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Introdução ao Direito Constitucional

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Rogério de Araújo Lima

Tecnólogo em Gestão Pública

Introdução ao Direito Constitucional

Natal – RN, 2013

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Governo Federal
Presidenta da República
Dilma Vana Rousseff
Vice-Presidente da República
Michel Miguel Elias Temer Lulia
Ministro da Educação
Aloizio Mercadante Oliva

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN


Reitora
Ângela Maria Paiva Cruz
Vice-Reitora
Maria de Fátima Freire Melo Ximenes

Secretaria de Educação a Distância (SEDIS)


Secretária de Educação a Distância Secretária Adjunta de Educação a Distância
Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo Ione Rodrigues Diniz Morais

FICHA TÉCNICA
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS
Marcos Aurélio Felipe

GESTÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS


Carolina Aires Mayer
Rosilene Alves de Paiva

PROJETO GRÁFICO
Ivana Lima

REVISÃO DE MATERIAIS EDITORAÇÃO DE MATERIAIS Revisão de estrutura e linguagem Revisão tipográfica


Camila Maria Gomes Alessandro de Oliveira Paula Camila Maria Gomes Leticia Torres
Cristinara Ferreira dos Santos Amanda Duarte
Emanuelle Pereira de Lima Diniz Ana Paula Resende Revisão de língua portuguesa Pré-impressão
Eugenio Tavares Borges Anderson Gomes do Nascimento Emanuelle Pereira de Lima Diniz José Antonio Bezerra Junior
Janio Gustavo Barbosa Carolina Aires Mayer Rhena Raize Peixoto de Lima
Jeremias Alves de Araújo Carolina Costa de Oliveira Orlando Brandão Meza Ucella IMAGENS UTILIZADAS
Kaline Sampaio de Araújo Davi Jose di Giacomo Koshiyama Acervo da UFRN
Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Dickson de Oliveira Tavares Revisão de normas da ABNT www.depositphotos.com
Margareth Pereira Dias Elionai Augusto Silva de Melo Verônica Pinheiro da Silva www.morguefile.com
Orlando Brandão Meza Ucella Elizabeth da Silva Ferreira www.sxc.hu
Priscila Xavier de Macedo José Antonio Bezerra Junior Diagramação Encyclopædia Britannica, Inc.
Rhena Raize Peixoto de Lima Letícia Torres Elizabeth da Silva Ferreira
Thalyta Mabel Nobre Barbosa Luciana Melo de Lacerda
Verônica Pinheiro da Silva Rafael Marques Garcia Criação e edição de imagens
Roberto Luiz Batista de Lima Anderson Gomes do Nascimento
Rommel Figueiredo Carolina Costa de Oliveira

Catalogação da publicação na fonte. Bibliotecária Verônica Pinheiro da Silva – CRB-15/692.

Lima, Rogério de Araújo.


Introdução ao Direito Constitucional / Rogério de Araújo Lima. – Natal: EDUFRN, 2013.

104 p.: il.

ISBN 978-85-425-0139-1

Disciplina que integra a grade curricular do Curso “Tecnólogo em Gestão Pública”


a distância da UFRN.

1. Direito constitucional. 2. Direitos fundamentais. 3. Administração pública. I. Título.

CDU 342
L732i

Todas as imagens utilizadas nesta publicação tiveram suas informações cromáticas originais alteradas a fim de adaptarem-se
aos parâmetros do projeto gráfico. © Copyright 2005. Todos os direitos reservados a Editora da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte – EDUFRN. Nenhuma parte deste material pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorização expressa do Ministério da Educação – MEC

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Sumário

Apresentação institucional 5

Apresentação da disciplina 7

Unidade 1 Noção geral do Direito: conceito, fontes e técnica legislativa 9

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional:


Constitucionalismo, Constituição e Poder Constituinte 33

Unidade 3 Princípios Fundamentais: Estado, Federação, Poderes do Estado,


República, Presidencialismo e Democracia 51

Unidade 4 Direitos Fundamentais e Administração Pública


na Constituição Federal de 1988 79

Perfil do autor 103

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Apresentação institucional

A
Secretaria de Educação a Distância – SEDIS da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte – UFRN, desde 2005, vem atuando como fomentadora, no
âmbito local, das Políticas Nacionais de Educação a Distância em parceira
com a Secretaria de Educação a Distância – SEED, o Ministério da Educação –
MEC e a Universidade Aberta do Brasil – UAB/CAPES. Duas linhas de atuação
têm caracterizado o esforço em EaD desta instituição: a primeira está voltada para
a Formação Continuada de Professores do Ensino Básico, sendo implementados
cursos de licenciatura e pós-graduação lato e stricto sensu; a segunda volta-
-se para a Formação de Gestores Públicos, através da oferta de bacharelados e
especializações em Administração Pública e Administração Pública Municipal.
Para dar suporte à oferta dos cursos de EaD, a SEDIS tem disponibilizado
um conjunto de meios didáticos e pedagógicos, dentre os quais se destacam os
materiais impressos que são elaborados por disciplinas, utilizando linguagem e
projeto gráfico para atender às necessidades de um aluno que aprende a distân-
cia. O conteúdo é elaborado por profissionais qualificados e que têm experiên-
cia relevante na área, com o apoio de uma equipe multidisciplinar. O material
impresso é a referência primária para o aluno, sendo indicadas outras mídias,
como videoaulas, livros, textos, filmes, videoconferências, materiais digitais e
interativos e webconferências, que possibilitam ampliar os conteúdos e a inte-
ração entre os sujeitos do processo de aprendizagem.
Assim, a UFRN através da SEDIS se integra ao grupo de instituições que
assumiram o desafio de contribuir com a formação desse “capital” humano
e incorporou a EaD como modalidade capaz de superar as barreiras espaciais
e políticas que tornaram cada vez mais seleto o acesso à graduação e à pós-
graduação no Brasil. No Rio Grande do Norte, a UFRN está presente em polos
presenciais de apoio localizados nas mais diferentes regiões, ofertando cursos
de graduação, aperfeiçoamento, especialização e mestrado, interiorizando
e tornando o Ensino Superior uma realidade que contribui para diminuir as
diferenças regionais e transformar o conhecimento em uma possibilidade concreta
para o desenvolvimento local.
Nesse sentido, este material que você recebe é resultado de um investimento
intelectual e econômico assumido por diversas instituições que se comprometeram
com a Educação e com a reversão da seletividade do espaço quanto ao acesso
e ao consumo do saber E REFLETE O COMPROMISSO DA SEDIS/UFRN COM
A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA como modalidade estratégica para a melhoria dos
indicadores educacionais no RN e no Brasil.

Secretaria de Educação a Distância


SEDIS/UFRN

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Apresentação da disciplina
Prezados(as) alunos(as),
Bem-vindos ao Curso de Tecnólogo em Gestão Pública e à disciplina In-
trodução ao Direito Constitucional. A partir de agora iremos, utilizando-se de
uma linguagem bem atual, “navegar” no oceano do conhecimento do Direito,
precisamente do ramo do Direito mais popular e mais importante das ciências
jurídicas, que é o Direito Constitucional.
Na maioria dos países existentes no mundo boa parte dos cidadãos e das
cidadãs conhece direta ou indiretamente o conteúdo do Direito Constitucional,
o que certamente se aplica a nós, brasileiros e brasileiras, que, embora não te-
nhamos o hábito de ler a nossa Constituição, discutimos diariamente, às vezes
sem nem perceber, temas que estão escritos na nossa Constituição Federal, tais
como: liberdade, igualdade, segurança, dignidade, propriedade etc. Ou seja, dos
mais simples aos mais letrados dos homens, das mais simples às mais estudadas
das mulheres, todos e todas têm uma ideia dos direitos e deveres previstos na
nossa Constituição.
No caso, o que pretendemos fazer aqui na disciplina Introdução ao Direito
Constitucional é organizar, de forma direta e didática, e com a participação e o
empenho de vocês, os principais temas que envolvem os direitos previstos na
ordem constitucional brasileira e que já fazem parte do nosso cotidiano, seja na
nossa vida privada ou no nosso ambiente de trabalho, que é o setor da Admi-
nistração Pública.
Espero que você aproveite ao máximo a disciplina!
Seja bem-vindo!

Rogério de Araújo Lima

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Noção geral do Direito:
conceito,fontes e técnica legislativa

Unidade

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Apresentação

N
esta unidade, iremos organizar as ideias que temos acerca do Direito,
não necessariamente do Direito Constitucional ainda, mas do Direito em
geral, das regras ou normas, deveres ou obrigações. Para isso, precisamos
abordar as várias maneiras de conceituar o Direito, saber de onde ele vem (o que
o legitima) e como ele se expressa na forma escrita.
Então, convido você a fazer parte da construção desse conhecimento que,
acredite, será muito importante não somente para a sua vida profissional, mas
também para o exercício da sua cidadania!

Objetivos
Conceituar o vocábulo “Direito”, diferenciando-o
1 da religião, das regras de etiqueta e da moral, com-
preendendo ainda os principais sentidos em que
esta palavra pode ser abordada, dependendo do
contexto em que esteja sendo aplicada.

Identificar de onde “vem” o Direito, ou seja,


2 quais são as suas fontes e qual o peso de cada
uma delas na aplicação das normas.

Identificar como o direito se apresenta para nós,


3 qual a receita ou técnica legislativa utilizada para
que o direito seja o mais claro possível para os
seus destinatários.

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Conceito de Direito

S
empre que ministro aulas presenciais ou a distância, procuro, antes de con-
ceituar qualquer coisa, fenômeno ou instituto jurídico, chamar a atenção
para a sábia lição dos antigos que firmaram o entendimento segundo o
qual conceituar nada mais é do que estabelecer o gênero próximo e determinar
as diferenças específicas daquilo que se quer conhecer em relação àquilo que
já se conhece. Isso é bastante simples. Em outras palavras, conceituar é dizer
com o que se parece a coisa que queremos conhecer, com base em algo que
já conhecemos e, depois, estabelecer as diferenças específicas entre eles.
Quando nós realizamos este exercício lógico, conseguimos particularizar o
nosso objeto de estudo, e juntamos ao nosso conhecimento algo novo, que possui
conceito próprio, mesmo que se pareça com outra coisa.
Vejamos um exemplo a partir de um diálogo fictício entre duas pessoas (João
e Maria):

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Fonte: ilustrado por Anderson Gomes

Pois bem. Como você pode perceber, o significado de direito não é tão claro
quanto parece a primeira vista, mas, diferentemente de Maria, você não precisa
pensar em mudar de Curso, pois aqui na disciplina Introdução ao Direito Consti-
tucional, você vai aprender facilmente a conceituar direito. É só prestar atenção
no que vou lhe dizer a partir de agora.
Observando o diálogo, vimos que Maria ficou um pouco confusa quando João
solicitou dela o conceito de direito, principalmente quando disse a última frase,
na qual se refere a vários “direitos”. Só que Maria, diferentemente de você, não
sabia que conceituar é estabelecer o gênero próximo (dizer com o que se parece
algo) e determinar as diferenças específicas (diferenciar ou particularizar o que
se quer conhecer, no caso, o direito). Ela sabia apenas dizer com o que se parecia
o direito (religião, etiqueta, moral), mas não sabia determinar a diferença entre
eles. Somente quando conseguimos determinar estas diferenças é que sabemos
conceituar bem o direito. Vamos fazer isto?

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Uma maneira fácil e didática de construir o conceito de direito é começar
dizendo com o que ele se parece, ou seja, falar do direito como gênero e não
como espécie. Nesse caso, podemos dizer, sem medo de errar, que o direito, assim
como a religião, as regras de etiqueta e a moral, é um instrumento de contro-
le social, ou seja, mecanismo que serve para “controlar”, “conter”, “regular”,
“harmonizar”, “pacificar”, “coordenar” a vida em sociedade.
Se ainda tem dúvida disso, faça você mesmo a seguinte pergunta: Por que eu
dou bom dia às pessoas, ou respeito a ordem de uma fila, ou procuro não cometer
pecados ou não concordo internamente com algumas atitudes que considero imo-
rais, ou, por fim, não posso ultrapassar o sinal vermelho?
As respostas, na ordem, para o seu questionamento são: porque eu observo as
regras de etiqueta (bom dia!), porque eu respeito a minha religião (vai e não pe-
ques mais), porque eu cultivo preceitos morais (não concordo com atos imorais)
ou porque, simplesmente, eu obedeço às leis (sinal vermelho significa pare!).
Ora, observamos que embora estejamos diante de instrumentos de controle
social diferentes (etiqueta, religião, moral e direito), o efeito é o mesmo, que é
de controle ou moderação das nossas ações, ou seja, eu ou você deixamos, no
exemplo citado, de fazer algo (ou não fazer) com base ou nas regras de etiqueta,
ou nos preceitos religiosos, ou nos valores morais ou nos dispositivos da lei.
Partindo desse raciocínio simples, podemos dizer que, por enquanto, sabemos
com o que o direito se parece, não é mesmo? Então, o direito se parece, quanto aos
seus efeitos, com a religião, a moral e a etiqueta. No caso, ele faz parte do gênero
dos instrumentos de controle social, que determinam uma ação ou uma omissão
com base naquilo que é ensinado, cultivado ou determinado por esses instrumentos.

Atividade 1

Quer tentar elaborar o seu primeiro conceito de Direito? Faça isso com as suas
próprias palavras e de acordo com o que vimos até agora. Boa sorte!

Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional 15

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Diferenciando o Direito dos fenômenos
com os quais ele se parece
Agora, eu quero desafiar você a descobrir o que diferencia o direito dos demais
instrumentos de controle social para, aí sim, termos um conceito mais preciso
do que vem a ser o direito.
Inicialmente, você há de concordar comigo em relação ao fato de que eu pos-
so iniciar o conceito de direito dizendo que ele é um instrumento de controle
social, ou seja, eu estou estabelecendo a primeira parte de qualquer conceito,
que é dizer com o que o direito se parece (chamamos isso de gênero próximo).
Agora me responda uma coisa, antes de estabelecermos a diferença específica
do direito em relação aos outros instrumentos (segunda parte do conceito): Se
você descumprir uma regra de etiqueta, ou um preceito moral, ou mesmo uma
regra da sua religião, você pode ser preso? Em outras palavras: Se você deixar de
dar bom dia, ou mudar de opinião e passar a fazer algo que você achava imoral
e não acha mais (desde que isso não viole as leis, é claro), ou perder uma missa
ou um culto de vez em quando, alguém pode fazer algo contra você, tal como
prendê-lo(a)?
Pensou bem na resposta? Pois, então: Claro que não!
É exatamente nesse aspecto que o direito se diferencia dos demais instrumen-
tos de controle social, porque ele, o direito, possui uma característica que nenhum
outro instrumento possui (com rara exceção no caso da religião), que corresponde
ao que chamamos no mundo jurídico de sanção prefixada, resultante na possi-
bilidade de fixar previamente uma sanção (pena) no caso do descumprimento de

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uma regra, a exemplo da multa, no caso de alguém ultrapassar o sinal vermelho,
ou mesmo a pena de reclusão no caso de um homicídio (ato de matar alguém).
Agora sim você sabe dizer que o direito é um instrumento de controle social
(que determina uma ação ou omissão), mas que, diferentemente dos outros
instrumentos de controle que com ele se parecem (religião, moral e etiqueta),
no caso do direito, quando você descumpre uma regra, existirá uma pena fixada
previamente para punir você, agora já um “infrator” ou uma “infratora”.
Comparando seria assim:

n Se você não dá “bom dia”, podem lhe chamar, no máximo, de


mal-educado(a).
Excomungado
n Se você tem vários(as) parceiros(as) ao mesmo tempo podem lhe Segundo o dicionário eletrônico
Houaiss da língua portuguesa,
chamar, no máximo, de imoral.
excomunhão significa a “pe-
nalidade da Igreja Católica que
n Se você descumpre algum preceito religioso, podem lhe chamar, consiste em excluir alguém da
no máximo, de excomungado(a). totalidade ou de parte dos bens
espirituais comuns aos fiéis”
quando ele pratica algo contrário
Porém ao Direito da Igreja (Direito
n Se você descumpre uma regra de direito, podem lhe chamar, no mí- Canônico).
nimo, de infrator(a) ou, até, dependendo do caso, de criminoso(a).

Assim, percebemos que somente o direito tem o poder de coagir, de pren-


der, de penhorar, de apreender, de obrigar a fazer algo por meio da força,
sendo esta a principal característica que o diferencia dos outros instrumentos
de controle social.
Feitas tais observações, acho que podemos conceituar o direito com base no
que já conversamos até agora.
É claro que você pode criar o seu próprio conceito, mas gostaria de sugerir
um que entendo bem didático. Vamos a ele: Direito, em sentido geral, é um
instrumento de controle social que tem por objetivo ordenar e harmonizar as
relações entre as pessoas, bem como solucionar os conflitos existentes na socie-
dade, possuindo uma sanção ou pena prefixada, no caso do seu descumprimento.

Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional 17

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Aprendendo a aplicar a palavra
“direito” nos seus variados sentidos
Agora que você tem uma noção geral do que vem a ser o Direito, quero
convidá-lo(a) a voltar ao diálogo entre João e Maria, ou você pensou que iríamos
deixar de lado a última parte da conversa entre eles, que quase fez com que Maria
repensasse a sua escolha em fazer o Curso de Direito? Lembra-se dessa parte da
conversa? Se não, reproduzo a seguir para rememorar.

Fonte: ilustrado por Anderson Gomes

Então, vamos desvendar o que significa cada um desses quatro “direitos” em


destaque que aparecem na última frase?
Se por acaso eu fosse usar uma linguagem bem técnica sobre o que vou
conversar agora com você, eu diria que estamos diante das várias acepções ou
Epistemológico sentidos que a palavra “direito” possui. Em uma linguagem bem simples, bem
Palavra que vem de epistemo- coloquial, estou querendo dizer que o “direito”, dentro de uma mesma frase,
logia, que significa “teoria do
pode ter vários sentidos, mas continuar com a mesma escrita, com o mesmo vo-
conhecimento”. No dicionário
eletrônico Houaiss da língua cábulo. Comprovamos isso com a frase de João, em que o “direito” aparece qua-
portuguesa, além de significar tro vezes, mas com significados diferentes. Então, quais são estes significados?
“teoria do conhecimento”, O primeiro significado (“Boa sorte no estudo do Direito”) equivale a dizer
epistemologia é traduzida como
“Boa sorte no estudo da Ciência do Direito” ou “Boa sorte no estudo das disci-
“estudo dos postulados, conclu-
sões e métodos dos diferentes plinas que você vai estudar no Curso de Direito”. Adaptando para o nosso caso,
ramos do saber científico, ou seria como eu dizer a você assim: “Boa sorte no estudo Direito Constitucional”.
das teorias e práticas em geral.”. Aqui temos o primeiro significado que os estudiosos do Direito chamam de “sen-
tido epistemológico”, ou seja, o vocábulo “direito” na frase significa “teoria do
conhecimento jurídico”, ou, simplesmente, ciência do direito.

18 Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional

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Se fôssemos traduzir esse primeiro sentido da palavra direito por meio de
uma imagem, a imagem seria esta:

O segundo significado (que vai lhe ensinar a aplicar o direito) equivale a dizer
“que vai lhe ensinar a aplicar a lei”, ou seja, tem o sentido de lei, norma ou re-
gra. Os estudiosos chamam este significado de “sentido objetivo” da palavra lei,
querendo dizer que a lei é o objeto ou aquilo que se estuda na ciência do direito.
Se fôssemos traduzir esse segundo sentido da palavra direito por meio de uma
imagem, a imagem seria esta:

LEI Nº 8.112, DE 11 DE DEZEMBRO DE 1990


Dispõe sobre o Regime Jurídico dos Servidores
Públicos Civis da União, das Autarquias e das
Fundações Públicas Federais.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte lei:
TÍTULO I
Capítulo Único
Das Disposições Preliminares
Art. 1º Esta Lei institui o regime jurídico dos servidores públicos civis da
União, das autarquias, inclusive as em regime especial, e das fundações
públicas federais.
Art. 2º Para os efeitos desta Lei, servidor é a pessoa legalmente investida
em cargo público.
Art. 3º Cargo público é o conjunto de atribuições e responsabilidades
previstas na estrutura organizacional que devem ser cometidas a um
servidor.
[...]

O terceiro significado (“para que você tenha o direito de exercer a sua profis-
são”) equivale a dizer “para que você tenha o poder de exercer a sua profissão”,
ou então “para que você tenha a faculdade de exercer a sua profissão”. Aqui,

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“direito” significa poder ou capacidade para fazer algo, para exigir alguma coisa.
Os estudiosos chamam esse sentido da palavra direito de sentido subjetivo, que
vem de sujeito, de pessoa, que possui o poder a ser exercido.
Se fôssemos traduzir esse terceiro sentido da palavra direito por meio de uma
imagem, a imagem seria esta:

Figura 1 – Tribunal do júri


Fonte: <http://diariodeestudos.com/2012/10/26/tribunal-do-jri-sumrio-da-culpa/>. Acesso em: 13 nov. 2012.

Como podemos observar na Figura 1, temos a imagem de um tribunal do


júri em que o Promotor, que representa a sociedade, solicita, exige, pede que a
lei seja cumprida e que os infratores sejam punidos, pois essa é uma faculdade,
um poder ou um “direito” de quem foi prejudicado pela prática de um crime.
Dando continuidade ao nosso assunto, temos o quarto significado (“é mais
que direito que isso ocorra”), que equivale a dizer “é mais que justo que isso
ocorra”, ou seja, o direito aí aparecendo com o sentido de justiça, de sentimento
de justiça. É a mesma coisa quando a gente diz, por exemplo, que “isso não
é direito”, que equivale a dizer “isso não é correto, não é justo”. No exemplo
aqui, João está dizendo a Maria que
é justo ou mais do que justo que
ela exerça a profissão tão desejada
se conseguir se formar e, no caso
da advocacia, passar no exame da
Ordem dos Advogados do Brasil. A
esse significado os estudiosos dão o
nome de sentido moral, ético.
Se fôssemos traduzir esse quarto
sentido da palavra direito por meio
de uma imagem, a imagem seria esta:
Fonte: ilustrado por Anderson Gomes

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Agora, para concluir essa história, vamos refazer a frase “traduzindo” todos
os sentidos da palavra “direito” que aparece no diálogo entre João e Maria? No
caso, ficaria assim:

Fonte: ilustrado por Anderson Gomes

Viu como é fácil? É só raciocinar assim:

n Todas as vezes que eu conseguir substituir a palavra “direito” por “ciência do


direito”, eu estou fazendo referência ao seu sentido epistemológico.

n Todas as vezes que eu conseguir substituir a palavra “direito” por “lei”, eu


estou fazendo referência ao seu sentido objetivo.

n Todas as vezes que eu conseguir substituir a palavra “direito” por “poder”,


eu estou fazendo referência ao seu sentido subjetivo.

n Todas as vezes que eu conseguir substituir a palavra “direito” por “justo”, eu


estou fazendo referência ao seu sentido moral, ético ou de justiça.

Atividade 2

Formule um conceito de direito em que estejam presentes os quatro


sentidos (epistemológico, objetivo, subjetivo e de justiça), nos moldes
do exemplo dado linhas atrás.

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Saiba mais

Existem muitos outros conceitos de “direito” feitos por autores re-


nomados, mas nem sempre de fácil assimilação. Trago aqui dois con-
ceitos bem didáticos que ajudarão você a aprofundar a compreensão
da palavra “direito”. O primeiro é de Paulo Nader, para o qual, “Em sua
dimensão positiva, Direito é o conjunto de normas de conduta social,
imposto coercitivamente pelo Estado, para a realização da segurança,
segundo os princípios de justiça” (2006, p. 44). O segundo conceito é de
José Flóscolo da Nóbrega, que defende que, “Como processo cultural,
o direito é uma atividade valorativa, orientada no sentido de realizar a
ordem, a segurança e a paz nas relações sociais” (2010, p. 34).

Fontes do Direito
Agora que você já sabe conceituar o direito, gostaria de começar uma con-
versa sobre “fontes do direito”, com uma pergunta: você por acaso já havia se
perguntado alguma vez sobre de onde vem o direito?
Fazendo a pergunta de outra maneira: você já se perguntou alguma vez so-
bre o que dá legitimidade ao direito, ou seja, qual a “fonte” das regras, de onde
advêm os preceitos que temos que cumprir?
A resposta a esse questionamento nos levará inevitavelmente à busca pelas
fontes do direito, a busca pela “nascente” do direito. É isso que vamos fazer a
partir de agora.
Veja bem, quando buscamos a origem do direito vamos nos deparar com as
seguintes fontes:

n A lei

n A jurisprudência

n A doutrina

n Os costumes

Então, se alguém perguntar a você “de onde vem o direito”, você já pode
responder “sem pestanejar” que o direito vem da lei, da jurisprudência, da dou-
trina e dos costumes.

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O problema é que quem pergunta de onde vem o direito e recebe de você a
resposta correta pode muito bem perguntar o que cada “fonte” dessa significa,
não é mesmo?
Ora, não vejo problema nisso, porque podemos tirar um tempo agora
mesmo para saber as principais características de cada uma dessas fontes.
Vamos fazer isso?

Falando um pouco sobre a lei


A Lei é a principal fonte do direito. A sua nascente é o Poder Legislativo,
que possui como função típica o ato de “legislar” (fazer leis), ou você esqueceu
a razão para a qual elegeu vereadores, deputados e senadores? Foi para isto:
aprovar leis que satisfaçam as necessidades dos cidadãos e cidadãs e garantam
a paz social.
Como a lei é realmente a fonte do direito mais requisitada em razão de o Brasil
ter adotado a tradição das leis escritas, vamos falar um pouco mais sobre ela.
Podemos dizer que a lei é uma das formas de expressão da conduta exigida
ou do modelo imposto de organização social. É parte do Direito e, assim, objeto
cultural, porque se encontra no mundo da cultura, em que o homem estabelece
as diretrizes de convivência e modela o agir em sociedade.
Em sentido amplo, pode-se compreender lei como sendo todas as normas ju-
rídicas escritas, sejam leis propriamente ditas, decorrentes do Legislativo, sejam
os decretos, os regulamentos, ou outras normas baixadas pelo Poder Executivo.
Bem, vimos o que a lei “é”, mas é importante também saber como ela
é “feita”.
Dentro do ordenamento jurídico brasileiro, se chama lei toda norma emanada
dos órgãos de soberania aos quais, segundo a Constituição, se atribui a faculdade
de ditar o direito. Mas não basta o poder de fazê-lo outorgado pela Constituição.
Necessário se faz que se siga um ritual, que se estabeleça um processo de for-
mação da lei, denominado de processo legislativo.
No Brasil, a sucessão dos diversos atos realizados para a produção das leis
federais é regida pela Constituição Federal, pela Lei Complementar n.º 95, de 26
de fevereiro de 1998, pelos Regimentos Internos da Câmara dos Deputados e do
Senado Federal e pelo Regimento Comum do Congresso Nacional.
A Constituição Federal trata do processo legislativo a partir do art. 59 e incisos,
dispondo que “o processo legislativo compreende a elaboração de: I- emendas
à Constituição; II- leis complementares; III- leis ordinárias; IV- leis delegadas;
V- medidas provisórias; VI- decretos legislativos; VII- resoluções”.
O processo legislativo ocorre nas seguintes fases:

a) Apresentação do projeto de lei.

b) Exame das comissões técnicas.

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c) Discussão e aprovação.

d) Revisão.

e) Sanção.

f) Promulgação.

g) Publicação.

A apresentação do projeto de lei ou iniciativa de leis, segundo o art. 61


da Constituição Federal, “cabe a qualquer membro ou comissão da Câmara dos
Deputados, do Senado Federal ou do Congresso Nacional, ao Presidente da Repú-
blica, ao Supremo Tribunal Federal, aos Tribunais Superiores, ao Procurador-Geral
da República e aos cidadãos, na forma e nos casos previstos nesta Constituição”.
O exame pelas comissões técnicas consiste na análise do projeto de lei por
todas as comissões a que ele se vincule por sua natureza e objeto.
A revisão de um projeto de lei ocorre quando uma das Casas, dependendo
da iniciativa da lei, aprova o projeto e o remete para a outra, que passará a ser
a Casa revisora.
A sanção é o ato do chefe do Poder Executivo (Presidente, Governador ou
Prefeito) que antecede a promulgação e publicação da lei.
A promulgação é ato através do qual o Chefe do Poder Executivo sanciona
uma lei e determina seja ela publicada.
A publicação é divulgação, pela imprensa oficial, do conteúdo da lei.
Vencido esse processo, a lei passa a “valer” logo após a sua entrada em vigor,
sendo agora de observância obrigatória por todas as pessoas.

Falando um pouco sobre a jurisprudência


A jurisprudência não é tão comum no nosso cotidiano quanto às leis, mas
com os esclarecimentos que iremos fazer aqui fica fácil assimilar o significado e
o alcance da jurisprudência nas nossas vidas enquanto cidadãos e no exercício
da nossa profissão.
A jurisprudência corresponde, nesse universo das fontes do direito, à con-
tribuição que o Poder Judiciário dá na interpretação das normas porque, ao
interpretá-las o juiz e os colegiados do próprio Poder Judiciário vão criando uma
interpretação que, de tanto ser repetida, serve para orientar futuras interpretações
do mesmo caso.
É por isso que ouvimos algumas pessoas dizerem que o Poder Judiciário ou
o juiz entende assim ou assado determinado tema, e, mesmo que a lei não seja
clara e até pareça dizer o contrário, os magistrados decidem aquelas questões
seguindo um “padrão” de interpretação. Pois bem, em termos simples, isso é a
jurisprudência.

24 Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 24 23/09/14 17:28


Tecnicamente, ou seja, em uma linguagem mais apurada, poderíamos concei-
tuar jurisprudência como sendo “o conjunto de decisões dos tribunais a respeito
de um mesmo assunto” (NUNES, 2005, p. 101) ou “a reiteração dos julgamentos
num mesmo sentido” (MEIRELLES, 2010, p. 47).

Falando um pouco sobre a doutrina


A doutrina é a fonte do direito que busca doutrinar, ensinar, instruir as pessoas
sobre algo. Esse “algo”, no nosso caso, é o estudo do direito. Então, a doutrina
é o ensinamento do direito, feita pelos estudiosos do direito por meio de livros,
artigos, monografias etc.
Por exemplo, este livro que você está lendo agora e que foi cuidadosamente
preparado por mim para você é uma doutrina. Nele, eu estou tentando traduzir
de forma simplificada o conhecimento do Direito Constitucional, partindo do
próprio conceito de lei, das suas fontes, sua técnica e sua interpretação.
No final desta unidade, você vai ver, por exemplo, uma lista de nomes de
pessoas e títulos de livros, chamada de referências, que corresponde à doutrina
que eu consultei para preparar esta unidade.
A doutrina é muito importante para ajudar a gente a entender as normas,
porque, como o direito tem uma linguagem própria, é necessário que os espe-
cialistas em leis traduzam para todos e todas, independentemente da formação
de cada um, qual o sentido e o alcance das leis.
Assim, sempre que você tiver alguma dúvida sobre alguma lei porque não
conseguiu entendê-la com uma simples leitura, procure um livro ou um artigo
na internet para consultar, pois sempre haverá algo escrito por um doutrinador
(professor, advogado, escritor etc.) sobre o ponto no qual você tem dúvidas.
Sim, e não se esqueça de que quando você fizer um artigo ou uma monografia,
naquele momento você estará contribuindo para o banco de dados da doutrina
e, por que não dizer, se transformando em um doutrinador.

Falando um pouco sobre o costume


Sobre o costume, todos nós temos uma boa noção, porque ele consiste em
“uma norma não escrita, que surge da prática longa, diuturna e reiterada da
sociedade” (NUNES, p. 108). É quando fazemos algo não porque ele está escrito
na lei, mas porque respeitamos o costume e temos aquilo como obrigatório.
Quer um exemplo? Imagine a situação em que você alugou uma casa, mas
na Lei do Inquilinato, que regulamenta essa questão, não está escrito o dia de
pagamento do aluguel em cada mês e no contrato de aluguel esqueceu-se de
mencionar o dia do vencimento. Ora, se o mês tem, em média, 30 dias, isso não
significa que em um mês você pode pagar no dia 1º, no outro mês no dia 15 e
no outro no dia 30.
Nesse caso, quem vai definir o dia do pagamento é exatamente o costume
local, ou seja: naquela localidade onde está localizado o imóvel alugado, quando

Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional 25

In_Di_Co_Livro.indb 25 23/09/14 17:28


geralmente se vencem os aluguéis? Se for ao dia 1º, paga-se no dia 1º; se for ao
dia 5º, paga-se no dia 5 e assim por diante.
É bom chamar a atenção para o fato de que o que vai definir esse costume
é, por exemplo, a data em que as pessoas costumam receber os seus salários ou
remunerações em cada mês, a data em que o município paga aos seus servidores
ou a data em que o comércio paga aos seus empregados.

Atividade 3

Quais são as 4 principais fontes do direito e o que cada uma significa?


Se possível, dê um exemplo para cada fonte.

Técnica legislativa e
interpretação do Direito
Estamos chegando ao final da primeira etapa da nossa disciplina, que tem
como objetivo apresentar uma noção geral do direito para que você possa com-
preender melhor os temas de Direito Constitucional que apresentaremos no
decorrer do nosso estudo.
Nessa última etapa da primeira unidade, vamos ver como o direito se apre-
senta na sua forma escrita, quais as regras básicas que precisamos aprender para
poder “manusear” uma lei, um código e, principalmente, a Constituição Federal,
nosso principal objeto de estudo. A isso damos o nome de técnica legislativa,
que é a técnica própria de elaboração, redação, alteração e consolidação das leis.
Para isso, não teremos grandes problemas, pois o estudo da técnica legislativa
é autoexplicativo, uma vez que se trata praticamente de uma “receita”, prevista
em uma lei, a Lei Complementar 95, de 26 de fevereiro de 1998.
Em outras palavras, se você quiser saber como as leis são elaboradas, redigi-
das, alteradas e consolidadas, basta consultar essa Lei, cujos principais artigos
são os apresentados a seguir.

26 Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 26 23/09/14 17:28


CAPÍTULO II
DAS TÉCNICAS DE ELABORAÇÃO, REDAÇÃO E ALTERAÇÃO DAS LEIS
Seção I
Da Estruturação das Leis

Art. 3o A lei será estruturada em três partes básicas:


I - parte preliminar, compreendendo a epígrafe, a ementa, o preâmbulo, o enunciado
do objeto e a indicação do âmbito de aplicação das disposições normativas;
II - parte normativa, compreendendo o texto das normas de conteúdo substantivo
relacionadas com a matéria regulada;
III - parte final, compreendendo as disposições pertinentes às medidas necessárias
à implementação das normas de conteúdo substantivo, às disposições transitórias,
se for o caso, a cláusula de vigência e a cláusula de revogação, quando couber.
Art. 4o A epígrafe, grafada em caracteres maiúsculos, propiciará identificação nu-
mérica singular à lei e será formada pelo título designativo da espécie normativa,
pelo número respectivo e pelo ano de promulgação.
Art. 5o A ementa será grafada por meio de caracteres que a realcem e explicitará, de
modo conciso e sob a forma de título, o objeto da lei.
Art. 6o O preâmbulo indicará o órgão ou instituição competente para a prática do
ato e sua base legal.
Art. 7o O primeiro artigo do texto indicará o objeto da lei e o respectivo âmbito de
aplicação, observados os seguintes princípios:
I - excetuadas as codificações, cada lei tratará de um único objeto;
II - a lei não conterá matéria estranha a seu objeto ou a este não vinculada por afi-
nidade, pertinência ou conexão;
III - o âmbito de aplicação da lei será estabelecido de forma tão específica quanto o
possibilite o conhecimento técnico ou científico da área respectiva;
IV - o mesmo assunto não poderá ser disciplinado por mais de uma lei, exceto quan-
do a subsequente se destine a complementar lei considerada básica, vinculando-se
a esta por remissão expressa.
Art. 8o A vigência da lei será indicada de forma expressa e de modo a contemplar
prazo razoável para que dela se tenha amplo conhecimento, reservada a cláusula
“entra em vigor na data de sua publicação” para as leis de pequena repercussão.
§ 1o A contagem do prazo para entrada em vigor das leis que estabeleçam período
de vacância far-se-á com a inclusão da data da publicação e do último dia do prazo,
entrando em vigor no dia subsequente à sua consumação integral.
§ 2o As leis que estabeleçam período de vacância deverão utilizar a cláusula ‘esta
lei entra em vigor após decorridos (o número de) dias de sua publicação oficial’ .
Art. 9o A cláusula de revogação deverá enumerar, expressamente, as leis ou dispo-
sições legais revogadas.

Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional 27

In_Di_Co_Livro.indb 27 23/09/14 17:28


Seção II
Da Articulação e da Redação das Leis

Art. 10. Os textos legais serão articulados com observância dos seguintes princípios:
I - a unidade básica de articulação será o artigo, indicado pela abreviatura “Art.”,
seguida de numeração ordinal até o nono e cardinal a partir deste;
II - os artigos desdobrar-se-ão em parágrafos ou em incisos; os parágrafos em incisos,
os incisos em alíneas e as alíneas em itens;
III - os parágrafos serão representados pelo sinal gráfico “§”, seguido de numeração
ordinal até o nono e cardinal a partir deste, utilizando-se, quando existente apenas
um, a expressão “parágrafo único” por extenso;
IV - os incisos serão representados por algarismos romanos, as alíneas por letras
minúsculas e os itens por algarismos arábicos;
V - o agrupamento de artigos poderá constituir Subseções; o de Subseções, a Seção;
o de Seções, o Capítulo; o de Capítulos, o Título; o de Títulos, o Livro e o de Livros,
a Parte;
VI - os Capítulos, Títulos, Livros e Partes serão grafados em letras maiúsculas e
identificados por algarismos romanos, podendo estas últimas desdobrar-se em Parte
Geral e Parte Especial ou ser subdivididas em partes expressas em numeral ordinal,
por extenso;
VII - as Subseções e Seções serão identificadas em algarismos romanos, grafadas
em letras minúsculas e postas em negrito ou caracteres que as coloquem em realce;
VIII - a composição prevista no inciso V poderá também compreender agrupamentos
em Disposições Preliminares, Gerais, Finais ou Transitórias, conforme necessário.
Art. 11. As disposições normativas serão redigidas com clareza, precisão e ordem
lógica, observadas, para esse propósito, as seguintes normas:
I - para a obtenção de clareza:
a) usar as palavras e as expressões em seu sentido comum, salvo quando a norma
versar sobre assunto técnico, hipótese em que se empregará a nomenclatura própria
da área em que se esteja legislando;
b) usar frases curtas e concisas;
c) construir as orações na ordem direta, evitando preciosismo, neologismo e adje-
tivações dispensáveis;
d) buscar a uniformidade do tempo verbal em todo o texto das normas legais, dando
preferência ao tempo presente ou ao futuro simples do presente;
e) usar os recursos de pontuação de forma judiciosa, evitando os abusos de caráter
estilístico;
II - para a obtenção de precisão:
a) articular a linguagem, técnica ou comum, de modo a ensejar perfeita compreensão
do objetivo da lei e a permitir que seu texto evidencie com clareza o conteúdo e o
alcance que o legislador pretende dar à norma;
b) expressar a ideia, quando repetida no texto, por meio das mesmas palavras, evi-
tando o emprego de sinonímia com propósito meramente estilístico;
c) evitar o emprego de expressão ou palavra que confira duplo sentido ao texto;

28 Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 28 23/09/14 17:28


d) escolher termos que tenham o mesmo sentido e significado na maior parte do
território nacional, evitando o uso de expressões locais ou regionais;
e) usar apenas siglas consagradas pelo uso, observado o princípio de que a primeira
referência no texto seja acompanhada de explicitação de seu significado;
f) grafar por extenso quaisquer referências a números e percentuais, exceto data,
número de lei e nos casos em que houver prejuízo para a compreensão do texto;
g) indicar, expressamente o dispositivo objeto de remissão, em vez de usar as ex-
pressões ‘anterior’, ‘seguinte’ ou equivalentes;
III - para a obtenção de ordem lógica:
a) reunir sob as categorias de agregação - subseção, seção, capítulo, título e livro -
apenas as disposições relacionadas com o objeto da lei;
b) restringir o conteúdo de cada artigo da lei a um único assunto ou princípio;
c) expressar por meio dos parágrafos os aspectos complementares à norma enun-
ciada no caput do artigo e as exceções à regra por este estabelecida;
d) promover as discriminações e enumerações por meio dos incisos, alíneas e itens.

Seção III
Da Alteração das Leis

Art. 12. A alteração da lei será feita:


I - mediante reprodução integral em novo texto, quando se tratar de alteração con-
siderável;
II – mediante revogação parcial;
III - nos demais casos, por meio de substituição, no próprio texto, do dispositivo
alterado, ou acréscimo de dispositivo novo, observadas as seguintes regras:
a) revogado;
b) é vedada, mesmo quando recomendável, qualquer renumeração de artigos e de
unidades superiores ao artigo, referidas no inciso V do art. 10, devendo ser utilizado
o mesmo número do artigo ou unidade imediatamente anterior, seguido de letras
maiúsculas, em ordem alfabética, tantas quantas forem suficientes para identificar
os acréscimos;
c) é vedado o aproveitamento do número de dispositivo revogado, vetado, declarado
inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal ou de execução suspensa pelo Sena-
do Federal em face de decisão do Supremo Tribunal Federal, devendo a lei alterada
manter essa indicação, seguida da expressão ‘revogado’, ‘vetado’, ‘declarado incons-
titucional, em controle concentrado, pelo Supremo Tribunal Federal’, ou ‘execução
suspensa pelo Senado Federal, na forma do art. 52, X, da Constituição Federal’;
d) é admissível a reordenação interna das unidades em que se desdobra o artigo,
identificando-se o artigo assim modificado por alteração de redação, supressão ou
acréscimo com as letras ‘NR’ maiúsculas, entre parênteses, uma única vez ao seu
final, obedecidas, quando for o caso, as prescrições da alínea “c”.
Parágrafo único. O termo ‘dispositivo’ mencionado nesta Lei refere-se a artigos,
parágrafos, incisos, alíneas ou itens.

Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional 29

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Viu como é simples? É só seguir a “receita” da Lei complementar 95/98 para
compreender a técnica jurídica de redação, elaboração, alteração e consolidação
das leis.

Atividade 4

O que é a técnica legislativa e em qual lei podemos encontrar as


regras de elaboração, redação, alteração e consolidação das leis?

Leitura complementar

Se você gostou do tema “técnica legislativa” e costuma ver vídeos na Internet,


não deixe de assistir ao vídeo intitulado “Como ler uma lei”. Você poderá assisti-lo
acessando o link <http://direito.folha.uol.com.br/direito-constitucional.html>.
No vídeo se explica, de forma resumida e bastante didática, as principais regras
de técnica legislativa, além de dar excelentes dicas de como procurar o texto de
uma lei na Internet de forma segura. Vale a pena ver. Bom proveito!

Resumo

Nesta unidade, fomos “iniciados” ao mundo do direito. Vimos o


conceito de direito, diferenciando-o de fenômenos a ele semelhantes
(etiqueta, religião e moral), bem como os vários sentidos que
a palavra “direito” pode ter, dependendo do contexto em que é
empregado. Além disso, fomos também apresentados ao tema das
“fontes do direito”, onde descobrimos que o direito “vem” das leis,
da jurisprudência, da doutrina e dos costumes. Por fim, discutimos
a “técnica legislativa”, que corresponde à maneira como o direito
se apresenta na sua forma escrita.

30 Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 30 23/09/14 17:28


Atividades de aprendizagem
Conceitue “Direito” com as suas próprias palavras, levando em consi-
1
deração o que foi informado nesta unidade.

Qual das fontes do direito surge predominantemente no âmbito do


2 Poder Legislativo?

Qual das fontes do direito surge predominantemente no âmbito do


3 Poder Judiciário?

4 Dê dois exemplos de Doutrina.

Em sua opinião, qual a importância da técnica legislativa na compre-


5 ensão do sentido e do alcance das leis?

Referências
DICIONÁRIO eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora
Objetiva, (2002). 1. CD-ROM.

MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 36. ed. São Paulo:
Malheiros, 2010.

NADER, Paulo. Filosofia do direito. 15. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006a.

______. Introdução ao estudo do direito. 26 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006b.

NÓBREGA, José Flóscolo da. Introdução ao direito. 8. ed. João Pessoa: Linha
d’Água, 2007.

NÓBREGA NETTO, Miguel Gerônimo da. Lei complementar nº 95/1998: técnica


legislativa. Brasília: Vestcon, 2008.

NUNES, Rizzatto. Manual de introdução ao estudo do direito. 6. ed. São PAU-


LO: Saraiva, 2005.

Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional 31

In_Di_Co_Livro.indb 31 23/09/14 17:28


Anotações

32 Unidade 1 Introdução ao Direito Constitucional

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Introdução ao Direito Constitucional:
Constitucionalismo, Constituição
e Poder Constituinte

Unidade

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In_Di_Co_Livro.indb 34 23/09/14 17:28
Apresentação

N
esta unidade, teremos o primeiro contato com o Direito Constitucional siste-
matizado didaticamente, partindo do pressuposto de que vocês já possuem
uma noção acerca de vários temas a serem abordados direta ou indiretamente
ao longo desta unidade e das seguintes. Alguns desses temas são: a luta pelo estabe-
lecimento de um Estado democrático no Brasil, a conquista de direitos fundamentais
ao exercício da cidadania (liberdade, reunião, associação etc.) e as garantias básicas
das servidoras e dos servidores públicos (acesso ao serviço público, remuneração,
estabilidade etc.) previstas na Constituição.
O que propomos aqui é uma organização das ideias, uma aproximação do conheci-
mento prático com o conhecimento teórico, que será de muita valia para todos e para
todas, uma vez que o Direito Constitucional é o principal ramo ou setor do Direito, do
qual todos os demais (Direito Administrativo, Penal, Civil, Tributário etc.) decorrem,
pois nenhum direito pode ser inconstitucional, nenhum direito pode ser contrário ao
que está previsto na Constituição. Com isso, vocês já podem ter uma ideia da impor-
tância do Direito Constitucional para o sistema jurídico brasileiro.
Lançamos assim o desafio a vocês, estudantes do Curso de Tecnólogo em Gestão
Pública, de, ao final desta unidade, poder travar qualquer debate que envolva o tema
do constitucionalismo, da constituição e do poder constituinte. Além disso, ao final
desta aula, vocês estarão preparados para enfrentar com segurança o texto da Consti-
tuição Federal brasileira, que será objeto da próxima unidade e necessitará das bases
teóricas que passaremos a discutir, numa linguagem acessível e fácil, a partir de agora.
Boa leitura!

Objetivos
Compreender a importância do “Constituciona-
1 lismo” para o Brasil e o modo como esse fenô-
meno se reflete na nossa vida cotidiana, dentro
e fora do ambiente do trabalho.

Avaliar com segurança a Constituição Federal de


2 1988, sabendo o seu significado e o seu alcan-
ce enquanto principal norma jurídica dentro do
território brasileiro.

Identificar quem tem o poder de mudar a Constitui-


3 ção, como isso é feito na prática e como pode afetar
a nossa vida e os nossos direitos já adquiridos.

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional 35

In_Di_Co_Livro.indb 35 23/09/14 17:28


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Constitucionalismo

Figura 1 – Revolução de Julho de 1830

Fonte: https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSYDYhY9Urjii-
U8tEoLm6_AogSe13uqRBl1rOIWBGvOQTK1-eiYA. Acesso em: 19 de março de 2013.

A palavra constitucionalismo é uma daquelas, dentre tantas outras no mundo


do direito, que não possui um significado definido, mas uma ideia, uma história,
uma concepção. Por isso não iniciaremos esse tópico dizendo o que o consti-
tucionalismo “é”, mas sim dizendo o que o constitucionalismo “tem sido” ao
longo do tempo.
Para ilustrar essa mudança na compreensão da palavra “constitucionalismo”
escolhemos a Figura 1, que rememora a Revolução de Julho de 1830, ocorrida
na França. Como se percebe, a imagem traduz uma “luta”, que nada mais foi do
que a luta por direitos, pela liberdade, pela igualdade, pela fraternidade.
O termo “constitucionalismo” foi fruto também da Revolução Francesa. Du-
rante esse período buscou-se estabelecer novas regras que garantissem os direitos
das pessoas em face do abuso de poder por parte de uma minoria que sempre
desprezou os anseios do povo, verdadeiro titular do poder soberano.
Nesse contexto, abordaremos nesta seção a ideia do fenômeno constitucio-
nalista, a sua importância para o exercício da cidadania e o seu papel no atual
sistema constitucional brasileiro.
Isso auxiliará você na compreensão de que “constituição” e ‘constituciona-
lismo’ não são sinônimos, pois você só compreenderá a contento o significado
e o alcance da Constituição Federal do Brasil se tiver bem firmada a noção de
constitucionalismo.

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional 37

In_Di_Co_Livro.indb 37 23/09/14 17:28


Acerca do termo constitucionalismo você poderia iniciar a construção da sua
ideia dizendo que ele surge no contexto da opressão ou da exploração, no qual
os detentores do poder (governantes), por não serem obrigados a observar pra-
ticamente nenhuma regra, faziam aos governados (o povo) exigências injustas
e desproporcionais, a exemplo do pagamento de tributos sem contrapartida, do
trabalho forçado e da limitação da liberdade de ir e vir.
Para conter tamanho abuso de poder, surge a noção de constitucionalismo.
Inicialmente, o constitucionalismo significou a “maneira”, o “mecanismo” ou
o “movimento” pela qual todas as pessoas poderiam agir, correspondente aos
princípios, regras, usos ou costumes reconhecidos pela sociedade.
Faz-se necessário lembrar que não interessa, no constitucionalismo, se o
detentor do poder é um ditador, um rei ou um presidente, pois o que o consti-
tucionalismo tenta assegurar é exatamente “um modelo de organização política
lastreada no respeito dos direitos dos governados e na limitação do poder dos
governantes” (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 33).
Vocês perceberam como não é possível simplesmente dizer o que o constitu-
cionalismo é? No entanto, notam como a primeira noção que se tinha do consti-
tucionalismo é simples? Ou seja, podemos dizer que a noção principal e primeira
da palavra constitucionalismo tem a ver com “limitação do poder”, “combate ao
abuso de poder”, “estabelecimento de regras a serem observadas pelo soberano”
ou “exercício da titularidade do poder pelo seu verdadeiro titular, que é o povo”.
Se não fosse assim, os inúmeros direitos de que dispomos seriam reduzidos
apenas ao direito de existir, sendo deixados de lado direitos sagrados como o
direito a vida digna, a liberdade, a segurança, a livre manifestação de pensa-
mento etc.
Vencida essa etapa, onde se tentou estabelecer uma noção geral do movi-
mento constitucionalista, gostaria de apresentar para vocês algumas concepções
de constitucionalismo feitas por grandes estudiosos do Direito Constitucional,
que nos ajudarão a construir uma ideia, por escrito do nosso objeto de estudo.
Vejamos algumas delas a seguir.
Para Uadi Lammêgo Bulos (2011, p. 64):

O termo constitucionalismo possui dois sentidos: 1) sentido amplo: é o


fenômeno relacionado ao fato de todo Estado possuir uma constituição em
qualquer época da humanidade, independentemente do regime político
adotado ou do perfil político que se lhe pretenda irrogar; 2) sentido estrito:
é a técnica jurídica de tutela das liberdades, surgida nos fins do século
XVIII, que possibilitou aos cidadãos exercerem, com base em constituições
escritas, os seus direitos e garantias fundamentais, sem que o Estado lhes
pudesse oprimir pelo uso da força e do arbítrio.

38 Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 38 23/09/14 17:28


Na visão de Gabriel Delzen Júnior (2007, p. 72):

[...] o constitucionalismo é um movimento ocorrido na transição da mo-


narquia absoluta para o Estado Liberal, nos fins do século XVIII, pelo qual
os Estados passaram a adotar leis fundamentais ou cartas constitucionais,
reunindo, num documento escrito, sua organização política e a declaração
dos direitos do indivíduo.

Segundo Pedro Lenza (2005, p. 32, grifos do autor):

[...] De maneira pouco criteriosa, grosso modo, o constitucionalismo tem


como origem formal as Constituições norte-americana de 1787 e a francesa
de 1791, fatos marcantes de tal movimento, deflagrado durante o iluminis-
mo e surgido em contraposição ao absolutismo reinante, através do qual se
elegeu o povo como titular legítimo do poder.

Por fim, temos a didática abordagem do tema por Dirley da Cunha Júnior, que,
ao diferenciar constitucionalismo de constituição, adverte que “As constituições
escritas são produto do século XVIII, enquanto o constitucionalismo deslancha
em direção à modernidade, ganhando novos contornos” (2010, p. 34).
Apesar de curta, a frase de Dirley da Cunha Júnior traz uma informação mui-
tíssimo importante que gostaria de destacar aqui para que possamos enfrentar
com segurança o tópico seguinte sobre a constituição. É preciso saber de antemão
que o constitucionalismo não significa somente a existência de uma constituição,
mas uma cultura de respeito aos direitos dos cidadãos e da limitação do poder
dos governantes.
A existência de uma constituição, como no caso do Brasil, que já está na sua
sétima carta constitucional (1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988), é apenas
a forma moderna de expressão do constitucionalismo, que evoluiu da ideia de
respeito aos princípios, costumes, usos etc. para a inscrição, em um documento
legal, dos direitos dos cidadãos e da forma de ascensão ao poder e do exercício
deste poder.
É o constitucionalismo que faz do Brasil o que ele é hoje e que concede a você
o status e o direito que tem, pois estão escritos, na sua forma de expressão – a
constituição –, o modelo de Estado que adotamos e as regras que norteiam a
maneira como nos relacionamos com o próprio Estado e com as pessoas.
Dito isso, gostaria de propor uma breve atividade que lhes ajudará a construir
uma ideia própria acerca do constitucionalismo. Vamos a elas!

Atividade 1

Expresse, com as suas palavras, a ideia que você tem de constitucionalismo.

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional 39

In_Di_Co_Livro.indb 39 23/09/14 17:28


Constituição
Pois bem. Já enfrentamos o tema “constitucionalismo”, que foi um movimento
de combate ao arbítrio dos governantes e o restabelecimento da titularidade do
poder ao seu verdadeiro “dono”, que é o povo.
Cabe a nós, agora, com vistas a adquirir ferramentas para “manusear” a nossa
própria Constituição – a do Brasil –, conhecer o real significado de uma consti-
tuição (já sabemos que ela é fruto do movimento constitucionalista), como ela
pode ser conceituada, como se classifica e como se organiza do ponto de vista
da técnica legislativa (já estudamos técnica legislativa na Unidade 1, lembram?).
Então, mãos à obra!

Conceito
Vocês devem estar se perguntando por que aprender o conceito de “constitui-
ção” se não poderiam simplesmente passar na livraria, comprar uma constituição
e simplesmente ler o que nela está contido?
Eis uma ideia equivocada de constituição, a de que basta ser lida como qual-
quer outro livro para ser compreendida. Não é bem assim.
Pensando nisso, fazemos questão de “dizer” o significado de constituição
para demonstrar o real valor desse documento legal, que faz de nós o que so-
mos em relação ao país em que vivemos. Nesse sentido, poderíamos dizer, sem
exagero, que esse Curso de Tecnólogo em Gestão Pública que você está fazendo
só é possível porque a Constituição Federal do Brasil de 1988, no seu artigo 205,
estabelece que:

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será


promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho.

40 Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 40 23/09/14 17:28


Percebem? A Constituição do Brasil que está em vigor é a de 1988, nela diz
que é dever “do Estado” educar, com vistas aos preparo de todos e todas para o
exercício da cidadania e a “qualificação para o trabalho”.
Nesse momento, estamos ou não nos qualificando para o trabalho e para
exercer plenamente o nosso desenvolvimento como pessoa? E quem está ofere-
cendo este Curso senão o próprio Estado com a colaboração da sociedade, que
financia o Curso através do pagamento de tributos?
Tudo isso só é possível porque existe uma Constituição no Brasil que garante
a educação e obriga as pessoas a pagarem os tributos (impostos, taxas, contri-
buições etc.).
Então entendemos que não basta dizer que no Brasil existe uma Constituição
em vigor, mas que é necessário destacar o quanto ela é importante na nossa vida
e como ela deve ser usada, porque não adianta de nada ter um instrumento de
defesa se a gente não sabe para que serve exatamente e como manuseá-lo, não
é mesmo?
A palavra “constituição” é considerada pelos linguistas como um vocábulo Linguística
“polissêmico”, que significa algo que possui mais de um sentido. Segundo o dicionário eletrônico
Houaiss da Língua Portuguesa,
A palavra constituição pode significar, por exemplo, “modo pelo qual se
linguista é o especialista em lin-
constitui uma coisa, um ser vivo, um grupo de pessoas; significa organização, guística ou pessoa que se dedica
formação” (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 69). ao estudo e ensino de línguas.
Um dos maiores estudiosos do Direito Constitucional, José Afonso da Silva,
nos ensina e dá exemplos das várias significações que a palavra constituição
possui, listando em seu livro (2004, p. 37, grifos do autor), tais como:

[...] a) “Conjunto dos elementos essenciais de alguma coisa: a constituição


do universo, a constituição dos corpos sólidos”; b) “Temperamento, com-
pleição do corpo humano: uma constituição psicológica explosiva, uma
constituição robusta”; c) “Organização, formação: a constituição de uma
assembléia, a constituição de uma comissão”; d) “O ato de estabelecer ju-
ridicamente: a constituição de um dote, de renda, de uma sociedade anôni-
ma”; e) “Conjunto de normas que regem uma corporação, uma instituição:
a constituição da propriedade”; f) “A lei fundamental de um Estado”.

José Afonso da Silva nos dá uma pista do conceito ou do significado de cons-


tituição que nos interessa aqui, que é precisamente o que se acha listado na letra
“f”, ou seja, constituição como “lei fundamental de um Estado”.
Portanto, a nossa lei fundamental, a nossa lei principal, a nossa lei maior é a
Constituição Federal, de forma que para a pergunta imediata do que vem a ser
constituição do ponto de vista jurídico, podemos responder simplesmente que
significa “lei fundamental de um Estado”. Como vivemos no Estado brasileiro,
quando nos referirmos a partir de agora a nossa constituição devemos escrever
sua inicial com letra maiúscula: Constituição.
Quando nos referimos a Constituição Federal do Brasil, falamos da criada em
1988. Ao longo da história do Brasil, foram criadas outras seis Constituições, em
1824, 1891, 1934, 1937, 1946 e 1967.

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional 41

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Vamos fazer uma pausa para você poder organizar a ideia que já tem de
constituição? Sendo assim, segue mais uma atividade, com a certeza de que ao
respondê-la estará apto ou apta a seguir em frente nos estudos.
Depois de responder esta atividade sugerimos a leitura do “Saiba Mais” para
aqueles que desejarem se aprofundar no assunto.

Atividade 2

Dos conceitos vistos de “constituição”, conforme a classifica-


1 ção de José Afonso da Silva, qual você considera mais ade-
quado ao estudo que estamos realizando? Escreva o conceito
correspondente.

2 Diferencie constitucionalismo de constituição, destacando a re-


lação que existe entre eles.

Saiba mais

Quem desejar se aprofundar mais no estudo do conceito de constitui-


ção necessitará estudar os sentidos adotados para identificar que tipo
conceitual de constituição foi adotado por um dado país.
Agora que você já sabe definir constituição em poucas palavras, fica
o desafio, antes de partir para a classificação das constituições, que seria
responder ao seguinte questionamento: o que faz de uma constituição
a lei fundamental de um Estado? Em outras palavras: a lei fundamental
de um Estado é considerada Constituição porque está escrita em um
documento jurídico que se chama “constituição” ou porque contém
temas próprios de uma Constituição? Resumindo: a “Constituição” é
assim definida pela sua forma (formato) ou pelo seu conteúdo (assunto)?
Para tanto, sugerimos uma lição resumida, porém bem fundamenta-
da, de Luiz Lopes Souza Júnior, presente no artigo intitulado “A consti-
tuição e seus sentidos: sociológico, político e jurídico? Qual o sentido que
melhor reflete o conceito de Constituição?”, que pode ser visualizado
no seguinte endereço eletrônico: <http://www.lfg.com.br/public_html/
article.php?story=20090629172655832&mode=print>.

42 Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional

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Classificação
Sobre classificação (ou classificações) gostaria de iniciar o tópico comparti-
lhando com vocês uma frase que ouvi de um ex-professor, frase esta que nunca
saiu da minha cabeça. Ele falou que as classificações “não são boas nem ruins;
elas são úteis ou inúteis”.
De fato. Concordo em gênero, número e grau com essa afirmação, porque se
formos pesquisar quantas classificações existem, por exemplo, sobre constituição,
verificaremos que são inúmeras, e encontraremos algumas úteis, algumas inúteis.
Para mim, útil é aquela que nós conseguimos entender, e foi exatamente
pensando nisso que trouxe uma classificação de constituição que considero a
mais fácil de assimilar, portanto, a mais útil que encontrei para alcançar os fins
aqui propostos.
Tal classificação se encontra na obra de Pedro Lenza, que é um ótimo siste-
matizador do estudo do Direito Constitucional no Brasil.
No entanto, antes de iniciar o resumo adaptado da classificação escolhida,
penso que seja importante deixar bem claro qual o objetivo com isso: esclarecer a
todos vocês que tipo de Constituição é a nossa, a qual você necessitará manusear
a partir da próxima unidade para “descobrir” os seus direitos como cidadãos ou
cidadãs e também como servidores públicos ou servidoras públicas.
Ao final desse tópico, vocês terão plenas condições de entender porque a
Constituição Federal de 1988 é classificada como: promulgada, escrita, analítica,
formal e rígida.
Vamos entender por quê?
Com base na obra de Pedro Lenza (2005, p. 39-44), podemos afirmar que as
constituições podem ser assim classificadas:

n Quanto à origem: outorgadas, quando são impostas unilateralmente por um


governante ou grupo sem a participação do povo, ou promulgadas, resul-
tado de uma Assembléia Nacional Constituinte, formada por representantes
eleitos diretamente pelo povo para fazer a Constituição. São exemplos de
Constituições: a) outorgadas: as do Brasil de 1824, 1937 e 1967; b) promul-
gadas: as do Brasil de 1891, 1934, 1946 e 1988.

n Quanto à forma: escritas, formada por um conjunto de regras sistematiza-


doras e organizadas em um único documento, ou costumeiras, formada
por textos esparsos, revelados por meio dos usos, costumes, jurisprudência
e convenções, podendo ou não ser escritos, mas se escritos constando em
documentos diversos. Todas as Constituições brasileiras foram escritas.

n Quanto à extensão: sintéticas, são constituições “pequenas”, concisas, resu-


midas, breves, que veiculam apenas os princípios fundamentais e estruturais
do Estado, ou analíticas, são constituições “grandes”, extensas, amplas, que
abordam todos os assuntos possíveis considerados como fundamentais. São
exemplos desses tipos de Constituição: a) sintética: a dos Estados Unidos; b)
analíticas: as do Brasil, em particular a Constituição Federal de 1988.

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional 43

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n Quanto ao conteúdo: em sentido material, leva em conta a matéria que
deve ser tratada pela constituição, ou seja, o seu conteúdo, estabelecendo o
que é materialmente constitucional. É o texto da constituição que contiver
as normas fundamentais do Estado, tais como a organização dos seus pode-
res e órgãos e os direitos e garantias fundamentais. Ou em sentido formal,
corresponde àquela constituição que elege como critério o processo de sua
formação e não o conteúdo de suas normas, sendo “constitucional” qual-
quer regra contida na constituição. O Brasil adotou o sentido formal como
elemento definidor do que vem a ser constitucional.

n Quanto à alterabilidade: rígidas, exigem, para a sua alteração ou modificação,


um processo legislativo mais “difícil” do que o processo aplicado às demais
normas. Todas as Constituições do Brasil, menos a de 1824, foram rígidas,
incluindo a de 1988, atualmente em vigor. As constituições podem ser tam-
bém flexíveis, ou seja, o processo de alteração é igual ao das outras normas.

Simples, não? Agora faça a atividade seguinte para exercitar o que você com-
preendeu dessas classificações.

Atividade 3

Como se classifica a Constituição Federal de 1988? Explique, em breves pa-


lavras, o porquê.

44 Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional

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Poder Constituinte
a

Figura 2 – (a) Sessão Assembleia Constituinte de 1890; (b) Assembleia Constituinte de 1984.
Fonte: (a) <http://www.novomilenio.inf.br/festas/brasil1g.htm>;
(b) <http://www.brasil.gov.br/sobre/o-brasil/constituicao/constituicoes-anteriores>. Acesso em: 14 jan. 2013.

Para concluir esta unidade faço um último apelo para que não deixem de (re)
ler este tópico, que, embora teórico, é muito importante para compreendermos
o mecanismo de “construção” de uma constituição em um dado país e em par-
ticular o nosso, o Brasil.
Nesse contexto, não é difícil perceber que os mais velhos valorizam mais as
conquistas advindas da Constituição Federal de 1988, porque muitos deles passa-
ram por momentos bem difíceis, principalmente quem viveu de forma direta ou
indireta o regime imposto em 1964, conhecido como “Período da Ditadura” ou
“Regime Militar”, ocasião na qual o exercício do direito à liberdade de ir e vir, de
expressão, de reunião, dentre tantos outros, era muito diferente dos dias de hoje.
As conquistas que aqueles que nasceram sob a vigência da Constituição Fe-
deral de 1988 sequer percebem – e que serão visualizadas na unidade seguinte
quando formos analisar alguns artigos da referida Constituição –, foram nego-
ciados dentro do contexto do fenômeno denominado “Poder Constituinte” que,
como o próprio nome sugere, é o poder de “constituir” algo, de “construir” algo
novo, de “instaurar” ou “inaugurar” uma ordem jurídica nova.
Foi exatamente tal Poder que instaurou uma ordem jurídica nova para o Bra-
sil, com o advento da Constituição Federal de 1988. Em outras palavras, graças
ao Poder Constituinte, foi “instaurada” uma nova ordem jurídica por meio da
Constituição de 1988, e aqueles direitos que outrora foram ignorados puderam
ser restabelecidos.
Por essas e outras razões, lhes convido para conhecer melhor o importante
tema do Direito Constitucional denominado “Poder Constituinte”.

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional 45

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Conceito e classificação
Conceituar “Poder Constituinte” tem a ver com o fato de responder ao ques-
tionamento que indaga sobre o fundamento da supremacia da Constituição,
ou seja, busca-se indagar sobre o porquê a Constituição é a “lei das leis”, ou o
porquê tem a faculdade de mudar todo um sistema jurídico, político e social de
uma hora para a outra.
Segundo Dirley da Cunha Júnior (2010, p. 234), “[...] a supremacia da Cons-
tituição decorre da sua origem. Provém ela de um poder que institui a todos os
outros e não é instituído por qualquer outro, de um poder que constitui os demais
e é por isso denominado Poder Constituinte”.
Outro conceito bastante esclarecedor é da autoria de Marcelo Novelino (2008,
p. 86), para quem o Poder Constituinte “É um poder político, supremo e origi-
nário, encarregado de elaborar a primeira Constituição do Estado (histórico) ou
de criar uma nova Constituição (revolucionário)”.
O Poder Constituinte, em breves palavras, é o poder concedido pelo seu ver-
dadeiro titular (o povo) para que seus representantes (que exercem em nome do
povo tal poder) possam instituir, criar, revisar ou restabelecer um modelo jurídico
que passará a “valer” a partir de então.
É bom prestar atenção nesse último conceito, que leva em conta a titularidade
do Poder Constituinte, ou seja, quem “detém”, de fato e de direito, esse Poder.
Fica claro que é o povo, que pode exercê-lo por meio de seus representantes
escolhidos para tal, basta prestar atenção nas figuras que ilustram este tópico,
elas correspondem a dois momentos, entre outros, em que o Poder Constituinte
foi exercido: 1890 e 1984.
É bom lembrar que deles resultaram as Constituições de 1891 e 1988. No caso,
as pessoas que aparecem nas Figuras 2a e 2b representavam todas as pessoas do
Brasil, o titular do Poder Constituinte. Estavam ali, naquele contexto, em nome
do povo inaugurando um novo modelo constitucional.
Por fim, não poderia deixar de mencionar brevemente a classificação básica
do Poder Constituinte, que se divide em: a) Poder Constituinte Originário; b)
Poder Constituinte Derivado.
Alguém poderia perguntar se o Poder Constituinte aparece apenas quan-
do a Constituição é “feita” ou “criada”. A resposta é “não”, porque quando a
Constituição já está “valendo” (em vigor) ela continua sendo modificada para
acompanhar as mudanças que ocorrem na sociedade. É por isso que existem
as emendas, muitas vezes tão temidas, porque “mexem” com a Constituição,
criando ou subtraindo direitos.
Nesse contexto, portanto, podemos falar em Poder Constituinte Originário e
Poder Constituinte Derivado.
O primeiro, o Poder Constituinte originário, é aquele que cria, inicia, instaura,
estabelece ou inaugura uma nova ordem jurídica. Exemplo: imagine que o Poder
Constituinte originário decidisse que a partir de hoje o Brasil não teria mais uma
Presidenta, mas um Rei ou uma Rainha. Isso seria possível por meio do exercício
desse Poder, desde que fosse criada uma nova Constituição.

46 Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional

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O segundo, o Poder Constituinte derivado, é um Poder que, como o próprio
nome sugere, “deriva” do Poder Constituinte originário, quando este “cria” a
possibilidade de “revisão”, de forma secundária, da Constituição recém-criada.
Por isso que o Poder Constituinte derivado é também chamado de “secundário”,
“constituído” ou “de segundo grau”. Exemplo: o poder de “reformar” a Consti-
tuição por meio de Emendas (Poder Constituinte Reformador).
Será que já poderia sugerir duas atividades em que você mesmo conceituará
e classificará “Poder Constituinte”? Penso que sim. Então, mãos à obra!

Atividade 4

Levando-se em consideração os aspectos trazidos acerca do


1 Poder Constituinte, elabore, preferencialmente com suas pró-
prias palavras, um conceito de Poder Constituinte.

Classifique Poder Constituinte, explicando a importância


2 dessa classificação.

Leitura complementar

Pois bem, alunos e alunas. Para concluir, gostaria de sugerir a vocês um ex-
celente vídeo da TV Justiça sobre “Estrutura da Constituição”. O vídeo possui
apenas dez minutos (tem continuação, mas essa primeira parte é o suficiente).
Nesse vídeo, o professor Flávio Martins nos ensina o significado do preâmbulo
da Constituição, a importância do texto constitucional e explica didaticamente
o que é o ADCT, ou seja, o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
Vale a pena assistir ao vídeo, até porque a partir da unidade seguinte vocês
precisarão “folhear” a Constituição Federal de 1988.
Segue o link do vídeo para acesso via internet: <http://www.youtube.com/
watch?v=FvY9xMU4Oek>.
Bom proveito!

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional 47

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Resumo

Nesta unidade, vimos as informações teóricas necessárias para


enfrentarmos os artigos da Constituição que serão úteis para o exercício
da nossa cidadania e para a realização do nosso trabalho na condição
de servidoras e servidores públicos. Estudamos, primeiramente, o
fenômeno que deu origem ao que normalmente discutimos em
Direito Constitucional, que foi e é o movimento constitucionalista,
aqui tratado como constitucionalismo. Em seguida, partilhamos
o conhecimento acerca da constituição, relacionando-a com o
movimento constitucionalista e apresentamos a discussão técnica sobre
a sua classificação. Por fim, visitamos o tema do Poder Constituinte,
trabalhando o seu conceito, a sua classificação e a manifestação desse
Poder em diversos momentos do constitucionalismo brasileiro.

Atividades de aprendizagem
Faça um resumo, com as suas palavras, do que foi visto acerca de
1
“Constitucionalismo”.

Qual foi a primeira Constituição brasileira, em que ano ela foi outor-
2 gada e por quem?

O que significa quando se diz que a Constituição Federal de 1988 é


3 uma constituição “formal”?

Em sua opinião, por que é importante conhecer o conteúdo


4 da Constituição?

O Poder Constituinte pertence a quem, afinal? Qual é a diferença entre


5 ser “titular” ou “exercente” do Poder Constituinte?

48 Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional

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Referências
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINI, Gianfranco (Org.). Dicio-
nário de política. 11. ed. Brasília: Editora UnB, 1998. v 1.

BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. 6. ed. São Paulo:


Saraiva, 2011.

CUNHA JÚNIOR, Darley da. Curso de direito constitucional. 4. ed. Salvador:


Jus Podivm, 2010.

DELZEN JÚNIOR, Gabriel. Teoria constitucional: interpretação, controle de


constitucionalidade e outros temas. Brasília: Vestcon, 2007.

DICIONÁRIO eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora


Objetiva, (2002). 1. CD-ROM.

FERREIRA, Eduardo Oliveira. Do constitucionalismo ao neoconstitucionalismo.


Disponível em: <http://letrasjuridicas.blogspot.com.br/2010/06/do-constitucio-
nalismo-ao.html>. Acesso em: 12 out. 2012.

LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. São Paulo: Método, 2005.

NOVELINO, Marcelo. Direito constitucional. 2. ed. São Paulo: Método, 2008.

SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 23. ed. São
Paulo: Malheiros, 2004.

SOUZA JÚNIOR, Luiz Lopes. A constituição e seus sentidos: sociológico, po-


lítico e jurídico? Qual o sentido que melhor reflete o conceito de Constituição?.
Disponível em: <http://www.lfg.com.br/public_html/article.php?story=2009
0629172655832&mode=print>. Acesso em: 23 out. 2012.

Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional 49

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Anotações

50 Unidade 2 Introdução ao Direito Constitucional

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Princípios Fundamentais: Estado,
Federação, Poderes do Estado, República,
Presidencialismo e Democracia

Unidade

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Apresentação
Nesta unidade, vamos, literalmente, “abrir” a Constituição Federal de
1988, uma vez que, desde as Unidades 1 e 2, estamos nos preparando para
isso. Aqui, iremos entender o que faz do Brasil, do ponto de vista jurídico,
aquilo que ele é hoje.
A proposta desta Unidade é apresentar a você, aluno(a), um plano de estudo
bem didático acerca dos principais fenômenos jurídicos que envolvem o Estado
e o povo brasileiros, correspondente ao conhecimento acerca dos seguintes te-
mas: Estado (conceito), Poderes do Estado (separação dos Poderes), Federação
(formas de Estado), República (formas de governo), Presidencialismo (sistemas
de governo) e Democracia (regime político).
Para atingirmos os nossos objetivos, cabe uma advertência: como iremos
“desbravar” alguns artigos da Constituição Federal de 1988, é importante uma
releitura da Unidade I, no tópico referente à Técnica Legislativa, para que
vocês não fiquem confusos se precisarmos fazer menção a termos técnicos
tais como “artigo”, “parágrafo”, “inciso” etc.
Dito isso, convido vocês para esta promissora leitura na descoberta do
“Brasil jurídico”!

Objetivos
Definir “Estado” em geral e “Estado brasileiro”
1 em particular, com base nos seus elementos
constitutivos e na legislação em vigor.

Identificar os princípios fundamentais mais im-


2 portantes do Estado brasileiro previstos na Cons-
tituição Federal de 1988.

Reconhecer conceitos fundamentais para a com-


3 preensão do “Brasil jurídico”, tais como Poderes
do Estado, Federação, República, Presidencialis-
mo e Democracia.

Avaliar a importância do domínio de tais concei-


4 tos para o exercício da cidadania e para a quali-
ficação para o trabalho.

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 53

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Princípios Fundamentais
do Estado Brasileiro
a b

c d

Figura 1 – Símbolos nacionais do Brasil – (a) Brasão; (b) Bandeira; (c) Selo; (d) Hino nacional
Fonte: <http://www2.planalto.gov.br/presidencia/simbolos-nacionais>. Acesso em: 28 jan. 2013.

Como ficou combinado nas unidades anteriores e na apresentação desta


unidade, vamos “desbravar”, a partir de agora, aquilo que estamos chamando
de “Brasil jurídico”, que nada tem a ver com a noção que o mundo e muitos
brasileiros têm do nosso país, quando o identificam como “o País do futebol e
do carnaval”. Este aí, deixaremos de lado, porque já o conhecemos muito bem.
Gostaria que nos dedicássemos a conhecer o outro Brasil, o Brasil formal,
legal, jurídico, que, na verdade, se denomina “República Federativa do Brasil”.
Foi por isso que, em vez de imagens representativas do futebol ou do carnaval,
iniciamos este tópico com as imagens que representam os “símbolos nacionais”
(Figura 1), ou seja, o brasão, a bandeira, o selo e o hino nacionais, figuras que,
daqui em diante, devemos ter em mente quando nos referirmos ao Brasil jurí-
dico, ao Brasil tal qual ele é segundo a Constituição Federal de 1988 e tal qual
devemos conhecer na condição de cidadãs e cidadãos brasileiros, ou servidoras
e servidores públicos estatais.

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 55

In_Di_Co_Livro.indb 55 23/09/14 17:28


Saiba mais

O Brasão de Armas do Brasil foi desenhado pelo engenheiro Artur


Zauer, por encomenda do Presidente Manuel Deodoro da Fonse-
ca. [...] O uso do brasão é obrigatório pelos poderes Executivo, Legis-
lativo e Judiciário e pelas Forças Armadas. Também estão presentes
em todos os prédios públicos.
Projetada por Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, com
desenho de Décio Vilares, a bandeira (Figura 1b) foi inspirada na
Bandeira do Império, desenhada pelo pintor francês Jean Baptiste
Debret. Aprovada pelo Decreto nº 4, de novembro daquele ano [...].
O Selo Nacional do Brasil (Figura 1c) é baseado na esfera da
bandeira nacional. Nele, há um círculo com os dizeres “República
Federativa do Brasil”. É usado para autenticar os atos de governo,
os diplomas e certificados expedidos por escolas oficiais ou reco-
nhecidas.
Em 6 de setembro de 1922, o Decreto nº 15.671 oficializa a letra
definitiva do Hino Nacional Brasileiro, escrita por Osório Duque
Estrada em 1909. [...] Música de Francisco Manoel da Silva.

Fonte: <http://www2.planalto.gov.br/presidencia/simbolos-nacionais/brasao>;<http://www2.planalto.gov.br/presidencia/simbolos-
nacionais/bandeira>; <http://www2.planalto.gov.br/presidencia/simbolos-nacionais/selos>; <http://www2.planalto.gov.br/
presidencia/simbolos-nacionais/hinos>. Acesso em: 28.jan. 2013.

Alguém poderia perguntar: “Como conhecer o Brasil jurídico”?


A reposta não poderia ser outra senão esta: “Lendo a atual Constituição do Brasil!”.
Quer um exemplo? Vejamos o primeiro artigo da Constituição da República Fe-
derativa do Brasil de 1988, que diz o seguinte:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indis-


solúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se
em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce
por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos
desta Constituição.

56 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

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Ora, quem está começando o estudo da Constituição pela primeira vez não
faz ideia de quantas informações existem neste “simples” artigo da Constituição
Federal de 1988.
Só para se ter uma noção, vamos selecionar algumas palavras ou termos que
aparecem neste artigo, que simplesmente definem o que o Brasil jurídico é aos
olhos dos brasileiros e também dos estrangeiros. Vejamos:

n República

n Federativa

n Estado Democrático de Direito

n Fundamentos (soberania, cidadania, dignidade da pessoa hu-


mana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, plura-
lismo político).

Entendam: somente do primeiro artigo da nossa atual Constituição, extraí-


mos quatro características (chamados princípios fundamentais) que “dizem” a
qualquer entendido no assunto o que o Brasil é do ponto de vista jurídico, tanto
na ordem interna quanto na ordem internacional.
Em outras palavras, como fazemos ao ministrar aulas presencialmente, suge-
rimos aos alunos e às alunas que “imaginem” a situação em que um estrangeiro
queira saber “o que é o Brasil”; ou seja, se aqui temos rei ou rainha, presidente
ou presidenta, senado federal, câmara de deputados ou os dois juntos, liberdade
religiosa ou de expressão, pena de morte, se pagamos pouco ou muitos tributos,
se a mulher pode ou não votar, se os Estados podem se separar e se transformar
em um Estado independente, se existe eleições periódicas, se o sistema econô-
mico é capitalista etc. Percebam que isso nada tem a ver com samba, carnaval
ou futebol.
Assim, no decorrer desta unidade, nós discutiremos cada uma dessas ca-
racterísticas direta ou indiretamente, pois, nos parágrafos anteriores, nossa in-
tenção foi, basicamente, demonstrar a importância da leitura e compreensão
(interpretação) da Constituição para o entendimento do Brasil jurídico, que é o
Brasil com o qual nós teremos que lidar na condição de cidadãs e cidadãos, que
buscam a satisfação das suas necessidades por meio do direito e de servidoras
e servidores públicos que têm deveres a cumprir e direitos a fazer valer no am-
biente de trabalho.
Vamos começar?

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 57

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Desmistificando os
Princípios Fundamentais
Preocupa-nos muito o “peso” que algumas palavras possuem, principalmente
quando esse “peso” é negativo.
Quer um exemplo? A palavra “princípios”.
Dizemos isso porque, normalmente, no mundo jurídico, os desavisados, quan-
do se deparam com a palavra “princípios”, seja na capa de um livro, seja no
início de um capítulo ou mesmo de um tópico (como este que estamos iniciando),
simplesmente “pulam a página”, simplesmente “não lêem”, porque “princípios
deve ser para encher linguiça” ou coisa parecida.
Ledo engano. E, se quer a prova, volte à página anterior e veja a lista que
fizemos de institutos jurídicos importantíssimos que estão no artigo primeiro
da Constituição Federal de 1988 (República; Federação; Estado Democrático de
Direito; Fundamentos). Pois bem, todos eles, e muitos outros, são “princípios”
e, se vocês estiverem pensando em “pular a página”, vão ter que parar a leitura
de toda esta Unidade III e deixar para trás a compreensão do Brasil jurídico que
define e garante os principais direitos e deveres como cidadãs e cidadãos brasi-
leiros ou como servidoras e servidores públicos.
Então, diga “não” ao preconceito contra essa palavra e saiba que, por trás
dos princípios fundamentais presentes na Constituição Federal de 1988, está a
base de tudo o que o Brasil representa do ponto de vista jurídico e de tudo o que
somos na condição de brasileiros submetidos à ordem jurídica constitucional.
Por isso, proponho que iniciemos imediatamente uma conversa sobre o sig-
nificado e o alcance desses princípios.
Princípio significa base, fundamento, fonte, causa primeira. No nosso caso,
princípios fundamentais são as bases sobre as quais o Brasil se fundamenta,
como se fossem as vigas que dão sustentação ao Brasil.
Na nossa Constituição Federal de 1988, os princípios fundamentais estão pre-
vistos, conforme a técnica legislativa adotada pelo legislador constituinte (aquele
que “escreveu” a constituição), nos artigos 1º a 4º, que compreende o Título I da
Constituição. Como dissemos no início desta Unidade que iríamos literalmente
“abrir a Constituição”, passamos a fazê-lo, a partir de agora, com a leitura desse
título I (já tínhamos visto o artigo 1º, que por didatismo repetiremos aqui).
Antes, porém, avisamos que, depois da leitura pura e simples do Título I da
Constituição (artigos 1º a 4º), faremos as considerações necessárias, organizando
de forma compreensível aquilo que a Constituição “quis dizer”.
Prestem atenção também nos destaques que fizemos com negrito nos artigos,
incisos e parágrafos do Título I, chamando a atenção para as palavras-chave
dessa parte do nosso estudo.
Agora, sim, podemos iniciar a nossa leitura acerca dos princípios fundamen-
tais da República Federativa do Brasil:

58 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

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TÍTULO I
Dos Princípios Fundamentais

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos


Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático
de Direito e tem como fundamentos:
I – a soberania;
II – a cidadania;
III – a dignidade da pessoa humana;
IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V – o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de repre-
sentantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo,
o Executivo e o Judiciário.
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II – garantir o desenvolvimento nacional;
III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais
e regionais;
IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade
e quaisquer outras formas de discriminação.
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais
pelos seguintes princípios:
I – independência nacional;
II – prevalência dos direitos humanos;
III – autodeterminação dos povos;
IV – não intervenção;
V – igualdade entre os Estados;
VI – defesa da paz;
VII – solução pacífica dos conflitos;
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
X – concessão de asilo político.

Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econô-


mica, política, social e cultural dos povos da América Latina,
visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 59

In_Di_Co_Livro.indb 59 23/09/14 17:28


Como podemos perceber, por meio da leitura dos artigos mostrados anterior-
mente, esses são os princípios fundamentais sobre os quais se fundamenta o
Brasil, mas, como também podemos notar, a leitura pura e simples da “lei seca”
Lei seca às vezes não revela o alcance e o sentido do que está escrito. É para isso que
“Lei seca” é como chamamos existem os professores, as professoras, os escritores e as escritoras, não é mesmo?
no jargão jurídico a leitura pura
Pois bem, vamos “desvendar” o sentido e o alcance desses princípios?
e simples das leis, feita direta-
mente e sem a interpretação dos Comecemos a organizá-los mais ou menos na ordem em que aparecem na
estudiosos do direito (juristas). Constituição, e para isso vamos utilizar a didática lição de Dirley da Cunha Júnior
(2010, p. 505, grifos do autor), segundo a qual:

Entre os princípios fundamentais da Constituição de 1988 situam-se os prin-


cípios definidores da forma de Estado (Federação); os princípios definidores
da forma de Governo (República); os princípios definidores do regime políti-
co (Estado Democrático de Direito); os princípios definidores da titularidade
do poder (Soberania Popular); os princípios definidores da articulação entre
os poderes (Separação de Poderes, com Independência e Harmonia entre
eles); os princípios definidores dos fundamentos do Estado; os princípios
definidores dos objetivos fundamentais do Estado e os princípios regentes
das relações internacionais.

Como afirmamos, é bastante didática a lição de Dirley da Cunha Júnior, por-


que ele consegue organizar, de forma muito simples, algo que parece, à primeira
vista, um tanto caótico, porque quem confecciona as normas nem sempre se
preocupa com a boa técnica legislativa.
Baseando-se nessa sistematização e realizando as adaptações necessárias,
discutiremos, nos tópicos seguintes, cinco dos oito princípios fundamentais apon-
tados pelo autor, nessa ordem:

n Princípios definidores da articulação entre os Poderes do Estado: Poderes


Legislativo, Executivo e Judiciário.

n Princípio definidor da forma de Estado: Federação.

n Princípio definidor da forma de governo: República.

n Princípio definidor do sistema de governo: Presidencialismo.

n Princípio definidor do regime político: Estado Democrático de Direito.

Cabe, porém, uma advertência: antes de iniciarmos o estudo dos princípios


fundamentais em espécie, necessário se faz abrir um parêntese para compreen-
dermos o que significa “Estado”, já que falamos tanto nele (Estado brasileiro, por
exemplo), sem nem sempre nos preocuparmos em compreendê-lo na inteireza
do seu significado.

60 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 60 23/09/14 17:28


Mas, antes de partimos para o “Estado”, recomendo, para efeito de fixação
do conteúdo, que você responda à seguinte atividade.

Atividade 1

Como você conceituaria a palavra “princípio”?

Conceito Estado
Não sei se vocês se lembram, mas, ainda na Unidade 1 deste Curso, dissemos,
com base nas lições de Paulo Nader, que conceituar é estabelecer o gênero próxi-
mo (dizer com o que uma coisa se parece) e estabelecer as diferenças específicas
(diferenciar o que queremos conceituar daquilo com o que ela se parece).
Em outras palavras, conceituar é, primeiro, aproximar o nosso objeto de
estudo de algo que já conhecemos (dizer, por exemplo, que o direito é um
instrumento de controle social tal como são o costume, a moral e a religião) e,
segundo, estabelecer as diferenças específicas entre o que quero conceituar (no
exemplo, o direito) e os objetos com os quais ele possui semelhanças.
Nesse contexto, vimos, por exemplo, que o direito se diferencia dos demais
instrumentos de controle social (costume, moral e religião) porque o direito,
diferentemente daqueles, possui uma sanção, uma punição previamente esta-
belecida para o caso do seu descumprimento por alguém.
Chamamos atenção para isso porque pretendemos dar outra dica muito im-
portante sobre como conceituar algo que pretendemos conhecer sem necessa-
riamente “compará-lo” com outras coisas, principalmente quando precisamos
“ganhar tempo”. Isso porque para diferenciarmos, retomando o nosso exemplo
anterior, o direito dos demais instrumentos de controle (costume, moral e reli-
gião), necessitamos ter uma noção mínima do que seja costume, moral e religião,
não é mesmo?
Aqui, na tentativa de conceituar “Estado”, vamos utilizar outra técnica ou
dica, que consiste em “juntar” os elementos que compõem o nosso objeto de
estudo (o Estado) e, somando tais elementos (características), chegar a um con-
ceito razoável de Estado.
Aceitam o desafio? Então, vamos em frente.
Prosseguindo, são muitos os conceitos que se atribui a “Estado”, mas o nosso
objetivo neste momento é sermos didáticos e não “profundos”. Por isso, busca-
remos o caminho mais fácil para a conceituação dessa palavra.

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 61

In_Di_Co_Livro.indb 61 23/09/14 17:28


O primeiro deles é aquele que apenas “soma” as características de qualquer
Estado e forma o conjunto, correspondente ao conceito. Assim, podemos dizer
que o “Estado é a soma dos seus elementos constitutivos”, sendo esses elementos
constitutivos do Estado os seguintes:

n População: elemento humano do Estado; quem habita nele.

n Território: elemento físico ou geográfico do Estado; onde ele se situa.

n Governo: elemento de comando, direção e defesa do Estado; quem o admi-


nistra ou governa.

Não é simples? Como já sabemos quais são os elementos que compõem o


Estado, para conceituá-lo basta somá-los, ficando o conceito mais elementar de
Estado assim:

“Estado é o conjunto de uma população, de um território e de


um governo”.

Mas, é claro que podemos “melhorar” esse conceito, adicionando


a ele algumas palavras-chave. Assim, que tal o conceito mais “or-
ganizado” a seguir?

Estado compreende uma dada população, que vive em um deter-


minado território sob a direção e comando de um governo.

Vejam como tudo ficou mais esclarecido. A partir de agora, qual-


quer um de vocês pode conceituar “Estado” de forma direta e ob-
jetiva.
Podemos ir ainda mais longe, adaptando esse último conceito
ao Estado brasileiro, que é o que mais nos interessa. Dessa forma,

O Estado brasileiro compreende a população do Brasil (brasileiros


natos, naturalizados e estrangeiros que aqui residam), que vive no
território nacional (certo e delimitado), sob a direção e comando
de um governo (soberano).

62 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 62 23/09/14 17:28


Que tal você elaborar o seu próprio conceito de Estado agora? Basta fazer a
atividade seguinte.

Atividade 2

Para você, o que significa “Estado”?

Leituras complementares

Bem, para quem não se satisfez com os conceitos enumerados anteriormente,


ou deseja se aprofundar no assunto, sugerimos a leitura das seguintes obras nos
capítulos relativos ao tema “Estado”:

BONAVIDES, Paulo. Ciência política. 11 ed. São Paulo: Malheiros, 2005;

DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do estado. 21. ed. São
Paulo: Saraiva, 2000;

MALUF, Sahid. Teoria geral do estado. 23 ed. São Paulo: Saraiva, 1995.

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 63

In_Di_Co_Livro.indb 63 23/09/14 17:28


Poderes do Estado: Legislativo,
Executivo e Judiciário
Conforme fica evidenciado pelo artigo 2º da nossa Constituição Federal de
1988, “são Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo,
o Executivo e o Judiciário”.
Bem, todo mundo sabe que os Poderes são o Legislativo, o Executivo e o
Judiciário, mas gostaríamos de ir um pouco mais além e enumerar aqui o que
os caracteriza.
Falemos, primeiro, do Poder Legislativo, que possui as seguintes característi-
cas, também conhecidas como funções típicas do Poder Legislativo:

n Produção de normas (emendas à Constituição, leis ordinárias, leis comple-


mentares etc.).

n Fiscalização do Poder Executivo (fiscalização contábil, financeira, orçamen-


tária, operacional e patrimonial).

A estrutura do Poder Legislativo federal está prevista no artigo 44 da Consti-


tuição Federal de 1988, segundo o qual “o Poder Legislativo é exercido pelo Con-
gresso Nacional, que se compõe da Câmara dos Deputados e do Senado Federal”.
No âmbito estadual, o Poder Legislativo é exercido palas Assembleias Legis-
lativas. Em nível municipal, quem exerce o Poder Legislativo são as Câmaras
de Vereadores. No Distrito Federal, o órgão exercente do Poder Legislativo é a
Câmara Legislativa.
Agora, vamos discorrer um pouco sobre o Poder Executivo, que tem como
características principais ou funções típicas:

n A execução das leis, que se manifesta por meio da administração, de forma


que podemos afirmar que “executar é administrar”, é aplicar a lei por meio
de atos de ofício com vistas ao seu fiel cumprimento.

n A participação no processo legislativo, sancionando, promulgando e fazendo


Leis publicar as leis.
Há quem defenda que a parti-
cipação no processo legislativo
O órgão em que o titular do Poder Executivo federal exerce as suas funções
se trata de função política e não
executiva, mas fica aqui apenas o é a Presidência da República. O órgão em que o titular do Poder Executivo esta-
registro, pois o aprofundamento dual exerce as suas funções é a Governadoria. O órgão em que o titular do Poder
no tema não interessa aos Executivo municipal exerce as suas funções é a Prefeitura.
objetivos do nosso Curso.

64 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 64 23/09/14 17:28


Por fim, vamos falar sobre o Poder Judiciário, que tem como características
marcantes, ou funções típicas, as seguintes:

n O exercício da jurisdição (o ato de julgar), que corresponde ao poder de,


por meio de atos judiciais, aplicar a lei ao caso concreto, solucionando as
controvérsias e demandas a ele (Poder Judiciário) apresentadas pelos desti-
natários das normas.

n O caráter de definitividade das suas decisões, que em linguagem simples


significa “dar a última palavra em matéria de direito”.

A estrutura do Poder Judiciário está prevista no artigo 92 da Constituição


Federal de 1988, assim definida:

Art. 92. São órgãos do Poder Judiciário:


I – o Supremo Tribunal Federal;
I – o Conselho Nacional de Justiça;
II – o Superior Tribunal de Justiça;
III – os Tribunais Regionais Federais e Juízes Federais;
IV – os Tribunais e Juízes do Trabalho;
V – os Tribunais e Juízes Eleitorais;
VI – os Tribunais e Juízes Militares;
VII – os Tribunais e Juízes dos Estados e do Distrito Federal
e Territórios.

Agora que estabelecemos esta noção geral acerca dos Poderes, sugerimos a
realização do exercício a seguir:

Atividade 3

Quais são os Poderes existentes no Brasil e quais as suas principais


características?

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 65

In_Di_Co_Livro.indb 65 23/09/14 17:28


Formas de Estado: Federação
Gostaria de iniciar este tópico proferindo uma certeza: a de que você vive em
um Município, que faz parte de um Estado, que, por sua vez, faz parte do Brasil.
Como iremos falar em “forma” de Estado, que nos remete a “formato” ou
“modelo”, vamos pensar esta certeza pronunciada no parágrafo anterior em
termos visuais?
Então, “visualmente falando”, é possível observar a forma federativa de Es-
tado que queremos conhecer (a forma federativa brasileira) assim:

Roraima
Amapá

Amazônia
Pará Maranhão Rio Grande
Ceará
do norte
Paraíba
Piauí
Pernambuco
Acre
Alagoas
g
Rondônia e
Sergipe
Tocantins Bahia
Mato Grosso
Brasília DF

Goiás
Minas Gerais
Mato Grosso Espirito Santo
Região Norte do Sul
São Paulo Rio de Janeiro
Região Nordeste
Paraná
Região Centro-Oeste Santa Catarina
Rio Grande
Região Suldeste
do Sul

Região Sul

Figura 2 – Mapa político-administrativo do Brasil


Fonte: <http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/mapas/imagens/brasil_regioes_gde.gif>. Acesso em: 28 jan. 2013.

66 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 66 23/09/14 17:28


Mas vocês devem estar se questionando: “Ora, isso aí não é o mapa polí-
tico-administrativo do Brasil? O que isso tem a ver com federação?”.
Tem tudo a ver. Em uma federação, as divisões que existem no mapa não são
divisões meramente administrativas, mas sim político-administrativas.
Eis aí a mais importante das características das federações: são divididas em
regiões caracterizadas, por ser resultado da descentralização política, ou seja,
em uma federação, as regiões (União, Estados, Municípios e Distrito Federal, no
caso do Brasil) são divisões político-administrativas, autônomas entre si, que
possuem Poderes próprios (Legislativo, Executivo e Judiciário, com exceção dos
Municípios que não possuem Poder Judiciário), autonomia legislativa, política
e administrativa.
Organizando as ideias, podemos afirmar que são características de
uma Federação:

n Descentralização política: o poder não é centralizado em nível federal.

n Autogoverno: os entes que compõem a Federação (União, Estados, Municípios


e Distrito Federal) possuem governos próprios.

n Autolegislação: cada ente federado faz as suas próprias leis (mas, no caso do
Brasil, temos as leis nacionais, que se aplicam a todos os entes federativos).

n Autoadministração: cada ente federativo possui administração própria.

Uma última característica relevante sobre Federação é o fato de que as regi-


ões que fazem parte dela (no caso do Brasil, os 26 Estados, o Distrito Federal e
os Municípios) não podem se separar para formar um novo País independente.
Na nossa Constituição Federal de 1988, é fácil identificar a opção do Brasil
pela forma federativa de Estado, quando no início dos seus artigos 1º e 18º
prescreve, respectivamente:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel


dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado De-
mocrático de Direito e tem como fundamentos
[...]
Art. 18. A organização político-administrativa da República Federativa do
Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios,
todos autônomos, nos termos desta Constituição (grifos nossos).

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 67

In_Di_Co_Livro.indb 67 23/09/14 17:28


Prestem bem atenção: o fato de o Brasil ser uma Federação significa que ele se
divide em regiões que possuem autonomia para terem administração e governo
próprios (Poderes Executivos federal, estadual, municipal e do Distrito Federal),
fazerem as suas próprias leis (Poderes Legislativos federal, estadual, municipal e
do Distrito Federal), e terem Poder Judiciário com jurisdição nacional e regional
(lembrem que Municípios não possuem Poder Judiciário), e cujas regiões (Es-
tados, Distrito Federal e Municípios) não podem se separar para se transformar
em País independentes do Brasil.
Se o Brasil não fosse uma Federação, não haveria descentralização política,
mas sim uma centralização do poder político, em que todas as nossas regiões
seriam provavelmente meras divisões administrativas, sem autonomia. Dá-se a
esse tipo de forma de Estado a qualificação de “Estado unitário” que, repita-se,
não é o caso do Brasil.
Agora, vamos dar uma pausa para uma atividade? Vejam aí a atividade que
propomos para vocês.

Atividade 4

Explique o que compreendeu acerca de Federação, levando em conta


as características apontadas.

68 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 68 23/09/14 17:28


Formas de Governo:
Monarquia e República
Falar em forma de governo no contexto em que estamos abordando o
tema, é responder à seguinte pergunta: no Brasil, temos uma Monarquia ou
uma República?
Em outras palavras, seria indagar: no Brasil, quem exerce o poder “delega-
do” pelo povo? Um representante eleito para isso, ou alguém que, por questões
hereditárias, herda o comando do País?
Para responder a tais questionamentos, necessário se faz saber o que carac-
teriza cada uma das formas tradicionais de governo que conhecemos.
Assim, apresentamos as duas principais formas de governo existentes hoje
no mundo, que são as seguintes: Monarquia e República.
Agora, o que vamos fazer é enumerar as principais características de
cada uma dessas formas de governo para que, ao final deste tópico, você
mesma ou você mesmo chegue à conclusão de que o Brasil possui forma
de governo republicana.
Em um País que adota a forma de governo denominada Monarquia, que
significa “governo de um só” (de um monarca ou de uma monarca, rei ou rai-
nha, por exemplo), poderíamos observar os seguintes traços característicos da
aquisição e exercício do poder:

n Hereditariedade: o poder é herdado, ou seja, o monarca ou a monarca (rei


ou rainha, por exemplo) será aquele ou aquela que, em razão de ter nascido
na “família real”, obedecida a linha de sucessão ao trono, comandará o País.

n Vitaliciedade: quem herdou o exercício do comando do País em razão da


hereditariedade também o governará de forma vitalícia (para sempre) en-
quanto viver ou enquanto não renunciar ao trono, passando o comando a
outro herdeiro ou herdeira na linha sucessória.

O exemplo clássico de Monarquia é a Inglaterra, cuja ascensão ao poder e


direito de representação do Estado inglês se dá por meio da sucessão hereditária,
derivada diretamente do fato de fazer parte da família real e constar da linha de
sucessão (ser “herdeiro ou herdeira do trono”) e de poder governar enquanto
vida tiver ou enquanto não renunciar ao trono.

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 69

In_Di_Co_Livro.indb 69 23/09/14 17:28


Já um Estado que adota como forma de governo a República, que significa
“coisa pública”, que “pertence a todos”, pode ser identificado como republicano,
em razão das seguintes características:

n Eletividade: em um Estado republicano, o governante é eleito pelo povo, para


exercer o poder em nome do povo e para o povo.

n Temporariedade: o exercício do poder é temporário, por isso que há eleições


periódicas.

O exemplo que temos de República é o próprio Brasil, que, como po-


demos perceber, se “encaixa” nas características relativas ao sistema de
governo republicano.
Sugerimos agora que você, com o auxílio da internet, resolva o exercício
que segue.

Atividade 5

Com a ajuda de pesquisa pela internet, dê exemplos de pelo menos


três países que, como o Brasil, adotam a forma de governo republicana.

70 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 70 23/09/14 17:28


Sistemas de Governo:
Parlamentarismo e Presidencialismo
Falar sobre sistemas de governo ou sistema representativo significa procurar
saber como se dá a relação institucional entre os Poderes Legislativo e Executivo,
além de identificar quem, de fato e de direito, exerce a chefia de governo de um
determinado Estado.
Os sistemas de governo que podem ser adotados pelos Estados são basica-
mente dois, a saber: Parlamentarismo e Presidencialismo.
No Parlamentarismo, identificamos as seguintes características, apontadas
didaticamente por Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo (2012, p. 17):

n Sistema em que há, predominantemente, uma colaboração entre os Poderes


Legislativo e Executivo.

n O Poder Executivo é dividido em duas frentes: uma chefia de Estado, exerci-


da pelo Presidente da República ou pelo Monarca, e uma chefia de governo,
exercida pelo Primeiro Ministro ou pelo Conselho de Ministros.

Reforçando o entendimento trazido pelos autores citados anteriormente, po-


deríamos dizer que no Parlamentarismo há um agente que “representa o Estado”
(o chefe de Estado) e um agente ou corpo de agentes que “governa o Estado”
(Primeiro Ministro ou Conselho de Ministros, respectivamente).
Há um ditado que traduz com muita clareza o Parlamentarismo, ditado se-
gundo o qual “no Parlamentarismo, o Rei reina, mas não governa”.
É exemplo de sistema de governo parlamentarista a Inglaterra, onde a Rainha
é chefe de Estado e o Primeiro Ministro é chefe de Governo.
No Presidencialismo, identificamos as seguintes características, também apon-
tadas didaticamente por Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo (2012, p. 17):

n Sistema no qual predomina o princípio da divisão dos Poderes, que devem


ser harmônicos e independentes entre si.

n O Presidente da República exerce a chefia do Poder Executivo em toda a sua


inteireza, acumulando as funções de Chefe de Estado e Chefe de Governo.

Em outras palavras, no Presidencialismo, um único agente público (o


Presidente da República) acumula as funções de representação e governança
do Estado.
O Brasil é exemplo de regime presidencialista de governo, porque entre nós
elegemos um Presidente para nos representar e nos governar.

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 71

In_Di_Co_Livro.indb 71 23/09/14 17:28


Igualmente como sugerimos no tópico sobre forma de governo, é interessante
você realizar a atividade abaixo.

Atividade 6

Com a ajuda de pesquisa pela internet, dê exemplos de pelo menos três


países que, como o Brasil, adotam sistema de governo presidencialista.

Saiba mais

Exercer a cidadania na sua plenitude significa também estar cons-


ciente do papel a ser cumprido por aqueles que ajudamos a eleger e
em quem depositamos as nossas esperanças, os nossos sonhos de um
dia poder viver em País mais justo e igualitário.
Mas você sabe, por exemplo, qual é o papel a ser exercido pela
maior autoridade do Brasil, eleita pela maioria dos brasileiros, que é o
Presidente (ou a Presidenta) da República?
Se você respondeu que não sabe ou que tem apenas uma vaga no-
ção do que faz (ou deveria fazer) o Presidente da República, trazemos,
a seguir, algumas atribuições ou competências do Presidente previstas
no artigo 84 da Constituição Federal de 1988, segundo o qual compe-
te privativamente ao Presidente da República: nomear e exonerar os
Ministros de Estado; exercer, com o auxílio dos Ministros de Estado,
a direção superior da administração federal; sancionar, promulgar e
fazer publicar as leis, bem como expedir decretos e regulamentos para
sua fiel execução; vetar projetos de lei, total ou parcialmente; manter
relações com Estados estrangeiros e acreditar seus representantes di-
plomáticos; exercer o comando supremo das Forças Armadas; nomear,
após aprovação pelo Senado Federal, os Ministros do Supremo Tribu-
nal Federal (...); declarar guerra, no caso de agressão estrangeira (...);
celebrar a paz (...).
Daí, pode-se ter uma ideia da importância do Presidente da Repú-
blica para o nosso País. Quem quiser saber mais, é só ler o artigo 84 na
sua integralidade. Boa leitura!

72 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 72 23/09/14 17:28


Regime Político:
Estado Democrático de Direito
O regime político é um dos princípios fundamentais mais importantes em um
Estado, pois é em razão da escolha de tal regime que nós, cidadãs e cidadãos,
podemos ou não participar ativamente da vida política do país.
Felizmente, o regime político adotado pela nossa atual Constituição é o regi-
me democrático de direito, que permite a participação das cidadãs e cidadãos
brasileiros na vida política, quer por meio da escolha dos seus governantes,
quer por meio da possibilidade de ser um dos governantes, votando e/ou sendo
votado, respectivamente.
De acordo com o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa (2002),
Democracia possui os seguintes sentidos:

1. Governo do povo; governo em que o povo exerce a soberania.


2. Sistema político cujas ações atendem aos interesses populares.
3. Governo no qual o povo toma as decisões importantes a respeito das po-
líticas públicas, não de forma ocasional ou circunstancial, mas segundo
princípios permanentes de legalidade.
4. Sistema político comprometido com a igualdade ou com a distribuição
equitativa de poder entre todos os cidadãos.
5. Governo que acata a vontade da maioria da população, embora respei-
tando os direitos e a livre expressão das minorias.

Como se percebe, as palavras “povo”, “todos”, “cidadãos”, presentes nos


vários sentidos acima expostos, traduzem com perfeição a ideia de democracia,
que nada mais é do que o exercício do poder político pelo povo, direta ou indi-
retamente.
Até agora, falamos resumidamente de Democracia, mas você pode estar
se perguntando qual o papel do “direito” na expressão “Estado democrático
de direito”.
É óbvio que o vocábulo “direito” não está aí presente somente para adornar
a expressão, pois possui função especial ao qualificar o Estado democrático al-
mejado pela Constituição, que é o Estado democrático de direito, aquele regido
por leis que buscam garantir a participação do povo nas decisões políticas do
Estado, porque é o povo o legítimo titular do poder.
A esse respeito, ou seja, da expressão “Estado democrático de direito”, valio-
so ensinamento nos é dado por José Afonso da Silva (2004, p. 119-1180, grifos
nossos), quando adverte que

A configuração do Estado Democrático de Direito não significa apenas unir


formalmente os conceitos de Estado Democrático e Estado de Direito. Con-
siste, na verdade, na criação de um conceito novo. [...] A democracia que o

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 73

In_Di_Co_Livro.indb 73 23/09/14 17:28


Estado Democrático de Direito realiza há de ser um processo de convivência
social numa sociedade livre, justa e solidária [...], em que o poder emana
do povo, diretamente ou por representantes eleitos [...].

O que se quer destacar é que cabe ao direito garantir o Estado democrá-


tico por meio de leis que viabilizem a participação popular na vida política
do Estado brasileiro.
Feita essa breve explanação acerca do Estado Democrático de Direito, já po-
demos realizar uma atividade sobre o tema, não é mesmo? Então, vamos a ela.

Atividade 7

Em sua opinião, o que vem a ser um Estado Democrático de Direito?

E, então, entendeu bem o que vimos nesta unidade? Na próxima unidade,


veremos os direitos que temos e os deveres que precisamos observar, em de-
corrência de o Brasil ser o que ele é do ponto de vista jurídico, já devidamente
apresentado nesta Unidade.
Aguardo você na Unidade 4!

Resumo

Nesta unidade, iniciamos a análise dos conteúdos constantes na


nossa Constituição Federal de 1988, que nos permitiram conhecer
o Brasil do ponto de vista jurídico. Para tanto, introduzimos o
estudo acerca do Estado, da separação dos Poderes, das formas de
Estado, das formas de governo, dos sistemas de governo e do regime
democrático. Aqui, “abrimos”, literalmente, como anunciamos no
início da aula, a Constituição Federal de 1988, no intuito de interpretar
os princípios fundamentais que fazem do Brasil o que ele é: uma
República Federativa, com separação de Poderes definida e que adota
o Presidencialismo como sistema representativo baseado no regime
democrático de direito. Conceituamos, ainda, o “Estado”, destacando
os seus elementos constitutivos: população, território e governo.

74 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

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Atividades de aprendizagem
1 Quais são os elementos constitutivos do Estado?

2 Conceitue o Estado brasileiro.

Leia o artigo 2º da Constituição Federal de 1988 e diga quantos são os


3
Poderes no Brasil e quais as suas duas principais características.

4 Como podemos classificar o Brasil levando-se em conta:

a) a sua forma de Estado: ___________________________________________

b) a sua forma de governo: _________________________________________

c) o seu sistema de governo: _______________________________________

d) o seu regime político: ____________________________________________

Referências
ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito administrativo descompli-
cado. 20. ed. São Paulo: Método, 2012.

BONAVIDES, Paulo. Ciência política. 11. ed. São Paulo: Malheiros, 2005.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.


Brasília, DF: Senado, 1988. Acesso em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 10 dez. 2012.

BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. 6. ed. São Paulo:


Saraiva, 2011.

CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de direito administrativo. 25. ed.
São Paulo: Atlas, 2012.

CUNHA JÚNIOR, Darley da. Curso de direito constitucional. 4. ed. Salvador:


Jus Podivm, 2010.

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 75

In_Di_Co_Livro.indb 75 23/09/14 17:28


DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do estado. 21. ed. São
Paulo: Saraiva, 2000.

DELZEN JÚNIOR, Gabriel. Teoria constitucional: interpretação, controle de


constitucionalidade e outros temas. Brasília: Vestcon, 2007.

DICIONÁRIO eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora


Objetiva, 2002. 1. CD-ROM.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 23. ed. São Paulo:
Editora Atlas, 2009.

FERREIRA, Eduardo Oliveira. Do constitucionalismo ao neoconstitucionalismo.


Disponível em: <http://letrasjuridicas.blogspot.com.br/2010/06/do-constitucio-
nalismo-ao.html>. Acesso em: 12 out. 2012.

LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. São Paulo: Método, 2005.

LIMA, Rogério de Araújo. A contribuição de James Madison, Alexander Hamilton


e John Jay para o surgimento do federalismo no Brasil. Revista de Informação
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MALUF, Sahid. Teoria geral do estado. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 1995.

MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 36. ed. São Paulo:
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NOVELINO, Marcelo. Direito constitucional. 2. ed. São Paulo: Método, 2008.

SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 23. ed. São
Paulo: Malheiros, 2004.

TEMER, Michel. Elementos de direito constitucional. 20. ed. São Paulo: Ma-
lheiros, 2005.

76 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 76 23/09/14 17:28


Anotações

Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional 77

In_Di_Co_Livro.indb 77 23/09/14 17:28


Anotações

78 Unidade 3 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 78 23/09/14 17:28


Direitos Fundamentais e
Administração Pública na
Constituição Federal de 1988

Unidade

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In_Di_Co_Livro.indb 80 23/09/14 17:28
Apresentação

N
esta unidade, vamos continuar a apresentação e análise dos principais ins-
titutos jurídicos presentes na Constituição Federal de 1988, considerados
indispensáveis para o exercício da nossa cidadania enquanto particulares
e para o desempenho das nossas funções enquanto agentes públicos (servidoras
e servidores públicos).
Para tanto, selecionamos, inicialmente, os temas mais relevantes nas cate-
gorias dos direitos fundamentais para, ao final, expor a organização formal da
Administração Pública brasileira.
A advertência a ser feita aqui diz respeito à importância desta Unidade, por-
que, após a sua leitura, vocês, alunos(as), terão uma boa ideia de como a Admi-
nistração Pública se organiza e de como os direitos e deveres dos administrados
(quem procura a Administração Pública) e dos agentes administrativos (quem
presta os serviços públicos) podem ser exercidos.
Recado dado, vamos à leitura?

Objetivos
Identificar os principais direitos fundamentais
1 previstos na Constituição Federal de 1988.

Descrever a organização e estrutura da Adminis-


2 tração Pública brasileira com base na Constitui-
ção Federal de 1988.

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 81

In_Di_Co_Livro.indb 81 23/09/14 17:28


In_Di_Co_Livro.indb 82 23/09/14 17:28
Definindo Direitos Fundamentais

Fonte: <http://josedesousatk.blogspot.com.br/2011_03_01_archive.html>. Acesso em: 1 mar. 2013.

Como não poderia deixar de ser, nesta Unidade continuaremos a “desbravar”


a Constituição Federal de 1988, só que agora com uma lupa, conforme nos inspira
a imagem que selecionamos para abrir este tópico.
Mas por que a lupa?
Explico: não são raras as vezes em que abrimos a Constituição do Brasil e o
que vemos a frente são basicamente interrogações, ora porque a linguagem é
muito técnica (apelidamos isso de “juridiquês”), ora porque é obscura mesmo,
com imprecisões terminológicas ou existência de palavras polissêmicas. Com a Polissêmica
lupa enxergaremos melhor o que está nas entrelinhas dos direitos ali presentes. Segundo o dicionário eletrônico
Houaiss da língua portuguesa,
Com isso, pretendemos tirar as principais dúvidas acerca dos mais importan-
polissemia significa a multiplici-
tes direitos fundamentais que temos como cidadãos. Veremos tudo isso à luz da dade de sentidos de uma palavra
Constituição Federal de 1988. ou locução.
Que tal começarmos definindo o que são direitos fundamentais?
Como vocês puderam ver na Unidade 1, Direito é uma palavra com vários
sentidos. Nesta aula, abordamos o direito como “faculdade, poder, prerrogativa
ou pretensão”, ou seja, “o direito que tenho a algo, ou de fazer algo, ou que
alguém me faça algo ou de me abster de fazer algo”.
Mas o que é direito fundamental?
É exatamente isso que vamos esclarecer agora mesmo.

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 83

In_Di_Co_Livro.indb 83 23/09/14 17:28


“Fundamental”, segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portu-
guesa (2002, s/p), é aquilo “que tem caráter essencial e determinante; básico,
indispensável”.
Em linguagem bem simples, podemos deduzir que direitos fundamentais (no
plural, porque são vários) são aqueles direitos “eleitos” pela nossa Constituição
Federal de 1988 como “básicos”, “essenciais”, “indispensáveis” para o exercício
da cidadania. São, portanto, aqueles direitos sem os quais as pessoas não pode-
riam usufruir minimamente de uma vida digna, por isso que são denominados
“direitos básicos”, “fundamentais”.
Mesmo em face dessa noção sobre direitos fundamentais, selecionamos duas
análises feitas por dois autores renomados e conhecidos pelo seu didatismo em
matéria de Direito Constitucional.
A primeira análise é de José Afonso da Silva (2004, p. 178), que, ao analisar o
qualificativo “fundamentais”, atribuído aos direitos dos quais estamos tratando,
ensina-nos que:

No qualificativo fundamentais, acha-se a indicação de que se trata de situ-


ações jurídicas sem as quais a pessoa humana não se realiza, não convive
e, às vezes, nem mesmo sobrevive (SILVA, 2004, p. 178, grifos do autor).

Vejam como em poucas palavras o autor consegue enunciar a grandeza dos


direitos fundamentais, sem os quais a própria “sobrevivência” pode se achar
prejudicada.
É muito provável que nesse momento muitos de vocês estejam ansiosos por
um exemplo de direito fundamental que se encaixe nessa compreensão trazida
por José Afonso da Silva. Podemos citar dois exemplos para tentar esclarecer o
que vem a ser um direito fundamental: o direito à vida e o direito à liberdade.
Ora, todos sabem que a vida é um direito fundamental, o primeiro deles. No
entanto, a liberdade também o é, pois viver sem liberdade conduz a uma vida
indigna, repleta de privações, uma vida em que a pessoa não se realiza pessoal-
mente, profissionalmente etc.
O propósito dos direitos fundamentais é ir além da constitucionalização desses
direitos, ou seja, garantir os direitos básicos que vão além do simples fato de
existir, assegurando liberdade, segurança, igualdade etc.
A segunda análise selecionada é de Dirley da Cunha Júnior (2010, p. 540),
que adotou o que denomina de “critério da dignidade da pessoa humana” para
conceituar direitos fundamentais, expressando-se da seguinte forma:

À vista desse critério, podemos conceituar os direitos fundamentais como


aquelas posições jurídicas que investem o ser humano de um conjunto de
prerrogativas, faculdades e instituições imprescindíveis a assegurar uma exis-
tência digna, livre, igual e fraterna para todas as pessoas (CUNHA JÚNIOR,
2010, p. 540, grifos do autor).

A exposição de Dirley da Cunha Júnior reforça o entendimento em torno


da abrangência dos direitos fundamentais, trazendo ainda um aspecto muito
importante de tais direitos, quando fala sobre as “instituições imprescindíveis

84 Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 84 23/09/14 17:28


para assegurar a existência digna”, referindo-se tanto às instituições no sentido
de institutos jurídicos como de órgãos públicos facilitadores da prática de tais
direitos (hospitais, escolas, delegacias etc.).
Estabelecida as ideias geral e específica acerca dos direitos fundamentais, já Instituto jurídicos
é o momento de irmos diretamente a eles, ou seja, de identificarmos onde tais Regra ou conjunto de
regras que regulamentam
direitos se encontram estabelecidos na Constituição Federal de 1988, em quais
determinado tema.
artigos estão prescritos.
Antes, porém, gostaria que você fizesse a atividade proposta a seguir.

Atividade 1

Em sua compreensão, como podemos conceituar “direitos fundamentais”?

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 85

In_Di_Co_Livro.indb 85 23/09/14 17:28


Identificando os Principais Direitos
Fundamentais Previstos na
Constituição Federal de 1988
Agora que você já consegue conceituar “direitos fundamentais”, fica o desafio
de identificá-los no texto da Constituição Federal de 1988 que, como vimos na
Unidade 2, é uma Constituição analítica, ou seja, bastante extensa e que versa
acerca de inúmeros temas, dentre os quais os direitos fundamentais.
Então, como identificar tais direitos no contexto de uma Constituição que tem
mais de duas centenas de artigos?
Respondo: fugindo das inúmeras divergências que existem em torno do tema
(pelo menos para os propósitos deste Livro e do nosso Curso) e se concentrando
no núcleo dos direitos fundamentais, que é o artigo 5º da Constituição Federal
de 1988. Esse artigo é apresentado e discutido a seguir, ele deve ser lido “pelo
menos uma vez na vida” por todo(a) e qualquer brasileiro(a).
Preste bem atenção: o artigo 5º da Constituição Federal de 1988 tem setenta
e oito incisos e quatro parágrafos, mas só iremos “trabalhar” com uma parte
deles, porque o objetivo aqui é estudar os direitos fundamentais que têm a ver
com a atuação dos destinatários deste Curso de Tecnólogo em Gestão Pública,
que são na sua maioria servidoras e servidores públicos.

Leitura complementar

Para fazer a leitura completa dos direitos fundamentais constantes do


artigo 5º, você poderá fazer consultando a própria Constituição Federal,
disponível no link a seguir: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
Constituicao/Constituicao.htm>.

Dito isso, vamos aos direitos fundamentais do artigo 5º que mais


nos interessam.
Você poderá ler a seguir a transcrição de parte do artigo 5º, que primeiro
deve ser lida por você, para depois o professor entrar em ação fazendo os
comentários pertinentes.
Quanto aos direitos fundamentais constantes do artigo 5º, escolhidos por
nós para análise, assim prescreve a Constituição Federal de 1988:

86 Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 86 23/09/14 17:28


Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Cons-
tituição;
II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude
de lei;
(...)
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização
por dano material, moral ou à imagem;
(...)
X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,
assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua
violação;
XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem con-
sentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar
socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;
(...)
XVI – todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público,
independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anterior-
mente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade
competente;
XVII – é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar;
(...)
XXXIII – todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interes-
se particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei,
sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à
segurança da sociedade e do Estado;
XXXIV – são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas:
a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade
ou abuso de poder;
b) a obtenção de certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclare-
cimento de situações de interesse pessoal;
[...]

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 87

In_Di_Co_Livro.indb 87 23/09/14 17:28


Pois bem, suponho que você já conheça, mesmo que “por ouvir dizer”, parte
ou a maior parte dos direitos anteriormente destacados, mas também suponho que,
provavelmente, você nunca tenha “parado” para fazer uma reflexão mais detida
em torno de cada um deles.
Que tal fazermos isso a partir de agora?
Para tanto, utilizaremos um método muito comum de estudo no Direito, o
“comentário”, que consiste em ler o que está escrito na Constituição e imediata-
mente “comentar”, à luz do Direito (no nosso caso, do Direito Constitucional),
determinado aspecto do artigo, do inciso etc.
Caput Assim, passo a comentar o caput do artigo 5º da Constituição Federal de 1988
Na técnica legislativa, caput e os incisos expostos anteriormente.
significa a parte principal ou
superior do artigo, a cabeça,
cabeçalho ou enunciado.
Direito à vida
Presente no caput do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, o direito à vida
parece tão óbvio que às vezes nos esquecemos de aspectos importantes que giram
em torno desse direito, tais como o direito de continuar vivo, daí a proibição da
pena de morte ou o direito de viver dignamente e não simplesmente “existir”; daí
a busca da satisfação das necessidades básicas dos indivíduos como alimentação,
moradia, trabalho etc.
Tal direito possui relação com todos os aspectos da nossa vida, inclusive o que
se relaciona ao ambiente do trabalho, que precisa assegurar a integridade psíquica
e física dos trabalhadores.

Direito à igualdade
Também previsto no caput e no inciso I do artigo 5º da Constituição Federal
de 1988, o direito à igualdade, também conhecido com princípio da igualdade, é
aquele segundo o qual todos são iguais perante a lei, não se permitindo tratamen-
to desigual quando cidadãos ou cidadãs se encontram em uma mesma situação
jurídica.
Mas é preciso lembrar aqui que a igualdade tão propalada segundo a qual
“todos são iguais em direitos e deveres” se trata de igualdade meramente formal,
ou seja, segundo a lei.
Existe outra modalidade de igualdade, que denominamos de “igualdade ma-
terial”, real, concreta, que corresponde à noção de igualdade por meio da qual é
permitido tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, levando-se em
consideração a medida das suas desigualdades. É por isso que é possível, juridi-
camente, estabelecer “cotas” em universidades para determinadas categorias de
pessoas, levando em consideração que existem entre elas e as demais categorias
certas desigualdades que permitem o tratamento desigual (a renda, por exemplo).
Como se percebe, a igualdade não é absoluta, devendo ser analisada dentro
do contexto em que aparece.

88 Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 88 23/09/14 17:29


Direito à legalidade
Catalogado no inciso II do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, o direito
ou princípio da legalidade preceitua que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar
de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”, ou seja, a supremacia da lei, do
direito e dos princípios é que norteiam as ações ou omissões de todas as pessoas.
Tal direito ou princípio é característico do Estado de Direito, que tem como
uma de suas características o fato de ser regido por normas previamente esta-
belecidas.
Uma característica muito relevante para os propósitos deste Curso é a diferen-
ça existente entre a aplicação do princípio da legalidade no âmbito das relações
privadas e no âmbito da Administração Pública.
Então, preste bem atenção: no contexto das relações privadas, pessoais, você
pode fazer tudo o que a lei não proíbe, mas no âmbito da Administração Pública,
na condição de servidoras e servidores públicos, por exemplo, você só pode fazer
o que a lei permite, autoriza ou determina.

Direito à livre manifestação de pensamento


Constante nos incisos IV e V do artigo 5º da Constituição Federal de 1988,
a manifestação de pensamento no Brasil é garantida a todos e a todas, ou seja,
ninguém pode ser perseguido ou punido por manifestar o seu pensamento.
Porém, assim como nenhum outro direito ou princípio já visto ou a ser
analisado, a livre manifestação de pensamento não é um direito absoluto,
possuindo limites.
Dessa forma, a manifestação livre do pensamento não pode ser utilizada para
causar dano moral, material ou à imagem das pessoas.
No caso específico do serviço público, não é permitida a manifestação de
apreço nem de desapreço no ambiente de trabalho, ou seja, nem elogios nem
maledicências em relação a colegas que trabalham na mesma repartição (nem
em outras, de preferência).

Direitos à intimidade,
à vida privada, à honra e à imagem
Capitulado no inciso X do artigo 5ª da Constituição Federal de 1988, os di-
reitos à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem correspondem àqueles
direitos que têm a ver com a vida pessoal de cada pessoa.
O direito à intimidade tem a ver com a “vida secreta ou exclusiva que alguém
reserva para si, sem nenhuma repercussão social, nem mesmo junto à família,
aos amigos e ao seu trabalho” (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 685).
A vida privada, diferentemente da intimidade, “Não diz respeito aos segredos
restritos da pessoa, mas sim a sua vida em família, no trabalho e no relaciona-
mento com os seus amigos” (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 685).

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 89

In_Di_Co_Livro.indb 89 23/09/14 17:29


A honra diz respeito ao sentimento que cada pessoa possui acerca de si mes-
ma, a sua reputação.
Direito à imagem é o direito que recai sobre a representação de cada pessoa,
seja por meio de fotografias, filmagens, charges ou figuras.
Todos esses direitos são protegidos pela Constituição Federal e, nos tempos
atuais, de redes sociais e congêneres, é preciso estar atento para que pessoas
mal intencionadas não utilizem de tais mecanismos para violar os direitos per-
sonalíssimos aqui descritos.

Direito à inviolabilidade do domicílio


O direito à inviolabilidade do domicílio está previsto no inciso XI do artigo 5º
da Constituição Federal de 1988 e preceitua que o domicílio é inviolável, ninguém
nele podendo adentrar sem a permissão do morador, salvo nos casos excepcio-
nais previstos, a saber: flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou,
durante o dia, por determinação judicial.
O inciso XI do artigo 5º é bem claro, mas gostaria de trazer aqui o que a
Justiça considera “domicílio”, além da “casa”, para efeitos de inviolabilidade.
Então, para a Justiça, domicílio também pode ser: “a) qualquer compartimen-
to habitado; b) qualquer aposento ocupado de habitação coletiva; e c) qualquer
compartimento privado não aberto ao público, onde alguém exerce alguma pro-
fissão ou atividade” (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 687).
Nesse contexto, podemos afirmar que escritórios, consultórios, estabeleci-
mentos industriais e comerciais podem ser tidos como domicílios, quando neles
houver locais de acesso restrito ao público (este sim, domicílio) ou quando o
expediente tenha sido encerrado.

Direito de reunião
O direito de reunião encontra proteção no inciso XVI do artigo 5º da Cons-
tituição Federal de 1988, significando que a reunião pacífica, sem armas e em
locais abertos ao público podem ser realizadas normalmente.
Há, no entanto, pelo menos dois critérios a serem observados quando da
deliberação para a ocorrência da reunião: primeiro, que a reunião pretendida
não frustre outra reunião anteriormente agendada para o mesmo local; segundo,
que seja dado prévio aviso à autoridade competente.

90 Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 90 23/09/14 17:29


Direito de associação
O direito de associação, prescrito inciso XVII do artigo 5ª da Constituição
Federal de 1988, garante a plenitude da liberdade de associação, vedando apenas
as associações de caráter paramilitar. Paramilitar
O direito de associação abrange, além de outras modalidades de associação Segundo o dicionário eletrôni-
co Houaiss da língua portu-
coletivas, os sindicatos e os partidos políticos.
guesa, “paramilitares” são
organizações particulares de
cidadãos armados e fardados
Direito à informação especialmente, sem, contudo,
pertencerem às forças militares
Direito que ganha cada vez mais importância em épocas de informatização
regulares.
dos dados, o direito à informação está previsto no inciso XXXIII do artigo 5º da
Constituição Federal de 1988.
Para Dirley da Cunha Júnior (2010, p. 670 e 671), “O direito de liberdade de
informação deve compreender três aspectos essenciais, a saber: o direito de in-
formar, o direito de se informar e o direito de ser informado” (itálicos do autor).
Quanto ao direito de ser informado, mais importante para o nosso estudo,
a própria Constituição é bem clara nesse sentido quando, no inciso XXXIII do
artigo 5º, diz que “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações
de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral”.
Isso significa que agentes públicos, no exercício das suas funções, não po-
dem sonegar informações aos cidadãos, a não ser aquelas também previstas no
inciso XXXIII do artigo 5º, ou seja, informações “cujo sigilo seja imprescindível
à segurança da sociedade e do Estado”, previamente estabelecidas em lei.
Fora tal exceção, a regra deve ser sempre a da transparência!

Direito à petição e à obtenção de certidões


Direito voltado principalmente para a relação entre a Administração Pública
(entidades e órgãos públicos) e os administrados (cidadãs e cidadãos), o direito
à petição e à obtenção de certidões encontra-se no inciso XXXIV do artigo 5º da
Constituição Federal de 1988.
Tal inciso assegura a todas as pessoas, com ou sem pagamento de taxas: a)
o direito de petição, que corresponde ao direito de atuar, por meio de petição
dirigida à Administração Pública, no sentido de defender direitos seus ou opor-se
a ilegalidade ou abuso de poder; b) a obtenção de certidões, para o fim de defesa
de direitos ou esclarecimento de situações de interesse pessoal.

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 91

In_Di_Co_Livro.indb 91 23/09/14 17:29


Bem, são esses os direitos que, a meu entender, têm mais relação com a nossa
atuação na condição de servidoras e servidores públicos.
Possíveis temas não abordados nesta Unidade no contexto dos direitos fun-
damentais poderão ser retomados quando da análise do conteúdo da disciplina
Direito Administrativo.
Que tal realizarmos o exercício abaixo para concluir este tópico sobre direitos
fundamentais? Vamos a ele!

Atividade 2

Em sua opinião, quais dos direitos analisados neste tópico são os mais vio-
lados pela Administração “Pública”? Cite pelo menos dois.

92 Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 92 23/09/14 17:29


Administração Pública na
Constituição Federal de 1988
Como percebem, estamos chegando ao final do nosso Curso de Introdução ao
Direito Constitucional, pois estamos agora no último tópico da Unidade IV, que
coroa o fechamento do livro com um assunto de grande importância, a saber, a
Administração Pública na Constituição Federal de 1988.
Pode ocorrer que você, ao ler o título deste tópico, se pergunte se tal tema
não seria objeto de estudo do Direito Administrativo, outra disciplina que será
ministrada no Curso de Tecnólogo em Gestão Pública.
A minha resposta é: pode ser, mas sob o ponto de vista do Direito Adminis-
trativo primordialmente.
Dito isso, reforço a ideia segundo a qual o que pretendemos aqui é “apresen-
tar” o tema fazendo uma relação direta com o Direito Constitucional.
Outro recorte que faremos aqui diz respeito ao fato de que discutiremos ape-
nas a organização administrativa à luz do Direito Constitucional, mais precisa-
mente à luz do que consta no inciso XIX do art. 37 da Constituição Federal de Inciso XIX do art. 37
1988, que tem a ver com organização da Administração Pública indireta. ”XIX – somente por lei específica
poderá ser criada autarquia e
Ao abordar a Administração Pública indireta faremos menção, é claro, tam-
autorizada a instituição de em-
bém à Administração Pública direta, para que o tema seja visto na sua inteireza. presa pública, de sociedade de
No mais, penso que você vai gostar de conhecer melhor o ambiente onde economia mista e de fundação,
trabalha, caso seja servidora ou servidor público, e quem não for ou deseja ser cabendo à lei complementar,
neste último caso, definir as
também vai aproveitar bastante ao estudar esse tema, porque sempre precisará
áreas de sua atuação”.
se relacionar, direta ou indiretamente, com a Administração Pública.
Mãos a obra!

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 93

In_Di_Co_Livro.indb 93 23/09/14 17:29


Conceituando Administração Pública
Quando ouvimos falar em Administração, normalmente nos vem à mente a
imagem de uma empresa, com um organograma na parede que representa a sua
organização, a sua divisão em departamentos, coordenadorias etc.
Isso se dá porque associamos administração à “administração de empresas”
do setor privado, esquecendo-se às vezes que também existe uma “administração
pública”, com organização própria (normas), funcionários próprios (servidoras
e servidores públicos) e estrutura própria (órgãos ou repartições públicas).
Pois bem, é essa segunda categoria de administração, a “administração pú-
blica”, da qual a maioria de nós faz parte, que pretendemos estudar.
Isso não significa que não vamos encontrar semelhanças entre a administra-
ção privada e a administração pública, mas precisamente que o objeto do nosso
estudo é a “Administração Pública”, que possui características próprias.
Nesse contexto, vamos iniciar conceituando Administração Pública, que pode
ser analisada sob dois aspectos, são eles:

Primeiro: o que leva em consideração a organização, a forma ou os


sujeitos que compõem a Administração Pública, conceito segundo o
qual Administração Pública significa as entidades, órgãos e agentes
públicos presentes na estrutura administrativa da União, dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios.

Segundo: o que leva em consideração a atividade prestada para as


cidadãs e os cidadãos (usuários), conceito segundo o qual Administra-
ção Pública significa o conjunto de atividades públicas (serviços, fo-
mento etc.) prestados pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal
e pelos Municípios.

94 Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 94 23/09/14 17:29


Se juntássemos as duas formas de abordagem da Administração Pública em
um mesmo conceito, ou seja, levando-se em conta “quem ou onde se desenvolve
as funções públicas” e “qual é a atividade prestada aos usuários”, teríamos um
conceito mais completo e definitivo para os propósitos que queremos alcançar
na nossa disciplina, como você pode ver na Figura 1 a seguir:

Primeiro
conceito
(sentido
subjetivo,
orgânico ou
formal) Administração Pública é
o conjunto de entidades,
órgãos e agentes públicos
que realizam as
atividades
administrativas
prestadas com vista à
satisfação dos interesses
coletivos.
Segundo
conceito
(sentido
objetivo,
funcional ou
material)

Figura 1 – Conceito elementar de Administração Pública

Eis o conceito elementar de Administração Pública, que servirá de norte para


o enfrentamento do tema a ser abordado a seguir, ou seja, do enquadramento
da Administração Pública no contexto da organização administrativa do Estado,
conforme se verifica na figura anterior.

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 95

In_Di_Co_Livro.indb 95 23/09/14 17:29


Classificando a
Administração Pública
Bem, agora que você já tem uma noção do que vem a ser Administração
Pública, imagine a cena em que você está na posição de servidor(a) público e
alguém lhe pergunta o seguinte: – Você trabalha na Administração Pública direta
ou indireta?
Ora, o que essa pessoa está querendo saber?
Ela está querendo saber precisamente se você conhece a organização da
Administração Pública no Brasil, que pode ser “visualizada” a partir da sua
classificação.
Espero que ao final deste tópico você possa dar a resposta exata ao interlo-
cutor. Caso você não saiba ainda responder essa pergunta, vamos nos preparar
para a resposta?
Levando-se em consideração inúmeras características, a Administração Pú-
blica, no Brasil, é dividida em várias partes, das quais abordaremos apenas as
mais importantes.
Nesse sentido, podemos “visualizar” a Administração Pública brasileira da
seguinte forma (Figura 2):

Administração Administração
Pública direta Pública indireta

União Autarquias

Fundações
Estados
públicas

Distrito Empresas
Federal públicas

Sociedades de
Municípios
economia mista

Figura 2 – Classificação da Administração Pública

96 Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 96 23/09/14 17:29


Como podemos observar, a Administração Pública direta é composta pelos
próprios entes federativos, ou seja, a União, os Estados, o Distrito Federal e
os Municípios.
Quem trabalha na Administração Pública direta – levando-se em conta a per-
gunta sugerida no início deste tópico –, na verdade trabalha em um dos órgãos
públicos (repartições públicas) da Administração Pública direta.
Os órgãos públicos correspondem às divisões internas de competência, me-
canismo por meio do qual os entes da Administração Pública direta prestam o
serviço de forma especializada.
Podemos citar como exemplos de órgãos públicos da Administração Públi-
ca direta federal, os ministérios; da Administração Pública direta estadual,
as secretarias de Estado; e da Administração Pública direta municipal, as
secretarias municipais.
São ainda órgãos públicos da Administração Pública direta: Congresso Na-
cional, tribunais judiciais, Presidência da República, defensorias públicas, pro-
curadorias etc.
Então, se você, por acaso, exerce as suas funções em algum desses órgãos,
você pode afirmar tranquilamente que trabalha na Administração Pública direta.
Já a Administração Pública indireta é aquela que presta os serviços públicos
de forma indireta, razão pela qual também é conhecida como Administração
Pública descentralizada, porque presta os serviços que a Administração Pública
direta decidiu “descentralizar”.
Compõem a Administração Pública Indireta, como já vimos, as autarquias,
as fundações públicas, as empresas públicas e as sociedades de economia mista.
São exemplos de autarquias, dentre outros: Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA),
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Banco Central do Brasil
(BACEN) e todas as agências reguladoras.
São exemplos de fundações públicas, dentre outros: Fundação Nacional do
Índio (FUNAI), Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) e Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE).
São exemplos de empresas públicas, dentre outros: Caixa Econômica Federal
(CEF), Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) e Empresa Brasileira
de Estrutura Aeroportuária (INFRAERO).
São exemplos de sociedades de economia mistas, dentre outros: Banco do
Brasil (BB) e Petróleo Brasileiro S.A. (PETROBRAS).
Retomando mais uma vez ao questionamento que abre este tópico, é possível
afirmar que se você exerce as suas funções trabalhando em uma das entidades
acima descritas, você trabalha na Administração Pública indireta.
Para os propósitos deste Curso de Introdução ao Direito Constitucional,
nos damos por satisfeitos com os elementos aqui trazidos acerca da Admi-
nistração Pública.
Cabe, porém, uma advertência: existem muitas outras características acerca
da Administração Pública, direta e indireta. Quem quiser se aprofundar, deve

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 97

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consultar os livros de Direito Administrativo apresentados nas referências bi-
bliográficas desta Unidade ou aguardar o momento em que a disciplina Direito
Administrativo será ministrada.
Agora, para concluir este tópico, vamos realizar mais uma atividade, apre-
sentada logo a seguir.

Atividade 3

O que você entende por Administração Pública e como ela se classifica?

Bem, como estamos no final da Unidade 4, que, por sua vez, é a última Uni-
dade deste livro, cabem duas observações.
Primeiro, gostaria de agradecer a todos que colaboraram direta ou indireta-
mente para a feitura desta obra.
Segundo, preciso desculpar-me pelas lacunas porventura existentes, uma vez
que se trata de trabalho introdutório e não de aprofundamento dos institutos do
Direito Constitucional.
Despeço-me desejando, a todos e a todas, que façam bom proveito dos
nossos estudos!

98 Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional

In_Di_Co_Livro.indb 98 23/09/14 17:29


Resumo

Nesta unidade, foram discutidos dois importantes temas para os


alunos e alunas do Curso de Tecnólogo em Gestão Pública: foram
apresentados os principais direitos fundamentais presentes na
Constituição Federal de 1988, transcritos e discutidos à luz do Direito
Constitucional brasileiro e, por fim, introduzimos o estudo acerca da
Administração Pública, destacando o seu conceito, a sua abordagem
constitucional e a sua classificação.

Autoavaliação
Qual a importância do conhecimento dos direitos fundamentais para
1
as cidadãs e os cidadãos brasileiros?

Existem direitos fundamentais que têm a ver diretamente com a nossa


2 atuação enquanto servidoras e servidores públicos? Cite pelo menos
dois exemplos.

Se você é servidora pública ou servidor público, em que “tipo” de


3 Administração Pública você trabalha, na direta ou na indireta? Em
seguida explique uma delas. Caso não seja servidor, escolha um dos
tipos e explique.

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 99

In_Di_Co_Livro.indb 99 23/09/14 17:29


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Anotações

Unidade 4 Introdução ao Direito Constitucional 101

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Anotações

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Perfil do autor

Rogério de Araújo Lima


Professor Assistente IV e Chefe do
Departamento do Curso de Direito do
Centro de Ensino Superior do Seridó
(CERES), da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN). Bacharel em
Direito pela Universidade Federal da Paraíba
(UFPB). Mestre em Ciências Jurídicas
pela Universidade Federal da Paraíba
(UFPB). Especialista em Direito Tributário
pala Universidade Anhanguera-UNIDERP.
Membro da Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência (SBPC). Ministrante
e conteudista da Secretaria de Educação
à Distância da UFRN (SEDIS/UFRN).
Advogado Parecerista.

103

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Anotações

104

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Esta edição foi produzida em março de 2014 no Rio Grande do Norte, pela Secretaria
de Educação a Distância da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (SEDIS/UFRN),
utilizando-se ITC Slimbach Std para corpo do texto e Univers LT Std para títulos e subtítulos,
sobre papel offset 90 g/m2.

SEDIS Secretaria de Educação a Distância – UFRN | CampusUniversitário

Praça Cívica | Natal/RN | CEP 59.078-970 | sedis@sedis.ufrn.br | www.sedis.ufrn.br

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