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“ O PAI NATAL ALDRABOU A RAPAZIADA TODA “

by B.M.

Isto a vida, dá grandes voltas. Quem me diria a mim, que ainda havia de acabar como pintor.
Ou pelo menos, fazer carreira disso. E conseguir viver, da pintura. É certo que eu não sou, nem
nunca fui, um artista. E tudo isto, mais uma vez, não passa de um esquema. Mas resulta e dá-me de
comer e isso é que é importante. Quando penso que foi praticamente à custa do desenho que eu
acabei por fugir à escola, em miúdo, até me dá vontade de rir. É claro que também havia a
matemática e as ciências e a geografia e as putas das línguas. Eu não atinava mesmo com nada
daquela merda. Queria era vadiar. E foi o que fiz. Caguei de vez naquela porra toda. O meu velho
ficou furioso. Pudera. Já com o meu irmão mais velho se tinha passado a mesma coisa. Mas a gente
não tinha estofo para doutores. O gajo, pelo menos, ainda acabou o liceu. Agora eu, fiquei mesmo
pela metade. É uma porra, hoje em dia. Quem não tem estudos, está bem fodido. É o meu caso.
Já fui de tudo, na vida. Pescador, empregado de mesa, grelhador de peixe e frangos,
contrabandista, vadio. Sobretudo vadio. Agora sou pintor. De montras e de placas. Publicidade.
Nada de especial. Praticamente só faço letras e cozinheiros. Especializei-me nisso. Aparte as
campanhas de Natal. Mas para isso tenho moldes especiais, uns bestiais que a minha ex me mandou
de Espanha.
Durante uma data de anos não tive que me preocupar com a puta da sobrevivência. A minha
velha, que morreu cedo, coitada, deixou-me bem amanhado. A mim e ao cabrão do meu irmão.
Havia um monte de terras para vender. A merda é que nesse tempo, eu era um junkie do caraças. Por
isso não tardou muito a derreter aquela nota toda. O meu irmão não fez melhor. O vício dele era o
jogo. Acho que ainda conseguiu arruinar-se primeiro do que eu.
Só que o cabrão era mais refinado. Não sei como, apesar de todas as sacanagens que fez ao
velho, conseguiu sempre dar-lhe a volta e fazer as pazes com ele. Como daquela vez, ainda puto, em
que conseguiu convencer um otário qualquer a comprar a merda do elevador do prédio em que
vivíamos. Isto ainda em Lisboa. Dessa vez o velho até achou piada. Disse que o puto era levado da
breca. Já outra vez, em que o cabrão arranjou maneira de vender a firma, que era a menina dos olhos
do velho, mesmo com ele lá dentro, é que o gajo já não achou tanta graça. Não me lembra bem dos
detalhes. O velho tinha-lhe arranjado trabalho lá no escritório, para ver se o disciplinava e o
habituava a cumprir horários e a respeitar as hierarquias e as prioridades, o sentido das
responsabilidades e essas merdas todas. A principio tudo parecia correr bem. O velho andava todo
satisfeito. Já lhe tinha prometido uma mota nova e tudo. Só que às tantas, um dia, ao entrar no
escritório, encontrou lá dentro uma data de estranhos, alegando que a firma agora lhes pertencia a
eles e o melhor era o gajo ir tratando das bagagens e pôr-se rapidinho na alheta. Foda-se! Foi uma
puta de uma crise. Demorou uma data de semanas até o gajo conseguir reaver a posse do negócio,
em tribunal. Acho que teve de pagar quase o dobro da massa que o meu irmão tinha ganho com a
venda. Uma confusão do caraças. Expulsou o gajo de casa, disse que o ia deserdar e que nunca mais
lhe queria ver a puta da fronha, em dias da vida dele. Ia tendo um ataque de coração.
Pois nem demorou três meses, já o sacana era o menino querido dele, outra vez. Enquanto
eu, que nunca lhe fiz nem metade das sacanagens do outro, só por causa das drogas, nunca tive
direito a nada. Também nunca gramei do gajo. Nunca lhe dei confiança. Sempre tive a suspeita quer
ele é que tinha liquidado a velha. Não directamente, é claro. Era esperto demais para isso. Mas com
todas as filha da putices que lhe fez. Acabou com ela, através do sofrimento, da traição, da
punhalada nas costas, o cabrão. Chegava a levar as amantes lá para casa, nas barbas da velhota e
obrigava-a a servi-los à mesa. Nunca lhe hei de perdoar. E ele sabe-o. É por isso que também se
corta comigo.
Só uma vez é que se abriu comigo, já eu era um homem crescido. Havia anos já que eu tinha
abandonado a família. Já tinha rebentado com a herança toda que a velhota me deixara e tinham sido
um bué de terras. Mas, agarrado à merda do cavalo, tinha derretido aquela porra toda, em menos de
um ai, de maneiras que andava mesmo na merda. Como de costume. Foi a seguir a um verão em
beleza, em que tinha engatado uma espanhola altamente tesuda, na praia e tirei a barriga da miséria,
durante uma data de meses seguidos. Mas depois a gaja teve que se ir embora, lá para a terra dela e
eu voltei à vaca fria. Às vacas magras. Nem eu sei bem como é que me arranjei. Ia-me encostando a
um e a outro, uma banhada aqui, outra acolá. Uns dias sem nada para comer, outros sem sítio para
dormir. Uma porra pegada.
Não sei como, ao velho soou-lhe algo sobre a minha situação. Mandou-me uma mensagem
através de um cota qualquer conhecido, que veio ter comigo a um café e disse-me que o meu velho
pedia para eu passar lá pelo escritório, sem demora, que precisava de falar comigo. Eu fiquei logo
de pé atrás. O que é que o cabrão quereria desta vez. Daquele gajo não se podia esperar nada de
bom. Andei a ruminar naquilo, uma data de dias, sem me decidir. Até que finalmente, lá me mexi.
Ao fim ao cabo, não tinha nada a perder. Na merda andava eu. Mas também não me podia esquecer
que ele era capaz de tudo. Até já me tinha mandado prender.
Afinal tinha uma proposta de emprego, para mim. Estava a amolecer, o cabrão. Disse que
reconhecia que toda a vida me tinha tratado abaixo de cão, mas que era para eu aprender como a
vida custa. Ao fim ao cabo, não podia negar que eu era filho dele e eu já tinha mostrado a toda a
gente que era um duro de verdade. Da mesma massa que ele. Não vergava. Não pedia. não andava à
babuja. Não me humilhava. Tinha que reconhecer que eu era um homem. Estava disposto a dar-me a
mão. Se eu quisesse, começava a trabalhar lá no escritório, já a partir da semana seguinte. Ele já
tinha arranjado tudo com a secretária dele. Eu começava como paquete, de baixo, para aprender os
truques todos. Ele pagava-me um bom ordenado, superior às minhas actividades e
responsabilidades. Pagava-me também a alimentação e a dormida. Era só eu combinar com o dono
da pensão onde queria ficar, que ele encarregava-se do pagamento ao mês. Quanto à comida, ia
almoçar e jantar todos os dias ao restaurante de um amigo dele. Também já estava falado. Só faltava
passar por uma loja de roupas, de outro amigalhaço, na rua das lojas, para tratar de um novo guarda
roupa. Eu que escolhesse duas ou três mudas completas. Fatos tradicionais de homem de negócios.
Casacos, coletes, calças, roupa interior, peúgas e sapatos. Um bom sobretudo de inverno, cachecol e
luvas. A seguir tinha que tratar da boca. Não podia estar a trabalhar lá no escritório, com os dentes
naquela miséria. Eu que passasse no dentista, outro amigo dele, para combinarmos o processo.
Primeiro desvitalizar e arrancar as raízes e os podres. Em seguida a placa postiça. O cabrão tinha
pensado em tudo, era forçoso reconhecê-lo.
Até eu me começava a entusiasmar. O serviço não era nada de especial e se tudo corresse
bem, tarde ou cedo, vinha-me tudo parar às mãos. Eu era o herdeiro dele. Mais o outro, é claro. E os
filhos dele. Eu já tinha dois sobrinhos, ainda bem putos, que me adoravam. Mas vim a saber que
eles andavam outra vez de candeia às avessas. Devia ser por isso que o velho tinha tentado aquela
aproximação, tão inesperada. Era só uma questão de deixar correr o marfim. O gajo não estava a ir
para mais novo, antes pelo contrário. Embora fosse um velho rijo, que raras vezes tinha estado
doente na vida, começava a ter as suas mazelas e achaques, finalmente. Devia andar a pensar na sua
mortalidade, como mais cedo ou mais tarde acontece a todos. Queria deixar tudo tratado a tempo,
para não se deixar surpreender por nenhum imprevisto. Cá por mim tudo bem. Não era mais que a
obrigação dele.
Mas aquela merda não podia durar. Era bom demais para ser verdade. Parvo tinha sido eu,
em deixar-me embalar. Às tantas, por uma merda cagada, foi tudo ao ar. Uma manhã, sem mais nem
menos, chego ao escritório e tinha levado com o cartão vermelho. Expulso! Sem mais aquela. O
cabrão nem teve a coragem de dizer-mo ele mesmo, de caras. Mandou a secretária transmitir-me a
mensagem. A partir daquele momento estava dispensado do serviço, no escritório. Também podia
fazer as malas e abandonar a pensão e esquecer os morfes, no restaurante. Estava por minha conta,
de novo.
Tudo, vim a saber mais tarde, por uma questão de dor de corno, inveja, denúncia, sei lá. A
merda começou com os envenenamentos sistemáticos do tal kota, amigo dele, lá do restaurante. Que
eu levava constantemente os meus amigos, para almoçarem comigo e que não nos limitávamos ao
prato do dia. Comíamos grandes mariscadas e bebíamos do melhor, só vinhos de marca. Além disso,
mais que uma vez, já lhe tinha pedido dinheiro emprestado. Era verdade. Mas também era verdade
que sempre lhe tinha pago. E além disso, sempre lhe tinha pedido discrição. Sobretudo que ele
nunca comentasse tal facto com o velho. Para o que ele bem se esteve a cagar, filho da puta,
intriguista do cacete.
Mas a gota de água, tinha sido quando um tio meu, que era meio irmão do velho e trabalhava
numa farmácia, se tinha ido chibar a ele, que eu, tinha lá ido na véspera comprar uma embalagem de
seringas. E das grandes, das de dez unidades. Pronto! Nem quis falar comigo, saber os porquês, ou
se havia porquês. Se era para mim ou não. E por acaso, até não era. Era a merda de um favor que eu
estava a prestar a um gajo qualquer, meu conhecido. Nada! Não quis nem saber, o cabrão. Não me
perguntou se eu estava com problemas, se precisava de ajuda. Nem sequer exigiu que eu lhe
mostrasse os braços, para confirmar as suspeitas. Simplesmente expulso. Ali, na hora. Sem apelo,
nem agravo. Sem mesmo ser ouvido. Era assim mesmo, o sacana do meu velho. Lá estava porque eu
nunca tinha podido com ele. Ele que se fodesse, mais as suas aproximações, os rebates de
consciência, as pretensas ajudas, tardias e mal paridas.
É claro que fiquei na merda, dum momento para o outro. Era com isso que ele estava a
contar. Naturalmente pensava que eu me vinha arrastar aos seus pés, pedindo uma nova
oportunidade. Já tinha a obrigação de me conhecer melhor, filha da puta.
Não tardou nada, tive que meter-me em esquemas marados, novamente. Pequenas transas,
banhadas rasqueiras, filmes merdosos. Pouco tempo depois estava em cana novamente. Ninguém se
surpreendeu. Nem eu. A minha salvação foi a espanhola, que veio de lá desalvorada, assim que
soube. Fézada! Nunca pensei que fosse gaja pra isso. Nem que estivesse apaixonada por mim, a esse
ponto. Afinal não tinha passado de um mero engate de férias. Umas fodas malucas e pronto. É certo
que ela, antes de abalar, tinha-se fartado de fazer promessas. Mas um gajo já sabe como são estas
merdas. Uma vez lá longe, de volta à vidinha do costume e aos amigos de sempre – by, by Brasil!
Mas a gaja, não. Apareceu-me de repente na visita, carregada de merdas, comida,
guloseimas, tabaco. Até me trouxe uma pedra de hax, dissimulada nas cuecas. Uma mulher de
armas. Nunca esperei. Disse-me logo que não me preocupasse, que ia arranjar-me um bom
advogado e que todos os meses voltava a visitar-me. Disse-me que não podia ficar a tempo inteiro,
por causa do trabalho. E que se o meu velho não pagasse as despesas, ela encarregava-se disso. Ela
ganhava uma pipa de massa, naquilo que fazia. Era engenheira de luzes, para espectáculos. Tudo
computurizado. Bem tentou explicar-me em que consistia o seu trabalho, mas eu não percebi nada
daquela merda. Não importa. Exigiu-me ali mesmo, o endereço do velho, para ir fazer-lhe uma
visita e encostá-lo à parede. E foi, nesse mesmo dia.
Está na cara que ele desfez-se em amabilidades e rodriguinhos. Logo ele, que era um
putanheiro do caraças. Prometeu que sim senhor, encarregava-se de tudo. Era o que faltava, ela ter
de pagar alguma coisa. Não senhora, eu era filho dele, logo a responsabilidade era a si que lhe cabia.
Até a convidou para jantar. À luz das velas e tudo. Só faltou tentar saltar-lhe para a cueca. E não
deve ter sido por falta de vontade. Desse-lhe ela tempo e corda... Só quem não o conhecesse, filho
da puta. Careca, barrigudo, mesmo assim, sempre ao ataque. Tem velho que não se enxerga mesmo.
A moça voltou para a Espanha, descansada da vida. E muito bem impressionada com o
sacana do velho. Evidentemente quando voltou no mês seguinte, ainda ele não tinha mexido uma
palha. Nem viria a fazê-lo. Eu tirei-lhe logo as ilusões. Com aquele gajo, não havia que esperar
nada. Adiante. Não lhes vou contar aqui todos os episódios da minha cana. São sempre as mesmas
histórias. Como era um caso de merda, fui condenado a 24 meses. O advogado nem sequer apareceu
na sessão. E ainda a pobre da moça lhe queria pagar os honorários. Puta que o pariu!
Como já tinha cumprido mais de um ano em prisão preventiva, saí poucos meses depois do
julgamento. Foi uma festa. Tinha que compensar a garota de todas as despesas e sacrifícios. Acabei
por ir passar uma temporada a Espanha, na terra dela. Foi fixe. Mas ela, como todas as mulheres,
assim que a relação se tornou mais intensa e extensa, começou logo com as merdas que elas todas
padecem. Que eu tinha que trabalhar, que assim não podia ser, só comer e dormir, parecia um chulo
e tal. Com ela não e tal. Conseguiu arruinar a nossa relação. São todas as mesmas.
Cagando e andando... acabei por me vir embora. Além disso já estava farto da Espanha e dos
espanhóis. Raça fodida. Voltei à vidinha do costume, esquema aqui, transa acolá, uma ou outra
banhada, quando se proporcionava. Nestas merdas sempre tive sorte. Até parece que o dinheiro
vinha ter comigo a pedir – Rouba-me! Rouba-me! Leva-me contigo! – E eu cá, nunca fui de grandes
hesitações.
Às tantas estava eu descansado da vida, na minha velha casa, no meio do campo, sítio que
conservei durante mais de dez anos, com grandes ausências pelo meio, por causa das canas e tal,
mas como a renda era irrisória e o senhorio me curtia altamente, nem se preocupava quando eu
ficava seis ou mais meses sem lhe pagar a renda, nunca me arranjou chatices, nem jamais a
abandonei. Já sabia que quando eu voltasse, dava-lhe de vaia e punha tudo em dia, quase sempre
com uma gorjeta adicional, a modos de juros. Às tantas, dizia eu, apareceu-me assim de surpresa um
velho sócio com quem eu já tinha curtido outros carnavais, com um problema do caraças, a
perguntar se podia amalhar-se lá por uma temporada. Parece que tinha feito merda e precisava de
desaparecer da circulação durante uns tempos.
OK, cá por mim, tudo bem. Mal eu sabia, que por via daquela situação, a minha vida se ia
alterar de uma maneira que nunca me teria passado pela cabeça. A vida dá muitas voltas, é o que eu
sempre digo. É que, por causa dos impedimentos dele em relação à zona que a gente batia
habitualmente, tinha assim a cabeça a modos que a prémio, começamos a frequentar outras bandas.
Eu fazia-lhe companhia, porque cá comigo, aqui ou acolá, é-me igual ao litro. E como o gajo até era
um moço jeitoso, com as mãos, quero eu dizer, começamos a fazer uns serviços de publicidade, que
ele ia arranjando para a nossa sobrevivência. Não é que eu o pressionasse, mas ele sentia-se como
que na obrigação. Assim uma espécie de renda.
Era o ramo dele aliás, as artes gráficas. Eu cá nunca tinha ouvido falar naquela merda. Mas
quando me comecei a dar conta dos truques daquela cena, até curti altamente. Não é que eu tenha
jeito nenhum para desenho, mas depois dos traços estarem feitos, sou um barra no corte do
autocolante e no esponjar da tinta. Assim, fizemos uma espécie de sociedade. Ele tratava da parte
criativa, os leteringues e os logotipos, como ele lhes chamava, letras e bonecos, a maior parte
roubados de revistas, mas quando era preciso fazia ele mesmo os desenhos originais. O cabrão era
bom naquela merda. Sobretudo em retratos e caricaturas. Se eu tivesse o jeito que ele tinha pró
desenho, ganhava o dinheiro que queria. Mas ele andava sempre na merda. Era um preguiçoso do
caraças. Tinha de ser eu a puxar por ele, senão não se fazia a ponta de um corno. Deus só dá as
nozes a quem não tem dentes. Sempre foi assim, desde que o mundo é mundo.
Depois cobria-se o desenho com autocolante transparente e cortava-se por cima, com um X-
Acto bem afiado. Em seguida retirava-se o plástico, da zona que se pretendia pintar e com uma
esponja mergulhada em tinta da cor, dava-se por cima. Era uma papa. Se eu tivesse aprendido
aquela merda mais cedo, não tinha passado por metade dos problemas por que passei.
Acabei por me especializar nos cozinheiros. Quer em pinturas de montras, quer em placards
de madeira, para colocar à borda da estrada. Há sempre restaurantes a abrir em todo o lado,
sobretudo cá pelas nossas bandas, no Algarve, terra de turismo, pelo que aproveitei uma data de
desenhos originais que o meu sócio me ofereceu, mais outros que fui retirando de revistas e de
outros placards, bem como as letragens artísticas. Tenho uma série de abcedários originais, que fui
coleccionando ao longo do tempo. Também tenho uma data de desenhos específicos para diversos
tipos de negócios. Cafés, restaurantes, cervejarias, hamburguerias, pizzerias, sorveterias, talhos,
padarias, charcutarias, um mundo de ilustrações apropriadas a cada actividade. Uma espécie de
banco da imagem.
Outra das minhas especialidades são as montras de Natal. Para isso valho-me de uma série
de moldes que a minha ex me mandou, lá da Espanha. Isto porque há muita concorrência. Já muita
gente descobriu esta mina. Mas os meus bonecos são o máximo. Também, estou sempre a actualizá-
los. Todos os anos a gaja me manda novos padrões e figuras, para os moldes. É uma fézada. Só
meses depois é que eles chegam ao nosso mercado. Ando sempre uma temporada à frente da
concorrência. Também é trabalhoso pra caralho. Nada pinga à borla neste mundo. Por cada desenho
original que ela me envia, tenho que fazer diversas cópias em tamanhos diferentes. Depois passo-as
a papel químico sobre umas placas de PVC, meio rijas. Em seguida, tenho que recortar tudo em
negativo, com um cuidado do caraças, porque esses é que são os moldes definitivos, sobre os quais
irei aplicar a tinta ou, o mais das vezes, a neve carbónica.

II
Andava precisamente nessa fona do Natal, agora. Já tinha batido todo o Barlavento, onde
vivia ultimamente, depois de uns estrilhos, lá pela minha zona. Tinha abandonado de vez aquela
velha casa, no campo, depois da ultima cana. Fora demasiado prolongada e além disso, o kota que
ma alugava, tinha mudado muito também. Agora metera-se-lhe na cabeça o negócio do turismo
rural. E então, durante a minha ausência, tinha praticamente demolido a casa, para construir estúdios
T0 e T1. Adeus à minha bela solidão, o meu belo sossego. Quando apareci por lá, tinha uma data de
vizinhos camones. Putos loiros a berrar o dia inteiro. Puta que os pariu. Mandei aquela merda toda,
pró caralho. Mais onda menos onda, como vinha completamente teso, da puta da cana, não demorou
muito que fizesse merda outra vez. Tive que me por nas putas, durante uma temporada. Parecia que
me estava na massa do sangue.
De maneiras que mudei-me de armas e bagagens, lá prás bandas do Barlavento. Era uma
zona que eu conhecia bem. Já tinha abancado para aquelas bandas de outras vezes. E conhecia um
bué de gente. Estava em casa. Com o tempo, acabei por me dedicar quase a tempo inteiro, a essa
onda da publicidade. Os tais cozinheiros e os Pais Natais, na época própria. Tive que passar de
rajada por casa de um velho compincha, a recolher os materiais. Felizmente estava tudo em ordem.
Intocado. Tal como eu os tinha deixado, meses antes. Ao longo do Verão tinha-me orientado indo ao
mar, à pesca e ao marisco, durante a noite. Era arriscado, porque ia gamar as bivalves aos viveiros.
Estava sujeito a levar um tiro nos cornos, uma bela noite. Mas rendia uma boa nota. Tinha também
trabalhado uma temporada como grelhador, de peixe e frangos, no restaurante de um gajo
conhecido. Mas de inverno fazia demasiado frio para essas merdas, sobretudo as idas ao mar. De
modos que, depois de renovar o stock de desenhos, através da minha ex, que me enviava de
Barcelona as ultimas novidades, comecei a bater a vizinhança, para as decorações natalícias. Já
tinha uma reputação firmada, dos anos anteriores. Havia até clientes que só trabalhavam comigo.
Gostavam do meu trabalho, imagina. Quando por lá aparecia a concorrência, davam-lhes com os
pés, alegando que tinham um contrato fixo comigo. Fézada.
Porém, o mês de Novembro já ia no fim e aquela zona já estava toda batida, pelo que meti-
me no combóio e arranquei rumo ao Sotavento. A minha zona habitual. Já tinha passado o tempo
suficiente para as ondas acalmarem. Ninguém andava mais à minha procura. Já não tinha a cabeça a
prémio. São pequenos ódios que com o tempo, felizmente morrem. Nada de especial. Estórias de
transas e pequenas banhadas. Isto ainda não é o Brasil das favelas, em que os gajos se matam por
meia dúzia de pacoletes de droga. Aqui a onda é mais cool, felizmente. Com uns tabefes e uns
pontapés, uma marretada pelos cornos, nos piores casos, resolvem-se as merdas todas e se a cena for
mais grave, basta um gajo desaparecer durante uma temporada e quando resolve voltar, vem
mansinho, paga uns copos ao otário, oferece-lhe umas passas, não levanta ondas durante uns
tempos, pede-lhe desculpa e tal, dá-lhe algum guito para as mãos, enfim porta-se bem e tudo acaba
como deve ser. Não há por cá feras assassinas, nem a bófia consentia nesses bate fundos. Os gajos
têm o esquema todo controlado. Melhor assim.
Além disso eu não vinha fazer sombra a ninguém. Antes pelo contrário. Estava num negócio
legítimo, uma onda calma. No esquema das artes gráficas. Eu hein? Quem diria. O próprio do João
Honesto. Se o meu velho lhe desse o cheiro ainda tinha algum ataque. Como era de esperar, tudo
correu nos conformes. A clientela estava madura. Já estávamos em cima do Natal, de modos que era
chegar e andar. De resto os meus moldes eram excelentes e graças aos bons cuidados da Mara, a
minha ex, tinha bastantes originais, ainda nunca vistos por estas bandas. Como é evidente também
tinha um stock razoável dos anos anteriores, de bonecos já conhecidos, mas esses eram para os
clientes mais refilões. Aqueles que achavam sempre tudo muito caro. A esses, fazia-lhes um preço
mais em conta e comiam com o material velho. Os mais recentes eram para os bons clientes, aqueles
simpáticos, que davam uma boa gorjeta no fim e ainda ofereciam uns copos ou um petisco, durante
a função. Fartava-me de andar, cidade acima e abaixo, desde manhãzinha, com a puta da mochila às
costas. Era cansativo, mas ao fim do dia tinha uma nota preta no bolso. Até dava gosto. Todas as
noites me embebedava, para celebrar. E para ver se esquecia as putas de dores nos pés. Havia uma
data de tempo que não andava tão abonado.
Com o aproximar da ultima semana antes do Natal, o serviço começou a escassear. Era
normal. Já toda a gente estava servida. Além disso havia a concorrência. Eu não era o único a fazer
aquele tipo de serviço, embora modéstia aparte, as minhas montras fossem as mais bonitas. Já tinha
decidido que aquele seria o meu ultimo dia de pinturas, quando abordei um restaurante, que em
tempos fora uma casa de luxo, mas entretanto mudara de donos e actualmente estava mais
despretensioso. Ainda assim, era uma boa casa, ampla, bem decorada e com preços relativamente
elevados, como pude comprovar pelo menu, exposto à entrada, dentro de uma vitrine.
Fui atendido por uma senhora, já bem amadurecida, mas ainda bastante atraente e altamente
bem vestida. Já devia muito à maquilhagem, mas ainda era um mulherão. Expus-lhe ao que ia e ela
aceitou de imediato as minhas sugestões, toda sorridente e cheia de simpatia. Tinha uma voz quente
a que uma pronúncia estrangeira mal disfarçada, dava um toque de classe. Como era uma casa com
uma fachada estreita, só com uma montra não muito grande e uma porta de vidro, não dava muito
trabalho, pelo que, enquanto ia colocando os moldes e dando a neve por cima, fui entretendo a
madame com umas tangas à malander, a que ela correspondeu muito mais jovial do que eu esperara.
É evidente que eu iniciei a abordagem com o pretexto de mais serviço, sugerindo-lhe que ali à
entrada, o que ficava mesmo bem, era um dos meus cozinheiros, em tamanho natural, todo
sorridente e prestável, ofertando o menu, entre as mãos. A gaja foi bastante receptiva e perguntou se
eu tinha algumas fotografias de outros serviços anteriores, que lhe mostrasse e tal, para ver o efeito.
Ficou cativada por um exemplar que a Mara me enviara recentemente pelo ultimo correio, pelo que
não havia ainda nenhum semelhante na cidade, o que eu me apressei a frisar.
Conversa puxa conversa, entre piadas e lances sugestivos, apalavramos uma hipótese de
contrato para os próximos dias, logo a seguir ao Natal e no entrementes eu atrevi-me a dizer-lhe que
ela tinha uns olhos extraordinários, como fogo e que se não me desse uma pausa, jamais conseguiria
terminar aquele serviço, porque me sentia enfeitiçado. A gaja riu-se, lisonjeada e depois de mais
umas baladas semelhantes, acabou por se afastar lá para os fundos da casa.
Passado pouco tempo, tendo terminado os últimos detalhes e depois de limpar a montra,
dirigi-me ao interior, para fazer a cobrança e ver no que é que aquilo dava. É claro que não esperava
nada, além de uma cervejinha à borla e mais um papo furado. Mas a mulher estava toda acesa e
pelos vistos eu tinha-lhe caído no goto, porque assim que me aproximei, ela mandou a empregada
dar uma volta, com instruções expressas de se demorar um bocado e toda sorridente, tipo tubaroa,
convidou-me a conhecer as instalações, depois de me por um copázio de whisque nas unhas.
Reparei que a empregada, ao sair, fechara a porta, discretamente, após uma piscadela de olho, à
patroa. Aquilo prometia, mano. Até porque eu já não dava uma foda havia bué de tempo.
Ela, de resto, foi explicita. Mal me apanhou nos fundos, dentro da cozinha, atacou de
imediato. Encostou-me à porta da geleira, prendeu-me os pulsos ao alto e começou a morder-me os
lábios. Bifa do cacete. Fiquei logo de pau feito. Então ela, descendo lentamente, começou a beijar-
me o pescoço e desfraldando-me todo, muito louca, sorveu-me os mamilos, enfiou-me a língua no
umbigo, até sacar o marzapo para fora e engoli-lo todo. Aí, já eu estava desvairado. Completamente.
Atirei ao chão uma data de tralha e estendi-a ao comprido sobre uma das mesas enormes, de
alumínio. Puxei-lhe as cuecas para baixo e subindo-lhe o vestido até ao pescoço, beijei-lhe as
mamas, enquanto ela gemia e resfolgava meio pocessa e então, sem mais, enfiei-lho todo até às
bordas. Comi-a loucamente, pela frente e por trás, rebolando-a entre as mãos suadas, por entre
mordidas, unhadas, grunhidos, lambidelas e beijos. Estávamos como loucos, os dois. Ela ainda mais
que eu. Estava insaciável, a puta. Veio-se meia dúzia de vezes. Eu, à terceira já estava arrumado. Já
não tinha esporra nenhuma. Vim-me em seco.
Mais tarde, já serenados, enquanto fumávamos o cigarro da praxe, ela confidenciou-me que
era viúva, havia já alguns anos e que por via disso, andava louca de insatisfação, dado que não se
podia arriscar a dar grandes baldas, naquela terra de caretas e más línguas. Tinha que satisfazer-se
ocasionalmente, assim com uns outsiders de passagem, como eu. Disse também que tinha quarenta e
cinco anos, mas que quanto mais tempo passava e se sentia envelhecer, mais louca se sentia por
dentro e que quanto mais fodia, mais gostoso lhe sabia. Não duvidei, embora qualquer coisa me
dissesse que ela mentia, quanto à idade. Não que parecesse velha, antes pelo contrário. Via-se que
era uma mulher madura, mas ainda estava muito atraente e pronta a rebentar com muita cueca.
Devia ter sido extraordinária, na juventude. Disse-lho, com sinceridade e reparei que ela gostou.
Antes de nos vestirmos, voltei a comê-la, por insistência dela, que eu como disse, estava
arrumado. Também já não sou nenhum chaval e ao contrário dela, conquanto goste de foder, não sou
nenhum taradão desvairado. Mas também, não ia fazer má figura. E além disso, havia de facto uma
data de tempo que não provava fruta daquela, pelo que também não foi nenhum sacrifício por aí
além.
Ela então, ficou tão satisfeita, que logo ali me fez uma proposta mirabolante. Pretendia que,
durante a semana que ainda faltava para o Natal, eu ficasse à porta do restaurante, vestido de Pai
Natal, dando as boas vindas e atraindo clientes para a casa. Prometia pagar uma boa nota, para lá da
alimentação e gorjetas incluídas. Além disso deixou perceber que durante aquele período teria
direito a cama grátis. Farra todas as noites. É evidente que aceitei. Nunca os meus planos de Natal,
escassos e inexistentes, jamais se aproximariam, nem de longe, daquele paraíso.
Mas como todos sabemos, o paraíso além de grandioso, é íngreme, como acho que afirmou
um grande escritor qualquer, em tempos.
Vai daí, logo no dia seguinte corremos as lojas todas de trezentos e outras, à procura do
vestuário apropriado e restante aparato, um grande saco para encher de caixas vazias, muito bem
embrulhadas com vistosos papéis e laços, a fingir de prendas, com meia dúzia de bugigangas para
dar aos putos, balões, guizos, sinetas, sprays de neve e mais uma data de merdas, que a mim nunca
haviam de me passar pela cabeça. Ainda bem que a gaja se encarregou de tudo. Também ela é que
era a patroa. De maneira que comecei a trabalhar, logo nessa noite.
Parecia um daqueles Papais Noel do Exercito de Salvação, como se vê nos filmes de
Hollywood, com uma barriga postiça feita com uma almofada, uma barba falsa de algodão, um fato
completo todo vermelho e branco, luvas e uma sineta enorme na mão. Só tinha que estar para ali ao
frio, a sorrir para as pessoas, enquanto agitava a sineta e dando uma gargalhada teatral, convidá-las a
entrar e a experimentarem as nossas especialidades da época. A coisa aparentemente resultou,
porque ninguém da concorrência se lembrou de nada semelhante, de maneira que tínhamos a casa
cheia, todos os dias. As famílias ficavam bestialmente sensibilizadas com a simpatia do Pai Natal,
que fazia uma festinha às crianças todas e lhes oferecia um balão e uma prendazinha insignificante à
entrada, de modos que não se esqueciam à saída, presenteando-me quase sempre com uma gorjeta
bem superior ao valor da merda da prenda. Maravilha!
Além disso forrava a barriga, a verdadeira, do bom e do melhor, para lá do forrobodó
nocturno. É que a viúva estava mesmo numa de tirar a barriga de misérias e pelos vistos, havia
mesmo uma data de tempo que não apanhava um homem de jeito na cama.
E depois eu não podia deixar de reparar na facturação. É que aquela gente não era nada
meiga nos preços. Ao fim do dia, as caixas registadoras estavam atafulhadas de notas. E só das
gordas. Ainda por cima a patroa, alucinada como andava com o nosso namoro, esquecia-se
frequentemente de fazer os depósitos nocturnos, deixando no interior do restaurante a féria de dois e
três dias seguidos, naquela ansiedade de subir ao andar superior e começar a despir-me. Apercebi-
me daquela cena, meramente por acaso, ao abrir uma gaveta, à procura de guardanapos de papel e
dei com um fardão de notas, que até metia respeito. É claro que me abotoei logo a uma data delas.
Num monte daqueles, não haviam de dar por falta de uma dúzia. Nos dias seguintes nem consegui
dormir descansado. Levantava-me pé ante pé, à noite, depois da velha começar a ressonar,
completamente arrasada com o sexo violento que eu lhe proporcionava, só para confirmar se a
massa ainda lá estava, dentro da gaveta. E estava. Noites seguidas.
Na minha cabeça começou a germinar um plano maquiavélico, ou lá como se diz. Depois
daquele gozo todo que eu estava a ofertar à kota, nada era mais justo que ela me oferecer em
contrapartida aquele jeitoso montinho de dinheiro. Seriam as minhas boas festas. E eu achava que
bem as merecia. Não quis contudo levantar a lebre, pedindo-lhas. Já me apercebera que ela, sendo
uma gaja porreira e até uma mãos largas nalgumas coisas, sobretudo quando se referiam à minha
pessoa, era bestialmente forreta noutras. Não quis correr o risco de alertar a mulher, até porque em
conversa com uma das empregadas, confirmei que a gaja tinha mesmo o costume de depositar todas
as noites, ou quanto muito dia sim, dia não, o produto da facturação do dia, num daqueles
cofrezinhos de metal que os próprios bancos ofereciam aos bons clientes, como ela. Se ela se andava
a descuidar ultimamente, só podia ser mesmo porque andava de cabeça virada com aqueles grandes
fodões, que eu lhe dava. Ora então, nada mais justo que eu receber a minha paga.
Assim, dia após dia, lentamente fui congeminando o meu plano, durante aquela semana.
Puxou-me ao corpinho, mas acabou por render e dar certo. Andava arrasado e com umas olheiras do
caralho, mas tinha que aguentar. Todas as noites ia conferir o meu pecúlio, que não parava de
crescer. Subrepticiamente ia sacando algumas notas, sempre que lá ia, não fosse o diabo tecê-las. Já
tinha pesadelos no género de que a gaja, precisamente na véspera da minha partida, resolvia
depositar a nota toda. Não seria aquilo uma espécie de teste? A minha cabeça fervia, à pala daquela
merda.
Mas finalmente aproximava-se a véspera de Natal e o término do meu contrato. Também me
apercebi que o tesão da gaja, aquele fogo que a consumia a principio, lentamente ia diminuindo e o
tédio começava a dominá-la. Felizmente andava tão ocupada com o serviço que não tinha mãos a
medir. Eu é que não me podia perder. Alguma coisa me dizia que se queria safar a canita, tinha que
agir naquela noite.
Se bem pensei, melhor o fiz. Antes de mais, fartei-me de enfardar todo o tipo de comida,
mas sobretudo doces e chocolates, para à noite poder dar o rendimento pleno, na cama. Ela
felizmente estava estafada, conforme me confidenciou e o próprio stress daquela semana alucinante,
começava a cobrar os seus juros. Mal caiu na cama, após a primeira foda, virou-se para o lado e
começou a ressonar. Era um costume que me irritava, na gaja. Já mais que uma vez, a meio da noite,
tivera que me conter para não lhe apertar o gasganete. E agora, palavra de honra, era mesmo o que
me estava a apetecer. Mas, foda-se, não ia deitar a perder o meu belo plano, só para fazer o gosto ao
dedo. Ela que se fodesse.
Durante a tarde, na hora da minha folga, entre o almoço e a mise en place para a refeição da
noite, aproveitara discretamente para preparar a minha trouxa. Retirei portanto o saco de viagem do
armário onde o colocara, após vestir-me à pressa, sempre na paranóia que ela acordasse de repente e
eu me visse mesmo obrigado a apertar-lhe o papo e desci silenciosamente as escadas que ligavam a
habitação, ao restaurante. Até aqui, tudo bem. Levava um fox para me orientar no escuro, se bem
que a luz que entrava de fora, pela janela fosse mais que suficiente, como já comprovara nas noites
anteriores. Mas eu não queria que hoje nada falhasse, por um qualquer descuido ou falta de atenção.
Tinha passado a puta da semana toda a partir a cabeça com a merda daquele plano e nada ia privar-
me do seu sucesso. Pensava eu...
A foda foi que quando abri a gaveta onde era suposto a narta estar e sempre tinha estado, até
a véspera, dei com os burros na água. A puta da gaveta estava vazia. Isto é, vazia não estava.
Estavam lá dentro as bugigangas do costume. Lápis, clippes, papeladas, elásticos velhos, punaises,
cotão, eu sei lá que mais. Dinheiro é que nem vê-lo. Nem a sombra dele. Foda-se!
- Foda-se! – gritei em voz alta, todo frustrado. E sem me conseguir controlar comecei a
deitar merdas ao chão, na minha frustração. A principio coisas inofensivas e silenciosas, género
guardanapos e apliques de plástico, mas não tardaram nada a ir-lhe atrás pratos, copos e cadeiras
pelo ar. Foda-se! que eu já estava por tudo.
De repente acendeu-se a luz de cima e o vulto dela recortou-se ao cimo das escadas, toda
descabelada e apenas em camisa de noite.
- Credo! – exclamou a gaja: - Assustaste-me!
- Venha cá sua puta velha! – gritei eu desvairado, enquanto galgava as escadas, caminho
dela.
- O que foi? – exclamou ela, em pânico, quando lhe joguei as unhas.
- Eu já te digo o que é que foi, sua cróia! Onde é que está a puta da massa?
- A massa? Qual massa? – fingia ela que não percebia, enquanto eu a abanava com violência.
- Vá lá, descose-te! Não me obrigues a magoar-te, sua vacarrona! – ameacei, levantando-lhe
a mão.
Ela ainda não se tinha apercebido bem o que lhe estava a acontecer. Olhava-me
estupidamente, como quem espera acordar de repente, de um pesadelo. Abanei-a mais, à bruta e
descarreguei-lhe duas lambadas na fronha, para ela acordar. Empurrei-a contra a parede e
prendendo-lhe os pulsos, ameacei:
- Se não me dizes onde está o dinheiro já, mato-te! – e apertei-lhe as goelas, com a mão
direita. Ela estrebuchou um bocado, mas os seus olhos revelaram-me que finalmente estava no
ponto. Finalmente cedia ao pânico. Começou a tremer toda, de cima abaixo. Larguei-lhe o pescoço e
levantei a mão, com um ar desvairado, de louco. Ela encolheu-se receosa e sem voz, começou a
gesticular na direcção do quarto.
- Quê? O que se passa lá dentro? – indaguei com voz rouca: - Refundiste a nota no quarto?
Foi isso? Responde! – e desatei a abaná-la com violência redobrada.
- Ssim. – murmurou ela, quase sem voz.
- Onde? Diz-me, sua vaca velha! – e arrastei-a comigo, lá para dentro. Ela era uma pluma
nas minhas mãos.
- Por favor... – implorou: – Não me faças mal...
- Não tenhas medo – respondi: - Eu só quero o dinheiro. Não sou nenhum assassino. O que é
que pensas?
Mas cá por dentro, um suor frio começava a escorrer-me gelidamente, espinha abaixo.
Lembrava-me que já tinha um longo cadastro e que aquela velha, podia foder-me a puta da vida
toda, se quisesse. E era mais que certo. A gaja não ia calar-se depois da porrada que eu lhe dera e do
taco que lhe ia fanar. Ninguém o faria. Bastava ir à bófia e assim que os gajos lhes mostrassem as
fotos do arquivo, era só apontar para a minha. Aquilo era a sentença dela, infelizmente. Não era
nada do que eu tinha planeado, mas não via outra solução. Eu é que não ia comer uma data de anos
de cana, à pala de meia dúzia de patacas, que mal davam para umas férias de jeito. Estava bem
fodido. Se eu pudesse evitar que a gaja cantasse, mantendo-a viva... mas como?
Com um safanão atirei-a para cima da cama e ameaçando-a de dedo em riste e um olhar
assassino - Fica quieta! - comecei a vasculhar as gavetas todas. Estava a perder tempo demais para o
meu gosto, mas finalmente quando já começava desesperar, os meus dedos encontram uma bolsa
grande de pele, no meio de uma data de roupa velha, mesmo na ultima gaveta e tive o palpite
imediato que só podia ser aquela merda. E era, de facto, como comprovei assim que a abri. Os
maços de notas reluziam, muito bem acamadinhos. O coração começou logo a bater-me no peito, à
força toda.
Entretanto tinha-me distraído com a puta da velha e quando dei por ela, já a cabrona ia toda
ronceira a meio do corredor, a caminho do telefone. Fiquei tão fodido, que ali mesmo dei-lhe uma
tal cabeçada na mona, que a gaja descaiu logo, direitinha para o chão, sem um piu. Caralho! Não
estava à espera daquela merda. Como é que eu ia fazer agora? Tive que improvisar. Peguei nela em
peso e corri de novo ao quarto. Depositei-a sobre a cama e certificando-me que estava bem
adormecida e com respiração regular, dei uma arrumadela rápida no quarto. Depois fui à casa de
banho e pegando num frasco de cosmético, espalhei-lhe uma data daquela merda na cara e na testa,
rezando para que fosse o suficiente para disfarçar o cabrão do galo, devido à cabeçada. Em seguida
percorri a casa toda, abrindo tudo o que era torneira de gás, desde o fogão da cozinha, ao
esquentador na casa de banho, aos radiadores todos, que eram centralizados, felizmente. Com um
bocado de sorte, a gaja ia desta para melhor, sem dar por ela e a bófia havia de pensar que era um
suicídio, o que nesta época do ano era mais ou menos banal.
Já ia nas escadas, caminho da saída para me por nas putas, quando tive uma daquelas ideias,
tipo luminosas. Corri à cozinha, peguei num saco de plástico, desses transparentes de super mercado
e voltando a subir ao quarto, enfiei-lho pela cabeça, apertando bem no pescoço, para não deixar
entrar ar nenhum. Era mais uma segurança e por outro lado, dava mais verosimilhança à teoria do
suicídio. Foi um esquema que aprendi num filme, na TV. Depois digam que aquela merda não
instrói. Antes de me raspar, ainda passei com um lenço sobre todas as superfícies que me lembrei.
Era uma porra se encontrassem impressões digitais minhas. E com o cadastro que eu tinha, não me
podia arriscar a deixar nem uma.
De qualquer maneira não podia perder mais tempo. Tinha que me pôr nas putas de imediato
e pôr entre mim e esta cidade o maior número de quilómetros possível. Com sorte também, mesmo
que houvesse um inquérito, ninguém naquelas bandas sabia quem eu era e mesmo que algum dos
empregados desse com a língua nos dentes, relacionando-me com aquele infeliz episódio, ninguém
saberia onde procurar-me, nem como identificar o tal pintor que estivera a fazer de Pai Natal,
durante uma semana, à porta do estabelecimento. Havia alguns buracos no meio daquele plano todo
concerteza, mas nem eu os conseguia descobrir, nem era nada que eu pudesse remediar, portanto o
melhor era raspar-me já e pôr fé em Deus, que tudo haveria de correr pelo melhor.
Dirigi-me de imediato a casa de um velho compincha meu, que possuía automóvel e a quem
já contara uma história convincente, uns dias antes, alegando ter que ausentar-me em breve da terra,
para ir buscar umas merdas imprescindíveis lá no Barlavento, cravando-lhe logo de antemão uma
boleia, a troco da gasolina paga e uns troços de haxixe, que ele apreciava bué e eu felizmente tinha
uma pequena reserva de boa qualidade. Nem precisou de muita conversa. Bastou enrolar um charro,
dizer-lhe que tinha de arrancar imediatamente e ala que se faz tarde.

Zé Varrasco e João Honesto seguiam a boa velocidade dentro Renault 5 Turbo Diesel,
pertencente ao primeiro e que ele mesmo conduzia. Era uma via rápida de duas pistas, com um
separador de cimento não muito alto, mas suficientemente largo entre ambas, para que um pedestre
pudesse aguardar sobre ela, uma aberta no trânsito, que lhe permitisse atravessar a estrada, em
segurança.
Não era propriamente uma grande amizade aquilo que os unia. Mais precisamente, uma
comunhão de interesses. Alguns vícios em comum. Algumas cumplicidades no passado.
Zé Varrasco era conhecido entre aqueles que se podiam considerar os seus íntimos, como o
gajo mais neurótico, o mais paranóico da cidade. Entre risos e trejeitos cínicos, comentavam que a
cocaína lhe tinha dado cabo dos cornos. Tinha a mania da perseguição, uma psicose aguda, a
obsessão da bófia. Mal dava umas passas naquela merda, começava a ver polícias por todo o lado, a
ouvir coisas esquisitas. A maior parte da malta evitava já ir fumar com ele, para casa, porque o gajo
mal dava dois bafos, começava logo com os tiques, a mandar calá-los e fazer pouco barulho com as
pratas. Com os olhos desorbitados, a mastigar em seco, todo aflito, punha-se a escutar às paredes,
com o auxilio de um copo, ou então ficava pregado à porta da rua, a espreitar pelo óculo, às escuras,
às vezes, por mais de uma hora. E entretanto tinha que estar tudo em silencio, quase sem respirar.
Outras vezes metia-se-lhe a paranóia nos cornos, que os GOIS (tropas especiais de assalto), no
género das SWAT americanas, vinham a descer pelas paredes exteriores do prédio, feitos aranhiços,
pendurados por cordas de aço, desde a varanda, para lhe entrarem pela janela adentro. Quando
estava sob o efeito da droga, não reconhecia o desproporcionado daquelas reacções. Tomava-se pelo
Al Capone dos pobrezinhos. Não via que a bófia tinha bem mais que fazer, do que andar a perseguir
com todos os meios à disposição, um bardamerdas qualquer que não tinha onde cair morto, nem
sequer era representativo no mapa dos grandes criminosos do país, nem sequer da província. Não
passava de um Zé Ninguém. Mais tarde, se lho explicassem tim tim por tim tim, com alguma
paciência e lógica, acabava por reconhecê-lo. Mas isso era só até à próxima vez. Aí, voltava tudo a
repetir-se. Os ruídos, as alucinações, os tiques todos. A maior parte da malta, levava aquilo para o
gozo. Isso deixava-o furioso.
Estas merdas tinham as suas causas, evidentemente. Mas estavam enterradas muito fundo,
no seu subconsciente. Talvez tivessem a ver com o facto de ter sofrido uma cana prolongada, muito
prematuramente e com a sua opção de vida consequente, em virtude da má escola que lá tinha
aprendido. Tinha-se convertido num assaltante de residências bastante dotado. Também de viaturas.
Não havia fechadura que tivesse segredos para ele. O seu único desafio eram os cofres fortes. Nessa
especialidade, ainda tinha que se licenciar. Quanto a tudo o resto, era uma papa. Preferia o método
do assalto fantasma, às casas vazias, sem vítimas, nem testemunhas incómodas. A sua assinatura,
infelizmente, já referenciada pela bófia, era a mania de retirar os canhões às fechaduras das portas,
com um alicate de grifos. De maneira que sempre que havia um assalto na cidade, com aquelas
características, o primeiro gajo a ser apertado pela bófia, era o Zé Varrasco. Era uma bela merda.
Mas ele tinha a sua ética. Só extorquia dinheiro, ouro e jóias. E sobretudo, evitava sempre o uso da
violência. Tinha-se na conta de um verdadeiro profissional.
O João Honesto, pelo seu lado, era considerado entre os amigos como um dos gajos mais
aldrabões da cidade. Era relativamente inofensivo. Gostava era de copos e de histórias. Era também
um bocado cleptómano. O tipo de pessoa, incapaz de entrar em qualquer sítio, que não roubasse
algum dinheiro. Só se não o encontrasse. Já queimara algumas velhas, verdadeiras amizades, por
motivos ridículos, gamanços irrisórios. Isso, porque na maioria das vezes, quase em exclusividade,
só roubava os amigos, os velhos conhecidos, malta com quem mantinha relações de à vontade. Era
um bocado medroso. Evitava meter-se em grandes merdas. O seu processo preferido era fazer as
razias das carteiras que se encontravam dentro das malas das mulheres ou dos sobretudos dos
homens, aquando de grandes festas e concentrações colectivas, em casa de algum amigo comum.
Também espreitava dentro das viaturas que estivessem abertas, jogando a mão indiscriminadamente
a tudo o que desse jeito e fosse fácil de converter em dinheiro. Este método, sem ser muito rendoso,
era contudo de difícil, quase impossível, identificação do culpado.
Havia muito tempo que se habituara a viver com pouco. Desde que rebentara estupidamente
com os proventos da herança materna. Agora havia que ter paciência. Quando o velho lerpásse,
receberia uma bolada. Se aquele sacana do Pedro, o irmão, não tentasse logo fode-lo, como de
costume. Não seria a primeira vez. Sempre que tivera oportunidade, o cabrão tinha-o enrolado,
aldrabado, dado-lhe a banhada, sem piedade nenhuma. Mas a pior de todas tinha sido daquela vez,
em que à pala de uma indiscrição sua, o cabrão tinha aparecido em casa desse seu velho amigo, o tal
das artes gráficas, na companhia de um gajo da Judiciária, à sua procura, numa de dar-lhe a cana.
Nem mais. Só para vingar-se de uma pequena falcatrua, de vinte ou trinta contos, uma banhada
cagada que ele lhe tinha dado com a merda de um cheque. O próprio mano.
Esse tal sócio, por essa época, tinha dado uma golpada de mestre, mais um outro, verdadeiro
artista do gamanço, numa espécie de museu particular que ficava no meio das brenhas. Era uma
coisa mesmo em grande, porque a tal casa tinha um acervo raríssimo, sobretudo de peças em talha,
de arte sacra, que nem mesmo os museus oficiais, da especialidade, possuíam. Ainda que particular
e escassamente conhecido, para além dos especialistas do ramo, esse dito museu era considerado
património mundial, pela raridade e elevadíssima qualidade de muitas das suas peças, algumas
delas, modelos únicos, sem paralelo. Havia muito que o estado e “n” entidades particulares, de
nomeada internacional, andavam na cola daquela colecção, mas o proprietário, um velho excêntrico,
maníaco e cheio de tiques, tinha-lhes dado o nega a todos, a pontos de nem sequer ter segurado a
maioria das peças. Uma verdadeira loucura, em termos de segurança. Mas que se podia fazer, se ele
era o proprietário legítimo?
De maneiras que a bófia, andava em pé de guerra, sem saber para onde se virar. É que o
golpe, tendo sido efectuado aparentemente por amadores, revestia-se de características que
revelavam a eficácia e a sobriedade dos verdadeiros profissionais. Sobretudo porque se tinham
resumido a retirar apenas algumas peças, aleatoriamente, como que escolhidas a dedo. Como se por
encomenda. O que até talvez fosse o caso. A bófia não podia negligenciar nenhuma hipótese. Mas
na verdade andavam à nora. Até porque não tinham especialistas naquela matéria. De modos que a
polícia não sabia para onde se virar. Já tinham virado tudo do avesso, prendido os suspeitos do
costume, apertado com a chibaria toda e nada. Ninguém se descosia. Ninguém sabia nada. Um zero
absoluto. Horizonte sem pontos de fuga, planície sem buracos. Nenhuma porta aberta, nenhuma
hipótese, nenhuma suspeita. Estavam mesmo num beco sem saída.
Entretanto João Honesto, que se tinha zangado com Mara e estava farto de Espanha até à
medula, tendo chegado à cidade mesmo na véspera, dá de caras ao virar de uma esquina,
absolutamente por acaso, com o seu velho amigo Joe Graffiti. Uma daquelas merdas... Grandes
abraços e muitos copos e gargalhadas e velhas histórias depois, tinham ido fumar uma boga de um
chocolate verdadeiramente especial, que João Honesto fez questão de representar, para a garagem
do Graffiti, que era ali pertinho. E como a cena estava bué de fixe, decidiram dar um bacalhau de
cavalo, desta vez a convite do dono da casa. Ora, enquanto o amigo se ausentava, para ir buscar um
limão e uma garrafa de água ao frigorífico, no interior da casa, João Honesto, por simples
curiosidade levantou uma lona enorme que cobria uma série de caixotes, que por ali estavam
espalhados a esmo e ele não se recordava de ver ali, a ultima vez que lá tinha estado. Era um sacana
bué de curioso, aquele caralho. Mais uma vez, sem nada que ver com nada estava em vias de se
meter numa data de sarilhos, pela mania que tinha de meter o nariz, onde não era chamado. Mas
essa era uma das suas principais características, um dos seus maiores defeitos, na opinião de Joe
Graffiti. Mas este estava lá dentro e portanto na ignorância daquele simples gesto, que tantas
consequências viria a desencadear. Qual não foi a sua surpresa, ao verificar que estavam cheios até à
borda, de artefactos valiosos. Jóias, moedas, ouro, estatuetas em talha dourada, loiças antigas, telas
enroladas, um não acabar de peças valiosas, que ele viu logo que só podiam ter por origem, uma
grande golpada. É claro que assim que o amigo voltou, começou logo a querer tirar nabos da púcara.
Mas este, ao contrário do habitual, ficou muito chateado com ele. Mesmo muito chateado, a pontos
de ameaçá-lo, de exigir-lhe silencio total e fechou-se completamente em copas, dando a entender
que aquele assunto era muito sério e que não se podia abrir e que o melhor para todos era zarparem
já dali e ele esquecer o que tinha visto, se prezava a saúde e o corpinho. Foi-lhe logo dizendo que
aquela merda ia sair dali nessa mesma noite e que se ali estava era simplesmente porque alguém,
que ele não conhecia nem lhe interessava conhecer, e muito sobretudo, por quem não lhe interessava
mesmo vir a ser conhecido, lhe tinha pedido um favor muito especial, que ele não podia mesmo
recusar. Por pouco nem tinham dado o caldo, nem nada, tal foi a paranóia em que o outro gajo ficou.
É evidente que tudo aquilo soou muito suspeito a João Honesto, que logo no dia seguinte tratou de
se informar discretamente do que é que se tinha passado ultimamente nas redondezas, durante a sua
ausência e assim que ouviu falar no tal furto do museu, cuja resolução andava a partir a cabeça à
bófia toda, viu logo onde é que estava.
Porém decidiu deixar o assunto em banho maria até ver no que é que aquela merda dava. A
reacção do seu amigo fora muito invulgar, denotando muita paranóia e até um certo pânico, que não
era nada seu costume. Devia andar metido com uma maralha perigosa. Aquilo aguçou-lhe o apetite e
a ganância. Até porque tinha chegado praticamente na tesúria, corrido uma vez mais de Barcelona
pela sua bela namorada espanhola, farta das suas partes, dos seus golpes, das suas mentiras. Putas do
caralho, todas iguais.
Casualmente decidiu-se a visitar o mano, poucos dias depois. Havia “n” tempo que não via
aquele sacana, nem os cabrões dos putos. Já deviam estar bué de crescidos. O cabrão não fez
nenhuma festa quando o viu. A mulher então, pôs logo umas trombas, que até parecia que estava
com medo que ele lhe raptasse os putos. E se calhar estava mesmo. Só os miúdos é que
manifestaram genuína alegria em vê-lo. E venham depois falar da família. Finalmente lá acederam
em convidá-lo para jantar. Ajudado pelo vinho, que lá em casa era sempre de qualidade e graças às
velhas histórias da cana e outras, o ambiente acabou por se distender finalmente e ainda se passaram
uns bons momentos, entremeados de francas gargalhadas. O seu irmão, no fundo, não era mau gajo
e quando se dispunha a isso, até podia ser um bom camarada. Já a mulher era uma boa cróia. De
qualquer dos modos, aproveitando uma das pausas em que a gaja se ausentara da mesa, a pretexto
de deitar os putos e preparar os cafés, João Honesto aproveitara para enfiar a farpa e convencera o
irmão a trocar-lhe a merda de um cheque, à revelia da mulher, evidentemente.

Também tinha uma espécie de estrelinha da sorte, ou anjo da guarda ou lá o que fosse. Com
efeito, sempre que se encontrava verdadeiramente na merda, mesmo no fim da linha, quase a passar
fome ou algo no género, surgia sempre qualquer oportunidade inesperada, que lhe permitia encher
os bolsos ou lhe aparecia um desconhecido benfeitor que engraçava com ele, de um momento para o
outro. Pelo menos, sempre tinha sido assim, até ao presente. Como desta vez, com a puta da velha
bifa, ou daquela outra em que se tinha enfiado em desespero dentro de um comboio em andamento,
sem mesmo saber qual era o seu destino, para escapar a uma perseguição e uma carga de porrada
que tinha mais que certa e quando chegou ao fim da linha, cheio de fome e desespero, assim que
saiu da carruagem, mal tinha dado dois trôpegos passos, ainda a esfregar os olhos do sono mal
dormido, sentiu um remoinho de vento e não é que a merda do papel solto que se lhe colou à cara,
era uma nota de dois contos? Não tinha portanto razões para duvidar, que a tal estrelinha o
bafejasse, como sempre. Ao contrário do seu companheiro, era um gajo com fé no destino.

Rodavam sem conversar, com o rádio no máximo. João Honesto ia, de olhos em baixo,
entretido a enrolar um charro. Por isso, quando o outro travou de repente com grande chiadeira de
travões, por pouco não deixava cair tudo, no colo, à pala do solavanco. Só não foi com os cornos ao
vidro, porque o outro se tinha fartado de insistir com ele, para apertar o cinto de segurança.
- Que é que se passa? – indagou surpreendido.
- Espera aí que já vais ver – respondeu Zé Varrasco, abrindo a porta e saindo do carro,
precipitadamente. Quase sem olhar para os lados, ziguezagueou entre o trânsito, dirigindo-se para
um velha carrinha Wolkswagen, daquelas “combies” antigas, que estava caída para a berma, do
outro lado da estrada. Um pequeno grupo de gajos escuros, tipo monhés ou marroquinos, rodeavam-
no, no meio de grande alarido e gesticulação. O mais curioso porém, era que o carro estava virado
no sentido contrário ao trânsito. Como se os gajos fossem a conduzir em contra mão, antes de serem
abalroados e cuspidos para a valeta. Bastante sorte tinham eles tido, porque se circulassem deste
lado da estrada e lhes acontecesse algo semelhante, teriam sido cuspidos para a falésia a pique, um
abismo de mais de cinquenta metros, sem mais protecção que uma irrisória chapa de lata, um fio de
espaguete metálico, que só servia para vista. Não havia mais nenhum veículo parado nas
imediações. Portanto não deviam ter chocado contra ninguém. Também não se via bófia nas
proximidades. Os carros zuniam à sua volta, a grande velocidade. João Honesto desinteressou-se do
assunto. Voltou a concentrar a sua atenção, no charro, que enrolava entre os dedos.
Zé Varrasco, logo à chegada, dirigiu-se em francês aos africanos. Viu logo que eram
marroquinos. Um grupinho desses gajos que andavam pelas esplanadas, vendendo produtos
diversos, de casacos de cabedal, a rádios, relógios e máquinas fotográficas, de contrabando. Uma
rápida mirada às traseiras do carro, confirmou-lhe logo o que suspeitava. Que o carro estava cheio
de material. Identificou-se imediatamente como policia, da Judiciária, exibindo-lhes num curto
relance, um cartão plastificado qualquer, que logo guardou no bolso. Mandou encostá-los ao veículo
e mostrarem a identificação. Os gajos ficaram um bocado atrapalhados, balbuciando qualquer coisa,
entre eles, em dialecto, mas obedeceram, intimidados. Conservando sempre uma mão atrás das
costas, à altura da cinta, como se ali tivesse uma arma, recolheu as papeladas e correndo os olhos
por elas, devolveu-as ao que estava mais perto, enquanto reflectia rapidamente. Aquilo era uma
fézada que tinha entre as mãos. Com calma e cabeça fria, abotoavam-se ao material todo, sem
grande dificuldade. Os gajos estavam todos cagados, via-se bem. O mais certo era aqueles papéis
serem falsos e os gajos serem todos clandestinos. E o estúpido do João Honesto, parado dentro do
carro, que não lhe vinha acudir.
Começou a trabalhá-los, para apalpar o terreno, comentando que tinham ali uma verdadeira
carga de trabalhos. Não era só a questão do trânsito, que já de si, era grave. Era sobretudo a questão
do contrabando. Como não tinham guias de marcha, nem papelada comprovativa da propriedade dos
materiais, ia ter que apreender aquilo tudo. Três deles estavam quase a engolir a patranha, sem
contar com outros dois ou três que o miravam aterrorizados de dentro das viatura, mas havia um
mais atrevido, o grandalhão de bigode e cabeleira alvoroçada, que começou a refilar. Exigiu, em
altos gritos, ver outra vez os papéis, a sua identificação. O seu comprovativo de que era um agente
da autoridade. Filha da puta. Se tivesse uma arma ali consigo, a sua vontade era mesmo dar-lhe um
tiro.
- Quietos! – gritou exaltado, quando os viu a mexer demasiado, aos gritos uns com os outros,
lá no dialecto deles, a gesticularem demasiado com as mãos – Todos quietos e encostados à viatura,
senão dou já um tiro num, seus palhaços! – voltou a gritar em francês, acentuando o gesto do braço,
atrás das costas.
Eles entreolharam-se indecisos e durante um segundo, fez-se silencio.
João Honesto, dentro do carro, tinha acendido a boga e gozava o pratinho, deixando o fumo
sair lentamente pelas narinas. Só queria ver onde é que aquela merda ia parar. Aquele chalado do Zé
Varrasco sempre a meter-se em merdas escusadas. Era tão previsível com a sua ganância
descontrolada e a psicose de querer sempre dar a volta ao próximo, a mania de ficar sempre por
cima, de ter a ultima palavra. Assim que o gajo saiu do carro, viu logo o que ele tinha em mente.
Este dirigia-lhe olhares desesperados e aflitos na sua direcção, mas como não queria dar parte de
fraco, não o chamou, mas via-se bem que estava todo enrascado.
Ele que se fodesse! Tinha tido alguma consideração por si? Ligara alguma coisa ao seu
problema, à sua situação de emergência, à necessidade de sigilo e de não dar nas vistas? Estivera-se
bem a cagar para isso. Só via era a possibilidade de dar a banhada aos mouros. Ainda por cima
cegara de tal maneira, que nem se lembrara que com aquela malta não se brinca, sobretudo desde
que os primos deles deitaram abaixo as torres gémeas com aqueles aviões cheios de gente, lá nas
brenhas da América. E pouco depois o outro golpe em Madrid, quando dinamitaram a gare e
quiseram deitar as culpas para cima da ETA. O gajo até parecia que não lia jornais nem via
televisão. Ná, com aquela gente, melhor era deixá-los em paz. Às vezes debaixo da pedra sai um
lagarto. Um gajo sabia lá se aquela meia dúzia de tansos não era praí algum comando clandestino da
Al Quaeda, a preparar uma retaliação no nosso país? Só louco...
Os monhés entretanto cada vez gesticulavam mais e o tal gajo mais atrevido, aproximando-
se perigosamente de Zé Varrasco exigia agora em altos brados, que este lhe mostrasse de novo os
documentos, negando-se na própria cara dele, a acreditar que fosse um policia de verdade. Os
outros entretanto viravam-se para os carros que continuavam a passar em alta velocidade, saltando,
gesticulando e tentando chamar as atenções, de qualquer maneira possível. A coisa começava a
descontrolar-se. Zé Varrasco encontrava-se agora rodeado por todos os lados. Ainda por cima os
restantes, que desde o principio se encontravam dentro da carrinha, começaram agora a sair, também
eles aos gritos, que ninguém se entendia. Aproveitando a distracção momentânea dos outros, Zé
Varrasco deu um forte empurrão ao gajo que lhe estava mais próximo, projectando-o de encontro
aos companheiros e perdida toda a facúndia, desatou a correr para o carro, gritando :
- Ajuda aqui caralho! Qual é a tua?
Via-se bem que estava em pânico. Mas tal era o caso de João Honesto, também.
Quem lhe mandara meter-se com aquele filha da puta. Puta que o pariu. Agora estavam os dois
fodidos. Se ainda soubesse conduzir, era gajo para o abandonar ali a mercê daquela maralha. Era o
que o gajo merecia. Mas assim estava encurralado, junto com ele. Não obstante saiu do carro aos
gritos, gesticulando como louco em direcção ao molho de gente que entretanto caíra em cima de Zé
Varrasco e distribuíam pancadaria, que Deus mandava. Meio surpresos, estes suspenderam por um
momento a sova que lhe enfardavam e, à voz do matulão que dera inicio às hostilidades, viraram-se
todos contra ele. Mal teve tempo de se encolher numa bola, antes que começassem a chover socos e
pontapés sobre si. Num relance apercebeu-se da figura do Varrasco a escapar-se de mansinho, pois
aquela cambada parecia que funcionava em manada, como os predadores da natureza. Todos à
mesma vítima.
Só quando se aperceberam do ruído do veículo patinando na berma, antes de desarvorar dali
para fora, abandonando-o pura e simplesmente entre as patas daqueles selvagens, é que estes
suspenderam por momentos o castigo, enquanto o insultavam no seu dialecto debilóide e erguiam os
punhos cerrados ameaçando-o de morte, caso voltassem a apanhá-lo. Como nada podiam fazer em
relação a isso, voltaram a concentrar-se sobre a patética figura de João Honesto, que pouco mais era
já que uma pasta avermelhada e sangrenta, rebolando pelo chão.
Muito depois, quando finalmente se cansaram e já o sol se encobria atrás das nuvens que ao
longe amortalhavam o oceano, foram vistos de relance e sem grande atenção, por duas crianças que
brincavam nas traseiras de um automóvel familiar, a projectar um volume de avantajadas
dimensões, pelo penhasco abaixo.
- Papá – murmurou uma das crianças – Que saco era aquele que os homens estavam a atirar
lá para baixo?
- Não sei filhota – respondeu o pai – Nada de importante, um saco de lixo, concerteza.
Vejam se dormem um bocadinho, que ainda é um estirão grande até casa da avó.
Beltrano Maningue / Faro / 2003