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Ih, sujou!

Dramaturgia do novo espetáculo do Grupo Trama

PRIMEIRA PARTE

Um elevado de lixo já posto em cena, desde a chegada do público. Esse elevado pode lembrar um globo terrestre, por alguns detalhes, cor, forma. No entanto, é sim um amontoado de lixos de diversas natureza. Música: Besh o Drom, da banda FanfareCiocarlia Durante a execução da música, essa massa de lixo vai se transformando, movimentando, pulsando até nos revelar, para além dos materiais descartados, partes de corpos (pés, braços, cabeças). Em um determinado momento, três cabeças são reveladas e situações vão se desenhando em torno dessa nova informação (é um amontoado disforme de lixo com gente e tudo).

Em um determinado momento das ações, desenvolve-se a seguinte conversa:

MARCO A culpa é sua.

ELISÂNGELA Minha? É sua!

DANI Ah, mas só se for. A culpa é dele e sua também.

MARCO Eu? Tenho nada com isso não!

ELIS Ah, mas não vem tirar o corpo fora não.

DANI Como é que tira o corpo fora?

TODOS A culpa é nossa.

ELIS E o Joca?

(TEMPO)

DANI Vish! Não vejo o Joca desde cedo

MARCO O Joca deve ter se perdido por ai adentro.

ELIS (chamando) Joca!

MARCO Como é que a gente chegou até esse monte de lixo?

ELIS Eu não sei de onde esse monte de lixo saiu.

MARCO Pois é! Todo dia o lixo sumia! Eu achava que era para sempre. Vocês se lembram?

ELIS Claro que me lembro! Era colocar o lixo pra fora e ele desaparecia! Adeus! Até nunca mais.

DANI Era muita gente fazendo a mesma coisa, do mesmo jeito

MARCO Sem se dar conta que um dia (mudança drástica) AQUELE HORRIPILANTE DIA! Vocês se lembram?

ELIS (lembrando) Que você, ela e eu

Ah! Agora eu me lembro.

(Partem para a organização da cena)

MARCO Todo dia eu fazia assim: lançava uma tecnologia, eu ia lá e

jogava a antiga fora fora

Travou, eu jogava fora. Desconectou, eu jogava

ELIS Já eu fazia assim: ia ao supermercado, comprava minhas delicinhas e depois era um tanto de embalagem pra jogar fora! Embalagem de plástico, eu jogava fora. Um isopor, jogava fora. Um papelão, jogava fora! Sacolinha, eu jogava fora

DANI Eu todo os dia separava

MARCO

aconteceu

E isso assim, todo dia, até que algo terrível e curioso

DANI Ô dia!

SEGUNDA PARTE

Uma narrativa sobrepõe as ações dos personagens.

- Outro dia tranqüilo na nossa pacata cidade: o dia que tudo aconteceu.

- Esta é Dona Formosa Bom Ar!

- Essa simpática senhora já está de pé, pronta para colocar seu lixo para fora.

Dani/Dona Formosa pigarreia, como que em discordância.

- Dona Formosa gosta da ordem! Para evitar ratos e baratas, ela passa os dias a separar o seu lixo de casa.

- Lixo seco do lixo úmido.

- Papel, plástico, alumínio

- E tem também uma sacola só para os vidros. Mas todo dia pela

manhã, quando vai jogar o seu lixo separado na lixeira comunitária da

vizinhança, seu coração quase salta da boca com tanta desordem pensa: nem todos os vizinhos têm o mesmo cuidado que eu!

Ela

- É quando saca sua vassoura, sua pá de lixo, sua coleção de sacos plásticos coloridos e começa a limpar

- A separar o lixo

- A selecionar o lixo

- A distribuir o lixo

- A analisar o lixo

- A varrer o lixo para debaixo do tapete

- Ops! A jogar o lixo na caçamba apropriada.

- Dona Formosa finalmente termina o que considera a sua parte, até que, de repente

- Dona Formosa?! O que está acontcendo, Dona Formosa?

- Ah, que grande desconforto intestinal, dona Formosa! Não se aflija! Tudo dará certo.

- Ela corre para o banheiro.

- Não vamos ficar espiando a dona Formosa usando a privada. /Digo, dona Formosa em sua privacidade.

Enquanto isso vamos conhecer Sinfrônio mouse e dona maria folgaça, vizinhos da dona Formosa.

- Sinfrônio Mouse é um consumidor compulsivo de novas tecnologias,

Sua obsessão em comprar novos aparelhos mais modernos parece não ter fim. Tudo que não está na versão mais moderna, ele joga no lixo.

- A vida de Maria Folgaça é toda só conforto. Perdida no meio de tantas embalagens de todos os tipos, Maria Folgaça só quer saber de consumir seus mil e um docinhos, preparados, fast foods, embutidos, fritadidos, açucarados e tudo mais que ela compra diariamente já pronto para não ter trabalho com nada, afinal, o sobrenome de Maria Folgaça é praticidade e conforto.

(enquanto Dani está sendo empapelada)

- Algo de muito estranho está acontecendo! Que coisa assustadora é essa? Dona Formosa precisa de ajuda?

DANI Ih, sujou!

- Dona Formosa parece ter se enrolado com o seu próprio lixo.

(depois que Dani é empapelada, silêncio)

(depois de um tempo)

- Enquanto isso, o lixo só aumenta

(quando Sinfrônio estiver levando seu lixo tecnológico para lixeira)

- Hora de adquirir tudo novo de novo, hem, Sinfrônio Mouse! Livre-se rápido disso.

(quando Sinfrônio estiver diante do lixo se mexendo na sua frente)

Será

-

Mouse?

que

tanta

tecnologia

deixou

suas

ideias

birutas,

Sinfrônio

(quando Sinfrônio estiver sendo capturado pelo lixo)

- O que está acontecendo Sinfrônio Mouse? Você precisa de ajuda?

Resista, Sinfrônio, não se entregue assim tão fácil Não, Sinfrônio, na lixeira não.

Pule dessa fase!

MARCO Ih, sujou!

(silêncio depois da captura de Sinfrônio)

- Enquanto isso, o lixo só aumenta.

(Para Maria Forgaça)

- Maria Forgaça no conforto do seu lar

está aí? A sua vida é pura embalagem!

Maria Forgaça?! Você ainda

(quando estiver lutando com o monstro)

- Maria Forgaça está embalada por suas próprias embalagens.

(No fim, quando os três já estiverem envolvidos de lixo)

- Foi isso que aconteceu naquele horripilante dia.

TERCEIRA PARTE

ELIS Então foi assim que nós viemos parar aqui

DANI Já faz tanto tempo que eu quase me esquecia

MARCO Estava tudo na nossa cara

DANI Na nossa cara, não! Não na nossa casa. Quanto lixo!

MARCO Muita gente falava, muita gente alertava

DANI Pois é: a verdade é que eu não tinha nem ideia do tanto de lixo que no mundo existia.

MARCO Eu também nunca parei pra pensar para onde é que ele ia

DANI A verdade é que o lixo nunca foi pra muito longe da gente

ELIS E a gente só alimentando esse monte, só alimentando

MARCO Até a hora que ele voltou todo para nós.

ELIS Eu sabia que uma hora ou outra isso iria acontecer.

DANI Sabia como?

ELIS Tinha uns lixos que já até te avisavam que iriam voltar escrito assim neles: lixo retornável

Vinha

MARCO Mas isso não tem nada a ver com a nossa situação de agora.

ELIS Como não?

MARCO Ora, não tem

Começam uma pequena discussão

DANI - No fim só sei de uma coisa: a culpa é toda nossa mesmo. Mas poderia não ter sido, se a gente tivesse mudado a tempo

E Se eu pudesse dar um conselho a alguém, eu diria para fazer as coisas diferentes da gente, para não chegar a esse ponto:

M Mundo lixo!

SOM DE CARRO DE LIXO

OS TRES SE OLHAM.

OS TRÊS Ih, sujou!

do pano, temerosos.

Nisso, Elisângela sai da estrutura e surge com algum adereço de catadora de lixo. Grita, como se falasse com companheiros garis que estão fora de cena.

Somem

as cabeças. Ficam remexendo

dentro

ELIS/GARI Ô pessoal! Sacão de lixo aqui que a gente tá deixando pra trás, ô pessoal! Esse lixo só tá aumentando, olha só pra você ver! Bora lixo, bora bora! Se mexendo! Porque hoje ainda tenho muitos lixos como vocês para carregar! Pula na caçamba e vamos embora!