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O conceito de poluição

Daniel Perdigão Nass


Estudante do curso de química do IQSC-USP - Instituto de Química de São Carlos da Universidade de
São Paulo

A questão ambiental vem ganhando importância nos últimos tempos. A ecologia, estudo
das relações de interdependência entre os organismos que constituem a natureza viva,
tem sido mais frequentemente discutida tanto pelos meios de comunicação quanto pela
população. Entretanto, assim como em outras áreas do conhecimento humano que se
popularizaram rapidamente, como a psicologia, alguns termos têm sido utilizados de
forma inexata em relação à sua definição científica.

Poluição é um desses termos. Poluição é uma alteração ecológica, ou seja, uma


alteração na relação entre os seres vivos, provocada pelo ser humano, que prejudique,
direta ou indiretamente, nossa vida ou nosso bem-estar, como danos aos recursos
naturais como a água e o solo e impedimentos a atividades econômicas como a pesca e a
agricultura.

Nem toda alteração ecológica pode ser considerada poluição. Um lançamento de uma
pequena carga de esgoto doméstico em um rio provoca a diminuição do teor de oxigênio
de suas águas. Mas se esta diminuição de oxigênio não afetar a vida dos peixes nem dos
seres que lhes servem de alimento, então o impacto ambiental provocado pelo esgoto
lançado no rio não é uma poluição.

Algumas vezes, a palavra contaminação é utilizada equivocadamente no sentido de


poluição. A contaminação é a presença, num ambiente, de seres patogênicos, que
provocam doenças, ou substâncias, em concentração nociva ao ser humano. No entanto,
se estas substâncias não alterarem as relações ecológicas ali existentes ao longo do
tempo, esta contaminação não é uma forma de poluição.

Esta diferenciação é fundamental no caso do ambiente ser a água. Se estivermos falando


em contaminação da atmosfera, a diferença entre contaminação e poluição perde
importância, visto que ela é o ambiente de onde o ser humano capta oxigênio. O ar
contaminado, seja com gases tóxicos ou partículas microscópicas em suspensão,
também não pode ser confinado em um determinado espaço, como o solo e a água.
Assim, a contaminação do ar tem consequências diretas na vida do homem, devendo ser
classificada também como poluição. Já o observado aumento da concentração de gás
carbônico na atmosfera é apenas poluição, visto que este gás não é potencialmente
tóxico.

Da mesma forma é comum confundir contaminação com sujeira. Uma água barrenta, de
coloração acentuada, malcheirosa ou espumante é considerada impura ou nociva, por
estar "suja". Entretanto, muitas vezes, trata-se de uma água que não faz mal à saúde. Já
uma água realmente contaminada por germes patogênicos, mas inodora e de aparência
límpida, não é rejeitada. Trata-se de um equívoco perigoso. Deixar de beber a água suja
não traz nenhum risco. Pelo contrário, é uma atitude prudente. Já beber a água que
parece potável pode trazer graves consequências à saúde.
Outra característica que deixa clara a distinção entre poluição e contaminação é a
passividade comumente associada à primeira. O fator de poluição não costuma agir
ativamente sobre o ser vivo, mas indiretamente retira dele as condições adequadas à sua
vida. A poluição da água é um exemplo. As alterações ecológicas que provocam a morte
dos peixes de um rio que recebe grande quantidade de esgotos não se dão pela ação de
uma substância ou ser patogênico letal, mas sim pelo lançamento de alimento em
quantidade excessivamente grande.

O esgoto é constituído principalmente por matéria orgânica. Este tipo de substância


serve de alimento a animais, fungos e bactérias. Sua introdução naquele ambiente é, em
quantidades pequenas, favorável, pois alimenta direta ou indiretamente os peixes. Mas
quantidades maiores só poderão ser consumidas por bactérias, que passarão a ter
condições excepcionais para multiplicar-se rapidamente.

Entretanto, o aproveitamento da energia contida naquele alimento só pode ser efetuado


com o consumo de oxigênio, através da respiração celular. Este consumo passa a ser
bem maior que a quantidade de oxigênio que a água pode voltar a captar da atmosfera
ou que recebe das algas que fazem fotossíntese. Com isso, os organismos maiores,
como os peixes, que precisam de concentrações maiores de oxigênio para sobreviver,
são os primeiros a morrer. Ou seja, não morrem diretamente por causa do esgoto jogado
na água, mas sim devido às consequências de sua presença no ambiente.

Outra incorreção é chamar simplesmente de poluição a poluição atmosférica. Existem


diversos ambientes onde a poluição pode surgir, não só no ar, portanto, é necessário ser
específico. Da mesma forma, não existe apenas a poluição química, onde substâncias e
reações químicas são o fator de poluição. Podemos citar a poluição física, ligada a
fenômenos físicos, como quando uma indústria lança água ainda quente em um rio, o
que provoca liberação do oxigênio dissolvido, e a poluição físico-química, associada a
processos químicos que alteram propriedades físicas, como a diminuição da tensão
superficial da água provocada por detergentes, resistência da qual depende a vida de
muitos seres que vivem na água ou próximo dela.

Alguns dos conceitos apresentados aqui não têm as mesmas interpretações para todos os
cientistas, mas são estas as mais comumente empregadas. Infelizmente, os meios de
comunicação do Brasil têm, com frequência, difundido as interpretações não usuais
desses termos científicos. Entretanto, não só ideal como é fundamental a utilização
adequada dos termos, sob pena de não se ser compreendido.

NASS, D. P. O Conceito de Poluição. Revista Eletrônica de Ciências. Número 13,


Novembro de 2002. Disponível em:
<http://www.cdcc.usp.br/ciencia/artigos/art_13/poluicao.html>. Acesso em 23 de
Agosto de 2013.