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A EVOLUÇÃO DO OUOCIENTE
DE INTELIGÊNCIA - 01

Conhecer as novas descobertas sobre a inteligência constitui um caminho


seguro para jazer da sala de aula uma oficina de pensamentos significativos.
CELSO ANTUNES (1937)

Os alunos estão emburrecendo. A adjetivação não é minha, e sim do


professor e palestrante Stephen Kanitz, que define com clareza a sensação
da grande maioria dos professores quando recebem seus estudantes nos pri-
meiros dias letivos de qualquer instituição de ensino.
Para muitos educadores, não está claro o significado do termo inteligên-
cia, muitas vezes confundido com volume de informação retida, com com-
petências e habilidades ou ainda com acuidade mental. Etimologicamente, o
termo inteligência deriva do latim intellectus, de intelligere, que significa en-
tender, compreender. Segundo o dicionário Aurélio, inteligência é a faculda-
de de aprender, apreender, ou ainda, qualidade ou capacidade de compreen-
der e adaptar-se facilmente. A Mainstream Science on Intelligence, título de
uma declaração emitida por um grupo de pesquisadores acadêmicos, publi-
cada no Wall Street [ournal em 13 de dezembro de 1994, define inteligência
como a capacidade mental geral que, entre outras coisas, envolve a habilidade
de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de forma abstrata, com-
preender ideias complexas, aprender rápido e aprender com a experiência.
Estamos vivenciando uma época com um volume imensurável de infor-
mações disponíveis, muitas inúteis e sem sentido, que, somado ao desen-
volvimento da tecnologia, exige dos profissionais contemporâneos novas
habilidades e potentes hábitos mentais. Separou-se o argumento, a ideia,
a razão, a lógica do concreto e hoje utilizamos essas aptidões para abordar
uma variedade de questões. O conhecimento e a informação passaram a ser
recursos indispensáveis. Quanto mais os temos, mais assuntos são possíveis

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Cap.7 a ts; evoluçe o de) Ouociente de inteliSJenCI3 - CH

de abordar. Por outro lado, exige-se velocidade e discernimento de escolha Flynn afirma que, para avaliar qualquer tendência cognitiva, é preciso
no processamento das informações pelas quais se assimilam novos dados. separar a inteligência entre resolver problemas matemáticos, interpretar tex-
Quanto mais céleres as escolhas, melhor, pois isso fará com que as anomalias tos, encontrar soluções rápidas, assimilar a visão de mundo, discernimento
sejam sanadas dentro dos limites de tempo disponível. A inteligência refere- crítico. Segundo sua hipótese, durante o período em que as crianças desen-
-se a todas essas habilidades, know-how, hábitos, condutas, atitudes que dire- volvem habilidades ao cálculo, elas não fazem progresso na aquisição de
cionam o investimento de energia mental e nos tornam bons solucionadores raciocínio matemático e essas aptidões são essenciais para o progresso aca-
de problemas, sejam estes complexos ou simples. dêmico. O resultado é a incapacidade de desenvolver estratégias para resol-
Se, de um lado, os docentes afirmam que os alunos estão emburrecen- ver problemas que requerem raciocínio. Elas não conseguem "fazer contas"
do, [ames Robert Flynn, emérito professor, pesquisador da Universidade de melhor que as gerações anteriores, o que mostra que, embora os adultos das
Otago, Nova Zelândia, tornou-se conhecido ao descobrir que o desempenho gerações da Educação 1.0 e 2.0 sejam mais lentos para aprender habilidades
médio nos testes que medem o quociente de inteligência (QI) tem aumen- computacionais, eles não estão em pior situação. "É inegável que as habili-
tado no mundo inteiro até vinte pontos por geração. O fenômeno, batizado dades cognitivas vêm aumentando porque os testes provam isso. Porém, é
de efeito Fiynn, assinala que a quantidade de habilidades intelectuais dos preciso ver quais dessas habilidades estão aprimorando e se isso é realmente
estudantes de hoje seriam suficientes para garantir altas pontuações em um importante no dia a dia", afirma [ames Flynn.
teste de inteligência realizado no século anterior. Isso significa que, se nos- Certamente, os jovens Y são melhores em termos da capacidade de ler
sos avós e bisavós fossem utilizar as normas atuais de desempenho nesses imagens visuais como representações do espaço tridimensional; capacidade
testes, seriam classificados, no mínimo, como pessoas com recursos de in- de criar mapas mentais; focar várias coisas ao mesmo tempo, responder ra-
telecto mais restritos. pidamente a estímulos inesperados. Existem diversos dividendos prováveis
De acordo com a teoria de Flynn, uma pessoa nascida na década de 1920, para tais habilidades. Por exemplo, o mercado está ofertando um número
por exemplo, que possuía um QI de 100, teria um filho com QI em torno de cada vez maior de vagas em empregos executivos, profissionais e técnicos
108 e um neto com QI de cerca de 120. Numa abordagem no sentido oposto, para preencher funções que, muitas vezes, exigem tomar decisões sem a
um jovem que hoje tem QI de 100 teria avós com QI de aproximadamente orientação de regras estabelecidas.
82. Certamente essa constatação alimenta alguns paradoxos e levanta al- Entretanto, Flynn afirma que os ganhos de QI não implicam que os jo-
gumas questões. Se os jovens Y são mais inteligentes, como se justifica o vens Y e Z são muito melhores que seus ancestrais e que dificilmente dei-
fato de não terem vocabulário maior, quantidade superior de informações xariam seus pais e avós envergonhados. É provável que essa vantagem se
armazenadas, habilidade elevada o suficiente para resolver problemas que mantenha e até aumente com o estudo universitário, porém os jovens da
requerem raciocínio? Educação 3.0 não seriam inovadores o suficiente para solucionar anomalias
[ames Robert Flynn responde que ganhos em QI não significam, neces- que requerem destreza, como, por exemplo, consertar o carro, reparar coi-
sariamente, ganhos em inteligência, pois isso implicaria um progresso cog- sas na casa, mas seriam capazes de lidar com problemas novos colocados de
nitivo do tipo tudo ou nada. As gerações da Educação 1.0 e 2.0 assistiram forma verbal, visual ou abstrata. Às vezes, a deficiência da geração X afeta-
a grandes ganhos em certas aptidões cognitivas, enquanto outras entraram ria a conversação social, particularmente porque ele não consideraria essas
em declínio. Por exemplo, enquanto os jovens Y são mais capazes de resol- questões muito importantes. Os integrantes da geração X talvez se guiassem
ver problemas imediatamente, sem um método previamente aprendido para mais pelas regras, normas, regulamentos e veriam isso como uma virtude.
tal, as habilidades de raciocínio matemático e vocabulário tiveram ganhos Segundo as pesquisas de Flynn, entre a Primeira e a Segunda Guerra
bastante limitados nas últimas décadas. Mundial, devido à oferta de educação em massa, houve uma melhora em
matemática, vocabulário e conhecimento geral, temas importantes para a

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Ci.q:J. 7 ., A ovolucáo do Cluorlente de imeligi'rKia - o.i

eletrônicos passam a ser aliados estratégicos da educação para a melhor ia


vida prática e para o ensino-aprendizagem. A partir de então, testes de QI
começaram a mostrar ganhos superiores nas habilidades menos relaciona- da aprendizagem dentro e fora da escola.
É muito provável - Flynn diria que é certo - que estejamos recebendo
das com as matérias escolares. Um jovem da geração Y provavelmente será
estudantes menos preparados em linguagem e matemática em nossas esco-
melhor que seus pais em estratégias, na capacidade de debater problemas
las. Entretanto, também é presumível que estejamos recebendo estudantes
abstratos, de divulgar ideias em causa própria. No entanto, ele pode ter um
digitais mais capazes de ler imagens visuais como representações do espaço
vocabulário mais restrito, ser bem pior em matemática e raciocínio lógico.
tridimensional; capacidade de criar mapas mentais; habilidade de realizar ob-
Estamos diante de um paradoxo: apesar do declínio da cultura, da deca-
servações; formular hipóteses; definir estratégias; capacidade de focar várias
dência do ensino, de estudantes menos preparados no que concerne à lingua-
coisas ao mesmo tempo, de responder rapidamente a estímulos inesperados.
gem e à matemática, da má qualidade dos meios de comunicação em massa,
Certamente não são habilidades cognitivas novas; porém, a combinação e a
do menor número de leitores, segundo as pesquisas de Flynn, os estudantes
intensidade o são, e isso é parte daquilo que faz os jovens da Educação 3.0 tão
Y e Z não estão emburrecendo; ao contrário, estão ficando mais inteligentes.
diferentes das gerações anteriores. É preciso, portanto, que os educadores de-
A resposta a esse paradoxo não é trivial. As pesquisas de [ames Flynn so-
senvolvam metodologias que aproveitem essas capacidades para suprir e me-
freram uma série de ataques por parte da comunidade científica. Hipóteses
lhorar as habilidades escolares tão necessárias para o desenvolvimento da lin-
foram levantadas de que o aumento do QI seria, entre outras, consequência
guagem e matemática e, consequentemente, para a melhoria da aprendizagem.
da melhoria da nutrição. Outras hipóteses simplesmente negavam a eficiên-
cia dos testes de QI tendo como argumento a teoria sobre inteligências múl-
tiplas do psicólogo cognitivo americano Howard Gardner - ou a controvérsia
despertada por Richard Herrnstein e Charles Murray no livro The Bell Curve
(A Curva do Sino), que tem como hipótese central a de que a inteligência é
o resultado de vários fatores, incluindo receita financeira, desempenho no
trabalho, gravidez indesejada, status socioeconômico, nível educacional dos
pais e, por fim, sugeria existirem diferenças intelectuais entre as raças.
As críticas serviram de incentivo para que Fynn obtivesse mais dados
para comprovar seus resultados. O efeito Flynn foi constatado em quase 30
países, incluindo o Brasil, e ocorreu mesmo em períodos de má nutrição
durante as guerras. Além disso, Flynn demonstrou que os testes relacio-
nados que demandam processos mentais ou conteúdos ensinados nas es-
colas - como retenção de informação e vocabulário - tiveram os menores
ganhos nesse ínterim. Os ganhos em QI mostram que os jovens Y também
podem abordar melhor os problemas abstratos e visuais-simbólicos, que
são melhores em resolver problemas imediatos em testes distantes da rea-
lidade concreta.
Para Flynn, uma justificativa para o bom desempenho dos jovens Y na
resolução de problemas de contextos visuais e simbólicos são os games, jo-
gos eletrônicos populares e aplicativos de computadores. Se essa hipótese for
verdadeira, ao contrário do que muitos educadores argumentam, os jogos

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66
o DOCENTE DA ERA 3.0

Se você vê a chama nos olhos dos jovens, é nos olhos dos velhos que você vê a luz.
VITOR HUGO (1802-1885)

Vivemos um momento célebre em que a educação virtual tem um pe"


so cada vez mais significativo na educação reaL A primeira não apenas
repercute na segunda; ela a influencia. Aliás, não somente influencia; ela
também a molda. Mais que nunca, como educadores, precisamos desen-
volver, monitorar, transformar, inovar, substituir nossos modelos mentais,
arquétipos, hábitos, cultura, buscar o desconforto produtivo, flexibilizar,
aceitar, adaptar, o que não exprime apenas aceitar, mas ajudar a transfor-
mar. Oque isso significa?
Significa que, cada vez mais, a educação vai se tornando mais com-
plexa, porque o foco está migrando da simples transmissão de conteú-
dos para dimensões menos integradas, conspícuas, perceptíveis, como as
competências e habilidades intelectuais, emocionais e éticas. Ruem as pa-
redes das salas de aula, aglutinando novos espaços de ensino-aprendiza-
gem presenciais e virtuais. Alteram-se as atribuições do professor com a
incorporação de novos papéis, como os de mediador, facilitador, gestor,
mobilizador, motivador.
Cada vez mais, as mídias passivas e tradicionais serão substituídas por
mídias participativas e interativas. A convergência mediática forçará uma
transformação cultural à medida que os estudantes sejam incentivados a
procurar novas informações, fazer conexões para buscar conteúdos esparsos,
soltos, dispersos. Cada vez mais, a expressão cultura participativa contrasta
com noções antigas sobre passividade, apatia, inércia dos estudantes. Em
vez de discorrer sobre docentes transmissores de conteúdos como ocupan-
tes de papéis separados dos discentes receptores, podemos agora considerá-

69
Cap.8 o O docente da era 3.0

-los participantes, interagindo de acordo com um novo conjunto de regras o conhecimento de uma comunidade de pensamento não é mais conhecimen-
que nenhum de nós educadores entende por completo. Estamos na era da to compartilhado, pois hoje é impossível um único ser humano, ou mesmo um
inteligência em rede, num sistema de colaboração e participação mútua. Essa grupo de pessoas, dominar todo o conhecimento, todas as habilidades. Trata-se,
cultura participativa não ocorre apenas por meio da tecnologia. Por mais fundamentalmente, de conhecimento coletivo, impossível de reunir em uma úni-
sofisticada que venha a ser, ocorre na atitude, na conduta, na ação, na pos- ca criatura.
tura, no comportamento de cada stakeholder da escola, em suas interações
sociais uns com os outros. As declarações de Lévy são de ampla envergadura para a educação, sig-
A tecnologia de informação e comunicação não modifica o que apren- nificando que as dificuldades de aprendizagem não podem ser resolvidas
demos, mas altera o modo como aprendemos. O processo de ensino-apren- individualmente por uma única disciplina, por um singular professor, por
dizagem tornou-se coletivo; para tanto, devemos usufruir da enorme inte- um exclusivo pedagogo ou dirigente. Deve haver uma atitude de abertura
ligência coletiva presente em qualquer instituição de ensino. A inteligência não preconceituosa de todos os educadores, em que o conjunto de conheci-
coletiva, termo cunhado pelo "ciberteórico" francês Pierre Lévy, poderá ser mento individual anula-se mediante o saber universal, e que, com a ajuda da
aplicada como uma fonte alternativa na educação. É possível utilizá-Ia para tecnologia, pode-se realmente melhorar o processo de ensino-aprendizagem
escolha, organização, disponibilização dos conteúdos, para o planejamen- por meio da utilização da interdisciplinaridade e da enorme inteligência co-
to e elaboração das atividades de aprendizagem efetivas, para a busca de letiva congregada nas escolas.
ferramentas digitais para o ensino, para interação das velhas com as novas A criação de comunidades de conhecimento, a utilização da inteligên-
metodologias de ensino-aprendizagem. O que não se consegue saber ou cia coletiva, a convergência das velhas e novas metodologias de ensino, das
executar sozinho, doravante, com as mídias e ferramentas digitais, é fac- engelhadas e recentes ferramentas digitais e/ou analógicas de sala de aula,
tível realizar coletivamente. A organização de docentes e dirigentes pode exigem que as instituições de ensino repensem antigas suposições sobre os
resultar no que Lévy denomina comunidade de conhecimento, que permi- processos de ensino e aprendizagem. Se os alunos das gerações anteriores
te exercer maior poder agregado na busca da melhoria dos processos de eram tidos como passivos, os estudantes das gerações Y e Z são ativos. Se os
ensino-aprendizagem. alunos das gerações anteriores eram previsíveis, permaneciam onde man-
As comunidades de conhecimento são mantidas por meio da produ- davam que permanecessem, faziam o que se determinava que fizessem, os
ção mútua e troca recíproca de informações. Como Lévy descreve, "tais estudantes das gerações atuais são imprevisíveis e migratórios, demonstran-
grupos tornam acessível ao intelecto coletivo todo o conhecimento perti- do uma declinante lealdade a qualquer tipo de processo padronizado. Se os
nente disponível num dado momento". E, o mais importante, esses grupos jovens das gerações anteriores eram indivíduos isolados, silenciosos, invisí-
servem como locais de discussão, negociação e desenvolvimento coletivo, veis, os garotos de hoje são mais conectados, barulhentos e públicos.
além de estimular o membro individual a buscar novas informações para As instituições de ensino estão reagindo de forma contraditória a es-
o bem comum. ses recém-poderosos nativos digitais, às vezes encorajando as mutações,
Pierre Lévy esboça uma distinção entre conhecimento compartilhado outras vezes resistindo ao que consideram um comportamento renegado.
- informações tidas como verdadeiras e conhecidas pelo grupo inteiro - e Os estudantes, por sua vez, estão perplexos com o que interpretam como
inteligência coletiva - a soma total de informações retidas individualmen- sinais confusos sobre a quantidade e o tipo de participação que podem
te pelos membros do grupo e que podem ser acessadas em resposta a uma desfrutar na busca por conhecimento. A tecnologia na educação se mul-
pergunta específica. Lévy explica: tiplicará, Integrar-se-a, se tornará mais e mais audiovisual, instantânea,
abrangente. Caminhamos para formas fáceis de nos ver, ouvir, falar, es-
crever a qualquer momento, de qualquer lugar, a custos progressivamente

70 71
Cap. 8 '" () docentE: da e(~; 3.0

menores. Com as tecnologias cada vez mais rápidas e integradas, o con- academicamente inadequado, independentemente de quão semelhantes ou diferen-
ceito de presença e distância, de espaço e tempo se alteram, bem como as tes eles sejam em relação ao seu desempenho acadêmico.
formas de ensinar e aprender.
As ofertas e modalidades de projetos acadêmicos serão extremamente Se o professor ainda é o principal ator no processo de ensino e aprendi-
variadas, flexíveis, customizadas. Serão flexíveis no tempo, no espaço, na zagem, ele deve responder perguntas intrigantes e necessárias, como: quão
metodologia, na gestão de tecnologia, na avaliação. A certificação, o reco- motivador é o processo de ensino nas escolas de hoje? Quantos estudantes
nhecimento serão determinados pelo número de módulos, de horas, de vão às atividades efetivas de aprendizagem, executam as tarefas, estudam
atividades, da autoaprendizagem, de conteúdos, de créditos, de avaliações. ou fazem as avaliações porque querem e ansiosamente esperam por isso?
A linha divisória entre ensino a distância e ensino presencial será muito É evidente que existem professores cujas aulas são tão desafiadoras, moti-
tênue ou desaparecerá, criando um ensino híbrido em que o conteúdo a vadoras, divertidas que a maioria dos estudantes não gostaria de perdê-Ias.
ser aprendido determinará a modalidade a ser utilizada: presencial ou a Entretanto, infelizmente, a maior parte dos encontros é totalmente enfado-
distância. nha, longe do que poderíamos chamar de motivado r. Como educadores,
Com todas essas transformações, certamente o papel do professor se alte- precisamos olhar seriamente para o porquê de o processo de aprendizagem
ra radicalmente. Sucumbe o mito do professor carismático, bem-humorado, ser tão penoso em nossas escolas. "Se não mudarmos a maneira como nossos
falante, extrovertido, que deve formar seguidores. O mundo plano e em re- professores ensinam, com ou sem tecnologia, já estamos defasados", salienta
des requer um docente que saiba oferecer causas, muito mais que conteúdo; o consultor e executivo Luiz Kaufman.
que promova o desafio, gere necessidade, estimule e não apenas exija. A di- Para muitos educadores, os objetivos do ensino rigoroso e da diversão
ficuldade é que estamos vivenciando um apagão de docentes antenados com são incompatíveis e mutuamente excludentes. Acredito que muitos profes-
os novos paradigmas, com os novos modelos mentais, com a utilização de sores pensem assim e se oponham a qualquer esforço para fazer do apren-
ferramentas digitais, com a mutação do perfil, com o novo jeito de atuação dizado algo mais leve e divertido. Entretanto, estudantes que passam tanto
junto a esse alunado digital e participativo. tempo jogando games interativos, atraentes, sedutores, divertidos não acei-
Mesmo com todo esse turbulento cenário, o professor continua sendo tarão mais um aprendizado entediante. Eles demandarão um ambiente de
o ator principal do processo de ensino-aprendizagem. Para enfatizar essa aprendizado mais envolvente, mais motivador, a ponto de os educadores te-
constatação, Dr. William L. Sanders, pesquisador da University of North rem de finalmente afastar, banir, proscrever o sofrimento, o tédio, o enfado
Caroline, declarou que o professor tem efeito maior do que anteriormente associado à educação.
se pensava no desempenho do aluno. Como resultado da análise de concei- Certamente, os docentes têm muito a aprender com os designers de
tos de desempenho de mais de 100 mil estudantes em centenas de escolas, games. Talvez o item mais importante seja como eles mantêm o jogador
sua conclusão foi que envolvido, motivado a completar cada nível e um game inteiro. Talvez pu-
déssemos adicionar jogabilidade às atividades de aprendizagem, acrescen-
o fator mais importante que afeta a aprendizagem do aluno é o professor. Além dis- tando, na medida do possível, um pouco de incerteza a tudo que ensinamos.
so, os resultados mostram uma ampla variação na eficácia entre os professores. A Apesar de muitos professores já ensinarem de forma sedutora, certamente
implicação imediata e clara desse achado é que, aparentemente, mais coisas podem a motivação seria melhorada se eles fossem incentivados a pensar não ape-
ser feitas para melhorar a educação melhorando a eficácia dos professores, do que nas na organização dos conteúdos, mas também no acréscimo máximo de
fazendo qualquer outra coisa. Professores eficazes parecem ser eficazes com alunos desafios e necessidades.
de todos os níveis de desempenho, independentemente do nível em suas classes. Se Não foi a capacidade de atenção do aluno que mudou, mas sua tole-
o professor for ineficiente, os alunos que estão sob sua tutela exigirão um progresso rância e suas possibilidades. Na rotina de seu dia a dia, os nativos digitais

72 73
Cap.8 I!I O clOCe!1te dó 0! a 3.(;

devem continuamente escolher entre a sonoridade de uma música, a ten- Isso é, ao mesmo tempo, bom e ruim, pois significa que a evolução na
são de um bom filme, o encanto e desencanto da Internet e o penoso, es- escola é lenta e não está acompanhando as novas necessidades de um mun-
tressante, desencantador ambiente de uma sala de aula. Os estudantes Y e do digitalizado, globalizado, interativo, participativo. É preciso caminhar
Z precisam ser mediados, mas também desejam ser respeitados e ouvidos; rápido, adequar o perfil do corpo docente, pois só assim poderemos formar
almejam realizar seus sonhos e paixões; pleiteiam aprender utilizando as profissionais competentes, cidadãos que participem da melhoria de toda
ferramentas de seu tempo; preferem se relacionar e aprender em grupo; uma sociedade carente de educação.
querem se conectar com seus pares para expressar, dividir, cOJ?partilhar
opiniões dentro e fora da escola; esperam cooperar, interagir, concorrer,
competir uns com os outros; ambicionam uma educação que não seja ape-
nas relevante, mas real.
Os jovens Y e Z querem aprender de forma diferente, pois absorvem
informações de forma diversa. Se a geração X tem sua aprendizagem na
sequência de texto, som e imagem, ou seja, pensa no texto como sua for-
ma de comunicação primária e nas imagens como auxiliares, as gerações
Y e Z aprendem de forma invertida, na sequência de imagem, som e texto.
Dessa forma, um dos grandes desafios dos docentes 3.0 envolve o inter-
valo de atenção. Pedir para que um estudante Y ou Z sente e leia um livro
durante horas pode ser quase inadmissível. Os docentes precisam passar
conteúdo da maneira como eles estão acostumados a digerir. Eles querem
formas de aprendizagem que sejam significativas, formas que lhes façam
ver, imediatamente, que os momentos que são gastos em sua educação for-
mal são valiosos, que os docentes fazem bom uso da tecnologia, que eles
acessam e conhecem.
É claro que as novas tecnologias de sala de aula não são uma garantia de
melhoria da experiência de aprendizagem. Há quem diga que as quinqui-
lharias eletrônicas prejudicam a qualidade. Entretanto, com tantas possibi-
lidades' com tantos paradigmas novos, seria inevitável que a metamorfose
chegasse à educação das gerações Y e Z. Existe um enorme paradoxo para
os educadores, pois o lugar onde as maiores transformações educacionais
estão acontecendo não é a escola, e sim após a escola. É no mundo fora da
escola que os jovens Y estão ensinando - a si mesmos e uns aos outros -
tudo que é importante e verdadeiramente útil sobre a realidade presente e
futura. Depois da escola, ninguém diz para os jovens o que eles devem fazer
para aprender. Eles buscam seus interesses e paixões, tornando-se experts
no processo.

75
74
o GESTOR DA ERA 3.0

Planeje em Excel e execute em Power Point. Excel requer técnica e raciocínio lógico. Power
Point também requer técnica, mas exige liderança, confiança, relacionamento, empatia.

A geração Y já está inundando os ambientes empresariais, mas a transição


da vida estudantil para a dura realidade profissional pode ser (e está sendo)
um choque, tanto para as gerações Y e Z que estão chegando quanto para
as gerações anteriores que ainda não conseguem trabalhar e viver no ritmo
acelerado desses jovens gestores digitais. Eles estão no mundo do trabalho há
pouco tempo e já ganharam a reputação de serem superconfiantes, instáveis,
frívolos, volúveis. Isso com certeza se deve ao fato de, provavelmente, terem
sidos mal compreendidos e mal geridos pelos gestores tradicionais, que ainda
os tratam de acordo com as perspectivas e o ritmo dos baby boomers e gera-
ção X. Querer gerir esses jovens apenas em Excel é saber que será necessário
conviver com um contínuo conflito de cultura, de modelos mentais, de hábi-
tos, de relacionamentos.
A história tem mostrado que o choque de gerações não é privilégio dos
dias atuais. Dessa vez, porém, é diferente. No mundo do trabalho, para a
geração X, a lealdade repousa em sua própria marca pessoal. Uma geração
que tem como grife Eu S.A. pensa mais na remuneração que em qualquer
tipo de reconhecimento, treinamento ou formação profissional que possa
ser oferecido.
Diferentemente, a geração Y tem a capacidade de adaptar e personali-
zar tudo a seu ritmo. A motivação e a energia dessa geração extravasam as
fronteiras geográficas locais e passam a ser globais. Não que esses jovens
sejam desleais; eles simplesmente cresceram em um mundo em constante
mutação. Para eles, a estagnação é entediante; eles necessitam de desafios e
experiências. Suas preocupações são mais globais que locais, razão pela qual

77
Cap.9 I;} O Çl8slo! da (-11" 3.0

estão antenados com as questões sociais, ecológicas, ambientais. Colocam o do Prêmio Nobel da Paz de 1973, que afirmou: "o problema da globaliza-
trabalho em um contexto social de modo que não vivem mais para trabalhar, ção é que nem todo mundo quer ser estadunidense" Diferentemente, para
mas trabalham para viver. Não pensam apenas em remuneração; desejam os baby boomers e a geração X, a globalização é vista como uma integração
feedback, reconhecimento, comemoração. Não se preocupam com fidelida- econômica caracterizada pelos princípios do capitalismo americano, do li-
de a uma organização, razão pela qual é uma geração que está alimentando vre comércio com mínima interferência governamental ou nacional. Com
um número sem precedentes do que o consultor europeu [irn Mattherwman isso, a geração X adora utilizar termos americanizados, entendendo que isso
denomina nômades globais, na medida em que entram para a for.ça do mer- demonstra competência, maior capacidade, melhor interatividade com os
cado internacional, exatamente porque estão começando com uma menta- princípios da mundialização dos negócios.
lidade de trabalho diferente. A geração Y encara a globalização como algo normal, até porque suas
Pela primeira vez na história do trabalho, convivem nas organizações conexões digitais não reconhecem fronteiras, possuem a liberdade de ir
quatro gerações distintas. A geração Y chegou trazendo um novo impacto, e vir virtualmente a qualquer tempo, em qualquer espaço. Esse perfil es-
cresceu com mais liberdade de escolha e prosperidade econômica. Domina tá trazendo mutações rápidas na força do trabalho. O mundo globalizado
a tecnologia e as mutações como parte da vida diária, o que, provavelmen- passa por redimensionamentos econômicos preocupantes. As previsões
te, a levará a ser a geração mais produtiva de todas. Uma geração que tem de retomada terão nos jovens Y o otimismo, a certeza de que é possível
expectativa e quer ser tratada de forma distinta. As estratégias de retenção recuperar e melhorar. Os recentes paradigmas trazidos por esses jovens
de talentos e de recursos humanos atualmente praticadas precisam ser rea- trabalhadores requerem que sobressaiam líderes capazes de enfrentar esse
valiadas, ajustadas, afinadas ao atual compasso desses jovens Y. É preciso turbilhão de transformações, que sejam mais ágeis, preparados para en-
encontrar outras formas de negociação, novos indicadores de desempe- tender e descobrir novas oportunidades, com interesses mais perspicazes
nho, uma avaliação da gestão de talentos mais factual, crítica, hodierna. no planejamento, execução, desenvolvimento dos negócios. É necessário
O planejamento e a gestão por Excel continuam importantes, afinal, es- um enorme salto qualitativo.
tão carregados de pragmatismo, objetividade, raciocínio lógico. Entretanto, A geração baby boomer e a geração X sempre lideraram na sequência
as tomadas de decisões estão muito mais focadas em planilhas, números, processos, sistemas e pessoas, considerando as pessoas como terceira força.
dados concretos, com visão interna, que refletem pouco o contexto e as cir- A geração Y inverteu essa sequência para pessoas, processos e sistemas, ex-
cunstâncias locais, regionais, globais. Por outro lado, os novos sistemas or- plicitando que o Excel continua sendo importante, mas que o Power Point
ganizacionais estarão muito mais concatenados com as redes de relaciona- passa a ser fundamental. O que se comprova é que, com a globalização, o
mento, voltados para pessoas. Nas palavras de Jim Mattewman, "um tipo de nomadismo está se tornando um princípio relevante; a valorização, o reco-
Facebook comercial desenvolvido com base em quem se conhece interna- nhecimento e a retenção devem ser o foco da gestão de talentos. Nos círculos
mente em vez de organogramas estabelecidos com fortes linhas de controle sociais e profissionais, é difícil encontrar um trabalhador Y que, mesmo em
e responsabílídade" Por tudo isso, mesmo não dispensando o Excel, a gestão sua curta carreira profissional, não tenha se movimentado mais de uma vez
por Power Point passa a ser fundamental, pois a geração Y está muito ligada de uma empresa para outra.
a pessoas; eles querem ser liderados e não chefiados, querem ser motivados As implicações dessas transmutações são imensas, pois refletem opor-
e não controlados e supervisionados. tunidades de realizar, conduzir, dirigir, gerenciar negócios de uma maneira
A geração Y tem uma visão própria sobre a mundialização. Para essa ge- inédita, com uma nova força de trabalho que reflete a mentalidade local, re-
ração, globalização consiste, simplesmente, no aumento das redes de rela- gional e, principalmente, global. Existe, portanto, uma urgente necessidade de
cionamento e na ampliação e aprofundamento do ritmo das conexões mun- adaptação dos paradigmas, um inaudito pensamento em termos de lideran-
diais. Concordam com o diplomata americano Henry Kissinger, vencedor ça e administração de pessoas. Os programas de remuneração precisam ser

78 79
Capo 9 • O gestol cló 81il :5.0

refeitos. Objetivos e metas alimentados por culturas de gratificações expres- primeiros a chegar e os últimos a sair da empresa. Preferem planejar seu dia
sivas em curto prazo para uns poucos perderam a confiança e o apoio desses em relação às tarefas imediatas. Gostam de trabalhar e ser cobrados por re-
jovens trabalhadores. Muitos gestores poderão ficar reticentes e pensar que sultados. Se, para tanto, for preciso prolongar suas atividades até altas horas
não deverão mudar, simplesmente porque a geração Y tem valores e compor- da noite, não há problema, desde que sejam reconhecidos e recompensados.
tamentos distintos; porém, essa é uma receita infalível para o desastre, uma O equilíbrio entre diversão e trabalho é mais maleável que o praticado pelas
vez que os jovens Y serão a força motriz que irá impulsionar tanto a recupera- gerações anteriores, que preferem dias de expedientes altamente estrutura-
ção como o desenvolvimento, o crescimento, a perenidade das organizações. dos e controlados, em que as agendas são marcadas e seguidas rigidamente,
Os nativos digitais nasceram, cresceram, se adaptaram, se moldaram ao que as decisões e ações sejam realizadas por consenso, que haja um relatório
mundo digital. Eles têm as informações literalmente nas pontas dos dedos, ou uma ata declarando que está tudo sob controle.
um desejo insaciável por novas experiências, uma ânsia por novos conhe- Os jovens Y se sentem mais à vontade ao labutar com limites mais am-
cimentos. Sentem-se prontos, com plena capacidade para tomar decisões plos, hierarquias e organogramas mais folgados, fora de regras estritas. Isso
rápidas, com poder de negociação significativo. Isso requer importantes al- lhes proporciona liberdade para arriscar, chegar ao extremo, forçar os limites.
terações nas habilidades e competências e nos projetos acadêmicos. As me- Querem um trabalho mais colaborativo, com maior transparência e um nível
todologias de aprendizagem saem de um processo de memorização e "de- de confiança superior que não necessite de controle e supervisão excessivos.
coreba" para uma maior interpretação dos conceitos e sua aplicabilidade Não tenho dúvidas de que a Educação 3.0 necessita estar antenada com
em situações específicas; consequentemente, há uma forte inclinação para a todas essas mutações, uma vez que o ritmo, a disponibilidade, o custo relati-
aplicação de metodologias que utilizem simulações, jogos e estudos de casos. vamente baixo da conectividade móvel, de imagens visuais, fizeram com que
Somado aos conhecimentos específicos da área escolhida, todas as profis- o mundo se tornasse muito menor, com oportunidades ilimitadas em que a
sões requerem amplo conhecimento de técnicas de gestão como capacidade tecnologia pode transcender e derrubar todas as fronteiras, conectando mi-
de lidar com pessoas, interpretação e análise de relatórios, administração de lhares ou milhões de pessoas. Esse mundo acoplado, agregado, interligado
conflitos, gestão de mudanças. Essas habilidades prestam-se a iniciativas de requer novas habilidades, novos conceitos, renovadas teorias de adminis-
alta geração de receitas que são naturalmente cíclicas e que requerem habi- tração, que desenvolvam aptidão de lógica, matemática, raciocínio crítico
lidades de garimpar e avaliar informações estimulando gestores e geridos a e analítico, que aprimorem a inteligência emocional e volitiva, que incenti-
buscar a próxima oportunidade. Para isso a geração Y se sente preparada, vem a utilização de tecnologia eletrônica e a indispensável convivência com
pois está sempre à procura de ideias diferentes. a digitalização, que aperfeiçoem a gestão e o desenvolvimento de talentos.
Parte dos motivos da não fidelização dos jovens Y a qualquer organiza- A responsabilidade por tudo isso deve ser das escolas. É preciso que nossos
ção está na frustração com a estagnação, de precisar conviver no trabalho sistemas pedagógicos, metodologias, projetos acadêmicos se adaptem rapi-
com os conceitos e teorias de administração estabelecidos e maturados pe- damente; caso contrário, a Educação 3.0 poderá significar a busca das com-
las escolas da ultrapassada Revolução Industrial. Querem variedade, libera- petências e habilidades necessárias para esse mundo digitalizado, conectado
lidade, oportunidade de desenhar novas soluções, conceber, testar, aplicar e globalizado em outras instâncias fora das escolas.
novas teorias e técnicas no trabalho. Desejam, no final das contas, liberdade
para fazer experiências tanto no espaço físico como no campo intelectual.
Certamente, os modelos de ensino-aprendizagem de nossas escolas não es-
tão preparados para esses novos paradigmas.
Diferentemente dos baby boomers e da geração X, a geração Y não tem
qualquer preocupação de "impressionar o chefe", sendo, por exemplo, os

80 81
REDE SOCIAL: UMA FORTE
ALIADA DA EDUCAÇÃO 3.0

o segredo para entender as pessoas é entender os laços entre elas.


NICHOLAS A CHRISTAKIS (1962)

Modernas ferramentas tecnológicas, inovadores sistemas, potentes soft-


wares e novos comportamentos surgem a cada dia. Estou sendo repetitivo
ao afirmar que o mundo está cada vez mais digital e interligado. O fato é que
estamos 24 horas por dia conectados com equipamentos que possibilitam
essa conexão permanente em qualquer lugar, a qualquer momento. Estamos
vivenciando o cibridismo (cyber + hibrido - o corpo biológico integrado às
plataformas digitais), termo utilizado pelo pesquisador, arquiteto e escritor
americano Peter Anders, para explicar o fato de, segundo ele, estarmos habi-
tando dois mundos simultaneamente, o que possibilita elementos da virtua-
lida de no cotidiano, mas permite também a experiência de estar entre redes:
on e off-line. Com os tablets, iPhones e smartphones, torna-se cada vez mais
complicado assentir quando uma pessoa está online ou não. A tendência é
que essa interação fique tão natural e ininterrupta que a discussão em torno
da questão venha a vanescer.
Os educadores estão perplexos com a realidade cíbrida, uma conjuntura
em que os estudantes estão permanentemente enviando e recebendo notí-
cias, namorando, compartilhando, interagindo, relacionando-se pelas redes
sociais. Redes sociais são estruturas que existem desde a Antiguidade e vêm
ganhando mais notoriedade graças à evolução das tecnologias de informa-
ção e comunicação. "Redes sociais têm a ver com pessoas, relacionamento
entre pessoas, e não com tecnologias e computadores", salienta a escritora
e palestrante Martha Gabriel, "tem a ver com como usar as tecnologias em
benefício do relacionamento social".

83
· , ,
Cap 10 Q Rede Social: urna forte odiada ela Educação 3.0

Segundo o escritor, consultor, um dos netweavers da Escola-de-Redes, planejamento, projetos, processos), por intermédio das redes sociais pode-
Augusto de Franco, a rede social é que determina como uma comunida- mos identificar o que está oculto, abaixo da linha d'água, visualizando o la-
de ou uma escola irá funcionar, como irá agir como irá se desenvolver. do subjetivo e invisível de uma instituição. Esse sentido figurado traduz as
Salienta Franco: relações que acontecem em corredores, salas dos professores, happy hours,
como agendas ocultas, comunicação informal, acordos tácitos, pactos explí-
toda rede é um conjunto de caminhos. Todo caminho é uma caminhada para o fu- citos, configurando lógicas distintas daquelas definidas nos organogramas
turo. E cada caminho é uma possibilidade diferente de futuro. Se alguém está co- formais, mas que fazem as coisas acontecerem, ou atrapalham tudo.
nectado a duas pessoas, tem dois caminhos, duas possibilidades difere~tes de futu- Ao integrar os aspectos formais e informais de uma instituição, as redes
ro. Se estiver conectado a dez pessoas, são dez possibilidades de inovação, são dez sociais contribuem para desvendar os mistérios que impedem a construção
oportunidades, são dez portas diferentes para o futuro. de um ambiente mais transparente e saudável, melhorando o desempenho,
a integração, a eficiência das áreas administrativas, operacionais, acadêmi-
Certamente, a rede social de uma escola é o melhor caminho para que cas, tão conflitantes em qualquer gestão escolar. Dessa forma, a compreen-
os educadores se utilizem do enorme capital intelectual coletivo presente na são, a modelagem, o domínio das redes sociais são habilidades importantes
instituição. e necessárias para os gestores e educadores, que propiciarão eficácia e efeti-
Em uma escola, pode-se utilizar as redes sociais tanto na área administra- vidade na produção e socialização de conhecimentos, gerando diferenciais
tiva como na área acadêmica; porém, para que não haja expectativas errône- sustentáveis para a perenidade institucional e para a formação de profissio-
as, alguns conselhos do netweaver Augusto de Franco: primeiro, o conteúdo nais-cidadãos competentes.
que circula pelas conexões não determina, necessariamente, o comporta- É importante não confundir redes sociais com redes digitais, ambien-
mento de uma rede; segundo, o comportamento da rede não depende dos tes virtuais, mídias sociais, redes de relacionamentos como Pacebook,
propósitos, valores, competências, habilidades dos indivíduos conectados, MySpace, Twitter, Tymr, redes profissionais como LinkedIn ou, ainda, pla-
e sim do grau de distribuição, interação, conectividade da rede; terceiro, as taformas interativas como Ning e Ilgg. As redes sociais relacionam-se a
redes sociais não são ferramentas de gestão, instrumentos de planejamento, pessoas conectadas por motivos, atrativos, interesses comuns; mídias vin-
de elaboração de planos de trabalho; quarto, não confundir interação entre culam-se a conteúdos (textos, imagens, vídeos) gerados e compartilhados
nodos com troca de informação; quinto, hierarquia não é sinônimo de li- nas redes sociais. Tanto as redes como as mídias sociais, em sua essência,
derança, e sim de poder. Isso não significa que não possa haver líderes hie- não possuem correlação com tecnologia, mas com pessoas e conexões hu-
rárquicos, pois o que determina a liderança não é o organograma, e sim o manas. A tecnologia, por meio de plataformas como Facebook, Twitter e
relacionamento e a confiança. Linkedln, apenas facilita, auxilia, favorece a interação das pessoas e o com-
As redes sociais são ambientes favoráveis à emergência e ao surgimen- partilhamento de conteúdos.
to de lideranças informais; portanto, trata-se de um ambiente incompatível Saliento que rede social não é uma ferramenta ou instrumento de ges-
com a liderança única, prepotente, opressora daquele líder que quer alvitrar, tão, e sim pessoas interagindo. Para que isso ocorra com a maior intensi-
opinar, decidir sobre qualquer assunto, sobre todos os temas e que, por falta dade possível, é necessária a existência de um ambiente que proporcione o
de flexibilidade, tem dificuldade de abandonar sua posição, estabelecimento de laços de confiança e reciprocidade. Os gestores e educa-
Numa abordagem tradicional, os desafios da liderança tendem a se focar dores que perceberem essas conjunções e agirem para otimizar seus efeitos
em elementos objetivos e visíveis. Como num iceberg, enquanto a abordagem produzirão resultados diferenciados, como aumento de receita, redução de
tradicional visualiza o que está acima da linha d'água (o que pode ser cha- gastos, melhor ia dos resultados, melhoria da eficiência operacional e, no la-
mado de organização formal, como a estrutura de organograma, hierarquia, do acadêmico, processos de ensino-aprendizagem eficazes.

84 85
Capo 1 ü • Rede Social. urna fon:2 allaci,s da Edu-; 21,.2103.0

As redes sociais não surgiram com as novas tecnologias de informação e utilização de redes nos processos de gestão e de ensino-aprendizagem está
comunicação. Sempre existiram, afinal, como nos ensinou um dos maiores engatinhando e em ritmo vagaroso.
poetas da língua inglesa, inspirado r de Ernest Hemingway para escrever seu Talvez um dos motivos seja que muitas das escolas no Brasil foram fun-
esplêndido romance Por quem os Sinos Dobram, Iohn Donne (1572-1631): dadas e geridas como empresas familiares, criando a figura do educador ca-
"ninguém é uma ilha em si mesmo. Cada um é uma porção do continente, rismático, aquela visão em que um líder é idolatrado e responsabilizado pelo
uma parte do oceano". Não é possível conceber que existam pessoas indivi- sucesso ou insucesso da instituição. O acadêmico e autor americano Henry
dualistas que não tenham qualquer interação. A análise de redes, portanto, Mintzber criticou o foco obsessivo sobre líderes individuais como sustentá-
não é uma novidade. Pesquisas antropológicas, sociológicas, psicológicas culos da eficácia organizacional: "ao se concentrar em uma única pessoa, a
apresentam um vasto acervo de conhecimentos sobre técnicas para análise. liderança torna-se parte da síndrome da individualidade que está solapando
O físico suíço Leonhard Euler (1707-1783) foi quem levantou a possibi- as organizações". [im Collins (1958-), renomado pesquisador e autor ame-
lidade de formalização matemática do fenômeno das redes sociais por meio ricano, também não acredita na eficiência de líderes carismáticos, assinala
do conceito de grafos. A teoria dos grafos é um ramo da matemática que es- Collins: "erguer uma organização que possa durar e se adaptar ao longo de
tuda as relações entre objetos de um determinado conjunto. Um grafo é um múltiplas gerações de líderes e múltiplos ciclos de vida de produtos; exata-
conjunto de pontos ou nodos (nó) que representa cada ponto da intercone- mente o oposto de construir uma organização em torno de um único líder
xão com uma estrutura de rede. Simplificando, um grafo é a representação carismático ou de uma grande ídeía"
estática, uma fotografia em um dado momento de uma rede que é formada No ambiente escolar, os educadores não podem ignorar as redes infor-
por nodos e conexões. O estudo desses laços é importante para a análise do mais que automaticamente se formam desde o início de cada período letivo.
capital social de cada no do e para determinar o valor que cada indivíduo No modelo tradicional face to face, a impressão que tenho é que se trata o
detém na rede social. encontro presencial como um agrupamento de docentes e discentes - simi-
Em sociologia, os experts apontam como marco inicial dos estudos de lar a uma díade, termo cunhado no final do século XIX pelo sociólogo ale-
redes sociais o trabalho do romeno Iacob Levy Moreno (1889-1974), que mão Georg Simmel (1858-1918) para designar um grupo de duas pessoas.
introduziu os sociogramas para representar redes de relações interpessoais Certamente, a sala de aula é muito mais que uma díade entre docente e dis-
na Hudson School for Girls. Moreno salientava que é "importante pensar a cente; a compreensão fundamental é que essa díade se agrupa para formar
respeito da interação humana levando em conta, principalmente, o tempo teias que vão muito além das paredes escolares e que a aprendizagem é alta-
presente; trata-se de averiguar a relação presente e as correntes afetivas, tais mente influenciada positiva ou negativamente, dependendo das caracterís-
como estão sendo transmitidas e captadas aqui e agora". Durante a década ticas e dos objetivos de cada nodo dessa enorme rede.
de 1930, foram apontados vários pesquisadores da Universidade de Harvard É fato que a aprendizagem possui alta influência emocional. Também é
que se concentraram mais na busca pelas características da estrutura global real que há contágio que diz respeito ao que flui ao longo dos laços de uma
da sociedade e não proporcionaram uma sólida base teórico-metodológica rede, pois existe uma irrefutável tendência de os seres humanos influen-
para pesquisa sobre redes sociais. ciarem e copiarem uns aos outros. Como você se sente depende de como
A partir dos anos 1970, os estudos e análises das redes sociais criaram se sentem aqueles aos quais você está conectado de maneira próxima. Para
corpo, principalmente com o progresso da tecnologia da informação, com ilustrar, conta-se que dois monges caminhavam silenciosos por uma estrada.
o advento da Internet, o desenvolvimento de softwares capazes de organizar De repente, pararam para contemplar um riacho: "Veja aqueles peixinhos
e computar dados relacionais em grande escala. Entretanto, apesar da aná- dourados, como estão felizes", comenta um deles. "Como você sabe que estão
lise de redes ter avançado consideravelmente nas últimas décadas, as apli- felizes?", retruca o outro. "Eu sei, pois eu estou feliz". Experimentos indicam
cações gerenciais de suas ideias não acompanharam o ritmo. Nas escolas, a que as pessoas podem adquirir estados emocionais que elas observam em

86 87
Capo 10· Rede Social: urna forte ailacla ela EduCd,âo 3.0

outros ao longo de um período. Esses estados emocionais influenciam dire-


Figura 10 Rede de Comutação de Pacotes de Paul Baran
tamente a aprendizagem dentro da escola.
Basicamente, uma rede social é um conjunto organizado de pessoas co-
nectadas por um ou vários tipos de relações, que partilham valores e objeti-
vos comuns. Consiste, portanto, em dois tipos de elementos: seres humanos
e as conexões entre eles. Épreciso ficar claro para os educadores que um am-
biente de aprendizagem não é formado apenas por um grupo de estudantes
com o objetivo de aprender uma determinada ciência. A escola contém um
complexo conjunto de redes formadas por nodos e conexões que interferem
diretamente na eficiência e eficácia da aprendizagem. Portanto, é fundamen-
tal que os educadores não somente saibam da existência dessas redes, mas
que conheçam como são formadas, como funcionam, como utilizá-Ias em
benefício da aprendizagem.
Segundo o sociólogo americano Nicholas Christakis (1962-), "um grupo
pode ser definido por um atributo ou como uma coleção específica de indiví-
duos para os quais podemos literalmente apontar" (um grupo de estudantes
no corredor, por exemplo). Uma rede social é completamente diferente de Centralizado Descentralizado Distribuído
(A) (B) (C)
um grupo. Embora a sala de aula seja formada por um grupo de pessoas, ela
Fonte: http://pt-wikipedia.org/wiki/PauCBaran.
inclui um conjunto específico de nados e conexões entre os estudantes. Esses
laços e o padrão específico desses laços são frequentemente mais importantes
que os próprios estudantes, pois permitem que discentes e docentes realizem
Numa metáfora simplificada, poderíamos comparar a sala de aula tradi-
atividades de aprendizagem que uma coleção desconectada não pode fazer.
cional com o diagrama centralizado de Paul Baran, no qual o professor é o
Conforme salienta Christakis, "os laços explicam por que o todo é maior do
centro de tudo e de todos. Os estudantes são seres passivos à mercê dos ensi-
que a soma de suas partes': A qualidade dos laços interpessoais de um nado
namentos do professor. Daí a díade. Diria que se trata de uma ilusão de óptica,
e as informações que esses laços circulam determinam a influência desse
pois, ao olhar mais nitidamente, verifica-se que, mesmo em um modelo tra-
nado. O padrão específico dos laços é crucial para entender como as redes,
dicional de ensino, o diagrama 11(descentralizado) representa melhor o que
as conexões, os nados (estudantes) funcionam e aprendem.
realmente acontece dentro do ambiente escolar. São nados que se comunicam
O polonês Paul Baran (1926-2011), que, juntamente com o britânico
informalmente, com comportamentos diferenciados, que aprendem com lin-
Donald Davies (1924-2000) e o americano Leonard Kleinrock, concebeu a
guagens próprias como, por exemplo, o nado da turma dofundão. Entretanto,
rede de comutação de pacotes, propôs diagramas em que descrevia a estru-
num futuro muito próximo, o diagrama III (distribuído) representará o pro-
tura de um projeto que, mais tarde, se converteria na Internet. Paul Baran
cesso de ensino e aprendizagem. Afinal, na Educação 3.0, a aprendizagem não
distribuiu sua estrutura em três diferentes diagramas: (I) centralizado, (lI)
acontece apenas no ambiente escolar, mas em redes, em qualquer lugar, em
descentralizado e (III) distribuído.
todo lugar, em qualquer espaço, em qualquer tempo, em todo tempo.
Se as redes sociais influenciam, moderam, modificam o processo de en-
sino e aprendizagem, significa que novos paradigmas são necessários para o

88 89
Capo '! O (!/ Rede Social. urna forte aliada ela Educ:a(~3C' 3.0

docente 3.0. Um arquétipo importante é que não basta o professor ter uma a elas como será o processo de integração e pergunto se poderei contar com a
boa didática, um relacionamento adequado; é essencial que saiba comu- colaboração delas para eliminar as possíveis resistências, comuns nesse tipo
nicar-se utilizando todos as formas de interlocução: oral, gestual, virtual, de integração. Como essas pessoas têm forte liderança informal e costumam
digital, analógica. Que utilize uma linguagem atualizada de acordo com as mostrar total apoio, a integração é efetivada sem conflitos, sem resistências,
exigências das gerações Y e Z. Significa que o docente, similar ao camaleão, de forma muito rápida.
precisa conhecer, adaptar-se às características, ao comportamento e à for- Isso mostra que o comportamento das lideranças informais pode ter
ma de aprendizagem de cada nodo sob sua responsabilidade. Significa que efeitos devastadores sobre os padrões de colaboração. Os gestores institu-
o professor deve estar ciente de que a educação padronizada e igual para to- cionais precisam ter consciência de como as habilidades, as capacidades es-
dos é coisa do passado. tão distribuídas e mobilizadas nas redes, na instituição e além delas devem
A análise e utilização dos potenciais de redes é uma possante ferramen- diagnosticar rapidamente as anomalias dessas redes antes que estas se trans-
ta para auxiliar os gestores a abarcar e suplantar as demandas paradoxais e formem em crise que cause desistência ou crie novas redes com objetivos
estratégicas da instituição. Uma perspectiva de rede proporciona novos e antagônicos aos planejados.
poderosos insights para a melhoria das atividades de gestão e dos processos Os filósofos de gestão sugerem que alto desempenho é o resultado da
de ensino-aprendizagem, bem como para a necessária inovação. A inovação combinação entre competência correta, liderança forte, processos bem de-
é fator de sucesso de qualquer organização; porém, para as escolas, é ques- finidos, funções com conteúdo. Acredito que, com tempo suficiente e pre-
tão de perenidade, captação, fidelização, retenção de alunos. Sabe-se que visibilidade quanto ao domínio dos problemas, os gestores institucionais
a inovação depende de esforços colaborativos; entretanto, à medida que a poderão cultivar e conquistar compromissos com uma visão compartilhada
necessidade de colaboração aumenta, as demandas sobre o escasso tempo e compatibilizar funções e prestações de contas com as competências dos
disponibilizado pelas pessoas dispara. A alternativa não envolve mais e mais membros das equipes. A utilização das redes sociais internas e externas po-
camadas de uma estrutura matricial, mas uma visão mais sutil e estratégica derá ser uma grande aliada para o sucesso das lideranças institucionais e
de colaboração por parte dos gestores, concentrando-se tanto nos compo- para o sucesso empresarial e acadêmico de qualquer instituição de ensino.
nentes básicos de rede que fornecerão valor como nas variáveis do projeto
organizacional que darão suporte a essas redes.
Rotineiramente, quando pensamos em inovação, vem-nos a imagem de
um indivíduo brilhante, ou um grupo isolado, criando a próxima lâmpada
genial. A história, porém, nos relata que as grandes inovações são combina-
ções de ideias ou tecnologias preexistentes cuja integração ocorre por meio
das redes sociais. Embora essas redes geralmente se formem por acaso, é cada
vez mais importante que gestores e educadores as cultivem de maneira pla-
nejada e direcionada, de modo que a colaboração exerça papel fundamental
para o sucesso de qualquer empreitada.
A busca da colaboração eficaz é um desafio dificílimo e holístico. Na prá-
tica, venho trabalhando há alguns anos com redes sociais. Ao fazer a integra-
ção de uma unidade de ensino para o grupo educacional em que trabalho,
procuro detectar a rede social daquela instituição. Ao visitar pela .primeira
vez a unidade, procuro as cinco pessoas com maior conexão (in e out). Relato

90
91
BENCHMARKING DE UMA
ESCOLA 3.0 DE SUCESSO

Àqueles que desejam compreender com clareza os eventos que tiveram lugar no
passado e que (sendo a natureza humana como é) serão num momento ou noutro
e de formas bastante semelhantes repetidos no futuro

TU c í D I o E5 • Provavelmente o maior historiador que já viveu, definindo,


há quase 2500 anos, o público-alvo de seu livro The Peloponnesian wars.

o sistema japonês de qualidade, baseado num processo denominado


kaizen (alto aprimoramento contínuo), utiliza a palavra dantotsu (lutar pa-
ra tornar o melhor do melhor), que consiste em procurar, encontrar, aper-
feiçoar, superar as qualidades dos concorrentes. No ocidente, esse conceito
passou a fazer parte do processo de planejamento estratégico empresarial,
tornando-se conhecido como benchmarking.
Benchmarking é um processo de busca contínua das melhores práticas, que
permite realizar comparações de processos companhia a companhia para iden-
tificar o melhor do melhor e alcançar um nível de superioridade, ou atingir o
que o professor e escritor americano Michael Porter denomina vantagem com-
petitiva. Benchmarking não é cópia ou imitação, mas um processo contínuo de
investigação que fornece valiosas informações. Não é um modismo de gestão,
e sim um processo de aprendizado; portanto, requer determinação, aplicação,
firmeza, disciplina, flexibilidade, trabalho intenso e consome tempo.
As instituições de ensino devem buscar as melhores práticas por meio
de processos responsáveis de benchmarking. Pensando nisso, procurei uma
escola que ensinasse com qualidade, que tivesse seu projeto pedagógico ali-
nhado com seu tempo e com os novos tempos. Encontrei uma instituição
exemplar que formou egressos de sucesso estrondoso. Nessa escola, os es-
tudantes são preparados para resolver problemas complexos e inesperados,
cuja solução talvez não recaia propriamente em nenhuma categoria ou área

93
Cap. 11 • 8ench'·(lClI klng ele li!' Ia escola 3.(; ele sucesso

de especialização bem definida, ou seja, o conteúdo é utilizado para desen- capaz de enxergar não apenas os dois lados de uma questão com mais rapidez
volver competências e habilidades e não para ser memorizado. que seu filho, mas talvez até seis lados. Filipe escolheu Aristóteles para ser esse
Nessa instituição, os estudantes devem ser capazes de improvisar, tomar tutor. Aristóteles nasceu em 384 a.C; na ilha de Estagira, próximo a Pella, capi-
decisões difíceis, reconhecer aspectos em comum entre problemas diferen- tal da Macedônia. Aos 17 anos, frequentou a Academia de Platão, em Atenas.
tes, investigar os fatos para comprovar ou refutar suas hipóteses, trabalhar Sua família era velha conhecida da família real macedônia. Seu pai fora mé-
em cooperação uns com os outros. O programa acadêmico é idealizado a dico de Amintas, pai de Filipe. Aristóteles havia sido alçado recentemente ao
fim de proporcionar uma profunda imersão no campo de especialização es- cargo máximo da academia de Platão em Atenas, onde estudara e lecionara
colhido pelo aluno e, ao mesmo tempo, uma visão geral de outras áreas, de por mais de vinte anos. Com a morte de Platão, em 347 a.C; Aristóteles não
forma que os estudantes possam lidar, de maneira integrada, com problemas aceitou Espeusipo (303- 339 a.C), considerado por alguns como neto e por ou-
diferentes e complexos. tros sobrinho de Platão, como novo diretor da Academia e se retirou da escola.
Para garantir que os estudantes não tenham apenas uma visão dos con- O filósofo encontrou uma Macedônia de encantos culturais e exuberân-
ceitos teóricos, estes são, com frequência, levados a campo para verificar de cia literária. Uma escola palaciana havia sido construída para ele nas coli-
que modo podem aplicar na prática o que aprendem na teoria. Também, nas de Mieza, não muito longe da capital Pelia. Na maioria dos dias, Mieza
para que tenham uma visão ampla do mundo, são convidados professores, era uma pintura de serenidade banhada pelo sol, com estradas alçadas de
poetas, artistas, cientistas, que formam um corpo docente visitante da escola. pedras e alamedas sombreadas onde grupos de estudantes conversavam so-
A metodologia é baseada no diálogo, na obediência, no respeito, na de- bre poesia persa ou teatro grego. Jardins botânicos e zoológicos haviam si-
terminação, no acatamento, na cooperação, no ensino compartilhado entre do construídos em torno da escola para atender ao interesse de Aristóteles
mestre e discípulos. Essa é a escola ideal para o nosso tempo, pois busca uma pelas ciências biológicas.
formação por competências utilizando como meios o estudo de conteúdos Filipe já havia profissionalizado a ordem dos Companheiros, compos-
conceituais, procedimentais e atitudinais. Foi construída em 343 a.C, nas co- ta de comandantes e generais. Ele acreditava que os estudantes de Mieza
linas de Mieza, na Macedônia, e tinha como principal professor Aristóteles, constituíam o grupo do qual sairiam as futuras gerações de Companheiros.
como alunos Alexandre, o Grande, e seus generais. Assim, ele pediu que os nobres macedônios enviassem seus filhos da idade
Segundo relato do escritor e consultor indiano Bose Partha, Alexandre de Alexandre para estudar com ele em Mieza.
tinha 13 anos quando Filipe II (383-336 a.C), rei da Macedônia, decidiu que A escola foi concebida para o ensino cultural e filosófico. Acima de tu-
seu filho precisava de uma formação muito superior àquela que estava sendo do, sua função era preparar os militares, os profissionais, a elite governante
oferecida. Filipe, tendo ele próprio se beneficiado das inspiradoras experiên- que, um dia, administraria a Macedônia e seus territórios. Pouca informação
cias educacionais proporcionadas por grandes mestres, quando foi mantido nos chegou sobre o tempo que Alexandre passou em Mieza, mas podemos
refém em Tebas, queria para Alexandre um tutor que lhe proporcionasse não imaginar que Aristóteles tenhà idealizado um programa acadêmico de es-
apenas uma boa formação, mas que também o preparasse para resolver os tudos capaz de proporcionar uma profunda imersão no campo de especiali-
problemas que enfrentaria mais tarde como rei. Não queria que Alexandre zação e, ao mesmo tempo, uma visão geral de outras áreas, de tal forma que
se limitasse a aprender as respostas de sempre para problemas banais; que- Alexandre e seus colegas pudessem lidar, de forma integrada, com a guerra,
ria que desenvolvesse um arcabouço intelectual capaz de guiá-lo diante de com as políticas públicas, com a justiça, as quais, como futuros líderes da
qualquer desafio com que se deparasse. Macedônia, era provável que tivessem de acatar.
Como diria o dramaturgo e um dos mais importantes escritores de tragé- Aristóteles acreditava que "o ser humano ao nascer é como um rio sem
dias gregas, Sófocles (406-497 a.C}, era necessário um mestre capaz de dar ao leito, que não sabe para onde vai e que a educação, ao longo do seu ama-
príncipe "a orientação da rédea e a contenção do freio': Precisava de um tutor durecimento, deve guiar". Aristóteles aceitava a educação tradicional grega,

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.. , Cap.11 v Benchrnamll19 de lJ!"a ",~cola 3.0 de sucesso

considerando, no entanto, que esta deveria ensinar conceitos úteis e necessá- compreendia com absoluta clareza que, por mais sofisticada que fosse uma
rios à vida prática. Por outro lado, Aristóteles defendia que a virtude moral e análise, ela jamais poderia substituir a experiência de alguém que morasse
o bom caráter também deviam ser ensinados. O ensino de conceitos seguido na região que estivesse querendo invadir ou que tivesse profunda ligação
da prática e do desenvolvimento de habilidades procedimentais e atitudinais com o problema que estivesse tentando resolver. Alexandre poderia rejei-
foi o foco do ensino em Mieza. tar o parecer de seus especialistas acerca da melhor rota para surpreender o
É possível imaginar Aristóteles, todas as manhãs, passeando com os seus inimigo sobre uma colina, por exemplo, em favor das orientações dadas por
pupilos ao longo do peripatos, designação dos caminhos cobertos que se en- um jovem pastor da região, cuja família viesse cuidando de seus rebanhos
contravam nas imediações da escola, e com eles discutindo as questões fi- naquelas paragens há décadas, conhecendo, portanto, todos os cantos, re-
losóficas mais profundas, deixando as tardes para expor assuntos de menor cantos e passagens da montanha.
dificuldade. Para Base Partha, o motivo pelo qual podemos acreditar que Havia uma humildade que Aristóteles deve ter procurado inculcar em
Alexandre tenha tido contato com as mais diferentes disciplinas sob os auspí- Alexandre e nos outros estudantes, referindo-se à inexistência de uma res-
cios de Aristóteles é que, em suas campanhas, ele demonstrava um prodigioso posta perfeita para todos os problemas. Eles eram preparados para acreditar
interesse pelas mais diversas áreas, além de extraordinária compreensão de- que o mundo com o qual iriam interagir como administradores, governado-
las. Também sabemos que Aristóteles, dentre os mestres atenienses, era quem res e generais era um complexo de sentimentos, pontos de vista, hipóteses e
nutria maior interesse pela diversidade de estudos. Aliás, não mero interesse, preconceitos. Uma das missões de Mieza era ensinar os rapazes a cooperar
mas profunda compreensão - atribui-se a ele a autoria de cerca de 150 livros uns com os outros em cada tarefa. Podemos tentar imaginar um Aristóteles
sobre assuntos tão diversos quanto meteorologia, metafísica, física, política. de 42 anos incitando, incentivando, orientando os meninos a trabalharem
Há uma famosa frase do poeta lírico e soldado grego do século VII a.C; juntos para resolver problemas.
Arquíloco: "a raposa sabe muitas coisas, o porco-espinho sabe apenas uma Há pouco ou nenhum registro preciso sobre o que Aristóteles de fato en-
e fundamental coisa': Aristóteles era considerado a raposa e, com efeito, é sinou a Alexandre, mas sabemos que os anos que o filósofo passou em Mieza
tido como o maior de todos os polímatas, transitando pelos campos mais foram cruciais para a formação de sua opinião sobre uma ampla gama de
díspares como a política e a interpretação de sonhos, enquanto seu mestre, assuntos que influenciaram e continuam influenciando o modo como pen-
Platão, era considerado o porco-espinho, com sua única e arrebatadora pai- samos hoje sobre uma enorme variedade de assuntos. Os métodos de ensino
xão, que era o governo dos reis-filósofos. de Aristóteles são importantes porque soam exatamente como os mesmos
Mieza foi o local onde a mente de Alexandre foi preparada para investigar que usamos ou deveríamos utilizar atualmente para formar profissionais das
dados concretos, padrões subjetivos e para procurá-los entre as mais diversas mais diversas áreas de conhecimento.
fontes e pessoas, de tal forma a chegar a uma solução. Uma das principais ca- Sócrates foi o primeiro professor ateniense a travar contato com seus discí-
racterísticas de Alexandre, como general, numa batalha, era sua capacidade de pulos por intermédio de diálogos. Não havia nada de disciplinado ou de rigo-
conseguir dados sobre determinada região retirados das mais variadas fontes roso no método socrático; ele iniciava um diálogo com qualquer um, em qual-
- do meteorologista, do especialista em agricultura, do botânico, do zoólogo, quer lugar. Aristóteles esteve entre os primeiros a adotar o método de Sócrates
do engenheiro civil, do hidrólogo, do historiador, até do sofista que viajava com e aplicá-Ia num ambiente de ensino formal, de forma disciplinada, com o rigor
ele - e sintetizá-Ias de tal modo a formar uma opinião quanto ao melhor mo- necessário. Ele acrescentou disciplina ao conteúdo que estava sendo discutido,
mento para invadir a região, quantos soldados seria viável mobilizar e manter, mas aperfeiçoou a técnica e o método socrático de discussão.
e como essa região poderia facilitar a próxima etapa da expedição. Aristóteles acreditava profundamente na virtude da prática. "A virtude
Alexandre não só buscava essas informações com seus especialistas pa- moral é fruto da prática", escreveu. "Assim como um construtor se torna me-
ra então triangulá-las com aquelas que já traziam na cabeça, como também lhor construindo e uma lirista se aprimora tocando sua lira, assim também

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Cap 11 • Benchmarklng d8 U:r,3 escol" ., O dI'- sucesso

nos tornamos justos praticando atos justos, austeros e corajosos praticando que se relacionavam eram quase tão importantes quanto o que elas apren-
atos de bravura': diam. Aqueles meninos, dali a algum tempo, estariam servindo ao lado de
Aristóteles sabia que ensinar Alexandre a agir de improviso poderia sig- Alexandre como companheiros, comandantes, guardiões, confidentes.
nificar a diferença entre o fracasso e o sucesso, entre a vida e a morte. Para Após três anos de intenso trabalho na instrução de Alexandre, Aristóteles
raciocinar com rapidez e clareza, era preciso conhecer o ambiente, adaptar-se voltou para sua terra natal, Estagira, com a sensação do dever cumprido.
às suas condições no sentido do cumprimento de uma meta. Sendo assim, Com a morte de Filipe em 336 a.C; Alexandre o sucedeu e resolveu ajudar
Aristóteles, que era extremamente "pé no chão", soterrava Alexandre de da- seu mestre. Em 335 a.C, Alexandre financiou a construção e a manutenção
dos e situações para ver como ele encarava, adaptava, resolvia um problema de uma escola para Aristóteles. A escola foi construída nos arredores de
com base numa série de dados desconexos, muitas vezes conflitantes. Ele Atenas, num pequeno bosque dedicado a Apoio Lykeios e às Musas, razão
aprendia a pensar no nexo entre os dados, nos aspectos frágeis da lógica de pela qual a escola foi denominada Liceu Aristotélico.
um argumento, nas informações que estavam faltando - mesmo já quase Durante 12 anos no Liceu, Aristóteles viveu uma vida tranquila e muito
afogado em informações de toda espécie. produtiva. Desses anos datam as principais obras, dispondo para sua elabo-
Alexandre e seus companheiros em pouco tempo se tornaram ótimos ração de uma imensa biblioteca, precursora da biblioteca de Alexandria, no
reconhece dores de padrões, capazes de fazer cálculos de extrapolação a Egito, que, por sete séculos (período de 280 a.c. a 416 d.C.), reuniu o maior
partir de dados mais simples, de formular juízos baseados em sua intuição. acervo de cultura e ciência que existiu na Antiguidade, e da biblioteca de
Aristóteles, que nutria profundo interesse pela biologia e passava seu tempo Pérgamo, na Ásia Menor, fundada por Atalo (241-197 a.c.). No Liceu, tra-
livre classificando e categorizando os diferentes tipos de plantas e animais, balhava-se, sobretudo, no campo das ciências particulares, prevalecendo o
usou seu sistema classificatório para entender também o mundo cognitivo. elemento empírico da Filosofia.
Ele criou uma taxonomia para os tipos de perguntas que as pessoas faziam Tanto a Academia de Platão como a Escola de Mieza e o Liceu Aristotélico
e incutiu em cada um de seus estudantes a vontade instintiva de fazer boas foram instituições novas no âmbito da educação da época, num período em
perguntas, nas quais a entonação, a formulação, o encadeamento das indaga- que o homem (cidadão livre e responsável da cidade-estado) passou para
ções, além do domínio das pausas e inflexões na geração do efeito desejado, um primeiro plano, dando origem a saberes e técnicas que o tornaram mais
eram tão importantes quanto o próprio conteúdo da pergunta. conscientes de si, de suas potencialidades e realizações. Essas escolas torna-
Os companheiros eram preparados para correr riscos e Mieza encorajava ram-se fóruns naturais, espaços adequados, abertos e frutíferos para o diá-
essa disposição na próxima geração de líderes macedônios. Para assumir ris- logo, para a discussão, para a produção de teses filosóficas, políticas, sociais
cos, era vital uma atmosfera franca, na qual contestações tanto da autoridade ou científicas inovadoras e muito diferentes.
como das ideias fossem aceitas. Nos três anos de preparo de Alexandre sob A história mostra que os resultados da escola de Mieza foram um sucesso
a orientação de Aristóteles, Mieza respondeu à altura ao desafio de criar um estrondoso. Era uma escola que estava muito além não apenas de seu tem-
grupo ou comunidade de nobres intelectuais fisicamente preparados para po, mas certamente de muitas escolas atuais; uma escola que, mesmo sem
conquistar o mundo. Acima de tudo, Mieza deu a Alexandre, sob a tutela de tecnologia digital, já praticava a Educação 3.0. Entendê-Ia, conhecer seus
Aristóteles, uma visão de mundo que era mais ampla e integrada que qual- mêtodos, é um excelente benchmarking para qualquer instituição de ensino
quer outra instituição educacional teria sido capaz de oferecer. contemporânea.
Mieza não foi apenas instituição de formação, mas também de fraterní- Em tempo: com a morte de Alexandre, em 323 a.c., Aristóteles foi per-
dade. O que se fazia depois das aulas era tão importante quanto o programa seguido pelos gregos e, aos 61 anos, fugiu para a ilha de Eubeia, onde vivia
de ensino. A socialização e a convivência constituíam partes integrantes do sua mãe, vindo a falecer em 322 a.c.
processo. As pessoas que essas crianças conheciam, a profundidade com

98 99
UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA
PARA A EDUCAÇÃO 3.0

É sabido que o homem positivo é aquele que vê em cada problema uma oportunidade.
E o negativo é aquele que faz de cada oportunidade um problema.
COMANDANTE ROLIM ADOLFO AMARO (1942·2001)

o conhecimento, as novas tecnologias, com sua vivacidade e penetra-


bilidade, têm destruído os antigos limites entre os setores de atividades e
modelos gerenciais. Pode-se, finalmente, derrubar as barreiras entre estudo,
trabalho e lazer. O fator característico dessa revolução consiste na impor-
tância assumida pela programação do futuro por meio de um novo modo
de promover a educação, que se vale da informação, da tecnologia, da digi-
talização, dos novos meios de comunicação.
"Não vivemos na era da informação, estamos na era da colaboração, a era
da inteligência conectadà', salienta o escritor e pesquisador canadense Don
Tapscott. A tecnologia digital e a comunicação assumem, portanto, um papel
central na nova sociedade, na educação, no plano social, na empregabilida-
de. "Não basta conhecer, é preciso entender", dizia meu velho pai, querendo
expressar que informação sem ação é apenas uma notícia e informação com
ação é conhecimento.
É comum os líderes do mercado exigirem reformas educacionais. Afinal,
independentemente de boa parte do mundo viver uma crise de desemprego,
há, paradoxalmente, uma crise de talentos. Em qualquer área, buscam-se
desesperadamente pessoas com acuidade mental, com conhecimentos cien-
tíficos, com habilidades de comunicação e tecnológicas e muitos graduados
simplesmente não as possuem. As escolas, que deveriam ser bancos de ta-
lentos, incubadoras do futuro, não estão cumprindo seu papel.
Existe um fato muitas vezes despercebido. A relação entre produtores de
serviços e consumidores, governantes e governados, professores e estudantes

101
está se transformando de verdade. Na Educação 3.0, o sentido é a partici- O aparecimento da imprensa criou urna convulsão na educação, tal corno
pação efetiva na aprendizagem de educadores e educandos em um ambien- está ocorrendo na recente revolução da informação causada pela incrível e
te híbrido, analógico, digital, auto-organizado. Esse é o mundo das escolas estugada evolução da tecnologia.
depois da Internet. As escolas precisam definir o que [oi Ito, ativista japonês O autor e professor americano Clayton Christensen (1952), em seu livro
e diretor do MIT Media Lab, sugere: "em que época as empresas preferem O Dilema da Inovação, explica por que instituições muito bem-sucedidas
viver: antes da Internet (a.I.) ou depois da Internet (d.L)?" sucumbem quando o ambiente externo muda. Segundo o autor, elas desa-
A escola d.I. é mais uma plataforma que uma organização central. As es- parecem porque continuam utilizando modelos de gestão bem-sucedidos no
colas a.I. estão habituadas ao modelo de ensino no qual a repetição, a trans- passado em urna conjuntura nova, diferente. Ou seja, modelos de gestão não
missão, a obediência, a falta de criatividade, de argumentação, de raciocínio são bons ou ruins - são apenas situacionalmente adequados. Do mesmo mo-
coerente, congruente, harmônico é uma rotina. Modelos acadêmicos enges- do, projetos acadêmicos não podem ser avaliados e utilizados em absoluto,
sados não funcionam mais porque, assim corno os mapas, ficam rapidamen- mas em sua adequação às condições em que são desenvolvidos, bem corno
te defasados e obsoletos. Nas escolas d.I., há apenas princípios norteadores, ao contexto e às circunstâncias em que está inserida a escola.
bússolas, modelos acadêmicos flexíveis e adaptáveis. O objetivo dessa proposta é apresentar urna metodologia que possa au-
Nessa transição de instituição a.I. para d.I., é preciso que as escolas tro- xiliar as instituições de ensino a reconstruir, revisar, adaptar, atualizar conti-
quem a força pela resiliência, ou seja, a capacidade de lidar com problemas, nuamente seus sistemas acadêmicos. Propor urna ferramenta que auxilie as
superar obstáculos, resistir à pressão, buscar a transição. Que tenham a pre- escolas a.I. a se tornarem instituições d.I., que assegure a melhor apropriação
disposição de puxar e não empurrar as possibilidades de melhoria que a do conhecimento, a melhor formação possível aos estudantes, a consistên-
Internet proporciona aos processos de ensino e aprendizagem. Aptidão de cia com as normas e regras regulatórias, com as características do mercado,
trocar a segurança, a tradição pelo risco e pelo novo. Enxergar o sistema com a evolução da tecnologia, com a realidade do mundo contemporâneo,
como um todo e não corno modelos isolados de disciplinas juntadas e não com o perfil de aprendizagem das gerações Y e Z. A proposta visa sugerir
agrupadas coerentemente. Abandonar os mapas em favor das bússolas. Aliás, um caminho para a construção de um sistema acadêmico que oportunize
o PDCA da Educação 3.0 (PDCA - Plan, Do, Check, Action - ferramenta aos estudantes nativos digitais alcançarem uma formação atualizada, com-
de gestão adaptada à Educação 3.0,) vem com o propósito de ser um guia prometida com a promoção da empregabilidade, com a qualidade de seu
que direciona, flexibiliza, atualiza o sistema acadêmico. O objetivo deve ser exercício profissional, com a sustentabilidade de sua atuação no mercado
ensinar o estudante a aprender e buscar o conhecimento por conta própria, de trabalho. Urna metodologia que quebre o paradigma de construção de
em vez de ser formalmente ensinado. cursos com matrizes curriculares engessadas, que construa projetos acadê-
A educação passou por amplas transformações ao longo de várias épo- micos dinâmicos, atualizados, flexíveis.
cas. A primeira grande transformação consistiu na invenção da escrita, que No contexto tecnológico atual, nas circunstâncias e exigências do mer-
ocorreu há cerca de 5 ou 6 mil anos na Mesopotâmia, milhares de anos mais cado, qualquer sistema acadêmico, para ser eficaz, deve ter foco no desen-
tarde na China e 1.500 anos depois na civilização maia, da América Central. volvimento de competências e habilidades voltadas para a empregabilidade
A segunda transformação foi a invenção do livro escrito. Isso ocorreu em emum mercado de trabalho no qual se exige capacidade reflexiva sobre as
primeiro lugar na China, por volta de 1300 a.c., e 800 anos mais tarde na próprias necessidades de formação continuada, iniciativa na busca de solu-
Grécia, quando Peisistratos, o tirano que governou Atenas no período en- ções para questões percebidas, hierarquia horizontalizada, flexibilidade para
tre 561 e 527 a.C; mandou copiar para livros os versos de Homero que, até o trabalho em equipes multidisciplinares. Na geração de valor que atinja a
então, eram apenas recitados. A terceira transformação foi a reinvenção da todos os interessados no sistema de ensino, a proposta estabelece:
imprensa escrita entre 1450 e 1455, pela qual Gutemberg foi o responsável.

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Cap. ·12 ~ Uma proposta pE:c1agóSjlca pai a a EduCêlçáo 3.0

a. Mudar o foco no ensino para o foco no aprendizado e no desenvolvi- para a construção da presente proposta. Entretanto, três dessas foram as que
mento do estudante;
mais se identificaram com o processo aventado:
b. Desenvolver e adotar um sistema acadêmico no qual o conhecimento
aplicado é o principal foco;
Antropologia, ciência que tem como objeto o estudo do homem, que
c. Preparar o estudante para uma profissão, com bases sólidas para atuar emergiu da Revolução Intelectual dos séculos XVIII e XIX, tendo como
em diferentes campos e setores profissionais;
motivação inicial e elemento deflagrador para que se tornasse ciência o
d. Promover uma ruptura com a cultura de ensino tradicional fragmentado, impacto do pensamento evolucionista e darwinista do século XIX. Para
compartimentalizado, concebendo e implantando um ensino por meio o modelo proposto, o ator principal é o estudante; para tanto, necessi-
da construção de projetos acadêmicos com ênfase em competências, ha- tamos conhecer seu perfil, seus modelos mentais, seus hábitos, como se
bilidades, atitudes, conhecimento aplicado;
socializam, como se comunicam, como aprendem, considerações que
e. Desenvolver o processo de ensino-aprendizagem utilizando tecnologia fizemos nos capítulos anteriores. Não tenho dúvidas de que existem ou-
de informação atualizada, de modo a oferecer serviços diferenciados tras ciências que igualmente fazem o estudo do homem, como sociolo-
que favorecerão a integralização e o desenvolvimento das competências gia, psicologia, história, as leis, economia, ciências políticas. Entretanto,
projetadas;
a antropologia se distingue por incluir na sua área de estudos questões
f. Atuar no ensino, fomentando a qualidade e o alto desempenho do es- de ordem física e estrutural, estudos de culturas, hábitos, evolução social.
tudante.
Teleologia (do grego, télos, fim e lagos, estudo), estudo da finalidade, nas-
ceu no século XVII com o fim de exprimir um modo de explicação mais
"As perguntas não são nunca indispensáveis; as respostas, às vezes, sim': pragmático, baseado em causas finais, diferentemente do modo de expli-
dizia meu velho pai. Perguntar certamente é a forma mais pragmática de cação baseado em causas eficientes. Apenas o nome é moderno; a própria
construir qualquer proposta pedagógica. A maiêutica é um método fantásti- ideia é antiga. O que é fundamental na Teleologia pode encontrar-se já em
co em que as respostas florescem de perguntas que se multiplicam na medida Platão e Aristóteles. Apelamos para a causa final ou teleológica quando,
em que vamos realizando o exercício mental, utilizando os próprios conhe- ante o processo de construção do sistema acadêmico, perguntamos: para
cimentos, desenvolvendo a capacidade associativa e otimizando recursos na quê? Por quê? Para quem? Como? Onde? Quanto custa?
estruturação de mecanismos de raciocínio lógico.
Metodologia significa, etimologicamente, o estudo dos caminhos, dos
Certa vez, o escritor e ensaísta francês Maurice Blanchot disse que "as instrumentos usados para os processos de ensino-aprendizagem, os
respostas são a má sorte das perguntas': De fato, cada resposta pode implicar quais respondem sobre como fazê-los de forma eficiente e eficaz.
fechamento, fim da estrada, fim da conversa. Muitas vezes, promete falsa-
mente solução simples para uma busca provocada e impelida pela comple- Não poderia deixar de manifestar a importância da arte, especialmente
xidade. Entretanto, contrariando as ideias desse grande cientista, propus-me a literatura, como instrumento de educação e formação do homem. A leitu-
a tentar buscar respostas pragmáticas, possíveis, de ações concretas para ra cria a consciência de quem somos, o que nos leva a analisar o mundo em
melhoria do ensino-aprendizagem.
que vivemos para transforrná-Io no mundo em que gostaríamos de viver.O
A primeira pergunta que fiz ao pensar em uma proposta de sistema aca- emérito professor da Universidade de São Paulo, doutor honoris causa da
dêmico foi: quais ciências darão sustentação ao modelo? Sempre entendi que Unicamp, Antônio Cândido de Mello e Souza, diz que "a literatura não cor-
educação não é uma ciência exata, com leis rígidas, mas uma arte profissional rompe nem edifica, mas humaniza em sentido profundo porque faz viver". A
baseada em ciências como antropologia, sociologia, psicologia, teleologia, literatura ensina valores com força emocional, afinal o livro é uma riquíssima
pedagogia, metodologia. De cada uma dessas ciências busquei ensinamentos fonte de possibilidades para o estudante compreender por meio da fantasia,

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Capo 12 • Urna p: oposta pedasógíca para a Educação 3.0

Deming (1900-1993), reconhecido pela melhoria dos processos produti-


da quimera, da imaginação, a evolução que acontece à sua volta, além de
vos nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, idolatrado no
outros aspectos pertinentes à humanidade. A construção de qualquer siste-
Japão no pós-guerra, onde ensinou altos executivos como melhorar projetos
ma pedagógico deverá estar embasada na leitura, no estudo, na análise das
e qualidade de produtos e serviços, utilizando ferramentas do Total Qualzty
grandes obras da literatura.
A busca de conceitos sólidos e aplicáveis, operacionalmente válidos, epis- Management ou simplesmente TQM, entre estas o PDCA.
temologicamente consistentes, é o passo mais importante e difícil da cons-
trução de qualquer sistema acadêmico. Entendo que quaisquer áreas do co- Figura 12.1 PDCA da Educação 3.0 para o ensino e aprendizagem
nhecimento têm natureza sistêmica, de tal modo que os conceitos, também
sistematizados, participam de um mapeamento que orienta as ações em to-
das as instâncias. Isso não é diferente na área acadêmica. Esse é o grande
desafio ao se construir um sistema acadêmico: zelar pela precisão concei-
tual, buscando a desejada interpretação do projeto, de sua filosofia de base,
que busque a diferenciação, a eficiência dos processos de ensino, a eficácia
na avaliação da aprendizagem, dos atores, dos processos como um todo, a
efetividade da empregabilidade dos egressos.
A pergunta essencial a ser respondida, que irá guiar a fundamentação
conceitual da proposta, é: qual o objetivo do estudante ao ingressar em uma
escola? Existem muitos motivos, vários objetivos, múltiplas alternativas.
Entretanto, é necessária uma resposta que abranja a maioria dos ingressantes.
Somente assim poderemos criar os conceitos, elaborar os processos, aplicar o
gerenciamento da rotina com indicadores, implementar ações que levem ao
objetivo da maioria. Em um levantamento não científico, a resposta mais co-
mum foi: o objetivo do aluno ingressante é a empregabilidade. Compreendo
empregabilidade como reunir as condições necessárias para ingressar, man-
ter-se, ascender no mercado de trabalho, seja por meio do emprego, do em- Avaliação Escolha
Como avaliar a eficiência do
preendedorismo, da pesquisa ou de qualquer outra modalidade de ocupação. processo e a eficácia
Ouals conteúdos o egresso
precisa conhecer bem para

Resumidamente, empregabilidade é tornar-se necessário. Desse modo, esse da aprendizagem? ... ser capaz de? ...

objetivo passa a ser o direcionador e definidor dos conceitos fundamentais


PDCAd.
que orientam a proposta. Distribuição Educação
Organização
3.0
Como distribuir
Para construção do sistema acadêmico, a ideia é utilizar os conceitos serviços educacionais
Como organizar conteúdos
de forma ctirnizar e evitar
a
adequadamente utilizando
de uma excelente ferramenta de gestão denominada PDCA (Plan, Check, modalidades distintas? ...
lacunas na aprendizagem? ...

Do, Action), para criar o que está sendo batizado de PDCA da Educação Disponibilização

3.0 para o ensino-aprendizagem. O PDCA é uma ferramenta de gestão ide- Como utilizar metodologias

alizada pelo engenheiro e físico americano, considerado o pai do contro- I


I
e mídias
otimizar
adequadas para
a aprendizagem? ..

le estatístico de qualidade, Walter Andrew Shewhart (1891-1967), ampla-


mente divulgado pelo estatístico e consultor americano Willian Edwards

107
106
•...... >.1 \ _ •

o PDCA da Educação 3.0 é dividido em cinco dimensões. Existe um


capítulo contextualizado para melhor entender o porquê da importância CONCEITOS ACADÊMICOS
de cada uma das dimensões. A primeira dimensão é a escolha. Com o vo- PARA EDUCAÇÃO 3.0
lume de informações boas e ruins disponíveis, é preciso escolher somente
os conteúdos essenciais que servirão de meio para o desenvolvimento das
competências necessárias ao perfil do egresso desejado. Para auxiliar na es-
colha, elaboramos o que estamos denominando de BSC Acadêmico, que é a
utilização dos conceitos de Balanced Scorecard de Kaplan e Norton.
A segunda dimensão é a organização. Aparentemente é simples prepa- Só buscar o sentido faz, realmente, sentido. Tirando isso não tem sentido.

rar, alinhavar, organizar um projeto acadêmico; contudo, tendo em vista o PAULO LEMINSKI

volume de informações disponíveis, o novo perfil dos estudantes das gera-


ções Y e Z e as possibilidades de novas metodologias, a organização torna-se
importante, principalmente para evitar grandes lacunas de aprendizagem. Conceitos são símbolos mentais, entidades abstratas, determinando co-
A terceira dimensão é a disponibilização, certamente a mais afetada pelas mo as coisas são ou devem ser. Conceitos são universais, são portadores de
tecnologias e mídias digitais. Permuta-se a metodologia de um ensino ex- significado. O termo tem sua origem no latim conseptus, do verbo concipe-
positivo e de estudantes passivos para metodologias de parcerias nas quais re, que significa conter completamente, formar dentro de si. É a maneira de
docentes e discentes trocam informações e estes participam ativamente da pensar sobre algo ou alguém. Na filosofia, consiste em uma representação
aprendizagem. Novas mídias escritas, mídias de som, mídias de imagens mental de um objeto concreto ou abstrato. No tesauro, também conheci-
fixas e em movimento estão disponíveis, proporcionando o surgimento de do como dicionário de ideias afins, conceito expressa: (1) uma unidade de
sedutores objetos de aprendizagem. pensamento; (2) uma unidade de comunicação; (3) uma unidade de co-
A quarta dimensão é a distribuição na Educação 3.0, que poderá ser ofer- nhecimento. A terceira afirmação retrata melhor a definição dos concei-
ta da nas modalidades face to face, ensino a distância, 100% Web. Com a tos acadêmicos que estamos propondo, pois, ao reconhecer que uma área
abundante e eficiente tecnologia de comunicação digital, poderá ser realiza- de conhecimento tem natureza sistêmica, de alguma forma, os conceitos
da pela própria instituição ou terceirizada por empresas de tecnologia como constituem seu mapeamento.
Google, Apple, Microsoft, para citar somente as gigantes.
A quinta e última dimensão, como não poderia ser diferente, é a avalia-
ção de todos os processos: verifica -se a eficiência de cada dimensão, mede-se 13.1 O conceito de conhecimento para a Educação 3.0
a eficácia de cada projeto acadêmico e avalia-se o processo de ensino-apren-
dizagem e sua efetividade. Por muito tempo, o conhecimento foi utilizado como um meio e não co-
mo um recurso para a empregabilidade. Na era agrícola, o homem utilizava
o conhecimento para criar instrumentos como extensão do seu corpo, de
sua potencialidade. Na era industrial, aplicou-o para construir máquinas
mecanizadas que substituíram o trabalho físico. Hoje, vivemos o que Alvin
Toffier (1928), escritor e futurista norte-americano, chamou de era pós-in-
dustrial. O conhecimento é empregado para fabricar máquinas inteligentes
como extensão da cabeça, que sucedem o homem na execução do trabalho

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108
Capo 13 ~ Conceitos acadêmico:; para Educacao 3.0

repetitivo. Nessa evolução, a força física foi substituída, o esforço corpóreo


Figura 13.1 Pilares da empregabilidade
foi transferido, o trabalho repetitivo foi assumido pela informatização, di-
gitalização, robotização dos processos, restando ao homem o trabalho cria-
------------------------------------------------~ ,
tivo, relacional, lógico. Nessa nova era, o conhecimento deixou de ser meio
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e passou a ser um recurso. O valor agregado aos produtos e serviços, bem
como a riqueza, são produtos desse conhecimento.
Na Grécia antiga, para Sócrates, o objetivo do conhecimento era o au-
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to conhecimento, sendo os resultados, portanto, internos. Já para o sofista
grego Protágoras de Abdera (480-410 a.C,}, o resultado era a capacidade de
saber o que dizer e dizer bem, ou de produzir o que chamamos de imagem.
"O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são,
das coisas que não são, enquanto não são", dizia Protágoras, significando
Fazer Ser
Saber
que as coisas são conhecidas de uma forma particular e muito pessoal por Conviver

cada indivíduo. Por mais de 2 mil anos, o conceito de Protágoras orientou ~-------------------------------------------------~
as atividades de ensino e aprendizagem ocidentais, definiu o conhecimen-
to e seu uso.
Sendo o objetivo do estudante a empregabilidade, as tradicionais visões O saber (episteme) pressupõe o conhecimento teórico e conceitual de
de conhecimento não oferecem elementos para subsidiar a concepção de um uma área. Permite compreender melhor a área escolhida, compreender o
projeto de ensino. Ao contrário, a empregabilidade, no mundo contemporâ- ambiente sob os seus diversos aspectos. Deve despertar a curiosidade inte-
neo, só pode ser conquistada se tratarmos o conhecimento como um recur- lectual, estimular o sentido crítico, permitir a compreensão do real por meio
so, um valor que é associado às habilidades e competências que permitam a do desenvolvimento da autonomia, da capacidade de discernir, de buscar o
entrega no ambiente de trabalho. próprio saber e suas aplicações. De acordo com a concepção adotada, de na-
A presente proposta pedagógica se fundamenta na adaptação do con- da adianta o saber se não se consegue utilizar e aplicar os conceitos e teorias
ceito de conhecimento de [acques Delors (1925), autor e organizador do que o compõem. Na busca da empregabilidade, o saber (episteme) e o jazer
relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o (techné) são indissociáveis, assim como o são no cotidiano das sociedades.
século XXI, intitulado Educação, um Tesouro a Descobrir (1996), em que se A substituição do trabalho humano por máquinas tornou-se cada vez mais
exploram os quatro pilares da educação, segundo os quais o conhecimento é imaterial e acentuou o caráter cognitivo das tarefas.
constituído por saber, jazer, ser e conviver. Esse conceito implica um modo de Fazer (techné), portanto, na composição do perfil dos egressos e na con-
gerir o conhecimento que convida à aprendizagem mútua e permanente, ao cepção do modelo pedagógico, não pode ter o significado simples de pre-
desenvolvimento de habilidades técnicas e interacionais ao mesmo tempo, à parar indivíduos para executar uma tarefa material determinada. Não po-
formação de competências que habilitem para a ação profissional eficaz em demos trabalhar os estudantes com o que Paulo Freire caracterizou como
um mundo de instabilidades e incertezas, à integridade pessoal para atuar ensino bancário, no qual o estudante é visto como um passivo depositário
em sociedade de maneira ética. de conteúdos.
Uma implicação desse modo de conceber a articulação entre esses dois
aspectos da competência profissional é que a visão do que seja ensino e
aprendizagem também mudou. As ideias de transmissão de práticas mais

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110
Cap .. , 3 e Conceitos acadêrnicos para Educação 3.0

ou menos rotineiras e memorização de conhecimentos são totalmente ina- é, adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a jazer, para poder
dequadas. O estudante se torna um agente de seu próprio aprendizado; o agir sobre o meio que o cerca; aprender a viver junto, a fim de participar e
papel das escolas passa a envolver o desenvolvimento de competências e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; aprender a ser, elo
habilidades procedimentais e atitudinais que possam capacitar os egressos que integra os três pilares anteriormente citados. Juntas, essas perspectivas
para entrar, manter-se, ascender no mercado de trabalho. constituem uma única via do saber, pois entre elas existem múltiplas inter-
O saber (episteme) e ojazer (techné) constituem pilares da formação pro- faces de intersecção, de relacionamento e, principalmente, de permutas.
fissional que, no entanto, não estará completa se não forem desenvolvidas No ensino formal hodierno, a orientação da educação baseia-se no
também habilidades interpessoais, reunidas aqui sob o rótulo de conviver aprender a conhecer e, em menor proporção, no aprender ajazer. O conviver
(convivere), nem se não forem cuidados aspectos relevantes para a vida em (convivere) e o ser (noesis) dependem de circunstâncias aleatórias diluídas
sociedade que denominamos de ser (noesis). Ser pressupõe o desenvolvimen- no decorrer do processo de ensino e aprendizagem. Em concordância com
to integral e integrado do indivíduo, entendido como o desenvolvimento do Delors (1999), cada um dos quatro pilares do conhecimento "deve ser objeto
espírito, do corpo, da inteligência, das emoções, da sensibilidade, da empatia, de atenção igual por parte do ensino estruturado, a fim de que a educação
da responsabilidade pessoal, da ética, do comportamento adequado à profis- apareça como uma experiência global a ser levada a cabo ao longo de toda
são escolhida, o que não pode prescindir do conviver respeitoso e inclusivo. a vida, no plano cognitivo, no prático, para o indivíduo enquanto pessoa e
O ser (noesis) e o conviver (convivere) constituem a formação do cidadão membro da sociedade".
que, somada à formação do profissional (saber e fazer), certamente o levará O desenvolvimento da conjugação dessas habilidades que compõem a
ao sucesso profissional e pessoal, ou seja, à empregabilidade. concepção de conhecimento é que poderá propiciar ao egresso a empregabili-
Ao longo de minha experiência acadêmica, constatei que a aprendiza- dade. Isso se traduz na composição de projeto acadêmico em que se insiram
gem do conviver é um dos maiores desafios para todos os educadores. Cada unidades de ensino integradas, que reúnam estudantes oriundos de diversos
curso apresenta-se como uma caixinha fechada, como uma tribo com carac- projetos, promovendo férteis debates multidisciplinares, a aprendizagem do
terísticas próprias no modo de se vestir, de se comportar, de se comunicar, convívio com o diferente, da escuta aberta a surpresas e soluções coletivas.
que se percebe superior a outros grupos. A tarefa é árdua porque, de forma Os docentes dessas unidades de ensino devem ser preparados para desen-
muito natural, os seres humanos têm a tendência de supervalorizar as suas volver atividades de aprendizagem que levem à aquisição de conhecimentos
qualidades e as do grupo ou curso a que pertencem, levando-os, desafortu- relevantes, mas principalmente ao desenvolvimento de habilidades compor-
nadamente, a alimentar preconceitos em relação aos outros. tamentais e de convivência multiprofissional.
Soma-se a isso o clima geral de concorrência individual e das profissões
que caracterizam a atividade econômica contemporânea, com corporações
profissionais fortes que priorizam a competição, o sucesso individual e pro- '13.2 Conceito de competência para a Educação 3.0
fissional das ocupações que defendem. Como educadores, nossa principal
tarefa é promover a convivência entre os estudantes dos diversos cursos, Na Grécia antiga (século V a.C,), o sistema de ensino se baseava na Paideia.
despertando a importante habilidade atitudinal da interdependência multi- Os estudantes eram submetidos a um programa que procurava atender a
profissional, o convívio aberto e criativo em equipes multidisciplinares, tão todos os aspectos da vida do indivíduo. A noção era que, além de formar o
necessários hoje no mercado de trabalho. profissional, a educação devia formar o cidadão. Os encontros aconteciam
A proposta do sistema acadêmico organiza-se, portanto, em torno dos nas praças, onde o discípulo tinha contato com a teoria, a prática e viven-
quatro pilares citados pela Unesco, que, ao longo de toda a vida representam, ciava a realidade do dia a dia. Ao darmos um salto até a década de 1750, na
para cada indivíduo, os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto Inglaterra, a metamorfose fundamental que se vê ali é a Revolução Industrial

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, ,
Capo 13 v Concertos acadê micos para Edur.acào 3.0

que, substituindo-o por máquinas mecanizadas, praticamente colocou um querer agir. Reunindo os conteúdos atitudinais e conceituais, conquistamos
fim no trabalho artesanal, alterando a capacidade humana de produção de o saber ser e conviver. A combinação de todos esses aspectos da noção de
mercadorias. A educação virou sinônimo de treinamento, foi expulsa das conhecimento é que promove o saber fazer, a entrega no contexto profissio-
praças, se enclausurou, tendo a teoria e a prática desvinculadas do dia a dia. nal próprio, a definição de competência que preconizo.
Mais um salto para os dias atuais, vemos que a Internet de banda larga pro-
porcionou aos estudantes estarem conectados com o mundo diuturnamente,
desencarcerando a educação, colocando-a de volta, mesmo que virtualmen- Figura 13.2 Conceito de competência da Educação 3.0
te, nas praças, nas ruas, na prática cotidiana. Surgiu então a denominada
Paideia Digital, termo cunhado pela escritora e palestrante Martha Gabriel.
I Conhecimento I
Entretanto, ainda vemos que as discussões sobre o conceito de currículo
nos remetem ao ensino meramente transmissivo, sem estabelecer ligações
COMPETÊNCIA
com a realidade, tendo como foco apenas a memorização de conteúdos, mui-
Conceito
tas vezes sem que o aprendiz saiba o que fazer com eles. Essa dinâmica tem
conduzido os alunos à insatisfação e contribuído para a baixa qualidade do
seu desempenho acadêmico. Várias vezes, ao concluir o curso, deparam-se
com a sensação de que nada sabem sobre o exercício de suas atividades pro-
I Habilidade I EIIIIJ
fissionais e sentem -se inseguros.
Um sistema acadêmico só será bem-sucedido se transportar a educação Saber
agir
de volta às praças, à veracidade do dia a dia. Isso somente será possível com
a utilização de um projeto acadêmico por competências, no qual o estudan-
te passa a ser responsável pelo ato de aprender, de construir a trajetória de
sua aprendizagem, em contraposição ao ensino transmissor de conteúdos, I Atitude

no qual o aprendiz atua como sujeito passivo, preso dentro de uma sala de
aula, desconectado com a realidade de fora da escola.
O termo competência tem sido utilizado com diferentes significados Segundo a professora Acácia Zeneida Kuenzer, em face das transfor-
ao longo do tempo e em diferentes contextos. As Diretrizes Curriculares mações do mundo contemporâneo, dos processos de reestruturação pro-
Nacionais (DCNs), por exemplo, definem competência de maneira distin- dutiva e de qualidade, a qualificação para o trabalho deixa de ser compre-
ta em cada um dos cursos descritos. Para conceber e construir um sistema endida como fruto da aquisição de modos de fazer, passando a ser vista
acadêmico, promover ações de ensino e aprendizagem voltadas para o de- como resultado da articulação de vários elementos, subjetivos e objetivos,
senvolvimento das competências, para ser coerente com o conceito de co- corno natureza das relações sociais vividas pelos indivíduos, escolaridade,
nhecimento adotado, compreendo competência como o resultado da junção acesso à informação, a saberes, à tecnologia, a manifestações científicas e
potencializadora dos diferentes aspectos do conhecimento, ou seja, a união culturais, além da duração e da profundidade das experiências vivencia-
de saber, jazer, ser e conviver, aplicados ao contexto de realização. das, tanto na vida social como no mundo do trabalho. A formação dos
A conjugação dos conteúdos conceituais com os procedimentais pro- profissionais passa, então, a ter como objetivo o desenvolvimento de com-
duz o saber jazer, crucial ao desenvolvimento de competências. A junção petências. Nessa perspectiva, a formação assume como finalidade capaci-
dos conteúdos procedimentais com os conteúdos atitudinais gera o saber e tar indivíduos para que tenham condições de disponibilizar, durante seu

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I
I
desempenho profissional, os atributos adquiridos na vida social, escolar,
pessoal, laboral, preparando-os para lidar com a incerteza, com a flexibi-
lidade e a rapidez na resolução de problemas.
O desenvolvimento de competências ganha espaço nas escolas por neces-
sidades do mercado e por exigência da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB), tornando-se o eixo do processo de ensino-aprendizagem. A
Lei focaliza a dimensão da competência quando diz que "não se limita ao co-
nhecer, vai mais além, porque envolve o agir numa determinada situação': As
competências são, assim, as habilidades, atitudes e os conhecimentos em uso.
A LDB explicita que alguém é competente quando "articula, mobiliza
valores, conhecimentos e habilidades para a resolução de problemas não só
rotineiros, mas também inusitados em seu campo de atuação': Assim, o in-
divíduo competente seria aquele que age com eficácia diante da incerteza,
utilizando a experiência acumulada, partindo para uma atuação transfor-
madora e criadora. As competências mobilizam habilidades, sendo ambas
classificadas e associadas a comportamentos observáveis. Daí a importância
de nosso benchmarking na escola de Mieza.
O conceito de competência, portanto, está ligado à sua finalidade, que
consiste em abordar e resolver situações complexas. Nesse contexto, o que
muda, na prática, é que as atividades de aprendizagem antes continham
apenas conteúdos conceituais; agora, necessariamente, deverão conter con-
teúdos procedimentais e atitudinais trabalhados metodologicamente numa
proposta relacional dos diferentes conteúdos, atividades de aprendizagem
e avaliação.

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