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O Papel Do Designer No Desenvolvimento De Jogos De Computadores

André Luiz Battaiola {albattaiola@ufpr.br}


Viviane Gaspar Ribas {viviane.gasparibas@ufpr.br}
Bruna Cozer Montenegro {brumontenegro@hotmail.com.br}
Joana Fernandes de Andrade {joanafernandes@onda.com.br}
Gustavo Kira {gustavokira@hotmail.com}

Departamento de Desenho Industrial / Universidade Federal do Paraná - UFPR


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Resumo
Considerando-se a idéia de que um jogo é composto de três partes (roteiro, motor e
interface), este artigo analisa em que partes de um jogo o designer deve participar
do desenvolvimento, bem como ressalta a importância de se contar com este
profissional no contexto de um produto que envolve projeto e equipe de
desenvolvimento multidisciplinar.
Palavras-chaves: Design, Gestão de Projeto, Jogos de Computador.
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Amazônia [1], produzido pela TILT online,
1. Introdução foi o primeiro jogo brasileiro lançado em 1983.
Após esse jogo, houve uma hibernação de quase
Considera-se que o início dos Jogos por uma década, sendo que o próximo lançamento
Computador começou com Willy Higinbotham, só ocorreu nos anos 90. Uma série de
um físico do Brookhaven National Laboratories questões conjunturais (política de informática,
nos EUA. Nos dias de visita em seu laboratório, cultura na área, falta de investidores, etc) foram
Willy, com medo de que as pessoas ficassem às causas deste atraso.
desinteressadas pelo seu trabalho, criou um jogo O desenvolvimento da área de computação
de tênis bem simplificado, que era executado em no país, tantos em termos acadêmicos quanto
um computador analógico e mostrado em um empresariais, capacitou o país com profissionais
osciloscópio. Sua criação foi um sucesso e competentes na área. Apesar desta competência,
acabou incentivando a criação de outros jogos, atestada, por exemplo, pela qualidade do
em especial, os primeiros jogos de galeria e software produzido para o sistema bancário, não
consoles. houve aplicação da tecnologia conhecida no
Nolan Bushnell, engenheiro eletrônico, logo desenvolvimento de outros produtos, entre eles,
após o começo não muito bem sucedido de seu os jogos de computadores.
primeiro jogo de galeria, cria com um amigo Passados trinta e dois anos desde que
uma empresa com fins específicos de Bushnell brigou por reconhecimento, a criação
desenvolvimento de jogos - a Atari. Esta de jogos conta com incentivos em termos de
empresa inicia as suas atividades com o investimento, capacitação de pessoal e acesso à
lançamento do cultuado jogo Pong em 1972. tecnologia em países como Estados Unidos,
Assim, a indústria de jogos acumula uma Japão e Coréia, os lideres mundiais na área. Os
experiência de 30 anos. investimentos são feitos de acordo com a receita
esperada pelo mercado. Em 2003, o mercado No Brasil, a academia também não facilita a
americano de jogos de computadores faturou em criação das empresas, dado que somente um
torno de US$ 7 bilhões, o que implicou em curso, graduação em Design com ênfase em
dobrar a receita em relação ao ano de 1996 [2]. Planejamento de Jogos da Anhembi-Morumbi
No exterior, os publishers [3]- geralmente em São Paulo [5], o qual foi lançado
capitalistas ou empresas como a Sony Computer recentemente, se propõe a formar profissionais
Entertainment, a Nintendo, a Blizzard específicos para esta área. Algumas
Entertainment, a Microsoft, entre outros, universidades são pólos de formação de
investem em jogos ou em equipes criadoras e se profissionais, tais como, o da PUC-RJ, o Senac
responsabilizam pelo lançamento de novos e – SP, o Centro de Estudos e Sistemas
sofisticados produtos no mercado. Na maioria Avançados do Recife (C.E.S.A.R.) e o
das vezes, também se responsabilizam pelo LAI/UFPR, os quais oferecem cursos de
marketing do produto, manufatura e especialização ou disciplinas isoladas ou
distribuição. A competência na área é o atividades de pesquisa. Esta escassez de opções
elemento central para se candidatar à obtenção de formação faz com que os jovens interessados
de patrocínio de um publisher. no assunto não tenham para onde ir e se dividam
No exterior, apesar da dificuldade de se entre cursos de computação e de design gráfico.
conseguir este patrocínio, há uma Ao contrário, no exterior, se encontram várias
disponibilidade de investimento. No entanto no instituições de ensino que oferecem cursos
Brasil, em função de uma falta de cultura na específicos para a produção de jogos.
área, tanto em termos industriais quanto O resultado de todas estas dificuldades é
acadêmicos, é praticamente inexistente a que as empresas brasileiras voltadas para a área
disponibilidade de investimento. Somente a de jogos, formadas na maioria
partir do ano de 2000 começou a discussão amadoristicamente por grupos de amigos, têm
acadêmica do valor tecnológico dos jogos, o que como fator fundamental para alcançar o sucesso
foi acompanhado de algumas iniciativas tímidas apenas a dedicação, pois, além da falta de
de investimento na área. Também da partir desta conhecimento e investimento, as equipes
data, foram disponibilizados alguns recursos nascem desbalanceadas em termos de diferentes
para investimento em pesquisa e tipos de profissionais. Em geral, estas empresas
desenvolvimento de jogos por entidades são formadas exclusivamente por profissionais
governamentais de financiamento. da área de computação.
O conhecimento tecnológico brasileiro na O que se pretende mostrar neste artigo é que
área é limitado, o que obriga as empresas, se desde do momento da criação da empresa, um
praticamente, começarem do zero, o que designer for alocado na equipe, muitos
aumenta o risco de insucesso da empresa e, problemas podem ser solucionados em função
conseqüentemente, dificulta a sua chance de de sua formação interdisciplinar.
conseguir financiamento. Assim, em função do
tímido volume de financiamento, incubadoras de 2. Área de Atuação do Designer
universidades [4] se tornaram um meio eficiente
de assegurar a criação de futuras empresas na Partindo-se da concepção que um jogo de
área. Note-se que a maioria destas empresas computador pode ser entendido como “um
começa de maneira informal, muitas montadas sistema composto de três (3) partes básicas:
por grupos de amigos de faculdade. Apesar do enredo; motor; e interface interativa” e ainda
tempo limitado para a incubação, a infra- que o sucesso de um jogo está “associado à
estrutura compartilhada com outras empresas, o combinação perfeita desses componentes” e não
que diminui custos, bem como o suporte na área “totalmente relacionado a sua sofisticação
de negócios, entre outras vantagens, torna a computacional” mas sim aos “atrativos lúdicos
opção das incubadoras viável e segura para que ele fornece aos usuários” [6], então o
novos empreendedores.
profissional de Design, é ator ativo desse novo visual desta interface, baseado na sofisticação
cenário. artística e beleza das imagens, é um fator de
A concepção do Design como “uma grande importância para o sucesso de um jogo”
atividade especializada de caráter técnico- [8].
científico, criativo e artístico, com vistas à Para o designer, em específico o gráfico, a
concepção e desenvolvimento de projetos de interface gráfica diz respeito à composição
objetos e mensagens visuais que equacionem gráfica de elementos visuais que para Wickser e
sistematicamente dados ergonômicos, Bettochhi [9] são: “a linha, cor, tonalidade,
tecnológicos, econômicos, sociais, culturais e forma, iluminação, textura e espaço”, elementos
estéticos que atendam concretamente às que formam qualquer imagem gráfica ou
necessidades humanas” [7], evidência a pictórica.
diversidade de atuação do designer. O processo de planejamento e
Neste contexto, na concepção de um jogo, desenvolvimento de qualquer produto envolve
onde se tem a tecnologia de um lado e o homem um compromisso do designer que perpassa o
(usuário) do outro, o Design é a atividade nível comunicativo e funcional, respondendo
interdisciplinar que pode contribuir de modo a aos aspectos fisiológicos, espirituais, psíquicos e
minimizar os problemas que porventura surjam sociais do uso, bem como aos aspectos
na interface do sistema homem/ psicológicos envolvidos na percepção sensorial,
jogo/computador. enquanto o produto está sendo utilizado. A
Em termos das três partes básicas dos jogos, Gestão do Projeto, na busca por um
duas delas, enredo e interface, são campos desenvolvimento eficiente e satisfatório de um
principais de atuação do designer. A única parte projeto, deve integrar todos os profissionais
em que o designer não entra é o motor, pois é envolvidos, o que no caso de um jogo pode
específica de programadores. Durante o implicar em uma equipe formada por lingüistas,
desenvolvimento do motor, o designer mantém especialistas em sistemas operacionais,
uma troca constante de informações com os computação gráfica, inteligência artificial,
programadores para a incorporação e/ou psicologia, pedagogia, cinema, roteiro,
modificação de funções e recursos. designers, profissionais de música, etc. Tanto no
No enredo, o designer pode auxiliar na contexto do produto quanto no da equipe, o
elaboração da trama, na definição e criação dos designer pode contribuir ao envolver as áreas
cenários e personagens e na redação e informativas, estratégicas e de especificações.
formatação do roteiro. Adicionalmente, nesta É de conhecimento geral que parte do
etapa, o designer pode auxiliar na extração de potencial de atração dos jogos vem dos
dados que permitam a definição do briefing das estímulos visuais. Este fato facilita a criação de
interfaces interativas a partir das informações uma geração de pessoas com maior
contidas no enredo, com seus conceitos sensibilidade visual, o que exerce influência
culturais, estéticos e sociais. Essas informações sobre o Design como um todo. Neste sentido,
facilitarão futuras correlações entre o ambiente prescindir do Design na elaboração de um jogo
do jogo, a interface e recursos computacionais, significa desconsiderar aspectos fundamentais
ao longo do processo de desenvolvimento do que estão em constante evolução e mutação.
jogo.
A interface interativa é a parte que o design 3. Gestão de Design
pode contribuir mais significativamente, pois é
nessa parte do desenvolvimento do jogo que o Os profissionais de design que pretendem atuar
poder do design pode aumentar o nível de na área de jogos deverão se estruturar e
interação entre usuário e jogo. “A interface compreender quais são os conhecimentos
gráfica de um jogo é fundamental para aumentar necessários, ainda em sua formação
o seu realismo e o nível de engajamento do universitária, para atuar neste mercado. Este,
usuário ao seu ambiente. Além disso, o atrativo ainda, lidará com a acelerada e constante
evolução tecnológica, onde recursos se Primordialmente, o designer deve conhecer
sofisticam e se tornam obsoletos rapidamente. como ocorre o processo de concepção de um
No caso do desenvolvimento de jogos, é jogo de computador, e na falta de profissionais
necessário que uma série de especialistas ou mesmo de recursos financeiros para a
trabalhem juntos, integrados, em constante contratação de pessoal especializado para cada
sinergia, e isso no contexto atual, por exemplo, atividade ou projeto, deve então procurar se
de DIP (desenvolvimento integrado de profissionalizar para suprir essa falta. O
produtos), facilita a integração das designer deve estar preparado para se envolver
potencialidades de uma empresa, aproveitando tanto com grandes quanto com pequenas
ao máximo o conhecimento e a expertise já decisões.
disponível na empresa. Além disso, o designer, No que tange à formação acadêmica, a
capacitado com conhecimentos em gestão incluída no currículo dos cursos de
administração, poderá desempenhar funções de graduação, além de proporcionar uma visão de
gerente do projeto, as quais englobam os estruturação de um negócio, pode revelar
seguintes aspectos: Liderança (direção; questões que, muitas vezes, passam
comunicativo; senso de direção e motivador da despercebidas ao longo desenvolvimento de
equipe); Poder de Negociação; Influencia sobre produto, mas que participam do cotidiano das
a organização (a fim de atingir os níveis empresas. A visão abrangente, complexa, macro
esperados); e Capacidade de decisão. e interdisciplinar, específica e micro é parte da
Em termos de inovação, a contribuição do natureza do Design, e a formação dos designers
Design é significativa e foge do estereótipo de deve privilegiar e acentuar esta capacidade.
que o Design apenas adiciona glamour aos
objetos. O Design é, por definição, uma 4. Áreas Do Saber No Design
atividade criadora com forte inserção no sistema
produtivo e surge como uma ferramenta para a Sendo o designer um profissional voltado à
inovação nas empresas, contribuindo com o solução de problemas decorrentes das interfaces
desenvolvimento da industria. Com isso, o entre o homem e o seu entorno, é esperado que o
Design passa a ser um fator estratégico que mesmo desenvolva ao máximo todo tipo de
busca proporcionar de forma ampla: qualidade e habilidade e competência, adquirindo
inovação de produtos, processos e serviços. conhecimentos de várias áreas do saber, de
O designer, integrado a equipe de maneira que, ao se deparar com problemas,
desenvolvedores de jogos, deve agir como um consiga distinguir o todo e as partes.
intérprete ou facilitador, articulando as áreas e Atualmente, o escopo de conhecimentos que
competências disponíveis numa empresa, e devem fazer parte da formação do designer é
desenvolvendo soluções para que os jogos ainda objeto de estudos, havendo pesquisadores
atendam efetivamente as demandas do mercado. e profissionais da área envolvidos na
Estas atitudes são condições para que a indústria formalização de uma Teoria do Design. Nesta
de jogos supere as expectativas dos investidores linha de pesquisa, Gustavo Amarante Bomfim
e ganhe a liderança no mercado. [10], especializado em filosofia aplicada a
Como cada empresa tem necessidades Teoria do Design, concebeu a idéia de existirem
próprias, o processo de implantação do Design é seis grandes áreas de conhecimento que são
muito particular para cada organização, não necessárias para um designer ser bem sucedido.
existindo regras que se apliquem perfeitamente a Ele se baseou nos currículos dos cursos
todos os casos, porém existem métodos que superiores de Design, nos últimos trinta anos
podem ser apropriados de diversas áreas, como afirmando que “... configurou-se a hipótese que
administração, gerenciamento de projetos, o ensino do Design, apesar de fazer uso de
desenvolvimento integrado de projetos, entre conhecimentos de diversas ciências, se
outras. caracteriza e se diferencia de outras atividades
mais pelo seu campo de ação – a configuração
de objetos de uso e sistema de informação – do computação, apresenta riscos porque estes
que por dispor de uma área de conhecimentos profissionais podem não dominar uma série de
próprios”. Estas diversas ciências definem o conhecimentos multidisciplinares que fazem
estágio atual da Teoria sobre o Design, e com parte do processo de desenvolvimento de um
isso seu ensino e prática, o qual é composto produto. Além disso, fica mais difícil para estes
pelas seguintes áreas de conhecimento: profissionais administrar equipes
multidisciplinares.
a) geral (legislação, filosofia, comunicação
etc.); O designer não só atende a esta função, bem
b) tecnológico (fabricação, materiais, como deve estar atento a necessidade de se
incorporar ao seu trabalho os valores que
planejamento, marketing etc.);
atendam as necessidades humanas, minimizando
c) de utilização (ergonomia, psicologia, os problemas que possam vir a surgir na
antropologia, ou seja, interface entre objeto e interface homem-produto. Além disso, deve
usuário); buscar mecanismos que estimulem e atraiam os
d) de planejamento de criação da forma usuários, os quais buscam produtos que lhes
(metodologias de pesquisa e projeto, teoria sejam simpáticos. Em um mercado cada vez
da forma, teoria da cor etc.); mais competitivo, com produtos tecnicamente
equivalentes, o apelo emocional pode ser um
e) de linguagem (bidimensionais, diferencial, ou seja, aquilo que desperta a paixão
tridimensionais e virtuais) e do consumidor pelo produto. Faz parte da
f) instrumental (matemática, física, química função do designer identificar e implementar os
etc.). mecanismos que garantam a união deste apelo
com a tecnologia embutida no produto.
As Diretrizes do curso de Design do INEP
(Instituto Nacional de Educação e Pesquisa)
condizem com a idéia de Bomfim, como está 6. Referências
explicito nas competências e habilidades do
curso. Tais como “capacidade de trânsito
interdisciplinar, interagindo com especialistas de
[1] Monkey Lan4fun
outras áreas de modo a utilizar conhecimentos http://www.monkey.com.br/paginas/integral.php?newsid=
diversos e atuar em equipes interdisciplinares na 1053(19/08/2004)
elaboração e execução de pesquisas e projetos”
e “domínio de gerência de produção, incluindo [2] Entertainment Software Association.
qualidade, produtividade, arranjo físico de http://www.idsa.com (19/08/2004).
fábrica, estoques, custos e investimentos, além
[3] Wordiq.com
da administração de recursos humanos para a http://www.wordiq.com/definition/Video_game_
produção”. publisher (19/08/2004)
Diante disso, conclui-se que os egressos dos
cursos de Design têm o conjunto de [4] Universidade Federal do Rio de Janeiro
http://www.incubadora.coppe.ufrj.br/incubadora.html
conhecimentos necessários para gerir uma
(19/08/2004)
equipe de desenvolvimento de jogos de
computadores. [5] Universidade Anhembi Morumbi
http://www2.anhembi.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.
htm?infoid=187&sid=44 (19/08/2004)
5. Conclusão
[6] BATTAIOLA, André Luiz. , 2000.

O esquema usual de se montar uma equipe para [7] MUSSNICH, Alexendre Guedes. (2003). Arquitetura
a produção de jogos baseados em profissionais e Design, Revista ADG.
de uma única área, usualmente especialistas em
[8] Idem 2

[9] Wickser (1968) apud Bettochhi (2000,


pág. 54).

[10] BOMFIM, Gustavo Amarante.(2001). Sobre a


possibilidade de uma teoria do Design. Estudos em Design
Edição Especial, pág. 51/58.