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Reflexões Sobre a Fé

Renato Costa

Como tudo mais no Universo, a fé é sujeita à Lei da Evolução. No entanto, sua


evolução, mais que a de outras características do espírito humano, apresenta
duas componentes que se devem somar. Em sua capacidade de remover
montanhas, a fé pura e inocente de um aborígine australiano pode ser mais
forte que a fé racionalizada de um erudito estudioso Espírita. Dizer que a deste
último é superior à do primeiro apenas por ser fruto do entendimento é
simplificar demais uma questão complexa e, possivelmente, afirmar uma
inverdade. Existem diversas estórias nas tradições religiosas das diversas
religiões, até mesmo parábolas do Senhor Jesus, para nos esclarecer sobre
esta realidade.

Uma que gostamos muito diz respeito a uns sacerdotes que tinham ouvido falar
que, em uma determinada ilha, havia um homem que queria aprender a orar.
Tocados pela necessidade do pobre homem, os sacerdotes demandaram à tal
ilha e, em lá encontrando o homem, este lhes disse que era muito ignorante e
que tudo o que sabia dizer como oração era ficar repetindo “Deus, Deus, Deus”
monotonamente.

Os sacerdotes, habituados às longas orações proferidas do púlpito para os


fiéis, tentaram ensiná-las ao homem. Após certo tempo ensinando as orações,
tomaram novamente o barco para retornarem ao continente, acreditando terem
cumprido sua missão. Quando já tinham-se afastado bastante da ilha, no
entanto, eis que vêem o homem correndo, aflito, sobre as águas, suplicando-
lhes que voltassem, pois tinha esquecido as orações que os sacerdotes lhe
haviam ensinado.

Mesmo entendendo o relato acima como uma alegoria e não um fato real, ele é
correto quando mostra que a fé simples, pura e inocente, é de um poder
imenso, pois de nada duvida, permitindo ao Espírito encarnado o exercício de
potencialidades que um outro, dotado de grande conhecimento, nem pensaria
em exercer por ignorar seu funcionamento. No relato evangélico vemos que
Pedro, ao tentar seguir o Mestre, que caminhava sobre as águas, começou
conseguindo e, depois, afundou. Quando isso ocorreu, o Mestre repreendeu-o
por sua pouca fé. Sim, ao raciocinar sobre o que Jesus tinha feito, ele não
encontrou explicação e, com isso, perdeu a sustentação que a fé simples lhe
havia dado para os primeiros passos.

Os relatos evangélicos nos trazem, ainda, dois exemplos magníficos do poder


da fé. A cura da mulher que tinha uma hemorragia havia doze anos pelo
simples contato com o manto de Jesus (Lc 8:43-48) demonstra a força da fé
simples e não raciocinada. Para ela o Mestre disse: “A tua fé te salvou.” Como
exemplo da fé raciocinada e de sua força, lemos sobre a cura do servo do
Centurião (Lc 8:3-10), que, compreendendo a condição de Jesus como um
líder de falanges espirituais assim como era ele líder de falanges encarnadas,
disse saber que o Mestre não precisava ir à casa dele para curar seu servo,
fazendo com que Jesus, após ter confirmado o entendimento dele, promovendo
à distância a cura solicitada, afirmasse: “... nem mesmo em Israel encontrei
tamanha fé”.

Não devemos prescindir da fé simples como se ela fosse um resquício de


atraso em nosso caminho evolutivo que para nada servisse. Não, diante de
algo que não compreendemos plenamente, mas que nossa intuição nos afirma
ser possível e é voltado para o bem, saibamos seguir em frente e agir com
determinação e fé, certos de que os bons Espíritos estarão conosco na
empreitada.

Foi com essa fé, ao mesmo tempo simples e raciocinada, que Espíritos,
praticamente saídos do anonimato da sociedade, fizeram obras magníficas
registrando-se para sempre na história humana como ícones de ação colocada
a serviço do bem. Se Madre Teresa, Ghandi, Irmã Dulce, algum deles tivesse
submetido cada ação do bem que fizeram a um raciocínio prévio quanto à sua
factibilidade, pouco ou nada teriam feito.

Concluindo, oferecemos um tema para reflexão: Em O Evangelho Segundo o


Espiritismo, Capítulo XIX, 2, Kardec analisa a expressão com que Jesus se
referiu à força da fé, dizendo-a capaz de mover montanhas, como tendo
significado alegórico. Diz o Codificador que Jesus se referia às montanhas de
incompreensão, de ignorância, de dificuldades as mais diversas. Mas, será que
o Mestre estava mesmo usando alegorias? Afinal, não foi Jesus o Espírito
responsável pela criação de nosso planeta inteiro, tendo movimentado com a
força de sua vontade as forças da natureza? Então por que tomar como certo
que Jesus estava sendo alegórico quando falou que a fé seria capaz de mover
montanhas?

Bem sabemos que ainda somos Espíritos ignorantes esforçando-nos para


melhorar e que milhares, talvez milhões, de vidas nos separam da perfeição
dos Espíritos puros. Ao falar da fé que remove montanhas não poderia Jesus
estar falando de um estágio evolutivo da fé que aqui na Terra ainda não nos é
possível conceber?

Artigo publicado originalmente em O Espírita Fluminense, Julho / Agosto


de 2006

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