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Kitsch, repetição e desconstrução dos paradigmas modernistas no

conto Ismênia, moça donzela, de Dalton Trevisan

Arnaldo Franco Junior


Departamento de Letras, Universidade Estadual de Maringá, Av. Colombo, 5790, 87020-900, Maringá, Paraná, Brasil.

RESUMO. O presente artigo estuda os procedimentos literários utilizados por Dalton


Trevisan para desconstruir os paradigmas de criação herdados do Modernismo e ironizar os
limites do cânone literário ocidental na Modernidade. A partir da identificação de tais
procedimentos, pretende-se demonstrar que eles, além de constituírem-se em estilemas
característicos da escrita trevisaniana, constituem-se em estratégias de questionamento e
relativização dos valores do sistema literário com o qual dialogam criticamente.
Palavras-chave: kitsch, repetição, desconstrução, pós-modernismo, Dalton Trevisan.

ABSTRACT. Kitsch, repetition and deconstruction of Modernist paradigms in


Dalton Trevisan’s short-story Ismênia, moça donzela. Dalton Trevisan’s literary
procedures towards the deconstruction of paradigms of creativity hailing from Modernism
are provided. They ironize the limits of Western literary canon during the Modernist
period. Besides constituting characterictic style factors of Trevisan’s discourse, procedures
are also strategies of problematization and relativization of values within the literary system
with which they dialogue in a critical manner.
Key words: kitsch, repetition, deconstruction, post-modernism, Dalton Trevisan.

metade do século XX, passa por uma revisão crítica


Introdução radical.
No projeto literário de Dalton Trevisan há algo
A obra de Dalton Trevisan demanda uma leitura
como uma dramatização de boa parte do conjunto de
que leve em consideração o projeto literário nela
contradições que caracterizam a vida contemporânea
afirmado, na própria elaboração do texto, na tensão
sob o industrialismo e/ou o pós-industralismo na
dissonante criada entre os elementos do anedotário e
sociedade administrada.
as estratégias e procedimentos da fabulação1.
Os signos do mau gosto e do kitsch prestam-se,
Escritor que não tem uma dimensão linear nem
na poética de Trevisan, a uma perquirição sobre o
ingênua em relação ao seu material de trabalho - a
lugar da arte e do artista no mundo contemporâneo,
palavra -, Trevisan constrói em sua obra um tenso
marcado sobremaneira pela reificação que, inclusive,
diálogo com os vetores de criação e de crítica
apoderou-se, sob a forma cotidiana e sistemática das
modernistas e, além disso, faz com que ressoem em
estratégias quase que onipresentes da indústria
seus textos, por efeito do modo particular como
cultural e dos sistemas de simulação, de boa parte
constitui a sua poética singular, elementos que
das estratégias e procedimentos antes característicos
questionam os valores fundamentais do cânone
da contestação vanguardista identificada com o
literário moderno/modernista que, desde a segunda
Modernismo.

1
Ismênia, moça donzela
Por meio do tratamento que dá à sua literatura, Dalton Trevisan
insere uma distinção, nos seus contos, entre a anedota e a Publicado em Morte na praça (1964)2, “Ismênia,
fábula. Tal distinção define a anedota como uma história narrada
pelo texto, normalmente de viés folhetinesco ou redutível a tal. moça donzela” faz parte do conjunto de contos
Já a fábula compreende, dada a consideração da presença da epistolares que caracteriza uma das linhas da
paródia e/ou da intertextualidade ligadas à utilização intencional
do kitsch, o viés metalingüístico que evidencia uma reflexão
subliminar, no próprio contar de tais histórias, sobre o fazer
literário e a condição do escritor no mundo contemporâneo. A
2
anedota, pois, corresponde à história narrada e a fábula Vamos, aqui, utilizar a 4ª edição, publicada, após revisão, em
compreende a atividade do narrador-escritor que narra sua ação 1975. Todas as citações do conto neste artigo foram retiradas
estética, digamos assim, sobre a anedota. desta edição.

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produção literária de Dalton Trevisan3. Ele resulta, tapas, você é e continua sendo meu primeiro amor,
ao que parece, da apreensão de um imaginário, via há de perdoar a traição que te fiz. (carta nº8, p.
“apropriação” de um discurso característico - as 49);
cartas de amor e sedução - que, sugere o conto, - Antônio, pensa que não sei do caso com uma dama
realmente existiriam como referente real, mas, casada? pelo amor de teus filhos não fales no meu
“apropriadas”, prestam-se ao laborioso trabalho do nome para essa sujeita que só prejudicou o nosso
escritor, que as recria a partir de sua poética amor, você homem sem caráter (...)// Antônio pense
particular. Na verdade, pouco importa saber se o bem no que vai ser de mim (carta nº9, p. 50).
referente real existe de fato, e é muito provável que Condensado, como é característico no trabalho
tenha sido, também, criado por Dalton Trevisan. de Dalton Trevisan, o texto afirma por sugestão,
“Ismênia, moça donzela” narra, por meio de inscrevendo no silêncio, na elipse, o que caracteriza
nove cartas, o relacionamento erótico-comercial da a história de Ismênia e Antônio. Acompanhando a
missivista, Ismênia, com o Dr. Antônio, o seqüência de cartas, ficamos sabendo que foi Ismênia
destinatário. O caso, desde o seu início até o seu quem se ofereceu ao Dr. Antônio, declarando-se
desenlace, é “documentado” em seus diversos apaixonada e enfatizando, na primeira carta, a sua
episódios pelas cartas que Ismênia envia ao Dr. condição de “moça donzela” - selo de qualidade e
Antônio, sempre entregues em mãos por um chamariz publicitário do produto que oferece ao
emissário encarregado de receber o dinheiro que ela futuro amante4. Depois que Antônio mordeu a isca,
infalivelmente solicita, após apresentar uma Ismênia começou a lhe pedir dinheiro tão logo
justificativa para tal, já a partir da segunda carta. reafirmava, nas cartas, o seu amor e a sua fidelidade.
As primeiras frases de cada carta evidenciam a Com o recuo do amante, ela insiste na estratégia,
gradativa intimidade e o jogo de aproximações e expondo o que alega ser a sua má condição
recuos estabelecidos entre os amantes, bem como os financeira e, simultaneamente, enfatizando seu amor
pronomes de tratamento utilizados por Ismênia para pelo ex-amante. O expediente dura até o momento
referir-se a Antônio. Note-se: em que descobre que Antônio está de caso com uma
- Saudações// Dr. Antônio, desculpe a ousadia de outra mulher, também casada como ele, e, ao que
escrever (carta nº1, p. 45); sugere o texto, ele passa a se recusar a dar o dinheiro
- Querido Antônio// (...) Olha Antônio (carta nº2, que, mesmo após o término do caso, continuara
p. 46); enviando pelo mensageiro das missivas.
- Estimado Antônio”// Saudações.//(...) você não veio Há, no entanto, contradições que o discurso das
e sei que sou desprezada (carta nº3, p. 46); cartas revela, deslindando em Ismênia uma moça
- Antônio// Te peço por esmola, já que não quer o não tão donzela como fizera-se parecer no início do
meu amor (...)// Olha, Antônio (carta nº4, p. caso e em Antônio um doutor não tão circunspecto
47); ou honesto como seria - em concordância com a
- Querido Antônio (carta nº5, p. 47); moralidade pequeno-burguesa que é nota
- Meu inesquecível Antônio.// O que te fiz, Antônio, dominante no relacionamento e no contexto
que se tornou tão ingrato? (carta nº6, p. 48); sociocultural de ambas as personagens - de se
- Meu inesquecível Antônio// (...) sei que não mereço esperar, talvez.
o teu amor, sou humilde e tu és um Doutor! (carta Tais contradições evidenciam-se na mescla
nº7, p. 48 - 49); indiferenciada de sentimento e interesse, de amor e
- Saudações// Queridinho te mando esta cartinha negócio presente nas cartas. Note-se:
para saber notícia, tenho muita saudade (...)//
Dr. Antônio, desculpe a ousadia de escrever, ontem
Antônio, ele não me deixa sair, até apanhei uns fiquei arrependida de não confessar a paixão que
sinto, porque tive vergonha, vejo que o senhor é
3
Considerando-se os aspectos temáticos e/ou formais, a
casado e pai de tantos filhos, acho que isso não
contística de Dalton Trevisan pode ser dividida, grosso modo, tem importância, a gente sabe de tanta mulher
em cinco linhas de produção, a saber: 1) as histórias de João e casada gostando do homem de outra, quanto
Maria, centradas no inferno da vida a dois; 2) os contos
epistolares, em que o modelo carta rege a forma e o discurso mais eu que sou moça donzela, a diferença é que
literários; 3) as histórias da cidade de Curitiba, que compõem não sou correspondida.
uma espécie de anedotário local que se universaliza; 4) as
histórias intertextuais de caráter parafrástico-paródico, que
retomam tema e/ou estilo de um texto literário consagrado ou um
gênero discursivo característico (relatório policial, prece
invocatória, relato jurídico etc); 5) as ministórias e haicais, contos
4
de extensão mínima, radicalmente fragmentários, concentrados Segundo Miguel Sanches Neto (1996, 25), Através das cartas de
na apresentação de uma única imagem por meio de uma ação Ismênia, vislumbramos sob uma oferta amorosa a venda do
condensada ao máximo e composta, muitas vezes, a partir de corpo, o que dá à mulher um valor de mercadoria - filiando-a ao
fragmentos de contos do próprio autor já publicados. mundo dos objetos capitalistas.

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Kitsch e crítica do Modernismo em Dalton Trevisan 73

Venha na mesma hora, eu espero no portão e mamãe como as posições sociais e morais de homem e
não vai nos ver. Se o doutor não vier é sinal que não mulher não são as mesmas, e existe uma hierarquia
tem a mínima simpatia. não apenas de classe social, mas de gênero entre
Sem mais, sua criada obrigada,
ambos, uma recusa poderia vir a macular o seu status
Ismênia.
P.S. Desculpe os erros que estou um pouco nervosa.
de macho, poderia tornar duvidosa, aos olhos não
(carta nº1, p. 45 - 46 - grifos nossos). apenas de Ismênia, mas também, eventualmente, do
contexto provinciano e machista em que vivem, a
Querido Antônio. sua condição masculina. Isso, é claro, se a missivista
Eu escrevo este bilhete, não posso suportar este amor. tornasse pública a recusa, coisa que, sugere o texto,
Olha Antônio, de hoje em diante eu te farei os desejos, paira no ar como ameaça.
só se você me estimar como tua amante, não me deixe As aproximações e recuos dos amantes
faltar nada e nunca me abandone. evidenciam-se na estrutura das cartas,
Te espero às três horas, no lugar de sempre. Não particularmente na ordem estabelecida entre o
quebro o juramento que fiz, mas você não sei,
assunto principal e o assunto dos pós-escritos.
Antônio,
Sempre fiel,
Quando Antônio faz-se presente e parece à mão, o
Ismênia. assunto principal das cartas é o amor e o assunto dos
P.S. De há muito pedi o teu retrato, não serei pós-escritos é o pedido de dinheiro para
merecedora? Sofrendo do estômago, tudo por causa do necessidades urgentes, tais como o pagamento de
nosso amor. Mande um dinheirinho pelo menino contas básicas ou doenças. Quando Antônio se
para comprar remédio. Sonhei a noite toda que me ausenta e parece inacessível, o assunto principal das
traías e não me querias mais, será? (carta nº2, p. cartas é o pedido de dinheiro para necessidades
46) urgentes e o assunto dos pós-escritos é a
Note-se que a primeira carta é como que um reafirmação, lamentosa, do amor. Note-se:
anzol destinado a fisgar Antônio. Nela, Ismênia Antônio.
declara-se apaixonada, afirma a sua virgindade e Te peço por esmola, já que não quer o meu amor, um
inexperiência, promete-se acessível já que, dinheirinho para eu dar por uma prestação, o turco
argumento maior da carta, a paixão será a razão para veio aqui com desaforo, estou louca de tristeza.
sobrepujar as amarras da moralidade convencional a Olha, Antônio, resolvida a ser tua de corpo e alma,
que tanto ela como Antônio estão, em princípio, não quero que me dê roupa, jóia, perfume, só o
presos pelos seus diferentes estados civis. aluguel da casa, já fico satisfeita, o resto Deus há de
dar forças para mamãe.
Insinua-se nesta primeira carta algo que se
Venha que eu espero, hoje, hoje. A que será tua.
confirmará nas demais: Ismênia usa das estratégias Ismênia.
do discurso amoroso e da admoestação moral para P.S. Não ligue os erros e acentos. Falei com mamãe,
extorquir dinheiro de Antônio. Neste sentido, a ela está de acordo (carta nº4, p. 47)
segunda carta é representativa do conjunto das
demais que ela envia após o início do affair com Querido Antônio.
Antônio. Este esquema só sofrerá uma alteração, Estou perdidamente triste, pensando nesta vida
como se verá, na última carta que compõe o conto, amarga, fiz o trato de ser tua, você ajudava um pouco,
na qual ela reconhece a perda do amante. oito dias que não me aparece, acho que se arrependeu
Na segunda carta, Ismênia esclarece a natureza e não me quer mais.
Sou a mesma,
do contrato amoroso, que, neste conto, é ironicamente
Ismênia.
uma expressão literal: Olha Antônio, de hoje em diante P. S. Um pequeno favor eu peço, a caridade de
eu te farei os desejos, só se você me estimar como tua amante, entregar ao menino qualquer importância, a velha tem
não me deixe faltar nada e nunca me abandone (p. 46). de pagar umas continhas, amanhã é a extração do
Essa carta e as subseqüentes esclarecem o que, na dente, amanhã sem falta.
primeira, era apenas sugestão velada, elas revelam o Desculpe o lápis, eu não tinha tinta, anjinho meu
sentido do vínculo Ismênia-Antônio, privilegiando a (carta nº5, p. 47 - 48).
exposição da perspectiva da missivista. O As cartas vão, gradativamente, revelando detalhes
interessante, em tal esclarecimento do sentido, é o importantes para a compreensão do caso Ismênia-
fato de que percebemos que a primeira carta contava Antônio. Como a terceira carta evidencia, Ismênia
com a moralidade que “contextualiza”, digamos não trabalha. Antônio vai e vem no jogo erótico com
assim, espacial e historicamente as personagens ela, ora comparecendo, ora faltando aos encontros,
como argumento favorável à concretização do caso. ora cedendo o dinheiro solicitado, ora negando-o. O
Antônio bem que poderia, é claro, recusar-se, mas término do caso amoroso, sugere o conto, não

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significa necessariamente o término do vínculo vier é sinal que não tem a mínima simpatia (p. 45). Ora,
comercial: Ismênia, na última carta, continua a embora a referência à mãe funcione como suposto
insinuar o pedido de dinheiro a Antônio, além de ou alegado obstáculo moral, a frase revela a
lamentar a sua perda para outra, casada: existência de um encontro anterior entre Ismênia e
Antônio, ainda que sem envolvimento sexual. Logo,
(...) tenho fé nas forças do inferno que todo o mal há
de cair sobre ela e você, que andou se gabando de sugere essa carta, sob a virgem recatada encontra-se a
mim, não esperava que fosses tão ingrato assim, mulher fatal, dissimulada.
Antônio pense bem no que vai ser de mim, agora que Não há, no conto, equivalência entre a dupla
fui abandonada pelo meu amigo, não sei se sabias que conformação de Ismênia e a de Antônio. No caso
me deixou em estado interessante, não tenho coragem dele, as personae de homem casado e honesto e de
para fazer-te mal, mas espero com resignação que homem adúltero não se opõem, complementam-se,
Deus se vingará por mim (carta nº9, p. 50). com a segunda naturalizando-se, por força da moral,
Antônio é provavelmente um profissional liberal: como conseqüência da primeira. Só no caso dela é
advogado, talvez, já que é recorrente na contística que há fissura entre as personae da virgem e da
trevisaniana o vínculo erótico entre advogado e vagabunda, que, note-se, remetem estruturalmente à
cliente, em geral mulher mais jovem, casada, noiva vièrge souillé e à femme fatale do folhetim/melodrama e
ou namorada, a quem o Doutor atende como à borralheira, ao espertalhão e à armadilha dos contos
conselheiro e amante. Obviamente, nem ele nem maravilhosos. Veja-se o quadro comparativo abaixo5:
Ismênia são inocentes: celebram um contrato
amoroso cujas cartas marcadas sugerem que, na FOLHETIM/MELODRAMA CONTOS MARAVILHOSOS
verdade, tal contrato pré-existe no próprio A virgem humilhada (Vièrge A borralheira: é, geralmente, órfã
souillé) - remete à menina-infante (índice de pobreza e abandono),
imaginário social independentemente da sua violentada, senão sexualmente, criada por parentes ou vizinhos que
concretização, com contornos mais ou menos socialmente, pela exploração e pelas dela se aproveitam, humilhando-a
privações a que é submetida pelas no trabalho e até mesmo
específicos, por ambos. A dupla conformação das outras personagens. É sexualmente, bloqueando a sua
personagens, sobretudo de Ismênia, funciona como normalmente pobre, mas bela. ascenção social e a sua felicidade. É,
Tem coração e alma nobres e é normalmente, bela, virgem,
uma espécie de senha para o reconhecimento da pré- inocente. Remete-nos à atraente e inocente.
existência do roteiro amoroso que será concretizado borralheira, que sobrevive nos
por elas. O contraste entre a primeira e a segunda folhetins e melodramas
românticos.
carta é suficiente para revelar que Ismênia oscila
A mulher fatal (femme fatale/ O sedutor/ O falso amigo: O
habilmente entre as personae folhetinescas da moça vamp): vilã que rivaliza com a sedutor é aquele que desvia o herói
virgem recatada e da mulher fatal, ardilosa. Note-se: heroína, disputando o mesmo do seu caminho para aproveitar-se
homem e a ascenção social que o dele. Seduz ou ataca sua vítima,
Dr. Antônio, desculpe a ousadia de escrever, ontem casamento com ele representa. É tenta devorá-la, violentá-la ou
poderosamente erótica, bela, matá-la. O falso amigo é aquele
fiquei arrependida de não confessar a paixão que sensual, atraente, mau-caráter. que “ajuda” o herói por interesse e
sinto, porque tive vergonha (...), quanto mais eu que Aproxima-se da heroína para para despojá-lo do que ele tem.
sou moça donzela (carta nº1, p. 45). roubar o homem com quem ela Normalmente acompanha as
mantém um complicado namoro. peripécias do heróis para
Pode ser ou ter sido amante do surpreendê-lo em momento de
Olha Antônio, de hoje em diante eu te farei os desejos, namorado da mocinha. Contraria a fraqueza ou em uma circunstância
só se você me estimar como tua amante, não me deixe ideologia da mulher desposável, e adversa.
encarna ambivalentemente a da
faltar nada e nunca me abandone. (...) Mande um
mulher-objeto de prazer. Pode
dinheirinho pelo menino para comprar remédio encarnar o espertalhão.
(carta nº2, p. 46). O espertalhão: é aquele que A armadilha: pode ser uma
engana o herói aproveitando-se de personagem, uma situação, uma
Na verdade, já a primeira carta de Ismênia sua ingenuidade. Ele mente, faz circunstância. Constitui um
contém os índices que denunciarão a existência da intrigas, dá pistas falsas, tudo com o obstáculo ao sucesso do herói,
intuito de lucrar alguma coisa com podendo significar perigo de vida.
sua duplicidade. Nessa carta, a declaração de amor a inocência do herói. Encarna o
serve como argumento para o enfrentamento das outro lado da exploração social a
que é submetido o herói.
barreiras morais, para a ousadia de um
comportamento que seria, no contexto moralista e
provinciano, considerado impróprio de uma moça O kitsch reside na possibilidade de
séria, de uma virgem. No entanto, Ismênia já contra- reconhecermos, por meio das cartas, não apenas as
argumenta em sua defesa quando se refere às casadas
que gostam do homem de outra e encerra a carta com 5
Os dados para a composição desse quadro comparativo foram
algo que pode ser lido como o termo de aceite do retirados do livro O super-homem de massa (1991), de Umberto
Eco. Para um melhor estudo das correspondências estruturais
contrato que ela propõe: Venha na mesma hora, eu entre as personagens do Folhetim/Melodrama e dos Contos
espero no portão e mamãe não vai nos ver. Se o doutor não Maravilhosos, ver Le Mélodrame (1984), de Jean-Michel
Thomasseau, e Morfologia do conto (1983), de Vladimir Propp.

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Kitsch e crítica do Modernismo em Dalton Trevisan 75

etapas de uma seqüência narrativa previsível desde a A extrema previsibilidade que caracteriza a
sua manifestação até os seus desdobramentos morfologia9 das personagens e a seqüência narrativa
“naturais”, mas, também, algo como uma força que constituirá a anedota que as enlaça é o que
inexorável, que faz com que, a partir da constituição assinala o kitsch, signo de alienação ética e estética,
morfológica das personagens, a anedota que as une como pertinente à substância de tais elementos
apresente-se como algo déjà vu em todos os seus constitutivos do conto. O kitsch, aí, seria o resultado
aspectos. Essa força tem um nome e é um elemento de um olhar que seleciona, avalia e reconhece em
característico do folhetim/melodrama, comum, tais elementos uma natureza marcada pela repetição,
também, à estrutura do fait divers6: fatalidade do destino. pela reprodutibilidade passiva e inconsciente, digamos
E a fatalidade do destino integra-se ao que Eco (1991, assim, de signos dados, preexistentes, anteriores à
69-76) caracteriza como estrutura da consolação: a sua reatualização sob forma desta ou daquela
articulação de recursos de efeito cuja função, no anedota. O kitsch, neste sentido, seria um elemento
romance popular7, é conservadora ou, no máximo, mobilizado pela poética trevisaniana, e não um
reformista. adjetivo que se pudesse ingenuamente atribuir à
O kitsch, portanto, afirma-se como consubstancial mesma, já que esta, sóbria e sumamente sintética,
aos elementos estruturais que tanto modelam as elíptica e sugestiva, permanece afeita aos paradigmas
personagens como definem os limites da de produção e avaliação modernos/ modernistas,
combinatória de seus possíveis vínculos e, também, levando-os, por meio da repetição, ao extremo da
predeterminam ou tornam previsíveis os crise, do questionamento e de uma eventual
desdobramentos dos mesmos8. Tais elementos desagregação.
estruturais - tipos e/ou estereótipos sócio-sexuais; Para melhor compreendermos o estatuto do
funções; elementos da seqüência narrativa - têm, na kitsch na poética trevisaniana, recorramos ao
obra de Dalton Trevisan, o estatuto de peças de uma estabelecimento de um paralelo com o modelo
linha de montagem. A repetição característica da teórico definido por Platão no “Livro X” de A
poética trevisaniana transforma-os em clichês que, República (1990, 451-500). Neste capítulo, como se
habilmente manipulados, produzem e reproduzem sabe, Sócrates estabelece uma hierarquia triádica
ad infinitum novos contos, cujas anedotas estão para, fazendo uma distinção entre dois tipos de
fatalmente marcadas pela ausência de qualquer manifestação da imitação, diferenciar o campo da arte
novidade. Neste sentido, a poética trevisaniana do campo das idéias e do campo da manifestação
funda-se sobre um paradoxo: ela se constitui a partir fenomênica destas. A distinção entre o que se
da afirmação dos paradigmas de produção moderna/ convencionou chamar de modelo, cópia e simulacro,
modernista - invenção, originalidade, afirmação de portanto, será estabelecida com base na distinção de
um universo específico de valores, fundação de um natureza entre a imitação característica do campo dos
cosmos característico, pessoal e intransferível que faz fenômenos e a imitação característica do campo da
do artista um demiurgo único e de sua obra, algo arte. Sendo o campo das idéias (modelo) perfeito,
cuja singularidade responde pelo nome de estilo eterno, imperecível e preexistente ao dos demais,
individual -, mas, simultaneamente, leva tais resta ao campo dos fenômenos (cópia) uma natureza
paradigmas às últimas conseqüências por meio da marcada pela precariedade, pela finitude, pela
repetição. É a repetição que corrói e/ou questiona, perecibilidade, pela imperfeição e, além disso, resta
por efeito de saturação, as idéias e os valores ao campo da arte (simulacro) uma natureza
inerentes a tais paradigmas modernos/ modernistas. duplamente marcada pela imperfeição, já que
imitação de 2º grau em relação à cópia e, decorrência
afirmada por Sócrates, distorção perigosa do modelo,
posto que sedutora em relação às paixões humanas.
O simulacro, segundo Platão, marca-se pela
6
O fait divers, ou notícia miúda, foi detalhadamente estudado por estaticidade em relação à cópia e ao modelo que imita,
Roland Barthes no ensaio “A estrutura da notícia”, publicado em
Crítica e verdade (1978). como demonstrou Gilles Deleuze (1974) em sua
7
Para um estudo do vínculo histórico entre o romance-folhetim e revisão crítica deste modelo teórico platônico10.
o fait divers, ambos concorrendo no mercado pela exploração
lítero-comercial dos “dramas da vida”, ver Folhetim - uma história
(1996), de Marlyse Meyer.
9
8
Penso aqui no que Alfredo Bosi (1982) define como a costura A identidade estrutural existente entre as personagens-tipo e
tenebrosa de natureza e cultura na obra de Machado de Assis, estereótipo do conto maravilhoso: o vilão, o provedor, o auxiliar
vínculo que permite reconhecer, nos contos, o modo como mágico, a princesa e seu pai, o mandante, o herói, o falso herói
Machado lidou com o positivismo e o determinismo para tecer, (Propp, 1983) e do folhetim/ melodrama é válida, aqui, para a
com ironia, a sua análise do valor do clichê e dos estereótipos totalidade da obra de Dalton Trevisan.
10
institucionais no jogo de interesses que move as relações Deleuze (1974, 259-272) demonstra que o simulacro não é
humanas em sociedade. estático, mas dinâmico e crítico, em sua “distorsividade”, em

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Para melhor compreender o que pretendemos o signo da degradação, paradoxalmente distorsivo e


identificar como presença do kitsch na obra de crítico, questionador, em relação ao campo das idéias
Dalton Trevisan, basta estabelecer uma aproximação que emerge do choque destas duas instâncias.
com o modelo teórico de Platão, mas com algumas Se a vida imita a arte, o faz como uma paradoxal
diferenças significativas. Vejamos: na obra de Dalton farsa tragicômica à qual não são estranhos o mau
Trevisan, o campo de manifestação fenomênica das gosto e o kitsch, signos de uma alienação tão
anedotas criadas pelos relacionamentos das profunda que praticamente desaparece, naturalizada
personagens marca-se pela imitação do campo do pelas diferenças de classe social e estrato cultural. No
texto, literário e/ou sagrado, que as precede na entanto, o anedotário de Dalton Trevisan não se
condição de modelo e registro original da história da confina aos limites da classe social que privilegia - a
qual elas, as personagens e sua anedota, não passam classe média baixa, a gente pobre -, mas, remetendo,
de uma cópia, uma imitação precária e degradada. na condição de simulacro, a um modelo que integra
Ocorre na obra de Dalton Trevisan, portanto, o campo dos documentos que fundam e afirmam
algo como uma inversão da hierarquia platônica, já uma dada organização sócio-cultural e seus valores
que, nessa obra, o texto (arte e/ou sagrada escritura) característicos, questiona simultaneamente os pobres
precede a vida, antecipando-se seja sob a forma de limites de uma e outra esferas, e o faz, ironicamente,
detalhe e/ou fragmento de episódio bíblico, seja sob pela repetição à qual não falta, em nenhum nível, a
a forma de gênero e/ou texto literário consagrado marca da degradação: pobreza material e espiritual,
pela história da arte e da cultura11. Essa inversão faz extrema banalidade, vulgaridade, falta de
de cada conto de Trevisan o portador de uma originalidade e de liberdade, hiper-determinismo.
anedota que é, considerada em si mesma, um Voltemos ao conto. Ismênia confirma, em sua
simulacro de outra que, precedendo-a, instala-se, segunda carta, não apenas a sua dupla natureza, mas
potencialmente, como matriz a partir da qual tal acaba como que preestabelecendo, com suas
anedota se constitui. Esta relação entre uma matriz palavras, o modo como será tratada, daí em diante,
aludida - alusão que se realiza por meio da remissão por Antônio. O esclarecimento e a confirmação da
à previsibilidade que marca os elementos estruturais literalidade do contrato amoroso que Ismênia
que, articulados por meio da repetição, darão origem propõe ao Dr. Antônio acaba por determinar e
a uma série infindável de contos, de versões e restringir, para este último, o modo de agir na
versões de um mesmo conto12 -, e seu simulacro faz relação com ela. Isso porque a própria moralidade
com que reconheçamos neste segundo, campo do depreendida como contextual à anedota faz com que
anedotário criado ou recolhido por Dalton Trevisan, se pressuponha na projetada imagem de moça
virgem recatada não mais do que uma máscara
relação à cópia e ao modelo, questionando-os simultaneamente: manipulada com cálculo e habilidade pela vadia
O simulacro não é uma cópia degradada, ele encerra uma ardilosa. Diante do falso enigma desta esfinge,
potência positiva que nega tanto o original como a cópia, tanto o
modelo como a reprodução. portanto, Antônio só será devorado se for
11
Leia-se, neste sentido, os contos “Dinorá, moça do prazer” suficientemente ingênuo para não desconfiar
(Cemitério de Elefantes, 1964) e “A volta do filho pródigo” (Morte
na praça, 1975). O 1º retoma intertextual e discursivamente o daquilo que Ismênia afirma nas cartas: seu amor e
famoso Fanny Hill ou Memórias de uma mulher de prazer, sua necessidade de dinheiro, que, no entanto, podem
clássico da literatura obscena escrito por John Cleland por volta
de 1730 e publicado em 1749; o 2º ficcionaliza o que teria
- sugestão perturbadora do próprio conto inscrita na
acontecido no retorno do filho pródigo à casa paterna, episódio última carta - ser reais.
bíblico retomado por A. Gide em um de seus textos. Miguel S.
Neto (1996, 26) não vê neste conto uma referência irônica à
Embora a anedota particular de Ismênia e
tradição bíblica, afirmando que há uma preocupação em Antônio não remeta a nenhuma obra específica da
resguardar o tom bíblico e o mecanismo da parábola (devido ao
parentesco com o texto gideano), mas sem deixar de explorar
história da arte ou das Sagradas Escrituras, ela não
novas significações, inserindo-as dentro de um contexto deixa de marcar-se pela extrema previsibilidade
específico. O reaproveitamento da parábola é revelado pela
citação da fonte: São Lucas, XV, 11 a 32. É como se Dalton
nascida da própria morfologia das personagens:
desejasse reformular o texto bíblico, à luz de Gide, dando-lhe um moça oferece-se a homem casado; ela é
sentido outro, menos convencional (Neto 1996, 25). Parece-nos,
no entanto, que o conto de Dalton insere a ironia, no que se
supostamente pobre em relação a ele, profissional
refere à anedota, na tensão contrastiva que estabelece com os liberal; estabelecido o caso, ela passa a lhe pedir
textos de S. Lucas e de Gide, já que, arrependido, o filho pródigo
amaldiçoa-se ao ver que o irmão caçula repetirá a sua
dinheiro em meio a juras de amor e fidelidade. Ora,
experiência, e, no que se refere à metalinguagem vinculada à o que se destaca de tudo isso senão uma reafirmação
intertextualidade, uma ironia ambígua é estabelecida no
comentário sobre os limites da originalidade e o vigor da
do determinismo social e, no plano estético, uma
repetição. reafirmação, em versão algo cômica, de clichês que
remetem ao folhetim/ melodrama e ao fait divers?
12
Em Dalton Trevisan: trajetória de um escritor que se revê (1993),
Rosse Marye Bernardi (1983) realizou um estudo minucioso do
processo de reescrita que caracteriza o trabalho literário de Como não ler em Ismênia a reatualização do lobo
Dalton Trevisan.

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Kitsch e crítica do Modernismo em Dalton Trevisan 77

em pele de cordeiro que caracteriza tantas vezes as possibilidade não anula a outra: o possível amor não
ações da mulher fatal? Como não ler em Antônio, redime nem alterna a morfologia de Ismênia, antes
potencialmente, as personae do ingênuo enganado (o surge, se vero, como ironia do destino - reafirmação
sedutor seduzido) e/ou do vilão que, mais da implacável repetição do folhetinesco na vida dos
experiente, faz da vilania de sua vítima algo pueril, que habitam, como fantasmas, as margens largas e
signo de um auto-engano? Como não ler, a partir superpovoadas dos centros urbanos modernos.
daí, o desdobramento “natural” do caso que os une? O kitsch é também visível na natureza do discurso
Como não ler, também, o desenlace previsível de tal epistolar de Ismênia, marcado pela repetição de
caso? Repetição e previsibilidade extremas são os frases feitas e clichês. Note-se:
signos do kitsch inerente a tal anedota.
Estou perdidamente triste, pensando nesta vida
A última carta de Ismênia estabelece uma amarga (...) Desculpe o lápis (...) anjinho meu
perturbação na possível ordem diferencial existente (carta nº5, p. 47 - 48)
entre o apelo amoroso e o apelo comercial que
caracterizam o contrato celebrado entre ela e Meu inesquecível Antônio (...) Não seja traidor, não
Antônio. Sabendo do caso deste com uma dama iluda um pobre coração, você me enganou e não vem
casada (p. 50), Ismênia reage, indignada, e elabora matar esta paixão, você é mesmo mau, não quer o
uma argumentação que reforça os limites da meu amor (...) escrevo esta cartinha com lágrimas nos
moralidade à qual está circunscrita ao mesmo tempo olhos (...) quero ser tua, inteirinha tua (...) Desculpe
o papel e o envelope (carta nº6, p. 48)
em que - cínica e/ou sincera? dúvida que permanece!
- dá a ver que há algo de verdade no sentimento que
Meu inesquecível Antônio (...) quase para desistir da
diz nutrir pelo ex-amante. Note-se: vida, não dormi nada, pensando nesta desgraçada
Antônio, pensa que não sei do caso com uma dama sorte (...) sei que não mereço teu amor, sou humilde e
casada? pelo amor de teus filhos não fales no meu tu és um Doutor! O mundo sorri diante de ti (...) se
nome para essa sujeita que só prejudicou o nosso quer me ver morta, é que não vem hoje (...) eu por
amor, você homem sem caráter, o tempo de tratar de você dou até minha salvação, quero ser tua de alma e
negócio como doutor de respeito andas atrás de corpo e vida. (carta nº7, p. 48 - 49)
qualquer uma (...) Já tive amor por ti, jurei que meu
Por fim, o kitsch é divisado como característico do
coração puro era só teu, o nosso amor segundo tu dizes
era como o pó que a gente limpa do sapato, não faz imaginário ao qual as personagens estão
mal porque uma coisa você não pode dizer, que tenha circunscritas, imaginário que transcende os limites
sido tua, pois tua eu nunca fui, era preciso cortar a tua de classe social e de estrato cultural. É aí que a
língua comprida, falador não tens mais o que falar? apropriação de elementos estruturais pertencentes a
quanto mais velho mais sem juízo, eu te odeio até a gêneros marcados como o folhetim e o fait divers
morte, nunca hei de te perdoar de me trocares por uma cumpre, cremos, a sua maior função crítica, na
qualquer, quero mostrar como se dá o desprezo, sou medida em que descerra esse imaginário como uma
feliz e serei até morrer, gozando na vida, invejada por espécie de prisão de segurança máxima, eterna e
você e sem mais aceite um abraço desta que te odeia.
inexpugnável, da qual não se escapa nem mesmo por
P.S. Não assino porque é indigno do meu nome
(carta nº9, p. 50). meio da transgressão, já que esta só faz reafirmar, de
modo perigoso, a idealidade do modelo
O modo como está construída a última carta transgredido.
acaba por embaralhar o que até então eram, ou A transgressão, violência prevista pela ordem que
pareciam ser, instâncias distintas, com o amor estabelece as leis, tem como efeito inevitável a
servindo de máscara para o negócio. Essa última reiteração do valor da lei negada e do sistema que a
carta, embora possa funcionar como reforçadora do inculca e sustenta, já que faz derivar destes o seu
sentido até então afirmado nas demais, também o próprio valor. Dá-se o mesmo com a perversão
perturba, pois, ao embaralhar as instâncias do amor e prevista e consentida pelos códigos que regulam a
do interesse financeiro, admite a sugestão de que 13
moralidade repressiva . Isso é particularmente
Ismênia passou a nutrir ou nutria mesmo amor por
Antônio. Esta perturbação das fronteiras entre o
amor e o interesse financeiro não anula a trajetória 13
A perversão sexual previsível (triangulação amorosa; sexo não-
anterior que marcou a estrutura do caso Ismênia- genital; homossexualismo; pedofilia) parece ter, na obra de
Dalton Trevisan, a mesma função da dessublimação repressiva
Antônio, mas corrói, em algum nível e de certo a que se refere Herbert Marcuse (1967, 69-91) em sua análise
modo, a eficácia do cálculo que caracteriza as ações crítica das estratégias de dominação ideológica sob o
de Ismênia. Terá a sedutora sido inadvertidamente capitalismo pós-anos 50. Isso, em que pesem as diferenças de
contexto e estratégia de alienação, marcadas evidentemente
seduzida? Talvez. Note-se, no entanto, que tal pela dicotomia repressão x liberalização do sexo
respectivamente vinculadas ao contexto provinciano dos contos

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78 Franco Junior

visível na contradição harmônica, chamemos assim, que dos demais contos epistolares presentes na obra
caracteriza o vínculo mais do que estreito entre a evidenciará o que aqui estudamos, ou seja, uma forte
perversão sexual e a moralidade pequeno-burguesa presença do que a tradição modernista
repressiva que, não por acaso, rege o mundo das substancializará como kitsch: repetição, clichês,
personagens trevisanianas. lugares-comuns, ausência de originalidade, de
Em “Ismênia, moça donzela”, o kitsch reside unicidade, objeto estético destituído de aura
precisamente na possibilidade de reconhecermos, (Benjamin, 1978:13), serialização, uniformidade. O
por meio das cartas da missivista, não apenas as próprio modo de produção característico da obra de
etapas de uma seqüência previsível de ações que Dalton Trevisan acaba por singularizá-la com uma
caracterizarão o caso desde a sua irrupção até os seus paradoxal ambigüidade, situando-a simultaneamente
desdobramentos, mas, principalmente, uma forte dentro e já fora do projeto modernista, porque
presença de estruturas de comportamento social e levando-o ao limite extremo via repetição e
lingüístico que tanto modelam as personagens, na caracterizando-se, deste modo, como instância
medida em que as falam, como definem e pré- metacrítica em relação aos valores, procedimentos e
determinam, por efeito disso, os limites da princípios estético-ideológicos herdados da tradição
combinatória de seus possíveis vínculos, tornando- moderna/ modernista.
os previsíveis em grau máximo. A incorporação e a exploração de elementos,
É aí que reside a perspectiva de divisarmos como referências e estruturas consideradas kitsch e de mau
kitsch - signo de alienação ética e estética - tais gosto presta-se, pois, no trabalho de Dalton
elementos que se prestam à construção da contística Trevisan, a uma estratégia alegórica voltada para a
trevisaniana. Eles não seriam kitsch em termos do corrosão, sutil e discreta, de mitos característicos da
efeito que emerge da economia interna que preside, pletora utópica moderna/modernista. Tal estratégia
sóbria e sintética, a produção trevisaniana, mas desde alegórica, cremos, é o que lhe permite, a partir de um
o seu processo de seleção - o que significa escolha trabalho que incorpora o mau gosto e o kitsch para,
jamais desprovida de sentido e de valor, jamais virando-os pelo avesso, ironizar os seu supostos
neutra ou aleatória - até o efeito de reflexão sobre antípodas na arte e na vida, afirmar que o lugar da
tais elementos e estruturas. O kitsch emerge, aí, arte e do artista, no mundo contemporâneo, deve -
como resultado de um olhar que tanto avalia para que se cumpra a tarefa de filtrar a tradição e
criticamente a substância daquilo com que lida, em manter abertos os horizontes da criação e da paixão
termos de referente, como, também, escolhe o crítica herdados problematicamente do mundo e da
material lingüístico com o qual construirá a ilusão de arte modernos -, estar marcado simultaneamente
imitar - jamais na clave da mímese neo-realista e/ou pelo mal-estar e pelo humor.
naturalista, diga-se! - tal referente. Uma avaliação, Integrados à economia dos textos do escritor, as
portanto, não restrita às personagens ou seu meio ou referências de mau gosto e os elementos e estruturas
sua anedota particular, mas voltada para a considerados kitsch comentam a própria limitação do
identificação, como kitsch, do imaginário sócio- circuito de produção e consumo de arte e literatura
sexual ao qual tais personagens e suas previsíveis no Brasil, marcado sobremaneira, no contexto dos
anedotas substancialmente se vinculam. Isso, a partir anos 40 - 70, por uma ideologia do novo modulada pela
da recorrente manifestação de tais elementos, herança realista-naturalista que hipervaloriza o
marcados sobremaneira pela repetição - o que faz modelo da narrativa oitocentista como norma para a
com que reconheçamos que são, no sentido literal, produção e critério para a avaliação da arte e do
clichês: repetição degradada de matrizes que, por trabalho do artista.
efeito da dinâmica operada pelo simulacro em relação Dialogando com ácida e/ou simpática ironia com
à cópia e ao modelo, degradam os dois últimos para os os mitos do indivíduo, da normalidade social, do
quais se voltam, questionando-os. ideal de racionalidade inserida no cotidiano, da
originalidade, da unicidade da obra de arte, da
Considerações finais invenção, do experimentalismo, do engajamento
social do artista, do futuro etc., Dalton Trevisan
Partindo do pressuposto de que a obra de Dalton
afirma, em sua obra, um novo que se nega a
Trevisan constitui-se a partir de uma combinatória
compactuar com as totalizações e utopias
de elementos e estruturas temático-formais
características do Projeto da Modernidade. Isso, sem
sobredeterminadas por sua repetição, uma leitura
a ingenuidade de pretender antecipar, de maneira
dogmática ou programática, o futuro - o que,
e ao contexto tecnológico característico da sociedade industrial
ao qual vincula-se a contracultura.

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Kitsch e crítica do Modernismo em Dalton Trevisan 79

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