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UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ

Augusto Caetano Rafael da Silva

PRONOMES OBLÍQUOS ÁTONOS NA FALA DE


PESSOAS ESCOLARIZADAS: a realidade dos
usos linguísticos e os desafios para o
professor de Língua Portuguesa

Taubaté - SP
2016
Augusto Caetano Rafael da Silva

PRONOMES OBLÍQUOS ÁTONOS NA FALA DE


PESSOAS ESCOLARIZADAS: a realidade dos
usos linguísticos e os desafios para o
professor de Língua Portuguesa

Trabalho de Graduação apresentado como


requisito parcial para a graduação em Letras,
pela Universidade de Taubaté.

Orientadora: Profa. Dra. Maria Aparecida


Garcia Lopes Rossi

Taubaté - SP
2016
Augusto Caetano Rafael da Silva

PRONOMES OBLÍQUOS ÁTONOS NA FALA DE PESSOAS ESCOLARIZADAS: a


realidade dos usos linguísticos e os desafios para o professor de Língua
Portuguesa

Trabalho de Graduação apresentado como


requisito parcial para a graduação em Letras,
pela Universidade de Taubaté.

Orientadora: Profa. Dra. Maria Aparecida


Garcia Lopes Rossi

Data: _____ / _____ / ______

Resultado: ___________________

BANCA EXAMINADORA

Professora Drª.: Maria Aparecida Garcia Lopes Rossi Universidade de Taubaté

Assinatura: ____________________________________

Professora Drª.: Maria do Carmo de Souza Almeida Universidade de Taubaté

Assinatura: ____________________________________

Professora Mª.: Cláudia Maria de Oliveira Souza Universidade de Taubaté

Assinatura: ____________________________________
Dedico este trabalho a meus pais, amigos
sempre presentes nos momentos de maior
necessidade.
AGRADECIMENTOS

À profa. Dra. Maria Aparecida Garcia Lopes Rossi, por todo apoio, paciência
e, principalmente, por todo conhecimento que pode me transmitir, e por tê-lo feito
magistralmente.

A todos os meus professores que deixaram fundas marcas em mim e em


quem espelharei minha prática docente.

Aos meus colegas da graduação, por todas as experiências vividas e,


principalmente, por todo o carinho compartilhado.

Por fim, mas mais importante, aos meus familiares, por terem sido a força da
qual precisei nos momentos mais difíceis, por serem minha base, por serem.
Por mais que isso nos entristeça ou irrite, é
preciso reconhecer que o preconceito
linguístico está aí, firme e forte. Não
podemos ter a ilusão de querer acabar com
ele de uma hora para a outra, porque isso só
será possível quando houver uma
transformação radical do tipo de sociedade
em que estamos inseridos, que é uma
sociedade que, para existir, precisa da
discriminação de tudo o que é diferente, da
exclusão da maioria em benefício de uma
pequena minoria, da existência de
mecanismos de controle, dominação e
marginalização.

MARCOS BAGNO
RESUMO

O tema do presente trabalho é a utilização dos pronomes pessoais oblíquos


na fala de pessoas escolarizadas, que tenham, pelo menos, graduação em alguma
área do conhecimento. O que motivou essa pesquisa foi a constatação de que as
alterações linguísticas operadas no português brasileiro geraram diversos tipos de
preconceitos linguísticos nos brasileiros, o que traz desafios ao professor de língua
portuguesa: frente a tal diversidade linguística, qual deve ser a variante ensinada em
sala de aula? Como ensinar a um aluno que se utiliza de uma variante não padrão
um tópico gramatical com o qual ele nunca teve contato em seu processo de
aquisição da língua e que pode lhe parecer de outro idioma? Isso justifica a
necessidade de trazer reflexões a respeito da análise linguística, que muito contribui
para a formação do professor de língua portuguesa; além de poder auxiliar
professores já formados que queiram se utilizar do corpus desta pesquisa para uma
abordagem diferenciada dos pronomes oblíquos em sala de aula. O objetivo geral
desta pesquisa é contribuir para a reflexão acerca dos usos reais dos pronomes
oblíquos de terceira pessoa no português brasileiro contemporâneo, em comparação
com o que dita a gramática normativa e, a partir disso, tecer comentários sobre a
atuação do professor de língua portuguesa, no que diz respeito ao ensino de tais
pronomes. Os objetivos específicos desse trabalho são: 1) fazer um levantamento
das variantes linguísticas empregadas por pessoas com nível superior de
escolaridade, em programas de rádio e televisão, nos contextos sintáticos em que a
gramática normativa prescreve o uso de pronomes pessoais oblíquos átonos de
terceira pessoa (o, a, os, as); 2) a partir dos dados coletados, fazer sugestões sobre
possibilidades de ensino desse tópico gramatical. Como subsídios, utilizaram-se as
teorias sobre os conceitos de variação linguística, bem como as noções de norma
linguística e de gramática normativa. Juntamente com as visões da gramática
normativa, da norma culta expressa pela grande imprensa e da linguística para a
análise dos usos dos pronomes oblíquos. O corpus da pesquisa foi gerado a partir
de gravações de notícias veiculadas em programas de rádio e TV, que foram
transcritas considerando os contextos sintáticos em que a gramática normativa
prescreve o uso de pronomes pessoais oblíquos átonos. Esse corpus de pesquisa
foi, posteriormente, analisado, as notícias foram corrigidas de acordo com a norma
padrão e foi feita uma reflexão a respeito do ensino desse tópico gramatical. Os
resultados demonstraram que 86,4% dos dados coletados representam estratégias
de substituição aos pronomes oblíquos, ficando estes últimos com um total de
apenas 13,6%, evidenciando a diminuição de seu uso. Conclui-se que esses
números refletem-se diretamente no trabalho do professor de língua portuguesa que
deve considerar as mudanças linguísticas e o grande número de variantes em sua
prática docente.

PALAVRAS-CHAVE: Pronome oblíquo. Gramática normativa. Variação linguística.


ABSTRACT

The theme of the present research is the usage of object pronouns in the
speech of people with a higher educational level, whom have, at least, graduation in
any knowledge field. What motivated this study was the verification that the linguistic
alterations operated in Brazilian Portuguese generated different kinds of linguistic
prejudices in Brazilian people; this scenario brings challenges to the Portuguese
teacher: against such linguistic diversity, which should be the linguistic variant taught
in the classroom? How to teach a student that utilizes a non-standard linguistic
variation a grammatical topic with which he had never had contact in his language
acquisition process and which may seem to him from another language? This
justifies the need to bring reflections about the linguistic analysis, which greatly
contributes to the academic education of the Portuguese language teacher; Also, this
research can assist graduated teachers who want to use the corpus of this research
for a differentiated approach of object pronouns in the classroom. The general aim of
this research is to contribute to the reflection about the real uses of the third person
object pronouns in contemporary Brazilian Portuguese, in comparison to what is
dictated by normative grammar and, from this, make comments on the performance
of the Portuguese language teacher, concerning to the teaching of such pronouns.
The specific objectives of this work are: 1) to make a survey of the linguistic variants
employed by people with a higher educational level, in radio and television programs,
in the syntactic contexts in which normative grammar prescribes the use of
unstressed oblique personal pronouns of third person (o, a, os, as); 2) from the data
collected, make suggestions about teaching possibilities of this grammatical topic. As
theoretical background, were used theories about the concepts of linguistic variation,
as well as the notions of linguistic norm and normative grammar. Were also studied
the visions of the normative grammar, the cultured norm expressed by the great
press and the linguistics for the analysis of the uses of object pronouns. The corpus
of the research was generated from news recordings broadcast on radio and TV
programs, which were transcribed considering the syntactic contexts in which the
normative grammar prescribes the use of unstressed object pronouns. This corpus
was later analyzed, the news were corrected according to the standard grammar
norm and a reflection was made regarding the teaching of this grammatical topic.
The results demonstrate that 86,4% of the data collected represent replacement
strategies for the object pronouns, whereas those pronouns represent only 13,6%,
evidencing a decrease in their use. It is concluded that these dada are directly
reflected in the work of the Portuguese language teacher who must consider the
linguistic changes and the large number of variants in his teaching practice.

KEY-WORDS: Object pronoun. Normative grammar. Linguistic variation.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 9
1 CAPÍTULO 1: NORMA PADRÃO E VARIANTES LINGUÍSTICAS
1.1 A língua é um conjunto de variantes ................................................................. 12
1.2 A gramática normativa: percurso histórico e atuais posicionamentos............... 17
1.3 Diante da norma e das variantes linguísticas, que língua ensinar? .................. 19
2 CAPÍTULO 2: OS PRONOMES OBLÍQUOS NA GRAMÁTICA NORMATIVA E
NO USO DA LÍNGUA
2.1 Sob a ótica da gramática normativa: o pronome oblíquo, suas funções e seus
usos .................................................................................................................. 24
2.2 Sob a ótica da norma culta veiculada pela grande imprensa ............................ 30
2.3 Sob a ótica da linguística: o pronome oblíquo no português do Brasil .............. 31
3 CAPÍTULO 3: PRONOMES OBLÍQUOS ÁTONOS NA FALA DE PESSOAS
ESCOLARIZADAS
3.1 Os dados da pesquisa ...................................................................................... 34
3.2 Apresentação e análise dos dados ................................................................... 35
3.3 Reflexões sobre o ensino de pronomes oblíquos átonos ................................. 44
CONCLUSÃO............................................................................................................ 46
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 48
9

INTRODUÇÃO

O tema do presente trabalho é a utilização dos pronomes pessoais oblíquos


na fala de pessoas escolarizadas, consideradas aqui aquelas que tenham, pelo
menos, graduação em alguma área do conhecimento.
A fala e a gramática do português brasileiro alteraram-se muito em relação
àquelas correntes em Portugal, o que deu origem a um grande número de variantes
linguísticas no país, como atestam vários estudos sobre o português do Brasil
(ROBERTS; KATO, 1993). Em decorrência dessas variantes linguísticas, geraram-se
nos falantes brasileiros diversos tipos de preconceitos linguísticos, de certa forma
incentivados pela Gramática Normativa, que conserva os mesmos padrões de
“certo” e “errado” há muitos anos, desconsiderando a dinâmica da língua falada.
Dessa forma, o professor de língua portuguesa depara-se com um problema: frente
a tal diversidade linguística, em que certas variantes estão restritas a um contexto de
língua escrita muito formal, outras carregam um teor de prestígio e outras, ainda,
são muito populares, mas não padrão ou fortemente estigmatizadas, qual deve ser a
variante ensinada em sala de aula? Como ensinar a um aluno que se utiliza de uma
variante não padrão um tópico gramatical com o qual ele nunca teve contato em seu
processo de aquisição da língua, que se deu num contexto de oralidade, e que pode
lhe parecer de outro idioma?
Dessa forma, o objetivo geral desta pesquisa é contribuir para a reflexão
acerca dos usos reais dos pronomes oblíquos de terceira pessoa no português
brasileiro contemporâneo, em comparação com o que dita a gramática normativa e,
a partir disso, tecer comentários sobre a atuação do professor de língua portuguesa,
no que diz respeito ao ensino de tais pronomes. Os objetivos específicos desse
trabalho são: 1) fazer um levantamento das variantes linguísticas empregadas por
pessoas com nível superior de escolaridade, em programas de rádio e televisão, nos
contextos sintáticos em que a gramática normativa prescreve o uso de pronomes
pessoais oblíquos átonos de terceira pessoa (o, a, os, as); 2) a partir dos dados
coletados, fazer sugestões sobre possibilidades de ensino desse tópico gramatical.
A presente pesquisa justifica-se por trazer reflexões a respeito da análise
linguística, que muito contribui para a formação do professor de língua portuguesa;
além de poder auxiliar professores já formados que queiram se utilizar do corpus
10

desta pesquisa para uma abordagem diferenciada dos pronomes oblíquos em sala
de aula, uma vez que os livros didáticos e as gramáticas não abordam o tão
importante conceito de variação sociolinguística.
O embasamento teórico da pesquisa centra-se nos conceitos de variação
linguística, componentes que formam a língua como um todo, bem como as noções
de norma linguística e de gramática normativa. Essas últimas são apresentadas para
embasar as reflexões que se seguem a respeito da atuação do professor em relação
ao seu posicionamento frente a qual variante da língua ensinar. No que diz respeito
ao objeto central dessa pesquisa mais especificamente, os pronomes oblíquos
átonos, o que embasa a pesquisa são as visões da gramática normativa, da norma
culta expressa pela grande imprensa e da linguística. São analisados seus pontos
de vista específicos para retratar de forma mais ampla o tópico gramatical sob
estudo.
Para a realização da pesquisa, foram gravadas notícias veiculadas em
programas de rádio e televisão. As notícias foram posteriormente ouvidas
novamente e foram transcritos os contextos sintáticos em que a gramática normativa
prescreve o uso de pronomes pessoais oblíquos átonos. Foram considerados tanto
os contextos em que o pronome oblíquo de terceira pessoa aparece de acordo com
a gramática normativa, quanto os contextos em que aparecem estratégias de
substituição desses pronomes. Esse corpus de pesquisa foi posteriormente
analisado, as notícias foram corrigidas de acordo com a norma padrão e foi feita
uma reflexão a respeito do ensino desse tópico gramatical.
Este trabalho divide-se em três capítulos. O primeiro capítulo divide-se em
três frentes. A primeira apresenta o conceito de variante linguística, com o objetivo
de estabelecer a noção de que a língua é composta de diversas variantes sem que
uma seja superior à outra. A seguir, para melhor entender a chamada variante
padrão da língua, delimita-se o conceito de norma linguística e de gramática
normativa, traça-se o percurso histórico de constituição da gramática normativa,
principal ferramenta de manutenção da variante padrão. Por fim, tendo em mente as
variantes linguísticas e a gramática normativa, problematiza-se a atuação do
professor em relação a qual variante ensinar. Dessa forma, este capítulo apresenta
parte da fundamentação teórica desta pesquisa. O segundo capítulo, que
complementa a fundamentação teórica, apresenta as visões da gramática normativa,
da norma culta veiculada pela grande imprensa e da linguística em relação aos
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pronomes oblíquos. Nele se expõem, primeiramente, as prescrições da gramática


normativa quanto às funções dos pronomes oblíquos e seus usos. A seguir, têm-se
as regras a respeito desses mesmos usos expostas por um manual de estilo de um
dos maiores veículos da imprensa nacional. Por fim, apresentam-se dados de
pesquisas linguísticas referentes aos pronomes oblíquos no uso da língua por
falantes do português do Brasil. O terceiro capítulo, por fim, contém o corpus da
pesquisa. Nele são analisados os dados coletados e, em seguida, são apresentadas
reflexões sobre o ensino dos pronomes oblíquos átonos. O trabalho encerra-se com
a conclusão e as referências.
12

CAPÍTULO 1
NORMA PADRÃO E VARIANTES LINGUÍSTICAS

Este capítulo divide-se em três frentes. A primeira apresenta o conceito de


variante linguística, com o objetivo de estabelecer a noção de que a língua é
composta de diversas variantes sem que uma seja superior à outra. A seguir, para
melhor entender a chamada variante padrão da língua, delimita-se o conceito de
norma linguística e de gramática normativa, traça-se o percurso histórico de
constituição da gramática normativa, principal ferramenta de manutenção da
variante padrão. Por fim, tendo em mente as variantes linguísticas e a gramática
normativa, problematiza-se a atuação do professor em relação a qual variante
ensinar. Dessa forma, este capítulo apresenta parte da fundamentação teórica desta
pesquisa. A outra parte será apresentada no capítulo 2.

1.1 A língua é um conjunto de variantes

Para Castilho (1988), há dois conceitos de norma linguística, um amplo e


outro restrito. No sentido amplo, a norma é uma preocupação de certo grupo de
falantes em evitar mudanças em sua variante linguística, defendendo-a de possíveis
facilitações no processo de aquisição de tal variante. Já no sentido restrito, a norma
é composta pelos usos linguísticos das classes favorecidas social, cultural e
economicamente. Esta é a variante também prestigiada pelas escolas, pelos
gramáticos e pelos dicionaristas. Há, ainda, dois componentes da norma, de acordo
com Castilho (1988): o primeiro é que ela é a variante utilizada pelas classes
favorecidas; o segundo indica a posição dos falantes em relação às expectativas
linguísticas das classes que se utilizam dessa variante, refletindo, assim, a noção de
adequação.
Levando em consideração que a estrutura da língua é composta por diversas
variantes, sendo que uma delas é imbuída de prestígio – a norma padrão ou culta –,
tem-se uma lista de alguns preconceitos em relação às outras variantes linguísticas,
de acordo com Castilho (1988). Começando pela ideia de que o que difere da norma
padrão configura um erro, tal preconceito ignora a existência das variantes
linguísticas e que dentre elas uma é a norma padrão. Outra ideia é a de que há
13

lugares em que se encontra o português mais correto. Isso desconsidera a questão


social, uma vez que a norma padrão é utilizada pelas classes de prestígio e mais
escolarizadas. Um terceiro preconceito que se pode citar reside na ideia de que o
bom português é o dos clássicos da literatura. Aqui há a confusão de que a norma
padrão escrita e falada sejam iguais e ainda que a língua atual seja pior que a de
tempos passados. Mais uma vez desconsidera-se o fato de a norma padrão estar
ligada às classes sociais atualmente prestigiadas. Por último, o preconceito de que
há variedades linguísticas, porém apenas uma é correta, nesse caso desconsidera-
se a diversidade de situações comunicativas que requerem diferentes níveis de
adequação linguística. Todos esses preconceitos, após um mínimo de rigor
científico-crítico, revelam que tais ideias baseiam-se em aspectos extralinguísticos,
como por exemplo, a beleza e a tradição que certas variantes carregam.
Analisando a formação da norma padrão no Brasil, Castilho (1988) vê na
condição de colônia pela qual o país passou a responsável pelo surgimento de tal
norma, principalmente na língua literária, visto que os autores brasileiros escreviam
para o público português, dado o grande número de analfabetos e do atraso em
relação à educação pública em terras nacionais. Apenas com o advento do
modernismo passou-se a aceitar como estilo nacional formas linguísticas mais
típicas do falar da elite brasileira, o que anteriormente era rotulado como erro.
Passando para a análise da variação linguística no ensino de língua materna,
Castilho (1988) comenta que a exclusividade do ensino aos alunos provenientes das
classes privilegiadas que se deu até há alguns anos facilitava o ensino da norma
padrão (ou culta). Esses alunos traziam para a escola a norma padrão internalizada
devido à sua socialização em meios que se utilizavam dessa variante linguística.
Contudo, nas últimas décadas, houve um aumento no número de pessoas de
classes baixas ingressando na escola, dessa forma, as variantes desprestigiadas
foram incorporadas ao ambiente escolar. Assim, de acordo com o autor, fica clara a
necessidade de se estabelecerem novos parâmetros no ensino de língua materna
que incorporem o conhecimento das diversas variantes linguísticas, com estímulos à
adequação dos falantes nas diversas situações comunicativas, ou seja, valer-se, no
meio familiar, da variante própria desse ambiente, já em situações formais, utilizar-se
da norma padrão.
Explicando o fato de a língua ser um conjunto de variantes, Camacho (1988)
esclarece que o que define a variação linguística é o grau de contato entre as várias
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comunidades existentes, não as divisões políticas ou geográficas. Para ele, o fato de


a língua ser um produto histórico implica que ela sofre alterações dependendo do
período considerado, e diferencia-se nos vários ambientes, porém as variações não
se limitam a esses dois aspectos. Na verdade, Camacho (1988) cita um total de
quatro particularidades das variações linguísticas, são elas: histórica, geográfica,
social e estilística.
A variação histórica é melhor percebida na língua escrita, já que tal
modalidade é capaz de conservar as formas antigas. O processo de variação
histórica envolve a variante substituta e a substituída; ambas, por certo tempo,
coexistem, até que a substituta passa a ser adotada pelas classes favorecidas,
enquanto a substituída é utilizada apenas por gerações mais velhas. Por fim, o uso
da variante substituta torna-se normal e a substituída é extinta.
Quanto à variação geográfica, Camacho (1988) elucida que, em comunidades
linguísticas vastas, as variações principais se dão na pronúncia, na estrutura
sintática e nas escolhas léxicas. Essa variação ocorre quando falantes de certa
comunidade orientam-se para um núcleo distinto, formando um grupo linguístico
menor, lembrando, novamente, que as fronteiras geográficas e políticas não
influenciam tal variação.
Tratando da variação social, Camacho (1988) explicita que o processo de
aquisição total da língua materna é sempre incompleto e se dá por meio do contato
com outros falantes da variante que se utiliza. Assim, a variação social é o processo
que leva a uma homogeneização das falas dos indivíduos de um mesmo grupo
social. Dentre as condições sociais que influenciam essa variação, podem-se citar a
posição socioeconômica, o acesso a diferentes bens culturais, o grau de
escolaridade e até mesmo fatores como sexo e idade. Tais variantes dentro de uma
comunidade regional de falantes apontam uma divisão em “setores sociais”, nas
palavras de Camacho (1988). Essa divisão, no entanto, não implica uma
impossibilidade comunicativa, nem mesmo uma dificuldade na comunicação; apenas
torna explicita a existência de diferentes níveis de prestígio. Apesar dessa divisão,
reforça Camacho (1988), não há nada que impeça a transição entre as diferentes
variantes sociais.
Por último, tratando da variação estilística, Camacho (1988) explica que esta
se dá conforme as necessidades das diversas situações comunicativas, ou seja,
falantes de uma mesma variante histórica, geográfica e social adaptam seus usos
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linguísticos de acordo com os objetivos particulares de cada situação. Assim,


existem tantas variantes estilísticas quantas ocasiões de fala. Em meio a esse
enorme conjunto de estilos, é possível delinear duas extremidades, o estilo informal
e o estilo formal. Para Camacho (1988), o estilo informal é caracterizado por um
baixo nível de elaboração da fala e uma menor atenção às regras impostas pela
norma padrão de prestígio, objetivando satisfazer as necessidades comunicativas do
dia-a-dia; por outro lado, o estilo formal é composto por um alto nível de elaboração
em conformidade com as regras da norma padrão, tudo de forma consciente,
visando atender necessidades comunicativas intelectuais. Tais estilos são
frequentemente confundidos com as modalidades escrita e oral da língua, mas essa
divisão não é tão estrita. Camacho (1988) explana que o estilo formal é mais
utilizado na modalidade escrita, devido ao maior tempo de reflexão que tal
modalidade permite, mas há situações formais também na fala, tanto quanto há
algumas situações informais na escrita.
Analisando a interação dos tipos de variação descritos, percebe-se que há
grande influência de uma variante sobre outra, uma variante histórica, em
determinada classe social e comunidade regional, pode ser uma variante geográfica.
Ainda acerca dessa interação, Camacho (1988) afirma que fatores sociais, como o
êxodo rural, são capazes de atribuir valor discriminatório a certas variantes regionais
e sociais, no momento em que há integração de membros de diferentes
comunidades em um dado meio dito homogêneo.
A relação das variantes com o ensino da chamada norma pedagógica, ou
seja, a variante ensinada nas escolas que leva em consideração os valores
cultivados pelas classes favorecidas cultural, social e economicamente a partir da
norma padrão, tem se revelado um grande problema: escola ensina a todos a
mesma variante, sem considerar o meio de onde advêm seus alunos. No contexto
escolar, alunos das classes favorecidas, devido à sua socialização num meio que
oferece maior contato com os bens culturais privilegiados, não enfrentam grandes
dificuldades, já os alunos oriundos das classes desfavorecidas, que são a grande
maioria, deparam-se com uma variante com a qual nunca tiveram contato, que difere
muito da que eles se utilizam para satisfazerem suas necessidades comunicativas.
Dessa forma, em consonância com a visão de Camacho (1988), o ensino escolar de
língua materna configura um verdadeiro sistema que mantém a estratificação social.
Encarando sua reflexão sobre toda essa problemática, Camacho (1988) propõe que
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os professores possibilitem o maior contato possível de seus alunos com as mais


diversas variantes, tornando-lhes possível a identificação de sua funcionalidade,
permitindo-lhes a melhor adequação à situação comunicativa, seja em situações
informais, nas quais lançarão mão de sua variante natural, seja em situações
formais, podendo observar em seu interlocutor e na própria situação a melhor
escolha estilística. Assim, serão oferecidas a todos as mesmas condições de
mobilidade social que advêm da linguagem.
Outro estudioso que se concentra na problemática das variantes linguísticas é
Perini (1996), que faz uma distinção esclarecedora do que considera a norma
padrão atual do português do Brasil e a variante a que chama de coloquial. Aquela
se refere à linguagem utilizada em textos escritos da grande imprensa e das
modalidades acadêmica e técnica – é também chamada de norma culta; esta é a
linguagem utilizada em enunciados orais cotidianos, lembrando que não há
homogeneidade total em nenhuma delas. Há maior variabilidade na modalidade
coloquial, uma vez que são múltiplas as situações de fala. Perini (1996) acrescenta
ainda que os falantes utilizam-se das diferentes variantes conforme a formalidade ou
informalidade da situação em que se encontram. Essa adequação linguística
respeita as convenções sociais que, de certa forma, ditam como ou o que se deve
ou não dizer em determinada situação, garantindo a eficiência da comunicação. Há
ainda a ressalva do autor de que não existe uma variedade certa nem uma errada, e
sim uma mais ou menos adequada à situação comunicativa.
Perini (1996) menciona a norma culta, mas não estabelece claramente uma
distinção entre “norma padrão” e “norma culta”. A respeito desses dois termos, Anjos
(2016), após mencionar vários linguistas contemporâneos, afirma que eles:
Distinguem uma norma prescrita pelas gramáticas (aqui entendida
como norma-padrão) de outra praticada (mas nem sempre abonada
nas gramáticas) por pessoas com grau completo de escolaridade em
situações de fala e de escrita monitorada (aqui entendida como
norma-culta). (ANJOS, 2016, p. 197).

Como será comentado com mais detalhes nos capítulos seguintes, para o
ensino de língua portuguesa parece mais produtivo considerar a norma culta. Para
compreendê-la melhor, no entanto, é preciso considerar a língua como um conjunto
de variantes linguísticas – norma padrão, norma culta e variantes populares – e isso
exige ter como ponto de referência a variante padrão da língua, estabelecida pela
gramática normativa. Para tanto, é preciso ter claro o que é gramática normativa.
17

1.2 A gramática normativa: percurso histórico e atuais posicionamentos

Antes de iniciar uma análise mais detida do objeto de pesquisa do presente


trabalho é imperativo ter em mente, com exatidão, o que vem a ser gramática
normativa, assim como sua origem e seus atuais posicionamentos epistemológicos.
Para tal, segue o que explica Vieira (2016) justamente acerca desse assunto. Para o
autor, a gramática normativa atual traz ainda traços comuns aos primeiros estudos
dessa natureza, datados do século I a.C., a partir dos estudos filosóficos gregos.
Esses traços comuns são chamados por Vieira (2016) de paradigma tradicional de
gramatização (PTG). Para melhor entender o que são as gramáticas normativas, o
autor explicita que elas:
 buscam construir e ensinar um padrão linguístico ideal a partir da
prescrição de supostas formas corretas e legítimas;
 veem as variedades linguísticas dominantes na sociedade como
superiores às de menor prestígio;
 confundem gramática, norma e língua, entendendo-as como
objetos autônomos, homogêneos e estáticos, independentes de
seus usuários e a serviço da expressão do pensamento;
 privilegiam a escrita literária pregressa em detrimento de outras
esferas de uso da língua;
 tomam a frase como unidade máxima de análise e consideram
imanente o seu sentido;
 utilizam um aparato categorial, conceitual e terminológico comum,
fixo e estanque, a despeito de lacunas e contradições.
(VIEIRA, 2016, p.22).

Como dito anteriormente, o paradigma tradicional de gramatização surge com


os estudos gregos, mais precisamente alexandrinos, que à época restringiam-se ao
estudo da literatura clássica grega, assim como à língua e ao estilo dos poetas
prestigiados. Já naqueles tempos, eram observadas mudanças linguísticas, dada a
dinamicidade inerente das línguas humanas; porém, não diferente dos dias atuais,
as mudanças linguísticas eram vistas como ruins, atribuíam-se a elas valores
negativos. Dessa forma, surgiram as gramáticas, que visavam manter a dita pureza
da língua grega, cometendo, no entanto, o que Vieira (2016) chama de dois
equívocos fundamentais, a saber: “a distorção das relações entre fala e escrita; e a
assunção da visão negativa da mudança linguística, considerada prejudicial à
pureza do idioma grego” (VIEIRA, 2016, p.23). Assim, então, surgem a tradição
prescritiva e o preconceito linguístico dos estudos gramaticais.
18

Com o passar do tempo, manteve-se a crença de que a língua encontrada


nos escritos literários é a única correta e a que se deseja adquirir; assim, não é
surpresa nenhuma as gramáticas trazerem exemplos desses escritos. Ainda acerca
da manutenção dos mesmos moldes gramaticais antigos, Vieira (2016) faz uma
comparação entre as partes do discurso da gramática de Dionísio (século I a.C.) e
as classes de palavras da gramática de Cunha e Cintra (século XX). As partes do
discurso na gramática grega eram oito e todas elas correspondem às classes de
palavras atuais, faltando apenas a interjeição e o numeral. Essas semelhanças
deixam evidente que “nossa terminologia gramatical advém direta ou indiretamente
do legado de Dionísio, considerado o primeiro gramático alexandrino” (VIEIRA,
2016, p.25).
Ao encarar o percurso de gramatização luso-brasileiro, o autor informa que,
no Brasil, tal processo iniciou-se com a Grammatica portugueza, de Júlio Ribeiro.
Contudo, nem mesmo com esse autor o falar brasileiro foi contemplado, pois ainda
eram reproduzidos os moldes gramaticais lusitanos, algo que, mesmo nos dias de
hoje, pode ser observado. A justificativa para tal manutenção é, de acordo com
Vieira (2016), a chamada unidade linguística luso-brasileira; porém, as formas
prescritas pelas gramáticas normativas são, sobretudo, as lusas, não as brasileiras.
Apesar de já no fim do século XVI a língua falada no Brasil ser diferente
daquela falada em Portugal, como informa Vieira (2016), apenas no fim do século
XIX surgem as primeiras ferramentas linguísticas propriamente brasileiras para o
fazer gramatical. Não obstante, apesar do aparecimento de algumas diferenças
entre a língua do Brasil e a de Portugal, não houve uma grande ruptura, o modelo
linguístico das gramáticas brasileiras ainda é o lusitano. Ainda salienta o autor que o
enfoque do ensino da gramática não considera propriamente a língua brasileira, pelo
contrário, ensina-se a norma padrão lusitana da língua portuguesa.
Do mesmo modo, ao longo de todo o século XX e ainda nos dias atuais, o
paradigma tradicional de gramatização que ainda circula pelo Brasil não contempla
os costumes linguísticos dos brasileiros. Para encerrar essa seção, pode-se citar o
seguinte trecho que muito bem ilustra a situação atual da norma gramatical
brasileira:
Portanto, há tempos, a gramática da língua materna e de cultura dos
brasileiros vem sendo subjugada a uma norma-padrão bem distante
de nossos usos linguísticos efetivos, inclusive em contextos mais
monitorados de escrita. Nossas gramáticas tradicionais do português
19

ainda hoje permanecem sob a epistemologia do processo de


gramatização renascentista, pautado na tradição greco-latina que
prescreve, homogeneíza e forja um ideal de escrita fincando-se em
modelos literários distantes no tempo e espaço. São todas, sem
exceção, produtos do PTG [paradigma tradicional de gramatização].
(VIEIRA, 2016, p.31).

1.3 Diante da norma e das variantes linguísticas, que língua ensinar?

Uma vez delimitado o conceito de norma linguística e de gramática normativa


e, ainda, problematizada a questão das diversas variantes linguísticas existentes
dentro de um idioma, surgem alguns problemas que concernem ao professor de
língua materna: em sala de aula, qual deve ser a variante ensinada? O que se deve
esperar do aluno, que ele abandone sua variante própria e utilize apenas a norma
padrão prestigiada ou que ele seja capaz de manter vivas, em si, ambas?
Em busca de respostas para tais questionamentos, pode-se citar Perini
(1996), que considera a pertinência do estudo da gramática no ensino fundamental e
médio. Para o autor, a ideia de que se deve ensinar gramática aos alunos com vistas
a lhes desenvolver melhor leitura e escrita é errônea, uma vez que para se obter um
bom proveito nesses estudos uma leitura proficiente é exigência mínima.
Defendendo a importância do ensino de gramática aos jovens falantes, o linguista
pondera acerca dos elementos que compõem os conteúdos cognitivos da educação,
para compreender em quais desses aspectos o ensino da gramática se insere. A
esse respeito, Perini (1996) elenca os seguintes elementos: componente de
aplicação imediata (elementos para os quais se encontram aplicações imediatas),
componente cultural (elementos sem aplicação útil, mas necessários à formação) e
componente de formação de habilidades (elementos que propiciam a concepção de
habilidades de observação e raciocínio). Nas considerações desse autor, a
gramática guarda relações, ainda que breves, com o componente de aplicação
imediata e com o componente cultural, no que diz respeito aos usos linguísticos do
dia a dia e à manutenção da cultura. Já com o componente de formação de
habilidades intelectuais, maior é a relação e os benefícios que a gramática é capaz
de trazer, porém os efeitos não têm sido proveitosos, devido à incompatibilidade dos
métodos utilizados.
O que a gramática tem de melhor a oferecer nesse aspecto é a instituição da
independência cognitiva dos alunos, na medida em que ela instiga à pesquisa; mais
20

claramente e nas palavras do próprio autor: “O estudo de gramática pode ser um


instrumento para exercitar o raciocínio e a observação; pode dar a oportunidade de
formular e testar hipóteses; e pode levar à descoberta de fatias dessa admirável e
complexa estrutura que é uma língua natural” (PERINI, 1996, p.31). Aqui, o aluno
age juntamente com o professor, utilizando-se de seus conhecimentos como falante,
desenvolvendo as habilidades necessárias à sua emancipação intelectiva. Contudo,
como dito anteriormente, a prática não tem sido proveitosa, uma vez que nas
escolas é conduzido o ensino da gramática normativa, sem reflexão sobre as
variantes linguísticas, o que leva os falantes a acreditarem que não são capazes de
falar o português dito correto, que não sabem o português. Como se o português
correspondesse apenas a uma variante.
A esse respeito, Mattos e Silva (2004) deixa claro o fato de que todo e
qualquer estudante que chega à escola para ser alfabetizado já tem grande
conhecimento de sua língua, com as peculiaridades inerentes à sua variante
linguística, sendo que, nessa perspectiva, o ensino de língua materna é um
procedimento contínuo de aperfeiçoamento, no qual tanto o professor quanto o
aluno são a base desse procedimento, que se trata de um “processo mútuo de
intercâmbio linguístico entre senhores da matéria” (MATTOS E SILVA, 2004, p. 28).
No entanto, o que realmente ocorre nas escolas é uma implícita e gradual extinção
das diferentes variantes que os diversos alunos levam para o meio escolar,
desprezando todo o conhecimento que o aluno adquiriu em seus processos de
socialização em seu ambiente natural, com o intuito de incutir no aluno a norma
padrão privilegiada, o que só consegue aquele que, em seu meio de socialização, já
utilizava essa variante. Para a autora, essa questão não se encerra no âmbito
científico ou técnico, é também político.
Ao tratar do caráter político desse problema de ensino, Mattos e Silva (2004)
analisa o relatório enviado ao Ministério da Educação em 1986, relatado oficialmente
nas Diretrizes da Comissão Nacional. O relatório, que se inicia de maneira otimista,
garante ser objetivo do ensino de língua materna levar o aluno a dominar a chamada
língua de cultura sem, no entanto, condenar as demais variantes. A autora comenta,
no entanto, que o documento se contradiz, pois a cultura que propõe dever ser
transmitida é aquela privilegiada pelas classes dominantes; diz que não se devem
estigmatizar as variantes não padrão, mas a questão da fala só é discutida no
documento quando grande parte do alunado proveniente das classes desfavorecidas
21

já evadiu do sistema escolar. Frente a tal problemática, a autora posiciona-se da


seguinte maneira: o objetivo principal, no que tange ao ensino de língua materna,
deve ser fornecer ao aluno a possibilidade de ter contato com as diversas
variedades linguísticas, permitindo-lhe eleger a que melhor se adequa à situação em
que se encontra. Essa perspectiva deixa explícita a autonomia do aluno, tomando-
lhe como sujeito ativo do processo de aquisição e seleção da linguagem. Em seu
texto, Mattos e Silva (2004), de maneira sucinta expõe:
Cabe, portanto, ao ensino de português nas séries escolares fazer os
indivíduos perceberem que a aquisição linguística é um processo
contínuo de conhecimento e de re-conhecimento da multiplicidade de
manifestações possíveis de sua língua – desde os extremos dos
usos populares aos extremos dos usos acadêmicos, perpassando
por eles as variedades regionais – e que poderão dar a qualquer um
o poder que todos têm o direito de ter sobre a língua materna.
(MATTOS E SILVA, 2004, pp. 35-36).

Complementando a visão dos últimos autores, Scherre (2005) apresenta a


gramática normativa como uma “arma de luta social”, para cujo manuseio o aluno
deve ser preparado, e ainda afirma que, quando o professor ensina gramática
normativa, “ele NÃO está ensinando língua materna, ele NÃO está ensinando língua
portuguesa. Língua materna se adquire; não se aprende e nem se ensina”.
(SCHERRE, 2005, p. 93). Por outro lado, a autora afirma que é possível ensinar-se
gramática ou uma segunda língua, sendo que, algumas das vezes, o ensino de
gramática apresenta-se como uma verdadeira segunda língua, ao serem
transmitidos dados de uma variante com a qual o aluno não teve contato. O
problema se apresenta na abordagem geralmente adotada nas escolas: afirma-se
estar ensinando língua materna quando, na verdade, não se passa de gramática.
Para a autora, não ocorre, e nem seria natural, a adoção da norma gramatical
como língua materna de uso diário em diálogos comuns, uma vez que são
transmitidas pelas gramáticas as regras da escrita e da fala do português de
Portugal. Isso apenas contribui para o geral desagrado frente aos estudos de língua
portuguesa experimentado pela grande maioria dos estudantes. Aproximando-se do
exposto por Perini (1996), já citado anteriormente, Scherre (2005), utilizando-se de
um exemplo caseiro, afirma que para se ler bem se deve ler, o mesmo vale para a
escrita. Dessa forma, o aluno não experimenta a sensação negativa citada acima.
Finalmente, em relação ao ensino de gramática normativa nas escolas, a
autora diz que não há um plano pronto que guie o professor, o que há são reflexões,
22

que serão apresentadas a seguir, por meio das quais se podem alcançar as
melhoras necessárias para esse ensino. A primeira reflexão que se propõe é que,
tomando o ensino de gramática como uma ação política, a atuação do professor
nesse processo é essencial, sendo a base dessa atuação uma postura de respeito,
sem preconceitos, frente à variante natural dos alunos. Soma-se a isso uma
mudança de direção no que diz respeito aos conteúdos propriamente ditos, deve-se
deixar de dar tanta ênfase às exceções e tratar mais a fundo os casos chamados
típicos da linguagem usual. A reflexão seguinte, de acordo com a linguista, é de que
não se deve ensinar gramática normativa, nos anos iniciais, nesse momento da
educação os esforços devem se concentrar na produção e compreensão textual,
mais importante: de maneira prazerosa. Já nos anos seguintes, a gramática deve
ser introduzida, mas ainda de forma reduzida em relação à atual, sempre com a
preocupação de manter o aluno interessado. Uma terceira reflexão é a de que a
própria gramática normativa deve ser atualizada, novas pesquisas acerca da relação
fala x escrita devem ser postas em prática, para que melhor se entenda essa relação
e como serão seus reflexos em sala de aula.
Duarte (2012) expõe sua opinião a respeito de porque, quando e como
ensinar gramática. A seu ver, a autora, baseada numa citação de Perini (1996),
esclarece que se deve ensinar gramática para que o aluno seja capaz de
compreender a estrutura da língua que utiliza, que lhe permite comunicar-se e que é
seu mais importante meio de inserção social. A autora acrescenta que o
conhecimento não deve limitar-se à estrutura contemporânea da língua, devem-se
conhecer, também, estruturas que já não se utilizam, para que o aluno possa
compreender textos que se valham de uma variante histórica.
Tratando de quando se deve ensinar gramática, Duarte (2012) aponta o
segundo segmento do Ensino Fundamental como o melhor momento para levar o
aluno a conhecer a estrutura da língua. Antes disso, devem-se priorizar as
modalidades oral e escrita da língua como forma de preparação do aluno para a
aquisição do conhecimento gramatical que virá a seguir.
Em conclusão ao seu artigo, Duarte (2012) reflete que o ensino de gramática
nas escolas deve considerar os conhecimentos desenvolvidos em relação à variação
da própria gramática, tanto na fala quanto na escrita, do português brasileiro. Assim,
a gramática que a autora considera importante que se ensine é a descritiva, não a
normativa, ao contrário do que se vê nas escolas de todo o país, uma vez que
23

aquela considera a variabilidade da fala e da escrita contemporâneas. A autora


ainda ressalta a necessidade de adequação dos livros didáticos, que precisam
inteirar-se desse tipo de gramática para que juntos, livro didático e professor,
possam alçar os alunos a um conhecimento mais produtivo da gramática de sua
língua, que, aliás, eles já conhecem, dominam e da qual se beneficiam.
24

CAPÍTULO 2
OS PRONOMES OBLÍQUOS NA GRAMÁTICA NORMATIVA E NO
USO DA LÍNGUA

Este capítulo complementa a fundamentação teórica desta pesquisa.


Apresenta as visões da gramática normativa, da norma culta expressa pela grande
mídia impressa e da linguística em relação aos pronomes oblíquos. Aqui se expõem,
primeiramente, as prescrições da gramática normativa quanto às funções dos
pronomes oblíquos e seus usos. A seguir, têm-se o manual de estilo de uma das
maiores editoras do Brasil que apresenta regras para a utilização desses pronomes
que diferem das regras da gramática normativa. Por fim, são apresentados dados de
pesquisas linguísticas referentes aos pronomes oblíquos no uso da língua por
falantes do português do Brasil.

2.1 Sob a ótica da gramática normativa: o pronome oblíquo, suas funções e


seus usos

Vieira (2016) cita alguns dos autores mais importantes, cujas gramáticas são
referência na atualidade do português brasileiro, apesar de suas gramáticas se
basearem no paradigma tradicional de gramatização, já mencionado no capítulo
anterior. Três deles serão a base desta seção, no que diz respeito aos pronomes
oblíquos, suas funções e colocações nas orações. Tais gramáticos são: Carlos
Henrique da Rocha Lima, Celso Ferreira da Cunha e Evanildo Bechara. As edições
de suas gramáticas aqui estudadas são, respectivamente, Lima (2011), Cunha
(1992) e Bechara (2006).
De início, é importante partir da definição do que é o pronome. Cunha (1992),
Lima (2011) e Bechara (2006) apresentam definições semelhantes, sendo
reproduzida a seguir a deste último autor:
[...] a classe de palavras categoremáticas que reúne unidades em
número limitado e que se refere a um significado léxico pela situação
ou por outras palavras do contexto. De modo geral, esta referência é
feita a um objeto substantivo considerando-o apenas como pessoa
localizada do discurso. (BECHARA, 2006, p.195).

A respeito das pessoas do discurso, a visão dos autores acima citados é a


mesma: estas podem ser divididas em determinadas e indeterminadas. As pessoas
25

do discurso determinadas são a 1ª, eu, que corresponde à pessoa que fala, e a 2ª,
tu, a pessoa com quem se fala. Já a indeterminada é a 3ª pessoa, que corresponde
à pessoa de quem se fala.
Em relação ao conteúdo semântico dos pronomes, Bechara (2006) utiliza o
conceito de dêixis, uma espécie de gesto verbal, que é o que torna o pronome capaz
de apontar para certos conteúdos dentro da situação comunicativa, sejam esses
conteúdos determinados ou indeterminados. Por meio do uso correto dos pronomes,
do ponto de vista da gramática normativa, pode-se fazer referência a um elemento já
presente no interior da frase, tratando-se de uma dêixis anafórica, ou então, pode-se
referir a um elemento ainda não proferido, sendo uma dêixis catafórica. O gramático
Lima (2011) complementa esse aspecto esclarecendo que os pronomes não
possuem conteúdo semântico, sendo assim, seu significado depende estritamente
do contexto em que são utilizados.
Quanto às funções, Bechara (2006) esclarece que os pronomes podem ser
absolutos, funcionando como substantivos, sendo chamados mesmo de pronomes
substantivos; podem ainda ser adjuntos, funcionando como adjetivos, artigos ou
numerais, a que chama pronomes adjetivos. Cunha (1992) esclarece que, dentro
das frases, essas funções não se confundem, pois os pronomes substantivos
aparecem isolados, enquanto que os pronomes adjetivos sempre aparecem
acompanhados de um substantivo que modificam e com o qual concordam.
Os pronomes são divididos em seis grupos, a saber: pessoais, possessivos,
demonstrativos, relativos, interrogativos e indefinidos. A este trabalho interessam, no
entanto, apenas os pronomes pessoais. Esse grupo ainda é dividido em subjetivos
ou retos, que são aqueles que ocupam o lugar do sujeito da oração, e os pronomes
objetivos ou oblíquos, que, por sua vez, exercem a função de complemento do
verbo. Os pronomes oblíquos ainda apresentam duas formas, a átona e a tônica. Os
pronomes oblíquos átonos não são acentuados e são posicionados antes ou depois
do verbo como parte desse verbo, já os pronomes oblíquos tônicos são sempre
acompanhados de preposição (BECHARA, 2006; CUNHA, 1992; LIMA, 2011). O
quadro a seguir apresenta claramente os pronomes pessoais em suas diversas
subdivisões:
26

Quadro 1 – Pronomes pessoais


Pronomes Pessoais
Pronomes pessoais oblíquos
Pessoas do discurso Pronomes pessoais retos
Forma tônica Forma átona
1ª pessoa singular Eu Mim Me
2ª pessoa singular Tu Ti Te
3ª pessoa singular Ele, ela Ele, ela, si O, a, lhe, se
1ª pessoa plural Nós Nós Nos
2ª pessoa plural Vós Vós Vos
3ª pessoa plural Eles, elas Eles, elas, si Os, as, lhes, se
Fonte: Cunha (1992), Lima (2011) e Bechara (2006)

A respeito dos pronomes oblíquos mais especificamente, Cunha (1992),


Bechara (2006) e Lima (2011) trazem outras duas subdivisões: os pronomes
oblíquos reflexivos, aqueles da mesma pessoa do caso reto cuja significação é a
mim mesmo, a ti mesmo, a si mesmo, etc.; e ainda os pronomes oblíquos
recíprocos, os que trazem a ideia de reciprocidade, sendo representados pelos
pronomes nos, vos e se.
Conforme dito anteriormente, os pronomes oblíquos funcionam como
complementos dentro das orações. Lima (2011), no entanto, mais profundamente
esclarece que a função de complemento também pode ser subdividida em objetiva
direta, para a qual se utilizam os pronomes me, nos (1ª pessoa); te, você, o, a, vos,
se (2ª pessoa); o, a, os, as, se (3ª pessoa). Outra subdivisão dessa função
completiva é a objetiva indireta, expressa pelos pronomes oblíquos átonos (me, nos,
te, lhe, vos, lhes, se), assim como pelos pronomes tônicos (mim, nós, ti, você, vós e
vocês), sempre regidos de preposição.
Há casos em que os pronomes oblíquos (o, a, os, as, me, te, se, nos, vos)
podem exercer as funções de sujeito de infinitivo e objeto direto, simultaneamente,
quando conectados aos verbos fazer, deixar, mandar, ouvir e ver, explica Lima
(2011).
Bechara (2006), como dito anteriormente, explica que os pronomes pessoais
retos exercem a função de sujeito da oração, enquanto que os oblíquos funcionam
como complemento; porém, o autor informa ainda que há situações nas quais se
podem empregar os retos pelos oblíquos. São elas, de acordo com esse autor:
a) quando o verbo e o seu complemento nominal estiverem
distanciados, separados por pausa […]; b) nas enumerações e
27

aposições, também com distanciamento do verbo e complemento


[…]; c) precedido de todo, só e mais alguns adjuntos, pode aparecer
ele (e flexões) por o (e flexões) […]; d) quando dotado de acentuação
enfática, no fim de grupo de força […]; e) em coordenações de
pronomes ou com um substantivo introduzidos pela preposição entre
[…] (BECHARA, 2006, pp. 206-207).

Apesar do que diz no item “e” acima, o próprio Bechara (2006) ressalta que a
“língua exemplar”, como ele chama aquela que segue os preceitos da norma
gramatical, aconselha, no caso descrito em tal item o uso dos pronomes oblíquos
tônicos.
Há também casos em que os pronomes oblíquos tônicos acompanhados de
preposição (a ele, a ela, a mim, a ti, a nós, a vós) podem ser empregados no lugar
dos átonos, nos casos a seguir como explica Bechara (2006): “a) quando anteposto
ao verbo […]; b) quando composto […]; c) quando reforçado […]; d) quando
pleonástico […]; e) quando complemento relativo […]; f) quando objeto direto
preposicionado”. (BECHARA, 2006, pp. 207-208).
Em casos em que se faz necessário reforçar o que foi dito, ou seja, em casos
de ênfase, Bechara (2006) informa que se costuma repetir: “a) o pronome átono pela
sua respectiva forma tônica, precedida de preposição […]; b) o complemento
expresso por um nome pelo pronome átono conveniente ou vice-versa”. (BECHARA,
2006, p.208). Neste último caso, o autor reforça que se utiliza o pronome o (os)
como neutralização em caso de gêneros diferentes dos nomes referidos. Esse ponto
de vista do autor encontra eco em Cunha (1992) e Lima (2011).
Outro aspecto dos pronomes oblíquos átonos que se deve observar, como
esclarecem os três gramáticos estudados, é a possibilidade de combinação entre
eles, como se observa a seguir:
 mo = me + o; ma = me + a; mos = me + os; mas = me + as;
 to = te + o; ta= te + a; tos = te + os; tas = te + as;
 lho = lhe + o; lha = lhe + a; lhos = lhe + os; lhas = lhe + as;
 no-lo = nos + (l)o; no-la = nos + (l)a; no-los = nos + (l)os; no-las = nos +
(l)as;
 vo-lo = vos + (l)o; vo-la = vos + (l)a; vo-los = vos + (l)os; vo-las = vos +
(l)as.
Há ainda outras combinações dos pronomes oblíquos com a preposição com,
formando, a partir delas, novos termos. De acordo com Lima (2011), são eles:
28

comigo, contigo, consigo, conosco e convosco. O autor também ressalta que


consigo é utilizado exclusivamente em casos reflexivos.
De acordo com Cunha (1992), os pronomes oblíquos podem, ainda, ser
utilizados como pronome de interesse, como chama o recurso comum da linguagem
coloquial por meio do qual se passa a ideia de intenso desejo de que certa ordem ou
pedido seja atendido. A esse expediente o autor ainda apresenta os nomes de
dativo ético ou de proveito. Como exemplo, temos a seguinte frase citada pelo
próprio autor em sua gramática: “‘Você me anda gastando o tempo com falatórios!’”
(CUNHA, 1992, p. 301).
Para esta pesquisa, interessam apenas os pronomes pessoais oblíquos
átonos de 3ª pessoa “o, a, ao, as”, portanto, os pronomes destacados em negrito no
quadro a seguir.

Quadro 2 – Pronomes pessoais oblíquos átonos


Pronomes pessoais oblíquos
Pessoas do discurso
Forma átona
1ª pessoa singular Me
2ª pessoa singular Te
3ª pessoa singular O, a, lhe, se
1ª pessoa plural Nos
2ª pessoa plural Vos
3ª pessoa plural Os, as, lhes, se
Fonte: Cunha (1992), Lima (2011) e Bechara (2006).

Cunha (1992) traz, também, o pronome oblíquo átono em função de


possessivo. Para ele, os pronomes me, te, lhe, nos, vos e lhes, ou seja, os que
exercem a função de objeto indireto, podem ser utilizados como pronomes
possessivos em se tratando de partes do corpo de alguém ou de objetos de uso
particular. O autor traz o seguinte exemplo de tal uso: “‘Tudo veio ofender-te os
olhos deslumbrados. ’” (CUNHA, 1992, p. 301).
Tratando da colocação dos pronomes dentro da oração, Cunha (1992)
esclarece que, em relação ao verbo, os pronomes podem ser posicionados de três
formas diferentes, são elas: ênclise, pronome depois do verbo; próclise, pronome
antes do verbo; mesóclise, pronome colocado no meio do verbo, o que só ocorre
nos tempos verbais do futuro do presente e do futuro do pretérito. O autor ainda
29

explana que, de acordo com a lógica da língua, quando os pronomes exercem as


funções de objeto direto ou indireto, sua colocação comum é a ênclise. Há, no
entanto, algumas exceções em se tratando da língua culta, como chama o autor.
Elas são especificadas a seguir.
Em orações com apenas um verbo:
1.º) Quando o verbo está no futuro do presente ou no futuro do
pretérito, dá-se tão somente a próclise ou a mesóclise do pronome
[…]; 2.º) É, ainda, preferida a próclise: a) nas orações que contêm
uma palavra negativa (não, nunca jamais, ninguém, nada, etc.),
quando entre ela e o verbo não há pausa […]; b) nas orações
iniciadas por pronomes ou advérbios interrogativos […]; c) nas
orações iniciadas por palavras exclamativas, bem como nas orações
que exprimem desejo […]; d) nas orações subordinadas
desenvolvidas, ainda quando a conjunção esteja oculta […]; e) com o
gerúndio regido da preposição em […]; 3.º) Não se dá a ênclise nem
a próclise com os particípios. Quando o particípio vem
desacompanhado de auxiliar, usa-se a forma oblíqua regida de
preposição […]; 4.º) Com os infinitivos soltos, ainda quando
modificados por negação, é licita a próclise ou a ênclise, embora se
verifique uma acentuada tendência para esta última colocação
pronominal […] A ênclise é mesmo de rigor quando o pronome tem a
forma o (principalmente no feminino a) e o infinitivo esta regido da
preposição a […]; 5.º) Pode-se dizer que, além dos casos
examinados, a língua portuguesa tende à próclise pronominal: a)
quando o verbo vem antecedido de advérbio, e não há pausa que os
separe […]; b) quando o sujeito da oração, anteposto ao verbo,
contém o numeral ambos ou algum dos pronomes indefinidos (todo,
tudo, alguém, qualquer, outro, etc.) […]; 6.º) Observe-se por fim que,
sempre que houver pausa entre um elemento capaz de provocar a
próclise e o verbo, pode ocorrer a ênclise. Esta é naturalmente
obrigatória quando aquele elemento, contíguo ao verbo, a ele não se
refere […] (CUNHA, 1992, pp. 307-310).

Em orações com locução verbal:


1. Nas locuções verbais em que o verbo principal está no infinitivo ou
no gerúndio pode dar-se: 1.º) Sempre a ênclise ao infinito ou ao
gerúndio […]; 2.º) A próclise ao verbo auxiliar, quando ocorrem as
condições exigidas para a anteposição do pronome a um só verbo
[ou seja, aquelas explicitadas no item 5.º, casos a, b, c e d da citação
anterior] […]; 3.º) A ênclise ao verbo auxiliar, quando não se
verificam essas condições que aconselham a próclise […]; 2. Quando
o verbo principal está no particípio, o pronome átono não pode vir
depois dele. Virá, então, proclítico ou enclítico ao verbo auxiliar, de
acordo com as normas expostas para os verbos na forma simples
[…] (CUNHA, 1992, pp. 310-311).

Por fim, após tantas restrições quanto à colocação dos pronomes átonos,
Cunha (1992) atenta para o fato de que há grandes diferenças de colocação desses
pronomes entre o português do Brasil e o de Portugal. Tal fato deve-se, de acordo
30

com o autor, a questões de pronúncia, uma vez que os pronomes em questão são
muito átonos em Portugal, ao passo que, no Brasil, têm certa tonicidade permitindo a
estes falantes variar a colocação dos pronomes. O autor ainda critica alguns
gramáticos que não consideram essa distinção como parte da riqueza linguística que
difere os falares nesses países e determinam que se devem seguir as normas
portuguesas.
Apesar da observação, no entanto, esse gramático mantém as mesmas
regras de colocação pronominal do português europeu. Reconheceu a riqueza
linguística do português do Brasil, mas não a legitimou para uma norma padrão mais
atualizada. Reforça, assim, uma norma padrão declaradamente distanciada do uso
do português do Brasil.

2.2 Sob a ótica da norma culta veiculada pela grande imprensa

É inegável a influência que a grande imprensa exerce sobre uma língua; não
diferentemente, o português brasileiro apresenta tais influências. Dessa forma, faz-
se necessário verificar as regras da norma culta adotadas por um dos grandes
nomes da imprensa nacional, regras essas explicitadas no Manual de Estilo da
Editora Abril (1990).
De acordo com o Manual, no que concerne aos pronomes, há quatro regras
em relação à colocação destes, são elas:
1. Guie-se pelo ouvido. A regra básica para a colocação dos
pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, os, as, lhe, lhes, nos,
vos) é a eufonia, ou seja, a elegância e suavidade na pronúncia.
Assim, quando possível, procure usá-los antes do verbo: ele me
disse, você lhe contou.
2. Fuja da chamada mesóclise (pronome no meio do verbo). Embora
gramaticalmente correta, a forma é estilisticamente pedante:
encontrar-nos-emos, dir-te-ia, far-lhe-ia.
3. Nas locuções, deixe o pronome solto entre um verbo e outro: vou
lhe contar, ela está se arrumando. Em tal caso, não hifenize: vou-lhe
contar, ela está-se arrumando.
4. Jamais inicie qualquer oração com pronome oblíquo antes do
verbo, salvo em certas citações.
SIM: Disseram-me que…
NÃO: Me disseram que…
(MANUAL DE ESTILO DA EDITORA ABRIL, 1990).
Como visto, as regras apresentadas pelo Manual seguem as características
do português brasileiro que Cunha (1992) menciona, mas que não legitima em sua
gramática. Ressalta-se, também, que tais regras não são totalmente regras da
31

língua falada, uma vez que essa norma culta proíbe começar orações com
pronomes oblíquos, prática amplamente encontrada nos usos linguísticos orais,
além de prescreverem, também, o uso dos pronomes, não aceitando vazios ou
quaisquer outras variantes populares. As regras da norma culta apresentadas por
esse manual parecem ser mais realistas e eficazes para o ensino.

2.3 Sob a ótica da linguística: o pronome oblíquo no português do Brasil

Apesar do que prescreve a gramática normativa a respeito dos usos dos


pronomes oblíquos, a produção linguística cotidiana real apresenta alternativas que
não coincidem com a norma, alternativas que, do ponto de vista desta, são desvios
passíveis de correção. Para melhor entender as mudanças operadas em relação aos
clíticos no português brasileiro, Duarte (1989) empreendeu um estudo
sociolinguístico que visa, justamente, analisar os usos dos pronomes “o, a, os as” e,
em caso de variação em relação à norma, descreveu estratégias de substituição
empregadas pelos falantes, de vários níveis de escolaridade. Os sujeitos de sua
pesquisa foram falantes da cidade de São Paulo e fala gravada de programas de
entrevista veiculados pela TV.
A autora afirma que
[...] o português falado no Brasil tende, com frequência cada vez
maior, a substituir o clítico acusativo de 3.ª pessoa pelo pronome
lexical (forma nominativa do pronome em função acusativa), por SNs
[sintagmas nominais] anafóricos (forma plena do SN correferente
com outro SN previamente mencionado) ou por uma categoria vazia
(objeto nulo). (DUARTE, 1989, p. 19).

Diante do acima exposto, entende-se que, na língua real, nos casos que
exigem “objeto direto correferente com um SN mencionado no discurso” (DUARTE,
1989, p. 19), ou simplesmente objeto direto, as variantes observadas foram:
 uso do pronome do caso oblíquo. Exemplo: Conversei com Maria hoje.
Disse que vou visitá-la mais tarde;
 uso do pronome do caso reto;
Exemplo: Conversei com Maria hoje. Disse que vou visitar ela mais
tarde.
 repetição de sintagmas nominais, o que se dá de três formas: repetição
do próprio sintagma nominal já expresso anteriormente (SN lexical
32

pleno); repetição do sintagma nominal alterado (SN lexical com


determinante modificado); anáfora por meio do pronome demonstrativo
isso;
Exemplo: Conversei com Maria hoje. Disse que vou visitar a Maria
mais tarde.
 uso do que a autora chama de “categoria vazia objeto [SNe]”
(DUARTE, 1989, p. 20).
Exemplo: Conversei com Maria hoje. Disse que vou visitar [SNe] mais
tarde.

A autora, além de descrever as estratégias utilizadas pelos falantes, ainda


contabilizou tais estratégias com o intuito de esclarecer qual é a mais utilizada. O
resultado foi esquematizado na seguinte tabela:
Tabela 1 – Distribuição dos dados computados segundo a variante usada.
Variante Ocorrências %
Clítico 97 4,9
pronome lexical 304 15,4
[SNe] 1235 62,6
SNs anafóricos 338 17,1
Total 1974 100,0
Fonte: Duarte (1989).

Os dados apresentados na Tabela 1 mostram que os casos de utilização dos


pronomes oblíquos, conforme prescreve a gramática normativa (clítico),
correspondem a um número ínfimo em relação ao todo, ao passo que a categoria
vazia representa a maior parte das ocorrências, seguida, distantemente, das
repetições por meio dos sintagmas nominais.
O que motiva o surgimento dessas variações também foi objeto de pesquisa
da autora. Assim, Duarte (1989) constatou que o grau de escolaridade, a faixa etária
e a formalidade da situação comunicativa são alguns dos aspectos que definem o
aparecimento de estratégias alternativas. O pronome de acordo com a norma
padrão (clítico) tende a ser usado mais por pessoas de nível superior e de mais
idade, porém mesmo nessas não é a estratégia mais frequente. Os dados da autora
mostraram, portanto, que o pronome oblíquo átono de 3ª pessoa é muito pouco
frequente no português do Brasil.
33

A diminuição da ocorrência dos pronomes oblíquos também foi estudada por


outra linguista. Cyrino (1993) observa em seu estudo os usos desses pronomes na
escrita de diferentes períodos. Os resultados de seu estudo apontam que há grande
variação nos usos dos clíticos desde a primeira metade do século XVI, sendo que o
que sofreu maior redução em sua utilização foi o clítico de terceira pessoa. Cyrino
(1993) ainda acrescenta que o clítico “o” proposicional chegou mesmo a deixar de
ser usado, a partir de 1940. Por volta da mesma época, passa a aumentar a
utilização do pronome tônico de terceira pessoa (ele, ela, eles, elas), que passa a
ocupar a posição do extinto clítico.
Esses estudos foram realizados há mais de duas décadas. Será interessante
verificar a ocorrência desses pronomes oblíquos átonos de 3ª pessoa na fala de
pessoas escolarizadas nos tempos atuais. É o que o capítulo a seguir mostrará, a
partir dos dados coletados nesta pesquisa.
34

CAPÍTULO 3
PRONOMES OBLÍQUOS ÁTONOS NA FALA DE PESSOAS
ESCOLARIZADAS

Este capítulo contém o corpus da pesquisa. Aqui são analisados os dados


coletados e, em seguida, são apresentadas reflexões sobre o ensino dos pronomes
oblíquos átonos.

3.1 Os dados da pesquisa

Os dados que compõem o corpus desta pesquisa foram obtidos a partir de


gravações de notícias veiculadas por programas de rádio e televisão. Os dados
foram gravados e as notícias foram transcritas e, para facilitar a leitura, foi inserida
uma pontuação no texto, a partir da entonação e interpretação da fala do repórter,
tornando a sua leitura mais compreensível.
Todas as notícias coletadas serão analisadas em relação às variantes
linguísticas empregadas nos contextos sintáticos possíveis para a utilização dos
pronomes oblíquos de terceira pessoa (o, a, os, as), conforme as prescrições da
gramática normativa, enfocando a forma como foram utilizados tais pronomes ou,
caso estes não tenham sido utilizados, as estratégias empregadas em substituição
aos pronomes.
Para a análise desta pesquisa, importam somente os pronomes oblíquos de
terceira pessoa (o, a, os, as) e as estratégias de substituição desses pronomes que,
de acordo com a fundamentação teórica exposta no capítulo 2, são: a utilização do
pronome reto, a repetição de sintagmas nominais, o emprego de sinônimos e o uso
da categoria vazia.
Assim, na próxima seção, as notícias serão transcritas e analisadas; a seguir,
será apresentada uma versão corrigida da notícia, de acordo com a norma padrão.
Vale lembrar que, tratando-se da língua falada, pode haver casos de pronomes
relativos não padrão, duplo sujeito, problemas de concordância, entre outros, que,
apesar de não serem abordados nesta pesquisa, serão corrigidos sem posteriores
explicações.
35

Ao final do capítulo, serão apresentadas algumas reflexões a respeito dos


usos dos pronomes oblíquos ou das estratégias de substituição no que diz respeito à
atuação do professor em sala de aula e como esse tópico gramatical pode ser
explorado de maneira diferente para facilitar seu aprendizado.

3.2 Apresentação e análise dos dados

A partir deste ponto inicia-se a apresentação dos dados coletados para a


pesquisa, seguidos de sua análise e correção. As correções das notícias estão de
acordo com a norma culta do português brasileiro, tendo como base o Manual de
Estilo da Editora Abril (1990), cujas regras foram apresentadas na seção 2.2. As
fontes e as datas de coleta dos dados estão indicadas ao final de cada uma das
notícias.

Notícia 1:
A polícia militar recebeu uma informação de um jovem que teria sido
baleado com cinco tiros, aqui em Guará. O Samu foi até o local,
prestou socorro à vítima e encaminhou a vítima ao Pronto Socorro
da cidade, mas ela não resistiu aos ferimentos. A Polícia agora vai
investigar o caso. (Rádio Metropolitana de Taubaté, em 14/04/2016).

Aqui, apesar de o contexto exigir o uso do pronome oblíquo de terceira


pessoa, de acordo com a norma padrão, o repórter valeu-se da estratégia da
repetição do sintagma nominal (no caso, a vítima), daqui em diante referida apenas
como repetição simples. A versão de acordo com a gramática normativa deveria ser:
Notícia 1 corrigida:
[...] O Samu foi até o local, prestou socorro à vítima e a encaminhou
ao Pronto Socorro da cidade, mas ela não resistiu aos ferimentos.

Notícia 2:
Um entregador de pizza, ele foi abordado por dois indivíduos, que
eles pediram uma pizza na pizzaria dele lá, né. Os dois indivíduos,
eles abordaram o entregador e levaram a pizza e também 76 reais
em dinheiro. A Polícia Militar foi acionada e conseguiu localizar os
dois indivíduos e eles foram encaminhados ao plantão policial.
(Rádio Metropolitana de Taubaté, em 14/04/2016).

Nesse caso, o repórter novamente opta pela repetição simples, primeiro de “o


entregador”, em seguida de “os dois indivíduos”. Ressalta-se que, nesse caso, há a
36

presença de outras variantes, além da não utilização do pronome oblíquo, que


também serão corrigidas de acordo com a gramática normativa. Assim, a correção
da notícia seria a seguinte:
Notícia 2 corrigida:
Um entregador de pizza foi abordado por dois indivíduos que
pediram uma pizza na pizzaria na qual ele trabalha. Os dois
indivíduos o abordaram e levaram a pizza e também 76 reais em
dinheiro. A Polícia Militar foi acionada e conseguiu localizá-los e
eles foram encaminhados ao plantão policial.

Notícia 3:
De acordo com a DIG, o crime aconteceu por volta das oito e
meia da noite. O jovem estava na esquina da Rua... com a Rua...
quando foi atingido por três disparos que atingiram o peito da
vítima. (Rádio Metropolitana de Taubaté, em 14/04/2016).

Nessa notícia, mais uma vez, o contexto permite a utilização do pronome


oblíquo; no entanto, o repórter continua utilizando a repetição, que nesse caso é a
repetição do sintagma nominal lexical com determinante modificado, daqui em diante
referida apenas como repetição modificada. A versão corrigida é a seguinte:
Notícia 3 corrigida:
[...] O jovem estava na esquina da Rua... com a Rua... quando foi
atingido por três disparos que o atingiram no peito.

Notícia 4:
O FBI desconfiou dele. E aí o FBI conseguiu rastrear esse
sujeito, prendeu [ ], descobriu que na casa dele tinha
documentos secretos. (Programa Em Pauta, Globo News, em
05/10/2016).

Nessa notícia, o contexto novamente se apresenta, porém os pronomes


oblíquos não foram utilizados. Mas o repórter faz uso de duas estratégias diferentes:
a primeira é a repetição modificada (esse sujeito), a segunda é a categoria vazia,
representada por [ ], ou seja, não se apresenta o complemento exigido pelo verbo, o
que é uma variante popular muito comum na língua falada, de acordo com Duarte
(1998). Assim, a correção dessa notícia é a seguinte:
Notícia 4 corrigida:
O FBI desconfiou dele. E aí o FBI conseguiu rastreá-lo, prendeu-o
e descobriu que na casa dele tinha documentos secretos.
37

Notícia 5:
Tem uma quadra que fica ao lado do antigo Posto de Saúde. As
pessoas usam ela. Ela foi reformada. (Rádio Metropolitana, em
03/11/2016).

Na notícia acima, o repórter não utiliza o pronome oblíquo, mas faz uso de
outra estratégia de substituição, o emprego do pronome reto no lugar do oblíquo. A
correção de acordo com a norma padrão do português brasileiro é:
Notícia 5 corrigida:
Tem uma quadra que fica ao lado do antigo Posto de Saúde. As
pessoas a usam. Ela foi reformada.

Numa perspectiva normativa estrita (norma-padrão), não há palavra que


atraia o pronome oblíquo, portanto ele deveria ser enclítico, como em: “Tem uma
quadra que fica ao lado do antigo Posto de Saúde. As pessoas usam-na.”. Seguindo
a tendência da norma culta do português brasileiro, de acordo com o Manual de
Estilo da Editora Abril (1990), propõe-se aqui a correção da notícia com o pronome
em posição de próclise.
Segue mais uma notícia do corpus desta pesquisa:

Notícia 6:
E falando dessa quadrilha presa em Ubatuba, nessa joalheria lá
conseguiram prender, né, esses indivíduos. (Rádio
Metropolitana, em 03/11/2016).

Nesse caso, não foi utilizado o pronome oblíquo; o repórter utilizou a


repetição modificada. A seguir, a correção:
Notícia 6 corrigida:
E falando dessa quadrilha presa em Ubatuba, nessa joalheria lá
conseguiram prendê-la.

Notícia 7:
Os policiais conseguiram chegar até eles e conseguiram prender
os indivíduos. (Rádio Metropolitana, em 03/11/2016).

Novamente, não se utilizou o pronome oblíquo no contexto em que é


permitido e, mais uma vez, fez-se uso da repetição modificada. A correção é a
seguinte:
38

Notícia 7 corrigida:
Os policiais conseguiram chegar até eles e conseguiram prendê-
los.

Notícia 8:
E aí ele cita uma passagem emocionante, eu nunca tive visto ele
falar sobre essa entrevista. (Em Pauta; Globo News, 02/11/2016).

Neste caso, há o contexto em que a utilização do pronome oblíquo é possível,


porém, ao invés disso, o repórter fez uso do pronome reto no lugar do oblíquo.
Segue a correção de acordo com a norma culta:
Notícia 8 corrigida:
E aí ele cita uma passagem emocionante, eu nunca o vi falar
sobre essa entrevista.

Notícia 9:
Mas eu nunca tinha visto ele comentar isso. (Em Pauta; Globo
News, 02/11/2016).

Novamente, apesar de o contexto estar presente, não se empregou o


pronome oblíquo, a estratégia de substituição utilizada foi o emprego do pronome
reto no lugar do oblíquo. A versão corrigida é a seguinte:
Notícia 9 corrigida:
Mas eu nunca o tinha visto comentar isso.

A partir desse ponto, para facilitar o andamento da pesquisa e para evitar


repetições desnecessárias, os dados serão apresentados, seguidos de uma
indicação sucinta da estratégia de pronome utilizada e da correção segundo a norma
culta.

Notícia 10:
Essas caveiras de açúcar e de chocolate, cada uma tem o nome
de uma pessoa morta da família, e aí as pessoas comem a
caveira de chocolate e de açúcar. (Em Pauta; Globo News,
02/11/2016).

Aqui, a estratégia utilizada foi a repetição simples. Correção:


39

Notícia 10 corrigida:
Essas caveiras de açúcar e de chocolate, cada uma tem o nome
de uma pessoa morta da família, e aí as pessoas as comem.

Notícia 11:
Quando você diz das iniciativas do legislativo que estão em curso
para tentar coibir e enquadrar a investigação, e é um conjunto
delas, eu até tenho chamado [ ] informalmente de o Império
Contra-ataca. (Painel, Globo News, 18/09/2016).

A estratégia utilizada nessa situação foi o vazio. Segue a correção:


Notícia 11 corrigida:
Quando você diz das iniciativas do legislativo que estão em curso
para tentar coibir e enquadrar a investigação, e é um conjunto
delas, eu até as tenho chamado informalmente de o Império
Contra-ataca.

Notícia 12:
Em Cunha, um homem acusado de participar de homicídio foi
preso […]. A polícia localizou o suspeito na região do Bairro ...
(Rádio Metropolitana, em 24/11/2016).

Apesar de correto, o caso acima não apresenta o pronome oblíquo, em seu


lugar, utiliza-se a repetição modificada. A correção:
Notícia 12 corrigida:
Em Cunha, um homem acusado de participar de homicídio foi
preso […]. A polícia o localizou na região do Bairro ...

Notícia 13:
Foi identificado [...] um rapaz de 17 anos com atitudes bem
suspeitas. A polícia, de imediato, abordou esse rapaz, que não
conseguiu fugir. (Rádio Metropolitana, em 24/11/2016).

No caso acima, o repórter utilizou a repetição simples. A versão corrigida é a


seguinte:
Notícia 13 corrigida:
Foi identificado [...] um rapaz de 17 anos com atitudes bem
suspeitas. A polícia, de imediato, o abordou e ele não conseguiu
fugir.
40

Notícia 14:
Um homem de 62 anos foi sepultado no último dia 5 de novembro
e foi desenterrado duas vezes em São José do Barreiro. [...]
Segundo os coveiros, eles encontraram o amigo do morto, que
teria contado que desenterrou [ ] por uma promessa. (Rádio
Metropolitana, em 23/11/2016).

No caso acima, a estratégia utilizada foi o vazio. Segue a correção:


Notícia 14 corrigida:
Um homem de 62 anos foi sepultado no último dia 5 de novembro
e foi desenterrado duas vezes em São José do Barreiro. [...]
Segundo os coveiros, eles encontraram o amigo do morto, que
teria contado que o desenterrou por uma promessa.

Notícia 15:
Eles aproveitam que durante a madrugada a cidade tem pouco
movimento e saem pichando a cidade. (Rádio Metropolitana, em
24/11/2016).

Aqui, a estratégia utilizada foi a repetição simples. Sua correção é a seguinte:


Notícia 15 corrigida:
Eles aproveitam que durante a madrugada a cidade tem pouco
movimento e saem pichando-a.

Notícia 16:
Uma mulher de 44 anos que estava fazendo um saque em sua
conta no banco Itaú [...]. Ao realizar este saque no caixa
eletrônico, um homem, entre 25 anos [...], chamou a vítima para
conversar. (Rádio Metropolitana, em 25/11/16).

No caso acima, o repórter valeu-se da repetição modificada. A versão


corrigida com o pronome oblíquo é a seguinte:
Notícia 16 corrigida:
Uma mulher de 44 anos que estava fazendo um saque em sua
conta no banco Itaú [...]. Ao realizar este saque no caixa
eletrônico, um homem, entre 25 anos [...], a chamou para
conversar.

Notícia 17:
A vítima levou seis tiros, alguns deles acertaram o punho, o braço
e também as costas. (Rádio Metropolitana, em 24/11/16).
41

Na notícia acima, é interessante observar que não há erro, de acordo com a


gramática normativa, este não é um contexto no qual deveria aparecer um pronome
oblíquo. No entanto, essa situação configura-se como um contexto alternativo para
uma construção mais formal na qual o pronome oblíquo apareceria. Dessa forma,
uma versão mais formal seria:
Notícia 17 contexto mais formal:
A vítima levou seis tiros, alguns deles acertaram-na no punho, no
braço e também nas costas.

Notícia 18:
O indivíduo começou a correr, despertando assim a atenção dos
policiais, que foram atrás desse rapaz e ao alcançá-lo foi feita a
abordagem. (Rádio Metropolitana, em 03/11/2016).

Nesse caso, ocorre o contexto que possibilita o aparecimento do pronome


oblíquo, e o repórter faz o seu uso corretamente. Esse primeiro dado dessa natureza
demonstra que os pronomes oblíquos existem sim na língua falada, mas são raros.
O dado interessante demonstrado na pesquisa de Duarte (1989), que se repete
nesta pesquisa, é que a ocorrência dos pronomes oblíquos é mais frequente depois
de verbos no infinitivo, como ocorre na notícia 18. Tendo sido utilizado corretamente
o pronome oblíquo, não há correção para esta notícia.

Notícia 19:
Isso significa que o plano de saúde implantado pelo Obama está
na linha de tiro porque Trump terá o apoio do Congresso para
desmontá-lo. (Jornal das 10; Globo News, 02/11/2016).

Aqui, o pronome oblíquo foi empregado corretamente, não havendo


necessidade de correção.

Notícia 20:
A polícia estipulou a fiança de mil reais, paga pelos amigos do
médico, que o levaram embora. (Rádio Metropolitana, em
23/11/2016).

Novamente, o repórter faz uso correto do pronome oblíquo no contexto que o


exige, de acordo com a gramática normativa.
42

Encerrando a apresentação dos dados, vale apresentar uma tabela na qual se


esquematizam as estratégias linguísticas que compõem o corpus dessa pesquisa.
Segue a tabela:
Tabela 2 – Estratégias linguísticas de utilização ou substituição dos pronomes
oblíquos átonos de terceira pessoa.
Variantes Ocorrências % Exemplos
Os policiais conseguiram chegar até
Repetição modificada 6 27,3 eles e conseguiram prender os
indivíduos.
O Samu foi até o local, prestou socorro à
Repetição simples 6 27,3 vítima e encaminhou a vítima ao Pronto
Socorro da cidade.
Tem uma quadra que fica ao lado do
Pronome reto pelo oblíquo 3 13,6 antigo Posto de Saúde. As pessoas
Populares

usam ela.
Segundo os coveiros, eles encontraram
Vazio 3 13,6 o amigo do morto, que teria contado que
desenterrou [ ] por uma promessa.

A vítima levou seis tiros, alguns


Menos
formal

deles acertaram o punho, o


braço e também as costas.
Contexto alternativo 1 4,6
A vítima levou seis tiros, alguns
formal
Mais

deles acertaram-na no punho,


no braço e também nas costas.

O indivíduo começou a correr,


Padrão

Padrão

despertando assim a atenção dos


Pronome oblíquo 3 13,6
policiais, que foram atrás desse rapaz e
ao alcançá-lo foi feita a abordagem.
Total 22 100
Fonte: Dados da pesquisa.

Como se pode apreender a partir dos dados da Tabela 2, a estratégia a que


se chamou repetição de sintagmas nominais na seção 2.3 foi aqui desmembrada em
duas espécies de repetição: a primeira, a repetição simples, consiste na repetição
direta do sintagma nominal anteriormente apresentado. Exemplo: O Samu foi até o
local, prestou socorro à vítima e encaminhou a vítima ao Pronto Socorro da cidade
(Notícia 1); a segunda, repetição modificada, trata-se de repetição por meio de um
43

sinônimo que se refira ao sintagma nominal já apresentado. Exemplo: Os policiais


conseguiram chegar até eles e conseguiram prender os indivíduos (Notícia 7).
Essas estratégias, no corpus da presente pesquisa, somam 54,6% do total de dados
obtidos, sendo as estratégias mais utilizadas.
Outra estratégia substitutiva apresentada foi o uso do pronome reto no lugar
do pronome oblíquo, exemplo: Tem uma quadra que fica ao lado do antigo Posto de
Saúde. As pessoas usam ela (Notícia 5). Tal uso linguístico é um dos mais
estigmatizados socialmente, ocorrendo, normalmente, em situações mais informais.
Sua baixa ocorrência na pesquisa, apenas 13,6%, reflete a ação de tal preconceito
linguístico, indicando que as pessoas escolarizadas tendem a evitar essa estratégia.
Já a estratégia de substituição chamada de vazio, exemplo: Segundo os
coveiros, eles encontraram o amigo do morto, que teria contado que desenterrou [ ]
por uma promessa (Notícia 14), estratégia essa que teve a maior ocorrência no
estudo de Duarte (1989) apresentado anteriormente na seção 2.3, na presente
pesquisa, equivale a apenas 13,6% dos dados coletados.
Foi, ainda, identificada outra estratégia que, apesar de gramaticalmente
correta, reflete um grau levemente menos formal de uso da língua que evita o uso
dos pronomes oblíquos, a essa estratégia chamou-se contexto alternativo, exemplo:
A vítima levou seis tiros, alguns deles acertaram o punho, o braço e também as
costas (Notícia 17). Nessa pesquisa, tal estratégia representa apenas 4,6% dos
dados.
Por fim, a utilização dos pronomes oblíquos, conforme exige a gramática
normativa, representa 13,6% do total de dados coletados, exemplo: O indivíduo
começou a correr, despertando assim a atenção dos policiais, que foram atrás desse
rapaz e ao alcançá-lo foi feita a abordagem (Notícia 18). Essa baixa ocorrência, ao
passo que confirma o que diz Cyrino (1993), citado na seção 2.3, a respeito da
constante diminuição da utilização desses pronomes no português brasileiro,
concomitantemente, demonstra que tal uso linguístico ainda ocorre, apesar de sua
baixa frequência.
Ainda considerando a ocorrência dos pronomes oblíquos nessa pesquisa,
pode-se observar que dos três contextos que propiciam o uso dos pronomes
oblíquos, em dois deles, o que corresponde a 66,7% desse uso, o pronome está
colocado na posição de ênclise, depois do verbo, o que está totalmente de acordo
com a norma padrão gramatical. Ainda nesses dois contextos, percebe-se que os
44

verbos aos quais os pronomes ligam-se estão no infinitivo (alcançar e desmontar),


esse dado confirma o que diz Duarte (1989), que comumente esses pronomes são
mais empregados com verbos no infinitivo. No terceiro contexto, o pronome oblíquo
está na posição de próclise, correspondendo a 33,3% desse uso, o que, no caso,
também está de acordo com a norma padrão, dada a presença de uma palavra que
atrai o pronome para antes do verbo (no caso, a conjunção “que”).

3.3 Reflexões sobre o ensino de pronomes oblíquos átonos

Diante dos resultados obtidos por meio dessa pesquisa e diante da teoria
apresentada na seção 1.3 acerca do ensino de língua portuguesa, cumpre que
sejam refletidas, nesse ponto, as questões apresentadas anteriormente que
incentivaram a realização desse trabalho. Como o professor de língua portuguesa
deve proceder diante da atual situação do português brasileiro, na qual se tem, de
um lado, a gramática normativa que exige os usos linguísticos que menos ocorrem
na língua real e, do outro, a realidade linguística dos alunos que, por se dar num
contexto de maior oralidade, caracteriza-se pela informalidade, e que raramente
reflete o que dita a norma gramatical?
De início, deve-se deixar claro: o ensino de gramática deve ser aplicado, dada
a sua importância em relação à formação de habilidades intelectuais que é capaz de
proporcionar. Porém, diferentemente do que ocorre normalmente nas escolas hoje, o
ensino de língua materna deve considerar a questão das variantes linguísticas. Os
alunos devem ser expostos às mais diversas variantes, sua importância deve ser
explicitada, principalmente a da variante da qual eles próprios se valem em seu dia a
dia. Nessa perspectiva, o ensino de língua portuguesa deve ser encarado com um
ato político, no qual deve haver respeito mutuo entre professor e aluno, e respeito
frente às variantes linguísticas de ambos. Desse modo, a língua é tratada como o
que ela realmente é: o principal meio de inserção social de que o ser humano
dispõe.
Tratando mais especificamente dos pronomes oblíquos, os dados dessa
pesquisa demonstram que esses pronomes, de acordo com a norma padrão, são
muito raros na língua falada. Sendo assim, o ensino desse tópico gramatical
apresenta uma série de desafios ao professor de língua portuguesa, uma vez que os
alunos têm pouco, ou nenhum, contato com essa construção. Os dados da pesquisa
45

permitem confirmar a importância de o professor, em sala de aula, refletir sobre os


usos linguísticos reais que a língua falada proporciona, já que é com essa
modalidade linguística que os alunos têm mais relação, como as estratégias de
substituição aos pronomes oblíquos que aqui aparecem. Sugere-se, assim, que o
professor baseie sua prática docente na reflexão sobre a norma padrão e os usos
linguísticos reais, pois do contrário, é como se o aluno estivesse estudando uma
língua estrangeira.
Ainda a partir dos dados da pesquisa, esse trabalho permite que sejam
observadas e analisadas mais detidamente as estratégias linguísticas correntes na
língua falada, fornecendo exemplos para a sala de aula, onde se pode refletir sobre
tais usos, sempre tendo em mente a questão da comparação com a norma padrão
da língua que não pode ser negligenciada pelo professor. Esses exemplos também
revelam que uma pesquisa desse tipo pode ser realizada em sala com os alunos, o
que pode tornar a assimilação desse tópico mais fácil e prazerosa.
Outra sugestão para o ensino de língua portuguesa que a presente pesquisa
ajuda a delinear é uma tomada de posição frente ao ensino da norma padrão ou da
norma culta. A norma padrão apresenta diversas regras, principalmente em relação
à colocação dos pronomes: regras para próclise, para ênclise, para mesóclise. O
problema é que todas essas regras estão muito distantes da realidade linguística do
português brasileiro falado e, em certos casos, até mesmo escrito. Sendo assim,
acredita-se que seja mais produtivo trabalhar com a norma culta, difundida
principalmente pela grande mídia impressa, que, a pesar de defender o uso dessas
estruturas mais formais, não está rigorosamente de acordo com a norma padrão;
assim, a norma culta, a partir de suas regras mais simplificadas em relação à
colocação dos pronomes, torna-se mais realista. Contudo, convém repetir, a norma
padrão deve ser levada ao conhecimento dos alunos, assim como outras diversas
variantes linguísticas, seja para a ampliação de seu conhecimento linguístico, seja
para a mitigação dos preconceitos linguísticos, lembrando sempre da função social
que a linguagem possui.
46

CONCLUSÃO

Esse trabalho teve como objetivo contribuir para a reflexão acerca dos usos
reais dos pronomes oblíquos de terceira pessoa no português brasileiro
contemporâneo, em comparação com o que dita a gramática normativa e, a partir
disso, tecer comentários sobre a atuação do professor de língua portuguesa, no que
diz respeito ao ensino de tais pronomes. Atuou-se por meio de um levantamento das
variantes linguísticas empregadas por pessoas com nível superior de escolaridade,
em programas de rádio e televisão, nos contextos sintáticos em que a gramática
normativa prescreve o uso de pronomes pessoais oblíquos átonos de terceira
pessoa e, a partir dos dados coletados, fizeram-se sugestões sobre possibilidades
de ensino desse tópico gramatical.
Dessa maneira, esse estudo pôde demonstrar que na língua falada a
ocorrência dos pronomes oblíquos é muito baixa, sendo que para comunicarem-se,
as pessoas lançam mão de diferentes estratégias de substituição a esses pronomes,
e essas estratégias superam e muito o uso dos pronomes de acordo com norma
padrão. Essas estratégias, na presente pesquisa, equivalem a 86,4% do total dos
dados coletados, restando apenas 13,6% para as ocorrências dos pronomes
oblíquos.
As estratégias substitutivas constatadas na pesquisa foram cinco, a repetição
modificada (27,3%), a repetição simples (27,3%), o uso do pronome reto pelo
oblíquo (13,6%), o vazio (13,6%) e o contexto alternativo (4,6%). Entre as utilizações
do pronome oblíquo, todas em conformidade com as regras de colocação
pronominal da gramática normativa, 66,7% delas correspondem a pronomes em
posição de ênclise, ao passo que 33,3% correspondem à posição de próclise.
Todos esses dados encontram eco direto na atuação do professor em sala de
aula ao ensinar não apenas esse tópico gramatical, mas ao ensinar a língua materna
com um todo. Os dados demonstram que a maior parte da língua falada não
corresponde às normas gramaticais, sendo inviável que se exija dos alunos o
domínio de uma variante com a qual eles nunca tiveram contato.
Para se garantir a eficácia do ensino de língua materna, como indicam as
teorias apresentadas anteriormente, devem ser levadas em consideração as
diversas variantes linguísticas, com as quais os alunos devem ter contato, e não
47

apenas a norma padrão, como acontece normalmente nas escolas. É importante


que o professor reflita acerca dos usos linguísticos reais em comparação com o que
dita a norma padrão, problematizando e relacionando ambas.
Os dados aqui expostos evidenciam a importância da consideração das
estratégias de substituição encontradas na língua falada, que podem ser utilizados
diretamente em sala de aula ou que podem servir como inspiração para que
pesquisas como essa aconteçam nas escolas.
48

REFERÊNCIAS

ANJOS, Marcelo A. L. dos. Gramática da língua portuguesa padrão


(Des)continuidades? In: FARACO, Carlos A.; VIEIRA, Francisco E. (Org.).
Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores. São Paulo: Parábola Editorial,
2016. p. 187-213.

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