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Agricultura de Precisão em Citros


Mapeamento de Produtividade e Adubação em Taxas Variáveis
André F. Colaço¹; José P. Molin²
¹ Eng. Agrônomo, MSc, Doutoran- A premissa fundamental da As pesquisas e atuação do
do em Engenharia de Sistemas
Agricultura de Precisão (AP) é con-
Agrícolas (USP-ESALQ);
siderar que o desempenho das cul- LAP – Laboratório de Agricul-
² Prof. Dr. Associado III, coorde-
nador do Laboratório de Agricul- turas não é uniforme nos campos tura de Precisão USP/ESALQ
tura de Precisão (USP-ESALQ). de produção, seja devido a man-
chas de solo ou por ocorrências
Quem somos? localizadas de doenças, pragas ou O LAP tem contribuído desde
O LAP, oficializado em 2008, plantas daninhas. A variação des- meados dos anos 2000 para o
é um laboratório dentro da ses fatores agronômicos dentro de desenvolvimento da AP na citri-
USP-ESALQ dedicado ao um campo de produção é denomi- cultura. A primeira etapa de pes-
estudo da Agricultura de Pre- nada como “variabilidade espaci- quisa buscou avaliar o potencial
cisão, envolvendo infraestru- al”. Considerando então a existên- da tecnologia para a cultura, por
cia dessas variações, a AP propõe meio do mapeamento e caracte-
tura e pessoas em torno do
que as aplicações de insumos se- rização da variabilidade espacial
tema. jam direcionadas de acordo com existente em talhões comerciais
Quais os objetivos? uma demanda específica do local, de citros. Posteriormente, o sis-
ao invés de aplicados uniforme- tema de manejo com AP foi efe-
Oferecer infraestrutura e am- mente como é feito na agricultura tivamente implantado em áreas
biente de trabalho para as convencional. Essa prática é co- experimentais, contemplando
atividades e projetos relacio- nhecida como “taxa variável de desde o levantamento de mapas
nados ao estudo da variabili- aplicação” onde, a partir do uso de de fertilidade e produtividade
dade espacial das lavouras e tecnologias de posicionamento, até a adubação em taxa variável.
das tecnologias embarcadas automação e eletrônica embarca-
nos veículos e máquinas agrí- da, as doses de insumos são ajus- Existe variabilidade espacial
colas. tadas automaticamente de acordo
com um mapa de recomendação em um pomar citrícola?
Onde estamos localizados? ou leituras de sensores em tempo
O LAP está sediado junto ao real. O objetivo principal é o uso Sabe-se que a AP surgiu e se
Departamento de Engenharia racional de insumos, promovendo desenvolveu em culturas exten-
de Biossistemas da USP- tanto ganhos econômicos quanto sivas de grãos onde é comum
ambientais. encontrar talhões com centenas
ESALQ, em Piracicaba-SP.
O potencial dessa tecnologia de hectares. Em áreas extensas é
para a hortifruticultura tem sido de se esperar que exista variabi-
estudado em todo o mundo. Nesse lidade espacial, especialmente
boletim trataremos da aplicação do solo, que pode levar a gran-
da AP na citricultura, a cultura fru- des manchas na produção. No
tícola que certamente mais tem caso dos citros, as propriedades
evoluído no desenvolvimento e são menores, assim como a área
adoção da AP no Brasil. dos seus talhões ou “quadras”
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André F. Colaço; Jos é P. Molin

(normalmente em torno de 20 ha). O primeiro tividade pode ser diretamente utilizado para
desafio é questionar se um pomar de 20 ha po- guiar aplicações em doses variadas (locais de
de realmente ser tratado como uma unidade de alta produtividade demandam uma maior repo-
manejo uniforme ou se na verdade existem sição de nutrientes) ou simplesmente para auxi-
manchas de produção que demandam um ma- liar no entendimento da variabilidade espacial
nejo localizado. das áreas.
A primeira pesquisa do LAP em citricultura de
precisão, foi então desenvolver um método para
o mapeamento da produtividade em um talhão
comercial de laranja, a fim de avaliar a variabili-
dade espacial da produtividade. Nas culturas
anuais de grãos os mapas de produtividade são
gerados de forma bastante prática e confiável.
Um monitor de produtividade é instalado no
elevador de grãos das colhedoras, registrando a
produtividade em cada coordenada ao longo
das passadas da máquina pelo campo. No en-
tanto, no caso da citricultura, como o tipo de
colheita predominante ainda é o manual, um
método de mapeamento de produtividade de-
veria ser adaptado especificamente a esse ambi-
ente de trabalho.
O método desenvolvido se baseou no georre-
ferenciamento dos sacolões utilizados na colhei-
ta. Ao longo da colheita, os colhedores colocam
as frutas em sacolões ou “big bags”, dispostos Figura1: Georreferenciamento de sacolões para ma-
próximos às árvores colhidas. Antes do descarre- peamento da produtividade
gamento dos mesmos em caminhões a posição
geográfica de cada sacolão é registrada por
meio de um receptor GNSS (Figura 1). Após o Ao longo de alguns anos de pesquisa, a pro-
processamento dos dados, a produtividade é dutividade de diversos pomares de laranja foi
mapeada revelando regiões de alta e baixa pro- mapeada. Pomares de diferentes variedades e
dutividade. O cálculo da produtividade se baseia idades normalmente apresentaram significativa
na distribuição dos sacolões no campo, ou seja, variabilidade espacial da produtividade, causada
onde há maior concentração de sacolões maior por fatores de solo (Figura 3) ou doenças (Figura
é a produtividade (Figura 2). Maiores detalhes 4). Pode-se inferir que recomendações agronô-
sobre o método podem ser obtidos em Molin e micas que não consideram a variabilidade den-
Mascarin (2007). Além de ser eficiente em reve- tro dos talhões estão sujeitas a maiores erros de
lar variações na produtividade, o método tam- manejo.
bém é de baixo custo, simples e de fácil adapta-
ção ao cotidiano da colheita. O mapa de produ-

Figura 2: Exemplo da geração de mapas de produtividade a partir do georreferenciamento dos sacolões na colheita

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Figura 3: Mapas de produtividade em anos consecutivos em área de 25 ha e relação entre variabilidade da pro-
dutividade e textura do solo

Figura 4: Relação entre variabilidade da produtividade e ocorrência de doenças (Molin et al. 2012)

Benefícios do manejo localizado: Resultados de Pesquisa

Verificado o potencial da tecnologia para a nutrientes); ou aumentar a produtividade utili-


cultura, em uma segunda etapa de pesquisa, o zando a mesma quantidade de insumos (reduzir
manejo localizado foi avaliado em um projeto insumos em áreas de baixo potencial produtivo
de longa duração. Comparou-se a taxa variável e realoca-lo em áreas de alto potencial produti-
de aplicação de fertilizantes e corretivo ao ma- vo). Nas áreas experimentais acompanhadas, de
nejo convencional de aplicação em taxa fixa. Os maneira geral as aplicações variadas geraram
efeitos do manejo foram medidos na produtivi- reduções no uso de nitrogênio e potássio na or-
dade, na fertilidade do solo e na nutrição das dem de 30 a 40%. Pouco efeito foi observado na
plantas ao longo de cinco anos (COLAÇO, 2013). produtividade, porém em algumas ocasiões
As aplicações em taxas variáveis foram guiadas houve aumento em torno de 10%. Mesmo com
por mapas de recomendação, baseados em ma- reduções nas aplicações de fertilizantes a nutri-
pas de produtividade e da fertilidade do solo ção das plantas não foi afetada. Na fertilidade
(Figura 5). do solo, conseguiu-se equilibrar o nível de nutri-
Normalmente, dois tipos de resultados são entes no solo, reduzindo áreas com nível exces-
almejados ao se adotar as aplicações de fertili- sivo de potássio e saturação por bases (Figura
zantes em doses variadas: redução no uso de 6).
insumos sem que isso afete a produtividade
(reduzir a aplicação em locais com excesso de

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ação de doses é a quadricula dos mapas – algo


Tendências entre 100 e 400 m²). Nesse caso as plantas são
tratadas de maneira individual, de forma auto-
O próximo passo da pesquisa é detalhar ain- matizada, a partir de leituras de sensores em
da mais o manejo. Sensores instalados em trato- tempo real.
res que estimam instantaneamente aspectos es-
truturais da copa das plantas (volume, altura, Tecnologias já disponíveis e desafios
densidade de folhas) podem ser utilizados para
guiar taxas variáveis em tempo real – por exem-
plo, plantas de maior porte recebem mais insu- A AP já atingiu um estado de maturidade e
mos (volume de calda em pulverizações e fertili- aceitação no âmbito acadêmico (início das pes-
zantes). Esse tipo de aplicação tem se populari- quisas nos anos 1990). Na citricultura, a pesqui-
zado no estado da Florida (segunda maior regi- sa em nível nacional ainda é recente, mas tem
ão produtora de citros do mundo, atrás somente apresentado bons resultados. Os produtores
de São Paulo) e regiões frutícolas na Europa. ainda se encontram no início de um processo de
Essa abordagem, própria para culturas pere- adoção. O principal gargalo tem sido a falta de
nes e arbóreas, tem sido denominada como mão-de-obra qualificada, tanto de gestores que
“Horticultura de Precisão”. Ela se caracteriza jus- compreendam o sistema de manejo localizado,
tamente pelo fato de que o tratamento pode ser quanto de técnicos e operadores de máquinas
adotado planta a planta (mais detalhado do que que se adaptem à presença da tecnologia (GPS e
a AP propriamente dita, onde a unidade de vari- computadores de bordo) no campo.

Figura 5: Geração de recomendações em taxa variável de fertilizantes a partir de mapas de fertilidade e produtividade

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Figura 6: Redução de áreas com níveis excessivos de nutrientes no solo com aplicação de técnicas de AP

MOLIN, J. P.; MASCARIN, L. M. Colheita de citros e obten-


Já podemos afirmar que a tecnologia está ção de dados para mapeamento da produtividade. Enge-
pronta para uso. Métodos para o manejo locali- nharia Agrícola, v. 27, n. 1, p. 259-266, 2007.
zado foram adaptados às condições dos nossos
pomares e um pacote tecnológico já está dispo- MOLIN, J. P.; COLAÇO, A. F.; CARLOS, E. F.; MATTOS Jr., D.
nível para aplicação. Algumas práticas podem Mapping yield, soil fertility and tree gaps in an orange or-
inclusive serem implantadas sem muitos custos chard. Revista Brasileira de Fruticultura, v. 34, n. 4, p. 1256-
ao produtor, como por exemplo, o levantamen- 1265, 2012.
to de mapas de produtividade e a aplicação de COLAÇO, A. F. Efeito da adubação em doses variadas em
fertilizantes e corretivos em taxas variáveis. pomares de laranjeiras ao longo de quatro safras. 2013.
Dissertação (Mestrado em Engenharia de Sistemas Agríco-
las) - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Uni-
versidade de São Paulo, Piracicaba, 2013.

Contato:
Laboratório de Agricultura de Precisão
Departamento de Engenharia de Biossistemas
Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”
Visite nosso site:
Universidade de São Paulo www.agriculturadeprecisao.org.br
Av. Pádua Dias, 11 - CEP 13418-900
Piracicaba - SP

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