realmente são, e não hesitou em compará-los energicamente, sem
sei! Seria impossível para as pessoas deste ou de qualquer outro país
“meias medidas” enganadoras de vício e virtude, as armas prediletas
acreditar honestamente no credo cristão e continuar a viver como vi­
de autores modernos que podemos chamar de “ degenerados", faz
vem. Suas vidas denunciam a mentira da religião que dizem profes­
sar, sendo esse espetáculo diário da vida cotidiana dos governantes, seu Hamlet exclamar:
comerciantes, profissionais, e da sociedade que me faz sentir que o “Que obra é o homem! Quão nobre na razão! Quão infinito em
suas faculdades! Em sua forma e movimento, quão expressivo e ad­
aspecto geral do cristianismo nos dias de hoje é da mais dolorosa e
mirável! Na ação, tão parecido com um anjo! Na apreensão, tão se­
profunda hipocrisia. Tu que lês esta página (possivelmente com in­
melhante a um deus!”
dignação), sem dúvida te chamas cristão. Mas és cristão? Pensas de
Consideremos duas dessas designações em particular: “ quão infi­
verdade que quando a morte chegar ela não será verdadeiramente
nito em suas faculdades!" e “ na apreensão, tão semelhante a um
morte, mas simples transição para uma vida diferente e melhor?
deus!". Essas sentenças são proféticas, como tantas expressões de
Acreditas na real imortalidade de tua alma, e compreendes o que is­
Shakespeare. Elas predizem a verdadeira condição da Alma do Ho­
so significa? Compreendes? Com toda a certeza? Sendo assim, vives
mem quando tiver descoberto suas capacidades. “ Quão infinito em
como alguém que está convencido disso? Es bastante indiferente às
suas faculdades!" significa: capaz de fazer tudo que sua VONTADE

[ 11 ]
determine. Não há limites para o seu poder nenhum obstáculo na ter­ que os dominava e mantinha, Toda a vida e a chamada “morte” de
ra ou no céu que impeça seu resoluto trabalho, nenhuma restrição Cristo foi e continua sendo uma grande lição simbólica para a hu­
quanto aos suprimentos vitais que ele pode utilizar incessantemente. manidade sobre o infinito poder daquele ALGO em nosso interior
“ Na apreensão, tão semelhante a um deus!” ; o termo “apreensão” é que denominamos ALMA - que em nossos dias científicos podería
usado no sentido da obtenção do conhecimento, ou seja, aprender ou ser chamado radiatividade —capaz de uma energia inexauiível e do
“apreender” a sabedoria. Significa, sem dúvida, que se a capacidade ajustamento a variadas condições. A Vida é toda Vida. Não existe a
da Alma de “ apreender” ou aprender o verdadeiro significado e uti­ Morte em sua composição; a compreensão inteligente de seus infi­
lização de cada fato ou circunstância que envolve sua existência fos­ nitos métodos e meios de mudança e expressão é o Segredo do Uni­
se devidamente percebida e aplicada, então a “ Imagem de Deus" verso.
que O inspirou na criação da humanidade, tomar-se-ia a verdadeira Parece ser amplamente generalizada a idéia de que não nos é
semelhança com o Divino. permitido conhecer esse Segredo, que ele é vasto e profundo demais
Como essa poderosa e infinita faculdade da apreensáo é rara­ para nossas limitadas capacidades, e que mesmo que o conhecésse­
mente ou mal compreendida, e como o Homem geralmente concentra mos de nada nos valería, já que estamos aprisionados completamente
todos os seus esforços na busca de necessidades puramente mate­ por certas leis naturais e elementares sobre as quais não temos con­
riais, ignorando completamente e intencionalmente recusando-se a trole. Antigos truismos são repetidos e violentamente reafirmados,
perceber os apelos maiores que são puramente espirituais, ele se ou seja, o de que nossa obrigação é tão-somente nascer, viver, pro-
apresenta com a aparência de um objeto mutilado e imperfeito - uma criar e arranjar as coisas do melhor modo possível para os nossos
criatura que, dotada de membros fortes, se recusa a fazer uso deles, sucessores, e depois morrer, chegar ao fim - um circuito existencial
ou que, possuindo uma incalculável riqueza, loucamente se conside­ nem um pouquinho mais elevado que o de uma lagarta do bicho-da-
ra um miserável. Jesus Cristo, que devemos encarar como uma En­ seda. Será para esse modo de vida, esse propósito vulgar, monótono,
carnação humana do Pensamento Divino, uma resultante e uma ex­ que a humanidade foi dotada com a “ infinita faculdade?” Foi para
pressão do “ Verbo” ou Lei de Deus, veio nos ensinar qual a nossa essas pobres finalidades, como nos conta a lenda sobre o início das
verdadeira posição na escala do grande Propósito Criativo e Pro­ coisas, que fomos feitos para "povoar a terra e subjugá-la?” Existe
gressivo - que nos dias de sua vinda os homens desprezaram e que um grande significado no comando “ Subjugue-a!” A tarefa de cada
mesmo agora se recusam a ouvir. Eles falam com a boca mas não um de nós que alcançou o conhecimento e a posse de sua Alma é a
crêem com o coração que ele ressurgiu dos mortos - e não compre­ de “ subjugar” a terra, isto é, mantê-la com tudo o que ela contém
endem que na realidade ele jamais morreu visto que sua morte (e a sob sujeição, não permitindo que suas forças interiores ou exteriores
de todos aqueles que dominaram a constituição interior e a combina­ submetam a Alma. E possível que alguém diga; “ não compreende­
ção dos elementos) era impossível. Sua verdadeira VIDA não foi mos ainda todas as forças com que temos que lidar, e por isso elas
prejudicada ou afetada pela agonia na Cruz, ou pelos três dias que nos dominam” , Pode até ser assim, mas se assim é, é culpa de quem
passou encerrado na tumba; houve a tortura de seu arcabouço físico, assim fala. É sua própria culpa, digo, pois não há poder, humano ou
que para a limitada percepção dos que o viram “ morrer” conforme divino, que force alguém a permanecer na ignorância. Cada um de
eles pensaram, pareceu a dissolução do Homem em sua totalidade; a nós tem um talismã e uma chave-mestra para abrir todas as portas
outra parte foi meramente o descanso e o silêncio necessários para o fechadas. Nenhuma educação pública poderá fazer por nós o que
que se chamou o “ milagre" da Ressurreição, embora tenha sido podemos fazer por nós próprios, bastando que tenhamos VONTA­
simplesmente o ressurgimento natural do mesmo Corpo, cujos áto­ DE. É por escolha individual que escolhes viver em sujeição à terra,
mos foram reinvestidos e imortalizados pelo imperecível Espírito ao invés de sujeitá-la ao teu domfnio.

[13]
Também te disseram paia "povoar a terra” , além de subjugá-la.
Nos últimos tempos, por uma cupidez tão surpreendente quanto cri­ dores inexperientes dos mistérios do invisível; foi somente por causa
de uma estranha experiência psíquica que me ocorreu quando me
minosa, estás não tanto “ povoando” quanto empobrecendo a tena;
encontrava no portal do que se chama “ vida” que me vi produzindo
pensas por acaso que não serão cobrados juros por tua temerária pi­
o primeiro livro “ Um Romance de Dois Mundos” . Foi um experi­
lhagem? Ledo engano! Queixas-te dos pesados impostos cobrados
mento temerário, resultado direto da iniciação a umas poucas verda­
por teus Governos meramente materiais e efêmeros, e esqueces que
des por trás do véu do Real Aparente. Eu não soube na época por
o Governo Eterno de todos os Mundos exige uma compensação ain­
que havia sido escolhida para aquela “ iniciação” e até agora não o
da mais pesada pelos usos errôneos ou nocivos que fazes deste mun­
sei. Ela surgiu naturalmente de uma série de acontecimentos comuns
do, que foi e continua sendo um lugar de treinamento para o desen­
que poderíam ocorrer com qualquer pessoa. Não fui compelida nem
volvimento e aprimoramento de toda a raça humana, mas que, graças
persuadida; sendo sozinha no mundo e mais ou menos sem amigos,
à cobiça e egoísmo pessoal, com exagerada freqüência é transforma­
não tive oportunidade de pedir conselhos ou ajuda de qualquer pes­
do em simples sepulcro onde se enterram civilizações defeituosas.
soa sobre o curso de vida ou aprendizado que deveria seguir.
No estudo do lado psíquico da vida deve ser clara e precisamente
Aprendí o que aprendi por causa de minha inabalável intenção e
compreendido que existe um Espírito perene vivendo no interior de
DESEJO de ser instruída.
cada um de nós - um Espírito para o qual não existem capacidades
Talvez eu deva explicar o teor da instrução que me foi gradativa­
limitadas nem ambiente desfavorável. Sua capacidade é tão infinita
mente transmitida na justa medida e proporção de minha capacidade
quanto Deus e seu ambiente é sempre realizado por ele. Ele é o seu
de recebê-la. A primeira coisa a me ser ensinada foi como levar cada
próprio Céu; uma vez que se estabeleça naquele centro etemo, irra­
sentido e sensação a uma intima união com o espirito da Natureza.
dia-se do Interior para o Exterior, criando assim o seu ambiente, não
Aprendi que a Natureza é o reflexo da mente operativa do Criador, e
só agora mas sempre. Ele é sua própria Vida; no ativo trabalho de qualquer oposição a essa mente operativa por paite de qualquer or­
perpetuamente regenerar e recriar a si mesmo, nada sabe da Morte.
ganismo vivo que Ele tenha criado não produz outro resultado senão
* * * o desastre. Seguindo essa linha de estudo, uma maravilhosa paisa­
gem de perpétua revelação foi aberta aos meus olhos. Vi como a
Devo agora solicitar a indulgência daqueles entre meus leitores humanidade, movida pelo mais grosseiro egoísmo, em todas as eras,
que possuem o raro dom da paciência, para tudo que possa parecer
determinou leis e comportamentos morais para si que eram o próprio
pessoa] demais na declaração que se segue e que julgo quase impres­ reverso do ensinamento natural; vi como, ao invés de auxiliar a roda
cindível fazer sobre o assunto do meu próprio credo “ psíquico” . do progresso e da sabedoria a mover-se para diante, o homem in­
Perguntam-me com tanta freqüência se creio nisto ou naquilo, se sou verte esse movimento com sua teimosia, e a faz girar para o lado
“ ortodoxa” , cética, materialista ou agnóstica, que decidi tentar es­ contrário exatamente no ponto da grande consecução, e fui capaz de
clarecer as coisas, se possível, entre minha pessoa e esses questio- perceber como a tristeza e o desespero do mundo são causados por
nadores. Portanto devo dizer de imediato que minha crença em Deus um simples fato: o Homem agindo contra a Natureza, enquanto ela,
e na imortalidade da Alma é absoluta, mas que não alcancei essa fé sempre divina e invencível, segue o curso determinado por Deus,
sem um duro treinamento e amargo sofrimento. Não falarei disso, varrendo seus frágeis oponentes para os lados e executando sua in­
visto já ser passado. Comecei a escrever muito jovem e ignorante flexível vontade até o fim. Aprendi o quanto é verdadeiro que, se o
das coisas mundanas; era entusiasta demais e estava muito empolga­ homem seguisse com ela e não contra ela, não havería mais inter­
da pelo esplendor e pela beleza do ideal espiritual para me dar conta pretações errôneas das leis do Universo, e que onde agora sô existe
da inevitável zombaria e desprezo que costumam cair sobre explora­ discórdia tudo seria divina harmonia.
[14J [151
Meu primeiro livro “ Um Romance de Dois Mundos” foi uma diatividade da Alma gera em si mesma e de si mesma não pode mor­
tentativa ansiosa, embora imatura, de explicar e expressar algo do rer jamais. Ou, conforme escreví no “ Romance de Dois Mundos":
que eu havia estudado desses assuntos, embora, como já foi dito, “como todas as chamas, essa centelha elétrica (ou radiante) pode ser
minha mente estivesse ainda malformada e imatura, não me permi­ atiçada e transformada em fogo, ou pode escapar como um tipo de ar
tindo revelar mais do que um vislumbre da luz que eu começava a - não pode ser destruída jam ais” . Outra passagem do mesmo livro:
perceber. Minha própria provação, que estava destinada a ser severa, “ todas as maravilhas da Natureza são o resultado da luz e do calor
tinha apenas começado; limites rígidos me foram impostos por um exclusivamente” . Já por volta de 1526 Paracelso fazia uma menção
certo tempo. Fui proibida, por exemplo, de escrever a respeito do velada à mesma substância ou qualidade, descrevendo-a da seguinte
radium, aquela maravilhosa “descoberta” recente, embora fosse per- maneira: “ quanto mais ela tenha o humor da vida, mais abundante o
feitamente conhecido (e o tinha sido por um longo período) por espírito da vida ali se apresenta” . Isso embora essa força radiativa
meus instrutores, que possuíam todos os meios de extrair do radium vital não tenha nenhum nome adequado. Para a ciência materialista,
substâncias ainda nem sonhadas pelos cientistas do futuro. Só me foi o radium ou cloreto de radium é um minúsculo cristal salino, tão ra­
permitido fazer alusões a ele sob o disfarce do termo "Eletricidade"; ro e dispendioso de obter que seu preço pode ser estimado em três
isso, afinal, não era um erro, já que a força elétrica se apresenta sob mil vezes mais do que o preço de mercado do ouro. Mas quanto à
incontáveis milhões de formas. Minha “Teoria Elétrica do Univer­ ação do radium puro, o conhecimento dos estudantes comuns de
so” , no “ Romance de Dois Mundos” precedeu a declaração do ciência é nulo. Eles sabem que uma centelha infinitamente pequena
cientista que escreveu o seguinte no “ Hibbert Journal” de janeiro de de sal de radium emitirá luz e calor continuamente sem qualquer
1905: “ nos últimos anos vimos o raiar de uma revolução na ciência combustão ou mudança em sua estrutura. Cito aqui uma passagem de
tão grande quanto o foi na esfera da religião a derrubada dos múlti­ uma palestra dada por um de nossos proeminentes cientistas em
plos deuses e a coroação do Único. A matéria, tal como a entendía­ 1904. “ Foram detectados detalhes sobre o comportamento de diver­
mos, não existe, nem é provável a existência do átomo individual. sos corpos radiativos, como, por exemplo, que sua atividade não era
Os chamados átomos são sistemas de corpúsculos eletrônicos, man­ constante; ela crescia gradativamente em potência, mas a parte
tidos coesos por suas forças mútuas com tanta firmeza que nenhuma acrescentada da atividade podia ser dissipada, e a parte dissipada
força humana poderia separá-los, como acontece na composição retinha sua atividade só por algum tempo. Ela decaía em poucos
elétrica, da qual difere apenas no ritmo de seus movimentos. A ele­ dias ou semanas, enquanto que o radium novamente aumentava em
tricidade é todas as coisas, e todas as coisas são elétricas" . potência na mesma proporção em que a outra parte decaía. Isso
Esse fo i precisamente o ensinamento do primeiro livro que escre­ continuamente. Era como se uma nova form a de matéria estivesse
ví. Naturalmente fui ridicularizada; disseram-me que não havia força sendo constantemente produzida, e como se a radiatividade fosse
“espiritual” na eletricidade. Discordo desse ponto de vista, mas uma concomitante da mudatiça deform a. Também se descobriu que
“ radiatividade” talvez seja um termo melhor, por ser o mais verda­ o radium continuava produzindo calor de novo de modo a manter-se
deiro para descrever o Germe ou Embrião da Alma pois - conforme sempre um pouquinho acima da temperatura ambiente; ele também
os cientistas comprovaram - “ O radium é capaz de absorver dos produzia eletricidade espontaneamente” .
corpos próximos uma form a desconhecida de energia que ele pode Isso não ensina nenhuma lição sobre a ressurreição dos mor­
evidenciar como luz e calor” . Isso é exatamente o que a alma indi­ tos? Sobre a “parte disseminada” que decai em poucos dias ou se­
vidual de cada ser humano individual deve fazer - absorver uma manas? Sobre os “ raios” ou “ radiância” da Alma, elevando-se
“forma desconhecida de energia que ela pode evidenciar como luz e novamente em potência na mesma proporção com que a outra par­
calor” . Luz e Calor são a composição da Vida; e a Vida que a ra­ te (o Corpo ou “parte acrescentada da atividade” ) decai? Sobre

[171
a "nova forma de matéria” e a “radiatividade como concomitante da derações puramente egoístas relativas ao seu progresso privado e
"mudança deform a?" Nisso a Ciência não comprova quase que in­ particular; pelo tom de suas cartas mostraram não só uma espantosa
conscientemente as palavras de São Paulo: “ um corpo natural é hipocrisia mas também a boa opinião que tinham a respeito de suas
plantado; e eleva-se um corpo espiritual?” Há um corpo natural, há próprias capacidades, sua grande intelectualidade, esquecendo-se
um corpo espiritual? Nada há de impossível ou “milagroso” nessa das palavras: “ a não ser que vos tomeis como as criancinhas, não
consumação, mesmo de acordo com a moderna ciência materialista; entrareis no Reino dos Céus” .
trata-se simplesmente da ação natural da radiatividade pura ou da­ O espírito de uma criancinha é receptivo e confiante. Não deseja
quela composição etérea para a qual não temos nome, mas que cha­ argumentos, confía instintivamente em que não será levado a difi­
mamos vagamente a ALMA há incontáveis eras. culdades ou perigos desnecessários por seus responsáveis. É com es­
Para milhões de pessoas a expressão “ Alma” se tomou familiar se espírito, caso sejamos sinceros em nossa busca de conhecimento,
demais pela repetição constante, e transmite pouco mais do que a que devemos abordar os mistérios psicológicos mais profundos da
sugestão de um mito, ou a alusão a uma Existência Imaginária. Mas Natureza. Enquanto interpusermos as trevas da dúvida e do precon­
nada existe em todo o Universo que seja tão real quanto o Germe ceito pessoal entre nós e a Luz Eterna, nenhum progresso será feito,
Vital da verdadeira Forma e Ser da Criatura vívente, radiosa e ativa e toda tentativa de penetrar no Santo dos Santos será rechaçada pela
dentro de cada um de nòs —a criatura que, imprimida e guiada por “Espada flamejante” que hoje, como no início, se volta para todos
nosso Livre-arbítrio, engendra seu próprio gozo ou desgraça. A os lados em defesa da Árvore da Vida.
VONTADE de cada homem ou mulher é como a bússola de um na­ Sabendo disso, e percebendo que o Eu era o impedimento para a
vio: para onde ela aponta se dirige o barco. Se a agulha apontar para maioria de meus correspondentes, senti-me ansiosa por escrever ou­
os rochedos, haverá naufrágio e desastre; se apontar para o mar tro livro ¡mediatamente, também na forma de romance, paia que ser­
aberto, haverá uma navegação tranquila. Deus deixa a VONTADE visse como uma pequena lamparina de amor com a ajuda da qual
do homem perfeitamente livre. Seu Amor Divino não restringe nem meus leitores pudessem descobrir por acaso o verdadeiro caráter do
compele. Nòs próprios devemos aprender o que é Certo e Errado, obstáculo que fechava o seu caminho ao progresso inteligente da
e tendo aprendido, devemos fazer a escolha. Ferimos a Nós Mesmos; Alma. Entretanto, o editor que eu tinha na época (o falecido Sr.
mas Deus não nos ferirá. Nós atraímos e convidamos nossas próprias George Bentley) assegurou-me que se eu escrevesse outro livro “es­
misérias. Deus não as impõe. Os males e tristezas que afligem a hu­ piritualista” perdería a atenção do público que acabara de conquis­
manidade são sua própria criação. Mesmo nas catástrofes naturais tar. Não sei por que ele formou essa opinião, mas considerando que
que arruinam cidades e devastam países, devemos lembrar que a era um amigo pessoal de grande bondade que tinha muito interesse
Natureza, a expressão material da mente de Deus, não tolerará por por minha carreira, jamais entregando um manuscrito meu a um de
longo tempo o fardo da iniquidade humana. A Natureza destrói o seus “ leitores” profissionais, lendo-os ele mesmo, senti que me ca­
que está putrefato; ela o cobre com terra limpa na qual coisas mais bia aceitar seu conselho que só podería ter as melhores intenções em
saudáveis possam crescer. relação a mim, que era uma jovem principiante. Para agradá-lo,
Tentei transmitir um pouco dessas verdades em meu “ Romance portanto, e agradar o público ao qual ele me havia apresentado, es­
de Dois Mundos” . Uns poucos prestaram atenção; outros me escre­ creví algo muito diferente, um conto melodramático intitulado:
veram de todas as partes do mundo sobre o que consideraram meus “ Vendetta: A História de um Esquecido” . O livro causou uma certa
“pontos de vista” sobre o assunto tratado; alguns me pediram para sensação e o Sr. Bentley pediu-me que tentasse escrever uma “histó­
ser “iniciados” em minha “ experiência” do Invisível, mas muitos de ria de amor, pur et simple (cito as palavras de sua carta). O resulta­
,neus correspondentes (digo-o com pesar) foram movidos por consi­ do foi meu livro “Thelma” que teve grande sucesso entre a maioria

[18] [19]
i
dos leitores. Então considerei-me livre para penetrar uma vez mais
no campo que meu estudo das forças psíquicas me convencera ser de que eu havia derrotado o famoso “ Vathek” de Beckford em seu
proeminente importância. Levada por uma forte convicção de que próprio campo.
muitos homens e mulheres são impedidos de alcançar a plenitude de Seja qual possa ser agora o consenso a respeito de seus méritos e
sua herança de vida pela obstinada oposição de seu Eu puramente deméritos, sei e sinto que foi uma de minhas melhores tentativas,
embora não tenha sido favorecido pela maioria. O livro não trata de
material, esctevi “ Ardath: A História de um Eu Morto” . O enredo
nada que seja apenas “do momento" pois são poucos os que podem
desse livro foi parcialmente sugerido pelas seguintes passagens do
ou desejam compreender que se uma Alma humana está tão esqueci­
Segundo Livro Apócrifo de Esdras:
da de sua mais elevada origem a ponto de se agarrar exclusivamente
“ Vai a um campo de flores onde nenhuma casa esteja construfda. a seu Eu humano (como o herói de Ardath se agarra à sombra de seu
E ora continuamente ao Mais Alto, então virei e falarei contigo” . Eu Anterior e às imagens ilusórias dos prazeres, vícios e vaidades
Então seguí para o campo chamado Ardath, como ele me havia or­ desse Eu Anterior) então o caminho para o eterno Progresso Feliz
denado, e ali me sentei entre as flores. está impedido. Há ainda uma outra intenção nesse livro que passa
Naquele campo o Profeta tem a visão de uma mulher. despercebida ao leitor casual - o de que cada alma humana é o ger­
“ E aconteceu que enquanto eu falava com ela, eis que seu rosto me de uma existência espiritual individual e separada. Assim como
repentinamente brilhou fortemente e suas feições reluziram, e tive não há duas folhas exatamente iguais numa mesma árvore, e não há
medo dela, pensando em que poderia ser aquilo. Olhei, e eis que a duas folhas de grama idênticas, não há duas almas iguais; cada uma
mulher não estava mais ali, mas havia uma cidade construída e um é totalmente diferente, dotada com dons e capacidades próprias. A
extenso lugar se mostrava desde as fundações.” Natureza material insiste muito na individualidade. E por quê? Por­
Nessas palavras construí a trama de minha própria “Cidade do que a Natureza material é simplesmente o reflexo ou espelho da in­
Sonho” e busquei elucidar alguns significados do grande texto do dividualidade ainda mais insistente da forma psíquica. Ora, a forma
Eclesiastes que contém toda a sabedoria das eras: “ o que foi feito é psíquica ¿ gerada de uma substância divina, divinamente eterna -
o que permanece; as coisas que não hão de ser, já foram; e Deus re­ Um “raio” ou emanação do próprio Ser de Deus que, ao progredir
nova aquilo que passou” . por incontáveis eternidades de vitalidade constantemente renovada,
O livro, entretanto, disse-me meu editor o Sr. Bentley, numa série toma-se cada vez mais poderosa, mudando frequentemente a forma
de cartas que ainda guardo comigo, e que demonstram o quanto ele mas nunca sua perene composição e qualidade. Por consequência,
se interessava pelo meu trabalho, tinha “passado em brancas nuvens todas as experiências da “ Alma” ou forma psíquica, desde sua en­
para o público em geral” . Sua opinião estava correta, sem dúvida, trada na consciência ativa, seja neste ou em outros mundos, são
pois “ Ardath” continua sendo o menos “ popular” dos livros que es­ atraídas para ela por sua volição inerente, e trabalham juntas para
creví. Apesar disso, ele me propiciou o inesperado e generoso lou­ tomá-la o que é agora e o que será futuramente.
vor do Poeta Laureado Alfred Lord Tennyson, e também a igual­ É isso que “ Ardath: A História de um Eu Morto” tenta explicar, e
mente inesperada opinião favorável e amizade pessoal do famoso nada tenho a retratar do que escreví em suas páginas. Em seu ensi­
namento experimental é a sequência natural e intencional do “ Ro­
estadista William Ewart Gladstone; também muitos dos jornais literá­
mance de Dois Mundos” e pretendeu assessorar os estudos dos
rios de alta classe concordaram entre si ao me brindarem com elo­
muitos que me escreveram pedindo ajuda. A despeito do fato de que
gios quase entusiásticos.
algumas daquelas pessoas, devido a uma incapacidade inerente para
Autoridades como o “ Athenaeum” e o ‘Spectator” elogiaram a o pensamento concentrado sobre qualquer assunto, o terem julgado
concepção e o estilo de meu livro, este último indo ao ponto de dizer muito “difícil” para uma leitura casual, conforme disseram sua acei­

[ 20)
tação foi suficientemente animadora para me decidir a continuar da linguagem; acima de tudo, sinto que o livro é resultado genuíno
tentando chamar a atenção do público para as teorías que ali foram de uma fé fervorosa tão rara nos dias de hoje, mas tem seu efeito so­
inseridas. A “ Alma de Lilith” foi, então, meu empreendimento se­ bre a mentalidade do público” . Entretanto, quando foi intimado a
guinte, um terceiro elo da corrente com a qual eu tentava ligar o pe­ opinar sobre um determinado ponto da discussão, ele não pôde negar
recível materialismo de nossas concepções comuns sobre a vida com que o “efeito na mentalidade do público” causado pela encenação
a imorredoura qualidade espiritual da vida como verdadeiramente é. da Paixão em Ober-Ammergau é em geral impressionante e valioso,
Nesse campo retratei o completo fracasso que é o inevitável resulta­ e foi obrigado a admitir que havia algum mérito na introdução de
do do preconceito e do orgulho intelectual do homem quando estuda personagens divinas nos romances épicos de Milton e Dante. O que
os maravilhosos mistérios do que eu chamaria de mundo Ulterior, o pudesse ser escrito em versos poéticos, entretanto, lhe parecia ina­
que equivale à “ Alma” do mundo que se oculta profundamente por dequado em prosa poética, e não desperdicei minhas palavras com
trás da Aparência exterior, e como é impossível e deve ser que qual­ discussões, pois eu sabia que havia chegado a hora de tomarmos ru­
quer “ Alma" se manifeste visivelmente onde existe um vínculo in­ mos diferentes, Procurei meu atual editor, o Sr. Methuen que, tendo
devido com o corpo. A publicação do livro foi uma experiência inte­ conhecimento de que eu tinha conquistado uma certa reputação do
ressante. Ele foi e continua a ser ainda menos “ popular” do que ponto de vista comercial, aceitou publicar “ Barrabás” sem maiores
“ Ardath” , mas foi alegremente recebido por uma minoria distinta­ argumentações. O livro teve um sucesso quase sem precedentes, não
mente culta de pessoas famosas no campo da arte, da ciência e da sô neste país como em todo o mundo. Em poucos meses ele foi tra­
literatura, e cuja boa opinião vale a pena receber, Fiquei perfeita- duzido para todas as línguas conhecidas da Europa, inclusive o gre­
mente satisfeita com essa recompensa, mas meu editor não ficou fe­ go moderno, e provavelmente nenhum país teve tanto interesse pela
liz com tanta facilidade. Ele queria algo que “ vendesse” mais. Para obra quanto a índia, onde foi publicado em industanês, gujarati e vá­
aliviar sua impaciência escrevi uma novela mais ou menos “ sensa­ rios outros dialetos orientais. Esse notável triunfo foi alcançado ape­
cional” que falava dos bebedores de absinto de Paris, chamado “ Ca­ sar da saraivada de injúrias que a imprensa atirou contra mim - um
runcho" e que a seu modo prestou um bom serviço ajudando a ataque que eu, pessoalmente, julguei bem-vindo e refrescante, pois
chamar a atenção do público para a devastação causada pelo uso da­ limpou o ar e o caminho para que eu melhor viajasse por ele. Ele me
quela droga perniciosa entre os franceses e outros povos do conti­ liberou de uma vez por todas do embaraço das obrigações em que se
nente europeu; depois disso, sentindo um impulso forte e quase im­ incorre em caso de louvores, permitindo-me firmar meus pés no solo
perativo para o objetivo particular para o qual estava voltada minha da completa independência que para mim (e para todos que buscam
mente, comecei a trabalhar de novo, com renovado vigor, em minha o que eu encontrei) é uma necessidade inalienável. Como escreve
própria e longamente estudada linha de pensamento, indiferente a Thomas à Kempis: “pois aquele que não deseja agradar aos homens
editores e público. Tomada pelo fervor de uma fé apaixonada e nem teme desagradá-los, gozará de muita paz” . Recebi minha liber­
comprovada, escrevi “ Barrabás: Um Sonho da Tragédia do Mundo” dade com gratidão, e desde aquele tempo de ataques injustos e mal
- isso representou um sinal para minha separação de meu excelente considerados de pessoas que tinham a mente maligna demais para ao
e antigo amigo George Bentley, que não teve coragem de publicar menos ler o trabalho que em vão tentaram destruir, tenho ficado ale­
um romance poético que apresentava, ainda que com uma indizfvel gremente indiferente aos chamados “críticos” , e imune a qualquer
ternura e reverência no que se refere às minhas intenções, a Crucifi­ tentativa de interromper meu progresso ou fazer-me voltar as costas
cação e Ressurreição de Cristo. Ele me escreveu dando sua opinião ao caminho que escolhi. Desde então reconhecí que ninguém pode­
nos seguintes (ermos: “posso conscientemente louvar a força e o ría me atrapalhar ou opor-se a mim a não ser eu mesma, e que eu ti­
sentimento que você exibe com seu vasto projeto, e o fluxo e beleza nha, pela graça de Deus, o poder de fazer o meu destino. A “ Barra-

[ 22 ] [23]
bás” seguiu-se, tão logo quanto possível, o livro “ As Tristezas de tudo que possuis de bens ou vantagens materiais, se desvanece como
Satã” , que realizou a intenção preconcebida que eu sempre tivera de a fumaça sem nada deixar para trás, quando o mundo parecerá nada
retratar primeiro o martírio que costuma ser a recompensa mundana mais que um pontinho que some na distância e do qual terás que cair
do Bem Absoluto, e segundo, a terrível, inimaginável tortura que no Desconhecido; é quando o “temor de alguma coisa depois da
deve ser, pela Lei Divina, o quinhão eterno do Mal Absoluto. morte, o país desconhecido de onde nenhum viajante retoma", intri­
Os dois livros disseminaram sua mensagem a grande distância ga a vontade” . Atualmente vive entre nós um grande cientista, o
com espantoso sucesso e rapidez, e então eu juntei os fios de tramas Dr. Oliver Lodge, que, vagando entre infinidades intricadas, con­
anteriores no “ Master Christian” onde retratei Cristo criança, visi­ cebe ser possível a comunicação com espíritos desencarnados, en­
tando o mundo como é hoje e observando amargurado a maldade quanto que eu, que não disponho da mesma autoridade e erudição
que os homens praticam em seu nome. Esse livro foi adquirido por mundana como lastro, afirmo que tal coisa está fora da lei natural e
milhares de leitores em todos os países do mundo com uma surpre­ portanto não pode acontecer. A Natureza pode revelar, e revela,
endente avidez que provou como era profunda a ânsia por uma ex­ muitos mistérios que parecem sobrenaturais, mas que são apenas
posição clara de fé que pudesse consolar e ao mesmo tempo orientar; manifestações do centro mais profundo do natural mais puro; nada
após sua publicação decidi deixar que o livro seguisse seu próprio e pode alterar a Lei Divina ou modificar o sistema que vem gover­
não interrompido curso por algum tempo, e mudar minha linha de nando o Universo desde o início. Por essa Lei Divina e esse sistema
trabalho para temas mais leves, para evitar estereótipos como “espi­ divino cabe-nos aprender que os chamados “ mortos” não estão
ritualista” ou “ teosofista” , termos que se tomaram motivo de des­ mortos - apenas foram removidos para uma vida nova e novas esfe­
prezo por causa de malandros. Brinquei então com minha pena, e fiz ras de ação, em circunstâncias que não permitem qualquer comuni­
o melhor que pude para entreter o público com histórias de amor e cação conosco a menos que novamente assumam a forma e a exis­
do viver diário, do tipo que os menos instruídos pudessem compre­ tência humanas. Nesse caso (que ocorre com frequência) não só pre­
ender, e se agora aludo ao lado psicológico de minha obra é apenas cisamos de tempo para reconhecê-los, como também isso exige uma
para explicar que esses seis livros: “Romance de Dois Mundos” , certa receptividade instintiva de nossa parte, ou a vontade de reco­
“Ardath: A História de um Eu Morto” , “ A Alma de Lilith” , “Bar­ nhecê-los.
rabás” , “ As Tristezas de Satã” e o “ Master Chirstian” são o resul­ O próprio Salvador ressuscitado não foi de início reconhecido
tado de um plano e uma intenção deliberadamente concebidos e que pelos seus próprios discípulos. Por ter praticamente me convencido
todos eles estão ligados por uma única teoria. Eles não foram es­ dessa verdade e por ter aprendido que a vida não é e nunca poderá
critos somente como peças de ficçlo pelas quais eu, a autora, sou ser a morte, e sim uma constante mudança e reinvestidura do Espí­
paga pelo editor, e com as quais tu, o leitor, és temporariamente en- rito na Forma, tive a presunção de falar de minha própria fé e expe­
tretído; eles são o produto daquilo que eu mesma aprendí, pratiquei riência - um toque “pessoal” pelo qual prontamente peço desculpas,
e comprovei nas pequenas e grandes experiências da vida diária. sabendo que o mesmo pode não ser do interesse da maioria que nun­
Talvez digas, provavelmente dirás: “o que isso tem a ver comigo? ca se preocupou em modelar suas vidas do modo que modelo a mi­
Pouco me importo com suas “experiências” - elas são transcenden­ nha. Entretanto, se houver uma ou duas pessoas em um milhão que
tais e absurdas - elas me aborrecem mortalmente” . Não obstante, sintam o mesmo que eu, que a vida e o amor pouco valem se devem
por mais empedernido que sejas ou possas ser, deve chegar a oca­ terminar em obscuro nada, essas talvez tenham paciência para me
sião de te sentires prisioneiro da dor e da tristeza, um momento em acompanhar ao longo das páginas de uma narrativa que não é “ inci­
que o que chamas “morte” estará à tua frente, quando verás que tu­ dental” nem “ sensacional” nem coisa alguma que esteja ligada com
do que pensaste, desejaste ou planejaste para o teu prazer pessoal, e o moderno “ romance" ou “ novela", e que foi escrita porque isso me

[24]
foi imposto com uma insistência que tomou impossível qualquer ne­ Ainda assim, como ele pessoalmente assevera pela boca da mo­
gativa. derna ciência, o homem não tem qualquer importância. O pequeno
* * * planeta onde ele vive, pelo que dizem todas as aparências, continua­
ria a mover-se em sua órbita da mesma forma, sem ele. E um mundo
Talvez haja pelo menos um entre os leitores deste livro que estará anão comparado com o resto do sistema solar do qual faz parte. Não
suficientemente interessado no psíquico —significando o lado imor­ obstante, não podemos negar o fato de que seu ambiente material
tal e, portanto, o único lado real da vida, para dar um pouco de tem uma qualidade que tende a impressionar ou iludir o Homem com
atenção concentrada a esta obra. É para esse leitor que me dirijo, di­ um senso de seu próprio valor. O mundo é sua concha que ele abre
zendo: para começar, estás disposto a deixar de parte o fardo das com o punhal da iniciativa, e todos os seus instintos o impelem a
opiniões preconcebidas e dos preconceitos, sejam quais forem? Dei­ perpetuar-se de um modo ou outro, incessantemente, sem restrições.
xarás de lado os pequenos cuidados e bagatelas que afetam tua per­ Por quê? Por que sua existência é considerada necessária? Por que
sonalidade material? Poderás desligar-te de teu ambiente particular ele não deixa de existir? As árvores continuariam a crescer, as flores
por algum tempo, concordando em PENSAR comigo? Sei que pen­ a desabrochar, os pássaros a cantar; os peixes continuariam a nadar
sar é a mais árdua de todas as tarefas para a mente moderna. Mas se nos rios e mares, os insetos e as tribos dos animais do campo e da
queres aprender, deves enfrentar essa dificuldade. Se queres encon­ floresta continuariam a gozar a vida sem serem molestados, e o
trar a senda que é abrilhantada pela imperecível radiancia do verão grande Sol brilharia da mesma forma, surgindo na aurora, desaparè-
da alma, não deves medir o tempo. Se eu tento, por mais inadequa- cendo ao anoitecer com inquebrantável exatidão e regularidade, se o
damente que o faça, mostrar-te alguma coisa do poder místico que Homem não mais existisse. Por que teriam as formidáveis forças da
representa a felicidade, não feches os olhos por zombaria ou indo­ Evolução aberto sua trilha ao longo dos ciclos da criação para pro­
lência diante do menor raio de luz que atravesse tuas trevas e que duzir um prodígio tão infinitamente pequeno?
possa te ajudar a deslindar o segredo. Enquanto esta pergunta não estiver respondida, a vida parecerá
Novamente pergunto: queres PENSAR comigo? Por exemplo, no mínimo vaga e insatisfatória. Sobre todas as coisas continuará
pensarás na Vida? O que é? Na Morte? O que ela é? Qual o princi­ pairando a sombra da morte, tomada ainda mais lúgubre pela con­
pal objetivo de Viver? Qual é o problema resolvido pelo Morrer? To­ templação desesperançada. A Criação continuará parecendo uma
das essas perguntas devem ter uma resposta, pois nada existe sem farsa cruel, por meio da qual os povos e civilizações surgem apenas
um significado, e nada FOI ou virá a SER sem um propósito. para serem destruídos sem deixar vestígios. Todo o trabalho se toma
Neste mundo, ao que parece, e de acordo com nosso conhecimen­ fútil, toda educação vã, toda esperança sem sentido. Somente quan­
to superficial de todos os fenômenos físicos e mentais, pode parecer do homens e mulheres aprenderem que suas vidas não são infinita­
que a principal fimção da humanidade é recriar-se continuamente. O mente pequenas mas infinitas, que cada um deles possui em seu inte­
homem existe - em sua própria opinião - apenas para perpetuar o rior uma Força, Um Ser, uma Forma individual consciente que, com
Homem. Todas as maravilhas da terra, do ar, da água e do fogo, to­ sua energia radiativa, atrai e acomoda para seu uso tudo que é ne­
do o sustento tirado do prolífico seio da Natureza, todo o progresso cessário para a consecução de seus anseios, sejam eles o de conti­
de incontáveis civilizações que se repetem em ordem processional, nuar a vida neste planeta ou partir para outras esferas; só então fica­
todas as ciências novas e antigas, existem apenas para nutrir, sus­ rá claramente entendido que a Natureza toda é súdita e serva de sua
tentar, instruir, entreter e fornecer alimento e ocupação para o mi­ Energia Radiante - que é, em Si Mesma, a “ imagem” ou emanação
núsculo duende de duas pernas, gerado (pelo que ele mesmo afirma) de Deus, e que assim sendo ela tem um papel eterno a desempenhar
com gás e átomos. no perene movimento em direção ao Mais Alto Eterno.

(27)
Deixo as páginas que se seguem à consideração atenta ou indife­ primeiro raiar da Criação, uma civilização imperfeita é constituída e
rente de meus leitores. Para mim, conforme já declarei, as opiniões depois forçada a reverter seus próprios passos, tendo que recomeçar
externas não têm importância. Falando por mim, eu talvez preferisse desde as primeiras letras o seu aprendizado. Da mesma forma, uma
expor os incidentes narrados no “ romance” na forma de ensaios se­ Alma defeituosa, um Espírito individual imperfeito, é igualmente
parados sobre a natureza da experiência e instrução mística que al­ compelido a voltar para a escola e retomar o estudo das lições que
guns de nós temos a coragem de enfrentar com sucesso neste mundo não conseguiu pôr em prática, Não obstante, as pessoas não supor­
do dia-a-dia, mas sei que as massas que andam à deriva, inquietas, tam que essas coisas sejam ditas ou escritas, pois foi dito e escrito
de um lugar para outro de nosso planeta, sempre buscando conforto muitas e muitas vezes desde o começo do mundo que todo governo
em variadas formas de religião, raramente encontrando o que procu­ corrupto, toda a guerra, escravidão, praga, doença e desespero que
ram, não escutarão qualquer verdade espiritual a menos que ela lhes afligem a humanidade provêm de seus próprios pecados e vinga-se
seja transmitida na forma de uma “história”, como se fossem crian­ dos pecadores “até a terceira e quarta gerações” . Isso não é assim
ças. Não sou a heroína do romance, embora eu conte a história (mais por uma crueldade Divina, mas porque a Lei Divina desde o início
ou menos como me foi contada) na primeira pessoa do singular, por­ ordenou que o Mal se matasse a si mesmo, deixando lugar apenas
que essa forma me pareceu mais simples e direta. Ela, para quem a para o Bem. As pessoas —homens e mulheres igualmente —não su­
perfeita compreensão da felicidade chegou junto com a posse igual­ portarão ler qualquer livro que chame sua atenção para este fato
mente perfeita do amor, é uma entre as poucas pessoas que procuram inalterável. Elas dirão que o autor é “ arrogante” ou que “ presume-
o que ela encontrou. Muitos dos maiores místicos e filósofos do se um fazedor de leis” , e confessam-se escandalizadas por um con­
mundo tentaram alcançar o prêmio que ela conseguiu - pois o mun­ fronto com a honestidade. Apesar disso, o escritor fiel que fala das
do possui Platão, a Bíblia e Cristo, mas em suas maneiras atuais de coisas como elas São não se deixa perturbar pelo aspecto das coisas
viver aprendeu pouco ou nada desses três, por isso outros prováveis como elas Parecem ser.
instrutores podem muito bem desistir de tentar utilizar seu poder de O Espírito —a Essência criativa de tudo que existe - trabalha de
persuasão onde predecessores tão formidáveis aparentemente fracas­ diferentes modos mas sempre num plano ascendente, e invariavel­
saram. Hoje em dia as coisas sérias e reais da vida são objeto de mente rejeita e destrói tudo que ameace interromper esse progresso
menosprezo mais que de deferência; também existe uma maioria que para o alto. Sendo em Si Mesmo o fluxo Radioso da Mente de Deus,
infeliz e alarmantemente está em crescimento, formada por pessoas é a VIDA do Universo. E muito necessário compreender e lembrar
de mente fraca e degenerada, nascidas de pais alcoólatras, doentes que nada existe que mereça ser adequadamente chamado sobrenatu­
ou viciados que são mentalmente incapazes para as formas mais ele­ ral ou acima da Natureza, tendo em vista que esse Eterno Espírito
vadas de estudo, e para quem o simples ato da concentração mental de Energia está em toda a Natureza. Assim sendo, o que para a
seria perigoso e capaz de prejudicar totalmente seu equilíbrio; en­ mente comum parece milagroso ou impossível, é na realidade normal
quanto isso, metade ou mais da comunidade social procura evitar a e só parece extraordinário por causa da falta de conhecimento e ex­
consideração de qualquer coisa que não se encaixe adequadamente a periência das mentes medíocres. A Fonte da Juventude e o Elixir da
suas preferências. Algumas de nossas instituições sociais mais res­ Longa Vida foram sonhos de antigos místicos e cientistas, mas já
peitadas nada mais são que opositoras inconscientes e obstinadas da não são sonhos. Para a Alma que os encontrou, são Realidades Di­
Lei da Natureza que é a Lei de Deus; assim, ocorre frequentemente vinas.
que, quando a humanidade obstinada persiste em considerar suas MARIE CORELLI
próprias idéias sobre Certo e Errado superiores aos Decretos Eternos
que têm sido visivelmente apresentados em toda a Natureza desde o

[28]
I

A HEROÍNA INICIA SUA HISTÓRIA

É sempre difícil escrever ou falar de circunstâncias que embora


estejam em perfeita harmonia com a Natureza parecem estar afasta­
das das ocorrências naturais. Além da incredulidade com que é rece­
bida a narração desse tipo de incidentes, a simples idéia de que uma
criatura humana tenha sorte bastante para assegurar certas vantagens
que outros, por sua própria indolência ou indiferença, deixaram pas­
sar, basta para despertar a inveja dos fracos ou a ira dos ignorantes.
Está implícito que em toda crítica o objeto da mesma deve estar
' 'Não existe Morte, abaixo de quem critica, nunca acima; isso quer dizer que nunca deve
O que assim parece é apenas transição estar acima da capacidade do crítico de compreender; por conse­
quência, como é impossível que uma pessoa de fora compreenda
imediatamente o mundo místico da Natureza-Espiritual ao seu redor,
segue-se que os ensinamentos e doutrinas do mundo Natural-Espiri­
tual é um livro mais ou menos fechado para ela, um livro, além do
mais, que ela raramente ousa tentar abrir.
Dessa forma e por essa razão os filósofos e sábios orientais ocul­
taram grande parte de seu conhecimento mais profundo da multidão,
porque reconheceram corretamente as limitações das mentes estreitas
e das opiniões preconceituosas. O que o tolo não compreende o leva
a escarnecer, pensando que assim demonstra superioridade ao invés
de uma idiotice latente. Por isso aconteceu que muitas das maiores
descobertas da ciência, conhecidas e compreendidas em profundida­
de por uns poucos iniciados, só foram transmitidas à maioria nos úl­
timos anos, quando o “ telégrafo sem fio’* e o “ raio elétrico” se tor­
naram fatos conhecidos, embora já fossem familiares aos sacerdotes
egípcios e à seita dos “ Irmãos Herméticos” em particular, sendo que
muitos deles utilizavam os “ raios violeta” para finalidades químicas
e outras antes do nascimento do Cristo. A telegrafia sem fio também

[31 ]
era um meio comum de comunicação entre eles, que tinham suas obedecem todos os códigos civis, são cidadãos impecáveis e genero­
“ estações” em altas torres em certos pontos da terra, como hoje. sos, só guardando silêncio quanto a suas crenças pessoais, dando ao
Entretanto, se tivessem transmitido suas conquistas cientificas às público o benefício de suas consecuções até um certo ponto, mas
multidões de seu tempo, teriam sido julgados impostores ou loucos. evitando a curiosidade alheia no que decidam ocultar de seus imper­
No tempo de Galileu os homens não acreditavam que a Terra se mo­ tinentes olhares.
vesse em tomo do Sol; se alguém lhes dissesse naquele tempo que A essa crença, de que acabo de falar, pertence a autora desta nar­
era possível enviar mensagens de um navio para outro no meio do rativa. Essa crença nada tem a ver com qualquer dogma puramente
oceano por meios invisíveis, muito provavelmente seria submetido a humano embora eu deseje que fique bem compreendido que não me
tortura e morte como bruxo, por desencaminhar o povo. Da mesma oponho a “ formas” de religião a não ser quando elas sobrepujam a
forma, aqueles que escrevem sobre verdades espirituais e sobre o própria religião e fazem o Espirito perder-se completamente na Le­
controle psíquico de nossas forças vitais, são tão insensatamente tra. Isso porque "a letra mata, o espírito dá a vida” . Enquanto a
criticados quanto Galileu, e condenados com a mesma injustiça. “ forma” possa abrir caminho para que a verdade se manifeste, estou
Por centenas de anos a vá presunção do homem e a crença em sua a favor; mas quando é mera impostura ou aparência, quando as al­
própria infalibilidade o fez permanecer em erro nos mais simples as­ mas se perdem mais do que se salvam por seu intermédio, sou con­
suntos da astronomia, que lhe teriam ensinado a verdadeira posição tra. Com todas as minhas deficiências, tenho consciência de que
do planeta em que vivia. Com uma teimosia igual o homem de hoje posso arriscar o desdém do mundo inferior, ao ver que o “ mundo
vive na ignorância de seus mais elevados poderes porque não se dá superior e infinito” abre-se para mim com sua imperecível beleza e
ao trabalho de estudar os elementos da suprema e toda abrangente brilho, para que eu viva em ambos agora e para sempre. Ninguém
ciência mental que lhe permitirá compreender seu ser e sua vida es­ pode expulsar-me daquele glorioso e indestrutível Univeiso, pois
sencial, e as intenções do Criador quanto ao seu progresso e aperfei­ “ onde quer que eu vá, haverá o Sol e a luz, as estrelas, as visões e a
çoamento. Portanto, diante de seu persistente egoísmo e insolência, comunhão com os deuses” .
por sua constante negação do “ sobre-humano” (uma negação absur­ Proponho-me, portanto, a cumprir a tarefa de que fui incumbida,
damente incongruente já que todas as suas religiões têm uma base e entrarei de huediato em minha “história” , e nela tentarei transmitir
“ sobre-humana”), toma-se necessário que os estudantes dos misté­ aos meus leitores certos fatos que estão tão longe da ficção quanto
rios psíquicos guardem os tesouros de sua sabedoria contra os pro­ as máximas dos antigos profetas - máximas que sabemos terem sido
fanos e a zombaria vulgar —uma zombaria que para eles é uma blas­ confirmadas pela ciência de hoje. Toda grande verdade começou
fêmia. Durante séculos têm cultivado o costume de ocultar os pos­ como um simples sonho, isto é, um pensamento ou percepção instin­
tulados de sua crença do conhecimento comum por causa das con­ tiva da Alma a buscar seu próprio e imortal legado. O que a Alma
venções, pois eles poderíam ser ou seriam alijados dos consolos que deseja lhe é concedido.
as relações sociais podem oferecer, caso suas consecuções espiri­ * * *
tuais se revelassem mcomuns, como seria geralmente o caso. Assim,
eles se movem no mundo com o máximo de cautela e, caso sejam Numa época do ano em que os indolentes langores de um verão
sinceros em sua fé, cm vez de demonstrarem seus poderes, cuidado­ excepcionalmente quente afastavam o entusiasmo das pessoas pelo
samente negam a idéia de possuírem um conhecimento extraordiná­ trabalho continuado e difícil, e quando os que tinham condições
rio ou diferente. Vivem como espectadores do progresso ou da de­ abandonavam suas ocupações normais pelas alegrias de férias pro­
cadência das nações, e não desejam ter discípulos, seguidores con­ longadas, recebi um convite urgente de certas pessoas que eu havia
vertidos, ou confidentes. Eles se submetem às obrigações da vida, encontrado por acaso em Londres numa temporada de férias, para

[32] 133]
que os acompanhasse num cruzeiro em seu iate. Meu anfitrião em
do meu destino, que formei com tanta inteligência; ele tem o rosto
potencial era um homem extremamente rico, viúvo e pai de uma fi­
de uma Esfinge e seus olhos são vazios e sem significado” .
lha, uma criatura delicada e doentia que, caso fosse pobre, seria de­
Fiquei calada. Meu silêncio pareceu irritá-lo, e ele me lançou um
nominada com irreverência “ uma solteirona enfadonha” , mas que,
olhar inquiridor e penetrante.
sendo a única herdeira de um milionário era chamada por todos, com
“Você me ouviu?” Perguntou ele. “Se ouviu, não acredito que
bajuladora servil idade, “ A Pobre Miss Catherine". Morton Harland,
tenha entendido!”
seu pai, era de certo modo famoso por ter escrito e publicado um
“ Ouvi, e entendí muito bem” , respondi em voz baixa. “O destino
ataque frio, mordaz e impiedoso contra a religião, leitura predileta
que o senhor modelou ê o de ser um homem rico. O senhor não está
de muitos eruditos e literatos; esse notável desempenho, juntamente
interessado nisso. Acho muito natural” .
com os relatórios sobre sua fortuna quase que fabulosa, lhe garan­
Ele soltou uma risada áspera.
tiam dois tipos de grupos sociais: um composto de tubarões humanos
“ Lá vem você de novo!” Exclamou ele. “ Voando no espaço e
como os que costumam nadar em volta dos plutócratas, o outro da
cavalgando uma teoria como se fosse uma bruxa numa vassoura!
camada composta de cínicos, indiferentes e parcialmente entediados Não é natural, não. Eis aí o seu erro! O que sinto é muito antinatu­
membros da chamada classe culta que, tendo se cansado de si mes­
ral. Um homem com muito dinheiro deveria estar perfeitamente feliz
mos ao máximo grau, julgavam ser inteligente se cansarem também e satisfeito; ele pode obter tudo que quiser, pode mover o mundo
de Deus. Foi uma surpresa para mim que um homem como ele pen­ comercial e da especulação, pode sacudir a árvore da Fortuna para
sasse em me incluir entre seus convidados, pois eu não tinha trocado que seus frutos caiam sempre a seus pés. Só acho que se esses frutos
mais que meia dúzia de palavras com ele, e minha relação com sua não têm sabor alguma coisa está errada” .
filha tinha se restringido a algumas observações gentis sobre seu “ Não é culpa dos frutos” , disse eu.
estado de saúde. Apesar disso, aconteceu que um daqueles vagos “ Sei o que você quer dizer. Que o erro está em mim e não nos
impulsos sem nome mas que muitas vezes desempenham um impor­ ñutos da Fortuna. Talvez tenha razão. Catherine diz que tem. Pobre
tante papel no desenrolar dos dramas da vida, levou o pai e a filha a e estúpida Catherine! Sempre enfermiça, sempre lamuriosa! Venha
desejarem minha companhia. O desejo deles era tão grande que ape­ para alegrá-la!”
sar de eu ter recusado o convite na primeira vez, eles o repetiram “Mas.. aventurei-me a dizer. “ Eu mal a conheço” .
com insistência, com o próprio Morton Harland reforçando o mesmo “ É verdade. Mas ela tem uma curiosa afeição por você. Ela tem
com uma urgência quase imperativa. poucos caprichos atualmente, e nenhum que a riqueza possa gratifi­
“ Você precisa de descanso” disse ele, olhando-me atentamente car. Sua vida tem sido uma completa desilusão. Se pode fazer um
com seus pequenos e duros olhos castanhos. “ Você trabalha demais, favor a ela e a mim, aceite o convite!”
e para quê?” Fiquei um pouco perturbada com sua pertinácia. Eu nunca tinha
Eu apenas sorri. simpatizado com Morton Harland. Sua reputação de homem rico e
“Com o mesmo propósito com que qualquer outro trabalha, ima­ literário não me parecia invejável. Ele não fazia nenhum bem parti­
gino” , respondí. “ Mas para ser clara, trabalho porque amo o que fa- cular com seu dinheiro, e o talento literário que pudesse ter era dis­
ço” . sipado por ataques a ideais mais nobres do que ela tivera capacidade
As linhas em volta de sua boca Ficaram mais marcadas. de alcançar. Também não tinha uma aparência agradável; seu rosto
“ Eu também amava o meu trabalho quando tinha sua idade” , dis­ pálido e muito bem barbeado estava profundamente marcado pelas
se ele, “achava que podia construir um destino. E podia mesmo, rugas da avareza e da astúcia; sua figura alta e magra tinha um ar
pois foi o que fiz. Mas agora que o fiz, estou cansado! Estou cheio agressivo em todas as atitudes, e a boca maldosa nunca deixava de

[35]
expressar o desdém. Ao que parece ele adivinhou vagamente o teor me golpeou asperamente com o arrependimento de ter acabado por
de meus pensamentos, pois continuou: aceitar o convite.
“Não tenha medo de mim! Não sou um ogre e não vou devorá-la! “ Eu pretendia ir à Escócia para variar um pouco” , murmurei com
Você me julga um homem desagradável - pois sou mesmo. A vi­ certa hesitação.
da me deu bastante motivos para me tomar desagradável. E . . “ É mesmo? Então nossos planos coincidem. Vamos embarcar no
Neste ponto ele fez uma pausa, passando a mão pelos olhos num iate em Rothesay; você poderá nos encontrar lá. Proponho um cru­
gesto preocupado e impaciente: “recebí um golpe inesperado re- zeiro pelas ilhas Hébridas, incluindo talvez os fiordes da Noruega.
centemente. Os médicos me disseram que tenho uma doença mor­ O que me diz disso?”
tal e sem cura. Posso viver vários anos, como posso morrer de Meu coração se agitou com uma sensação de alegre expectativa.
repente; é uma questão de tratamento ou de sorte. Quero esque­ Em minha fantasia eu já imaginava os picos cobertos de urzes das
cer essa triste notícia enquanto puder. Contei a Catherine e pen­ Terras Altas da Escócia, banhados por névoas suaves tingidas de ro­
so que aumentei sua carga usual de hipocondría e tristeza, o que sa e ametista, a encantadora luz púrpura que dança nos lagos da
nos toma uma dupla de pobres desgraçados. Não é por grande ge­ montanha quando o Sol se põe, a requintada beleza dos pântanos
nerosidade que lhe pedimos que se junte a nós em tais circunstân­ isolados e dos promontórios rochosos. Por pouco não me dispus a
cias. . pensar que o antipático milionário era um anjo bendito disfarçado.
Enquanto ele falava tomei minha decisão que foi a de ir. Por que “ Vai ser uma delícia!” Disse eu com autêntico fervor. “ Vou ado­
não? Um cruzeiro num magnífico iate a vapor, repleto de luxo e rar a viagem! Fico feliz de saber que o senhor vai navegar pelos ma­
conforto, seria uma maneira muito agradável de passar as férias, res do Norte” .
ainda que tivesse dois inválidos por companhia. “ São os únicos mares aceitáveis no verão” , respondeu ele; no in­
Com o máximo de gentileza possível, respondí: “ sinto muito, verno vamos para o Sul por ser lógico, embora nem sempre eu ache
sinto muito mesmo que o senhor esteja doente. Talvez os médicos aconselhável. Muitas vezes achei o Mediterrâneo tedioso” . Ele pa­
estejam enganados, pois não são infalíveis. Muitos pacientes conde­ rou de falar parecendo perder-se por alguns momentos num emara­
nados se recuperaram a despeito do veredito deles. Como o senhor e nhado de pensamentos importunos. Mas logo voltou a falar: “ pois
Miss Harland querem tanto - eu aceito o convite” . bem, até a próxima semana, na bala Rothesay, no iate “ Diana” .
Seu rosto contraído se desanuviou e por um instante ele me pare­ Tendo acertado as coisas, apertamo-nos as mãos e nos separamos.
ceu quase bondoso. Eu tinha muitas coisas a fazer no intervalo entre a visita dele e mi­
“ Muito bem!” Exclamou ele. “ O ar fresco e o Sol lhe farão bem. nha partida; não ouvi mais falar dos Harlands até receber um bilhete
Quanto a nós dois, embora estejamos doentes, não imporemos nos­ de Miss Catherine expressando sua alegria por eu ter concordado em
sos males à sua atenção. Pelo menos eu não pretendo fazer isso, acompanhá-los no cruzeiro.
Catherine talvez o faça - ela adquiriu o infeliz hábito de falar de “ Você ficará enfastiada, creio” , escreveu ela, gentilmente, “ mas
suas dores, e se seus conhecidos não sofrem de nenhuma dor ela fica não tanto quanto ficaríamos nós sem a sua companhia” .
sem assunto., . Apesar disso, faremos o máximo para que tudo corra Foi uma frase graciosa significando o mesmo que a maioria das
bem para você, Não teremos outras pessoas a bordo, a não ser meu frases desse tipo. O tédio, entretanto, é uma condição do cérebro e
secretário particular e meu médico; ambos são excelentes pessoas do corpo da qual raramente tenho consciência, de modo que a su­
que conhecem o seu lugar". gestão a respeito dessa possibilidade não me perturbou. Tendo resol­
O olhar cruel voltou a seus olhos e a boca rígida fechou-se com vido que ia, eu também resolvi que apreciaria a viagem ao limite
firmeza, numa linha maldosa. Minha antipatia subconsciente por ele máximo de minha capacidade de usufruir e que, para sorte minha, é

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bastante grande. Antes de deixar minha casa, naturalmente tive que olhando sonhadoramente para noite. Não havia lua; só um milhão de
ouvir o coro das vozes de meus conhecidos que não iam fazer um pontos cintilantes de luz piscando, as inúmeras estrelas no céu azul
cruzeiro de iate e que, segundo disseram, jamais o fariam ainda que escuro. O ar estava quente e perfumado pela fragrância doce dos
pudessem. Muitas pessoas têm a tendência de diminuir todos os pra­ goiveiros e heliotrópios; havia um grande silêncio pois já era meia-
zeres de que não podem partilhar, e essa tendência não estava fal­ noite, e nem mesmo o pipilar sonolento de uma ave quebrava a in­
tando aos meus mexeriqueiros provincianos. tensa quietude. O mundo estava - ou parecia - adormecido, embora
“O tempo tem estado tão bom que com certeza vai piorar em bre­ haja mil organismos vivos acordados para cada cinquenta que dor­
ve” , disse um deles. “ Acho que você vai enfrentar tempestades no mem. Prestei atenção, e imaginei poder ouvir o delicado murmúrio
mar” . de vozes escondidas entre as folhas e atrás das árvores, e os acordes
“Ouvi dizer” , disse outro, "que pesadas chuvas vão acontecer na de uma música suave que vinha até mim pelas ondas sonoras do ar.
costa oeste da Escócia” . Foi um daqueles momentos supremos em que quase pensei ter feito
“ É tão enfadonho viajar de iate!” Declarou uma boa mulher que um progresso marcante na direção da realização de meus mais ele­
nunca tinha pisado num iate em toda sua vida. “ As pessoas que es­ vados objetivos, e que o tempo que eu havia gasto e a paciência que
tão a bordo enjoam da companhia uma das outras em uma semana!” tinha exercido ao cultivar e treinar o que podemos chamar de pode­
“ Nesse caso, vocês devem estar com muita pena de mim!” Disse res interiores de visão e audição estavam prestes a ser recompensa­
eu, rindo. "De acordo com o que vocês pensam, um cruzeiro de iate dos pela total abertura dos portões que até então haviam estado ape­
deve ser a pior forma possível de tortura física que possa ser infligi­ nas entreabertos. Eu sabia - pois havia estudado e comprovado essa
da a um ser humano. Espero sair ilesa desse cruzeiro de alguma for­ verdade - que todos os sentidos físicos que possuímos são tão-so­
ma!” mente o resultado imperfeito da mesma faculdade original existente
Meus visitantes me brindaram com um sorriso torto. Era muito fá­ na Alma, que nossos ouvidos físicos são apenas a expressão material
cil perceber que estavam com inveja do que consideravam minha boa da audição espiritual que ¿ aguda e perfeita o bastante para captar o
sorte em conseguir passar minhas férias em circunstâncias de grande mais suave murmúrio de um anjo, que nossos olhos nada mais são
luxo sem gastar um centavo. Este era o único ponto de vista que eles que a semelhança externa das brilhantes órbitas da visão intema
tinham a respeito, É o único ponto de vista que as pessoas geral­ feita para ver as glórias sublimes do próprio Céu sem medo ou so­
mente têm de uma situação, ou seja, o lado financeiro. bressalto, e que nosso sentido do tato nada mais é do que o manejo
A noite da véspera de minha viagem foi memorável. Nada acon­ rude e incerto de coisas perecíveis, se for comparado com o seguro e
teceu de interesse visível ou aparente; eu estava inteiramente sozi­ delicado contato do ser pessoal da Alma com as substâncias etéreas
nha, e consciente de uma exaltada alegria de corpo e mente que pa­ que lhe dizem respeito. Apesar de minha ansiosa expectativa nada
recia me envolver com uma vibrante de luz e felicidade. Foi uma mais me foi concedido além da deliciosa sensação de pura alegria
impressão que me tomou de repente, parecendo ter pouco ou nada a que banhava todas as fibras de meu ser como um raio de luz. É o
ver com minha própria identidade, mas contudo era tão pessoal que bastante, disse a mim mesma - claro que é o bastante! Ainda assim
tive grande vontade de agradecer a Deus por tão rico influxo de sentia que deveria haver algo mais. Era uma promessa cujo cumpri­
bem-estar. Sabia que a impressão era puramente psíquica, mas valia mento estava próximo, mas ainda invisível - como uma nuvem bran­
mais que mil dádivas materiais. Nada parecia triste, nada parecia di­ ca como a neve com o Sol por trás dela. Não me foi dada qualquer
fícil no Universo inteiro; qualquer sombra de dificuldade parecia ter solução para o encantador mistério que me envolvia; dei à minha
sido varrida do céu brilhante de paz. Abri a porta-janela de meu es­ alma absoluta liberdade, e ela mergulhou profundamente através da
túdio e passando para a pequena sacada por sobre o jardim, fiquei imensidade de estrelas para imensidades ainda mais profundas, para

[39]
lá sonhar, ter esperança, aguardar. Eu havia feito isso por muitos estar realmente doente, conforme ele diz - eu não me espantaria com
anos; por muitos anos eu havia trabalhado e orado, observando o isso, pois ele parece doente! - mas sua filha não tem nada de errado
desfüe do pobre orgulho e da pobre vaidade dos homens passar por - só os nervos” .
mim como sombras na praia de um mar sem vida, e conseguindo “Isso já é bastante ruim” , respondí.
pouco a pouco tecer um fío para traçar meu caminho pelos mais es­ “Os nervos podem ser controlados” , respondeu ela, com um bri­
treitos labirintos da vida e encontrar as belas razões que há para vi­ lhante sorriso cheio de convicção. “ Em geral, problemas de nervos
ver; de vez em quando, como naquela noite, eu me sentia à beira de são.. . bem, são uma questão de egoísmo” .
uma descoberta que, em sua divina simplicidade, tomaria claros to­ Havia alguma verdade nisso mas eu não quis continuar a discus­
dos os problemas e fáceis todas as dificuldades, para ser gentil mas são. Estávamos muito animadas com os detalhes de nossa viagem ao
firmemente puxada para trás por uma força invisível e pela adver­ Norte e com os entretenimentos que nos foram propiciados por nos­
tência: “ até este ponto e nenhum passo mais!” Opor-me a essa força sos companheiros de viagem. O trem para Edinburgo e Glasgow es­
ou fazer qualquer esforço pessoal para rebelar-me contra ela não faz tava lotado de homens da classe social que considera a caça ao galo
parte de minha fé, portanto, em momentos assim, eu sempre cedera silvestre um modo inteligente de usar o cérebro e os músculos e por
imediatamente e obedientemente, e foi isso que fiz na ocasião de que isso havia estojos com armas ocupando o soalho em todos os cantos.
falo. Não me foi permitido descobrir a fonte oculta de minha felici­ Faltavam vários dias para o famoso Doze de Agosto, mas o tempo
dade, mas ela permaneceu comigo; quando me recolhi para dormir estava tão excepcionalmente bonito e claro que o êxodo da cidade
foi com muito mais que a habitual gratidão que disse minha breve tinha começado mais cedo do que o necessário para a matança de
oração diária: aves. Francesca e eu estudamos os rostos e o porte de nossos com­
Pelo dia que passou, agradeço-Te, Deus meu Pai! panheiros com vivo e incansável interesse. Tínhamos um comparti­
Pela noite que chegou, eu te agradeço! mento reservado para nosso uso, e da privacidade de nosso espaço
Unida a T i e à Natureza, agradecida me entrego ao descanso que tu observávamos a passagem constante, de um lado para outro, de
amorosamente ordenaste. criaturas que pareciam nada ter a fazer senão pensar sobre o jornal
Dormindo ou acordada, meu corpo e minha Alma são Teus. do dia e fumar.
Faze deles o uso que desejares, pois Teu comando é minha alegria. “Tenho certeza” , disse Francesca, “que no início da criação éra­
Amém. mos todos feras e aves de rapina, comendo-nos uns aos outros, dila­
Dormi o sono pacífico e profundo de uma criança, e no dia se­ cerando-nos mutuamente. A rapina continua a existir em nós” .
guinte iniciei minha viagem no dia mais radioso daquele radioso ve- “ Mas não em você, certo?” Perguntei sorrindo.
rão. Uma amiga me acompanhou - uma daquelas mulheres para “ Ah, não estou falando ou pensando em mim. Sou apenas.. . uma
quem a vida é sempre boa por causa de sua natureza agradável; ela mulher. Você também é uma mulher —talvez algo mais - não exa­
tinha alugado uma casa em Invemess-shire para a temporada e eu tamente igual às outras” . Neste ponto seus olhos me fitaram um
tinha combinado de ir ter com ela quando minha viagem com os pouquinho pensativamente. “ Às vezes não consigo rotular você,
Harlands terminasse, ou melhor dizendo, quando eles se cansassem e bem que gostaria! Agora mesmo passou um homem aí na fíente
de mim e eu deles. Minha amiga, a quem darei o nome de Francesca, com a fisionomia perfeita de um falcão - olhos cruéis e nariz adunco
achava que a segunda hipótese era a mais provável. como um bico voraz. Um outro que observei há pouco tinha o rosto
“ Não existe nada mais tedioso” , declarou ela, “ do que a compa­ de um porco - parecia estar mal colocado sobre as pernas - sua
nhia de um inválido imaginativo. Esse tipo de companhia não será postura natural seria sobre quatro patas e roncando com o focinho na
repousante para você, será muito cansativo. Morton Harland pode lama!”

[40]
Tive que rir. chegamos na suja cidade de Glasgow, de onde saímos para um lugar
“ Você é muito crítica, Francesca!” ainda mais encardido chamado Greenock, onde passamos a noite. O
“ Não sou, não. Não estou criticando absolutamente. Mas não “ melhor” hotel era uma lástima, mas estávamos cansadas demais pa­
posso deixar de notar essas semelhanças. As vezes elas são espanto­ ra reclamar da comida e dos quartos péssimos, indo para a cama sa­
sas. Veja você, por exemplo” , disse ela colocando uma das mãos tisfeitas por ter onde esticar o corpo. Na manhã seguinte acordamos
sobre as minhas, “com suas misteriosas idéias sobre religião, real­ muito cedo, descansadas e alegres, a tempo de ver o Sol surgir numa
mente acredita que as pessoas que vivem com maldade e encorajam dourada névoa por cima de um grande navio de guerra ancorado na
os pensamentos maléficos descem na escala na qual já haviam subi­ baia de Greenock — uma vista que, à sua maneira, nos fez pensar
do e voltam a formas inferiores de vida.. .? ” num belo e sugestivo quadro de Tumer.
“ E verdade que creio nisso, m as.. “ Velho e querido Sol!” Disse Francesca, fazendo sombra nos
“Não me venha com seus “ mas” , interrompeu ela, “eu lhe digo olhos com as mãos ao olhar para a ofuscante glória daquela luz,
que há pessoas neste mundo que eu vejo quando estão passando “ sua missão é sustentar a vida, enquanto que o vaso de guerra ba­
pelo processo de descer/ Isso me faz ficar gelada!" nhado em seus dourados raios serve para destruí-la. Que bandidos
Eu podia compreender muito bem o que ela descrevia, pois havia inescrupulosos são os homens! Por que as nações não resolvem a
vivenciado a sensação muitas vezes. Nada me invadia com uma paz amigavelmente, e no caso de haver diferenças por que não as
sensação mais profunda de desesperança e total inutilidade do que aplainam pelo arbitramento? É tão brutal e pagão matar milhões de
observar, como muitas vezes eu fora compelida a observar, os deplo­ pessoas inocentes só por causa de uma querela entre governos".
ráveis resultados de uma determinada escolha feita por certos seres “Concordo plenamente com você” , disse eu, “ também não apro­
humanos no sentido de ir para trás e para baixo ao invés de para a vo os Govemos que pregam a paz enquanto esvaziam os bolsos do
frente e para o alto - uma escolha que tomava inútil qualquer con­ povo para aumentar seus armamentos, à moda dos alemães. E justo
selho porque não seriam aceitos, mesmo que fossem oferecidos. E nos precavermos com defesas adequadas, mas é uma grande insen­
um assunto de vida e morte que sua própria vontade determina; ne­ satez aleijar nosso país pela preparação para guerras que podem nem
nhum poder, humano ou divino, pode alterar o curso que eles deci­ acontecer” .
dem escolher. Mais fácil seria esperar que Deus revertesse Sua lei da “ Mas que podem acontecer!” Disse Francesca, os olhos ainda ob­
gravidade para salvar o insensato suicida que se atira para a destrui­ servando sonhadoramente o céu banhado de Sol. “Tudo no Universo
ção de uma torre ou campanário, do que desejar que Ele modificasse está empenhado numa espécie de combate, pelo menos é o que me
a operação eterna de Sua Lei Espiritual mais elevada para resgatar a parece. Os mais minúsculos insetos estão sempre combatendo uns
Alma que, sabendo a diferença entre o bem e o mal, deliberadamente aos outros. Em nossas próprias veias germes nocivos e benéficos
prefere o mal. Se um anjo de luz, um verdadeiro “Filho da Manhã” lutam o tempo todo pelo predomínio; como podemos nós escapar da
se rebela, deve ser expulso do céu. Não existe alternativa, até que regra geral? A Vida é uma batalha contínua entre o bem e o mal, e
ele, por sua espontânea vontade, decida subir de novo na escala. se assim não fosse, não havería finalidade para nossa existência.
Minha amiga e eu falávamos frequentemente sobre esses comple­ Tudo parece ser um conflito intencional, uma luta até o fim” .
xos pontos que emaranham o que deveria ser reto e claro em muitas “ Não haverá fim!” Disse eu.
vidas. Como conhecíamos as opiniões uma da outra não continua­ Ela me olhou quase com compaixão.
mos a discussão naquele momento. “ É o que você pensa!”
O tempo passava rápido - o trem penetrava cada vez mais para o Eu sorri.
norte, e por volta das seis horas daquela quente e ensolarada tarde “ E o que eu sei!”

(421 [43]
Uma expressão indefinível surgiu em seu rosto, uma expressão Viajamos juntas para Rothesay no vapor “Columba" e ao che­
que já me era conhecida. Ela era uma criatura inteligente e muito garmos na linda baía, coalhada de barcos de recreio por ser a tempo­
querida, mas seus pensamentos não se aprofundavam - o esforço rada, a primeira coisa que atraiu nossa atenção foi o barco em que
exigido a deixava cansada e perplexa. eu ia viajar, o “ Diana” , um dos mais magníficos iates já construídos
“ Bem, nesse caso deve ser uma escaramuça infindável, acho!” para gratificar o capricho de um milionário. Os turistas que estavam
Disse ela rindo. “ Fico querendo saber se nossas almas nunca se can­ a bordo de nosso barco procuraram os melhores pontos para obser­
sarão disso!” vá-lo, e foram muitos os comentários a respeito do tamanho e beleza
“Você acha possível Deus ficar cansado?" Perguntei. das linhas do iate ancorado na água dourada de Sol.
Ela me olhou espantada, depois divertida. “Vocé estará num palácio flutuante” , disse Francesca quando nos
“Bem que Ele devia!” Declarou Francesca com vivacidade. “ Não aproximamos do cais de Rothesay, onde ela se despediu afetuosa­
tenho a intenção de ser irreverente, mas veja bem, se todas as coisas mente de mim. “Cuide-se bem, e não saia voando para a Lua no que
vivas de todos os milhões de mundos tentam obter o que não lhes você chama de vibração etérica! Lembre-se, se os Harlands a cansa­
cabe ter, uivando e se lamentando quando seus desejos não são rea­ rem, venha para minha casa imediatamente” .
lizados, Ele deveria ficar muito, mas muito cansado!” Prometi e então nos separamos. Ao descer em Rothesay, fui quase
“ Mas não fica", disse eu; “ se assim fosse, isso seria o fim de tu­ que ¡mediatamente abordada por um marinheiro do “ Diana” que, ao
do! Se o Criador cansasse do Seu trabalho, Sua obra ficaria inaca­ ver meu nome na bagagem se apossou dela e me disse que a lancha a
bada. Gostaria que todos pensassem nisso com mais freqüência!” motor estava esperando para me levar ao iate. Eu já estava no meio
Francesca me abraçou gentilmente. da travessia quando o “ Columba” partiu novamente; Francesca, en­
“ Você é uma criatura estranha!” Disse ela. “Pensa demais nesses costada na amurada do convés, acenou para mim num sorridente
assuntos abstrusos. No final das contas estou contente por você ir adeus. Em dez minutos eu chegava ao “ Diana” e apertava a mão de
fazer esse cruzeiro com os Harlands. Eles a farão descer das esferas Morton Harland e sua filha Catherine que, enrolada em xales numa
correndo! Disso tenho certeza! Você não ouvirá nada que não se re­ cadeira do convés, parecia estar se defendendo do frio de um rigoro­
fira a banhos medicinais, remédios, massagens e drogas que curam so inverno em vez de se deixar abraçar pela quente luz do Sol da­
tudo! Quando você chegar para passar uns tempos comigo em Inver- quela manhã de verão.
ness-shire estará bem normal e sensata!” “ Você está com ótima aparência!” Disse ela com um tom de
Sorri. A querida Francesca sempre juntava “ normal e sensata” co­ queixosa amabilidade. “ E tão maravilhosamente alegre!"
mo se fossem o par perfeito. O contrário é que é verdadeiro, natural­ “ Está um dia tão bonito” , respondi, sentindo-me como se devesse
mente, pois “ normal" geralmente não passa da rotina diária do corpo, pedir desculpas por ter uma aparência saudável. “ É impossível não
seguida instintivamente por animais e aves e pelo homem, e não tem sentir alegria!”
mais a ver com a verdadeira “ sensatez” ou mentalidade pura do que Ela suspirou e sorriu fracamente, e nesse momento sua criada
o tique-taque tem a ver com as enormes forças do Sol. O que chama­ apareceu para pegar minha maleta de viagem e meu agasalho; ela me
mos “ senso” é a percepção da alma no verdadeiro sentido, uma per­ levou até minha cabine, ou melhor, a suíte que seria minha no decor­
cepção que não pode ser limitada a coisas meramente materiais, visto rer do cruzeiro. Era um apartamento duplo muito luxuoso, com
que ultrapassa as necessidades e aparências para alcançar as causas quarto e sala, separados pelas dobras de uma rica cortina de seda
criadoras dessas necessidades e aparências exteriores. Mesmo assim, carmesim, com móveis ornamentados com prata lavrada a mão. A
eu estava feliz de dar à minha amiga a razão nesse campo, ainda cama estava longe de ser um beliche de navio; era um móvel enor­
mais que o momento de nos separarmos estava bem próximo. me, com dossel de seda branca bordado com rosas; o tapete era es-

[44] [45]
pesso e macio, meus pés afundaram nele como se pisasse na grama zer, uma viagem que os Fados haviam determinado e que levariam
fofa; um vaso alto de prata e cristal, cheio de lindas rosas, estava pelo menos uma passageira a estranhas regiões inexploradas. Entre­
colocado na base do espelho emoldurado em prata, de modo que as tanto, nenhum sinal ou sugestão me fora dado de que eu poderla ter
flores eram refletidas no mesmo. A saleta tinha poltronas, uma es­ sido escolhida para singrar “ os perigosos mares de esquecidos rei­
crivaninha e um pequeno piano. Também ali muitas rosas mostravam nos de fadas” , pois nas coisas espirituais mais importantes a alma
seus rostinhos em todos os cantos. Tudo era tão encantador que não mais interessada é sempre a que menos espera.
pude deixar de soltar uma exclamação de prazer, e a criada que se
ocupava desfazendo minhas coisas sorriu compieensivamente.
“ É perfeitamente encantador!” Disse eu, voltando-me pressumo-
rosamente para a moça. “ É como um conto de fadas! Mas não será
esta a cabine de Miss Harland?”
“Oh, não, senhorita” , respondeu ela, “Miss Harland não teria
estas coisas à sua volta de jeito algum. Não há tapetes nem cortinas
nos aposentos dela, que acha tudo isso pouco saudável. Ela tem um
tapetinho no chão e uma cama de feiro - tudo muito simples. Quanto
às rosas, ela não admitiría uma só rosa por perto! Ela não suporta o
perfume das flores” .
Não fiz qualquer comentário. Estava encantada demais com meu
novo ambiente para considerar o quanto minha anfitriã preferia o
desconforto à sua volta.
"Quem arrumou tudo aqui?” Perguntei.
“ O Sr. Harland deu ordens ao camareiro que deixasse tudo tão
bonito quanto possível, disse a criada. “John tem muito bom gosto” ,
completou ela, ficando muito corada.
Sorri ao perceber como eram as coisas entre ela e “ John” . Nesse
momento houve um som forte de batidas e rangidos na parte de cima
da cabine; compreendí que estávamos levantando âncora. Apressa­
damente coloquei meu boné de viagem e meu véu, coni para o con­
vés e logo estava ao lado de meu anfitrião, que parecia muito feliz
com minha animação; flquei observando com indescritível contenta­
mento o “ Diana” sendo libertado de suas amarras. O vapor estava
no ponto máximo, e logo a proa do iate foi virada e apontada para a
saída da baía. Tremendo como um excitado cavalo de raça pronto
para a corrida, ele se projetou para a frente; com uma elegante curva
deslisou sobre a água, formando um leque de ondas com sua quilha
afiada como uma espada e criando um caminho de opalescente es­
puma à sua retaguarda. Finalmente iniciávamos nossa viagem de la­

[46]
O NAVIO MÁGICO

Naquela noite fui apresentada ao médico particular do Sr, Harland


e também a seu secretário. Não senti grande simpatia nem por um
nem por outro daqueles senhores. O Dr. Brayle era um homem ma­
gro, moreno, sem barba, de meia-idade, com olhos castanhos sem
expressão e cabelos escuros repartidos no meio; sua atitude era
quieta e contida, mas imaginei que era uma pessoa bastante atenta às
vantagens de sua posição de médico atendente de um milionário
americano em viagem. Eu ainda não havia mencionado o fato de que
o Sr. Harland era americano. Criei o hábito de esquecer isso porque
ele havia hã muito desistido de sua nacionalidade, tomando-se cida­
dão britânico. Mas sua fortuna tinha sido feita na América e ele
continuava sendo um magnata que controlava grandes interesses fi­
nanceiros nos Estados Unidos. Entretanto, ele era muito mais inglês
que americano, pois havia sido educado em Oxford, e na juventude
sempre estivera ligado à sociedade e aos costumes ingleses. Havia se
casado com uma inglesa que morrera ao dar à luz a filha de ambos, e
o Sr. Harland tinha o hábito de atribuir o definhamento e a fadiga de
Miss Catherine a uma tendência herdada da mãe e à falta de cuida­
dos matemos na infância. Em minha opinião Catherine era uma pes­
soa robusta, mas estava claro que desde pequena tinha feito o que
queria ao máximo permissível, tendo ficado tão acostumada a ver
qualquer pequeno mal estar exagerado e engrandecido que tinha sido
levada a acreditar que a saúde do corpo e da alma eram praticamente
impossíveis para o ser humano. O Dr. Brayle, como logo percebi, se
prestava a essa atitude, e não gostei do brilho dissimulado de seus
olhos cor de mogno quando olhava de soslaio para o pai e para a fi­
lha quando acontecia uma pausa na conversação, observando-os tão
atentamente quanto a um gato a olhar para um par de camundongos

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desprevenidos. O secretário, Sr. Swinton, era um jovem pálido de ar O Dr. Brayle franziu levemente as sobrancelhas. Com aquela ex­
competente, com uma atitude um tanto servil, que escondia uma opi­ pressão no rosto ele se parecia muito com um envenenador italiano
nião muito elevada de si mesmo. Suas idéias se concentravam e se do passado, o tipo de homem que Cesar Borgia teria contratado para
prendiam à arte da estenografia; ele era adepto dessa arte e da dati­ despachar seus inimigos por meio de algum meio indetectável e só
lografia, sendo capaz de anotar não sei quantas palavras num minu­ conhecido da química mais complexa.
to, nunca cometendo um erro. Era um modelo preciso de pontualida­ Logo depois o Sr. Harland voltou a falar enquanto descascava
de e presteza, respeito e obediência; mas não era mais que uma má­ uma pera devagar e delicadamente com um eficiente movimento da
quina, incapaz de reagir a uma palavra ou sorriso espontâneos, a faca que sugeria crueldade, a retirada da pele de uma criatura viva e
menos que o sorriso e a palavra contivessem algo que lhe desse pra­ dotada de sensação.
zer pessoal. Nem o Dr. Brayle nem o Sr. Swinton eram homens que “Nossa amiga aqui tem um temperamento bastante estranho” , ob­
se pudesse gostar ou detestar concretamente; eles simplesmente ti­ servou ele. “ Ela tem a indiferença de um filósofo antigo às fórmulas
nham o poder de criar uma atmosfera na qual meu espirito se sentia que são apenas socialmente agradáveis. Tem uma alma ardente, mas
nadando como um peixinho dourado num aquário, tentando desco­ a mente é cheia de suspeitas! Ela imagina que uma palavra gentil
brir como tinha entrado ali e como podería sair. pode ser usada para encobrir uma ação traiçoeira, e se um homem é
Enquanto estava sentada em silêncio à mesa, senti mais que vi o rude e direto como eu, por exemplo, ela prefere que ele seja rude e
Dr. Brayle me olhando com perplexa curiosidade. Eu tinha a mesma direto a que tente ocultar a aspereza por uma cordialidade que não é
percepção das sensações dele e das minhas. Eu sabia que minha pre­ de seu feitio” . Nesse ponto ele me olhou, desviando os olhos da pe­
sença o irritava, embora ele não fosse suficientemente hábil para ex­ ra quase toda descascada. “ Não é verdade?”
plicar a si mesmo a causa dessa irritação. Quanto ao Sr. Swinton, es­ “ É verdade, sim” , respondí. “ Mas essa não é uma atitude mental
tava confortavelmente envolvido por uma pele paquidérmica de auto- “estranha” ou original” .
apreciação, de modo que não pensava nada a meu respeito a não ser “ Desculpe, cara senhorita, mas é, sim! A atitude normal e estri­
que era convidada de seu patrão e que por isso tinha que me tratar tamente razoável de um Pigmeu humano saudável é a de aceitar co­
com deferência. Era o contrário no caso do Dr. Brayle. Eu era um mo se fosse o evangelho tudo que lhe seja dito de modo a confortar
enigma para ele; depois de um breve estudo de minha pessoa, passei e agradar. Ele deve acreditar, entre outras coisas, que é um Pigmeu
a ser também um aborrecimento. Apesar disso, ele se forçou a con­ muito precioso em meio às foiças naturais, destinado a ser imortal e
versar comigo e trocamos algumas palavras sobre o tempo e as várias a partilhar com a Divina Inteligência os privilégios do Céu. Descon­
belezas da costa ao longo da qual tínhamos viajado o dia todo, certado por uma ninharia, incomodado por um espasmo, levado pra­
"Vejo que você se interessa muito por belas paisagens. Poucas ticamente a uivar p>or causa de uma dor de dente, e em geral impo­
mulheres têm esse interesse” , disse ele. tente diante de qualquer circunstância adversa perturbadora. Ele pre­
“ É mesmo?” Perguntei sorrindo. “ Será a admiração do belo um cisa se consolar com a idéia de que Seu Ser, Suas proporções e per-
privilégio exclusivo dos homens?" feições são suficientemente magníficos para atrair a própria Divin­
“Deveria ser” , respondeu ele, fazendo uma pequena mesura. “ Afi­ dade para uma forma humana, como uma criatura de humanas neces­
nal, somos os grandes admiradores das mulheres” . sidades para que ele, o Pigmeu, possa fumar seu parentesco com o
Não respondí. O Sr. Harland me olhou com ar zombeteiro. Divino agora e para sempre! Que linda blasfêmia existe nessa ma­
“ Vocé não é de acreditar muito em cumprimentos” , disse ele. quinação! Que magnífica arrogância!”
"Mas tratava-se de um cumprimento?” Perguntei rindo. “ Acho Fiquei calada, mas quase podia ouvir meu coração batendo com
que sou muito obtusa! Não achei que fosse uma lisonja” . mal contida emoção. Eu sabia que Mentón Harland era ateu, tanto

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quanto o ateísmo é possível a qualquer criatura nascida do espírito e sempre tinha que estar nos mesmos lugares que ele, logo fiquei
da matéria, mas não esperava que ele aventasse suas opiniões tão contaminado pelo medo geral. Uma noite ele me fez parar na ala on­
aberta e imediatamente diante de mim, na primeira noite que eu pas­ de tinha seus aposentos..
sava a bordo de seu iate. Percebi, entretanto, que ele falava dessa O Sr. Harland parou bruscamente de falar.
maneira para me provocar uma resposta e criar um argumento que o “Acho que estou cansando vocês” , disse ele, “ não deveria obri-
divertisse e aos dois homens ali presentes, por isso fiz o que me ca­ gã-los a ouvir as lembranças de minha juventude” .
bia fazer nesse tipo de situação - ficar calada. O Dr. Brayle olhou Os olhos castanhos do Dr. Brayle denotavam um interesse ferre­
para mim com curiosidade e a pobre Catherine me fitou com olhos nho, e ele disse:
melancólicos cheios de apreensão. Ela tinha aprendido a temer a “Continue por favor! Parece parte de um romance.”
predileção do pai por tópicos que levassem a discussões sobre reli­ “Não acredito em romances” , disse o Sr. Harland gravemente.
gião de natureza inflamada. Como eu não disse nada, ele ficou na “Os fatos são suficientes por si mesmos sem precisar de qualquer
posição embaraçosa da pessoa que apresenta uma teoria que nin­ enfeite adicional. Esse homem de quem falo era um Fato —forte,
guém se mostra desejoso de aceitar ou negar; mostrando um pouco energético e vivaz. Ele me fez parar no pátio como eu ia dizendo, e
de confusão, ele continuou falando de maneira mais comedida e ca­ colocou a mão no meu ombro. Eu quis fugir de seu toque, sentindo
sual. um inquieto desejo de me afastar dele. “ Qual é o seu problema,
“Tive um amigo em Oxford, um sujeito maravilhoso cheio de so­ Harland?” Perguntou ele com a voz grave e musical que era tão
nhos esquisitos e fantasias ocultas. Era uma dessas pessoas que própria dele. "Você parece estar com medo de mim!” Arrastei os
acreditam na parte Divina do homem. Ele costumava estudar estra­ pés no pavimento de pedra, sem saber o que dizer, e em seguida ga­
nhos livros e manuscritos antigos até tarde da noite, e nunca parecia guejei desculpas do tipo que os jovens inventam quando se sentem
cansar disso. O pai dele vivia num canto qualquer do deserto egípcio acuados por uma situação difícil. Ele ouviu minhas observações ga­
por escolha própria, e o rapaz de que falo nasceu naquele país. Ele guejadas sobre “ os outros rapazes” com atenta paciência, depois ti­
nunca falava da mãe dele. O pai morreu de repente e deixou uma rou a mão de meu ombro com um movimento rápido e decidido.
grande fortuna aos cuidados de curadores até que ele fosse maior de “Olhe aqui, Harland, você está assumindo todas as convenções e
idade, com instruções para que fosse mandado para a Inglaterra e tradições com as quais nossa Universidade está incrustada e colo­
educado em Oxford; quando tomasse posse do dinheiro deveria ficar cando-as em sua pessoa como se fossem carrapichos. E uma pena
livre para fazer o que quisesse com a herança. Eu o conhecí quando que você escolha esse caminho; eu estou começando na outra extre­
ele já estava na metade de seu curso universitário. Eu só era dois ou midade, onde Oxford termina e a Vida começa!” Devo ter olhado
três anos mais velho que ele, mas sua aparência se mantinha sempre com espanto para ele, pois suas palavras seguintes foram: “ Falo da
muito jovem. Além disso ele era “misterioso” , tão misterioso como Vida que vai adiante, não da Vida que vai para trás apanhando as
nossa amiguinha aqui” , e nesse ponto ele me indicou com um aceno migalhas mofadas caídas dos séculos que terminaram seu banquete e
de cabeça e um sorriso que pretendia ser gentil. “ Ele nunca praticou se foram. Bem, não vou detê-lo! Não vamos nos ver mais com fre­
nem treinou para coisa alguma, mas ainda assim tudo vinha facil­ quência, mas não esqueça o que eu disse: que se você tem medo de
mente a suas mãos. Era excelente nos esportes enquanto foi estu­ mim, ou de qualquer outro homem, ou outra coisa existente, a falha
dante. Chegou um ponto que eu lembro - lembro bem demais! Em esta em você mesmo e não nas pessoas ou objetos que você teme” .
que todos nós passamos a ter medo dele. Se o víamos se aproximan­ “Não vejo as coisas assim” , falei com raiva, “ veja os outros cole­
do pelo gramado, nós o evitávamos - ele causava terror e admiração gas, eles pensam que você é esquisito!” O rapaz riu. “Abençoados
ao mesmo tempo - e embora eu fosse de um curso diferente mas os outros colegas, estão no mesmo barco que você! Pensam que sou

[ 53]
esquisito porque eles é que são, ou melhor, estão fora dos parâme­ “ Vários cientistas experientes dão grande atenção a esses assun­
tros - eles!” Fiquei irritado por sua tranqüila indiferença e perguntei tos” sugeriu o Sr. Swinton afetadamente.
o que queria dizer com “ fora dos parâmetros” . “ Suponha que vê um Eu sorri e disse: “a ciência, como tudo o mais, tem suas frontei­
lindo jardim harmoniosamente planejado” , disse ele ainda sorrindo, ras. sua terra de ninguém de onde o cérebro pode facilmente escor­
“e um sujeito qualquer entra nele e constrói um chiqueiro torto entre regar para o caos. Os mais renomados professores científicos podem
os canteiros. Você diría que isso está “ fora dos parâmetros” , não é ser vítimas desse medonho desfecho de suas especulações. Eles es­
mesmo? Inadequado, no mínimo” . “Ora” , disse eu irritado então vo­ quecem que para compreender o Infinito primeiro devem conhecer o
cê acha que meus amigos são chiqueiros tortos em sua paisagem?” Infinito no interior deles próprios” .
Ele fez um gesto alegre de desculpa. “ Algo assim, amigo. Chiquei­ “ Você fala como um oráculo, gentil senhorita!" Disse o Sr.
ros tortos são construções muito populares no mundo em que vocês Harland, “ mas a despeito de suas sábias declarações o Homem con­
vivem!” Com isso ele me disse boa noite e se afastou. Eu estava fu­ tinua finito como sempre foi” .
rioso, pois era um jovem muito convencido e achava que eu e meus “ Se ele escolhe o estado finito isso é bem verdade” respondí,
iguais éramos a elite de Oxford; ele, entretanto, tirou as melhores "pois ele sempre é o que decide ser” .
notas daquele ano e quando finalmente deixou a Universidade pode- O Sr. Harland parecia desejoso de continuar a discussão, mas eu
se dizer que desapareceu num rastro de glória intelectual. Nunca não falei mais nada. O assunto era sério e sagrado demais para mim
mais o vi ou ouvi falar dele, o que me faz supor que seus estudos para ser discutido superficialmente por pessoas cuja atitude mental
não o levaram a parte alguma. Hoje deve ser um homem envelheci­ era distintamente oposta e contrária a todas as coisas além do sim­
do, talvez esteja aleijado, cego, louco ou, o que é mais provável, ples mundano.
pode estar morto. Não sei por que pensei nele a não ser que seja Após o jantar, Miss Catherine avisou que estava sofrendo de neu­
pelo fato de que suas teorias eram muito parecidas com as de nossa ralgia; pegando seus xales e cobertores pediu-me que lhe desculpas­
convidada” - de novo ele me indicou com um aceno. “ Aquele cole­ se por se recolher tão cedo. Eu lhe dei boa noite e, deixando meu
ga nunca mostrou agrado por discursos agradáveis, pelo contrário, anfitrião e os outros fumando, subi para o convés. Estávamos anco­
sempre desconfiou das convenções sociais e acreditava numa Vida rados na costa de Mull e contra o céu iluminado pelas estrelas deli­
Superior depois da Morte” . neavam-se as escuras montanhas de Morven com a suavidade de um
“Ou numa vida Inferior” , disse eu em voz baixa. veludo negro. O iate descansava em águas perfeitamente calmas,
“ Ah, sim! Deve haver um grau Inferior, já que existe um Supe­ brilhando como aço polido; o calor e a quietude da noite de verão
rior. Ambos devem ser parte da mesma existência. Como não aceito era deliciosamente repousante e tranquilizante. O capitão e um ou
nenhum deles, esse ponto não tem importância”. dois tripulantes estavam por perto trabalhando, e eu sentei na popa
Olhei para ele e acho que meu olhar expressou espanto, pena ou da embarcação, olhando para o glorioso firmamento. A proa afilada
ambos, pois ele desviou seu olhar do meu. do “ Diana” apontava para cima e parecia estar envolta na teia das
“ Presumo que você é algo como uma espiritualista?” Disse o Dr. estrelas; eu me perdi num vôo imaginário entre aqueles mundos cin­
Brayle, desviando o olhar do estudo concentrado que fazia da toalha tilantes, esquecida do mundo material onde estava, esquecendo que,
da mesa e fixando-o em mim. apesar das esplêndidas provas de uma Inteligência governante pre­
“ Absolutamente” , respondí de imediato, enfaticamente. “ Isso é, sente na beleza e ordem do Universo, meus companheiros daquela
se o termo “ espiritualista” significa para o senhor uma pessoa cré­ viagem de lazer estavam destituídos de qualquer crença em Deus, ti­
dula que acredita nos truques mediúnicos, escrita automática e coi­ nham menos percepção da existência do Divino que a mais humilde
sas assim. Isso é falta de senso e auto-ilusão” . plantinha que instintivamente força o caminho para a luz. Não pen-

[55]
sei a respeito disso, seria inútil já que eu não podería melhorar a si­ “ É o maior que já vi” replicou o capitão, “mas como chegou?
tuação, mas me encontrei considerando com curiosidade a história E isso que quero saber!”
que o Sr. Harland tinha contado a respeito de seu colega de Oxford. Ele parecia tão intrigado que acabei rindo.
Tentei imaginar seu rosto e seu porte até que me pareceu poder vê-lo “ Bem, acho que do modo usual, à força de suas velas” .
—eu até podería jurar que uma forma sombria estava de pé à minha “ Ah, está tudo ótimo!” . Ele olhou para mim com ar de pena por
frente, curvada para mim e lançando um olhar perscrutador com alguém que nada sabia de navegação marítima. “ Acontece que velas
olhos que me eram estranhamente familiares. Espantada com a apa­
precisam de vento e não tivemos a mais leve rajada desde esta tarde.
rição do fantasma criado pela minha própria fantasia, comecei a me Mesmo assim, ele chegou com todas as velas enfunadas como se
levantar da cadeira - mas logo voltei a sentar, rindo do poder dema­
fosse impelido por um vento sueste, e encontrou o local de ancora­
siado vivido de minha imaginação. Efetivamente surgiu uma figura à
gem com facilidade. Tudo isso em poucos momentos. Se havia ven­
minha frente, mas tinha suficiente volume para me convencer de que
to, com certeza não era deste mundo! Será que o Sr. Harland não
tinha substância. Era o capitão do “ Diana1’, uma personagem de
gostaria de vê-lo?”
aparência jovial e totalmente marítima que se aproximou, tirou o
Compreendí a insinuação e fui correndo para o salão, que agora
quepe, levantou-o em saudação, e disse:
estava invadido pelos odores sufocantes de fumaça e uísque. O Sr.
“ É um belo espécime o iate que ancorou logo atrás de nós. Está
Harland estava lá, bebendo e conversando animadamente com o Dr.
todo iluminado. Já o viu?1'
Brayle, enquanto o secretário ouvia e observava. Expliquei por que
“ Não", respondí, e me virei na direção para onde ele apon­
tinha ousado interromper a conversa, e eles me acompanharam até o
tava. Uma exclamação involuntária escapou de meus lábios. A
convés. O estranho iate parecia mais desconcertante e brilhante do
mais ou menos meia milha à nossa retaguarda, flutuava uma es­
que nunca, tendo o céu ficado um pouco nublado; quando nós todos,
cuna de proporções belíssimas e graça encantadora, delineada da
inclusive o capitão, nos curvamos por sobre a amurada para olhar a
popa à proa por uma delicada Unha de lâmpadas elétricas, como
brilhante silhueta do iate, ouvimos o som de uma música deliciosa e
se estivesse decorada para um grande festival e apresentando um
de vozes cantando, som que flutuava por sobre o mar calmo.
espetáculo de notável brilho na escuridão da noite que avança­
va. Podíamos ver pessoas trabalhando ativamente no convés — as “ É o brinquedo de algum milionário” , disse o Sr. Harland. “ Foi
velas foram baixadas e rapidamente colhidas - mas a trêmula radiân- primorosamente construído, os veleiros sempre são mais elegantes
cia continuava iluminando cada mastro e cada verga, fazendo todo o que os iates a vapor, embora sejam bem menos úteis. Acho que ele
barco parecer desenhado no ar com pontos de fogo. Fiquei de pé ficará aqui nesta calmaria por um dia ou dois” .
olhando a maravilhosa visão em silencioso espanto e admiração, “ É espantoso que tenha conseguido chegar aqui” , disse o capitão.
com o capitão ao meu lado. Foi ele quem primeiro quebrou o silên­ “ Não havia vento algum” .
cio. O Sr. Harland parecia estar achando graça.
“ Não posso compreender” , disse ele com ar perplexo. “Ninguém “Deve ter havido algum vento. Deirick” , respondeu ele. “ Apenas
ouviu o menor barulho a não ser quando ele lançou a âncora e mes­ não era suficientemente impetuoso para um marinheiro empedernido
mo isso foi feito quase em silêncio. Como ele deu a volta pelo pro­ como você conseguir senti-lo” .
montório ali adiante tão de repente é um mistério para mim! Afinal, “ Não havia o menor sopro” , afirmou Denick com firmeza. “ Nem
eu estava atento, de guarda” . o bastante para mover uma mecha de cabelo na cabeça de uma
“Ele parece grande demais para um barco a vela, não acha?” criança” .
Perguntei. “ Então como ele chegou aqui?” Perguntou o Dr. Brayle.

( 56) [57]
As sobrancelhas do capitão Derrick se arquearam, expressando só havia traços indistintos e borrados de sua silhueta negra. A rapi­
sua incapacidade de resolver o enigma. dez com que se apagou o brilho intenso da escuna nos espantou e
“ Acabo de dizer que se havia vento, não era deste mundo. . . ” fez o capitão Derrick murmurar que “era muito esquisito” .
O Sr. Harland virou-se rapidamente para ele. “ Isso é que os mímicos chamam “ mudança rápida” , disse o Sr.
“Bem, não existe vento de outros mundos que possa perturbar Harland com uma risada. “ Acabou o espetáculo desta noite. Vamos
a nossa atmosfera” , disse ele. “Ora, ora, Derrick, você não vai dizer nos recolher. Amanhã de manhã tentaremos travar conhecimento
que aquele iate é um fantasma, vai? Uma espécie de “ Holandês com o recém-chegado e descobrir, para acalmar o capitão, como ele
Voador” fantasmagórico?” conseguiu velejar sem vento” .
O capitão Derrick deu um sorriso largo. Demos-nos boa noite e nos dirigimos para nossos respectivos
“ Não, senhor, não é o caso! Existe carne e sangue a bordo da­ aposentos.
quele barco. Vi homens lidando com as lonas, e isso eu conheço. Quando me encontrei sozinha na luxuosa suíte a mim destinada, a
Mas como o veleiro navegou até aqui é algo que me intriga” . primeira coisa que fiz foi abrir uma das escotilhas e ouvir a música
“Todas aquelas tampadas elétricas me parecem uma ostentação” , que continuava a vir do misterioso iate. Era uma melodia cheia de
disse o Dr. Brayle. “ Acho que o proprietário deseja apregoar sua ri­ mágica doçura e ritmo; eu não tinha certeza se ela era executada por
queza” . instrumentos de corda ou por vozes. Subi no sofá da saleta para po­
“Não faz sentido” , disse o Sr. Harland, com certa frieza. “ Con­ der olhar pela escotilha para o mar, ondulando bem perto, e trazen­
cordo em que vivemos na era da propaganda, mas não consigo ima­ do, conforme eu fantasiava, uma nova cadência com cada pequena
ginar o dono daquele barco como uma Pílula, Emplastro ou Chá Es­ onda, um fiapo de melodia ainda mais cheio de ternura. Havia um
pecial. Talvez ele queira se divertir - pode ser o aniversário da es­ odor sutil no ar salgado, como o perfume de rosas misturado ao fres­
posa ou dos filhos dele; podem existir vários motivos inocentes para cor das águas que mal se moviam. Julguei que o perfume vinha das
toda essa iluminação e ele pode estar tão longe de pensar em publi­ lindas flores que adornavam meus aposentos em grande número.
cidade quanto você ou eu” . Não me era possível ver a escuna de onde estava, mas podia ouvir a
“É verdade” , concordou o Dr. Brayle. fazendo uma concessão música, o que bastava para meu deleite imediato.
imediata ao humor do patrão. “ Mas hoje em dia as pessoas fazem Deixando a escotilha aberta, deitei no sofá que estava junto a ela.
tantas coisas esquisitas para conseguir notoriedade que fica quase e me ajeitei para continuar escutando. O suave sopro do mar me aca­
impossível não desconfiar delas. Tem gente que chega a se matar pa­ riciava o rosto, e a cada respiração as delicadas vibrações da encan­
ra ser notícia” . tadora harmonia iam e vinham - era como se os delicados sons esti­
“ Ainda bem que eles não podem ouvir o que estamos dizendo” vessem sendo tocados ou cantados só para mim. Num delicioso lan-
replicou o Sr. Harland “ou poderíam mudar dc idéia e continuar vi­ gor adormecí com os olhos abertos - perdendo-me num labirinto de
vendo. Não acho que valha a pena se enforcar para ser chamado de sonhos e fantasias felizes que surgiram espontaneamente, até que a
idiota!” música se desvaneceu suavemente como uma onda deixando a praia
Durante esse diálogo eu me mantive em silêncio, olhando a escu­ e desapareceu de todo. Esperei alguns minutos, prestando atenção
na iluminada com absorta fascinação. Repentinamente, enquanto eu sem respirar, com medo que começasse de novo e eu perdesse uma
olhava, todos os pontos de luz que, por assim dizer, eram jóias or­ nota; como nada mais ouvi, fechei a escotilha com cuidado e puxei a
namentando a escuna, se apagaram, ficando acesas apenas as luzes cortina. Fiz isso com certa relutância, como se estivesse de algum
normais de um barco durante a noite, brilhando fracamente aqui e modo afastando um amigo; meio que pedi desculpas por esse vago
ali, como olhos vermelhos. O resto do barco ficou quase invisível; sentimento, lembrando a mim mesma que já era muito tarde. Já era

(58J (59]
quase meia-noite. Eu tinha planejado escrever uma carta a Frances-
ca, mas me sentia sem vontade para qualquer coisa a não ser o re­
pouso. A música que tinha me extasiado tanto ainda estava em meus
ouvidos e fazia meu coração bater com uma sensação rítmica de ale­
gria; uma cálida atmosfera de paz e conforto me envolveu quando
finalmente me deitei na luxuosa cama e mergulhei na terra do sono. III
Ah, que terra era aquela, a Terra do Sono! Uma terra “ensombrecida
por asas” onde, entre as muitas maravilhas mutáveis e tremeluzentes O ANJO DO SONHO
de luz e sombra, ergue-se o Palácio da Visão, imponente e belo, com
suas portas de ouro abertas ao viandante! Penetrei nele aquela noite A Voz que me falava era cristalina, parecia vir pelo ar, abrindo o
muitas e muitas vezes do mesmo modo que em ocasiões anteriores - espaço com doçura. Era suave e ressonante, e a ternura que continha
havia milhões de salas cheias de maravilhas ainda não visitadas. fazia pensar num anjo cantando por entre lágrimas. Eu jamais tinha
Entre elas me encontrei, sob um domo que parecia de puro cristal ouvido algo tão puro e compassivo; todo o meu ser tentou se elevar
iluminado pelo fogo, ouvindo o invisível Uno que, falando de gran­ na direção da sublime altitude onde parecia estar oculta a fonte da­
de altura, discorria sobre o Amor. quelas melodiosas palavras.
“Ó Alma que vagueia na região do sono e dos sonhos!” Disse a
Voz. “De que vale toda a tua busca e labuta sem o Amor? Por que
estás perdida no Silêncio sem uma Canção?"
Olhei para o alto. querendo encontrar aquele que comigo falava,
mas nada pude ver.
“ Na grande sinfonia coral da Vida” , continuou a Voz, “o tom
fundamental da melodia dominante é o Amor! Sem esse tom funda­
mental não existe a música - só existe mudez onde deveria haver
som - há discórdia onde deveria haver harmonia. Amor! A única
nota vibrante que faz todo o universo se mover. Amor, a respiração
de Deus, a pulsação de Seu Ser, a glória de Sua obra, a realização
de Sua etema Alegria - o Amor, só o Amor, é a trama, a textura e a
vestimenta da deleitosa imortalidade! Ó Alma que buscas o caminho
da sabedoria e do poder, que pensas a respeito do Amor?”
Estremecí e permanecí muda. Parecia-me estar rodeada de Pre­
senças solenes cuja proximidade eu podia sentir roas não ver. e des­
conhecendo quem falava comigo tive receio de responder.
“No longínquo Passado, há milhares de eras.” , prosseguiu a Voz,
“ o mundo que denominamos Estrela Infeliz era uma nota perfeita de
uma escala perfeita. Estava em harmonia com a Divina Sinfonia.
Mas, com o passar dos séculos, ela foi ficando para trás; tinha caído
da Luz nas Trevas. E ao invés de reeguer-se até a Luz, transformou-

[60] [61]
se numa nota discordante, contrária à eterna Harmonia. Escolheu o Novamente o silêncio. Novamente a luz ofuscante e tremeluzente,
Ódio como tom fundamental, não o Amor! Cada nação inveja ou des­ brilhando como se estivesse numa atmosfera de ouro puro.
preza a outra, cada homem luta contra seu irmão e inveja qualquer “ O que o mundo procura mais ardentemente?” Perguntou a Voz.
pequena vantagem de seu próximo; pior que tudo, cada Fé amaldiçoa "O Amor de Deus? Ou o Amor do Eu? Se ele buscar o primeiro, to­
as demais, e todas blasfemam invocando Deus para que comprove a das as coisas do céu e da terra serão acrescentadas ao seu desejo. Se
maldição e a cumpra! Ódio, ao invés do Amor, essa é a nota falsa é o segundo, tudo lhe será tirado, até mesmo o que ele já possui!”
tangida pelo mísero mundo-Terfa, afastando-se de toda concórdia Como eu já havia imaginado, não tive resposta, mas cobri os
com esférica naturalidade! Ódio que prefere a falsidade à verdade, a olhos com as duas mãos e me ajoelhei diante do meu interlocutor in­
maldade à bondade, o egoísmo ã generosidade! Ó Estrela Infeliz! visível, como se o fizesse diante de um Grande Espírito em seu tro­
Condenada a perecer em breve! Gira, gira em teus derradeiros mo­ no.
mentos, volta ao Ascendente Divino antes que seja tarde demais!" “ Não é Amor o Amor a Si Mesmo" continuou a Voz. “ O Eu é
Eu ouvia, e uma sensação de desesperançado temor tomou conta a imagem, não Deus. Gostarias de ter a Vida Eterna? Pois encontra
de mim. Tentei falar, e só um quase inaudível murmúrio saiu de o segredo do Amor Eterno! O Amor que pode mover os mundos e
meus lábios. criar universos - o amor do anjo pelo anjo. da alma pela alma, de
“Por que” , murmurei para mim mesma, pois não acreditava que Deus por Deus!"
alguém pudesse ou quisesse me ouvir, "por que nós e nosso mundo Levantei a cabeça, descobrindo os olhos, e olhei para cima, mas
deveriamos perecer? Sabíamos tão pouco no início, sabemos tão nada pude ver além da penetrante luz que me aprisionava como se
pouco agora - será totalmente culpa nossa se perdemos o caminho?" fosse um círculo de fogo.
Seguiu-se uma pausa silenciosa. Uma sensação vaga. impalpável, “O Amor é o poder que apanha as coisas da eternidade e as faz
de confinamento pareceu me cercar por todos os lados - pensei estar suas” disse a Voz em tons fortes de música penetrante. “Ele cons­
aprisionada entre paredes invisíveis. Então, repentinamente, a densi­ trói seu sistema solar, suas estrelas e planetas com um único pensa­
dade daquela atmosfera foi atingida por uma luz ofuscante, como se mento! Desperta toda a beleza, todas as delícias com um único sorri­
fossem duas asas iluminadas, mas não pude ver nenhuma forma real so! Não vive só o agora, mas vive para sempre num céu de pura ale­
ou sequer a sugestão de uma substância. Os raios brilhantes eram gria onde mil anos não são mais que um dia de verão! Para o Amor
tudo que eu via. E a Voz de novo se fez ouvir com grave doçura e não existe tempo, espaço, idade ou morte! O que ele dá recebe de
um pouco de reprovação. volta, o que ele anseia vem até ele sem necessidade de procura;
“Quem fala de perder o caminho?” Perguntou ela, “quando o Deus nada recusa à alma fiel!”
caminho é e sempre foi claro e simples? A natureza ensina o cami­ Continuei ajoelhada, tentando descobrir se aquelas palavras se
nho - a Lei e a Ordem o mantêm. Obedece e viverás; desobedece e destinavam só a mim ou a algum outro ouvinte, pois não estava certa
morrerás! Não há outra orientação para sair do Caos além dessa! de não ter uma companhia naquela estranha experiência.
Quem é que fala de perder o caminho, quando o caminho é, sempre “ Só existe um Caminho da Vida” , continuou a Voz, “ só um cami­
foi e sempre será claro e simples?” nho, o Caminho do Amor! Quem ama com grandeza vive grandiosa­
Estendi involuntariamente as mãos. Meus olhos se encheram de mente; quem menospreza o Amor está morto em vida. Entrega toda
lágrimas. tua alma e teu coração ao Amor se queres ser imortal! Pois sem amor
“Ó anjo invisível!” Supliqueí. “Perdoa minha fraqueza e falta de procurarás Deus por toda a eternidade sem jamais encontrá-Lo!”
sabedoria! Como pode o mundo ser salvo ou consolado por um amor Esperei. Houve um breve silêncio. Então uma onda musical inun­
que ele nunca encontra!” dou meus ouvidos - a espuma de uma melodia ritmada que subia e

[62] [63]
descia numa cadência solene de sons compassados. Erguendo os grante, ao meu alcance. Abaixei-me, pegando-a pressurosamente.
olhos com medo e reverência, vi a luz bruxuleante começar a sepa­ Certamente era uma rosa real de algum jardim orvalhado da Terra, e
rar-se em incontáveis gradações de cores delicadas até formar o que não um sonho!
parecia uma rede brilhante de cores irisadas interligadas com ouro “Uma dentre todas as rosas do Céu!” Disse a Voz mística com
puro. Era como se milhões de linhas tivessem sido desenhadas com um tom de cativante suavidade. “ Uma só - imortal, que nunca perde
maravilhosa precisão dando causa a interseções ou “ encontros recí­ o viço! Uma só, mas suficiente para todos! Uma prova de amor vin­
procos” em determinados pontos, transformando-se em variadas e da de todos os milhões de amores de homens e mulheres! Uma sò,
ofuscantes formas, radiosas demais para que minha visão sonhadora mas suficiente para a Eternidade! Por quanto tempo a rosa esperou
pudesse distingui-las. Mesmo assim me senti impelida a estudar uma para desabrochar, quanto tempo o amor esperou pela realização, só
seção em particular das linhas que brilhavam diante de mim com os anjos dos registros o sabem! Rosas assim só desabrocham uma
uma espécie de pálido brilho; enquanto eu observava, aquela parte vez nas vastidões do espaço e do tempo; um amor assim só acontece
variava em “ padrões” cada vez mais complexos de luz e cor, se é uma vez num Universo de mundos!”
que isso expressa a verdade; depois, gradativamente, voltou à com­ Eu ouvia tremendo, segurando a rosa junto ao peito com as duas
binação anterior, mais simples. mãos;
“ Assim são tecidos e entretecidos os destinos humanos” , disse a “ O Estrela Infeliz!” Continuou a Voz, “ que será de ti se esquece­
Voz. “Eles nascem nos infinitos e infindáveis pontos de luz, cres­ res o caminho do Amor! Ó pequena esfera de beleza e deleite, por
cem, partem e se misturam, até que dois seres mutuamente destina­ que teu povo é tão cego? Ah, se seus olhos se elevassem para o
dos se tornem um. Muitas vezes eles ficam emaranhados e perturba­ Céu! Seus corações para a alegria! Suas almas para o amor! Quem
dos por influências externas - mas são interferências que eles mes­ ensombrece a vida com a tristeza? Quem cria a ilusão da morte?”
mos permitiram por fraqueza ou medo. O emaranhado é sempre des­ De repente a voz me voltou.
feito pelo Tempo - os ftos partidos são novamente unidos na eterna “Com certeza devemos todos morrer!” Disse eu, quase num sus­
trama do Espirito e da Matéria. Nenhum poder humano ou divino surro.
pode separar totalmente as vidas que Deus ordenou que se juntas­ “ Não é verdade!” Disse a Voz com autoridade. “ Não existe
sem. O comando do homem não é o comando de Deus! Os fios im­ morte! Deus está vivo e Dele só a Vida pode emanar!”
próprios do tecido se paitem, não importa como nem quando! O Fiquei quieta, tocada por uma doce e súbita reverência.
Amor deve ser ternura mas também resolução! O Amor não deve “ Não pode vir a morte da Vida Eterna” , continuou a Voz, “da
desviar-se de seu compromisso! O Amor tem que ser Tudo ou Na­ Vida Eterna só flui a Eterna Alegria. Existe mudança, é verdade,
da!” deve haver mudança para formas mais elevadas e planos mais gran­
A trama de luz formada por raios dourados e cheios de vida tre­ diosos —mas a Vida e o Amor continuam sendo o que são, indestru­
mulou diante de meus olhos, até que de repente pareceu transformar- tíveis - são os mesmos hoje e sempre, como ontem!”
se num mar ondulado de belas chamas com ondas que se moviam de Inclinei o rosto para a rosa que estava junto ao meu peito; seu
um lado para outro, com cristas espumantes de matizes prismáticos perfume era deliciosamente suave e penetrante; quase inconsciente­
como arco-íris decompostos. Onda após onda passava e se quebrava mente beijei suas pétalas. Quando fiz esse gesto, um resplendor ce­
em borrifos de brilhante cor de ametista, e enquanto eu observava gante se derramou pelo ar como uma chuva e novamente ouvi os
essa massa móvel de cores radiosas com absorto fascínio, uma onda misteriosos acordes da melodia ritmada subindo e descendo como as
brilhante como o rubor de uma aurora de verão veio em minha dire­ ondas distantes do mar. A Voz grave e afetuosa novamente se fez
ção e depois retrocedeu, deixando uma única rosa, vermelha e fra- ouvir:

(641 [ 65]
“ Levanta-te e vai!" Disse ela com um tom de emocionante bon­ minha volta a não ser. quem sabe. um raio de luz matinal se derra­
dade. “ Guarda a dádiva que Deus te enviou! Toma aquilo que é teu! mando para dentro do camarote pela escotilha aberta e que podería
Vai ao encontro do que tem te procurado dolorosamente por muitos ser um reflexo da glória mística que me havia envolvido enquanto
séculos! Não te afastes outra vez. nem por tua própria vontade nem dormia. Foi então que me dei conta do lugar onde estava, mas me
pela vontade de outros, para evitar que prevaleçam antigos erros! sentia tão convencida da realidade do que havia visto e ouvido que
Vai da visão para a vigília! Da noite para o dia! Da aparente morte olhei ao meu redor procurando em toda parte a rosa vermelha tão
para a vida! Da solidão para o amor! E guarda em teu coração a encantadora que eu havia trazido da Terra dos Sonhos, pois ainda
mensagem de um Sonho!” podia sentir seu caule entre meus dedos. Ela tinha desaparecido, mas
A luz que palpitava ao meu redor como duas asas lentamente em­ havia uma delicada fragrancia no ar como se ela estivesse desabro­
palideceu e com a mesma lentidão se desfez, mas mesmo assim eu chando ao meu lado, um perfume tão refinado que nada podería des­
sentia que devia continuar ajoelhada, esperando. Essa sensação de crever seu odor sutilmente penetrante. Cada palavra pronunciada
assombrada reverência e tremores foi amainando aos poucos e então, pela Voz estava vividamente impressa em minha mente, e mais vivi­
pondo-me de pé. segurando a rosa mística com uma das mãos ainda da ainda era a lembrança da mão que havia segurado a minha e me
contra o coração, virei-me e tateei procurando o caminho através da guiado do sono para o despertar. Eu ainda estava consciente do seu
escuridão que me envolvia. Senti que alguém pegava minha outra calor, mas me sentia perturbada, e ao mesmo tempo tranquilizada,
mão num aperto quente e pressuroso, e fui guiada com um toque in­ pela lembrança da leve carícia quando ela finalmente largou a mi­
finitamente temo e ao mesmo tempo dominador, que não hesitei em nha. Deitada inerte em meu leito por mais alguns momentos, pen­
obedecer. Passo a passo fui andando com uma estranha sensação de sando em tudo que havia acontecido durante a noite, me perguntei se
alegre confiança em meu companheiro invisível: a escuridão e a a obstinada paciência de minha alma, sempre voltada para a realiza­
distância não me causaram terror algum. Enquanto andava com a ção de um amor mais elevado que qualquer atração terrena, estaria
mão firmemente presa naquele aperto firme mas gentil, meus pensa­ prestes a ser recompensada. Eu sabia, tinha sabido sempre, que tudo
mentos ficaram subitamente claros como um céu de compreensão; que DESEJAMOS com firmeza nos é dado no devido tempo; e que
olhei para trãs para os anos de trabalho se estendendo como um ári­ as preces ditas com certeza e ardor sempre são ouvidas; o único en­
do deserto destituído do alívio de um só riacho de frescas ãguas, e vi trave ao exercício desse poder é a dúvida a respeito da coisa que de­
tudo que havia faltado em minha vida. tudo que eu havia procurado sejamos tão ardentemente nos ser benéfica ou nociva. Pois é certo
ardentemente sem nenhum reconhecimento claro de meus objetivos, que o que buscamos nós encontramos. Eu havia procurado longa
confiando apenas no infinito poder de Deus e da Natureza para que e incansavelmente pela chave do segredo da vida imperecível e do
sanassem meu ser incompleto pela perfeição do eterno Todo. E ago­ amor eterno - seria o mistério finalmente revelado? Eu não podería
ra - teña a resposta chegado? Seja como for, eu já não me sentia só. saber - e não ousei abrigar esse pensamento por mais tempo. Liber­
Alguém que parecia ser a outra metade natural de meu ser estava ao tando a mente da teia de maravilhamento e perplexidade em que ti­
meu lado, nas sombras do sono. Eu podería ter falado, mas temi nha sido aprisionada pelas visões da noite, fiquei em atitude passiva
quebrar o encanto. e receptiva - nada exigindo, nada temendo, nada esperando, mas
E continuei a caminhada por muito tempo, sem me importar com a simplesmente contente com a Vida real, sentindo que a Vida deveria
duração da jornada, desejando mesmo, de modo vago, que ela se ser o resultado e a expressão do perfeito Amor.
prolongasse para sempre, quando uma luz desmaiada penetrou as
trevas - vi um brilho azul e cinza, depois branco, depois rosado.
Lntão acordei para nada encontrar que fosse de caráter visionário à

[67]
IV

UM RAMALHETE DE URZES

Estava uma manhã gloriosa, tão quente que subi ao convés sem
chapéu ou capa, feliz por ter o Sol em meus cabelos e a brisa suave
acariciando meu rosto, O cenário era perfeitamente encantador; as
montanhas estavam banhadas por um brilho rosa-púrpura refletido
pela pompa do Sol que acabara de subir no céu; a água estava calma
como um lago do interior e todos os mastros e vergas do “ Diana” se
refletiam nela como num espelho. Um bando de gaivotas voava em
volta do barco, como naves encantadas - algumas subiam de vez em
quando com gritos agudos para voar graciosamente no ar lá de cima,
e pousavam de novo com asas de prata no azul translúcido. En­
quanto eu estava fitando com deleite a beleza que me envolvia por
todos os lados, o capitão Derrick me chamou de sua ponte, onde es­
tava de braços cruzados, olhando para baixo.
“ Bom dia! O que você pensa do mistério agora?”
“Mistério?” Então o que ele queria dizer ficou claro. “ Ah. o iate
que ancorou a noite passada! Onde está ele?"
“Pois é isso!” A expressão no rosto do capitão valia por muitos
livros. “ Onde está ele?”
Por estranho que pareça, eu não tinha mais pensado no estranho
iate até aquele momento, embora a música que vinha dele tivesse si­
do a última coisa em meus ouvidos antes de adormecer - e sonhar! E
agora - não havia mais escuna! Nem um sinal dela em parte alguma.
Olhei para o capitão em sua ponte e sorri.
“ Ele deve ter partido bem cedo!"
As sobrancelhas hirsutas do capitão se franziram com seriedade.
“ Claro! Tão cedo que o vigia que estava a postos não conseguiu
ver a partida. Ele deve ter perdido uma hora e o iate ganho o mesmo
tempo.”

[ 69]
“ É muito estranho, não é mesmo?” Perguntei. “ Posso subir até a O capitão Derrick riu jovialmente.
ponte?” “ Desculpe, Jamie! Então você viu o iate?"
“ Claro.” “Sim, eu o vi muitas vezes. E um verdadeiro lorde.”
Subi os pequenos degraus e fiquei ao lado dele, olhando para on­ Sorri ao perguntar: “ o iate?”
de o mar e o céu se encontravam na distância. “Sim, minha senhora, não faça pouco de Jamie com esses olhos
“ O que o senhor pensa de tudo isso?” Perguntei, rindo. “ Era um que parecem Sol brilhando na água! Jamie não é um bobo quando
iate ou um fantasma?” não quer; o iate é um lorde e o lorde é o iate, pois é o lorde quem
O capitão não achou graça. Tinha a testa franzida por causa de paga por tudo.”
sua perplexa consideração dos fatos. O capitão Derrick se mostrou ¿mediatamente interessado.
“Não era um fantasma” , disse ele, “mas suas manobras fo­ “O lorde? O dono do iate, você quer dizer?”
ram fantasmagóricas. Ou seja, ele não fez nenhum barulho, e na­ Jamie acenou que sim. “ Isso mesmo!” E continuou contando seu
vegou sem vento. O Sr. Harland pode dizer o que quiser que eu estoque de ovos frescos com grande cuidado, colocando-os no cesto
fico com minha opinião. A escuna não tinha motor, tinha um gran­ do despenseiro.
de velame, e entrou na barra com todas elas enfunadas como se “ Como ele se chama?"
estivesse sendo impelida por um vento sueste muito forte. Não ti­ “ Oh, é muito difícil de dizer", respondeu Jamie com um olhar
vemos vento a noite inteira, mas como vê o iate partiu, sem que astucioso. "Não sei pronunciar direito” .
nenhum tripulante nosso tenha ouvido o ruído da âncora sendo le­ “ Então pode pronunciar errado mesmo?” Sugeri.
vantada. Como ele partiu e quando partiu é coisa que não consigo “ Não posso, não!" Respondeu o rapaz levantando os olhos escu­
compreender!” ros e penetrantes para o meu rosto. “ Eu não me atrevo!”
Naquele momento vimos um pequeno bote a remos que vinha da “ Será que esse lorde é um homem tão terrível assim?” Perguntou
praia em nossa direção, com um só homem dentro, que se curvava o capitão Derrick jocosamente.
sobre os remos de modo lento e displicente, como se não gostasse do A expressão do rosto de Jamie era impenetrável.
que fazia. “ O senhor irá ver o iate por si mesmo", disse ele. “ Será impossí­
“ Olã!” Gritou o capitão. vel não vê-lo nas águas que se estendem daqui até Skye” .
O homem olhou para cima e acenou em resposta. Dois de nossos Ele se curvou e ficou mexendo em seu balaio, e tirou de dentro
marinheiros jogaram uma corda quando o bote encostou no iate. um ramalhete de flores rosadas de urzes, o delicado tipo de flores
Ele disse com voz suave, lenta, em dialeto das Terras Altas quase que só são encontradas em locais pantanosos e cheios de musgo.
incompreensível, que vinha trazendo manteiga e ovos frescos para “ O lorde queria quantas dessas flores eu pudesse encontrar” disse
vender. O encarregado da cozinha foi chamado e começou a barga­ ele, “ mas só consegui este raminho. A senhora aceita usá-las para
nhar. Fiquei ouvindo e olhando, divertida e interessada, e acabei su­ ter boa sorte?”
gerindo ao capitão que ele poderia perguntar ao homem se tinha Peguei o ramalhete.
visto o iate cujos movimentos pareciam tão desconcertantes e inex­ “Isso é um presente?" Perguntei sorrindo.
plicáveis. O capitão aceitou a idéia de imediato. “ Eu nunca aceitaria dinheiro por elas" respondeu ele, com uma
"Diga-me, Donald" começou ele com ar simpático, “ você chegou curiosa expressão que parecia algo como o medo perpassando as fei­
a ver a grande escuna que chegou por volta das dez da noite?” ções morenas e castigadas pelo Sol. “ Isso é trabalho das fadas” .
“ Vi sim!" Foi a arrastada resposta. “ Só que meu nome não é Prendí o ramalhete em meu vestido. Quando fiz isso, ele fez um
Donald, é Jamie” . cumprimento com seu gorro.

171]
“Bom dia para todos! Não verei mais a senhora por aqui!” “ É mesmo, esquecí!” Ele passou a mão na testa com um gesto
"Como não? Como você sabe?” cansado, depois perguntou: “ você dormiu bem?”
"Um caminho de entrada, outro de saída!” Disse ele com a voz “ Espléndidamente! Preciso lhe agradecer por meu encantador
baixando até parecer um murmúrio meditativo. "Uma via para o camarote - são aposentos luxuosos até demais! São dignos de uma
oeste, outra para o leste! E um desvio até o local do encontro! Ah, princesa” .
sim! Você navegará sem problemas!” “ Por que uma princesa?” Perguntou ele com ironia. “ Nem sem­
“ Sem nenhum vento, não é mesmo?” Interpôs o capitão Denick. pre as princesas são personagens agradáveis. Conheço uma ou duas
“ Como seu amigo o “ lorde?” Como é que ele consegue isso?” que são gordas, feias e idiotas. Algumas são sujas como pessoas e
Jamie olhou para os lados com ar assustado, como um animal fa­ em seus hábitos. Há certas “princesas” na Europa que deveriam ser
rejando o perigo. Colocando o balaio no ombro, deu-nos um adeus lavadas e desinfetadas antes de poderem entrar em qualquer quarto
apressado e desceu a escada de corda sem mais uma palavra; logo de qualquer lugar!”
embarcou em seu bote e se afastou remando determinadamente sem Não pude deixar de rir.
olhar para trás uma vez sequer. “ Puxa. o senhor é muito cáustico!”
“ Um sujeito selvagem!” Disse o capitão. “Muitos desses rapazes “ Absolutamente. Gosto de coisas exatas. O termo “ princesa" su­
ficam um pouco birutas por viverem tanto tempo sozinhos em luga­ gere um conto de fadas às mentes ingênuas. Eu não tenho uma
res desolados como Mull, nada vendo a não ser nuvens, montanhas e mente ingênua. Sei que as princesas dos contos de fadas não existem
mar. Mas ele parece saber alguma coisa sobre aquele iate!” —a menos que você seja uma delas.”
"Aquele iate está entalado em sua garganta, capitão!” Disse eu “ Eu!” Exclamei surpreendida. “ Estou muito longe d e ..
jocosamente. “ Estou com muita pena do senhor! De qualquer modo, “ Bem. você ê uma sonhadora!” Disse ele: descansando os braços
me aventuro a dizer que quando vermos a escuna de novo, descobri­ na amurada deixou de me olhar para contemplar o mar ensolarado.
remos que o mistério é muito simples” . “ Você não vive neste mundo conosco, só pensa que vive - no fundo
“Terá que ser muito simples ou muito complexo!” , respondeu ele de sua mente sabe que não vive aqui. Você sonha, e sua vida é a de
com uma risada. "Vou precisar aprender muita coisa para saber co­ uma visão, tão-somente. Não sei se gostaria de vê-la acordar. Isso
mo um barco a vela pode ter a velocidade de um vapor, sem vento. porque enquanto você sonhar acreditará nos contos de fadas: a prin­
Bom dia, senhor!" cesa de Hans Andersen e dos Irmãos Grimm está aprovada - por is­
Nós dois nos voltamos para saudar o Sr. Harland, que acabava de so você deve estar cercada de lindas coisas - música, rosas e coisas
chegar ao convés. Ele parecia doente e preocupado, como se tivesse parecidas, para manter essa delicada ilusão".
dormido mal; mostrou pouco interesse pela história da saída repenti­ Eu me senti surpresa e um pouco vexada com esse seu modo de
na do estranho iate. falar. Por que, mesmo considerando a lisonja subjacente a suas pala­
"Isso a diverte, não é?” Disse ele se dirigindo a mim, com um vras, ele me chamaria “ sonhadora?” Eu havia trabalhado para me
pequeno sorriso cínico franzindo a testa e os olhos. “Tudo que não manter tão praticamente quanto ele no mundo, e se os resultados fi­
possa ser imediatamente explicado é sempre interessante e deleitoso nanceiros não eram os mesmos, meus objetivos nunca haviam sido
para uma mulher! E por isso que os “médiuns” espiritualistas ga­ ligados ao acúmulo de dinheiro. Ele havia conseguido uma enorme
nham tanto dinheiro. Eles executam truques espertos que não podem fortuna, eu uma modesta competência; ele era velho e eu jovem: ele
ser explicados, daí o sucesso que têm entre os crédulos” . era doente e infeliz, eu estava bem de saúde e feliz - qual de nós era
“ E bem verdade” , respondí, “mas devo dizer que não acredito em o “ sonhador?” Meus pensamentos estavam muito ocupados com sua
“médiuns” . pergunta e ele percebeu.

[72] [73]
“ Não se preocupe’’, disse ele, “ e não se ofenda com minha fran­ Contei a história, que ela ouviu com mais paciência do que usual­
queza. Minha visão da vida não é a sua, nem é provável que venha­ mente tinha por qualquer conversa em que ela não fosse o objeto
mos a olhar as coisas do mesmo ponto de vista. A sua condição é a principal.
mais invejável. Você está com boa aparência, sente-se bem, está "Isso é muito interessante!” Disse ela, com um sorriso relutante.
bem! A saúde é a melhor de todas as coisas’’. Ele parou de falar, e "Suponho que era do estranho iate que vinha a música ontem à noi­
desviando o olhar da água, olhou fixamente para mim. “ Que belo te. Fiquei acordada por causa disso. Pensei que era uma pessoa en­
ramalhete de urzes você está usando! As flores brilham como topá­ fadonha tocando gramofone num barco qualquer” .
zios iluminados” . Soltei uma risada.
Expliquei como tinha conseguido o ramalhete. “Ora, Miss Catherine!” Exclamei. "Não é possível que você pen­
“ Ah. quer dizer que você já estabeleceu uma ligação com o estra­ sasse que era um gramofone. Aquela música! Era perfeitamente en­
nho iate!” Disse ele, rindo. “ O proprietário, segundo seu amigo es­ cantadora!”
cocês. tem as mesmas flores a bordo. Sem dúvida isso é muito ro­ “ Era mesmo?" Ela enrolou melhor o feio xale cinzento em volta
mântico e excitante!” do pescoço amarelado, sentando-se na cama e me olhando. "Bem,
Durante o café da manhã, quando apareceram o Dr. Brayle e o Sr. pode ter parecido assim para você, que parece se encantar com tudo,
Swinton. todos falaram no assunto do ramalhete de urzes, até que não sei por quê! Claro que ê ótimo ter essa disposição alegre, mas
me cansei disso e senti vontade de tirá-lo do vestido e jogã-lo fora. na verdade a música me incomodou muito. E tão aborrecido ter que
Mas por alguma razão não o fiz. Olhando para minha imagem no es­ ouvir música quando se quer dormir".
pelho, vi que o colorido mas gracioso toque de cor que o ramalhete
Fiquei em silêncio, e como tinha um bordado para ocupar as mãos
emprestava ao meu vestido simples de sarja branca fazia um bonito
comecei a trabalhar nele.
contraste e resolví deixá-lo onde estava.
“ Espero que você esteja confortável a bordo” , continuou ela após
Miss Catherine não levantou para tomar café, mas mandou me
alguns momentos. “Tem tudo que precisa em sua suíte?”
chamar depois e perguntou se eu me importaria de lhe fazer um pou­
co de companhia. Eu me importava de certa forma, pois o dia estava Assegurei que tudo estava perfeito,
lindo e agradável - o "Diana” se preparava para seguir viagem - e “ Gostaria de poder dizer o mesmo!” Disse ela. “ Na verdade de­
seria mais interessante ficar no convés, onde havia ar fresco, do que testo viajar no iate, mas meu pai gosta muito, por isso tive que me
no camarote de Míss Catherine que, embora fosse amplo para um sacrificar” . Nesse ponto ela soltou mais um suspiro. Vi que ela esta­
quarto de iate, parecia muito sombrio, pois o chão não tinha tapetes, va realmente convencida de que estava se imolando no altar da obe­
a cama não tinha cortinado e não havia enfeites em parte alguma - diência filial. “ Você deve saber que ele está muito doente” , conti­
nada além de algumas prateleiras na parede onde havja vidros de nuou ela, “e que não vai viver muito tempo” .
remédios de cor preta e branca, com a monotonia quebrada por al­ “Ele me disse alguma coisa a respeito” , respondí, “e digo agora
gumas caixinhas de pílulas. Entretanto, eu sentia pena daquela pobre o que disse a ele, que os médicos podem estar enganados” .
mulher que tinha escolhido fazer de sua vida um martírio para os “Não, eles não podem estar enganados neste caso” , declarou ela
nervos, um rosário real ou imaginário de dores diversas, por isso fui balançando a cabeça com ar desanimado. "Eles conhecem os sinto­
ter com ela, determinada a fazer o que pudesse para alegrá-la e ti- mas e só podem adiar o fim por algum tempo. Estou muito contente
rá-la da sua condição de depressão crônica. Logo que entrei no ca­ porque o Dr, Brayle pôde vir conosco nesta viagem” .
marote ela disse: "Suponho que ele está sendo bem pago por seus serviços” , dis­
"Onde você conseguiu esse ramo de urzes coloridas?” se eu.

I 741 [75]
“Oitocentos guinéus” , respondeu ela. “Mas veja, ele teve que Ela parecia tão abatida e descontrolada que fiquei com muita pena.
deixar seus pacientes em Londres, e encontrar outro médico para “ Certamente você não pensa assim lá no fundo de seu coração?”
atendê-los durante sua ausência. Ele é muito competente e tem mui­ Disse eu gentilmente. “Eu ficaria muito triste se pensasse que você
tos pacientes. Não sei o que faria sem ele!” realmente acredita no que diz” .
“ Ele tem algum tratamento especial para você?” Perguntei. “ Pois pode ter tanta pena de mim quanto quiser” . A pobre criatu­
“ Ah, sim, ele usa a eletricidade. Tem uma bateria maravilhosa ra limpou as lágrimas dos olhos. “ Preciso que alguém tenha de mim!
que mandou instalar no camarote ao lado; enquanto eu seguro duas Eu lhe garanto que minha vida é uma perfeita tortura. Todos os dias
alavancas, ele liga a batería e passa eletricidade em todo o meu cor­ me pergunto por quanto tempo poderei suportá-la. Tenho pensa­
po. Sempre me sinto melhor na hora, mas o efeito passa logo” . mentos tão terríveis! Imagino as coisas horríveis que estão aconte­
Olhei para ela com um sorriso. cendo a diferentes pessoas em todo o mundo, sem ninguém que as
“ É, acho que sim. Cara senhorita, você acredita mesmo nesse ajude ou cuide delas, e quase grito pedindo misericórdia. Não
método de aplicar a eletricidade?” adiantaria nada gritar - mas o grito está em minha alma mesmo as­
“ Claro que sim!” Respondeu ela. "Sabe, é tudo uma questão do sim. Pessoas nas cadeias, em naufrágios, morrendo aos poucos nos
que se chama bacteriologia atualmente. A medicina é inútil a menos hospitais, sem nada da de bom, nenhuma esperança em suas vidas -
que consiga matar os micróbios que nos devoram por dentro e por e nenhum sinal de conforto por parte do Deus que as Igrejas vene­
fora. Não existe nenhum remédio que consiga isso. A eletricidade é ram! É horroroso! Não entendo como alguém pode fazer alguma coi­
o único meio. Dá a esses brutos um bom choque” . A pobre moça sa ou ambicionar seja o que for - tudo isso é um puro desperdício de
soltou uma risada fraca, dizendo: “ e mata muitos deles, mas não to­ energia. Uma das razões que me fizeram tão ansiosa para que você
dos. E um plano horroroso da criação, você não acha? Tomando os fizesse esta viagem conosco foi o fato de estar sempre tão feliz e
seres humanos pouco mais do que um campo de caça para alimentar contente - gostaria de saber por quê? Suponho que seja uma questão
essas criaturas invisíveis?” de temperamento - mas diga-me por quê!”
“ Depende de como você encara o caso” , disse eu, largando o Ela estendeu a mão e tocou a minha numa atitude de apelo. Tomei
bordado e tentando fixar sua atenção, algo sempre difícil. “ Nós, se­ seus dedos cansados e exangües em minha mão e apertei-os compas-
res humanos, somos compostos de partículas nocivas e benéficas. Se sivamente.
as boas forem encorajadas, expulsam as nocivas; em caso contrário, “ Querida Miss Catherine” , comecei.
as boas são expulsas. O mesmo acontece em relação à alma e ao “Chame-me Catherine!” Interrompeu ela. “ Estou cansada de ser
corpo - se encorajarmos os “ micróbios” causadores da saúde, eles chamada Miss Catherine” .
expulsarão a doença do organismo humano, completamente” . “Pois bem, Catherine” , disse eu sorrindo um pouco. “ Você cer­
“ Não podemos fazer isso” , disse ela, “ as chances estão todas tamente sabe por que sou feliz e contente?”
contra nós. Que adianta encorajar os “ micróbios causadores da saú­ “ Não sei, não” disse ela com ansiedade quase lamuriosa. “ Não
de?” Os que causam doenças sempre vencem a batalha. Pense nisso! compreendo absolutamente. Você não parece importar-se muito com
Nossos pais, avós e bisavós são responsáveis por todos os nossos roupas mas está sempre bem vestida; não vai a bailes, teatros ou cor­
males. As doenças deles se tomam as nossas em várias formas no­ ridas; é querida por todos, embora evite a sociedade; você nunca se
vas. É cruel, é horrível! Como pode alguém acreditar que um Deus empenhou em conseguir um casamento, e tanto quanto sei ou ouvi
do Amor tenha criado esse plano medonho está além de minha com­ falar a seu respeito, nem sequer tem um namorado!”
preensão. A coisa toda é simplesmente uma questão de devorar ou Senti as faces ficarem em fogo. Um estranho ressentimento foi
ser devorado!” despertado por aquelas palavras —será que eu não tinha mesmo um

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apaixonado? Claro que tinha! Alguém que eu conhecia bem e que ti­ um pesadelo. "Podem me lamentar depois que eu estiver casado com
nha conhecido por longo tempo - alguém para quem eu tinha guar­ Catherine Harland!” Lamentã-lo? Eu fiquei ouvindo, sabia que isso
dado minha vida religiosamente como algo pertencente a um outro era errado mas não pude me afastar. "Bom, você terá dinheiro sufi­
tanto quanto a mim mesma, um apaixonado que me amava além de ciente para se arranjar muito bem, de qualquer forma", disse um ou­
todo o poder da expressão humana; neste ponto uma vaga de estra­ tro. “ Pode bem suportar uma esposa nada bonita em troca de uma
nha e inexplicável emoção inundou minha mente com um choque grande fortuna". Então ele —o meu amado! - Falou de novo. “ Ah,
que combinava choque e surpresa, vindo do muro sólido dos fatos vou tirar o melhor partido possível” , disse ele, “ preciso muito de di­
inflexíveis; sim, era verdade, claro, Catherine Harland tinha razão - nheiro e este é o meio mais fácil. Hã uma coisa boa na vida moderna
eu não tinha nenhum apaixonado. Nenhum homem tinha me amado o - maridos e mulheres não precisam mais estar sempre juntos; quando
bastante para merecer esse titulo. O rubor desapareceu de meu rosto, os laços matrimoniais estiverem atados, tirarei o fardo do matrimônio
meus pensamentos se tomaram menos céleres; retomei o bordado e de meus ombros o máximo que eu puder. Ela poderá se divertir com
voltei a trabalhar nele. novas roupas e os cuidados da casa; ela gosta muito de mim de modo
“ É assim, não é?” Persistiu Catherine. “ Isso embora você fique que será fácil levar sempre a melhor. Mas nào deixa de ser um tem-
ruborizada e empalideça como se existisse alguém” . vel martírio casar com alguém por causa de dinheiro quando se ama
Olhei nos olhos dela e sorri. outra pessoa". Ouvi tudo e então —não sei mais o que aconteceu".
“Não há ninguém” , disse eu, “ nunca houve ninguém” . Fiz uma Os olhos dela me fitaram com tanta mágoa que me enchí de com­
pausa; eu quase podia sentir de novo o calor da mão poderosa que ha­ paixão.
via segurado a minha no sonho da noite anterior. Era só fantasia.. . “Oh. pobre Catherine!” Disse eu. tomando sua mão e beijando-a
Continuei: “eu não vejo por que me importar com o que os homens e com doçura. As lágrimas que enchiam seus olhos começaram a es­
mulheres modernos chamam amor. Parece muito insatisfatório” . correr.
Ela suspirou. “ Encontraram-me caída no chão. inconsciente” , continuou ela.
“Frequentemente é um sentimento egoísta. Gostaria de lhe contar com voz trêmula. “ Fiquei doente por um longo tempo depois desse
minha história de amor. Posso?” fato. As pessoas não conseguiram compreender por que eu desman­
“Mas claro!” Respondí, um pouco surpresa, pois nunca havia chei o noivado. Eu não disse o motivo a ninguém - a não ser ele,
imaginado que ela tivesse uma história de amor para contar. que pareceu ficar arrependido e um pouco envergonhado, mas penso
“ É uma história curta” , disse ela, e seus lábios tremeram. “Um que estava mais desgostoso por perder minha fortuna que por qual­
homem passou a visitar nossa casa com freqüência logo depois de eu quer outra coisa. Eu lhe disse que nunca tinha me julgado feia. que a
ter sido apresentada à sociedade. Ele me fez acreditar que estava simples idéia de seu amor por mim me fazia bela. E isso era verda­
muito interessado em mim. Eu tinha muito mais que um simples inte­ de! Querida, chego quase a acreditar que eu me tomaria linda se
resse por ele, eu a bem dizer o adorava. Era o mundo para mim, e fosse verdadeiramente amada por ele” .
embora meu pai não gostasse muito dele queria que eu fosse feliz e Compreendí bem o que ela queria dizer. Ela estava certa de um
por isso ficamos noivos. Esse foi o melhor tempo de minha vida, modo que qualquer pessoa comum julgaria ser uma teoria fantasiosa.
o único em que eu soube o que era felicidade. Certa noite, uns três O amor toma todas as coisas bonitas, e toda pessoa que tem cons­
meses antes da data de nosso casamento, estávamos numa festa na ciência de ser sinceramente amada fica encantadora, como a rosa
casa de amigos nossos, e eu o ouvi falar em voz alta na sala onde ele que tome consciência do Sol cria forma e cor.
e mais uns três homens tinham ido fumar. Ele disse uma coisa que “Bem, tudo acabou", terminou ela, com um fundo suspiro.
me fez ficar muda de espanto sem saber se estava louca ou tendo “Nunca mais fui a mesma, acho que meus nervos sofreram um cho-
que igual ao que o grande escritor Charles Dickens sofreu quando saúde. Sei que você vai dizer que eu “estou sempre ótima” como
teve um acidente de trem. Lembra o artigo sobre isso na "Vida” , de seu pai costuma dizer - mas é verdade que se amamos tudo que
Forster? Como o vagão ficou pendurado na beira de um abismo e existe na Natureza - tudo. sim! O Sol, o ar, as nuvens, a chuva, as
Dickens se manteve agarrado a ele todo o tempo. Ele nunca se recu­ árvores, as aves, as flores, essas coisas retribuirão esse amor, dándo­
perou do fato. que foi a causa de sua morte cinco anos depois. Pois nos um pouco de suas vidas, de sua força e beleza".
eu me senti como ele - minha vida passou a ficar suspensa sobre Ela sorriu, com um suspiro contrafeito e amargurado.
uma espécie de abismo desde que perdi o meu amor; estou apenas “ Você fala como um poeta” , disse ela, “e entre todas as coisas
me agarrando precariamente à vida". do mundo, poesia é o que mais detesto! Olhe, não pense que estou
“Mas veja bem” disse eu. ‘‘certamente há outras coisas na vida querendo ser grosseira! Continue a ser feliz de seu modo estranho e
além da simples lembrança do amor de um homem, que não foi fantasioso! Não posso mudar o que sou. O Dr. Brayle poderá lhe
amor, no final das contas! Você parece pensar que houve crueldade confirmar que não tenho forças suficientes para partilhar da vida de
ou desgraça na circunstância que separou você dele - mas na reali­ outras pessoas, de seus objetivos e prazeres. Devo sempre conside­
dade foi uma dádiva, um favor especial de Deus. Apenas, você a rar as minhas fraquezas".
interpretou da maneira errada” . “O Dr, Brayle disse isso?” Perguntei. “ Para só pensar em si
"Eu encarei os fatos da única maneira possível", disse ela, "com mesma?”
resignação". “ Claro que sim. Se eu não tivesse me preocupado com minha
“E você chama isso resignação?" Exclamei. "Transformar em pessoa todas as horas e todos os dias. já teria morrido há muito tem­
desgraça o que deveria ser aceito como uma bênção? Pense nos po. Tenho que levar em consideração tudo que como ou bebo para
muitos e muitos anos de infelicidade que você podería ter com um evitar que me cause algum mal.”
homem que não passava de um caçador de ouro cheio de egoísmo!
Levantei de onde estava.
Você o teria visto se tomando cada vez mais frío e insensível - seu
“ Eu gostaria de poder curá-la” , murmurei.
coração ficaria partido, seu espírito acabrunhado - mas Deus a pou­
“ Minha cara, tenho certeza de que o faria, se pudesse” , respon­
pou de tudo isso dando-lhe a chave para a liberdade! Que oportuni­
deu ela. “ Você tem um bom coração, Conversar com você e contar
dade você recebeu! Podería tê-la aproveitado muito bem. bastaria ter
minha triste história me fez bem. Agora vou me levantar para o tra­
desejado!”
tamento com eletricidade, para me sentir animada por algum tempo.
Ela me olhou mas não disse nada.
“O amor nos chega por um milhão de lindos meios” : continuei, Quanto a uma cura, seria mais fácil tentar curar meu pai” .
sem me importar com a reação que ela pudesse ter, "o amor comum, “Ninguém se livra de qualquer doença a menos que resolva aju­
melhor dizendo, o casamento, a união física entre um homem e uma dar a cura por vontade própria” , disse eu.
mulher é apenas uma modalidade. Não é possível viver no mundo Ela soltou uma pequena risada.
sem ser amado, quando se ama!" “ Ah, mais uma de suas teorias prediletas, mas para mim não ser­
Ela se mexeu inquieta nos travesseiros. ve! Já perdí a oportunidade de me ajudar, de modo que pode desistir
"Não consigo entender o que você quer dizer” , disse ela. “ Como de mim como sendo um caso perdido!”
posso amar? Nada tenho para amar!” “Mas você me pediu” , continuei, “ para lhe dizer por que sou
“ Você não percebe que está se fechando ao amor?" Perguntei. alegre e feliz! Você quer mesmo saber?”
“Você se nega ao amor! Impede sua vinda. Encoraja suas fantasias Um ar de desconfiança se insinuou nos olhos desbotados de
tristes e mórbidas e pensa em doenças quando devería pensar na Catherine,

[ 80) [81]
que a “ Alma" nada mais é que uma expressão significando certos
“Não se se tratar de mais uma teoria!*’ Disse ela. “ Eu não tena a
inteligência nem a paciência para raciocinar a respeito” . movimentos inteligentes exclusivamente cerebrais.
Depois de rir um pouco, continuei: "não é uma teoria, é uma ver­ Fiquei ali parada em silêncio, pensando nessas coisas, enquanto
dade, e a verdade ê às vezes mais complexa que uma teoria". ela me observava melancólicamente. Finalmente ela perguntou:
Ela me olhou com uma expressão entre a dúvida e o apelo. “ Vai subir ao convés agora?”
"Bem, então o que vai me dizer?" “ Sim.”
“ Só o seguinte” , disse eu ajoelhando-me ao lado dela por uns “ Espero encontrá-la na hora do almoço. Não perca esse raminho
momentos e segurando sua mão. “ Eu sei que não existe nenhum am­ de urzes do seu vestido - é muito bonito, parece uma jóia.”
biente exterior que não tenha sido criado por nós mesmos, e que Hesitei um momento.
nossos problemas nascem de nossos pensamentos errôneos, e não de “ Você não está aborrecida comigo por causa do que eu falei?”
coisas enviadas por Deus. Procuro treinar minha Alma para que seja “ Aborrecida? Claro que não! Gosto de ouvi-la falar e defender
tranquila, e meu corpo obedece minha Alma. Esse é todo o segre­ seu mundo encantado! Pois é realmente um mundo encantado, sabe?
do!” E você acredita no que diz!”
Ela envolveu minha mão com os dedos, nervosamente. “ De qualquer forma vejo os resultados práticos” , respondí. “Isso
“Mas de que adianta você me contar isso?” Disse ela num sussur­ você tem que admitir” .
ro. “ não acredito em Deus ou em Almas!” “ Sim, eu sei, e não consigo compreender. Falaremos disso um
Fiquei de pé, e disse: outro dia. Podería dizer ao Dr. Brayle que estarei pronta para vê-lo
“Pobre Catherine! Se assim é. não adianta nada mesmo eu lhe di­ dentro de dez minutos?”
zer seja o que for! Você está nas trevas em vez de estar na luz e Concordei e saí. Fui diretamente para o convés, e o ar fresco, car­
ninguém pode fazê-la enxergar. Ah, o que eu podería fazer para aju­ regado de maresia me envolveu com suavidade logo que comecei a
dá-la?” subir a escada. Que glorioso estava o dia! Céu. mar e montanhas
“Nada” , respondeu ela. “Minha fé. que nunca foi grande coisa, estavam banhadas pela brilhante luz do Sol; o “ Diana” cortava ve­
foi destruída quando eu ainda era muito jovem. Meu pai fez com que lozmente as águas e marcava seu curso com uma linha de espuma
ela parecesse absurda. Como sabe, ele é um homem muito inteli­ branca de cada lado. Mentalmente, comparei o encanto do cenário
gente; com umas poucas palavras transforma a religião em completa com o camarote abafado que acabara de deixar; vendo o Dr. Brayle
idiotice!” confortavelmente sentado numa espreguiçadeira lendo o jornal, fui
“E, eu compreendo.” até onde ele estava e toquei em seu ombro.
E na verdade eu compreendia. O pai dela pertencia a uma classe “Um paciente o aguarda dentro de dez minutos” disse eu.
cada vez mais numerosa de homens que eram um perigo para a co­ Ele se levantou ¡mediatamente, oferecendo-me o lugar com toda a
munidade — era um destruidor frio e cínico de todos os ideais no­ cortesia - eu declinei da oferta - e tirou o charuto da boca.
bres, escarnecendo o patriotismo e a honra, um iconoclasta delibera­ “Tenho dois pacientes a bordo” , respondeu ele, sorrindo. “ Qual
do do tipo mais endurecido e destituído de remorsos. Não se podería deles me chama?”
negar que havia pontos positivos em seu carãter, mas qualquer as­ “ O que é seu paciente por escolha e não por necessidade” , res­
sassino podería tê-los igualmente. Mas estar em sua companhia por pondí.
longo tempo levaria qualquer um a sentir que não há nada de bom “ Minha cara senhorita!” Seus olhos me olharam com furtivo es­
em coisa alguma - que a Vida é um engano da Natureza, que a panto. "Se não fosse tão encantadora eu diría que é. como direi? Um
morte é um fim desejável para esse erro - que Deus é uma ilusão e tanto teimosa!”

[83]
Respondí rindo: “ é verdade! Se ser teimosa é o mesmo que ser
As sobrancelhas do médico se franziram ligeiramente, e ele con­
honesta, sou mesmo! Miss Catherine está tão sadia quanto o senhor
sultou o relógio.
e eu. O problema dela é ser mórbida” .
“ Preciso ir” , disse ele, “ a Srta. Harland me aguarda” .
“ Verdade! Mas a morbidez é urna forma de doença, uma enfermi­
“ É, a eletricidade pode esfriar!” Acrescentei jocosamente. “ Veja
dade nervosa.. . ”
se consegue verificar o meu pulso “ neurótico!”
Ri de novo, e ele ficou visivelmente irritado.
Ele tomou a mão que eu lhe estendia e permanecí quieta. Cons­
“Curável por aplicações extemas de eletricidade? Quando o dano
ciente da força secreta que eu tinha em meu interior, decidi compro­
está na mente? Bem, acho que não tenho o direito de interferir. Seja
var se podería utilizá-la sobre o médico de modo a mantê-lo preso
como for, o senhor mantém Miss Catherine doente quando ela pode-
até que eu resolvesse liberá-lo. Fiquei observando seus olhos come­
ria estar perfeitamente bem.”
çarem a ficar vagos e as feições mostrarem uma espécie de fixidez -
Uma linha desagradável apareceu nos cantos de sua boca. ele estava perfeitamente ciente de que eu o estava retendo volunta­
“ Pensa dessa forma? Será que entre suas capacidades se inclui a
riamente - e após algum tempo, satisfeita com o experimento, rela­
arte da medicina?”
xei o controle e recolhí a mão.
Encarei seus astutos olhos castanhos e ele logo desviou o olhar.
“Meu pulso está perfeitamente regular não é mesmo?” Perguntei
“ Não, não conheço nada de medicina” , respondí, “a nao ser que
com ar displicente.
a cura de qualquer problema mental deve vir de dentro, e não de fo­ Ele teve um estremecimento como se despertasse do sono, mas
ra. Também não sou adepta da Ciência Cristã” . respondeu imediatamente:
Ele riu cinicamente.
“ Sim - claro —perfeitamente; quase me esquecí do que estava fa­
“Não mesmo? Pois me parece que podería ser!”
zendo. estava pensando em outra coisa. A senhorita Harland.
“Cometería um grave erro pensando isso” , respondí rispidamente. “ Sim, ela deve estar pronta para recebê-lo” , disse eu, e sorri.
Um brilho sagaz e cauteloso perpassou seu rosto moreno. “Diga-lhe que eu o retardei um pouco” .
“ Eu gostaria muito de conhecer suas teorias” , disse ele. “ Você Ele acenou um pouco embaraçado. Voltando-me as costas, desceu
me interessa muito” .
com bastante lentidão a escada do salão.
‘Tenho certeza que sim!” Respondí sorrindo. Quando ele desapareceu, soltei um suspiro de alívio. Desde o
Ele me olhou de cima a baixo por um momento com ar perplexo. primeiro momento eu havia percebido nele uma organização mental
Depois sacudiu os ombros.
que em seu materialismo e indiferença a consequências, opunha-se a
“Você é uma criatura estranha!” Disse ele. “ Não consigo com­
qualquer influência saudável que pudesse levar a seus pacientes vi­
preendê-la. Se me pedissem para dar uma opinião “profissional” a
sando o bem-estar, fossem quais fossem suas pretensões relativa­
seu respeito, provavelmente diría que você é neurótica e muito sen­
mente a suas próprias capacidades médicas. Para ele, era vantajoso
sível, além de ser inclinada à auto-ilusão” .
mostrar aos pacientes o pior aspecto de seus males para acentuar sua
“ Obrigada!” - Nesse ponto curvei-me numa pequena mesura fin­
própria habilidade em lidar com o mesmo: servia a seus propósitos
gidamente modesta. “ É assim que pareço ser, não é mesmo?”
incentivar a imaginação mais negativa dos doentes, manipular seus
“ Não, não é o que parece ser; mas as aparências enganam.”
caprichos e dar rédeas a suas excentricidades; eu via e compreendia
“ Nisso concordo com o senhor” , respondí, “ mas é preciso se ba­
tudo isso. Fiquei contente de verificar que, no que me dizia respeito,
sear nas aparências de vez em quando. Se sou “ neurótica” , minha
eu tinha o poder de dominá-lo.
aparência não o revela, e minhas condições de saúde nada deixam a
Hesejar” .

[84]
[85]
V

UM ENCONTRO INESPERADO

Passar alguns dias a bordo de um iate com as mesmas pessoas é


um bom meio de testar o valor das vibrações simpáticas das associa­
ções humanas. Descobri isso. Eu podería muito bem estar isolada no
“ Diana” , no que se referia ao Sr. Harland e sua filha, embora eles
sempre se mostrassem gentis comigo e preocupados com o meu con­
forto. O fato é que entre nós havia “ um grande abismo” , apesar de
que de vez em quando Catherine fazia esforços patéticos e inefica­
zes para transpor o “ abismo” e chegar até onde eu estava, na outra
margem. Sua força, entretanto, era insuficiente para isso; sua vonta­
de estava corroída desde as raízes, e a cada dia ela se permitia tor­
nar-se uma vítima dócil do Dr. Brayle que, tendo a sensação sub­
consciente de que eu sabia ser ele apenas um charlatão médico, cer­
tamente a havia prevenido contra mim, descrevendo-me como uma
teórica imaginativa sem qualquer fundamento aceitável para minhas
teorias. Diante disso, fechei-me numa fortaleza de reserva, negándo­
me a discutir qualquer ponto que tocasse religião ou ciência com
pessoas para quem a primeira era uma farsa e a segunda mero mate­
rialismo. Sempre que estávamos juntos eu mantinha a conversação
deliberadamente no campo das trivialidades, que embora tediosas
eram seguras; não me divertia pouco ver que diante desse compor­
tamento de minha parte o Sr. Harland primeiro se mostrou surpreso,
depois desapontado, e finalmente enfastiado. E eu preferia assim. O
fato de eu enfastiá-lo tanto quanto ele a mim representava a feliz
realização de meus desejos mais imediatos. Tal como o fazem todas
as mulheres convencionais, eu conversava sobre o tempo, a veloci­
dade máxima e mínima do iate, as “ sensações” e vulgaridades dos
jomais que nos eram trazidos sempre que parávamos num porto para
apanhar a correspondência, os peixes que freqüentavam tais ou quais

[87]
águas, os esportes, este ou aquele milionário cujo castelo ou floresta temente imorredoura do ramalhete de urzes que tinha ganho do rapaz
estava apinhado de pessoas da “elite” que tinham por maior prazer escocês de ar estranho e que se dizia chamar Jamie, pois, embora
matar aves e animais inocentes, os mais recentes pilotos de aeropla­ três ou quatro dias tivessem passado desde aquele momento, as flo­
nos, enfim, nenhum comentarista da moda ligado às tolices sociais res não davam o menor sinal de definhamento. Como regra geral, as
tena me superado no que se podería chamar de “ conversa normal” - delicadas flores em forma de sino dessa planta ficam amareladas
conversa que, após um certo tempo, provocam a dispersão da aten­ poucas horas depois de colhidas, mas o meu raminho se conservava
ção dos ouvintes e bocejos mal disfarçados, Eu estava decidida a tão fresco como no primeiro dia. Eu o mantinha num copo sem água
não permitir que a linha de pensamento se elevasse “ no ar” , coisa na mesa de minha saleta e ele não parecia mudar nada. Eu estava me
de que tinha sido acusada muitas vezes, mantendo-o sempre na linha questionando sobre o que eu faria se meu ambiente continuasse tão
do solo, por assim dizer. Quando deixamos Tobermory para trás, inerte e desinteressante quanto estava agora - continuar no “ Diana”
depois de ali termos ancorado por uns dois dias, os limites do iate por mais algum tempo na esperança de rever a estranha escuna, ou
estavam se tomando saturados e estreitos para nossas mentes tão di­ tratar de descer em algum ponto de onde fosse fácil me dirigir a In­
versas; começava a surgir uma sensação de monotonia que ameaçava vemess-shire, quando o Sr. Harland apareceu de repente atrás de
tomar-se perigosa, ou pelo menos intolerável. Enquanto o “ Diana” minha cadeira e colocou a mão no meu ombro.
navegava na luz preguiçosa e difusa de uma tarde de verão, ao longo “ Está na terra dos sonhos?” Perguntou ele, e achei que sua voz
da costa recortada, sentei-me em silêncio no convés vazio, obser­ soava bastante fraca e desanimada. “Pode-se ver uma luz muito bo­
vando a névoa púrpura que aos poucos ia velando as montanhas de nita naquelas colinas” .
Ardnamurchan e Moidart, e comecei a pensar se não seria uma boa Ergui o olhar e vi as sombras purpúreas sendo divididas e espa­
idéia escrever a Francesca dizendo-lhe que suas profecias tinham se lhadas, uma após a outra, pelos alongados raios do Sol que já estava
realizado - que eu estava começando a me cansar das férias naquela baixo e que derramava-se como vinho dourado por entre os farrapos
atmosfera despida de qualquer alegria, e que ela me esperasse em de nuvens; acima, o céu era de puro azul turquesa, dissolvendo-se
Invemess-shire nos próximos dias. Ao mesmo tempo, eu relutava em em pálida cor opalescente e esmeralda na linha do mar que tinha
terminar minha viagem com os Harlands tão prematuramente. Em pontos brancos de espuma formada pela brisa que estava se tomando
meu coração havia um desejo secreto que mal ousava sussurrar para mais fresca. Desviando o olhar da ofuscante radiancia dos céus,
mim mesma, o desejo de ver novamente o estranho barco que havia voltei-me para o Sr. Harland e fiquei chocada e assustada com a li­
aparecido e desaparecido tão repentinamente, e conhecer o seu pro­ videz de seu rosto e a angústia de sua expressão.
prietário. Isso com certeza seria uma mudança interessante das atuais “ O senhor está doente!” Exclamei; levantando-me apressada­
condições, para dizer o mínmio. Na ocasião eu não sabia (embora mente da cadeira onde estava, apontei-a, dizendo: “ sente-se aqui!”
saiba agora) por que minha mente se ocupava tão afanosamente com Ele fez um gesto mudo de negativa e com dificuldade puxou outra
a imaginária personalidade do dono da misteriosa escuna que, nas cadeira para perto da minha, atirando-se nela com uma atitude de
palavras do capitão Derrick, “velejava sem vento” , mas o fato é que extrema fadiga.
eu me surpreendia pensando frequentemente nele, tentando visuali­ “ Não estou passando mal neste momento” , disse ele. “ Há pou­
zar seu rosto e seu porte. co me sentia muito doente. Estava sentindo dor, uma dor terrível!
Eu me obrigava a voltar à realidade com certa rispidez, deixando Brayle fez o que pode para me aliviar, mas não foi muita coisa. Ele
de parte o que me parecia uma atitude mental infantil, mas apesar de diz que devo me preparar para passar por isso de vez em quando,
meus esforços, essa atitude permanecia a mesma. É possível que, de até.. . até que chegue o fim” .
um modo um tanto leviano, eu fosse ajudada pela qualidade aparen­ Impulsivamente cobri a mão dele com a minha.

[88]
“ Sinto muito!” Disse eu, gentilmente. “ Queria poder ajudar de disseram que você possui - o segredo da vitalidade abundante e ili­
alguma forma!” mitada - como é que você o encontrou? Vejo essa força expressa em
Ele me olhou com curiosa melancolia. seu olhar, em cada gesto, e o que me intriga é que não se trata de
“ Certamente você podería, se eu tivesse a sua fé” , replicou ele, e uma vitalidade animal, é alguma coisa diferente” .
depois ficou em silêncio por algum tempo, antes de continuar: Fiquei calada.
“ Sabe que estou muito decepcionado com você?” “ Você não tem um físico robusto” , continuou ele, “ mas tem mais
“ É mesmo?” Respondí com um sorriso. “E por quê?” espírito e vida que homens e mulheres que têm duas vezes mais for­
Ele não respondeu imediatamente. Parecia preocupado com pen­ ça física que você. Você é uma criatura feminina, mas é fácil perce­
samentos desagradáveis. Quando voltou a falar, foi num tom baixo, ber que é uma lutadora também - é evidente que encontra prazer no
meditativo, quase como se falasse para ele próprio. exercício dos dons que possui, e nada dá errado em sua vida. Como
“ A primeira vez que a encontrei - lembra-se? - numa daquelas é que você consegue isso? Quando se juntou a nós faz alguns dias,
tediosas reuniões “ da moda” que tornam a temporada londrina infi­ trouxe uma espécie de atmosfera que era quase que de esperançosa
nitamente enfastiante, disseram-me que você tinha o dom de um po­ alegria, e agora estou desapontado porque aparentemente você se fe­
der psíquico incomurn. e que possuía o segredo da vitalidade abun­ chou dentro dessa aura e nos deixou de fora!”
dante e ilimitada. Repito as palavras que ouvi: uma vitalidade abun­ “ Não acha que vocês outros é que se isolaram?” Perguntei gen­
dante e ilimitada. Issó me interessou por saber que os homens e tilmente. “ Eu, pessoalmente, nada tenho a ver com isso. Lembre-se
mulheres modernos só estão vivendo pela metade. Ouvi comentarem de que todas as vezes em que falamos de qualquer assunto que fosse
que sua companhia fazia bem às pessoas, que sua influência nos de­ além da linha geral e comum, o único objetivo de sua parte foi o de
mais era notável, e que havia uma forma desconhecida de ciência me “provocar” , para diversão sua e a do Dr. Brayle.. . ”
psíquica ou oculta à qual você havia dedicado muitos anos de estu­ “ Ah, você percebeu, então?" Interrompeu ele com um sorriso
do, e por causa disso situava-se numa posição separada do mundo, apagado.
por assim dizer. Foi isso que ouvi d izer.. “Naturalmente! Se tivesse acreditado na metade do que disseram
"Mas o senhor não acreditou” , interrompí. a meu respeito, sabería que eu teria percebido. Parece-lhe decepcio­
“ Por que você diz isso?” Perguntou ele abruptamente. nante eu me recusar a ser “ provocada” ?"
"Porque sei que o senhor não podería acreditar” , respondí. “Isso “ E natural sentir uma curiosidade perfeitamente perdoável” , dis­
seria impossível para o senhor” . se, “além do desejo de saber.. . "
Um brilho satírico passou por seus olhos. “Saber o quê?” Perguntei com uma certa excitação. “Como pode
“ Bem, nisso você tem razão! Eu não acreditei mesmo. Mas espe­ obter o que secretamente deseja muito se persiste em negar a verda­
rava. . . ” de? O senhor tem medo da morte - mas ao mesmo tempo a atrai por
“Sei!” Dei uma risada. “O senhor esperava o que chamam de ignorar a fonte da vida! As cortinas foram baixadas! O senhor está
mulher “ singular", do tipo que se faz de “ singular” , adota uma pose do lado de fora das realidades etemas em um caos que criou volun­
“singular” e está totalmente afastada da humanidade em geral. É tariamente!"
claro que ficou decepcionado. Não sou absolutamente o tipo de Falei em tom apaixonado, e ele me ouviu pacientemente.
princesa velada” . “Vamos tentar compreender-nos mutuamente” disse ele. após
“Não é isso” , disse ele, um pouquinho aborrecido. “Quando a vi, uma pausa, “embora seja uma proposição difícil. Você fala de “rea­
percebi que você era uma criatura transparente, dedicada a sonhos lidades eternas” . Para mim elas não existem, a não ser a constante
inocentes que não são a vida como a entendo. Mas o segredo que divisão e reunião dos átomos. Os átomos, tanto quanto sabemos so­

[90]
bre o extraordinário (e para mim bem pouco inteligente) plano do ação em todas as coisas e através de todas as coisas. Se o senhor
Universo, estão sempre se deslocando e mudando para variadas for­ pudesse aprender isso e harmonizar-se com isso, acharia a vida uma
mas e conjuntos de formas, como os sistemas solares, planetas, co­ alegria nova e muitíssimo mais dominante do que é agora. Acredito
metas, estrelas e assim por diante. Nossa visão atual a respeito deles firmemente que sua própria doença surgiu dessa determinada atitude
está baseada principalmente nas pesquisas de Larnior e Thomson, de de descrença".
Cambridge. Com eles e outros cientistas, aprendemos que a eletrici­ “ Isso é o que diría um membro da Ciência Cristã", respondeu ele
dade existe na forma de pequenas partículas que, de certo modo, po­ com um toque de zombaria na voz. “ Começo a pensar que o Dr.
demos ver na forma de raios ''cátodos", partículas que são chamadas Brayle fez uma estimativa correta a seu respeito".
"elétrons". Estes compõem “ átomos de matéria". Bem, existe um Não respondí.
trilhão de átomos em cada grão de pó. e os elétrons são tão menores “ Você não está curiosa? Não quer saber qual é a opinião dele?”
que cem mil deles podem caber no diâmetro de um Cínico átomo. Sei “ Não” , respondí com um sorriso. “ Meu caro Sr. Harland. com
tudo isso. mas não sei por que os átomos ou elétrons existem nem sua experiência do mundo, nunca lhe ocorreu que existem pessoas
qual seria a causa de seu frequente e violento estado de movimento. cuja opiniáo não conta?”
Aparentemente eles sempre existiram e sempre existirão - portanto, “ Brayle é um homem muito inteligente", disse ele com certa irri­
são eles as “ realidades eternas” . Sir Normam Lockyer afirma que a tação. “e você é apenas uma mulher imaginativa".
matéria do Universo passa por um processo contínuo de evolução: se “Então por que se preocupa comigo?” Perguntei imediatamente.
isso é verdade, o que tem a ver comigo individualmente? Não me “ Por que tenta descobrir na minha pessoa algo que intriga o Dr.
sinto auxiliado nem consolado por ser uma centelha infinitesimal da Brayle e o senhor?”
conflagração geral. Quanto a você, acredita.. ." Foi sua fez de ficar calado por um bom tempo, com os olhos fixos
“Na Força que está por trás do seu sistema de elétrons e áto­ no céu que se obscurecía rapidamente. As ondas do mar estavam se
mos", disse eu. “ pois sejam quais forem os meios ou substâncias de encrespando um pouco e a maré fazia o “ Diana" balançar sobre as
que é composto o Universo, uma inteligência poderosa o governa, e cristas espumosas, ao cortar as ãguas com sua quilha. Afinal, ele se
eu contemplo mais a Causa que o Efeito. Pois eu também sou parte voltou para mim com um soniso.
do todo, pertenço à fonte dessa corrente tanto quanto à própria cor­ “ Vamos fazer uma trégua!" Disse ele, “ prometo que não vou
rente. Um princípio abstrato e destituído de vida, sem vontade, in­ tentar “ provocá-la” daqui por diante! Mas por favor não se isole e
tenção ou inteligência, não poderia ter desenvolvido os esplendores tente ver que somos seus amigos. Quero que você aprecie esta via­
da Natureza nem as capacidades intelectuais do homem - não pode­ gem ao máximo possível, mas temo que estamos sendo uma compa­
ría ter causado algo que não existisse nele próprio’'. nhia pouco interessante. Estamos indo para Skye com bastante velo­
Ele me encarou com firmeza. cidade e provavelmente aportaremos em Loch Scavaig esta noite.
“Essa última sentença soa como um argumento", disse ele. como Poderemos desembarcar amanhã e fazer uma excursão ao Lago Co­
se admitisse o óbvio com relutância, “e suponho que devo acreditar miste se você quiser, embora Catherine não seja muito boa para fazer

que esse “ele próprio" é a fonte de onde você retira, ou imagina que caminhadas” .
retira, sua força psíquica?" Senti remorsos ao ouvi-lo dizer essas palavras com aquele tom
“Se eu tenho alguma foiça psíquica", respondí, “ de onde o se­ agradável. Mesmo assim, eu sabia muito bem que, a despeito dos
nhor acha que ela vem a não ser daquilo que dá vitalidade a toda a grandes esforços que poderia fazer através da cortesia convencional,
Natureza animada? Não posso compreender por que o senhor se ne­ seria impossível para mim me sentir à vontade no ambiente que ele
ga a enxergar o fato visível e claro de uma Inteligência Divina em havia criado para si mesmo. Mas decidi interiormente que faria o

[93]
melhor possível para me adaptar e que me mantería longe de possi­ pria solidão no seio dela, pois não havia sinal de qualquer barco ou
bilidades e incidentes que pudessem traçar uma linha de demarcação cabana de pescador na praia, nem qualquer outra coisa que lembras­
muito forte entre nós. Uma espécie de instinto me avisou que as se a presença humana. Uma curiosa sensação de desapontamento me
condições não se manteriam como estavam, de modo que respondí invadiu; ergui os olhos para o vasto e escuro céu com uma espécie
com gentileza ao meu anfitrião, afirmando que estava pronta para de apelo mudo - a lua e as estrelas pareciam flutuar lá em cima co­
agir de acordo com os seus planos. A conversa então passou grada- mo barcos num mar profundo; eu havia esperado alguma coisa mais
tivamente para tópicos comuns até o pôr-do-Sol, quando então descí naquele panorama estranho, quase espectral, sem saber por que eu
ao meu camarote para me vestir para o jantar. Tive o impulso de havería de esperar alguma coisa. Apesar da grande beleza da cena, e
usar o ramalhete de flores de urzes que continuava mantendo frescas por mais pleno que fosse o meu reconhecimento de seu encanto, uma
as delicadas pétalas; esse foi o único adomo que usei, preso nas avassaladora depressão me invadiu como se uma mão gelada me
rendas de meu vestido branco. agarrasse - havia um sombrio vazio naquela majestosa solidão que
Naquela noite, houve um esforço claro da parte de todos para tor­ parecia esmagar totalmente o meu espírito.
nar as coisas sociáveis e agradáveis. Catherine, por uma vez, se Afastei-me um pouco de meus companheiros e me inclinei sobre a
mostrava alegre e faladora, e propôs que fôssemos ao salão do con­ amurada, olhando para as sombras negras da praia, definidas com
vés após o jantar, já que havia um lindo luar; lá havia um piano e fi­ mais precisão pelo contraste com o brilho do luar, e meus pensa­
cou combinado que eu cantaria alguma coisa. Fiquei um pouco sur­ mentos voaram com indesejável celeridade para as trevas do hori­
presa com a sugestão, sabendo que ela não era apreciadora de músi­ zonte da vida. Naquele momento senti que perdia a alegria. Que
ca. Não obstante, era tão evidente o desejo dela e do pai no sentido desgraçadas são as criaturas humanas! - Pensei em meu interior.
de diminuir a monotonia que havia se insinuado como uma névoa Afinal de contas, que esperança existe para nós, aprisionados num
mental entre nós, que concordei sem demora com uma sugestão que mundo que não tem qualquer piedade pelo que possa acontecer ao
podería agradar a todos, pelo menos no momento. nosso destino, um mundo que continua exatamente como sempre foi,
Assim, fomos para o convés, e ficamos todos tomados por um si­ estejamos vivos ou mortos, trabalhemos ou fiquemos imóveis? As
lêncio reverente diante da beleza maravilhosa da paisagem. Estáva­ trágicas colinas, o lago frio, a lua branca, eram os mesmos do tempo
mos ancorados em Loch Scavaig; a luz da lua se derramava com de César, seriam os mesmos quando nós que contemplávamos tudo
exótico esplendor sobre as sombras das colinas próximas, e um raio aquilo tivéssemos ido para o Desconhecido. Parecia difícil tentar
pálido de luar tocava os picos, intensificando o efeito solene do lago compreender o fato óbvio - difícil ao ponto de ser quase não natu­
e as formas magníficas das montanhas que lhe serviam de sentinelas. ral. Supondo que haviam existido cidades ou aldeias naquela praia
O murmúrio baixo dos regatos ocultos nas montanhas soava no pro­ desolada, tinham sido inúteis diante das foiças devoradoras da Natu­
fundo silêncio e realçava o fascínio da paisagem, que mais parecia reza, assim como as esplêndidas cidades soterradas da América do
sonho que realidade. A densa escuridão perdida entre as faldas ca­ Sul tinham sido impotentes apesar de toda a sua magnificência - tão
vernosas das colinas era quebrada a intervalos por estranhos rasgos impotentes quanto a "Idade do Ouro de Lança” no Ceilão havia
de luz que pareciam vir da água palpitante, onde de vez em quando mais de dois mil anos. De que servia então a luta da vida humana?
surgiam brilhos de esmeraldas e de dourada fosforescencia; as es­ Servia para muitos ou apenas para alguns poucos? Será a labuta e a
trelas eram enormes e brancas como pedaços perdidos de Lua, e o dor de milhões apenas para a elevação e aperfeiçoamento de certos
misterioso “ sibilo” das ondas miúdas batendo no casco do iate suge­ indivíduos, sendo essa a interpretação das palavras do Cristo "mui­
riam os sussurros de espíritos fantásticos. O grupo ficou em silêncio, tos serão chamados mas poucos os escolhidos?” Nesse caso, por que
cada um de nós enlevado pela grandiosidade da noite e por sua pró­ tanto desperdício de cérebros, corações, amor e paciência? Senti lá-
grimas enchendo meus olhos e estremecí como se saísse de um pesa- Por que fíco sentada a suspirar
delo, quando o Dr. Brayle aproximou-se, parando atrás de mim. Arrancando capim, arrancando ervas
“Desculpe por interromper seus devaneios", disse ele. “ mas Miss Por que fico sentada a suspirar
Catherine já foi para o salão e todos esperam para ouvi-la cantar". Na tristonha colina?
Olhei para ele. Quando vejo voar a lavandeira
“ Acho que não tenho condições de cantar esta noite” repliquei Ou o maçarico a adejar em círculos
trémulamente. “ Essa paisagem tão melancólica me causou depres- Então sei que meu amor mortal
.* o .. . M
sa Está voltando para mim.
Ele viu que meus olhos estavam molhados e sorriu. Quando o dia se esvai
“Você está muito cansada", disse ele. “Suas teorias sobre saúde Triste olho para o vale
e vitalidade não são infalíveis! Precisa de cuidados. Você pensa de­ Cada som em minha volta
mais". Faz meu coração bater
“Ou muito pouco?" Perguntei. Por que fico sentada a suspirar
“Cara senhorita, realmente não é possível pensar pouco demais Arrancando capim, arrancando ervas
na saúde e na felicidade! As pessoas mais sadias e equilibradas da Por que fico sentada a suspirar
terra são as que comem bem e nunca pensam. Um cérebro vazio e Tão sozinha e saudosa?
um estômago cheio representam uma vida feliz.” Ah, mas alguma coisa está faltando,
“Isso é o que o senhor pensa!" Respondí, com um gesto de vela­ Ah, estou tão saudosa!
do desprezo. Vem, meu doce e sincero amor!
“ Isso é o que eu sei!” Respondeu ele enfaticamente. “Tenho Vem pelas colinas me alegrar!
vasta experiência no assunto. Vamos, não olhe com esse ar de com­ Por que fico sentada a suspirar
bate para mim. Venha cantar para nós!” Tão sozinha e saudosa?
Ele me ofereceu o braço mas eu recusei e me dirigí para o salão. Eu mal tinha terminado o último verso quando o capitão Denick
O Sr. Harland e Catherine estavam sentados lá, todas as luzes esta­ irrompeu no salão, extremamente excitado.
vam acesas, eclipsando completamente o luar que entrava pela jane­ “Venha aqui fora, Sr. Harland!” Falou o capitão, quase gritando.
la. O piano estava aberto. Catherine me olhou com ar de surpresa “Venham todos, depressa! É aquele iate estranho de novo!”
quando entrei. Levantei da banqueta do piano tremendo um pouco. Finalmente,
“Nossa, como você está pálida!" Exclamou ela. “ É como se ti­ pensei, até que enfim! Meu coração batia tumultuosamente, embora
vesse visto um fantasma!” eu não pudesse explicar minha própria emoção. No momento se­
Soltei uma risada. guinte estávamos todos olhando,'espantados e sem fala, para a mais
“Talvez eu tenha visto! Loch Scavaig é um lugar tão solitário." maravilhosa visão já testemunhada por olhos humanos. Nas escuras
Um leve tremor percorreu meu corpo quando toquei alguns acordes e desertas ãguas do Loch Scavaig estava pousada, mais que ancora­
suaves. “O que vou cantar para vocês?" da, a escuna encantada de meus sonhos, com todas as velas estendi­
“ Alguma coisa do país onde estamos", disse o Sr. Harland. “ Será das - velas brancas como a neve e aparentemente empapadas por
que você conhece alguma antiga canção gaélica?” uma substância como orvalho brilhante, pois cintUavam como geada
Pensei um pouco, e depois, tocando um acompanhamento apropria­
do. cantei a velha canção céltica “Canto de Amor de uma Fada” : N.T. —Adaptação livre

1961 [97]
ao Sol, contra o fundo formado pela praia montanhosa com ofus­ “Mais ou menos dez e meia” murmurou Miss Catherine, em tom
cante esplendor, Toda a tripulação do “ Diana" se reuniu no convés suplicante. “ Para que fazer uma investigação agora?”
formando grupos espantados, murmurando entre si, todos obvia­ “ Porque se não a fizermos agora, aposto dez contra um que não te­
mente um pouco assustados diante do extraordinário espetáculo. O remos oportunidade amanhã!” Disse o capitão bruscamente. “ Aquele
capitão Derrick ficou esperando que alguém fizesse um comentário iate vai repetir as manobras da outra vez e sumir ao nascer do Sol” .
qualquer, mas como todos permaneceram em silêncio, dirigiu-se ao “ Como costumam tradicionalmente fazer todos os espectros!”
Sr. Harland: Disse o Dr. Brayle, acendendo um cigarro enquanto falava e come­
“Então, senhor, o que acha disso?” çando a fumá-lo com ar displicente. “ Meu voto é a favor de agarrar
O Sr. Harland não respondeu. Para um homem que professava o fantasma antes que se desfaça pela manhã” .
a indiferença a qualquer evento ou circunstância ele parecia chocado Enquanto a conversa acontecia, o Sr. Harland foi até o salão e es­
e com um pouco de medo. Catherine pegou o pai pelo braço, tre­ creveu um bilhete que foi colocado num envelope lacrado. Trazen­
mendo nervosamente. do-o na mão, veio para o convés.
“ Você acha que é um iate real?” Murmurou ela. “Capitão, faça baixar o bote, por favor!” Disse ele, e quando o
Achei graça na pergunta, vindo como vinha de uma mulher que capitão Derrick se apressou em obedecer a ordem, voltou-se para o
negava o sobrenatural. secretário: “ Sr. Swinton, quero que leve esta mensagem ao dono da­
“Claro que é!” Respondí, “ Não vê que há pessoas a bordo?” quele iate, seja ele quem for, com os meus cumprimentos. Entregue
Pois, na luz brilhante refletida pelas incríveis velas, a escuna pa­ somente a ele e a ninguém mais” .
recia ter uma tripulação completa. Vários homens estavam ocupados O Sr. Swinton, parecendo muito pálido e pouco à vontade, pegou
no convés e nada havia de sobrenatural em seus movimentos. o envelope desajeitadamente na mão.
“Certamente as velas estão iluminadas daquele jeito pela eletrici­ “SÒ a ele, claro!” Gaguejou ele. “ Mas s e .. . bem .. . se não tiver
dade” , disse o Dr. Brayle que observava tudo atentamente. “Mas ninguém..
como é feito e por que, isso é muito intrigante! Nunca vi nada pare­ “O que quer dizer?” O Sr. Harland franziu a testa do seu modo
cido” . particularmente desagradável. “Certamente há de haver alguém,
“ Ela entrou no “ Loch” como um raio” , disse o capitão Derrick. ainda que seja o diabo! Pode dizer a elé que as senhoras estão muito
“Eu a vi deslisar em volta do promontório e depois, sem qualquer interessadas na linda iluminação de seu iate, e que teremos prazer
ruído, lá estava ela, devidamente ancorada num piscar de olhos. Ela em recebê-lo a bordo de nosso barco, se ele nos der a honra de vir
$e comportou como naquele dia em que a vi a primeira vez em até aqui. Seja tão educado quanto possível e tão agradável quanto
Mull” desejar” .
Fiquei ouvindo, perguntando-me, com curiosidade, até onde leva­ “Não lhe ocorreu - não terá o senhor pensado - q u e.. . que pode
riam as suposições e especulações. se tratar de uma ilusão?” Disse o Sr. Swinton nervosamente, olhan­
“ Por que não trocamos saudações?” Perguntei, de repente. “ Aqui do de esguelha para as velas cintilantes que humilhavam o brilho
estamos - dois iates ancorados perto um do outro em um lago so­ prateado do luar. “ Uma espécie de miragem da atmosfera.. . ”
litário - por que não travar conhecimento? Então todos os mistérios O Sr. Harland se permitiu soltar uma gargalhada - a mais gostosa
ficariam esclarecidos!” que eu já ouvira, tratando-se dele.
“Tem toda a razão!” Disse o Sr. Harland rompendo finalmente o “ Por minha honra, Swinton!” Exclamou ele. “Eu nunca teria
seu silêncio. “ Mas não será muito tarde para uma visita? Que horas imaginado que você é capaz de ficar nervoso! Vamos, vamos! Trate
são?” de ir! O bote jã foi baixado, está à sua espera!”

(99]
Diante de um comando desses, nada havia que o relutante Sr. resultado de um possfvel encontro. Catherine Harland apertou meu
Swinton pudesse fazer a nao ser obedecer, e nao pude deixar de sor­ braço excitadamente.
rir ao ver sua óbvia confusão. Toda a sua precisa e sofisticada auto- “ Lá está ele!” Disse ela, "deve ser o proprietário do iate. Está
satisfação tinha desaparecido, e ele nada mais era do que urna criatu­ lendo o bilhete de papai” .
ra muito amedrontada, temerosa de enfrentar algo que não podia Estava mesmo. Podíamos ver a pequena folha de papel sendo ma­
compreender de imediato. Mas nenhum tipo de terror parecia afetar nuseada por ele. Enquanto esperávamos, tentando adivinhar qual se­
os marinheiros que iam remar o bote até o outro iate. Eles, bem co­ ria a resposta, a luz que incidia nas velas começou a empalidecer e
mo o capitão, estavam ansiosos por descobrir o mistério, se é sumir - o brilho começou a desaparecer como se fossem gotas de
que havia algum; todos nós, guiados pelo mesmo instinto, nos agru­ água escorrendo, e antes de nos darmos conta só havia escuridão
pamos no costado quando o Sr. Swinton desceu a escada de corda onde antes havia brilho; as velas estavam sendo recolhidas. Com o
para o bote, que deslisou imediatamente com um nifdo lento e ritma­ apagar daquela intensa luminosidade, perdemos de vista as figuras
do de remos. Podíamos vê-lo aproximando-se cada vez mais da es­ humanas do convés e não podíamos imaginar o que aconteceria em
cuna iluminada e nossa excitação aumentou. Por uma vez ao menos, seguida. A praia escura parecia mais negra do que nunca, a silhueta
o Sr. Harland e sua filha tinham esquecido de si mesmos; a expres­ da escuna tinha ficado espectral, como uma teia negra em forma de
são costumeiramente infeliz no rosto de Catherine tinha desapareci­ navio delineada pela luz do luar. Ficamos olhando um para o outro
do, pois seu profundo interesse por uma coisa emocionante era mais em silêncio, com ar de expectativa. Então o Sr. Harland falou em
interessante do que seus achaques. Quanto a mim, eu mal podia su­ voz baixa:
portar o suspense que engolfou cada nervo do meu corpo nos minu­ “O bote está voltando, posso ouvir o ruído dos remos.”
tos de intervalo entre a partida do bote e sua chegada ao lado do inclinei-me para baixo, na amurada, e tentei enxergar através das
outro iate. Meus pensamentos giravam - eu me sentia como se espe­ sombras. A água estava tão silenciosa! Nem uma ondulação pertur­
rasse alguma coisa inédita e quase aterrorizante que estivesse imi­ bava a superfície, mas havia estranhas cintilações errantes nas pro­
nente, mas não conseguia localizar racionalmente a causa dessa agi­ fundezas, como de jóias atiradas na areia do fundo do mar. O ritmo
tação mental. regular das remadas se ouvia cada vez mais próximo. Meu coração
“Lá vão eles!” Disse o Sr. Harland, “já estão junto ao iate! Ve­ batia com agitada pressa, e eu não conseguia compreender o estra­
jam! Os marinheiros da escuna estão baixando a escada externa - nho sentimento que me envolvia. Era como se minha alma estivesse
nada há de sobrenatural neles! Swinton está bem, ele já subiu a bor­ saindo do corpo para ir ao encontro do bote que singrava a escuri­
do!” dão da noite. Houve mais um curto intervalo de tempo e então vi o
Forçamos os olhos para poder ver o que acontecia apesar do bri­ bote surgir num rastro de luar. Podíamos ver o Sr, Swinton sentado
lho das velas iluminadas e pudemos enxergar o Sr. Swinton conver­ na parte traseira com outra figura ao seu lado - a figura de um ho­
sando com um grupo de marinheiros. Um deles se afastou, mas vol­ mem que ficou de pé quando o bote se aproximou de nosso iate, e
tou imediatamente, acompanhado por um homem vestindo roupas levantou o quepe com um gesto descontraído de saudação. Quando o
brancas de iatismo que, parado perto de uma das brilhantes velas, bote encostou, ele pegou a corda de guia e pôs os pés agilmente na
recebia um pouco de luz no corpo, causando um efeito sem dúvida escada.
impressionante. Fui a primeira a percebê-lo e nesse momento tive “Não é que ele resolveu vir até nós!” Disse o Sr. Harland, di­
a impressão de que não se tratava de um estranho, que eu o tinha rigindo-se pressurosamente ao passadiço, chegando a tempo de re­
visto antes muitas vezes. Essa súbita sensação acalmou o tumulto ceber o visitante, no momento em que este punha os pés em nosso
que antes enchia minha mente e já não me sentia ansiosa quanto ao iate.

1100] [ 101]
“ Então, Harland, como vai?” Disse ele com uma voz branda e
com tom jovial. “ E estranho nos encontrarmos desta forma depois de
tantos anos!”

VI

RECONHECIMENTO

Ouvindo essas palavras e olhando para o visitante, Morton Har­


land estacou como se tivesse levado um tiro.
“Santoris!” Exclamou ele. “Não é possível! Rafei Santoris! Não,
deve ser o filho dele!”
O estranho riu.
“Meu caro Harland! Sempre cético! Existem muitos milagres, mas
existe um que está além de qualquer possibilidade. Um homem não
pode ser o filho dele mesmo! Sou o mesmo Santoris que você co­
nheceu em Oxford. Vamos lá, homem —você devia me reconhecer!”
Ele veio para a luz que vinha pela porta aberta do salão, revelan­
do ser um homem de aparência distinta, de mais ou menos quarenta
anos. Tinha um bom porte, com as costas retas e os ombros largos
de um atleta; o rosto tinha feições finas, com o brilho próprio da
sadde e do vigor; quando sorriu colocando a mão no ombro do Sr.
Harland parecia a própria personificação da masculinidade ativa e
poderosa. Morton Harland ficou olhando para o outro com espanto e
algo parecido com o temor,
“Rafei Santoris!” Repetiu ele. “ Você é a imagem viva dele, mas
não pode ser ele - você é jovem demais!”
Um brilho divertido apareceu nos olhos do estranho.
“Não falemos de idade ou de juventude por enquanto” , disse ele,
“ Aqui estou - sou aquele seu “excêntrico” colega de faculdade de
quem você e outros camaradas fugiam há muitos anos! Garanto-lhe
que sou inofensivo! Por favor, apresente-me às senhoras” .
Houve uma breve e embaraçosa pausa. Então o Sr. Harland se vol­
tou para nós, que havíamos nos afastado um pouco, e se dirigiu à
filha:

[102] [103)
"Catherine, este cavalheiro diz que me conheceu em Oxford, e se "Mas claro! Sua pergunta será respondida” replicou Santoris.
ele está certo eu também o conheci. Faz pouco tempo que falei dele "Como acabo de dizer, as velas são nossa única força propulsora,
na hora do jantar, lembra? Só não disse o nome dele. Pois bem, tra­ mas não precisamos de vento para operá-las. Por um método cientí­
ta-se de Rafei Santoris - caso ele seja mesmo Santoris! - pois o meu fico muito simples, ou melhor dizendo, pela aplicação científica de
Santoris devería parecer muito mais velho.” meios naturais, geramos uma forma de energia elétrica a partir do ar
"Sinto profundamente” , disse nosso visitante, adiantando-se e fa­ e da água, quando navegamos. Essa força enfuna as velas e impele a
zendo uma mesura elegante para Catherine e eu, "que eu não satis­ escuna com notável velocidade, seja qual for a direção escolhida.
faça as condições de idade que são requeridas! Poderão me perdoar Seu progresso não é afetado pelo vento ou pela calmaria. Quando
essa falha?” rajadas fortes estão disponíveis, naturalmente diminuimos a carga
Ele sorriu, e ficamos um tanto confusos, sem saber o que di­ elétrica - mas podemos navegar em boa velocidade mesmo nas gar­
zer. Sem querer meu olhar se ergueu e encontrou o dele, e nesse ras de um vento contrário. Assim estamos livres das inconveniências
mesmo instante vi naquelas claras órbitas azuis que me fixavam do vapor, da fumaça, da sujeira e do barulho; eu me aventuraria a
com tanta firmeza um mundo de lembranças - lembranças temas, dizer que em mais ou menos duzentos anos meu método de navega­
saudosas e patéticas, que pareciam emaranhadas em lágrimas e fogo. ção será usado em todos os navios grandes e pequenos, e todos se
Todos os instintos interiores de meu espírito me disseram que eu o perguntarão por que não se pensou nisso há muito, muito tempo” .
conhecia bem, tão bem quanto se pode conhecer o ouro da luz do “ Por que não aplicar seu método hoje, você mesmo?” Perguntou
Sol ou a cor do céu, mas onde eu o tinha visto tantas e tantas vezes? o Dr. Brayle, participando pela primeira vez da conversa e fazendo
Enquanto meus pensamentos intrigados se revolviam em tomo da essa pergunta com ar de divertida incredulidade. "Com essa mara­
questão, ele desviou o olhar do meu e continuou a falar com Cathe­ vilhosa descoberta, supondo que seja sua, o senhor ganharia uma
rine. fortuna!”
"Pelo que posso depreender, você está interessada pela ilumina­ Santoris olhou para ele com polida tolerância.
ção de meu iate?" "É bem possível que eu não tenha necessidade disso” , respondeu
"É muito linda, maravilhosa” , respondeu Catherine com seu tom ele, voltando-se novamente para o capitão Derrick e dizendo-lhe
mais frio e convencional. "E tão inusitada!” bondosamente: "espero que tenha esclarecido suas dúvidas. Nave­
As sobrancelhas dele se arquearam com ar levemente zombeteiro. gamos sem vento, é verdade, mas não sem a energia que gera o
“ Sim, suponho que seja mesmo inusitada” disse ele. "Sempre es­ vento” .
queço que o que não é corriqueiro sempre parece estranho. Na reali­ O capitão sacudiu a cabeça, ainda perplexo.
dade, é uma coisa muito simples. O iate se chama “ Sonho” e, como "Bem, caro senhor, não compreendo muito bem” , confessou.
o nome implica, ele é um "sonho” realizado. As velas são seu único “Gostaria de saber mais” .
meio de propulsão. Elas são eletrificadas, e por isso brilham à noite “ Pois saberá! Harland, quer ir ao meu iate amanha? Talvez pos­
de um modo que pode parecer aos desavisados que se trata de uma samos fazer um passeio todos juntos —e depois jantar antes de volta­
iluminação especial. Se me honrarem com uma visita amanhã mos­ rem para cá.”
trarei como funciona” . A expressão no rosto do Sr. Harland era enigmática. O medo e a
Neste ponto o capitão Derrick que ficara parado ali perto não dúvida pareciam estar em luta, e ele não respondeu. Depois, ele apa­
conseguiu mais resistir ao impulso da curiosidade. rentemente dominou a hesitação e conseguiu voltar ao normal.
“Com licença, senhor” , disse ele sem rodeios, “mas eu gostaria “Gostaria de trocar algumas palavras em particular com você” ,
de saber como seu iate navega sem vento” . disse ele, fazendo um gesto na direção do salão.

[104] [105)
O visitante se prontificou a acompanhá-lo; os dois entraram no Houve um silêncio. Olhei para Catherine e vi seu rosto pálido
salão e fecharam a porta. à luz da lua, encovado e envelhecido para sua idade, e meu coração
Seguiu-se um período de silêncio. Catherine me olhou com inter­ se encheu de piedade. Ela estava excitada muito além de seu normal,
rogativa confusão, depois chamou o Sr. Swinton que tinha ficado de e era fácil perceber que o aparecimento do estranho do iate tinha
parte, como se aguardasse ordens, com sua pose enfadonha e servil. despertado interesse e admiração. Tentei puxá-la gentilmente para
"Que espécie de entrevista você teve com o cavalheiro quando longe do salão, mas ela não se mexeu.
subiu ao iate dele?” Perguntou ela. “ Não deveriamos ficar escutando” , disse eu. “ Vamos para lá,
“Muito agradável, muito agradável mesmo” replicou ele. "O bar­ Catherine!"
co está muito bem equipado. Nunca vi tanto luxo. É extraordinário, Ela balançou a cabeça.
mais que principesco! Quanto ao Sr. Santoris, eu o considerei parti­ Nesse momento o Sr. Harland voltou a falar.
cularmente gentil. Quando terminou de ler o bilhete do Sr. Harland,
“Psiu!” Murmurou ela. “ Quero ouvir!”
disse que estava feliz por ser a mensagem enviada por um antigo
“Desculpe” , disse ele. “ Fui injusto com você e peço desculpas.
colega de escola, e que viría comigo para revê-lo, E conforme disse,
Mas você não pode se espantar com minha descrença, considerando
fez” .
sua aparência que é a de um homem bem mais moço do que seria de
“Quer dizer que não ficou com medo dele?” Perguntou o Dr.
esperar de seus anos de vida” .
Brayle com sarcasmo.
A voz sonora de Santoris se fez ouvir.
“ Meu Deus, não! Ele parece ter uma excelente educação e devo
“ Eu não disse a você e aos outros, há muito tempo atrás, que não
dizer que deve ser muito rico.”
“ Uma recomendação de grande peso!” Murmurou Brayle, existe o tempo, só a eternidade? A alma permanece sempre jovem, e
eu vivo no Espirito da juventude, não na Matéria da Idade.”
"A melhor do mundo! E a senhora, que achou dele?” Perguntou
de repente, dirigindo-se a mim. Catherine voltou o olhar arregalado de espanto para mim.
“Não formei qualquer opinião ainda” , respondí falando baixo. “ Ele deve ser louco!” Disse ela.
Que mais eu podería dizer? Como podería eu saber a diferença Não respondí, nem com o olhar nem com palavras. Ouvimos o Sr.
entre o homem que ele era e aquele que havia entrado em minha vi­ Harland falando, só que num tom mais baixo, e não pudemos distin­
da com a insistência de um raio de luz, iluminando tudo que antes guir suas palavras. Logo Santoris respondeu, e o tom vibrante de sua
estava em trevas? voz era claro e distinto.
Nesse momento Catherine pegou minha mão. “ Por que isso parecería tão extraordinário?” Disse ele. “ Você
“ Escute!” Sussurrou ela. não pensa em milagre quando o escultor, parado diante de um bloco
Uma janela do salão estava aberta e estávamos próximos. O Dr. de mármore, o modela de acordo com o que pensa interiormente. O
Brayle e Swinton tinham se afastado para acender seus charutos e mármore é apenas uma pedra, difícil de lidar, difícil de modelar -
nós duas estávamos sozinhas. Ouvimos a voz do Sr. Harland excla­ mas de sua resistente rudeza o pensador e artista pode tirar um
mando, com uma espécie de grito abafado. Apoio ou uma Psique. Você não vê nada de insólito nisso, embora o
“ Meu Deus! Você é mesmo Santoris!” resultado desse trabalho se deva apenas ao Pensamento e ao Labor.
“ Claro que sou!” O tom profundo daquela voz era musical - co­ Mas quando você vê um corpo humano, muito mais fácil de modelar
mo uma melodia cheia de grave e infinita compaixão. “ Por que você que o mármore, submetido pelas mesmas forças de Pensamento e
duvidou? E por que usou o nome de Deus? É um nome que nada Labor, fica tomado de espanto! Certamente ê muito mais simples
significa para você” . controlar as células vivas de nossa própria organização carnal, com­

11061 1107]
pelindo-as a fazer a vontade do espirito dominante, do que esculpir “ Não é nada curiosa” , disse Santoris, “ é perfeitamente natural.
as feições de um deus num bloco de pedra!" Quando é que você vai compreender que não existem “ coincidên­
Urna nova pausa ocorreu depois disso. Seguiram-se mais palavras cias” , mas um sistema muito exato de matemática?"
inaudíveis por parte do Sr. Harland, e enquanto estávamos esperando O Sr. Harland fez um leve gesto de incredulidade.
ouvir mais alguns fragmentos da conversação ele subitamente abriu "Suas teorias de novo!” Disse ele. “ Você ainda as tem! Mas nos­
a porta do salão e nos convidou a entrar. Obedecemos ¡mediatamente, sa amiguinha provavelmente concorda com você. Quando eu falava
e quando entramos ele disse com tom um tanto excitado e nervoso: de você, ela disse que tinha algumas idéias parecidas com as suas.
“ Perdoem-me, senhoras, pela maneira cheia de dúvidas com que Ela é uma espécie de “psiquista” , seja o que for que isso signifi­
recebí meu antigo colega de universidade. Ele é Rafei Santoris - eu que!”
deveria ter visto logo que só existe um dessa espécie! O curioso da “Sabe de uma coisa?” Perguntou Santoris com um sorriso sutil.
história é que ele deveria parecer quase tão velho quanto eu - mas “ Isso é fácil de adivinhar só de olhar para ela!”
por alguma razão não parece!" Senti as faces afogueadas e meus olhos se desviaram do olhar
Dei uma risada. Tena sido difícil não rir. pois a simples idéia de firme dele. Fiquei me perguntando se o Sr. Harland e Catherine te-
comparar os dois, Santoris com aquela aparência ótima, e Morton riam notado que ele usava um pequeno ramalhete de flores no pale­
Harland em sua decadência física, como sendo da mesma idade, era tó. do mesmo tipo que as urzes rosa-vivo que eram minha única
bastante cômico. Até Catherine sorriu, ainda que seu sorriso fosse “jóia de adorno” naquela noite. O gelo inicial ia se derretendo, e
fraco e temeroso. logo nos reunimos em volta da mesa do salão e nos sentamos, e o
“ Acho que você envelheceu mais rápido, papai” . disse ela. “Tal- camareiro nos serviu vinho e petiscos. O embaraço e o mal-estar do
ves o Sr, Santoris não tenha enfrentado tantas pressões". Sr. Harland pareciam ter desaparecido, e ele se entregou ao prazer
Santoris, parado ao lado da mesa de centro do salão, sob a luz de renovar a amizade com aquele homem que tinha conhecido quan­
forte da lâmpada elétrica, olhou para ela com bondoso interesse. do jovem, e os dois começaram a conversar fluentemente sobre seus
“ Vivo ao máximo cada momento de meus dias, sejam altos ou dias na faculdade e sobre os homens que haviam conhecido, alguns
baixos, senhorita Harland” , disse ele. “Não mato o tempo, não o já falecidos, outros vivendo no exterior, outros ainda perdidos nos
afogo - eu o vivenciof Esta moça” e nesse ponto seus olhos se vol­ meandros de incertos destinos. Catherine pouco participou da con­
taram para mim, “ aparentemente faz o mesmo!” versa, mas ficou ouvindo atentamente. Seus olhos desbotados esta­
“E faz!” Disse imediatamente o Sr. Harland, com ênfase. “É uma vam brilhantes, por uma vez, e ela observava o rosto de Santoris
verdade! Você sempre foi um bom juiz do caráter das pessoas, San­ como se olhasse para um quadro animado. O Dr. Brayle e o Sr.
toris! Creio que não o apresentei devidamente á nossa amiga” . Ele Swinton que até então tinham estado passeando e fumando no con­
disse meu nome e estendí a mão. Santoris a pegou com um aperto vés, pararam na porta do salão. O Sr. Harland os chamou.
suave e quente, soltando-a em seguida e se inclinando. “ Eu a chamo “ Entrem, entrem!” Disse ele. “ Santoris, este é o meu médico, Dr.
nossa pequena amiga, porque ela traz uma aura de alegria para onde Brayle. encarregado de cuidar de mim durante a viagem” . Santoris o
for. Nós a convencemos a viajar conosco este verão por uma razão cumprimentou com um gesto de cabeça. “E este é o meu secretário,
muito egoística, a de que nós tendemos para a insipidez, e ela está Sr. Swinton, que mandei ir até o seu iate há pouco” . Novamente
sempre feliz. Como vê, a vantagem está toda do nosso lado! Por es­ Santoris fez um cumprimento. Sua saudação ligeira, mas perfeita­
tranho que pareça, eu estava falando de você para ela, justamente na mente cortês, contrastava vivamente com o aceno descuidado com
noite em que o seu iate apareceu por trás do nosso em Mull. Essa foi que os dois homens “ modernos” tomaram conhecimento da apre­
uma coincidência muito curiosa, pensando bem” . sentação. “ Ele estava temendo por sua vida, ao ir para o seu iate” .

[ 108 ] [ 109 ]
continuou o Sr. Harland com uma risada. “ Pensou que talvez você trasse seu olhar fixo em mim. A conversação girou sem propósito em
fosse uma ilusão, ou o próprio diabo, por causa daquelas inflamadas tomo de vários tópicos comuns e eu, mudando um pouco de posição,
velas!” O Sr. Swinton estava com um ar envergonhado. Santoris sentei ao lado da janela de onde podia observar os raios de luar
sorriu. “ Esta bela sonhadora” disse ele, olhando para mim, “ foi a criando um brilho metálico nas águas paradas de Loch Scavaig, ao
Unica de nós que não expressou surpresa ou medo ao ver sua escuna mesmo tempo ouvindo o que os outros falavam sem tomar parte. Eu
ou a idéia de talvez conhecê-lo, embora haja um incidente ligado ao não queria falar, a refinada alegria de minha alma era intensa demais
bonito raminho de urzes que ela está usando. M as.. . vejam só, você para aceitar outra coisa que não fosse o silêncio. Eu não sabia por
também está usando esse tipo de flor!” que estava tão feliz, só sabia, por um instinto interior, que havia
Houve um momento de silêncio. Todos ficaram olhando. O san­ atingido um ponto de minha vida pelo qual havia lutado por um pe­
gue ferveu em minhas veias e senti que ficava rubra, mas não sabia riodo mais longo do que me seria possível perceber. Nada havia que
porque estava embaraçada ou sem palavras. Santoris veio em meu eu pudesse fazer naquela hora a não ser esperar com fé e paciência o
socorro. passo seguinte - um passo que eu sentia que não daria sozinha. Ouvi
“Não há nada de extraordinário nisso, não é mesmo?” Perguntou com interesse quando o Sr. Harland fez o antigo colega passar por
ele alegremente. “ Flores de urzes são abundantes nesta parte do uma espécie de exame ou inquisição sobre o que tinha estado fazen­
mundo. Eu não me atrevería a tentar contar quantos turistas encon­ do e para onde tinha viajado, desde a última vez em que eles tinham
trei usando essas flores nos últimos tempos!” se encontrado. Santoris parecia não se importar com o interrogató­
“Ah, mas você não sabe os detalhes ligados a este espécime em rio.
particular!” Persistiu o Sr. Harland. “O ramalhete foi dado a ela por “Quando escapei de Oxford” , disse ele, sendo interrompido pelo
um escocês selvagem das Terras Altas, presumivelmente nativo de Sr. Harland.
Mull, na manhã depois do dia em que vimos seu iate pela primeira “ Escapou?” Exclamou ele. “Você fala como se tivesse estado na
vez, e ele disse que na noite anterior tinha levado todas as flores que prisão” .
conseguira colher para você! Certamente existe uma conexão!” “ E estive mesmo” , replicou Santoris. “Oxford é uma prisão para
Santoris balançou a cabeça. todos que queiram se alimentar com algo mais que os ossos do co­
“Acho que não!” Disse ele, sorrindo. “ O “ selvagem das Terras nhecimento. Enquanto estive lá, fui como o filho pródigo —exilado
Altas” por acaso citou o meu nome?” da casa de meu Pai. E comi “ os sabugos que os porcos comem”.
“ Não, creio que ele se referiu a você como “o cavalheiro dono do Muitos colegas têm que fazer o mesmo. As vezes, embora não fre­
iate". quentemente, chega um homem cuja constituição não é apropriada
"Bem!” Disse Santoris, rindo. “ Existem tantos “ cavalheiros” que para a ingestão de sabugos. A minha foi e continua sendo uma
são donos de iates! Ele pode ter confundido seus fregueses. De constituição assim” .
qualquer maneira, fico feliz por ter alguma coisa em comum com sua “ Você conseguiu muitas honras com esses “ sabugos” , disse o Sr.
amiga - ainda que seja um ramalhete de urzes!” Harland.
“O ramalhete dela tem um comportamento estranho” , interveio Santoris fez um gesto de leve desprezo.
Catherine. "Nunca murcha". “Honras! Que honras! Qualquer um que não fosse viciado em be­
Santoris não fez qualquer comentário. Era como se não tivesse bidas poderia obtê-las com um pouco de determinação e esforço. As
ouvido, ou não quisesse ouvir. Ele mudou o rumo da conversa, para “ dificuldades” alegadas são perfeitamente infantis. Não merecem
meu alivio, e pelo restante do tempo que passou em nossa compa­ ser chamadas obstáculos da educação. Sempre fiz o meu trabalho
nhia evitou falar comigo, embora por uma ou duas vezes eu encon­ acadêmico em duas ou três horas; o resto de meu tempo na faculdade

[110] MU 1
era puro passatempo, e eu o utilizei em outras e mais inteligentes O Sr, Harland estudou o belo rosto e a máscula figura do outro
formas de estudo, separadas do currículo geral - como você bem sa­ com mal disfarçada inveja.
be.” “ Você foi para o exterior depois de sair de Oxford?” Perguntou
“Você quer dizer mistérios do oculto e coisas do gênero?” ele.
“Oculto” é uma palavra de criação tão recente que nem sequer “Sim. Voltei para meu antigo lar no Egito, para a casa onde nasci
consta de muitos dicionários” respondeu Santoris, com um olhar di­ e fui criado. Ela tinha sido bem cuidada e mantida pelo fiel servo a
vertido, “ Você não a encontra, por exemplo, nas edições mais anti­ quem meu pai a havia confiado, tão bem cuidada quanto a Câmara
gas do confiável compêndio de Stormonth. Eu não aprecio esse ter­ do Rei nas pirâmides com as oferendas fúnebres intocadas e uma
mo. Prefiro dizer “ ciência Espiritual” . lámpada perpetuamente acesa. Foi o melhor lugar possível para eu
“ Você acredita nisso?” Perguntou Catherine, abruptamente. continuar meu trabalho sem interrupção; eu ficava lá maior parte do
“ Sem dúvida! Como poderia não acreditar, se é a chave para a tempo, somente saindo, como agora, quando sentia necessidade de
Natureza da Alma?” uma mudança e de dar uma olhada no mundo para ver como está vi­
“Isso é complexo demais para mim!” Disse o Dr. Brayle, servin­ vendo nestes dias.”
do-se de uma dose de uísque e misturando-a com soda. “ Se é um “E . . . " o Sr. Harland hesitou um pouco, antes de continuar; “ vo­
enigma, eu desisto!” cê é casado?”
Santoris ficou em silêncio. Houve um momento de pausa. Então Santoris levantou o olhar e encarou fixamente seu antigo colega
Catherine inclinou-se sobre a mesa, olhando para ele com olhos can­ de estudos.
sados e questionadores. “A pergunta é desnecessária” , disse ele, “ você sabe que não sou” .
“Não poderia explicar?” Murmurou ela. Houve uma breve a embaraçosa pausa. O Dr. Brayle olhou para
“É fácil!” Respondeu ele. “ Qualquer um pode compreender se Santoris com um sorriso sarcástico.
prestar um pouco de atenção. O que quero dizer é o seguinte: o cor­ “A ciência espiritual provavelmente lhe ensinou a tomar cuidado
po humano expressa exteriormente sua condição interior de saúde, com o sexo frágil.. disse ele.
mentalidade e espiritualidade; pois bem, a Natureza, exatamente da “ Não compreendo bem o que quer dizer” , respondeu Santoris,
mesma maneira,1em suas incontáveis e variadas apresentações da fríamente. “Mas se quer dizer que não sou um apreciador das mulhe­
beleza e da sabedoria, expressa sua própria Alma, ou a força espiri­ res no plural, está correto” .
tual que sustenta sua existência. A “ciência Espiritual” é o conhe­ “Talvez me refira a uma mulher - aquela pérola rara e única do
cimento da causa interna que toma o efeito manifesto, mais do que mar profundo” , insinuou o Dr. Brayle, imperturbável.
do efeito exterior. É um conhecimento que pode ser aplicado aos “Calma, Brayle, você está sendo pessoal demais", interrompeu o
usos diários da vida individual; quanto mais for estudado, mais re­ Sr. Harland, asperamente. “ À sua saúde, Santoris!”
compensas trará; a menor parte dele que seja completamente domi­ Ele levou a taça aos lábios e' Santoris fez o mesmo, e essa simples
nada tende a levar a uma descoberta, simples ou complexa que eleva cortesia entre os dois interlocutores principais daquela conversação
a parte imortal do homem para um patamar superior do caminho que tiveram o efeito de colocar o Dr, Brayle em seu devido lugar.
deve percorrer” . “ Parece supérfluo desejar saúde ao Sr. Santoris” , disse Catheri­
“ Você então está satisfeito com suas pesquisas?” Perguntou o Sr. ne. “ A dele evidentemente é perfeita” .
Harland. Santoris olhou para ela com bondoso interesse.
Santoris sorriu com gravidade. “ A saúde é uma lei, senhorita Harland” , disse ele, “ a culpa é
“ Pareço um homem fracassado?” Perguntou ele. nossa quando pecamos contra ela” .

[112] [ 113]
“ Você diz isso porque é forte e saudável” , disse ela com voz “O que em sua opinião seriam esses cuidados apropriados?” Per­
queixosa. “ Se você fosse enfermo e estivesse sofrendo, teria uma vi­ guntou Catherine.
são diferente da doença” . “Total ausência de auto-indulgência, para começar” , respondeu
Ele sorriu com uma certa compaixão. ele. “ Não se deveria permitir a qualquer criança fazer tudo que qui­
“Creio que não” , disse ele. “ Se eu estivesse doente e sofrendo, sesse ou esperar ganhar tudo. A primeira grande lição da vida deve
como diz você, sabería que por minha própria negligência, descaso ser a renúncia ao eu” “ como centro de tudo” .
ou egoísmo tinha prejudicado meu organismo mental e fisicamente e Um leve rubor coloriu o rosto pálido de Catherine. O Sr. Harland
que, portanto, a penalidade exigida era justa e razoável". ficou se remexendo na cadeira.
“ Você certamente não está dizendo que o homem é responsável “ A menos que um homem cuide de si, ninguém o fará por ele” ,
por suas próprias enfermidades?” Perguntou o Sr. Harland. “ Isso se­ disse o Sr. Harland.
ria um exagero, mesmo paia você! Pois não só um ser humano é “Cuidar razoavelmente de nós mesmos não é egoísmo” , replicou
amaldiçoado por seu próprio sangue contaminado mas também com Santoris. “Mas todo excesso é puro vício. O homem deve trabalhar
o sangue envenenado de seus pais e, de acordo com a ciência médi­ para não ser um fardo para os outros. Da mesma forma, ele deve
ca mais moderna, o próprio ar e a água estão cheios de germes mor­ cuidar da saúde para evitar ser um inválido incômodo, dependente
tais para a vítima incauta” . da compaixão alheia. Adoecer é comprovar a desobediência às leis
“Ou germes vitais!” Interpôs Santoris, falando baixo. “ De acor­ existentes e incapacidade de resistir ao mal".
do com o meu conhecimento ou “ teoria” , como você quiser, não “O senhor impõe uma regra muito dura, Sr. Santoris” . disse o Dr.
existem germes da morte. Há germes que desintegram formas fra­ Brayle. “ Muitos infelizes estão doentes sem que seja por sua própria
cas de matéria apenas para permitir que as forças da vida as re­ culpa” .
construam, e para que essas possam se espalhar pelo sistema hu­ “Perdoe o meu dogmatismo quando digo que tal coisa é impossí­
mano, caso esse sistema esteja preparado para recebê-las. Seu pro­ vel” . respondeu Santoris. “ Se um ser humano começa a vida com
cesso de devastação é chamado doença, mas esses germes nunca saúde, não pode ficar doente a menos que seja por alguma falta sua.
iniciam seu trabalho até que o ser por eles atacado tenha desper­ Pode ser uma falha moral ou física, mas existe uma violação da lei.
diçado uma oportunidade importante ou negligenciado uma neces­ Supondo que tenha nascido com algum mal hereditário, poderá elimi­
sidade vital. Muito mais numerosos são os germes benéficos com ná-lo de seu sangue se determinar que assim será. O homem não foi
poder revivificante e criativo - se encontrarem o ambiente neces­ feito para ser doente e sim para ser forte —ele não está na terra para
sário, conquistam os germes cuja operação é destrutiva. Tudo de­ ser um servo e sim um senhor, e todos os elementos da força e da
pende do solo e da nutrição que lhes sejam oferecidos. Os maus soberania individual estão na Natureza para seu uso e vantagem, se
pensamentos envenenam o sangue, e no sangue ruim a doença ele aceitá-los com sinceridade igual à generosidade com que são ofe­
germina e floresce. Os pensamentos puros formam um sangue pu­ recidos. Não posso lhe conceder nem a menor possibilidade de má
ro que reconstrói as células da saúde e da vitalidade. Concordo intenção, voluntária ou não, no plano Divino!” Disse Santoris sor­
em que existe uma coisa chamada doença hereditária, mas isso po­ rindo.
dería ser evitado em grande parte tomando o casamento entre pes­ Nesse momento o capitão Derrick apareceu na porta do salão para
soas doentes uma ofensa criminal; grande parte dessas doenças lembrar que o bote estava ainda a postos para levar o visitante de
poderíam igualmente ser expulsas por cuidados apropriados na volta ao seu iate. Ele se levantou ¡mediatamente, com uma breve
infância. Infelizmente, esses cuidados raramente são proporciona­ desculpa por ter se demorado tanto, e todos o acompanharam para as
dos” . despedidas finais. Ficou combinado, que nos encontraríamos na sua

1114) (115]
escuna na manhã seguinte, para navegar com ele ao longo da ilha O Sr. Harland se virou para ele abruptamente.
costeira ou então fazer uma excursão a pé até o lago Coruisk, que “Engano seu” , respondeu ele. “Não há loucura nele, embora seja
era um local imperdível. Quando estávamos andando pelo convés com certeza um gênio. Ele tem a mesma mente que tinha quando o
enluarado o acaso o fez ficar ao meu lado enquanto os outros fica­ conhecí na universidade. Nunca existiu um estudante mais lúcido e
ram na frente. Eu senti mais que vi seus olhos fixados em mim, e le­ brilhante".
vantei o tosto para ele, obedecendo o comando de seus olhos. Havia “É curioso o senhor encontrá-lo de novo nessas circunstâncias"
uma luz, um expressivo significado em seu modo de me olhar, mas disse Catherine. “Mas certamente ele não pode ter a mesma idade
ele falou em tom perfeitamente convencional: que vocé!”
“ Estou feliz por tê-la encontrado finalmente” , disse ele baixinho. “ Ele ê mais ou menos três anos e meio mais moço - isso é tudo.”
‘‘Eu a conhecia de nome e em espírito há muito tempo” . O Dr. Brayle riu.
Não respondi. Meu coração começou a bater rápido, com uma “Não acredito nisso, absolutamente. Acho que ele está represe-
emoção de inenarrável alegria e medo misturados. tando um papel. Provavelmente não ¿ ele o homem que o senhor co­
“ Amanhã” , continuou ele, "poderemos conversar, espero, Sinto nheceu em Oxford.”
que há muitas coisas pelas quais nos interessamos mutuamente". Naquele momento estavámos nos dirigindo aos camarotes para
Outra vez não consegui falar. nos recolhermos, e o Sr. Harland parou quando essas palavras foram
“ Às vezes acontece” , disse ele, com a voz um pouco trêmula, ditas e nos encarou.
“que duas pessoas não tenham consciência imediata de que já se en­ “Ele é o mesmo homem!” , disse ele enfaticamente. “Tive minhas
contraram antes, não sintam logo que são apresentadas como se já dúvidas a princípio, mas estava enganado. Quanto a “ representar um
fossem velhos amigos. Não ê verdade?" papel” isso seria impossível. Ele é absolutamente sincero - quase ao
Murmurei minha concordância com um murmúrio praticamente ponto da crueldade!" Uma curiosa expressão lampejou em seus
inaudível, olhos, uma espécie de temor oculto. “ De certo modo estou contente
Ele curvou a cabeça e me olhou intensamente: havia um sorriso por tê-lo reencontrado; de outro, estou aborrecido, pois ele vem
em seus lábios e seus olhos estavam cheios de ternura. perturbar o sossego agradável das convenções. Vocé gostará dele” ,
“ Um dia não é uma espera longa demais” , disse ele. “Não depois disse ele bruscamente, olhando para mim como se tivesse esquecido
de tantos anos! Boa noite!” de minha presença. “ Vocês têm muitas idéias em comum e certa-
Uma sensação de calma e doce certeza me invadiu. mente se darão muito bem. Quanto a mim. sou o oposto completo
“Boa noite!” , respondi, com um sorriso feliz respondendo ao de­ dele - os dois pólos não estão mais separados do que nós na questão
le. “Até amanhã!” dos sentimentos e crenças”. Ele fez uma pausa, parecendo estar
Estávamos perto da escada de corda onde os outros jã esperavam. preocupado por uma nuvem passageira de dolorosos pensamentos, e
Em poucos segundos ele se despediu de todos nós e estava a cami­ em seguida disse: “ há uma coisa que eu talvez devesse explicar, es­
nho de seu próprio barco. O bote, impelido por nossos remadores, pecialmente a vocé, Brayle, para evitar discussões inúteis. Natural­
logo desapareceu, transformando-se num borrão negro dentro da es­ mente é uma "mania” , mas maníaco ou não, ele é absolutamente ir­
curidão, mas ainda ficamos algum tempo olhando, como se pudés­ redutível em relação ao ponto que ele chama o grande Fato da Vida,
semos vê-lo quando já não era mais visível. o de que não pode existir a Morte, que a Vida é etema e portanto
“ Um homem estranho!” Disse o Dr. Brayle quando finalmente indestrutível em todas as suas formas” .
nos afastamos dali, atirando o charuto ao mar por sobre a amurada. “ Ele se considera imune à sorte comum a todos os mortais?" Per­
“Uma combinação de gênio e loucura” . guntou o Dr, Brayle com um toque de ironia.

[ 116 ] [1171
“ Ele nega totalmente essa “ sorte comum” a todos” , replicou o
Sr. Harland. “ Para ele, cada vida individual é uma sucessão perpé­
tua de mudanças progressivas: ele defende o ponto de vista de que
nunca pode ser feita uma mudança antes que a pessoa esteja prepa­
rada para a “ roupagem" seguinte, ou aparência mortal do ser imor­
tal, segundo uma escolha e preferência voluntárias". VII
“ Então ele é louco!" Exclamou Catherine. “ Deve ser louco!" Eu
sorri, dizendo: LEMBRANÇAS
“Pois então sou louca também, pois acredito o mesmo que ele.
Permitam-me lhes desejar boa-noite.” A felicidade perfeita ¿ a aceitação de uma sensação de alegria in­
Com essas palavras me afastei, feliz com a idéia de ficar a sós questionável, por parte da alma. Foi esse o sentimento que eu viven-
comigo mesma e com o secreto deleite de meu coração. ciei em todo o meu ser naquela inesquecível noite. Assim como a
árvore pode amar o vento suave a agitar suas folhas, ou uma floizi-
nha do campo se rejubilar com o calor do Sol, para o qual abre as
pétalas douradas sem poder explicar seu delicioso êxtase, assim
também eu era um vaso de luz e singular felicidade que fugia de
qualquer explicação ou análise. Não tentei pensar, para mim bastava
SER. Naturalmente eu compreendia que nada podería haver em co­
mum entre os Harlands e seus dois assistentes pagos, o materialista
Dr. Brayle e a máquina administrativa que era o Sr. Swinton, e
Rafei Santorís; sabendo por experiência que nem o mais insignifi­
cante acontecimento ocorre sem que haja uma causa para ele pre­
vista e sem que haja um propósito em seu resultado, estava certa de
que o motivo de Santorís entrar em contato conosco estava ligado a
mim, e essa certeza me veio por uma misteriosa intuição. Entretanto,
como já disse, não pensei nisso, bastava-me respirar o ar revigorante
da paz e da serenidade no qual meu espírito parecia flutuar como se
tivesse asas. Dormi como uma criança cansada de brincar e se di­
vertir, e acordei como uma criança para quem o mundo é algo novo
e transbordante de beleza. Que fosse um dia cheio de Sol parecia
certo e natural. Nuvens e chuva dificilmente teriam penetrado a bri­
lhante atmosfera na qual eu me movia e pulsava. Era uma atmosfera
criada por mim mesma, 6 claro, e por isso não podería ser perturbada
por nenhuma tempestade, a menos que eu permitisse. É possível a
todo ser humano viver na luz da alma, seja qual for o ambiente em
que se encontre o corpo. Uma pessoa, dessas que são chamadas
“ práticas'* me feria dito: “por que você está tão feliz?

1118] (119)
Não existe uma causa real para essa súbita exaltação. Você julga ter “ Para segurar seus pacientes” , insinuei com um sorriso.
encontrado alguém que está em harmonia com seus gostos, idéias e Ele se virou para mim.
sentimentos - mas pode estar enganada, e essa fulgurante onda de “Ora, que é isso agora! Você podería curá-la?”
alegria na qual mergulhou impensadamente poderá atirá-la, quebrada
“Eu poderia tê-la curado no início” , respondí. “ Dificilmente po­
e ferida, numa praia desolada pelo resto de sua vida. Poder-se-ia di­
dería fazê-lo agora. Só ela pode se curar” .
zer que você se apaixonou à primeira vista” .
Ele recomeçou a andar de um lado para outro.
A isso eu teria respondido que não existe amor à primeira vista; a
“ Ela não terá condições de ir conosco visitar Santoris” , disse ele.
própria expressão transmite uma falsa idéia, já que aquilo que o
“Tenho certeza disso” .
mundo em geral chama “ amor” não é amor. Além disso, nada havia
em minha mente ou meu coração com relação a Rafei Santoris além “ Vamos deixar para outra ocasião esse passeio?”
de profundo interesse e sentimento de amizade. Eu estava ceita de “ Não, claro que não. Será uma mudança agradável para você e
que suas crenças eram as mesmas que as minhas, e que ele tinha se­ um prazer do qual não desejo privá-la. Além disso, também quero ir.
guido as mesmas linhas de pesquisa que eu me esforçava por seguir; Mas Catherine.. . ”
e assim como dois músicos, inspirados por seu mútuo amor à arte, se O Dr. Brayle entrou no salão com passos leves e atitude profis­
alegram em tocar juntos os seus instrumentos, no mesmo compasso e sional.
tom, eu sentia que nós dois havíamos nos encontrado num plano de “A senhorita está melhor agora e ficará calma em poucos minu­
pensamento no qual tínhamos estado vagando por longo tempo, em­ tos. Mas precisa ficar em repouso. Não acho aconselhável qualquer
bora separadamente. excursão por enquanto.”
O iate “ Sonho” , com as velas brancas levantadas e prontas para “ Bem, isso não impede que os outros possam ir” , disse o Sr.
partir, era tão bonito de dia, parado ao Sol sob o céu azul, quanto I Harland.
noite, com a cintilação elétrica desenhando sua silhueta contra as “Claro que não. Aliás, Miss Catherine disse que gostaria que vo­
estrelas, e eu estava ansiosa para subir a bordo. Mas fomos retarda­ cês fossem, e manda se desculpar perante o Sr. Santoris. Eu, natu­
dos por um “ ataque de nervos” de Catherine, que de manhã cedo fo­ ralmente, ficarei aqui para atendê-la.”
ra vítima de violenta histeria, à qual tinha se entregado soluçando, “ Então você não vem conosco?” Um ar de inconsciente alivio
rindo e ofegando de tal modo que se descontrolara completamente. clareou as feições do Sr. Harland. “ Como o Sr. Swinton prefere não
O Dr. Brayle tomou-a imediatamente sob seus cuidados, enquanto o ir mesmo, seremos um grupo de três, o capitão Derrick, eu e nossa
Sr. Harland se agitava e resmungava, indo de um lado para outro do amiga que aqui está. E melhor partirmos já. O bote já está pronto?”
salão com o rosto zangado e os olhos tempestuosos. Ele me viu es­ Fomos informados que o Sr. Santoris tinha mandado sua própria
perando, já vestida para a excursão que havia sido planejada, e dis­ lancha para nos buscar, e a mesma já estava à nossa espera fazia al­
se: guns minutos. Preparamo-nos para descer imediatamente, e enquanto
“Sinto muito por toda essa confusão. Catherine está cada vez o Sr. Harland vestia o casaco e procurava por seus binóculos, o Dr.
pior. Os nervos dela a estão destruindo.” Brayle me disse em voz baixa:
“ Ela é que permite isso” , respondí, “e o Dr. Brayle deixa que ela “ A grande verdade é que Miss Catherine foi muito afetada pela
seja dominada pelos nervos” . visita do Sr. Santoris e por algumas coisas que ele disse a noite pas­
Ele sacudiu os ombros. sada. Ela não conseguiu dormir e ficou com a mente extremamente
“Você não gosta de Brayle” , disse ele, “ mas ele é competente e perturbada por pensamentos angustiantes. Estou satisfeito com a de­
faz o que pode” . cisão dela de não ir vê-lo hoje.”

[ 120 ] | 121]
“O senhor acha que a influencia dele é nociva?” Perguntei uno
O Sr. Harland então tentou descobrir se era verdade, perguntando
tanto divertida.
a um dos homens alguma coisa sobre o tempo. O homem sorriu, e o
“ Eu não o considero completamente equilibrado” , respondeu o súbito brilho de seus dentes brancos tomou seu rosto, naturalmente
Dr. Brayle, fríamente. "Pessoas muito nervosas como Miss Catheri- grave, luminoso e atraente.
ne estão melhor sem a presença de teóricos inteligentes mas total­ “ Bonito dia! Disse ele. "Um céu feliz!”
mente irresponsáveis” . A expressão “ céu feliz” me atraiu. Despertou em minha mente
Senti o sangue subir ao meu rosto. uma frase que tentara traduzir uma inscrição encontrada num sarcó­
"O senhor me inclui nessa categoría, é claro” , disse eu em voz fago egípcio: "que a paz da manhã te receba amigavelmente, e tam­
baixa. "Pois eu disse ontem à noite que se o Sr. Santoris era louco, bém a luz do ocaso e a felicidade do céu” . As palavras soavam em
então também sou, pois defendo as mesmas idéias” . meus ouvidos com estranha familiaridade, como os versos de um
Ele riu com ar superior. poema predileto, aprendido de cor na infância.
"Você é inofensiva” , respondeu ele, condescendentemente. “ Vo­ Em poucos minutos chegávamos ao “ Sonho” . Subimos a bordo,
cê é só uma mulher. Inteligente, muito encantadora, cheia das mais onde Rafei Santoris nos aguardava com boas vindas afáveis e cheias
deliciosas fantasias, mas (felizmente) limitada pelas restrições de seu de calor. Expressou polidamente seus sentimentos pela ausência de
sexo. Asseguro-lhe que não tenho a intenção de ofendê-la. mas os Miss Catherine —mas não disse palavra a respeito do Dr. Brayle ou
“pontos de vista” de uma mulher, sejam quais forem, nunca são do Sr. Swinton. Em seguida apresentou-nos o capitão, um italiano
aceitos por seres racionais” . chamado Marino Fazio, a quem o Sr. Santoris se referiu com as se­
Dei uma grande risada. guintes palavras acompanhadas de um soniso:
“ Entendo! Os seres racionais naturalmente são sempre os ho­ “ Ele é cientista além de capitão, e precisa ser ambos para poder
mens! O senhor tem mesmo certeza disso?” dar conta de um iate como este. Ele tomará o capitão Derrick sob
seus cuidados e lhe explicará o mistério de nossa aparência brilhante
“ Você tem a resposta no fato de que os homens é que dominam o
à noite e também o segredo da navegação sem vento.”
governo e o progresso do mundo” , replicou ele.
Fazio fez uma saudação e sorriu alegremente em resposta.
"Meu Deus, pobre mundo!” Murmurei. “ Às vezes ele se rebela
“ Estão prontos para partir?” Perguntou ele em inglês muito cor­
contra o “racionalismo” de seus dirigentes!”
reto, com apenas um levíssimo sotaque estrangeiro.
Nesse momento o Sr. Harland me chamou e me apressei para reu­ “ Perfeitamente!”
nir-me a ele e ao capitão Derrick. A lancha que nos esperava estava Fazio ergueu a mão dando sinal ao homem do leme. Logo o iate
tripulada por quatro homens vestidos com blusões de jersey branco começou a se mover sem o menor ruído —sem guincho de cordas,
com debruns vermelhos e o nome "Sonho” no peito. Eles eram mo­ bater de correntes ou rangido de tábuas. Virou-se graciosamente e
renos e tinham olhos escuros; a princípio pensamos que fossem começou a deslisar pela água com uma rapidez que era quase inacre­
portugueses ou malaios, mas na verdade eram egípcios. Eles nos ditável. As velas se enfunaram, embora o ar estivesse muito quente e
cumprimentaram sem falar, e logo que nos acomodamos fizeram o parado, um ar que faria parar irremediavelmente qualquer veleiro
barco partir rapidamente. O capitão Derrick observava os movi­ comum, e quase num piscar de olhos saímos de Loch Scavaig e
mentos deles com grande interesse e curiosidade. voamos como se estivéssemos sobre as asas de um gigantesco pássa­
“ Bastante fibra nesses homens!” Disse ele para o Sr. Harland. ro ao longo da pitoresca costa de Skye, na direção de Loch Braca-
"Repare nos braços musculosos! Acho que não sabem falar uma só dale. Uma das mais extraordinárias características do iate era a
palavra em inglês” . grande leveza com que singrava as águas. Ele parecia navegar na su-

M22] [123]
peifície, mais que fender a água com a quilha. Tudo a bordo com­ Ele nos precedeu à saída do salão e nos mostrou os camarotes,
provava o mais fino gosto e a mais perfeita conveniência, e vi o Sr. que eram cinco, graciosamente mobiliados nas cores branco e azul e
Harland olhando à sua volta completamente tomado pelo espanto branco e rosa.
diante da suntuosidade do ambiente. Santoris nos mostrou todo o “Estes são para meus convidados, quando os tenho” , disse ele,
barco, falando conosco com a familiaridade de um velho amigo. “o que só acontece raramente. Este é para uma princesa - se um dia
“ Vocês conhecem o axioma'1, disse ele, “ segundo o qual “o que uma delas me honrar com sua presença!”
merece ser feito merece ser bem-feito". O “ Sonho” foi, a princípio, Ele abriu uma porta à sua direita, e por ela espiamos para um
apenas um sonho em minha mente, até que Fazio e eu nos decidimos quarto comprido e encantador, cheio de cores iridescentes e toques
a trabalhar nelee tomá-lo realidade. Devido a nossa descoberta sobre de ouro e cristal. A cama estava envolta em rendas que pareciam
o meio de fazer a água servir de força propulsora, não temos fumaça uma névoa, e através dela transparecia um suave brilho rosa-pálido;
nem vapor, de modo que os móveis e utensílios ficam a salvo de man­ o carpete verde-musgo formava um fundo adequado para os móveis
chas e estragos. Como podem ver, foi possível pintar o salão com co­ de forma singular, todos de sándalo incrustado de marfim. Numa
res delicadas” . Nesse ponto ele abriu a porta do compartimento men­ mesinha de marfim esculpido, no centro do quarto, estava um ramo
cionado, onde entramos como se fosse num palácio encantado. A al­ de lírios presos por um cordão de ouro torcido. Murmuramos nossa
tura das paredes era maior do que nos iates em geral; em todos os admiração, e Santoris dirigiu-se diretamente a mim pela primeira vez
lados as janelas eram de formato oval, e entre elas estavam primoro­ desde nossa chegada no iate,
samente pintados painéis com cenas marinhas, evidentemente a obra “Gostaria de entrar e descansar um pouco antes do almoço?”
de um grande artista. O teto estava forrado com um tecido de seda Perguntou ele. “Coloquei os lírios ali esperando que você os acei­
turquesa pálido, apanhada em belo drapeado nos quatro cantos, e no tasse” .
centro havia uma lâmpada de cristal em forma de estrela. O sangue subiu ao meu rosto e eu olhei para ele com um pouco
“ Você vive como um rei” , disse o Sr. Harland, com um pouco de de espanto.
amargura. “ Vejo que sabe usar bem a fortuna de seu pai” . “ Mas eu não sou uma princesa!”
“A fortuna do meu pai foi feita para ser usada” , respondeu San­ Seus olhos sorriram para os meus.
toris, com perfeito bom humor. “ Estou certo de que ele está muito “Não? Então devo ter sonhado que sim.”
satisfeito com meu modo de gastá-la. apesar de que só uma pequena Meu coração deu um rápido salto, uma lembrança tocou meu cé­
parte foi tocada. Eu consegui fazer minha própria fortuna” . rebro, mas eu não consegui saber que lembrança era. O Sr. Harland
“ Verdade? E como?” O Sr. Harland parecia estar profundamente me olhou e riu.
interessado na resposta. “ O que foi que eu lhe disse no outro dia?” Perguntou ele. “ Não a
“Ah, isso é querer demais de mim!” Riu Santoris. “ Você deve se chamei de princesa de um conto de fadas? Pois olhe, eu não estava
convencer, entretanto, que não foi defraudando o meu próximo. É tão errado assim!”
relativamente fácil enriquecer se conseguimos extrair alguns segre­ Eles me deixaram sozinha. Fiquei ali no lindo quarto que tinha
dos da Mãe Natureza. Ela é muito generosa com seus filhos, se eles sido colocado à minha disposição, e um curioso sentimento me inva­
o forem com ela. Posso dizer mesmo que ela os mima, pois quanto diu, o de que aquele luxuoso ambiente não era uma novidade para
mais lhe pedem, mais ela dá. Além disso, todo homem deve ganhar mim, afinal. Eu tinha me acostumado a ele durante grande parte de
seu próprio dinheiro, mesmo que herde uma fortuna, pois essa é a minha vida. Um momento! Que tolice a minha! “ Uma grande parte
única maneira de se sentir merecedor de um lugar ao Sol neste belo de minha vida?” Rapidamente revisei minha existência —uma infân­
e sempre operoso mundo” . cia solitária e difícil, o duro trabalho de sobrevivência que me coube

[ 124 ] [ 125 ]
assim que atingí a idade de trabalhar, e certamente nenhum exces­ convés, onde estava meu anfitrião, o Sr. Harland, o capitão Denick
so de riqueza. Então onde eu teria conhecido o luxo? Afundei nu­ e Marino Fazio, todos conversando animadamente.
ma cadeira, pensando sonhadoramente. O perfume de sándalo mis­ “O mistério já foi esclarecido” , disse o Sr. Harland, falando co­
turado ao dos lírios era como o sopro de um jardim fragranté do migo. “ O capitão Derrick está satisfeito. Ele já aprendeu de que
oriente, que eu conhecia havia muito tempo; enquanto me deixava modo uma das melhores escunas já construídas navega à velocidade
levar pelo pensamento, tomei consciência de um súbito influxo de máxima em qualquer tempo, sem vento” .
poder e de uma sensação de dominação que pareceu me elevar acima “ Bem, não aprendí como é que se faz - longe disso!” Disse Der­
do solo, como se, sem qualquer aviso, eu tivesse recebido o total rick bem-humorado. “Mas vi como é feito. É maravilhoso! Se essa
controle de um grande reino e seu povo. Vendo meu reflexo no es­ invenção pudesse ser adaptada a todos os navios..
pelho em frente, fiquei admirada ê quase temerosa diante da expres­ “ Ah! Primeiro seria necessário instruir os fabricantes!” Interveio
são de meu rosto, da orgulhosa luz em meus olhos, do sorriso em Fazio. “ Eles teriam que aprender tudo de novo. Nosso iate parece
meus lábios. ter sido construído como todos os outros, mas é totalmente diferente
“O que estou pensando!” Disse eu a meia-voz. “ Não sou eu - eu acompanhei a construção!”
mesma hoje - algum remanescente de antigo orgulho se fez presente O capitão Derrick anuiu com um aceno circunspecto. Nesse Ínte­
e me tornou algo menos que a humilde estudante que sou. Não devo rim Santoris tinha se aproximado de mim e estava ao meu lado. Nos­
ceder a essa poderosa exigência de minha alma - certamente se trata sos olhares se encontraram. Ele percebeu que eu havia recebido e
de uma sugestão maléfica que surge corno a dor ou a febre que nos compreendido a mensagem dos lírios e então seus olhos adquiriram
adverte de uma doença iminente. Podería ser influência de Santoris? uma cor e um brilho que os tornou muito belos.
Não, eu não acredito nisso!” “Os homens ainda não aprenderam a gozar plenamente o legado
Não obstante, uma vaga inquietação me invadiu e me fez levantar que receberam” , disse ele, voltando a participar da conversação. “ O
e andar nervosamente de um lado para outro, até que pareí perto da poder propulsor de nosso iate parece complexo, mas na realidade é
mesinha de marfim com os lírios e me lembrei que tinham sido colo­ muito simples, e a mesma energia que impulsiona este barco pode
cados ali em minha intenção. Ergui as flores gentilmente, aspirando impulsionar o maior dos transatlânticos. A Natureza nos deu todos
sua deliciosa fragrancia, e quando o fiz vi que, embaixo deles, havia os materiais para todos os tipos de trabalho e progresso físico e
uma Cruz dourada com uma forma mística que eu conhecia bem - a mental —mas porque não os compreendemos, negamos suas aplica­
metade superior estava imbutida numa estrela de sete pontas, tam­ ções. Nada existe no ar, na terra ou na água que não possa ser posto
bém de ouro. Peguei-a com alegria e beijei-a com reverência, e ao nosso serviço, e é no estudo das forças naturais que estão nossas
comparando-a com a cruz que secretamente trazia sempre em minha conquistas. Quantas centenas de anos foram necessárias para que
pessoa, soube que tudo estava bem, que não precisava ter qualquer descobríssemos as maravilhas do vapor! Como o seu descobridor foi
desconfiança de Rafei Santoris. Nenhum efeito nocivo podería ser ridicularizado e menosprezado! Entretanto, suas possibilidades não
exercido em minha mente através de sua influência, e então voltei ao eram “ maravilhas” , sempre estiveram lá, esperando para nos servir,
ponto anterior em que tentava encontrar um indício para aquela sin­ desperdiçadas por pura falta de esforço humano. Podemos dizer o
gular sensação, tão completamente contrária ao meu modo de ser e mesmo sobre a eletricidade, muitas vezes chamada “ milagrosa” .
que por alguns momentos tinha me dominado. Eu não consegui al­ Não é milagre algum, é perfeitamente comum e natural, apenas até
cançar a fonte da experiência, mas logo a sensação estava dominada. agora deixamos de aplicá-la às nossas necessidades. Revelações ca­
Prendendo um dos alvos lírios em meu cinto, para contrastar com o da vez mais amplas da ciência continuam sendo feitas todos os dias,
ramalhete de urzes que eu prezava mais que a uma jóia. fui para o mas continuamos a barrar o conhecimento com nossa teimosia, pre­

[126] [127]
ferindo permanecer na ignorância a aprender. Alguns gramas de hi­ “ Por que para mim em particular?” Perguntou Harland com rispi­
drogênio têm poder suficiente para levantar um milhão de toneladas dez.
a uma altura superior a trezentos pés; se encontrássemos um meio de "Porque você precisa dele” , respondeu Santoris. “ Meu caro
liberar de maneira econômica e judiciosa as várias forças que o Es­ amigo, você não está com a saúde muito boa, e nunca ficará melhor
pírito e a Matéria contêm, poderiamos modificar toda a atividade com o tratamento que está fazendo atualmente” .
humana, e fazer do homem um pensador mais que um obreiro, um Olhei para ele com interesse.
anjo mais que um mortal! Os mais imaginosos contos de fadas se "Também cheguei a essa conclusão” , disse eu, “ apenas não tive
tomariam realidade e a terra seria transformada num paraíso! No que coragem de expressá-la!”
se refere a forças propulsoras, um dedal de combustível concentrado
O Sr. Harland me examinou com um sorriso divertido nos lábios.
podería impelir os maiores navios pelo maior dos oceanos. Isso se
“ Não teve coragem! Não conheço nenhuma coisa que você não
pudéssemos encontrar o meio! Alguns pensam estar chegando perto
teria coragem de fazer! Mas apesar de sua ousadia, você está cheia
dele.. . ”
de meras teorias, e teorias ainda não conseguiram curar doente al­
“ Você, por exemplo?” Interrompeu o Sr. Harland.
Santoris riu. gum.”
“ Eu, por exemplo, se você quiser! E agora, vamos almoçar?” Santoris e eu trocamos um olhar rápido. Ele disse:
Ele nos precedeu, o Sr. Harland e eu o seguimos. O capitão Der- “ Naturalmente a teoria sem a prática é inútil, mas tenho certeza
rick, que pelo que pude perceber tinha um pouco de medo de Santo­ de que você pode ver que esta moça alcançou um determinado plano
ris, havia combinado almoçar com Fazio e os outros oficiais em ou­ de pensamento no qual ela habita com saúde e contentamento. Não
tro local do iate. Fomos servidos por homens de pele morena vesti­ serve ela de lição objetiva?”
dos com as pitorescas roupas do oriente. O iate tinha diminuído a “ De modo algum” , respondeu o Sr. Harland com um tom próxi­
velocidade e parecia estar flutuando preguiçosamente na superfície mo da petulância. “ Ela é uma mulher cuja vida foi imersa no estudo
calma das águas. Fomos informados de que o barco podia sempre e contemplação, e como ela renuciou a muitos dos prazeres da vida,
dar essa impressão, sem deixar de navegar quase imperceptivelmen- pode se sentir feliz com ninharias - um punhado de rosas ou o som
te, isso se não estivesse se aproximando uma tempestade. Parecia de uma melodia suave.. . ”
que estávamos parados, e toda a atmosfera que nos envolvia expres­ "E isso são “ ninharias?” Interrompeu Santoris.
sava a mais deliciosa tranqüilidade. O almoço refinado preparado “ Para homens ocupados com negócios sã o .. . ”
para nds estava delicioso e o Sr. Harland, que raramente tinha ape­ "E os negócios em si? Também não são uma “ ninharia” de certos
tite por causa de seu estado de saúde, apreciou-o com uma disposi­ pontos de vista?”
ção alegre que eu nunca vira nele antes. Ele apreciou especialmente “Santoris, se você pretende ser “transcendental” não vou acei­
o vinho, tinto e de rica textura, diferente de tudo que eu já tinha tar!” Disse o Sr. Harland com uma risada contrariada. “O que quero
provado anteriormente. dizer é simplesmente o seguinte: que esta minha amiga, por quem
“ Não há nada de extraordinário nele” , disse Santoris quando a tenho grande estima, que isto fique bem claro! - Não tem real capa­
origem do vinho lhe foi perguntada. “ Simplesmente é vinho de ver­ cidade para formar uma opinião sobre o estado de saúde de um ho­
dade - pode-se até dizer que é incomum porque não existe igual no mem como eu, nem pode julgar qual o tratamento que melhor poderá
mercado. É feito com puro sumo de uva, preparado de modo a nutrir me beneficiar. Ela nem sequer sabe qual a natureza de minha enfer­
o sangue sem inflamá-lo. Não faz mal algum - aliás, para você, midade, mas como percebo que ela se tomou de antipatia por meu
Harland, é uma bebida excelente” . médico, o Dr. Brayle. . ."

( 128] [ 129 ]
“ Eu nunca “me tomo de antipatía” , Sr. Harland” , disse eu, inter­ “ Pelas pequenas e quase imperceptíveis linhas em seu rosto que
rompendo-o. “ Apenas confio num instinto condutor que me diz se contraem de modo quase inconsciente. Posso fazer parar esse ter­
quando um homem é sincero e quando está só representando um pa­ rível sofrimento já, se você permitir.”
pel. Isso é tudo” .
“Oh, certamente “permitirei” . O Sr, Harland falou com um sorri­
“ Bem, você concluiu que Brayle não é sincero” , replicou o Sr.
so incrédulo. “ Só penso que você superestima suas capacidades” .
Harland, "e também não acha que ele seja eficiente. Mas se conside­
“Nunca fui do tipo fanfarrão” , replicou Santoris jocosamente,
ramos essa questão logicamente, poderiamos perguntar que motivo
“ mas pode ter a opinião que quiser a meu respeito” . Ele tirou do
teña ele para bancar o trapaceiro comigo?”
bolso um pequenino fiasco de cristal revestido de ouro. “Um toque
Santoris sorriu e disse:
disto em seu vinho fará você se sentir como novo” .
“ Ora, senhor “ homem de negócios!” Você é quem faz essa per­
gunta?” Ficamos observando com ansiosa atenção. Santoris pingou duas
Estávamos terminando o almoço. Os serviçais jã tinham se retira­ pequenas gotas de líquido claro e brilhante como o orvalho no copo
do e o Sr. Harland estava bebericando café e fumando charuto. do Sr. Harland, com o máximo cuidado.
“ Você fazendo essa pergunta?” Repetiu ele, “Você, um milioná­ “ Agora” , continuou ele, “ beba sem medo e diga adeus a todas as
rio, pai de uma filha que é sua única herdeira, vem perguntar por dores por quarenta e oito horas no mínimo” .
que motivo um homem como Brayle - mundano, calculista e sem co­ O Sr. Harland obedeceu com uma docilidade bastante incomum
ração - mantém vocês dois, os dois, repito, você e sua filha, em suas nele.
garras médicas?" “ Posso continuar fumando?” Perguntou ele.
Os olhos penetrantes do Sr. Harland brilharam com súbita amea­ “ Pode.”
ça. Passou-se um minuto e então no rosto do Sr. Harland estampa­
“Se me passasse pela cabeça.. . " começou ele para logo se inter­ ram-se a surpresa e o alívio.
romper. Após alguns segundos voltou a falar “ você não conhece o “E então, como se sente agora?” Perguntou Santoris.
verdadeiro estado de coisas, Santoris. Mago e cientista você é, mas “ A dor desapareceu” , respondeu o outro. “ Mal posso acreditar,
não pode saber tudo! Preciso de assistência médica permanente, e mas sou obrigado a admitir!”
minha doença é incurável.. . ” “Muito bem. A dor não vai voltar, pelo menos não hoje nem
“ Não” , disse Santoris em voz baixa. “ Incurável, não” . amanhã. Vamos subir ao convés?”
l)m brilho repentino de esperança iluminou o rosto envelhecido e Assentimos e quando saímos do salão Santoris disse:
encovado do Sr. Harland. “ Vocês precisam ver as cores do pôr-do-Sol no Loch Coruisk. É
“Incurável, não? Mas, meu caro amigo, você nem sabe que doen­ sempre um espetáculo muito belo que promete ser especialmente en­
ça é!”
cantador esta tarde - temos tantas nuvens de forma insólita flutuan­
“ Sei, sim. Também sei como começou, como progrediu e como
do no céu! Vamos voltar para Loch Scavaig; quando chegarmos po­
vai terminar. Também sei como pode ser detida, impedida de se de­
deremos descer e fazer o restante da excursão a pé. Não é uma gran­
senvolver mais e totalmente destruída. A cura, entretanto, depende­ de subida - você se acha em condições de empreendê-la?”
ría muito mais de você do que do Dr. Brayle ou qualquer outro mé­ A pergunta foi dirigida à minha pessoa e sorri em resposta.
dico. No momento nenhum bem está sendo feito, pelo contrário, “Claro! Sinto-me capaz de fazer qualquer coisa! Além disso, esti­
bastante mal. Por exemplo, você está sentindo dor agora?” ve muito parada no “ Diana” , sem fazer exercício. A caminhada me
“ Sim, mas como você sabe disso?” fará bem.”
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[131]
O St. Harland sentou-se numa espreguiçadeira colocada tentado- O Si. Harland se manteve em silêncio, tirando lentas baforadas do
ramente sob um toldo do convés. Os olhos estavam mais claros e o charuto. Depois de uma longa pausa, ele disse:
rosto mais composto do que em qualquer oportunidade anterior em “ Você está sendo preconceituoso e acho que se engana. Você só
que eu estivera perto dele. viu o homem por alguns minutos a noite passada e nada sabe a seu
“ As gotas que você me deu são mágicas. Santoris!’’ Disse ele. respeito.. . ”
“ Gostaria que você me cedesse um suprimento delas” . “Nada, a não ser o que ele não pode esconder” , respondeu Santo­
Santoris ficou olhando para ele com bondade. ris.
“ Não seria seguro” , respondeu ele. “Trata-se de um remédio ma­ “O que quer dizer?”
ravilhoso se foi usado muito raramente e com extremo cuidado, mas “Você não vai acreditar se eu lhe disser” . Santoris, puxando uma
em mãos não instruídas é perigoso. Sua função é estimular certas cadeira para perto da minha, sentou-se, “ mas tenho certeza de que
células, mas ao mesmo tempo (como com todas as coisas tomadas esta moça, sua amiga e convidada, confirmará o que eu disse, muito
com excesso) pode destruí-las. Além do mais. não se misturaria bem embora você não acredite nela, naturalmente! Na verdade, caro
com os remédios do Dr. Brayle” . Harland, você se condicionou para não acreditar em nada, então por
“ Você real e verdadeiramente acha que o Dr. Brayle é um im­ que me pressionar a apontar uma verdade que se recusa a aceitar?
postor?” Se você tivesse vivido no tempo de Galileu, teria sido um de seus
"Impostor é uma palavra forte! Não! Dou a ele o crédito por ter torturadores!”
fé em si mesmo até um certo ponto. Mas com certeza ele sabe que o “Estou lhe pedindo que me explique” , disse o Dr. Harland com
chamado tratamento “elétrico" aplicado ã sua filha é totalmente inó­ um toque de ressentimento na voz. “Cabe a mim aceitar sua explica­
cuo, como também sabe que ela não estã doente de verdade.” ção ou não” .
“Não está doente de verdade?” “Certo!” Concordou Santoris com um leve sorriso. “Como eu lhe
O Sr. Harland quase caiu da espreguiçadeira, enquanto eu era en­ disse há muito tempo, em Oxford, a vida do homem é seu próprio
volvida por uma secreta satisfação. “ Ora, ela tem estado péssima, é problema. Ele pode fazer o que quiser com ela. Mas não pode con­
uma inválida lamuriosa há anos.. trolar o resultado do que faz com ela como o Sol não pode ocultar
“ Desde que desmanchou o noivado com um vigarista que não valia seus raios. Cada ser humano individual, seja homem ou mulher, mo­
nada” , disse Santoris calmamente. “ Como vê, sei de toda a história” . ve-se inconscientemente na luz da auto-revelação, como se todas as
Eu ouvi com espanto. Como ele sabia, como podia conhecer os suas faltas e virtudes fossem refletidas como as cores num prisma,
detalhes últimos de uma vida como a de Catherine que dificilmente ou como se estivessem dispostas numa vitrine para os passantes
teria interesse para um homem como ele? examinarem. Felizmente para a paz geral da sociedade, a maioria
“O problema de sua filha está escrito em seu rosto” , continuou desses passantes não tem o dom da visão que lhes permita ver essa
ele. “ Afetos truncados, desejos destruídos, esperanças frustradas —e involuntária exposição” .
a falta de força e de vontade para transformar esses problemas em “ Você se expressa por enigmas” , disse Harland impacientemente.
bênçãos. Por causa disso, eles aparentam ser um exército de germes “ Não sou muito bom nesse campo” .
perniciosos que estão corroendo sua Gbra moral. Brayle sabe que ela Santoris olhou fixamente para ele, com seus olhos luminosos e
precisa acreditar que alguém se interessa por ela e particularmente compassivos.
pela visão mórbida que ela escolheu ter em relação à vida. Brayle “ As verdades mais simples são “enigmas” para você", disse ele
mostra ativamente esse interesse. O resto é fácil e ficará ainda mais com pesar. “ Pensa que seja assim! Você me pergunta o que quero
fácil quando.. . bem, quando você tiver partido” dizer quando afirmo que o homem “ é levado a se revelar” . O pro-

1132] f 133 I
cesso da auto-revelação acompanha a auto-existencia, como a fra­ A testa marcada de Harland se franziu em rugas ainda mais pro­
grancia da rosa acompanha o desabrochar de suas pétalas. Você não fundas.
pode isolar-se de sua própria aura, nem com o corpo nem com a al­ “ Você quer me dizer —você se atreve a me dizer —que vê uma
ma. Cristo ensinou esta verdade quando disse: “deixa que tua luz “ aura” , como diz, em tomo de minha pessoa?”
brilhe diante dos homens para que eles possam ver tuas boas obras e “ Sim, com a máxima segurança” , respondeu Santoris. “Eu a vejo
glorificar o Pai que está no céu” . Lembre-se - "tua luz!” A palavra tão claramente quanto vejo você no meio dela. Só que não há nenhu­
“ luz” não é empregada nesse caso como uma Figura de retórica mas ma luz nela - é apenas uma névoa cinzenta - uma névoa como um
como a declaração de um fato. Uma “ luz” positiva está à nossa miasma” .
volta - ela é exalada e produzida por nosso ser físico e moral, e “ Muito obrigado!” Disse Harland, rindo asperamente. “Você é
aqueles dentre nós que cultivaram seus órgãos internos da visão po­ lisonjeiro!"
dem vê-la em você, em todos. Ela pode se apresentar com a mais pu­ “ Será esta uma ocasião para lisonjas?” Perguntou Santoris, com
ra radiância, e também pode não passar de uma névoa, mas seja qual súbita severidade. “ Harland, você gostaria que eu lhe dissesse tudo?”
for a condição moral e física da pessoa, sempre se revela na aura O rosto de Harland ficou lívido, e ele levantou a mão num gesto
que cada indivíduo isoladamente expressa. Eis por que o Dr. Brayle de advertência.
me revela sua natureza e também a tendência dominante de seus “ Não!” Disse ele quase com violência. Agarrou o braço da cadei­
pensamentos; da mesma forma você se revela, com seu atual estado ra nervosamente e, por um instante, pareceu uma criatura acuada,
de saúde - é um teste comprovado que não pode falhar” . apanhada em flagrante cometendo um crime. Controlando-se rapi­
O Sr. Harland ouviu com seu ar costumeiro de cínica tolerância e damente, ele forçou um sorriso.
incredulidade. “ E o que diz da “aura” de nossa amiga?” Perguntou ele, olhando
“Já ouvi esse tipo de bobagem antes” , disse ele. “ Cheguei mesmo para mim. “ Será que se “expressa” por um fulgurante brilho?”
a ler em jornais científicos, que no mais são confiáveis, que as “ au­ Santoris nada respondeu por alguns momentos. Depois voltou os
ras” das pessoas afetam nossa simpatia ou antipatia por elas. Mas is­ olhos para mim, quase ansioso.
so é apenas uma sugestão fantasiosa e não tem base na realidade” . “ Sim!” Respondeu ele. “ Gostaria que você pudesse vê-la como
“Então por que quis que eu lhe desse a explicação?” Perguntou eu a vejo!”
Santoris. “ Só posso lhe dizer o que sei e . . . o que eu vejo!” Houve um momento de silêncio. Senti o rosto afoguear-se e me
Harland se remexeu inquieto, com o charuto entre os dedos e me senti um pouco embaraçada, mas não desviei o olhar, encarando-o
olhando curiosamente para evitar, conforme deduzi, o brilho imper­ aberta e francamente.
turbável dos olhos dominadores de Santoris fixos nele. “Pois eu gostaria de me ver como você me vê” , disse eu, brin­
“ Essas “auras” , continuou Harland com tom de indiferença, “ não cando. “Não tenho a menor percepção de minha aura” .
passam de suposições. Concordo em que certas descobertas foram “ Não foi estabelecido que qualquer pessoa pudesse ter a percep­
feitas a respeito da luminosidade das árvores e plantas que em de­ ção visual da própria personalidade” , respondeu ele, “ mas considero
terminados estados atmosféricos emitem raios de luz - mas recusó­ que ê correto sabermos da existência dessas exalações luminosas ou
me a crer que os seres humanos sejam iguais” . nebulosas que nós mesmos tecemos, para que possamos “ caminhar
“ E claro!” Disse Santoris, recostando-se na cadeira com despreo­ na luz como os filhos da luz” .
cupação, como se afastasse o assunto de sua mente. “O homem que Sua voz baixou para um tom grave e doce que fez com que o Sr.
nasce cego deve necessariamente se recusar a crer nos prazeres da Harland deixasse de dizer alguma coisa que estava a ponto de ver­
visão” . balizar, pois mordeu os lábios e se calou.

(134) |135]
Eu levantei da cadeira e me afastei, olhando do convés do “ So­ “O que você me diz? Pode suportar minha companhia por uma
nho” , sombreado pelas brancas velas enfunadas, para os picos dos hora ou duas, e me permitir guiá-la até o Lago Coruisk? Ou prefere
majestosos morros cujas pitorescas belezas são cantadas nas extraor­ não ver o pôr-do-Sol?”
dinárias composições de Ossian, e para os rochedos recortados, pro­ Nossos olhares se encontraram. Um misto de alegria e medo pas­
fundas ravias e majestosos pináculos desenhando a costa, com suas sou por mim como um tremor, e novamente senti o estranho poder e
inúmeras cascatas, lagos e sombreados córregos. Uma fina e delicada dominio que havia me invadido anteriormente.
névoa pairava sobre a terra, como um véu violeta pálido que o Sol “ Eu já tinha me decidido a ir até o Loch Coruisk” , respondí.
tingia com raios rosa e ouro, criando um efeito vaporoso e insubs­ “ Não vou eximi-lo de sua promessa de me levar até lá! Deixaremos
tancial no cenário, como se este estivesse navegando conosco, um o Sr. Harland entregue à sua sesta” ,
desfile nebuloso na água calma. As praias de Loch Scavaig começa­ “Tem certeza de que não se importa?” Disse Harland, abrindo os
ram a se definir na distância, e o capitão Démele se aproximou do olhos sonolentos. “ Estará em perfeita segurança com Santoris” .
Sr. Harland com os binóculos na mão. Sorri, sabendo que não precisava daquela garantia. Falei alegre­
“O “ Diana” deve ter zarpado para fazer um passeio” , disse ele mente com o capitão Derrick sobre o “ Diana” e seu provável curso,
bastante perturbado. “Tanto quanto posso ver. não há sinal dele no enquanto ele esquadrilhava o mar em busca dele; observei com cres­
lugar onde o deixamos esta manhã” . cente impaciência nossa gradativa aproximação de Loch Scavaig que
O Sr. Harland ouviu isso com indiferença. à luz brilhante do dia era pouco menos assustador que à noite, espe­
“Talvez Catherine quisesse fazer um passeio” , respondeu ele. cialmente sem o “ Diana” ancorado ali para dar a impressão de uma
“Há pessoas suficientes a bordo para dar conta da navegação. Você presença humana naquele local selvagem e estéril. O Sol já estava
não está ansioso, está?” baixando no horizonte ocidental quando o “Sonho” chegou ao local
“ Não, absolutamente, senhor, se o fato não o preocupa” , respon­ onde estivera ancorado antes e parou. Vinte minutos depois, a lan­
deu Derrick. cha elétrica pertencente à escuna foi baixada e embarquei nela com
O Sr. Harland se esticou preguiçosamente na cadeira. Santoris e dois de seus homens, que o dirigiram para a praia pela
“ De minha parte, pouco me importa onde esteja o “ Diana” , pelo água escura como aço.
menos por enquanto” , disse ele, rindo. “ Estou muito confortável
onde estou. Santorisl”
“ Pois não?” Santoris, que tinha se afastado um pouco para dar
algumas ordens a seus homens, voltou ao ouvir o chamado.
“O que você acha de me deixar aqui enquanto você e nossa ami­
ga vão apreciar o pôr-do-Sol no Lago Coruisk sem mim?”
Santoris ouviu a sugestão com ar divertido.
“ Você não gosta de ver o Sol se pôr?”
“ Sim, gosto - de certo modo. Mas vi tantos.. . ”
“ Eles nunca se repetem” , disse Santoris.
“Concordo, mas não me importo de perder alguns. Justo agora
estou com mais vontade de tirar uma boa soneca do que de ver o cair
da noite. Eu sei que isso é pouco sociável mas.. Neste ponto ele
quase fechou os olhos e pareceu estar a ponto de adormecer.

[1361 [ 137 ]
VIII

VISÕES

Foi estranho sentir a terra sob meus pés depois de quase uma se­
mana no mar. Quando saltei da lancha para as pedras ásperas da
margem, auxiliada por Santoris, fiquei tonta por alguns momentos.
Os escuros picos das montanhas pareceram girar à minha volta: a
água cintilante me deu a impressão de um grande espelho de onde a
esvoaçante visão de alguma coisa indefinida e não declarada se ele­
vou e depois passou como um sopro de brisa. Eu me refiz com um
pequeno esforço e fiquei parada, tentando controlar o insensato ba­
ter de meu coração, enquanto meu companheiro dava algumas or­
dens a seus homens, numa língua que eu pensei reconhecer, embora
não a compreendesse,
“Você está falando em gaélico?” Perguntei, com um sorriso.
“Não! Falo numa língua muito parecida, o fenicio.”
Ele olhou diretamente para mim quando disse essas palavras, e
seus olhos, brilhantes e azul-escuros, expressaram um universo de
sugestões. Ele continuou:
“Todas estas terras eram bem conhecidas dos colonos fenicios de
muitas eras atrás. Tenho certeza de que você sabe disso! A língua
gaélica ê o genuíno dialeto dos antigos celtas fenicios, e quando falo
no idioma original com um nativo daqui que conhece o gaélico local
ele me compreende perfeitamente.”
Fiquei em silêncio. Afastamo-nos da praia, andando vagarosa­
mente, lado a lado. Depois de algum tempo parei e olhei para trás,
para a lancha que tínhamos deixado há pouco.
“ Seus homens são escoceses das Terras Altas?”
“ Não, são do Egito.”
“Mas que eu saiba” , perguntei com certa hesitação, “ a língua fe­
nicia já não é mais falada nem conhecida!"

[139]
“ Não pelos homens comuns do mundo” , respondeu ele. "Eu co­ Santoris disse essas palavras segurando minhas mãos. A força
nheço e falo esse idioma, como aliás a maioria dos homens que tra­ gentil desse contato me fez lembrar do calor e da pressão das mãos
balham para mim. Você jã o ouviu antes, só que náo se lembra” . invisíveis que haviam me guiado para fora das trevas de meus so­
Olhei com espanto para ele, que sorriu, acrescentando gentilmente: nhos, poucos dias antes. Olhei para o rosto dele, e cada detalhe se
“ nada morre - nem mesmo uma língua!” tomou familiar num segundo surpreendente. Os olhos azuis e pro­
Ainda não estávamos fora das vistas dos marinheiros. Eles haviam fundos, a testa larga e as feições cinzeladas eram tão conhecidas pa­
empurrado a lancha para fora da praia e começavam a viagem de vol­ ra mim quanto podería ser o retrato dado por um amante à sua ama­
ta para o iate, tendo sido combinado que voltariam para nos buscar da, e meu coração quase parou diante do espanto e do tenor daquele
dentro de duas horas, mais ou menos. Estávamos seguindo uma trilha reconhecimento.
entre pedras escorregadias margeando uma torrente impetuosa, mas “Não somos estranhos” , repetiu ele, em voz baixa mas enfática,
ao dobrarmos uma curva do caminho perdemos Loch Scavaig de vis­ como se quisesse me tranqüilizar. “ Apenas tomamos caminhos sepa­
ta e ficamos verdadeiramente a sós pela primeira vez. Montanhas rados desde a última vez que nos vimos. Tenha mais um pouco de
imensas coroadas por rochas ásperas e pontiagudas nos cercavam por paciência! Em breve você se lembrará tão bem de mim quanto eu me
todos os lados. Aqui e ali havia tufos de urzes agarrados a grandes lembro de você!”
massas de pedra escura tingidas de rosa-púrpura pelo Sol baixo; o Com o fluxo da surpresa causada pela lembrança encontrei minha
ruído surdo da torrente que se precipitava para baixo compunha uma voz de novo.
música murmurante que enchia nossos ouvidos; o ar quente e parado “ Lembro agora!” Disse eu baixinho e com hesitação. “Já vi você
estava pesado, como se estivesse suspenso por cima de nós, à espera muitas e muitas vezes! Mas onde? Diga-me —onde? Ah, você certa-
do eco de uma palavra ou sussurro que revelasse algum segredo vital. mente sabe a resposta!”
O silêncio que nos envolvia era quase insuportável - cada nervo de Ele continuava segurando minhas mãos com firmeza e carinho, e,
meu corpo parecia a corda esticada de uma harpa, pronta a arrebentar como eu, parecia sentir dificuldade para falar. Dois amigos muito
a qualquer toque, mas eu não conseguia falar. Tentei exercer o do­ íntimos, separados por muitos anos, que tivessem um encontro ines­
mínio sobre as vagas de pensamentos que subiam ameaçadoras e as perado num lugar solitário onde não esperavam encontrar viva alma,
lembranças e emoções que afluíam para minha alma como uma tem­ sentiríam uma emoção que dificilmente seria mais profunda que a
pestade; argumentei rápida e decisivamente que o extraordinário nossa; apesar disso, havia uma barreira invisível entre nós, erguida
cáos em minha mente era causado apenas por minha imaginação. por ele ou por mim, algo que nos isolava ainda um do outro. A sú­
Não obstante meus esforços, continuei envolta numa espécie de teia bita e sutil atração que nos havia chamado um para o outro estava
que aprisionava todas as minhas faculdades e sentidos, uma teia fina sendo controlada por nós, e era como se estivéssemos envolvidos
como a mais leve gaze, mas inquebrável como o ferro. Tomada por por um círculo individual que nenhum dos dois ousava romper.
uma espécie de desespero, levantei os olhos que queimavam com o Olhei para ele com um misto de medo e interrogação e vi que seus
fogo das lágrimas retidas, e vi que Santoris me observava com uma olhos estavam pensativos e cheios de luz.
ternura paciente, quase suplicante. Senti que ele podia ler a minha “Sim, eu sei” , respondeu ele finalmente, com a voz muito suave;
inexpressada angústia e, sem pensar, estendi as mãos para ele. soltando uma de minhas mãos, continuou a segurar a outra. “ Eu sei,
“ Diga-me!" Murmurei. “O que eu devo saber? Somos estranhos, mas não precisamos falar disso agora! Como eu já disse, você vai se
contudo.. lembrar aos poucos. Não nos é permitido esquecer totalmente. Mas é
“ Não somos estranhos!” Disse ele, a voz um pouco trêmula, muito natural que agora, nesta hora, achemos estranho - você pro­
“Não diga isso. Não somos estranhos, somos velhos amigos!” vavelmente mais do que eu - que exista uma atração mutua, algo que

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que não pode ser negado, algo que mesmo que todos os poderes da purrando-os de um lado para outro, modelando com eles fantásticas
térra e do céu interviessem, o que pela mais simples lei eles não po­ formas - algumas pareciam figuras voando com longos cabelos flu­
deríam fazer, não aceitaria ser negado!” tuando no ar, outras pareciam guerreiros armados lutando uns contra
Estremecí, não por medo, mas por causa de um maravilhoso pra­ os outros com suas lanças, e outros ainda eram como fantasmas ve­
zer que não ousei analisar. Ele apertou minha mão com mais força. lados passando loucamente, como se estivessem sendo levados de
“ É melhor continuarmos” , disse ele, desviando os olhos dos volta à sua terra de sombras por um terrível medo. Ficamos olhan­
meus. “Se eu falar mais agora, estarei falando demais e você po­ do de mãos dadas, observando a inquieta movimentação dos fan­
derá se assustar, quem sabe até se ofender. Já fui culpado de tantos tasmas feitos de nuvens, esperando o momento solene em que, se
erros no passado, você precisa me ajudar a evitá-los no futuro. Ve­ espalhariam os últimos raios do Sol em declínio, transformando
nha!” Ele voltou a me encarar com um sorriso. “ Vamos ver o Sol se aquele selvagem e obscuro cenário em um esplendor quase sobre­
pôr!” natural. Santoris falou:
Continuamos andando por alguns momentos em absoluto silêncio, “Posso lhe dizer agora onde nos encontramos antes?” Disse ele
ele segurando minha mão e me guiando pela estreita trilha. O ruído com doçura. “E posso explicar as razões pelas quais voltamos a nos
da torrente se fez ouvir com mais força, às vezes com estrépito, co­ ver?”
mo se quisesse abafar o martelar de meu sangue nas veias e afogar Levantei os olhos para o rosto dele. Meu coração batia com força,
meus pensamentos. Continuamos avançando e subindo - a trilha pa­ e havia pensamentos em minha mente que ameaçavam subverter o
recia interminável mas na realidade não era longa. É que havia um resto de autocontrole que eu tinha e me transformar em uma criatura
grande peso de coisas indizíveis pressionando minha alma como uma feita só de lágrimas e paixão. Mexí os lábios no esforço de tentar
tempestade prestes a desabar, e cada passo parecia medir uma milha. falar, mas não pude pronunciar nem um som.
Finalmente paramos; podíamos ver todo o panorama do Loch Co- “ Não tenha medo” , continuou ele, no mesmo tom tranqüilo. “ É
ruisk com seu fantástico esplendor. Por todos os lados se erguiam verdade que devemos tomar cuidado agora, já que no passado fomos
majestosas montanhas, coitadas aqui e ali por profundas fendas e imprudentes - cabe a você e a mim a compreensão perfeita um do
crateras - supremamente grandiosas em sua impressionante desola­ outro. Posso continuar?”
ção, elevando seus picos rochosos à nossa volta como paredes e tor­ Fiz um gesto de assentimento com a cabeça. Havia uma pedra
rões de uma gigantesca fortaleza, erguendo-se tão abruptamente e perto dali com o formato curioso de um trono com um pálio em ci­
envolvendo tão impenetravelmente a extensão de água negra lá em­ ma, este formado por uma massa saliente de rocha e urzes; ele me
baixo que parecia impossível que um único raio de Sol pudesse en­ fez sentar ali e se acomodou ao meu lado. Daquele ponto víamos
trar naquele círculo denso de sombras. Havia, contudo, uma profu­ bem a parte principal do lago e a grande montanha que o envolve e
são de luz dourada se derramando obliquamente de uma das mais domina, e que agora começavam a ser iluminados por um brilho la­
altas montanhas, transformando moitas esparsas de urzes em man­ ranja e púrpura de matizes fantásticos, enquanto uma névoa tênue se
chas de vivido carmesim, salientando o verde pálido de musgos e lí- movia lentamente pela paisagem como se fosse a cortina de um pal­
quens, e emprestando às asas brancas de uma gaivota perdida que co sobrenatural sendo preparada para subir e revelar a primeira cena
voava no alto soltando gritos agudos e selvagens, como os de uma de um grande drama.
criatura tomada pela dor, um brilho ofuscante de prata. Uma névoa “Às vezes” , disse ele, “mesmo no mundo das convenções frias e
levemente azulada estava subindo da água do lago, e o sopro inter­ artificiais pode acontecer que um homem e uma mulher se encon­
mitente da brisa que passeava pelos cumes rochosos brincava com trem, sem que tenham qualquer consciência de um conhecimento
aqueles impalpáveis vapores tangidos do Atlântico para o lago, em­ anterior e que, com o mais leve toque, pelo mais breve olhar, sintam

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um milhão de vibrações invadindo o seu ser como se as cordas de uma Ihou arduamente com problemas que intrigam a mente do homem
harpa fossem tangidas pela mão de um mestre e ressoassem em har­ mais forte, e teve êxito em muitas coisas porque manteve algo que
monia e perfeita afinação. Eles não sabem como está acontecendo, muitos homens perdem quando estão lidando com a Ciência - a Fé.
apenas sentem que está. Então nada - repito isso com ênfase - nada Você sempre fez seus estudos com o coração elevando para as coi­
pode manté-los separados. Uma alma se precipita para outra alma, sas invisíveis e eternas. Mas seu coração (em estado solitário - tão
um coração encontra outro coração, e todas as formas de cerimônia, solitário quanto o meu!”
costumes e usos se transformam em pô diante da força que os avassa- Seguiu-se um momento de silêncio - um silêncio que me pareceu
la. Essas súbitas tempestades de vibração etérica ocorrem diariamen­ pesado e obscuro como uma nuvem passageira, e olhei instintiva­
te nos lugares mais corriqueiros, com as mais inusitadas pessoas; a mente para o céu para veriñcar se realmente havia uma tempestade
Sociedade como está hoje constituída franze a testa e sacode a cabe­ se armando acima de nós. Mas meu olhar encontrou um céu maravi­
ça, ou então caçoa de algo que não pode compreender, chamando in­ lhosamente matizado - todo ele estava iluminado pela magnificência
sensatez essa impetuosidade, ou coisas ainda piores, enquanto perma­ do ouro e do azul. Só que embaixo da flamejante maravilha havia
nece voluntariamente cega ao fato de que os mais estranhos aspectos uma massa imóvel de neblina cinzenta, pendendo por sobre a alta
de uma tal reação nada mais são que a confirmação da Lei Eterna. montanha que flanqueava o lago, como uma grande tela pronta pa­
Além disso, essa é uma lei que não pode ser desprezada ou violada ra receber a criação da mente de um artista. Fiquei olhando com uma
impunemente. Assim como um foco de vibração atinge outro que lhe espécie de absorta fascinação, consciente de que a mão quente que
seja simpático por um sistema de telegrafia sem fio, assim também, prendia a minha intensificava ainda mais o seu aperto, quando, re­
a despeito de milhões e milhões de correntes interferentes e linhas pentinamente, alguma coisa brilhante, como um cortante raio, como
de divergência, a imortal centelha de uma alma atinge sua centelha o reflexo de uma espada ou de um corisco, passou diante de meus
gêmea mesmo que esteja a um mundo de distância, até que ambas se olhos provocando uma sensação de vertigem, e o lago, as montanhas
encontrem no lampejo daquela mensagem de Deus chamada Amor!” e toda a paisagem desapareceram como uma miragem ilusória, e no
Ele fez uma pausa, para depois continuar falando lentamente. ar visível só restou a pesada cortina de brumas. Fiz um esforço para
“ Nenhuma força pode separar um do outro, nada pode interferir, me mover, falar - mas foi em vão! Pensei que um mal súbito havia
não por ser um romance ou uma realidade, mas simplesmente porque me tomado, mas não, pois a sensação de quase desmaio que havia
é a Jei. Você está compreendendo?” desequilibrado meus nervos por um instante desapareceu, deixando-
Assenti em silêncio. me novamente calma. Entretanto, vi mais claramente do que qual­
“ Podem se passar milhares de anos antes que um encontro desses quer coisa antes vista na Natureza visível, um panorama movendo-se
aconteça” , continuou ele, “pois milhares de anos são apenas horas lentamente, com cenas e episódios que se apresentavam com ex­
do tempo eterno. Entretanto, que vidas precisam ser vividas durante traordinária clareza e colorido —imagens que gradatívamente se de­
esses milhares de anos! Que lições devem ser aprendidas! Que peca­ senrolavam e se estendiam para meu exame no fruido cinza formado
dos cometidos e expiados! Que tempo precioso perdido e recupera­ pela impalpável bruma que pendia como uma Sombra entre o impe­
do! Que felicidade perdida ou desperdiçada!” netrável mistério e Eu; então compreendí plenamente que um eterno
Sua voz se embargou de emoção e novamente ele tomou minha registro de todas as vidas é escrito não apenas com sons, mas com
mão e a manteve firmemente presa. luz, cor, tom, proporção matemática e harmonía - e que nenhuma
“ Você só deve acreditar em si própria” , disse ele, "caso algum palavra, pensamento ou ação deixam de ser lançados nesse registro!
pensamento invasor sugira que não creia em mim! É natural que du­
vide um pouco de mim. Você estudou profunda e longamente; traba- * * *

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Uma vasta floresta se ergueu diante de mim. Vi as sombras alon­ armados; por todos os lados erguiam-se imensos pilares de pedra na
gadas das folhosas ramagens que pendiam sobre a relva e as trepa­ qual estavam gravadas as cabeças aladas de monstros e de deuses
deiras tropicais agarradas aos galhos entrelaçados das árvores. Uma fabulosos; nas sombras assomavam as formas de quatro gigantescas
lua dourada espiava alegremente por entre os galhos mais grossos, e Esfinges guardando um trono colocado bem acima da multidão. Uma
dois seres humanos caminhavam à sua luz; eram um homem e uma luz bruxuleante brincava tremulamente na bela imagem, ficando
mulher, abraçados, com os rostos bem próximos. O homem parecia mais vivida, pulsando em cor e movimento; vi que no trono estava
estar pedindo à companheira um favor que ela negava, acabando por sentada uma mulher usando véu e coroa e que na mão direita tinha
se afastar dele com um movimento decidido de altiva rejeição. Eu um cetro cintilante de jóias e ouro. Escravos vestindo roupas do
não conseguia ver seu rosto, mas vi que as roupas eram régias e es­ mais rico lavor e desenho se prostravam em cada lado dela, e ouvi o
plêndidas, e em seus cabelos brilhava um diadema com gemas pre­ estridor de címbalos e música guerreira, enquanto a multidão movía­
ciosas. Seu apaixonado ficou alguns instantes à parte, com a cabeça se e oscilava, murmurando e gritando, todos aparentemente tomados
baixa - mas logo depois ajoelhou-se diante dela, tomando sua mão de uma emoção ou interesse especial. Repentinamente percebí o ob­
num evidente ímpeto de apaixonada súplica. Ao mesmo tempo que jeto sobre o qual a atenção geral estava fixada - o corpo oscilante de
eu os via dessa forma, vi também a figura fantasmagórica de outra um homem pesadamente acorrentado, jogado ao pé do trono. Ao seu
mulher que se dirigia para os dois. Ela chegou ã parte da frente da lado estava um escravo alto, de cor negra, usando roupa escarlate e
cena, com o vestido branco colando-se ao corpo, os cabelos claros máscara; essa criatura de ar sinistro tinha uma adaga brilhante le­
caídos soltos nos ombros e toda a sua postura expressando ansiedade vantada, em posição de uso - ao ver isso, um selvagem desejo de
e medo. Quando ela chegou perto, o homem ficou de pé e, com um salvar a vida ameaçada da vítima acorrentada e inerme me acometeu.
gesto de fúria, tirou uma adaga do cinto e mergulhou-a no coração Se eu apenas pudesse correr para defendê-lo e afastá-lo do perigo
da mulher! Pude vê-la cambalear com a força do golpe e o sangue iminente, pensei - mas não! Eu tinha que ficar sem ação vendo
rubro manchar a alvura de seu vestido; quando ela se voltou para o aquela cena, com todas as fibras de meu cérebro queimando com in-
assassino com um último olhar de apelo, reconhecí o meu rosto no contido desespero. Naquele instante a mulher velada e coroada le­
dela! E no rosto dele reconhecí Santoris! Soltei um grito, ou pensei vantou-se e ficou ereta; com um gesto autoritário ela estendeu o cin­
que o fiz; a escuridão me engolfou e a visão desapareceu! tilante cetro; o sinal fora dado! Como um raio, a adaga brilhou no ar
e encontrou o alvo com grande precisão! Desviei os olhos com in-
* * * contido horror, mas um poder incontrolável me obrigou a levantá-los
de novo; a cena diante de mim tinha um tom avermelhado de sangue;
Outro vivido lampejo atingiu meus olhos e me encontrei olhando vi a vítima executada, a multidão barulhenta e, mais que tudo, a im­
para as ruas apinhadas de uma grande cidade. Torres e templos, pa­ placável Rainha, que com um gesto da pequena mão havia destruído
lácios e pontes formavam diante de meus olhos uma rede de intermi­ uma vida; quando a observei com ódio, ela levantou o véu e jogou-o
nável amplitude e esplêndida arquitetura, movendo-se e oscilando para trás. Meu próprio rosto me fitou em cheio, aquele rosto co­
como uma onda brilhando em mil pontos e elevando-se para o céu. roado pelo arco brilhante de seu diadema - ah, maldosa alma! Gritei
Depois, esse movimento instável mudou e deu lugar a ordem e forma lamentosamente: rainha cruel! Então, quando vieram buscar o corpo
e me tomei, por assim dizer, uma espectadora anônima entre outros do homem assassinado, suas feições lívidas ficaram de frente para
milhares de pessoas que observaram uma cena de pitoresca magnifi­ mim, e novamente vi o rosto de Santoris! Aturdida e desesperada me
cência. Parecia-me estar no grande salão de audiências de um grande encolhí, como se implodísse, congelada por uma inexplicável sensa­
palácio onde havia grande número de escravos, serviçais e homens ção de infelicidade, e pela primeira'vez, durante o singular desfile

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visionário uma Voz lenta, calma e marcada por uma infinita tristeza
glória da manhã, cessaram os cânticos e a procissão estacou; um dos
disse:
sacerdotes, alto e de aspecto autoritário, separou-se dos outros e le­
“ Uma vida por outra vida! A eterna lei! Vida por vida! Nada é
vantou os braços ordenando silêncio. Nesse momento a Cabeça mo-
tomado que náo seja devolvido; nada se perde que não seja reen­
contrado. Vida por vida!” veu-se como se tivesse vida, os lábios se mexeram, houve um som
Depois o silêncio e profunda escuridão. ondulante como o de uma harpa tocada pelo vento, e uma voz cheia,
doce e ressonante disse as seguintes palavras:
* * * “ Eu vejo o rosto do Sol Nascente!"
Com um grito de alegria, sacerdotes e povo responderam:
Clareando suavemente, alargando-se aos poucos, um resplendor “ Vemos o rosto do Sol Nascente!”
tímido como o primeiro alvor da madrugada invadiu gentilmente E aquele que parecia investido da maior autoridade, erguendo os
meus olhos quando ergui novamente o rosto. Vi a curva ondulada de braços para o céu em invocação, exclamou:
um rio que fluía preguiçosamente, e perto da margem um templo de “Mesmo assim, Ó Mais Poderoso entre os Poderosos, permite-nos
granito vermelho tendo em volta árvores frondosas e coloridas lembrar sempre que Tua Sombra é uma parte de Tua Luz - que a
aglomerações de flores. Enormes palmeiras elevavam suas folhas pa­ Tristeza é só um humor passageiro da Alegria, e que a Morte é só a
ra o céu; ao lado do rio tranquilo estava um grupo de meninas e noite que amanhece de novo na Vida! Vemos o Sol Nascente!”
mulheres. Uma delas estava um pouco afastada, triste e sozinha, as Então todos uniram as vozes para cantar uma música numa língua
outras olhando para ela com um misto de piedade e desprezo. Pró­ semibárbara, com um coro triunfal, aos sons da qual se afastaram
ximo a ela havia uma alta coluna reta de basalto negro, que parecia lentamente até desaparecerem como formas criadas no espelho pela
sustentar a cabeça de um deus esculpido. As feições do deus eram respiração e que logo se desvanecem. Só o sacerdote alto ficou, so­
calmas e fortes, sossegadas, expressando dignidade, sabedoria e po­ zinho, à espera de alguma coisa ansiosamente aguardada e desejada.
der. Enquanto eu observava, mais pessoas se aproximaram - ouvi Em alguns momentos a mulher que até então estivera oculta nas
acordes de música solene vindos do templo; vi a mulher solitária se sombras das árvores próximas veio pressurosamente encontrá-lo. Ela
afastar ainda mais e quase desaparecer na sombra das árvores. A luz estava muito pálida e os olhos brilhavam por causa das lágrimas, e
ficou mais clara no leste, onde os raios do Sol incidiam na abóbada novamente vi meu rosto no dela. O sacerdote voltou-se vivamente
do céu; as portas do templo foram abertas e uma longa procissão de para saudá-la e pude ouvir distintamente cada palavra que ele disse
sacerdotes levando círios acesos e acompanhados de acólitos de ao pegar as mãos dela e puxá-la para si.
roupas brancas e coroas de flores se dirigiu lenta e majestosamente “ Desistirei de tudo neste mundo e no outro por amor a ti” , disse
para a coluna com a escultura do deus e começou a fazer círculos em ele. “ Honra, dignidade e o renome deste pobre coração, tudo isso
volta, com todos entoando um hino, enquanto os meninos coroados ponho aos teus pés, ó mais amada das mulheres! Que outra coisa
de flores balançavam incensários de ouro de um lado para outro, im­ já criada ou imaginada pode comparar-se ao encanto que tu és? À
pregnando o ar com um rico perfume. Todas as pessoas se ajoelha­ doçura dos teus lábios, à suavidade de teu colo, ao amor que tre­
ram e os sacerdotes continuaram andando em círculos, entoando me em confissão quando sorris! Aprisiona-me em teus braços e
cânticos e preces, até que finalmente o Sol elevou o topo de seu perderei minha própria alma por uma hora de teu amor! Ah, não me
brilhante disco acima do horizonte, e seus raios, surgindo no leste rejeites! Não me afastes outra vez de ti! O amor só vem uma vez na
como flechas douradas, tocaram a testa da Cabeça do deus em seu vida, um amor como o nosso! Cedo ou tarde ele chega, mas só uma
pedestal de basalto. Com a chegada da rutilante luz precursora da vez!"

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A mulher olhou para ele com paixão e piedade - um olhar que, Ela levantou o rosto e olhou no fundo dos olhos cheios de ac
agradecida, vi que não tinha qualquer traço de orgulho, ressenti­ ção do sacerdote, beijou-o com uma estranha e grave ternura c
mento ou afetada ofensa. se estivesse dizendo adeus, e depois o mandou embora com
“ Oh, meu amado!” Respondeu ela, e sua voz doce e queixosa, gesto delicado. Emocionado e embriagado de alegria, ele obedec
soou no silêncio como um soluço de dor. “ Por que te atiras à des­ sinal e a deixou, desaparecendo da mesma maneira fantasmagc
truição por algo tão pobre quanto eu? Pois então não sabes, pois com que as outra figuras daquele estranho sonho dramático tin
então esqueces, que para um grande sacerdote de tua Ordem o amor desaparecido. Ela ficou observando a partida dele com um c
de uma mulher é proibido e sua punição é a morte? O povo já te cheio de desejo e depois, em total desespero, caiu de joelhos di
olha com suspeita e a mim com desprezo! Refreia-te, ó querida e co­ da impassível Cabeça no pedestal de pedra e orou em voz alta:
rajosa alma! Sê forte!” “ Ó oculto e desconhecido Deus que nós, pobres criaturas h
“Forte?” Ecoou ele. “Acaso amar não é ser forte? Ah, é a maior nas, representamos com símbolos! Dá-me forças para amar
das forças! Pois de que serve o poder do homem se ele não pode egoísmo, a paciência para suportar sem queixas! Ó Tu, Coraçã
curvar uma mulher à sua vontade? Minha criança, onde hã amor não Pedra, tempera com tua mais gélida sabedoria meu pobre e p;
pode haver morte, mas somente vida! O amor é a torrente incessante tante coração de carne! Ajuda-me a amainar a tempestade de m
da eternidade em minhas veias, o pulsar da perene juventude e vitó­ alma, e faz-me ser como tu és - inflexível, imovível, a não ser q
ria! Que são as pobres crenças do homem comparadas com esta sin­ do o Sol extrai música de tua fronte sonhadora e anuncia o raia
gular Verdade da Natureza - o Amor? Não é a própria Divindade o dia! Perdoa, Ó Grande Deus, perdoa a falta de meu amado! N
Supremo Amante? E tu queres que eu seja um exilado quanto ao Seu uma falta dele, mas minha, apenas porque existo e ele me ju
mais santo decreto? Vem a mim no silêncio quando ninguém vê e bela: que tudo esteja bem com ele - quanto a mim, que nada i
ninguém ouve - vem quando.. seja bom ou mau, e ensina-me, até a mim, a olhar o Sol Nascente
Ele se interrompeu ao ver o súbito sorriso e olhar de encanto da A voz cessou. Uma névoa me envolveu por alguns instante
mulher. Como um raio de luz, um pensamento certamente havia quando ela se desfez, a mesma cena se apresentou, sob o brilho
afastado as suas dúvidas. teado da tristonha lua. Aquela que se parecia tanto comigo jazia i
“ Pois assim seja!" Disse ela. “Serei toda tua deste momento em ta ao pé da grande estátua, com as mãos entrelaçadas no peite
diante! Sim, eu virei!” olhos fechados, a boca sorrindo como se dormisse, enquanto ao
Ele soltou uma exclamação de imenso alivio e alegria e a puxou pa­ lado chorava desvairado o sacerdote que a amava, invocando-a
ra ainda mais perto, até que a cabeça dela repousasse em seu peito e todos os nomes mais temos, abraçando o corpo sem vida, cobr
os longos cabelos soltos caíssem como uma cascata sobre seus braços. seu rosto com inúteis beijos apaixonados, chamando-a de volta d<
“ Afinal!” Murmurou ele. “ Afinal! Minha, toda minha esta alma lêncio para o qual sua alma tinha fugido em selvagem desesp
gentil, este apaixonado coração! Minha essa maravilhosa vida para Então compreendí que ela havia afastado qualquer pensam
que eu faça dela o que desejar! Ó tu que vens coroar o melhor de egoísta com seu senso de dedicação ao dever e tinha escolhido o
mim, quando virás me encontrar?” imaginava ser a única saída para o seu dilema. Para salvar a h
Ela respondeu imediatamente, sem hesitação. de seu amado ela havia sacrificado a própria vida. M as.. . seria
“ Esta noite! Quando a lua surgir, encontra-me neste mesmo lugar, sábio ou insensato? Essa pergunta se instalou com insistência
neste bosque sagrado onde Memmon te ouve quebrar teus votos, minha mente. Ela havia dado a vida por uma crença equivocadí
e meus votos a ele consagrados! Juro que enquanto eu viver serei nha se curvado ãs convenções de um código temporário da lei
toda tua! Mas agora, deixa-me fazer minhas preces!” mana: no entanto.. . Deus certamente estaria acima de todos os

[ 150 J M 51I
(emas estranhos e antinaturais organizados pelo homem paia sua grande espaço circular de uma arena apinhada de gente. No centro,
própria e imediata conveniência, vaidade ou vantagem, e não era o bem na frente de uma arquibancada inclinada, estava um belo pavi­
Amor a coisa mais próxima de Deus? G se aquelas duas almas ti­ lhão de ouro, cobeito com colorida seda, enfeitado com guirlandas
nham sido destinadas ao amor, poderíam ser separadas, ainda que de rosas, no qual estava sentado um homem de compleição robusta e
por sua própria precipitação? Essas perguntas foram curiosamente aparência rucie regiamente vestido e usando uma coroa, portando
impostas à minha consciência no momento mesmo em que olhei no­ jóias tão profusas que parecia estar literalmente vestido de cintilan­
vamente para o pobre e frágil corpo inerte deitado entre juncos e tes pontos de luz. Lindas mulheres estavam reunidas em tomo dele;
palmeiras junto ao rio preguiçoso, e continuei a ouvir o clamoroso meninos segurando instrumentos musicais estavam acocorados junto
desespero do homem para quem ela poderia ter sido alegria, inspira­ a ele; serviçais estavam a postos para atender o menor gesto ou
ção e triunfo, se o mundo não fosse então como ainda é agora; o chamado seu. Todos os olhos estavam voltados para ele, como se
homem que, à luz do luar que nele incidia, me revelou em suas des­ fosse o deus objeto da idolatria de toda uma nação. Senti e tive cer­
figuradas e desgraçadas feições uma espectral semelhança com teza de que olhava para a “ sombra” do tirano de Roma, Ñero; va­
Santoris. Estaria certo, perguntei a mim mesma, que as duas linhas gamente tentei descobrir por que ele, com todo o esplendor de sua
perfeitas de um amor correspondido fossem separadas? Ou, como louca e terrível carreira de malefícios, teria entrado na fantasmagoría
poderíam alguns conceber, sendo correto de acordo com certas desse sonho que parecia interessar principalmente a mim e (Jm Ou­
idéias passageiras e convencionais de “ coireçSo” , seria possível se­ tro. Havia ruídos estranhos em meus ouvidos - o estridente som de
pará-las dessa forma? Não seria justo lembrar ocasionalmente que trombetas, os sons mais suaves de harpas dedilhadas encantadora­
existe uma lei eterna de harmonia entre as almas como há entre as mente na distância, o crescente murmúrio da multidão, e logo em se­
esferas? E que se nós causamos uma divergência também damos guida o rugido de furiosas bestas selvagens, vítimas da impaciência
causa ã discórdia? Mais ainda, se essa discórdia resulta de nossa in­ ou da dor. Nessa visão parecia ser o fim da tarde —julguei ver um
terferência, está contra a lei e deve ser transformada por forças na­ tom róseo no céu onde o Sol tinha acabado de se pôr - o fogo das
turais novamente em concórdia, ainda que essa transformação leve tochas brilhava em vários pontos da arena e para além dela eu via
dez, cem, mil ou dez mil anos? De que vale, então, o esforço que rutilaren) as jóias no peito de Nero, espalhando reflexos que ressal­
estamos incessantemente fazendo em nossa estreita e limitada vida tavam as silhuetas dos soldados e pessoas mais próximas dele. Per­
diária para resistir ao sábio e santo ensinamento da Natureza? Não cebí, em dado momento, que o centro da arena, até então vazio, ti­
será melhor ceder à insistência da música da vida enquanto esta soa nha se tornado o ponto para o qual todos os olhares se dirigiam; lá
em nossos ouvidos? Pois tudo terá que seguir o curso da Natureza estava uma mulher sozinha, vestida de branco, com os braços cruza­
no fim das contas, sendo o caminho dela o de Deus, e sendo o cami­ dos no peito. Ela estava tão imóvel, tão aparentemente inconsciente
nho de Deus, o único! Esses eram os meus pensamentos enquanto eu de sua posição, que a turba, que sempre se irrita com a calma, tor­
observava em estado de meio-sonho a visão da mulher morta e seu nou-se subitamente furiosa e soltou um grito selvagem; “ Ad leones!
desolado amante desvanecer-se nas sombras do mistério, velando os Ad leones!" O grande Imperador deixou sua posição indolente, meio
registros da luz ainda por vir. inclinada, e se curvou para a frente com um súbito lampejo de inte­
resse nas feições assustadoras. Isso fez com que um homem com
* * * roupa de gladiador entrasse na arena por uma porta lateral; com pas­
so cadenciado e atitude segura ele caminhou até a frente do estrado
Tomei consciência de um profundo som murmurante, como o som real e pôs um joelho no chão. Levantando-se rapidamente, ficou
abafado de muitos milhares de vozes, e levantando os olhos vi o ereto à espera, com os olhos fixos na mulher que continuava imóvel

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como uma estátua, aparentemente resignada a um destino adverso. haver uma pálida iinha de luz que nos ligava, e todo o meu ser vol­
Novamente a grande multidão urrou: “ Ad leones! Ad leones!” . Ou- tou-se para ela com uma ansiedade curiosamente vaga. Uma névoa
viu-se um rangido de banas e trancas de ferro, depois de correntes rodopiante surgiu repentinamente diante de meus olhos, e quando se
caindo, seguido de um urro selvagem; dois leões ferozes e mal ali­ desvaneceu a luta tinha terminado. Os leões estavam mortos, enso­
mentados saltaram na arena, com as jubas brilhando e os olhos pados de sangue na areia revolvida da arena; o gladiador vitorioso
cheios de fogo. Com a rapidez do pensamento, o gladiador se colo­ estava ao lado dos corpos com ar de triunfo, muito ereto, recebendo
cou no caminho das feras e imediatamente reconheci a natureza do as ovações ensurdecedoras do público. Guirlandas de flores lhe fo­
“esporte” que havia trazido o Imperador e toda a sua cintilante e ram atiradas pelo povo, que tinha ficado de pé nas arquibancadas
“ corajosa” corte para a arena, onde iriam assistir o que para eles era para saudá-lo com suas aclamações, enquanto o Imperador, levan­
apenas uma “ sensação” - a vida de um cristão destroçada pelas gar­ tando o pesado corpo debaixo do pálio de ouro, estendeu a mão
ras e presas de animais selvagens - um passatempo comum, que nâo dando o sinal de que o prêmio pelo qual ele tão bravamente havia
era impedido pela misericórdia dos homens nem pela intervenção de lutado era seu. O gladiador obedeceu o sinal imediatamente, mas
Deus! Compieendi, como se a explicação me tivesse sido comunica­ nesse momento a mulher, até então passiva e imóvel, se agitou. Fi­
da em palavras claras, que a mulher que aguardava a morte tão imó­ xando nos olhos do gladiador um olhar da mais profunda reprovação
vel só tinha um meio de escapar, e esse meio seria o gladiador que, e angústia, ela levantou os braços como se o advertisse para não se
para divertir o Imperador, tinha sido trazido ali para combater e aproximar e então caiu no chão, com o rosto na areia. Ele correu pa­
afastar as feras da vítima; a recompensa, caso ele tivesse êxito, seria ra o seu lado e, ajoelhando-se, tentou erguê-la, mas logo ficou de pé
a própria mulher. Olhei com meus oihos doloridos e apertados o ad­ e disse em altos brados:
mirável espetáculo-sonho, e meu coração se agitou quando vi um “Grande Imperador! Eu te pedi o meu amor vivo! Esta mulher
dos leões aproximar-se sorrateiramente da solitária mártir e preparar- está morta!"
se para dar o bote. Rápido como um raio, o gladiador alcançou o Risadas se fizeram ouvir no meio da multidão. O Imperador se in­
leão faminto, lutando com ele numa batalha horrível e selvagem; o clinou para a frente em seu trono e sorriu.
outro leão, tentando uma estratégia semelhante, acabou sendo “ Agradece teu deus cristão por isso! Nossas divindades pagas são
igualmente rechaçado. A batalha entre homem e feras era furiosa, mais bondosas! Elas nos dão amor por amor!”
prolongada e horrível de se ver. A excitação do público se tomou O gladiador fez um gesto de louco desespero e voltou o rosto pa­
intensa. “ Ad leones! Ad leones!” Era o grito uníssono, cada vez ra a luz —o rosto de Santoris!
mais alto, transformando-se num clamor enlouquecido. Nesse Ínte­ “Morta! Ela está morta!” Bradou ele. “De que serve a vida en­
rim a mulher não tinha saído do lugar, como se tivesse se transfor­ tão? Obscureceram-se seus amados olhos! Frio está seu generoso co­
mado numa estátua. Ela não parecia notar os leões ansiosos por de- ração! A luta foi em vão, minha vitória zomba de mim com seu
vorá-la nem o gladiador que os combatia em sua defesa; estudei a triunfo! O mundo está vazio!”
estranha figura da mulher com extremo interesse, querendo ver seu Novamente o riso da populaça agitou-se no ar.
rosto, pois instintivamente sentia que seria meu conhecido. Como se “Consola-te. homem!” - a voz áspera de Nero soou desagrada­
respondesse meu pensamento, eia se voltou para a direção onde eu velmente acima do murmúrio geral. “ O mundo nunca ficou pior por
parecia estar. Como se olhasse um espelho, novamente vi minha ter uma mulher de menos! Também gostarias de ser cristão? Cuida­
personalidade refletida, como a vira tantas vezes na sequência de do! Nossos leões ainda estão com fome! Tua amada morreu, é ver­
estranhos episódios aos quais estivera tão ligada, embora fosse uma dade, mas não fomos nós que a matamos! Ela confiava em seu Deus,
espectadora apenas. Entre a figura-Sombra da mulher e eu parecia e foi Ele que te espoliou de tua legítima propriedade. Culpa-O, não

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a nós! Vai, com o laurel que bravamente conquistaste! Nero louva “ Se pudesses ver o que está em meu coração” , continuou ele,
tua perícia!” “ perceberías claramente que jamais um amor maior do que o meu
Ele atirou uma bolsa cheia de ouro aos pés do gladiador. A cena amor por ti foi dedicado a uma mulher! Entretanto, eu não desejei
se desfez numa confusa massa de luz e cor até transformar-se numa entregá-lo a ti, pois tenho lutado contra ele” . O pintor fez uma pau­
névoa cinza-perolada que flutuava diante de meus olhos. Mas só al­ sa, e quando voltou a falar suas palavras foram tão nítidas que pare­
guns momentos de trégua me foram concedidos antes que outra cena ciam ditas de muito perto.
se desenrolasse como um quadro pintado na cortina de vapor que se “Esse amor foi arrancado de meu próprio sangue e de minha alma
mantinha com tanta persistência diante de mim - uma cena que tan­ - eu não posso resistir a ele, como não podería resistir à força do ar
geu uma corda mais vivida de minha memória do que qualquer outra que me faz respirar e viver. Eu não deveria amar-te, és uma jóia
que eu já houvesse vivenciado. proibida para mim, contudo sinto, para falar a verdade, que já és mi­
nha, que me pertences como a outra metade de meu ser, e que assim
* * * foi desde o princípio, quando Deus falou pela primeira vez no casa­
mento das almas. Estou te dizendo que sinto isso, mas não sei expli­
O fresco e espaçoso interior de um salão ou estúdio com pilares car, e me apego a ti por ser minha única esperança de felicidade!
de mármore se apresentou à minha visão - abria-se para um encan­ Não posso deixar-te partir!”
tador jardim em terraços, é bosques ondulantes e obscuros; canteiros Ela manteve-se em silêncio, a não ser por um profundo suspiro
de coloridas flores se estendiam em frente como um tapete de mara­ que agitou seu peito sob o leve tecido e fez suas jóias cintilarem
vilhoso desenho, complexo e refinado. No salão havia toda a pito­ como raios de Sol nas ondas do mar.
resca graça e confusão de um ambiente de artista; diante de um “Se eu te perder agora, depois de conhecer-te e amar-te” , conti­
grande cavalete, trabalhando assiduamente, estava alguém que devia nuou ele, “ perderei meu talento. Não que isso seja importante.. . ”
ser o próprio artista, com o rosto voltado para a tela. Na sua frente, A voz dela saiu trêmula: “teria muita importância” , disse ela bai­
posando em atitude de graça indolente estava uma mulher, envolta xinho, “para o mundo!"
em drapeado de diáfano e colante tecido, com algumas jóias de “O mundo!” Ecoou ele. “ Que me importa o mundo? Nada tem
grande valor falseando aqui e ali como estrelas caídas em seu peito e valor para mim se não estãs comigo - fico destituído de sensibilida­
nos braços; os cabelos, caindo em ondas suaves, presos em cima por de e de esperaça sem ti. Minha inspiração - tal como a sinto - vem
uma faixa de veludo azul pálido, eram castanhos, com o matiz das de t i . .
folhas de outono quando o Sol as beija, e eu podia ver que, fosse Ela se mexeu, inquieta - o rosto estava ligeiramente voltado para
qual fosse a idéia que se pudesse ter dela segundo os mais estritos outro lado e eu não podia vê-lo.
padrões de beleza, o homem que pintava seu retrato a considerava “Minha inspiração vem de ti” , repetiu ele. “ O teu doce olhar me
mais do que bela. Ouvi sua voz, baixa, murmurante, mas perfeita- preenche de sonhos que poderíam ser —não digo que seriam —trans­
mente distinta, como todos os sons que me eram transmitidos nesse formados na realidade do renome e da fama —mas isso talvez nada
meu sonho; era exatamente como as vozes dos atores que estivessem represente para ti. Pois afinal o que tenho para oferecer senão o meu
num palco diante do público. amor? Sei que aqui em Florença poderías ter mais apaixonados que
“ Se pudéssemos chegar a um entendimento” , disse ele, “ sei que o$ dias da semana, se assim quisesses; entretanto o povo diz que não
tudo ficaria bem entre nós no tempo e na eternidade!” te deixas tocar pelo amor, por melhor que seja. Agora eu. .
Houve uma pausa. A pitoresca cena pareceu brilhar e ganhar in­ Nesse ponto ele largou bruscamente o pincel e olhou-a bem de
tensidade, enquanto eu a observava. frente.

r 156 ] [157]
“ Eu não te ofereço o amor melhor ou pior, simplesmente e total­ Nem a ira dos deuses, a sabedoria dos homens,
mente te amo com todo o meu ser, com tudo que um homem pode ter As coisas terrenas, as coisas divinas,
no coração apaixonado, com o corpo e a alma!” A alegria, a tristeza, a vida ou a morte!
(Como essas palavras soaram claras! Eu podería jurar que esta­ Observei com crescente ansiedade a cena no estúdio, e meus pen­
vam sendo ditas bem ao meu lado e não pelas vozes dos sonhos samentos se focalizaram na mulher ali sentada tão quieta, aparente­
dentro de um sonho!) mente ignorante de que tinha a vida, o futuro e a fama de um homem
“Se tu me amasses, oh Deus! O que isso significaria para mim! em suas mãos. O pintor retomou a paleta e os pincéis e continuou
Se ousasses enfrentar tudo, se tivesses coragem de derrubar todas as a trabalhar febrilmente, a mão tremendo um pouco.
barreiras que existem entre nós! Mas não o farás, o sacrifício seria “ Agora já te confessei tudo!” Disse ele. “Sabes que representas
grande demais, incomum demais.. os olhos do mundo para mim, a glória do Sol e da lua! Toda a minha
“Pensas que seria?” arte está em teu sorriso, toda minha vida responde ao teu toque, Sem
A pergunta foi quase inaudível. Um ar de súbito espanto brilhou ti sou nada, nada posso ser. Cosmo de Medieis..
no rosto do pintor, que respondeu, suavemente: Quando esse nome foi pronunciado uma espécie de sombra inva­
“ Sim, penso que sim! As mulheres são impulsivas, extremamente diu a cena, junto com uma sensação de frio.
generosas - mas dão o que depois se arrependem de ter ofertado, e “ Cosmo de Medieis” , repetiu ele pausadamente, “ meu patrono,
quem pode censurá-las? Terias muito a perder se fizesses o sacrifício dificilmente me agradecería pelas declarações que tenho feito ã sua
que te proponho, e eu tudo teria a ganhar. Não quero ser egoísta, protegida, aquela que ele pretende honrar com sua própria aliança!
mas eu te amo! Teu amor seria paia mim muito mais que a esperança Estou aqui por ordem dele, para pintar o retrato de sua futura espo­
de ganhar o Céu!” sa, não para contemplá-la com os olhos de um apaixonado! Mas essa
tarefa é pesada dem ais.. . ”
Os estranhos ecos de versos de um poeta moderno se misturaram
Um som escapou dos lábios dela, como um se sufocasse um grito
ao meu sonho:
de dor. O pintor se voltou para ela.
Escolheste com apego a sorte oferecida - “ Algo em teu rosto” , disse ele, “ uma sugestão de desejo em teus
Uma vida doce como um perfume, pura como a prece lindos olhos, fez com que eu me arriscasse a dizer-te tudo, e assim
Mas um dia no céu não chegará o arrependimento? podes ao menos escolher teu próprio caminho no amor e na vida —
Dar-te-ão total conforto, os dias que passaram? pois não existe vida real sem amor” .
Elevarás o olhar entre a tristeza e o êxtase, Ela se pôs de pé bruscamente e o encarou - e mais uma vez, como
Encontrando o meu, e verás onde está o grande amor? num espelho mágico, vi minha personalidade refletida. Ela tinha lá­
E trêmula te voltarás e terás mudado? Sossega; grimas nos olhos, mas um sorriso tremulava em seus lábios.
A porta é estreita, lá não terei entrado. “ Meu amado!” Disse ela, calando-se como se tivesse medo.
Contudo isso bem sei; se uma vez fores minha, Uma expressão de surpresa e êxtase que era como a luz do ama­
Minha no rugir do sangue, no pulso da respiração, nhecer surgiu no rosto dele, e reconhecí as feições agora fim iliares
Misturada a mim como o mel ao vinho, de Santoris! Com suavidade ele largou a paleta e os pincéis e ficou à
Nem o tempo que afirma e nega, espera, numa atitude entre a expectativa e a dúvida.
Nem o poder das coisas nos separarão, “Meu amado!” Repetiu ela. “ Não viste? Não sabes? Ó meu gê­
nio, meu anjo! Serei assim tão difícil de ser lida? Tão difícil de ser
N. T. - Adaptação livre. conquistada?”

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A voz dela se quebrou num soluço; ela deu um passo incerto para
“Mais um crime em tua alma, Cosmo de Medieis!” Gritou ela,
a frente e ele correu ao seu encontro.
“ Mais um assassinato de alguém mais nobre do que tu! Que o Céu
“ Eu te amo, te amo, te amo!” Gritou ela, apaixonadamente. “Que
te amaldiçoe por isto! Mas não separaste meu amor de mim, oh não!
o mundo inteiro me esqueça, desde que tu fiques! Eu te pertenço, Acabaste de nos unir para sempre! Escapamos de ti e de teus espiões
podes fazer comigo o que quiseres!” - assim!”
Ele a tomou nos braços, apertando-a contra o coração com a pai­ Arrebatando o punhal da mão de um dos assassinos antes que es­
xão longamente negada. Seus lábios se encontraram e por um breve te pudesse evitar, a jovem mergulhou-o no próprio coração. Ela
instante eles se perderam no avassalador e divino gozo que só caiu sem um gemido, e vi, como se fosse através do sopro num es­
acontece um vez na vida, mas logo o nome foi novamente pronun­ pelho, o horror no rosto dos homens e da mulher que tinham teste­
ciado, como se uma rajada fria houvesse soprado: Cosmo de Medi­ munhado o resultado da terrível ação que haviam provocado. Então,
eis! como se o fizesse num quadro manchado, observei as feições do
Uma sombra caiu sobre a cena e uma mulher morena de fei­ homem que usava o colar, senti que o conhecia, embora não conse­
ções pesadas surgiu como um borrão na claridade ensolarada do guisse localizá-lo em nenhum canto de minha memória. Aos poucos
ateliê. Era uma mulher ricamente vestida que olhava ñxamente pa­ o cenário estranho de mármore branco e frio, o colorido panorama
ra os dois enamorados com olhos redondos cheios de suspeita e de flores e folhagens sob o céu de intenso azul, e os dois enamora­
um sorriso irônico nos lábios. O pintor virou-se e a viu; seu ros­ dos mortos, deitados um ao lado do outro diante de seus executores,
to passou da alegria para a ansiedade e empalideceu, mas conti­ desapareceu como uma nuvem tangida pelo vento; a mesma Voz cal­
nuando a abraçar sua amada desafiou-a de cabeça erguida e atitude ma e pausada que eu ouvira em outra ocasião voltou a falar em tom
altiva. triste e grave:
“Espiá!” Exclamou ele, “ faça seu trabalho pérfido! Ponha fim à “O cióme é tão cruel quanto a tumba! Suas brasas queimam com
sua traiçoeira vigilância e perfídia! Melhor a morte que sua cons­ um fogo muito veemente! A água mais abundante não pode apagar a
tante presença! Já não nos espiou o suficiente para tornar sua desco­ chama do amor, nem as inundações conseguem afogá-lo - se um
berta um trabalho fácil? Vamos, faça o que tem a fazer e depressa!” homem desse toda a sua essência por amor, esta seria totalmente
O sorriso cruel intensificou-se nos lábios da recém-chegada. Ela desprezada!”
não respondeu, apenas levantou a mão. Em imediata obediência ao
seu sinal, um homem vestido com roupas florentinas do século de­ * * *
zesseis, usando um estranho colar de pedras preciosas, saiu de trás
de uma cortina, ladeado por dois homens que eram, ou pareciam ser, Fechei os olhos, ou imaginei que os fechava, com um vago terror
de categoria inferior, por causa das roupas que vestiam. Sem uma crescendo dentro de mim, um grande medo de mim mesma e do ho­
palavra, os três se atiraram sobre o desarmado e indefeso pintor com mem que estava ao meu lado segurando minha mão - mas alguma
a fúria de animais selvagens atacando a presa. Houve um rápido coisa impediu que eu voltasse a cabeça para olhá-lo, e uma outra
combate; três punhais brilharam no ar - um grito soou no silêncio - emoção ainda mais poderosa me possuiu com uma força tão grande
e logo a vítima jazia morta no chão, com um punhal no coração, en­ que eu mal podia respirar sob o peso e a dor que ela me causava; era
quanto aquela que há pouco havia estado em seus braços e sentido o uma emoção sem nom e.. . Eu não conseguia pensar, cessando até de
calor de seus lábios ardentes contra os dela, caía de joelhos ao lado indagar alguma coisa a respeito da peculiaridade e variedade de epi­
do corpo soltando gritos desesperados, fruto de sua loucura e de sua sódios cheios de sons e cores que haviam se sucedido tão rapida­
dor. mente em meu sonho. Por tudo isso, não cheguei a me espantar quan-

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do vi a pesada cortina de brumas à minha frente abrir-se em muitos Ele abraçou-a com mais força e beijou-a muitas vezes com um
lugares e tomar a aparência de urna nesga de mar. misto de êxtase e desespero.
“ Vamos morrer, minha amada!” Disse ele.
* * #
A resposta dela vibrou com doce certeza. “Não! Não há morte, só
vida!.. . e amor!”
Um mar turbulento! Lúgubremente cinzento e grandioso em sua Os marujos gritaram - foi um grito de cortante agonia; uma massa
avassaladora fúria, suas vagas gigantescas pareciam montanhas con­ de enormes vagas vinha rolando com fúria - as ondas se atiraram
vulsionadas por um terremoto - luz e sombra se combatiam nas es­ como assassinos gigantescos sobre a frágil e indefesa escuna e a en­
curas e abismais profundidades e entre as cristas das ondas e sua golfaram; o barco desapareceu com terrível celeridade, como um pe­
fervente espuma. Eu podia ouvir o selvagem estrondo e o assobio quenino borrão puxado para baixo por um redemoinho. A vasta e
das ondas se quebrando violentamente em invisíveis rochedos na solene massa acinzentada estendeu-se por sobre a escuna como uma
costa distante; meu coração ficou gelado de susto quando vi uma es­ mortalha - jã não havia mais nada ali, ela tinha sido sugada para o
cuna com todas as velas erguidas lutando contra o massacre do nada! Vi uma onda gigantesca subir com um brilho cristalino azul
vento naquele inferno de água, parecendo urna simples pena caída muito escuro e enrolar-se no ponto onde toda vida humana e todo
da asa de urna gaiovota. Como um animal ferido, a escuna subia e amor humano haviam desaparecido, e nesse momento minha alma se
descia, a proa afundava em profundos precipicios dos quais era no- sentiu invadida por uma sensação de intensa calma. O mar imenso se
vamente atirada para cima como um desprezível brinquedo, e ao acalmou diante de meus olhos, formando pequenas ondulações que
vê-la aproximar-se mais pude discernir algumas figuras humanas a foram se dispersando gradativamente e se transformando mais uma
bordo - o homem do leme, os olhos aperlados a examinar as som­ vez em bruma; eu havia quase reencontrado minha voz, meus lábios
bras da tempestade que aumentavam, os cabelos e o rosto molhados; estavam se abrindo para perguntar “ o que significa a visão do barco
os marinheiros, combatendo arduamente para salvar os mastros, no mar?” , quando o som de uma música me interrompeu antes que
evitando que se quebrassem em pedaços e fossem atirados ao mar; eu pronunciasse a primeira palavra. Era o som de cordas delicadas,
então uma vaga inesperada trouxe o barco para bem perto de mim e como de mil harpas soando no Parafso. Ouvi com todos os sentidos,
vi as duas personalidades que vinham se apresentando com tanta encantada. Meus olhos entrecerrados continuavam fixos no pesado
constância no deconer da minha estranha experiência —o homem véu cinzento estendido diante de mim, aquela tela mística na qual
com o rosto de Santoris e a mulher com meu próprio rosto refleti­ um Divino pintor havia pintado vividamente e com nítidas cores as
dos com tanta fidelidade que era como se eu olhasse no espelho. Só cenas que eu, numa estranha indecisão, reconhecia mas não conse­
que nesse caso a semelhança aparecia com mais nitidez do que em guia compreender. Um arco-íris, com cada faixa de cor destacada
qualquer visão anterior, ou seja, as feições eram praticamente idênti­ com tanta intensidade que o brilho era quase intolerável, surgiu em
cas às que existiam realmente no aqui e no agora. O homem man­ perfeito arco na nuvem cinzenta à minha fíente! Soltei sem querer
tinha a mulher segura junto dele com um braço, agarrando-se ao uma exclamação de prazer, pois sem dúvida não se tratava de um ar­
mastro com o outro. Eu a vi olhando para o rosto dele com os co-íris comum ou terreno. Sua palpitante radiância parecia penetrar
olhos cheios da luz de um grande e apaixonado amor. Ouvi que ele o coração e o centro do espaço - tênue e delicada ao mesmo tempo
dizia: que intensa, cada uma de suas cores tinha o ardente esplendor de um
“O fim da tristeza e o início da alegria! Está com medo?” céu nunca sonhado pela mente humana e por demais glorioso para
“ Medo? Com você ao meu lado?” A voz dela não tinha o mais ser descrito por um mortal. Era o brilhante arrependimento da tor­
leve tremor. menta passada, a confirmação de que depois da tristeza chegava a

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alegría, o amor apaixonado da alma elevando-se em perfeita forma e A mão que prendia a minha se contraiu, e a pressão quente e ami­
beleza, após um longo encarceramento nas profundezas geladas da ga fez um tremor de emoção percorrer todas as veias de meu corpo.
repressão e da solitude - era tudo que pudesse ser imaginado a res­ Eu teria voltado o rosto para olhar meu companheiro se não tivesse
peito das promessas divinas! visto o portal trancado, suspenso no céu, abrir-se lentamente, dei­
Meu coração estava disparado, vieram lágrimas aos meus olhos e, xando que uma luz dourada muito radiosa se derramasse por ele,
quase inconscientemente, apertei com força a mão forte que segura­ como o fluxo constante de um grande rio. A figura da mulher ajoe­
va a minha, e que senti que tremia um pouco. Entretanto, eu estava lhada continuou bem visível, embora parecesse estar se fundindo aos
por demais absorvida pela visão do arco triunfal que atravessava o poucos na luz que a envolvia. Nesse momento, alguma coisa, que
céu para me dar conta desse tremor. Aos poucos, os estonteantes não sei dizer qual fosse, me afastou bruscamente do momento máxi­
matizes foram empalidecendo, desmaiando quase que impercepti- mo daquela visão; quase sem me dar conta tirei a mão da mão de
velmente, até que só havia à minha frente a bruma cinzenta de antes, meu companheiro e vi. . . apenas a solene grandiosidade do Loch
a não ser por um ponto onde eu via raios de luz que faziam lembrar Coruisk e um brilho denso cor de âmbar no pico da montanha, refle­
uma chuva fina caindo. Em seguida surgiram cenas rápidas e estra­ tindo-se no céu por obra do Sol poente! Isso, nada mais. Soltei um
nhas, de formas enevoadas que mudavam e se agitavam constante­ involuntário suspiro e afinal, com um pouco de hesitação e receio,
mente, e em todas elas eu distinguí as mesmas duas personalidades olhei Santoris de frente. Seus olhos encararam os meus com total
que eram tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes de mim e firmeza. Seu rosto estava muito pálido. Ficamos nos olhando por al­
de Santoris, testemunhas mudas de cada episódio. Em determinado guns momentos, depois ele disse baixinho:
momento tudo passou e houve absoluto silêncio. Não havia nenhuma “ Como o tempo passou depressa! Este é o momento máximo do
música misteriosa, todas as vozes tinham se calado, tudo estava em pór-do-Sol —quando essa luz maravilhosa desaparecer, teremos visto
silêncio. tudo!"
Então ocorreu uma mudança no espaço que eu imaginava ser o
céu - as nuvens foram afastadas como por um sopro de âmbar ar­
dente e rosa, e pude ver um grande Portal fechado por uma barra de
ouro. Ali uma figura se formou lentamente, a figura de uma mulher
ajoelhada junto ao portal trancado com as mãos entrelaçadas e le­
vantadas em dolorosa súplica. Tão estranho e desolado era o seu as­
pecto, naquele radioso e celestial ambiente, que eu senti vontade de
chorar por ela, assim banida de uma desconhecida e mística glória.
Em volta dela estendia-se o grande círculo dos céus; abaixo e acima
dela havia os desertos do espaço infinito, e ela, alma frágil tomada
imortal pelas chamas inextingufveis do amor, da esperança e da me­
mória, pairava por entre os abismos da imensurável vastidão como
uma folha solta ou um floco de neve! Senti enorme compaixão por
ela e meus lábios se moveram inconscientemente numa prece:
“ Oh, não a deixeis sempre exilada e só!” Murmurei mentalmente.
“ Amado Deus, tende piedade! Que o portal seja aberto e ela possa
entrar! Ela esperou tanto tempo!”

Ít6 4 ] [1651
IX

DESTINO OBSCURO

A voz dele era calma e convencional, mas julgo ter detectado uma
ponta de tristeza em seu tom que me fez sentir um inexplicável re­
morso; olhei para ele, quase sem ter consciência do que dizia:
“ Essa luz maravilhosa precisa desaparecer?” Perguntei quase su­
plicante. “ Por que ela não fica conosco?”
Ele não respondeu de imediato. Uma sombra de severidade anu­
viou sua testa, e comecei a sentir medo - mas medo de quê? Não
dele, mas de mim mesma, o medo de involuntariamente perder tudo
que havia ganho. Veio então a pergunta: o que afinal eu ganhei?
Podería eu explicar isso para mim mesma, ao menos? Não havia na­
da tangível a respeito do que eu pudesse dizer: “possuo isto” , ou
“consegui aquilo” , visto que, reduzindo todas as circunstâncias a
um nível prosaico, tudo que eu sabia é que havia encontrado no
companheiro que estava ao meu lado um homem que tinha uma atra­
ção singular, quase magnética, e cuja personalidade me parecia co­
nhecida; além disso, eu podería dizer que, devido a um poder que
ele talvez tivesse exercido, eu havia, em lugares e épocas inespera­
das, visto certas coisas ou “ impressões” que poderíam ou não ser
criações de minha própria mente, temporariamente sob influência
magnética. Eu sabia bem que esse tipo de coisas pode acontecer,
mas não tinha nenhuma certeza de que tivessem acontecido dessa
forma no presente caso. E enquanto eu ainda estava tentando resol­
ver o problema, ele respondeu minha pergunta.
“ Isso depende de nós” , disse ele. “ De você talvez mais do que de
mim” .
Olhei para ele interrogativamente.
“ De mim?”
Ele sorriu de leve.

1167]
“ Sim! É a mulher quem sempre decide.” Nesse momento minha voz voltou.
Olhei para o céu. Longas estrías de delicados tons azuis e verdes “Mas.. . suponha que outros se coloquem no caminho?”
agora se misturavam à luz âmbar que ainda tingia o firmamento; to­ Ele sorriu.
do o panorama tinha uma indescritível beleza e grandiosidade. “ Certamente será culpa nossa se permitirmos que o façam!” Res­
“Gostaria de poder compreender” , murmurei. pondeu ele.
“Tentarei ajudã-la” , disse ele suavemente. “Talvez eu possa es­ Deixei minhas mãos entre as dele por mais um momento. O fato
clarecer as coisas para você. No momento, você está sob a influên­ de Santoris segurá-las me dava uma sensação de paz e segurança.
cia de suas próprias impressões psíquicas e lembranças. Imagina ter “ As vezes, numa longa caminhada pelos campos e florestas” , dis­
visto estranhos episódios, mas estes nada mais são que imagens ar­ se eu em voz baixa, "podemos perder o caminho mais próximo para
quivadas nas células de seu cérebro espiritual (por intermédio de seu casa. Nessas horas gostaríamos que alguém nos ensinasse a trilha
cérebro material do presente) que projetam na tela de sua visáo apa­ que deve ser seguida” .
rências e reflexos de cenas e acontecimentos passados, mas que “ Sim” , interrompeu ele, “gostaríamos disso!”
também reproduzem as mesmas palavras e sons que acompanhavam Os olhos dele me fitavam com uma expressão enigmática, entre
as referidas cenas e acontecimentos. Isso é tudo. O Loch Coruisk só dominadora e suplicante.
apresentou a si mesmo e seus variados efeitos de luzes e sombras - "Então você me dirá.. . ” Comecei.
aqui não há nenhum mistério além do eterno mistério da Natureza na “Tanto quanto eu possa!” Disse ele, puxando-me para mais peito.
qual você e eu desempenhamos nossos diferentes papéis. O que você “Tanto quando eu possa! E você.. . você deverá dizer-me..
viu e ouviu eu não sei, pois para cada indivíduo a experiência é e “Eu? Mas o que eu posso lhe dizer?” Perguntei sorrindo. “Eu
sempre tem que ser diferente. O que sei com certeza é que o fato de não sei nada!”
nos termos encontrado e ficado aqui juntos neste dia foi, por assim “ Você sabe uma coisa que representa todas as coisas” , respondeu
dizer, a reunião das pontas de uma corrente partida. Entretanto, cabe ele, “ mas devo continuar esperando por isso por mais algum tempo” .
a você - e até mesmo a mim - voltar a quebrá-la se assim o decidir­ Ele largou minhas mãos e se voltou para o lago, protegendo os
mos”. olhos do brilho de ouro que agora se espalhava gloriosamente pelo
Fiquei em silêncio, náo porque não pudesse falar mas porque eu céu, tingindo as águas escuras do Loch Coruisk de laranja carrega­
não ousaria falar. Toda minha vida repentinamente parecia depender do, contrastando com o púrpura sombrio dos montes que o cercavam.
de um fino fio de possibilidade. “ Vejo nossos homens” , disse ele, com um tom normal de voz,
“ Penso” , continuou ele no mesmo tom suave de voz, “que por “eles estão procurando por nós. Devemos ir” .
enquanto devemos deixar as coisas seguirem seu curso natural. Você Meu coração bateu com força. Um desejo profundo de falar o que
e e u . . . ” Nesse ponto ele parou e eu, impelida por uma secreta emo­ eu mal ousava pensar se fazia sentir com grande poder. Mas uma
ção, levantei o olhar para ele. Instintivamente, com uma inusitada restrição interior pareceu erguer uma barreira de aço em volta desse
emoção, estendemos mutuamente as mãos. Ele segurou minhas mãos desejo, e meu espírito se debateu como uma ave aprisionada. Deixei
e, inclinando a cabeça, beijou-as com carinho. “Você e eu” , conti­ meu trono e seu pálio de pedra com relutância, e ele percebeu isso.
nuou ele, “já nos encontramos em muitas fases da vida e em muitos “ Você está triste por ter que ir embora” , disse ele, com bondade
planos de pensamento - acredito que sabemos e compreendemos is­ e sorrindo. “ Eu compreendo, esta é uma paisagem muito bela” .
so. Vamos nos satisfazer com isso por enquanto; se o destino nos re­ Fiquei muito quieta, olhando para ele. Uma multidão de lembran­
serva alguma felicidade ou sabedoria, tentemos auxiliá-lo, sem colo­ ças começou a lutar por espaço em minha mente, ameaçando destruir
car obstáculos no seu caminho” . meu autocontrole.

[168] [ 169 ]
“Não será uma coisa mais do que bela para você como para vista a entrada para o local que para mim fora um verdadeiro Vale
mim?" Perguntei com voz trêmula, apesar do controle que eu tenta­ das Visões, parecia-me ter vivido séculos e não algumas horas. Uma
va impor a mim mesma. coisa, entretanto, continuava a ser positiva e real em minha expe­
Os olhos dele encararam os meus com uma luz que se fez mais riência, a personalidade de Santoris. A cada momento que passava
intensa que antes. eu a conhecia melhor - o lampejo de seus olhos azuis, o sorriso fu­
“Minha querida, para mim é o inicio de uma nova vida!" Disse gaz e inesperado, o modo de voltar a cabeça, o gesto de suas mãos,
ele, “ mas não posso dizer que é a mesma coisa para você. Não tenho todas essas coisas me eram tão familiares quanto o reflexo de meu
o direito de tirar conclusões por enquanto. Venha!” próprio rosto no espelho. Não havia mais surpresa misturada ao re­
Uma grande vontade de chorar formava um nó sufocante em mi­ conhecimento cada vez mais evidente - parecia-me natural conhe­
nha garganta. Por que eu não conseguia falar francamente e lhe di­ cê-lo bem, na verdade estava claro para mim que eu o havia conhe­
zer que eu sabia tão bem quanto ele que não havería nenhuma vida cido sempre. O que me perturbava, entretanto, era um medo sutil
para mim sem a presença dele? Mas então eu havia chegado a esse que se insinuava em minhas veias traiçoeiramente como o frio da fe­
ponto? Sim, era verdade! Então seria amor verdadeiro o que eu sen­ bre —o medo de que uma coisa sem nome pudesse nos separar ou
tia. ou simplesmente uma obediência cega a alguma influência hip­ provocar a incompreensão entre nós, pois as linhas psíquicas de
nótica? A dúvida se insinuou como o sopro de um espírito maléfico, atração entre dois seres são mais tênues que os da mais fina gaze e
e tentei não lhe dar atenção. Santoris pegou minha mão como o fize­ podem ser facilmente rompidas e espalhadas, ainda que possam ou
ra antes e me guiou na caminhada entre as pedras escorregadias, devam ser novamente unidas depois de longo tempo. Mas tantas
molhadas pelo borrifo da torrente e pela umidade dos pântanos pró­ oportunidades já tinham sido desperdiçadas, pensei, por causa de al­
ximos que nos avisavam de sua proximidade pela grande quantidade guma insensatez ou negligência da parte dele ou da minha. Quem de
de mirtos do brejo que cresciam profusamente por toda parte. Em nós deveria ser censurado? Olhei para ele com um misto de receio e
silêncio alcançamos a praia onde a lancha nos aguardava: em silên­ apelo, vendo-o sentado ali na lancha um pouco afastado de mim, e
cio nos sentamos na proa e assim ficamos enquanto o barco seguiu senti que estava preocupado. Uma onda de emoção agitou meu últi­
seu rápido curso pelas pequenas ondas que pareciam ouro líquido mo - vieram tantas lágrimas aos meus olhos que por um momento
tingido de opala, brilhando com os reflexos iridescentes da derradei­ mal consegui ver as ondas que dançavam e brilhavam por todos os
ra claridade do Sol. lados como milhões de diamantes. Minha vida havia sido invadida
“ Estou vendo que o iate do Sr. Harfand voltou ao local onde es­ por uma mudança - uma mudança tão imensa que era difícil suportá-
teve ancorado antes” , disse Santoris para seus homens. “ Quando foi la. Tinha sido rápida demais, poderosa demais para ser considerada
que voltou?” com calma, e por isso fiqueí contente ao ver o Sr. Harland no con­
“ Logo que o senhor partiu, senhor” , foi a resposta. vés, esperando por nós.
Olhei e vi os dois iates, o “ Sonho" e o “ Diana” , um com as “Então", Perguntou ele, “ foi um pôr-de-Sol bonito?"
chaminés desfiguradoras que tomavam até os mais belos iates hor­ “Maravilhoso!" Respondí. “O senhor não viu nada daqui?”
ríveis perto de um veleiro, o outro uma perfeita imagem de le­ “Não. Dormi profundamente, só acordei quando Brayle veio até a
veza e graça, pousada como uma ave com as asas recolhidas na escuna para explicar que Catherine tinha insistido em fazer um pe­
superfície ainda brilhante da água. Minha mente estava perturbada queno cruzeiro, que o passeio a havia deixado muito bem-humorada
e desnorteada, eu me sentia como se tivesse viajado por vastas dis­ e que tinham acabado de voltar ao ponto de partida.”
tâncias de espaço e tempo durante o período da excursão a Loch A esta altura eu jã estava ao lado dele e Santoris logo se juntou a
Coruisk, e enquanto a lancha voava para a frente e perdíamos de nós.

[1701 (1711
“ Quer dizer que seu médico veio cuidar de você” , disse ele, sor­ quem estamos muito ligados assume uma atitude fria e distante para
rindo, “Eu imaginei que ele não lhe permitiría ficar longe de suas a qual não encontramos explicação. Ele se virou para outro lado tão
vistas por muito tempo!" depressa quanto eu o fiz, e então desci a escada, seguida pelo Sr.
“O que você quer dizer com isso?" Perguntou Harland que logo Harland. Em poucos segundos já estávamos nos distanciando do
mudou de atitude e riu. “ Bem, tenho que admitir que você foi me­ “Sonho” , e lágrimas tolas me afluíram aos olhos, borrando a figura
lhor médico que ele por hoje - faz muitos meses que não me sinto de Santoris que estava acenando com o boné, numa despedida bem-
tão bem e sem dor” . educada. Achei que o Sr. Harland me olhou com ar de interroga­
“Fico feliz” , respondeu Santoris. “ E agora, vocês dois querem ção, mas ele nada disse. Logo estávamos a bordo do “ Diana” onde
pegar a lancha e voltar ao seu iate ou ficam para jantar comigo?” Catherine. deitada numa cadeira do convés, olhava nossa chegada
O Sr. Harland pensou um pouco. com lânguido interesse. O Dr. Brayle estava ao lado dela, e quando
“ Acho que tenho que ir” , disse ele com evidente relutância. “ O nos aproximamos olhou para nós com um sorriso desdenhoso.
capitão Derrick voltou com Brayle. Como sabe, Catherine não é “ Então o homem elétrico não a sequestrou” , disse ele displicen­
muito forte, não tem estado bem e não devo deixá-la sozinha. Ama­ temente. “ A Senhorita Harland e eu estávamos com dúvidas sobre se
nhã, se você quiser, podemos fazer uma corrida de iate no mar a veriamos de novo ou não!”
aberto - eletricidade contra o vapor! O que acha?” As sobrancelhas hirsutas do Sr. Harland se franziram formando
“ Será um prazer!” . Santoris parecia estar achando graça. “Mas uma ruga profunda de desagrado.
como tenho certeza de que serei o vencedor, você me dará o privilé­ “ Não me diga!” Exclamou ele, secamente. “Pois não precisavam
gio de trazer todos para jantar comigo. Combinado?” ter receio, O “ homem elétrico", como você chama o Sr. Santoris é
“Claro! Você é a hospitalidade em pessoa, Santoris!” Disse Har­ um excelente anfitrião e não tem intenções sinistras para com seus
land, apertando sua mão calorosamente. “ A que horas começaremos amigos” .
a corrida?” “O senhor tem absoluta certeza disso?” , disse Brayle, com uma
“Que tal meio-dia?” exagerada inclinação de cortesia, puxando cadeiras para seu patrão e
"Está combinado!" eu sentarmos perto de Catherine. “ O capitão Derrick me disse que
Então nos preparamos para partir. Olhei para Santoris e em voz os aparelhos elétricos a bordo da escuna são de aparência aterrori­
baixa agradecí sua bondade em me acompanhar até o Loch Coruisk zante e que ele não se arriscaria a passar uma só noite lá!”
e pela tarde agradável que havíamos passado. As palavras conven­ O Sr. Harland soltou uma gargalhada.
cionais, fruto da cortesia corriqueira, me pareceram bastante absur­ “ Preciso falar com Derrick” . disse ele, e depois se aproximou de
das, mas tinham que ser ditas; ele as aceitou com uma resposta Catherine e perguntou gentilmente se ela estava melhor. Ela respon­
igualmente convencional. Quando eu já me preparava para descer a deu afirmativamente, mas com um pouco de impertinência.
escada ele me pediu para esperar um pouco, desceu ao salão e me “ Meus nervos estão abalados” , disse ela, “ acho que aquele seu
trouxe o ramo de lírios que eu havia encontrado no camarote espe­ amigo é uma dessas pessoas que tiram a vitalidade dos outros. Exis­
cial que, conforme ele dissera, “ era destinado a uma princesa” . tem dessas pessoas, papai, você sabe! São pessoas que, quando es­
"Aceita essas flores?” Disse ele com simplicidade. tão ficando velhas e fracas, saem por aí sugando vida nova dos ou­
Levantei os olhos para os dele e recebí as alvas flores de suas tros” .
mãos. Havia algo indefinível e fugidio em sua expressão, e por um Ele achou a idéia divertida.
momento era como se tivéssemos nos tomado estranhos. Um senti­ “ Você tem a cabeça cheia de fantasias. Catherine", disse ele, “e
mento de perda e dor me envolveu, como acontece quando alguém a nenhum argumento lógico vai convencê-la a mudar de idéia. Mas

(1721 (173]
Santoris é uma pessoa normal. Por falar nisso, ele mc aliviou muito “ Você e o Sr. Santoris certamente se deram muito bem", disse
da dor hoje” . Catherine em tom rabugento. “ Farinha do mesmo saco, sabe o que
“ Ah, e como foi isso?” Perguntou Brayle com marcado interesse. quero dizer?”
"Não sei como foi” , respondeu Harland. “ Uma gota ou duas de Sorri. Eu estava ocupada demais com meus próprios pensamentos
um fluido de aparência inofensiva fizeram maravilhas por mim. Em para dar atenção ao seu óbvio mau-humor. Eu percebi que o Dr.
poucos momentos eu me senti quase curado. Ele me afirma que mi­ Brayle me observava furtivamente e com ar de suspeita, e havia uma
nha doença não é incurável". curiosa sensação de constrangimento na atmosfera que me fez sentir
Uma curiosa expressão, difícil de definir, perpassou o rosto de que eu havia por alguma razão desagradado minha anfitriã; o as­
Brayle. sunto me pareceu fútil demais para ser levado em consideração, e
“ É melhor o senhor tomar cuidado” , disse ele asperamente. “ In­ logo que a conversa se tomou generalizada aproveitei para escapar e
válidos não devem servir de cobaias. Estou surpreso que um homem descer até o meu camarote. Fechei a porta e me entreguei à liberdade
em sua condição se arrisque a tomar uma droga qualquer oferecida de pensar em paz. Meus pensamentos a princípio foram confusos,
por um estranho” , caóticos, mas aos poucos minha mente se acalmou como o mar que
“Muito perigoso!" Interpôs Catherine com sua voz fraca. “Como eu havia visto em minha visão, e comecei a coordenar e ligar os vá­
pôde fazer isso, papai?” rios incidentes de minha estranha experiência numa forma mais ou
“ Bem, Santoris não é propriamente um estranho” , disse o Sr. menos coerente. De acordo com a consciência psíquica, eu sabia o
Harland. “ Afinal eu o conheci na faculdade.. . ” que eles significavam, mas de acordo com o raciocínio meramente
“ O senhor pensa que o conheceu” insistiu o Dr. Brayle, “ pode material e terreno eram totalmente incompreensíveis. Se eu ouvisse a
não se tratar do mesmo homem” . explicação sugerida por meu Eu interior, ela seria assim; Rafei San­
“ Ele é o mesmo homem” , respondeu o Sr. Harland com bastante toris e eu tínhamos nos conhecido por séculos —por mais tempo do
irritação. “ Não existem dois iguais a ele neste mundo” . que podíamos lembrar; as imagens mentais, ou melhor dizendo, as
Brayle levantou as sobrancelhas com um leve ar de afetada sur­ imagens anímicas que me tinham sido apresentadas, eram apenas al­
presa. gumas imagens escolhidas entre outras milhares de idêntico interesse
“ Pensei que o senhor tinha dúvidas. . para nós dois. arquivadas nos registros eternos; que as poucas ima­
“ Claro que tive e tenho minhas dúvidas a respeito de todos e de gens só tinham sido trazidas à minha consciência para me fazer lem­
tudo", disse o Sr. Harland. “ Acho que as terei até o fim de meus brar de circunstâncias que eu podería erroneamente pensar que ti­
dias. Na verdade, até tive dúvidas a respeito de suas boas intenções nham sido internamente esquecidas. Se, por outro lado, eu preferisse
para comigo” , aceitar o que se podería chamar uma solução razoável e prática do
Um rubor vermelho escuro se espalhou pelo rosto de Brayle de enigma, eu diria que. sendo imaginativa e sensível, tinha sido facil­
repente, e com a mesma rapidez ele empalideceu. Ele riu um pouco mente hipnotizada por uma vontade mais forte que a minha e que,
forçadamente. para se divertir ou porque havia visto em mim a possibilidade de
“Acho que o senhor não tem a menor razão para isso." servir como “caso de estudo” , Santoris havia usado seu poder sobre
O Sr. Harland não respondeu. Ao invés disso, voltou-se para mim mim e me forçado a ver o que ele tinha desejado que eu visse para
e perguntou: me confundir e me deixar perplexa. Se eu era verdadeiramente uma
“ Você se divertiu em Loch Coruisk, não é verdade?" estranha para ele. por que ele se daria a esse trabalho? Qual seria
“Foi incrível!" Respondí, com ênfase. "A paisagem é encantado­ sua intenção? Eu me sentia atormentada pela ansiedade e dividida
r a - inesquecível!” entre duas influências contrárias - uma que me compelia a me entre-

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gar ao profundo sentimento de felicidade, paz e consolo que infun­ Senti o rosto afoguear-se, mas fiz um esforço para parecer indife­
dia meu espírito como o toque de uma bênção verdadeiramente ce­ rente.
lestial —outra que me acuava contra uma parede de fatos e me fazia “ Você parece como alguém que passou por uma experiência muito
suspeitar dessa alegria como se fosse uma inimiga. agradável” , disse o Dr. Brayle olhando-me com os olhos apertados.
Aquela noite formamos um grupo estranho, à mesa do jantar. “ Quem sabe passei mesmo!” Respondí em voz baixa. “Garanto
Nunca cinco seres humanos mais insólitos se reuniram para con­ que foi um dia muito feliz!”
versar. Éramos totalmente opostos em todos os aspectos - em pen­ “Qual é sua opinião a respeito de Santoris?” Perguntou o Sr.
samentos, opiniões e sentimentos. Não pude deixar de me lembrar Harland bruscamente. “ Você passou algumas horas sozinha com ele,
da maravilhosa rede de linhas cintilantes que eu tinha visto em e deve ter formado uma opinião".
meu primeiro sonho, linhas que aparentavam ter sido calculadas Respondí de imediato, sem pensar.
matematicamente para se encontrarem em recíproca unidade. Por “Acho que ele é um homem excepcional” , disse eu. “ Bondoso,
ocasião daquele jantar, as linhas entre nós, aqueles cinco seres com um grande coração; imagino que ele tenha passado por muitas
humanos, eram um emaranhado quase invisível. Decidi refugiar-me experiências difíceis para chegar a ser como é ” .
no silêncio, e ouvi com um vago sentimento de surpresa o fluxo “ Discordo inteiramente de você", disse o Dr. Brayle. “Fiz uma
de conversa informal e sem sentido do Dr. Brayle, que parecia es­ avaliação dele e julgo que é bastante correta. Acredito que ele é um
tar querendo distrair Catherine, que, por sua parte, parecia estar pos­ charlatão muito esperto e sutil, que pretende ser um místico profun­
suída por um espírito de teimosia e forçada alegria que a levaram a do para assumir uma importância indevida.. . ”
dizer muitas coisas tolas, que ela obviamente considerava inteligen­ Houve um ruído surdo e inesperado. O Sr. Harland tinha batido
tes. Pouca coisa pode ser mais embaraçosa do que ouvir uma mulher na mesa com o punho fechado com tanta força que os copos tiniram.
madura se entregando infantilmente a uma conversa insípida, de­ "Não admito isso!” Disse ele asperamente. “ Eu lhe digo que não
monstrando não só uma grande falta de equilíbrio mental mas tam­ admito! Santoris não é um charlatão, nunca foi! Ele conseguiu di­
bém uma imensa falta de tato. Catherine tagarelava sem parar com o ploma e honras em Oxford como um homem de verdade! Sua con­
Dr. Brayle: o Sr. Harland contribuía com alguns monossílabos, vez duta durante o tempo em que o conheci foi perfeitamente ilibada e
por outra, mas a maior parte do tempo parecia estar preso numa teia franca. Ele nunca fez qualquer maldade e jamais se entregou a qual­
difusa de pensamentos, enquanto eu me mantinha calada a me­ quer procedimento baixo. Se alguns de nós, seus colegas, tínhamos
nos que alguém me dirigisse a palavra. Em certo momento notei os receio dele (e tínhamos) era porque ele fazia tudo melhor do que
olhos de Catherine fixos em mim com uma espécie de curiosidade nós, era superior a todos. Essa é a verdade! E não adianta querer
maliciosa. negá-la. Nenhum motivo é melhor do que a superioridade para insti­
“ Acho que o passeio de hoje lhe fez bem” , disse ela. “ Você está gar o ódio das mentes estreitas. Especialmente quando essa superio­
com ótima aparência!” ridade nunca é imposta, mas apenas sentida".
"Estou bem!” Respondí. “Como sempre estive” . “O senhor me surpreende” , murmurou Brayle. contrafeito. “Pen­
“ Sim, mas nunca se apresentou com a aparência que tem hoje” , sei. .
disse ela. “ Você parece transformada!” “ Não importa o que você pensou!” Disse o Sr. Harland com a ir­
“Transformada?” Ecoei, com um sorriso. “De que modo?” ritação repentina e violenta que por vezes o desfigurava. “ Seus pen­
O Sr. Harland se virou para mim e me examinou atentamente. samentos não têm a menor importância!”
“Mas não é que Catherine tem razão?” Disse ele. “Tem alguma O Dr. Brayle corou de raiva e Catherine demonstrou surpresa e
coisa diferente em você, embora eu não consiga explicar o que é!” visível indignação.

[ 176 ] [177]
“Papai! Como pode ser tão grosseiro!” O céu cor de violeta com sua lua branca e redonda pareceu girar
"Eu. grosseiro?” O Sr. Harland sacudiu os ombros com indife­ em volta de mim - sabendo que a verdadeira resposta de meu cora­
rença. “Talvez eu seja, mas jamais aceito a hospitalidade de um ho­ ção era amar, não gostar! Que o amor era o ímã que me atraía irre­
mem e depois me presto a ouvir insultos contra ele” . sistivelmente, a despeito de minha resistência, para alguma coisa que
“ Asseguro-lhe. . Começou o Dr. Brayle. em tom quase humil­ eu não podia compreender, nem sequer imaginar.
de. “Fico feliz com isso” , disse o Sr. Harland. "Eu ficaria preocupa­
"Vamos, vamos! Falei sem pensar e peço desculpas. Mas Santoris do se você tivesse algum preconceito ou antipatia por ele. Percebo
é um homem correto demais para merecer a suspeita de desonestida­ que Brayle o odeia e transmitiu a Catherine uma parte desse senti­
de ou chicanas - e exijo que ninguém neste barco pronuncie seu mento” .
nome sem ser com respeito” . Nesse ponto ele se voltou para mim. Permanecí em silêncio.
“ Quer subir até o convés antes de se recolher, ou prefere ir descan­ “Obviamente ele é um homem extraordinário” , continuou o Sr.
sar já?” Harland “e tende a ofender muitos e agradar poucos. Não é provável
Percebi que ele queria falar comigo e de boa vontade concordei que ele escape do destino comum às personalidades especiais. Mas
em acompanhá-lo. O jantar tinha terminado; saímos do salão e logo acho - na verdade posso afirmar que tenho certeza - que sua inte­
estávamos caminhando pelo convés, sob a luz muito clara do luar. gridade é inquestionável. Ele tem opiniões curiosas sobre amor e ca­
Instintivamente, nós dois olhamos para o "Sonho” que não estava samento, quase tão curiosas quanto as idéias fixas que tem sobre a
iluminado, a não ser pela lanterna usual no mastro e pelos pequenos vida e a morte” .
pontos brilhantes das escotilhas. Os graciosos mastros e velas pare­ "Que opiniões são essas?” perguntei, e vendo a expressão no
ciam desenhados a lápis, vistos daquele modo, contra o sopé desnu­ rosto de meu companheiro, iluminado pelo luar, vi que ele estava
do de uma montanha, transformada em prata pela claridade singular intrigado. “ Pouco convencionais, suponho?”
dos raios de luar. Meu anfitrião parou de andar e acendeu um cha­ "Convencionais! Convenção e Santoris são coisas mais distantes
ruto. entre si que os pólos! Não, ele não se encaixa em nenhum código
“Tenho certeza de que você está convencida da honestidade de social conhecido. Ele encara o casamento como um reconhecimento
Santoris” . disse ele. “ Não está?” tácito da inconstância do amor, e declara que se existisse paixão em
"De que modo podería eu duvidar dele?” Repliquei, evasiva­ sua forma mais verdadeira entre um homem e uma mulher, qualquer
mente. “ Eu mal o conheço!” tipo de laço formal ou legal seria desnecessário, pois o amor, se
Eu nem tinha acabado de falar quando fui tomada de arrependi­ é amor, não muda nem pode mudar. Mas não adianta discutir esse
mento. Como ousava eu dizer que mal conhecia alguém que era tão assunto com ele. O amor no qual ele acredita só pode existir, se
conhecido há tantas eras? Encostei-me na amurada, olhando para o existir, uma vez em mil anos! Os homens e as mulheres se casam por
céu violáceo, o coração disparado. Meu companheiro estava ocupa­ força da atração física, da conveniência, da necessidade ou da res­
do acendendo o charuto, mas quando afinal conseguiu, voltou ao peitabilidade. e o laço legal é necessário para ambos e pelo bem-es­
mesmo assunto. tar mundano dos filhos que tiveram; quanto ao amor que é ao mesmo
“ Certo! Você mal o conhece, mas é rápida em formar uma opi­ tempo físico e transcendental, um amor que deve durar por uma
nião e seus instintos estão frequentemente corretos, embora nem eternidade de progresso e fruição, esse é só um sonho, uma quimera!
sempre. Seja como for, você não desconfia dele? Você gosta dele?” E ele nutre sua mente com essa idéia, como se fosse um fato verda­
“ Sim” , respondi lentamente. “E u . . . eu gosto d ele.. . gosto deiro. Entretanto, é preciso ter paciência com ele —pois não é como
muito” . o resto das pessoas!”

[ 170] (179}
“Não!” Murmurei, e continuei silenciosa, parada ao lado dele ob­ “ Seria mesmo?” Ele soltou um pequeno suspiro. “ Tenho minhas
servando os raios de luar dançando na água, formando ondulantes dúvidas! Se eu pudesse ser jovem e forte, e viver muitas vidas sem­
correntes de brilho. pre dotado com a mesma juventude e foiça, então quem sabe.. . mas
“Quando o senhor se casou” , perguntei, finalmente, “ foi por ficar velho e enfermo, não! A lenda de Fausto é uma verdade eterna.
amor?” A vida só vale a pena ser vivida enquanto podemos gozá-la” .
Ele tirou uma baforada do charuto, pensativamente. “ Seu amigo Santoris o faz!” Disse eu.
“ Bem, não sei dizer” , replicou ele, depois de uma longa pau­ “Ah! Aí está a questão! Ele usufrui da vida porque é moço. Em­
sa. “Olhando para trás, duvido muito! Casei como a maioria dos bora seja quase tão velho quanto eu em anos, é realmente jovem!
homens casa - por impulso. Vi um rostinho bonito, e me pare­ Esse é o mistério dele! Santoris é positivamente moço - no coração,
ceu aconselhável casar, mas não posso afirmar que fui levado a no pensamento, nos sentimentos, e contudo..
isso por uma absorvente e grandiosa paixão pela mulher que es­ Ele se interrompeu por um momento, depois continuou:
colhí. ela foi encantadora e amável durante o tempo de namoro; “ Não sei como ele consegue isso, mas uma vez me disse que era
como esposa se tomou rabugenta e lamuriosa e pronta para ficar culpa do próprio homem se ele se permitia envelhecer. Ri dele na
emburrada; ela se dedicava quase inteiramente à rotina comum da ocasião, mas o fato é que ele transformou suas teorias em fato. San­
vida, mas eu não tinha motivos de queixas. Vivemos cinco anos toris costumava dizer que era a pessoa mesma ou seus amigos que a
juntos até Catherine nascer. Então ela morreu. Não posso dizer faziam envelhecer. “ Você pode verificar", dizia ele, “ à medida que
se sua vida ou sua morte deixaram alguma marca em mim —não for avançando em anos, que seus familiares, ou os que se dizem seus
se eu quiser ser honesto. Acho que não compreendo o amor, es­ melhores amigos, são os que mais insistirão em fazê-lo aceitar o far­
pecialmente o amor que Santoris considera a chave secreta do uni­ do da idade. Eles o farão lembrar que há vinte anos fez isso ou
verso". aquilo, ou que já o conhecem há trinta anos; ou então lhe dirão que,
Instintivamente meus olhos se voltaram para o “ Sonho” . Parecia considerando sua idade, você está ótimo, e mil outras coisas desse
um navio fantasma ao luar. Novamente o arrepio de frio percorreu tipo, como se fosse uma falha e até mesmo um crime continuar vivo
minhas veias como uma sensação de terror espiritual. Se eu perdesse depois de um certo tempo; mas se vocé simplesmente dispensasse
agora o que já tinha perdido antes! Esse era meu principal pensa­ essas atenções desnecessárias e seguisse seu caminho, tomando li­
mento, meu oculto medo. Estaría toda a responsabilidade comigo, vremente o que desejasse do constante fluxo de vida e energia for­
me perguntei? O Sr, Harland colocou a mão em meu braço, num necido pela Natureza, lograria todos esses arautos da fraqueza e da
gesto de gentil preocupação. decadência e renovaria suas forças vitais até o fim. Mas para isso é
“Você parece um espirito transparente, nesse luar” , disse ele, preciso ter um objetivo firme na vidae uma paixão dominante” . Como
“pálido e melancólico! Deve estar cansada e eu estou sendo egoísta, eu lhe disse, eu ri dele e do que me parecia ser sua “ loucura” , mas
prendendo-a aqui para conversar comigo. Vá para o seu camarote. agora.. . bem. . . é bem o caso de rir melhor quem ri por último” .
Posso perceber que sua mente está cheia de sonhos místicos, e des­ “ E o senhor acha que é o caso dele?” Perguntei.
confio que Santoris a ajudou a lhes dar corda. Em muitas coisas ele “Certamente, não posso negar isso. Mas o segredo dessa vitória
tem a mesma natureza que você, inclinada a acreditar que a vida que está além de minha compreensão.”
vivemos hoje é só uma fase de muitas vidas passadas e ainda por “ Eu dina que está além da compreensão da maioria das pessoas” ,
acontecer. Gostaria de poder aceitar essa crença!” repliquei. “ Se todos nós pudéssemos nos manter jovens e vigorosos
“ Gostaria que o senhor pudesse!” Disse eu. “Com certeza seria faríamos tudo que estivesse ao nosso alcance para alcançar essa feli­
mais feliz” . cidade. . .”

[180] M81]
“Será que faríamos?” As sobrancelhas dele se franziram de leve. cida e subespiritual izada! Quão poucos existirão que encontraram ao
“ Se assim fosse, será que faríamos os necessários esforços? Nem menos a compreensão inicial da natureza do verdadeiro amor, “ o
sempre obedecemos as ordens de nosso médico mesmo quando es­ amor da alma pela alma, do anjo pelo anjo, de um deus por outro
tamos realmente doentes - será que com saúde seguiriamos algum deus". O amor que aceita este mundo e seus eventos como apenas
código especial de vida para nos mantermos em bom estado?” uma fase da existência divina e imortal - uma fase de provas e tri­
“Talvez não” , disse eu. rindo. “ Acho que será sempre a mesma butações em que a maioria é reprovada logo no primeiro exame!
coisa: “ muitos são os chamados, poucos os escolhidos". Boa noite!” Quanto a mim. eu sentia e sabia que tinha fracassado irremediavel­
Estendí a mão. Ele a tomou, mantendo-a por um momento na mente no passado - e agora estava diante de novas circunstâncias,
sua. com medo. sem grandes esperanças, rezando para que eu não fracas­
“É curioso que tenhamos encontrado Santoris logo depois de eu sasse novamente se uma oportunidade me fosse dada!
ter lhe contado a respeito dele” . Disse ele. “ Foi uma daquelas coin­
cidências que não podem ser explicadas. Você é muito parecida com
ele em algumas de suas idéias - acho que deveríam se tomar grandes
amigos”.
“Deveriamos?” Perguntei com um sorriso. “ Quem sabe? Boa
noite, mais uma vez” .
“ Boa noite!”
Deixei-o com os seus pensamentos e descí para o camarote, só me
detendo por alguns instantes para dar boa noite a Catherine e ao Dr.
Brayle, que estava jogando bridge com o Sr. Swinton e o capitão
Derrick. Chegando em meu quarto, Fiquei feliz por estar só. Cada
coisa de fora parecia uma intromissão ou impertinência. Os pensa­
mentos que enchiam minha mente eram muito absorventes, iam tão
além do escopo imediato do tempo e do espaço que me era difícil
acompanhar seu vôo. Sorri ao imaginar o que diríam as pessoas co­
muns sobre a experiência pela qual eu havia passado àquela tarde.
“ Fantasias tolas!” “ Loucura neurótica!” E outros epítetos desse tipo
me seriam imputados se elas soubessem - elas, as excelentes pessoas
cujos objetivos de vida eram tão efêmeros, voltados para as coisas
do momento, da hora, do dia ou mês apenas, e que, caso parassem
para considerar as possibilidades do eterno, talvez só o fizessem
com relutância no domingo durante a cerimônia religiosa na igreja,
deixando-a de lado sem problemas, para se preocupar com o assunto
mais importante do almoço logo depois. E quanto ao amor? Que vi­
são têm elas dessa divina paixão, em geral? Que respondam os mi­
lhões de casamentos errados! Que testemunhem sobre isso os dese­
jos selvagens, as traições e crueldades da humanidade embrute-

(182] [183]
X

ESTRANHAS ASSOCIAÇÕES

No dia seguinte, a corrida de iates aconteceu na mais calma das


águas. Não havia o menor sopro de brisa - o mar estava parado,
quase oleoso em sua brilhosa imobilidade. Estava bem claro, no iní­
cio, que nosso capitão não tinha qualquer dúvida de que o “ Diana”
com seus poderosos motores, batería facilmente a escuna “Sonho” ,
que ao meio-dia, com todas as velas erguidas, veio deslisando até fi­
car lado a lado com nosso barco, mostrando medidas quase idênticas
às de nosso desajeitado iate. O Sr. Harland estava muito animado; o
Dr. Brayle estava disposto a aceitar qualquer aposta sobre a impos­
sibilidade de qualquer navio a vela, mesmo movido a eletricidade,
poder correr mais que um barco a vapor, em águas tão calmas.
Enquanto os dois barcos se mantiveram lado a lado, o “ Diana” ,
ocupado em fazer as caldeiras produzirem o máximo de vapor, e o
“Sonho” com as velas enfunadas como se estivesse diante de uma
forte brisa apesar de não haver nenhuma, ficamos discutindo anima­
damente a situação; melhor dizendo, meu anfitrião e sua tripulação a
discutiam, pois eu nada tinha a dizer, certa de que a vitória seria de
Santoris. Estávamos em águas muito solitárias e havia espaço mais
do que suficiente para uma grande competição. Quando todos esta­
vam preparados e Santoris fez uma saudação de seu iate levantando
o boné, recebendo o mesmo tipo de resposta do Sr. Harland e seu
capitão, foi dado o sinal de partida. Os dois barcos partiram ao
mesmo tempo, e por meia hora ou mais o “Sonho" moveu-se para a
frente com preguiçosa calma, mantendo-se facilmente a par do
“Diana” , com as velas enfunadas e a quilha cortando as águas como
se estivesse sendo impelido por um vento favorável. O resultado da
corrida logo se tomou evidente, pois. quando o “ Sonho" se viu no
tranquilo espelho do mar aberto, demonstrou seus poderes secretos

[185]
com toda força e voou como um pássaro, com uma silenciosa rapi­ “Nunca!” Respondí apressadamente, e então me contive, surpresa
dez que era quase inacreditável. Nosso iate fez uso de todo o seu e confusa. Ele manteve os olhos castanhos e estreitos em mim e sor­
vapor no esforço de acompanhar o “ Sonho” , mas sem êxito. Com riu levemente.
graça e leveza, as velas brancas do “ Sonho” o impeliram como se “ Realmente? Eu diría o contrário!”
estivesse nas asas de uma gaivota, e quase sem que pudéssemos per­ Não me dei ao trabalho de responder. As velas brancas do “ So­
ceber tinha desaparecido de vista! Vi a água agitar-se e formar um nho” estavam se aproximando cada vez mais na vastidão de água
amplo círculo de cristal que refletia o céu: uma sensação de desola­ batida de Sol, e meu coração se sentiu tomado de gratidão. A vida
ção me envolveu pelo simples fato de que tínhamos ficado sozinhos era novamente um deleite! O mundo não estava mais vazio! Aquela
no mar. Nosso iate continuou a correr na direção do “ Sonho” que escuna era para mim como um espírito alado vindo em minha dire­
havia sumido, seus movimentos fazendo lembrar os de um desajeita­ ção com radiosas afirmações de esperança e consolo: perdi todo o
do animal de quatro patas correndo atrás de uma ave, sem conseguir medo, toda a tristeza e todas as impressões sombrias quando ela
chegar perto dela. chegou e parou ao lado de nosso iate após seu fácil triunfo. Nossa
“ Maravilhoso!" Disse o Sr. Harland, finalmente, inspirando pro­ tripulação se reuniu para lhe dar as boas vindas com uma ovação
fundamente. “Eu nunca podería imaginar que fosse possível!” entusiasmada. Santoris, de pé no convés, recebeu as saudações que
“Nem eu” , concordou o capitão Derrick. “Pensei que ele nunca confirmavam sua vitória, e logo depois os dois barcos estavam de
conseguiría esse resultado num mar tão calmo. Mesmo tendo visto volta ao seu local anterior de ancoragem. Quando a excitação da
parte de seus mecanismos não os compreendí realmente” . corrida acabou, desci ao camarote para descansar um pouco antes de
O Dr. Brayle estava calado. Obviamente ele estava aborrecido, me vestir para o jantar a bordo do “ Sonho” , a convite de Santoris.
embora a causa disso não fosse aparente. Eu mesma me sentia toma­ Sentei-me no sofá para ler um pouco quando Catherine Harland ba­
da por uma secreta ansiedade, pois o súbito desaparecimento do teu à minha porta, pedindo licença para entrar. Abri a porta ¡media­
“Sonho” me tinha causado uma triste sensação de solidão, impossí­ tamente, e ela se atirou numa poltrona com um gesto de impaciência.
vel de expressar. E se ele nunca voltasse? Eu não tinha idéia de on­ “Estou tão cansada com toda essa história de iates!” Disse ela
de ele estava, e se perdesse Santoris eu sabia que perdería tudo que petulantemente. “ Não acho nada divertido!”
era valioso em minha vida. Enquanto eu me entregava a esses deso­ “Sinto muito!” Respondi. “ Se não é de seu agrado, por que não
lados pensamentos, vi um lampejo de velas brancas no horizonte. desiste já?”
“Ele estã voltando!” Gritei alegremente, sem pensar no que dizia. “ Ah, é um capricho de papai!” Disse ela. “Se ele resolve uma
“Graças a Deus! Ele está voltando!” coisa não há o que o faça mudar de idéia. Mas uma coisa estou de­
Todos me olharam com espanto. terminada a fazer, e essa coisa é. . .” Nesse ponto ela parou de falar,
“Ora, ora, o que se passa com você?” Perguntou o Sr. Harland olhando para mim com curiosidade.
com um sorriso. “ Você não imaginou que o iate estivesse em peri­ Devolví o olhar dela interrogativamente.
go?” “E o q u e é ? ”
Senti o rubor subir ao meu rosto. “Ir para o mais longe possível desse terrível iate “ Sonho” e seu
“Eu não sabia. . . não imaginei. . . ” Gaguejei. Voltando-me para proprietário!” Replicou ela. “ Aquele homem é um demônio!”
o lado. vi os olhos do Dr. Brayle fixos em mim com um brilho de Tive que rir, não pude me conter. O julgamento que ela havia
malícia. feito de alguém tão superior quanto Santoris me pareceu mais engra­
“Tenho certeza” , disse ele suavemente, “de que você está muito çado do que censurável. Estou acostumada a ouvir o apressado e
interessada no Sr. Santoris! Talvez até tenham se encontrado antes” . mesquinho veredito de pessoas de mente estreita e pouco inteligen-

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tes a respeito de homens e mulheres de grande capacidade e mente Eu tinha permanecido de pé diante dela, enquanto ela falava, e
evoluída; o fato de Catherine mostrar que não estava acima do nível nesse ponto voltei à minha atitude de descanso, reclinando-me no
comum à maioria não me ofendeu, antes me divertiu. Minha risada,
sofá. Olhei para ela com um pouco de desdém.
entretanto, a deixou zangada. “O Dr. Brayle acha isso!” Repeti. “ A opinião do Dr. Brayle é a
“ Por que você está rindo?” Perguntou ela. “ Você está com um ar que menos vale neste mundo! Se você acredita em demônios, esse é
muito pagão nessa roupa de renda - acho que é o que chamam de um deles!”
negligê! E esse cabelo caindo solto! Essa sua risada também é pa- “Como pode dizer uma coisa dessas?” Exclamou ela furiosa­
gã!" mente. “ Que direito tem você.. . ”
Fiquei tão surpresa com essa estranha maneira de falar que por “Que direito tem ele de me chamar atéia?” Perguntei. “ Que di­
um momento fiquei sem palavras. Ela me olhou com um ar duro de reito tem ele de me julgar?”
desfavor nos olhos. O ruboT desapareceu do rosto dela, e seus olhos se encheram de
“É por isso que você acha a vida agradável” , continuou ela. “Os súbito medo.
pagãos eram assim. Divertiam-se ao ar livre, sob o Sol, e encontra­ “ Não me olhe desse jeito!" Exclamou ela, num quase sussurro.
vam todo tipo de desculpas para suas próprias faltas, desde que elas “Faz lembrar um sonho horrível que tive uma noite dessas” . Ela fez
lhes dessem algum prazer. Esse é bem o seu temperamento! Eles uma pausa. “ Quer ouvir como foi?”
também costumavam rir das coisas sérias —como você faz!” Acenei indiferentemente, mas observei-a com curiosidade. Algu­
O espelho me mostrou o reflexo de minha imagem, e vi que eu ma coisa em seu rosto comum e severo tinha se tomado desagrada­
continuava sorrindo. velmente familiar, de um momento para outro.
“Será que rio de coisas sérias?” Perguntei. “Cara Catherine, se o “ Sonhei que estava no ateliê de um pintor vendo duas pessoas
faço nunca notei! Mas não posso levar a sério a idéia do Sr. Santoris morrerem assassinadas - um homem e uma mulher. O homem era pa­
ser um demônio!” recido com Santoris e a mulher se parecia com você! Os dois tinham
“Pois ele é!” Ela acenou enfaticamente com a cabeça. “ E todas sido apunhalados e a mulher estava agarrada ao corpo do morto. O
as esquisitas crenças que ele professa —e que você também professa, Dr. Brayle também estava ali, ao meu lado, olhando; o local me era
são diabólicas! Se você pertencesse à Igreja Romana não teria per­ estranho e as roupas que usãvamos eram de um tempo bem antigo.
missão para se entregar a teorias tão maléficas por um só momento!" Eu disse ao Dr. Brayle: “ nós os matamos!” E ele respondeu: “ sim!
“ Ah! A Igreja Católica não controla o pensamento, felizmente!” Eles estão melhor mortos do que vivos” . Foi um sonho horrível! Pa­
Disse eu. “ Nem mesmo os pensamentos de seus adeptos! Além dis­ recia tão real! Desde então passei a ter medo de você e daquele ho­
so, algumas crenças dessa Igreja são mais blasfemas e bárbaras que mem Santoris!”
as de todo o paganismo do mundo antigo! Diga-me, quais são essas Por alguns momentos não consegui falar. Uma lembrança veio ã
minhas teorias maléficas?” minha mente que eu não ousaria vocalizar, por parecer improvável
“Ora. não sei!** Respondeu ela, de maneira vaga e inconsequente. demais.
“Você acredita que não existe morte —acredita que somos nós que “Tive uma crise nervosa” , continuou ela, estremecendo, “ por is­
fazemos nossas próprias doenças e desgraças - e ouvi você dizer so estou tão cansada deste cruzeiro. Está se transformando num pe­
que a idéia da Punição Eterna é absurda. De certo modo, você é tão sadelo para mim!”
ruim quanto meu pai, que declara nada haver no Universo a não ser Recostei-me no sofá olhando para ela com certa piedade.
gás e átomos, sem Deus nem nada. Você é tão atéia quanto ele. O “ Então por que não põe um fim nele?” Perguntei. “ Ou então me
Dr. Brayle acha isso” . permite ir embora? Fui eu quem a desagradou de alguma fornia, e

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asseguro-lhe que sinto muito! Você e o Sr. Harland foram muito mente para o meu rosto. “Como você pode imaginar uma coisa des­
gentis comigo - estou hospedada com vocês faz quinze dias já - é só sas?”
me deixar num porto qualquer e irei para casa, saindo de seu cami­ “Tem certeza?” Perguntou ela muito baixinho. “Quando eu a
nho. Acha que essa seria uma boa solução para você?” chamei “ pagã” agora há pouco, me veio a lembrança tênue de uma
“ Não sei se seria” , disse ela com um pequeno e queixoso suspiro. mulher loura como você - uma mulher que eu devo ter conhecido e
“ As coisas estão acontecendo de forma tão estranha.. .” Ela se ca­ que era mesmo pagã! Só não sei como e onde a conheci - uma mu­
lou e Ficou me olhando. “Sim! Você tem o rosto da mulher que vi no lher que. por uma oú outra razão, me era odiosa porque eu tinha
sonho! E você sempre me fez lembrar de. . ciúmes dela! Essas curiosas fantasias só começaram a me perseguir
Aguardei ansiosa. Ela parecia estar.com medo de continuar. depois que Santoris veio aqui em nosso iate. Eu disse ao Dr. Brayle
“Bem!” Disse eu, tão calmamente quanto possível. “Termine de exatamente o que senti” .
falar!” “E o que ele disse?”
“ Essa impressão remonta ã primeira vez em que a vi", continuou “Disse que tudo isso era obra de Santoris, que evidentemente era
ela, agora falando depressa como se quisesse se livrar do assunto. um mestre da impostura psíquica.. . ”
‘Talvez você nem se lembre daquela ocasião. Foi naquele grande Fiquei de pé abruptamente.
“acontecimento" social e artístico em Londres onde havia aquela “ Ele que venha me dizer isso!” Exclamei. “ Ele que se atreva a
multidão de pessoas, tantas que algumas não conseguiram sequer vir me dizer tal coisa! Provarei quem é o impostor na hora!”
chegar ao pé da escadaria. Alguém me apontou você como sendo Ela se afastou de mim com os othos arregalados de susto.
uma “ psiquista” e enquanto eu escutava essas palavras meu pai che­ “ Por que você me olhou desse jeito?” Perguntou ela. “ Nós não a
gou com você pelo braço e nos apresentou. Quando a vi achei que matamos realmente, só no sonho!”
;uas feições me eram um pouco familiares. Eu não consegui dizer Um súbito silêncio se fez entre nós; alguma coisa fria e impalpã-
onde a tinha encontrado antes e fiquei ansiosa para vé-la mais vezes. vel pareceu tomar conta do próprio ar. Se, por algum meio sobrena­
tural, tivéssemos sido momentaneamente privadas de vida e movi­
Na verdade, você me parecia perfeitamente fascinante! Essa fascina­
ção continua - só que isso me aterroriza!” mento, e uma vasta nuvem escura e pesada de chuva se imiscuisse
lentamente entre nós. a sensação de frio e depressão não teria sido
Eu nada disse.
mais intensa.
“Na outra noite” , continuou Catherine, “quando o Sr. Santoris
Depois de algum tempo Catherine voltou a falar, com um risinho
veio nos visitar, tive a singular impressão de que ele era ou teria si­
forçado.
do um inimigo meu, mas onde e como eu não sabería dizer. Foi isso
“Que coisas bobas eu digo! Você pode verificar por si mesma
que me assustou e me deixou nervosa e doente demais para partici­
que meus nervos estão em péssimo estado! Estou totalmente dese­
par da excursão a Loch Coruisk. E desejo me afastar dele! Nunca ti­
quilibrada!”
ve esse tipo de impressão antes, e mesmo agora, olhando para você, Fiquei olhando para ela por alguns momentos, considerando a si­
sinto que há alguma coisa “ fatídica” que me perturba! Oh, sei que tuação de perplexidade em que parecíamos estar ambas envolvidas.
você não me deseja qualquer mal - é inteligente, amãvel, adaptável “Se você preferir não ir jantar com o Sr. Santoris esta noite” , dis­
e tudo mais, m as.. . tenho medo de você!” se eu, finalmente, “e se acha que a presença dele lhe causa mal, va­
“ Pobre Catherine!” Disse eu, gentilmente. “ Essas são idéias mos arranjar uma desculpa para você não ir. Se quiser, ficarei lhe
provindas dos nervos abalados! Não há nada a temer de mim, nada!” fazendo companhia” .
Nesse momento ela se inclinou e pegou minha mão, olhando grave­ Ela me olhou com surpresa.

[ 190 ] [ 191 ]
“ Você é muito generosa” , disse ela, “e eu gostaria que não fôs­ instintiva percepção de que eu era tão importante para ele quanto ele
semos tão imaginativas. É muito gentil de sua parte oferecer-se para para mim.
ficar comigo e desistir de uma diversão - suponho que seria um pra­ Estava uma noite quente e quase opressiva, e pude deixar de lado
zer esse jantar, não? Você aprecia o Sr. Santoris?” meu vestido de sarja e usar outro de macia seda indiana, mais fresco
O sangue subiu ao meu rosto difundindo uma sensação de calor e apresentável para um jantar a bordo de um iate mobiliado com
em minhas faces. tanto luxo quanto o “ Sonho” . Meu ramalhete de flores de urze ainda
“ Sim” , respondí, virando-me ligeiramente para o outro lado. estava fresco e com as cores vivas no copo onde eu o tinha deixado
“Gosto muito dele” . - mas quando o peguei, desfez-se em pó cinza entre meus dedos.
“ E ele gosta mais de você do que qualquer outro de nós” , disse Essa súbita destruição do que até então me parecera indestrutível me
ela. “ Na verdade, acho que se. não fosse por você nós não o teña­ espantou por alguns segundos, até eu começar a pensar que afinal de
mos encontrado daquela maneira tão estranha. . contas o ramalhete havia cumprido sua finalidade - sua mensagem
“ Ora, como você chegou a essa conclusão” , perguntei sorrindo. tinha sido entregue - sua tarefa completada. Todos os lírios que
“Eu nunca tinha ouvido falar dele até que o seu pai tocou no as­ Santoris tinha me dado estavam frescos como se tivessem acabado
sunto, e nunca o tinha visto a té .. de ser colhidos; escolhí um lúio desabrochado com um botão ao la­
“Até quando?” Perguntou ela ansiosamente, examinando meu do para servir como meu único ornamento. Quando me reuní com
rosto com ar de interrogação. meu anfitrião e seus companheiros no salão ele me olhou com aguda
“ Até aquela noite da visita” , respondí, com certa hesitação. curiosidade.
"Pensei que você ia dizer que, tal como eu, tivesse tido uma idéia “ Não consigo compreendê-la exatamente” , disse ele. “ Você pa­
ou lembrança de tê-lo visto antes” , disse ela. "Não, não vou lhe pe­ rece vários anos mais jovem do que parecia quando subiu a bordo
dir que sacrifique o serão por mim; na verdade, decidi ir ao jantar, em Rothesay! Será o ar marinho, o Sol, o u .. . Santoris?”
apesar do Dr. Brayle ser contra". “ Santoris!” Repeti, rindo. “Como podería ser Santoris?”
“ Oh, o Dr. Brayle é contra!” Ecoei. “E por quê?” “Bem, ele consegue manter-se jovem” , respondeu o Sr. Harland.
"Bem, ele julga que não será bom para mim e . . . e . . . ele não “Talvez saiba fazer os outros parecerem jovens também. Quem pode
tolera olhar para Santoris!" saber até onde vão seus poderes?”
Eu nada disse. Ela se levantou, pronta para sair dali. “Um prestidigitador!” Observou secamente o Dr. Brayle. “Fausto
“ Por favor, não pense mal de mim!” Disse ela com ar suplicante. deveria tê-lo consultado ao invés de Mefistófeles!”
“Eu lhe contei francamente o que sinto, e você pode imaginar o “ A história de “ Fausto** é uma lenda, mas é absurda pelo fato do
quanto ficarei contente quando este cruzeiro terminar” . velho filósofo ter vendido a alma ao diabo apenas pelo amor de uma
Ela saiu então, e eu fiquei alguns minutos perdida em meus pen­ mulher", disse o Sr. Harland. “ A alegria, a sensação e a paixão do
samentos. Não ousei ir mais fundo na análise das lembranças com as amor eram. para ele. a suprema tentação e a única satisfação na ter­
quais ela tinha se ligado, em minha mente. Minha idéia principal ra” .
agora era encontrar um meio conveniente de concluir minha estada Os olhos do Dr. Brayle brilharam.
com os Harlands imediatamente, deixando o iate em algum porto de “ Mas isso, afinal de contas, não é uma verdade?” Perguntou ele.
onde pudesse partir sem dificuldade para casa. Resolví falar com “Existe outra coisa que domine mais completamente a vida de um
Santoris a esse respeito e deixar por conta dele um meio de não nos homem que o amor por uma mulher? Raramente se trata da mulher
perdermos de vista, pois eu sentia que isso era imperativo. Meu espí­ certa, mas sempre é uma mulher. Tudo de bom ou mau que já foi
rito elevou-se dentro de mim, cheio de alegria e orgulho diante da feito no mundo tem uma ligação com a influência das mulheres so­

[192] M93]
bre os homens. Algumas vezes são as esposas que os fazem modifi­ “ Conhece o seu camarote? É o mesmo que vocé ocupou ontem
car suas ações, mas mais frequentemente são as amantes. Reis e im­ à tarde.”
peradores estão tão sujeitos a essa fraqueza universal quanto os ple­ Obedecí seu gesto e entrei no apartamento tão primorosamente
beus - basta estudarmos História para vermos a prova disso. Que planejado e mobiliado que ele tinha dito se destinar a uma “ prince­
mais podería Fausto desejar al£m do amor?” sa” . Fechei a porta e sentei um pouco para pensar em silêncio. Esta­
"Bem, para mim o amor é um engano” , disse o Sr. Harland, jo­ va claro que as coisas estavam se precipitando para uma espécie de
gando descuidadamente o casaco nas costas. “Concordo com a má­ crise existencial, modelando um destino que eu tena que aceitar ou
xima de Byron: “ quem ama. delira!” Naturalmente, o amor devería recusar. Conforme me parecia, a ação decisiva dependería total­
ser a paixão ideal - mas nunca o é. Vamos? Estão todos prontos?” mente de mim. Se quisesse evitar qualquer problema, bastaria que eu
Diante da resposta afirmativa, saímos imediatamente em nos­ me mantivesse em silêncio e seguisse meu caminho, voltando para
sa própria lancha. Nosso grupo incluía o Sr. Harland, Catheríne, casa e para a rotina segura, ainda que tediosa, de meu trabalho e
eu, o Dr, Brayle e o Sr. Swinton; com companheiros tão desti­ estudo. Por outro lado. aceitar a nascente alegria que parecia estar
tuídos de brilho, imaginei que seria difícil, talvez até impossí­ sendo derramada sobre mim como se fosse uma luz vinda do Céu,
vel, passar alguns momentos a sós com Santoris, para lhe contar mi­ seria entrar no Desconhecido, crer absolutamente nos impulsos espi­
nha decisão de deixar meu anfitrião e sua filha o mais breve possí­ rituais secretos de minha própria natureza, e entregar-me totalmente
vel. De qualquer forma, eu estava decidida a me esforçar para e com toda a vontade a um amor que sugeria todas as coisas mas que
transmitir esse fato a Santoris na primeira oportunidade que se apre­ nada prometia! Tomada pelos mais conflitantes pensamentos, andei
sentasse. de um lado para outro da saleta, lentamente - o grande espelho re­
Fizemos a curta viagem entre o “Diana” e o “Sonho” à luz de fletiu meu corpo e meu rosto, mostrando-me o retrato surpreenden­
um magnífico pôr-de-Sol. Loch Scavaig era uma grande fogueira de temente fiel da mulher que eu havia visto na série de visões - a mu­
cores e o céu estava tingido de rosa vivo, com listras azul pálido e lher que, séculos atrás, havia lutado contra as convenções e os cos­
ouro. Santoris estava nos aguardando no convés, junto com seu ca­ tumes. apenas para ser facilmente dominada por eles de mil maneiras
pitão e um ou dois membros mais importantes da tripulação, mas o - a mulher que havia matado o amor, e o vira erguer-se de novo para
que mais me atraiu a atenção, naquele momento, foi um rapazinho confrontá-la com os olhos imortais da eterna lembrança - a mulher
moreno de uns doze ou treze anos, usando roupas orientais, com um que, finalmente, se havia afogado por amor num oceano de furia e
cesto cheio de pétalas de rosas de cor carmesim e branca, que ele convulsão e ajoelharam-se diante do portal trancado do Céu, supli­
jogou graciosamente aos nossos pés assim que pisamos no convés. cando para entrar! Em minha mente, ouvi de novo as palavras pro­
Por acaso eu tinha sido a primeira a subir a escadinha, de modo que nunciadas pela doce e solene Voz que me falara no meu primeiro
me pareceu que as fragrantés pétalas tinham sido atiradas especial­ sonho:
mente para que eu as pisasse, mas mesmo que a intenção tivesse sido “ Uma rosa provinda de todas as rosas do Céu! Uma só - imortal,
essa, a cerimônia parecia ter sido planejada para todo o grupo de sempre cheia de vida - uma só. mas suficiente para todos! Um amor
convidados. Santoris nos saudou com a amabilidade que sempre dis­ provindo dos milhões de .amores de homens e mulheres - uma só,
tinguía seu comportamento; foi ele quem conduziu a Srta. Harland mas suficiente para a Eternidade! Quanto tempo esperou a rosa para
até um dos camarotes, para que ela tirasse os numerosos e desneces­ desabrochar - quanto tempo esperou o amor para ser cumprido —só
sários agasalhos com que invariavelmente se envolvia mesmo nos os anjos dos Registros o sabem! Essas rosas só florescem uma vez
dias mais quentes. Eu os acompanhei e ele se voltou para mim com na vastidão do espaço e do tempo; um amor assim só chega uma vez
um sorriso, dizendo: num Universo de mundos!”

[ 194] [ 195]
Então me lembrei da ordem final: “ levanta-te e anda! Guarda o mum, com fios de ouro na trama do tecido, e uma gola de renda vi­
dom que Deus te envia! Toma o que é teu! Vai ao encontro do que rada no pescoço, dando-lhe um ar de pintura italiana antiga —uma
vem te procurando com sofrimento por muitos séculos! Não lhe espécie de “Retrato de uma Senhora-Artista desconhecido” . Não era
voltes as costas de novo, nem por tua vontade nem pela vontade de um retrato muito bonito, digamos, mas característico de um certo ti­
outros, para que não prevaleçam os erros passados. Passa da visão à po de mulher sem brilho e autocentrada. Logo estávamos sentados à
vigília! Da noite para o dia! Da aparente morte para a vida! Da soli­ mesa - arrumada com riqueza e graça ao mesmo tempo e adornada
dão para o amor! E guarda em teu coração a mensagem de um so­ com custosas flores e frutos. Os homens que nos serviam eram todos
nho!” orientais, de olhos escuros e pele morena, com roupas de estilo
Ousaria eu confiar nessas sugestões que os profanos chamariam oriental - os movimentos deles eram rápidos e ao mesmo tempo gra­
mera imaginação? Uma profunda filosofía dos últimos tempos havia ciosos e cheios de dignidade - eles não faziam qualquer barulho -
definido a imaginação como “ uma percepção avançada da verdade” , não se ouvia o tinir de um prato ou de um copo. Eram serviçais per­
e afirmara que as descobertas do futuro sempre podem ser preditas feitos. que evitavam o método comum mas repreensível de oferecer
pelo poeta e pelo vidente, cujas mentes receptivas são as primeiras a os pratos a pessoas que estivessem conversando, interrompendo,
captar as premonições das mais elevadas emissões do pensamento de portanto, o fluxo da conversação em momentos inoportunos. E que
Deus. Seja como for, minha experiência pessoal de vida havia me conversação estava ocorrendo! Todos os tipos de assuntos, sociais e
ensinado que o que as pessoas acreditam ser real, é frequentemente impessoais, foram discutidos, e Santoris lidou com eles com tanta
irreal - enquanto que os impulsos da alma. que praticamente são im­ habilidade que nos fez esquecer que havia alguma coisa insólita a
possíveis de expressar, apontam para as mais elevadas realidades da respeito dele ou de seu ambiente, isso embora o banquete que estava
existência. Decidi então deixar as coisas seguirem seu curso natural, sendo servido superasse qualquer outro que pudesse ser servido no
embora estivesse absolutamente resolvida a deixar os Harlands den­ mais luxuoso dos palácios. Na metade da refeição, quando a conver­
tro de dois ou três dias. Era minha intenção pedir ao Sr. Harland que sa parou por alguns momentos, fomos brindados com a mais encan­
me deixasse em Portree, onde eu tomaria o vapor para Glasgow, tadora das melodias, que começou baixinho e muito longe, depois
qualquer desculpa serviría para minha precipitada partida, pois eu foi crescendo até alcançar ricas e gloriosas harmonias, como se uma
agora sentia que era necessário partir. orquestra tocasse sob as águas do mar. Olhamos um para o outro e
Um som suave de sineta penetrou em meus ouvidos, anunciando o depois para nosso anfitrião, com encantada curiosidade.
jantar. Deixando o apartamento da “ princesa” , fui ao encontro de “ Eletricidade, mais uma vez!" Disse ele. “ É de manejo tão sim­
Santoris que estava na entrada do salão. No momento não havia ples que não merece comentários! Infelizmente, trata-se de música
mais ninguém ali além de mim: quando me aproximei de Santoris, mecânica, que não poderá jamais superar a música que se desenvol­
ele tomou minhas mãos nas suas e as levou aos lábios. ve a partir da mente e dos dedos; entretanto, serve para preencher as
“ Você ainda não tomou a decisão!” Disse ele em voz baixa, sor­ pausas, os silêncios, quando as mentes convencionais estão desejan­
rindo. “ Leve todo o tempo que for necessário!” do algo - digamos - algo “seguro" e incapaz de provocar uma dis­
Olhei para ele e todas as dúvidas pareceram se dissipar à luz de cussão!"
nossos olhares. Sorri em resposta e soltamos rapidamente as mãos Seus brilhantes olhos azuis lampejaram com um certo desdém.
quando o Sr. Harland, com o médico e o secretário, desceram do Olhei para ele, meio interrogativamente, e o desdém se transformou
convés; Catherine se juntou a nós vinda do camarote onde havia se em sorriso.
desembaraçado de seus agasalhos de inválida. Ela estava mais ele­ “Não é de bom tom começar qualquer assunto que possa levar a
gante que o usual, usando um vestido de tom púrpura bastante inco- uma discussão” , continuou ele. “ O cérebro moderno não deve ser

[196] M97]
forçado demais, pois não é forte o suficiente para suportar grandes Catherine olhou para ele, espantada, e seu rosto amarelado ficou
tensões. O que você acha, Harland?” muito vermelho.
“Concordo” , respondeu o Sr. Harland. “Em geral, as pessoas que "Não sei” , respondeu ela, “eu mal ouvi.
jantam tão bem quanto nós estamos jantando esta noite, não têm es­ “ Seu pai não acredita no amor” , disse ele. “ Você acredita?”
paço para a mente! Transformam-se em pura digestão!” “ Espero que exista", murmurou ela. “ Mas hoje em dia as pessoas
O Dr. Brayle riu. são tão práticas. . .”
“Nada como um bom jantar quando estamos com apetite. Acho “ Acredite, elas não são mais práticas hoje em dia do que o foram
impossível que Fausto abandonasse sua Margaret por uma boa refei­ sempre!” Afirmou Santoris. rindo. “ Existe tanto romantismo no
ção!” mundo moderno quanto havia no antigo; o coração humano tem as
“Tenho certeza que ele o faria” , disse o Sr. Swinton. “ Qualquer mesmas paixões, apenas elas são mais reprimidas, o que as toma
homem o faria!" mais perigosas. O amor continua a ter a mesma força - o ciúme tam­
Santoris olhou para seus convidados com um estranho ar de semi- bém” .
divertida inspeção. Seus olhos claros e perscrutadotes abrangeram O Dr. Brayle levantou os olhos da mesa.
todo o grupo: o Sr. Harland degustando os suculentos aspargos: o “O ciúme é uma coisa muito incivilizada", disse ele. “ É uma es­
Dr. Brayle tomando champanhe; o Sr. Swinton se servindo de uma pécie de paixão primitiva que não deveria afetar nenhuma mente
travessa de aparência deliciosa apresentada por um dos serviçais; bem organizada” .
Catherine brincando com o garfo e a faca, de um modo afetado e Santoris sorriu.
próprio das solteironas, como se estivesse comendo contra a vonta­ “ As paixões primitivas continuam poderosas como sempre” , res­
de; finalmente seus olhos pousaram em mim, para quem aquele jan­ pondeu ele. “Nenhuma cultura conseguiu eliminá-las. O ciúme, co­
tar era apenas um belo desfile de luxo no qual eu quase não tomava mo o amor, é um dos poderes motivadores do progresso. E um gran­
parte alguma. de mal. mas um mal necessário, tão necessário quanto a guerra. Sem
“Bem, não sei o que Fausto faria ou deixaria de fazer” , disse ele algum tipo de luta o mundo se tornaria igual a uma poça estagnada
jocosamente, “mas o certo é que a comida nunca é dispensável, e as que só produz limo e criaturas horríveis próprias da podridão. Mes­
mulheres com frequência o são” . mo no amor. a mais divina das paixões, deveria haver um sopro de
“Mulheres” , disse o Sr. Harland, levantando o garfo com um as- incerteza, uma sensação de mistério não resolvido para lhe emprestar
pargo espetado no ar, “ são feitas de tal forma que invariavelmente perenidade” .
destroem a si mesmas ou os homens que professam amar. As esposas “Perenidade?” Perguntou Harland. “ Ou simplesmente a duração
negligenciam os maridos, e estes, naturalmente, desertam de suas de uma vida?”
mulheres. Enamorados fervorosos brigam e se separam por ninha­ “ Perenidade!” Repetiu Santoris. “ O amor a que falta a estabili­
rias. A coisa toda é um grande erro” . dade do eterno não é amor, apenas um entendimento afetuoso e um
“ Que coisa toda?” Perguntou Santoris, sorrindo. companheirismo agradável neste mundo somente. Para o outro mun­
“ As relações entre homens e mulheres", respondeu Harland. “ Em do ou mundos.. ."
minha opinião, deveriamos nos conduzir como as aves e os animais, “ Ah! Você está indo longe demais!” Interrompeu o Sr. Harland.
cujas relações não são obrigatórias nem duradouras, são suficientes “ Sabe que não podemos acompanhá-lo nesse caminho! E com todo o
apenas para preservar a espécie. Isso basta. O que chamam amor é respeito devido ao sexo frágil, duvido muito que uma só mulher se
mero sentimentalismo” . interessasse por um amor que fosse destinado a durar para sempre” .
“ Você endossa esse veredito. Srta. Harland?” Perguntou Santoris. “Nenhum homem o faria” , interrompeu Brayle com sarcasmo.

[1961 [1991
Santoris o olhou rapidamente. assim por diante, numa escala ascendente! Todo homem que tenha o
“ Não se exige de homem algum que o faça” , disse ele, “ nem de sopro de Deus em seu ser é um senhor, não um escravo!”
mulher alguma. Não se pede às almas, ordena-se que se interessem! Meu coração se acelerou diante dessas palavras: alguma coisa se
Mas isso estã além de sua compreensão!” levantou dentro de mim, como em resposta a um chamado, e me per­
“ E além da compreensão da maioria” , respondeu Brayle. “ Essas guntei - ele teria presumido me dominar? Não! Eu não cedería a tal
idéias são puramente imaginárias e transcendentais” . coisa! Se ceder fosse necessário, teria que ser de minha livre e es­
“ Concordo!” Santoris olhou diretamente para Brayle. “ Mas o que pontánea vontade, não por sua influência! Enquanto esse pensa­
significa “ imaginário” e “ transcendental” em sua linguagem? Ima­ mento passava por minha cabeça nossos olhos se encontraram - ele
ginação é a faculdade de conceber idéias que poderão, com o tempo, sorriu de leve, e vi que tinha adivinhado o que estava se passando.,
alcançar a plena fruição da realização. Cada item de nossa atual ci­ O sangue afluiu com força ao meu rosto, afogueando-me as faces,
vilização foi “ imaginado” antes de tomar sua forma prática. “Trans­ mas mesmo assim o desafío em minha alma era muito forte - tão
cendental” significa além dos acontecimentos comuns da vida e da forte quanto o amor que tinha começado a me dominar. Ouvi ansio­
rotina física da vida, e esse “ além” se expressa com tanta freqüência samente o que ele continuou a dizer:
que em poucas vidas passa-se um dia que não seja tocado por essa “ Em Oxford eu comecei desempenhando o papel de escravo” ,
inexplicável maravilha. É aí que os seres humanos se afastam da fe­ disse ele, “um escravo das convenções e de métodos fossilizados de
licidade - pois só acreditam no que vêem, enquanto que sua vida instrução, Na realidade, podemos aprender muito mais estudando a
verdadeira depende do que eles não vêem!” formação rochosa real do que com aqueles importantes mestres que
Houve um momento de silêncio. O encanto da voz dele era pode­ nada podem afastar de suas cediças rotinas. Mesmo naqueles anos de
roso. e mais poderosa ainda era a fascinação de suas maneiras e de juventude eu sentia que um homem saudável e em boas condições fí­
seu porte, e o Sr. Harland olhou para ele com um misto de maravi- sicas, com um bom cérebro, bons pulmões e nervos firmes, eviden­
lhamento e apelo. temente nascido para comandar, náo deveria deixar-se atar pelas re­
“ Você é um homem estranho, Santoris!” Disse ele, finalmente. gras de Oxford ou de qualquer escola voltada para o esforço inte­
“ E sempre foi! Mesmo agora acho difícil acreditar que você é o lectual institucionalizado. Eu sentia que seria melhor que um homem
mesmo Santoris que despertava tanto medo nos corações de tantos assim tomasse o próprio destino nas mãos e tentasse encontrar seu
estudantes de Oxford! Digo que acho difícil, mas sei que você é o próprio significado em relação às gradações finitas e infinitas do
mesmo homem. Mas gostaria que você me contasse. . . ” Espírito e da Matéria. Eu resolví enfrentar essa tarefa, sem me per­
“Tudo a meu respeito?” Santoris sorriu. “ Pois contarei, com pra­ mitir ter medo de fracassar nem esperança de ter sucesso. Meu obje­
zer. se a história não for cansativa para vocês. Não existe mistério a tivo era descobrir a Mim mesmo e meu significado, se isso fosse
meu respeito, nenhuma “magia negra” , ou “ocultismo” de qualquer possível. Nenhum ãtomo, por mais infinitamente pequeno que seja,
espécie. Nada fiz depois de deixar a faculdade a não ser adaptar-me está destituído de origem, história, lugar e utilidade do Universo - e
às forças da Natureza e usá-las quando necessário. O Mesmo estilo eu, um conglomerado de átomos chamado Homem, resolví ir em
de vida está à disposição de todos, e os resultados serão sempre os busca das possibilidades finitas e infinitas de minha própria entida­
mesmos”. de. Comecei com esse objetivo e nele continuei” .
"Resultados? Tais com o.. . ” Perguntou Brayle. “ Então sua tarefa não está concluída?" Perguntou o Dr. Brayle,
“ Saúde, juventude e poder” , respondeu Santoris, com um crispar sorrindo com ar de incredulidade.
involuntário da mão firme e fina que estava levemente apoiada na “ Jamais será concluída” , respondeu Santoris. “ Uma coisa eterna
mesa. “O comando de si mesmo! Comando do corpo, do espírito, e não tem fim” .

[200] [ 201 ]
Houve uma pausa.
“Bem... continué, Santoris!” Disse o Sr. Harland, com um toque
de impaciência na voz. “ Conte-nos especialmente o que todos nós
estamos ansiosos por saber - como é que você é jovem, se de acordo
com a contagem do tempo você deveria estar bem mais velho?”
Santoris voltou a sorrir. XI
"Ah! Esse é um toque de curiosidade puramente pessoal!” Res­
pondeu ele. "E muito humano e natural, naturalmente, mas nem UM MODO DE AMAR
. sempre sábio. Diante de cada grande lição da vida ou de cada gran­
de descoberta científica, as pessoas perguntam primeiro: “como pos­ “Quando saí de Oxford” , disse ele, “como já falei antes, deixei
so me beneficiar disso?” Ou “como isso me afetará?” Enquanto fa­ para trás o que eu concebia como escravidão, isto é, uma rotina de
zem essas perguntas, não se dão ao trabalho de obter uma resposta aprendizagem imposta, e na qual nada acontecia de novo, nada inte­
delas próprias, voltam-se para outros no intuito de solucionar o ressante. nada realmente útil. Aprendí tudo que havia para aprender,
mistério. Manter a juventude não é nada difícil: quando certos pro­ e o fiz com “ louvor” , o que eu não considerava valioso. Esperava-
cessos simples da Natureza são dominados, o que fica difícil é en­ se então - pelo menos a maioria das pessoas o esperava - que, como
velhecer!” entrei na posse de uma renda anual entre cinco e seis mil libras, eu
Ficamos todos em silêncio, na expectativa. Os serviçais já tinham naturalmente me dedicasse a “ viver a vida” , como dizem, iniciando
se retirado, deixando apenas as frutas e iguarias da sobremesa para o que se chama carreira social. Mas em minha opinião, uma carreira
nos tentar, arrumadas que estavam em cestos e pratos de cristal ve- social significava apenas impostura social; pensar em viver minha
neziano de maravilhosas cores, contrastando com os arranjos gracio­ vida sempre tivera um escopo mais amplo para mim que para a maio­
sos de rosas e lírios que acrescentavam-se à elegante decoração da ria dos homens. Assim, tendo resolvido tudo que concernia meus as­
mesa. Santoris passou o vinho, um Chãteau-Yquem de safra espe­ suntos junto aos advogados de meu pai em Londres, verificando
cial. antes de continuar. Quando o fez. foi com uma voz singular­ exatamente como era minha situação financeira e os assuntos “ práti­
mente tranquila, musical, que exerceu um estranho encanto em mim cos” da vida. saí da Inglaterra e fui para o Egito, a terra onde nasci.
- eu já tinha ouvido aquela voz antes, ah! Quantas vezes! Quantas Eu tinha um objetivo em mente, que era o de rever meu antigo lar,
vezes, no decorrer de minha vida, eu a havia ouvido em meus so­ mas principalmente o de encontrar um certo sábio e filósofo místico
nhos que ficavam sem explicação quando eu acordava de manhã! há muito conhecido no Oriente, que se chamava Heliobas” .
Essa voz havia se insinuado como um eco vindo de muito longe, Estremecí com a surpresa e senti o sangue afluir ao meu rosto aos
quando eu me via sozinha, numa pausa em meu trabalho ou meus borbotões.
pensamentos, ansiando por um pouco de compreensão e compaixão! “ Acho que você o conheceu” , continuou ele, dirigindo-se a mim
Eu tinha me censurado por causa de minhas fantasias, meus võos da diretamente, com um olhar franco. "Você o encontrou faz alguns
imaginação, achando que eram totalmente insensatos e irresponsá­ anos, nào é verdade?"
veis! E agora. . . agora o tom suave e conhecido atingia o centro de Abaixei a cabeça num gesto de mudo assentimento, e vi meu an­
minha consciência espiritual, forçando-me a compreender que para a fitrião e sua filha me observarem interrogativamente.
Alma não há como fugir de suas imortais lembranças! “ Ele era renomado em um certo círculo de estudantes e místicos",
continuou Santoris, “ e resolví descobrir o que ele podería fazer co­
migo, o que ele me aconselharia e que método me indicaria para me

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ajudar a descobrir o que me decidira a descobrir. Entretanto, ao final “Em primeiro lugar” , respondeu ele, “ me levou ao poder! Poder
de uma longa e tediosa viagem, tive uma decepção - Heliobas tinha - não só sobre meu próprio ser mas sobre todas as coisas grandes e
sido removido para uma outra esfera de ação” . pequenas que me envolvem ou têm ligação comigo. Penso que você
“ Ele tinha morrido, é o que você quer dizer?” Interpôs o Sr. admitirá que, quando um homem escolhe sua carreira, precisa com­
Harland. preender todos os seus métodos técnicos e detalhes práticos. Minha
“ Absolutamente” , respondeu Santoris, calmamente. “ Não existe carreira era e continua sendo a Vida! A única coisa que a humanida­
morte. Para falar claramente, ele havia alcançado o mais alto grau de de nunca estuda e por isso não consegue dominar” .
sua classe, nesta escola particular de vida e aprendizado, e se consi­ O Sr. Harland olhou para Santoris.
derou pronto e disposto a passar para um grau superior. Mas deixou “ A vida é misteriosa e inexplicável” , disse ele. “Ninguém pode
um sucessor capaz de continuar defendendo suas teorias, um homem desvendar esse mistério. Não estamos aqui por um desejo consciente
chamado Aselzion, que havia resolvido viver num ponto quase inas- nosso — e também não estamos aqui só porque aprendemos a
cessfvel nas montanhas, junto com um pequeno grupo de seguidores nos acomodar ao fato de estarmos em Algum Lugar!”
e discípulos. Eu o encontrei com grande dificuldade, e viemos a nos “Certo!” Respondeu Santoris. “ Mas para compreender o “ por­
entender tão bem que fiquei por algum tempo em sua companhia, quê” da Vida é preciso antes compreender que sua origem é o
estudando tudo que ele considerava necessário antes que eu pudesse Amor. O amor cria a Vida porque assim é; mesmo os agnósticos,
começar minha própria jornada de descobertas. Seus métodos de quando são encostados na parede, numa discussão, concordam em
instrução eram árduos e dolorosos - na verdade, posso dizer que que uma Força misteriosa e de grande poder está por trás da criação
passei por uma verdadeira prova de fogo.. - uma Força que é ao mesmo tempo inteligente e benéfica. O cediço
Ele se interrompeu, parecendo perder-se em suas lembranças. ditado “ Deus é Amor” é verdadeiro, mas seria igualmente verdadei­
“Naturalmente você fala de uma regra de vida, um tipo de novi­ ro dizer “O Amor é Deus” . O início do Universo, dos sistemas sola­
ciado ao qual teve que se submeter” , disse o Sr. Harland, “ou teria res e mundos é fruto do desejo do Amor de expressar a Si mesmo.
sido apenas um curso de estudos?” Não mais nem menos que isso. Do desejo provém a ação, da ação
“Em um certo sentido foi uma espécie de noviciado ou provação” , emana a vida. Basta que cada ser vivo se esforce para entrar em
respondeu Santoris, com voz lenta e um olhar pensativo. “Em outro harmoniosa união com essa lei fundamental e única do Cosmo - a
sentido foi, como você o disse, “um “ simples” curso de estudo. Sim­ expressão e a ação do Amor que se fundamenta numa entidade dual,
ples! Um estudo em que cada nervo, cada músculo, cada tendão, era como naturalmente precisa se fundamentar” .
testado ao máximo de sua resistência - um curso no qual a luta entre “ O que você pretende dizer com isso?” Perguntou o Dr. Brayle.
o espiritual e o material foi combatida ferozmente até que um domi­ “ Como médico, e como cientista que presumo você seja, nem de­
nasse o outro absolutamente, ao ponto da sujeição absoluta. Pois veria perguntar” , respondeu Santoris com um ligeiro sorriso. “ Pois
bem, saí-tne relativamente bem daquela prova, pelo menos com força você com certeza sabe que não existe uma só coisa isolada no Uni­
suficiente para prosseguir sozinho, como tenho feito desde então". verso. Os próprios micróbios da saúde e da doença andam aos pares.
“E para onde levou sua severa tribulação?” Perguntou o Dr. Luz e trevas, em cima e embaixo, direita e esquerda, tempestade e
Brayle. que tinha finalmente se mostrado interessado, embora conti­ bonança, macho e fêmea, todas as coisas são duais: as tristezas da
nuasse mantendo o ar incrédulo e meio zombeteiro. “ Para qualquer humanidade são, em sua maior parte, resultantes de números díspa­
coisa que você teria conquistado facilmente sem isso?” res - dígitos que são unidos mas que não permitem uma soma per­
Santoris olhou para ele, encarando-o fixamente. Seus olhos fais- feita, peças erradas de um quebra-cabeças que jamais se encaixam
cavam como se o brilhante fogo da alma os tivesse invadido. no espaço certo. Essas diferenças se imiscuem em todas as civiliza­

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ções —metades errôneas de raças reunidas mas que não podem e ja­ próxima que quase se pode ouvir o ronco dos trovões! Mas por que
mais poderão se assimilar mutuamente; no sentido pessoal, metades havería eu ou haveríam vocês de pensar nisso? Temos nossos pró­
errôneas de espírito e matéria'que são forçadamente unidas e que prios interesses para cuidar e cuidamos deles tão bem que esquece­
inevitavelmente terão que se separar, num determinado momento, em mos todas as necessidades mais vitais que poderíam lhes dar alguma
situação desastrosa. Esses erros são causados pela má interpretação importância! O fato é que em nossos dias nada importa? Devo pros­
obstinada do próprio homem quanto à natureza e alcance de seus seguir minha história ou vocês já ouviram o suficiente?”
próprios poderes e faculdades. Ele esquece que não é “como as “ De modo algum!” Disse Catherine Harland repentinamente. Ela
bestas que perecem” , mas tem o sopro de Deus em seu ser, tem quase não tinha dito palavra antes, mas naquele momento estava in­
dentro de si a semente da imortalidade que é perpetuamente regene­ clinada para a frente, olhando com enorme interesse. “ Você fala de
rativa e criadora. Ele, por força de todas as leis do Universo, tem o poder sobre si mesmo - mas você tem o mesmo poder sobre os ou­
dever de propiciar a essa vida imortal sua entidade dual e o poder tros?”
que a acompanha, sem o que não poderá alcançar suas mais elevadas “ Não. a menos que eles penetrem em meu próprio círculo de
finalidades. Talvez ele leve milhares de anos - ciclos de tempo - ação” , respondeu ele. “Não valería a pena exercer qualquer influên­
mas terá que fazê-lo. Falando do ponto de vista material, ele pode cia sobre pessoas que são e continuarão sendo despidas de interesse
considerar que assegurou à sua opaca entidade um casamento agra­ para mim. Naturalmente posso me defender de meus inimigos - isso
dável ou feliz - mas se o casal não estiver espiritualmente casado, sem nem sequer levantar a mão” .
o casamento é inútil! Pior que inútil, já que apenas serve para inter­ Todos, menos eu. o olharam inquisitivamente, mas ele não deu
por novos obstáculos entre esse homem e o progresso que deve al­ maiores explicações, continuando sua narrativa com a mesma tran­
cançar” . quilidade de antes.
“ O casamento não deve ser chamado uma instituição inútil” , dis­ “Como eu lhes disse” , terminei meus estudos com Aselzion com
se o Dr. Brayle levantando suas sinistras sobrancelhas, “ É um meio suficiente sucesso para me sentir justificado em continuar meu tra­
de povoar o mundo” . balho sozinho. Decidi morar na antiga casa de meu pai no Egito —
“ E verdade” , disse Santoris calmamente. “ Mas se os pares que se um lugar muito bonito com uma grande área plantada com palmeiras
unem em matrimônio não têm um laço espiritual mútuo, e nada além e muitas flores. Ali eu me entreguei ao objetivo de dominar e com­
da atração física - eles povoam o mundo com pessoas mais ou me­ preender o mais difícil assunto já proposto - a peça mais evasiva,
nos incapazes, tolas e de poucos pensamentos, tais como eles o são. complexa e ao mesmo tempo exata de matemática já encontrada para
Supondo que seus filhos nasçam às dezenas de milhares, como mos­ resolver - a Mim Mesmo! Eu era o meu quebra-cabeça! Como me
cas ou formigas, não cumprirão o verdadeiro propósito da existência unir à Natureza de modo tão completo que me permitisse insinuar­
humana para além da parada e recuo que chamamos morte, e que é, me em seus segredos, possuir tudo que ela pudesse me oferecer - e
realmente, um retrocesso da roda do tempo quando o caminho certo ao mesmo tempo me afastar do Eu tão completamente que me fosse
foi perdido e toma-se imperativo recomeçar a jornada” . possível sacrificar tudo que tivesse ganho num segundo, se esse
Continuamos em silêncio; ninguém fez qualquer comentário, momento se apresentasse,
“Estamos chegando ao ponto critico mais uma vez” , continuou “ Você é paradoxal", disse o Sr. Harland, irritado. “De que serve
ele. “A civilização ocidental que dura há dois mil anos, assistida (e ganhar alguma coisa se é para perdê-la num momento?”
por vezes impedida) pelos ensinamentos do cristianismo, está che­ “ Este é o único modo de manter seja o que for que ganhemos"
gando ao fim. Do grande naufrágio de nações que agora se faz imi­ respondeu Santoris calmamente. “O paradoxo não é maior do que o
nente, só alguns indivíduos poderão se salvar. A tempestade está tão ditado bíblico “ aquele que ama a vida a perderá” . O único “ momen­

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to” de suprema auto-entrega é Amor - quando ele chega tudo o mais transcendental, impossível! Mas eu juro que é a possibilidade mais
deve desaparecer. Só o amor pode abranger a vida, aperfeiçoá-la, real dessa fugidia miragem que é o mundo!”
completá-la e conduzi-la à felicidade eterna. Por favor, tenham em O timbre da voz dele tinha calor e convicção, e ao ouvi-lo falar
mente que estou falando do Amor verdadeiro - não da mera atração estremecí interiormente com um súbito remorso - uma sensação de
física. Essas duas coisas são tão diferentes entre si quanto a luz das inferioridade e vergonha. Por que eu não conseguia me deixar levar?
trevas” . Por que eu não concedia ao agitado espírito em meu interior o espa­
“ Foi esse seu curioso conceito ou ideal do amor a razão para vo­ ço para expandir suas asas? Alguma coisa se opunha, alguma coisa
cê nunca ter se casado?” Perguntou Brayle. que era inimiga de. minha paz e felicidade me continha - e fiquei me
“ Precisamente!” Replicou Santoris. “Essa é inquestionável e en­ perguntando se deveria atribui-la à influência daquelas pessoas com
faticamente a razão pela qual nunca me casei” . quem estava temporariamente associada. Eu tinha quase que confir­
Houve uma pausa. Vi Catherine olhando para ele com uma estra­ mado essa hipótese quando ouvi a voz do Sr. Harland, áspera e
nha expressão furtiva na qual havia um pouco de medo. cáustica como costumava ficar quando ele estava irritado ou perden­
“ Você nunca encontrou seu ideal, suponho?" Perguntou ela com do uma discussão, quebrando o silêncio:
um quase inperceptível sorriso. “ Você está mais impossível agora do que era em Oxford, Santo­
“ Ah. sim, encontrei!” Respondeu ele. “ Há muitas eras! Eu en­ ris!” Disse ele. "Você transcende todo o transcendentalismo! Você
contrei a mulher ideal muitas vezes - em certas ocasiões ela se sabe, ou a esta altura deveria saber, que não existe nenhuma alma
afastou de mim, outras vezes me foi tirada por outros, e com maior imortal - e se acredita que existe, foi porque induziu a si mesmo a
freqüência eu me separei dela por minha própria insensatez e tei­ esse estado de cega credulidade. Toda a ciência nos ensina que so­
mosia - mas nossos mútuos erros nada mais fazem do que retar­ mos simplesmente produtos criados pelo planeta em que vivemos;
dar nossa inevitável união” . Neste ponto ele falou mais devagar, estamos aqui para fazer o melhor que pudemtos por nós e por aque­
com voz carregada de significação: “pois essa união é inevitá­ les que vierem depois de nós. E pronto. O que chamam Amor é so­
vel! Tão inevitável quanto a união de dois elétrons que, após gi­ mente a atração física entre os dois sexos, nada mais que isso —essa
rarem no espaço por certos períodos de tempo, se juntam afinal e atração logo passa. Tudo que alcançamos logo deixa de merecer
permanecem tão indissoluvelmente unidos que nada mais conseguirá nosso interesse - é assim o modo de ser da humanidade” .
separá-los". “ Que pobre coisa é a humanidade, nesse caso!” Disse Santoris
“ E daf?” Perguntou o Dr. Brayle, com ar irônico. com um sorriso. "Que espantoso que ela exista se não tem objetivos
“ E daí tudo se toma possível! Beleza, pefeição, sabedoria, pro­ mais elevados que os das formigas e dos ratos! Meu caro Harland, se
gresso. criatividade e um mundo - ou muitos mundos - de esplêndi­ suas crenças têm fundamento, é nosso dever e obrigação caridosa
dos pensamentos e esplêndidos ideais, que levarão invariavelmente a interromper totalmente a povoação do mundo - já que é inútil. Inútil
uma realização ainda mais esplendorosa! Não é difícil imaginar dois e até cruel, pois não passa de 'crime permitir que nasçam mais pes­
cérebros, duas mentes, movendo-se em absoluta harmonia e que, soas para a única finalidade da extinção! Pois bem, guardem suas
como uma mágica corda, fazem soar sua melodia através de episó­ crenças! Agradeço aos Céus por não serem as minhas!"
dios da existência até então sem qualquer brilho: mas pensem em O Sr. Harland fez um pequeno gesto de impaciência. Eu podia
duas almas imortais cheias de um amor tão isento da possibilidade ver que ele estava com a mente perturbada.
“ Vamos falar de algum assunto que eu possa acompanhar” , disse
de morte quanto elas, unidas no mais elevado esforço e na mais so­
berba consecução! - O amor do anjo pelo anjo. de um deus por ou­ ele, “o lado pessoal e material das coisas. Sua perene condição de
saúde, por exemplo. Sua aparente juventude.. .”
tro deus! Vocês devem pensar que esse ideal é pura imaginação, é
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Ah, então é só "aparente?” Riu Santoris alegremente. "Bem, para Ninguém respondeu.
quem não me conheceu nos dias de meninice e por isso não pode me “ Vocês não têm nenhuma resposta pronta” , disse ele, e sorriu.
jogar termos como “ faz trinta anos” ou coisa semelhante, minha ju­ “ Naturalmente! Isso porque nenhuma resposta é possível! Eis a cha­
ventude parece coisa muito real! Sabem como é, a incapacidade de­ ve para o que vocês consideram o meu mistério - o mistério de
les de contar os anos que passei na terra os obriga a me aceitar se­ me manter jovem ao invés de envelhecer —o segredo de viver ao
gundo minha própria avaliação! Na realidade, nada há para explicar. invés de morrer! É a simples compreensão de que não há Morte,
Qualquer pessoa pode se manter jovem se compreender a si mesma e apenas Mudança. Essa é a primeira parte do processo. A mudan­
à Natureza. Se eu resolvesse falar a verdade literal desse processo, ça ou transmutação c transformação dos átomos e elementos de
vocês não me acreditariam - e mesmo que acreditassem, não tcriam que somos compostos começou no momento em que nascemos e
a paciência necessária para levá-lo a termo! Mas o que importa tudo até antes de nascermos —e a arte de viver jovem consiste simples­
isso? Se vivemos apenas para o expresso propósito da morte, quanto mente em usar o poder da alma e da vontade para dirigir esse pro­
antes resolvermos tudo isso melhor - a juventude, por si só, não tem cesso de mudança para os fins que desejarmos, em vez de o deixar­
encantos nessas circunstâncias. Todos os planos de vida, por mais mos ao acaso cego e â associação com influências nocivas, que in­
nobres e elevados que sejam, levam inevitavelmente ao nada - e não terferem em nossas ações mais nobres. Por exemplo, eu, um homem
vale a pena o trabalho de respirar o ar letal que nos cerca! com boa saúde e condição física, compreendo que a cada momento
Ele falou com certa paixão - os olhos ficaram luminosos - o rosto algum tipo de mudança está agindo em mim para alguma finalidade.
transfigurado por um brilho quase sobre-humano, e todos nós o Cabe a mim exclusivamente fazer com que essa mudança seja paia a
olhamos com um certo espanto. manutenção da saúde ou para a admissão da doença - para a conti­
O Sr. Harland se mexeu inquieto na cadeira. nuação da juventude ou a aceitação da velhice, para a vida como ela
“ Você vai longe demais! A vida é agradável enquanto d ura.. . ” se apresenta neste momento ou para alguma outra fase da vida que
“ Você achou sua vida agradável, então?" Interrompeu Santoris. eu percebo no futuro. Posso me fazer progredir ou retroceder con­
“ Será que, em sua busca de fortuna, ela não lhe trouxe mais dor que forme minha vontade - a direção adequada de meu Ser é minha res­
prazer? Enumere as possibilidades da vida desde a do trabalhador ponsabilidade e escolha. Se eu sofrer de dores ou doenças, tenho
comum em sua cabana, até a do rei em seu trono - nenhuma delas certeza de que será principalmente por minha culpa - se eu aceitar a
merece que se lute por ela ou a mantenha, se a morte é fmi de tudo. decadência e a decrepitude, será por permitir que perturbem meu
A ambição é a mais reles das tolices - a riqueza é a posse temporária bem*estar. Em resumo, eu sou o que quero ser! E todas as leis que
de bens perecíveis que devem passar às mãos de outros - a fama é o me deram existência me apóiam nessa atitude de mente, corpo e es­
som passageiro de nosso nome em bocas que logo estarão caladas - pírito!”
e o amor é só atração sexual. Que ato traiçoeiro e criminoso é, nesse "Se pudéssemos nos tomar o que quiséssemos” , disse o Dr.
caso, a Criação dos Universos! Que loucura sem fundamento! Que Brayle, “ viveriamos um milênio!”
imensa, cega e irracional iniqüidade!” “Tem certeza disso?” Perguntou Santoris. "Não dependería isso
Ninguém falou. Seus olhos passaram de um a outro, medindo-nos da escolha particular de cada um? Você, por exemplo, podería de­
a todos. sejar ser algo que não o levasse à felicidade - e se seu desejo fosse
"Podem vocês negar isso?” Perguntou ele. “Podem me dar uma satisfeito, você podería vir a ser o que daria muitos mundos para não
razão sá, lógica, para a continuação de uma vida que está destinada ser (se apenas o percebesse)! Alguns homens desejam ser ladrões,
à extinção, ou para a criação de mundos condenados à destruição até assassinos, e assim se tomam, mas o fim de seus desejos talvez
eterna?” não seja bem o que eles poderíam imaginar!”

[210]
“ Você é capaz de ler os pensamentos das pessoas?" Perguntou Ele pôs a mão no bolso do colete e tirou dali uma pequena bolsa
Catherine. de seda, da qual tirou com todo o cuidado um colar de pedras pre­
Santoris pareceu achar graça e respondeu com outra pergunta: ciosas. formando uma espécie de corrente trabalhada que o tornava
“ Você ficaria aborrecida se eu fosse?" perfeitamente flexível. Ele o colocou sobre a mesa e eu mordi os lá­
Ela corou um pouco e eu sorri, sabendo o que estava em sua bios com força para não deixar escapar uma exclamação involuntá­
mente. ria. Isso porque eu já tinha visto a peça antes - no momento não me
“ Seria uma capacidade muito desagradável essa de ler os pensa­ lembrei onde, mas logo um lampejo de luz passando pelas células de
mentos alheios” , disse o Sr. Harland. “ Eu preferiría não cultivar es­ meu cérebro me fez recordar a cena de amor e morte no ateliê onde
sa arte” . o nome “ Cosmo de Medieis” havia sido murmurado como um mau
“Mas o Sr. Santoris praticamente deixa entrever que tem essa presságio, no sonho-visão. O assassino naquele quadro usava um
capacidade", disse o Dr. Brayle, com um toque de irritação em sua colar de pedras preciosas semelhante àquele que eu agora contem­
atitude. “ Afinal de contas, a “ leitura dos pensamentos" é uma espé­ plava, mas guardei silêncio, com todos os nervos à flor da pele,
cie de divertimento social nos dias de hoje. Não tem nada difícil nis­ vendo Santoris tomar o ornamento nas mãos e examiná-lo com pro­
so” . fundo interesse, e até com um pouco de compaixão.
“ Nada mesmo", concordou Santoris alegremente. “ Sendo tão fá­ “Uma linda peça de ourivesaria” , disse ele afinal, com voz pau­
cil, por que você não mostra a antiga peça de joalheria que traz em sada, enquanto o Sr. Harland, Catherine e Swinton se aproximaram
seu bolso? Você a trouxe esta noite para me mostrar e pedir minha mais e se inclinaram para ver melhor. “ Eu deveria dizer” , e nesse
opinião sobre o seu valor, não é verdade?” ponto ele levantou o olhar e olhou em cheio para o rosto moreno,
Os olhos do Dr. Brayle se arregalaram de puro espanto. Se al­ pensativo e sinistro do Dr. Brayle, “ que acredito ser do período dos
guém já foi tomado pela surpresa, ele o foi, naquele momento. Medieis. Deve ter feito parte de uma vestimenta de algum nobre da­
“ Como você soube?" Começou ele, gaguejando, enquanto o Sr. quele tempo - o desenho me parece florentino. Acho que essas pe­
Harland, igualmente espantado, olhava para ele através das lentes dras poderíam contar uma estranha história se pudessem falar! São
redondas dos óculos como se o desafiasse. pedras infelizes!”
Santoris riu. “Infelizes!” Exclamou Catherine. “ Você quer dizer azaradas!”
“ A leitura do pensamento é apenas uma diversão social, como “Não, não existe essa coisa chamada sorte ou azar” , respondeu
você acabou de observar” , disse ele. “ Eu estive me divertindo com Santoris em voz baixa, virando o colar de um lado para outro com as
isso nos ültimos minutos. Vamos lá, vamos ver o seu tesouro!” mãos. “ Nem para jóias nem para os homens! Mas existe a infelicida­
O Dr. Brayle estava completamente atrapalhado, mas tentou en­ de, que simplesmente significa a vida sendo usada para maus fins.
cobrir a confusão com uma risada sem graça. Uma pedra preciosa é uma coisa viva - ela absorve influências como
“ Ora, você o conseguiu de maneira bem inteligente!” Disse ele. a terra absorve luz, e estas pedras absorveram alguma coisa maléfica
“Um tiro no escuro, naturalmente, que por mera coincidência atingiu que as toma menos belas do que poderíam ser. Estes diamantes, ru­
o alvo! É verdade que eu trouxe uma curiosa peça de ourivesaria - bis, esmeraldas e safiras não têm o brilho próprio de sua natureza —
sempre a carrego comigo - e alguma coisa me levou a querer lhe estão na mesma condição que as flores quando estão murchando. Se­
perguntar sobre seu valor e o período em que foi feita. É italiana e riam necessários séculos para que elas retomassem o brilho natural.
antiga, mas nem mesmo os peritos concordam a respeito do período Elas escondem algum tipo de tragédia” .
exato em que foi feita” . O Dr. Brayle parecia estar achando a situação divertida.

(2t2] [213]
“ Bem, não posso lhe oferecer uma história ligada a elas” , disse po eles correm atrás da sombra e esquecem da luz. Mesmo no tra­
ele. "Um amigo meu comprou o colar de um velho judeu vendedor balho ativo e na ação criativa do pensamento cada homem comum
de curiosidades numa ruela de Florença e enviou-a para mim, para imagina que seu trabalho especial é de grande importância, sendo
usar com uma roupa florentina num baile a fantasia. E curioso, mas necessário que ele sacrifique tudo para realizá-lo. E ele faz o sacrifí­
eu havia decidido representar um dos Medieis, pois um artista me cio. se estiver tomado pela ambição mundana e pela concentração
havia dito que minhas feições faziam lembrar aquela família. É isso egoísta: e produz alguma coisa, qualquer coisa, que freqüentemente
que sei. Gostei do colar por causa de sua antiguidade. Eu podería tê- se mostra tão efêmera quanto as teias de aranha. Só quando o traba­
lo vendido muitas vezes, mas não tenho nenhum desejo de me sepa­ lho é o resultado de um grande amor e da profunda compaixão por
rar dele” . outros, é que ele dura e mantém sua influência. Bem. penso que já
“ É natural!" Disse Santoris. passando o colar para que todos pu­ falamos demais sobre todas essas teorias que não interessam a nin­
dessem examiná-lo de perto. “ Você se sente proprietário dele” . guém que não esteja preparado para aceitá-las. Vamos subir ao con­
Catherine Harland estava com a jóia nas mãos e um vago olhar de vés?”
terror perpassou seu rosto no momento em que ela a devolveu ao Nós todos nos levantamos imediatamente, Santoris abrindo uma
dono. Entretanto, ela não fez nenhum comentário, e foi o Sr. Harland caixa de charutos e oferecendo-os aos homens. Catherine e eu os
quem retomou a conversação. precedemos no caminho para o convés, que agora parecia um lençol
“ E estranha essa sua idéia sobre jóias infelizes” , disse ele. “Tal­ de prata à luz da mais encantadora lua do ano. A água em volta ti­
vez as desgraças que perseguem os possuidores do famoso diamante nha um brilho fosforescente e as montanhas escuras pareciam mais
azul “ Hope" pudessem ser ligadas a alguma tragédia antiga". altas e majestosas do que nunca, parecendo se erguerem diretamente
“ Sem dúvida!” Replicou Santoris. “ Agora vejam isto!” Disse do alvo esplendor do mar. Apoiei-me na amurada e fiquei olhando
ele, tirando do bolso uma fína corrente de ouro com uma pedra da para o espelho líquido a refletir as muitas estrelas, e meu coração
lua de singular tamanho e beleza engastada num círculo de diaman­ estava pesado, cheio de amargura e do desejo de chorar. Catherine
tes. “Este é um tipo de jóia-talismã - ela nunca passou por qualquer tinha se afundado languidamente numa cadeira e estava recostada
influência desastrosa, nem nunca foi perturbada por ambientes malé­ com uma estranha e distante expressão no rosto cansado. Sem aviso,
volos. É uma gema perfeitamente feliz e imaculada. Como podem ela falou com uma gentileza que me pareceu pesarosa:
ver, seu lustro é perfeito, claro como a luz da lua num céu de verão. "Você aprecia as teorias dele?”
Contudo, é uma jóia antiga que já viu mil anos se passarem” . Voltei-me para ela interrogativamente.
Nós todos examinamos o lindo ornamento, e quando eu a peguei “Quero dizer, você gosta da idéia de não haver morte, que só
nas mãos por um momento, ela pareceu emitir pequeninas centelhas mudamos de uma vida para outra, sempre? Continuou ela. "Para
de luz como o brilho do luar sobre a água ondulante. mim isso é pavoroso! Acho a morte a coisa mais generosa do mundo
“ As mulheres devem tomar cuidado para que suas jóias sejam fe­ - especialmente para as mulheres” .
lizes” , continuou ele, olhando para mim com um leve sorriso. “Isso Eu estava num estado de espírito que me levava a concordar com
se quiserem que elas brilhem. Nenhuma coisa viva atinge seu máxi­ ela naquele momento. Fui até onde ela estava e me ajoelhei ao seu
mo se não estiver na condição da felicidade —uma condição que, lado.
afinal de contas, é fácil de alcançar” . “ Sim” , falei, sentindo o tremor das lágrimas em minha voz -
“ Fácil! Eu diria que nada é mais difícil” , disse o Sr. Harland. “ Sim. para as mulheres a morte muitas vezes parece uma bênção!
“Certamente nada é mais difícil no tipo comum de vida que os ho­ Quando não há amor nem esperança de amor. quando o mundo se
mens preferem viver” , respondeu Santoris. “ Na maior parte do tem­ torna cinzento e as sombras se adensam para trazer a noite, quando

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as pessoas que mais amamos nos julgam mal, não confiam em nós e Ela se interrompeu e eu fiquei de pé, no momento em que Santoris
fecham o coração à nossa ternura, então a morte nos parece o maior se aproximou, acompanhado do Sr. Harland e dos demais.
de todos os deuses! Um deus diante do qual podemos querer nos “ Sugerí um pequeno passeio no iate, ao luar. antes de vocês irem
ajoelhar e oferecer nossas preces! Quem podería, quem desejaria vi­ embora” , disse ele. “ Será uma experiência conhecida mas em condi­
ver só para sempre, numa eternidade sem amor? Ah. como seria mais ções novas. Velejar ao luar é, no consenso comum, uma coisa corri­
bondosa e gentil a extinção to tal.. queira. mas velejar à luz da lua sabendo que ela é parte de nosso
Minha voz se quebrou num soluço e Catherine, comovida por um poder de propulsão me parece ter um toque de originalidade” .
súbito impulso feminino, colocou um braço ao meu redor. Ao mesmo tempo que falava ele fez um sinal a um de seus ho­
“ Ora, você está chorando!” Disse ela baixinho. “O que foi? Lo­ mens que tinha vindo receber suas oídens. as quais foram dadas em
go você, que está sempre tão alegre e disposta?” voz baixa demais para podermos ouvir. As cadeiras do convés foram
Logo controlei a fraqueza de minhas lágrimas. arrumadas para todos se sentarem, e logo formávamos um grupo a
“ Sim. é uma bobagem!” Disse eu. “ Mas esta noite sinto que des­ princípio silencioso, pois toda a nossa atenção estava voltada para a
perdicei uma boa parte de minha vida numa busca inútil, procuran­ maravilhosa maneira pela qual as velas do “ Sonho” foram levanta­
do, aliás, o que estava ao alcance de minhas mãos. só que não con­ das. praticamente sem ruído. Não havia vento, a noite estava quente
seguia ver! Também sinto que devo voltar a percorrer a mesma es­ e intensamente parada, com o mar absolutamente calmo. Como lar­
trada pela qual já passei. . .” gas asas brancas, as velas foram se estendendo graças ao trabalho
Nesse ponto parei de falar. Vi que ela não conseguia compreen­ eficiente dos marinheiros; a âncora foi levantada do mesmo modo
der. silencioso e rápido, e em seguida houve uma curta pausa. O Sr.
“Catherine” , continuei, bruscamente, “ você me deixará partir em Harland tirou o charuto da boca e ficou olhando admirado, como to­
um dia ou dois? Já estou há quinze dias no “ Diana” e acho que isso dos nós. para a misteriosa maneira com que as velas se enfunaram,
já são férias suficientes. Eu gostaria.. . ” - olhei para ela de minha retesando as cordas, e nenhum de nós conseguiu conter uma excla­
posição ajoelhada - “ de me separar de você enquanto ainda somos mação de espanto e admiração quando a lona começou a brilhar com
boas amigas, pois tenho a impressão de que não iremos nos entender a radiancia do orvalho, com a estranha luminosidade se intensifican­
tão bem se nos conhecermos mais profundamente". do até parecer que todas as velas da magnífica escuna eram uma só
Ela me olhou com uma expressão meio assustada. massa de finas jóias cintilando sob o luar.
“ Que estranho você pensar uma coisa dessas!” Murmurou ela. “ Devo dizer que por mais que eu discorde de suas teorias sobre a
“ Andei sentindo a mesma coisa, embora na realidade eu goste muito vida, Santoris” . disse o Sr. Harland, “dou-lhe todo o crédito por
de você, sempre gostei —queria que você acreditasse nisso!” este seu extraordinário iate! E a coisa mais maravilhosa que já vi, e
Sorri e respondí: você é um homem notável por ter levado a efeito uma aplicação tão
“ Cara Catherine! Não adianta fecharmos os olhos ao fato de que, original da ciência. Você deveria revelar seu segredo ao mundo” .
embora alguma coisa nos atraia mutuamente, também alguma coisa Santoris sorriu.
nos repele mutuamente. Essas coisas misteriosas acontecem e não “E o mundo levaria cem anos ou mais para discutir, considerar,
adianta discutir ou analisar - elas estão além de qualquer busca de negar, para só então aceitar” , disse ele. “Não! É cansativo pedir ao
explicação.. .” mundo que seja sábio e feliz. Ele prefere seu próprio método, como
“Mas” , interrompeu ela. falando rapidamente, “ não nos sentimos eu prefiro o meu. O mundo descobrirá o método de navegação à vela
perturbadas por essas coisas misteriosas até que encontramos esse sem vento, e também a fazer toda sorte de progressos mecânicos sem
homem, Santoris.. o uso do vapor, no devido tempo - mas não agora; eu. de minha par-

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te, não posso me dar ao luxo de esperar enquanto ele aprende lenta­ A canção terminou num acorde apaixonado que, tocado como o
mente o seu ABC como uma criança grande, protestando o tempo foi com pressurosa intensidade, pareceu despertar uma resposta no
todo. Repare, já estamos navegando” . mar - pois um estranho e trêmulo eco se elevou como se viesse do
De fato estávamos “ navegando", mas seria mais correto dizer que oceano e flutuou no espaçoso silêncio noturno. Meu coração batia
estávamos voando. Por sobre a água calma o barco deslisava como com tanta força que eu me sentia desconfortável, e meus olhos se
urna encantadora forma feita de fogo branco, rápida e firmemente, sentiram abrasados pelo peso das lágrimas reprimidas: por que eu
sem nenhum som além do leve murmúrio sibilante da água sendo não conseguia escapar da força cruel e restritiva que mantinha meu
cortada pela quilha. Então, como se fosse um sussurro da terra das ser prisioneiro como se estivesse amarrado com cordas de aço? Eu
fadas, ouvimos sons de harpas, subindo em acordes de doce melo­ não conseguia sequer falar: enquanto os outros batiam palmas, deli­
dia, e em seguida a voz clara, cheia e pura de um menino começou a ciados com a beleza daquela voz e daquela música, permanecí em
cantar de um modo que nos permitia compreender todas as palavras: total silêncio.
Velejar! Velejar! Para onde? “ Ele canta muito bem!” Disse Santoris. “ É o rapazinho oriental
Que senda do cintilante mar que vocês viram no convés hoje de manhã. Eu o trouxe do Egito.
Parece a melhor para nós dois? Logo ele nos brindará com outra canção. Vamos andar um pouco?”
Não importa a direção Levantamo-nos e passeamos lentamente pelo convés, e aos pou­
De dia ou de noite. cos nos dividimos em gnipos de dois - Catherine e o D r . Brayle. o
Desde que velejemos juntos! Sr. Harland e seu secretário. Santoris e eu. Nós dois paramos na
Velejar! Velejar! Para onde? proa do veleiro olhando para a quilha que parecia cortar o mar e o
Para a graça rósea céu como uma flecha veloz.
Do berço onde o Sol se põe? “Você queria falar comigo a sós” , disse Santoris, “ não é verda­
Não precisamos saber de? Acontece que sei o que você tem a me dizer!"
Até onde vamos Olhei para ele com um sentimento de desafio.
Desde que velejemos juntos! “Então não preciso dizer nada.”
Velejar! Velejar! Para onde? “ Não, você não precisa falar, a menos que seja sobre o que vai
Para a brilhante faixa do arco-íris em sua verdadeira alma” , disse ele. “ Eu preferiría que você não fi­
Na terra encantada do Amor? zesse o jogo das convenções comigo” .
Não perguntamos onde, Naquele instante quase me senti zangada com ele.
Se na terra ou no ar, “Não sou dada a convenções” , respondí.
Desde que velejemos juntos! “ Não mesmo? Será que isso é totalmente sincero?”
Velejar! Velejar! Para onde? Levantei os olhos e o encarei — ele estava sorrindo. Paite da
Adiante, para a vida divina. opressão que pesava em minha alma se afastou de repente, e falei
Tua alma e a minha unidas numa só! apressadamente em voz baixa:
No inferno ou no céu “ Com certeza você sabe como tudo está difícil para mim” , disse
Tudo estará em paz. eu. “ As coisas estão acontecendo de maneira muito estranha, e nós
Desde que velejemos juntos! dois estamos aqui envolvidos por influências que compelem à con-
vencionalidade. Não posso falar com você com a mesma franqueza
N. T. —Adaptação livre de que usaria em outras circunstâncias. E fácil para você ser você

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mesmo - você já conseguiu o domínio sobre todas as forças menores luz, forte e auto-suficiente! Você pode me ajudar, vai me ajudar!
que a sua própria. Comigo é diferente - talvez eu consiga pensar Vai me dizer onde devo ir para estudar com Aselzion como você
com mais calma quando estiver longe. . fez!"
“ Você está pensando em ir embora?” Perguntou ele em tom Ele teve um sobressalto de espanto.
muito gentil. "Com Aselzion! Querida, perdoe-me, mas você é uma mulher!
“Sim. Será melhor assim.” Impossível para você sofrer uma provação tão grande, uma pressão
Ele ficou em silêncio e eu prossegui, falando depressa: tão violenta! E para que você o faria? Se me permitir, sei que serei
“ Quero ir embora porque me sinto inadequada e incapaz de lidar suficiente!”
com o ambiente onde me encontro no momento. Tive algumas expe­ “ Mas não permitirei!" Disse eu apressadamente, sentindo um in­
riências com essas mesmas influências no passado, e sei que te­ fluxo de desafiadora energia. “Quero ir à mesma fonte onde você foi
nho. . ." buscar instrução e só depois saberei qual a situação em relação a vo­
“ Eu também!" Interrompeu ele. cê! Se eu continuar aqui agora.. . ”
“ Bem. você deve perceber essas coisas melhor do que eu” . Olhei “ Será a mesma história se repetindo!” Disse ele. “ Amor e des­
para ele com mais coragem. “E nesse caso, sabe que essas influên­ confiança! Depois, a separação ocorrendo da mesma maneira enfa­
cias sempre levaram a grandes problemas. Quero sua ajuda” . donha! Não será possível evitar agora os erros do passado?”
“ Eu? Ajudá-la? Comó posso fazê-lo se você pretende me aban­ “ Não!” Disse eu resolutamente. “ Para mim não é possível! Não
donar?” posso ceder aos meus impulsos. Eles me acenam com uma felicidade
Havia algo infinitamente triste em sua voz. e o antigo medo me grande demais! Tenho dúvidas quando a essa alegria - temo essa
invadiu como um vento gelado - “ Que eu não perca o que já ga­ glória!”
nhei!” Minha voz tremia e o próprio aperto da mão dele me oprimia.
“Se eu o deixo agora", disse eu com voz trêmula, “é porque não Depois de uma breve pausa ele disse: “ vou lhe dizer o que você
sou digna de estar com você! Oh, será que não pode ver isso?” Ele sente. Você tem conhecimento perfeito do fato de que entre nós dois
tomou minha mão na sua e apertou-a carinhosamente. “ Sou tão tei­ existe um laço que nenhum poder terreno ou celestial pode desfazer:
mosa. orgulhosa e inferior! Há mil coisas que eu gostaria de lhe di­ mas você vive num mundo comum com pessoas comuns, e a influên­
zer mas não ouso - não aqui, não agora!” cia que isso exerce a toma incrédula em relação às verdades que são
“ Ninguém se aproximará de nós” , disse ele, ainda segurando mi­ a parte essencial de sua existência espiritual. Compreendo tudo isso.
nha mão. “ Eu os estou mantendo à distância, sem que eles o perce­ Também compreendo por que você quer ir para a Casa de Aselzion
bam conscientemente, até que você termine de me dizer uma boa - e você irá. , .”
parte dessas mil coisas!" Soltei uma exclamação de alívio e prazer. Os olhos dele se escu­
Olhei para ele e vi o brilho de seus olhos que estavam cheios de receram por causa da intensa gravidade que ele experimentava na­
profunda ternura. Ele me puxou para mais perto dele. quele momento.
“ Diga-me", persistiu ele, com suavidade. “ Existirão ainda coisas “Você se alegra com o que não pode perceber” , disse ele, lenta­
que precisem ser ditas, caso sejamos sinceros um com o outro, que mente. “ Se for para a Casa de Aselzion - e vejo que está determina­
já nâo conheçamos?" da a fazê-lo - isso será um assunto de importância tão vital que só
“Você sabe mais do que eu!” Respondí. “Quero estar em igual­ poderá significar uma entre duas coisas: sua total felicidade ou sua
dade de condições! Quero mesmo! Não me sinto satisfeita em cami­ total desgraça. Não posso encarar com absoluta calma o risco que
nhar tropegamente no escuro, fraca e cega, enquanto você está na você corre - entretanto, é melhor seguir os ditames de sua própria

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alma do que ficar como está agora —irresoluta, incerta de si mesma e riores. Pois o mesmo na suprema paixão da vida, milhões de mulhe­
pronta para perder tudo que já ganhou!’* res só conseguem compreender o lado físico, e a união das almas
“ Perder tudo que já ganhei” . O antigo e insidioso terror! Olhei nunca é consumada!”
para ele suplicantemente. “Onde está aquele supremo amor
“Nâo posso perder nada!” Disse eu, minha voz ficando ainda No qual se encontram as almas? Onde será ele satisfeito?
mais baixa. “ Não posso suportar a idéia de perder. . . você!” Uhado nas areias movediças
A mão dele apertou ainda mais a minha. Do desejo solitário, o espírito clama pelo espírito
“ E ainda tem dúvidas sobre isso!” Disse ele carinhosamente. Enquanto flutuam pelo céu
“ Preciso saber!” Disse eu resolutamente. Brilhantes fantasmas de terras encantadas
Ele levantou a cabeça num gesto orgulhoso que me era estranha­ Onde as quimeras não se desfazem, onde habitam os sonhos.”
mente familiar. A voz dele baixou até adquirir uma suave cadência musical, e eu
“Isso quer dizer que o antigo espírito não morreu em você, minha olhei para o rosto dele. Ele correspondeu ao meu olhar.
rainha” , disse ele sorrindo. “ A antiga e indómita vontade! O desejo “Mulher querida!” Disse ele. “ Você irá para a Casa de Aselzioc.
de chegar ao centro das coisas! Mas o amor desafia qualquer análise e em suas mãos estará o futuro!”
- e é a única coisa que mantém o Universo coeso. Um fato que está Ele soltou minha mão e eu senti um influxo de intensa solidão.
além de qualquer comprovação - uma verdade que não pode ser ex­ “ Você não me julga - não me julgará mal?” Perguntei.
plicada por nenhuma regra embora seja a força mais inegável da vi­ “ Eu! Minha cara, fiz tantos erros de julgamento no passado, perdi
da! Minha rainha, é uma força que ou dobra ou quebra!” você tantas vezes, que nada faria agora que me fizesse perdê-la ou­
Não respondí. Ele continuava com minha mão na sua, e juntos fi­ tra vez!”
camos olhando para a cintilante extensão do mar onde nenhum barco Ele sorriu e por um momento tive o impulso de jogar a hesitação
podia ser visto, onde só a escuna voava sobre a superfície enluarada, ao vento e dizer tudo que eu sabia em meu íntimo que devia ser dito
como uma chama alada. - mas minha rebelião me conteve e permanecí em silêncio, enquanto
“Você realizou muito em sua vida de trabalho” , prosseguiu ele, ele se voltou e foi juntar-se aos outros e logo estava conversando de
suavemente. “ Seu pensamento foi claro e você não se deixou assus­ um modo tão alegre e à vontade que todos pareceram esquecer que
tar diante de qualquer fato eterno pelas dificuldades das pesquisas. havia alguma coisa diferente nele ou em seu fabuloso barco, que
Mas em sua área existencial você perdeu muito mais do que podería agora tinha dado a volta e nos levava de volta ao Loch Scavaig com
imaginar. Contentou-se em ser uma receptora passiva de influências, a velocidade do vento. Quando o barco chegou ao seu local de anco­
não aprendeu completamente a maneira de combiná-las e utilizá-las. ragem, vimos que toda a tripulação do “ Diana” estava no convés
Você venceu e dominou os obstáculos que em geral se colocam no observando nossos movimentos, que devem ter valido a pena obser­
caminho do progresso das mulheres - sua inerente infantilidade, seu var, considerando o espantoso espetáculo que era o “ Sonho” com
prazer em imaginar-se negligenciada ou ofendida, seu modo absurdo suas velas iluminadas contrastando com o escuro lago e as negras
de dar enorme importância a coisas que são meras futilidades, seu montanhas - o brilho das velas chegava a eclipsar o brilho do luar.
desejo de equilíbrio e o tolo ressentimento que elas revelam quando Logo que ancoramos esse brilho começou a diminuir até se apagar
a menor de suas faltas lhes é revelada - tudo isso é coisa passada totalmente, quando então os homens baixaram as velas e as enrola­
para você. que está livre das algemas da estupidez que toma tantas ram, emitindo gritos musicais enquanto trabalhavam. Terminada essa
mulheres pessoas impossíveis de se lidar do ponto de vista masculi­ tarefa eles se retiraram, e só dois serviçais ficaram atendendo os
no. e que obriga os homens a avaliá-las como intelectualmente infe­ convidados, trazendo vinho e frutas como a última oferenda da noi-

[ 223 ]
te, antes que partíssemos. Uma ve2 maís a doce voz do menino egip­ do o verão na Europa, o que é uma sorte para você, pois não terá
cio se fez ouvir, após um prelúdio de acordes de harpa. que fazer uma viagem muito longa” .
Boa noite, adeus! Se por destino nunca mais nos vermos Encerramos ali nossa conversa pois os outros se aproximaram. Em
Lembra que as horas que passamos juntos foram lindas! poucos minutos já tínhamos deixado o "Sonho” para trás e voltáva-
Boa noite, adeus! Se daqui por diante seguirmos diferentes caminhos mos para o "Diana” . Enquanto a lancha fazia o seu percurso, fiquei
na vida. com os olhos fixos até o último momento possível na figura de
Lembra que procurei caminhar ao teu lado até o fim! Santoris que estava com os braços cruzados, observando-nos. Será
Boa noite, adeus! Quando as coisas do presente se fundirem ao pas­ que o verei de novo, me perguntei? Que estranho impulso era aquele
sado, que me levara a opor-me a ele de certa forma, e me determinara a
Lembra que te amo e te amarei até o final dos tempos! buscar por mim mesma as coisas que ele já havia aprendido e domi­
Meu coração bateu forte, em dor e agonia. Seria, podería ser ver­ nado? Eu não sabia a resposta. Só sabia que. desde o momento em
dade que era por minha própria vontade que eu ia me separar da­ que ele havia iniciado a narrativa pessoal sobre seus próprios estu­
quele que eu sabia e sentia ser tudo para mim? dos e experiências, eu tinha resolvido passar pelo mesmo treinamento,
"Boa noite” , disse uma voz falando baixo ao meu ouvido. fosse ele qual fosse, aprender o que ele havia aprendido, se fosse
Tive um sobressalto. Eu tinha me perdido na vastidão do pensa­ possível. Eu não achava que teria o mesmo êxito, mas certamente
mento e das lembranças. Santoris estava ao meu lado. adquiriría algum conhecimento novo. A extraordinária atração que
ele exercia sobre mim estava se tornando grande demais para que eu
"Seus amigos já estão indo, e eu também terei partido amanhã!”
pudesse resistir, mas ainda assim eu me determinara a resistir porque
Uma grande desolação tomou conta de meu ser,
tinha dúvidas sobre suas causas e efeitos. Eu sabia que o amor não
"Oh, não! Certamente você não vai. . . ” podia ser analisado, como Santoris dissera - mas o amor com o qual
“ Eu devo", respondeu ele baixinho. "Não estará você partindo? eu havia sonhado sempre não era o amor que contenta a maior parte
Foi uma grande alegria encontrá-la, ainda que por tão pouco tempo da humanidade - o mero deleite físico que termina com a sociedade.
- foi uma pausa em minha jornada - uma tentativa de entendimento, Não, eu queria um amor não temporário, mas eterno. Longe de
embora você tenha resolvido que devemos nos separar uma vez Santoris eu achava fácil entregar-me ao sonho de felicidade que bri­
mais” . lhava diante de mim como a miragem da terra prometida- mas em sua
Esfreguei minhas mãos com um certo desespero. companhia alguma coisa me segurava e me advertia para que não me
"Que posso fazer? Se eu cedesse agora aos meus impulsos. . ." atirasse com muita pressa a uma felicidade puramente pessoal.
“ Ah, se você o fizesse. . . ” Disse ele melancólicamente. "Mas Chegamos ao “ Diana” em poucos minutos. Tínhamos feito a
não o fará e talvez seja melhor assim. Sem dúvida está escrito que curta viagem quase em silêncio, pois meus companheiros pareciam
você deve ter absoluta certeza de seus sentimentos, desta vez. Não estar tão imersos em seus pensamentos quanto eu. Quando começa­
vou atrapalhar. Boa noite - e feliz jornada!” mos a nos dirigir para os camarotes o Sr. Harland me deteve e fica­
Olhei para ele com um sorriso, embora as lágrimas estivessem mos a sós por alguns momentos.
brotando de meus olhos. “ Santoris vai partir amanhã” , disse ele. “ Provavelmente vai en­
“Não vou dizer adeus!” Respondí. funar aquelas maravilhosas velas e partir antes do nascer do Sol.
Ele levou minhas mãos aos lábios. Sinto muito!”
“ E bondade sua!” Disse ele, "amanhã terá noticias minhas sobre “ Eu também” , respondí. “ Mas, afinal de contas, o senhor não fa­
Aselzion e a melhor maneira de ir ao seu encontro. Ele está passan­ zia muita questão que ele ficasse, não é mesmo? Suas teorias de vida

1224] [225]
são curiosas e perturbadoras, e o senhor o considera uma espécie de
charlatão que brinca com os mistérios da terra e do céu! Se ele tem
mesmo a capacidade de ler pensamentos, não pode estar se sentindo
lisongeado com a opinião que o Dr. Brayle, por exemplo, tem dele!’'
As sobrancelhas dele se franziram e ele parecia perplexo.
“ Ele disse que podia curar minha doença” , continuou ele, “e XII
Brayle declara que essa cura é impossível” .
“ O senhor prefere acreditar no Dr. Brayle, naturalmente?” UMA CARTA DE AMOR
“Brayle é um médico renomado” , replicou ele. “ Um homem que
tirou o diploma de medicina e sabe do que está falando. Santoris é Para os que são ignorantes ou indiferentes às forças psíquicas que
sò um místico” . atuam por trás de toda a humanidade, criando as causas que se tor­
"Compreendo!” E estendi a mão para lhe dar boa noite. “ Ele está nam efeitos, s<5 pode parecer estranho, e até excêntrico ou anormal,
um século à frente de seu tempo, e talvez seja melhor morrer do que que uma pessoa qualquer, ou duas pessoas, se fosse o caso, se des­
se antecipar um século” . sem ao trabalho de tentar descobrir a intenção imediata e o objetivo
O Sr. Harland riu enquanto apertava cordialmente minha mão. máximo de suas vidas. A rotina diária de trabalho, alimentação e so­
“Enigmática como sempre!” Disse ele. “Você e Santoris devem no, intercalada por pequenas convenções sociais e obrigações que
ser espíritos irmãos!” servem de pausa na persistente monotonia dessa rotina, deveria ser,
“Talvez sejamos!” Respondí em tom descuidado, e me afastei. na opinião deles, suficiente para qualquer criatura sadia, bem equili­
“Coisas mais estranhas que essas já aconteceram!” brada e dotada de auto-respeito. Se um homem ou mulher escolhe fi­
car de fora da trilha comum e diz: “ recuso-me a viver num caos de
incertezas - farei o esforço de saber por que esse átomo particular
que sou Eu é considerado uma parte necessária, ainda que ínfima, do
Universo” — essa pessoa é encarada com desconfiança e desdém.
Especialmente no assunto do amor, em que as metades mais díspares
insistem em se encaixarem como se pudessem formar um todo per­
feito, é considerada tola a mulher que entrega seu afeto de um modo
considerado “ não aconselhável” , e um homem é considerado como
alguém que “arruinou sua carreira” se permite que uma grande pai­
xão o domine, ao invés de ser dominado por um tipo de sentimento
calmo, bem ponderado e respeitável que deságua num casamento
igualmente calmo, bem ponderado e respeitável. Essas são as leis e
regras da ordem social, excelentes em muitos aspectos, mas fre­
quentemente responsáveis por grande parte da desgraça que acom­
panha muitas formas de relacionamento humano. Não é possível à
mente comum, entretanto, perceber que em algum lugar e de alguma
foima, duas partes componentes de um todo têm que se reunir, mais
cedo ou mais tarde, e que nisso pode se encontrar a chave para a

[226] [227]
maioria das grandes tragédias amorosas do mundo. Metades erradas
unidas, e as metades certas encontrando-se e se fundindo de maneira efetivamente era) quanto à influência que ele desejava exercer sobre
ela e o pai. Parecia-me necessário, portanto, afastar-me: além disso,
precipitada e inoportuna por causa da irresistível Lei que as atrai
eu tinha decidido que todos os anos que havia passado tentando en­
mutuamente - essa a explicação de muitos desastres e muito deses­
contrar um caminho para os segredos da Natureza não seriam des­
pero, como também de muitas consecuções e vitórias da vida. O so­
perdiçados. Eu também aprendería o que Rafei Santoris tinha apren­
frimento ou o triunfo, conforme seja o caso, jamais diminuirá, até
dido na Casa de Aselzion. Talvez então estaríamos no mesmo nível,
que os seres humanos aprendam que no amor, a maior e mais divina
seguros de nós mesmos e do outro! Meus pensamentos fluíam nesse
Força da terra ou do céu, a Alma, e não o corpo, deve ser conside­
ritmo na solidão e no silêncio da noite - uma solidão e um silêncio
rada em primeiro lugar, e que ninguém poderá cumprir as mais ele­
tão profundos que o leve empuxo da água contra os lados do iate pa­
vadas possibilidades de sua natureza, até que cada indivíduo esteja
reciam gerar um som rude e invasor, embora fosse mínimo. Minha
unido àquela única outra parte de si mesmo, uno com ela em pensa­
escotilha estava aberta, eu podia ver a lua baixa, parecendo um rosto
mento e pela compreensão intuitiva de suas necessidades maiores.
marcado pela tristeza. Nesse momento ouvi o ruído de remos. Le­
Eu sabia muito bem de tudo isso, tinha sabido por muitos anos, e
vantei assustada e fui até o sofá onde, ajoelhando-me nas almofadas,
não vi necessidade de pensar no assunto, em meu camarote aquela
fíquei em posição de olhar através da escotilha. Deslisando ali perto
noite; eu estava agitada demais para poder dormir, e inquieta demais
estava um pequeno bote e meu coração saltou de alegria quando re­
até para pensar, O que tinha acontecido fora, simplesmente, que por
conhecí em Santoris o homem dos remos. Ele sorriu ao me ver
uma curiosa série de coincidências eu havia sido levada a um novo
olhando para elei ficou de pé no bote e guiou-o até encostar no iate;
contato com a Alma individual de um homem que eu conhecera e seu rosto ficou no nível da escotilha. Ele pôs a mão no pequeno
amara muitos séculos antes. Para o psíquico, essas circunstâncias peitoril.
não parecem estranhas como o seriam para a grande maioria que não “ Ainda acordada?" Disse ele baixinho. “ No que estava pensan­
percebe nenhuma força maior do que a Matéria e que não compreen­ do? Na lua e no mar? Ou outro mistério igualmente profundo e in­
de o Espírito, embora as mais medíocres dessas pessoas entrem em compreensível?”
contato com gente que sentem ter conhecido antes, sem compreender
Estendi a mão para cobrir a dele. num gesto involuntário de cari­
a razão dessa impressão. Em meu caso, eu não só tinha que conside­
nho.
rar a identidade particular que parecia tão intimamente ligada com a “ Eu não podia deixá-la ir sem uma última palavra” , disse ele.
minha, como também os outros indivíduos com os quais eu tinha me “ Por isso eu trouxe uma carta: - ele me passou um envelope lacrado
associado, ainda que com relutância - Catherine Harland e o Dr. ao dizer isso - “que explica como encontrar Aselzion. Eu mesmo
Brayle especialmente. Sem ter consciência disso, o Sr. Harland tinha escreverei a ele. preparando-o para sua chegada. Quando você o en­
sido a ligação entre os elos de uma corrente partida —seu secretário, contrar, compreenderá como é difícil a tarefa que se propõe realizar.
o Sr. Swinton, ocupava o lugar da nulidade que é sempre necessária Caso fracasse, isso causará uma tristeza maior em você do que em
em qualquer grupo ligado intelectual ou psiquicamente - e eu tinha mim —pois eu podería facilitar as coisas. .
toda a certeza, sem qualquer motivo especial para essa convicção, “ Não quero que as coisas me sejam facilitadas” , respondí, “ quero
que se eu ficasse mais tempo na companhia da senhorita Harland. a fazer tudo que você fez - quero provar finalmente que sou dig­
amizade ocasional dela por mim se tomaria o mesmo antigo ódio que na. . . ”
ela tinha sentido há longo tempo - um ódio fomentado pelo Dr. Eu me interrompí e olhei para ele. Santoris sorriu.
Brayle que obviamente estava planejando casar-se com ela e ficar “ Bem!” Disse ele. “ Você está começando a lembrar a felicidade
com sua fortuna, e que me considerava um obstáculo (que eu que tantas vezes atiramos fora por bobagens?”

[228] [229]
Fiquei calada embora envolvesse com mais força a máo dele. A só ficaremos separados por pouco tempo. Depois, terei toda a cer­
suave radiancia da sonolenta lua sobre a água tranquila fazia tudo teza. . . ”
parecer irreal, um sonho, e eu me senti quase inconsciente de estar “Sei, terá toda a certeza do que já sabe com certeza agora!” Dis­
viva por um momento, tão completamente a vida me parecia absor­ se ele. “Tão certa quanto qualquer criatura imortal pode estar a res­
vida por uma influência mais forte que qualquer poder que eu já ti­ peito de uma verdade imonedoura! Sabe há quanto tempo já estamos
vesse conhecido. separados?”
“ Aqui estamos nós dois” , continuou ele, suavemente, “ sozinhos Sacudi a cabeça, sorrindo de leve.
na noite, um com o outro, próximos de uma perfeita compreensão.. . “ Pois eu não vou lhe dizer!” Respondeu ele. “ Você podería se
mas ainda assim determinados a não compreender! Com que fre­ assustar! Entretanto, por todos os poderes do céu e da terra, não
quência isso acontece! Em todos os momentos e em todas as horas, cruzaremos tais distâncias novamente. separados - não se eu puder
em todo o mundo, há almas como as nossas, isoladas por barras de impedir!”
aço em seu próprio jardim, recusando-se a abrir os portões! Essas “ E você pode?” Perguntei com certa melancolia.
almas conversam por cima dos muros, através de fendas e rachadu- “ Posso! E o farei! Sou mais forte que você. e o mais forte sempre
ras, olham através dos buracos das fechaduras —mas não abrem os vence! Seus olhos parecem espantados - há cintilaçóes de luar neles,
portões. Que felicidade tive esta noite de encontrar pelo menos uma sáo olhos bonitos, sem nenhuma raiva. Eu já os vi carregados de
escotilha aberta!” ódio - um ódio que me apunhalou bem no coração! Mas isso foi em
Ele virou o rosto para cima, cheio de luz e riso. e me olhou, e dias passados, quando eu era mais fraco que você. Desta vez as coi­
então pensei como seria fácil atirar fora todas as minhas dúvidas e sas sáo diferentes - eu sou o mais forte!”
escrúpulos, desistir da idéia de continuar buscando o que eu talvez “ Ainda não!” Disse eu resolutamente, tirando minha mão da dele.
nunca encontrasse, e aceitar a alegria que me era oferecida e o amor “Não cederei a nada. nem mesmo à felicidade, até eu saber!”
que em meu intimo eu sabia ser meu! Mas alguma coisa ainda me Uma sombra obscureceu a beleza de suas feições.
impedia, me puxava para trás e para longe - algo que me dizia inte­ “ É isso que o mundo diz a respeito de Deus - não cederei até eu
riormente que eu ainda tinha muito a aprender antes de ousar aceitar saber! Mas ele é como barro em Suas mãos, sempre, e jamais vem a
uma felicidade que não tinha feito por merecer. Apesar de tudo isso, saber!”
consegui reencontrar minha voz. Fiquei em silêncio. Houve uma pausa em que não se ouvia ne­
"Rafei. . Comecei, para parar em seguida, surpresa com minha nhum som a não ser o leve ruído da água sob o bote.
ousadia em chamá-lo pelo nome. Ele se aproximou mais de mim. “ Boa noite!” Disse ele.
com o bote balançando sob seus pés. “ Boa noite!” Respondí e. levada por um incontrolável impulso,
“Continue!” Disse ele, com um pequeno tremor na voz. “ Meu beijei a mão firme que continuava apoiada na escotilha, tão próxima
nome nunca soou tão doce aos meus ouvidos! O que você gostaria de mim. Ele me olhou com uma luz nova nos olhos.
que eu fizesse?” “ Esse é um sinal de graça e consolo?" Perguntou ele, sorrindo.
“ Nada!” Respondí, com medo de mim mesma. “ Nada. a não ser o “ Bem, estou contente! Esperei tanto tempo, posso esperar um pouco
seguinte: pense que não estou sendo apenas teimosa e rebelde ao me mais” .
separar de você por uns tempos —pois se for verdade. . .” Falando isso, ele se soltou da escotilha e logo estava sentado no
“ O quê?” Interpôs ele. gentilmente. bote. remando, afastando-se pela água banhada de luar. Fiquei ob­
“ Se for verdade que somos amigos não por algum tempo mas por servando cada movimento dos remos que aumentavam a distância
toda a eternidade.. eu disse, em tom agora mais firme, “então entre nós, esperando que ele olhasse para trás, acenasse ou voltasse.

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mas não! O bote logo desapareceu, depois de tomar-se um ponto realmente justificado seu desejo de ser considerada mais do que uma
preto no mar, Eu estava só. Prendendo com dificuldade as lágrimas simples mulher - embora já tenha se elevado acima desse nível. A
que me vieram aos olhos, fechei a escotilha e puxei a pequena corti­ vida das mulheres em geral - e também dos homens - é tão pequena,
na - e então sentei-me para ler a carta que ele tinha me dado. Era sórdida e autocentrada. graças à sua recusa obstinada em ver algo
assim: mais e melhor do que as coisas que os cercam de imediato, que não
“ AMADA: vale a pena considerá-la à luz do conhecimento mais profundo que
“Chamo-a por esse nome como sempre a chamei em muitos ciclos ensina a vida real por trás da vida aparente. No tipo de existência
de tempo - deve ser um som tão conhecido aos seus ouvidos como a comum os homens e as mulheres fazem suas uniões com pouco mais
nota musical que soa em ressonância com outra nota semelhante na de inteligência ou ponderação do que os animais inferiores; os re­
distância. Você não ficou satisfeita com as provas dadas por sua sultados dessas uniões podem ser vistos nas nações degeneradas e
própria consciência interior, que atestam o fato inalterável de que agonizantes de hoje. Além disso, contentam-se em nascer por ne­
você e eu somos, e devemos ser, um só - que brincamos com o des­ nhuma razão melhor do que a de morrer - e por mais vezes que se
tino, mas em vão; para você não basta saber (como você sabe) que lhes diga que não existe morte, eles recebem essa afirmação com a
no momento em que nossos olhares se encontraram nossos espíritos mesma incredulidade indignada com que os sacerdotes de Roma re­
acorreram um para o outro em súbito êxtase e se tivéssemos ousado ceberam a afirmação de Galileu de que a Terra se move ao redor do
ceder a ele, nos fariam superar qualquer convenção e nos transfor­ Sol. Mas nós - você e eu - que sabemos que a vida. sendo toda a
maria em nada mais que duas chamas de um mesmo fogo! Se você Vida, não pode morrer - deveriamos ser mais inteligentes no atual
for tão honesta consigo mesma como eu sou comigo mesmo, admiti­ período de existência e não duvidar de nossa mútua capacidade para
rá que assim é - que a emoção que nos invadiu era destituída de ra­ o amor e para o perfeito mundo de beleza que o amor cria. Eu não
zão e de forma, estava totalmente além de qualquer análise, e ao duvido - meus dias de duvidar já passaram, e a chibata da tristeza já
mesmo tempo era mais insistente do que qualquer outra força agindo me obrigou a tomar forma e força, mas você hesita - porque ficou
em nossas vidas. Mas não basta para você perceber tudo isso, nem enfraquecida por muitas incompreensões. Entretanto, foi para mim
reconhecer em cada passo de sua jornada a gradativa condução de um conforto parcial colocar as coisas em posição diante de você.
sua alma em direção à minha; desde a última noite que você passou e tendo feito isso. sinto que você deve ficar livre para seguir seu
em casa. quando todas as fibras de seu ser se aqueceram pela pres­ próprio caminho. Não vou dizer “ Eu a amo” porque essa frase vinda
ciencia de alegria próxima, até o momento presente, inclusive atra­ de mim seria pura insensatez, já que sei que você será minha, agora
vés de sonhos de infinitas bênçãos dos quais participei.. . não! Isso ou ao fim de muitos séculos. Sua alma é tão livre da morte quanto a
não bastou para você! Você precisa “ saber", precisa aprender, pre­ minha —será eternamente jovem como a minha - e a força que nos
cisa penetrar em mistérios mais profundos, estudar e sofrer até o dá vida e amor é divina e indestrutível, e por isso para nós não terá
fim! Pois bem. se assim tem que ser, que assim seja: quanto a mim, fim a felicidade que nos pertence e que podemos reclamar quando o
confiarei na eterna perfeição das coisas para salvá-la de sua própria desejarmos. Quanto ao resto, deixo que você decida - você irá para
temeridade e trazê-la de volta para mim - pois não posso mais viver a Casa de Aselzion e talvez fique lá por algum tempo. De qualquer
sem você. Já fiz muito, e muito me resta por fazer, mas se devo rea­ forma, quando partir dessa Casa. terá aprendido muito e saberá o
lizar, você deverá coroar essa realização; se minha ambição é en­ que é melhor para você e para mim.
contrar a integralidade, só você poderá sê-la para mim. Se você tem “ Minha amada, entrego-a a Deus com minha alma que a adora.
a força e a coragem de enfrentar as tribulações para as quais Asel- “ Sempre seu.
zion envia aqueles que escolhem seguir seus ensinamentos, terá RAFELSANTORIS"

[232] [ 2331
Um papel dobrado caiu do envelope, contendo completas instru­ uma sensação de total desolação no ar, e minha própria solidão se
ções sobre como fazer minha viagem para a misteriosa Casa de fez presente com avassaladora amargura e força. Era uma manhã
Aselzion - e fiquei feliz por não ter que ir tão longe quanto havia
calma e ensolarada, e quando subi ao convés o magnífico cenário de
imaginado. Comecei imediatamente a fazer meus planos de deizar os Loch Scavaig estava diminuído, a meu ver, pelo brilho excessivo do
Harlands logo que possível, e antes de me deitar escrevi para minha
Sol. A água estava lisa como óleo, e onde o “ Sonho” estivera anco­
amiga Francesca que certamente estaria esperando minha visita em
rado, exibindo suas elegantes linhas e mastros contra o fundo das
Invemess-shire para logo depois de terminado o cruzeiro no iate dos
montanhas, agora havia um terrível vazio. Toda a paisagem parecia
Harlands. Em poucas palavras explique] que assuntos de natureza
intoleravelmente monótona e sem vida, e eu me senti impaciente pa­
premente me chamavam ao exterior por duas ou três semanas, e que
ra sair dali. Eu disse isso durante o café da manhã, ao qual Catherine
eu esperava estar de volta à minha casa na Inglaterra antes do final
nunca comparecia; eu me acostumara a sentar-me à cabeceira, para
de outubro. Como no momento estávamos perto do final de agosto,
achei que estava me concedendo uma boa margem de tempo para servir o chá e o café. O Dr. Brayle me pareceu maldosamente inte­
minha ausência. Quando terminei de dobrar e selar a carta, um sono ressado por minha observação.
irresistível me acometeu e a ele me entreguei agradecida. Esse sono “ O interesse que havia neste lugar obviamente desapareceu com o
me dominou a ponto de nem poder pensar; deitei a cabeça no traves­ Sr. Santoris. no que lhe diz respeito!” Disse ele. “ Sem dúvida ele é
seiro com a pacífica Certeza de que tudo estava bem. que tudo esta­ um homem notável e possui um notável iate - mas fora disso não sei
ria bem, e que ao tentar me certificar das intenções do meu Destino se este espaço não está melhor sem sua companhia” .
nas áreas do amor e da vida, eu não estava sendo tola. Naturalmente, “ Acredito que esse seja o seu sentimento” , disse o Sr. Harland.
se eu fosse julgada pela maioria das pessoas, seria rotulada de mais que tinha se mostrado incomumente taciturno e preocupado. “ Suas
que tola em vista das impressões e experiências que estou tentando teorias são diametralmente opostas às dele, e. por acaso, as minhas
narrar neste livro, mas esse tipo de julgamento não me afeta, já que também o são. Mas confesso que gostaria de ter testado sua capaci­
a insensatez diária e de todas as horas dessa maioria é tão visível e dade médica - ele me afirmou positivamente que poderia curar mi­
pronunciada, e traz tantos resultados insatisfatórios e freqüentemente nha doença em três meses” .
desastrosos, que a minha —se realmente fosse tolice escolher as coi­ “ Por que o senhor não o deixa tentar?” Sugeriu Brayle, com um
sas eternas e duradouras em lugar das efêmeras e temporais - não ar forçado de indiferença. “ Ele será um fazedor de milagres se puder
pode deixar de parecer leve, em comparação. O amor, como o mun­ curar o que toda a profissão médica sabe ser incurável. Creia que
do em geral o concebe, não vale o trabalho de obtê-lo - pois se nos estou perfeitamente disposto a sair do caso em favor dele, se o se­
dedicamos a pessoas que com o tempo devem ser tiradas de nós pela nhor assim quiser” .
morte ou outras causas, desperdiçamos a riqueza de nossas afeições. As sobrancelhas hirsutas do Sr. Harland se uniram numa ruga sa­
Somente como força perfeita, eterna e indissolúvel é o amor uma turnina.
coisa valiosa, e a menos que se possa ter certeza no próprio ser que “ Ah, você está disposto?” Perguntou ele. “ Pois duvido muito! E
existe força e fé suficientes para tomá-lo perfeito, será melhor nada se você está, eu não estou. Aborrece-me pensar nisso. E nada me
ter a ver com o que afinal é a mais divina das paixões - a paixão da intrigou mais a respeito de Santoris do que sua aparência extraordi­
criatividade da qual emana todo pensamento, todo esforço e toda nariamente jovem. Isso é um problema para mim e eu gostaria de re­
consecução. solvê-lo” .
Quando acordei na manhã seguinte ninguém precisou me dizer “Ele parece ter trinta e oito a quarenta anos” , disse Brayle. “ Eu
que o “Sonho" tinha enfunado suas velas mágicas e partido. Havia diria que essa é a idade dele” .
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“ A idade dele!” Disse o Sr. Harland coro urna risada breve e “ Está bem, registre tudo", disse o Sr. Harland rindo. “ Mas seja
zombeteira. “ Ora, ele tem mais de sessenta anos, estou convencido! cuidadoso com suas anotações. O colar - segundo Santoris - perten­
Esse é o mistério. Não há qualquer marca de “ velhice” nele. Ao in­ ceu ao Dr. Brayle quando sua personalidae era a de um nobre italia­
vés de envelhecer, ele remoça” . no que residia em Florença mais ou menos em 1537 - ele estava
Brayle olhou intrigado para o patrão. usando essa jóia numa ocasião infeliz na qual assassinou um homem,
“ Já insinuei", disse ele, "que ele pode não ser o Santoris que o e desde aquele período a jóia não teve grande relevância. Agora que
senhor conheceu antes em Oxford. Pode ser um parente, passando ela voltou às suas m ãos.. . ”
pelo Santoris original com bastante arte. . . ” “ Papai, quem lhe contou tudo isso?”
“Isso não resistiría a um minuto de argumentação" interpôs o Sr. A voz que assim falou era cortante e fina. e todos nos voltamos,
Harland. “E lhe digo por que não. Certa vez tivemos uma discussão surpresos, e vimos Catherine parada na porta do salão, branca e trê­
e acabei cortando o braço dele com um canivete - foi um corte pro­ mula. com os olhos parecendo ter visto um fantasma. O Dr. Brayle
fundo". Nesse ponto um súbito tremor - de vergonha ou remorso, correu para ela.
quem sabe? - perpassou o rosto rude, mudando sua expressão por “Senhorita Harland. por favor volte ao seu camarote - não está
alguns momentos. “Foi tudo culpa minha - eu tinha um tempera­ forte o bastante para.. . ”
mento terrível e ele era calmo, uma calma que me irritava, e além “Qual é o problema. Catherine?” Perguntou o Sr. Harland. “ Só
disso eu estava embriagado. Santoris sabia que eu tinha bebido e estou repetindo umas bobagens que Santoris me falou sobre o colar
queria me levar de volta ao quarto antes que eu atraísse atenção e a de pedras preciosas..
desgraça quando. . . quando aquilo aconteceu. Lembro do sangue “Não foram bobagens!” Gritou Catherine. “ É tudo verdade! Eu
escorrendo do braço dele, o que me assustou e me tomou sóbrio. me lembro de tudo — nós planejamos o assassinato juntos —ele e
Pois bem, quando subiu a bordo na outra noite, ele me mostrou a ci­ eu!” E ela apontou para Brayle. “ Eu lhe contei como os dois aman­
catriz do ferimento que eu havia provocado. Por isso sei que se trata tes se encontravam em segredo, aqueles pobres seres perseguidos!
do mesmo homem” . Como - o grande artista que ele (Brayle) patrocinava —ia ao quarto
Ficamos todos em silêncio. dela entrando pelo jardim, à noite, e como eles ficavam conversando
"Ele estava sempre estudando o “ oculto” , continuou o Sr. Harland. durante horas atrás das roseiras.. . e ela, ela! Eu a odiava por achar
“Não me surpreendeu muito que ele conseguisse "adivinhar” que que você a amava! Você” . Novamente Catherine voltou-se para o
você tinha uma jóia antiga no bolso, a noite passada. Ele chegou a Dr. Brayle, agarrando o braço dele. “ Sim. eu pensava que você a
me dizer que ela pertencera a você há vários séculos, quando você amava! Mas. ela amava o artista! E . . . “ Nesse ponto ela parou de
era uma outra pessoa muito importante". falar, tremendo violentamente, parecendo perder-se em idéias caóti­
O Dr. Brayle riu alto, de um modo que era quase rude. cas. “ E agora o iate se foi e temos paz! Talvez possamos esquecer
“Que Accionista ele deve ser!" Exclamou ele. "Por que ele não tudo de novo! Pudemos esquecer por algum tempo, mas tudo voltou
escreve um romance? Sr. Swinton, gostaria que você tomasse nota para nos perseguir e aterrorizar..
de algumas coisas que o Sr. Santoris disse a respeito daquele colar - Com essas palavras, que saíram na forma de grito inarticulado,
desejo guardar o registro disso". ela começou a cair num desmaio, mas o Dr. Brayle conseguiu evitar
O Sr. Swinton assentiu com um aceno. que ela caísse no cháo.
“Certamente o farei” , disse ele. “ Felizmente eu estava presente Tudo virou uma grande confusão, e enquanto os serviçais se
quando o Sr. Santoris expôs suas curiosas idéias sobre a jóia para o apressavam em buscar água fria. sais e outros meios de reviver a
Sr. Harland". mulher desmaiada, que estava sendo levada para um sofá. atendida

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pelo Dr. Brayle: aproveitei para sair dali e subí até o convés, sentin- “ Prefiro não perder tempo” , respondí, para depois dizer impulsi­
do-me dominada e espantada pelos inadvertidos e estranhos episó­ vamente: “caro Sr, Hariand, Catherine se sentirá bem melhor depois
dios em que fora envolvida. Alguns minutos depois o Sr. Hariand que eu tiver partido - sei disso! O senhor poderá prolongar a viagem
apareceu, com ar preocupado e perplexo. de iate o que será bom para sua saúde - e eu ficaria muito infeliz se
“O que significa tudo isso?” Perguntou ele. “Estou perdido a mesma fosse encurtada por minha causa. .
quanto à condição de Catherine. Ela está histérica, naturalmente, Ele me interrompeu:
mas o que causou isso? Que idéia louca ela pôs na cabeça sobre um “Por que você diz que Catherine se sentirá melhor depois que vo­
assassinato?” cê partir?” Perguntou ele. “Foi um pedido particular dela que você
Olhei para longe, para o vasto mar cheio de Sol. nos acompanhasse” .
"Na verdade não posso dizer nada’', disse eu, finalmente. “Estou “ Ela não sabia o que a levava a ter esse desejo", disse eu; vendo
no escuro tanto quanto o senhor. Penso que ela está muito nervosa e o olhar de espanto dele, sorri. “ Não sou um espírito que seja harmô­
talvez tenha levado algumas coisas que Santoris disse demasiado a nico com o dela, nem com nenhum dos outros, na verdade! Mas ela
sério. Além disso” - neste ponto hesitei um pouco - “ ela disse que foi extremamente gentil, e o senhor também. Agradeço-lhes profun­
estava cansada deste cruzeiro: na realidade, acho que é só um caso damente por tudo que fizeram por mim, vocês fizeram muito mais do
de nervos” . que imaginam! Apenas sinto que está na hora de ir - agora, antes
“Ela deve estar com os nervos muito abalados se eles a persuadi­ que. . . ”
ram de que ela e Brayle cometeram um crime juntos, há muitos sé­ “ Antes que o quê?” Perguntou ele.
culos” , disse o Sr. Hariand com irritação. “ Nunca ouvi tanta tolice “Bem. antes que passemos a nos odiar!” Disse eu com ar de brin­
em toda a minha vida!” cadeira. “O Dr. Brayle julga minha presença nociva para Catherine.
Fiquei calada. tanto quanto o era a de Santoris. Estou cheia de “ teorias” que ele
“Pedi ao capitào Derrick para levantar âncora e nos tirar daqui” , considera prejudiciais - e talvez elas sejam, em relação a ele!”
continuou ele, falando bruscamente. "Vamos partir para Portree O Sr. Hariand chegou mais perto de onde eu estava encostada na
imediatamente. Existe alguma coisa maléfica que cheira a bruxaria amurada, e falou em tom mais baixo.
neste local” - ele olhou em volta, enquanto falava, observando o “Diga-me", disse ele, “e desejo que o faça com perfeita franque­
esplendor das montanhas que brilhavam com clareza quase cristalina za. o que é que você vê em Brayle que desperta esse espírito de an­
ao Sol da manhã - "Eu me sinto enfeitiçado!” tagonismo entre os dois?”
“Pelo quê?" Perguntei. “Se eu lhe desse uma resposta direta sobre o que julgo ser a ver­
“Por lembranças” . Respondeu ele. “E não são das mais agradá­ dade. o senhor se ofendería?” Perguntei.
veis!” Ele sacudiu a cabeça.
Olhei para ele, e após pensar um pouco resolví que havia chegado “ Não, não ficarei ofendido. Simplesmente quero saber o que você
a oportunidade de falar no assunto de minha partida, e foi o que fiz. pensa: não esquecerei o que você disser e verei se é correto.”
Eu disse que achava que já tinha tido férias suficientes e que teria “ Bem, em primeiro lugar” , disse eu, "não vejo nada no Dr.
que tomar o vapor regular de Portree na manhã depois de nossa che­ Brayle que não possa ser visto em centenas de homens voltados para
gada lá, para poder chegar em Glasgow tão cedo quanto possfvel. O as coisas mundanas, como ele. Mas ele não é um verdadeiro médico,
Sr. Hariand me examinou com curiosidade. por que não faz um esforço real para curar o senhor de sua doença,
“Por que você quer tomar o vapor?” Perguntou ele. "Por que não enquanto que Catherine não tem doença alguma que precise ser cu­
ir conosco até Rothesay. por exemplo?” rada. Ele simplesmente dá corda à fraqueza dos nervos dela, uma

[ 2 38 J [239]
fraqueza que ela mesma criou por se voltar mórbidamente para si hiato entre o nascimento e a morte, da melhor maneira possível e
mesma e suas tristezas pessoais; todos os planos futuros dele em re­ pronto! Gostaria que você aceitasse esses fatos racionalmente - fica­
lação a ela e ao senhor já foram acertados. São bastante claros e ra­ ria mais equilibrada na ação e no pensamento..
cionais. O senhor vai morrer - na realidade, na opinião dele é neces­ “Se eu pensasse como o senhor", interrompi, “ me atiraria agora
sário que o senhor mona - seria muito dificultoso e inconveniente deste iate para o mar. e deixaria que as águas me tragassem! Não
para ele se, por algum motivo, o senhor se curasse e continuasse a havería razão nem sentido para viver num "hiato" que só leva ao
viver. Quando o senhor tiver partido, ele se casará com Catherine, nada".
sua única filha e herdeira, e não terá mais preocupações pessoais. Ele passou a mão na testa, tomado de perplexidade.
Desgosta-me essa atitude egoísta da paite dele, e me intriga que o “Certamente parece inútil", admitiu ele “mas é assim. É melhor
senhor não tenha percebido. Quanto ao resto, meu antagonismo aceitar isso do que correr loucamente entre inexplicáveis espaços in­
contra o Dr. Brayle é instintivo etem sua origem no longínquo pas­ finitos” .
sado - talvez numa existência anterior!’' Fomos interrompidos pelos marinheiros que se ocupavam com a
Ele ouviu minhas palavras com atenção e paciência. partida do iate; nossa conversa não continuou após essa brusca inter­
"Bem, vou estudar esse homem com mais cuidado", disse ele. rupção. Por volta das onze horas estávamos saindo de Loch Scavaig,
após uma pausa. "Você pode ter razão. Neste momento acho que e ao olhar para os sombrios picos das montanhas que pareciam sen­
está errada. Quanto a uma cura para mim. sei que não há nenhuma. tinelas em volta da magnificência oculta de Loch Coniisk, perguntei
Consultei obras médicas a respeito e estou perfeitamente convencido a mim mesma se as visões ali contempladas teriam sido fruto de mi­
de que Brayle não pode fazer mais do que faz por mim. E agora, nha exaltada imaginação, ou se teriam base em fatos. A carta de
uma palavrinha para você". Neste ponto ele colocou a mão gentil­ Santoris estava guardada junto ao meu coração, como testemunho de
mente na minha. “Notei, não podia deixar de notar, aliás, que você que ele pelo menos era real, que eu o havia encontrado e conhecido,
se impressionou muito com Santoris - e eu diría que ele estava fas­ e que, tanto quanto fosse possível acreditar em alguma coisa, ele se
cinado por você se não soubesse de sua absoluta indiferença pelas declarara meu "enamorado!" Mas que amor era dessa forma expres­
mulheres. Deixe-me dizer-lhe que ele não é um amigo ou guia segu­ so? E teria esse sentimento começado num tempo tão longínquo?
ro para quem quer que seja. Suas teorias são extravagantes e impos­ Logo deixei de me atormentar comespeculações inúteis, e quando
síveis - sua idéia de que não existe morte, por exemplo, quando a os últimos picos das montanhas Scavaig sumiram na distância azul-
morte nos olha nos olhos todos os dias. é perfeitamente absurda - e pálida. senti como se estivesse saindo de uma terra encantada e en­
ele poderá levá-la a uma grande perplexidade, especialmente porque trando num mundo curiosamente sem graça e comum. Todos a bordo
você acredita nas coisas do oculto. Eu gostaria de persuadi-la a me do “ Diana” pareciam ocupados com ninharias. Catherine estava
ouvir seriamente a respeito de um ou dois pontos.. doente demais para aparecer naquele dia e o Dr. Brayle estava quase
“ Estou ouvindo!" Disse eu com um sorriso. todo o tempo em sua companhia. Um vago sentimento de descon­
"Pois olhe, minha menina, talvez você esteja ouvindo, mas não forto estava em todo o barco - um palácio flutuante dotado com to­
está convencida. Compreenda, se puder, que essas quimeras fantás­ dos os luxos imagináveis, mas que agora parecia um arremedo com­
ticas sobre a vida passada e futura só existem na imaginação exacer­ parado com a graça refinada e o extremo bom gosto do “ Sonho” . Eu
bada de um idealista anormal. Nada existe para além de nossa visão estava ansiosa por deixar aquele ambiente. Passei todo o dia me
real e de nossa consciência imediata da vida: sabemos que nascemos ocupando de minha bagagem, aprontando-a para minha partida, com
e temos que morrer - por que não podemos e nunca poderemos sa­ a animação de uma criança que deixa a escola para gozar as férias.
ber. Devemos tentar administrar o “ meio" entre essas duas pontas, o Fíquei encantada quando chegamos em Portree e lá ancoramos à noi-

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te. Após o jantar, por volta das nove horas, Catherine mandou me “Você tem certeza de que não acredita mesmo?” Perguntei.
chamar, tendo sabido que eu estava decidida a ir embora pela ma­ Ela ficou em silêncio por algum tempo e depois disse nervosa­
nhã. Encontrei-a no leito, com aparência frágil e pálida, com um mente:
olhar de medo que se intensificou quando entrei. “Bem. não sei se devo acreditar! Não quero pensar nisso! Prefiro
“Você vai mesmo embora?” Disse ela com voz fraca. “ Espero não pensar, é terrível! Se a alma não morre, nunca morrerá, seu far­
não tê-la ofendido?” do de lembranças deve ser pavoroso! Horrível! Nenhum inferno po­
Fui até ela e peguei sua mão magra na minha e a beijei. de ser pior que isso!”
“ De modo algum!” Respondi. “ Por que eu devería estar ofendi­ “Mas suponha que sejam lembranças belas e felizes?” Sugeri.
da?” Ela estremeceu.
“Papai está aborrecido porque você vai nos deixar” , continuou “Não poderíam ser. Todos nós falhamos em alguma coisa.”
ela. “ Ele disse que minhas tolas noções e minha imaginação histéri­ Isso era verdade, portanto não fiz nenhum comentário.
ca são a causa. Você concorda?” “ Sinto” , continuou ela com a voz hesitante “que você vai nos
“ Prefiro não dizer o que penso” , repliquei com doçura. “ Querida deixar por algum pais ainda não descoberto - e que alcançará um
Catherine, há coisas na vida que não têm explicação, por isso é me­ plano de pensamento ao qual jamais nos elevaremos. Não creio que
lhor nem tentar explicar. Mas acredite, nunca poderei lhe agradecer isso me entristeça. Não sou daquelas que desejam se elevar. Ficarei
o suficiente por este cruzeiro - você fez mais por mim do que possa satisfeita em viver alguns anos num moderado estado de felicidade
imaginar! E longe de estar “ ofendida” , estou grata! Grata de um para depois cair no esquecimento. Acho que a maioria das pessoas
modo que não sei expressar!” pensa como eu” .
Ela segurou minhas mãos e me olhou com tristeza. “ Que pouca ambição!” Disse eu. sorrindo.
“ Você vai embora” , disse ela em voz muito baixa, e talvez nunca “Sim, concordo, mas isso tudo é cansativo. Ficamos cansados
mais nos encontremos. Não acho provável que isso aconteça. As pes­ das pessoas e das coisas - pelo menos eu fico. Agora, aquele
soas muitas vezes tentam um novo encontro e não conseguem - você Santoris.. ."
já percebeu isso? Parece estar escrito que elas só se conhecem por al­ Sem querer senti o sangue afluir ao meu rosto.
gum tempo, para cumprir algum propósito, e depois se separam defi­ “Sim? O que tem ele?” Perguntei, aparentando calma.
nitivamente. Além disso, você vive num mundo diferente do nosso. “ Bem. no caso dele posso compreender que sempre esteve vivo!
Acredita em coisas que nem sequer posso compreender. Você pensa Ela voltou os olhos para mim com uma expressão de puro medo.
que existe um Deus e acha que cada ser humano tem uma alm a.. . ” “Imensamente, ativamente, perpetuamente vivo! Ele parece ter al­
“ Você não aprende as mesmas coisas nas igrejas?” Perguntei. gum domínio até sobre o ar! Tenho medo dele - muito medo! Para
Ela pareceu surpresa. mim foi um alívio saber que ele e seu estranho iate foram embora!”
"Oh, sim! Mas ninguém pensa seriamente a respeito! Como você “ Mas Catherine” , aventurei-me a dizer, “ o iate não era realmente
sabe. se pensássemos a sério no assunto, não poderiamos viver co­ “estranho” - apenas era movido por uma aplicação diferente da ele­
mo vivemos. As pessoas vão à igreja por causa das convenções, por­ tricidade. ainda não conhecida pelo mundo. Você não acharia “ es­
que isso é respeitável; mas suponha que eu fosse dizer a um clérigo: tranho” se a descoberta do Sr. Santoris fosse adotada por todos?”
se a alma é “ imortal” , então ela deve ter existido sempre e sempre Ela soltou um suspiro.
existirá - ele diría que eu sou “ não ortodoxa” . É aí que entra o “Talvez não! Mas neste momento isso parece uma espécie de ma­
enigma e a contradição - é por isso que não acredito absolutamente gia do demônio. Seja como for, estou contente por ele ter partido.
na alma.” Você ficou triste, suponho?”

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“ De certo modo sim", respondí em voz baixa. “ Eu o achei muito Ela me olhou admirada.
gentil, encantador e bem-educado - ninguém podería suplantá-lo “ Você seria expulsa de qualquer igreja cristã por causa dessas
como anfitrião ou companheiro de passeio. Certamente nada vi de palavras!” Disse ela.
“ demoníaco" nele. Quanto ao colar de pedras preciosas, existem “ Possivelmente!" Respondí, calmamente. “ Mas eu não seria nem
muitas pessoas que “ lêem o pensamento" que poderíam ter desco­ podería ser expulsa do Universo de Deus - e estou certa de que Ele
berto sua existência e dito as mesmas coisas que ele disse. . . ” não rejeitaria o amor e a adoração eterna de minha alma!”
Ela soltou um pequeno grito. Calamo-nos as duas. Depois de algum tempo, ouvi os soluços de
“Não fale nisso!" Disse ela. “ Pelo amor de Deus, não fale!” Catherine. Abracei-a e ela descansou a cabeça em meu ombro.
Ela enterrou o rosto no travesseiro, e eu esperei em silêncio que “Gostaria de sentir o mesmo que você” , murmurou ela. “ Você
ela se recobrasse. Quando se voltou novamente para mim, ela disse: deve ser muito feliz! O mundo é tão belo aos seus olhos —e certa­
“ Ainda não estou bem.. . não posso suportar certas coisas. Só mente o mundo continuará a ser belo com essas suas idéias —a pró­
quero que você saiba, antes de partir, que não lhe quero mal - as pria morte será para você apenas uma transição para outra vida. Só
coisas parecem estar me empurrando nessa direção, mas na verdade não espere que outras pessoas a compreendam, creiam ou sigam - as
não lhe tenho raiva - e você deve me acreditar.. pessoas a verão como uma louca, ou uma vítima de sua imaginação
“Claro que sim!” Respondí com animação. “Cara Catherine, não desenfreada!”
se preocupe! Essa sua impressão vai passar". Sorri, alisando o travesseiro e colocando a cabeça de Catherine
“ Espero que sim!” Disse ela. “ Vou tentar esquecer! E você.. . nele, com desvelo.
vai encontrar o Sr. Santoris outra vez?” “ Posso aguentar isso!” Respondí. “ Se alguém que esteja pendido
Hesitei antes de responder “não sei” . nas trevas caçoar de mim por encontrar a luz, não me importarei!”
“Vocês parecem estar atraídos um pelo outro", continuou ela, “e Não falamos muito depois disso. Quando eu lhe dei boa noite eu
creio que as crenças de ambos são parecidas. Para mim são crenças também lhe disse adeus, pois sabia que teria que deixar o iate de
horrorosas: mais do que bárbaras!” manhã bem cedo.
Olhei para ela com sincera compaixão. Passei o resto do meu tempo disponível conversando com o Sr.
"Por quê? Porque acreditamos que Deus é todo Amor, bondade e Harland. mantendo a conversação ao nível mais corriqueiro possível.
justiça? Porque não acreditamos que Ele pudesse criar a vida apenas Ele parecia estar sinceramente triste com minha partida, e se pudesse
para que ela terminasse em morte? Porque temos certeza de que ele me persuadir a ficar mais alguns dias acho que ficaria muito satis­
não permite que coisa alguma seja desperdiçada, nem mesmo um feito.
pensamento? Que nada fica sem compensação, seja no aspecto bom “ Eu a verei de manhã” , disse ele. “ Acredite, vou sentir muito a
ou mau? Não é possível que você considere essas crenças bárbaras.” sua falta. Não concordamos em certos assuntos —mas gosto de você
Um ar estranho tomou conta de seu rosto. do mesmo jeito” .
“ Se eu acreditasse em alguma coisa, preferiría ser ortodoxa e “Já é alguma coisa!” Respondí em tom de brincadeira. “ Não teria
acreditar na doutrina do pecado original e da Redenção.” graça alguma se todos tivessem a mesma opinião!"
“ Então você estaria partindo do princípio de que o supremo e sá­ “ Você acha que vai encontrar Santoris de novo?”
bio Criador foi incapaz de fazer uma obra perfeita!” Disse eu. “ E de Era a mesma pergunta que Catherine havia feito e foi respondida
que Ele foi obrigado a inventar um plano para redimir Seu próprio com as mesmas palavras: “realmente não sei!”
fracasso! Catherine, você fala em barbarismo, mas esse é o pior de “ Você gostaria de vê-lo de novo?”
todos!” Hesitei, sonindo de leve.

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“ Sim. creio que sim!” muitas coisas à sua maneira impulsivamente feminina, e já ultrapas­
“ É curioso que eu fosse a causa do encontro de vocês dois. Suas sou há muito a estupidez das mulheres que julgam agradar demons­
teorias sobre vida e morte são tão parecidas que vocês devem ter trando uma ignorância graciosamente falsificada, por isso sei que
muitos pensamentos em comum. Muitos anos se passaram desde a posso falar francamente. Quero lhe dizer que desde o primeiro mo­
última vez que eu vi Santoris - na verdade, eu o havia perdido com­ mento em que a vi senti que já a conhecia - e você me causou uma
pletamente de vista, embora nunca tivesse esquecido sua poderosa curiosa emoção que era um misto de afeição e de repulsa. Uma noite
personalidade. A mim me parece estranho que ele tenha aparecido quando você estava sentada no convés com o grupo - antes que en­
de repente, justamente quando você estava em minha compa­ contrássemos aquele cidadão chamado Santoris - cada gesto seu de
nhia. . cabeça, cada olhar, me pareceu familiar e por um momento e u .. . eu
“Mera coincidência", respondí, despreocupadamente. “ Uma coi­ a amei! Ah. não se aborreça por eu estar lhe dizendo isso!” E ele riu
sa comum, afinal de contas. O semelhante atrai o semelhante, como de minha exclamação involuntária. “Não foi nada. foi só uma sensa­
o senhor sabe". ção passageira, pois em poucos segundos eu senti por você um ódio
“Pode ser. Existe alguma coisa na lei da atração entre seres hu­ igualmente intenso. Essa é a história. Não sei porque eu teria essas
manos que não podemos compreender” , respondeu ele com ar pen­ experiências singulares - mas aceito que elas existam, e por isso
sativo. “ Quem sabe se compreendéssemos.. estou contente por você estar indo embora” .
Ele se interrompeu e ficou em silêncio. “ Eu também estou", respondi, estendendo a mão para as despedi­
Naquela noite, antes de me deitar, encontrei o Dr. Brayle no cor­ das. “ Não me agradaria permanecer em um local onde minha pre­
redor que levava ao meu camarote. Eu ia passar por ele após dizer sença pudesse causar o maior desconforto ou mal-estar” .
um rápido boa noite quando ele me deteve. “ Essa não é uma maneira justa de colocar as coisas” , respondeu
“ Então você vai mesmo embora amanhã!” Disse ele, com os ele, tomando minha mão e segurando-a molemente na sua. “Mas vo­
olhos furtivamente apertados. “ Bem! Talvez seja melhor assim! Vo­ cê é uma estudiosa conhecida do psiquismo e por isso talvez seja um
cê é um ímã bastante perturbador!” pouco “esquisita". Não era minha pretensão ofendê-la.. .”
Sorri e respondí: “ sou mesmo? De que modo?” “O senhor não conseguiría mesmo que tentasse” , respondi.
“Não posso lhe dizer sem que pareça negar a razão. Até certo “ Isso quer dizer que sou tão insignificante em sua opinião que
ponto, acredito no magnetismo - na verdade já testei seu poder em nem podería ofendê-la", observou ele. “Talvez eu seja. Vivo no
pacientes nervosos - mas nunca aceitei a idéia de que as pessoas plano material e isso me satisfaz. Você está ensaiando vôos mais
possam, silenciosamente, quase sem nenhum esforço consciente, in­ altos e ascendendo entre dificuldades de pensamento e ação que es­
fluenciar outras pessoas para finalidades malévolas ou benéficas. Em tão além da rotina útil e necessária da vida - no final das contas tu­
sua presença, entretanto, essa possibilidade me é imposta como se do isso pode se tomar demais paia você” . Neste ponto elê largou
fosse uma verdade, embora eu saiba que é uma falácia." minha mão. “ Você tem à sua volta uma atmosfera que é rarefeita
“ Não acha que já é muito tarde para falar nessas coisas?” Per­ demais para os mortais comuns - ela tem o mesmo efeito que o ar
guntei, desejando cortar a conversa. das montanhas muito aJtas em um coração fraco - é forte demais, faz
“Talvez seja, mas provavelmente não terei outra oportunidade de perder o fôlego e o poder de pensar com coerência. Você produz es­
dizer o que desejo dizer” , replicou ele, encostando-se no corrimão se resultado na Srta. Harland e, a um certo ponto, em mim —de mo­
da escada bem no ponto onde a luz vinda do salão incidia. Um raio do ligeiro até no Sr. Harland - só o pobre do Sr. Swinton não se
dessa luz iluminou o rosto do médico, mostrando que o mesmo esta­ abala porque não tem nenhum cérebro que possa ser impressionado.
va obscurecido por uma intrigada perplexidade. “ Você estudou Você precisa de alguém que esteja acostumado a viver nessa mesma

[ 246 ] 1247]
atmosfera, para estar em igualdade de condições com suas impres­ Aquela noite dormi sem sonhar, e na manhã seguinte deixei o
sões e opiniões. Estamos em freqüências diferentes de pensamento, “ Diana” antes das sete horas, para tomar-me uma passageira comum
sentimento e experiência - você deve nos achar insuportáveis. . . ” do vapor que ia de Portree a Glasgow. O Sr. Harland cumpriu sua
‘‘Como o senhor me considera!” Interrompí, sorrindo. promessa de se despedir de mim. e expressou a opinião de que eu
‘‘Não vou dizer que não! Pois parece que houve um tempo em era uma tola por viajar com uma multidão de turistas e outros passa­
que estivemos todos no mesmo plano.. . " geiros. quando poderia ter o conforto e a quietude do iate dele; mas
Ele parou de falar, e fez-se um silêncio carregado de tensão. O não conseguiu me demover de meu intento, embora, de certo modo.
pequeno carrilhão do relógio do salão bateu as doze horas. eu me sentisse triste por lhe dizer adeus.
“ Boa noite. Dr. Brayle!” “ Escreva-nos assim que chegar em casa” , disse ele. “ Nesta se­
Ele levantou os olhos pensativos para o meu rosto. mana pegaremos a correspondência em Gairloch —vou prolongar um
“ Boa noite! Se eu a aborrecí com meu ceticismo em certos as­ pouco mais o cruzeiro” .
suntos. ponha isso na conta do meu temperamento e me perdoe. Eu Não respondí, pois ele não sabia que eu não estava indo para ca­
ficaria triste se você guardasse algum rancor de mim.. sa, nem eu tencionava lhe contar.
Que estranho tom de apelo havia em sua voz! Imediatamente me “O senhor terá notícias minhas tão logo seja possível” , disse eu
pareceu que ele estava me pedindo para perdoá-lo pelo assassinato evasivamente. “Estarei muito ocupada por algum tempo.. . ”
cometido há muito tempo e que eu tinha visto refletido numa visão! Ele soltou uma risada.
Meu sangue ferveu com uma involuntária onda de profundo ressen­ “ Sei, sei! Você está sempre muito ocupada! Nunca vai ficar can­
timento. sada?”
“ Dr. Brayle", disse eu, “ por favor não se preocupe em pensar Sorri ao dizer: “espero que não!”
mais em mim. Nossos caminhos vão se separar, e provavelmente Então nos apertamos as mãos e nos separamos: em vinte minutos
nunca mais nos veremos. Na verdade pouco lhe importa qual possa o vapor já estava em movimento, levando-me para longe da Ilha de
ser minha opinião a seu respeito - isso não teria qualquer influência Skye, aquela região mística, bela e misteriosa, cheia de estranhas
sobre o seu presente ou o seu futuro. As amizades não podem ser lendas e memórias, que para mim tinha sido uma verdadeira terra das
impostas” . maravilhas. Observei o “ Diana” ancorado na baía de Portree até não
“ Você não vai dizer que não tem nenhuma raiva de mim?” conseguir ver mais nada. Já era quase meio-dia quando percebí que
Hesitei antes de responder francamente: os passageiros do vapor estavam correndo para um dos lados do con­
“Não direi isso porque não posso!” vés para ver alguma coisa que obviamente devia ser surpreendente e
Por um instante nossos olhares se encontraram - então Algo entre atrativa. Segui a multidão, e meu coração deu um grande salto de ale­
nós sugeriu uma perda absoluta e irremediável. gria quando vi o encantador “Sonho” pousado nas águas cintilantes!
“ Ainda não!” Murmurou ele. "Ainda não!" Depois, com uma in­ As velas estavam brancas como as asas de um cisne, o cordame bri­
clinação e um sorriso forçado, ele me deixou passar para ir para o lhando como se fossem de ouro trançado à luz radiosa do Sol. Era
camarote. Fiquei feliz de estar lá, feliz de estar sozinha, e. subjuga­ uma perfeita criação de beleza que parecia deslisar na linha do hori­
da pela consciência de que as lembranças de minha alma tinham sido zonte. como uma visão na fronteira entre o céu e o mar. Quando for­
fortes demais para que eu pudesse resistir, eu estava grata por ter ti­ cei passagem por entre as pessoas para vê-lo melhor, ele fez tremu­
do a coragem de expressar minha invencível oposição a alguém que. lar a bandeira em saudação - e eu tive certeza de que era destinada a
como eu compreendia intuitivamente, tinha sido culpado de um cri­ mim exclusivamente. Quando a bandeira voltou à posição anterior,
me do qual não se arrependera. várias pessoas à minha volta começaram a murmurar com admiração:

[ 248 ] [ 2 49 ]
“ É a mais linda escuna que já vi!” Disse um homem.
“ Dizem que ela é movida a eletricidade e também pelo vento.”
“ Ela sempre aparece por aqui” , disse outro. “O dono é um es­
trangeiro - acho que é um príncipe qualquer chamado Santoris” .
Fiquei observando e esperando, com lágrimas escorrendo de meus
olhos sem me dar conta, até que o maravilhoso barco desapareceu de XIII
repente, como se tivesse sido absorvido e fundido pelo Sol; então
me veio à mente a lembrança das palavras ditas por “ Jamie” , o es­ A CASA DE ASELZION
cocês que me dera o ramalhete de urzes. “ Um entra, o outro sai!
Uma estrada para o oeste, a outra para o leste, e de volta ao ponto Não será necessário detalhar a jornada que empreendí e completei
de encontro!” em uma semana. Meu destino era um ponto remoto e montanhoso da
Ponto de encontro! Onde seria? Eu só podia pensar e tentar des­ costa de Biscaya, situada a mais ou menos três dias de viagem de Pa­
cobrir, esperar e orar. enquanto as ondas aumentavam a distância ris. Fui sozinha, sabendo que isso era imperativo, e cheguei sem que
entre o “ Sonho” , agora invisível, e eu. nada de especial tivesse acontecido, sem sentir muito cansaço, apesar
de ter viajado dia e noite. Só no final da viagem é que enfrentei uma
pequena dificuldade, quando tive que compreender que embora o
“Château d’Aselzion” fosse bem conhecido dos habitantes dos arre­
dores, ninguém se mostrava disposto a me ensinar o caminho mais
curto até lá, nem a me arranjar um veículo que me levasse até o cimo
do monte onde estava localizado o “ Château” . Este podia ser visto
de todas as partes da vila, especialmente da praia, pois estava locali­
zado sobre uma rocha em forma de fortaleza, bem na beira do mar.
“ E um mosteiro” , disse um homem a quem eu tinha perguntado o
caminho; ele falava um dialeto gutural, meio francês, meio espanhol.
"Lá não vai mulher alguma” .
Expliquei que eu trazia uma importante mensagem.
Ele sacudiu a cabeça.
“ Eu não a levaria lá por nenhum dinheiro do mundo” , declarou
ele. "Eu temeria por minha segurança” .
Nada pôde demovê-lo, por isso decidi deixar as malas na estala-
gem e subir a pé a estrada sinuosa que eu via se estender como uma
fita branca até o objeto de meu desejo. Um grupo de componeses
desocupados ficou me olhando curiosamente enquanto eu conversa­
va com a proprietária da estalagem, pedindo-lhe para cuidar de mi­
nhas poucas coisas, até que eu mandasse buscá-las ou viesse recla­
má-las; a mulher concordou com tudo. Era uma francesa simpática e
saudável, pronta a se mostrar amigável.

[250 ] [ 251 ]
“Eu lhe asseguro, senhoríta, que voltará ¡mediatamente!” Disse nalmente me vi diante dos grandes portões de ferro engastados num
ela com um brilhante sorriso. “O Château d’Aselzion é um lugar que alto arco de pedra, pelos quais eu nada podia ver além de uma ca­
nenhuma mulher já viu de perto! Imagine uma mulher sozinha! - vernosa obscuridade. A trilha que eu tinha seguido terminara num
Mon Dieu! É impossível! Coisas terríveis são feitas lá, segundo di­ pátio circular diante do arco; uns poucos pinheiros altos, torcidos
zem - é uma casa de mistério! Durante o dia é como está agora - es­ e tortos, eram o único enfeite daquele chão estéril. Uma corrente de
cura como se fosse uma prisão! Mas à noite, às vezes, ela se ilumina ferro com um anel enorme numa ponta sugeria ser o meio de fazer
como se estivesse queimando - todas as janelas se enchem com al­ soar um sino ou outro meio de chamar a atenção: por alguns minu­
guma coisa que parece o Sol! É uma Irmandade que vive lá - não da tos, não me senti capaz de tentar.
Igreja, não! Deus nos livre! Trata-se de homens ricos e poderosos, Fiquei olhando para o sombrio portão com uma sensação de total
dizem que estudam uma estranha ciência - nossos comerciantes só solidão e desesperança - o apressado e irresistível impulso que me
chegam aos portões exteriores, nunca além deles. A meia-noite, ou- levara a fazer a jornada e que tinha me carregado com a força de seu
ve-se o órgão tocando na capela, e há o som de cânticos nas próprias ímpeto, morreu repentinamente diante de uma sensação terrível de
ondas do mar! Suplico-lhe senhoríta, pense bem antes de ir a um lu­ inadequação e insensatez: comecei a me censurar por ceder tão inte­
gar desses! Eles a mandarão de volta, tenho certeza de que o farão!” gralmente à influência casual de alguém que, afinal de contas, deve­
Sorri, agradecendo os conselhos bem-intencionados. ria ser considerado um estranho, do ponto de vista racional. Pois o
“ Tenho uma mensagem para entregar ao Mestre da Irmandade” , que era Rafei Santoris para mim? Apenas o antigo colega de facul­
disse eu. “ Se eu não puder entregá-la e o portão for fechado na mi­ dade do homem que durante uma quinzena havia sido meu anfitrião,
nha cara, voltarei. Mas devo fazer o possível para entrar". e com quem este havia retomado relações durante uma viagem de
Com essas palavras dei-lhe as costas c iniciei minha solitária ca­ iate. Nada mais simples e comum podia ter acontecido. Não obstan­
minhada. Cheguei no meio da tarde, com o Sol ainda alto no céu. O te, ali estava eu cheia de estranhas impressões e visões, que só po­
calor era intenso e o ar estava absolutamente parado. À medida que diam ser causadas pelo hipnotismo inteligente, praticado comigo por
eu subia mais e mais, os murmúrios próprios da vida humana na pe­ ser eu uma “ paciente” adequada para testar essa habilidade. Eu ti­
quena vila iam desaparecendo, e aos poucos fui tomando consciên­ nha sucumbido tão facilmente a essa influência que chegara ao
cia da grande e solene solitude que me envolvia por todos os lados. ponto de fazer uma viagem de centenas de quilômetros até um lugar
Nem um só carneiro extraviado pastava na grama ressequida das al­ do qual ouvira falar, com a idéia de ver um homem sobre o qual eu
turas rochosas onde eu me encontrava. Nenhuma ave voava no ofus­ nada sabia! A não ser que, conforme o que dissera Rafei Santoris,
cante azul do céu sem nuvens. O único som que eu ouvia era o tratava-se de um seguidor de um grande Instrutor psíquico que eu
barulho suave e rítmico das ondas na praia lá embaixo, e o indefiní- conhecera no passado.
vel murmúrio do mar se quebrando dentro de uma caverna, na dis­ Esses pensamentos cheios de dúvida, perseguindo-se rapidamente
tância. Havia algo de grandioso no silêncio e na solidão da paisagem em minha mente, fizeram com que eu me acusasse severamente de
- e alguma coisa de deplorável, segundo pensei, em minha própria insensata e imperdoável pressa em tudo que fizera e estava fazendo.
pessoa, ofegando trilha acima, com um misto de medo e de esperan­ Eu estava a ponto de voltar pelo mesmo caminho, quando um ines­
ça, na direção do sombrio aglomerado de torres de pedra e altas mu­ perado raio de luz, que não era luz do Sol, como que nasceu brus­
ralhas, onde eu podería encontrar apenas uma recepção desanimado- camente diante de meus olhos, ferindo-os com seu excessivo brilho.
ra. Entretanto, com a carta assinada “sempre seu” junto ao coração, Era como um chicote de fogo batendo em minha mente hesitante, e
senti que tinha um talismã que abriría portas muito mais intransponí­ me impeliu à ação imediata. Sem parar para pensar em mais nada fui
veis. Não obstante, minha coragem diminuiu um pouco quando fi­ diretamente até a entrada do Château e puxei a corrente de ferro. Os

[252] [253]
portões se abriram imediatamente, sem ruído - entrei na passagem mal conseguia respirar por causa do medo nervoso que sentia ao
escura em frente —e logo eles se fecharam atrás de mim. Não havia vê-lo caminhar para mim com passos absolutamente silenciosos. Ele
mais volta! Endireitando o corpo com resolução, caminhei rapida­ parecia ser jovem, e os olhos, escuros e luminosos, me olharam com
mente pelo que parecia ser um longo corredor abobadado, de pedra bondade e, imaginei, com um toque de piedade.
maciça; ali estava fresco e agradável em comparação com o grande “ Procuras o Mestre?” Perguntou ele, com um tom bondoso. “ Ele
calor lá de fora; vi uma luz fraca no fim do corredor, e para ela me me instruiu para receber-te; quando tiveres repousado por uma hora,
dirigí. A luz aumentou quando me aproximei, e uma exclamação de levar-te-ei à sua presença".
alívio e prazer escapou de meus lábios quando me vi num pitoresco Eu tinha ficado de pé e suas maneiras calmas me haviam ajudado
quadrilátero dividido entre um verde gramado e canteiros de flores. a me refazer um pouco.
Bem à minha frente, do outro ladó, havia uma porta dupla de carva­ “Não estou cansada” , respondi. “ Eu poderia ir vê-lo ¡mediata­
lho entalhado, totalmente aberta, dando para uma vasta sala circular mente. . ."
com teto em abóbada: no centro, uma fonte emanava altas colunas Ele sorriu e disse: “ não é possível! Ele não está pronto. Se vieres
prateadas de água que recaía com um tinido musical num tanque ca­ comigo até o apartamento que te foi reservado, sei que apreciarás
vado no chão e ladeado de mármore branco, no qual havia nenúfares um pouco de repouso. Por favor, vem comigo” .
azuis flutuando na superfície. Encantada com a beleza do lugar, Ele era perfeitamente cortês em seus modos, mas havia uma certa
continuei andando e entrei sem pedir licença - estacando, afinal, autoridade inegável nele que compelia à obediência. Eu nada mais
olhando em volta com surpresa e admiração. Se aquela era a Casa de tinha para perguntar ou sugerir, por isso segui-o ¡mediatamente. Ele
Aselzion, onde lições tão difíceis tinham que ser aprendidas e pro­ me precedeu, saindo da sala para uma longa passagem de pedra, on­
vas tão pesadas tinham que ser enfrentadas, certamente não tinha a de todos os sinais de luxo. beleza e conforto desapareceram, trans­
aparência de uma casa de penitência e mortificação, e sim de luxo. formados em fria vastidão, e a cada meia dúzia de passos havia car­
Belíssimas estátuas de mármore estavam colocadas em nichos em to­ tazes brancos com a palavra “ silêncio!” Escrita com letras negras e
da a volta da sala, entre grandes massas de rosas e outras flores: bem proeminentes. O caminho que percorremos me pareceu longo,
muitas das estátuas eram cópias perfeitas dos modelos clássicos, e lúgubre e parecido com uma prisão, mas logo viramos e nos encon­
todas expressavam força e resolução, ou beleza e repouso. Mais ma­ tramos num espaço aberto onde havia a luz do Sol: meu guia galgou
ravilhosa que tudo era a luz que vinha do alto domo. Eu poderia di­ os degraus de uma escada íngreme de pedra, e no patamar havia uma
zer sem mentir que era como “a luz que nunca foi vista no mar ou porta de carvalho maciço, com ferragens pesadas. Tirando uma cha­
na terra” . Não era luz solar, era algo mais suave e intenso ao mesmo ve da cintura, ele destrancou a porta, fazendo-me um sinal para en­
tempo, e totalmente indescritível. trar. Obedecí e me vi num quarto simples com paredes de pedra e
Fascinada pelo encanto do ambiente, sentei-me num banco de o teto em abóbada; uma janela alta e muito ampla, sem cortina, dava
mármore perto da fonte e fiquei olhando o brilho da água que esgui­ para o mar e para a rocha perpendicular sobre o qual o Château fora
chava formando um arco-íris e caía de novo nas sombras do tanque. construído. A mobília consistia de um leito tosco, duas cadeiras de
Por alguns momentos fiquei perdida numa espécie de sonho cons­ braços, um pequeno tapete ao lado da cama, e um cabide na parede
ciente - por isso estremecí com um choque de quase terror quando para pendurar roupas. Um banheiro bem equipado ficava ao lado,
percebi uma figura vindo em minha direção - era um homem vestido mas, fora isso, nada havia de confortos modernos, muito menos
de branco, com uma roupa parecida com um hábito monástico, mas qualquer luxo. Fui instintivamente para a janela para ver o mar —
que não poderia ser chamado de hábito, ainda que ele tivesse um ca­ quando me voltei para agradecer ao guia, ele já tinha desaparecido.
puz cobrindo parcialmente o rosto. Meu coração quase parou e eu Sentindo um aviso interno, corri para a porta - estava trancada! Eu

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estava prisioneira! Fiquei ali parada, espantada e sem respiração. mas o que via era um rosto fresco e sorridente. O vestido preto que
Então uma onda de indignação e temor me invadiu. Como ousavam eu usava estava empoeirado por causa da caminhada. Limpei-o o
restringir minha liberdade? Olhei por toda a parte para ver se en­ melhor que pude, sentindo que essa seria a última roupa que eu es­
contrava uma sineta ou outro meio de comunicação que me permitis­ colhería para uma entrevista com Aselzion.
se transmitir o que estava pensando, mas nada encontrei. Voltei para “Tendo em vista” , disse eu para mim mesma, “ que ele mandou
a janela; ao perceber que era do tipo francês, com um trinco simples me trancar aqui e não me deu oportunidade de mandar buscar mi­
no centro, abri-a de par em par. O cheiro do mar me envolveu com nhas coisas, só posso me submeter e fazer o melhor possível” .
seu delicioso frescor, fazendo-me lembrar do “ Sonho” e de Loch Voltando do banheiro para o quarto, olhei novamente pela janela
Scavaig. Inclinei-me saudosamente para a grande vastidão do mar para o mar. Inclinei-me um pouco para fora e senti alguma coisa
que estava encrespado pela brisa^ leve que soprava. Vi então que veludosa e macia tocar em meu braço - era uma rosa vermelha do ti­
meu quarto estava numa torre, projetando-se por sobre uma parede po trepadeira, ao alcance de minha mão. As pétalas se abriam para
reta que obviamente tinha suas bases no leito do oceano. Não havia mim como lábios prontos para um beijo; fiquei espantada por alguns
meio de escapar por ali. Afastei-me da janela e andei pelo quarto momentos, pois podería ter jurado que não havia rosa alguma ali da
como um animal preso numa jaula, zangada comigo mesma por ter primeira vez que eu tinha olhado pela janela! “ Uma rosa de todas
me aventurado a vir a um lugar daqueles, esquecendo totalmente mi­ as rosas do Céu!” Onde eu tinha ouvido essas palavras? E o que
nha determinação anterior de passar por tudo que acontecesse com significavam? Então me lembrei - com cuidado e extrema ternura,
paciência e inabalável calma. inclinei-me para a linda flor:
Finalmente resolví sentar na cama estreita e me acalmar. De que “ Não vou colher você!” Murmurei, seguindo o impulso de minha
adiantava minha raiva ou excitação? Eu tinha vindo para a Casa de sonhadora fantasia. “ Se você é uma mensagem - e sei que é! - fique
Aselzion por livre e espontânea vontade, e até aquele momento não aqui enquanto puder e fale comigo. Saberei compreender!"
tinha sofrido nenhuma dificuldade. Ao que parecia, Aselzion estava Por algum tempo fizemos uma amizade silenciosa até eu sentir
disposto a me receber na hora aprazada; eu só tinha que esperar o que poderia dizer como o poeta: “ a alma da rosa entrou em meu
curso dos acontecimentos. Aos poucos meu sangue esfriou, e em sangue” . De alguma forma, uma sensação clara, refinada e sutil to­
poucos momentos ri de minha indignação inútil e absurda. É verdade mou conta de mim, compelindo-me a sentir um intenso deleite pelo
que eu estava trancada em meu quarto como uma criança malcriada, simples fato de estar viva. Esquecí que estava num lugar estranho
mas tena isso tanta importância assim? Afirmei a mim mesma que entre homens desconhecidos - esquecí que para todos os efeitos eu
não tinha importância alguma; quando minha mente se acostumou a era uma prisioneira —esquecí tudo, exceto que estava viva e que a
essa convicção, senti-me perfeitamente recomposta e à vontade em vida era um êxtase!
meu novo ambiente. Tirei o chapéu e a capa e os coloquei de parte - Eu não tinha uma idéia exata do tempo, meu relógio tinha parado.
depois fui ao banheiro e lavei o rosto com a deliciosa água fresca. O A luz da tarde estava desmaiando e longas linhas de âmbar e carmim
banheiro tinha um espelho grande, de corpo inteiro, embutido na pa­ apareceram no céu e começavam a desenhar um caminho radioso pa­
rede, um fato que me divertiu bastante, ao decidir que tinha estado ra a descida do Sol. Eu ainda estava ali na janela quando ouvi os
ali havia muito e não tinha sido colocado especialmente para mim, o acordes de um órgão se elevando e baixando como se as ondas do
que me fez concluir que os “Irmãos” não eram totalmente destitui­ mar tivessem resolvido cantar. Um instinto me avisou que havia al­
dos de vaidade pessoal. Examinei minha imagem com surpresa após guém no quarto —voltei-me e vi meu guia de branco parado em si­
soltar os cabelos e depois erguê-los de novo com mais capricho, pois lêncio atrás de mim, à espera. Eu tinha planejado me queixar ime­
eu tinha imaginado que estaria com a aparência cansada e doentia, diatamente da maneira pela qual tinha sido trancada como se fosse

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uma criminosa - mas ao contemplar aquela figura grave e serena, Tentei responder com um sorriso, mas sentia mesmo era vonta­
perdí a vontade e nada falei. Fiquei alí parada, esperando suas or­ de de chorar. Fui possuída por uma depressão repentina e deses­
dens. Os olhos escuros, brilhando debaixo do capuz me olharam in­ perada. que eu não conseguia dominar. Meu guia afastou-se fe­
terrogativamente, como se ele esperasse que eu fosse dizer alguma chando a porta atrás de si com o mesmo misterioso silêncio com
coisa. Como continuei em silêncio, ele sorriu e disse: que a tinha aberto. Fiquei entregue a mim mesma. Sentei-me nu­
"És muito paciente! Isso é bom. O Mestre te espera." ma das várias poltronas espalhadas pela sala, tentando forçar-me a
"Senti um tremor e o coração batendo violentamente. Então meus manter uma calma pelo menos aparente. Mas de que valia tentar as­
desejos iam ser satisfeitos! Eu ia realmente ver e falar com o homem sumir uma atitude calma quando o homem que eu estava a ponto de
a quem Rafei Santoris devia sua prolongada juventude e seu poder, conhecer provavelmente tinha o poder de determinar toda ã gama
e sob cujo treinamento tinha passado por provas que lhe haviam en­ das emoções humanas em um segundo? Instintivamente apertei o
sinado alguns dos mais profundos mistérios da vida! O resultado de peito com as mãos e senti a carta de meu "enamorado” - ela não era
meus próprios desejos me pareceu tão aterrorizante naquele mo­ um sonho!
mento que eu não podería ter pronunciado uma só palavra, ainda que Aspirei profundamente o ar, com um suspiro, e olhei para ajane-
me forçasse a falar. Segui meu guia em absoluto silêncio: em minha la, colocada em uma espécie de duplo arco de pedra, e vi um jardim
agitação nervosa, escorreguei e quase caí da escada - ele me pegou se estendendo do gramado e dos canteiros até um fundo formado por
imediatamente pelo braço e me apoiou - a gentileza e força de seu bosques e colinas. Uma luz rosada iluminava essa cena, indicando
toque renovaram minha coragem. Seus belos olhos olharam firme­ que o espetáculo do ocaso já tinha começado. Impulsivamente me
mente para os meus. levantei para ver melhor lá fora, mas parei, por causa de uma sensa­
"Não tenhas medo! Disse ele em voz baixa. “Nada há para temer!” ção compulsiva de reverência - eu não estava mais sozinha. Vi à
Passamos pela sala abobadada e sua fonte cristalina, e em dois ou minha frente um homem alto e majestoso, usando as mesmas roupa­
três minutos chegamos a uma arcada velada por um cortinado de rico gens que o meu guia - um homem cuja singular beleza e dignidade
tecido, em ferrugem e ouro - a cortina foi silenciosamente afastada de aspecto teriam causado a admiração da mais endurecida e indife­
pelo guia, mostrando uma porta fechada. Ali ele parou e esperou - rente das pessoas. Vi que finalmente estava na presença de Asel-
eu esperei com ele, tentando ficar calma, embora minha mente esti­ zion. Subjugada por essa certeza, não consegui falar - fiquei só
vesse em tumulto, cheia de expectativa misturada com dúvida e te­ olhando e considerando, ao vê-lo aproximar-se de mim. O capuz foi
mor - aquela porta fechada me parecia ocultar um maravilhoso se­ jogado para trás, deixando totalmente à mostra a bela cabeça —os
gredo com o qual toda a minha vida futura provavelmente se envol­ olhos azuis e cheios de profunda luz me examinaram com agudo in­
vería. A porta se abriu de repente - vi um belo aposento octogonal, teresse —eu pude sentir que seu olhar era como um raio perscrutador
ricamente mobiliado, com as paredes forradas do chão ao teto com queimando cada recesso de meu coração e de minha alma. O sangue
livros, pelo que me pareceu. Um ou dois grandes suportes com vasos afiuiu para o meu rosto numa onda ardente; depois, reunindo todas
de flores formavam manchas de cor nas sombras, e um olhar rápido as minhas foiças, sustentei o seu olhar. Dessa forma nos aproxima­
para cima me mostrou que o teto estava pintado com afrescos. Meu mos mais, cada um por suas linhas próprias de atração espiritual, até
guia me fez sinal para entrar. que um pequeno sorriso abrilhantou a gravidade de suas perfeitas
"O Mestre te receberá dentro em pouco.” feições, e ele me estendeu as duas mãos.
“ Senta-te” , disse ele com um sorriso encorajador. "Sê bem-vinda!" Disse ele, com uma voz que expressava a músi­
“Estás um pouco nervosa - tenta compor-te! Não precisas ficar ca mais perfeita da voz humana. "Precipitada e indisciplinada como
ansiosa nem assustada!" és. ainda assim és bem-vinda!"

12581 1259)
Timidamente coloquei minhas mãos nas dele, agradecida pelo “ Para começar", continuou ele, “deves ficar sabendo de imediato
forte e quente aperto. Então, sem pensar nem saber como aconteceu, que não recebemos mulheres aqui. Não estamos preparados para
caí de joelhos diante dele como se o fosse diante de um rei ou um elas, nem as queremos. Elas nada mais são que meias almas!
santo, pedindo sua bênção em silêncio. Houve um momento de ab­ Meu coração deu um salto de indignado protesto, mas consegui
soluta quietude, e ele colocou as mãos em minha cabeça. me manter calada. Ele olhou diretamente para mim, enquanto arru­
“ Pobre criança!" Disse ele bondosamente. “ Vieste de muito lon­ mava alguns papéis espalhados com uma das mãos.
ge por amor e pela vida! Será difícil para ti se fracassares! Que to­ “ Bem, por que não me dás a resposta óbvia?” Perguntou ele.
dos os poderes de Deus e da Natureza te ajudem!" “Por que náo dizes que se as mulheres são meias almas, os homens
Dito isso. ele me fez levantar com uma bondade infinitamente também o são? E que as duas metades devem se unir? Criança tola!
cortês, trazendo uma cadeira para mim. colocando-a ao lado de uma Não precisas inflamar-te com suprimida raiva diante do que te pare­
mesa de madeira maciça, onde havia muitos papéis - alguns amarra­ ce ser uma descrição parcial de teu sexo - não foi essa a intenção.
dos e rotulados, outros atirados aqui e ali em aparente confusão; Sois meias almas - e o principal problema é que poucas de vós ten­
quando nós dois estávamos acomodados ele iniciou a conversa da des a capacidade de perceber isso, ou de fazerdes o esforço de for­
maneira mais simples e fácil. mar uma perfeita e indivisível união - uma tarefa sagrada que ¿ dei­
“ Sabes, naturalmente, que fui preparado para tua chegada", disse xada em vossas mãos. A Natureza está sempre se esforçando para
ele, “por um de meus estudantes, Rafei Santoris. Ele te procurou por reunir as metades certas —e o homem está sempre tentando separá-
longo tempo, mas agora que te encontrou não está em melhor situa­ las. Embora tudo se harmonize no final, como tem que ser, não há
necessidade de retardar o fato por meses ou séculos. As mulheres fo­
ção que antes - pois tu és uma criança rebelde que não quer reco-
ram feitas para serem os anjos da salvação, mas ao invés disso, são a
nhecê-lo - não é assim?”
ruína de seus próprios “ ideais".
Senti um pouco mais de coragem para responder.
Eu não tinha nada a dizer em contrário, pois senti que era verda­
“Não me recuso a reconhecer uma coisa verdadeira, mas não que­
de.
ro ser enganada nem me enganar."
"Como acabo de dizer” , continuou ele, “ este não é um lugar pró­
Ele sorriu. prio para mulheres. A simples idéia de que pudesses imaginar-te ca­
“Não? Como sabes se não estiveste te iludindo desde tua gra­ paz de submeter-te às provas de um estudante deste lugar, é incrível.
dual evolução da vida subconsciente para a consciente? A Natu­ Somente por causa de Rafei consenti em ver-te e explicar-te que
reza nunca te enganou, pois ela sempre se leva muito a sério, mas é impossível que permaneças aqui. . . "
tu. . . tu não tentaste, em várias fases ou períodos da vida. fa­ Ousei interrompê-lo:
zer coisas mais inteligentes que a natureza e mais ou menos su­ “Preciso ficar!" Disse eu com firmeza. “Faça de mim o que de­
perá-la? Vamos, vamos! Não fiques tão espantada com isso! Só sejar - coloque-me numa cela e mantenha-me prisioneira: apresente-
fizeste o que todos os seres humanos chamados “Racionais" fazem, me qualquer provação que eu deva suportar, e eu a suportarei - mas
julgando que têm razão em fazê-lo. Mas hoje, em teu presente não me mande embora sem antes ensinar-me um pouco de sua paz e
estado, que é um avanço e não um retrocesso, começaste a ganhar poder - a paz e o poder que Rafei possui e que eu também preciso
um pouco mais de conhecimento e uma humildade um pouco mais possuir para poder ajudá-lo e ser tudo para ele".
profunda - e por isso sinto-me inclinado a ter muita paciência con­ Parei. tomada pela emoção. Aselzion me encarou.
tigo!" “ É este o teu desejo? Ajudá-lo e ser tudo para ele?" Perguntou
Olhei para ele e me senti confortada por seu olhar bondoso. cie. "Por que não percebeste isso há muitos séculos? Mesmo agora,

(260J [2611
hesitaste quanto à aliança que lhe deves - duvidaste dele, embo­ Sua voz estava grave e cheia de compaixão, e um leve tremor de
ra todos os teus instintos interiores te digam que ele é o verdadei­ medo passou por meu corpo.
ro par de tua alma. e que teu coração bate por ele. como as asas de “ Esses foram - e são - homens! Continuou ele. E tu. uma mulher,
um pássaro se debatem contra as banas da gaiola em busca da liber­ queres ousadamente tentar uma aventura na qual eles fracassaram!
dade!" Pensa por um momento em quanto és fraca e despreparada! Quando
Fiquei em silêncio. Meu destino parecia estar sendo pesado, mas iniciaste teus estudos psíquicos com um Instrutor que amavamos e
deixei a decisão para Aselzion que, caso fosse mesmo dotado de um honravamos - tinhas vivido muito pouco no mundo: desde então tra­
poder signiíicativo. podería ler meus pensamentos melhor do que eu balhaste muito e fizeste muito, mas na aplicação disso à conquista
mesma. Ele se levantou e andou vagarosamente de um lado paia ou­ das dificuldades perdeste muitas coisas no caminho. Dou-te credito
tro, absorto. Após alguns minutos, ele parou abruptamente diante de por tua fé e paciência, que muito tizeram por ti; agora, estás num
mim. ponto crucial de tua carreira, em que a Vontade, como o leme de um
“ Se ficares aqui” , disse ele. “deves compreender o que isso sig­ navio, treme em tuas mãos, e estás mergulhando em profundidades
nifica. Significa que deves ficar isolada em teu quarto, totalmente só desconhecidas onde pode haver só tempestade e trevas. Há perigo i
a não ser quando fores chamada para ser instruída - tuas refeições vista para qualquer alma que duvida, é orgulhosa ou rebelde - con­
serão servidas lá —e te sentirás como uma criminosa recebendo pu­ sidero justo advcrtir-te!”
nição ao invés de iluminação. Não poderás falar com ninguém, a “Não lenho medo!” Disse eu, baixinho. “ Apenas posso morrer!”
menos que te dirijam a palavra. Além disso. . . " Nesse ponto ele se “Criança, isso é o que tu não podes fazer! Compreende bem este
interrompeu e me acenou para que o seguisse até um aposento contí­ fato uma vez por todas! Não podes morrer - não existe morte! Se
guo. Conduzindo-me até a janela, ele me mostrou uma vista bem di­ pudesses morrer e acabar com todos os deveres, cuidados, perplexi­
ferente da paisagem ensolarada e do jardim que eu tinha contempla­ dades e lutas, o problema eterno fícaria muito simplificado. Mas a
do antes - ali havia só um quadrado feio com grama raquítica, onde idéia da morte é apenas uma dentre um milhão de ilusões humanas.
havia várias cruzes negras. A morte é uma impossibilidade no esquema da Vida - o que chamam
"Essas não são mortes marcantes - são fracassos! Fracassos, não por esse nome é apenas um realinhamento e reinvestidura de átomos
no sentido mundano, mas na tarefa de fazer da vida a coisa eterna e imperecíveis. As infinitas formas desse realinhamento e reinvestidu-
criativa que é - eterna aqui e agora - enquanto o desejarmos! Dese­ ra de átomos é o segredo que nós e nossos estudantes nos propuse­
jas ser uma delas?” mos conhecer e dominar - alguns de nós o conseguiram a um ponto
“ Não", respondi em voz baixa. “ Não fracassarei!” suficiente para controlar a matéria e o espírito de que todos somos
Ele soltou um suspiro impaciente. feitos. Mas o método do aprendizado não é fácil - o próprio Rafei
“Foi o que todos eles disseram, aqueles cujos registros aqui es­ Santoris podería ter-te dito que ele quase foi destruído por sua ten­
tão” - e ele apontou para as cruzes com um gesto majestoso. “ Al­ tativa - pois não poupo ninguém! Se persistires em tua precipitada
guns dos homens que ali deixaram sua marca, são, neste momento, intenção, não poderei poupar-te em consideração ao teu sexo!”
algumas das mais brilhantes e bem-sucedidas personalidades do “ Não peço para ser poupada” , respondi suavemente. “Já lhe dis­
mundo - são ricos, e socialmente muito requisitados - e só eles se que suportarei tudo".
mesmos sabem onde está o câncer, só eles sabem de sua própria Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
inutilidade - eles vivem, sabendo que sua vida levará a outras vidas, “ Assim será. creio", respondeu ele. “ Posso bem compreender teu
temendo a inevitável Mudança que, por força da lei. os levará â po­ martírio em dias passados! Posso ver-te enfrentando os leões em
sição que eles mais procuraram!” Roma” - e ao dizer isso tive um sobressalto e senti o sangue afluir

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para o meu rosto. “ Para não fracassar no cumprimento de tua fírme vo salientar que esse desejo deve existir apenas por causa dele!
resolução, fosse ela certa ou errada! Posso ver-te preparada para Neste preciso momento, entretanto, ainda não sabes se é por ele -
afogar-te nas águas do Nilo ao invés de quebrar a estúpida supersti­ desejas manter, para ti mesma, o segredo da vida e do poder de
ção e convenções dos homens! Por que estás tão espantada? Estarei continuação da vida - o segredo e o poder da constante juventude -
tocando numa antiga lembrança? Vem, vamos deixar estas negras e com toda a certeza desejas possuir por ti mesma, tanto quanto por
provas da mortalidade covarde e voltar à outra sala. que é mais Rafei, o segredo de amor e o poder da continuação do amor. Ne­
agradável” . nhum desses segredos pode ser revelado a profanos - por esse termo
Voltamos juntos para a biblioteca; ele sentou-se novamente junto à quero me referir àqueles que se deixam demover de sua determina­
mesa. voltando-se para mim com um ar de autoridade impressionante. ção e se distraem com milhares de assuntos efêmeros. Não digo que
“O que desejas aprender - e o que todo iniciante do estudo das sejas assim, mas como vives no mundo exterior, tens amigos e co­
leis psíquicas geralmente deseja aprender em primeiro lugar - é o nhecidos - pessoas prontas a rir de ti e fazer pouco de teus mais ele­
modo de alcançar uma satisfação e uma vantagem puramente pes­ vados objetivos - pessoas cujo prazer está em colocar obstáculos no
soal. Queres conhecer três coisas: o segredo da vida - o segredo da caminho de teu progresso. Minha dúvida é: serás forte o suficiente
juventude - e o segredo do amor! Milhares de filósofos e estudiosos para suportar a tensão mental que sofrerás por causa da oposição
mergulharam na mesma pesquisa, e talvez um em cada mil teve êxito vulgar e ignorante e até mesmo da zombaria declarada? Talvez se­
onde todos os outros falharam. A história de Fausto é sempre digna jas. . , é s . . . dotada de suficiente força de vontade, embora nem
de interesse porque trata desses segredos, que, segundo a lenda, só sempre da maneira correta; por exemplo, queres obter conhecimento
podem ser descobertos através do demônio. Nós sabemos que não independentemente e em separado de Santoris. mas és uma entidade
existe o demônio e que tudo é divinamente ordenado pela Inteligên­ incompleta sem ele! As mulheres de hoje seguem em massa essa po­
cia Suprema, de modo que na mais profunda pesquisa que nos é lítica incorreta - desejam ser independentes e à parte dos homens, o
permitido empreender não há lugar para o medo - a não ser de Nós que representa o suicídio de seu ser mais nobre. Nenhuma delas é
Mesmos! O fracasso é sempre causado pelo próprio estudante, não uma criatura completa sem sua metade mais forte —são como aves
pelo estudo em que se empenha; a razão disso é que os estudantes deformadas com uma só asa, e o vôo direto e seguro é impossível
pensam que sabem tudo quando aprendem um pouco - em conse­ para elas.
quência, tomam-se arrogantes, uma atitude que imediatamente anula Ele parou de falar e eu levantei os olhos para o seu rosto.
toda a consecução anterior. O segredo da vida é fácil de aprender, “ Pouco importa se concordo ou não com o senhor*’, disse eu.
em termos. O segredo da juventude é um pouco mais difícil —e o “mas admito todas as minhas falhas e estou pronta para remediá-las.
segredo do amor o mais espinhoso de todos, porque do amor é gera­ Desejo aprender do senhor tudo que eu puder - tudo que o senhor
da a perpetuidade da vida e da juventude. Pois bem, o objetivo que me julgar capaz de aprender, e prometo absoluta obediência. . . “
trouxe aqui é basicamente de natureza pessoal —não direi egoísta, Um leve sorriso iluminou seus olhos.
porque soaria severo demais - e te darei crédito por causa do verda­ “E humildade?"
deiro sentimento feminino que tens —o de que. tendo consciência em Fiz que sim com a cabeça.
tua própria alma de que Rafei Santoris é teu mestre e superior ao “ E humildade!''
mesmo tempo que teu apaixonado, desejas ser digna dele, ainda que “ Então estás mesmo decidida?"
seja pelo heroísmo e firmeza de teu caráter. Concedo-te isso. Tam­ “ Estou decidida!”
bém concordo em que é perfeitamente natural, e portanto correto, Ele fez uma pausa, depois aparentou ter chegado a uma conclu­
que desejes manter-te jovem, saudável e bela por causa dele - e de­ são.

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“ Assim seja!" Disse ele. “ Mas que recaia em tua cabeça qualquer “Meu inimigo?” Perguntei interrogativamente.
infortúnio que possa te acontecer! Não assumo qualquer responsabi­ “ Sim, Tu Mesma! O único poder com o qual qualquer homem ou
lidade. Vieste aqui por tua livre e espontânea vontade - por tua es­ mulher tem ou terá que se haver!”
colha escolheste ficar aqui, onde não há outra mulher com quem Ele largou minhas mãos e suponho que expressei um mudo apelo
possas te comunicar —e por tua livre vontade aceitas todas as conse­ pelo olhar que lhe lancei, pois uma ligeira sombra de sorriso aflorou
quências. Isso está compreendido?" em seus lábios.
Seus olhos de cor azul-aço lampejaram com um brilho quase so­ “ Deus esteja contigo!” Disse ele suavemente, e em seguida fez
brenatural quando ele fez a pergunta, e tive consciência de uma sen­ um pequeno gesto indicando que eu deveria sair. Obedecí imediata­
sação de temor. Mas dominei-a e respondí com simplicidade: mente, seguindo Honorius que me levou de volta ao mesmo quarto
“Está compreendido." de antes; sem dizer uma palavra, ele fechou e trancou a porta atrás
Ele me lançou um olhar aguçado que pareceu me varrer dos pés a de mim. Para minha surpresa, encontrei a pouca bagagem que havia
cabeça; então, virando-se bruscamente, puxou uma alavanca que deixado na estalagem à minha espera. Numa pequena prateleira em­
estava em sua mesa. a qual fez soar um sino em algum lugar do cor­ butida num nicho da parede, que eu não havia notado antes, havia
redor. Meu guia entrou quase imediatamente, e Aselzion dirigiu-se a um prato com frutas e pão seco, e um copo com água fria. Quando
ele: fui olhar a frugal refeição de mais perto, vi que estava arrumada com
“ Honorius. leva esta senhora ao seu quarto. Ela seguirá os proce­ simplicidade mas também com graça, e que a prateleira era. na reali­
dimentos de aprendiz e estudante” . Ao ouvir essas palavras, Hono­ dade, um pequeno elevador, obviamente ligado à parte doméstica da
rius me lançou um olhar de indisfarçado espanto e piedade. “ No casa, e concluí que esse seria o meio pelo qual minhas refeições se­
momento em que ela demonstrar o desejo de partir, todas as facili­ riam servidas. Não perdí tempo pensando nisso; estava satisfeita por
dades para esse fim deverão ser-lhe concedidas. Enquanto ela per­ ter obtido permissão para ficar na Casa de Aselzion, e o fato de estar
manecer sob o regime de instrução, entretanto, a regra será, como aprisionada no quarto não me incomodava. Tirei da mala minhas
sabes, solidão e silêncio". poucas coisas, entre as quais havia três ou quatro de meus livros
Olhei para o mestre e me surpreendí com a rapidez com que seu prediletos, depois sentei-me para comer a simples refeição com inu­
rosto havia mudado. Já não estava mais suavizado pela grave bene­ sitado apetite. Quando terminei, levei uma cadeira para perto da ja­
volência e bondade que havia sustentado minha coragem - naquele nela e fiquci alt sentada, contemplando o mar. Vi minha amiga rosa
momento uma sombra de severidade o obscurecía e seus olhos esta­ com a cabeça carmesim encostada na parede bem embaixo da janela
vam olhando em outra direção, não mais para mim. Percebí que eu com um ar de grande confiança —vê-la me deu uma sensação boa de
devia deixar a sala. mas hesitei. companheirismo que me impediu de sentir solidão. O céu estava es­
“Permita-me agradecer sua bondade” , murmurei, estendendo ti­ curecendo, embora uma ou duas brilhantes estrías rubras ainda esti­
midamente as mãos, numa atitude próxima da súplica. vessem no horizonte, como lembranças do Sol que se fora, e uma
Ele se voltou lentamente para mim e tomou minhas mãos nas radiação perolada no leste prenunciava o nascimento da Lua. Tive a
suas. sensação de que o profundo silêncio que me envolvia era como uma
“Pobre criança, nada tens que me agradecer! Como uma das pri­ parede; olhando para trás, para o interior do quarto, ele me pareceu
meiras lições do difícil caminho que estás para seguir, tem em mente cheio de sombras móveis, escuras e impalpáveis. Lembrei que eu
que não tens que agradecer a ninguém por coisa alguma, nem culpar não tinha velas nem qualquer outro tipo de iluminação - isso me
seja quem for por teu destino, a não ser tu mesma! Vai! E que pos­ causou um passageiro mal-estar, mas que só durou um momento.
sas vencer teu inimigo!” Posso ir me deitar, pensei, quando me cansei de ficar olhando o mar.

[266] [2 67 ]
Resolvi que esperaria o surgir da Lua - e a cena que presenciei foi
divinamente bela e tranqüila, capaz de agradar qualquer poeta ou
artista, e fiquei contente. Não tinha consciência de ter medo, mas me
senti ficando impressionada, como se estivesse sendo gradativa-
mente subjugada pelo silêncio que se aprofundava cada vez mais, e
pela solidão imensa do lugar. "A regra para ela é solidão e silên­ XIV
cio", havia dito Aselzion. Evidentemente essa regra estava sendo
devidamente aplicada. A CRUZ COM A ESTRELA

A lua surgiu lentamente entre duas faixas de nuvens negras que


aos poucos ficaram prateadas sob sua brilhante luz. e uma trilha
falseante de reflexos como os do diamante se estendeu pelo mar. Fi­
quei sentada perto da janela, sentindo uma hesitação estranha em en­
frentar a escuridão do quarto, atrás de mim. Comecei a pensar que
era cruel ser deixada sozinha e trancada daquele jeito: certamente eu
merecia ter algum tipo de iluminação! Então me censurei por deixar
que uma sugestão de queixa entrasse em minha mente pois. afinal de
contas, eu era uma hóspede intrusa na Casa de Aselzion - minha
presença ali não era desejada - e lembrei da ordem que tinha sido
dada em relação a mim: "no momento em que ela desejar partir, to­
das as facilidades para esse fim deverão ser proporcionadas” . Eu
estava com muito mais medo dessas “ facilidades para esse fim” do
que de minha solidão naquele momento, e me resolvi a enfrentar a
aventura com a melhor disposição possível. Se era melhor que eu fi­
casse sozinha, então acharia boa a solidão. Se era necessário que eu
ficasse no escuro, então acharia a escuridão agradável.
Eu nem bem tinha terminado de tomar essas decisões a respeito
do assunto quando meu quarto foi repentinamente iluminado por
uma radiação suave mas efulgente. Tive um sobressalto de surpresa,
me perguntando de onde vinha a luz. Não havia lâmpadas nem outro
equipamento elétrico à vista - era como se as paredes emanassem
aquela luminescência. Quando a surpresa amainou um pouco, senti-
me encantada e deliciada com aquele brilho quente e confortador à
minha volta, que me fez lembrar do brilho das velas do “ Sonho".
Afastei-me da janela, deixando-a aberta, já que a noite estava quente
e sem vento, e sentei-me à mesa para ler um pouco, mas após alguns
minutos interrompí a leitura para ouvir uma estranha e murmurante

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melodía que flutuava até o meu quarto, que aparentemente vinha do Quando acordei o dia já tinha começado, e a luz do Sol se insi­
mar e me emocionou até o fundo de minha alma. Nenhuma descrição, nuava em meu quarto como uma chuva dourada. Saltei da cama, en­
por mais eloquente que fosse, podería dar uma idéia da cativante do­ cantada com a noite que passara lão pacificamente, sem nada de es­
çura das harmonias que mais eram respiradas no ar que tocadas. Fi- tranho ou assustador, embora não soubesse por que tinha esperado
quei absorvida acompanhando o ritmo das deliciosas cadências que que algo assim acontecesse. Tudo parecia maravilhosamente refres­
subiam e desciam em intensidade. Aos poucos, meus pensamentos se cante e maravilhoso na luz do novo dia, e a simplicidade espartana
voltaram para Rafei Santoris- onde estaria ele naquele momento? Em de meu quarto tinha para mim um fascínio maior do que o do luxo.
que perfeita vastidão de cintilantes águas teria seu encantado veleiro A única coisa incomum que percebí foi que a água fria que enchia a
lançado âncora? Visualizei-o em minha mente até quase poder ver banheira brilhava como se fosse efervescente —vi que ela ondulava
seu rosto-a testa larga - os destemidos e temos olhos e o doce sorri­ um pouco formando uma pequena espuma diamantina, e nunca esta­
so - e imaginei poder ouvir os profundos e suaves tons de sua voz. va absolutamente parada. Observei esses movimentos por alguns mi­
sempre tão gentil quando ele me dirigia a palavra - a mim que tinha nutos antes de tomar banho. Sentindo que ela devia estar carregada
me ressentido um pouco de sua influência! Uma onda ardente de ter­ com algum tipo de eletricidade, mergulhei sem hesitação e apreciei
nura há muito reprimida elevou-se de meu coração- toda a minha al­ ao máximo a deliciosa sensação de vigor que ela me causou. Quando
ma. por assim dizer, correu para saudá-lo com os braços abertos. Em minha toalete estava terminada e eu tinha colocado um vestido sim­
minha consciência admiti que ele era mais do que o mundo inteiro ples de linho branco, por achá-lo mais conveniente naquele calor do
para mim. e disse em voz alta '‘meu amado, eu o amo! Amo!", falan­ que o vestido preto da véspera com o qual tinha viajado, fui abrir
do para o silêncio da noite, quase como se acreditasse que o silêncio a janela para deixar entrar o frescor do ar marinho; ñquei surpresa
levaria minhas palavras até ele, que eu tanto queria que as escutasse. ao ver uma pequena porta aberta num lado da torre; passando por
Pouco depois me dei conta de quanto era tolo e vão falar para o ela. descobri uma escada em caracol que descia. Cedendo ao impul­
ar vazio, quando eu podería ter confessado meu amor a ele, frente a so do momento, descí pela escada, e cheguei a um pequeno e exóti­
frente, se tivesse sido menos cética, menos orgulhosa! Não fora mi­ co jardim entre as pedras que davam para o mar. Abri um portãozi-
nha jomada para a Casa de Aselzion um testemunho de minha atitu­ nho e caminhei até a beira do oceano. Então eu não estava mais pri­
de de dúvida? Pois eu havia vindo até ali, como tinha que admitir, sioneira! Podia fugir se quisesse!
primeiro para me certificar da existência de Aselzion. e segundo, pa­ Olhei em volta e sorri, quando me dei conta da impossibilidade de
ra provar a mim mesma que ele era verdadeiramente capacitado para fuga. O jardinzinho pertencia exclusivamente à torre, e de cada lado
me transmitir os segredos místicos que Rafei parecia conhecer. Aca­ rochas intransponíveis se erguiam a uma altura quase igual à do
bei ficando exausta de pensar sem propósito e, fechando a janela, ti­ Château de Aselzion, enquanto que a pequenina praia onde eu me
rei a roupa e me deitei. Quando o fiz. a luz em meu quarto extin- encontrava estava igualmente cercada de enormes pedras contra as
guiu-se sem aviso, e tudo voltou a ser trevas, só aliviadas pela lua quais as ondas tinham se atirado durante séculos sem causar qual­
que fazia passar um raio branco de luz pela treliça da janela, que quer diferença visível nelas. Não obstante, era delicioso sentir que
não tinha cortinas. Por algum tempo fiquei acordada no pequeno ca­ um pouco de liberdade e espaço tinham sido concedidos, e ñquei al­
tre. olhando para o raio de luar. recusándome com firmeza a permi­ guns minutos banhando-me na luz quente do Sol meridional. Depois,
tir que qualquer sensação de medo ou solidão me dominasse; a mú­ voltei lentamente sobre meus passos, olhando para todos os lados
sica que tanto me encantara havia cessado e tudo estava imóvel e em para ver se havia alguém por ali, mas não vi viva alm a.. .
silêncio. Aos poucos meus olhos foram se fechando, as pernas e bra­ Voltei ao meu quarto e minha cama estava arrumada com tanto
ços cansados se relaxaram, e caí num sono profundo e sem sonhos. capricho que era como se ninguém a tivesse usado para dormir. So­

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bre a mesa estava o meu café da manhã, consistindo de um copo de Desdobrei o tecido e o coloquei na cabeça - era delicado como
leite e alguns biscoitos de trigo. Eu estava com fome e fiz as honras uma nuvem e cobriu-me da cabeça aos pés, escondendo-me efetiva­
com prazer. Quando terminei, peguei o prato e o copo vazios e os mente de qualquer olhar alheio, embora eu pudesse ver perfeita-
coloquei no nicho da parede, que imediatamente se movimentou e mente através das suas dobras. Honorius fez um sinal para que eu o
logo desapareceu. Então comecei a pensar em um modo de me ocu­ seguisse; nesse instante senti meu coração bater forte, com excitação
par. Não adiantaria escrever cartas, embora eu tivesse todo o mate­ e expectativa.
rial de correspondência comigo - pois eu não queria que meus ami­ Andamos por muitas passagens com desvios intricados que pare­
gos e conhecidos soubessem onde eu estava. Mesmo que eu lhes es­ ciam não levar a parte alguma - era como estar num labirinto - até
crevesse. era pouco provável que minhas cartas chegassem ao desti­ que afinal me vi fechada num pequeno aposento parecido com uma
no. Eu sentia que a mística Irmandade de Aselzion não me permitiría cela; em frente havia uma pequena abertura através da qual contem­
qualquer comunicação com o mundo exterior enquanto eu estivesse plei uma cena estranha e pitoresca. Vi o interior de uma pequena ca­
naquela Casa. Sentei e comecei a meditar - comecei considerando pela gótica extremamente bonita, com desenho primoroso, iluminada
que vários dias passados daquela forma seriam difíceis de suportar. por vários vitrais pelos quais a luz do Sol se filtrava em nesgas de
Com o relógio parado, eu não podia saber direito as horas do dia, e lindas cores, desenhando no chão de mármore um padrão dourado,
naquele lugar não havia nenhum som de carrilhão ou outro som de carmesim e azul. Entre as altas colunas que suportavam o teto lin­
relógio que eu pudesse ouvir. O silêncio podería ser opressivo, não damente entalhado, havia duas filas de bancos, em dois níveis, onde
fosse o murmúrio das ondas do mar se quebrando na praia sob a ja­ estavam sentadas figuras imóveis - homens com as roupagens de sua
nela. Para minha grande alegria, a porta de meu quarto se abriu e a misteriosa Ordem, os rostos quase totalmente ocultos pelos capuzes.
personagem chamada Honorius entrou. Ele abaixou levemente a ca­ Não havia altar na capela - mas na parte leste, onde podería haver
beça em sinal de saudação e disse concisamente: um altar, vi uma cortina escura cor de púrpura contra a qual brilha­
“ Deverás acompanhar-me, assim foi ordenado." va, em luminosa radiância, uma Cruz e uma Estrela de Sete Pontas.
Levantei-me obedientemente e aguardei. Ele me olhou com atenta Os raios de luz emitidos por aquele Símbolo de uma Crença sem re­
curiosidade, como se quisesse ler minha mente. Lembrando que gistro, eram tão vividos que quase me cegavam, chegando quase a
Aselzion havia recomendado que eu só falasse quando me dirigissem eclipsar a glória do Sol de verão. Impressionada pela estranha e si­
a palavra, limitei-me a sustentar o olhar dele com um sorriso. lenciosa solenidade do ambiente, senti-me feliz por estar oculta sob
“ Não estás infeliz, nem amedrontada nem inquieta", disse ele. as dobras de meu véu branco, embora soubesse que estava numa es­
“Isso está bem! Estás tendo um bom começo. E agora, seja o que for pécie de recesso secreto feito de propósito para o uso daqueles que
que vires ou ouvires, guarda silêncio! Se desejas falar, deves fazê-lo fossem chamados para ver o que acontecia na capela, sem serem
agora - mas depois que deixarmos este quarto, nem uma palavra de­ vistos. Esperei, tomada de ansiosa expectativa; algum tempo depois,
verá escapar de teus lábios, nem uma exclamação, pois tua obriga­ o som baixo e vibrante do órgão' tremulou no ar, aumentando grada­
ção é ouvir, aprender e obedecer!" tivamente em volume e poder, até que uma magnifícente cascata mu­
Ele aguardou, dando-me oportunidade para responder alguma coi­ sical se derramou como uma tempestade caindo das nuvens. Tomei
sa, mas preferi ficar em silêncio. Ele então me deu um tecido dobra­ uma respiração profunda de puro êxtase - eu poderia ter me ajoelha­
do, de material branco e macio, opaco, mas delicado e tino como do e chorado lágrimas de gratidão pela simples graça de poder ou­
musselina. vir! A música era divina! A idéia da mortalidade foi atraída e des­
“Cobre-te com este véu e não o tires a não ser depois de voltares truída por ela, e a alma aprisionada se elevou para a vida superior
a este quarto." nas asas da luz, rejubilando-se!

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Quando a música cessou, o que aconteceu num tempo que me pa­ fazer no futuro. Sabemos que a partir do Passado, desde o infinito
receu breve demais, seguiu-se um profundo silêncio - tão profundo do tempo, construímos o Presente —e de acordo com a Lei divina
que eu podia ouvir as batidas aceleradas de meu coração, como se lambém sabemos que com este Presente, que se estende ao infinito,
fosse a única coisa viva naquele lugar. Voltei os olhos para a bri­ desenvolveremos o que ainda está Por Vir. Não há poder, divindade,
lhante Cruz com a Estrela, com seus raios cintilantes como chamas, acaso ou “ fortuita união de átomos” no que chamamos Matemática
e o efeito do perpétuo clarão de fogo era como o de uma corrente Universal, mera figura de retórica. Nada pode ser “ perdoado” se­
elétrica enviando mensagens que nenhuma capacidade mortal pode­ gundo a eterna lei da Compensação —nada precisa ser objeto de uma
ría decifrar ou traduzir em palavras, mas que se dirigiam diretamente “ prece de súplica” , visto que tudo foi designado para cumprir o bem
para o mais profundo recesso da consciência. Imediatamente houve definitivo no espírito de cada indivíduo. Estamos aqui para aprender
um leve movimento nas filas de figuras vestidas de branco e encapu- o segredo da vida, mas não £ somente isso, é também como viver es­
zadas, até então imóveis - todas ao mesmo tempo se levantaram sa vida; eu, em minha capacidade, tento apenas ensinar o que a Na­
quando uma outra figura, alta, majestosa e dominadora veio cami­ tureza vem nos mostrando há milhares de séculos, embora não te­
nhando pela capela e parou diante do flamejante símbolo, estenden­ nhais vos interessado em aprender suas lições. A ciência de hoje é
do os dois braços como se estivesse invocando uma bênção. Era o apenas uma cartilha da N atureza- um livro simples que mostra o al­
Mestre Aselzion - um Aselzion investido de uma dignidade e es­ fabeto através de figuras. Professores sagazes vos dizem, embora
plendor que eu não julgaria possível existir num homem. Ele podería não sejam mais que crianças em sua sabedoria recentemente adquiri­
estar representando um deus ou um herói - seu aspecto era de abso­ da, que a vida humana se desenvolveu a partir do protoplasma - é o
luto poder e tranquila autocontenção; outros homens poderíam ter que eles pensam, mas falta-lhes a capacidade de vos explicar como
dúvidas quanto ao objetivo de suas vidas, mas naquele expressava- se desenvolveu o protoplasma, e por que; não temos nenhum conhe­
se, na própria atitude, a certeza, a força e a autoridade. Seu capuz cimento ou percepção de onde veio o material com que foram feitos
estava jogado para trás; de onde eu estava, em meu canto oculto, os milhões de sistemas solares e trilhões de organismos vivos. Al­
podia ver claramente suas feições e observar o lampejo de seus belos guns negam Deus - mas a maioria é obrigada a confessar que deve
e decididos olhos, quando ele os voltou para seus seguidores. Man­ haver uma Inteligência, suprema e onipotente, por trás do Universo
tendo os braços estendidos, ele falou com voz clara e firme; invisível. Não pode provir a ordem do Caos sem uma Mente direto­
“ Oferecemos nossa gratidão e louvor ao Criador de todas as coi­ ra; e a Ordem logo submergiría no Caos outra vez se não fosse a
sas visíveis e invisíveis, para iniciar este dia!” Mente diretora de uma natureza que sustenta seu método e condição.
Um murmúrio de vozes se fez ouvir em resposta: “Começamos então por essa Mente Diretora ou Inteligência Go­
“ Louvamos a Ti, Ó Divino Poder de Amor e Vida eterna! vernante que deve, como o cérebro do homem, ser dual, combinando
Louvamos a Ti por tudo que somos! os atributos feminino e masculino, pois vemos que ele se expressa
Louvamos a Ti por tudo que já fomos! por toda a criação em forma e tipo dual. Inteligência, Mente ou Es­
Louvamos a Ti por tudo que esperamos ser! Amém!” pírito, seja como for que desejemos chamar essa Força, é inerente­
Um silêncio carregado se seguiu. Os iimãos reunidos voltaram a mente ativa e deve encontrar uma vazão para seus poderes —e o fato
seus lugares e Aselzion falou, em tom pausado e distinto, com a dessa necessidade produz o Desejo de perpetuar-Se de inúmeras ma­
atitude segura e descontraída provinda de sua prática como orador: neiras: esse é, sempre, o primeiro atributo do Amor. Depreende­
“ Amigos e Irmãos!” mos, portanto, que o Amor é o fundamento dos mundos e a fonte de
“Estamos aqui reunidos para considerar neste momento do tempo todos os organismos vivos - os átomos duais, ou íons de espirito e
as coisas que fizemos no passado e que estamos nos preparando para matéria cedendo à Atração, União e. Reprodução. Se assimilarmos

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este fato razoável e completamente, chegaremos perto da compreen­ de dádiva que Deus lhes concedeu. Mas nós - que estamos aqui para
são da vida.” compreender a existência da toda-poderosa Força que nos dá domí­
Ele parou de falar por um momento - depois adiantou-se um pas­ nio absoluto sobre as coisas do espaço, tempo e matéria - nós, que
so ou dois, com o flamejante Símbolo atrás dele parecendo envol­ sabemos que o homem pode exercer absoluto controle sobre o uni­
vê-lo literalmente com seus raios. verso móvel e individual de átomos chamado Homem - podemos
“O que temos que aprender em primeiro lugar é como essas leis provar para nós mesmos que toda a terra está sujeita ao domínio da
nos afetam como seres humanos individuais e personalidades sepa­ Alma imortal - como o estão os elementos do ar, do fogo e da Agua!
radas. E preciso evitar toda obscuridade da linguagem ao estabele­ Pois nada mais são que os ministros e servos de Sua soberana auto­
cermos os princípios simples que devem guiar e preservar cada ridade!”
existência humana, e minha explicação será tão breve e concisa Ele fez nova pausa, e após um ou dois minutos de silêncio, pros­
quanto me seja possível. Estando definido que há uma Mente Divina seguiu:
ou Inteligência Governante por trás da infinitude de átomos vitais e “ Esta linda terra, essa linda abóbada celeste, as coisas primorosas
produtivos que, em sua união e reprodução, construem as maravilhas da forma e do encanto da Natureza, tudo isso é dado ao Homem, não
do Universo, vemos e admitimos que um dos principais resultados só para prover suas necessidades materiais, mas também para sua
da operação dessa Mente Divina é o Homem. Segundo nos disseram, evolução e crescimento espiritual. Da luz do Sol ele pode extrair
ele é a “ imagem de Deus” . Essa expressão pode ser considerada novo calor e cor para o seu sangue - do ar, novo suprimento de vida
uma linha poética das Escrituras, sem maior significado que a de - das árvores, ervas e flores a renovação de sua força —nada foi
uma imagem fictícia —mas ainda assim é verdadeira. O Homem é criado que não o fosse para acrescentar-se de alguma forma a seu
uma espécie de Universo em si mesmo - também ele é um conglo­ prazer e bem-estar. Pois se o fundamento do Universo é o Amor,
merado de átomos, átomos ativos, reprodutivos e desejosos da cria­ como o é, então o Amor deseja ver felizes as suas criaturas. A des­
tividade perpétua. Por trás deles, como na natureza do Divino, há graça não tem lugar no Divino esquema das coisas - ela é o resulta­
uma Inteligência Governante, a Mente, o Espírito - dual em seu ti­ do da oposição do próprio Homem à Lei Natural. Nessa Lei, todas
po, com duplo sexo na sua ação. Sem a Mente para controlá-la, a as coisas operam tranqüilamente, sem pressa, com empenho e coe­
constituição do Homem é um caos, como o seria o Universo sem o são. A Natureza obedece em silêncio os decretos de Deus. O Ho­
govemo do Criador. O que devemos lembrar principalmente é que, mem, ao contrário, questiona, argumenta, nega e se rebela - e com
assim como o Espírito por trás da Natureza visível é Divino e eter­ isso desperdiça sua força e fracassa em seu empenho mais elevado.
no, assim também o Espírito por trás de cada ser individual é Divino Está em seu poder renovar sua juventude, sua vitalidade, mas vê-
e eterno. SEMPRE EXISTIU E SEMPRE EXISTIRÁ, e nós nos mo-lo mergulhar por vontade própria na fraqueza e na decrepitude,
movemos como personalidades distintas através de sucessivas fases por assim dizer entregando-se, para ser devorado pelas influências
da vida, cada um de nós sob a influência de sua própria Alma re­ desintegradoras que ele podería facilmente repelir. Pois, assim como
gente, em busca de percepção e consecução cada vez mais elevadas. o Espírito Dirigente de Deus governa a infinidade de átomos e a
A grande maioria dos habitantes do mundo vivem com menos cons­ poeira das estrelas que formam os universos, assim também a mente
ciência desse Espírito que as moscas e os vermes - eles fundam reli­ do homem deve governar os átomos e a poeira de estrelas de que é
giões e tagarelam sobre Deus e a imortalidade como o fazem as composto, dirigindo sua ação e renovando-os a seu bel prazer -
crianças, sem o menor esforço para compreender um e outro; e, ao transformando-os em sóis e sistemas de pensamento e poder criativo,
ocorrer a Mudança que eles chamam morte, saem desta vida sem te­ não desperdiçando nem uma partícula de suas forças vitais eternas.
rem se dado ao trabalho de descobrir, reconhecer ou utilizar a gran­ Ele pode ser o que quiser - um deus, ou uma simples massa de uni­

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dades em embrião, vagando de uma fase de existência para outra ambições que eu tinha foram frustradas, todas as minhas elevadas
com insensata indiferença, permitindo-se passar séculos de movi­ esperanças mortas! Quanto ao amor, o amor por uma mulher que é a
mento sem rumo, antes de entrar em alguma senda decisiva e im­ maior maldição do homem. . . minha amada era falsa e sem valor
portante de ação individual e separada. A maioria prefere ser uma como uma moeda falsificada, pouco se importando se minha vida ia
nulidade embora não possa escapar das engrenagens universais - o ser salva ou arruinada —claro que estava arruinada, mas que impor­
homem tem que servir a algum propósito útil mais cedo ou mais tar­ ta, ninguém se importou! Ah, o cansaço disso tudo! O fardo do tem­
de, mas tudo retarda com sua relutância. Nós, portanto, que estuda­ po, dia após dia! O desejo de deitar e esconder-me sob a grama ma­
mos os poderes latentes do homem, achamos mais sábio aceitar e en­ cia, em paz —lá onde nenhum falso amigo, nenhum amor traiçoeiro,
frentar nosso destino ao invés de ficar para trás e permitir que o nenhum “ bondoso” conhecido, feliz por me ver sofrer, podería
destino nos surpreenda e nos coloque em nosso devido lugar pela apontar o dedo zombeteiro ou lançar um olhar cruel para mim! Asel­
experiência severa. Se há alguém aqui presente que deseje usar da zion, se o Deus que tu serves tem a metade da maldade dos homens
palavra agora, para fazer uma pergunta ou negar o que foi dito, que que Ele criou, então o Céu é o próprio Inferno!”
se apresente e diga o que tem a dizer, sem temor.” O homem falava deliberadamente, mas sem paixão. Aselzion o
Ditas essas palavras, vi, de meu recesso oculto, um movimento contemplou em silêncio. A flamejante Cmz com a Estrela irradiava
entre os irmãos sentados; um deles levantou-se, desceu de seu banco cores estranhas como milhões de jóias, e a profunda quietude da ca­
e caminhou lentamente para onde estava Aselzion até ficar a poucos pela permaneceu intocada por vários minutos. De repente, como se
passos dele. Então parou, abaixou o capuz, mostrando um belo rosto fosse compelido por uma força irresistível, o homem caiu de joelhos:
marcado por uma profunda tristeza que se havia estampado nele com "Aselzion! Já que és forte, tem paciência com um fraco! Como
uma força grande demais para ser apagada. vês o Divino, tem piedade dos que são cegos! Como te manténs fir­
“Não desejo viver” , disse ele. “ Aqui vim para estudar a vida, me, estende a mão para aqueles que têm os pés nas areias movedi­
mas não para aprender a conservá-la. Eu a perdería por qualquer pe­ ças, e se a morte e o esquecimento estão entre as dádivas que podes
queno motivo! Pois a vida para mim é uma coisa amarga —um tor­ oferecer, não as negues a mim, que prefiro morrer a viver!”
mento terrível e inexplicável! Por que haverías tu, Aselzion, de en­ Houve nova pausa. Depois, a voz calma, clara e bondosa de
sinar-nos a viver longamente? Por que não nos ensinas a morrer Aselzion vibrou no silêncio.
mais cedo?” “Não existe morte!” Disse ele. “Não podes morrer! Não há es­
Os olhos de Aselzion estavam fixos no homem que assim falava, quecimento! Não podes esquecer! Só existe uma saída para a vida —
com grave e tema compaixão. é vivê-la!”
“Que acusações tens contra a vida?” Perguntou ele. “Terá a vida Outro momento de quietude, e depois a voz fume e resoluta con­
te tratado injustamente?” tinuou:
“ Perguntas se a vida foi injusta comigo?” O pobre homem le­ “ Acusas a vida de injustiça —mas tu estás sendo injusto com a
vantou as mãos num gesto de desespero. “Tu, que professas saber vida! A vida te deu os sonhos e aspirações de que falaste - mas es­
ler o pensamento e avaliar a alma, é que perguntas? Se a vida me tava em teu poder realizá-los! Afirmo que estava em teu poder, se
injustiçou? Ela foi para mim total injustiça! Desde meu primeiro apenas tivesses escolhido realizá-los! Nem pais, nem amigos, nem o
alento —pois não pedi para nascer —desde os meus primeiros dias próprio Deus poderíam impedir-te de fazer o que tua vontade orde­
quando meus sonhos e aspirações de jovem foram cortados, esmaga­ nasse! Quem pode matar uma esperança senão aquele em cuja alma
dos e assassinados por meus amorosos pais! Oh, pais amorosos, ela nasceu? E o amor de uma mulher? Teria sido ela tua verdadeira
realmente! Pais cuja idéia de amor era o dinheiro! Todas as grandes alma irmã? Ou apenas algo feito de olhos, cabelos e vaidade? Tua

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paixão só tocou seu corpo, ou alcançou sua Alma? Procuraste saber Aselzion, parado à luz da brilhante Cruz com a Estrela, olhou pa­
se a Alma havia despeitado no interior dela, ou estavas por demais ra o homem com um sorriso.
satisfeito com sua beleza da superfície, para te importares com isso? “ Também carrego o fardo - se assim quiseres chamá-lo - de se­
Em tudo isso, censura a ti mesmo, não a vida! Pois a vida te dá o tenta anos! Mas os anos nada representam para mim e nada deveríam
céu e a terra, o tempo e a eternidade para a consecução da alegria — representar para ti. Quem te pediu para contar os anos ou pensar
a alegria na qual, não fosse por tua culpa, não haveria jamais um só neles? No mundo da Natureza selvagem, o tempo só é medido pelas
traço de tristeza!” estações —a ave não sabe sua idade —a roseira não conta seus ani­
O penitente ajoelhado - pois era o que ele parecia ser - cobriu o versários! Tu, que sei seres um homem corajoso e estudante pacien­
rosto com as mãos. te, viveste a vida usual dos homens no mundo - casaste com uma
“ Não posso conceder-te a morte” , continuou Aselzion. “ Podes mulher que nunca procurou conhecer o lado mais profundo de tua-
buscar o que chamam por esse nome por ti mesmo se assim o deseja­ natureza, e que hoje está mais velha que tu embora na realidade te­
res; podes encontrá-la através de tua própria ação, súbita ou preme­ nha menos anos de vida; tens filhos que te vêem apenas como o pro­
ditada, destruindo tua presente forma e composição, mas só pelo vedor de dinheiro e que, fingindo afeição, aguardam tua morte com
tempo que levará para que a Natureza te reconstrua, algo que ocorre ansiedade para entrar na posse de tua fortuna. Poderías estar melhor
num momento incrivelmente breve! Mas nada ganharias com isso — sem todos aqueles filhos! Sei de tudo isso como tu o sabes; também
pois não perderías a consciência nem a memória! Pondera bem nisso sei que através das palavras-impressões e da influência dos chama­
antes de derrubares tua habitação! A ingratidão gera a estreiteza, dos “ amigos” que desejam te persuadir de que és velho, o processo
e tua próxima casa poderá ser menor e menos adequada à paz e à de desintegração já foi iniciado - mas é possível detê-lo. Tu mesmo
respiração tranquila!” podes detê-lo! O sonho de Fausto não é uma falácia! Apenas, a re­
Com essas palavras, ditas com suavidade, ele ajudou o penitente a novação da juventude não é obra da magia negra, mas do bem natu­
se levantar, e fez um sinal para ele voltar ao seu lugar. O homem ral. Se queres ser jovem, deixa o mundo que conheceste e começa de
obedeceu sem dizer palavra, abaixando o capuz por sobre o rosto, novo - deixa mulher, filhos, amigos, tudo que se agarra a ti como os
para que nenhum de seus companheiros pudesse vê-lo. Então outro fungos a um carvalho, apodrecendo seu tronco, roubando sua força
homem se adiantou e se dirigiu a Aselzion. sem oferecer em troca uma nova forma de vitalidade. Vive de novo
“ Mestre” , disse ele, “ não seria melhor morrer do que envelhecer? - ama de novo!”
Se não existe morte, como nos ensinas, deveria haver decadência? “Eu?” E o homem que falara jogou o capuz para trás, mostrando
Que prazer existe na vida se a força falha e a pulsação se deteriora - um rosto descorado e cheio de rugas, mas impressionante pela inte­
se o sangue esfria e estagna, e mesmo aqueles que amamos conside­ lectualidade das feições, “Eu! Com todos estes cabelos brancos!
ram que já vivemos demais? Quem te fala está velho, embora não Estás caçoando de mim, Aselzion!”
tenha consciência da idade; os outros têm essa consciência por mim “ Nunca faço isso!” Replicou Aselzion. “ Deixo as caçoadas para
- seus olhares, suas palavras, me dizem que estou atrapalhando, que os tolos que tagarelam sobre a vida sem nada compreender dela. Não
estou morrendo aos poucos como uma árvore sem seiva, e que o estou caçoando de ti - coloca-me à prova! Obedece minhas regras
processo é tedioso demais para a impaciência deles. Entretanto, eu por seis meses apenas e sairás desta casa com todas as forças de teu
podería ser jovem! Meus poderes para o trabalho aumentaram ao in­ corpo e espirito renovados em juventude e vitalidade! Mas só Tu
vés de diminuir - aprecio mais a vida do que os que são bem mais poderás fazer o milagre que, como sabemos, não é milagre algum!
jovens; apesar disso, sei que carrego o fardo de setenta anos em mi­ Tu mesmo deverás reconstroir-te! É assim com todos que querem ti­
nhas costas, e digo: é melhor morrer do que viver tanto tempo!” rar o máximo proveito da vida, Se hesitares, se voltares atrás, se re-

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tornares com um só arrependimento tolo ou pensamento mórbido aos cujo seio queima o fogo oculto das forças, somos teus filhos, nasci­
erros passados da vida, que são do passado à tua esposa, que o £ só dos de ti em espírito e em matéria - em nós destilaste tuas chuvas e
de nome mas náo de alma, a teus filhos, nascidos do instinto animal, orvalhos, tuas neves e geadas, teu Sol e tua tempestade! Em nós in­
não do profundo amor espiritual, aos “ amigos” que contam teus corporaste tua prolífica beleza, tua produtividade, teu poder e teu
anos como se fossem crimes - se o fizeres, farás cessar o trabalho de impulso para o bem - e, mais que tudo, concedeste-nos a divina pai­
regeneração e impedirás as forças da renovação. Deves escolher - a xão do Amor que faz brilhar a luz do que criaste e que nos sustenta!
escolha terá que ser voluntária e deliberada, pois nenhum homem se Toma-nos, ó Luz! Guarda-nos, Ó Natureza! E Tu, ó Deus, Supre­
toma velho e fraco sem ser por sua intenção e inclinação para isso; mo Espírito do Amor, cujo pensamento £ Chama e cujo desejo é
da mesma forma nenhum homem retém ou renova sua juventude sem Criação, sê nosso guia, sustento e instrução por todos os mundos
uma intenção ou inclinação semelhante. Tens dois dias para pensar - sem fim! Amém!”
depois me dirás o que resolveste.” Mais uma vez a música gloriosa do Órgão invadiu a capela como
O homem hesitou, como se tivesse algo mais a dizer; depois, com uma tempestade, e eu, tremendo, ajoelhei-me, cobrindo o rosto vela­
uma profunda inclinação de respeito, voltou ao seu lugar. Aselzion do com as mãos, totalmente dominada pelo esplendor daqueles sons
esperou até que ele estivesse sentado, e então voltou a falar, após o e pela singularidade dos acontecimentos. Aos poucos, com grande
breve intervalo: lentidão, a música foi morrendo; seguiu-se um profundo silêncio - e
“ Se todos aqui presentes estão satisfeitos com as regras de vida quando levantei a cabeça vi que a capela estava vazia! Aselzion e
deste lugar e com os estudos que estão realizando, e se ninguém de­ seus discípulos haviam desaparecido sem o menor ruído, como se
seja sair, aguardo o sinal costumeiro.” nunca tivessem estado ali. Só a Cruz com a Estrela continuava a
Todos os irmãos se levantaram e ergueram os braços acima da ca­ brilhar contra o fundo púrpura escuro - emitindo lampejos que eram
beça - deixando-os cair lentamente após um segundo de pausa. como raios tremeluzentes, alguns violeta pálido, outros vermelhos,
“ Agora basta!” E Aselzion se dirigiu para a Cruz com a Estrela, outros com os delicados matizes do topázio rosado.
ficando de frente para o Símbolo. E então, para meu espanto e um Olhei à minha volta e vi, com surpresa, que a porta do pequeno
pouco de terror, vi os raios que provinham do centro do Símbolo recesso tinha sido destrancada e aberta. Agindo por impulso irresis­
flamejarem a uma distância extraordinária, envolvendo a figura de tível, saí; andando na ponta dos pés, mal ousando respirar, caminhei
Aselzion e infundindo a capela com um brilho que a fez parecer co­ sob uma arcada baixa e entrei na capela onde fiquei sozinha, com o
mo se estivesse em chamas. Ele avançou com firmeza para o centro coração batendo alto, cheio de terror. Mas nada havia a temer. Não
das chamas brilhantes; depois, num certo ponto, ele se voltou para havia ninguém ali que eu pudesse ver, embora eu me sentisse como
os demais. Mas que aspecto tinha naquele momento! A luz à sua se milhares de olhos me observassem lá de cima, do teto, ou de trás
volta parecia fazer parte de seu corpo e suas roupas - ele estava das colunas, ou pelos vitrais que refletiam sua luz colorida no pavi­
transfigurado em algo divino e angelical. Fiquei tomada pela reve­ mento de mármore. A radiação da Cruz com a Estrela era quase ter­
rência e pelo temor ao contemplá-lo. Levantando uma das mãos, ele rível naquele grande silêncio - os longos raios eram como línguas de
fez o sinal da cruz —os irmãos desceram de seus bancos, e cami­ fogo expressando em silêncio coisas indizíveis! Fascinada, fui che­
nhando um atrás do outro vieram até onde ele se encontrava. Ele gando cada vez mais perto, mas estaquei em certo ponto, impedida
falou - e sua voz soou como um toque de clarim: por uma espécie de vibração sob os meus pés, como se o chão tre­
“ ó Luz Divina!” Exclamou ele. “ Somos parte de Ti, e em Ti de­ messe. Depois de algum tempo, entretanto, reuni suficiente coragem
sejamos ser absorvidos! Sabemos que de Ti podemos obter a imorta­ para prosseguir, e fui gradativamente sendo atraída para um vórtice
lidade da vida nesta terra benevolente! Ó Natureza, mãe amada, em perfeito de luz que era como grandes ondas me envolvendo por to-

[ 282 ] [ 2 83 )
dos os lados com tanta força que eu mal tinha consciencia de meus
próprios movimentos. Meus movimentos eram os de uma criatura
num sonho —minhas mãos pareciam transparentes e imateriais quan­
do as estendí para aquele maravilhoso Símbolo! Quando meus olhos
notaram por um momento as dobras do véu que me encobria, vi que
o tecido branco tinha um brilho cor de ametista. Fui adiante, com XV
a idéia desesperada de ir até onde me fosse possível dentro daquele
centro de luz viva - a ousadia do pensamento me assustava ao mes­ A PRIMEIRA LIÇÃO
mo tempo em que me dava ânimo - e, passo a passo, caminhei para
a frente até que, de repente, me senti presa como se tivesse sido Não sei quanto tempo fiquei ali sem sentidos, sem nada ver, mas
capturada por uma roda de fogo! Ela girava e girava à minha volta - quando voltei a mim estava num local calmo e fresco, como uma es­
flechas de luz radiante pareciam penetrar meu corpo, apunhalando-o pécie de pequeno eremitério; uma janela se abria pare o mar. Eu es­
vezes sem conta; lutei para respirar melhor e tentei voltar - impossí­ tava deitada num catre, ainda coberta com o véu; quando abri os
vel! Eu estava presa numa rede de infindas vibrações luminosas que, olhos e olhei em volta vi que já era noite e que a luz estava traçando
ainda que não emitissem calor, trespassavam meu ser com perscru­ uma teia de prata por sobre as ondas do mar. Havia uma deliciosa
tad ora intensidade, como se quisessem examinar o próprio cerne de fragrância no ar, que vinha de rosas colocadas num vaso de cristal
minha alma! Não pude emitir um único som - fiquei lá muda, imó­ próximo de onde eu estava deitada. Depois que recobrei o conheci­
vel, envolta na chama que tinha um milhão de cores, chocada demais mento de que existia, percebí uma mesa com uma lâmpada acesa em
para sequer lembrar de minha própria identidade. Então, algo escuro cima; ali estava sentada uma pessoa, que eia o próprio Aselzion,
e fresco como a sombra de uma nuvem passageira flutuou acima de lendo. Fiquei tão espantada ao vê-lo que por um momento me man­
mim - olhei para cima e tentei soltar um grito, uma palavra de apelo! tive inerte, com medo de me mexer, pois tinha quase certeza de que
Então fui ao chão, perdida na mais completa inconsciência. havia feito algo que o desagradara. Depois, com a sensação de ser
uma criança buscando o perdão por uma ofensa, levantei e com até
ele, ajoelhando-me aos seus pés;
“Aselzion, perdão!” Murmurei. “Sei que errei, eu não tinha o di­
reito de ir tão longe.. . ”
Ele me olhou sorrindo e pegou minhas mãos gentilmente.
“ Quem nega o teu direito de ires tão longe se tens a força e a
coragem para fazê-lo? Disse ele. “Cara criança, nada tenho pa­
ra perdoar! Es a construtora de teu próprio destino! Mas foste
imprudente. Embora sejas só uma mulher ousaste fazer o que pou­
cos homens ousariam. Foi pelo poder do amor que está em teu inte­
rior - o amor perfeito que afasta o medo! Correste o risco de um pe­
rigo que não te prejudicou - saíste ilesa, e espero que o mesmo
aconteça com todas as provas de fogo que ainda tenhas que enfren­
tar!”
Ele me fez levantar, mas continuei prendendo as suas mãos.

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"Não pude evitarí” Disse eu. "Sua ordem foi "Silêncio e soli­ Respondí “ sim” imediatamente, sem hesitação.
dão", fiquei no silêncio e na solidão enquanto observava os Irmãos, “ Mas supõe” , prosseguiu ele, “ que ambos os exércitos fossem
ouvindo tudo que era dito - esse era o seu desejo e o seu comando. motivados pelo bem, e que o objetivo da força destruidora fosse eli­
E quando todos saíram, o silêncio e a solidão teriam continuado os minar o que fosse fraco e pernicioso, para construir de novo em
mesmos, não fosse pela Cruz com a Estrela! O Símbolo parecia fa­ formas mais fortes e nobres, enquanto que o objetivo da outra força
lar, me chamar, me atrair - e eu obedecí sem saber por que, mas fosse preservar e manter estritamente as vantagens que já possuía,
sentindo que devia ir! E então.. qual lado teria tua simpatia?”
Aselzion apertou minhas mãos com carinho. Tentei pensar mas não consegui tomar uma decisão.
“ A Luz tomou o que lhe pertencia e a coragem foi recompensada! “ Aí está teu ponto de hesitação, e o limite usual da compreensão
A porta do recesso junto à capela foi aberta por ordem minha - eu humana. Ambas as foiças são boas —mas a regra é a de que só po­
queria saber o que farias. Ainda não podes conceber o que fizeste; demos apoiar uma. Chamamos uma Vida e outra Morte. Pensamos
mas isso não importa. Passaste a prova com êxito. Se permanecesses que sÓ a Vida representa o que está vivo, e que a Morte é uma espé­
passiva em teu lugar até que viesse alguém te tirar dali, eu sabería cie de cessar da Vida, ao invés de reconhecer nela uma das mais ati­
que tinhas a vontade fraca e impulsos transitórios. Mas és mais forte vas formas da Vida. O Universo inteiro é composto por essas duas
do que eu pensava - e por isso, receberás minha primeira lição esta forças, que chamamos bem e mal, mas não existe o mal - só existe a
noite.” destruição do que podería ser pernicioso se lhe fosse permitido
"Minha primeira lição!” Repeti as palavras intrigada, e ele soltou existir. Para falar claro, os incontáveis milhões de átomos e elétrons
minhas mãos e me fez sentar numa cadeira que eu ainda não tinha que compõem os eternos elementos do Espírito e da Matéria são
visto, colocada como estava na sombra formada pela lâmpada, quase duais, ou seja, são de dois tipos - os que preservam seu estado de
em frente a ele, no lado oposto do aposento, equilibrio e aqueles cuja tarefa é desintegrar, para reconstruir. Como
"Sim, tua primeira lição!” Respondeu ele, com um sorriso com­ ocorre no Universo, ocorre no ser humano. Em ti, como em mim,
penetrado. “ A primeira lição sobre o que vieste aprender aqui - a existem as duas forças - e nossas almas, por assim dizer, montam
perpetuação de tua vida aqui na terra pelo tempo que desejares - o guarda entre as duas. Um conjunto de átomos existe para manter o
segredo que dá a Rafei Santoris juventude, força e poder, assim co­ equilíbrio da saúde e da vida, mas, se pela negligência ou falta de
mo o domínio sobre certas energias elementais. Mas primeiro toma cuidado da sentinela chamada Alma, qualquer dos dois se tome fra­
isto” . Ele derramou de um frasco de forma insólita uma taça de vi­ co ou sem utilidade, o outro conjunto, cuja função é desintegrar o
nho tinto. "Não se trata de nenhuma poção mágica - é apenas uma que é falho e inútil para renová-lo e dar-lhe uma forma melhor, co­
forma de nutrição que será melhor para ti do que qualquer alimento meçará a agir, esse processo de desintegração é o nosso conceito de
sólido; sei que nada comeste desde a primeira refeição da manhã decadência e morte. Entretanto, esse processo não pode sequer co­
Toma tudo, até a última gota!” meçar sem nosso consentimento e concordância. A vida pode per­
Obedecí - o líquido parecia sem gosto e sem substância, como a manecer em nossa posse por um período indefinido nesta terra, mas só
água pura. através de nossas próprias ações - nosso desejo e nossa vontade.”
“ Agora” , continuou ele, “ vou mostrar-te uma ilustração simples Olhei para ele interrogativamente.
da verdade subjacente a toda a Natureza. Se fosses levada a um “ Podemos desejar e querer muitas coisas” , disse eu, “ mas nem
vasto planalto e ali visses dois exércitos, um inspirado pela paixão sempre o resultado é positivo” .
de destruir, o outro motivado pelo desejo do bem, naturalmente de­ “ É essa a tua experiência?” Perguntou ele, voltando os olhos di­
sejarias que o segundo exército fosse o vencedor, não é verdade?” retamente para os meus. “ Como sabes, se fores verdadeira contigo

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mesma, nenhum poder poderá resistir à insistência de tua Vontade saudade, vendo suas ondulações sob o luar. Pensei no dia, há pouco
poderosa voltada firmemente para uma determinada intenção. Se o mais de uma semana, em que Rafei Santoris estivera ao meu lado,
esforço fracassar, será porque a Vontade hesitou. Que fizestes de al­ sua mão envolvendo a minha com firmeza - parecia ter sido há tanto
gumas de vossas vidas passadas - tu e teu amado - por causa da he­ tempo! Finalmente falei:
sitação em um momento supremo?" “ Eu preferia morrer, se a morte fosse possível, do que perder seu
Olhei para ele suplicante. amor", disse eu. “ E onde não existe amor certamente haverá a mor­
“Se cometermos erros, terfamos podido evitá-los?" Perguntei. te, não?”
“Não será verdade que tentamos fazer o melhor?" Aselzion suspirou.
Ele sorriu de leve. “Pobre criança! Agora compreendes por que a Alma solitária se
“ Não, não penso que seja verdadê, replicou ele. “ A mola mestra atira loucamente de uma existência a outra até encontrar seu verda­
de vossas existências anteriores - a lei de atração que vos aproxima­ deiro par!" Respondeu ele. “ Dizes a verdade quando declaras que
va era, e continua sendo, o Amor. Lutastes contra ele como se fosse onde não há o amor não há vida verdadeira. Essa vida é apenas uma
um crime, e em muitos casos obedecestes as convencionalidades existência semiconsciente. Mas não tens motivo para sofrimento —
temporárias do homem, ao invés do comando imutável de Deus. E não agora - não se fores firme e tiveres fé. Rafei Santoris está bem e
agora - separados os dois - perdidos em infindáveis vórtices de in- em segurança - sua alma está muito próxima à tua - estás sempre em
fmitude, fostes novamente reunidos - mas embora teu apaixonado seus pensamentos, e isso é como se ele estivesse aqui em pessoa -
tenha cessado seu questionamento, tu ainda não deixaste de duvi­ vê!’
dar!" Ele colocou as duas mãos sobre meus olhos por alguns momen­
“Não duvido!” Exclamei bruscamente e com paixão. "Eu o amo tos e então as retirou. Soltei um grito de êxtase - pois diante de
com toda a minha alma! Nunca mais o perderei!” mim estava o “Sonho" no mar enluarado - as velas brilhavam com
Aselzion me olhou com muda interrogação. sua luz, e sua foima se definia claramente contra o céu! Oh, co­
“ Como sabes se já não o perdeste?" mo desejei voar por sobre a água que era a única coisa que pare­
Ao ouvir essas palavras, uma súbita onda de desespero me inva­ cia nos separar! E mais uma vez ficar no convés ao lado dele, que eu
diu - uma gélida sensação de vazio e desolação. Seria possível que amava mais que minha esperança de ganhar o céu! Eu sabia, entre­
minha precipitação e egoísmo tivessem mais uma vez me separado tanto, que aquilo era apenas uma visão invocada para mim pela ma­
de meu amor? Pois era assim que eu o chamava em meu coração. gia de Aselzion - uma magia utilizada com bondade para me agra­
Teria eu, por causa de um pensamento tolo e de falta de fé afastado dar, para me ajudar e confortar num momento de tristeza e saudade.
o amor mais uma vez de minha alma? As lágrimas me sufocaram - Fiquei observando, sabendo que a imagem logo teria que se desva­
levantei da cadeira, sem saber bem o que fazia, e fui até a janela em necer, e isso aconteceu realmente, pois ela desapareceu como um ar­
busca de ar fresco. Aselzion me acompanhou e colocou a mão no co-íris numa nuvem que passa.
meu ombro, com bondade. “ Era mesmo o “ Sonho"!” Disse eu, sorrindo um pouco, ao me
“É mais difícil manter o amor que conseguir o amor!" Disse ele. voltar para Aselzion. “Tomara que o amor nunca seja tão transitório
“ A incompreensão, e a falta de uma simpatia imediata, terminam em quanto essa imagem!"
separação e corações partidos. Isso é muito pior do que aquilo que “ Se o amor é transitório, então não é amor!” Respondeu ele.
os mortais chamam morte". “ Uma paixão efêmera chamada por esse nome é o tipo comum de
As lágrimas ardentes rolaram lentamente de meus olhos - cada atração que acontece entre homens e mulheres comuns —homens que
palavra parecia apunhalar meu coração. Olhei para o mar cheia de nada vêem além da gratificação de um desejo. Homens que amam

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conforme o significado mais elevado e correto desse termo, são que só precisa ser obedecida para que a vida e a juventude sejam
muito mais raros que as mulheres; as mulheres estão muito mais preservadas. Tudo está contido no esforço da VONTADE, à qual
perto do divino, no amor, quando este desperta nelas. Se depois elas tudo que está na Natureza responde, assim como um navio bem pi­
afundam num nível mais baixo, geralmente é porque os homens as lotado obedece a büssola. Lembra bem disto: tudo que está na Natu­
puxaram para lá. A menos que um homem esteja inclinado para o reza/ Este globo de crista) contém átomos momentaneamente apri­
que é mais elevado, tende a aceitar o que é mais baixo - mas a mu­ sionados que, neste preciso instante, não podem ser dirigidos porque
lher geralmente voa para os ideais mais altos, a princípio, seguindo estão fechados, separados de uma Vontade que os governe - mas se
o cego instinto da Alma que busca seu companheiro, mas com que eu os deixasse como estão por mais algumas horas, partiríam o cris­
frequência ela é expulsa do que sò os anjos conhecem! O poder de tal com sua energia e escapariam para seguir o caminho que lhes é
dominar e controlar as forças da vida não é concedido a todos - é is­ destinado. Eles só te são mostrados para provar que essas coisas são
so que quero que compreendas antes que te deixe só por esta noite. fatos, não sonhos. Tu, como o globo de cristal, estás cheia de áto­
Posso ensinar-te o modo de manter tua vida a salvo de todos os ele­ mos aprisionados - átomos de Espírito e Matéria que trabalham em
mentos desintegradores - mas aprender a lição é tua responsabilida­ conjunto para tomar-te o que é s - mas também tens a Vontade direto­
de". ra que existe para controlá-los e movê-los para que te sustentem ere-
Ele sentou-se, e voltei ao meu lugar à sua frente, preparada para vivifiquem, ou para que te enfraqueçam, decomponham e finalmente
ouvi-lo com a máxima atenção. Havia algumas coisas sobre a mesa dispersem e desintegrem, em preparação para tua assunção para uma
que eu não notara antes, uma delas um objeto coberto com um pano. outra forma e fase de existência. Começas agora a compreender?"
Ele retirou o mesmo, revelando um globo de cristal que parecia estar “ Creio que sim” , respondí. “Mas será possível exercer sempre
cheio de um fluído volátil claro, mas contendo brilhantes pontos e esse esforço da Vontade?”
linhas flutuantes. “Não existe um só momento em que não o faças, consciente ou
“ Olha bem para isto” , disse ele, “ pois verás uma manifestação subconsciente” , respondeu ele. “ A quantidade de poder que utilizas
muito simples de uma grande verdade. Esses pontos e linhas em per­ para “desejares” coisas perfeitamente vãs e efêmeras, seria quase
pétuo movimento são um exemplo do que ocorre na composição de capaz de mover um planeta! Mas tomemos ações simples, como le­
todo ser humano. Alguns deles, como podes observar, seguem dire­ vantar a mão. Pensas que esse movimento é instintivo ou mecânico,
ções diferentes, mas se encontram e se combinam em vários pontos mas só é porque tua vontade o quer que podes levantá-la. Se não
de convergência, para depois se separarem novamente. São as forças o desejasses, ela não podería elevar-se sozinha. Essa tremenda força
de construção e desintegração de todo o Cosmo e, atenta bem para - esse divino dom da vontade, é mal exercido pela maioria dos ho­
isto! Todos eles, quando livres, são dirigidos por um poder da von­ mens e mulheres - por isso vagam de um lugar para outro, submis­
tade. Em teu atual estado de existência, és simplesmente uma Forma sos a esta ou aquela opinião, às mudanças fáceis conseguidas por al­
organizada, composto por esses átomos, e tua força de vontade, que guns poucos líderes e reformadores com relação às multidões, às
é parte da influência Divina e criativa, está em teu ser para que os contagiosas loucuras que tomam conta de comunidades inteiras num
govemes. Se o fizeres adequadamente, os átomos construtivos e re- só momento, aos caprichos da moda, às tendências sociais —tudo is­
vivificadores em teu interior obedecerão o teu comando, e com força so se deve à dispersão do poder da vontade que podería efetiva-
cada vez maior gradativamente controlarão e dominarão seus opo­ mente “ povoar a terra e subjugá-la” se fosse devidamente focaliza­
nentes desintegradores - oponentes que, afinal de contas, são apenas do. Entretanto, não podemos ensinar o mundo, e por isso devemos
seus servos, prontos a livrá-los de tudo que seja imitil e sem valor ao nos contentar em ensinar e treinar uns poucos indivíduos, apenas.
primeiro sinal de desequilíbrio. Nada é mais simples do que esta lei Quando perguntas se é possível manter o necessário esforço da

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vontade, respondo que sim - claro que é possível. O segredo disso roso fluxo de amor e bondade, beneficência e compaixão, não só pa­
está na decisão quanto a uma atitude firme e sua manutenção. Se fa­ ia com a humanidade mas também para tudo que vive, pois, como
voreceres os pensamentos de medo, hesitação, doença, dificuldade, sabes, “ Dai e recebereis; uma medida cheia, apertada, sacudida e
decadência, incompetência, fracasso e covardia, darás imediato ím­ transbordante, os homens trarão a vós. Pois na mesma medida em
peto às forças desintegradores em teu interior, propiciando o início que deis, será medido para vos dar” . Esses grandes ditos de nosso
de seu trabalho - aos poucos irás ficando doente, temerosa e enfer­ maior Mestre são ouvidos com tanta fieqüência que acabam sendo
ma no corpo e na mente. Se, ao contrário, centralizares teu pensa­ considerados cediços e comuns pela maioria - mas nos dizem uma
mento na saúde, na vitalidade, na juventude, no amor e na criativi­ verdade da qual não podemos escapar. Até uma ação trivial como
dade, estarás incentivando todos os elementos vivificadores de teu uma boa palavra é devolvida a quem a realiza, com juros dobrados
organismo para que produzam mais tecidos nervosos e novas células de bondade, enquanto que uma ação grosseira ou cruel gera sua pró­
cerebrais, assim como sangue novo. Nenhum cientista já chegou a pria punição. Os que tomam sem dar geralmente são fracassados na
descobrir uma causa lógica para a morte dos seres humanos - pois vida e em seus objetivos —mas os que dão sem pensar em tomar pa­
eles, ao que parece, foram criados para viver indefinidamente. São recem ser milagrosamente servidos pela fama e pela fortuna —o que
eles que se matam - mesmo os chamados “ acidentes” costumam ser é simplesmente a operação da lei espiritual” .
o resultado de sua própria falta de cuidado, sua temeridade e falta de “ Não quero fama ou fortuna” , disse eu. “ Para mim, basta o
atenção para com as circunstâncias que advertem-nos do perigo. Amor!”
Estou tentando colocar tudo isso da maneira mais simples possível - Aselzion sorriu.
há centenas de livros que podes estudar, nos quais as expressões são “Para mim, basta o Amor, realmente! Criança, ele basta para to­
tão abstrusas e complicadas que as inteligências mais cultivadas têm dos! Quando temos amor, entramos na mente secreta de Deus! O
dificuldade para compreendê-los; o que eu te disse é de compreen­ Amor inspira toda a nobreza, toda a persistência, toda a coragem - e
são muito fácil, a única dificuldade está na aplicação prática. Esta julgo que tens alguns de seus atributos, pois foste corajosa em teu
noite, portanto, e pelo resto do tempo que permaneceres aqui, passa­ primeiro ensaio de independência - foi essa mesma coragem que me
rás por certos testes e provas relativos à tua força de vontade - o re­ trouxe aqui para falar contigo esta noite. Por tua própria decisão,
sultado comprovará se és suficientemente forte para teres êxito em sem qualquer preparação, passaste pelo que nós, estudantes e místi­
tua busca de vida, juventude e amor. Se conseguires manter a atitude cos, chamamos “o primeiro círculo de fogo” , e estás, portanto,
correta, se puderes encontrar e manter o centro de equilíbrio da Ima­ pronta para o restante de tua provação. Agora, vou acompanhar-te
gem Divina em teu interior, tudo estará bem. Lembra-te: uma vez até teu quarto, pois deverás enfrentar o teste sozinha.”
que aprendas a governar e controlar as forças atômicas em teu ser, Meu coração se encolheu um pouco, mas eu nada disse; observei-o
governarás e controlarás igualmente todas as forças atômicas que quando pegou o globo de cristal, cheio de linhas e pontos móveis de
estejam em tua esfera de ação. Isso te dará o que os ignorantes cha­ luz dardejante, como fogo aprisionado, e o manteve por alguns mo­
mariam “ poder milagroso” , embora não existam milagres. Isso nada mentos nas mãos. Em seguida, ele o recolocou na mesa, cobrindo-o
mais é que o Espírito controlando a Matéria. Verás que és capaz de com o pano, deixando-o como estivera antes. Em seguida, ele extin-
dirigir tuas próprias forças e também extrair novos suprimentos da guiu a luz da lâmpada e ficamos parados na luz pálida da lua que
Natureza - o ar, a luz do Sol, as árvores, as flores, darão tudo que agora formava uma imensa avenida de prata no mar. A maré estava
têm para dar ao teu pedido e nada te será recusado. “Pedi e recebe­ subindo, e eu podia ouvir o som das ondas se quebrando ritmica­
reis —buscai e encontrareis - batei, e a porta se vos abrirá” . Natu­ mente na praia. Em silêncio, Aselzion me tomou pela mão e me
ralmente, segundo a Lei tudo que receberes deverás dar, num gene­ guiou por um portal baixo para fora do eremitério, para o ar livre,

[ 292 ] [ 293]

l
onde ficamos por algum tempo a poucos passos do mar. Os raios de ocupações usuais - viverás como vive a maioria das mulheres, talvez
luar nos banhava com perolada efulgência; voltei-me instintivamente numa escala ligeiramente superior de pensamento e ação; com o
para olhar meu companheiro. Seu rosto parecia transfigurado em al­ tempo, lembrarás de tua visita à Casa de Aselzion como uma simples
go dotado de sobrenatural beleza, e por um segundo, a lembrança do escapada causada por um obstinado capricho! O mundo com suas
que ele dissera na capela que carregava nos ombros o fardo de seten­ convenções te prenderá. ,
ta anos me causou um choque de surpresa. Setenta anos! Ele parecia “ Nunca!” Exclamei com fervor. “ Aselzion, eu não fracassarei!”
estar no auge e no esplendor da vida, e a idéia de ligar a idéia de ida­ Ele me olhou com grave intensidade - depois pôs as mãos em mi­
de a ele me pareceu absurda e incongruente. Enquanto eu o observa­ nha cabeça, em silenciosa bênção, e em seguida me fez sinal para
va, fascinada e curiosa, ele levantou uma das mãos como se fizesse entrar no quarto da torre. Obedecí, e ele fechou a porta imediata-
uma solene invocação ãs estrelas que cintilavam no céu aos milhões, mente. Ouvi a chave girar na fechadura e depois o eco de seus pas­
e sua voz, profunda e musical, soou suave e clara no silêncio: sos se afastando pela escada. Meu quarto estava iluminado por uma
“O Guia Supremo dos mundos criados, aceita esta Alma que bus­ luz fraca, cuja fonte não pude descobrir. Tudo estava como eu havia
ca consagrar-se a Ti! Ajuda-a a alcançar tudo que para ela repre­ deixado quando fora chamada para ir à misteriosa Capela da Cruz
sente sabedoria e aperfeiçoamento, e toma-a uma só com a Natureza com a Estrela; olhei à minha volta, tranquilizada pela paz e simplici­
da qual proveio. Tu, silenciosa e pacífica Noite, investe-a com tua dade daquele ambiente. Não me sentia com vontade de dormir, e re­
profunda tranqüilidade! Tu, brilhante Lua, penetra seu espírito com solví anotar tudo que Aselzion me havia dito enquanto ainda estava
a luz de sonhos santificados! Dá-lhe tua força e profundidade, Ó claro em minha mente. O véu branco continuava me envolvendo -
Mar! Que ela possa absorver dos tesouros do ar a saúde, a beleza, a tirei-o com cuidado, e dobrei-o, deixando-o pronto para ser nova­
vida e a doçura, e que sua existência possa ser uma alegria para o mente usado se fosse necessário. Sentei-me junto à pequena mesa,
mundo, e seu amor uma bênção! Amém!” peguei pena. tinta e papel - mas não consegui fixar a atenção no que
Todo o meu ser vibrou com a sensação de grande felicidade du­ tencionava fazer. O silêncio estava mais intenso do que nunca; pela
rante essa prece. Eu teria me ajoelhado diante dele em sinal de reve­ janela aberta não entrava sequer o murmúrio do mar. Escutei, mal
rência, mas senti instintivamente que ele não desejava essa espécie respirando, mas não havia som algum. O extraordinário silêncio se
de homenagem. Senti que era melhor guardar silêncio, e obedecí seu aprofundou ainda mais, e com isso me veio a sensação de frio; senti
toque, quando ele, ainda segurando minha mão, guiou-me por uma como se tivesse sido removida para outro lugar, onde nenhum toque
passagem abobadada e por uma escada sinuosa, em cujo patamar ele humano, nenhuma voz humana, podería me alcançar. Conto nunca
parou e, tirando uma chave da cintura, abriu uma pequena porta. antes em minha vida. senti que estava absolutamente só.
“ Eis o teu quarto, criança” , disse ele, com uma bondade séria que
me comoveu de maneira estranha. “ Adeus! O futuro depende exclu­
sivamente de ti” .
Agarrei-me à sua mão por um instante.
"Não o verei mais?” Perguntei com a voz trêmula.
“Sim, se passares teu teste com êxito” , respondeu ele. “ Mas não
me verás mais se fracassares” .
"Que acontecerá se eu falhar?”
“Nada além da mais comum circunstância” , respondeu ele. “ Dei­
xarás este lugar em perfeita segurança e voltarás para casa para tuas

[294] [295]
XVI

SOMBRA E SONS

O silencio aumentou ainda mais. Parecia-me poder ouvir todos os


pulsos de meu corpo se acelerando. Um terror vago e estranho co­
meçou a tomar conta de mim —lutei contra sua insidiosa influência,
e, inclinando a cabeça para o papel que tinha diante de mim. prepa­
rei-me para escrever. Após alguns momentos eu tinha conseguido
ganhar um certo controle de meus nervos, e comecei a descrever
com clareza, e em sequência, as coisas que Aselzion havia dito,
mesmo sabendo que não havia qualquer perigo de eu vir a esque­
cê-las. Então. . . uma súbita sensação me forçou a perceber que al­
guma coisa ou alguém estava no quarto, olhando fixamente para
mim.
Com um grande esforço levantei a cabeça e a princípio nada vi.
mas gradativamente, tomei conhecimento da presença de uma Som­
bra, escura e impenetrável, que estava entre eu e a janela. A princí­
pio, ela pareceu apenas uma massa informe de vapor negro, mas
muito lentamente assumiu uma Forma que não parecia humana. Des­
cansei a pena na mesa e, com o coração disparado, batendo de me­
do, olhei para a estranha Escuridão reunida num ponto à minha
frente, bloqueando o brilho prateado do luar. A luz de meu quarto se
extinguiu repentinamente. Um grito involuntário me subiu à gar­
ganta - e o medo físico começou a me dominar, pois o negror cres­
cente da misteriosa Sombra foi ficando mais definido - como trevas
se impondo às trevas: o pálido brilho da lua só iluminava precaria­
mente a Sombra, como uma nuvem pode ser delineada com uma su­
gestão de luz. A sombra não estava imóvel - ela se agitava de vez
em quando como se estivesse para se elevar a uma estatura sobre­
natural e inclinar-se sobre mim e desabar como uma tempestade: en­
quanto eu a olhava temerosamente, com todos os nervos tensionados

[297]
de maneira quase insuportável, eu podería jurar que dois olhos, era um amigo disfarçado. Levantei a cabeça em atitude de desafio,
grandes e luminosos, estavam fixos em mim com perscrutadora e meio esperançosa naquela obscuridade, e o estranho fato de que a
impiedosa intensidade. Seria impossível descrever como eu me sen­ única luz que eu via vinha da orla de luminosidade em volta do
tia - foi um horror doentio, apavorante que me acometeu - minha Fantasma não me demoveu da atitude que eu havia resolvido tomar.
cabeça girava e eu não conseguia emitir um único som. Quanto mais eu me posicionava nessa atitude, mais firme ela se tor­
Tremendo violentamente, fiquei de pé seguindo uma espécie de nava. e mais forte ficava minha coragem. Com gestos suaves, em­
impulso mecânico, determinada que estava a fugir da terrivel con­ purrei para o lado a mesa onde estivera escrevendo, e fiquei de pé.
templação do Fantasma informe, quando subitamente, como um raio Sentindo o chão firme, senti-me ainda mais ousada e segura de mim
de convicção, me veio o pensamento de que não seria pela fuga co­ mesma. Embora a Sombra à minha frente parecesse ainda mais escu­
varde que eu podería sobrepujar meus temores ou o perigo sem no­ ra e ameaçadora que antes, comecei a me mover em sua direção,
me que aparentemente me ameaçava. Fechei os olhos e me afastei, com decisão. Fiz um esforço para falar, e finalmente encontrei mi­
por assim dizer, para dentro de mim mesma, tentando encontrar o nha voz:
centro de meu espirito que eu sabia que permanecería sendo uma “ Sejas quem fores", disse eu em voz alta, “ não poderías existir
força invencível, a despeito de qualquer ataque, pois era imortal; sem que o fosse pela vontade de Deus! Deus nada ordena que não
mentalmente, protegi minha alma com pensamentos de resistência. seja para o bem, portanto não podes estar aqui para nenhuma finali­
Então, reabrindo os olhos, vi que a Sombra pendia ali, mais negra e dade malévola. Se eu tiver medo de ti, esse medo será fraqueza mi­
mais vasta - enquanto a luminosidade fraca à sua volta ficava mais nha. Não te encararei como algo que queira ou possa me fazer mal,
definida - não era a luz fraca da lua. era uma outra luz mais fantas­ portanto, me dirijo a ti para descobrir teu significado! Mostrarás do
magórica e aterrorizante. Eu tinha reunido um pouco de coragem: que és feito, revelando o coração e a profundidade de tua escuridão!
por frágil que fosse, eu me agarrei a ela como minha última esperan­ Desvendarás aos meus olhos tudo que escondes por trás de teu ater­
ça, e, aos poucos, firmei-me nela como uma criatura a ponto de se rorizante aspecto - pois sei que seja qual for tua intenção a meu res­
afogar se agarra a uma tábua de salvação. Pouco depois consegui fa­ peito, não podes ferir minha Alma!”
zer perguntas à minha consciência interior. O que esse Fantasma - Enquanto eu falava, me aproximava mais da Sombra - a orla lu­
se era um Fantasma - podería fazer de mal contra mim? Podería minosa em volta do Fantasma foi ficando mais clara até q u e.. . um
matar-me de puro terror? Nesse caso. não seria esse terror minha súbito lampejo de cores como as de um arco-íris brihou com tanta
própria culpa, pois do quê deveria ter medo? Sendo a coisa chamada força diante de meus olhos que dei um passo atrás, ofuscada por to­
Morte nada mais que uma Mudança Viva, seria tão importante assim do aquele esplendor. Então, quando olhei de novo, caí de joelhos,
o como e o porquê dessa mudança? sem fala, pois a Sombra tinha se transformado numa faiscante Forma
“Quem é responsável?” Perguntei a mim mesma, “ pela sensação com radiosas asas - uma figura, um rosto, tão cheios de glória que
do medo? Quem tem tão pouca fé na ordem Divina do Universo a eu só conseguia olhar e olhar, com toda a minha alma enfeitiçada!
ponto de duvidar de sua intenção primeira para o Bem mesmo nas Percebí uma música deliciosa, mas não conseguia ouvi-la adequa­
coisas que parecem maléficas? Não sou eu a única instigadora de damente, pois minha alma estava em meus olhos. A Visão aumentou
meu próprio temor? Poderá esse Espectro mudo e escuro fazer mais em estatura e esplendor, e estendí os braços em sua direção, em ati­
do que o que estava decidido e que seria para o meu bem, afinal?” tude de suplicante prece, consciente de que estava na Presença de
Com esses pensamentos tomei novo ânimo —meu tremor nervoso um habitante de uma esfera mais elevada e celestial que a nossa. A
cessou. Deliberadamente, resolví considerar, e DESEJEI determinar, bela cabeça, coroada por um diadema de flores que eram como es­
que essa misteriosa Sombra, mais escura e maior a cada momento, trelas brancas, curvou-se para mim - os olhos luminosos sorriram

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para os meus. e uma voz mais doce que a mais doce melodía falou- brincar com fogo. Não há nada na linha dos chamados milagres que
me com maravilhosa ternura: ele não possa fazer; naturalmente, aqueles que ignoram seus méto­
“ Agiste muito bem! Deves sempre enfrentar as Trevas sem medo! dos e são crédulos.. . ”
Assim encontrarás a Luz! Enfrenta a Tristeza com o coração con­ “ Como a mulher aqui ao lado", interpôs a primeira voz.
fiante - e descobrirás um anjo disfarçado! Deus não pensa mal de ti “Sim. como a mulher aqui ao lado. a tolinha! - Seguiu-se outra
- não te deseja nenhum mal - não tem nenhuma punição para ti - risada. “ Ela cisma que está apaixonada por Rafei Santoris!"
entrega-te a Ele e fica em paz!" Sentei na cama. para poder ouvir todas as palavras. Meu rosto
Lentamente, como as cores do pâr-do-Sol se desvanecendo na cor estava em fogo - o coração disparado - eu não sabia o que pensar.
cinza do ocaso, a Visão se desfez. Quando me recobrei do maravi­ Houve um silêncio de dois ou três minutos - minutos que me parece­
lhoso espanto em que tinha mergulhado, vi-me novamente sozinha ram séculos na minha ansiedade de ouvir mais.
no escuro, um escuro que só era aliviado pela fraca luminosidade da “ Santoris sempre conseguiu dar um jeito de se divertir!" Disse
lua já baixa. Por um longo tempo não consegui pensar em nada a uma voz fina e sarcástica, com um tom de mofa. “ Sempre há uma
não ser na estranha experiência pela qual acabara de passar - e fi- mulher ou duas apaixonadas por ele. Mulheres que ele pode enganar
quei imaginando o que teria acontecido se ao invés de enfrentar ou- sem problemas, naturalmente!"
sadamente o escuro Fantasma que tinha me aterrorizado tanto, eu “Não são difíceis de encontrar!” Voltou a dizer a primeira voz.
tentasse escapar dele? Imaginei, e penso que corretamente. que eu “ A maioria das mulheres ficam cegas quando se trata de suas afei­
teria encontrado todas as portas abertas e todas as facilidades para ções".
uma fuga covarde, se essa tivesse sido a minha escolha! Provavel­ “Ou de sua vaidade!"
mente eu teria abandonado a Casa de Aselzion, seria forçada a isso, Outro silêncio. Levantei da cama. tremendo, com uma repentina
e possivelmente minha história seria marcada com a cruz negra dos sensação de frio, e vesti meu roupão. Indo até a janela, olhei para a
fracassados! Intimamente me rejubilei por não ter cedido até aquele grande vastidão de mar tranquilo, cinza-piateado à luz da manhã
momento; pouco tempo depois cedi ao cansaço que começava a se ainda sem Sol. Como parecia pacífico e parado! Que contraste ele
abater sobre mim; tirei a roupa e fui para a cama, com a mente per- fazia com a tormenta de dúvida e horror que começava a rugir em
feitamente tranqüila e feliz. meu coração! As vozes recomeçaram.
Devo ter dormido por várias horas; fui despertada pelo som de “Bom. está tudo terminado agora, e a teoria dele sobre a perpe-
vozes conversando bem perto de mim - na verdade, as vozes pare­ tuidade da vida. segundo a sua vontade, terminou prematuramente.
ciam estar do outro lado da parede onde estava encostado meu leito. Onde foi que o iate afundou?" - “Perto de Armadale. em Skye."
Eram vozes masculinas, e uma ou duas delas eram curiosamente ás­ Por um instante não consegui apreender o que tinha sido dito, e
peras e marcadas pela irritação. Havia bastante luz em meu quarto; a tentei repetir a pergunta e a resposta “onde foi que o iate afundou?
noite já tinha passado, e pelo que eu podia inferir já erá de manhã Perto de Armadale. em Skye” .
cedo. As vozes continuaram e me vi compelida a escutar. O que significava aquilo? O iate? Afundado? Que iate? Eles fala­
“ Aselzion é o mais esperto impostor de seu tempo", disse uma vam de Santoris. de Rafei, meu amado! Meu amor, perdido pelas
das vozes. “ Nunca fica mais feliz do que quando pode brincar de eras. no tempo e no espaço, e reencontrado só para ser mais uma vez
deus e lograr seus adeptos!” tirado de mim por minha própria culpa - sim, minha própria culpa!
Essa sentença foi seguida de uma risada. Esse era o meu horror, que eu não podia contemplar sem uma an­
“ A seu modo ele é um portento", disse outra. "Ele deve ser des­ gústia enlouquecedora. Com para a parede através da qual ouvira as
cendente de algum antigo mago egipcio que conhecia os truques de vozes e encostei o ouvido nela, murmurando para mim mesma: “ Oh,

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não! Não é possível! Não é possível! Deus não seria tão cruel!" Por que tudo que ele havia dito sobre nosso conhecimento mútuo em vi­
vários minutos nada ouvi e estava perdendo rapidamente a paciência das passadas, e sobre o amor que havia nos atraído um para o outro,
e o autocontrole, quando finalmente a conversação continuou. "Ele fora simplesmente “diversão"!
nunca deveria ter se arriscado num barco daqueles", disse uma das Inclinei-me para fora da janela e meus olhos pousaram na rosa
vozes num tom bem mais gentil. “ Era muito interessante, mas o pe­ vermelha que continuava encostada à parede em fragranté confiança.
rigo da eletricidade era óbvio. Numa tempestade não havería ne­ Então falei em voz alta. sem ter muita consciência de minhas pala­
nhuma chance". vras:
"Isso foi completamente provado", respondeu outra voz. "Bastou “ É maldade, maldade de Deus nos deixar imaginar coisas lindas
uma rajada mais ou menos forte de vento, mais alguns trovões e que não existem! É cruel nos ordenar que amemos, se o amor termi­
raios, e lá se foi o iate, com todos os que estavam a bordo". na em decepção e traição! Seria melhor nos ensinar desde o início
“ Santoris podería ter se salvado. Era um excelente nadador." que a vida existe para ser difícil e sem graça, sem ternura nem ver­
“ Era mesmo?" dade, ao invés de dirigir nossa alma para um paraíso falso!"
Outro silêncio. Pensei que minha cabeça ia estourar com aquela Nesse momento, sem saber como. lembrei-me do obscuro fantas­
agonia dolorosa - meus olhos estavam queimando, pareciam brasas ma e sua transformação na Visão do Anjo. Eu havia lutado contra o
quentes, por causa do peso das lágrimas não derramadas. Senti que terror de sua aparição espectral, e tinha dominado o medo —porque
podia bater na parede que me separava daquelas vozes torturadoras, agora me deixava abalar e perder o autocontrole? Qual era a causa?
no meu febril desejo de saber o pior - o pior a qualquer custo! Se Meras vozes! Vozes atrás de uma parede que falavam de morte e fal­
Rafei estava m orto.. . mas não! Ele não podia morrer! Não podia sidade, vozes pertencentes a pessoas que eu não conhecia nem podia
perecer - mas podería ter se separado de mim como o tinha feito ver, como as vozes do mundo que se deliciam em falar de escânda­
antes.. . e e u .. . eu estaria sozinha de novo, sozinha como estivera los e crueldades e que nunca louvam, só condenam. Meras vozes!
por toda a minha vida! Em meu tolo orgulho eu voluntariamente ha­ Ah. mas elas falavam da morte daquele que eu amava! Podería eu
via me afastado dele! Seria esta a minha punição? As falas recome­ não ouvir? Vozes que falavam de sua traição e “diversão” —não de­
çaram e fiquei ouvindo, como uma criminosa ouvindo a mais cruel veria eu escutar?
das sentenças. Mas quem eram aquelas pessoas, se é que eram pessoas, que fala­
“ Aselzion vai contar a ela, naturalmente. Uma tarefa bastante es­ vam dele em tom tão empedernido? Eu não havia encontrado nin­
pinhosa! Pois ele terá que admitir que seus ensinamentos não são in­ guém na Casa de Aselzion além dele mesmo e de seu servo ou se­
falíveis. Na verdade, havia alguma coisa muito atraente em Santoris cretário Honorius - então quem. senão esses dois. poderíam saber as
- sinto muito que ele tenha partido. Se tivesse vivido, teria engana­ razões que haviam me trazido àquela casa? Comecei a me questionar
do a mulher, é evidente." e a duvidar da veracidade das terríveis notícias que havia ouvido
“Ah, isso! Agora pouco importa. Ela seria a única culpada por inadvertidamente. Se algum mal havia acontecido a Rafei Santoris.
cair nessa armadilha." teria Aselzion dito que ele estava “bem e em segurança” quando
Afastei-me da parede, trêmula e me sentindo mal de tanto medo. conjurara - para o meu conforto —a imagem do “Sonho” no mar
Vesti-me mecanicamente, e olhei para o ouro do Sol que já se der­ enluarado há poucas horas? Entretanto, apesar de meus corajosos es­
ramava sobre o mar. A beleza da paisagem não me comoveu abso­ forços, não consegui me recobrar suficientemente para ficar tran­
lutamente - nada mais importava. Tudo que minha consciência con­ quila; em minha agitada condição mental olhei para a porta da torre
seguia absorver era que Rafei estava morto —afogado no mar no qual que levava à escada que por sua vez levava ao pequeno jardim à bei­
seu encantado iate “ Sonho” havia navegado com tanta leveza - e ra do mar - essa porta estava fechada, lembrei que Aselzion a havia

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trancado - Entretanto, para minha surpresa, uma outra porta estava parecidas com as vozes do mundo! Vozes que desdenham, caçoam e
aberta —uma porta que parecia fazer parte da parede, mostrando uir. condenam! Vozes que preferem emitir uma falsidade a uma palavra
pequeno aposento por trás dela - era uma espécie de pequeno san­ de auxílio e conforto —vozes que ferem e esmagam os espíritos que
tuário. forrado de seda púrpura, que parecia ter sido preparado para têm aspiração! Vozes que não conseguem falar de amor sem ranco­
conter algo infinitamente precioso. Entrei ali com hesitação, sem sa­ roso sarcasmo e amargura - vozes que - oh, Deus! Se apenas se ca­
ber se estava agindo certo ou errado, e ao mesmo tempo impelida lassem as vozes caluniosas da humanidade, que paraíso seria a terra!
por algo mais que curiosidade. Quando cheguei à soleira da porta, M as.. . por que eu havería de escutá-las? O que elas tinham
ouvi novamente as vozes atrás da parede, que pareciam mais altas e realmente a ver conosco? Deve a Alma ser desviada de seu centro
mais ameaçadoras. Parei, com um certo medo, mas desejando muito por opiniões casuais? Que me importaria se esta ou aquela pessoa
saber tudo que elas pudessem dizer, ainda que isso significasse ape­ aprovasse ou desaprovasse minhas ações? Por que deveria eu ser
nas desgraça e desespero para mim. perturbada por rumores, assustada por declarações maldosas?
“Todas as mulheres são tolas!” - Essa observação tão comum Absorvida por esses pensamentos, mal me dei conta da paz quase
estava sendo feita por alguém que falava em tom áspero e amargura­ religiosa do ambiente onde me encontrava; foi só quando as vozes
do. “ Não é tanto o amor que as move mas a satisfação de serem cessaram por alguns minutos que reparei no que havia ali, onde eu
tunadas. Nenhuma mulher continua fiel por muito tempo a um ho­ havia entrado quase sem querer: uma mesinha muito bonita, aparen­
mem que tenha morrido. Ela sentiría falta da esperada reação à sua temente feita de cristal, que brilhava como um diamante - sobre a
abundante sentimentalidade, e ela cansaria de esperar para encontrá- mesa. um livro aberto. Havia uma cadeira, colocada numa posição
lo no Paraíso - isso se acreditasse nessa possibilidade, o que em no­ que tinha o propósito evidente da leitura. Quando me aproximei, a
ve casos entre dez não ocorrería” . principio com indiferença e depois com crescente interesse, vi que o
“ Para Aselzion não existem os homens mortos", disse outro dos livro aberto trazia uma inscrição na página de rosto: “ para um estu­
participantes da conversa. “ Simplesmente eles passam para outro dante fiel, Aselzion". Seria eu “ um estudante fiel?” Fiz a pergunta
estado de vida. Segundo suas teorias, os que se amam não podem ser cheia de dúvida. Não havia “ fidelidade” no medo e na depressão!
separados, nem mesmo pela morte, por muito tempo” . Ali estava eu, com o autocontrole abalado por causa de algumas vo­
“ Grande conforto!” Junto com essas palavras ouvi uma risada de zes que falavam atrás de uma parede. £u, que tinha dito que “ Deus
mofa e desprezo. “As mulheres que amaram Rafei Santoris não te nada ordena que não seja para o bem" - estava pronta para acreditar
agradeceríam por essas palavras!” que Ele havia ordenado a morte do homem para quem Suas leis ha­
Estremeci, sentindo frio. “ As mulheres que amaram Rafei Santo­ viam me orientado! Eu, a quem tinha sido concedida a visão beatifi­
ris!” Essa frase obscureceu a lembrança do atraente rosto e o porte ca de um Anjo, um Anjo que me havia dito “Deus não pensa mal de
do homem que eu começara a idealizar, quase inconscientemente - ti - não te deseja mal algum - não tem nenhuma punição para ti -
alguma coisa grosseira e vulgar fora sugerida em associação com entrega-te em Suas mãos e estejas em paz!” - Já vacilava e me
ele, e meu coração pareceu afundar, destituído de qualquer esperan­ afastava da Fé que devia me manter forte! Uma sensação de vergo­
ça. Meras vozes! Mas como elas me torturavam! Ah, se eu pudesse nha se abateu sobre miro. Quase timidamente aproximei-me da mesa
ao menos saber a verdade, pensei! Se Aselzion chegasse e me con­ com o livro aberto e sentei-me na cadeira colocada de modo tão
tasse o pior imediatamente! Numa espécie de estupor em meu indizí- convidativo. Assim que o fiz as vozes recomeçaram, mais altas e in­
vel sofrimento, fiquei no pequeno santuário forrado de seda que ti­ dignadas.
nha se aberto para mim tão inesperadamente, e comecei a pensar so­ “Ela pensa que pode aprender o mistério da vida! Logo uma mu­
nhadoramente na crueldade e aspereza daquelas vozes! Como eram lher! Que despudorada arrogância!”

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“Não, não? Não é o segredo da vida que ela quer descobrir, e sim tristeza! Tentei livrar a mente das trevas do desânimo em que tinha
o segredo da juventude perpétua! Isso é tudo para uma mulher! Ser mergulhado, e para distrair a atenção dos pensamentos infelizes,
sempre jovem e bonita! Que criatura feminina não se “ aventuraria olhei para o livro aberto à minha frente. O título, impresso com le­
para obter essa mercadoria!” tras de ouro, lampejou diante de meus olhos como um raio de Sol:
Um riso seguiu-se a essa observação, “O Segredo da Vida” . Uma esperança veemente se agitou em meu
“ Santoris já ia longe no caminho desse objetivo", disse uma voz ser; dobrei a carta de Rafei Santoris e voltei a colocá-la em seu es­
que era suave e calma. “Certamente ninguém podería adivinhar a conderijo junto ao meu coração; depois, puxei a cadeira para mais
idade real dele” . perto da mesa e inclinei-me para o livro, começando a ler. Tudo es­
“ Ele tinha todo o ardor e a paixão da juventude” , disse outra voz. tava peifeitamente silencioso, as vozes haviam se calado. Aos pou­
“O fogo do amor coma em suas veias com o mesmo calor do sangue cos, fui percebendo que o que eu estava lendo tinha sido deixado ali
de Romeu! A frieza e a relutância da velhice não o afetavam no que para minha instrução, que o livro havia sido um presente de Asel­
se referia às mulheres!” zion, desde que eu provasse ser uma “ estudante fiel” . Uma emoção,
Mais risos se seguiram. Fiquei rigidamente sentada na cadeira ao misto de esperança e gratidão, começou a aliviar o peso gélido que
lado da mesa de cristal, ouvindo cada palavra. oprimia meu coração. Sem pensar, decidi não mais dar ouvidos a
“ A mulher que está aqui foi a última vitima de sua arte do hipno­ qualquer voz, mesmo que voltasse a falar.
tismo, não é verdade?” “Rafei Santoris não está morto!” Disse eu em voz alta e firme.
“ Sim. Podemos dizer que foi a última, pois ele não poderá repetir “Ele não podería separar-se de mim agora! Ele não é um traidor, é
isso com mais ninguém." sincero! Não está “ se divertindo” às minhas custas —e espera que
“ Se Aselzion contar a verdade a ela, ela irá embora imediata­ eu confie nele. Eu confiarei nele! Meu amor e minha fé não serão
mente?” abalados por simples rumores! Não lhe darei motivos para me julgar
“Claro! Por que havería de Ficar? Foi só um sonho de amor que a fraca ou covarde - confiarei nele até o fim!”
trouxe aqui - quando souber que o sonho acabou, nada mais lhe Com essas palavras pronunciadas para o ar que me cercava, con­
restará.” tinuei lendo em silêncio, na quietude que subitamente se fez fra­
Era verdade! Nada mais restaria! O mundo, um deserto, o Céu, granté com o aroma de flores invisíveis.
um lugar sem esperança! Apertei os olhos com as mãos para tentar
suavizar a dor ardente - seria possível que as vozes estivessem fa­
lando a verdade? Elas tinham se calado, e fez-se um silêncio aben­
çoado. Usando de um recurso desesperado, peguei a carta que San-
toris tinha escrito para mim e reli cada palavra com apaixonada sau­
dade, especialmente a seguinte passagem: “nós - você e eu - que
sabemos que a Vida, sendo toda Vida, não morre, não pode morrer,
deveriamos ser mais sábios em nosso atual período de tempo e não
duvidar de nossa mútua e infinita capacidade para o amor e para o
mundo perfeito de beleza que o amor cria” , “ Mais sábios e não du­
vidar!” Ah, eu não era suficientemente sábia! Estava cheia de dúvi­
das e imaginando males - e por quê? Por causa de vozes a falar atrás
de uma parede! Certamente esse era um motivo tolo para tão grande

[ 306 ] ( 3 07 )
XVII

O LIVRO MÁGICO

Não seria possível transcrever aqui mais do que algumas citações


do livro no qual minha atenção se prendeu tão completamente. As
passagens que selecionei foram escolhidas apenas porque talvez pos­
sam ser úteis para aquelas poucas pessoas-muito poucas! Que dese­
jam tomar suas vidas algo mais que um negócio de compra e venda,
e também porque não podem ser consideradas difíceis de compreen­
der. Quando Paracelso escreveu o “ Segredo da Longa Vida” , ele o
fez de modo suficientemente abstruso e complexo para desanimar a
maioria, e interessar somente os mais diligentes e perseverantes bus­
cadores; parece óbvio que essa foi a sua intenção. Quanto às instru­
ções contidas no livro ali colocado, segundo imaginei para que eu o
lesse, eram simples e estavam de acordo com muitos fatos desco­
bertos pela ciência moderna - à medida que eu avançava na leitura,
conseguia enxergar a luz através da escuridão e alcançar uma per­
cepção sobre como eu poderia me tomar uma adepta do que o mun­
do chamaria “ milagre” , mas que nada mais era que a aplicação
científica do bom senso. A primeira citação que faço é a seguinte:
VIDA E AJUSTAMENTO
“ A Vida é o ímpeto Divino do Amor. A Força por trás do Uni­
verso é o Amor - e desse Amor nascem o desejo e a Criação. Assim
como o ser humano que ama anseia pela posse do ser amado, para
que de sua mútua ternura possam nascer os filhos do Amor, o Espí­
rito Divino, imortalmente criativo e desejoso da beleza perfeita, pos­
sui o espaço com sua energia eterna, produzindo milhões de sistemas
solares, cada um com uma organização diferente e individualidade
separada. O homem, a criatura deste pequeno planeta, a Terra, não é
senão um resultado do fluxo irresistível da fecundidade Divina. Não
obstante, o homem é a “ imagem de Deus” pela dádiva da razão,

[309J
vontade e inteligência de que ele é dotado, em acréscimo à sua cria­ Tendo alcançado esse ponto da leitura, fiz uma pausa. O pequeno
ção puramente animal, e também porque lhe é concedida uma Alma recinto onde eu me encontrava parecia estar mais escuro - ou seria
imortal, formada para o amor e para as coisas eternas criadas pelo essa idéia fruto de minha fantasia? Tentei ouvir as vozes que haviam
amor. Ele próprio pode se tomar Divino, no Desejo e Perpetuação me confundido e preocupado, mas não detectei qualquer som. Fo­
da Vida. Visto do sentido puramente material, ele é apenas uma for­ lheei as páginas do livro, e encontrei o seguinte;
ça num corpo, composto de átomos unidos de uma certa forma orga­ A AÇÃO DO PENSAMENTO
nizada - mas no interior dessa forma organizada existe um Ser espi­ “O pensamento é Força motora real, mais poderosa que qualquer
ritual capaz de guiar e controlar seu veículo terreno, e ajustá-lo ao outra força motora do mundo! Não é ele o simples pulsar de um
ambiente e às circunstâncias. Em sua natureza dual, o Homem tem o conjunto particular de células cerebrais, destinadas a passar para o
poder de manter suas células vitais sob o seu comando, podendo re­ nada quando a pulsação tiver cessado. O pensamento é a voz da Al­
nová-las ou destruí-las ao seu bel prazer. Ele geralmente prefere ma. Assim como a voz humana se transmite à distância pelos fios do
destruí-las pelo egoísmo e pela obstinação, que são os dois elemen­ telefone, assim também a voz da Alma se transmite pelas radiantes
tos desintegradores de sua composição mortal. É disso que provém o fibras ligadas aos nervos do cérebro. O cérebro a recebe, mas não
resultado que chamamos “ morte” , que é, apenas, a necessária trans­ pode retê-la, pois é novamente transmitida a outros cérebros por seu
posição de sua existência (por ele mesmo causada) para uma fase próprio poder elétrico - não podemos guardar um pensamento mais
mais útil. Se ele aprendesse de uma vez por todas que pode prolon­ do que poderiamos ter o monopólio dos raios do Sol. Em toda parte,
gar a vida e a saúde por um periodo indefinido no qual não se con­ em todos os mundos, por todo o Cosmo, as Almas falam pelo meio
tam os dias ou os anos, mas “ episódios” psíquicos, podería passar material que é o cérebro —almas que podem não habitar este mundo,
de uma alegria para outra, de um triunfo para outro, com a facilidade que podem estar mais distantes de nós que a mais distante estrela vi­
que tem para respirar. Considera-se bom para o corpo humano que sível ao mais poderoso telescópio. As harmonias que são sugeridas
ele se mantenha ereto, que mova seus membros com facilidade e ao músico de hoje, podem ter vindo de Sirius ou Júpiter, alcançando
graça, fazendo exercícios físicos que aperfeiçoem e fortaleçam seus seu cérebro humano com a doçura espiritual de mundos desconheci­
músculos, e ninguém o chama de tolo por suas provas de coragem dos; o poeta escreve coisas que mal percebe racionalmente, obede­
ou capacidade física. Por que então não devería ele treinar sua Alma cendo a inspiração de seus sonhos; todos nós, aliás, somos meios de
para se manter ereta, para poder ter plena posse de todos os poderes transmissão de pensamento, primeiro recebendo-os de outras esferas,
que a energia natural e espiritual lhe possam oferecer? e depois retransmitindo-os a outros. Shakespeare, o principal poeta e
“Leitor e Estudante! Tu. para quem estas palavras foram escritas, profeta do mundo, escreveu: “ nada existe que seja bom ou mau, que
aprende e lembra que a força secreta da renovação da vida é o nosso pensamento assim não o tome” . Ele nos diz uma profunda
Ajustamento - o ajustamento dos átomos que compõem o corpo aos verdade, uma das mais profundas da Crença Psíquica: o que pensa­
comandos da Alma. Sê o deus de teu próprio universo! Controla teu mos, nós somos; nossos pensamentos determinam nossas ações.
próprio sistema solar para que ele te aqueça e revifique com a eterna “ Na renovação da vida e preservação da juventude, o Pensamento
e sempre presente primavera! Faz do Amor o verão de tua vida. e é o fator fundamental. Se pensamos que estamos velhos, a velhice
permite que ele crie em ti a paixão do desejo nobre, o fervor da ale­ chega rapidamente. Se, ao contrário, pensamos que somos jovens,
gria, o fogo do idealismo e da fé! Reconhece que és parte do Espí­ preservamos indefinidamente nossa vitalidade. A ação do pensa­
rito Divino de todas as coisas, e sê divino em tua existência criativa. mento influencia as partículas vivas que compõem nosso corpo, de
Todo o Universo está aberto para as buscas de tua Alma, se o Amor modo que as envelhecemos ou rejuvenescemos pela atitude que as­
for a tocha a iluminar teu caminho!" sumimos. O pensamento da Alma humana deve ser de gratidão, amor

[310] [311]
e alegria. Não há lugar na Natureza Espiritual para o medo, a de­ dores a cada átomo e célula de teu corpo sem pausa, incessante-
pressão, a doença ou a morte. Deus deseja que sua criação tenha fe­ mente. É um suprimento inexaurível de “radium” , do qual as forças
licidade, e quando harmonizamos o Corpo e a Alma com a felicida­ de tua vida podem extrair o sustento perpétuo. O homem utiliza to­
de, obedecemos Suas leis e cumprímos o Seu desejo. Para viver dos os meios de autopreservação, mas esquece o poder interior que
muito, portanto, deves cultivar os pensamentos felizes! Evita todas possui e que lhe foi concedido para “ povoar a terra e subjugá-la” .
as pessoas que falam de doenças, desgraça e decadência - pois essas “Povoar” a terra é dar amor a toda a Natureza, com total generosi­
coisas são crimes do homem, são ofensas contra o plano básico de dade. “ Subjugar” a terra é, primeiro, dominar os átomos que com­
Deus, voltado para a beleza. Aspira profundamente a luz do sol e o põem o organismo humano, mantê-los sob completo controle, para
ar fresco - aspira o perfume das árvores e das flores - afasta-te das que, por meio desse domínio, todos os outros movimentos e forças
cidades e das multidões —não busques a riqueza que não seja alcan­ atômicas do planeta e sua atmosfera possam ser igualmente contro-'
çada pela mente ou por tuas mãos. Acima de tudo, lembra que os lados. Fala-se muito dos “ raios” que penetram a matéria sólida co­
Filhos da Luz caminham na Luz, sem medo das trevas! mo se não fosse mais que ar - mas essa descoberta é apenas o início
Alguma coisa nessa última sentença me fez parar a leitura e olhar de muitas maravilhas. Há raios que detectam os metais, como a vari­
à minha volta. Novamente senti que o recinto estava ficando mais nha mágica dos radiestesistas adivinha a presença de água; os tesou­
escuro, e também menor. O tecido de seda púrpura que cobria as pa­ ros da terra: ouro, prata, jóias e coisas preciosas que se escondem
redes estava quase ao alcance de minhas mãos, e eu sabia que não sob sua superfície e nas profundezas do mar podem ser vistos nos
era essa a situação quando me sentara para ler. Um tremor nervoso seus mais ocultos esconderijos pelo penetrante Raio que só é conhe­
me acometeu, mas resolví que não me deixaria vitimar por minha cido, por enquanto, pelos adeptos da Crença Psíquica. Nenhum
própria fantasia; acomodeí-me mais uma vez para estudar o volume à adepto verdadeiro é pobre —a pobreza não existe onde esteja o per­
minha frente. O parágrafo seguinte a me chamar a atenção tinha o feito controle das forças vitais. Alegria, paz e abundância natural­
título: mente estão à disposição da Alma que está em harmonia com a Na­
NO COMANDO DAS FORÇAS VITAIS tureza - a vida é constantemente perpetuada pela alegria de viver.
“ Uma vida longa necessita do perfeito controle das forças gera­ Mantém sempre, Ó Estudante paciente, a postura ereta e fume!
doras de vida. Os átomos que compõem teu corpo estão em perpétuo Permite que a força radiante da Alma penetre cada nervo e cada va­
movimento - teu Eu Espiritual deve guiá-los na direção correta; do so sanguíneo do corpo, e aprende a comandar todas as coisas ligadas
contrário, eles parecem um exército sem organização e sem equipa­ ao bem com a força que compele à obediência! O Supremo Mestre
mentos, tendendo à fácil debandada ao primeiro assalto do inimigo. não falou sem fundamento quando disse a Seus discípulos que se sua
Se eles estiverem sob tuas ordens espirituais, ficarás praticamente fé fosse como um grão de mostarda, eles poderíam comandar uma
imune a todas as doenças. A doença não pode penetrar em teu siste­ montanha para que se atirasse no mar, e seriam obedecidos. Lembra
ma, a menos que o seja por uma porta desprovida de guarda. Podes que o espírito que habita tua casa física é divino, e provém de Deus!
sofrer um acidente - por tua própria intenção ou por uma falta de E com Deus todas as coisas são possíveis!”
outras pessoas; se isso acontecer por tua culpa, ¿s o único a merecer Levantei a cabeça, desviando os olhos do livro, e respirei profun­
censura - se por falta de outros, deves saber que aconteceu porque damente - algo me oprimia com uma espécie de sufocação; olhando
devias ser removido de uma esfera para a qual foste considerado para cima, percebi que estava sendo confmada, como se estivesse
despreparado, por predeterminação. Salvo um acidente, portanto, tua numa jaula que se contraísse. O pequeno recinto, forrado de macio
vida não precisa terminar, nem mesmo aqui na Terra. Teu espírito, tecido púrpura, tinha ficado tão pequeno que eu não podia me mo­
chamado Alma, é uma Criatura da Luz, e pode suprir raios vivifica- ver; eu estava presa à cadeira, e o teto aparentemente estava baixan-

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do sobre minha cabeça. Com um choque horrorizado, lembrei da au­ luz do Sol aquece e matiza as pétalas das rosas; elas crescem para
riga tortura do “ sepultamento vivo” praticado pela Inquisição espa­ além da mortalidade e são imunes a qualquer desastre; são um mun­
nhola, em que a infeliz vítima tinha que observar as paredes de sua do em si mesmas, criando involuntariamente outros mundos, à medi­
prisão se estreitando aos poucos, polegada a polegada, até que mor­ da que passam de uma fase a outra de produção e fruição. Pois ne­
resse por esmagamento. Como podia eu ter certeza de que a mesma nhuma boa obra pode ser feita sem amor, nenhum grande triunfo é
crueldade não estaria sendo praticada pelos membros misteriosos de alcançado sem amor, não há fama nem vitória sem amor! Os amados
uma misteriosa Irmandade, cujo objetivo declarado era a busca do de Deus são os que amam em Deus! Sua paixão é divina, desconhe­
segredo da vida? Fiz um esforço para me levantar e descobri que ce o cansaço, a saciedade, o fim! Pois Deus é o Supremo Amante e
podia ficar de pé. Bem à minha fíente estava a entrada de meu nada existe que seja mais elevado que o Amor!”
quarto, do qual eu tinha safdo para entrar na pequena câmara com o Neste ponto, num súbito impulso, peguei o livro, fechei-o e man­
livro. Parecia bastante fácil ir até lá - mas uma barreira invisível me tive-o preso em minhas mãos. Então uma grande escuridão me en­
impedia. Com o coração batendo furiosamente, fiquei ali, imaginan­ volveu - um som como o do trovão ensurdeceu meus ouvidos e senti
do qual seria o perigo que me ameaçava. Quase involuntariamente, todo o recinto girando para o caos. O chão afundou e eu com ele,
meus olhos continuaram lendo a página do livro diante de mim, e li para um grande buraco, tão depressa que não tive tempo para pensar
as seguintes sentenças, numa espécie de estado de sonho: no que tinha acontecido até que a sensação de queda cessou abrup­
“ Para a Alma que não estuda as necessidades de sua natureza tamente e eu me encontrei num gramado verde e estreito, totalmente
imortal, a vida se toma uma cela apertada. Toda a criação de Deus sombreado pelos amplos galhos de grandes árvores. Mal pude me
está à disposição dela, para dar-lhe tudo que peça - mas ela parece dar conta do lugar quando vi Rafei Santoris! Era ele caminhando em
no meio da abundância. O medo, a suspeita, a desconfiança, a inveja minha direção, m as.. . não estava sozinho! O ansioso impulso de
e a insensibilidade paralisam seu ser e destroem sua ação; o amor, a correr para ele foi dominado - fiquei parada, com um grande frio no
coragem, a paciência, a doçura, a generosidade e a compaixão são coração. Uma mulher estava com ele - uma mulher jovem e muito
forças vitais verdadeiras para ela e para o corpo em que habita. To­ bonita; ele tinha um braço em volta dela e seu olhar era de grande
das as influências do mundo social trabalham corara ela —todas as ternura. Ouvi sua voz, cariciosa e infinitamente gentil:
influências do mundo natural trabalham em seu favor. Nada existe “ Amada!” Disse ele, “ chamo-a por esse nome como sempre o fiz
na Natureza pura que não obedeça sua ordem, o que deveria bastar em todos os ciclos do tempo! Não é estranho que mesmo o espírito
para sua existência feliz. Tristeza e desespero resultam do mau uso mais entusiasta na espera de seu companheiro predestinado, seja su­
da Vontade - não existe outra causa na tena ou no céu para a dor e jeito ao terror? Pensei ter encontrado aquela que eu devia amar pou­
a dificuldade.”
co antes de encontrar você - mas aquilo foi uma cegueira momentâ­
Mau uso da Vontade! Falei essas palavras em voz alta, e conti­
nea! Você é aquela que procurei por tantos séculos! Você é minha
nuei a leitura:
“Que é o Céu? Um estado de felicidade perfeita. Que é Felicida­ única amada! Prometa que não vai me abandonar nunca mais!" Ela
de? A união imortal de duas Almas numa só, criaturas na eterna luz respondeu, e ouvi seu munnúrio, suave como um suspiro: “ Prome­
de Deus, partilhando seus pensamentos, dando-se mutuamente a re­ to!” Continuaram a caminhar juntos e abraçados, e eu vi que teriam
novação da alegria, e criando o encantamento de forma e ação por que passar por mim; fiquei ali, em seu caminho, para que Rafei
sua mútua compaixão e ternura. A idade não pode tocá-las, a morte Santoris pudesse ao menos me ver e saber que eu havia me aventu­
não tem significado para elas, a vida é seu ar, espaço e movimento, rado até a Casa de Aselzion por causa dele e que até então não tinha
a vida palpita através delas e as aquece com cores e glórias, como a fracassado! Se ele era falso, então o fracasso era dele, com certeza!
Com o coração apertado observei sua aproximação; seus olhos azuis
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me olharam indiferentemente, com um sorriso frio; sua companheira ferença no amor que eu sentia por ele? “No amor que é amor, se o
me olhou como quem olha uma estranha. Eles continuaram andando amor for nosso, Fé e falta de Fé nunca poderão ser poderes iguais,
até desaparecerem de vista. Então estava tudo terminado? Minha pois a Falta de Fé, por diminuta que seja, é falta de fé em tudo” . Se
jornada tinha sido inútil —ele já havia encontrado outra “ paciente” a felicidade de meu amado fosse alcançada por outros meios, não
para testar sua influência! por meu intermédio, deveria eu ficar magoada? Ainda assim, meu
Tonta e chocada com a confusão de pensamentos em minha men­ coração estava pesado e enfermo; eu sentia que tinha possuído até
te, tentei andar alguns passos, e vi que o chão era macio como velu­ há pouco uma inestimável alegria, que agora havia sido roubada de
do, e que havia uma brisa fresca soprando por entre as árvores, re­ mim. Continuando a meditar, em minha solitária tristeza, sentei-me à
frescando meus olhos e minha testa, que ardiam. O livro continuava sombra, meditando na estranha sorte que me havia trazido àquele lu­
em minhas mãos. ~ “ O Segredo da Vida” . De um modo apagado e gar e, estranhamente, sem pensar que toda a aventura poderia ter si­
perdido, pensei no quanto ele era inútil. Que importa a Vida se o do o resultado de um plano predeterminado.
Amor é falso? O Sol estava brilhando em algum lugar lá em cima, Pouco mais tarde, ouvindo passos leves vindo em minha direção,
pois eu via seus reflexos por entre os galhos muito folhosos, e havia vi um homem idoso caminhando para onde eu estava, acompanhado
pássaros cantando. Só que a beleza dos sons e da visão estava per­ por uma mulher de aparência matronal em cujo braço o velho se
dida para mim. Eu não tinha mais nenhuma consciência verdadeira, apoiava. Ambos tinham um ar bondoso que inspirava imediata con­
a não ser a de que o homem que jurara sentir por mim um amor eter­ fiança. Observei-os se aproximando com uma certa esperança de que
no não me amava mais! O mundo, por isso, estava desolado, o céu talvez pudessem me explicar o dilema em que me encontrava. Eu
era apenas um vazio! A morte, e só a morte, me parecia querida e estava me sentindo particularmente atraída pelo aspecto venerável e
desejável! Caminhei lentamente e com dificuldade; minhas pernas e benevolente do homem; quando ele se aproximou, numa atitude cia­
braços estavam sem forças, eu havia perdido toda a coragem. Se pu­ ra de que desejava me dirigir a palavra, fiquei de pé e dei alguns
desse encontrar Aselzion, eu lhe diria: “ basta! Não preciso mais do passos na direção dele. O homem inclinou a cabeça cortesmente, e
segredo da vida ou da juventude, pois meu amor me abandonou” . sorriu para mim com um ar sério e compassivo.
Um pouco mais tarde comecei a pensar com mais coerência. An­ “ Estou contente” , disse ele em tom amigável, “ por não termos
teriormente, eu tinha ouvido vozes atrás da parede dizendo que Ra­ chegado tarde demais. “Temíamos, não é verdade?” - e nesse ponto
fei Santoris estava morto, afogado em seu próprio iate “ perto de Ar- ele olhou para a mulher buscando confirmação, “ que estivesses ir­
madale, em Skye". Se isso era verdade, então como ele tinha chega­ remediavelmente presa e sacrificada, antes que chegássemos em teu
do ali? Questionei-me em vão, até reunir força suficiente para lem­ socorro” .
brar que o amor - o amor verdadeiro - não muda. Eu acreditava no “É verdade, sim!” Disse a mulher com um tom de profunda pie­
amor de meu amado, ou duvidava dele? Era um ponto a considerar! dade. “ Isso tena sido verdadeiramente terrível!”
Entretanto, não tinha eu o testemunho de meus olhos? Não fora eu a Olhei para os dois, totalmente confusa. Eles falavam de socorro,
testemunha da mudança de atitude dele?” mas em relação a quê? “ Irremediavelmente presa e sacrificada” . O
Vi um banco rústico embaixo da árvore de mais densa folhagem e que queriam dizer com isso? Desde que tinha visto Rafei Santoris
ali me sentei, e a mente foi gradativamente ficando mais equilibrada. com a outra mulher que ele chamara ‘‘amada” , eu me sentira quase
Por que, perguntei ao meu interior, tinha eu sido trazida ali, de ma­ incapaz de falar, mas naquele momento a voz voltou:
neira tão repentina e violenta, sem nenhuma outra razão aparente a “ Não compreendo” , disse eu, tão clara e firmemente quanto me
não ser a de ver Rafei Santoris na companhia de outra mulher que foi possível. “Estou aqui por minha própria escolha, e não estou
parecia ter se tomado a preferida dele? Deveria isso fazer alguma di­ presa nem sendo sacrificada. Por que eu precisaria ser socorrida?”

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O velho sacudiu a cabeça compassivámente. "Ah!” Exclamei com entusiasmo. “ Fale-me disso! E da esplêndi­
"Pobre criança! Não estás prisioneira na Casa de Aselzion?” da situação de aparência e saúde de Aselzion, que deveria estar ve­
"Com o meu consentimento’’, respondí. lho e fraco? Fale-me disso também!”
Ele levantou as mãos com uma espécie de espanto, e a mulher Pela primeira vez desde o início da entrevista, os dois pareceram
sorriu tristemente. confusos. Percebi isso e ganhei confiança com seu evidente embara­
“ Não é assim!” Disse ela. “ Estás envolvida numa ilusão muito ço.
séria. Estás aqui por obra da vontade maléfica de Rafei Santoris - “Por que” , continuei, “ vocês viríam me procurar, com advertên­
um homem que sacrificaria qualquer vida sem remorsos, para refor­ cias contra as pessoas que Deus ou o Destino trouxe para minha vi­
çar suas próprias e tresloucadas teorias! Estás sob a sua influência - da? Poderão talvez dizer-me que vocês é que foram enviados por
e foste enganada tão facilmente! Pensas que estás seguindo teu pró­ Deus - mas pode a Divindade contradizer-se? Não tenho consciên­
prio caminho e realizando teus próprios desejos, mas na verdade és cia de ter sofrido qualquer mal através de Rafei Santoris ou Aselzion
escrava de Santoris, e o foste desde que o encontraste. Não passas - estou magoada, perplexa e torturada pelo que vejo e ouço - mas
de um mero instrumento no qual ele pode tocar qualquer música que meus olhos e ouvidos podem ser enganados; por que deveria eu
queira” . A mulher voltou-se para o velho com um gesto de apelo. acreditar em coisas maléficas que não foram provadas?”
"Não é verdade?” A mulher me olhou com súbito desprezo.
“ Pois então fica aqui, vítima incauta de teus próprios sentimentos
Ele baixou a cabeça, concordando.
e sonhos!” Disse ela com sarcasmo na voz. “ Tu, uma mulher, conti­
Por um momento minha mente me pareceu envolvida por um tur­
nuarás numa comunidade de homens que são impostores conhecidos,
bilhão. Podería ser verdade o que eles diziam? Pareciam sinceros -
e sacrificarão teu nome e tua reputação em nome de uma simples
como pessoas que não tinham outro objetivo a não ser o de advertir­
quimera!”
me sobre uma brincadeira de mau gosto. Tentei esconder a ansieda­