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Os “Alemão”

Eraldo Bacelar

Na gíria dos narcotraficantes, “alemão” é o inimigo eventual. Pode ser a polícia, o


Exército, a milícia armada por policiais corruptos ou até mesmo bandos rivais de outro centro
de comércio de drogas. As Forças Armadas, por solicitação do Tribunal Superior Eleitoral -
TSE- ocuparam, durante quatro dias, o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, zona norte
carioca. Saíram após as eleições que transcorreram, nas áreas ocupadas, sem problemas.
Cinco mil homens do Exército e Corpo de Fuzileiros Navais foram mobilizados. Ao custo de
alguns milhões de reais o exercício foi um sucesso. Os narcotraficantes não se deram ao
trabalho de combater as tropas. Apenas as mantiveram monitoradas e vigiadas. Os “negócios”
foram transferidos de seus pontos tradicionais e, tão logo os blindados, helicópteros e os
militares se foram, no fim de tarde de domingo, tudo voltou à normalidade. Ou seja, ao
controle efetivo da bandidagem. Matérias divulgadas na tevê, na manhã de segunda,
mostravam os mesmos marginais com os seus fuzis e metralhadoras reerguendo as barricadas
que as forças armadas destruíram em sua curta passagem pelo morro. Uma eloqüente
demonstração de que o crime não está organizado, o estado é que é uma bagunça. O que era
um problema exclusivo das periferias cariocas e paulistas, como uma metástase, espraia-se
por outros bairros cariocas e chega a cidades mais distantes, como Campos. Um dos motivos
da intervenção das forças armadas para “garantir a tranqüilidade dos eleitores” também em
Campos é a existência de núcleos de bandidagem que operam como as milícias e o
narcotráfico carioca. Lá, como ficou evidente, é cada vez mais complicado para o Estado
ocupar e manter posição junto à comunidade periférica. Aqui, com esforço, disciplina e
vontade política, ainda se pode evitar o desastre. Como lembrava um sofrido morador da
favela carioca: “O Exército vem e vai embora. Nós ficamos e os bandidos também.”

Presidente da Fundenor e SindHnorte