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R

movimento
enovação
de
Carismática Católica:
superação da oposição
entre catolicismo e pentecostalismo?1

Ari Pedro Oro e Daniel Alves

A Renovação Carismática Católica (RCC) tem sido apontada, não somente em


relação a sua origem, tanto por parte dos seus seguidores quanto por outros analistas,
como uma estratégia de fortalecimento da identidade católica frente ao avanço do
pentecostalismo, ou seja, uma forma de contraofensiva católica (Mariz e Machado
1994; Oro 1996; Machado 1996; Pierucci e Prandi 1996; Prandi 1997; Carranza 2009;
Gabriel 2010). Essas análises recaem sobre as diferenças e as oposições existentes entre
o movimento católico e o evangélico. Argumentamos neste texto que nos últimos anos
a RCC vem cumprindo também um outro papel: estabelecer um espaço privilegiado de
aproximação e de encontro entre católicos e evangélicos (especialmente pentecostais),
visando superar as fronteiras construídas entre si. Trata-se de um movimento que possui
vertentes e iniciativas em ambos os segmentos religiosos, privilegiando especialmente
as confluências e as convergências já existentes.2
Este artigo resulta da análise da literatura produzida nas Ciências Sociais sobre a
RCC e o pentecostalismo e, especialmente, de uma pesquisa de campo que realizamos
no sul do Brasil e na Argentina, nos três últimos anos. O texto está dividido em duas
partes: a primeira apresenta um breve histórico de ambos os movimentos religiosos e
explicita as suas principais diferenças e oposições; a segunda destaca as convergências e
as aproximações existentes, bem como a política do diálogo e os encontros ecumênicos.
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 123

Pentecostalismo e Renovação Carismática Católica: breve histórico e oposições

Trata-se de dois movimentos religiosos surgidos nos Estados Unidos, o pente-


costalismo, em Los Angeles, em 1906, e a RCC na Universidade de Duquesne, em
Pittsburgh, em 1967.
O pentecostalismo se irradiou para a América Latina a partir de 1910, em três
ondas sucessivas. Sem levar em conta as especificidades nacionais e regionais3 podemos
afirmar, grosso modo, que a primeira onda se inscreve no arco que vai das décadas de 1910
a 1950, ocasião em que a ênfase recai na glossolalia e no batismo no Espírito Santo; a
segunda consiste na indigenização do pentecostalismo, com ênfase na cura divina, ocorrido
entre as décadas de 1950 e 1970; e a terceira se inicia a partir da década de 1970, tendo
ênfase nas teologias da prosperidade e da guerra espiritual (com suas consequências), e
se verifica a inserção pentecostal na política e na mídia (Freston 1994). Essa terceira fase
é também chamada de neo-pentecostalismo. Evidentemente, como destacou Freston,
estas três ondas não se superpõem, mas se mantém imbricadas ao longo do tempo4.
Por seu turno, a RCC também se implantou na América Latina obedecendo a
três fases: a) fase fundacional, com a estruturação do movimento, nos anos de l960 e
1970; b) fase social e cultural, nos anos de 1980 e 1990, em que ocorre a consolida-
ção de um estilo de evangelização a partir da música, do lazer e da oração, como um
processo de rotinização do carisma; e c) fase midiática, a partir dos anos 2000, em que
a RCC se viabiliza por intermédio dos meios de comunicação, havendo uma “opção
preferencial pela cultura midiática” (Carranza 2009:33-4).
Quanto a este último aspecto, importa frisar que a partir da década de 1990 a
RCC começou a realizar mega-eventos, chamados rebanhões, cenáculos, encontrões
ou festivais, semelhantes aos realizados no campo evangélico, muitos deles contando
com a presença de padres cantores como Marcelo Rossi, Fabio de Mello e Antonio
Maria.5 Na promoção dos eventos, ocupa um lugar de destaque as emissoras de rádios
católicas regionais afinadas com a Renovação Carismática e, especialmente, as redes
de TV que alavancam a tendência no interior do catolicismo como a Rede Vida e,
sobretudo, a TV Canção Nova.
O pentecostalismo na América Latina foi interpretado ao longo do tempo, em
certos meios católicos, numa chave de disputa religiosa, uma vez que a sua membresia
foi sendo formada acolhendo indivíduos provenientes especialmente do catolicismo.
Por isso mesmo, recebeu críticas depreciativas, sobretudo no período anterior ao
Concilio Vaticano II (1962-1965). E mesmo após esse marco – apesar dos documentos
dele emanados,6 que preconizam o diálogo com outras religiões e reconhecem a não
reivindicação exclusiva do monopólio religioso –, as desqualificações continuaram,
voltadas especialmente para as igrejas da terceira onda, chamadas geralmente de
“seitas”, que deveriam ser combatidas.7
Por isso mesmo, em certos meios católicos, como sustentamos em outro lugar
(Oro 1996), a RCC nascente foi interpretada como um movimento visando à retenção
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de fiéis nas suas fileiras, capaz de barrar o avanço pentecostal. Na visão de Pierucci
e Prandi, porém, a RCC possuía um duplo objetivo: enfrentar, dentro da Igreja, o
crescimento dos setores mais progressistas (como a Teologia da Libertação, as Co-
munidades Eclesiais de Base) e, fora dela, a expansão do pentecostalismo (Pierucci
e Prandi 1996).
Em 1975, a Igreja Católica emitiu um documento sobre a Renovação Caris-
mática a partir da iniciativa do cardeal Leon Joseph Suenens que, em maio de 1974,
reuniu em Malines, Bélgica, uma equipe internacional de teólogos e dirigentes leigos
para tratar do tema. O documento, intitulado “Orientações teológicas e pastorais
da Renovação Carismática Católica”, organizado pelo cardeal Suenens (1994), quis
ser, como seu título indica, um guia de orientação teológica e pastoral, tanto para
os membros da RCC quanto para a Igreja em geral. Em 1987, ocorreu em La Ceja,
Colômbia, o Encontro Episcopal Latino-Americano sobre a Renovação Carismática
Latino-Americana, em que se apresentou a tese de que a Igreja está vivendo um novo
pentecostes. Em 1994, o episcopado brasileiro tomou uma posição oficial em relação à
RCC, após muita discussão e debate no interior da hierarquia. Com efeito, por ocasião
da 34ª Reunião Ordinária do Conselho Permanente da CNBB, realizada em Brasília,
entre os dias 22 e 25 de novembro daquele ano, os bispos aprovaram e divulgaram o
documento intitulado “Orientações pastorais sobre a Renovação Carismática Cató-
lica”, em que consta uma série de recomendações da CNBB aos fiéis da RCC, como
também várias evitações.8
As ressalvas da hierarquia católica em relação à RCC residiam na prática da
glossolalia e no chamado “repouso no Espírito”, além de outros tópicos como, por
exemplo: o excesso de leituras fundamentalistas e intimistas da Bíblia; uma certa con-
cepção de que o Espírito Santo tem agido somente no interior da RCC; e a centralidade
dada pela RCC aos grupos de oração9 e comunidades de aliança, deixando de lado o
conjunto maior das atividades paroquiais. Havia, na época, um duplo temor por parte
da hierarquia: de que a RCC se tornasse um movimento religioso à margem da Igreja
e de que ele se aproximasse demais das práticas e dos conteúdos do pentecostalismo.
Por isso mesmo, para evitar a concretização deste último temor, e deixar clara a
separação com o pentecostalismo, a hierarquia católica passou a acolher os carismáti-
cos, à condição de que participassem dos sacramentos e de que nos grupos de oração
fosse constantemente externado o reconhecimento da autoridade papal e a devoção
à Virgem Maria. Esta última devoção, como salientaram Cecília Mariz e M. das Dores
Machado, constitui “o divisor de águas, a fronteira, e se esta não for reforçada não há
por que ficar no universo católico” (Mariz e Machado 1994:30). Em outro texto, Maria
das Dores Machado reitera que a devoção à Nossa Senhora é central para “demarcar
as fronteiras entre catolicismo e pentecostalismo e em certa medida reforçar a iden-
tidade religiosa católica dos carismáticos” (Machado 1996:48). Na mesma direção,
Prandi sustenta que “Maria é uma fronteira intransponível entre dois territórios que,
de outro modo, poderiam ser um só” (Prandi 1997:141).
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 125

O tema de Maria é tão importante na RCC que os analistas do campo religioso


internacional e nacional têm observado uma relação entre aparições marianas e a pre-
sença da RCC. Segundo Carlos Alberto Steil, eles “estão de tal forma imbricados que
dificilmente se compreende o desenvolvimento de um sem fazer referência ao outro”
(Steil 2001:118). Acrescenta ainda este autor que “quando observamos os carismáticos
nos contextos das aparições, vemos que eles colocam sua própria estrutura a serviço
da divulgação destes eventos, geralmente competindo com a estrutura eclesiástica das
paróquias e dioceses” (124).
Semelhante relação entre a franja católica carismática e as aparições marianas
foi destacada em diversos relatos etnográficos de aparições verificadas no Brasil e
constantes no livro “Maria entre os vivos” (Steil, Mariz e Reesink 2003). R. Prandi
destaca ainda outros pontos que marcam a separação entre a RCC e o pentecostalis-
mo. Por exemplo: se o valor atribuído simbolicamente ao dinheiro é um tema central
no pentecostalismo (alavancado pela Teologia da Prosperidade), ele fica em segundo
plano na perspectiva dos membros da Renovação; o discurso é direto, “popular”, no
pentecostalismo e mais elaborado no meio carismático, obedecendo às distinções de
classe; enfim, os fatos e eventos que atingem os indivíduos são analisados, na perspec-
tiva pentecostal, a partir da ação do demônio, enquanto causa e razão fundamental
dos mesmos; já na visão da RCC, embora também se mencione o demônio, se salienta
a noção de livre-arbítrio e de responsabilidade individual (Prandi 1997:129-134).
Portanto, há uma tendência no interior do catolicismo de fixação de fronteiras
entre a RCC e o pentecostalismo, acionando, para tanto, certos elementos simbólicos,
o mais importante deles sendo a devoção à Virgem Maria. Porém, paralelamente à
tendência que enfatiza as diferenças entre pentecostalismo e RCC, há também, no
interior de ambos os segmentos religiosos, um outro movimento: o de aproximação, de
diálogo e de encontros, visando a superação das fronteiras. Neste caso, a ênfase é posta
nas convergências e nas aproximações existentes entre eles, como veremos a seguir.

Pentecostalismo e Renovação Carismática Católica: convergências e encontros

Alguns autores têm destacado a existência de pontos de convergência entre


a RCC e o pentecostalismo. Assim, para Cecília Mariz e M. das Dores Machado,
observa-se, em ambos os movimentos, a experiência subjetiva da conversão; a autoa-
tribuição de uma missão; a noção de identidade religiosa adquirida e não herdada; a
ênfase na escolha religiosa individual; a atribuição de poder ao leigo, relegando para
segundo plano a mediação eclesiástica; a prática religiosa emocional; o compromisso
e comportamento ascético; o uso de termos comuns, como orar e louvar; e a constru-
ção de uma “demonização” do espiritismo e das religiões afro-brasileiras. O discurso
sobre a demonização e o moralismo individual aumenta nos grupos de oração das
camadas menos favorecidas aproximando ainda mais a RCC dos pentecostais (Mariz
e Machado 1994).
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R. Prandi sublinha que tanto a RCC quanto o pentecostalismo “mantém a cura


no centro da prática religiosa” (1997:124-125). Destaca também que “não há grande
distinção entre os problemas que são levados à Renovação Carismática ou às igrejas
pentecostais de cura divina” (idem). Já F. Sofiati destaca que ambos os movimentos
religiosos mostram-se interessados em atuarem no âmbito político institucional para
combaterem os projetos de leis que:

Segundo seus ideais religiosos são contrários aos preceitos divinos, como
a descriminalização do aborto e o casamento entre homossexuais. Por
isso, o(s) movimento(s) têm trabalhado intensamente no combate ao
aborto e na defesa de que a homossexualidade é uma doença que precisa
ser curada (Sofiati 2009:103).

A condenação do aborto, da homossexualidade, do alcoolismo e do uso de drogas


em ambos os grupos religiosos são também sublinhados por Prandi (1997).
Não são somente os analistas externos aos grupos religiosos que assinalam pontos
de encontro entre eles. Aproximações e convergências são também evidenciadas nos
posicionamentos oficiais e em pronunciamentos de líderes das instituições católica e
evangélico-pentecostal. Chama atenção que o próprio documento sobre a Renovação
Carismática Católica, coordenado pelo cardeal Suenens, acima mencionado, reconhece
a influência evangélica na RCC. Nele pode-se ler, por exemplo, que “a Renovação
Católica, em grande parte, tomou consciência desses dons através de movimentos de
renovação fora da Igreja Romana” (idem:35). E mais adiante:

É evidente que a Renovação Carismática é uma relevante força ecu-


mênica e é de fato ecumênica por sua natureza. Numerosos protestantes
neo-pentecostais e pentecostais clássicos compartilham uma experiência
semelhante e, a partir daí, se reúnem com os católicos para dar teste-
munho das coisas que o Espírito está fazendo em outras igrejas (CNBB
1994:59-60; grifo nosso).

E por fim o documento reconhece que “a renovação manifestada entre nossos


irmãos protestantes é um movimento autêntico do Espírito Santo” (CNBB 1994:60).
Gerson Santos, coordenador da RCC em Porto Alegre e ativo líder desse seg-
mento no Brasil, elenca as seguintes semelhanças entre a RCC e o pentecostalismo:
a forma de manifestação da fé, o culto ao Espírito Santo, a manifestação dos carismas
através da oração, a glossolalia, a cura através dos conselheiros espirituais e a valori-
zação da música.
Do lado católico, é no Concílio Vaticano II que repousa o principal fundamento
para a prática ecumênica e o reconhecimento da dimensão carismática da Igreja. De
fato, o Concílio Vaticano II, especialmente nos documentos Unitatis Redintegratio
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 127

(1964), Nostra Aetate (1965), Eclesiam Suam (1964), Ad Gentes (1965) e Lumen Gen-
tium (1964), por um lado afirmou a necessidade de manter uma relação ecumêmica
com as outras religiões, e, por outro lado, destacou a dimensão carismática da Igreja,
renovada perpetuamente pelo sopro do Espírito Santo e seus carismas.10 Em pentecos-
tes, a Igreja se manifesta a todas as nações, sendo constituída de “dons carismáticos
e hierárquicos” (Lumen gentium 1964:4). Tais dons e carismas devem ser recebidos
com gratidão, pois são perfeitamente acomodados e úteis às necessidades da Igreja
(idem:12). Em outro documento pode-se ler que o Espírito Santo guia a todos,
em regime de comunhão: “O Espírito Santo que habita nos crentes, que enche e
governa toda a Igreja, é quem realiza a admirável comunhão dos fiéis e une todos
tão intimamente a Cristo, de modo a ser o princípio da unidade da Igreja” (Unitatis
redintegratio 1964:2).
Do lado evangélico a vertente atual mais importante visando a superação das
diferenças com os católicos resultaram das reflexões do teólogo norte-americano
Peter Wagner, inscritas na expressão “New Apostolic Reformation” (Wynarczyk
2009:152). Essa perspectiva anuncia a passagem do modelo denominacional para o
pós-denominacional, acompanhada da ideia segundo a qual nas últimas décadas o
Espírito Santo restabeleceu o ministério dos profetas e dos apóstolos. De fato, segundo
essa doutrina, os “apóstolos” são convidados a serem os pivôs de uma nova lógica de
organização eclesiástica, articulada em redes. Por serem ungidos pelo Espírito Santo,
cabe-lhes aglutinar as denominações e congregações cristãs, ligando-as “por cima”.
Sua capacidade de liderança e de mobilização deve transcender as denominações
(Wagner 2000). Segundo H. Wynarczyk, estas foram as condições que permitiram a
emergência desta nova orientação teológica:

a) o reconhecimento, inscrito no marco primário da restauração do mi-


nistério apostólico, de que a experiência individual e privada de nascer
de novo pelo poder do evangelho é mais importante do que a estrutura
da denominação; e b) o conceito de que Deus levanta de novo a igreja
apostólica e a liderança teocrática dos apóstolos [...] em contaste com o
sistema de governo das congregações baseado na assembleia democrática
de constituintes (Wynarczyk 2009:95).

Resulta dessa perspectiva a abertura para a superação das diferenças, não


somente no interior do campo evangélico, mas também do católico. As duas fontes
motivaram, a partir das últimas décadas do século passado, o surgimento de movimen-
tos de diálogo e de encontros entre evangélicos renovados e católicos, especialmente
os filiados à Renovação Carismática Católica. Em 1972, foi fundado, no Vaticano, o
Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos,11 que conta com a par-
ticipação de católicos, vários deles da RCC, alem de membros de igrejas pentecostais
e do movimento carismático das igrejas protestantes históricas e da Igreja Anglicana.
128 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 122-144, 2013

Desde a sua fundação, esta organização tem firmado pautas comuns a serem cumpridas
em ciclos de cinco anos de duração (CNBB 2003).
Como resultado desta iniciativa, e de outras, ocorreram vários encontros ecu-
mênicos internacionais, que reuniram especialmente lideranças carismáticas e pente-
costais, nos Estados Unidos, na Alemanha, na Argentina, no Chile e no Brasil.12 Mas é
na Itália, especialmente em Bari e Roma, que nos últimos anos o movimento reunindo
pentecostais e carismáticos católicos parece ser mais fecundo, devido principalmente
à mobilização elaborada pelo leigo católico Matteo Calisi, presidente da Fraternidade
Internacional de Comunidades Carismáticas Católicas, e do pastor Giovanni Traeti-
no, presidente da Apostolic Fellowship International (AFI). Ambos têm se dedicado
ao “ministério da reconciliação”, promovendo contatos e encontros entre líderes de
diferentes comunidades cristãs do mundo.
A AFI é uma organização que reúne diversas comunidades carismáticas evan-
gélicas e igrejas ao redor do mundo, com fundamentos nos preceitos de discipulado
firmados ao longo da década de 1960 e 1970.13 A Fraternidade Internacional de Co-
munidades Carismáticas Católicas, segundo Thomas Csordas (2009:74-75), configura-
se atualmente como uma das redes internacionais mais influentes de comunidades
carismáticas católicas. Para Csordas, essa rede poderia ser comparada com outra mais
antiga, denominada Espada do Espírito (The Sword of Spirit), pelo seu exclusivismo
católico. Contudo, a associação entre católicos e carismáticos, nas figuras dos italianos
Calisi e Traetino, evidencia o potencial da fraternidade em estabelecer conexões com
o mundo pentecostal, consolidadas em grupos de diálogo interreligioso que promovem
eventos conjuntos na Itália e, mais recentemente, na América Latina.
Na América Latina, a Argentina parece ter sido o país pioneiro na tentativa de
encontro e diálogo entre católicos carismáticos e evangélicos.14 Isto ocorreu a partir
de um encontro, ocorrido na Itália, entre o pastor evangélico Jorge Himitian, da igreja
pentecostal Comunidad Cristiana, de Buenos Aires, filiado à AFI, e Matteo Calisi. Am-
bos fundaram na Argentina, em julho de 2003, a organização denominada Comunión
Renovada de Evangélicos y Católicos en el Espíritu Santo (Creces), a qual destaca:

Nossa experiência comum “carismática”: a do batismo no Espírito Santo.


[...] Uma experiência que 600 milhões de cristãos em todo o mundo
hoje compartilham: protestantes, evangélicos de todas as denominações,
católicos (Creces 2009; tradução livre).

O mito fundador desta instituição, como exposto no website, refere que o seu
início foi tímido, reunindo quatro pastores evangélicos e quatro leigos católicos que
começaram a se encontrar uma vez por mês para orarem juntos. Aos poucos, porém, o
grupo foi crescendo, e, em 31 de julho de 2004, realizaram o I Encuentro de Católicos
y Evangélicos en el Espíritu Santo, intitulado “Para que el Mundo crea”. Uma semana
mais tarde, realizaram o I Encuentro de sacerdotes, pastores y lideres, “Diálogo fraterno
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 129

sobre el Kairos de Dios en la Argentina”, com a participação dos sacerdotes Alberto


Ibáñez e Carlos Aldunate e do Pastor Miguel Petrecca, entre outros.
O II Encuentro Fraterno ocorreu em Buenos Aires, em julho de 2005 na Co-
munidade Cristiana, da Rua Condarco 1440. O tema “Pentecostalidad en la Iglesia”
foi tratado pelo renomado Pastor Norberto Saracco. De acordo com o site da Creces,
constatou-se, então, que o grupo cresceu bastante com a presença de “irmãos e irmãs
de ambas as vertentes que compartilham o mesmo desejo de reconciliação e unidade
da Igreja” (tradução livre).15
Ainda ocorreram o II Encuentro de Sacerdotes, Pastores y Líderes, I Encuentro
de Alabanza y Adoración, e o III Encuentro Fraterno. Este último foi realizado no está-
dio Luna Park, em Buenos Aires, no dia 19 de junho de 2009 e contou com a presença
do então cardeal arcebispo de Buenos Aires, dom Jorge Mario Bergoglio (hoje papa
Francisco, eleito em conclave no mês de março de 2013) e também do franciscano
italiano Raniero Cantalamessa que, desde 1979, corre o mundo realizando pregações
“sendo responsável, no Vaticano, pelos retiros de advento e quaresma dirigidos ao papa,
aos bispos e aos cardeais”.16 Em todos esses encontros, bem como no site da Creces,
são reforçados os princípios fundamentais que norteiam a aproximação de católicos e
evangélicos. Pode-ser ler, por exemplo, que:

Evangélicos e católicos, unânimes, cremos em Jesus Filho de Deus.


Fruimos da leitura da Bíblia [...]. O Espírito Santo abriu nossos olhos
espirituais [...]. Todos somos filhos de Deus, somos, portanto, irmãos.
Cristo fundou uma só igreja.
Hoje, evangélicos e católicos, renovados pelo Espírito Santo, nos
arrependemos de nossas divisões, de nossas mútuas ofensas, e pedimos
perdão uns aos outros (Creces 2009).

Hoje a Creces é dirigida por um conselho executivo formado por evangélicos e


carismáticos católicos17 e promove mensalmente encontros de oração de católicos e
evangélicos,18 constituindo-se como uma importante associação ecumênica argentina,
alavancada pelo protestantismo renovado e pela RCC.
Em 1º de maio de 2009, a Creces organizou sua quinta conferência na Argen-
tina, com a presença do cardeal de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, hoje papa
Francisco, de lideranças carismáticas e pentecostais, além de um público de cerca de
5.000 pessoas. Estivemos no evento e pudemos constatar que a maioria dos presentes
era formada de carismáticos católicos. Entre as principais atrações convidadas para
esta conferência figuravam: o bispo Joseph Grech, líder da Renovação Carismática
da Austrália; o pastor Omar Cabrera Jr., líder pentecostal argentino; o padre Lucas
Casaert, pároco de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), compositor de canções muito
conhecidas no meio dos católicos carismáticos argentinos; e Kim Phuc, a menina
vietnamita que foi fotografada, em 1972, correndo de um ataque americano com Na-
130 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 122-144, 2013

palm,19 hoje embaixadora da boa vontade da Unesco e evangélica convertida. Uma


matéria sobre a trajetória de Kim foi divulgada numa página inteira do jornal Clarín,
jornal argentino de maior repercussão nacional. Na capa da mesma edição havia uma
pequena descrição de como fora o evento:

Muito distantes estão os tempos em que católicos e evangélicos não se


dirigiam a palavra, dizia ontem no Luna Park um dos milhares de parti-
cipantes do V Encontro Fraterno de Evangélicos e Católicos, realizado
por iniciativa do movimento de renovação carismática que hoje atravessa
todo o cristianismo. Fiéis de comunidades que até algumas décadas se
evitavam ontem deram as mãos para rezar, cantar e ouvir reflexões de
personalidades, como o cardeal Jorge Bergoglio e o pastor Norberto
Saracco. 20

“Com estes encontros queremos destacar mais o que nos une que o que nos
separa”, disse o responsável da área de ecumenismo da Arquidiocese de Buenos Aires,
padre Fernando Gianetti. “Somos parte de um processo de reconciliação entre cris-
tãos”, adicionou. Segundo Saracco, “é uma tentativa de caminhar juntos, um passo a
mais na senda de aproximação entre igrejas”. O encontro, com o tema “Reconciliados
em Jesus”, sintetizou “a vocação de unidade na diversidade reconciliada” (El Clarín
2009:54; tradução livre nossa do espanhol).
Merecem consideração três momentos desse festival. Em primeiro lugar, a par-
ticipação do pastor Carbera Jr., que fez uma sessão de cura divina leve para os padrões
pentecostais, sem quedas ao solo, mas com testemunhos de fiéis presentes de curas
alcançadas naquele momento.
Num outro momento, o pastor da Iglesia del Centro, Carlos Mraida, fez um
pronunciamento ao país em nome dos líderes religiosos católicos e pentecostais pre-
sentes no evento, reforçando a ideia de reconciliação e perdão mútuo entre católicos
e evangélicos e efetuando recomendações diretas aos eleitores e aos políticos, já que
dentro de pouco mais de um mês iriam acontecer as eleições legistativas. Eis alguns
extratos do pronunciamento do pastor Carlos Mraida em seu discurso no dia 1º de
maio de 2009, em evento da Creces:

A reconciliação tem uma dimensão política. A partir deste lugar e a partir


do humilde signo de reconciliação que nós hoje celebramos, somos e
mostramos, chamamos a classe política argentina para que termine com
os antagonismos, com os discursos que enfrentam e dividem [aplausos,
pausa], que termine com os modelos classistas de direita, de esquerda,
de centro ou de qualquer ideologia que exclua aos outros. Pedimos aos
senhores políticos de situação e de oposição que sejam conscientes da
gravidade da hora. Que antes e depois de 28 de junho [dia de eleição
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 131

para deputados federais em 2009] pactuem, façam acordos. Reconciliar-se


não significa diluir suas ideologias e negar as discrepâncias e diferenças
próprias de todo sistema político democrático. Chamamo-los à recon-
ciliação, o que significa privilegiar o bem comum, gerando as grandes
políticas de Estado com as quais todos os argentinos estão de acordo.
Todos querem viver em paz, em liberdade, com trabalho, com justiça,
com dignidade. Pactuem grandes políticas de segurança, de superação da
pobreza e da marginalidade, de educação, de justiça, de saúde... Por favor,
representem-nos. Pedimos aos senhores dirigentes que todas as linhas
políticas se reconciliem com os interesses do povo. Se não o fizerem, se
se aprofundarem as divisões, o efeito bumerangue voltará sobre vocês e
outra vez ouviremos o desesperado e improdutivo grito popular: Que se
vayan todos (Mraida; tradução livre nossa).

Continuou o mesmo pastor enfatizando a importância da reconciliação:

Por isso, chamamos à reconciliação, à concertação, ao acordo. A reconci-


liação tem uma dimensão socioeconômica. Chamamos aos que têm mais
a se reconciliar com os que sofrem, com os que passam necessidade, com
os mais pobres. Chamamos à reconciliação que diminua o gigantesco
fosso que há hoje entre os que mais têm e os que menos têm. Fosso que
se alarga e que marca com um sulco fundo o coração dos mais pobres, por
causa da obcenidade da ostentação dos mais poderosos. A violência da
ostentação, como outro bumerangue, volta travestida de roubo, sequestro
e assassinato. A insegurança não se diminue levantando muros entre o
bairro fechado e a vila, mas compartilhando com o que menos tem e
gerando uma distribuição mais justa das riquezas [aplausos]. Aqueles aos
quais a vida abençoou com oportunidades de educação, de progresso,
de prosperidade, devem saber que os privilégios vêm acompanhados de
responsabilidades e que o maior resseguro para aproveitar desses benefí-
cios, em maior ou menor medida, todos sejam participantes da festa da
vida. Por isso chamamos à reconciliação, como exorta a palavra de Deus:
“Como embaixadores da reconciliação”. Chamamos aos pais a voltarem
seus corações para seus filhos, e aos filhos, para voltarem seus corações
aos pais. Aos esposos a amar, privilegiar e promover suas esposas, e às
esposas a amar, respeitar e levantar a seus esposos [aplausos]. Acolher ao
chamado da reconciliação familiar, entre outras coisas, significa fechar
as portas aos mercenários da droga por meio de um diálogo fecundo
e criativo entre pais e filhos [aplausos]. Significa fechar as portas aos
mercenários da imoralidade, filtrando o que ouvimos através dos meios
de comunicação. Significa fechar as portas aos mercenários da morte,
132 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 122-144, 2013

afirmando o direito à vida desde a concepção. Significa fechar as portas


aos mercenários do consumo que nos fabricam novas necessidades para
nos manter necessitados, ocupados e escravos deles, elevando novamente
os valores evangélicos do contentamento e da sobriedade. Significa que
cada um priorize o valor da unidade familiar como essencial para uma
vida plena. O não privilegiar a família, como outro bumerangue, voltar-
nos-á em destruição, vício, desgraça, sofrimento, perda, morte (idem).

Um terceiro momento marcante do encontro Creces, em 2009, foi o discurso do


então cardeal Bergoglio. Numa oração em voz baixa, ouvida em silêncio por todos, que
ecoava a recém-proclamada carta conjunta dos líderes, assim se manifestou o cardeal:

Senhor Jesus, perdoa nossos pecados. Nossos pecados de divisão, de


inveja, de ciúme, de soberba... Mas te pedimos, Senhor, que não olhes
nossos pecados, mas a fé desta tua igreja, e nos dê a graça da unidade e da
paz. Que nossas diferenças construam a nação e não sejam beligerantes.
Senhor Jesus, olhai nosso povo. Olhai nossa esperança que são nossas
crianças e nossos anciãos. [...] Senhor, reconcilia-nos. Faz-nos crescer
como irmãos (Bergoglio; tradução livre).

As plataformas de reconciliação apresentadas pelas lideranças pentecostais


e católicas apresentam-se, portanto, como uma expressão dos pontos de desacordo
com temas correntes do mundo secular, na disputa pela construção da nação. Tais
pontos vão sendo sedimentados nos documentos da Igreja Católica, como em recente
documento do primeiro encontro de pentecostais e carismáticos no Brasil, “Diálogo
católico-pentecostal – relatório internacional 8 e 129” (sobre o qual falaremos mais
adiante) em que se pode ler o seguinte:

Pentecostais e católicos podem atuar juntos na promoção de valores e


projetos positivos para a sociedade humana. Seguindo o espírito de Mateus
25:31-46 podemos lutar juntos contra o pecado, promovendo a digni-
dade humana e a justiça social. Com o tempo, outras questões surgirão.
Mas já existem muitas com as quais podemos trabalhar juntos. Podemos
cooperar em ações como: desarmamento e paz, socorro a refugiados e
vítimas de catástrofes naturais, alimentação dos famintos, oferta de ensino
para analfabetos, programas de reabilitação de drogados, resgatar jovens,
homens e mulheres da prostituição. Podemos agir conjuntamente para
superar a discriminação sexual e racial, trabalhar pelo direito e dignidade
das mulheres, combater ativamente legislações permissivas (quanto ao aborto
e à eutanásia), promover o desenvolvimento urbano e rural, promover a
moradia para os mais pobres, denunciar violações do meio ambiente e
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 133

o uso irresponsável dos recursos naturais, renováveis e não renováveis.


Em algumas partes do mundo, pentecostais e católicos já colaboram
na solução de vários desses problemas e outros mais (apud Maçaneiro
2008:31; grifo nosso).

Para além da Creces outros importantes pastores e líderes evangélicos argentinos
também defendem a aproximação, e não mais os enfrentamentos, entre evangélicos
e a Igreja Católica. É o caso, por exemplo, de Ruben Proietti, da Igreja Batista,21 e de
Carlos Anacondia, fundador da “Misión Cristiana Mensaje de Salvación”22.
O primeiro afirma que embora muitos evangélicos não estivessem de acordo
(leia-se os evangélicos que não compactuam com a perspectiva da Nova Reforma
Apostólica e afirmam a perspectiva denominacionalista):

Começamos uma aproximação interesante com a Igreja Católica, e com


gente de primeiro nível. Eu sou amigo do cardeal (de Buenos Aires). O
objetivo evangélico não é tirar fiéis da Igreja Católica: nós respeitamos
a todos, somos todos cristãos (Proietti em entrevista a Daniel Alves; 20
de outubro de 2009).

Por seu turno, Carlos Anacondia defende a ideia de que o Espírito Santo con-
siste na figura capaz de aproximar católicos e evangélicos. Segundo as suas palavras:
“a unidade da Igreja só é possível através do Espírito Santo”.

Outras práticas ecumênicas

Não é somente na Argentina que estão ocorrendo encontros entre evangélicos,


predominantemente pentecostais, e católicos, preferencialmente fiéis à RCC. Vejamos
alguns exemplos.
Reinaldo Reis, membro fundador da RCC no Brasil, ex-presidente da RCC no
Brasil, recorda que os primeiros livros sobre Pentecostes e o Espírito Santo que o padre
Haroldo Rahm distribuiu para alguns líderes do movimento Treinamento de Liderança
Cristã (TLC), no início da implantação da RCC no Brasil, nos anos 1960, eram todos
livros protestantes (Reis 2010:29).
Gerson Santos, coordenador da RCC em Porto Alegre, destaca que:

No início da RCC as músicas escutadas eram dos cantores pentecostais,


pois no meio católico não tinha cantores. Não havia problema em escu-
tar as músicas evangélicas, já que falavam a mesma língua dos católicos,
falavam sobre o amor de Deus e sobre o poder do Espírito Santo. Com
o tempo veio o padre Jonas e o padre Marcelo Rossi, mesmo assim os
dois foram influenciados por cantores pentecostais. O Asaph Borba, por
134 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 122-144, 2013

exemplo, é evangélico, e ajuda bastante os cantores da RCC, com os


arranjos musicais e nas composições (em entrevista a Joana Morato).23

De fato, em entrevista que nos concedeu,24 o músico e compositor gaúcho gos-


pel Asaph Borba confirmou ter sido convidado várias vezes para cantar em encontros
ecumênicos e mesmo de carismáticos católicos. Afirmou, também, que teve músicas
de sua autoria gravadas por padres católicos. Marcelo Rossi gravou uma música sua
chamada “Jesus” e Antonio Maria gravou a sua composição “Deus é Amor”. Sua mú-
sica, diz, tem o papel de juntar os cristãos. “Minha música não é só para evangélicos.
É para todos os cristãos e para toda a criatura”.
O importante líder evangélico de Porto Alegre Isaias Figueiró25 declarou que em
2007 o pastor argentino Juan Carlos Ortiz, que atualmente trabalha nos ministérios
hispânicos de uma mega-igreja norte-americana, esteve pregando em seu ministério,
em Porto Alegre. Diz ele:

É um pregador argentino muito conhecido no meio católico, no mo-


vimento carismático. Esteve o ano passado conosco, em março aqui.
Ele foi muito incentivador e foi um dos que trabalhou muito no mundo
todo; inclusive no Brasil ele é muito conhecido do movimento católico
carismático (em entrevista a Daniel Alves). 26

Porém, o encontro entre evangélicos e católicos simbolicamente mais signifi-


cativo ocorrido em solo brasileiro se deu nos dias 30 de abril e 1 de maio de 2008, em
Lavrinhas (São Paulo) por ocasião do 1º Encontro de Irmãos Evangélicos e Católicos,
que teve como tema “Que todos sejam um”. O encontro foi patrocinado pela TV
Canção Nova, fundada pelo padre Jonas Abib,27 um dos pioneiros da implantação da
RCC no Brasil, e teve como objetivo, como afirmou o bispo da Diocese de Lorena,
dom Benedito Beni, “integrar carismas de igrejas e comunidades cristãs”.
A organização do evento ficou a cargo da Comissão Episcopal Pastoral para o
Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso e dele participaram cerca de 170 pessoas, de apro-
ximadamente vinte diferentes comunidades cristãs, provenientes do Brasil e de países como
Argentina, Chile, Inglaterra, Estados Unidos e Itália. Entre os presentes se encontravam,
entre outras personalidades: o presidente da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e
Diálogo Inter-Religioso, dom José Alberto Moura; o fundador da Comunidade Canção
Nova; o presidente nacional e vice-presidente internacional da Fraternidade das Novas
Comunidades, monsenhor Jonas Abib; o padre Marcial Maçaneiro SCJ, assessor para o
diálogo ecumênico e inter-religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNBB;
o presidente internacional da Fraternidade das Novas Comunidades e fundador da Co-
munità di Gesù (Itália), Matteo Calisi; e o pastor argentino, Jorge Himitian.28
Na oportunidade, dom Beni destacou que “desde 1964, com o Concílio Vati-
cano II, a Igreja Católica se sente em comunhão com todas as igrejas cristãs”. Matteo
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 135

Calisi também destacou o Concílio como determinante para o desenvolvimento da


Renovação Carismática e do ecumenismo e, além disso, frisou que deposita confiança
na América Latina como território de reconciliação dos cristãos, afirmando que:

A América Latina pode representar um modelo de unidade entre cristãos


que, juntos, retornam a casa do Pai, amando-se e respeitando-se através
de um projeto de purificação da memória e da reconciliação (Maçaneiro
2008:12).

Monsenhor Jonas frisou a necessidade de união dos cristãos, salientando ser


a divisão o “nosso maior pecado”. Por isso mesmo, afirmou, sua missão à frente da
Canção Nova consiste justamente na promoção da unidade dos cristãos. O pastor
argentino Jorge Himitian destacou que “as linhas divergentes iniciadas no século
XVI hoje estão se quebrando, tornando-se convergentes”. Para o pastor argentino,
o encontro de Lavrinhas consiste “na oportunidade para renovar a comunhão entre
evangélicos e católicos”.29
Nesse encontro, Jorge Himitian expôs a sua experiência com a Comunidad
Cristiana e a Creces, com um discurso centrado na busca pela unidade dos cristãos:

Logo, a Igreja não é produto dos apóstolos, nem de nós, isolados uns dos
outros. É, sim, obra do Espírito de Cristo – tantas vezes esquecido na nossa
tematização teológica. Constatamos que a ausência da pneumatologia
enfraqueceu a espiritualidade que, por sua vez, enfraqueceu a unidade,
que se alicerçava na santidade. Não por acaso em João 17 a unidade é
matéria da oração de Jesus. Ela requer a glória de Deus em nós. Requer que
sejamos santos. Retomar a santidade é retomar o caminho ecumênico em
seu verdadeiro rumo. Toda perda de santidade acarretou divisões, dentro
de nossas Igrejas e entre nossas Igrejas (Himitian in Maçaneiro 2008:12).

Em 2009, os encontros entre pentecostais e carismáticos passaram a ter uma


organização semelhante ao Creces argentino, com o nome Encristus (Encontro de Cris-
tãos na Busca de Santidade e Unidade) e um logotipo30. O encontro de 2009 ocorreu
em Mariápolis (São Paulo) o de 2010, no Rio de Janeiro, e o de 2011, em Pouso Alegre
(Minas Gerais). Em 2009, reuniu 120 pessoas na casa de retiro em Mariápolis, em
Vargem Grande Paulista; o de 2010 reuniu 145 lideranças cristãs; o de 2011, cerca de
150 pessoas. O encontro de 2012 ocorreu entre os dias 24 e 26 de agosto, no Centro
de Eventos Vale da Águia, em Sorocaba, São Paulo.
Tais encontros sempre contaram com a participação de membros e assessores
da CNBB31 e de representantes e membros de várias denominações evangélicas, como
Assembleia de Deus, Igreja do Nazareno, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja
Metodista Wesleyana, Igreja do Evangelho Pleno e outras.
136 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 122-144, 2013

Tanto líderes católicos quanto evangélicos consideram o Encristus como sendo


na atualidade um espaço muito importante de encontros ecumênicos no Brasil. O
atual acessor ecumênico da CNBB, padre Elias Wolff, considera-o como “o exemplo
mais significativo” de encontro, de relação, de conhecimento mútuo. A organização
constitui, como afirmou em entrevista,32 uma iniciativa “mais da espiritualidade, do
louvor, da oração, do testemunho da fé, que é bem característico de pentecostais e
católicos carismáticos e está sendo como um patamar positivo”.
Também Reis33 considera o Encristus como a atual experiência mais significativa
de “comunhão fraterna com esses irmãos”, independente da forma como cada um
“enxerga o evangelho, sem querer corrigi-lo, uma vez que essencialmente as grandes
verdades são aceitas por todos nós”. Reconhece, porém, que até o presente momento
o Encristus orbita em torno de situações relacionadas à experiência religiosa, distante,
por exemplo, de engajamentos de ordem politica. Trata-se, segundo suas palavras, de
“um encontro de expressões que tem por traço comum a experiência pentecostal”.
Ainda segundo Reis, a postura que vigora no interior do Encristus é a do respeito
mútuo e da aceitação das diferenças. Entrevistado, ele disse: “Nós sabemos, nós somos
diferentes. Nós temos que aceitar isso, nós temos posturas diferentes, histórias [...]
saímos contentes dos nossos encontros, sem nenhum sentimento de culpa de alguma
coisa, de renegar o que quer que seja”.
Por fim, Marcial Maçaneiro também destaca que:

Caracteriza-se como um “encontro”, não uma “comissão”. É batismal,


fraterno, orante, bíblico, cristocêntrico, testemunhal e eclesial (no
sentido de que reúne membros do Corpo de Cristo). Tem funções in-
tencionalmente pedagógicas, ao educar seus membros e os membros das
comunidades aderentes ao diálogo, iniciando pela oração conjunta (em
entrevista a Brenda Carranza).

Ressalva, porém, que “tudo isto é muito pouco para o cenário brasileiro”,
apontando como impasses para o contato e o diálogo católico/pentecostal “questões
identitárias, institucionais e psicológicas que o atravessam”. Sublinha, mesmo assim,
sua “expectativa de que o Encristus favoreça, de algum modo, a constituição de uma
futura Comissão Nacional de Diálogo Católico-Pentecostal no Brasil”.34

Considerações finais

O século XX foi marcado por oposições, tensões, conflitos, mas também por
encontros e aproximações entre católicos e pentecostais. O advento da Renovação
Carismática Católica na década de 1960 foi analisado, em seu princípio, tanto no in-
terior como fora daquela instituição, como um movimento capaz de fortalecer ainda
mais a diferença e a oposição entre catolicismo e pentecostalismo. A RCC seria, nesse
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 137

caso, mesmo que se assemelhando em certos aspectos ao pentecostalismo, a estratégia


católica para enfrentar a deserção de católicos e, assim, frear o avanço pentecostal.
Com o passar dos anos, porém, perspectivas de aproximação e de diálogo entre
católicos e evangélicos em geral e entre Renovação Carismática Católica e Pentecos-
talismo em particular, foram tomando forma a partir de sementes plantadas sobretudo
no Concílio Vaticano II e em reflexões de teólogos evangélicos. As posições teológico-
doutrinárias foram também se traduzindo em encontros ecumênicos realizados nos
Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Países como Argentina, Brasil e
Chile têm promovido encontros de líderes católicos e pentecostais que compartilham
da noção de diálogo e aproximação, em nome de uma mesma matriz religiosa cristã e
do compartilhamento dos dons do Espírito Santo.
Importa frisar que é somente uma parcela dos evangélicos que acolhe a perspec-
tiva da aproximação com o catolicismo, especialmente com a RCC, e que a Renovação
Carismática Católica se afirma como a interlocutora católica privilegiada, mas não
exclusiva, na relação de diálogo ecumênico com os pentecostais.
Mesmo assim, reiteramos o que fora dito mais acima: a RCC, que nos seus pri-
mórdios teria sido pensada como o movimento católico capaz de enfrentar o pentecos-
talismo, está agora também se tornando uma importante via católica de aproximação,
de diálogo e de encontro, visando à superação das barreiras erguidas entre eles. Não
significa, porém, que uma tendência esteja anulando a outra: ambas coexistem numa
relação tensional.
Destacamos dois outros fatores, além dos já referidos, que parecem incidir sobre
as possibilidades de aliança entre pentecostais e católicos carismáticos. O primeiro
elemento a se pesar nessas configurações é seu caráter político. As convicções a respeito
da necessidade de ação política direcionada às pautas consideradas como “ameaças à
família” (em especial o aborto legal e a união civil homossexual) evidenciam-se cons-
tantemente nos documentos que examinamos. A carta aberta lida pelo pastor Mraida
no Encuentro Creces de 2009 e materiais impressos, como o registro do encontro de
Lavrinhas, em 2008, indicam que essas aproximações abrem a possibilidade de que
afinidades políticas, até agora acordadas somente nos ambientes políticos, sejam ce-
lebradas aberta e ritualmente.
Outro fator a ser observado é o aspecto mercadológico dessas alianças para o
mercado de música religiosa. Considerando as falas dos líderes que entrevistamos,
pode-se concluir que o mercado de música gospel pentecostal antecedeu o mercado
de música católica, sendo que hoje ambos os segmentos fazem parte de um mesmo
portfólio de música religiosa produzida por grandes gravadoras, fomentando lucros
significativos. Gravadoras seculares, como a Sony Music e a Som Livre (esta última,
parte das Organizações Globo), alavancaram-se nos últimos anos como expoentes do
mercado de música gospel e na divulgação de padres cantores brasileiros. O fatura-
mento anual do segmento foi estimado de forma otimista, em matéria de uma revista
gospel (Zágari 2011), em 500 milhões de reais – trantando-se aqui de um público fiel,
138 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 122-144, 2013

o que se associa nesse mercado são taxas relativamente baixas de pirataria. O caso do
compositor e cantor gospel Asaph Borba indica a possibilidade de que em alguns lugares
do Brasil possa ter havido uma influência direta de evangélicos na profissionalização
de grupos e de cantores católicos carismáticos.

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Entrevistas

Realizadas no âmbito do projeto de pesquisa “Transnacionalização, Territoria-


lização e Representações acerca do Político e do Religioso em Porto Alegre, Buenos
Aires e Montevidéu”:

Pastor Isaías Figueiró, em 25/03/2008, concedida a Daniel Alves;


Músico Asaph Borba, em 12/08/2008, concedida a Ari Pedro Oro e Daniel Alves;
Evangelista Carlos Annacondia, em 20/10/2009, concedida a Daniel Alves;
Coordenador da RCC em Porto Alegre, Gerson Santos, em 08/07/2010, concedida a
Joana Morato.

Realizadas por Brenda Carranza no âmbito do projeto “Centro de Estudos


Latino-americanos de Pentecostalismo”, da University of Southern California, coor-
denado por Paul Freston, do qual também participou Ari Pedro Oro:

Padre Elias Wolff, em 25/10/2011;


Reinaldo Reis, em 30/8/2011;
Padre Marcial Maçaneiro, em 10/12/2011.

Notas
1
Uma primeira versão deste texto foi apresentada por Ari Pedro Oro na 27ª Reunião Brasileira de Antro-
pologia (Belém-PA, entre os dias 1º e 4/8/2010), no GT “Religiosidades brasileiras: percursos e desafios
do cristianismo”, que foi coordenado por Mísia Lins Vieira Reesink (UFPE) e Flávia Pires (UFPB).
Parte dos dados apresentados resulta do projeto de pesquisa “Transnacionalização, Territorialização
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 141

e Representações acerca do Político e do Religioso em Porto Alegre, Buenos Aires e Montevidéu”,


coordenado por Ari Pedro Oro, que teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq) entre 2008 e 2009. Outra parte dos dados aqui apresentados resulta da par-
ticipação de Ari Pedro Oro no projeto “Centro de Estudos latino-americanos de Pentecostalismo”, da
University of Southern California, coordenado por Paul Freston.
2
A primeira observação a ser feita é de que nem o pentecostalismo nem a Renovação Carismática
Católica constituem movimentos religiosos unívocos e homogêneos. Ao contrário, a heterogeneidade
e a diversidade são inerentes a eles. A complexidade paira em ambos os movimentos. Particularmente
em relação ao pentecostalismo e ao campo evangélico em geral, Clara Mafra observa que “os critérios
de classificação são muitos e ensejam uma disputa nominativa interminável” (Mafra 2001:7).
3
Para uma visão histórica e atual do pentecostalismo nos países do Mercosul ver: Oro e Semán (1997);
Frigerio (1994); Mariano (1996); Tennekes (1985); Willems (1967).
4
De fato, P. Freston chamou a atenção para o fato de que não há fronteiras claras entre as três ondas.
Elas também não se superpõem e o pentecostalismo brasileiro se caracteriza justamente pela interação
dos estilos provenientes das três ondas assim como pela rearticulação das relações entre esses grupos
evangélicos e entre estes e o resto da sociedade (Freston 1994).
5
Diga-se de passagem que, segundo matéria publicada no jornal Folha Online, de 16/04/2009, (ver
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u551926.shtml) os padres Fábio de Mello, com seu
disco Vida, da Som Livre, e Marcello Rossi, com seu trabalho Paz Sim, Violência Não, da Sony Music,
lideraram a venda de CDs no Brasil no ano de 2008. Abaixo deles, segundo a Associação Brasileira
dos Produtores de Discos, aparecem a dupla Victor & Léo e a cantora Ivete Sangalo.
6
Referimo-nos sobretudo aos documentos Unitatis Redintegratio, Nostra Aetate, Eclesiam Suam, Ad Gentes
e Lumen Gentium.
7
Recordamos, como já escrevemos em outro lugar (Oro 1996), algumas declarações, de uma época, de
alguns prelados brasileiros: “O êxito das chamadas seitas é visto como um grave problema” (dom José
Maria Pires in Estudos da CNBB, nº 68); “As seitas são um fenômeno da crise” (dom Luciano Mendes
de Almeida, ex-presidente da CNBB, em 1993); “As seitas são mais movimentos que igrejas e praticam
o aliciamento por todos os meios” (dom Lucas Moreira Neves, também ex-presidente da CNBB, em
1995); “O proselitismo fanático e interesseiro de algumas seitas” (padre Mario Miranda, em 1991).
8
A relação das recomendações e das evitações pode ser vista em Oro (1996); Prandi (1997); Sofiati (2009).
9
Os grupos de oração representam a base social da estrutura da RCC. No dizer de Sofiati, “os grupos
de oração são o campo próprio do movimento carismático. Seria o ‘anzol que atrai’ novos adeptos ao
movimento carismático” (Sofiati 2009:161). Para Carranza, eles seriam intermediários das comunidades
carismáticas (Carranza 2000:83). A atividade central é a oração de louvor, ação de graças, a fala em
línguas, de libertação e de cura.
10
Reinaldo Reis (2010:29), ex-presidente da Renovação Carismática Católica no Brasil, escreve que nos
documentos do Concílio Vaticano II são feitas 258 menções à Pessoa do Espírito Santo, “algo inédito
na história dos Concílios”.
11
Apud Maçaneiro (2008:22). Ver também a página da Santa Sé para o diálogo católico-pentecostal,
ver http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/sub-index/index_pentecostals.
htm, acesso em 06/04/2011.
12
No Brasil merece destaque o Simpósio Latino-americano sobre Pentecostalismo, ocorrido em São Paulo,
de 20 a 24 de setembro de 2005, promovido pelo Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, em
colaboração com o CELAM e a CNBB.
13
Ver http://www.afint.org, acesso em 06/04/2011. Paraa história e configuração dessa rede ao Sul da
América Latina, ver Alves (2011).
14
Possivelmente este fato pode ser explicado pela própria história de construção do campo evangélico
na Argentina e sua relação com as demais religiões, sobretudo com o catolicismo. De fato, a partir da
década de 1950, a Argentina conheceu um período de avivamento, na sequência de implantação do
protestantismo, que provém desde 1825. Com efeito, por ocasião da terceira etapa de implantação do
142 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 122-144, 2013

pentecostalismo na Argentina, iniciada com as Assembleias de Deus (em 1916) em 1954 aquele país
recebeu um grande impulso com a campanha levada a efeito pelo pregador norte-americano Tommy
Hicks, o qual pregou durante 52 dias em estádios de futebol, reunindo diariamente cerca de 50.000
pessoas. No dizer de Wynarczk e Semán, Hicks “consolidou positivamente a identidade dos pentecostais
alentando o desenvolvimento das vocações ministeriais” (Wynarczk e Semán 1995:4-8). Hicks teria
inaugurado um modelo de prática evangélica carismática, ensejando o surgimento, a partir década
de 1960, de importantes líderes carismáticos que assentam seu trabalho na noção de avivamento. É
o caso de Hector Gimenez, Carlos Annacondia, José Manuel Carlos, Osvaldo Carnival, Guilhermo
Prein, Hugo Weiss, Omar Olier, Alberto Scataglini entre outros (Grams 2007).
Na década de 1980, as campanhas e práticas proselitistas levadas a efeito por estes e outros pregadores,
atraíram a atenção de observadores internacionais. O próprio teólogo Peter Wagner, criador, como vimos,
da noção de “Nova Reforma Apostólica”, observou in loco a prática produzida por aqueles pregadores.
Por isso mesmo, Wynarczyk destaca que “várias cidades da Argentina [...] foram o laboratório das suas
teorias” (Wynarczyk 2009:138).
15
Ver em http://www.creces.org.ar – acesso em 31 de dezembro de 2009.
16
Disponível em http://www.cantalamessa.org – acesso em 15/03/2013.
17
Figuram no Conselho Executivo da Creces 6 evangélicos e 6 carismáticos católicos. Os evangélicos
são os seguintes: Jorge Himitian, pastor de Comunidad Cristiana; Norberto Saracco, pastor de la
Iglesia Buenas Nuevas; Elba Somoza, Iglesia Buenas Nuevas; Carlos Mraida, pastor de la Iglesia del
Centro; Hector Petrecca, pastor de la Iglesia Cristiana Bíblica; Angel Negro, pastor de Comunidad
Cristiana Zona Norte. Os carismáticos católicos são: padre. Fernando Giannetti, Responsable Comi-
sión Arquidiocesana de Ecumenismo – Buenos Aires; Julia Torres, coordinadora de la Comunidad de
Jesús en Argentina; padre Alberto Ibáñez SJ., Fundador de la Comunidad de Convivencias con Dios;
Abel Bulotta, Responsable de la Comunidad de Jesús (San Justo) – Buenos Aires; Pino Scafuro, co-
ordinador de la Renovación Carismática Católica Región Buenos Aires; Raúl Trombetta, Renovación
Carismática Católica. Além deles, constam como aderentes dois italianos: Matteo Calisi, presidente
de la Comunidad de Jesús y de la Fraternidad Católica de Comunidades Carismáticas de Alianza e
Carlo Colonna S.J., consejero Espiritual de la Comunidad de Jesús – Itália.
18
A este propósito, pode-se ler no site da Creces “Dentro de este propósito de vivir la unidad espiritual,
centrada más en lo que nos une que en lo que nos divide, Creces organiza encuentros mensuales de
oración, donde pueblo católico y evangélico alaba, adora e intercede y suplica al Padre común que
haga realidad el ruego de su Hijo, mediante la acción del Espíritu Santo” (http://www.creces.org.ar,
acesso em 31 de dezembro de 2009).
19
Para mais informações, ver “A foto que chocou o mundo”, matéria da BBC Brasil em http://www.bbc.
co.uk/portuguese/esp_viet_04.htm, acesso em 12 de outubro de 2010.
20
astor da igreja Buenas Nuevas de Buenos Aires, fundador da Faculdade Internacional de Estudos
Teológicos (FIET), doutor em teologia pela Universidade de Birmingham, onde defendeu tese sobre a
história do pentecostalismo argentino. É associado ao Movimento Lausanne, originado em 1974, a partir
do International Congress on World Evangelization, que reuniu dois milhares de líderes evangélicos
em torno ao rev. Billy Graham.
21
Ruben Proietti é muito próximo de Luis Palau, famoso pregador argentino radicado nos Estados Uni-
dos, o qual, por sua vez, é próximo dos Graham. Todos os eventos em que Palau participa na América
Latina são organizados por Proietti.
22
Carlos Anacondia talvez seja o mais famoso pregador argentino em atividade atualmente, com grande
circulação internacional. Sobre dados biográficos deste pregador ver Oro (2010). Wynarczyk esclarece
que: “Mensaje de Salvación no es propriamente una iglesia, sino una organización para-eclesiástica
de campañas evangelisticas, sanidad y liberación. Sin embargo posee ‘fichero de culto’, lo que en la
Argentina la acredita como organización religiosa, y una red de veinticinco congregaciones asociadas.
La organización distribuye, a través de grabaciones y revistas de aparición irregular, los mensajes de C.
A., testimonios de sanidad, relatos de campañas, artículos de colaboradores y músicas cantadas en las
Oro e Alves: Renovação Carismática Católica 143

reuniones por solistas del staff” (Wynarczyk 2003:87).


23
Conforme entrevista concedida à estudante Joana Morato, do Curso de Ciências Sociais, da UFRGS,
em 8/7/2010.
24
Conforme entrevista concedida a Ari Oro e Daniel Alves, em 12/08/2008.
25
Isaias Figueiró foi presidente do Conselho de Pastores da Cidade de Porto Alegre. Fundou, em 1988,
um ministério pentecostal chamado “Encontros de Fé”, que congrega cerca de 10 mil pessoas.
26
Em entrevista concedida a Daniel Alves, à época doutorando do PPGAS, da UFRGS, em Porto Alegre,
no dia 25/03/2008.
27
Segundo Gabriel, padre Jonas Abib foi ordenado sacerdote em 1964, na congregação salesiana, e fundou
a Canção Nova, uma comunidade carismática, em 1978 (Gabriel 2010).
28
Pode-se ainda destacar os pastores: Cristian Romo, evangélico chileno; Jamê Nobre da Comunidade
Cristã Missionária (Jundiaí); Anésio Rodrigues da Comunidade Carisma (Osasco); Sergio Franco da
Aliança Missionária de Discípulos (Rio de Janeiro); as leigas carismáticas católicas Angela De Bellis,
da Comunità di Gesù (Rio de Janeiro); Doris Hoyer de Carvalho, da Comunidade Bom Pastor (Rio
de Janeiro); e o leigo Izaías de Souza Carneiro, da Comunidade Coração Novo (Rio de Janeiro).
29
Todos os dados acima foram retirados do site http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=258811
– acesso em 1/6/2010. O encontro foi documentado pelo padre Marcial Maçaneiro, SCJ (2008).
30
Ver site e logotipo em http://www.encristus.com.br – acesso em 01/06/2010.
31
Nos últimos três encontros tem participado o padre Elias Wolff, assessor da comissão episcopal para
ecumenismo e o diálogo inter-religioso.
32
Em entrevista concedida a Brenda Carranza, em 25/10/2011, no âmbito do projeto “Centro de Estudos
Latino-americanos de Pentecostalismo”, da University of Southern California.
33
Em entrevista concedida a Brenda Carranza, em 30/8/2011, no âmbito do projeto referido.
34
Em entrevista concedida a Brenda Carranza, em 10/12/2011, no âmbito do projeto acima referido.

Recebido em agosto de 2011


Aprovado em dezembro de 2012

A r i Pe d r o O r o (arioro@uol.com.br)
Doutor pela Universidade de Paris, professor de Antropologia na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, pesquisador do CNPq e membro do Núcleo de
Estudos da Religião (NER/UFRGS). Pesquisa, atualmente, as relações entre
religião e política e a transnacionalização evangélica latino-americana para a
Europa.  

D a n i e l A l v e s (danalves1978@yahoo.com.br)
Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e
professor da Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão, junto ao De-
partamento de História e Ciências Sociais. Atua na área de Antropologia da
Religião, tendo publicado artigos sobre catolicismo, budismo e pentecostalismo
em revistas especializadas.  
144 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 122-144, 2013

Resumo:

Renovação Carismática Católica: movimento de superação da oposição


entre catolicismo e pentecostalismo?

Se a Renovação Carismática Católica foi analisada, sobretudo em seu princípio, como


um movimento de fortalecimento do catolicismo frente ao avanço pentecostal, na atu-
alidade ela parece cumprir também novos sentidos: superar as barreiras institucionais
entre o catolicismo e o pentecostalismo e fortalecer, por parte de membros de ambas
as organizações religiosas, o sentimento de pertencimento a uma mesma identidade
cristã. Trata-se, evidentemente, de uma tendência que atrai somente a parcela católica
e pentecostal que compartilha uma produção teológica semelhante, independentemente
de sua origem católica ou evangélica. Este artigo resulta de um trabalho de campo a
respeito dos universos católico e evangélico do sul do Brasil e na Argentina, no período
de 2008 a 2011.

Palavras-chave: Pentecostalismo, Renovação Carismática Católica, Ecumenismo.

Abstract:

Catholic Charismatic Renewal: A Movement to Overcome The Split


Between Catholicism and Pentecostalism?

Catholic Charismatic Renewal was analyzed, especially at its beginning, as a movement


of Catholic strengthening in face of Pentecostal advancing. However, the Charismatic
Renewal currently seems to fulfill a new sense: it has been surpassing institutional
boundaries between Catholicism and Pentecostalism, in a broader sense, and it has been
strengthening the feeling of membership of both religious organizations as a common
Christian identity. Obviously, it is a tendency that attracts sections of Catholics and
Pentecostals who share similar theological production, independently of its Catholical
or Evangelical origin. This article results from fieldwork performed in both Catholic
and Evangelical milieux in Southern Brazil and Argentina, between 2008 and 2011.

Keywords: Pentecostalism, Catholic Charismatic Renewal, Pentecostalism, Ecumenism.