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“ O PRÉMIO “

by B. M.

Tive um amigo, especial entre outros, que era particularmente pragmático. Quanto a ele não
existia acaso, sorte, coincidências. Tudo na vida era karma, processos electromagnéticos de causa e
efeito, tudo interligado. Segundo ele, tudo na vida tinha uma explicação racional e lógica, bastava
procurar com afinco, com atenção. Tudo era consequência próxima ou longínqua, imediata ou tardia
de qualquer causa, que aquele fenómeno produzira. Nada era gratuito na vida, nada era descurável,
nada era insignificante.
Efectivamente este tipo de filosofia, conferia à existência um peso e uma responsabilidade,
incontornáveis. Era um gajo que levava a existência bestialmente a sério. Tinha outras
características curiosas para além da mística. Era também vegetariano. Se havia coisa que o
desgostava era ver-nos a alimentar-nos de cadáveres, como ele dizia e a seguir provava-o. Aquilo
acabava por nos tirar o apetite, de maneira que ultimamente nunca o convidávamos para os nossos
petiscos. Também deixou de beber álcool, de fumar tabaco, do normal e daquele outro, especial -
que quando fuma, cabeça fica maluco! Você chega em casa nem conhece sua mãe – como dizia o
meu mainato antigamente, e até de vestir e calçar peles de animais, como cintos e sapatos de couro.
Toda a gente pensou que o gajo endoidecera. Mas não. Ele lá tinha a suas razões. Isso não o impedia
de realizar uma série de coisas e atitudes, que segundo a sua óptica, seriam desaconselháveis ou até
contraproducentes.
Era um dos gajos mais maldosos, que eu conheci. Também era rancoroso pra caralho. E um
bocado invejoso, se formos a ver bem. Mas era-mos amigos, de infância, e para além das
sacanagens normais entre putos, nunca me prejudicou por aí além. Não por falta de vontade. Eu é
não lhe dava muitas hipóteses. Estava sempre a pau com o gajo. Ele dizia ao resto da malta, que eu
era muito orgulhoso. Não sei porquê.

Quanto a mim, sempre gostei de escrever. Faço-o desde miúdo, quase. Também gostava
muito de desenhar. Esse talento ainda foi mais precoce. Com o tempo e com a prática, acabei por me
tornar um bom desenhador, modéstia aparte. Sobretudo na figura humana, que era o que eu mais
gostava. O retrato, em particular. Mas isso era muito trabalhoso e depois eu não gostava das cores.
Nunca apreciei muito o colorido, por isso os meus desenhos eram quase sempre a preto e branco. A
pontos, de quando era puto, a minha mãe ter-se assustado um bocado com aquela minha
característica tão insólita. É que, para me agradarem, fartavam-se de me oferecer caixas de lápis de
cores e aguarelas das mais caras e de melhor qualidade, que eu olimpicamente desprezava, parece.
Pelo que a velhota esteve mesmo vai não vai, para me levar ao psiquiatra. Não sei quem é que a
convenceu a não o fazer, nem porquê. O certo é que ainda hoje me chateia ter de pintar os meus
desenhos. É uma técnica que não domino. O que me valeu durante muito tempo o epípeto de “o
único pintor algarvio, que nunca pintara um quadro”.
Quanto à escrita, sempre é mais fácil. O importante é um gajo conseguir escrever mais ou
menos como fala na rua, normalmente, como quando está com os amigos. É uma coisa mais difícil
do que parece. Também demora o seu tempo. É preciso ter vocabulário, muitas leituras. Quanto a
isso eu estava bem servido. Desde miúdo sempre gostei de ler. A pontos de, à noite, depois dos
velhos já estarem deitados e convencidos que eu dormia a sono solto, pois já se tinham certificado
que eu apagara a luz havia um bocado, acender uma vela, debaixo dos lençóis e continuar a ler noite
adentro, como se estivesse dentro de uma tenda de campismo. Uma vez, à pala daquela brincadeira
ia pegando fogo à casa, como seria de esperar. Mas para além do susto e do castigo respectivo não
foi nada por aí além. Gramava de tal maneira de ler, que às vezes fazia uma daquelas trocas
habituais de livros aos quadradinhos com o meu amigo Nandinho, que era um dos que tinha uma das
maiores colecções e organizava os books todos numa pilha, por ordem inversa, deixando os
melhores para o fim. E enquanto não acabava de ler aquela merda toda, táva-me cagando para a rua
e para a brincadeira. Nem que demorasse uma tarde inteira. E se eu era danado prá brincadeira.
Um gajo tem que se corrigir muito, aprender a controlar-se, nesta coisa da escrita. Não é só
pôr no papel a primeira merda que lhe vem à cabeça. Isso dos surrealistas, dadaístas, do vale tudo,
escrita automática e tal, já foi chão que deu uvas. É preciso ter cabeça fria, aprender a depurar-se.
Não hesitar em rasgar, riscar, deitar fora o que se fez e não presta. Um gajo tem que desenvolver o
sentido crítico. E não ter medo. E escrever. Escrever bastante. Sobretudo se for autodidacta. E
continuar a ler, se possível. Ler muito, ler tudo. Instruir-se, aprender a dominar a palavra, as regras
da narrativa, do enredo, do suspense. Enfim, os truques todos.
Desde cedo os meus professores, sobretudo os de português, me auguraram um bom futuro
como jornalista, quem sabe até como escritor. Isso assustava um bocado a minha mãe, que era assim
do tipo assustadiça. Ela tinha bem presente o exemplo do meu avô paterno, que se arruinara à conta
do jornalismo e das veleidades poéticas. A pontos de se lhe ter desarranjado a cabeça e ter passado
os últimos anos da sua vida, fechado dentro de um quarto sem querer ver ninguém, nem mesmo a
família mais próxima. Exceptuando a minha avó, que era quem lhe levava a comida todos os dias ao
quarto e o barbeiro, que ia lá a casa duas vezes por mês, para lhe fazer a barba e aparar o cabelo.
Aquilo a mim, fazia-me um bocado de confusão. Lembrava-me bem, poucos anos antes, de como
ele me chamava ao seu quarto e ficávamos os dois, estendidos na cama, enquanto ele me contava as
histórias da baleia branca Moby Dick e do capitão perneta Ahab, do corcel indomável Flecha Negra,
o xerife bandoleiro Tom Mix e outras com tanto de pavoroso como de maravilha e agora, de um
momento para o outro não queria nem ver-me.
De modos que fez todos os possíveis, a minha mãe claro, para me tirar tais ideias da cabeça e
convencer-me a tirar um curso, porque isso sim, era uma muleta segura para o futuro, um dia mais
tarde em que eles já cá não estivessem, para me valer. É claro que eu nunca liguei nenhuma às
teorias dela. Mais valera que lhes prestasse mais atenção. De qualquer maneira, como dizia o meu
velho professor de matemática:
- Não é desta massa que eles se fazem! – ele referia-se, é claro aos presidentes da república. E
continuava:
- Diz-se para aí que eu não cumprimento os meus alunos, quando me cruzo com eles, na rua.
Tal facto não é verdade. Eu cumprimento sempre os meus alunos. Quando estão sozinhos. O que eu
não falo, é à malta, porque eu não gosto da malta...
Era preciso ter em linha de conta, que para ele duas pessoas já eram malta. E ajuntava, a
modos de gozo:
- Além disso, eu respeito bastante os meus alunos. Nunca se sabe se entre eles não se
encontrará um futuro presidente da República. – e depois relanceando lentamente os olhos pela
turma toda, com ar malino, acrescentava depreciativamente a tal frase:
- Náá, mas não é desta massa que eles se fazem...
Voltando à escrita, devo acrescentar que a principio, mesmo sem querer, sem me aperceber
sequer, mais não fazia que plagiar descaradamente, com ligeiras alterações, que me pareciam
geniais, as obras dos meus autores preferidos. Quer em prosa, quer em poesia. Mas creio que a
maior parte da malta que mete na cabeça em escrever, há de fazer assim. É por isso que as obras de
juventude da maior parte dos escritores acaba por ser destruída por eles mesmos ou proibida a sua
publicação, pelos próprios, mais tarde. Depois, com o dobar dos tempos, fui aprendendo aos poucos
a exprimir-me por palavras e imagens minhas. Fui-me sobretudo domesticando no acto de ver,
objectivamente, no de pescar no quotidiano factos e episódios que conseguia depois organizar de
maneira a extrair-lhes um conteúdo dramático, ou de comédia, ou quaisquer outros, conquanto
verosímeis.

O maior desgosto da minha mãezinha, era eu não ser doutor, como os filhos das amigas
delas. Mas eu cá, nunca tive paciência para os estudos. Desisti da Universidade logo no primeiro
ano. O curso até era fixe, antropologia. Eu é que não estava para perder quatro anos da minha vida,
na capital, a marrar. Não é que não tivesse cabeça pra isso, porque embora nunca tivesse sido um
aluno brilhante, também não era dos piores. E de resto, como já disse, a maioria dos professores,
sobretudo os de Letras auguravam-me um futuro pouco menos que brilhante, como jornalista ou
escritor. Por isso a velhota acabou por consolar-se na miragem de que eu conseguisse vir a tornar-
me ainda, um grande artista. Poeta ou dramaturgo, ou um pintor de craveira, qualquer merda assim.
Isso sim, seria uma carreira invejável e potencialmente até mais bem paga e de maior nomeada e
reputação que a dos outros moços todos. Mas isto, é claro, só após a morte do meu velho. Que esse,
não tinha fé nenhuma nessas merdas. Segundo ele, eu cá, nunca havia de ser nada de jeito na puta da
vida. Ele que se não cuidasse a deixar-me bem governado, havia de ser um descalabro completo.
Além disso renegava por completo essa coisa das artes – Por este caminho, este gajo ainda há de
acabar mas é como o Suetónio! – dizia ele, meio na barraca. O Suetónio era o artista popular mais
conceituado lá do burgo. Era um autodidacta da pintura e da escultura e embora não fosse nenhum
Picasso nem nenhum Dali, toda a vida viveu à custa do seu metier. Evidentemente que passou por
muitas dificuldades, daí a ironia do meu velhote. É sabido que a maior parte das vezes as pessoas de
bem lhe compravam quadros, a mais das vezes incompletos, por uma tuta e meia, só para ele não
morrer de fome. Quanto a mim, isso era um bom pretexto para eles aplacarem a má consciência,
valendo-se do facto de ele ser uma boa alma e em troca de uma refeição, oferecer sempre um
quadro. Além disso, tinha andado nos copos com eles todos, quando eram estudantes e pessoas
menos respeitáveis, como tinha feito ao longo de três gerações da minha família. Com o meu avô,
quando eram estudantes, depois com o meu pai e os meus tios na altura em que eles estudavam e
mais tarde comigo e os meus companheiros de estudos. Era uma espécie de patrono estudantil.
Jogava ao bilhar connosco, pagava-nos os copos nas cervejarias e às vezes levava-nos até ao
pardieiro onde vivia para nos mostrar as pombinhas dele - Queres ver as minhas pombinhas? –
como se aquilo tivesse algum jeito, um quintalão a desmoronar-se de velho e umas gaiolas mal
paridas, onde vegetavam uma data de aves esqueléticas e todas cagadas, numa selva de merda
fedorenta e insuportável. Mas o gajo gostava daquilo e a malta fazia-lhe a vontade. Sempre
aproveitávamos as petiscadas e ele dava-nos umas aulas de pintura, àqueles que tínhamos algum
jeito para a poda. Também há quem diga que ele fazia umas paneleirices com os moços, sobretudo
já na velhice, durante as bilharadas parece que se enganava com o comprimento dos tacos a que
metia a mão, mas eu não posso comprová-lo, porque comigo nunca se passou nada, nem eu era cá
dessas merdas e ele possivelmente sabia-o. O que ele sempre foi e foi-o de gosto e na verdadeira
acepção da palavra, foi um boémio. Do tempo em que a boémia existia e era um modo de vida. Vai
daí, quando aquela malta com que ele curtia as suas noitadas de copos e de putas, nos velhos tempos
em que a nossa cidade se podia orgulhar de possuir verdadeiras putas, nos seus bordéis e pardieiros
oficiais, coisa que já não era do meu tempo e então decidiam tomar juízo e abandonar a vida
estudantil, de boémia e de copos e endireitar a vida e casar e aburguesarem-se, tornados uns
escravos do trabalho e da decência, ele a velha Suestónia nada mais fazia que, olimpicamente dá-los
ao desprezo e deixando-os afastarem-se, continuar na sua, pintando e bebendo e curtindo a noite e as
putas, enquanto as houve, até a geração seguinte, os filhos dos tais, chegar à idade devida e
começarem por si mesmos a despontar para a noite e a frequentar os mesmos velhos pardieiros de
copos e de putas, em que os papás já tinham andado e lá o encontravam, firme e rijo no seu posto,
sempre alegre e disposto a iniciá-los nas eternas lides de marialvas, dando-lhes quando necessário,
bons conselhos de velho conoisseur e praticante. Felizmente, nos últimos tempos houve quem se
apiedasse do velhote e deram-lhe uma reformazita razoável. Talvez para lhe calarem a boca, porque
ele afinal não deixava de ser um bocado temido pela sua língua de trapo e se havia alguém que
conhecia todos os podres da pequena e da pretensamente grande sociedade lá do burgo, era o gajo.
Pode ser que ainda me venham a encomendar uma estátua dele, qualquer dia para onerar alguma
praceta, nunca se sabe. De qualquer dos modos era uma das nossas figuras bíblicas, como ele
próprio se definia com aquela risada manhosa e roufenha, tão sua característica. E depois jogando a
mão de rapina à braguilha do que lhe estivesse mais próximo, acrescentava: - Não queres ir a minha
ver as minhas pombinhas?

A velhota portanto, estava sempre a animar-me para produzir qualquer coisa e enviá-la para
as editoras e outras casas da especialidade. Devassava os jornais e as revistas literárias em busca de
todos os concursos, jogos florais e eventos culturais que premiassem os novos autores, fosse
pecuniariamente, fosse através da promessa de publicação dos seus trabalhos e da possibilidade de
penetração no mercado livreiro.
Andava bestialmente animada desde que o nosso vizinho do andar de cima se reformara e
passara a dedicar-se a tempo inteiro a esse tipo de lides. O tipo, de facto era um barra. Papava os
concursos todos. Não sei como é que o gajo fazia, mas estava farto de ganhar prémios e massas,
nesse género de eventos. Na volta até sabia, é por isso que aquelas merdas só me tornavam era mais
desconfiado. Porque eu já tinha lido alguns textos do kota. E também fora convidado uma vez para
uma soirée poética, onde lera uns poemas meus, na companhia de outros escrevinhadores e o gajo
estava lá também. Ora a mim, a escrita dele até me agoniava. É possível que a minha lhe fizesse o
mesmo efeito, mas esse é o velho problema do abismo das gerações. Contudo era o suficiente para
eu poder ajuizar o tipo de júris que presidiam aos tais concursos. E saber que a minha obra não tinha
ali cabimento. Mas para a velhota era a prova provada de que tal era possível:
- Vês Joanico, vês? Tu não és menos que ele. És mais jovem, mais viajado e mesmo mais
novo, tiveste uma vida muito mais excitante e preenchida que a dele. Com certeza que tens coisas
melhores para contar. Anda, escreve qualquer coisa... - fartava-se ela de insistir. Era uma espécie de
mania que ela tinha. Também como nunca se dera ao trabalho de ler nada que eu tivesse escrito, não
tinha termo de comparação.
- O.K. mamã... tá descansada que eu vou preparar uma merda qualquer para enviar pra um
desses teus malfadados concursos... - prometia-lhe eu, só para ela não me azucrinar mais os cornos.
- Não digas asneiras Joanico! Vê lá como falas com a tua mãe!
A velha sempre primou em dar-me uma educação esmerada. Eu é que nunca liguei. De
qualquer maneira, acho que houve mesmo uma ocasião em que eu me deixei entusiasmar por uma
dessas propostas, que até fugia um bocado ao género habitual, abrindo aparentemente algumas
perspectivas originais, no âmbito daquilo que eu via como os futuros caminhos da narrativa.
Cheguei mesmo a preparar alguns textos e organizá-los numa tentativa de ficção original, na
intenção de enviá-la ao tal concurso. Mas como na altura andava sempre pedrado e a bezerrar que
nem um camelo, acabei por lhes perder o rasto e desinteressei-me do assunto. É que eu tinha uma
vida muito preenchida, de facto. Havia muitas solicitações. Muitas curtes. Muitas marquesas
desejosas de acção, muitos copos, muitos sócios, muita chaladice, eu sei lá... não vou pôr-me aqui a
contar a minha vida toda.

Vai daí, qual não é a minha surpresa, uma tarde ao abrir a caixa do correio, quando vejo um
envelope endereçado à minha pessoa, da câmara não sei donde, cuja missiva me informava que
estavam à minha espera, no dia tal, nos Passos do Concelho da cidade Y, para a sessão solene em
que teria lugar a entrega dos prémios relativos ao concurso literário tal e tal. Aquilo surpreendeu-me
bastante, sobretudo porque não me lembrava de ter enviado nada, lá prós gajos. Mas como andava
sempre meio bezerrado, até se podia dar a hipótese de tê-lo feito e ter-se-me varrido completamente
da cachimónia, que eu à pala das trips de ácido e outras merdas afins, sempre tive uma memória que
era uma verdadeira miséria. Mesmo assim era um bocado esquisito, não ter a mínima ideia do facto.
Eu lembrava-me realmente do projecto em si. De ter mesmo organizado qualquer coisa com esse
fim, mas depois tinha-me passado e parecia-me bem que tinha cagado no assunto. Não queriam lá
ver que a velhota, com aquela pancada dela, tinha encontrado os textos e como andava sempre a par
daquela cena dos concursos e tal, tinha enviado a obra em meu nome. Gaja pra isso era ela e pra
muito mais... em todo o caso, estava ali, preto no branco, uma carta em meu nome João Manuel da
Silva, anunciando-me como feliz candidato ao primeiro prémio no tal concurso de contos da cidade
Y. Cá por mim tudo bem, até porque aquelas merdas, além do prestígio, tinham por costume
remunerar os premiados, para garantirem um número suficiente de autores e pretendentes ao
prémio. Nem pensei duas vezes. Toca de preparar o saco, que na tesúria andava eu. Bastava uma
muda de roupa interior, qualquer coisita decente para a cerimónia e roupa de combate para a
viagem, que aquela merda era ir num dia e voltar no outro. Somos um país pequenito. Aqui, as
merdas ficam todas próximas umas das outras. Principalmente as cidades. Até chateia. Um gajo mal
pode dar um peido que não se saiba logo na baixa e nas redondezas. Consoante o valor do prémio,
podia até aproveitar para dar uma saltada rápida ao Casal Ventoso, à vinda pra baixo e trazer um
saquito de neve e outro de brown, se desse para tanto e upalalá, feliz da vida, à conta do parlapiê.

Quando cheguei ao local, um pouco antes da hora oficial, uma vez sem exemplo, quase que
ia vomitando. Aquilo eram só kotas do piorio, todos bem fardados e cheios de nove horas, beija mão
e parlatatás. Eram senhores de bigodinho e brilhantina, fraque e lacinho preto e velhas damas de
gola de peles e lorgnons, mintenes e pince-nez. Fiquei logo enjoado, palavra de honra. Tive que me
por nas putas mesmo a acelerar. Fui até uma esplanada não muito distante, fazer um bocado de
tempo enquanto bebia umas cervejitas bem geladas e definia uma estratégia. É que eu não tinha
mesmo vida práquilo. Havia ali qualquer merda que não estava a bater certo. Eu não estava a ver
aquela gente a premiar um dos meus contos. Mas enfim, nesta vida tudo é possível, como dizia o
outro. E eu até que já estou por tudo, sei lá...
Vai daí quando chegou a malfadada hora do início da cerimónia, lá voltei eu ao interior do
edifício, identifiquei-me ao porteiro e subi as escadas que conduziam ao salão nobre. Sentei-me
numa das filas do fundo e distraí-me com os murais na parede, durante a seca dos discursos. Quando
chegou a hora da distribuição dos prémios e ouvi chamarem o meu nome, levantei-me
educadamente e dirigi-me para o palco, com os olhos daquela malta toda pregados em mim.
Eles próprios pareciam um bocado admirados de me verem ali, se bem que o meu aspecto
não destoasse por aí além. Evidentemente que não envergava um smoking, mas dentro do género até
não estava mal de um todo. Lá me pregaram a medalhinha ao peito e passaram-me o cheque prás
mãos. Quando passei os olhos pela quantia, ia-me dando uma coisa. É que os gajos eram
verdadeiramente generosos, foda-se! Há mais tempo que eu me devia dedicar a estas merdas.
Tivesse eu sabido.
Chegou então o momento de ler um bocadinho da minha obra e dizer depois umas palavras
solenes sobre a ocasião e tal. Assim que me passaram para as mãos as folhas com o texto que
supostamente eu devia ter escrito, vi logo onde é que estava. Estas merdas são mesmo incríveis. Já
sei que vocês vão dizer que isto é um subtefúrgio barato de escritor de meia tigela. Mas o facto é
que estas merdas acontecem mesmo na vida real. Daí eu ter começado esta crónica com uma
referencia ao meu amigo que não acreditava em casualidades, coincidências, sorte, acaso, etc. É que
isto parece mesmo de propósito, mas na realidade passou-se mesmo assim. Logo que passei os olhos
pelo texto reconheci imediatamente que aquilo não era produção minha. Vergonha tinha eu de me
por a contar nhan nhan nhans, assim. Sei lá, já não me lembro bem mas era uma espécie de elegia às
virtudes da cidadania, uma história toda lamechas, com gente muito boazinha e um final tipo novela,
feito de propósito para agradar. Ainda por cima, atendendo ao nome que se ocultava atrás do
pseudónimo, que era igual ao meu e à confusão nas moradas, só podia tratar-se uma vez mais do
meu malfadado vizinho de cima. É que, por incrível que pareça, por mais inverosímil, por demais
como nas novelas, a verdade é que habitamos no mesmo prédio dois indivíduos com o mesmo
nome. A única diferença e é mínima, é que ele se chama João Manuel Silva e eu chamo-me João
Manoel da Silva e ele habita no 1º andar da Av. Olivenga e eu no r/c do mesmo prédio. De facto eu
chamo-me Manoel e assino assim, mas a malta dos Correios, como de resto toda a gente, não
respeitam mais as grafias clássicas, por isso eu já deixei de me preocupar. Além disso como nunca
fui gajo de muitos escrúpulos e sobretudo porque já tinha o cheque na mão e sabia-me bem, não vi
razão nenhuma para esclarecer-lhes o equívoco, sobre o qual não surgiu de resto, a mínima suspeita.
De maneiras que lá cumpri o meu papel. Cheio de paciência, autentico frete, li duas ou três
páginas do texto e a seguir engrolei meia dúzia de palavras sobre a situação da cultura actualmente e
mais particularmente da literatura, louvaminhando o papel das autarquias no desenvolvimento das
mesmas e o seu importante papel na descoberta de novos, ocultos e promissores talentos. Fui muito
aplaudido.
Assim que pude, com toda a delicadeza e pretextando viagem urgente para o sul, por
motivos pessoais e impreteríveis, pus-me nas putas porque despachando-me e de taxi, ainda ia a
tempo de levantar o cheque na agencia do Banco respectivo, mais próxima. Além disso era
fundamental que aquela malta me perdesse o rasto, não fosse o Diabo tecê-las, como diz o povo e o
povo sabe bem o que diz e porquê.
Pelo que, no mesmo taxi e contra gorda gorjeta, aproveitei e dei logo uma saltada ao Casal,
forneci-me das tais coisas que eu aprecio, umas largas “muchas” de cada, da castanha e da branca.
Tive sorte porque de momento só corria por ali, qualidade superior. Podia ter tido azar e ser uma
altura de maré baixa e só haver murraça em circulação. Felizmente não era o caso. Em seguida
dirigi-me a uma agencia de aluguer de automóveis, aluguei um mini e desapareci, rumo à fronteira.

De modos que agora, após uma semana maravilhosa de férias na Cuesta del Sol, cheia de
praia, putas e paella, só estou à espera a qualquer momento que me caia em cima a cabrona da tal
consequência, do meu gesto. É que toda a minha vida tem sido assim. Faz-se uma sacanagem e logo
se paga, seja em cana, seja em desgosto, seja em desastre. E se não for imediatamente, há de ser a
longo prazo. Nada fica é pendente. Até parece que Deus existe. Ou então que há um livro de razão lá
em cima. Isto é realmente como o outro dizia e o próprio povo, que sabe-a toda, também – Cá se
fazem, cá se pagam! – porque o que governa a vida dialéctica é mesmo a lei do karma. “O que
semeias hoje, colhes amanhã”. E o resto é conversa. Não é que essa consciência me impeça, por
enquanto, de ir fazendo as minhas malfeitoriazitas, como foi o caso. Mas também, acho que todos
nós somos assim... até aprendermos, qualquer dia...

BELTRANO MANINGUE / FARO / 2002