Você está na página 1de 13
. RKoUEGA BERR | JuRaxorm reine costa ORDEM MEDICA E NORMA FAMILIAR 1 { ua (Capa Livia Flores Produgt gin: Orlando Fernandes algae: 1979 2 alge: 198, Dirsitos guide pars ngoaportevea por EDIGOES GRAAL LTDA, ir ‘Rou Hermenoyldo de Barros, 31-4 — Gila, 20241 = Ride eno — RI ~ Bras Fone: 253.882 ‘©Copyright by lara Freire Coste Impress no rai / Printed Bra! 1988 Cap.seasit.Catogagaomafonte india Nacional dos Eres de Lio, Cost Jared Fe 7 (C8736 Grom mele «norms familar /Jorandir Freire Conta, ~ Rio de laneo = Eagpes Gra orca de Bef e Rta das cas. a8. Bilogain 1, Che mids — Bras — Migria 2 Familia soli Prive flan Tio. Sen ‘Organiasto cop — so1.s10881 joa cou — 8 wa 9.0215 ‘301 185.14 : A meméria do Dr. Philippe Pawmelle ‘Aos primeiros mestres, Paulo Sette e José Lins de Almeida A Célia, Cecilia e Tiago ‘Aos amigos, em especial, a Jackie. ‘0 ethos burgués. A sofreguidio com que se agarrava a um dos Seus tinicostrnfos socials, a poténcia sexual fazia com que, no Contato com os filhos, hipervalorizasse todos os atributos rela tivos 8 forga do corpo e a0 pleno funcionamento do sexo. Por este. meio, como ja mostramos a proposito da edueagio das triangas, eram construidos permanentemente todos os precon- tos chauvinsas, classisiae” e-racsas em que se a5sentou ‘trasieira e mesquinha ética da ordem soca Finalmente, o machismo foi utlizado como bastdo da esta- bilidade conjugal e como agente avxliar na redugio da mulher a0 papel de mie. ‘No cdigo ""machista”, cada homem se dava o dirito de aabordar a mulher do outra'ao mesmo tempo em que afirmava a Jntocabilidade de sia propria mauther. A primeira vista, 0 4080 cera desigual, Mas esta sparéncia era villda 86 para os casos Individuais. Considerado em seu conjunto, ritual «machistax cera perfetamente equilibrado, pelo fato Je que toda mulher bordivel era, em principio, propriedade de um outro homer, provavelmente também smachistey, A restante era nul. O Jogo nio perturbava a estabildade familie. Pelo conteivio, pe- Servava-a, Pols, quando ocortiam rupturas, © mecanismo home- ‘ostatico entrava em cena, reordenando o sistema ‘Se, por exemplo, uina mulher cedia avs avangos «machis- tase do Homem, passava a figurar imediatamente na categoria de mulher fil, Tomava-se adiltera, vena, irresponsivel. «aman- tes, tudo menor mulher de fama, Diante desta tits, a «mu- Ther que cediae era uma mulher inferior. Submulher na eseala ‘em que a emilher-mies, dedicada 0s filhos © 0 maride ocupa- Yao topo. esta forma, o machismo era una maneira direta ou indire- ta, conforme o dagulo de observacio, de promover sovaimente © ideal da mulher-mie, O «machistar deixava-se usar com tes Imémetro da higldez ou das disfungoes moras da mulher. Em prestava benevolamente seu corpo © seu seX0 para que 0 20ve ‘ho médico dos homens estigmatizasse a mulher infil © canal Zasse para a fungéo materna toda a sexualidade e toda 2 vida feminina. O «macho» tormava-se assim 0 alcagete da mulhes Aliava-se 20 Estado e & higiene provocando ¢ delatando cont 254 ‘uamente toda mulher que, subversivamente, se insurgisse com {ra_a paritica obrigagao dé ser mie, 5. A mie e a mulher ee he ee mod idnticn &pasagem do ptr 20 m0 pal O ag Para com os filhos. ane familia operou-se em dois tempos. No primeiro, pees sepa tie he 8 Reece oe oe omercil. Est tap sti representads pel rice 8 suey te eee eg an Misr t ton Satece eames 8 prosituta, oe 12 eon prem am ge ee crac is fo to me cette 4 Mie MIoIENICA: AMAWTE Dos Fit DOS MEDICOS ome A rela ene letament d io merenirioe morte intan- 8 detono proceso de ciao de mie hgenca, Os misery, unde ip de anti oa roma po umento da moraliade Je erangas, deciram for com oe mac ra me : - Inimerashipteses podem expla ohibito do aetament infant por eseravas Pode admit que o cess canis Becoce impede mats jovens mis de amameringa nt Aisporem de condgbes fscas para tama, 0 ponte evan 23s sustentado por Imbert em seu «Guia Médics,"" Também & ontvel que, a opniio de renomados médicos portugues, FReomendando.a.amamentaglo por mulheres fuses © more. Toon tenhainflido na prefctnci dada, pelos brancos de ete, we'aislamento de crane por eserves neyas emia.” iguamente provivel € 4 hipsese de-que, no Brasil como nt Hiropa houvesseciculado a Hein de-que as rlaes sexais TCortmpiame o leit" © recurso As amasdedete eserves, ene cao, tera significado 1 tenativa de proteper a vida dos {hos sem sarifara vida sual do cas mas provavel, pore, € qe a Mlcsigorasiem que « amagemanse neterra foe vias strevia dor thon De {ht fafa part do momento em que a vida da eng de elie fusion ter ¢importncia econfmio-pliica, que The foi Jada ova. que 9 aetmento matrno veto tress conta io, ganhando foros de problem nacional. ‘A mulher oitocentsta, edema dos costumes colniis continua sem amanenaro&finor. No enfant eta detecyio fo aue era higenieamente considerado sobriayio materan no thn enatamente, as mess dteminagds do femeno cl tial ‘Aos antgos habits superpinhanse os wsos rods pela Sociatidade trbana. As moda, fests e diversoes consumiam ‘Scnergasfeminines, em dear Ver 8 amamentagto, Tote comportamento, condensdo por leat oh imeresses polticopopuacionisias da ele agra, fi codiieado, m0 dix Ehto hileic, como infaao as en da naturera. A mer auc fo amamentav, dzarse, rompia duplamente os canons hatte fas. Em primes la, porque s condi de mod coma a todas. as Temeas da classe dos manors; em segundo Tuer, 256 Pee oe wer fonatcmaie a er ‘conforme o figurino higiénico. foal ; Mets center eee sex tone mmm. soe Se aren See ae eee ee mom a aay opines dane aod Tiovive ate cat hoor eae. Ee eee eee eee ee : cuptis Tage ae cn uel oa oie oe ee eenaenal ae ees ee eee ae ee cit aac eat Sees ce, De cms ere aN i Vo. ee artis muna sac ton er oes SE pees nd a Sega eed ‘odeada J tees os favors, de ado os ens da tare ne ‘ree ees dre tes oe Sen eae aoe roe, ae Sens freee ae Sana steer ma cots ee eee i as neal as eae eu tcteesaeeeee sreoinnes esti ena, ra, oe Sciacca me nee al Fong do eat a ota ci ose cians ce roel eo 6S gt ee sioner catego tat Ste ream setere emmy, ae ee da Er a dag le rndo se sentissem profundamente culpadss por se saberem, repentinamente, mas, epoistase incompetentes, ‘A culpabilizacao da mulher foi uma faccta importante em ‘sua relagdo com a higiene. E provavel que a mulher de elite estivesse tendo, pela primeira vez, conhecimento de que no sabia euidar dos flhos. Atéentio, nada podia certifc-ia de que “amor de mie> fosse sndnimo de amamentagao, Nem, inversa mente, de que nio amamentar significasse desamor pela pole ‘Ko contrrio, pelas razbes histricas referdas, este limo gesto poderia ter tido justamente 0 sentido de culdar bem dos fihos, onforme 06 precetos da época, Os higlenistas utlizavam este sdesconhecimentos ou esta ignordmeia para obrigar as mulheres { amamentarem. Sem amamentagao, diziam eles, no havia famor. A mie que néo amamentava era uma me sdesnaturadar, comparivel a feras © propdsito de converter as mulheres a0 modelo ds «mie amorast alimentando 0 bebé» era nitido. Fora dele, parecia no hhaver escapatéria 0 comportamento social feminine. O que nos leva a supor que a press higiéica em favor da amamentagio tinha outros objtivos, além da protecdo a vida das criangas. Com efeito, a nosso’ ver, a mie deveria compulsoriamente fumamentar porque essa tarefa, além de proteger a vida dos fils, regulava a vida da mulher. A mulher que no amamentar- Se isentava-se, automaticamente, de uma ocupagio indispensivel 2 redefinigio de seu lugar no univers descipliar. Vista sob este enfogue, a questo do aeitamento ganha uma nova luz. 0 primeito objetivo. disciptinar da amamentagio ‘materna era 0 us0 higinico do tempo livre da mulher na casa, Relembremos que, com a urbanizagio, a casa perdeu seu eariter de pequena empresa. A mulher que antes se ocupava de um sem- ‘nimero de atvidades ligadas a provisio de alimentos, roupas © ‘outros utensilios domésticos, passou a funcionar com ima enor ime eapicidade ociosa Sea isto somarmos o desenvolvimento dos fervigos, diminuieio das obrigagdes relgiosas cascims © 0 ‘rescimento da escolarizagio de eriangas e adolescentes, no & ‘fel imaginar mulher vagando numa casa deserta, sem ter Absolutamente 0 que fazer de seu tempo livre, Amamentar era uma maneira de levéla a preencher 0 tempo com uma tare til 288 ‘eabsorvente,livrando-a dos perigos do Scio e dos passatempos ‘efastos & moral e aos bons costumes familiares. Evidentemente, esta hipotese s6 faz. sentido quando se considera que 0 periodo de amamentagio prescrito pelos higie- histas ia, muitas vezes, até 1B meses.” E que a contracepeio erm praticamente desconhecida na poca, "A segunda causa da detencao doméstica da mulher, através ‘da amamentacéo, estavaligada i concorréncia com o homem. A ‘emancipagio Jo. patriarcado colonial gerou uma entusiéstica ‘onda de independéncia feminina. A urbanizagio insuiflou este ‘movimento promovendo a mulher em varios sentdos. Concedev- The, por exemplo. a maioridade enquanto consumidora de artigos industrilizados. Habitoua a0 gosto mais refinado do comércio da moda européia. Em seguida, levou-a do requinte do corpo ‘30 requinte do. espinto. A mulher instruivse.e cultivouse assou a ler mais. Sobretudo novelas e romances, onde encon- trava feqientemente opinisesfavoraveis 8 emaneipagio Fein Na produsia brasileira, Senora, de Alencar, & um caso tipico desse genero de iterature. No livro, 0 autor defende a autonomia social feminina contra 0 conservadorism da socieda- de brasileira” E por mais defasadas que paregam as idgias do artista face & concepgo atual do assunto, na época tiveram um feito tonificante sobre 0 movimento de liberagao da mulher. ‘Alem de inspirarse no. romantismo, a mulher tambem ‘extraiu, de sus nova situapio na casa, elementos para a consol ‘dagao de sua autonomia. O desenvolvimento econdmico, ale rando as regras da sociabilidade, confeivthe um papel decsivo tna promogao social do marido. Ciente da nova condi, ela [Bassou a exigir maiores prviépios ¢ @ impor-se como pertadora {de anseiose ambigaes socias propia "A higene, enfim, revelando Sua funcio essencial & vida das cviangas e a grandeza da nagio, ajudou-a a querer colocarse 29 ‘ombro a ombro com os homens, na partlha de poderes socias Extremamente iustrativo deste fato foi 0 debate politico sobre ‘educagio da mulher, travado pelo fl6sofo Tobias Barreto contra ‘© médico Dr. Malaguias, ambos deputados. Em 1879, assem- bicia permambucana festemunhou tma acirrda discusséo sobre 6 dietto da mulher ingressar nas faculdades de medicina. Tobias Barreto combatet ss idéias do Dr. Malaguias, que procurava demonstrar a incapacidade feminina para a atividade eienifia, fagumentando que, anitomo-fisiologieamente, o cérebro da mu ther era inferior o do homer. Pretendendo concorrer profissionale intelectualmente com 0 homem, a mulher ultrapassavao limite de seguranga social Limite que coincidia com as estrigSes impostas pela higiene & ‘sua autonomia. ‘Do ponto de vista dos higenistas, a independéncia da mulher nfo podia extravasar ns frontiras da casa e do consumo de bens e ideas que reforgassem a imagem da mulher-me. Por isto, sua presenga nas catedmis da clcia era intolerivel. A mulher intelectual dava mau exemplo is outras mulheres. Obri- {gavicas a ver, e qUem sabe a areditar, que podiam subsist por iniciativa propria, sem concurso dos maridos. Emaneipads inte- lectual ¢ prfissionalmente, x. mulher comprometia 0 pacto smachistar firmado entse ® higiene e o homem. Para que este pecto sobrevivesse, a higlene precisava continuar garantindo a posse da mulher pelo homem. A mulher que trabalhavs punk fm isco (08 termos do. acordo. ‘Tomava-se eeonomicamente Tiberads do markdo e itclectualmente equiperada ao homem. ‘Sobre ela 0 sinachista» nao tinha 0 mesmo poder e @ mesma fascendéncia. Avtomaticamente, a erenga e as condigdes materi is para continuar exercendo sua ssuperioridade naturals fia- iam abaladas. Sem a sinfeiordade da mulher» 0 machismo perleria parte de seu sentido. Para que 0 «machistas pudesse Exercer com seguranga a fungio repressive-aormalzadora que The foi delegada, a sinferiridades da mulher tinha que continar [aes nantron apa, Vous, rai INL, spe 32035 260 ‘existindo. E a sobrevivéncia do machisino era indspensivel & ida da higine, $6 assim o homem, através da propriedade privada da mulher e do cut sos geniais, continuaria anexado ES fileras de sinformantes» e poicais que s higiene distribuit tentre a populagdo adulta infantil "A carrera emancipaéria da mulher tina, portanto, de ser cembargada, Sua dependencia e incompeténcia cram o prego pago pela higiene a sobrevivencia «machistas, Mas a. manutengio este estado de cosis mio deveria produzic tenses inabsorvi- eis, Neste sentido, o cmétodo Malaguas» era anttitico, Nio Convinha realgar, em primeiro plano, as insuficiéncas da sms ther. Nem barrarthe os passos em diresio a independénca, sob pretexto de que ela era inferior. Isto podia gerar resistencias fenazes. A mulher poderia vir a sentir © médico como inimigo € fnio. como aliado, "A tatica oportuna consistia em mostrar, primeiramente, aquilo de que ela, e 56 ela, era capaz. Depois, provar que, justamente por cumprieFungdes socais para as quais homem € que er sincompetentes ¢ sinferior, convencé-ia a bandonar a este tltime as smesquiahas> ocupacdes proisio aise intelectuais. O discurso higiénico sobre amamentagso Orientourse por esia estategia, Buscou comprometer as mulhe- Fes com a politica de utlizagio «machista» do homem, fazendo- fs erer nt «nobrezas da sfuncio amamenta. ‘© tereeito motivo da énfase posta na obrigasio de aletar prendiase i coesdo do nicleo familar. A mulher que no mamentava dissolvia a familia. Provocava, no dizer de um Imedico, © wafrouxamento dos lagos familiares, dos lagos que prendem os pais aos flhos, © vice-versa, os fos 408 pais, sposo a esposa, © vice-versa, a esposa ao esposo, e enfim os frmios uns tos outros» © aletamento materno vest8tava os Tagos da familia e trazia a alegria 20 lar domésticor.#" Neste ‘caso buscavi-se, através da amamentagao, depositar na mulher 8 responsabilidade pela unidide de familia ¢ dar ao homem maior ‘isponibilidade para outra obrigacées socials. Esta fungio de esteio da fami, imposta & mulher que aletava, aparecia sob 1 forma de exortagies genéricas, como hos exemplos citados, mas também direta © concretamente, ‘mediante 4 regulagio da sexualidade feminina, Conform obser ‘vamos, uma das formas de romper com as rerasinstituintes do ‘casamento de razio foi a de promover a sexualidade femin instigando sua expansio. Contudo, como essa sexualdade no podia galopar descomprometia com a estabiidade conjugal © ‘Com a protesio da infincia, fez-se, necessirio caredla, de ‘lgtma mancira, para aqueles objetivos. amor materno, ji ‘vimos, ctmprit esta fungio. A mie amorosa conjugava pedeits Imente’ sexo, estaiidade conjugal e responsablidade com os fos, ste processo de cirunserigio da sexualidade feminina zona de controle da mie envolveu numerosas manobras. Dentre las, uma foi particularmente bem sucedida: limitagio do ato ‘sextal na gravider e durante o periodo de amamentagio ‘A mulher gravida devia abolr ou restringir a0 miximo as relagdes. sexuais para evitar abortos.%" Quando no houvesse esse raco, deveria, assim mesmo, evitilas porque os movimen {os fisicos do colto paderiam .”" Ih Tigagao entre convulses da crianga e nervosismo da mac cescapava a qualquer divida: «Boerhave conta que uma mulher dera’o seio a se filbo depois de um acesso de célera. Este fo} facometido de um atague de eclampsia, 0 qual se reproduzi sob 4 forma de epilepsia durante toda a sua existéncin. Pato Semelhante fora observado em outras circunstanias, confirman- ddo a equagio etiolégica nervosismo x convulsio: «Os anais da fiteratura britinica reerem que uma mur, ainda agitada pelo perigo que acaba de correr seu marido em wma questio com um Soldado que tins-o ameacado com um sabre, apresentou 0 Scio {seu filho, que apenas comesou a mamar logo abandonou- imediatamente for atacado de convulsbes e morreu».®! Donde, Conclufa 0 autor: +E portanto conveniente que as mies nunca ‘deem de mamar a seus flhos debaito de qualquer impressao ‘morale "A mulher mundana expunha os fihos a todos esses sco Estava sempre senervadn pelo luxo> e iitada pela falta de repouso. Os médicos comesaram, entio, a amesgéla com bateria mérbida de que dispunham, caso insistisse em continuar Tevando a insensta vida que levava. Ameasavan-na com , a sclorose>, as epalpitagdess, 0s «vaporess, a eplep- sia, a histeria e a loucura como conseqincias inevitavels da ‘contingncia a que eram submetidas as mulheres.” Aconselhan- ‘do os pais das «ndbeis- a se orientarem higieicamente dante ddesse problema, dia 0 autor: «Assim, logo que uma moga nibil ‘deixar entrever uma incinaglo bem decidida para 0 outro Sexo (.-) no hesieis, se possvel, em una ao objeto amado (.). ima vez satisfetos ‘0s descjos, os acidentes desaparecetio depois de um certo tempo: com alegriae trangilidade reapare- cera a saide, © a natureza auxilada em seus esforgoe nao sdeixaré bem depressa trago algum desse estado anteriormente tio aterrador, e que somente poderiam apasar a certeza de ter lum marido, um apoio, e a esperansa, to lisonjcia para uma mulher verdadeiramente virtosa, de poder, em breve, ser mie>.® (© nervosismo feminine foi, deste modo, duplamente mani- pulado pelos médicos. Na mulher mundans, jé casa, foi predominantemente referido etiologia socal, com o objetive d ‘Conservi-la na easa amimentando os fos. Na mulher celibate fia, foi, sobretudo, vinculado & etiologia sexual, com vistas Tevicla ao casamento e & materniade. ‘A mulher nervosa» tormou-se, assim, um personagem im- prescindivel ao poder médico. Em sua versatidade ctildgica Permitia, ao mesmo tempo, que a mulher se emancipasse do patriarca colonial e que se mantivesse submissa 40 compromisso 20 | higiénico de alimentar tanto os flhos, quanto © machismo do hhomem, A MULHER NERVOSA: CLIENTE DO MEDICO, INIMIGA DO HOMEM Gilberto Freyre, referindo-se a relagio da mulher com 0 médico no séc, XIX, afirma: «A supremacia do médico sobre © ‘confessor, a vida da familia brasileira, esbocada detde as primeiras'décadas do século XIX, veio.marcar fase nova na Situagdo da mulher. (...) A mulher de sobrado foi encontrando no doutor uma figura prestigiosa de homer em quem repousar dda do marido © da do padre, a confisséo de doencas, de dores, de intimidades do corpo (trios meus) oferecendo-the um meio agradavel de desafogarse da opressio patriarcal e clerical. E fconvém aqui recordar que nas anedotas sobre maridos engana- {dos — aids, relativamente raras nos dias mais ortodoxamente patriarcais do Brasil — a figura do padre don Juan foi sendo Substituida pela do médico. De mais de um médico foram lparecendo histrias de adultéios em alcovas ou sofas patriar- ais." Esta observagio do. autor ganha. maior sinificado ‘quando comparada a uma outra, feta por ele proprio, sobre a ‘onduta feminina em finas do séc. XIX. Naguele momenta, diz ele, tomourse comum a «voga do ataque histérico entre as enhoras burguetas, saida de enterros ¢ em face de ovtmns situagoes dramitieas» ‘A segunda observacio de Gilberlo Freyre & 0 corolirio histrico. da primeira. A mulher nervosa foi, em parte, uma criagdo do medico. Servindo-se dela, higiene implantov-se na familia. Solictada em sua versio sexual para combater puis © mmaridos © em sua versio mundana para dedicarse 20s filo, a “euler nervosa» ensiaou a mulher & ullizar © nervosismo para impor seus interesses. Essa da mulher higiénica passou a funcionar como agressio 20 homem. Grande parte dx hostiidade ‘to parpatrarca e a0 homemmachisia comeyou a exprimir-se daquele modo. Sob esta Spica, explicase melhor a posigdo «prestigiosa» € ‘aconchegante do médico de familia, descrita por Gilberto Frey- fe, Aporando a mulher nervosa, escutando a «confissio de suas ‘doengas, dores ¢intmidades do corpos, 0 médico mantinka viva ‘on paltice de dominago feminina e controle familia. Mesican- ‘do'6 nervosismo da mulher, o médico mantinha a sexvalidade feminina a servigo da higiene edo Estado. Com sa excuta, Teconhecta a imatisfago sexual da mulher expressa no nervosis- imo. Mas para desativila © negar suas consequéncis familiares Tr tnutber nervose nose tomava adiltera. Com sua alianga terapcutica instgava @ hostilidade da mulher contra o homer, ‘Mas para medicalizilae conter seus efeitos: a mulher agressiva- fhente nervosa ado era oxvida e sim medicada. Finalmente, com Sua presenca cienifica,constatava os impasses da familie higié- ica, mas para ecultirios terapeuticamente, convertendo as dis- Senges conjugals em desequilbrio ov perturbagdes, ments ‘A «mulher nervosa» foi para a nova mie o que o «machistar foi para 0 nove pai. Para suportarem as novas obrieagdes patet~ hnas e maternas, homens e mulheres tiveram que recorrer moné- ona € compuisivamente a estas figuras sexuais. A higiene Institucionalizou o nervosismo da mulher ao mesmo tempo que institucionalizava a replogzo sexual do homem. A conduta nes~ vosa da primeia era 0 negativo do desfile sensual do segundo. A Inuther nervosa ¢ insitisfeita tomou-se © oposto necessirio do hhomem aperentementesaciado, 'A familia conjugal, saturada de sexo, tormow-se uma fee livre de erotisme. Um espeticulo «vaudevillesco» onde homens fe mulheres concorriam para ver quem exibia com mais talento © iO sek higinico,afinado com “rirava. na era da competici. m Se a presenga médica not «sobrados+ mudou a situagio da mulher, certamente 0 fez mediante esta estratéps. Armou sexi flmente mulheres © homens que, dai em dante, dispunham de mais um motivo para corrqueiramente se odiarem © 36 excep- ‘ionalmente se amarem. Gragas a essa titica, a ordem médica eriou sua norma familiar, Tornou possvel a exploracio do corpo © do sexo de todos aqueles que, oprimindo, se acreditaram acima da opres- ‘que, extorguindo os oprimidos, nem por mm [RIBLIOGRAFIA CITADA ALBUQUERQUE, J. A. Gullon de, Metdforas da desde. Rio de Sancro, Pate Terr, 1978 ALENCAR. Jost de. Disa, Rio de Sani, Tesnoprin. 3. “Lait, Rio de Taner, Tecnopat. 8. Senhora Rio de laneto, Tenor, 5. ALMEIDA, Jose Ricano Pres de. Homosseruaismo, Rio de Jane, Texemmer, 1906. ALMEIDA, Peo Jou de, Algumas conideracdes hice acer ‘ies habeas. ves. Faculdade de Medicina do Rio de Sanco, iss. |ANDRADA JUNIOR, José Ronifcio Casi de. Esboge de. uma PRADA soe cotégios alee! aot nosso, Tse, acNinde Ge Medicina do Rao de Janeiro 155, ANDREONI, Jato Antnio, Cultura e opléncia do Brasil 2 ed. $80 aslo, Nacional ARIES, Philip. Llenant et aoe famille sous Ancien Résime. Po is Bd. da Seu, 973, “site des populations francases. Paris, 68. ou Seu, 17 |ARMONDE, Amaro Ferreira das Neves. Da edcacdo fice intelee- eI moral da mocidade do Ris de Janeiro « da sua inféncla ive a aade. Tere. Facade de Medicina do Rho de Jane 1974 AZEVEDO, Aliso, Una ldgrina de mulher. Rio de Jancr, Teen ria, sd ‘casa de Penséo. Ri de Ince, Tecnoprin, 2s

Você também pode gostar