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UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA

MESTRADO EM PSICOLOGIA

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

A História Transgeracional Familiar e a Decisão de


Institucionalização do Idoso

Margarida de Fátima Serrão Couto

Porto, Dezembro de 2008


UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA
MESTRADO EM PSICOLOGIA DA SAÚDE

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

A História Transgeracional Familiar e a Decisão de


Institucionalização do Idoso

Margarida de Fátima Serrão Couto

Porto, Dezembro de 2008


A História Transgeracional Familiar e a Decisão de
Institucionalização do Idoso

Aluno: Margarida de Fátima Serrão Couto


Orientador: Professora Doutora Marta Matos

Dissertação apresentada à Universidade


Fernando Pessoa como parte dos requisitos
para obtenção de grau de Mestre em Psicologia
Resumo

O envelhecimento é um estado que provoca no seio das famílias um conjunto de


alterações que muitas das vezes se transformam em crises, quando a família não é capaz
de se adaptar à situação. Uma das formas que as famílias encontram para resolver o
problema é institucionalizar o idoso em lares.

O objectivo principal deste estudo foca-se na análise das vivências familiares ao longo
das várias gerações que possam estar na origem da decisão de institucionalização,
procurando estabelecer padrões e relações de causalidade, bem como descobrir as
influências que a história de vida de cada idoso tem sobre a sua personalidade, e as
repercussões que trazem ao nível familiar.

Para a realização do estudo escolheu-se a população residente num lar do centro da


cidade do Porto, constituída por um total de 12 elementos, seleccionados por
conveniência. Procedeu-se a um estudo qualitativo, baseado na recolha de dados através
de entrevista, sendo os resultados demonstrados através de estudos de caso e análise
dimensional, baseada na análise de conteúdo.

Os resultados encontrados apontam para uma relação clara entre a institucionalização e


um conjunto de disfuncionalidades que atravessam gerações na maior parte dos casos
estudados, verificando-se que são estas vivências familiares disfuncionais que estão na
base da decisão de institucionalização.

-V-
Abstract

The act of getting old generates sometimes amongst the families some changes that can
derive into crisis when the families are not able to adapt to the new situation. Very often
the families put their relatives into elderly institutions.

The aim of present study is to analyze family relationships across several generations
that can be constituted as the origin of the decision to institutionalize elderly people, and
try to find causality as well as repetition patterns. It is also important to show the
influences in the personality of each person’s life story, and it’s repercussions at the
family level.

The institution where the study takes place is located in the centre of Oporto, and 12
elements have been chosen, being this population selected by convenience. The
qualitative study was based in several interviews, and the results were presented using
case studies and multidimensional analysis based on content analysis.

The results indicate a clear connection between institutionalization and a number of


dysfunctional problems that cross generations in most cases, being those pathologies the
main causes for institutionalization.

- VI -
Résumé

Le vieillissement est une condition qui provoque au sein des familles un ensemble de
modifications qui souvent se transforment en crises, lorsque la famille n'est pas capable
de s'adapter à la situation. Pour résoudre le problème, les familles usent
l'institutionnalisation des personnes âgées dans les foyers.

L'objectif principal de cette étude se concentre sur l'étude de la psychopathologie de la


famille au long de plusieurs générations qui peut être la principale raison
d'institutionnaliser les personnes âgées. On cherche aussi à établir les caractéristiques et
les relations de causalité, et de découvrir les influences que chaque histoire de vie a sur
sa personnalité, et l'impact qu'elles apportent à la famille.

Pour l'étude on a choisi douze résidents dans un foyer localisé au centre de Porto,
sélectionnés par convenance. C'est une étude qualitative, fondée sur la collecte
d´informations décurrent d'entrevues et les résultats sont démontrés par des études de
cas et des études fondées en dimensions, qui sont basée sur l'analyse de contenu.

Les résultats trouvés indiquent clairement une relation entre l'institutionnalisation et un


certain nombre de problèmes de la famille qui traversent les générations dans la plupart
des cas étudiés, symptômes qui sont sous-jacents de la décision de placement en
institution.

- VII -
Agradecimentos

Os meus estudos de Psicologia têm sido feitos, já há alguns anos, nas horas restantes do
dia, roubando tempo ao descanso, às férias, à família e aos amigos. Nada teria sido
possível sem a ajuda e paciência de cada um destes grupos, a quem quero deixar aqui
expresso o meu profundo agradecimento.

Na execução do trabalho tive o privilégio de trabalhar de perto com a Doutora Marta


Matos, que tão sublimemente orientou todo o trabalho, e demonstrou toda a
disponibilidade para discutir, aconselhar e ajudar na descoberta dos trilhos certos e no
desenvencilhar das encruzilhadas a que cheguei.

Agradeço também à instituição onde foi desenvolvido o trabalho e às suas directoras,


Dr.ª Maria João e D.ª Augusta, que possibilitaram que este projecto se transformasse
numa realidade. Sem elas, nada teria sido possível.

Pela ajuda e compreensão não posso deixar de agradecer ao meu filho Eduardo, ao meu
marido Ricardo. Cristina, obrigada pela tua ajuda.

- VIII -
ÍNDICE GERAL

0. INTRODUÇÃO .............................................................................................13

PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1. O ENVELHECIMENTO...............................................................................16

1.1. Envelhecer em família ...................................................................................17


1.2. A família e o apoio emocional aos idosos ......................................................18
1.3. A família no estádio tardio da vida ...............................................................19

2. INSTITUCIONALIZAÇÃO..........................................................................20

2.1. Descriminação e abandono............................................................................21


2.2. Institucionalização – um mal necessário? .....................................................22
2.3. Falta de apoio às famílias que cuidam dos idosos.........................................22

3. A FAMÍLIA ...................................................................................................23

3.1. Mudanças de paradigmas da família e da sociedade....................................23


3.2. Caracterização da família..............................................................................25
3.2.1. O sistema familiar............................................................................................25
3.2.2. Subsistemas familiares.....................................................................................26
3.2.3. Interacção da família e da comunidade.............................................................28
3.3. Tipos de família..............................................................................................28
3.4. Ciclo da vida familiar ....................................................................................29

4. FAMÍLIA E DESENVOLVIMENTO...........................................................31

4.1. Desenvolvimento familiar..............................................................................31


4.1.1. Famílias aglutinadas e famílias desagregadas ...................................................31
4.1.2. Papéis dos membros da família ........................................................................32
4.1.3. Regras contribuem para o equilíbrio.................................................................32
4.1.4. Coesão familiar................................................................................................32
4.1.5. Delimitação da individualidade........................................................................33
4.1.6. Famílias centradas no passado ou no futuro......................................................33
4.1.7. Acontecimentos familiares alteram o curso da família......................................33
4.1.8. Acontecimentos socio-económicos condicionam o ambiente familiar...............34
4.2. A família como espaço de protecção da integridade pessoal ........................34
4.2.1. Afectividade ....................................................................................................35
4.2.2. Papel dos pais ..................................................................................................35
4.2.3. Complementaridade entre pai e mãe.................................................................36
4.2.4. A família burguesa...........................................................................................36
4.2.5. Subsistema fraternal.........................................................................................36
4.2.6. Triangulação....................................................................................................37
4.2.7. Complexo de Édipo .........................................................................................37

- IX -
4.3. Modelos de Intervenção em terapia familiar ................................................38
4.3.1. Perspectivas relacionadas com o modelo psicanalítico .....................................38
4.3.2. Perspectivas transgeracionais ...........................................................................39
4.4. Perspectiva estrutural de Salvador Minuchin ..............................................42

5. FAMÍLIA DISFUNCIONAL ........................................................................43

5.1. Família rígida.................................................................................................43


5.2. Importância das gerações passadas na família .............................................44
5.3. Famílias saudáveis vs disfuncionais ..............................................................45
5.4. Conflitos e perturbações ................................................................................45
5.4.1. Conflitos..........................................................................................................46
5.4.2. Crises familiares. .............................................................................................46
5.4.3. Ausência de pai................................................................................................47
5.4.4. Famílias monoparentais ...................................................................................48
5.4.5. Ausência da mãe..............................................................................................48
5.4.6. Conflitos pai-filho............................................................................................49
5.4.7. Instabilidade das díades conjugais....................................................................49
5.4.8. “Ninho vazio”..................................................................................................49
5.4.9. Segredo............................................................................................................49
5.4.10. Suicídio ...........................................................................................................50
5.4.11. Ciúme..............................................................................................................50

6. DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE .......................................51

6.1. Cultura e personalidade ................................................................................51


6.2. Experiências na infância – comportamento no futuro .................................51
6.3. Teoria psicossocial de Erikson ......................................................................52
6.4. Maslow e a teoria das necessidades humanas ...............................................52

PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO

7. METODOLOGIA..........................................................................................53

7.1. Problemática ..................................................................................................53


7.2. Participantes ..................................................................................................55
7.3. Material..........................................................................................................57
7.4. Procedimentos................................................................................................58
7.5. Localização do estudo ....................................................................................60
7.6. Observações gerais.........................................................................................61
7.7. Técnicas de análise de dados .........................................................................61

8. ESTUDOS DE CASO ....................................................................................63

8.1. Alcina .............................................................................................................63


8.1.1. Estrutura familiar .............................................................................................64
8.1.2. Relações familiares ..........................................................................................65
8.1.3. Relações sociais...............................................................................................70
8.1.4. Traços da personalidade...................................................................................71
8.1.5. Comportamento na entrevista...........................................................................72

-X-
8.2. Amândio .........................................................................................................73
8.2.1. Estrutura familiar .............................................................................................73
8.2.2. Relações familiares ..........................................................................................73
8.2.3. Relações sociais...............................................................................................78
8.2.4. Traços da personalidade...................................................................................78
8.2.5. Comportamento na entrevista...........................................................................79
8.3. Gorete.............................................................................................................79
8.3.1. Estrutura familiar .............................................................................................79
8.3.2. Relações familiares ..........................................................................................80
8.3.3. Relações sociais...............................................................................................83
8.3.4. Traços da personalidade...................................................................................84
8.3.5. Comportamento na entrevista...........................................................................84
8.4. Anunciação.....................................................................................................85
8.4.1. Estrutura familiar .............................................................................................85
8.4.2. Relações familiares ..........................................................................................85
8.4.3. Traços da personalidade...................................................................................89
8.4.4. Comportamento na entrevista...........................................................................90

9. HISTÓRIAS DE VIDA..................................................................................91

9.1. Laurinda.........................................................................................................91
9.2. Carolina..........................................................................................................92
9.3. Palmira ...........................................................................................................94
9.4. Clara...............................................................................................................95
9.5. Isabel ..............................................................................................................96
9.6. Miquelina .......................................................................................................97
9.7. Lucília.............................................................................................................98
9.8. Isabelinha .......................................................................................................99

10. ANÁLISE DIMENSIONAL ........................................................................101

10.1. Caracterização familiar...............................................................................101


10.2. Classificação familiar...................................................................................103
10.2.1. Análise segundo Barnhil (1979).....................................................................103
10.2.2. Análise segundo Fleck (1980)........................................................................110
10.3. Caracterização da proximidade ..................................................................119
10.4. Crises familiares ..........................................................................................120
10.5. Personalidade...............................................................................................124

11. ANÁLISE DE RESULTADOS....................................................................127

12. CONCLUSÃO..............................................................................................135

BIBLIOGRAFIA.....................................................................................................137

ANEXO I – TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTAS ..............................................142

ANEXO II – CONSENTIMENTO DE ENTREVISTA .........................................189

- XI -
ÍNDICE DE QUADROS

Quadro 1 – Caracterização Familiar (Família de Origem) ..........................................102


Quadro 2 - Caracterização Familiar (Família de Procriação)......................................102
Quadro 3 - Classificação Familiar (Família de Origem) .............................................104
Quadro 4 - Classificação Familiar (Família de Procriação) ........................................104
Quadro 5 – Processo de Identidade (Família de Origem) ...........................................105
Quadro 6 – Processo de Identidade (Família de Procriação).......................................106
Quadro 7 – Mudança (Família de Origem).................................................................107
Quadro 8 – Mudança (Família de Procriação)............................................................108
Quadro 9 – Processamento da Informação (Família de Origem) ................................109
Quadro 10 – Processamento da Informação (Família de Procriação)..........................109
Quadro 11 – Liderança (Família de Origem)..............................................................111
Quadro 12 – Liderança (Positivos e Negativos) (Família de Origem).........................112
Quadro 13 – Liderança (Positivos e Negativos) (Família de Procriação) ....................113
Quadro 14 – Liderança (Família de Procriação).........................................................113
Quadro 15 – Afectividade (Família de Origem) .........................................................114
Quadro 16 – Afectividade (Família de Procriação) ....................................................115
Quadro 17 – Comunicação (Família de Origem)........................................................117
Quadro 18 – Comunicação (Família de Procriação) ...................................................118
Quadro 19 – Proximidade (Família de Origem) .........................................................119
Quadro 20 – Proximidade (Família de Procriação).....................................................119
Quadro 21 – Crises Familiares...................................................................................121
Quadro 22 – Personalidade (Erickson, 1976) .............................................................125
Quadro 23 – Personalidade (Análise Individual)........................................................126

- XII -
0. INTRODUÇÃO

Há na sociedade ocidental uma cada vez maior tendência ao envelhecimento da


população, levando a pirâmides etárias desequilibradas, com um grande número de
pessoas idosas. Esta alteração da pirâmide deve-se sobretudo ao aumento gradual da
esperança de vida do ser humano. Devido ao desequilíbrio social gerado pelo
envelhecimento da população, as famílias cada vez têm mais dificuldade em garantir o
bem estar e o suporte aos idosos, principalmente quando não coabitam com eles, o que
leva a que a institucionalização seja cada vez mais procurada como forma de tentar
proporcionar esse suporte e garantir que o idoso é bem cuidado e tem um final de vida
com toda a dignidade. No entanto, parece também ser evidente que a decisão de
institucionalização não é fácil de tomar por parte dos familiares, e que tem como base
um conjunto de factores bastante diversos, que ultrapassam a simples componente de
estilo de vida ou incapacidade de tomar conta de idosos vulneráveis ou com fortes
dependências físicas e emocionais. Muitos desses factores aparentam ser de natureza
patológica, quer seja social ou familiar.

O problema descrito, motivo pelo qual se torna importante efectuar um estudo mais
aprofundado, coloca-se assim ao nível da identificação dos factores que contribuem
para a decisão da institucionalização dos idosos, e saber se estes são de uma única
natureza ou naturezas distintas. Parte-se para este estudo com a premissa de base que a
população escolhida é capaz de expor, devido à relação de confiança existente com a
investigadora, todos os problemas de natureza emocional e afectiva, sem relutância em
evidenciar quaisquer sinais patológicos ao nível social ou familiar.

Tendo como hipótese o facto de a decisão de institucionalização do idoso por parte dos
familiares se dever a um conjunto de pontos descritos pelas teorias da psicopatologia
familiar, parte-se para uma investigação que ultrapassa o simples preenchimento de
inquéritos e tratamentos estatísticos e quantitativos da informação e se foca
essencialmente no tratamento qualitativo e individualizado da informação obtida sobre
cada um dos idosos, procurando ir mais longe na interpretação de todos os sinais por
estes fornecidos, e ultrapassando a geração actual, para tentar encontrar nas gerações
familiares anteriores os factores psicopatológicos que possam estar na origem dos
problemas familiares existentes. Um dos pensamentos lógicos que leva a antever que a

- 13 -
componente psicopatológica tem influência na decisão de institucionalização prende-se
com o facto de a instituição onde se efectua a investigação ter padrões de tratamento
que tornam a institucionalização economicamente desvantajosa, devido aos valores
mensais cobrados, o que por si só justificaria a manutenção dos idosos nas suas próprias
casas, ainda que para isso fosse necessário ter um acompanhamento de serviços
profissionais 24 horas por dia. Este facto contraria um conjunto de teorias apresentadas
que referem como causa da institucionalização o estilo de vida da sociedade actual e a
componente economicista de todas as decisões familiares. Também ao nível da
bibliografia consultada é possível antever que a personalidade e o estilo de vida que as
pessoas desenvolvem no seu ciclo vital vai influenciar a sua velhice e vai mesmo estar
na base da transmissão de valores para os seus filhos e restantes familiares,
influenciando assim as atitudes muitas vezes tomadas por estes.

Assim, toda a investigação foi elaborada na essência de perceber que relações existiram
entre a família e o idoso, nos passados remoto e recente, que levam a que os idosos
fiquem isolados no lar, sem visitas por parte dos familiares directos. Para tal, centra-se o
trabalho na tentativa de descobrir soluções para este problema, procurando no passado
todo o tipo de acontecimentos, crises e conflitos, que se possam alinhar como uma
justificação para este problema.

Para enquadramento da investigação dentro do conjunto de outros estudos efectuados na


área, recorre-se a bibliografia já desenvolvida por outros autores, nomeadamente ao
nível de estudos do envelhecimento e apoio da família a este envelhecimento, causas e
factores que se encontram na base da institucionalização de idosos, bem como todo um
outro conjunto de autores que se focaram na componente da família e respectivas
patologias, tendo inclusivamente desenvolvido teorias sobre este aspecto e terapias para
ajudar a combater este problema. Recorre-se também a autores que se focam nas teorias
da personalidade, e todas as componentes que influenciam esta personalidade.

A metodologia utilizada ao longo do estudo assenta no método qualitativo, optando-se


por estudos de caso e análise dimensional baseada na análise de conteúdo, sendo a base
dos instrumentos de apresentação de resultados o conjunto de entrevistas efectuadas aos
idosos.

- 14 -
Consideram-se como objectivos primordiais deste estudo os seguintes:
• Identificar os factores ou sintomas de base familiar que estão na origem da
decisão de institucionalização dos idosos;
• Analisar os impactos dos sintomas disfuncionais de origem familiar na
personalidade dos idosos;
• Analisar do ponto de vista transgeracional a família de origem e de procriação
da população alvo do estudo;

A dissertação apresentada divide-se num conjunto de pontos que melhor permitem


aflorar o tema em questão e estudar em detalhe a problemática apresentada. Numa
primeira parte faz-se uma revisão da literatura assentando esta sobretudo nos temas do
envelhecimento e das teorias psicopatológicas que condicionam a história de vida dos
indivíduos ao longo de gerações. Parte-se de seguida para a explicação da metodologia
utilizada ao longo do estudo, sendo a terceira parte dedicada à apresentação e discussão
dos resultados obtidos. Divide-se esta última parte na apresentação de estudos de caso,
análise dimensional da informação obtida e discussão e interpretação dos resultados,
constituindo-se estes como os pontos fulcrais do estudo efectuado.

- 15 -
PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1. O ENVELHECIMENTO

Num processo normal de desenvolvimento, todo o ser humano passa por um conjunto
de etapas e, segundo Reis (1996), estas etapas constituem o ciclo vital sendo as
principais as seguintes: o crescimento, a maturidade e a velhice.

O envelhecimento é um processo gradual, que no seu estádio de desenvolvimento


normal traz um conjunto de problemáticas normais nesta idade, destacando-se
principalmente a solidão, no sentido em que há uma perda dos contactos familiares e
sociais. Imaginário (2004) refere que o processo de envelhecimento não se processa
sempre da mesma forma ou de uma forma brusca, mas sim paulatinamente, sendo que a
velhice se instala sem a pessoa se aperceber, havendo uma deterioração fisiológica do
organismo. Segundo esta mesma autora, envelhecer é transitar para uma nova etapa,
devendo esta ser vivida de uma forma mais positiva, saudável e feliz.

O envelhecimento é uma fase da vida em que existem muitas mudanças, desde o nível
biológico, psicológico e social, logo exige da pessoa um esforço muito grande para se
adaptar a esta nova etapa da sua vida. É nesta fase que as pessoas sentem mais
insegurança e angústia, pois sentem que o fim está próximo. Deixar de fazer aquilo que
até agora faziam vai fazer com que a pessoa se torne mais vulnerável perante as
dificuldades da vida e a pessoa idosa começa a entrar num ciclo vicioso: isolamento, e
desconfiança em relação ao meio. Este sentimento de fragilidade explica que a pessoa
de idade, face a problemas e situações de mudança, que anteriormente eram encaradas
sem angústias, pode sentir-se incapaz de os resolver. Todos estes sentimentos vão
provocar um “stress” de origem interna e externa, que é o caso da mudança, criando
assim uma fragilidade psicoafectiva e um sentimento de vulnerabilidade particularmente
intensa. Se houver uma adaptação às novas condições de vida, vai fazer com que haja
um equilíbrio e um bem estar psicológico. Mas esta adaptação é muito complicada
devido a mudanças corporais, psicológicas, familiares e socioprofissionais (Cordeiro,
1982).

- 16 -
Também Imaginário (2004) diz que a principal característica do envelhecimento é a
diminuição da capacidade de adaptação do organismo face às alterações do meio
ambiente, levando a desequilíbrios homeostáticos, ocorrendo também alterações que
condicionam a mudança da própria personalidade.

O idoso rejeitado pela sociedade vai sofrer de insegurança, envolve-se de medos, com
pressentimentos mórbidos, acabando por adquirir comportamentos narcísicos de
isolamento, padecendo de solidão e acabando por se deprimir. (Imaginário, 2004)

1.1. Envelhecer em família

Os idosos que necessitam de ajuda procuram em primeira instância o seu cônjuge. Na


ausência deste procuram os seus filhos, optando em primeiro lugar pelas filhas
(Imaginário, 2004).

A família é o contexto desejado para envelhecer, constituindo-se como um lugar de


aconchego, segurança, identidade e lembranças. Mesmo que as relações se tornem por
vezes difíceis e os conflitos emergentes, a família é sempre o lugar preferencial da
pessoa. A velhice é na família o entrecruzar de todas as imagens que cada geração, o
confronto com o próprio envelhecimento e com a vivência da velhice dos parentes
idosos. Esta riqueza vivencial e cheia de interacções confronta-se com problemas muito
concretos, como ver o idoso a perder as suas capacidades físicas e mentais. Aqui a
família pensa muitas vezes no recurso a uma institucionalização (Sousa, Figueiredo &
Cerqueira, 2004).

É natural que o idoso, principalmente quando necessita de ajuda, vá alterar de algum


modo a esfera familiar, a individualidade das pessoas, a autonomia de todos os
elementos, podendo mesmo alterar projectos de vida. Mas tem de se pensar que o apoio
ao idoso é imprescindível ao seu equilíbrio biopsicossocial pois a família, como
instituição, tem como uma das suas funções a de propiciar um envelhecimento útil.
(Imaginário, 2004).

Nem sempre o envelhecimento em família é a fórmula escolhida por uma parte das
pessoas, havendo várias razões que levam às alterações de modos de vida passados, em
que os seniores eram acolhidos no seio da família até à sua morte. Pimentel (2005)
refere que se vive no seio de uma sociedade que é caracterizada pela globalização em

- 17 -
que as pessoas cada vez vivem mais individualmente, tendo opções despersonalizadas.
A procura de uma vida melhor, com cargos mais elevados, procura de bens materiais e
ascensão profissional, levam a um crescente envolvimento em actividades e afastam as
pessoas dos contactos afectivos. Quando os idosos se tornam de alguma forma
dependentes é muito difícil existir um equilíbrio nas interacções com a família, mas
segundo esta autora na maioria da vezes a família reorganiza-se para assumir as
condições que considera da sua obrigação, retribuindo o sacrifício dos pais.

A família actual regista-se com uma redução progressiva de dimensões de agregado


doméstico, declínio da natalidade, mais divórcios, uniões livres e crescimento do
número de nascimentos fora do casamento. Todos estes fenómenos associados à
esperança média de vida leva a modificações drásticas das relações familiares (Carter &
Mcgoldrick, 1989; Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004). Para Pimentel (2005), falar
em família é falar de uma rede alargada de parentes em que os idosos têm trocas mais
ou menos intensas. Aqui os parentes são todos aqueles que estão relacionados com o
idoso por laços de sangue, aliança ou afectividade próxima, tais como os afilhados.

Aponta ainda Pimentel (2005) que as famílias modernas vivem cada vez mais no
isolamento, em que os jovens se afastam geográfica e socialmente das suas redes de
parentesco. A industrialização fragmenta a família reduzida aos pais e filhos. A
mobilidade social passa pela ruptura de laços familiares mais extensos.

Um outro ponto parece ser a capacidade de estabelecer relações fortes entre os


familiares. Pimentel (2005) cita vários autores tais como Segalen (1981) e
Coenen-Huther (1994) que afirmam que as relações afectivas são geralmente mais
fortes de pais para filhos do que de filhos para pais.

Há no entanto uma conclusão de Finch (1989) que refere que os filhos reconhecem
normalmente que têm o dever de apoiar os pais. É uma obrigação e um dever de amor e
afecto, no entanto nem todas as pessoas se envolvem desinteressadamente, entrando
muitas vezes em jogos de interesses pessoais, tais como heranças.

1.2. A família e o apoio emocional aos idosos

Para Imaginário(2004) a família é o primeiro e o principal grupo de apoio emocional


que serve de suporte ao indivíduo. Minuchin (1990) afirma que as funções da família

- 18 -
permitem libertar a pessoa do isolamento, da solidão e do anonimato do mundo, sendo
uma das suas principais funções a de apoiar os seus membros.

Imaginário (2004) refere que a contribuição da família para o grupo etário dos idosos é
tão importante que se defende a nível mundial que nenhuma instituição é capaz de
substituir a família na prestação deste apoio, independentemente de todas as condições
que estas instituições possam oferecer.

1.3. A família no estádio tardio da vida

Carter e Mcgoldrik (1989) questionam-se sobre o facto de parecer haver poucas visões
que forneçam perspectivas positivas para um ajustamento sadio na terceira idade, seja
dentro da família ou mesmo no contexto social. Segundo este autor, prevalecem as
opiniões pessimistas de que os idosos não têm família e que aqueles que a têm sentem
que esta não lhes dá muita atenção. No entanto, é um facto que a maioria das pessoas
com mais de sessenta e cinco anos não vive sozinha, mas com outros elementos da
família.

Carter e Mcgoldrik (1989) apontam que há uma grande dificuldade em fazer grandes
modificações nesta fase da vida, fazendo com que o idoso desista de alguns dos seus
poderes, como se fosse fazer uma sucessão. A incapacidade de modificar o estado das
coisas aparece também quando os adultos mais velhos desistem e se tornam totalmente
dependentes da geração seguinte.

- 19 -
2. INSTITUCIONALIZAÇÃO

Para Paul (1997), quando o idoso se torna dependente, tanto a nível físico, como
psicológico, a manutenção dos idosos nas suas casa gera frequentemente problemas de
stress, de saúde mental e física em quem cuida deles e em toda a família. Desta forma o
número de idosos nas instituições tem vindo a aumentar. No caso de Portugal, verifica-
se que cerca de 33% dos utente ligados á segurança social são idosos e 12 % encontram-
se em lares, 11% em apoio domiciliário e 10% encontram-se em centros de dia
(INE, 2001). Mas como refere Pimentel (2005), ainda vivem muitos idosos junto das
suas famílias. No entanto, a procura de lares tem vindo a crescer e a lista de espera é
cada vez mais elevada.

Segundo Henderman (2000), os idosos são grupos de indivíduos que apresentam níveis
de aptidão mais baixos quando comparados com outros grupos de idades. Os que vivem
em instituições têm níveis de actividade física significativamente mais baixos. Quando
vivem em comunidade, para além de serem responsáveis por algumas actividades
domésticas, mantêm-se activos por mais tempo.

Pimentel (2005) aponta que há uma preocupação de não recorrer à institucionalização,


quer por parte do idosos, quer por parte dos familiares, pois existe uma opinião
depreciativa em relação às instituições, sendo estas usadas como último recurso. Pode
não haver outra solução, pois o idoso não pode ficar isolado em casa correndo bastantes
riscos tais como quedas, assaltos, maus tratos, má alimentação etc. Noutras
circunstâncias, simplesmente é institucionalizado não se sabendo a realidade da
situação. Mas, como refere Pimentel (2005), a posição da família acerca de deixar o
idoso no lar muitas vezes é de muito sofrimento, pois ficam com o peso na consciência,
sentindo-se culpados de abandono do idoso à sua sorte e de desresponsabilização pelo
cuidar da pessoa.

Pimentel (2005) afirma que a permanência do idoso no seio familiar é a melhor


situação, pois vive de uma forma equilibrada e sem graves descontinuidades. O apoio da
família, dos amigos, dos vizinhos é um apoio adequado a qualquer pessoa. No entanto,
pelas razões já referidas, o mesmo autor conclui que o recurso aos lares é cada vez mais
frequente, apesar de estes terem conotações e imagens negativas, sendo raras as pessoas
que vão por iniciativa própria para o lar. Já Hespanha (1993) afirma que o recurso a

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instituições só não é maior porque os filhos não colocam os pais no lar por vergonha
dos vizinhos ou então para dar exemplos aos filhos.

A relutância na aceitação da institucionalização por parte dos idosos prende-se com


diversos factores. A pessoa idosa vê o lar como para um lugar sem retorno, implicando
a quebra com um conjunto de actividades exercidas previamente (Pimentel, 2005).
Segundo Drulle (1981) esta situação representa para os idosos a exclusão, abandono,
sofrimento e a morte. São afastadas dos seus familiares e amigos.

Sobre a institucionalização, há um mito que Carter e Mcgoldrik (1989) salientaram,


sendo este o de que nem todos os idosos são doentes, frágeis e senis sendo por isso
empurrados para um lar, pois somente 4% dos idosos vivem em lares. Existe um
conjunto de acontecimento que surgem na vida do idoso como a reforma, a ida para
casa dos filhos, a insegurança e a dependência financeira. A perda de amigos e colegas
de trabalho, a perda de cônjuge são ajustamentos difíceis, mas ao contrário a condição
de avós pode proporcionar um renovado interesse pela vida, e a oportunidade de
relacionamentos íntimos especiais, sem responsabilidades maternas.

2.1. Descriminação e abandono

Pimentel (2005) diz que o ser humano é descriminado por ter idade avançada, o que vai
implicar no homem um tipo de violência e de desvalorização do seu papel na sociedade.
Olha-se para os idosos todos de uma forma igual, esquecendo que cada um tem a sua
vivência e a sua personalidade.

Para Imaginário (2004), o abandono pode ser feito de várias formas, não só pela
distância física mas também pelo facto de ser afastado do convívio, podendo gerar
situações de isolamento. Esta situação vai levar a que o idoso deixe de se relacionar e
incorpore nele próprio uma imagem de inutilidade, estando associada à marginalização.

Cowdry (1962) diz que a família é o mais importante grupo social e ocupa um papel
fulcral no processo de envelhecimento, visto ser vital para o idoso que esta lhe dê a
necessária segurança económica, psicossocial, emocional e todas as formas de apoio
que as suas limitações lhe impõem. No entanto, o apoio familiar é cada vez menor e os
idosos são obrigados a sair do ambiente familiar para lares, centros de dia e outros
locais, que não representam o seu ideal de vida, no seu mundo.

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Sequeira e Ferreira (2006) apontam que num mundo dito civilizado, os idosos são
descriminados, e o seu lugar no seio da família é cada vez menor. Logo, o recurso ao lar
é uma consequência e não uma opção. A sociedade criou uma imagem negativa dos
idosos que contribuiu também para o auto-conceito e a auto-estima que estes tem de si
mesmos. O envelhecimento é inevitável no ciclo vital, mas este processo pode
desencadear-se de uma forma harmoniosa, se for em conjunto e partilha.

2.2. Institucionalização – um mal necessário?

Segundo Pimentel (2005), com o avançar dos tempos e com os avanços da tecnologia, e
melhores condições de vida, a esperança média de vida foi aumentando logo houve uma
grande necessidade de aparecimento de instituições que tomassem conta dos idosos.
Como refere Pimentel (2005), muitas vezes o idoso é internado mesmo tendo condições
para viver em sua casa, mas como fica menos protegido, a família interna-o no lar para
o proteger do isolamento e poder inseri-lo numa nova comunidade e lutar contra o risco
de exclusão.

Pimentel (2005) cita Laseman e Martin que apontam que a maior parte das instituições
são meras prestadoras de cuidados, esquecendo-se da parte social e humanizante de
cada indivíduo. No entanto, nota-se que algumas instituições já estão a ter esse cuidado,
havendo uma tentativa de criação de estratégias para uma maior proximidade no sentido
de facilitar o quotidiano dos idosos e dos seus familiares.

2.3. Falta de apoio às famílias que cuidam dos idosos

Pimentel (2005) aponta ainda que as famílias que cuidam dos idosos em suas casas não
recebem os apoios ou reconhecimento por parte do Estado, não lhe sendo reconhecidos
direitos de ausência ao trabalho para suporte ao idoso doente, ou quaisquer tipos de
benefícios fiscais, apesar da poupança que uma opção deste tipo representa para o
Estado.

Segundo Pimentel (2005), a família, ao escolher um lar, tem de avaliar bem as


condições pois estes muitas vezes não apresentam condições mínimas para a dignidade
humana. Este autor afirma que este facto se deve a uma grande procura e pouca oferta,
havendo assim um agravamento da situação dos idosos no lar.

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3. A FAMÍLIA

A família no seu termo lato, pode ser entendida como um conjunto de indivíduos que
compartilham um conjunto de responsabilidades e capacidades sociais, partilhando toda
uma vivência de cada ser individual, existindo uma grande cumplicidade entre todos os
seus constituintes. Qualquer ocorrência social que afecte um dado indivíduo da família
reflecte-se na vivência do conjunto de todos os elementos, devido à relação de
homeostasia existente.

O conceito de família não é um conceito único e universal, independente da época e da


cultura, tal como referido por Gimeno (2001). Ainda segundo a mesma autora, citando
Maxler e Fishler (1978), o conceito de família vai mudando de geração para geração,
estando dependente da história genealógica de cada família, em que esta condiciona o
conceito familiar da geração seguinte e das gerações vindouras. Esta história
genealógica é deveras importante no que concerne à compreensão da família como um
todo e das potenciais patologias existentes, possibilitando uma análise completa para
posterior terapêutica.

Segundo Minuchin e Fishman (2003) a família é um grupo natural que vai


desenvolvendo padrões de interacção ao longo dos tempos. Esses padrões formam a
estrutura familiar que por sua vez governa o funcionamento dos membros da família.
Na família, o ser humano interage com outras unidades que vão influenciando o seu
comportamento e ao mesmo tempo o comportamento dos outros indivíduos. Esta
interacção, por vezes, pode ser proibida na família e pode trazer consequências de
transgressão que podem levar a componentes afectivos como a culpa e a ansiedade.

3.1. Mudanças de paradigmas da família e da sociedade

As pessoas estão cada vez mais empenhadas no seu trabalho e as crianças e os idosos
crescem e vivem em locais colectivos que lhes são impostos com poucas ligações ao
ambiente familiar (Cabral, 1994).

Na actualidade, como afirma Imaginário (2004), a família preocupa-se mais na tentativa


de satisfazer as suas necessidades subjectivas e emotivas do que na função afectiva. As
relações familiares da actualidade baseiam-se mais na satisfação do que na assistência

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recíproca. A família deveria ter em conta a coesão, cooperação, solidariedade e
comunhão de iterações.

Sampaio e Gameiro (2004) apontam as mudanças cada vez maiores na sociedade


ocidental, em que há uma tendência cada vez mais acentuada da família nuclear
tradicional (marido, mulher e filhos) sofrer desmembramentos. Com o aumento da taxa
de divórcios, mulheres que vivem sozinhas, o outras que nunca casaram e tiveram
filhos, são famílias consideradas por este autor como atípicas. Cada vez mais a mulher
trabalha fora de casa, logo as crianças têm de ficar em creches desde muito pequenas, e
os idosos entregues a lares ou centros de dia.

No passado as famílias tinham estrutura múltipla, várias gerações viviam juntas sob a
autoridade do chefe de família. Havia uma protecção de todos e uma reciprocidade no
auxilio nos diversos momentos da vida. Na sociedade contemporânea devido à
industrialização houve uma necessidade de aparecer a família nuclear. (Imaginário,
2004)

A família actual sofreu um conjunto de mutações: há um controle da natalidade,


aumento da esperança média de vida, a inserção da mulher no trabalho, expansão da
civilização urbana levando a um distanciamento afectivo implicando novas vicissitudes
no ciclo vital da família (Imaginário, 2004; Pimentel, 2005)

Com a actual mudança da sociedade foram abandonadas muitas das responsabilidades


que eram da família, existindo agora instituições privadas e públicas que substituem a
família. Mas é na família que se nasce que se partilha o compromisso, a estima, a
comunicação o convívio a plenitude espiritual e a capacidade de enfrentar das tensões e
as crises. (Imaginário, 2004)

Para Gimeno (2001) e Pimentel (2005), a industrialização fez com que as pessoas
abandonassem os seus locais de origem e permanecessem perto dos locais de trabalho.
Houve um acréscimo da importância da família nuclear em detrimento da antiga família
patriarcal. Passou-se de uma unidade económica para uma unidade de consumo a que se
associou a progressiva e imparável integração da mulher no mercado de trabalho.
Simultaneamente, a sociedade toma consciência em relação aos direitos humanos com
base na igualdade das pessoas. Todos estes factos levaram a uma mudança social e
familiar, provocando alterações de base em relação ao modelo de família, destacando-se

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as seguintes alterações: redução do número de descendentes por família; atraso na idade
de contrair matrimónio; atraso na idade da maternidade; alteração da valorização da
sexualidade; redução da influência das normas religiosas; maior existência de mães
solteiras; a legalização do divórcio; grande aumento das famílias mistas ou
reconstruídas.
Perante este cenário, existem famílias que não se adaptam e surgem conflitos e crises
sendo preciso que a sociedade, os amigos, os vizinhos e mesmo a família aumentem o
nível de tolerância face às decisões que cada família tem de assumir para superar as suas
crises ou para se adaptar às exigências dos seus membros (Gimeno, 2001).

3.2. Caracterização da família

Segundo Guzman (1974), família é uma constituição de vários indivíduos que


compartilham um conjunto vasto de situações, podendo estas ser sociais, económicas,
afectivas, culturais e históricas. Pode ser entendida como uma unidade. Sampaio e
Gameiro (1998) incluem na definição de família a componente geracional, alargando-a
a pelo menos três gerações. No entanto, alargam o conceito a elementos não ligados por
traços biológicos mas que são significativos do ponto de vista da relação emocional,
podendo assim distinguir a família tradicional (pais e filhos), a família extensa (família
alargada com várias gerações), e a família de elementos significativos (amigos,
vizinhos, professores, etc.).

As definições de Guzman (1974) e de Sampaio e Gameiro (1998) tocam-se na ideia de


partilha entre os indivíduos. Não está no entanto claro que Sampaio e Gameiro (1998)
incluam no seu conceito um grupo de indivíduos sem quaisquer traços genéticos
comuns, mas que partilham toda uma vivência de natureza emocional ou outras. A
componente geracional está sempre bem presente para estes autores.

3.2.1. O sistema familiar

Sendo um sistema aberto, a família tem o conjunto de características de todos os


sistemas abertos. Como refere Gimeno (2001), a família tem um conjunto determinado
de objectivos, e todo o seu desempenho é condicionado por esses objectivos. Sendo um
sistema aberto, é permeável às influências do exterior, sendo capaz de reagir e interagir
com outros sistemas. Possui ainda a capacidade de auto-controlo, permitindo-se a

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definição de um conjunto de regras que possibilitem a adaptação a novas realidades. A
família é um conjunto de vários componentes discretos, sendo as suas características o
somatório das características individuais de cada elemento. Por outro lado, cada um
desses elementos tem uma maior ou menor capacidade para exercer uma influência
preponderante sobre outros elementos, podendo condicionar a personalidade do
conjunto.

Numa crise, tal como um suicídio ou um adultério, a família sofre ajustes que podem ser
adoptados ou não pelos indivíduos ou pela família. Segundo Christie-Seely (1986),
pode-se pensar em cada elemento da família como um órgão, como se fizesse parte de
um conjunto de órgãos (corpo), que se interrelacionam através de mecanismos de
retroacção (positiva, negativa), mantendo-se assim um estado de homeostasia ou de
saúde. Se por alguma razão uma parte é isolada do todo a que pertence, o diagnóstico e
o tratamento são falíveis.

Uma qualquer alteração repentina e inesperada à estrutura familiar, pode levar a um


completo desmembramento da família tal como existe até então, levando a uma
adaptação e alteração das características dessa mesma família. Gimeno (2001) apresenta
como exemplo a morte de um filho. A partir deste acontecimento, a família, tal como
existia até então, com as suas crenças e os seus costumes, morre também, dando origem
a uma nova família, em que todos os seus membros são afectados e alteram de alguma
formas as suas rotinas, hábitos, formas de ser e de pensar, bem como os papéis até aí
desempenhados, observando-se muitas das vezes a predominância de um irmão como
protector da família, podendo mesmo vir a tornar-se no elemento dominante.

3.2.2. Subsistemas familiares

Minushin e Fishman (1990) reflectem sobre o sistema familiar e os seus subsistemas ou


halos, em que cada indivíduo constitui um deles. As díades (ex: marido e mulher)
constituem também subsistemas da família, com características próprias. Subgrupos
mais amplos são formados por gerações (subsistemas de irmãos). Cada indivíduo do
grupo familiar desempenha um determinado papel, com funções distintas e bem
definidas. O filho deve agir como criança no sistema parental para que o pai possa agir
como adulto. Qualquer alteração a estas regras pode significar a disfuncionalidade da
família como um todo.

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O subsistema conjugal constitui a referência base de cada criança fruto da relação,
sendo a forma ideal de demonstrar o afecto, de demonstrar como se relacionar com um
parceiro sem dificuldades, e de como lidar com o conflito entre iguais, levando à
preparação de cada descendente para o mundo exterior, através da imposição e
transferência dos seus valores morais e afectivos. Qualquer disfunção neste subsistema
poderá repercutir-se em toda a família, e, em situações patogénicas, uma criança pode
ser bode expiatório e coligar-se numa aliança com um dos cônjuges, contra o outro
(Christie-Seely, 1986).

O subsistema parental é constituído pelos pais e seus filhos. As transacções mais


importantes neste subsistema são a transmissão da educação e respeito de pais para
filhos. A criança apreende um conjunto de características importantes existentes nos
seus pais, incluindo a noção de respeito e obediência. Apreende anda um conjunto de
regras que lhe permitem lidar com outras pessoas, incluindo técnicas de negociação e
como lidar com o conflito. Muitas das vezes, o subsistema parental pode estar
deslocado, podendo incluir outros membros da família ou membros externos (ex. avô e
tia) e/ou excluir amplamente um dos pais. À medida que o crescimento da criança se
torna evidente, o subsistema parental tende a modificar-se amplamente, adaptando-se à
nova situação e capacidades dos filhos. Os adultos têm uma grande responsabilidade
neste subsistema, sendo os responsáveis por socializar e proteger os filhos. Por outro
lado, têm o direito de tomar um conjunto de decisões que protejam a criança, mas ao
mesmo tempo não poderão deixar que o subsistema parental interfira com o subsistema
conjugal, podendo neste caso causar graves perturbações no funcionamento familiar. É
comum, com o nascimento de uma criança, assistir ao desmembramento progressivo do
subsistema conjugal e consequentemente de toda a família (Christie-Seely, 1986;
Minuchin & Fishman, 2003).

Com o aparecimento de várias crianças na família rapidamente se constata a existência


de um terceiro subsistema entre os irmãos, designado de subsistema fraternal, em que as
crianças se apoiam mutuamente, divertem-se, e atacam-se. Com esta relação,
conseguem desenvolver capacidades de cooperação e competição, ao mesmo tempo que
desenvolvem as capacidades de fazer amigos e lidar com inimigos. Em famílias com um
único filho, este subsistema não existe, podendo por vezes ser substituído por uma
relação com um amigo ou outra criança. No entanto, a inexistência deste subsistema
pode explicar um conjunto de disfunções, principalmente ao nível da criança, mas que
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afectam a família como um todo. Por outro lado, a inexistência deste subsistema
sobrecarrega o subsistema parental com um conjunto de funcionalidades que não lhe
são características e que por vezes são antagónicas. O segredo, que é característico
numa relação fraternal, pode não se coadunar com a responsabilidade de educar, ou seja
na relação paternal (Christie-Seely, 1986).

Minuchin e Fishman (2003) referem ainda o halo individual, como sendo a categoria de
não família, em que se inclui o adulto solteiro sem vínculo. Há uma ideologia
individualista. Este tipo de halo incorpora o Self no contexto. A família é a unidade, o
individuo como halo dessa unidade. Neste sentido o individuo estará mais ligado aos
grupo de amigos, ao seu trabalho, aos seus companheiros do que com a sua família de
origem.

3.2.3. Interacção da família e da comunidade

O grupo familiar não é um sistema fechado, interagindo e evoluindo ao longo da


dimensão temporal, mas mantendo um conjunto de valores impostos ou adquiridos da
vivência em sociedade. Apesar da evolução constante, há tendência a ser mantida uma
identidade, o que transforma cada grupo familiar num grupo único e distinto. Cada
grupo interage com outros sistemas, constituindo assim factores de transformação das
famílias (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004).

3.3. Tipos de família

As famílias não são todas iguais nas suas características o que levou os diversos autores
a tipificarem cada grupo. Neste sentido, Gimeno (2001) adoptou a sua caracterização de
acordo vários aspectos: segundo os laços biológicos, a família pode ser nuclear,
alargada, de origem e de procriação; segundo os vínculos familiares psicossociológicos,
pode-se distinguir entre família adoptiva e família educadora; em relação à estrutura,
pode-se falar em família nuclear intacta, monoparental e reconstituída.

A família nuclear tem vindo a sofrer alterações significativas ao longo dos tempos,
principalmente na modernidade. Este modelo, predominante na cultura ocidental, inclui
os residentes no mesmo tecto de uma família, normalmente pais e filhos, não incluindo
todo o conjunto de outros graus de parentesco, como avós ou tios não residentes. Este
conjunto, que inclui os elementos não residentes mas com os quais há, de alguma forma,
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uma relação de proximidade, designa-se por família alargada. Distingue-se ainda a
família de origem da família da procriação. A primeira refere-se à família de
nascimento, i.e., de consanguinidade, enquanto que a segunda se aplica à família
constituída normalmente após a união conjugal, que é constituída pelo casal e seus
filhos (Gimeno, 2001)

Quanto à estrutura, Gimeno (2001) refere a família nuclear intacta, constituída por todos
os elementos de núcleo (pais e filhos). Esta constitui a família considerada normal, em
que não ocorreram mutações de perfil sociológico. As famílias monoparentais e
reconstruídas são mutações da família nuclear básica. São cada vez mais frequentes nos
tempos de hoje, e são estrutura em que poderá haver alguma confusão na determinação
dos seus limites. Colin (1986) caracteriza a família monoparental como um grupo
caracterizado por ter apenas uma pessoa como líder, com filhos a cargo. Pode ocorrer
pela morte de um dos cônjuges, pelo divórcio, ou pela existência de mães solteiras. O
mesmo autor refere-se ainda às famílias recompostas como resultado do divórcio do
casal e posterior união ou casamento com outros elementos.

Para Sampaio e Gameiro (2004), a família é um conjunto de elementos que estão


ligados entre si, correspondendo pelo menos a três gerações mas não só, fazem parte da
família elementos sem traços biológicos mas que de alguma forma são importantes a
nível relacional:
• Família nuclear tradicional de pais e filhos;
• Família extensas família alargada com várias gerações;
• De elementos significativos amigos, professores, vizinhos.

3.4. Ciclo da vida familiar

A história da família é um reflexo da evolução de cada um dos ciclos das gerações que a
compõem. A existência de uma família é condicionada por toda uma vivência passada,
não surgindo do nada. É um conjunto de vivências e acontecimentos que vão ocorrendo
de geração em geração, sendo a síntese das histórias dos dois elementos nucleares do
casal.

O ciclo de vida familiar pode ser entendido como a evolução temporal de uma
determinada família, desde a sua constituição até às gerações seguintes, e que permite

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muitas das vezes conhecer os factores diferenciadores que podem constituir a base da
formação da personalidade. Gimeno (2001) centra a sua análise na divisão do ciclo de
vida em três perspectivas: tempo, acontecimentos e comparações intrafamiliares, em
que pode haver repetições ou coincidências de acontecimentos de gerações para
gerações, que condicionam o estado de mudança de cada geração.

Sousa, Figueiredo e Cerqueira (2004) dividem o ciclo da vida por estádios, havendo
uma transição entre os vários estádios quando alguém entra ou sai da família, adoptando
a classificação de Carter e MkGoldrick (1989) que reflecte essas modificações. Apesar
das diferenças de classificação entre os autores citados, há um ponto em comum, que é a
evolução etápica, em que o factor determinante para a transição entre etapas é a
alteração da composição familiar, sendo a entrada ou saída de membros as causas mais
comuns.

O tempo, considerado como um dos factores dominantes ao longo do ciclo de vida,


condiciona o presente e o futuro. Há uma relação muito forte entre a história familiar
passada e a personalidade actual de cada família. No entanto, esta herança não é
consciente, sendo antes uma herança implícita (Sampaio & Gameiro, 2004).

O problema está interligado a determinado momento da vida da família. Por isso é


necessário situar em que pontos se está do ciclo vital da família em questão. O ciclo é
constituído pelos momentos mais significativos da vida familiar onde existem pontos de
instabilidade, correspondentes a mudanças na organização da família, por si só
geradoras de desequilíbrios momentâneos a que a família tem de dar resposta, de modo
a atingir uma nova organização. Muitas vezes, a morte da mãe, ou a doença do pai
criam novas dificuldades a que é difícil dar resposta (Sampaio & Gameiro, 2004).

As famílias passam ao longo do ciclo vital por crises regulares no seu processo de
desenvolvimento. Sampaio e Gameiro (2004) referem Hoffman (1994) dizendo que há
uma maior ou menor grau de capacidade de gerir novas estruturas organizativas e novos
modos de funcionamento relacionados com o ciclo de vida.

Para Sampaio e Gameiro (2004), a família tradicional ocidental, tem várias fases no seu
ciclo vital, começando na união de dois elementos e passando por: nascimento dos
filhos, educação e crescimento dos filhos, adolescência e saída de casa dos filhos, casal
está de novo só, e terminando com a velhice e morte.

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4. FAMÍLIA E DESENVOLVIMENTO

Gimeno (2001) aponta o facto de muitas famílias viverem prisioneiras de um sistema


familiar que as controla e dirige, que lhes provoca insatisfação. Muitas pessoas
lamentam-se das suas relações familiares, do seu presente e do seu passado, mas mesmo
assim ficam escleróticas pelos seus efeitos, estancadas quanto ao seu progresso,
incapazes de enfrentar a sua realidade ou de se esforçarem para mudar, mesmo quando
essa mudança possa traduzir-se em encontrar a solução ou recuperar a esperança. Para
este autor quando se quer ter uma melhor qualidade de vida não significa
obrigatoriamente que terão de manter relações familiares a todo o custo, baseadas em
estruturas familiares que não funcionam. A solução só pode partir das perspectivas
individuais, das relações recíprocas e dos projectos individuais que vão fazer com que
se possa unir os seus elementos com afecto mútuo e com a aliciante da concretização
dos seus anseios.

4.1. Desenvolvimento familiar

O contexto de surgimento da terapia familiar está sempre interligado com o conceito de


disfuncionalidade. Segundo os conceitos teóricos anteriormente apresentados, torna-se
clara a definição de família como um sistema aberto, que sofre influências do meio
externo e que é composta por subsistemas complexos. Como qualquer sistema deverá
ter a capacidade de autocontrolo. Será no momento em que a capacidade de
autocontrolo se encontra reduzida que surgem as disfuncionalidades e a necessidade de
recorrer a um acompanhamento externo, designado por terapia familiar.

Minuchin (1974) considera que o sistema familiar está subdividido por subsistemas: por
exemplo distingue o subsistema parental do subsistema filial. Nas famílias disfuncionais
existe uma frequente alteração dos limites, como é o caso da criança que toma o papel
do pai e assume a responsabilidade face aos seus irmãos, responsabilidade essa que está
normalmente associada ao papel que os pais terão de desempenhar dentro da família.

4.1.1. Famílias aglutinadas e famílias desagregadas

Segundo Minuchin (1974), as famílias aglutinadas não permitem a existência de um


espaço que desenvolva a individualidade de cada membro, enquanto que as famílias

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desagregadas têm um individualismo excessivo, não permitindo qualquer tipo de
afectividade, afastando assim o conjunto familiar.

4.1.2. Papéis dos membros da família

Cada membro da família deverá desempenhar um determinado papel, predefinido quer


pelos outros membros quer pela sociedade. Quando esse papel se altera e entra em
conflito directo com outro membro da família, o equilíbrio homeostático da família
sofre mutações, podendo mesmo desaparecer e dar origem a sintomas de
disfuncionalidade. Numa família disfuncional, muitas das regras aparecem implícitas,
assumindo mesmo o carácter de “Mitos” (uma família que não discute) ou “segredos”
(suicídio de um familiar). As regras explicitas são em menor número (Tavares, 1995).

4.1.3. Regras contribuem para o equilíbrio

Algumas regras, implícitas ou explícitas, contribuem para o equilíbrio do sistema


familiar. Quando algumas delas são quebradas, podem contribuir para a ruptura do
sistema. As regras variam de família para família, e o entendimento que cada membro
tem sobre elas pode alterar completamente o seu grau de importância e necessidade do
seu cumprimento (Minuchin & Fishman, 2003).

4.1.4. Coesão familiar

Gimeno (2001) aponta que a coesão diz respeito ao grau de proximidade que os
membros da família têm entre si. Olson (1986) dividiu a coesão em quatro graus: 1º-
coesão desvinculada nível mínimo; 2º-coesão separada nível mais baixo, moderado; 3º-
coesão moderada, conectada ou ligada; 4º-coesão emaranhada.

As ideais segundo Gimeno (2001) são as intermédias, pois são capazes de harmonizar a
autonomia pessoal com a proximidade e conexão com os outros, sendo assim mais
viáveis. Os extremos são considerados problemáticos. Numa família emaranhada há um
excesso de identificação com a família e um sentimento muito exacerbado que os seus
membros têm problemas de individualização e de desenvolvimento da sua identidade,
na família desvinculada apego às pessoas é tão baixo que cada um desenvolve os seus
projectos, sem ter em conta os outros.

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Beavers (1982) dividiu as famílias em dois tipos, as centrípetas e as centrífugas. As
centrípetas sobre protegem os seus familiares criando uma forte dependência entre eles,
com o apoio da autoridade dos adultos, que costumam manter uma aliança forte. Usam
a culpa, a chantagem afectiva e a vitimização, centradas nalgum membro da família. As
centrífugas favorecem a autonomia prematura dos indivíduos, o isolamento, recusam o
papel de cuidadores, favorecem a emancipação e saída de casa, logo que possa sustentar
a si mesma. Famílias demasiado abertas têm problemas em expressarem os sentimentos.

4.1.5. Delimitação da individualidade

Uma família não disfuncional possui uma delimitação bem clara dos laços afectivos e
da individualidade, permitindo que cada membro consiga desenvolver estas duas
capacidades (Sampaio & Gameiro, 2004).

A individualização é a condição necessária para o desenvolvimento da própria


identidade humana. A pessoa diferenciada é capaz de um funcionamento óptimo entre
os outros indivíduos. A diferenciação opõe-se à fusão, a qual é geradora de triângulos
perversos que constituem tipos de vínculos nas famílias patológicas como por exemplo
o conflito entre o casal (Gimeno, 2001; Minuchin,1974; Minuchin, 1990).

4.1.6. Famílias centradas no passado ou no futuro

Gimeno (2001) refere ainda que nem todas as famílias são iguais no que se refere a esta
perspectiva temporal, centrando-se umas mais no passado, enquanto que outras estão
viradas para o futuro. As centradas no passado têm muito presente o sentido de tradição,
sendo recorrentes as frases do tipo “O meu pai teria feito isto...”, “Antigamente, toda a
gente fazia assim...”, etc. As família centradas no futuro olham para um conjunto de
objectivos que têm definidos como se já fizessem parte do presente. “Quanto tivermos
uma casa...”, “Quando os nossos filhos forem médicos...”, “Quando formos ricos...”, são
alguns dos pensamentos que condicionam o presente.

4.1.7. Acontecimentos familiares alteram o curso da família

Os acontecimentos familiares parecem influenciar em grande parte a forma de estar e o


ciclo de vida, sendo pontos fulcrais que podem alterar completamente o curso de vida
de uma determinada família. Estes acontecimentos, dolorosos ou gratificantes, são

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geradores de mudança, contribuindo nuns casos para o fortalecimento da relação e laços
familiares, enquanto que noutros poderão conduzir a um desmembramento e
afastamento. Observando estes acontecimentos, poder-se-ão distinguir quanto à sua
duração e à forma como as pessoas reagem. Poderão observar-se mudanças rápidas (por
exemplo, nos casos de catástrofes em que não há tempo para o pranto após a dor da
morte) e os acontecimentos alargados no tempo, em que há um luto e um choro
permanentes (Gimeno, 2001).

4.1.8. Acontecimentos socio-económicos condicionam o ambiente familiar

Para além dos acontecimentos familiares propriamente ditos, podem ocorrer outros tipos
de acontecimentos, sociais, económicos ou políticos, que devido à sua amplitude
condicionam todo o ambiente familiar. Podem enquadrar-se nestes acontecimentos as
guerras civis, as crises económicas, entre outros (Gimeno, 2001).

Parece demais evidente que as condições económicas de uma família condicionam toda
a forma de estar da família no futuro. É muito diferente nascer numa família com
condições económicas abastadas ou nascer numa família que possua privações. Por
outro lado, o futuro e os objectivos traçados alteram também a personalidade do
conjunto. A definição destes objectivos por cada família depende sempre de um
conjunto de factores bastante diferenciados, entrando sempre em linha de conta com o
passado e o presente. Poderão ser definidos objectivos económicos, de carreira, entre
outros, que condicionarão a personalidade actual da família (Gimeno, 2001).

4.2. A família como espaço de protecção da integridade pessoal

A família é mais que nunca o principal espaço de protecção da integridade pessoal dos
seus membros. A família é o espaço onde se esboçam os primeiros e definitivos
projectos de vida, onde se transmite um conhecimento que, mais do que informação ou
ciência é sabedoria, porque nela se transferem conhecimentos que pertencem às
questões fundamentais da vida, inter laçando o cognitivo e o emocional, e sendo um
produto genuíno da experiência vivida pelos mais velhos (Gimeno, 2001).

Gimeno (2001) refere que a família em tempo de mudança e de crise mantém-se como
um espaço de apoio a todos que necessita. É um espaço de protecção da intimidade,
solidariedade, gratuidade, esquecimento de si mesmo pelos outros, dialogo, reflexão
- 34 -
conjunta sobre os projectos próprios, problemas individuais ou de grupo familiar.
segundo este autor o que vai morrendo na família é a prepotência do mais forte, a
rigidez de conduta e de pensamento que mantinha as estruturas e normas machistas e
começa a surgir um modelo familiar mais igualitário e personalizado, mais democrático
e mais aberto ao futuro do que para o passado.

Fernandes (2001) afirma que a família é o lugar primordial das trocas intergeracionais.
É aí que as gerações se encontram e interagem de forma intensa.

4.2.1. Afectividade

Gimeno (2001) aponta o facto de, se os vínculos afectivos forem seguros na primeira
etapa da vida, irão proporcionar a base do desenvolvimento afectivo, social e cognitivo
às crianças e até mesmo na idade adulta, bem como a motivação para atingir os
objectivos, competência social e responsabilidade.

4.2.2. Papel dos pais

Malpique (1998) faz uma abordagem dos papéis que o pai e a mãe desempenham no
núcleo familiar. A função da mãe é instrumental, levando à autonomia pessoal do filho
do ponto da sobrevivência biológica e da manutenção da família. Por seu lado o pai, dá
uma nova dimensão ao funcionamento psíquico do filho, permitindo-lhe a total inserção
na sociedade. É predominantemente instrumental nas exigências que faz para o
auto-domínio e aprendizagem de técnicas que veiculam a conduta moral, social e
cultural.

Myrian (2001) diz que os pais devem ser pessoas confiáveis, que mostrem modelos de
identificação positivos, que favoreçam na criança um sentimento de competência.
Erikson (1976) define este ponto como uma ameaça ao desenvolvimento do sentimento
de identidade, pela inscrição da criança num conformismo estreito, ou pelo
posicionamento num sentimento infantil de inadequação e de inferioridade.

As inibições sociais, relacionais e intelectuais são, neste período de vida, sinais


importantes de possíveis entraves ao desenvolvimento harmonioso da personalidade.
Myriam (2001) refere Guignard (1992, 1993) que pensa que a pobreza da fantasmização
durante o período de latência, nas crianças que apresentam um quociente inteligente

- 35 -
normal, constitui um índice de patologias que deve ser levado a sério. Esta carência
fantasmática, durante o período de latência, é a expressão do envasamento de neuroses
infantis graves que se poderão observar mais tarde no adolescente e no adulto.

4.2.3. Complementaridade entre pai e mãe

Como pode verificar-se, ser pai torna-se uma actividade árdua, plena de
responsabilidades, uma vez que do seu desempenho dependem um conjunto de tarefas
importantes para o bem-estar psíquico dos filhos e de toda a família. Juntando a estas
responsabilidades a necessidade de geração de sustendo económico, verifica-se que o
pai é um pilar importante na vida familiar, dependendo dele, em grande parte, o sucesso
de cada indivíduo e, no seu conjunto, de todo um modelo de sociedade construído tendo
por base a família (Sister, 1996).

Vários estudos apontam também para o papel fundamental da mãe, enquanto pilar
afectivo e emocional e um dos vértices do triângulo familiar. A ideia de
complementaridade entre o pai e a mãe surgem sempre como factores comuns,
tornando-se tão importante a presença de um como do outro. Concorda-se normalmente
com afirmações em que o homem e a mulher não devem ser observados como opostos,
mas como complementares. O aspecto essencial a recordar é que o pai e a mãe têm
características diferentes, fruto da sua característica sexual e do processo diferente de
enculturação que sofreram. Desta forma, complementam-se um ao outro nas suas
funções parentais, significando que nenhuma das partes é prescindível no processo de
crescimento dos filhos (Civitas, 2003).

4.2.4. A família burguesa

Segundo Colin (1986), a família é detentora de um poderoso modelo normativo, em que


qualquer divergência é considerada um perigoso desvio social. É neste contexto que
deverão ser forjados todos os valores necessários à realização individual, fruto de
virtudes morais desenvolvidas ao longo do processo de socialização.

4.2.5. Subsistema fraternal

Gimeno (2001) refere-se à fraternidade, desenvolvendo a ideia de que os irmãos têm


uma maior proximidade de idades em relação aos pais e avós, são filhos do mesmo

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casal, e têm um conjunto de tarefas e funções em comum, fazendo isto com que tenham
uma tendência clara para a união em torno de objectivos comuns. Esta união forma uma
coesão e um sentimento de pertença, uma cumplicidade que muitas vezes faz com que
se oponham ao casal progenitor. Nem sempre os vínculos que os filhos tem uns para os
outros são positivos, podendo ser também de rejeição e de destruição, como por
exemplo rivalidade, indiferença, ódios etc.

Gimeno (2001), referindo-se a Neuberger (1997), aponta como uma das principais
tarefas dos pais a orientação dos filhos para um clima em que se evite a rivalidade e ao
mesmo tempo a fusão, para que não se desenvolva um sentimento que leve ao incesto
real ou imaginário.

4.2.6. Triangulação

Gimeno (2001) define a triangulação com as relações entre três pessoas em que a idade,
sexo ou papéis podem ser diferentes. São mais frequentes em relações familiares mas
também podem fazer parte destas triangulações pessoas estranhas. Caracteriza-se por
ser uma relação estabelecida em que os membros se mantêm aliados numa relação
positiva em relação a um terceiro que é objecto de rejeição ou da oposição de ambos.

As alianças que dela surgem facilitam a cumplicidade em função dos interesses do


momento, fortalecendo a proximidade e identidade familiar e enriquecendo a
comunicação, por exemplo, filhos juntam-se para atenuar um castigo, mãe e filha
unem-se para exigir mais participação do pai. Mas quando estes triângulos se
deterioram o valor funcional da família pode tornar-se rígido e o confronto com o
terceiro transformar-se em rejeição ou em agressividade, acabando por isolar o terceiro
elemento (Gimeno, 2001).

4.2.7. Complexo de Édipo

Referindo Figueiredo (1985), relativamente ao conflito de famílias, tudo parece ir de


encontro às teorias de Freud (1976) da psicanálise. De acordo com estas teorias, a
descrição histórica da tragédia de Édipo simboliza o incesto, como algo insuportável do
ponto de vista social e cultural, sendo portanto interdito, definindo-se neste caso
algumas regras, relativamente às pessoas com quem é permitido ou proibido o
envolvimento sexual e/ou o casamento. O amor do filho pela mãe é inconsciente e

- 37 -
casto, não sendo observado como incestuoso. No entanto, este amor leva a um
inconsciente afastamento entre o filho e o pai, uma vez que o filho passa a tentar afastar
a entidade que constitui uma fonte de rivalidade no seu amor.

Malpique (1998) afirma ainda que a figura do pai, real ou imaginária, é um portador de
interdição, sendo o guardião da lei social, constituindo-se como interdição ao incesto.
Se o pai é ausente ou não consegue ultrapassar o complexo edipiano de seu filho e sua
esposa, põe em causa a relação da díade conjugal e da passagem de valores sociais para
o filho.

4.3. Modelos de Intervenção em terapia familiar

Sampaio e Gameiro (1998) definem terapia familiar como um método psicoterapêutico


que utiliza como meio de intervenção sessões conjuntas com os elementos de uma
família. Sendo um método psicoterapêutico, está baseado em três princípios básicos,
sendo estes de natureza epistemológica, teórica e terapêutica (Relvas, 2003).

Sampaio e Gameiro (1998) deixam claro que a terapia familiar não tem como objectivo
adaptar a família a uma definição preexistente.

A terapia familiar surge como uma ruptura em relação a todos os métodos de terapia
utilizados até então. A terapia familiar sistémica relaciona o conhecimento da patologia
com a família de contexto em que se insere, para que, a terapia seja efectiva, mesmo
após o regresso de cada um dos elementos à família em que se insere (Barker, 1998).

Existem diversos modelos de intervenção em terapia familiar que estão normalmente


interrelacionados com as diferentes concepções de família, de acordo com cada autor,
baseando-se nos pressupostos teóricos por estes assumidos. De seguida serão
apresentadas a perspectiva psicanalítica, as transgeracionais e as estruturais, por serem
as que melhor se enquadram na investigação.

4.3.1. Perspectivas relacionadas com o modelo psicanalítico

A perspectiva psicanalítica da família deriva das teorias da psicanálise de Freud, em que


há uma desvalorização do pai como modelo de identificação devido à sua ausência
permanente. Esta substituição dá-se, não pela substituição, mas pela abolição a que as

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regras da sociedade obrigam. Estas regras vêm já sendo impostas pela sociedade desde
os tempos passados, em que o papel do pai é o de trabalhador fora de casa, que mantém
uma postura rígida e de imposição de respeito aos seus filhos. Estando o pai
desvalorizado e ausente, não possibilitando a reacção Edipiana de rivalidade pai-filho, a
transmissão cultural entre estes encontra-se reduzida. Os jovens tendem a ter reacções
primárias e anárquicas às ocorrências, a juntarem-se em grupos e a padronizarem uma
relação mais ligada às emoções com a mãe (considerando esta um elemento esvaziado
de cultura, mas com forte cariz afectivo (Malpique, 1998; Sampaio & Gameiro, 1998).

4.3.2. Perspectivas transgeracionais

Como anteriormente referido, o comportamento e patologia de uma família pode estar


directa ou indirectamente dependente de algo que aconteceu em gerações passadas
(avós, pais, filhos). A perspectiva transgeracional centra-se na análise da transmissão
cultural da família entre várias gerações, englobando de aspectos como padrões, estilos,
costumes, segredos, mitos, e outros problemas (Sampaio & Gameiro, 1998).

A realização de genogramas pode mostrar problemas familiares do passado com a


família de origem. Mcgoldirk e Gerson (1985) descriminaram seis categorias
interpretativas na leitura de uma genograma familiar: estrutura familiar; ciclo de vida
familiar; padrões de repetição nas famílias; experiências ou acontecimentos de vida;
padrões de relação na família; equilíbrio familiar ou desequilíbrio.

4.3.2.1. Perspectiva multigeracional de Murray Bowen

No enquadramento do presente trabalho, esta é talvez uma das teorias que melhor se
aplica na análise efectuada, pelo que é explicada em maior detalhe. Numa das suas
investigações, Bowen (1978) introduziu a famílias no processo de terapia, envolvendo
os elementos familiares mais directos nas sessões, tendo verificado um conjunto de
resultados muito aceitáveis concluindo que o sistema emocional influencia a terapia. Ao
longo do processo, Bowen (1978) afasta-se dos elementos da família, trabalhando mais
como consultor do que terapeuta, fazendo com que não se criem laços emocionais com
o terapeuta e que por outro lado os níveis de ansiedade sejam menores, levando a
comportamentos de maior autonomia e maturidade dos elementos da família. Ainda
segundo esta teoria, procede-se à limitação de sete conceitos fundamentais.

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Diferenciação do Self

Distinguem-se dois tipos de pessoas: indivíduos com fusão emocional intensa (com
baixo nível de diferenciação do self), em que a parte intelectual do indivíduo é inundada
pelas emoções e a vida é totalmente orientada na busca de sensações emocionais de
prazer, em que a parte racional é colocada em segundo plano; indivíduos com baixa
fusão emocional (com alto nível de diferenciação do self), em que se distingue com
clareza a componente emocional e a racional do indivíduo, levando-o à possibilidade de
poder optar entre a parte racional ou a emocional.

O conceito de triângulo

Este conceito teoriza sobre as relações existentes entre as pessoas. Segundo este
conceito, quando há problemas de ordem emocional entre uma díade, há uma tendência
natural em procurar uma terceira pessoa para funcionar como suporte, para o qual se
podem transferir as emoções. Este triângulo pode levar a sérios problemas de
distanciamento entre a díade, uma vez que os esforços são efectuados no sentido do
terceiro vértice e não na resolução dos problemas existentes. No processo da terapia
familiar é necessário conseguir identificar estes triângulos.

O processo emocional da família nuclear

O processo emocional da família nuclear descreve os padrões gerais de funcionamento


de uma família constituída por pais e filhos. Aproveitando a definição de self, teoriza
sobre o grau de diferenciação entre os indivíduos, concluindo que quanto menor for esse
grau, maiores são as tendências de existência de conflitos.

O processo de transmissão multigeracional

Tanto o processo de projecção familiar como o da diferenciação do self podem


atravessar gerações. Segundo Bowen (1978), é importante compreender este fenómeno,
pois muitas das problemáticas existentes têm as suas raízes nas gerações anteriores.

Corte Emocional

A existência de cortes emocionais atípicos, quer por motivos geográficos ou, por
exemplo, pela saída de casa dos pais para se unir em matrimónio, podem levar a um
nível de diferenciação atípico, e que se pode repercutir na geração seguinte. Se, por
exemplo, um filho sai abruptamente de casa dos seus pais para se casar com uma

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mulher não aceite por estes, tem uma tendência natural a transmitir para as gerações
seguintes um baixo nível de diferenciação. Se um filho deste novo casal tiver problemas
emocionais, a sua raíz pode estar na forma como o seu pai abandonou os avós.

Posição da fratria

Este postulado explicita a forma como a posição na família, entre os seus irmãos, pode
alterar o perfil da sua personalidade, explicando a diferença entre o filho único, o irmão
mais velho, o irmão mais novo, etc.

Regressão social

Bowen (1978) afirma neste postulado que os paradigmas que precedem a terapia
familiar podem ser aplicados num sentido mais lato a toda a sociedade, pela análise dos
padrões de uma determinada comunidade. No entanto, a sua aplicação será mais difícil,
devido às potenciais cadeias e triângulos existentes.

4.3.2.2. Perspectiva transgeracional de Carl Whitaker

Esta perspectiva defende que deve haver um crescimento da pessoa a nível individual
mas também a nível relacional. Não se altera a estrutura familiar mas altera-se um
processo de desenvolvimento das capacidades dos indivíduos e das famílias no sentido
de uma maior criatividade e não de uma adaptação. Pretende-se aumentar o sentimento
de pertença a um todo integrado: à família e à comunidade em que vive. A compreensão
da experiência da história da família de origem é fundamental para a delimitação das
fronteiras intergeracionais. (Sampaio & Gameiro, 1998).

Características de uma família saudável (whitaker,1981)

Sampaio e Gameiro (2004) apontam as características que segundo Whitaker (1981) são
identificadores de uma família saudável, As características essenciais anotadas por este
autor são as seguintes:
• A família é um conjunto integrado, mas que não pode impedir a noção de
individuo, não demasiado em fusão que não permita a individualização,
nem demasiado disperso que leve ao isolamento de cada individuo;
• Há uma barreira intergeracional (pais não são filhos nem os filhos são
pais, há uma delimitação dos sub sistemas;

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• Há liberdade e flexibilidade na escolha de papéis familiares (ex: pais
brincam e filhos fazem de comer);
• Distribuição do poder dentro da família é flexível;
• A família é capaz de brincar em conjunto;
• A família continua a crescer, tenha havido mais ou menos
acontecimentos desagradáveis;
• Os problemas são resolvidos através do diálogo aberto e franco;
• A família é um sistema aberto, influenciado pelo que se passa na
sociedade à sua volta e em contínua evolução.

4.4. Perspectiva estrutural de Salvador Minuchin

Minuchin (1974) elaborou uma perspectiva de terapia familiar com o nome de


perspectiva estrutural, que poderá ser aplicada não só a problemas familiares mas
também a famílias com doenças psicossomáticas. O objectivo desta perspectiva é alterar
a estrutura disfuncional da família, através de uma reorganização, havendo
modificações não só a nível familiar, mas também a nível individual. O sintoma surge
como a face visível da disfuncionalidade de uma organização estrutural, e que tenderá a
desaparecer quando essa organização (neste caso a família) estiver organizada.

Sampaio e Gameiro (2004) citando Minuchin (1974) referem que a estrutura é definida
como um conjunto invisível de necessidades que organiza o modo como os elementos
da família interagem e que vão sendo repetidas ao longo dos anos. Nas famílias
disfuncionais existe alterações dos limites, por exemplo, a criança que assume face aos
irmãos responsabilidades que são dos pais.

Sampaio e Gameiro (2004) entendem que numa família os adultos muitas das vezes têm
necessidade de esconder assuntos que não são convenientes falar junto dos filhos, mas a
experiência própria diz que tem verificado que frequentemente são falsos segredos que
todos mais ou menos sabem mas que fingem não saber. Mas se forem confrontados
podem colocar em risco o equilíbrio da família e ao mesmo tempo atacar a homeostasia
familiar.

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5. FAMÍLIA DISFUNCIONAL

A definição de disfuncionalidade é sempre complexa. Uma delas, como afirmada


anteriormente, é a perda do autocontrolo do sistema familiar. Segundo Minuchin
(1990), o sintoma é a face visível de uma determinada disfuncionalidade e é a primeira
face visível da desorganização do sistema.

5.1. Família rígida

Fala-se de família rígida quando se mantêm as regras sem possibilidade de alteração, ao


longo dos tempos, sem olhar à mudança da estrutura familiar (crescimento dos filhos,
por exemplo). A autoridade pode ser exercida por qualquer um dos membros da família,
estando normalmente associada ao pai rígido e restantes membros submissos. No
entanto, essa rigidez pode ser exercida por qualquer outro membro da família, por
exemplo por um filho que assume o papel central. Estas situações podem levar a
problemas psicossociais dos elementos familiares. Um dos mais comuns acontece
quando há um excessivo controlo da normal exuberância infantil, produzindo a timidez
ou revolta (Tavares, 1995).

Gimeno (2001) indica que a pessoa, no caso de rigidez, fica imóvel apesar da
necessidade de mudança. Repetidamente vão-se apresentando pedidos de mudança, os
quais sistematicamente são rejeitados, principalmente por que detém a autoridade
máxima na família.

Uma estrutura familiar rígida não permite a autonomia do indivíduo mas todo o ser
humano tem dentro de si duas forças antagónicas: o sentido de autonomia e o de fusão.
Estas duas dinâmicas equilibram-se de forma desigual ao longo das diversas fases do
ciclo vital. Na adultez a autonomia sobrepõe-se, mas é alimentada por momentos
fusionais que têm a sua expressão mais habitual na relação do casal. Nas família com
uma estrutura lábil, os seus membros não têm sentimento de pertença que lhes permita
sentirem-se ligados uns aos outros, ficando por satisfazer as suas necessidade fusionais.
Aqui é importante aparecerem alianças e coligações (Sampaio & Gameiro, 2004).

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5.2. Importância das gerações passadas na família

No que se refere às coincidências familiares, parecem demasiado evidentes os


comportamentos que parecem passar de geração para geração, principalmente em
famílias alargadas. Estas coincidências surgem na maior parte das vezes pela imitação
dos modelos apreendidos do passado. Se, por exemplo, uma mãe exerce uma actividade
excessivamente protectora para com seu filho, este terá uma tendência natural a imitar a
sua mãe quando tiver descendência. Se por outro lado um pai exerce uma actividade
repressora sobre os filhos, também estes terão uma tendência a fazer o mesmo.
Referindo Gimeno (2001) os modelo são imitados de uma forma mais ou menos
consciente; a resposta activa-se quando a pessoa de vê envolvida numa situação similar.

Sampaio e Gameiro (2004) acreditam que numa família é importante a lenda dela
própria, e que o papel que habitualmente têm os avós pode ser retomado pelos pais
numa situação de crise.

Há uma transmissão da cultura familiar no seu sentido lato de uma geração para outra,
englobando padrões, estilos, acontecimentos, segredos, mitos e problemas que
determinam o carácter único de uma família (Lieberman, 1979). Há uma necessidade de
tentar integrar o presente, através do uso do passado, de modo a definir padrões
repetitivos disfuncionais que tenta alterar e construir um futuro diferente.

O progresso do ser humano radica na transmissão às novas gerações da bagagem de


conhecimentos adquiridos pelas gerações anteriores. Esta transmissão ocorre
principalmente através da família. Os modelos familiares configuram-se praticamente
em todas as culturas como numa estrutura vital na transmissão da sabedoria popular.
Cada família tem os seus modelos familiares próprios, ao mesmo tempo que estabelece
limites entre o desejável e o proibido entre a norma e o desvio (Gimeno, 2001).

Os conflitos por resolver devem merecer uma atenção redobrada no sentido de fazer
parte do legado familiar, em menor ou maior grau reduzindo o seu funcionamento
eficaz. Esta herança deteriora a vida familiar sob a forma de confrontos abertos ou
guerras latentes (Gimeno, 2001). A herança familiar de origem fortalece o sentimento
de pertença, o de identidade familiar, sendo fonte de sabedoria que é transmissível à
família de procriação (Beavers, 1995).

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Sequeira e Ferreira (2006) apontam que os idosos constituem um excelente veículo para
fomentar as histórias de vida; todos eles tem acontecimentos para partilhar, positivos e
negativos, que transmitem às gerações vindouras, conseguindo uma partilha cultural
com filhos e principalmente netos.

5.3. Famílias saudáveis vs disfuncionais

Barnhill (1979) sugere que as famílias saudáveis têm de se distinguir das disfuncionais
por alguns critérios: Processo de identidade (Individualização, emaranhamento; reci-
procidade, isolamento); mudança (flexibilidade, rigidez; estabilidade, desorganização);
processamento da informação (percepções claras, confusas ou distorcidas; papéis bem
definidos, papéis mal definidos ou conflitos de papéis); estruturação de papeis (papel
recíproco, papéis mal definidos ou conflituais; fronteiras intergeracionais bem definidas,
difusas ou quebradas).

Fleck (1980) aponta os elementos de uma família saudável, distinguindo-a com os


pontos abaixo identificados. Este acredita que o desenvolvimento de apetências em cada
um dos indivíduos depende das experiências vividas no seio da família, apontando os
elementos que contribuem para a formação do carácter, entre eles a liderança, fronteiras
nas famílias, afectividade, comunicação, desempenho de tarefas/objectos.

5.4. Conflitos e perturbações

Várias são as teorias que se aplicam para a potencial explicação de conflitos e


perturbações existentes no seio de uma família, levando à disfuncionalidade. De
seguida, referem-se alguns pontos que ajudam a perceber algumas destas
disfuncionalidades.

Sousa, Figueiredo e Cerqueira (2004) dizem que muitas vezes os conflitos que surgem
entre pais e filhos se devem a razões tão simples como as heranças deteriorando-se
assim as relações com os membros por afinidade (o genro ou nora) que muitas vezes
não se compreendem. Este autor refere o do poder do dinheiro, indicando que ainda se
sabe muito pouco sobre a sua real influência nos conflitos familiaraes, mas tudo parece
indiciar que este é um dos factores que provocam muitos conflitos entre famílias. Um
outro aspecto de conflito na relação entre pais e filhos é ainda do foro económico e

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enfoca-se na forma como os idosos gerem o seu dinheiro e tomam as suas decisões. Um
outro aspecto não menos importante são as relações pais-filhos afectadas pelas
expectativas dispares. Os pais esperam que os filhos os visitem mais e gostam de se
sentir mais próximos mas os filhos têm a sua vida e centram-se mais na sua família
descendente.

5.4.1. Conflitos

Ao longo da vida vão surgindo diversas situações, tanto individuais como familiares e
externas que geram tensões. Essas situações podem levar a mudanças funcionais,
estruturais às quais a família não teve capacidade de se adaptar, pois apareceu de uma
forma inesperada. Numa determinada altura da vida o sistema familiar enfrenta o dilema
de ter de mudar as suas normas de comportamento, regras e até mesmo os seus sistemas
de valores e crenças enquanto noutras situações a única saída existente é a
desestruturação ou a ruptura familiar (Gimeno, 2001).

Gimeno (2001) centra-se ainda no conflito, descrevendo-o como um confronto


inter-pessoal em que cada pessoa tenta manter o seu ponto de vista, a sua conduta, os
seus interesse. Implica tensão, angustia, sentimentos de impotência, depressão, rancor,
raiva, hostilidade latente ou manifesta. Os conflitos familiares acarretam inconvenientes
e são um perigo constituindo-se como um indicador de direccionalidade familiar e
mesmo uma manifestação de falta de apego ou de maturidade, entre os membros da
família. O impacto na vida familiar depende da sua intensidade, frequência e duração.

5.4.2. Crises familiares.

Gimeno (2001) complementa a sua definição de conflito, estabelecendo a diferença com


o que designou por crise familiar. As crises familiares são conflitos mas com mais alta
tensão, com maior impacto na vida familiar e que dura um período de tempo
relativamente superior ao do conflito, podendo durar semanas ou meses. Neste período
a família destabiliza-se e surge a necessidade de mudanças e reestruturações profundas
uma vez que os valores, as metas, as expectativas e papéis são afectados: os existentes
não servem são difíceis de harmonizar. Reavivam-se conflitos passados, constata-se a
disfuncionalidade e insatisfação, enquanto se percebe a situação familiar como estando

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à deriva. Nos períodos de crise, a angústia e a hostilidade podem ser elevadas e terem
tendência para distorcer o sistema.

Pittman (1990) diferencia quatro tipos principais de crises: desgraças inesperadas; crises
de desenvolvimentos; crises estruturais; crises de desamparo.

5.4.3. Ausência de pai

Parecendo mais ou menos consensual que a figura paterna é importante na formação do


indivíduo, as áreas chave em que essa presença exerce influência já são objecto de
discordância ou complementaridade. Alguns autores, a seguir referidos, debruçaram-se
sobre estes aspectos, tendo desenvolvido teorias, baseadas muitas vezes em estudos, que
tentam relacionar a figura paterna com a personalidade da criança e do adolescente.

Sendo assim, Cordeiro (1982) e Fonseca (2004) afirmam que a ausência do pai na
criança e adolescente é um factor importante na desorganização da personalidade.

Malpique (1998) é da opinião que a figura paterna dá uma nova dimensão ao


funcionamento psíquico e permite a sua inserção na sociedade. Juntando a estas
responsabilidades a necessidade de geração de sustento económico, verifica-se que o pai
é um pilar importante na vida familiar, dependendo dele, em grande parte, o sucesso de
cada indivíduo e, no seu conjunto, de todo um modelo de sociedade construído tendo
por base a família. Malpique (1999) aponta que a ausência de pai é um factor
patogénico que pode levar a psicoses, neuroses, tentativas de suicídio, deficiências
intelectuais. A presença do pai ou de um substituto é o agente fundamental da
diferenciação, é a sua presença que abre para a criança o caminho à identidade sexual,
ou seja à diferença. Balancho (2005) é da mesma opinião.

Chouhy (2005) apresenta as conclusões de vários estudos sobre adolescentes onde a


figura paterna é presente ou ausente, referindo alguns dos aspectos relevantes ao nível
da personalidade e formação sociopsicológica. Assim, o risco da interrupção dos
estudos do ensino obrigatório é, para os filhos de pais ausentes, cerca de duas vezes
superior, em relação ao grupo de jovens em que o pai está presente. Refere ainda que a
ausência do pai provoca problemas emocionais e de conduta na criança, referindo que
neste grupo a probabilidade de enfermidade mental é superior, havendo maior
dificuldade no controlo dos impulsos e uma maior vulnerabilidade à pressão exercida

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pelos seus pares. Para além disso, a prevalência de problemas com a lei é também
superior. Angel e Angel (1993) citado por Chouhy (2005), afirmam que a falta do pai
constitui um factor de risco para a saúde mental da criança.

5.4.4. Famílias monoparentais

A perda do pai por falecimento gera uma depressão e uma idealização do pai perdido.
Se for por uma separação, é mais conflitual e pode gerar uma imagem negativa do pai,
dependendo tudo da relação que o pai e a criança tinham estabelecido e da imagem que
a mãe oferece à criança após a separação. A estrutura monoparental é um factor de risco
para o desenvolvimento psicológico da criança. Neste tipo de família existe um
sentimento de desamparo e de abandono (Malpique, 1999).

Malpique (1999) aponta que as mãe que viveram sempre para os filhos, que não
organizaram a vida, que ficaram viúvas ou separadas recorrem ou regressam às suas
famílias de origem, estreitando os laços com os seus pais e arrastam muitas vezes os
seus filhos na sua depressão. A mãe deprimida tem um papel muito difícil: por um lado
não pode corresponder ao apelo do amor dos filhos, mas por outro lado não suporta o
seu afastamento e a sua necessidade de autonomia fazendo com que o seu
desenvolvimento psicológico fique bloqueado. A depressão da mãe parece ser a nota
dominante deste tipo de famílias, logo são incapazes de mudança, pouco aptas a
promover o desenvolvimento e saúde mental dos filhos (Malpique, 1999).

5.4.5. Ausência da mãe

A ausência da mãe, segundo Sister (1996), provoca manifestações por parte da criança
de percepção da não identidade, vindo a significar a perda desta, o que desencadeia os
processos de angústia. Para a criança, a ausência da mãe vai implicar uma proibição,
modelando todas as proibições futuras do mesmo modo, indexando-as ao desejo da
presença da mãe.

Colin (1986) referiu Oliver Schwartz num trabalho que realizou com famílias de
mineiros do Norte de França e chegou à conclusão que a força da relação entre mãe e
filha é como um segundo casal. A filha junta-se à mãe para conversar dos seus
problemas, das suas dificuldades. Segundo este autor estas desabafos reforçam um bem
estar psicológico e a filha torna-se dependente da mãe.

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5.4.6. Conflitos pai-filho

Figueiredo (1985) aponta que as constelações que estão na origem das tragédias são
principalmente os conflitos agressivos entre membros do mesmo sexo, sobretudo de
gerações diferentes, segundo o modelo pai e filho e seguidamente o conflito dentro da
mesma geração, segundo o modelo irmão/irmão. As ligações eróticas seguindo
situações trágicas passam-se entre membros de sexo diferente e geração diferente,
segundo o modelo pai/filha e mais raramente irmão/ irmã. Estas duas ligações vão levar
a conflito de gerações, como um impasse do mesmo conflito.

5.4.7. Instabilidade das díades conjugais

Os sistemas diádicos são normalmente caracterizados por relações instáveis, tendo uma
tendência natural para evoluir para triangulações. Esta triangulação constitui a chave de
todas as relações humanas, uma vez que, numa relação a dois é usual o aumento da
angústia, e a consequente procura de uma terceira pessoa para a confidência e libertação
da pressão gerada (Relvas, 2003). O triângulo é a molécula base de qualquer sistema
emotivo, e o sistema mais pequeno das relações estáveis.

5.4.8. “Ninho vazio”

Minuchin e Fishman (2003) falam sobre o ninho vazio, que ocorre quando os filhos
crescem e saem de casa e a família tem de se reorganizar. A este período chama-se de
ninho vazio e normalmente vem associado à depressão da mulher. Mas este período de
perda pode tornar-se num período de grande desenvolvimento se os cônjuges, como
indivíduos e como casal, aproveitarem as relações acumuladas, sonhos que agora podem
atingir que até então não era necessário por causa da educação dos filhos.

5.4.9. Segredo

Ausloos (2003) e Sampaio e Gameiro (2004) indicam que todas as famílias têm as suas
leis próprias e ela própria define aquilo que pode ou não ser feito ou dito. Segundo este
autor a culpabilidade que resulta da transgressão de uma dessas regras que vai dar
origem ao segredo. Os segredos e as regras que eles originam, contribuem para manter a
homeostasia da família e evitar as mudanças vividas como ameaçadoras. Segundo os
mesmos autores, os segredos nos primeiros tempos podem ser úteis mas com o passar
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do tempo tornam-se prisões impedindo a evolução do sistema familiar. Ele encerra-se
em si próprio levando a um empobrecimento das suas comunicações e uma rigidez
progressiva das suas estruturas relacionais.

Gimeno (2001) diz que todas as famílias têm os seus mitos que trazem felicidade à
família, onde se misturam simultaneamente todas as heranças próprias da família de
origem e um número não conhecido de desejos não satisfeitos. Refere este autor que os
mitos familiares pretendem encobrir as realidades mais perturbadoras, daí que
desmascarar o mito e construir um mapa familiar pode muitas vezes ser uma tarefa
muito dolorosa. Seguem-se alguns exemplos de mitos potencialmente existentes numa
família: marido trair a mulher; conhecer o ódio entre irmãos. O desmantelar desde
segredo e a sua divulgação no seio da família, significa para a díade parental, assumir o
fracasso como pais.

Borine (2008) diz que os segredos familiares são aspectos disfuncionais pertencentes à
psique, que dentro de um olhar geral da família acaba por passar despercebido. Mesmo
por uma cultura familiar eles são entronizados para que ninguém o questione.

5.4.10. Suicídio

Sampaio e Gameiro (2004) focaram-se no suicídio, referindo-se ao seu enquadramento


num perspectiva transgeracional. A tentativa de suicídio remete-se para o seu carácter
isolado ou dentro do contexto familiar. Os mitos ou segredos encontrar-se-ão ligados a
esta vontade de morrer e podem residir na existência de situações paralelas na história
familiar. Vários relatos mostram muitas vezes que as dificuldades actuais provêm do
passado que lhe cria modelos divergentes ou mesmo contraditórios de comportamento.
Por isso a uma perspectiva interaccional alia-se uma perspectiva transgeracional.

5.4.11. Ciúme

Figueiredo (1985) diz que o homem sente humilhação quando a mulher que lhe pertence
é seduzida por outro o que pode ser compreendido a diversos níveis. Um homem que
fica sem a sua mulher revela a sua fraqueza mas também o homem que cede a sua
mulher a outro, em particular a irmã ou a filha que lhe são proibidas pelo tabu do
incesto, pode também ter sentimentos de ciúme associados.

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6. DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE

6.1. Cultura e personalidade

Como refere Myers (1993), todo o ser humano é capaz de ler a expressão facial do seu
semelhante, entende o sorriso, agrupa-se em comunidades e especialmente é capaz de
aprender e se adaptar a novas situações. Estas características tornam o homem num ser
único e inimitável. Myers (1993) refere ainda que o ser humano tem a capacidade de
transpor entre gerações um conjunto de saberes e comportamentos: cada geração
transmite à geração seguinte toda a sua capacidade social e psicológica.

Rosa e Lapointe (2002) expressam que a personalidade pode ser entendida como um
conjunto de características emocionais, intelectuais, cognitivas e comportamentais de
um indivíduo. Tal facto poderá levar a pensar que os indivíduos pertencentes a uma
determinada cultura têm um conjunto de traços comuns da personalidade, o que nem
sempre acontece e que leva muitas vezes à desintegração social de um indivíduo. A
personalidade típica dos indivíduos de uma determinada cultura advém directamente do
material cultural existente, uma vez que a personalidade é directamente influenciada
pelo meio em que se insere. Poder-se-á também inferir sobre a influência da
personalidade de um grupo de indivíduos na cultura, podendo afirma-se que a
personalidade desenvolvida por estes também determinam a cultura.

6.2. Experiências na infância – comportamento no futuro

As experiências vividas na infância reflectem-se, mais tarde, na personalidade, podendo


este fenómeno acontecer a longo prazo. Pode, no entanto, influenciar a vida da criança a
partir do momento que sofreu o mau trato. A violência gera sentimentos de desamparo
e, quando o mau trato é feito principalmente no seio familiar, pode gerar sentimentos
tão díspares como o medo, a culpa, a raiva que, não podendo ser manifestados no
momento do acto de violência, se transformam em comportamentos distorcidos,
perpetuando-se para gerações seguidas, afectando e alterando, muitas vezes, a vida
social. Os maus-tratos físicos maus-tratos psicológicos/emocionais irão manifestar-se ao
longo da sua vida futura (Myers, 1993).

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6.3. Teoria psicossocial de Erikson

Erikson (1963), na sua teoria psicossocial do desenvolvimento, acredita que todo o ser
humano passa por um conjunto de estádios que contribuem no seu conjunto para a
formação da personalidade. Os primeiros quatro estádios decorrem no período da
infância, e os últimos três durante a idade adulta. Erikson dá especial importância ao
período da adolescência, já que esta é uma fase de transição entre a infância e a idade
adulta e, devido aos acontecimentos relevantes que nesta fase de desenrolam, a
formação da personalidade adulta é em grande parte resultante deste período. Todos os
estágios contribuem de forma importante para a formação da personalidade, sendo que
cada um deles é influenciado pelo estádio anterior, influenciando também a forma de
atravessar a estádio seguinte. Erikson apresentou os estágios em termos de qualidade
básica do ego que surge em cada estágio, discutiu as forças do ego que surgem nas fases
sucessivas e descreveu a ritualização peculiar de cada um. Esta era por ele referido
como uma maneira lúdica e culturalmente padronizada de experienciar uma vivência na
interacção quotidiana de uma comunidade (Hall, Gardner & Campbell, 2000).

A formação da identidade inicia-se nos primeiros quatro estágios, e o senso desta


negociado na adolescência evolui e influencia os últimos estágios. As idades apontadas
por esta teoria são: 1ª Idade: Confiança Básica vs Desconfiança Básica; 2ª idade:
autonomia vs vergonha e dúvida 3ª idade: iniciativa vs culpa 4ª idade: diligência vs
inferioridade; 5ª idade: identidade vs confusão, difusão; 6ª idade: intimidade vs
isolamento 7ª idade: generatividade vs estagnação - 8ª idade: integridade vs desespero
(Hall, Gardner & Campbell, 2000; Monteiro & Santos, 2001).

6.4. Maslow e a teoria das necessidades humanas

A teoria desenvolvida por Abraham H. Maslow conhecida com o nome “Teoria das
Necessidades Humanas” é apresentada ao longo da sua obra. Para Maslow (1970), o
homem é motivado por necessidades organizadas numa hierarquia de relativa
prepotência. Isto significa que uma necessidade de ordem superior surge somente
quando a de ordem inferior foi relativamente satisfeita.

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PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO

7. METODOLOGIA

O objectivo deste capítulo é a descrição dos procedimentos realizados para o estudo


empírico, pretendendo-se também justificar as opções tomadas no sentido de dar
resposta às questões de partida deste estudo e aos objectivos definidos.

A investigação é orientada através do método qualitativo pois só assim se consegue uma


compreensão abrangente do fenómeno em pesquisa, e atende-se a um conhecimento e a
uma análise das relações interpessoais em contexto. Este método permite extrair a
essência de cada fenómeno em estudo, do ponto de vista daqueles que vivem ou
viveram aquela experiência e o sentido que lhes atribuem. Sendo assim, opta-se por um
método exploratório para melhor caracterizar uma realidade que nem sempre é de fácil
discussão. O método descritivo será utilizado porque se pretende descrever o universo
dos sujeitos que vivenciam esta experiência, descrevendo esta situação mediante um
determinado espaço/tempo e descrevendo factos de uma determinada realidade, e uma
terceira vertente, a analítica, vai permitir compilar os dados disponíveis, para melhor se
analisar e compreender este fenómeno. Neste caso vai utilizar-se a análise de conteúdo.
Vai-se assim de encontro a Polit (1995) por se salientarem os aspectos dinâmicos,
holísticos e individuais da experiência humana, e a Bardin (2004) que refere que a
análise qualitativa apresenta características particulares que permitem a dedução
específica sobre um acontecimento.

7.1. Problemática

“Onde estão as pessoas com quem vivi?”; “Porque não me vêm visitar?”; “Triste ser-se
velho, porque Deus não se lembra de mim”;“A minha vida deixou de fazer sentido”.
Estas e outras frases do géneros são todos os dias proferidas pelos idosos
institucionalizados. Será que por si só não justificam toda a necessidade de haver
estudos aprofundados que se debrucem sobre a problemática da institucionalização e da
influência das relações familiares na decisão de colocar os idosos em lares?

A questão fundamental de investigação é sempre o problema que preocupa ou que faz


pensar em descobrir uma forma de o resolver. No trabalho de campo efectuado ao longo

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deste projecto, a problemática principal recai sobre os idosos institucionalizados em lar
que são pouco visitados pelas suas famílias, que evitam a relação com a instituição e
com os seus idosos, apesar dos esforços levados a cabo pela instituição e pelos membros
que a compõem. Numa primeira abordagem acredita-se que existiram no passado
relações familiares mal definidas, tais como disfunções, conflitos, crises nunca
resolvidas, tanto na família de origem como na família de procriação, tendo estas
relações contribuído para a colocação dos idosos no lar e o posterior distanciamento
destes.

A investigadora exerce funções há cerca de seis anos na instituição onde foi levada a
cabo a investigação, sendo portanto a problemática estudada uma constante no seu dia a
dia. Ao longo deste tempo sucedem-se um conjunto de ciclos muito curtos, relacionadas
com o escalão etário do grupo alvo da investigação: uns idosos vão falecendo, novos
idosos são recebidos, mas observa-se que em quase todos os casos existe uma vertente
comum: são isolados pela família. No início do internamento ainda ocorrem visitas
esporádicas, mas com o passar do tempo os familiares parecem esquecer-se que têm ali
um pai, uma mãe, uma tia, chegando mesmo ao ponto de ir ao lar tratar de problemas
administrativos e não visitarem, ou mesmo de dar um simples cumprimento, ao seu
familiar. Por sua vez, os idosos não esquecem a família e rapidamente começam a ficar
tristes, amargurados e com sintomas de depressão. Alguns deles conseguem resignar-se
ao seu novo estilo de vida, outros nunca aceitam e esperam ansiosamente por uma
visita, por um telefonema, ou por qualquer outro tipo de notícia.

A investigadora, por observação directa e muitas vezes por abordagem directa aos
utentes, vai conseguindo fazer com que estes falem sobre os seus sentimentos mas esta
tarefa é por vezes difícil uma vez que eles sentem muita solidão e tristeza, e têm uma
tendência de se isolar cada vez mais, chegando mesmo ao ponto de perder a sua
auto-estima, revelando sintomas de ansiedade e inquietação constantes, aparecendo com
passar de tempo demências e atitudes estranhas de rebeldia. Quando os níveis de
confiança mútua se estabelecem, começam a desabafar, mas rapidamente desenvolvem
uma reacção de protecção, já que sentem que não podem comprometer os seus
familiares perante pessoas estranhas, uma vez que alguns deles acabam por ser pessoas
influentes na sociedade. As tentativas de aproximação com as famílias são quase sempre
infrutíferas, porque estas não querem simplesmente falar, tentando mudar de assunto
quando se fala alguma coisa acerca da família. As visitas aos idosos são bastante
- 54 -
rápidas, e não permitem a aproximação dos colaboradores da instituição nem de
terceiros.

Numa tentativa de aproximação entre os familiares e os idosos, a instituição organiza


festas e convívios com bastante regularidade, sendo sempre convidados os familiares.
São raros os casos que aparece alguém. Tudo é incomodativo para os familiares,
incluindo a investigadora.

7.2. Participantes

A população é constituída por um total de 25 utentes idosos residentes num lar de uma
freguesia do centro da cidade do Porto. Considerou-se institucionalizado todo o idoso
que permanece vinte e quatro horas por dia no lar, tendo-o como sua residência fixa.
Inicialmente, pretendia-se alargar a investigação também aos familiares, mas não se
encontrou a abertura nem a disponibilidade necessárias por parte destes, tendo-se então
decidido reduzir a população alvo apenas aos idosos. A amostra é formada por doze
elementos, um do sexo masculino e onze do sexo feminino. As idades variam entre os
73 anos e os 100 anos.

Segundo bibliografia consultada, neste grupo, as limitações físicas e psicológicas já se


manifestam, como se pode ver em Marchand (2001) que afirma que a tendência da
capacidade intelectual para decair começa aos setenta, oitenta, com um declínio ainda
mais prenunciado aos noventa. Este facto justifica o tipo de abordagem, baseado na
informalidade, conforme explicado adiante na secção 7.4.

Todos os idosos da amostra estão orientados no tempo e no espaço, conseguindo


responder a perguntas directas com um grau de raciocínio lógico, sem confusões ao
nível do tempo dos acontecimentos, e do local onde se desenrolaram, sendo esta a
amostra possível uma vez que toda a população tem uma idade muito avançada.
Seguiu-se, portanto, o método da amostragem por conveniência incluindo todos os
sujeitos que cumprem as condições e critérios para participar no estudo, ou seja, idoso
institucionalizado orientado no tempo e no espaço. Quanto ao estado civil da amostra:
um casado, dois divorciados, um solteiro e os restantes são viúvos, sendo este grupo a
maioria e constituído unicamente por mulheres. Como refere Campos(1982), nos lares
de terceira idade mais de três quartos dos utentes são do sexo feminino devido a sua

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maior longevidade, indo de encontro à amostra deste estudo, em que apenas um
elemento é do sexo masculino.

As habilitações literárias dos idosos são díspares, sendo um analfabeto, dois sabem ler e
escrever, cinco têm entre a 3ª e a 4ª classe, um tem o 9º ano, dois o curso médio e um o
curso superior. Quanto às profissões exercidas durante a vida activa: 2 empregado
fabris, 2 funcionários administrativos, 2 costureiras, 3 domésticas, 1 comerciante, 1
professora e 1 quirólogo. 4 idosos estão institucionalizados há menos de um ano, 4 entre
1 e 4 anos, e 4 há mais de 4 anos. Antes da institucionalização, 5 idosos viviam
sozinhos e 7 acompanhados pelas respectivas famílias. No que diz respeito há
periodicidade de visitas, 8 idosos são visitados raramente (1 vez por mês), 1
diariamente, 3 frequentemente (uma vez por semana, no mínimo).

Os restantes idosos não entraram no estudo por vários motivos, uns por recusa e outros
por incapacidade mental, cognitiva ou emocional.

Um idoso foi para o lar de livre vontade, mantendo uma relação de proximidade
constante com a nora e o filho, deslocando-se a casa destes numa base diária, tendo uma
vida muito activa e, segundo ela própria diz, só ter ido para o lar para não ter trabalho
em casa, e assim poder ocupar o tempo a fazer coisas de que gosta. Uma idosa recusou a
participação, dizendo que não era um livro aberto nem estava para dar expor a sua
intimidade. É uma pessoa com uma personalidade muito vincada e sisuda, não sorri,
parece sofrer de um sentimento de infelicidade permanente, mas não quis compartilhar a
sua vida. Esta resistência por parte destes idosos constitui-se na forma encontrada para
que não sejam confrontadas com a sua vida pessoal, pois sentiram-se ameaçadas por
exporem a sua vida.

Uma das utentes é afásica mas quis dar o seu contributo para a investigação, tendo
transcrito a sua história de vida. No entanto, o testemunho escrito da utente acabou por
não ir de encontro aos objectivos, não tendo esta focado os pontos fulcrais da entrevista.
O seu testemunho fica guardado para que um dia se possa dar um fim digno a uma
história de vida, que apesar de sofredora não deixa de ser uma história de amor.

Os restantes idosos não cumpriam os critérios definidos de orientação mental, da


percepção e da consciência, não sendo portanto possível estabelecer um diálogo ou uma
conversa.

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7.3. Material

A técnica de recolha de dados assenta em dois instrumentos principais: uma entrevista


semi-directiva, e a observação directa em contexto natural.

A entrevista utilizada foi divida em duas partes: uma primeira parte com cinco
perguntas fechadas relativas a dados de natureza biográfica como sendo sexo, idade,
estado civil, escolaridade, e tempo de residência no lar. A segunda parte é constituída
por seis perguntas abertas, onde se colocaram questões abrangentes como sendo o
pedido para referir os marcos importantes da sua vida, o seu relacionamento com a
família ao longo do tempo, a forma como foi para o lar, se por vontade própria ou
imposta, se teve a oportunidade de escolha da instituição, a periodicidade de visitas da
sua família e o dia a dia no lar. Este tipo de questões permitem uma maior flexibilidade
e o revisitar de temas sem haver a necessidade de recolocar exactamente a mesma
questão. Por exemplo, depois de uma pergunta totalmente aberta em que se pede para
descrever as fases da sua vida e o relacionamento com a família, surgem um conjunto
de questões mais periodizadas que convidam a uma maior profundidade na resposta, e a
um recalcamento das questões consideradas fulcrais para este estudo.

A entrevista elaborada pela investigadora foi adequada às pessoas em questão, tanto a


nível da linguagem como da simplicidade de resposta exigida, tendo como objectivo
permitir um total clima à-vontade por parte do entrevistado. A técnica usada é a
semi-directiva, uma vez que as perguntas abertas são abrangentes para poder colher o
maior leque e profundidade de informação possível, havendo intervenções esporádicas
da entrevistadora no sentido de manter a focalização no tema proposto e direccionar o
entrevistado para a disponibilização de informação que vai de encontro aos objectivos
propostos para este trabalho, indo de encontro à definição de Quivy e Campenhoudt
(2003) que classificam este tipo de entrevistas por não serem inteiramente abertas nem
encaminhadas por um número preciso de perguntas. Tendo em atenção o grau de
instrução e a idade avançada dos intervenientes, acredita-se que este instrumento de
recolha de dados é o mais apropriado. A entrevista permite também uma maior
flexibilidade para se poder repetir questões e reformular de uma forma mais simples
cada pergunta (vide Anexo I).

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A observação directa em contexto natural decorreu ao longo de um conjunto de tempo
alargado, e teve como instrumentos um conjunto de conversas informais e observações
de comportamentos e atitudes, tanto por parte do idoso como das famílias. Este contacto
foi possível devido ao facto de a investigadora ter uma presença constante e diária junto
dos idosos, desde o primeiro dia da sua institucionalização, criando com eles uma
relação de empatia e de confiança mútua. Estes instrumentos complementa a entrevista,
uma vez que esta, por si só, se pode revelar insuficiente e demasiado superficial.
Simultaneamente, leva a que a veracidade dos factos relatados pelos idosos durante a
entrevista seja total, uma vez que estão na presença da alguém que já conhece, ainda
que não com todos os detalhes, a sua história de vida.

7.4. Procedimentos

As entrevistas foram realizados entre 15 de Janeiro de 2008 e 20 de Maio de 2008.


Inicialmente o investigador propôs-se a utilizar como suporte às entrevistas o gravador,
mas esta material acabou por se revelar intimidatório para alguns dos entrevistados,
constituindo-se como um obstáculo ao normal decurso da conversa. Optou-se assim por
recorrer à técnica de anotação das respostas da entrevista para os casos em que se notou
o obstáculo imposto pelo gravador. Este método demonstrou-se eficaz nestes casos, uma
vez que foi a única forma de conseguir obter do lado do entrevistado, uma maior calma
e um ritmo de entrevista mais tranquilo e adequado à pessoa, trazendo no entanto o
inconveniente de as pessoas se repetirem mais nas suas respostas, pelo facto de a
entrevistadora e a anotadora serem a mesma. Toda esta investigação assenta nos dados
recolhidos a partir das entrevistas, tanto nas gravadas (sete entrevistas) como nas
baseadas na anotação da narrativa (cinco entrevistas).

As entrevistas registadas em suporte digital, com a devida autorização dos participantes,


utilizaram como suporte o gravador o modelo DS-61 da Olympus, sendo posteriormente
transferidas para o computador pessoal. As entrevistas transcritas foram elaboradas na
momento, de forma a evitar a perda de informação.

Antes de iniciar cada entrevista foi explicado o objectivo do estudo, e a sua finalidade, e
as condições de participação nomeadamente garantia de anonimato, sendo pedida a
autorização para a colheita de dados. Este pedido de autorização aplica-se também à
instituição (vide Anexo II). Houve uma conversa informal com cada um dos idosos,

- 58 -
tendo sido referido que o trabalho tinha em vista, não só um estudo meramente
académico, mas também uma análise numa perspectiva de os conhecer melhor e de com
isso conseguir incorporar na relação diária todos os conhecimentos adquiridos ao longo
deste estudo. Foi garantido o anonimato, tanto do idoso como da sua família, sendo
dada a garantia que os dados não seriam usados para outros fins, que não a dissertação
de mestrado. Apostou-se numa relação emocional, para convencer os idosos a
participarem no estudo, afirmando logo desde o início que o objectivo não era julgar
ninguém, apenas identificar pontos de possível ajuda, caso eles consintam. Desde logo,
houve uma abordagem humanista e sóbria com cada um dos entrevistados, tratando-se
cada um de forma individualizada, e como adultos que são, cheios de lembranças e
histórias de vida riquíssimas nas suas vivências e saberes, resistindo à tentação típica de
infantilização do idoso.

No início da entrevista optou-se por utilizar como motivador um conjunto de conversas


abstractas sobre assuntos quotidianos, garantindo assim a disponibilidade do
entrevistado para a conversa. Esta componente, utilizando a função fática da linguagem,
revelou-se útil na medida em que permitiu abrir o canal de comunicação.

As entrevistas foram realizadas num local sossegado, normalmente uma sala reservada e
previamente preparada com duas cadeiras e uma mesa, confortável e com muita luz.
Houve uma conversa prévia com todos os funcionários do lar, no sentido de não haver
interferências de terceiras pessoas, o que de facto não aconteceu. Dois dos idosos
preferiram ser entrevistados dos seus quartos, por se sentirem mais confortáveis e
desinibidos, tendo havido anuência imediata por parte do entrevistador. Só foi feita uma
entrevista por dia para se poder estar à-vontade, sem pressão de tempo, tanto para o
idoso como para o investigador. A demora média para cada uma das entrevistas foi de
duas horas.

Partiu-se depois para a entrevista em si, divida nas duas partes já explicitadas. No final
da entrevista voltou-se a utilizar uma componente de cortesia para proceder ao
encerramento da sessão.

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7.5. Localização do estudo

O estudo realizou-se num lar do centro da cidade do Porto. Foi pedido o consentimento
informado às directoras da instituição que prontamente se mostraram receptivas ao
estudo, uma vez que para elas a questão também as intriga.

O lar é um local acolhedor, de pequenas dimensões, local afável e com boas condições
físicas e humanas. A lotação deste lar é de vinte e cinco camas, com várias salas de
convívio com luz directa, um oratório onde muitos idosos fazem as suas rezas, um
quintal onde os idosos podem passear mas é muito raro uma vez que eles preferem estar
no quarto. Todos os dias tem uma animadora social, dois enfermeiros, nutricionista,
médico e professor de educação física, para além dos funcionários ajudantes do lar.

Sendo um lar privado, com fins lucrativos e com mensalidades de valor elevado, a
população residente situa-se dentro do nível socio-económico mais favorecido.

O principal objectivo desta instituição é procurar o bem estar dos idosos e das sua
famílias garantindo a tranquilidade de ambas as partes. Um outro objectivo do lar é
inserir a família nesta comunidade, garantindo maior inter-relação entre os dois lados.
Promovem-se encontros, festas, palestras, convidando sempre a família para
comparecer.

Apesar da preocupação com o bem estar físico do idoso não existe uma sensibilidade
para o bem estar emocional do idoso e respectivas famílias. Não existe serviço de
psicologia de apoio aos idosos, e há genericamente uma falta de sensibilidade quanto às
questões do foro psicológico.

O estímulo a cada um dos utentes é reduzido, havendo pouca integração na sociedade,


nomeadamente no que diz respeito a visitas a fora da instituição, a integração cultural é
inexistente (não há saídas para o cinema, teatro, ou outros eventos culturais) e mesmo
saídas ao exterior não acontecem com frequência, por falta de acompanhantes.

Existe um horário de visitas que se constitui como um entrave à visita esporádica e


espontânea por parte dos familiares ou amigos.

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7.6. Observações gerais

Nas entrevistas, quase todas as pessoas se apresentavam nervosas, mas com o passar do
tempo as pessoas acabavam por se exprimir livremente, falando das suas vivências sem
grandes problemas. A grande dificuldade encontrada referia-se às lacunas de memória
de alguns idosos relativos a alguns acontecimentos ou pessoas, prendendo-se este facto
com a idade avançada dos entrevistados e com as vivências diferenciadas da época em
que eram mais jovens. A título de exemplo, refere-se o facto de que quase nenhum dos
entrevistados tem uma memória firme sobre os seus avós.

Numa das entrevistas, a utente começou por falar muito agressivamente, tendo mesmo
abandonado a sala. Passado pouco tempo procurou a entrevistadora no mesmo local,
tendo pedido desculpas pelo seu comportamento. Segundo ela, cada vez que falava do
seu passado relembrava-se de uma vida amargurada e de vergonha mas conseguiu
ultrapassar esta fase e respondeu à entrevista. No final da conversa, a idosa transmitiu
um sentimento de grande alívio, porque segundo ela nunca tinha contado a vida dela a
ninguém e só contou desta vez por conhecer a entrevistadora, e dado que os seus filhos
já morreram, não haveria a quebra de uma promessa que em tempo tinha feito aos seus
filhos. Esta reacção por parte da idosa foi importante para, em futuras abordagens aos
idosos, a entrevistadora ter ainda mais em atenção a componente afectiva, e iniciar a
abordagem à entrevista de forma mais indirecta, explicando e sublevando a importância
destes estudos, para o seu bem estar pessoal e de outros idosos.

7.7. Técnicas de análise de dados

Após a organização dos dados efectua-se várias leituras da informação recolhida, a fim
de estabelecer contacto exaustivo com as narrativas dos sujeitos e conhecer o discurso.

Os dados recolhidos passaram a ser tratados de duas formas distintas. Para os casos que
foram mais relevantes e que continham material de interesse realizou-se o estudo de
caso individualizado, procurando-se o enquadramento da vida do idoso no contexto da
vida real. Segundo Yin (1994), o estudo de caso é uma investigação empírica que
investiga um fenómeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real,
especialmente quando os limites entre os fenómenos e o contexto não estão claramente
definidos. A segunda forma de tratamento de dados baseia-se na análise

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multidimensional da informação recolhida depois de tratada pelos métodos da análise de
conteúdo, definidos por Bardin (2004).

Numa das dimensões do estudo de caso segue-se a análise em forma de descrição da


família definida por Mcgoldirk e Gerson (1985), com especial enfoque na estrutura
familiar, ciclo de vida, padrões de repetição, experiências e acontecimentos, padrões de
relação na família e equilíbrios e desequilíbrios familiares, sempre numa abordagem
multigeracional, com as famílias de origem e procriação.

Na análise multidimensional trata-se a informação de uma forma bastante aprofundada,


optando-se por enquadrar a informação numa lógica de categorias, facilitando a
organização sintáctica e significante do conteúdo do discurso. Uma vez encontradas as
principais categorias, passa-se à identificação de um conjunto de subdivisões, que
permitem organizar o discurso, identificando a sua multiplicidade de sentidos e
significações, manifestas e latentes, construindo categorias temáticas que são a base
para a análise dos pontos transversais a vários dos entrevistados.

Para se manter o total anonimato da população alvo do estudo, optou-se por substituir os
nomes dos participantes, lugares e instituições por um conjunto de nomes fictícios ou
descrições que não permitam identificar.

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8. ESTUDOS DE CASO

A análise de casos em detalhe permite uma maior percepção qualitativa do conjunto de


factores individualizados associados ao comportamento humano, estando estes na
génese da explicação de um conjunto de fenómenos e acções desempenhadas pelos
indivíduos e sistemas em que eles se inserem (Bardin, 2004).

Neste capítulo opta-se por apresentar quatro casos individuais, que devido à riqueza de
elementos encontrados, permitem uma boa percepção das causas que levam à
institucionalização e da sua relação com a história psicopatológica das famílias de
procriação e de origem. Poder-se-ia complementar o estudo com a análise
individualizada dos restantes casos, mas achou-se que tal não traria uma mais-valia
efectiva ao presente estudo, já que estes são na sua maioria repetições de factores
encontrados também nestes quatro casos analisados individualmente. De qualquer
forma, na análise subsequente, por análise conjugada dos resultados das doze
entrevistas, serão evidenciados outros aspectos relevantes para este estudo.

8.1. Alcina

A D. Alcina (nome fictício) tem 91 anos de idade, é do sexo feminino, viúva, não andou
na escola mas sabe ler e escrever. Está no lar há cinco anos. Teve 2 filhos um rapaz e
uma rapariga, a rapariga morreu muito nova. Nasceu em 1917, durante a 1ª guerra
mundial, sendo filha de pai desconhecido. A sua vida tem sido marcada por um
conjunto de acontecimentos traumáticos, que podem estar na base da sua personalidade
marcada pela frieza, sofrimento, amargura e revolta. Citando palavras da idosa
rapidamente se pode tentar estabelecer uma relação entre a sua personalidade e a sua
experiência de vida: “A minha vida foi sempre uma tristeza; sofri muito desde
pequenina...”; “… levei muita porrada dos senhores com quem trabalhava…”; “…tive
de ir servir porque a minha mãe, não tinha possibilidades de me dar comida e à minha
irmã…”; “… nunca soubemos o que era ser criança e muito menos brincar, nunca me
lembro de um brinquedo…”.

A morte do marido e a morte prematura dos filhos também lhe provocou muito
sofrimento: “Ainda hoje me sinto angustiada com a morte dela…”;“…Dias depois o
meu filho morreu mais uma culpa no corpo…”. Nesta representação parece que há uma

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noção de culpa pela morte dos filhos. A culpa reside no facto de que, quando a filha
estava doente, a Dª Alcina ter apenas chegado com o seu auxílio quando já não havia
nada a fazer. Em relação ao filho, e uma vez que este teve um enfarte após uma
conversa com a idosa sobre questões financeiras, a Dª Alcina sente que, não tendo
havido essa conversa, o desfecho poderia ter sido diferente.

8.1.1. Estrutura familiar

A análise da estrutura da família sugere uma família disfuncional e pouco estruturada,


constituindo-se como pontos marcantes o desconhecimento do pai, e a vida promíscua
da mãe, com vários parceiros ocasionais. Pelas palavras recolhidas na entrevista pode-se
verificar esta disfuncionalidade: “Nunca conheci o meu pai…”; “…a minha mãe era
uma mulher da vida, por isso nunca nos deu grande atenção…”. Uma das provas da
disfuncionalidade é demonstrada pelo facto de a mãe ter estado envolvida em várias
relações ocasionais da qual resultaram duas filhas de pais desconhecidos.

Ao crescimento no seio de uma família monoparental, que marcou a disfuncionalidade


familiar, junta-se ainda o facto do desconhecimento dos avós “Os meus avós maternos
morreram muito cedo, não os conheci. Se eles estivessem vivos talvez não precisasse de
ir servir com seis anos…”. Pela entrevista conclui-se também que a vivência no seio da
família de origem era reduzida (ausência de tios, primos, etc.), uma vez que a idosa não
deu ênfase a outros familiares que gravitariam à volta da sua infância.

A família descendente é uma família tradicional, notando-se no entanto sinais de


disfuncionalidade ao nível das relações afectivas, com o marido e com os filhos:
“…casei com 17 anos, mas a minha vida não mudou muito: passei muita fome…”;“…
era muito rigoroso e muito ciumento; eu não podia olhar para o lado…”; “Também
tenho de reconhecer que também nuca lhes dei muita atenção… Nem tinha tempo para
pegar neles ao colo.”; “eu nunca lhe dei o devido valor. Nunca falei com ela sobre as
coisas da vida, nunca a ouvi, e nunca lhe dei um carinho que fosse. Fiz exactamente o
mesmo que a minha mãe me fez a mim.”.

O marido emigrou para o Brasil e durante 3 anos não deu resposta. “Esteve lá cerca de
3 anos, só mandou notícias duas ou três vezes, nunca mandou um tostão…”. Este facto
afectou, ainda que transitoriamente, o sistema familiar, levando a um sistema

- 64 -
monoparental temporário, o que pôde ter influência ao nível das tríades dentro da
família de procriação.

8.1.2. Relações familiares

As relações familiares, tanto ao nível da família de origem como da de procriação, são


marcadas por um conjunto de factores que influenciaram a sua infância e adultez. Desde
logo o facto já referido da edução no seio de uma família monoparental, em que o pai é
desconhecido. Malpique (1999) aponta a família monoparental como um factor de risco
para o desenvolvimento. Pode-se inferir que o sentimento de abandono manifestado
pela Dª Alcina é uma consequência da família monoparental em que foi educada. O
sentimento de desconfiança que a Dª Alcina tem perante a vida pode prender-se com a
ausência (neste caso, desconhecimento) do pai. O pai é a figura familiar que, segundo a
mesma autora permite, através da sua acção, a melhor inserção na sociedade. Tudo
indica que a ausência deste progenitor influenciou a forma de estar na sociedade da Dª
Alcina. Também Cordeiro (1997) e Fonseca (2004) afirma que a ausência do pai cria
desorganização da personalidade, o que de facto acontece neste caso, reflectindo-se no
isolamento excessivo da D. Alcina: “Fiquei a morar sozinha na minha casa, não tinha
amigos, nem nunca dei confiança aos vizinhos. Nunca gostei de me meter na vida de
ninguém por isso não queria que ninguém se metesse na minha vida.”.

Junta-se ao desconhecimento do pai, uma mãe ausente, com laços afectivos fracos, não
dando possibilidade a um normal desenvolvimento afectivo familiar, como se pode ver
pela frase da entrevista que refere “Nunca nos deu atenção… a minha, mãe só pensava
no trabalho por isso nunca nos deu um carinho que fosse… era uma pessoa
amargurada”. Erikson (1976) refere a importância da presença da mãe no suporte
básico às actividades do bebé, permitindo desenvolver os traços de personalidade
relacionados com a confiança. Tendo este ponto falhado, pela ausência da mãe, há uma
forte influência na forma de estar da Dª Alcina, já demonstrado pela desconfiança que
sente em relação aos outros, incluindo o próprio filho: “…não queria que ninguém se
metesse na minha vida…”; “Eu só queria saber das minhas coisas, do meu dinheiro que
tinha no banco. Eu tenho direito a saber quanto dinheiro tenho…”. Isto vai também de
encontro ao referido por Sister (1996) que indica que a falta da mãe se manifesta pela
não identidade e pelo desencadear de processos de angústia, o que acontece neste caso.
Já o facto de o pai ser ausente, e a mãe não o referir e fazer dele um segredo, leva a um

- 65 -
estado de fusão, e a uma não diferenciação, constituindo-se a mãe como um factor
patogénico. Isto vai de encontro às teorias freudianas referidas por Figueredo (1985),
Freud (1976) e Malpique (1999), fazendo com que haja uma fraca diferenciação do self,
o que se aplica neste caso ao nível da desconfiança sentida pela família e sociedade em
geral e pelo individualismo excessivo que leva ao não estabelecimento de relações
afectivas, incluindo-se os próprios filhos, como já foi anteriormente demonstrado.

Como forma de fuga da situação desfavorável da família de origem, a Dª Alcina acaba


por se casar cedo, entrando no entanto numa família de procriação também
disfuncional. Sofreu maus tratos do marido devido ao ciúme, sendo a relação marcada
pelo rigor, intolerância e falta de comunicação: “Ele era um homem muito respeitoso,
mas também era muito rigoroso e muito ciumento; eu não podia olhar para o lado, por
isso também sofri muito; não podia usar um pequeno decote ou uma saia mais ousada
que ele tratava-me logo mal.”; “Depois o meu marido regressou e veio voltar a
trabalhar no mesmo sitio onde trabalhava antes. Continuava o mesmo tipo de pessoa,
pouco tolerante e de poucas falas; à mesa com os filhos era muito rigoroso…”. Para
além das relações conflituosas do casal, o clima de intolerância e pouca afectividade
passa também para os filhos.

Neste caso, a família procriação é caracterizada, segundo Tavares (1995) como sendo
rígida, tendo como consequência a fraca identidade familiar de todo o conjunto.
Provocou a revolta por parte dos filhos em relação à mãe, como previsto por Tavares
(1995), apesar de esta ser também uma vítima da situação, mas devido à sua passividade
perante a situação, e não tentativa de mudança acaba por sofrer as consequências do
desmembramento da família. Gimeno (2001) refere exactamente este ponto.

Quanto ao ciúme sentido pela marido, apenas se pode conjecturar qual a sua origem,
que tem a ver com a sua austeridade e sentimento de posse. Figueiredo (1985) diz que o
homem sente humilhação quando a sua mulher é seduzida por outros, pois este facto
revela a sua fraqueza. Sendo o marido austero, o sentimento de fraqueza é algo inadmis-
sível, tendo assim este a necessidade de reprimir o tipo de actos geradores de ciúme.

Pela entrevista nota-se também uma falta de atenção da própria Dª Alcina pelos seus
filhos desculpando-se com a necessidade de trabalhar; “…eu aqui matava-me a
trabalhar para não faltar o essencial aos meus filhos. Também tenho de reconhecer que

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também nuca lhes dei muita atenção porque trabalhava muito, mas nunca os tirei de
casa. Nem tinha tempo para pegar neles ao colo.”. Verifica-se aqui um sentimento de
culpa associado a este facto. Há também um padrão de repetição em relação à família de
origem. Quando seria esperado que a rudeza e ausência de comunicação dos filhos com
o pai obrigasse ao fortalecimento da relação da díade mãe-filho, tal não acontece,
levando a uma pouca identificação dos filhos com a própria mãe e a um padrão de
identidade familiar baseado no isolamento e individualismo, evidenciado pela saída
precoce de casa por parte da filha, logo à primeira oportunidade.

A família, no que diz respeito à sua coesão é desvinculada ao nível mínimo, segundo a
classificação de Olson (1985). As triangulações necessárias a uma família funcional não
existem, e mesmo as díades são disfuncionais, indo de encontro ao referido por Beavers
(1995) que refere este tipo de famílias como centrífugas, em que a principal
característica é o isolamento de cada um dos elementos, a recusa do papel de cuidadores
por parte dos pais, e o favorecimento da emancipação e saída de casa por parte dos
filhos: “A minha mãe também era um a pessoa amargurada, e só pensava no trabalho,
por isso nunca nos deu um carinho que fosse”; “Esteve lá (o marido) cerca de 3 anos,
só mandou notícias duas ou três vezes, nunca mandou um tostão”; “Também tenho de
reconhecer que também nuca lhes dei muita atenção…”;”…à mesa não se falava, não
se podia dar uma palavra…”; “…saiu cedo de casa para casar, ainda que contra a
minha vontade…”. Estes acontecimentos são previsíveis pela teorias da transmissão
multigeracional, sendo uma consequência da família marcadamente disfuncional, que
não contribui para a protecção da integridade pessoal como afirma Gimeno (2001). O
individualismo referido por Fleck (1980), a família desvinculada explicada por Olson
(1985) e Beavers (1995) e que se aplica ao caso da família em estudo, explicam a
aparente fuga como uma consequência esperada para a disfuncionalidade.

Já a família de origem da Dª Alcina tinha os mesmos problemas e as mesmas


características, ou seja, família disfuncional, desvinculada ao nível mínimo e centrífuga:
“Com seis anos fui servir para Aveiro, passava o dia a limpar escadas.”; “Nunca
conheci o meu pai. Fez um filho à minha mãe e desapareceu…”; “A minha mãe também
era uma mulher da vida, por isso nunca nos deu grande atenção; tenho uma irmã que
também não se sabe quem é o pai”; “Nunca soubemos o que era ser criança e muito
menos brincar; nuca me lembro de um brinquedo”. É lícito afirmar-se que se está na
presença de um processo de transmissão multigeracional que segundo Bowen (1978)
- 67 -
atravessa gerações e permite compreender os problemas de gerações actuais com base
nas gerações anteriores. A baixa diferenciação do self era já um problema do passado da
Dª Alcina, resultante da sua família de origem, continuando ao longo da sua vida na
família de procriação, e sendo geradora de disfuncionalidades não saradas e que
levaram ao abandono na sua velhice.

Um acontecimento trágico, a morte da mãe, aumenta o sentimento de culpa da Dª


Alcina. Apesar da proximidade geográfica, o apoio no momento da morte da mãe foi
sentido pela idosa como insuficiente: “…mandava-lhe a comida pelos meus filhos. Um
dia de manhã fui ter com ela e quando a vi ela tinha tido uma queda e estava morta;
não sei bem o que teve mas pelo menos nunca saiu de casa dela como era o seu desejo.
Ainda hoje me sinto culpada por a ter abandonado ao seu destino.”. Acaba por se
concluir que, tendo a relação afectiva na infância sido conturbada, sem identificação
emocional, a Dª Alcina pressente que deverá de alguma forma compensar a situação,
mas não o conseguindo fazer, entra em sentimentos de remorso e culpa.

A díade mãe-filha nunca foi funcional, e não teve qualquer tipo de restabelecimento de
normalidade ou perdão durante toda a vida da mãe. A desgraça inesperada na morte da
mãe é disfuncional e gera sentimentos de culpa, indo de encontro à teoria de Pittman
(1990). A culpa é uma consequência da situação de isolamento a que a mãe foi sujeita
na fase final da sua vida, apesar das desculpas da D. Alcina, e da responsabilização do
marido por mais este facto: “…mas o meu marido não gostava muito dela devido à
maneira como ela levou a vida…”. Ela acaba no entanto por assumir a sua culpa:
“Ainda hoje me sinto culpada por a ter abandonado ao seu destino”. O facto da díade
nunca ter funcionado pode ser explicado por Myrian (2001), que aponta que os pais
devem ser modelos positivos a seguir pelos filhos. Como a mãe da Dª Alcina vivia uma
vida promíscua em relação a homens, nunca se constitui num modelo para a filha.

A morte do marido aos 68 anos acabou por ser um acontecimento encarado com
normalidade do ponto de vista emocional, não tendo tido grandes repercussões no
domínio afectivo. Isto deve-se à relação conflituosa sempre existente entre o casal.
Neste caso, a família restabeleceu naturalmente a relação homeostática, pois os graus de
dependência afectiva eram reduzidos, tal como Christie-Seely (1986) refere.

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Já a morte da filha ainda jovem, logo após à morte do marido, afectou-a
psicologicamente. Ao longo da entrevista há um segredo não revelado sobre a relação
da Dª Alcina com a sua filha, e o seu falecimento parece ter provocado na entrevistada
um novo sentimento de angústia. A investigadora sabe, através de pequenas conversas
informais com outros membros da família, que a saída de casa prematura, por parte da
filha da D. Alcina se deve a uma gravidez indesejada, e que não foi aceite pelos pais.
Citando uma passagem da entrevista a Dª Alcina afirma “…a minha filha também ficou
muito doente, pouco tempo depois do pai morrer; ela era uma pessoa muito fechada e
não contava a ninguém que estava doente; ainda tinha os filhos pequenos. Um dia fui a
casa dela; ela chorava de dores e levei-a para o hospital e detectaram um cancro na
vesícula. Já não saiu de lá viva.”. O segredo não foi referido nem na entrevista nem a
outras pessoas da família, tendo sido descoberto pela nora passados alguns anos. Como
diz Gimeno (2001), o desmantelar de um segredo e a sua divulgação no seio da família,
significa para a díade parental, assumir o seu fracasso como pais, e como tal isso nunca
aconteceu com a Dª Alcina. No entanto, a manutenção deste segredo torna-se penoso
para a entrevistada, constituindo num aspecto disfuncional grave e que acarreta
sentimentos de culpa e desespero. Borine (2008) refere mesmo este aspecto.

Apesar de haver já netos da parte da sua filha, e quando poderia esperar-se um maior
apoio da avó em relação a eles, o que de facto se verifica é o abandono dos netos à sua
sorte, denotando mais uma vez um padrão de repetição intergeracional, que é o
abandono dos infantes por parte dos pais e avós, indo mais uma vez de encontro às
teorias transgeracionais referidas por Bowen (1974), Gimeno (2001) e Minuchin (1974).

O segredo referido na relação com a filha é evidenciado numa acusação da nora, com
quem mantém uma relação conflituosa, e que se pode ver em “A minha nora dizia que
eu era a responsável pela morte da minha filha, dizendo que eu nunca quis saber dela,
e por isso os meus netos por parte da minha filha nunca mais falaram comigo nem
quiseram saber mais de mim. Mas eu gostava muito dela; ainda hoje sofro muito com a
morte dela.”. A relação com os netos aparece também como uma consequência do
segredo existente, como se pode ver na citação anterior. Aqui existem vários segredos,
não sendo perceptível o problema existente com a nora nem o abandono da avó pelos
netos, sendo estes, no entanto, crianças pequenas quando a mãe morreu. A própria
explicação da idosa não é muito profunda ficando tudo no ar como um segredo. Neste
caso, a regra instituída pela Dª Alcina e pelos próprios filhos é a de não revelação do
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passado e da manutenção do mito, indo de encontro ao referido por Tavares (1995), no
que refere os papéis dos membros da família. A situação de ruptura com os netos deve-
se à incapacidade de manutenção do segredo, o que impede a evolução do sistema
familiar, já que este segredo se torna uma prisão. Este mesmo facto é referido por
Gameiro (2004).

8.1.3. Relações sociais

Ao nível da família de origem, o facto de este ser de parcos recursos, obrigou a que a Dª
Alcina tivesse de trabalhar muito cedo, não dando espaço a uma maior intimidade com a
família de origem, e a um processo de maior emaranhamento segundo a definição de
Barnhill (1979). Isto levou também a que a Dª Alcina não pudesse ir à escola, não tendo
assim um substituto à transmissão e integração sólida a nível sócio-cultural que era
insuficiente no seio da família materna.

Citando uma parte da entrevista, é referido que “…levei muita porrada dos senhores
com quem trabalhava porque eu cansava-me muito e tentava descansar pois eu era uma
criança…” Esta experiência vivida na infância, logo após os seis anos de idade, foi
traumática vindo a revelar-se no futuro, o que vai de encontro ao referido por Myers
(1993). Como este autor refere, a violência gera sentimentos de desamparo e pode gerar
sentimentos tão díspares como o medo, a culpa, a raiva que, não podendo ser
manifestados no momento do acto de violência, se transformam em comportamentos
distorcidos, perpetuando-se para gerações seguidas, afectando e alterando, muitas vezes,
a vida social.

A ausência de vivências adequadas ao desenvolvimento da infância, com


disfuncionalidades constantes até à idade adulta, provocou um conjunto de mal-
formações da personalidade. De facto, pela teoria psicossocial de Erikson referida por
Hall et al (2000), é fácil perceber que nos estádios críticos do desenvolvimento da
personalidade, a Dª Alcina nunca teve as condições necessárias para um crescimento
saudável e sereno.

O facto de ter passado pela segunda guerra mundial, um período de fortes carências e
muita fome, parece também ter provocado fortes contrariedades ao nível da relação com
a família, neste caso de procriação. Usando as palavras da entrevistada ela descreve “…
mal casei tive logo os meus filhos. Tive dois e fechei logo as portas. Era tempo de muita
- 70 -
fome, era tempo de guerra, a segunda guerra Mundial. Tirei muito da minha boca para
lhes dar a eles mas nunca os deixei ir servir. Era eu quem costurava todos os dias
centenas de fardas para os soldados levarem para a guerra; Todos os dias às seis da
manhã ia levar a trouxa de roupa, não dormia em toda a noite.”. Gimeno (2001) refere
mesmo o impacto de crises deste tipo nas famílias. O processo de criação de
afectividade com os filhos sai prejudicado pela falta de tempo e pelas questões
relacionadas com a sobrevivência, não tendo sido possível ultrapassar os primeiro e
segundo níveis da pirâmide de Maslow referidas em Maslow (1970), referentes à
satisfação das necessidades fisiológicas e de segurança.

8.1.4. Traços da personalidade

Os traços da personalidade da entrevistada são identificados pela análise de conteúdo da


entrevista e explicados à luz das teorias de desenvolvimento da personalidade
apresentadas na introdução teórica.

Um dos sentimentos recorrentes e que acaba por ser dominante na personalidade da Dª


Alcina é a vergonha. O facto de esta ter vergonha pela vida levada pela mãe e por não
ter conhecido o pai, leva a que toda a família se veja envolvida num assunto tabu:
“…nunca quis contar isto a ninguém; até sinto vergonha. Prometi ao meu filho nunca
contar isto, mas já que é você, e os meus filhos já morreram, estou a contar-lhe, pois
até me sinto aliviada. Por isso já está a imaginar a minha vida.”. Os sentimentos de
vergonha, segundo a teoria de Erikson referida por Hall et al (2000) são fruto do 2º
estádio de evolução da personalidade, sendo desenvolvidos quando não é transmitida
uma ideia clara dos privilégios, obrigações e limitações.

Isolamento e introversão são também traços da sua personalidade. Identifica-se aqui um


padrão de repetição, que passou por todas as mulheres das gerações em análise. Citando
a entrevistada, “A minha mãe morava perto de mim… ela também era uma pessoa muito
fechada, era como eu.”; “…ela (a filha) era uma pessoa muito fechada e não contava a
ninguém que estava doente”; “Eu gostava de viver sozinha com as minhas lembranças.
Gosto de estar no meu canto…”. Hall et al (2000) explicam que este traço é
desenvolvido na 6ª idade, explicando que quando o ego não é suficientemente seguro, a
pessoa irá preferir o isolamento à união. Percebe-se neste caso que o ego é frágil e
inseguro, e por isso a preferência pelo isolamento.

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A culpa, como um traço marcante da personalidade, é notória no sentimento
demonstrado pela morte da mãe e morte dos dois filhos. Esta culpa é um traço marcante
ao longo da vida, podendo ter sido desenvolvido no estádio da 3ª idade, segundo a teoria
de Erikson. Na idade em que a Dª Alcina passava por esta fase, foi notória a falta de
estímulo necessário para apoiar as iniciativas. Aliás, o que acabou por acontecer foi
mesmo um abandono à sua sorte e posteriormente ao mundo do trabalho, com repressão
e com violência por parte dos patrões.

Na última fase do desenvolvimento psicossocial de Erikson, que é o actualmente


atravessado pela Dª Alcina, a conclusão a que se chega é que o traço marcante da
personalidade é o desespero. Este desespero, acompanhado de sentimentos de
sofrimento, amargura e angústia, é o resultado de toda uma vida de disfuncionalidades,
controvérsias e conflitos, e culminaram na decisão de institucionalização da Dª Alcina
por parte dos familiares: “Fiz exactamente o mesmo que a minha mãe me fez a mim…”;
“Hoje ainda me sinto angustiada com a morte dela. Deveria ter percebido antes que ela
estava doente…”; “A minha nora dizia que eu era a responsável pela morte da minha
filha, dizendo que eu nunca quis saber dela, e por isso os meus netos por parte da
minha filha nunca mais falaram comigo nem quiseram saber mais de mim.”; “Os meus
netos não vêm cá pois acham que eu fui culpada pela morte dos pais”.

8.1.5. Comportamento na entrevista

Na primeira abordagem para a entrevista, a Dª Alcina mostrou-se indisponível, tendo


tido uma reacção agressiva e de repulsa face à exposição da sua vida, referindo que a
sua vida era uma tristeza, e que não tinha qualquer interesse em divulgá-la,
abandonando o local de realização da entrevista.

Passadas duas horas regressou, dando a explicação da sua repulsa, e mostrando-se


disponível para a entrevista, uma vez que a promessa de segredo face à vida passada
feita aos filhos deixava de fazer sentido uma vez que estes haviam já falecido.

Ao longo da entrevista a Dª Alcina falou sempre com dureza e com um sentimento de


amargura face à vida e muitas vezes referiu-se de forma de crítica aos modos de vida
actuais, referindo por exemplo o desperdício, poupança, preguiça, etc.. Os bens
materiais foram sempre referidos ao longo da entrevista, notando-se que estes tomavam
uma posição prioritária em relação à componente afectiva.
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Relativamente à morte da filha, e ao acompanhamento dos netos nos tempos seguintes,
a Dª Alcina fez suspense na resposta e acabou por responder evasivamente
relativamente ao facto de não assumir a educação / tratamento dos netos.

8.2. Amândio

Nasceu em 1929 no seio de uma família de muitas posses. Os pais tiveram sempre uma
postura rígida e pouco afectiva em relação aos filhos, sendo a relação baseada na
subserviência e não no afecto. Casou-se e teve oito filhos. O casamento acaba após a
traição e abandono da esposa, tendo esta abalado para o Brasil com os filhos menores.

8.2.1. Estrutura familiar

A sua família de origem é marcada por ser uma família tradicional, burguesa, tendo uma
dimensão reduzida. Para além do Sr. Amândio, a família nuclear é constituída pelos
progenitores e por uma irmã, não havendo referências a um espectro mais alargado, por
exemplo tios ou primos.

A família nuclear de procriação é extensa, com oito filhos, e apresentou sintomas de


disfuncionalidade ao longo do tempo, tendo mesmo culminado numa separação, e numa
descontinuidade de contacto com os descendentes. A marcação da disfuncionalidade da
família levou à completa perda e desorganização do sistema familiar, tal como indicado
por Minuchin (1990).

8.2.2. Relações familiares

A família de origem é marcada pela dureza de carácter do pai e pela incapacidade da


mãe se sobrepor à sua rudeza. Este tipo de família provocou mal-estar nos filhos, como
o próprio Sr. Amândio refere: “O meu pai era um homem rude, a minha mãe também
não era melhor, por isso já pode imaginar a minha vida de criança...”; “Ele sempre me
tratou mal, a mim e à minha irmã. Fazia connosco o que fazia com as empregadas dele
da fábrica. Por isso, no trabalho não era melhor. Trabalhava com o meu pai mas
estava farto...”. A afirmação do Sr. Amândio, em que se queixa da família indica a falta
do sentimento de pertença que permita uma ligação entre os membros da família, i.e., a
satisfação das necessidades fusionais. Isto vai de encontro a Sampaio e Gameiro (2004).

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A família rígida vai de encontro ao referido por Tavares (1995). Mantêm-se as regras
sem possibilidade de alteração, ao longos dos tempos, sem olhar à mudança da estrutura
familiar. A autoridade neste caso é exercida pelo pai, sendo a mãe submissa. Trata-se de
uma família aglutinada onde não é permitida a existência de um espaço que desenvolva
a individualidade de cada membro, tratando-se então de uma família disfuncional na
medida em que não delimita claramente os laços afectivos da individualidade, não
permitindo que cada membro desenvolva as suas capacidades, confirmando Minuchin e
Fishman (2003). Esta rigidez e aglutinação são claramente visíveis na entrevista: “Ele
sempre me tratou mal, a mim e à minha irmã…”; “O meu pai era um homem rude, a
minha mãe também não era melhor, por isso já pode imaginar a minha vida de
criança…”; “Trabalhava com o meu pai mas estava farto, estava à espera de uma
oportunidade melhor para sair daquele trabalho e ir governar a vida”; “O meu pai
queria a todo o custo que eu fosse trabalhar com ele numa fábrica de confecções que
ele tinha.”

Uma vez que as díades mãe-filho e pai-filho eram disfuncionais, houve uma procura de
triangulação com a irmã, tendo-se aqui estabelecido uma relação de cumplicidade e
confidência: “O que valia era a minha irmã, porque éramos muito amigos e
protegíamo-nos um ao outro. Contávamos tudo um ao outro”. Esta triangulação
esperada vai de encontro a Gimeno (2001) sendo a díade fraternal uma das mais
normais quando há conflitos com os pais, ou rigidez e disfuncionalidade imposta pelo
sistema parental. Segundo o mesmo autor, esta díade é também recorrente devido à
aproximação das idades e ao facto de os irmãos partilharem um conjunto de funções,
desempenhando o mesmo papel no seio da família. Entre ambos fortaleceram assim os
laços afectivos, e sentimentos de pertença e uma maior cumplicidade e compreensão.
Poder-se-á também inferir sobre a irmã como substituta da mãe no complexo edipiano
não resolvido, tal como afirma Figueiredo (1985), Freud (1976) e Malpique (1999).

Aos vinte e três anos acabou por se casar e resultaram desse casamento oito filhos.
Segundo palavras do entrevistado: “Namorei e com 23 anos casei…”; “A minha esposa
era brasileira. Nós éramos muito devotos e andávamos numa igreja, fazíamos parte
dela”; “Nasceram os nossos oito filhos e cresceram, também com essa educação…”.
Nota-se aqui um apego à vida espiritual, e uma educação ao filhos dentro de uma regra.
Há uma preocupação por parte do Sr. Amândio em instituir um equilíbrio no seio da sua
família, que consegue através da religião e da aplicação das regras morais da igreja
- 74 -
cristã na educação dos filhos. Minuchin (1990) aponta a importância da definição de
regras no sentido de se conseguir a harmonia familiar.

Esta harmonia só parece ter sido afectada com uma crise familiar estrutural, que
culminou na separação, após um acontecimento da “traição” por parte da esposa com o
padre. Refere o Sr. Amândio na entrevista: “Quem nos dava o curso era um padre
bastante novo, com o passar do tempo vim a descobrir que a minha mulher tinha um
caso com ele, já há muitos anos. Nem sei sequer se os meus filhos são realmente
meus.”. Este acontecimento levou a uma crise familiar, estando esta associada ao
desenvolvimento (Pittman, 1990). Segundo Gimeno (2001) são crises previsíveis e
incluem mudanças na estrutura familiar, o que de facto aconteceu. A separação é o
resultado da humilhação sentida quando a mulher que lhe pertence é seduzida por outro,
explicando-se este facto pelas teorias que referem o ciúme (Figueiredo, 1985).

A esposa vai para o Brasil com os cinco filhos menores, sendo este ponto referido na
entrevista: “…a minha esposa pegou nos cinco filhos mais novos e foram todos para o
Brasil.”. Passa então a haver uma ausência de contacto com os filhos, por rejeição do
Sr. Amândio. A família de procriação fica totalmente desintegrada, passando a
constituir-se duas famílias monoparentais, a do Sr. Amândio e a da sua esposa.
Minuchin (1990) aponta o equilíbrio homeostático, que neste caso é completamente
posto em causa pois o papel de pai foi alterado e entrou em conflito directo com o outro
membro da família, neste caso a mãe.

Este acontecimento gerou mudança, contribuindo para o total desmembramento e


afastamento da família, indo de encontro ao referido por Gimeno (2001). A partir daqui,
os modos de vida mudam completamente, e aquilo que era uma família à procura da
libertação espiritual deixou de existir. Para tal pode também ter contribuído também o
facto de a traição ser com um padre, que era o portador das regras que o Sr. Amândio
queria incutir na família: “Na altura fiquei mesmo mal. Traído, e logo com um padre.”.

Após o desmembramento familiar, o Sr. Amândio procura consolo e substituição da


esposa através de bens materiais e vida mundana (mulheres, carros e relógios).
Contrariou todas as regras impostas pela religião que até então seguia e usava como
modelo para os filhos, talvez pelo facto de o amante da mulher ser padre. Citando uma
passagem da entrevista percebe-se rapidamente este facto: “Não quis saber mais de uma

- 75 -
mulher só e comecei a coleccionar mulheres, automóveis e relógios”. Esta substituição
dos afectos pela componente económica vai de encontro a Pimentel (2005).

O descontrolo vivido faz com que um novo acontecimento trágico se verifique. As


empresas do pai, administradas pelo Sr. Amândio, acabam por falir. O pai sempre o
obrigou a trabalhar com ele, coisa que ele nunca gostou no entanto também nunca saiu
da empresa até que, ela foi à falência. Refere o entrevistado: “Mais tarde quis entrar de
sócio na empresa dele, mas depressa a fábrica do meu pai foi à falência”; “O meu pai
perdeu tudo, penso que muita da culpa foi minha. Eu nunca tive jeito para trabalhar,
mas o meu pai obrigou-me…”. Esta desgraça inesperada cria um sentimento de
auto-culpabilização, de acordo com a teoria de Pittman (1990).

Logo após a falência da empresa, o pai acaba por morrer: “O meu pai ficou sem nada e
com o desgosto morreu logo de seguida…”, havendo em seguida uma aproximação com
a mãe “…a relação com a minha mãe já era melhor; já nos entendíamos melhor, já não
entrávamos tanto em conflito…”; “Enquanto o meu pai era vivo, a minha só lhe podia
ligar a ele, e esquecia-se dos filhos…”. Por um lado há o sentimento de culpa associado
à morte do pai, e por outro um regresso à infância, e uma aproximação da mãe. Pode-se
falar aqui do complexo de Édipo, que foi reprimido na infância devido à rigidez do pai.
Neste preciso momento, após a morte do pai, é então retomado o sentimento escondido
de desejo pela mãe. Ficou no entanto a faltar uma das partes da resolução deste
complexo, que é o perdão e o reencontro com o pai. Estes factos vão todos de encontro
às teorias freudianas referidas por Malpique (1998).

Entretanto procura uma nova profissão, associada às arte do culto “A Bruxaria”.


Quando o Sr. Amândio se viu perdido no mundo arranjou uma forma de vida em que
tinha como principal objectivo fazer mal às pessoas e tentar ganhar dinheiro de uma
forma simples. Citando as suas palavras: “…dediquei-me mais que nunca à bruxaria e à
lida das mãos”; “…enchi-me de dinheiro… fiz grande fortuna”; “…fiz muito mal. Por
isso é que eu estou aqui agora e neste sofrimento”. Nota-se que ele estava revoltado
com a sua própria pessoa e com tudo o que o rodeava. De facto, indo de encontro à
teoria de Erikson apontada por Hall et al (2000), no estádio da definição de Intimidade
vs Isolamento, após a fuga da esposa, o Sr. Amândio opta pelo isolamento, e pela
vingança, transpondo para a sociedade em geral os problemas que ocorreram consigo no

- 76 -
passado. Isto indica uma baixa diferenciação do self, com incapacidade de distinguir o
racional do emocional, tal como refere Bowen (1978).

Pode-se ver concretamente que os acontecimentos familiares alteraram o curso da


família. Neste caso, e indo de encontro a Gimeno (2001), os acontecimentos familiares
parecem influenciar em grande parte a forma de estar e o ciclo da vida, sendo pontos
fulcrais que podem alterar completamente o curso de uma vida de uma determinada
família. Estes acontecimentos dolorosos são geradores de mudança, contribuindo neste
caso a um desmembramento e seu afastamento.

Os contactos com os filhos passaram a ser cada vez mais esporádicos, pois estes teriam
vergonha da profissão do pai: “Os meus filhos por vezes visitavam-me mas tinham
vergonha da minha profissão.”. Este desinteresse pelos filhos aponta para uma família
totalmente desagregada que segundo Minuchin e Fishman (2003) faz com que estas
famílias tenham um individualismo excessivo, não permitindo qualquer tipo de
afectividade, afastando assim o conjunto familiar, tanto por parte dos pais como por
parte dos filhos. Este ponto é fulcral pois está na origem da decisão de
institucionalização por parte dos filhos, o que parece ser confirmado pelas poucas
visitas que eles fazem actualmente ao pai: “Os meus filhos têm a família deles, vêm cá
poucas vezes…”.

Após um problema de saúde grave (um tumor cerebral) e tendo em conta todo o passado
familiar, o Sr. Amândio acaba por ser institucionalizado no lar. Pelas palavras dele,
entra agora dentro de um tempo de reflexão, tendo ele a consciência que se deve tornar
mais humano, e abandonar o narcisismo e a petulância, e estes factos são referidos por
Gimeno (2001). Parece também notório o sentimento de arrependimento e
auto-culpabilização do Sr. Amândio, chegando mesmo a assumir a culpa da separação
da mulher e do abandono desta pelos filhos. Pelas palavras dele, quase no final da
entrevista reconhece-se o estado de desespero previsto pela teoria psicossocial de
Erikson: “…porque sei que não fui um grande pai, pelo menos a partir em que a mãe
deles nos deixou, a mim e a eles. Porque se ela na altura me procurava e me explicava
o que se tinha passado, eu tinha-lhe perdoado, e talvez a minha vida fosse diferente.”.

- 77 -
8.2.3. Relações sociais

A importância da vida em sociedade reflectiu-se, no caso do Sr. Amândio, numa


aquisição de cultura acima da média. O facto de ter estudado até ao 7º ano do Liceu
deu-lhe uma bagagem cultural e de vida em sociedade que não conseguiria adquirir
apenas no seio da família, tendo nalguns casos a sociedade sido o pilar de triangulação
para quando a família apresentou a sua disfuncionalidade. Neste caso, indo de encontro
ao referido por Rosa e Lapointe (2002), o meio conseguiu moldar a personalidade do
indivíduo, sobrepondo-se a limitações familiares e constituindo-se num pilar importante
para a formação do eu.

8.2.4. Traços da personalidade

Ao longo da sua vida, e apesar de um conjunto de disfuncionalidades, o Sr. Amândio


conseguiu desenvolver um conjunto de traços da personalidade que hoje o caracterizam
e que ele próprio reconhece em si próprio. Dado que ao longo de toda a sua vida sofreu
influências da família, mas também do meio social, tendo estudado durante vários anos,
até ao 7º ano do Liceu, alguns dos traços da sua personalidade são compensados por
este facto, indo além das relações familiares.

Um ponto que parece marcar a sua personalidade é o sentimento de culpa. Aqui


vincam-se os pontos em que, na 3ª idade de Erikson referida por Hall et al (2000), a
repressão do pai pode induzir na criança um sentimento de culpa por tudo o que
acontece de negativo. Este sentimento acompanhou o Sr. Amândio ao longo da vida, em
diferentes situações: no abandono da mulher, na falência do pai, na morte do pai e no
abandono dos filhos.

O isolamento a que está votada a personalidade é uma característica desenvolvida após


a separação da mulher. Neste caso, ele encontra em toda a sociedade um prolongamento
de tudo o que de mal aconteceu no seu seio familiar, recusando-se assim a entrar em
relações de intimidade. Este tipo de personalidade leva-o a desrespeitar os outros,
incluindo a sua própria família descendente, levando a um isolamento e à consequência
da institucionalização: “Não quis saber mais de uma mulher só e comecei a coleccionar
mulheres, automóveis e relógios.”; “Os outros filhos nunca mais soube deles, também
nunca me procuraram pois dinheiro era o que eu tinha de sobra. Mas também nunca fui

- 78 -
ao Brasil à procura deles.”; “…sei que não fui um grande pai, pelo menos a partir em
que a mãe deles nos deixou”; “Gosto de estar sozinho no meu quarto. Tem de estar
sempre escuro, não gosto da luz…”; “Estou a pagar o que fiz de mal a muitas pessoas”.

8.2.5. Comportamento na entrevista

Ao longo da entrevista, o Sr. Amândio mostrou-se sempre frio e distante dos


acontecimentos narrados. Fez questão que a entrevista decorresse no seu quarto,
seguindo as suas regras, conduzindo os temas de acordo com o seu interesse, não se
desviando do caminho que ele próprio delineou.

Ao falar da vida com a sua mulher, antes da traição, notou-se um tom de voz doce e
suave, percebendo-se um sentimento de saudade e felicidade aparente. Com o avançar
da conversa, e na fase pós separação, notou-se uma mudança de discurso, endurecendo
as palavras, demonstrando desprezo pela sociedade, notando-se o assumir de uma
postura fria e calculista.

8.3. Gorete

A D. Gorete nasceu em 1920, sendo originária de um meio rural em que imperavam as


graves dificuldades económicas. Devido a este facto, trabalhou desde muito nova,
saindo de casa dos pais com tenra idade. Casou-se muito cedo, tendo estado envolvida
num conjunto de disfuncionalidades que envolviam violência doméstica e alcoolismo, e
que se veio a transformar numa história de abandono dos filhos pelos pais, e
posteriormente no abandono da mãe pelos filhos e respectiva institucionalização.

8.3.1. Estrutura familiar

A família de origem da D. Gorete é uma família tradicional, com um núcleo completo


constituído por pai, mãe e dois irmãos mais novos. A família de procriação é também
tradicional, mas com a morte do marido muito cedo transforma-se numa família
monoparental disfuncional.

- 79 -
8.3.2. Relações familiares

A família de origem da D. Gorete é marcada pela disfuncionalidade ao nível da


confusão de papéis. Como ela própria refere, o desleixo dos pais por não a terem
obrigado a estudar era um sintoma desta disfuncionalidade: “Olhe não estudei por
preguiça. Não quis, nunca me apeteceu. O meu pai também nunca quis saber porque se
fosse outro eu não tinha quereres. Mesmo a minha mãe também não ligava nada, só
queria era beber.”. Nota-se a inexistência de regras familiares, que se reflectem num
completo desequilíbrio do sistema familiar, como apontado por Tavares (1995). O pai
neste caso é uma pessoa que não assume o seu papel de educador e a mãe envolve-se no
alcoolismo. Myrian (2001) diz que os pais devem ser pessoas confiáveis, que mostrem
modelos de identificação positivos, que favoreçam na criança um sentimento de
competência, acontecendo neste caso precisamente o contrário.

A família de origem é assim caracterizada por ser desagregada ao nível mínimo, que
leva a um individualismo excessivo, que se reflecte na postura perante os problemas e
vivências em sociedade, tal como refere Minuchin e Fishman (2003). Esta mesma
categorização, por Olson (1985) coloca a família de origem da D. Gorete como a que
menos coesão tem, não havendo quaisquer laços afectivos que se sobreponham aos
sentimentos individuais.

Aos catorze anos, a D. Gorete decide sair de casa e ir morar para o Porto, indo servir
para uma casa: “Tinha 14 anos e não gostava da vida do campo, então vim ter com
umas primas que moravam no Porto. Também já estava farta de aturar a minha mãe,
que andava sempre com os copos. O meu pai nem ligada a nada.”, refere ela na
entrevista, notando-se aqui uma negação da sua origem geografia e da sua família da
origem. Esta negação da família é natural, pois nunca a D. Gorete encontrou na sua
família um espaço de protecção da sua integridade pessoal (Gimeno, 2001). Analisando
também a família do ponto de vista da disfuncionalidade segundo Barnhill (1979)
rapidamente se conclui que toda a caracterização da família aponta para a
disfuncionalidade. Está-se perante uma família em que impera o isolamento, a excessiva
flexibilidade, a desorganização, a confusão, a indefinição ou falta de aceitação dos
papéis de progenitores, e uma má estrutura dos papéis: “Eu é que tinha de tomar conta
dos meus irmãos, e eu era apenas uma criança…”. Esta disfuncionalidade leva à fuga
como forma de lidar com a crise familiar (Pittman, 1990).

- 80 -
Todas estas disfuncionalidades tiveram um efeito drástico na formação da personalidade
da D. Gorete, tornando-a numa pessoa com dificuldades na difereciação do self, pouco
autónoma e sem capacidades de iniciativa. Esta mesma personalidade veio a reflectir-se
na forma como decide aceitar um casamento, mais por interesse do que por afecto: “Ele
prometeu-me que se eu fosse para Mondim casava comigo e não precisava de servir
mais na casa de ninguém. E assim foi, namorei e depois casei.”. Nota-se aqui um
assumir da inferioridade e uma intimidade forçada, que só trará problemas já que uma
identidade mal definida irá ser anulada e ameaçada numa fase de união, como afirma
Hall et al (2000). A cedência começa logo pela aceitação de ir morar de novo para o
local de onde tinha saído por opção, algum tempo antes.

Após o casamento, e uma permanência de algum tempo da sua terra natal, nascem
quatro filhos do casal. Numa identidade mal resolvida, a D. Gorete convence o marido a
mudarem-se para o Porto, por não gostar de Mondim: “Então, consegui convencer o
meu marido a vir viver para o Porto. Fomos os dois trabalhar nas descargas de
bacalhau em Leixões.”. Esta mudança na família provocou disfunções ao nível do
marido, passando este a embrenhar-se no álcool, na preguiça e a dar maus-tratos à
família: “Mas com o passar do tempo o meu marido começou a beber e eu comecei a
ter um trabalho de escrava, pois ele foi despedido, passava o dia a preguiçar na tasca,
e eu tinha de tomar conta dos nossos filhos e de trabalhar para todos”. Este factor
levou a mudanças funcionais, estruturais às quais a família não teve capacidade de se
adaptar (Gimeno, 2001). Associaram-se-lhe imediatamente os factores de natureza
económica, pois o facto de a família passar a depender apenas dos rendimentos do
trabalho da D. Gorete levantou questões sérias na sobrevivência da família. Mais uma
vez, esta carência económica vai reflectir-se na forma como a família se comporta como
um todo: há uma menor envolvência afectiva, confirmando Gimeno (2001).

O alcoolismo do marido acabou por se transformar num constrangimento sério ao


regular desenvolvimento da família, como refere a entrevistada: “…o meu marido
começou a beber e eu comecei a ter trabalho de escrava, pois ele foi despedido e eu
tinha de tomar conta dos filhos…”. A instabilidade da díade conjugal gerou nos filhos
sentimentos de revolta, levando a que estes procurassem entre si a confidência e
libertação da pressão gerada, confirmando Relvas (2003). O subsistema fraternal sai
fortalecido, como refere Gimeno (2001): “…eles lá tomavam conta uns dos outros, que
eles entendiam-se muito bem, e ainda hoje são muito unidos…”. Note-se no entanto que
- 81 -
com esta disfunção a família entra em ruptura completa. A complementaridade entre pai
e mãe, abordada por Sister (1996) deixa de existir, fazendo com que o bem estar
psíquico dos filhos seja posto em causa. Se numa fase inicial a mãe poderia ser o pilar
afectivo e emocional da família em ruptura, tal veio a ser completamente impossível
quando, a D. Gorete não aguentando a pressão, entra também no mundo do álcool, e
deixa toda a família órfã de pai e mãe. Como referido em Civitas (2003), nenhuma das
partes (pai e mãe) são prescindíveis para o crescimento dos filhos. Neste caso, falharam
as duas: “…os filhos levaram muito má vida por causa do pai, ele batia-lhes muito. Eu
levava e calava, mas os filhos mal puderam saíram todos de casa.”; “Na altura em que
ele me batia muito eu também comecei a beber e os meus filhos ficaram
traumatizados.”

A família deixou assim de ser o espaço de protecção da integridade pessoal dos filhos,
vindo mesmo a transformar-se no carrasco do desenvolvimento psíquico de todo um
conjunto de infantes. As consequências foram a saída prematura de casa por parte dos
filhos, como forma de fuga à instabilidade familiar: “…mal puderam saíram todos de
casa.”. Esta família não teve a capacidade de se reestruturar à volta de uma crise, não
sendo capaz de se transformar num espaço de apoio a todos os seus elementos
(Gameiro, 2001). As trocas intergeracionais, sugeridas por Fernandes (2001), são neste
caso trocas culturais que sugerem desleixo, desarticulação e alcoolismo por parte de
duas gerações consecutivas, em que nenhum dos membros assumiu o papel de pilar
psicológico da família.

O marido acaba por morrer aos 31 anos de idade, sendo esta morte sentida como um
alívio por parte da entrevistada. Se o casamento, como referido, foi meramente
instrumental, parece que a morte acabou por ser o alívio para um instrumento ineficaz.
A afectividade nunca existiu, e as características de uma família saudável, referidas por
Barnhill (1979) e Fleck (1980), também nunca estiveram presentes, o que justifica por si
só o total desmembramento.

O total abandono a que foi votada pelos filhos, com a sua precipitada saída de casa logo
que conseguiram manter a sua autonomia económica, são os sintomas de uma família
com fraco nível de coesão, e centrífuga, segundo a definição de Beavers (1995).

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Numa análise intergeracional são por demais as evidências existentes entre as várias
gerações. A família de origem da D. Gorete era marcada por um pai omisso e uma mãe
alcoólica. A família de procriação veio a ter exactamente os mesmos problemas. A filha
mais velha da D. Gorete, que saiu de casa cedo procurando um casamento ainda jovem,
teve também um casamento mal sucedido, sendo vítima de maus-tratos. Todas estas
coincidências são explicadas pelas teorias transgeracionais apontadas por Sampaio e
Gameiro (1998). O processo de diferenciação do self, neste caso fraco, atravessou as
várias gerações, sendo uma constante em vários elementos da família, indo de encontro
ao defendido por Bowen (1978).

Apontando as características de uma família saudável defendidas por Whitaker (1981)


rapidamente se conclui que a família da D. Gorete, quer a de origem, quer a de
procriação, não possui nenhuma das características típicas de uma família saudável, o
que explica os comportamentos das gerações sucessivas e o isolamento a que a D.
Gorete é votada na sua velhice e consequente institucionalização no lar. Após uma
doença, cirurgia e hospitalização nenhum dos filhos aceitou a mãe em casa: “A
assistência social falou com as minha filhas para tomarem conta de mim mas elas
disseram que não podiam…a solução era de me colocar num lar…”. A D. Gorete pensa
que os filhos tinham as condições necessárias para tomar conta dela, já que até
economicamente a situação é desfavorável, pelos valores dispendidos por cada um
deles. “Eu sei que as minhas filhas dão cinquenta contos cada uma para eu estar aqui.
Com esse dinheiro eu arranjava alguém que me ajudasse em casa…”; “Eu sei que não
fui boa mãe mas fui eu que os pari e os sustentei. Dei tudo de mim quando eles eram
pequenos, agora eles têm o dever de olhar por mim.”. O isolamento é confirmado pela
quase inexistência de visitas: “A minha filha mais velha vem cá poucas vezes, e é
sempre a correr”;”…do resto, não vem mais ninguém.”.

8.3.3. Relações sociais

Traçando a perspectiva da integração social da D. Gorete e respectiva família


rapidamente se conclui que a sociedade não foi um pilar que pudesse substituir as
disfuncionalidades a que a família estava votada. De facto, a decisão de não estudar e o
isolamento da sociedade ao longo de toda a vida constituíram-se como entraves a uma
maior abertura e correcção de pontos negativos da família. O alcoolismo contribuiu
ainda mais para uma rejeição social, agudizando um problema já de si evidente. Na

- 83 -
óptica do sistema familiar definido por Christie-Seely (1986), e na capacidade de
interacção com o meio, o facto do isolamento cria ainda mais dependências ao nível da
capacidade da auto-regulação da família.

8.3.4. Traços da personalidade

Parecem por demais evidentes os traços da personalidade da D. Gorete: uma pessoa cuja
vida se baseia na desconfiança de si própria e dos outros, baseada na vergonha de quem
é e das suas origens, com fortes sentimentos de inferioridade reflectidos na forma como
se auto-vitima e acusa os outros de todas as desgraças ocorridas: “…fui eu que os pari e
os sustentei. Dei tudo de mim quando eles eram pequenos, agora eles têm o dever de
olhar por mim…”; “Não quis, nunca me apeteceu. O meu pai também nunca quis saber
porque se fosse outro eu não tinha quereres”; “Comecei a ter um trabalho de escrava,
pois ele foi despedido.”; “Na altura em que ele me batia muito eu também comecei a
beber…”. A D. Gorete acabou por desenvolver uma identidade confusa que é visível
pelo facto de andar sempre indecisa, por exemplo, entre gostar ou não do campo, querer
ou não querer casar, entrar no mundo do álcool e culpar o marido por isso.. A sua vida
na velhice é caracterizada pelo desespero perante a morte, com fortes sentimentos de
culpa perante as decisões da vida passada. Todos estes traços são os esperados para
quem teve as lacunas familiares expostas anteriormente, indo completamente de
encontro à teoria de Erikson (Hall et al, 2000).

Como prova dos remorsos sentidos diz a frase proferida no decorrer da entrevista: “Não
fui grande mãe porque eu nunca deveria ter começado a beber, pois assim os meus
filhos não tinham ninguém em quem se apoiar. Hoje sinto remorsos da vida que dei aos
meus filhos, mas não posso voltar atrás e nem agora eu lhes posso cobrar o amor, pois
isso eles não têm para me dar.”.

8.3.5. Comportamento na entrevista

Ao longo da entrevista o sentimento mais patente por parte da D. Gorete acabou por ser
a amargura que sente perante a vida e a tristeza com que conta a sua história. Vê na
morte a solução para todos os males e na institucionalização o castigo justo para quem
não cumpriu com as suas obrigações.

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Mostrou sempre um comportamento agressivo e rude para a entrevistadora, com
respostas curtas e sem valor sentimental, tentando culpabilizar a época em que viveu, a
pobreza e o marido por todos os males que lhe aconteceram.

8.4. Anunciação

A D. Anunciação (nome fictício) tem 83 anos de idade, é do sexo feminino e viúva. Fez
a 2ª classe na escola. Está no lar há um ano. Após a data de nascimento em 1925, viveu
a sua infância no Brasil. Os pais eram emigrantes, pessoas ricas que de repente faliram.
Com muitas dívidas tiveram de voltar a Portugal e recomeçar tudo de novo mas não
conseguiram “dar a volta por cima”. O pai ao longo do tempo tornou-se alcoólico e a
mãe, sozinha, trabalhava para sustentar a casa. A sua vida foi marcada pelo trabalho que
teve de fazer desde muito nova. O seu irmão começou com o vício do jogo
constituindo-se este num grande desgosto para a família. Mais tarde casou com um
marido que não lhe deu vida fácil. Para além de a trair, morreu cedo de acidente de
aviação, deixando-a com três filhos ainda pequenos, entre os 9 e os 18 anos, para criar.

8.4.1. Estrutura familiar

A família ascendente é do tipo tradicional, com todo o núcleo bem constituído, sendo no
entanto de número reduzido no que diz respeito aos seus elementos, sendo constituída
pelos pais, a D. Anunciação e dois irmãos mais novos.

Também a família de procriação é tradicional, tendo um número de elementos


considerável no que diz respeito aos filhos, que neste caso são quatro: três do sexo
feminino e um do sexo masculino.

8.4.2. Relações familiares

A família de origem da D. Anunciação é marcada pela disfuncionalidade imposta pelo


pai que perante situação económica adversa se entregou ao alcoolismo. Esta é uma
referência ao longo da entrevista da D. Anunciação: “No Brasil o meu pai trabalhava no
café; eram pessoas muito endinheiradas mas quando ele deixou de dar, o meu pai veio
para Portugal. Pelo o que eu percebi na altura ele ficou com muitas dívidas e não
conseguiu pagar…”; “…o meu pai começou a ter o vício do álcool e tornou-se um

- 85 -
malandro, mas a minha mãe trabalhava muito e ajudou o meu irmão do meio a tirar um
curso comercial…”.

Este acontecimento adverso, relacionado com a falência e dificuldade económica,


obrigou a família a reestruturar-se. Não só houve a necessidade de mudança geográfica,
como também uma nova necessidade a nível do trabalho e da vida dos filhos, que
embora pequenos, passam a olhar para o passado como um assunto proibido e causador
de grande sofrimento, como se sente na frase da entrevistada que refere “…ficou com
muitas dívidas e não conseguiu pagar, mas nunca percebi muito bem a história, pois
quando se abordava o tema toda a gente chorava e ficava muito triste.”. Gimeno (2001)
refere mesmo que numa situação de crise a família pode destabilizar-se, e surge a
necessidade de mudanças e reestruturações, que foi o que aconteceu neste caso.
Também Hoffman (1994) referido em Sampaio e Gameiro (2004) aponta as crises como
factores que alteram o ciclo de vida das famílias, e que são capazes de obrigar a
restabelecimento de funcionamento da família. Neste caso, com a vinda do Brasil, o pai
teve de trabalhar como sapateiro, e não tendo a capacidade plena de adaptação à nova
vida acaba por entrar dentro de um mundo de alcoolismo, o que contribui ainda mais
para o desequilíbrio da família.

Com a entrada no mundo do álcool, e a demissão do seu papel de pai, gera-se uma
instabilidade das díades conjugais, que compromete o sucesso da família como um todo.
Os filhos passam a ser o triângulo da mãe, tal como previsto por Relvas (2003): “O meu
pai começou a ter o vício do álcool e tornou-se um malandro”. No entanto, o papel de
pai foi fortemente afectado, passando os filhos a não ter a estabilidade necessária ao
nível do progenitores. Este estado de contra-modelo em que o pai se transforma,
contribui também negativamente para a formação da identidade dos filhos, pois a
definição de regras passa a não ser clara, e deixa de haver um modelo a seguir: “O meu
pai, com o vinho, e com o desgosto do meu irmão, foi como se tivesse morrido, ninguém
contava com ele para nada.”, confirmando Balancho (2005) , Myrian (2001) e
Malpique (1998). Como refere Malpique (1998), o pai contribui activamente para a
formação da psique dos filhos, sendo uma figura incontornável no que se refere à
influência da capacidade de inserção em sociedade. Esta é uma das características que
acompanha a D. Anunciação ao longo de toda a vida, i.e., incapacidade de um
relacionamento saudável com a sociedade no seu todo.

- 86 -
Um dos factores ao nível social considerado traumático para o funcionamento de toda a
família é também o facto de o irmão mais novo ter enveredado por uma vida de vício,
ao nível do jogo. Malpique (1998) aponta o pai como o homem que desempenha a
função de educar uma criança, transmitindo disciplina, conhecimentos e educação. Com
o alcoolismo do pai, esta função foi afectada, constituindo-se num factor que poderá ter
contribuído para a disfuncionalidade do irmão da D. Anunciação. Neste caso, o irmão
enveredou por um comportamento desviante, que poderá ter sido fruto desta
adversidade. Esta ausência de pai parece ter levado a que a D. Anunciação passasse a ter
uma vida triste, amargurada e com maior propensão para sintomas depressivos, o que é
confirmado por Chouhy (2005).

A partir da fase disfuncional do pai, a mãe passou a constituir-se como o pilar da


família, tendo no entanto uma função de resolução da crise familiar instalada. A
prioridade máxima passou a satisfação das necessidades humanas básicas definidas pela
pirâmide de Maslow (1970), ficando para segundo plano as necessidades sociais, que
incluem toda a componente afectiva: “…mas a minha mãe trabalhava muito e ajudou o
meu irmão do meio a tirar um curso comercial.”; “Não tínhamos tempo sequer para ir
ao jardim passear, nem para ir às festas.”. Passou também a ser prioritária a resolução
do problema do irmão da D. Anunciação que entrou no mundo do jogo. Isto gerou na
família um sentimento de ainda maior instabilidade, e de crise familiar, sendo este o
sintoma mais evidente da disfuncionalidade e desorganização do sistema familiar, tal
como indica Minuchin (1990).

Mais tarde, a D. Anunciação acaba por se casar tendo quatro filhos (3 raparigas e 1
rapaz). O casamento foi marcado pela disfuncionalidade imposta pelo marido, pelo
facto de este praticar o adultério, sendo no entanto esta “traição” consentida e mantida
em segredo em relação ao filhos. “Mas não tive grande sorte com ele. Ele gostava muito
de mulheres: era um bom pai, mantinha a ordem lá em casa. O único mal dele era
andar com mulheres e isso fazia-me sofrer muito, mas sempre calada; mas ele nunca
me deixou.”, são as palavras proferidas pela D. Anunciação para explicar a sua sorte.
Este tipo de situação, em que há um tabu que não pode ser discutido espontaneamente
pela família, leva à manutenção de uma estrutura familiar débil, que não entrando em
ruptura se torna disfuncional, tal como Minuchin (1990) clarifica: “O meu marido era
um homem rude e de poucas falas. Nunca tivemos oportunidade de falar sobre a nossa
vida privada. Quando tocava no assunto, ele levantava-se da mesa e saía de casa.”. A
- 87 -
manutenção deste assunto tabu é uma repetição do que se passou já com o problema da
situação financeira da sua família de origem, em que este assunto não era permitido à
discussão aberta, pela angústia que causava. Lieberman (1979) diz que este tipo de
situações são transmitidas de pais para filhos, ao longo de gerações, e que este padrões
disfuncionais resultam da necessidade de perpetuar o passado ao longo das várias
gerações.

Segundo Whitaker (1981) a família saudável deve resolver os seus problemas através do
diálogo aberto e franco, o que nunca existiu neste família, como se pode perceber a
partir das palavras referidas anteriormente sobre o facto de ele abandonar a discussão
dos problemas conjugais. Este sintoma acabou por se transmitir aos filhos, em que a
resolução de problemas se constitui também num problema, como se nota mais à frente
pelo facto de a institucionalização da idosa não ser um assunto discutido abertamente.

A instabilidade na díade conjugal limitou a forma como os filhos da D. Anunciação


percepcionaram as regras familiares e a afectividade. Juntou-se-lhe o facto de a
preocupação com o futuro ao nível dos estudos e profissão se sobreporem a toda a
componente afectiva e sentimental. Como a própria D. Anunciação refere, o futuro dos
filhos foi o factor primordial e objectivo de vida após a morte do marido: “…fiquei com
os meus filhos trabalhei muito para que eles estudassem, todos eles tiraram o curso
superior…”; “Bem sei que não tinha grande tempo para lhes dar mimos, mas tinha de
ganhar o dinheiro para eles estudarem, e não terem de passar o que eu passei…”.
Numa família em que a componente emocional é colocada em segundo plano,
rapidamente surge necessidade de autodeterminação, e uma pouca identificação com o
conceito de família. A autonomia prematura, o isolamento, e a recusa do papel de
cuidador, sentimentos mostrados pelos filhos da D. Anunciação, são a confirmação
desta teoria, que confirma o postulado de Beavers (1995), confirmando a família como
centrífuga.

A falta de atenção pelos filhos, em que a componente emocional é colocada em segundo


plano, acaba por se estabelecer como um padrão de repetição em relação à geração
anterior, indo de encontro à perpectiva multigeracional de Bowen, nomeadamente no
processos de transmissão multigeracional. Nota-se aqui a projecção familiar e a
diferenciação do self como padrões que se repetem entre a D. Anunciação e a sua mãe.

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Toda disfuncionalidade emocional fazem com que a família de procriação da D.
Anunciação seja pouco coesa, segundo a perspectiva de Olson (1985), podendo ser
caracterizada como desvinculada: “Eles sempre foram muito independentes, estudaram
todos fora.”; “Eu senti que era um incómodo para os meus filhos, e que era um estorvo,
pois se dinheiro não lhes falta e aqui até pagam mais, só mesmo por não gostarem de
mim é que me punham aqui”; “Ninguém imagina o que é sentir não ser amada, e isto
aconteceu duas vezes na minha vida, primeiro com o meu marido e agora com os meus
filhos.”. Este sintoma tem como desfecho a institucionalização da D. Anunciação do lar,
por decisão dos filhos. Apesar de esta se sentir injustiçada como se nota pelas palavras
“…os meus filhos não me levam a casa deles nem sequer nas festas. Não percebo
porquê, penso ter sido uma boa mãe…” e “…quando elas cá vêm eu digo-lhes para me
levarem mas elas dizem que não podem tomar conta de mim.”, a repulsa pelo papel de
cuidadores dos filhos seria já prevista por várias das teorias referidas ao longo deste
trabalho, destacando-se Beavers (1995) e Whitaker (1981).

8.4.3. Traços da personalidade

A vida de peripécias e de disfuncionalidades familiares foi uma constante ao longo da


família da D. Anunciação, tendo marcado fortemente a sua personalidade. Antes de
mais, pode-se caracterizar a sua personalidade como estando envolvida em fortes
sentimentos de tristeza, amargura e angústia, sentimentos negativos perante uma vida
cheia de desilusões e de objectivos fracassados: “Ninguém imagina o que é sentir não
ser amada”; “É um final de vida muito triste”; “Preferia estar com os meus filhos, pois
eu fiz muito sacrifício por eles e não merecia este fim.”.

Outros dos traços marcantes da personalidade da D. Anunciação é o isolamento a que


ela se vota actualmente e sempre se votou ao longo da sua vida, inclusive ao nível da
sociedade. Este sentimento de isolamento foi agudizado pelo casamento falhado, na
altura em que a partilha de intimidade com o cônjuge mais influencia o carácter e
personalidade de uma pessoa, segundo Hall et al (2000): “Não gosto de me juntar com
aquelas pessoas. Gosto de estar em silêncio, nem a televisão gosto de ver.”.

A culpa é também uma característica da personalidade da D. Anunciação. Não havendo


uma noção clara da relação do desenvolvimento deste traço com a sua infância, há pelo
menos a indicação da instabilidade emocional do pai, que poderá ter estado na génese

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do desenvolvimento deste tipo de característica da personalidade. Ela vem a
manifestar-se no facto de a D. Anunciação se vir a sentir culpada pela falta de
disponibilidade para acompanhar os filhos do ponto de vista afectivo: “Bem sei que não
tinha grande tempo para lhes dar mimos, mas tinha de ganhar o dinheiro para eles
estudarem, e não terem de passar o que eu passei, mas parece que eles não percebem
isso, e eu às vezes sinto-me culpada.”. Também este traço pode ser justificado pela
teoria de Erikson apontada em Hall et al (2000).

8.4.4. Comportamento na entrevista

A abordagem à D. Anunciação foi muito difícil porque não queria contar a vida dela, já
que a considera triste e extremamente angustiante, entrando sempre em depressão de
cada vez que tem de falar sobre o seu passado. Ao longo da entrevista notou-se este
desconforto, na sua linguagem trémula como se estivesse quase a chorar.

Outra coisa que se notou foi a abertura gradual do seu discurso ao longo da entrevista,
numa perspectiva de cada vez maior abertura sentimental. Isto foi sentido nas
contradições em que foi caindo do início para o fim da entrevista. Por exemplo, no
início da entrevista dizia que os pais se davam bem mas com o decorrer da entrevista
deixa escapar que o pai era um malfeitor e que gastava todo o dinheiro que a mãe
ganhava no vício do álcool.

Em tudo o que dizia notava-se que o fazia com algum esforço. Nota-se que é uma
pessoa emocionalmente instável e apresentava-se muito nervosa.

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9. HISTÓRIAS DE VIDA

As histórias de vida apresentadas se seguida de forma resumida referem-se ao conjunto


de entrevistados para os quais não foram efectuados estudos de caso detalhados,
evidenciados no capítulo anterior. Apresentam-se nesta secção como forma de
contextualização para a restante parte do trabalho, servindo acima de tudo enquadrar as
conclusões retiradas da análise multidimensional apresentada no capítulo 10.

9.1. Laurinda

A D. Laurinda (nome fictício) tem 88 anos de idade é do sexo feminino, é solteira, foi
professora primária e dona de um colégio. Está no lar há 2 anos. Foi para o lar por viver
sozinha; teve um acidente em que fracturou a anca e foi hospitalizada. Após a alta foi
para o lar. Esteve noutro lar antes deste mas foi mal tratada. Tem visitas dos seus
antigos colegas e amigos e de uns parentes que ela considerava como filhos. Passa o dia
a ver televisão, a ajudar ,e colabora nos trabalhos com a animadora sócio-cultural.

Foi uma pessoa que decidiu sair da sua terra para estudar, deixando de visitar a família
parental com regularidade, estabelecendo-se este ponto como um corte com a família de
origem. Depois de terminar o curso foi trabalhar para o Porto onde conheceu uma
colega com quem viveu.

A D. Laurinda é proveniente de uma família tradicional, própria das aldeias do interior,


com quem manteve poucos laços afectivos, tal como referiu na entrevista. Sem
descendentes, substitui a família de origem por uma família adoptiva transferindo para
essa família todos os sentimentos familiares. Dedicou a sua vida a dar aulas às crianças,
tornando-se directora e dona de um colégio. Segundo ela, teve a vida que escolheu, não
sentindo ressentimentos de não ser visitada pela família de consanguinidade uma vez
que ela própria se afastou dela.

O momento em que a sua amiga próxima faleceu foi doloroso para a entrevistada,
referindo ela que foi esta a única fase em que realmente sentiu a falta de alguém.
Segundo a entrevistada “ela preenchia toda a sua família”, constituindo-se como a sua
alma gémea.

- 91 -
Mais tarde doou as suas coisas ao filho da sua amiga, que também considerava seu, mas
este, mal pôde, colocou-a num lar. Daí a revolta sentida pela D. Laurinda, ficando a
partir deste ponto inconsolável e desprotegida, segundo as suas próprias palavras.

Comportamento na entrevista

A D. Laurinda apresentou-se como uma pessoa de poucas palavras, sempre muito


superficial na resposta às questões colocadas ou tentando a ironia como forma de evasão
às perguntas colocadas. A cada pergunta o seu olhar fugia para o horizonte. Quando se
abordada sobre questões a nível sentimental, ela simplesmente calava-se e não deixava
sair qualquer expressão reveladora de sentimentos.

Apresentou uma desculpa sobre o facto de deixar de visitar a sua família em Lamego,
apontando esta o facto de ser uma pessoa da cidade e nunca ter gostado do local onde
nasceu. Nesta fase, deixou transparecer desconforto e nervosismo.

O nervosismo foi uma constante ao longo da entrevista. Antes de responder a qualquer


questão a D. Laurinda reflectia durante largos períodos, como forma de preparar a
resposta conveniente à situação.

9.2. Carolina

A D. Carolina (nome fictício) tem 83 anos de idade, é do sexo feminino e viúva. Fez a
3ª classe na escola. Está no lar há cinco anos. Durante a sua vida trabalhou numa clínica
de ecografias. Teve 1 filho que só durou 3 dias. Foi para o lar porque ficou doente e as
sobrinhas decidiram coloca-la lá. Nunca aceitou a sua ida para o lar e passa o dia a pedir
a Deus a sua morte. É visitada pelas suas sobrinhas mais ou menos uma vez por semana.
Passa o dia a olhar pela janela, vai passear e ajuda nos trabalhos na hora das refeições.

A sua vida tem sido marcada por ter tido muitos irmãos que morreram muito cedo, por a
mãe se ter suicidado por um desgosto e pela depressão proveniente de tantos
acontecimentos negativos. O pai também morreu muito cedo com um enfarte.
Engravidou em solteira, um tabu para a altura na qual fez um aborto, do qual, segundo
ela sente muito desgosto. Quando casou teve um filho que só durou umas horas,
segundo ela um castigo de Deus e nunca mais conseguiu engravidar. Ainda hoje sente
vergonha do que fez. Com o desgosto, o marido arranjou uma amante da qual teve um

- 92 -
filho. A D. Carolina associou a deslealdade do marido a um castigo por aquilo que ela
fez em solteira, não valorizando assim a infidelidade. Teve uma vida muito conturbada
de acontecimentos, principalmente por causa da amante do marido. Foi uma mulher
muito mal tratada pelo marido mas no entanto nunca lamentou ter-se casado com ele,
até pelo contrário. Segundo a entrevistada ele foi um homem muito bom porque a levou
a conhecer o mundo inteiro.

Refere ainda a D. Carolina que nunca se arrependeu das agressões cometidas contra a
amante do marido, mas também nunca conseguiu perdoar ao marido a sua infidelidade
apesar de nunca o deixar. Aponta esta que o facto de depender dele financeiramente
para viver fazia com que tivesse de aguentar tal vergonha.

Foi sempre uma pessoa que nunca deu grande atenção à família, exigindo no entanto
das suas sobrinhas todo o apoio. Teve várias pessoas a viver com ela, mas nunca
conseguiu arranjar ninguém que ficasse com ela, pois segundo a D. Carolina todas as
empregadas a roubavam, ou de alguma forma a prejudicavam. Quando ficou doente e
com necessidade de cuidados, colocaram-na no lar.

Comportamento na entrevista

Na primeira abordagem para a entrevista, a D. Carolina disponibilizou-se tendo uma


atitude muito positiva, dizendo logo que tinha sido muito feliz, que o marido nunca lhe
faltou com nada e que foi muito amigo dela, pois levou-a a conhecer o mundo inteiro.
Ela contava os acontecimento com lágrimas nos olhos como se sentisse falta daquele
tempo, dizendo ao mesmo tempo que sofria maus-tratos do marido mas que ele era
muito amigo dela, e que só queria morrer para ir ao encontro dele, o que indica da
idealização de um passado conjugal que não existiu, sendo contraditório o sentimento
de saudade, apesar dos maus-tratos.

Notava-se um sentimento de raiva quando falava da amante do marido, mas ao mesmo


tempo entendia que a amante deu ao marido aquilo que ela não conseguiu dar, i.e., um
filho. Ao longo da entrevista D. Carolina falou sempre com dureza e com um
sentimento de amargura face à vida, tendo a percepção que Deus a castigou pelos
pecados que fez na vida.

- 93 -
9.3. Palmira

A D. Palmira (nome fictício) tem 74 anos de idade, é do sexo feminino e é viúva. Fez a
2ª classe na escola. Está no lar há 2 anos. Trabalhou desde criança em muitas coisas
quando casou ficou a tomar conta de uma mercearia. Casou 3 vezes e ficou viúva 3
vezes, e teve uma filha de um dos casamentos. Veio para o lar depois de ter sofrido um
acidente vascular cerebral que a deixou incapaz de realizar as suas actividades de vida,
tendo necessidade de apoio de terceiros. Nunca aceitou a sua ida para o lar porque
achava que a sua filha tomava conta dela. Nunca visitou nenhum lar antes de vir para o
actual. É visitada pela sua filha e netos, uma vez por semana (ao domingo). No seu
dia-a-dia faz a sua higiene sozinha, vai passear e colabora com as actividades do lar.

Nasceu numa aldeia perto de Viseu. Foi criada pela mãe porque o pai se encontrava
ausente a trabalhar no Alentejo a sua infância foi marcada pela pobreza, pelo trabalho
infantil e pelos maus tratos. Quando regressou era um pai rude e ausente de afectos,
provocando que, à primeira oportunidade, ela e uma irmã fugissem da família de
origem, precipitando-se este evento pelo acontecimento trágico que foi a morte da mãe,
pilar importante da sua vida, referido na entrevista. A sua vida tem sido marcada pelos
seus vários casamentos, de curta duração devido à morte dos maridos, e com grandes
problemas afectivos e muitas vezes violência. Num dos casamentos teve uma filha à
qual dedicou a sua vida. Mais tarde a filha casou.

A relação com o genro tornou-se muito difícil afectando a relação mãe-filha, levando a
que a D. Palmira tenha desenvolvido uma personalidade marcada pela tristeza e
amargura, principalmente pelo facto de não poder estar junto da sua filha e dos seus
netos. Segundo ela, foi o genro o principal responsável pela sua institucionalização, mas
no entanto ela estabeleceu com a sua filha um tabu, acerca da sua ida para o lar, pois
não quer que a sua filha se sinta responsável de alguma forma pelo seu internamento.

Comportamento na entrevista

Notou-se ao longo da entrevista uma forte preocupação com a componente económica,


devido à pobreza da infância. Sacrificou as relações afectivas face às económicas. Não
demonstrou sentimentos de tristeza ou apego em relação à morte dos maridos, tendo até
demonstrado ironia pelo facto de ter enviuvado por três vezes. As relações conflituosas

- 94 -
foram uma constante com as várias famílias colaterais dos seus maridos, devido ao
oportunismo financeiro demonstrado pela D. Palmira.

Sente uma grande tristeza de não poder estar em casa com a filha e os seus netos pois
ainda acha que lhe poderia ser muito útil. É uma pessoa muito ansiosa, atrapalha-se a
falar pois fala com um sentimento de raiva principalmente quando fala do genro.

9.4. Clara

A D. Clara (nome fictício) nasceu em 1921, tendo à data do estudo 87 anos de idade. É
do sexo feminino e o seu estado civil é viúva. Fez o nono ano de escolaridade. Está no
lar há 2 anos. Dedicou a sua vida aos trabalhos de casa e ao seu marido. Nunca
conseguiu ter filhos. Foi para o lar depois de ter sofrido um desgosto muito grande, a
perda do marido, recusando-se a comer e a viver. A sobrinha resolveu colocá-la no lar.
Nunca pensou em ir para um lar visto que tinha condições económicas para ficar em
casa. Nunca visitou nenhum lar antes do actual, mas a sobrinha andou a procurar vários
lares antes de se decidir. É visitada pela sua sobrinha a quem passou um procuração
com todos os poderes. Passa o seu dia a conversar, vai passear e colabora com as
actividades do lar.

A D. Clara é a filha mais nova de uma família tradicional de classe média alta, apesar de
haver suspeitas de ligações extra conjugais por parte do pai. A entrevistada é uma
pessoa culta, estudiosa. Foi vítima de acontecimentos desgostosos por parte consciente
dos pais e inconsciente ou latente do irmão (pela morte trágica do gémeo). Teve uma
relação fria com a mãe, que tinha uma vida conturbada e insatisfeita. Segundo a
entrevistada tinha um temperamento difícil, incomodando-se com tudo.

Segundo ela foi uma pessoa feliz porque teve o amor incondicional de um irmão apesar
de este se ter quebrado com o casamento dele. Procurou uma compensação deste amor
no casamento com o marido, tendo-o conseguido, apesar do desgosto de não terem tido
filhos. Com a morte do marido e a doença grave do irmão, sentiu-se só, e quis por termo
à sua vida porque ela já não fazia sentido.

Devido às condições precárias psicológicas com ameaças de por termo à vida a sobrinha
resolveu levar a idosa para o lar e esta como forma de agradecimento fez-lhe uma

- 95 -
procuração com todos os poderes, levando assim a um corte de relação com os restantes
familiares.

Comportamento na entrevista

Na entrevista, a D. Clara mostrou-se uma pessoa tranquila que, apesar de estar só, se
sente bem. Apesar da sobrinha não ter sido aquilo que ela esperava, não lhe guarda
rancor, mostrando apenas interesse em visitar as suas coisas para matar saudades.

Pelo discurso ao longo da entrevista, e pela emotividade demonstrada, notou-se ser


apegada às recordações. Mostrou ser muito sociável, e apesar da sua idade avançada,
demonstrou positividade face à vida.

9.5. Isabel

A D. Isabel (nome fictício) tem 73 anos de idade, é do sexo feminino e viúva. Fez a 3ª
classe. Está no lar há cerca de um ano. Inicialmente, trabalhou numa fábrica de
conservas e mais tarde numa agência funerária. Veio para o lar depois de ter sofrido um
acidente por atropelamento que a deixou numa cama inválida, tendo sido encaminhada
para o lar depois da alta médica, visto necessitar de cuidados que a família não foi capaz
de assegurar. Nunca pensou em ir para um lar visto que tinha condições físicas para
viver sozinha, e queria morrer em sua casa. Nunca visitou nenhum lar anteriormente à
sua institucionalização. É visitada pelos filhos mas muito raramente, porque eles não
têm condições financeiras para poderem deslocar-se para visitar a mãe. Passa o seu dia a
sofrer de dores e de solidão.

Nasceu numa aldeia do concelho da Maia tendo a sua infância sido marcada por uma
família disfuncional, marcada pela separação dos pais logo em tenra idade. Cresceu no
seio de uma família “composta”, com a avó e a tia, tendo sido vítima de maus-tratos por
parte da tia. A sua infância é marcada pela miséria e sofrimento. Teve um irmão que ela
criou havendo uma forte relação de amizade com ele, por compensação da ausência de
mãe, mas com o passar do tempo procurou o isolamento.

A entrevistada casou-se e teve filhos mas com morte repentina do marido em 1980 a
situação económica tornou-se difícil.

- 96 -
Sobre a situação dos filhos refere a infelicidade das filhas, devido ao maridos que lhes
dão maus-tratos. O filho ficou cego num acidente de uma pedreira, mas é apoiado pela
família. Demonstrou um sentimento de impotência por não poder ajudar os filhos. Mais
tarde sofre um acidente por atropelamento que despoleta a institucionalização, após
internamento prolongado no hospital; não tendo outra solução a assistente social
recorreu a um lar.

Transportou ao longo da sua infância um segredo que mais tarde se veio a revelar:
sofreu maus tratos em segredo, para não magoar o pai. Esta situação repete-se com as
filhas, que sofrem maus tratos dos maridos sem nada fazerem para corrigir a situação.

Comportamento na entrevista

Ao longo da entrevista a Dª Isabel demonstrou sempre amargura pela vida passada, mas
ao mesmo acomodação à situação.

9.6. Miquelina

A D. Miquelina (nome fictício) tem 96 anos de idade, é do sexo feminino, divorciada e


viúva do segundo relacionamento. Não foi à escola mas sabe ler e escrever.Está no lar
há 2 anos. Trabalhou com os pais num armazém de frutas e mais tarde tomou conta da
herança do marido. Teve 2 filhas do primeiro casamento e um rapaz e uma rapariga do
segundo casamento. Foi para o lar porque a filha com quem estava ficou doente e não
podia tomar conta dela, uma vez que também já estava acamada. Nunca aceitou a sua
institucionalização. Nunca visitou nenhum lar antes do actual. É visitada diariamente
pela sua filha; os outros filhos não a visitam porque vivem muito longe. Passa o dia na
cama a ver televisão.

Nasceu numa freguesia urbana do Porto no seio de uma família abastada, de origem
tradicional. Teve uma infância feliz segundo a entrevistada. Não foi para a escola mas
sabia ler e escrever tendo exercido a sua actividade profissional na área da distribuição
de frutas. Teve quatro filhos, dois do primeiro casamento do qual se divorciou e mais
dois de outro relacionamento. O divórcio, segundo a D. Miquelina, não foi bem aceite
pela sociedade e muito menos pelos pais mas com o passar do tempo os pais aceitaram e
perdoaram. No segundo relacionamento, os futuros sogros eram contra o casamento
levando a que a relação tenha resultado numa união de facto, contra a vontade dos

- 97 -
sogros. Como os filhos tinham uma idade próxima uns dos outros nunca souberam que
os pais não eram casados e muito menos que só eram meios irmãos, tendo este segredo
sido mantido durante muitos anos até que à revelação por parte de uma irmã.

Quando ficou viúva ficou a morar sozinha, mas visitava os filhos que estavam longe e
ajudou-os a todos a nível financeiro. Mais tarde ficou doente e foi morar para casa da
filha que morava mais próximo. Tendo a filha adoecido, e estando a entrevistada já
acamada, houve a necessidade de colocar a D. Miquelina no lar visto que os irmãos
também não se encontraram disponíveis para ficar com a mãe.

A D. Miquelina acabou por adquirir comportamentos de isolamento, padecendo de


solidão acabando por se deprimir com facilidade, demonstrando ela sentimentos tais
como arrependimento sobre a decisão de partilha de bens e arrependimento sobre a
decisão de escolha de um filho para viver.

Comportamento na entrevista

A D. Miquelina narrou toda a história da sua vida sem demonstrar emoções, sendo fria,
mesmo na narração de pontos considerados traumáticos como a decisão da
institucionalização. Falou com amargura sobre a filha que a institucionalizou, apesar de
compreender os seus motivos.

9.7. Lucília

A D. Lucília (nome fictício) nasceu em 1917, tem 91 anos de idade e é do sexo


feminino. É casada. Tirou o curso comercial e foi trabalhar para uma empresa de filmes.
Depois de casar teve 3 filhos: 2 rapazes e uma rapariga, e para se dedicar à família
deixou de trabalhar fora de casa. Está neste lar há 2 anos. Foi para o lar porque teve um
acidente e fracturou uma perna. Como não havia disponibilidade, dos seus filhos e
marido, para tomarem conta dela, foi para um lar em Lisboa, mas mais tarde, para estar
perto da filha veio para um lar no Porto. Não queria ir para o lar, porque não sente como
se fosse a sua casa. Tem visitas quase diárias de duas netas e semanalmente da filha.
Muito raramente do marido e dos outros filhos porque estão fora do país. Passa o dia na
sala de convívio, no seu silêncio.

- 98 -
Do que se lembra da infância diz ter uns pais bastante distantes das filhas ao ponto de
ela não se lembrar de emoções ou carinhos entre eles, nem qualquer sentimento de amor
entre os pais, apesar de se lembrar de ter tido boa educação com bons princípios, e bons
momentos de brincadeira com a irmã. Casou, foi morar para outra cidade, e depois
emigrou para Moçambique e Angola onde teve uma vida com muita solidão, pois o
marido trabalhava muito e passava muito tempo fora de casa sendo ela a responsável
pela educação dos filhos, tendo mesmo deixado de trabalhar para tratar deles. Após
finalização dos cursos superiores, os filhos abandonam a casa dos pais, na procura da
sua independência. Um acidente leva à sua institucionalização em lar, apesar da sua
juventude e autonomia, por recusa do marido e dos filhos em tomar conta da D. Lucília.
Mais tarde veio para o lar para o Porto para estar mais próxima de uma filha, mas quem
a visita são as netas de quem gosta muito.

Comportamento na entrevista

O sentimento de solidão foi o tema dominante ao longo de toda a entrevista. Mostrou


uma posição superior em relação às amarguras da vida, descrevendo-as com nostalgia,
mas sem se deixar dominar emocionalmente por elas. Nota-se uma alegria de viver e um
cuidado extremo com a sua aparência e imagem transmitida para as outras pessoas.

Fica feliz com a visita regular das suas netas que a levam a passear e a lanchar.

9.8. Isabelinha

A D. Isabelinha (nome fictício), com 100 anos de idade, é do sexo feminino, sendo
viúva. Fez o 6º ano de escolaridade. Teve um filho que morreu quando era bebé e uma
filha a quem dedicou a sua vida. Foi para o lar para dar mais liberdade à sua filha,
porque esta também se tinha reformado. Não queria ser institucionalizada, mas não teve
outra alternativa. Tem visitas quase diárias da sua filha. Ao domingo vai sempre
almoçar com ela. Passa o dia na sala de convívio a ver televisão , e a fazer croché.

Nasceu no seio de uma família tradicional da região centro do país, com cinco filhos.
Estudou até à 6ª classe. Definiu-se como “namoradeira”, e amiga da liberdade, tendo
fugido de casa do pais à procura dessa liberdade. A família de origem é tradicional e a
de procriação reduzida. Teve pouco relacionamento com a família de origem desde a
sua fuga porque emigrou para o Brasil (três anos), sozinha. Depois casou, teve um filho

- 99 -
que morreu pequeno e depois teve uma filha. Quando a filha casou sentiu novamente a
tristeza de ficar só, por isso resolveu voltar a emigrar com o marido para Moçambique.
Nesse país, o marido faleceu num acidente, e ela voltou e ficou a morar com a filha, e
segundo a entrevistada ajudou a criar os netos. A D. Isabelinha refere que foi sempre
uma pessoa autoritária, alegre, divertida, activa e participativa. Segundo ela veio para o
lar para libertação da filha, para ela ter uma maior liberdade, visto a sua filha se ter
reformado e necessitar de mais tempo disponível para se divertir.

Comportamento na entrevista

Mostrou-se pronta para responder a todas as questões colocadas, mas sempre


superficialmente. Após 100 anos de vida, recorda com emoção e tristeza a perda dos
seus entes queridos, principalmente o filho bebé e o marido.

Mostra no entanto muita alegria e felicidade pela sua longevidade.

- 100 -
10. ANÁLISE DIMENSIONAL

A análise dimensional permite inferir sobre as relações entre a caracterização


psicopatológica da família e da personalidade dos indivíduos com o facto da
institucionalização.

Para chegar à caracterização das famílias de cada uma das pessoas entrevistadas
optou-se por recorrer à análise de conteúdo segundo Bardin (2004), tendo-se
identificado um conjunto de dimensões ou categorizações de análise: caracterização
familiar, classificação familiar segundo Barnhill (1979), classificação familiar segundo
Fleck (1980), caracterização da família segundo a proximidade e existência de crises
familiares condicionantes da família. Um outro aspecto dimensional utilizado é a
classificação dos traços de personalidade, segundo a “Teoria de Erikson” apontada por
Hall et al (2000).

Para cada um dos entrevistados optou-se por fazer uma distinção clara entre a
categorização da família de origem e da família de procriação, sendo assim possível
analisar os factores intergeracionais que se repetem ao longo das várias gerações bem
como identificar os aspectos disfuncionais e em que geração eles se fazem sentir.

Não foi possível conseguir, através da análise de conteúdo uma classificação clara para
todas as dimensões para cada um dos entrevistados, pelo que alguns dos totais
dimensionais, por dimensão não correspondem ao número total de entrevistados que é
de doze.

10.1. Caracterização familiar

Para a caracterização da família optou-se definir um conjunto de dimensões de análise


relacionadas com este tópico, de acordo com as teorias apresentadas. Para além da
identificação da estrutura familiar caracteriza-se a família quanto ao aspecto biológico e
ao vínculo familiar, utilizando para tal as classificações de Gimeno (2001). Caracteriza-
se ainda cada família quanto à sua caracterização social e nível relacional segundo
Sampaio e Gameiro (2004), e à descendência de acordo com a classificação de
Schlensinger referida pelos mesmos autores.

- 101 -
Quadro 1 – Caracterização Familiar (Família de Origem)

Frequência
Estrutura Familiar
Nuclear 10
Monoparental 2
Reconstituída 0
Caracterização Social
Tradicional 10
Não tradicional 2
Descendência
filho único 0
vários filhos 12

Quadro 2 - Caracterização Familiar (Família de Procriação)

Frequência
Estrutura Familiar
Nuclear 9
Monoparental 1
Reconstituída 1
Caracterização Social
Tradicional 8
Não tradicional 4
Descendência
com filhos 9
sem filhos 3

Pela amostra reconhece-se que a maioria das pessoas que estão institucionalizadas
viveram no seio de famílias caracterizadas como tradicionais, tanto nas suas famílias de
origem como de procriação. Reconhece-se assim que não poderão ser aplicadas na
explicação da institucionalização teorias relativas, por exemplo, às famílias
monoparentais ou às famílias não tradicionais. Há contudo excepções, como no caso do
Sr. Amândio que atravessou um divórcio que causou grande turbulência e corte
emocional com a família e a D. Miquelina que tendo-se divorciado reconstituiu família
posteriormente com outro marido, tendo no entanto mantido este facto em segredo
perante os filhos. Um terceiro caso de família não tradicional é o da D. Laurinda, que se
manteve solteira e da D. Palmira que teve vários casamentos, tendo enviuvado por três
vezes, tendo apenas uma filha do segundo casamento.

- 102 -
Já ao nível da família de procriação, três dos entrevistados não têm filhos, uma delas por
ser solteira, adoptando no entanto o filho de uma amiga com quem vivia como sendo
seu. Os outros dois casos são de vivências traumáticas, uma por não conseguir
engravidar e uma outra por ter perdido o seu filho ao 3º dia de vida.

Um facto que está marcado para a maioria das famílias em presença é estas serem
reduzidas, segundo a classificação de Sampaio e Gameiro (2004). Sendo as famílias
reduzidas, a capacidade de suporte social por parte de familiares fora da família nuclear
encontra-se muito afectada, havendo uma tendência para o isolamento, já que não se
estabelecem laços fortes com a sociedade, que segundo Sousa, Figueiredo e Cerqueira
(2004) são necessários para o bom funcionamento do sistema familiar.

Através da caracterização familiar não se encontram factores globalizantes que por si só


são responsáveis por algum tipo de disfunção e que tenham isoladamente contribuído
para a decisão de institucionalização por parte das famílias de 3ª geração, excepto no
caso do Sr. Amândio, em que a decisão de divórcio desencadeou um conjunto de
eventos anti-família que provocaram a ruptura completa do sistema, sem capacidade de
uma aproximação posterior com os filhos.

10.2. Classificação familiar

10.2.1. Análise segundo Barnhil (1979)

Para a classificação da família utiliza-se a classificação de Barnhil (1979) em que


sucintamente é referida a distinção entre as famílias saudáveis e as disfuncionais,
através de vários critérios, sendo estes os constituintes apontados no Quadro 3 e no
Quadro 4. Pela análise das famílias de origem e de procriação identificam-se um
conjunto de factos principais a nível do conjunto, para cada uma das dimensões em
análise. A importância da análise da família de procriação, logo após a família de
origem, reside na identificação dos padrões de repetição ou das preocupações de
mudança de cada geração.

- 103 -
Quadro 3 - Classificação Familiar (Família de Origem)

Frequência
Processo de identidade
Individualismo 8
Emaranhamento 4
Reciprocidade 8
Isolamento 4
Mudança
Flexibilidade 7
Rigidez 5
Estabilidade 3
Desorganização 9
Processamento da Informação
Percepções claras 3
Percepções confusas / distorcidas 9
Papéis bem definidos 4
Papéis mal definidos / conflitos de papeis 8

Quadro 4 - Classificação Familiar (Família de Procriação)

Frequência
Processo de identidade
Individualismo 10
Emaranhamento 1
Reciprocidade 6
Isolamento 5
Mudança
Flexibilidade 8
Rigidez 3
Estabilidade 4
Desorganização 7
Processamento da Informação
Percepções claras 3
Percepções confusas / distorcidas 8
Papéis bem definidos 5
Papéis mal definidos / conflitos de papeis 6

Processo de identidade

Nota-se que, no que respeita ao processo de identidade, impera o individualismo e a


reciprocidade, o que por si só constituem factores positivos para o desenvolvimento da
personalidade e da própria identidade segundo Barnhill (1979), Gimeno (2001) e
Minuchin (1974). No entanto, olhando para o cruzamento das duas dimensões,
- 104 -
verifica-se que apenas três dos indivíduos reúnem o crescimento numa família em que
há simultaneamente o respeito pelo individualismo necessário à formação da
personalidade e a reciprocidade importante para a vivência em conjunto e uma maior
integração social, como se pode ver no Quadro 5.

Quadro 5 – Processo de Identidade (Família de Origem)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Individualismo x x x x x x x x x 9
Emaranhamento x 1
Reciprocidade x x x 3
Isolamento x x x x x x x x x 9

Verifica-se também que para alguns dos casos analisados, o individualismo é excessivo,
levando a que a família se torna desagregada, indo de encontro ao referido por
Minuchin (1990). Encontram-se neste caso as D. Alcina, Laurinda, Anunciação,
Palmira, Clara, Isabel e Isabelinha, em que se cultivava na família de origem o
individualismo excessivo, mais numa perspectiva de não fomentar as relações psico-
afectivas com os filhos do que propriamente procurar que os filhos crescessem num
ambiente individualizado e formador do processo de identidade. Seguem-se algumas
citações, retiradas das entrevistas, que apontam para estes factos.
“Contam-se as vezes que fui a Lamego; não me puxava nada, porque detestava
viajar. Também não havia grande preocupação por parte deles; também nunca
me visitaram. Eu, no Natal e na Páscoa ia lá, mas vinha logo embora ao outro
dia.” (D. Laurinda)
“A minha mãe, como já disse, era uma pessoa muito difícil de temperamento.
Andava sempre incomodada com tudo: com os empregados, com a roupa, tudo
era uma aflição para ela, menos os outros dois filhos.” (D. Clara)

Por outro lado, a família do Sr. Amândio é emaranhada, levando a que a excessiva fusão
comprometa a capacidade de individualização, tal como refere Withaker (1981), estando
este visível pelo facto de o pai não o deixar autonomizar-se na sua vida profissional, e o
obrigar a trabalhar para as empresas dele, apesar de ser contra a sua vontade.

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 105 -
No que se refere às famílias de origem, que apenas um dos doze entrevistados foi
educado numa família que levou em conta a individualização e a reciprocidade, sendo
ele a D. Miquelina.

Quadro 6 – Processo de Identidade (Família de Procriação)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Individualismo x x x x x x x x x x 10
Emaranhamento x 1
Reciprocidade x x x x x x 6
Isolamento x x x x x 5

No que se refere às famílias de procriação, o Quadro 6 faz a revisão das dimensões que
contribuem para o processo de identidade. É aqui importante analisar a evolução das
famílias da primeira para a segunda geração, rapidamente se concluindo que o padrão se
repete para a maioria dos casos. Há no entanto a destacar os casos em que há uma
oposição completa à família de origem, como no Sr. Amândio, que passa de uma
família emaranhada e recíproca para uma sistema de individualismo e isolamento, em
que há mesmo o abandono dos filhos, provocado pelo divórcio da mulher.

Há a referir neste ponto dois casos de excepção que são as D. Carolina e D. Clara, que
não tiveram filhos, e como tal a classificação aplicada se refere apenas à diade conjugal.

Salienta-se aqui o facto de o isolamento fazer parte da vivência de 5 das famílias


analisadas, o que contribui para a não criação de laços afectivos verdadeiros. Este
factor, por si só, pode ser a causa do abandono dos pais por parte dos filhos, e respectiva
institucionalização. Encontram-se nesta situação Alcina, Anunciação, Isabel, Amândio e
Gorete.

“Também tenho de reconhecer que também nuca lhes dei muita atenção porque
trabalhava muito” (Alcina);

“…eles ficavam sozinhos; eles lá tomavam conta uns dos outros, que eles
entendiam-se muito bem, e ainda hoje são muito unidos…” (Gorete).

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 106 -
Mudança

Na componente relativa à mudança, os números apontam para uma maioria de casos em


que imperam a flexibilidade (7 casos) e a desorganização (9 casos), tal como se pode
ver no Quadro 7. De facto, a flexibilidade parece estar intimamente relacionada com
desorganização, com a instabilidade e a imprevisibilidade, o que acontece na maioria
dos casos (6 casos). Segundo Whitaker (1981) a flexibilidade é uma característica de
uma família saudável. No entanto, sendo estes acompanhados de desorganização, leva a
uma disfuncionalidade pois a flexibilidade faz com que passe a haver uma perda de
capacidade de autocontrolo do sistema familiar (Minuchin, 1990).

“O meu pai, com o vinho, e com o desgosto do meu irmão, foi como se tivesse
morrido, ninguém contava com ele para nada” (Anunciação);

“Mudámos de casa doze vezes. A minha mãe nunca estava satisfeita ou era por
causa dos vizinhos ou do sítio, ou porque era longe ou era perto” (Clara);

“Mas o meu pai começou a suspeitar de alguma coisa e um dia, durante o dia,
veio a casa e encontrou-me a trabalhar à beira da estrada. Eu contei-lhe tudo, e
ele foi para casa e zangou-se com ela” (Isabel).

Quadro 7 – Mudança (Família de Origem)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Flexibilidade x x x x x x x 7
Rigidez x x x x x 5
Estabilidade x x x 3
Desorganização x x x x x x x x x 9

Neste caso, apenas a D. Miquelina provém de uma família que conjuga em si própria a
flexibilidade e estabilidade, permitindo encarar os processos de mudança com
naturalidade.

”Passei o tempo de criança como todas as outras, não me lembro nada de


especial. Brincava com os meus irmãos e nada de especial. Quando tivemos a

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 107 -
idade de trabalhar, nós fomos ajudar a minha mãe no armazém de frutas”
(Miquelina)

Quadro 8 – Mudança (Família de Procriação)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Flexibilidade x x x x x x x x 8
Rigidez x x x 3
Estabilidade x x x 3
Desorganização x x x x x x x x 8

Na análise da família de procriação, constante do Quadro 8, constata-se também para a


maioria dos casos a continuação do padrão da geração anterior. Mantêm-se como
famílias desorganizadas as de Alcina, Carolina, Anunciação, Palmira, Amândio,
Miquelina e Gorete. No caso de Alcina, Anunciação e Gorete a rigidez é também uma
das características da família, o que ainda aumenta mais o grau de disfuncionalidade da
família, fazendo com que os seus membros deixem de ter o sentimento de pertença,
deixando de ser satisfeitas as necessidades fusionais, como diz Sampaio e Gameiro
(2004). Nestes casos, a desorganização pode ser mais um factor que esteve na génese da
decisão da institucionalização.

“Depois o meu marido regressou e veio voltar a trabalhar no mesmo sitio onde
trabalhava antes. Continuava o mesmo tipo de pessoa, pouco tolerante e de
poucas falas”; (Alcina)

“Fiquei viúva pela terceira vez e fiz jura que não me casava mais, apesar de
ainda só ter 47 anos.” (Palmira)

“Eu e o meu marido ficámos com um segredo. Nunca ninguém soube que nós
não éramos casados e escondi isso sempre aos meus filhos, não havia
necessidade de eles saberem. Mas já a minha filha Lucília já era grandinha e se
foi matricular para fazer um curso achou estranho quando levava os meus
papéis e dizia lá que eu era divorciada” (Miquelina)

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 108 -
Processamento da informação

Analisando o Quadro 9 relativo à família de origem, verifica-se que na maioria dos


casos analisados há um conflito de papéis ou uma má definição destes,
complementando-se ainda as percepções pouco claras sobre o papel de cada membro.
Quando os papéis sofrem mutações, o equilíbrio da família pode desaparecer, como
indica Tavares(1995). Um dos casos em que tal sucedeu foi na saída da D. Gorete de
casa da mãe pelo facto de os pais nunca se interessarem pela seu sucesso escolar, i.e.,
não cumpriram o papel que a sociedade define para os pais. Pode-se ver este facto em
“não estudei por preguiça, não quis, o meu pai também nunca quis saber…a minha
mãe, só queria era beber…”.

Quadro 9 – Processamento da Informação (Família de Origem)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Percepções claras x x 2
Percepções confusas /
x x x x x x x x 8
distorcidas
Papéis bem definidos x x x x 4
Papéis mal definidos /
x x x x x x x x 8
conflitos de papéis

Neste caso, apenas as D. Miquelina, e Lucília provém de uma família que onde os
papéis são bem definidos e as percepções são claras.

“Apercebia-se no entanto que eles diante dos filhos sempre impuseram muita
educação” (Lucília)

Quadro 10 – Processamento da Informação (Família de Procriação)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Percepções claras x x x 3
Percepções confusas /
x x x x x x x x 8
distorcidas
Papéis bem definidos x x x x x x 6
Papéis mal definidos /
x x x x x 5
conflitos de papéis

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 109 -
Pela análise do Quadro 10, referente à família de procriação, apenas as D. Clara, Isabel
e Isabelinha foram capazes de constituir uma família que onde os papéis são bem
definidos e as percepções são claras. Relembra-se no entanto o facto de a D. Clara não
ter filhos.

“Ele era tão compreensivo que tínhamos de dividir o tempo porque ele gostava
de praia e eu gostava do campo. Fomos levando assim a vida.” (Clara)

“O meu marido era pedreiro, e era muito trabalhador. Se chegasse primeiro


que eu a casa ia buscar a minha filha à ama.” (Isabel)

Pela análise do mesmo quadro, também se constata que o padrão se repete para a
maioria das famílias, sendo que também na família de procriação as percepções são
confusas em 8 dos casos analisados.

“Nunca esteve presente numa data especial, nunca se lembrava da data de


aniversário dos filhos. Então eu passava o tempo só” (Lucília)

“Tive a má ideia de casar com ele. Batia-me, tratava-me mal, mas a minha filha
nunca se apercebeu. Ele gostava muito dela.” (Palmira)

10.2.2. Análise segundo Fleck (1980)

Para a classificação da família utiliza-se neste caso a visão de Fleck (1980) que define
os elementos de uma família saudável, sendo estes sistematizados pelos pontos
liderança, fronteiras, afectividade, comunicação, desempenho de tarefas / objectivos.

Liderança

Pela análise das famílias de origem, e de acordo com a informação obtida a partir das
entrevistas, resumida no Quadro 11, rapidamente se constata que a maioria dos
progenitores das famílias eram incoerentes na sua educação, tendo uma personalidade
frágil que não lhes permite transmitir os padrões de educação e respeito que as crianças
e jovens esperam para poderem crescer em segurança.

- 110 -
Quadro 11 – Liderança (Família de Origem)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Personalidade
Personalidade forte x x x x 4
Personalidade frágil x x x x x x x 7
Coerente x 1
Incoerente x x x x x x x x x x x 11
Colisão marital
Relação conflituosa x x x x x x x 7
Relação saudável x x 2
Uso do poder dos pais
Pais austeros x x x x 4
Coerentes com regras
/poder moderado x 1
Pais complacentes x x x x x x x 7
Pais Justos x x x x x 5
Pais Injustos x x x 3

De facto, em 11 das doze famílias analisas a personalidade dos pais é marcada pela
incoerência, e em 8 desses casos os pais revelam-se com personalidade fraca.
Alcoolismo, violência e adultério são exemplos de fragilidade demonstrados em várias
das entrevistas. O castigo, por qualquer razão e de forma incoerente é também referido
pela maioria dos entrevistados. Analisando também a colisão marital chega-se à mesma
conclusão: em 7 das famílias estudadas o conflito é a palavra de ordem na relação
conjugal, sendo o papel de mulher completamente subjugado ao do homem, tanto ao
nível das obrigações domésticas como da educação dos filhos. É no entanto evidente
que os papéis de pais estão bem definidos para a altura a que se reportam os factos
(primeira metade do século XX), sendo o papel de pai o de impor limites, ainda que de
forma rígida, e o de mãe o de dar suporte às actividades de cuidar.

Quando se analisa a forma como os pais utilizam o seu poder sobre os filhos, chega-se à
conclusão que 11 das 12 famílias se encontram nos extremos: 4 famílias são
constituídas por pais austeros, enquanto que 7 estão no limite oposto, na complacência
exagerada, em que de facto o que se nota é um certo desprezo pela paternidade e
abandono dos filhos à sua sorte. Apenas os pais da D. Miquelina são capazes de aplicar
um conjunto de regras de forma coerente e moderada.
1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 111 -
A austeridade nos casos da D. Palmira, Sr. Amândio, D. Lucília e D. Isabelinha. São
facilmente visíveis através de um conjunto de pontos reflectidos nas próprias
entrevistas, que apontam maus tratos aos filhos, rigidez e autoritarismo.

“Eu gostava muito da minha, mãe do meu pai nem por isso; tinha um mau
génio… Eu e os meus irmãos levávamos muita porrada do meu pai” (Palmira)

“O meu pai era um homem rude, a minha mãe também não era melhor, por isso
já pode imaginar a minha vida de criança” (Amândio)

“…à mesa mal se falava e depois eles iam trabalhar…” (Lucília)

Relativamente à complacência, há várias passagens nas entrevistas que permitem tirar


esta conclusão.

“Olhe não estudei por preguiça. Não quis, nunca me apeteceu. O meu pai
também nunca quis saber porque se fosse outro eu não tinha quereres. Mesmo a
minha mãe também não ligava nada.” (Gorete)

“A minha mãe, mais tarde, abandonou também o meu irmão e o meu pai foi
buscá-lo e vivemos todos juntos.” (Isabel)

Numa perspectiva em que se consideram positivos os pontos: personalidade forte,


coerente, relação saudável, coerentes com regras/poder moderado; e negativos todos os
restantes, resulta o Quadro 12, onde é bem visível a disfuncionalidade de praticamente
todas as famílias, exceptuando-se a da D. Miquelina.

Quadro 12 – Liderança (Positivos e Negativos) (Família de Origem)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO
Pontos Positivos 0 1 0 0 0 1 0 1 5 2 2 0
Pontos Negativos 4 2 4 4 5 4 4 4 0 3 2 3

Utilizando o mesmo raciocínio para as famílias de procriação, nota-se uma repetição


dos padrões de comportamento, e uma manutenção generalizada da negatividade
transmitida aos filhos, como é notório pela análise do Quadro 13.

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 112 -
Quadro 13 – Liderança (Positivos e Negativos) (Família de Procriação)
Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO
Pontos Positivos 1 0 1 1 3 4 0 4 0 5 0
Pontos Negativos 4 3 4 4 0 0 4 1 4 0 4

Há no entanto a referir as mudanças contrastantes de algumas das famílias de procriação


em relação às famílias de origem, encontrando-se nestes casos a D. Clara (que não teve
filhos) e a D. Isabel, que tendo sido vítima de maus tratos por parte da tia acabou por
transmitir aos filhos uma vivência diferente daquela a que tinha sido sujeita, baseada no
positivismo e na procura da satisfação da família como uma entidade orgânica
auto-suficiente e geradora de personalidades fortes e autónomas. Pode-se mesmo
afirmar que, no caso da D. Isabel, a institucionalização não é uma causa directa da
educação transmitida, e que apesar de todos os esforços parentais para que a família seja
totalmente funcional de acordo com as definições de Fleck (1980) e Barnhill (1979)
houve um desfecho considerado anormal, que se justifica por outras razões que não as
do foro das relações familiares, neste caso, um acidente grave. Como a própria refere:
“Após o acidente, o seguro resolveu colocar-me aqui, porque os coitados dos meus
filhos não podem tratar de mim, eu necessito muito de ajuda.”.

Quadro 14 – Liderança (Família de Procriação)


Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Personalidade
Personalidade forte x x x 3
Personalidade frágil x x x x x x x 7
Coerente x x x 3
Incoerente x x x x x x x x 8
Colisão marital
Relação conflituosa x x x x x x x 7
Não aplicável 0
Relação saudável x x x x 4
Uso do poder dos pais
Pais austeros x 1
Coerentes com regras
x x x 3
/poder moderado
Pais complacentes x x x x x 5
Pais Justos x x x x x x 6
Pais Injustos 0

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 113 -
Como famílias próximas das ideias referidas nas teorias de Fleck (1980) apresentam-se
ainda, ao nível da liderança as da D. Miquelina e D. Isabelinha, seguindo um padrão da
geração anterior.

Todas as outras famílias seguiram o padrão negativo transmitido pela geração de


origem, indo de encontro ao esperado pelas teorias transgeracionais definidas por
Bowen (1978).

Afectividade

A afectividade resulta como um processo de intercomunicação familiar, dependendo em


grande parte da forma como cada elemento interage dentro da família. Sampaio e
Gameiro (2004) referem que uma família não disfuncional possui uma delimitação bem
clara dos laços afectivos e da individualidade, o que é contrariado pela análise do
Quadro 15, em que é notória a incapacidade de respeito pela individualidade de
autonomia de cada um dos membros da família para a maior parte dos casos em análise.

Quadro 15 – Afectividade (Família de Origem)


Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Privacidade interpessoal
Respeito pela
individualidade e x x x 3
autonomia
Não respeito pela
x x x x x x x x x 9
individualidade
Equivalência das tríades familiares
Tríades compensadas x x 2
Tríades
x x x x x x x x x x 10
descompensadas
Tolerância dos elementos da família para com os sentimentos dos outros
Tolerância x x x x 4
Intolerância x x x x x x x x 8
Emocionalidade do conjunto
Emocionalidade
x x x x 4
familiar
Individualismo
x x x x x x x 7
emocional

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 114 -
Relativamente à compensação das tríades, a conclusão é semelhante, havendo grandes
lacunas na tríade parental, em que na maior parte dos casos o pai aparece como ausente
ou rígido. Também na tolerância e na capacidade de a família reagir emocionalmente
como um todo, os resultados obtidos são indicadores de disfuncionalidade.

Numa análise individualizada, apenas as famílias da D. Clara e D. Miquelina reúnem


em si todas as características de uma família funcional no que diz respeito à
afectividade. Pela componente totalmente disfuncional, aparecem a D. Alcina,
Anunciação, Palmira, Amândio, Isabelinha e Gorete, que não reúnem qualquer ponto
considerado indicador de funcionalidade segundo Fleck (1980).

Quadro 16 – Afectividade (Família de Procriação)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Privacidade interpessoal
Respeito pela
individualidade e x x x x x x 6
autonomia
Não respeito pela
x x x x x 5
individualidade
Equivalência das tríades familiares
Tríades compensadas x x x 3
Tríades
x x x x x x x x 8
descompensadas
Tolerância dos elementos da família para com os sentimentos dos outros
Tolerância x x x x 4
Intolerância x x x x x x x 7
Emocionalidade do conjunto
Emocionalidade
x x x x 4
familiar
Individualismo
x x x x x x x 7
emocional

Estes factores negativos apontam para malformações no carácter de cada um dos


indivíduos que, tal como diz Gimeno (2001), condicionam todo o desenvolvimento
afectivo, social e cognitivo das crianças, condicionando também a motivação para
atingir os objectivos, competência social e responsabilidade. Todos estes factores são
geradores de perturbações, que se manifestam em gerações futuras. O Quadro 16 parece
apontar no sentido da transmissão dos comportamentos afectivos desviantes para a

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 115 -
geração seguinte. Os padrões de disfuncionalidade afectiva repetem-se paras os casos
das famílias de Alcina, Carolina, Anunciação, Palmira, Amândio, Lucília e Gorete.

A falta de afectividade no seio da família gera, confirmado pela teoria de Bowen


(1978), indivíduos com uma forte necessidade de fusão emocional, e portanto com um
baixo nível de diferenciação do self. É o que acontece no caso das pessoas em análise:
Alcina, Carolina, Anunciação, Palmira, Amândio, Lucília e Gorete.

“Mais dois desgostos. Fiquei a morar sozinha na minha casa, não tinha amigos,
nem nunca dei confiança aos vizinhos.” (Alcina)

“Eu ia a casa dela e berrava com ela e batia-lhe; ela fazia queixa ao meu
marido e ele quando chegava a casa batia-me a mim, mas eu não me importava.
Mas uma coisa é certa: ele nunca me deixou” (Carolina)

“O único mal dele era andar com mulheres e isso fazia-me sofrer muito, mas
sempre calada; mas ele nunca me deixou. Ninguém imagina o que é sentir não
ser amada, e isto aconteceu duas vezes na minha vida, primeiro com o meu
marido e agora com os meus filhos” (Anunciação)

“Ele olhava para mim e para a minha filha com uns olhos que disse logo à
minha filha: quando quiseres ver-me vai a minha casa e leva os meninos que eu
à tua casa nunca mais volto” (Palmira)

“… porque sei que não fui um grande pai, pelo menos a partir em que a mãe
deles nos deixou, a mim e a eles. Porque se ela na altura me procurava e me
explicava o que se tinha passado, eu tinha-lhe perdoado, e talvez a minha vida
fosse diferente.” (Amândio)

- 116 -
Comunicação

A comunicação no seio da família é considerada uma dos factores de funcionalidade por


Fleck (1980), e como afirma Imaginário (2004) a comunicação é um dos pontos que
garante a plenitude espiritual e a capacidade de enfrentar as tensões e as crises.

Quadro 17 – Comunicação (Família de Origem)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Capacidade de resposta da família aos outros
família com capacidade de
x x x 3
resposta
família sem capacidade de
x x x x x x x x x 9
resposta
Congruência das comunicações verbais e não verbais
congruente x x 2
incongruente x x x x x x x x x x 10
Clareza da forma e sintaxe
comunicação clara x x 2
comunicação confusa x x x x x x x x x x 10

Pelos resultados da análise de conteúdo demonstrados no Quadro 17 rapidamente se


constata que os meios de comunicação nas famílias de origem são deficitários em
praticamente todos os casos analisados. Exceptuam-se a este nível as famílias de
Miquelina e Lucília, como tendo a capacidade de responder nos momentos chave e de
serem congruentes e claros na sua comunicação.

Nos casos em que a comunicação se tornou deficitária na família de origem, a


responsabilidade recai principalmente sobre os pais, havendo de facto uma interrelação
forte entre a incapacidade de comunicar e a caracterização da família ao nível dos
processos de mudança, capacidade de processamento da informação e estruturação de
papéis, referidos por Barnhill (1979) e já evidenciados neste trabalho. Para os casos da
famílias aqui referidas como disfuncionais ao nível da comunicação, encontram-se
igualmente, para a maior parte dos casos, a desorganização, as percepções confusas ou
distorcidas e os papéis mal definidos ou conflitos de papéis por parte dos progenitores.

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 117 -
1

Quadro 18 – Comunicação (Família de Procriação)

Nomes2
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Capacidade de resposta da família aos outros
família com capacidade de
x x x x 4
resposta
família sem capacidade de
x x x x x x x 7
resposta
Congruência das comunicações verbais e não verbais
congruente x x x 3
incongruente x x x x x x x x 8
Clareza da forma e sintaxe
comunicação clara x x x 3
comunicação confusa x x x x x x x x 8

A triangulação que nalguns casos pode colmatar a falha de comunicação como diz
Gimeno (2001), foi apenas visível em alguns casos. A D. Clara refere a relação criada
com o irmão: “Eu e o meu irmão éramos muito chegados, para onde ia um o outro ia
também, ele protegia-me muito, era muito meu amigo, corríamos os bailes todos e ele
andava sempre comigo…”. Esta relação fortaleceu-se ainda mais após a saída do pai de
casa. Já a D. Palmira refere a ligação forte estabelecida com a irmã, como forma de
compensação da tirania do pai: “Com as minhas irmãs tinha boa relação
principalmente com a mais velha éramos muito confidentes… com as outras, como a
diferença de idades era grande, a relação já não era a mesma coisa.”.

A família de procriação é marcada pela repetição, na maior parte dos casos, do padrão
comunicativo da família de origem. Nos casos de Isabel e Isabelinha houve uma
alteração do comportamento comunicativo, tendo-se este tornado funcional,
compensando de alguma forma os afectos não existentes nas famílias de origem.

1
2
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 118 -
10.3. Caracterização da proximidade

Numa caracterização de proximidade da família (Quadro 19 e Quadro 20) pode-se


concluir que apenas Miquelina e Isabelinha conseguem manter, ao longo da família de
origem e de procriação, um nível moderado de proximidade com os seus pares. Todos
os outros casos alternam entre a desvinculação ao nível mínimo ou o emaranhamento.

Quadro 19 – Proximidade (Família de Origem)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Desvinculada ao nível
x x x x x x 6
mínimo
Deparada ao nível mais
x x x 3
baixo, moderadamente
Moderada / conectada
x x 2
ou ligada
Emaranhada x 1

Quadro 20 – Proximidade (Família de Procriação)

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Desvinculada ao nível
x x x x x 5
mínimo
Deparada ao nível mais
0
baixo, moderadamente
Moderada / conectada
x x x x 4
ou ligada
Emaranhada x x 2

As famílias centrípetas definidas por Beavers (1995) e que têm uma correspondência às
famílias emaranhadas de Olson (1985) criam uma dependência forte entre os seus
membros. Estão neste caso a D. Clara, que tentou o suicídio após a morte do seu
marido, devido à sua forte ligação fusional. O Sr. Amândio viveu no seio de uma
família patriarcal, que dominava toda envolvência afectiva, social e económica,
prolongando-se para além da idade adulta.

- 119 -
Nos casos das famílias desvinculadas ao nível mínimo, a que corresponde o nível de
centrífugas segundo a classificação de Beavers (1995) incluem-se as famílias de origem
de Alcina, Laurinda, Carolina, Anunciação, Palmira e Gorete.

“…sofri muito desde pequenina, nunca fui a uma escola. Vivia em Santa Maria
da Feira. Com seis anos fui servir para Aveiro.” (Alcina)

“Quando ele nos batia, eu e os meus irmãos fugíamos para debaixo da cama
que eu já tinha comprado com o meu dinheiro…” (Palmira)

“Eu é que tinha de tomar conta dos meus irmão, e eu era apenas uma criança,
porque o meu pai e a minha mãe não queriam saber de nada.” (Gorete)

Passam para a família de procriação o mesmo tipo de disfuncionalidade nos casos de


Alcina, Palmira e Gorete.

“Também tenho de reconhecer que também nuca lhes dei muita atenção porque
trabalhava muito, mas nunca os tirei de casa. Nem tinha tempo para pegar neles
ao colo.” (Alcina)

“Levava muita porrada, até me espetou com um ferro na cabeça, mas os meus
vizinhos diziam para eu no hospital não dizer que era o meu marido.” (Palmira)

“Não fui grande mãe porque eu nunca deveria ter começado a beber, pois assim
os meus filhos não tinham ninguém em quem se apoiar. Hoje sinto remorsos da
vida que dei aos meus filhos, mas não posso voltar atrás e nem agora eu lhes
posso cobrar o amor, pois isso eles não têm para me dar” (Gorete)

Nos casos de Carolina e Amândio, troca o tipo de disfuncionalidade, mudando de


totalmente desvinculada para emaranhada, e vice-versa.

10.4. Crises familiares

As crises familiares podem ter um conjunto de repercussões no ciclo de vida, sendo este
normalmente delimitado pela mudança na estrutura da família como referem Carter e
MkGoldrick (1989) e Sousa, Figueiredo e Cerqueira (2004). Todo o ser humano é
confrontado ao longo da sua vida com um conjunto de obstáculos, sendo a crise o

- 120 -
reflexo da não transposição imediata e saudável desses obstáculos, tal como Sampaio e
Gameiro (2004) referiram.

Cada um dos entrevistados foi confrontado ao longo da sua vida com um conjunto de
crises que alteraram o seu comportamento, a sua forma de estar perante a vida e o ciclo
familiar da sua família. Numa análise mais detalhada, apontam-se as principais crises
vividas por casa elemento e identificadas no Quadro 21.

Quadro 21 – Crises Familiares

Nomes1
Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOTAL
Desgraças inesperadas
doença x x x x 4
prostituição da mãe x x 2
falência x x 2
maus tratos x x x 3
alcoolismo x x 2
fuga de casa x x 2
morte x x x x x x x x 8
suicídio x 1
Associadas ao desenvolvimento
infidelidade x x x x x x 6
esfriamento da
x 1
sexualidade
divórcio x x 2
ninho vazio x x 2
Estruturais
sim x x x x x x x x 8
não x x x x 4
Desamparo
sim x x x x x x x x 8
não x x x x 4

A forma como cada uma das crises alterou o ciclo de vida familiar diferiu de caso para
caso, pelo que a análise será individualizada para os entrevistados em que de facto as
crises resultaram numa alteração completa da estrutura familiar e em que houve uma
dificuldade em recuperar da crise e em refazer o sistema de forma funcional.2

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.
12
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 121 -
No caso da D. Alcina, um conjunto de crises estruturais da família afectaram a família
como um sistema. Desde logo o facto de a sua mãe ser prostituta e o pai ser
desconhecido afectou a percepção de família e a forma como a família não
desempenhou o seu papel como protectora da integridade pessoal. Esta disfunção
estrutural afectou toda a sua infância, até à idade adulta, quando decide sair de casa e
casar-se.

No casamento, mais uma crise afectou toda a percepção de família, neste caso a de
procriação. A intolerância e os maus-tratos do marido fizeram com que a D. Alcina
tivesse de se adaptar a uma situação disfuncional, em que imperava a discórdia e o
ciúme, levando a um esfriamento da afectividade e a uma disfuncionalidade ao nível
dos papéis de pais desempenhados perante uns filhos, em que a relação era
marcadamente descompensada, pela incapacidade da D. Alcina impor o seu papel de
mãe, devido à intransigência do marido. Com a saída do marido para o Brasil durante
um alargado período de tempo, houve necessidade de a família se reestruturar em volta
da mãe, havendo no entanto uma pouca identificação emocional, já que a D. Alcina
passava mais tempo a trabalhar do que a cuidar, uma vez que estava em causa a
sobrevivência de todo um sistema.

A morte da mãe, num clima de quase abandono, afectou emocionalmente a D. Alcina, já


que esta assumiu um sentimento de culpa pelo facto de não ter cuidado dela na sua
velhice. Finalmente, a morte do marido, seguida na morte da filha ainda jovem,
constituem-se também como dois eventos trágicos que descompensam completamente o
sistema ao nível emocional e que levam a que a “culpa” seja um traço marcante da
personalidade da D. Alcina.

No caso da D. Carolina, toda a sua infância foi afectada por um conjunto de


acontecimentos traumáticos que alteraram completamente a definição de família
funcional. Desde logo, a morte de 12 irmãos, todos em criança, que afectaram
psicologicamente a sua mãe, tendo mesmo esta acabado por se suicidar. Neste ponto, o
papel de mãe tão importante para o normal desenvolvimento da família saudável e de
cada uma das crianças foi totalmente afectado levando a sentimentos de revolta a
disfuncionalidades na D. Carolina que ainda hoje são visíveis. Um aborto na juventude,
a morte de um filho com três dias de vida e o facto de não conseguir engravidar de novo
são também acontecimentos traumáticos que a D. Carolina sente como um castigo de

- 122 -
Deus pelo facto de ter cometido estes erros. Ao longo da entrevista refere com
regularidade estes factos e a forma como afectou a sua vida familiar, atribuindo mesmo
a estes acontecimentos a responsabilidade pela infidelidade do marido ao longo do
casamento.

Outro caso de família afectada fortemente por crises foi a do Sr. Amândio. Neste caso,
uma infidelidade da esposa leva ao divórcio e à separação da família, com parte da
família no Brasil e outra em Portugal. A partir dessa data, o Sr. Amândio assume
também uma postura perante a vida completamente diferente daquela que levava,
dedicando-se à luxúria e aos bens materiais, e pondo completamente de lado os filhos
que consigo viviam.

No caso da D. Isabel, a família foi também fortemente afectada por crises estruturais.
Após o conhecimento da relação infiel com vários homens por parte da mãe,
despoletam-se um conjunto de acontecimentos que vão desde a separação dos pais, o ir
morar com uma tia que dava maus tratos à D. Isabel, a descoberta desses maus tratos
por parte do pai e a saída de casa da tia. Todos estes acontecimentos, na pequena
infância da D. Isabel, parecem ter marcado profundamente o seu carácter e a sua
personalidade, afectando a forma como passou a ver a família a partir de então.

As D. Anunciação, Palmira e Gorete foram afectadas por um conjunto de crises de


diversas naturezas, tendo tido dificuldades em ultrapassá-las, ou não as ultrapassando de
todo. A D. Anunciação entrou em depressão constante devido à morte prematura do
marido, transmitindo essa tristeza para os filhos que teve de educar sozinha. A D.
Palmira nunca conseguiu ultrapassar a situação de maus-tratos do pai, transmitindo para
todos os homens, incluindo o genro, um sentimento de revolta e desdém por todos os
elementos do sexo masculino, sendo esta uma herança implícita tal como referido por
Sampaio e Gameiro (2004). A D. Gorete, depois da morte do marido e devido às
condições económicas desfavoráveis, refugia-se no alcoolismo, não enfrentando os
problemas.

Para os restantes casos, apesar de terem ocorrido também uma conjunto de crises,
chega-se à conclusão, através das entrevistas, que as famílias conseguiram ultrapassar
essas crises, e readaptar-se às novas condições.

- 123 -
10.5. Personalidade

A definição de personalidade não é sempre objectiva e pode diferir de autor para autor.
Neste caso opta-se por caracterizar os traços da personalidade definidos por Erikson
referidas em Hall et al (2000), tentando descobrir no passado de cada um dos
entrevistados as causas que poderão ter contribuído para estes traços. A categorização
de cada um dos traços de personalidade foi efectuada através de uma conjunto de
análises, nomeadamente comportamentais ao longo da entrevista e análise de conteúdo
de cada uma das entrevistas, que, através de palavras chave, permitem chegar a uma
classificação dos traços dominantes. Também o conhecimento da história de vida por
parte do investigador, resultante da convivência prolongada com cada um dos elementos
estudados permitiu complementar os dados recolhidos nas entrevistas, apesar de muitas
das vezes os elementos conhecidos serem de origem informal, transmitidos por
familiares ou amigos.

A análise da personalidade não pode ser desligada do processo de envelhecimento, que


provoca um conjunto de alterações funcionais e afectivas, levando a uma menor
autonomia, redução da capacidade de adaptação, entre outros factos.

Uma das componentes que salta à vista é o traço de personalidade identificado por
Erikson (1976) com o nome “Integridade vs Desespero”. Pela análise efectuada conclui-
se que sete dos doze casos entrevistados (ver Quadro 22) desenvolvem nesta fase um
traço marcante de desespero perante a morte e uma auto-culpabilização perante a vida, e
perante um conjunto de crises ou factores de desenvolvimento familiar dos quais se
sentem responsáveis. Como o próprio Erikson refere, e neste caso há uma
correspondência total com esta teoria, as pessoas vivem a sua velhice marcadas pela
nostalgia, pela tristeza, e aguaram unicamente a morte, sentindo-se inúteis perante a
sociedade ou a família

Este traço pode ser considerado como uma consequência dos traços anteriores, na
perspectiva em que a personalidade de cada indivíduo é influenciada pela sua vivência
no seio da família e da comunidade (Rosa & Lapointe, 2002) e também esta
personalidade influencia as próprias experiências de vida e o comportamento do
sistema, neste caso o familiar, como um todo. Com base na análise do Quadro 22
verifica-se que, nos sete casos que demonstram um traço marcado pelo desespero na

- 124 -
velhice, estes traços são acompanhados por outros também negativos, sendo que traços
como a culpa, o isolamento e a desconfiança são os mais se cruzam com o do desespero.

Quadro 22 – Personalidade (Erickson, 1976)


Frequência
Confiança Básica Versus Desconfiança Básica
Confiança 6
Desconfiança 6
Autonomia Versus Vergonha e Dúvida
Autonomia 4
Vergonha 4
Dúvida 4
Iniciativa Versus Culpa
Iniciativa 3
Culpa 9
Diligência Versus Inferioridade
Diligência 4
Inferioridade 8
Identidade Versus Confusão/Difusão
Identidade 7
Confusão/Difusão 5
Intimidade Versus Isolamento
Intimidade 6
Isolamento 6
Generatividade Versus Estagnação
Generatividade 7
Estagnação 5
Integridade Versus Desespero
Integridade 5
Desespero 7
.

Globalmente, e estando no Quadro 23 identificados os traços da personalidade


analisados, sendo assinalados a verde os considerados “positivos” no âmbito da cultura
ocidental em que se integraram as vivências dos casos analisados, e a vermelho os
traços considerados “negativos”, conclui-se que apenas três casos (Laurinda, Miquelina
e Isabelinha) foram capazes de desenvolver traços de personalidade considerados
positivos perante a vida, e como tal constituem-se como os casos em que aparentemente
não haveria razão familiar para a institucionalização. Para os restantes casos, os traços
negativos de personalidade são em número igual ou superior aos traços positivos.

- 125 -
“Mas agora gosto de estar aqui. Divirto-me ao ver esta velharia a andar de um
lado para o outro e vejo a paciência que vós tendes para aturar isto. Não é
fácil” (Laurinda)

“Então a minha filha decidiu colocar-me num lar, eu sei o quanto lhe custou. Eu
fiz de conta que não percebi, mas ela chorou muito mas sozinha também não
podia tomar conta de mim e agora também tinha um neta que tinha de tomar
conta, mas ela era uma criança de meses. Na altura os meus outros filhos
ficaram muito indignados por a Lucília me trazer para o lar dizendo que o dever
dela era ficar comigo, mas também nunca ninguém me veio buscar. O meu grau
de dependência era muito grande.” (Miquelina)

“Acho que na minha vida tive tempos felizes e tristes. O mais triste foi o não
consentimento dos meus pais, de não me aceitarem como eu era: depois foi
morrer o meu filho e depois o meu marido. O que me fez mais feliz foi passar
muito tempo nesta vida e nunca ficar doente.” (Isabelinha)

Quadro 23 – Personalidade (Análise Individual)

Nomes1
Categoria Natureza AL LA CA AN PA CL IS AM MI LU IB GO TOT
Confiança vs. Confiança x x x x x x 6
Desconfiança Desconfiança x x x x x x 6
Autonomia vs. Autonomia x x x x 4
Vergonha e Vergonha x x x x 4
Dúvida Dúvida x x x x 4
Iniciativa vs. Iniciativa x x x 3
Culpa Culpa x x x x x x x x x 9
Diligência vs. Diligência x x x x 4
Inferioridade Inferioridade x x x x x x x x 8
Identidade vs. Identidade x x x x x x 6
Difusão Confusão/Difusão x x x x x x 6
Intimidade vs. Intimidade x x x x x x 6
Isolamento Isolamento x x x x x x 6
Generatividade Generatividade x x x x x x x 7
vs. Estagnação Estagnação x x x x x 5
Integridade vs. Integridade x x x x 4
Desespero Desespero x x x x x x x x 8
Total (+): 1 8 1 3 2 3 1 4 8 1 8 0
Total (-): 7 0 7 4 6 5 7 4 0 7 0 8

1
AL-Alcina, LA-Laurinda, CA-Carolina, AN-Anunciação, PA-Palmira, CL-Clara, IS-Isabel, AM-
Amândio, GO-Gorete, MI-Miquelina, LU-Lucília, IB-Isabelinha.

- 126 -
11. ANÁLISE DE RESULTADOS

Muitas são as teorias que apontam a institucionalização como um factor social


resultante da evolução da mentalidade e dos próprios valores da sociedade. Ao longo
deste estudo foram analisados os vários casos de institucionalização tentando
estabelecer-se uma relação entre as vivências familiares ao longo das várias gerações e a
decisão de institucionalização do idoso. Parece claro que, na maior parte dos casos, a
família é marcada pela disfuncionalidade, tendo esta gerado um conjunto de pontos
negativos do carácter e identidade do idoso que estarão na causa principal da decisão da
institucionalização por parte dos familiares.

Sendo a personalidade fruto das várias vivências na família e na sociedade, assim como
do próprio processo de envelhecimento, e assentando-se a explicação dos resultados
sobre a teoria de Erikson referida em Hall et al (2000), conclui-se que para a maior parte
dos casos há uma aparente relação entre as patologias existentes ao nível da família e a
formação da identidade positiva ou negativa de cada um dos elementos em análise.

Neste caso, a análise individualizada acaba por permitir estabelecer alguns padrões que,
na amostra analisada, levam à institucionalização.

A D. Alcina teve uma infância marcada pela ausência de pai e com uma mãe pouco
presente ao nível emocional. Segundo Malpique (1998), o papel instrumental da mãe é
importante para a autonomia e o do pai para a integração na sociedade. Não estando
nenhum deles efectivamente presentes na infância, a D. Alcina desenvolveu uma
personalidade baseada na desconfiança, vergonha e inferioridade, que se prolongaram
para a vida adulta, e que estiveram na base da disfuncionalidade imposta à sua família
de procriação, confirmando a transmissão transgeracional apontada por Sampaio e
Gameiro (1998) e as teorias psicossociais de Erikson referidas em Hall et al (2000) no
que diz respeito à formação da sua personalidade. Também neste ponto, devido à falta
de acompanhamento da mãe e saída prematura de casa a D. Alcina acaba por ter fortes
lacunas que se reflectem no resto da sua vida. A sua relação com a família de procriação
acaba por ser de submissão face ao marido e de incapacidade de estabelecimento de
relações de intimidade com os filhos, acabando por ter com estes apenas o papel de
garante da sobrevivência. Em suma, parece claro que, no caso da D. Alcina, a vida
familiar disfuncional ao longo das várias gerações marcou a sua personalidade e afectou

- 127 -
a capacidade de esta estabelecer ligações afectivas com os descendentes, levando a que
fosse rejeitada pelos filhos e institucionalizada na sua velhice.

No caso da D. Laurinda, apesar de a sua família de origem ter alguma


disfuncionalidade, principalmente ao nível da incapacidade de transmitir afectos, esta
conseguiu desenvolver uma individualidade e um carácter que ao longo da vida lhe
permitiram encarar os vários desafios com confiança nela própria. Esta capacidade
parece ter advindo do facto de, na sua adolescência, ter convivido com uma grande
abertura para a sociedade, que lhe foi proporcionada pelo facto de ter estudado fora de
casa e até uma idade tardia. O facto de ter optado por não se casar e não constituir
família do ponto de vista tradicional fez com que lhe faltasse o suporte na sua idade
avançada, e tivesse que recorrer a uma instituição quando a sua dependência aumentou.
Neste caso específico não se adequam as teorias psicopatológicas da família indo mais
de encontro a causa da institucionalização ao envelhecimento natural, referido por Reis
(1996) e Imaginário (2004), e à falta de suporte familiar pelo facto de não existir
família.

A vida da D. Carolina foi marcada também pelas várias disfuncionalidades da família


de origem, acima de tudo. Marcada pela morte de vários irmãos e pelo suicídio da mãe,
bem como pelo aborto cometido quando era solteira e que a fez manter este facto em
segredo durante toda a vida. Não teve a compensação do papel de pai, que passava a
maior parte do tempo no trabalho e na taberna, para não ter que enfrentar a depressão da
esposa. A infância foi assim disfuncional, fazendo com que, na falta de suporte familiar,
desenvolvesse traços de identidade negativos, tais como a desconfiança, a dúvida, a
culpa, a inferioridade e a confusão/difusão, todos eles justificados pelas teorias de
Erikson (1976), Malpique (1998) e outros autores referidos nas teorias trangeracionais.
A disfuncionalidade acompanha a D. Carolina para a família de procriação, tendo uma
relação tensa com o marido. O facto de não ter filhos piora a relação, tornando-se o
conflito a principal forma de interacção com o marido. A relação com uma sobrinha,
apesar de existente ao longo da vida da D. Carolina, parece ter-se pautado por uma
relação de interesse financeiro, pelo que esta não se constitui como um suporte efectivo
na velhice da D. Carolina. Pode-se assim concluir que, apesar de haver
disfuncionalidades psicopatológicas da família da D. Carolina a principal razão da
institucionalização se deveu ao facto de não haver uma família descendente capaz de a
suportar na velhice. Refira-se ainda que nunca houve uma preocupação da D. Carolina
- 128 -
em fortalecer laços de afectividade com a família alargada, nomeadamente sobrinhos, o
que por si só se constitui também como uma disfuncionalidade familiar importante, e
um outro factor para a institucionalização.

Interpretando os resultados obtidos para a análise de caso da D. Anunciação, mais uma


vez se conclui que as disfuncionalidades familiares contribuíram para a formação de
uma personalidade frágil e com sentimentos de inferioridade e rancor, que fazem com
que encare a sua velhice com sentimentos de desespero, confirmados pela teoria de
Erikson referidas em Hall et al (2000). Os pontos marcantes da sua infância são o
alcoolismo do pai, o tabu face à vida anterior de riqueza da família e situação de
pobreza actual, e o desequilíbrio das tríades, no sentido de ajudar um irmão que tinha
problemas sérios com o jogo. O casamento foi marcado pela rigidez do marido, pela
submissão da D. Anunciação e dos filhos à sua rigidez, e pelo facto de os filhos não
verem na mãe uma pessoa forte capaz de enfrentar os problemas. Ainda do ponto de
vista afectivo, a relação da D. Anunciação com os filhos baseou-se sempre na condição
de sobrevivência, nunca havendo espaço para as trocas afectivas, indo de encontro à
teoria de Malpique (1999) que afirma que a mãe deprimida não consegue corresponder
ao apelo do amor dos filhos. Conclui-se neste caso que a personalidade marcada pela
disfuncionalidade familiar condicionou a decisão de institucionalização, já que a relação
afectiva com os filhos não era suficientemente forte para que estes a aceitassem na
velhice.

A D. Palmira teve uma vida marcada pela ausência de pai no início da sua infância e
pela sua rudeza aquando do seu regresso, o que afectou o desenvolvimento dos traços de
personalidade como a desconfiança, a vergonha, e a inferioridade. Houve ainda uma
marcada violência doméstica, recordada ainda agora, e que fazia com que a relação com
o pai fosse conflituosa e desprovida de afectividade. A fuga de casa, após a morte da
mãe nos seus braços, constitui-se como um marco para a viragem da sua vida. Os
sucessivos casamentos com homens mais velhos e com interesses económicos
envolvidos denotam uma incapacidade de assumir a intimidade, fruto de uma relação
edipiana mal resolvida com o pai da infância, confirmando o referido por Figueiredo
(1985). Assim, é evidente que a personalidade desenvolvida pela D. Palmira
condicionou a forma como ela se relaciona com os vários homens, desde o pai, três
maridos e genro, estando esta incapacidade de lidar com o sexo oposto na génese da
institucionalização, pelo facto de a relação com o genro ser má. A capacidade de
- 129 -
estabelecer uma relação afectiva com a filha esteve também sempre muito aquém das
expectativas para uma família funcional, o que levou a esta decisão por parte da filha.

A infância da D. Clara foi marcada pela inconstância da mãe, que mostrava ter padrões
de comportamento díspares, e um temperamento difícil da mãe que passava para os
filhos. Este factos parecem ter contribuído para a formação de uma personalidade pouco
autónoma, e sentimentos de culpa e inferioridade, confirmando as teorias de Sister
(1996) referentes à ausência de mãe. A instabilidade emocional da mãe e a
promiscuidade do pai com várias mulheres levaram a que fosse estabelecida uma
relação forte com o seu irmão, confirmando o referido por Gimeno(2001) relativamente
ao fortalecimento das díades fraternais. O casamento aos 33 anos foi um acontecimento
que só se verificou porque houvera um esvaziamento da relação sentimental com o
irmão, devido ao casamento deste. Do casamento não resultaram filhos, e aquando da
morte do marido a D. Clara tentou o suicídio, pois sentiu que tinha morrido uma das
únicas pessoas com quem conseguira estabelecer uma relação sentimental forte (a outra,
fora o irmão). A D. Clara nunca procurou estender as suas relações afectivas para além
da família de origem, o que fez com que, após a morte do marido, tivesse ficado
sozinha, sem amparo afectivo, suportada apenas por uma sobrinha. Assim, a
institucionalização foi o desfecho natural, podendo neste caso atribuir-se à dupla
conjugação de factores: formação da personalidade com base da disfuncionalidade
familiar e ausência de suporte familiar na velhice.

O caso da D. Isabel acaba por ser paradigmático no que se refere à sua personalidade e
aos comportamentos da família de origem e de procriação. Assim, a família de origem
foi marcada pela disfuncionalidade pelo divórcio prematuro dos seus pais, tinha ela três
anos de idade. Criada pela avó e pela tia, acaba por sofrer de maus tratos na infância que
influenciam a formação da sua identidade, tornando-se uma pessoa desconfiada, com
problemas de auto-afirmação que vêm a revelar-se ao longo da sua vida como geradores
de conflito e na sua velhice como indutores de desespero. A causa da sua
institucionalização reside aqui em dois pontos fundamentais: um deles aponta para a
incapacidade do ponto de vista humano dos seus filhos tomarem a seu cargo uma mãe
doente. O segundo aponta para toda a disfuncionalidade que acompanhou a família de
origem e que contribuiu para a formação de uma identidade confusa e distorcida,
geradora de conflito.

- 130 -
Um dos casos mais paradigmáticos e que mais afectados foram por crises familiares é o
do Sr. Amândio. Originário de uma família rigorosa ao nível da educação transmitida
pelo pai, e emaranhada pelo facto de ninguém se conseguir autonomizar do poder
patriarcal, cresceu com um forte sentido de confiança, diligência e identidade. Casou-se
e transmitiu o mesmo rigor aos filhos, baseando-se na moral católica. Com a separação
da mulher, devido à infidelidade dela com um padre, acaba por mudar radicalmente a
sua forma de estar perante a vida, procurando a luxúria e os bens materiais, deixando de
ter uma relação saudável com os filhos. Com o isolamento devido a esta crise familiar
todo o sistema acabou por desabar vindo este a transformar-se no facto que, na idade
adulta, deu origem à decisão de institucionalização por parte dos filhos. Neste caso, a
crise não ultrapassada da separação da mulher levou à ruptura total do sistema, como
refere Gimeno (2001).

Analisando em detalhe o caso da D. Miquelina verificam-se traços de não se verificam


traços de disfuncionalidade relevantes, nas famílias de origem e de procriação.
Inclusivamente ao nível da personalidade, a D. Miquelina tem traços de completa
funcionalidade, com traços positivos a todos os níveis. Apesar de várias crises
familiares, que passaram por um primeiro divórcio, pela manutenção do segredo em
relação a este facto no que diz respeito aos filhos e pela não aceitação dos sogros, a
família foi sempre capaz de se reestruturar, vivendo uma relação saudável de respeito
pela individualidade. Caso de excepção terá sido, na fase de transição para o segundo
casamento, e como forma de proteger as filhas, a entrega destas ao cuidado dos avós e
da tia. Neste caso, a razão para a institucionalização parece residir no facto de os filhos
não terem a capacidade de integrar uma idosa com alguns problemas de saúde no seio
da sua família de origem, indo de encontro ao referido por Sousa, Figueiredo e
Cerqueira (2004) e Imaginário (2004).

Na análise da família de origem da D. Lucília chega-se à conclusão que o autoritarismo


excessivo dos pais poderá de alguma forma ter marcado a personalidade da D. Lucília,
apesar de ela referir uma infância feliz, pela convivência com os irmãos e outras
crianças. De qualquer forma, do ponto de vista familiar, poder-se-á considerar a família
como equilibrada, com poucos casos negativos dignos de registo, o que contribui para
um crescimento saudável. A família de procriação foi marcada por um conjunto de
disfuncionalidades, mais ao nível afectivo, que fez com que nunca houvesse um
reconhecimento efectivo por parte dos filhos em relação ao papel efectuado pela mãe.
- 131 -
Este facto deve-se à inconsistência de personalidade revelada, que faz com que os filhos
não se identifiquem com a mãe, por não reconhecerem nela o papel que Myrian (2001)
aponta para os pais como pessoas confiáveis, que mostrem modelos de identificação
positivos e que favoreçam na criança um sentimento de competência. Neste caso, a
família acaba por não seguir a definição de Guzman (1974) que a define como uma
unidade de compartilhamento de um conjunto de situações. Este é o factor que leva à
decisão de institucionalização, pelo facto de afectivamente a família estar desligada.

No caso da D. Isabelinha, tanto a família de origem como a de procriação apresentam


traços mistos de funcionalidade e disfuncionalidade, principalmente ao nível da família
de origem. Apesar destes factos, a idosa foi capaz de desenvolver uma identidade
própria, muito positiva e geradora de consensos. A causa de institucionalização prende-
se acima de tudo com a idade de 100 anos que a idosa já tem, sendo a sua filha também
idosa e não tendo capacidade de cuidar da sua mãe. Assim, este caso de
institucionalização acaba por ser do foro social, por falta de descendentes com a
capacidade de tomar conta da idosa.

Por fim, no caso da D. Gorete, pode-se concluir que tanto a família de origem como a
de procriação são marcadas pela disfuncionalidade aos seus diversos níveis, tendo estas
disfuncionalidades contribuído para uma formação de identidade negativa, baseada na
desconfiança, dúvida, confusão e levando ao desespero na fase final da vida. O facto de
os pais não se preocuparem com a transmissão de valores levou a que a personalidade
seguisse os traços negativos previstos por Erikson (1976). A família de procriação foi
marcada pela total disfuncionalidade, com casos de alcoolismo, quer do marido, quer
dela própria, o que terá gerado nos filhos um sentimento de revolta e não identificação
com os pais, sendo o desfecho final a decisão de institucionalização.

Pela análise dos resultados individuais da amostra conclui-se que a decisão de institu-
cionalização para a maior parte dos casos se prende com problemas do foro patológico
da família, que atravessaram várias gerações e que se tornaram no foco da não
identificação familiar. Note-se que a instituição em causa é privada e com fins
lucrativos, e que os valores mensais cobrados são relativamente altos, o que reforça
ainda mais a ideia de abandono propositado dos filhos, independentemente das
condições económicas exigidas. Verifica-se ainda que as famílias são capazes de

- 132 -
ultrapassar a vergonha referida por Hespanha (1993) de institucionalizar os idosos.
Neste caso, os idosos saem do seu meio de conforto familiar (Cowdry, 1962).

Com esta análise contrariam-se algumas das teorias enunciadas, segundo as quais a
institucionalização reside no facto do desrespeito pela velhice ou pela dependência
física e psicológica do idoso referidos por Paul (1997) e Henderman (2000).
Comprova-se sim que, nos casos em estudo, os factores patológicos estão na génese da
formação de personalidades extremas, com tendência para o conflito, e com a
incapacidade de proporcionar aos filhos o ambiente familiar onde eles se sintam
seguros, tal como Gimeno (2001) aponta como caso de sucesso de família. A afirmação
de Cabral (1994) que justifica no trabalho excessivo a causa da falta de tempo para os
idosos e respectiva institucionalização sai contrariada com este estudo.

Conclui-se ainda que, como refere Cordeiro (1982), a maior parte dos idosos em
questão não aceitam a velhice e as transformações que esta traz à sua forma de vida,
tendo dificuldades de adaptação às novas condicionantes. Confirma-se também a
vontade de todos os idosos envelhecerem em família, como afirma Sousa, Figueiredo e
Cerqueira (2004), sendo este facto rejeitado pelos familiares pelo facto da pouca
identificação com os progenitores, devido à disfuncionalidade que estes causaram na
infância dos filhos (Gimeno, 2001).

Não se confirma o postulado de Pimentel (2005) relativamente à distância geográfica


dos filhos e ao isolamento das famílias modernas. Este surge como uma hipótese, mas
na maior parte dos casos os filhos dos idosos vivem na região do Porto, pelo que não se
encontra aqui qualquer justificação para a decisão de institucionalização. Finch(1989)
refere que os filhos reconhecem normalmente que têm o dever de apoiar os pais, o que
neste caso não acontece, provavelmente porque os filhos não reconhecem os seus
progenitores como verdadeiros e completos pais, devido à forma como estes foram
crescendo no seio da disfuncionalidade.

O sentimento alargado de isolamento deve-se concerteza à não convivência em família,


como aponta Minuchin (1990) e Drulle (1981). Pela decisão de institucionalização, os
idosos passam a ver-se separados da família, desenvolvendo naturalmente sentimentos
de solidão e nostalgia, apontando a responsabilidade dos filhos mais pelo factor da

- 133 -
criação do que do sentimento. Frases do tipo “…fui eu que o fiz nascer…” confirmam
esta teoria.

Infere-se deste estudo que relações fortes entre as famílias são causadoras de conforto,
enquanto que relações conflituosas e disfuncionais levam à quebra de laços e a decisões
drásticas de institucionalização. Conclui-se também que a formação da personalidade
está de facto intimamente ligada à família, principalmente à de origem, sendo nesta que
se desenvolvem os traços que irão acompanhar a pessoa durante toda a idade adulta.
Alterações à personalidade, com desenvolvimento de aspectos negativos, levam a um
perpetuar de disfuncionalidades para além da família de origem, sendo factores sempre
presentes na família de procriação. As famílias disfuncionais levam a laços afectivos
fracos fazendo com que não haja uma identificação dos filhos com os pais, sendo este o
factor primordial para a decisão de institucionalização.

- 134 -
12. CONCLUSÃO

Muitos são os estudos que abordam a idade adulta, numa perspectiva meramente
estatística, focando as suas conclusões num conjunto de dados estatísticos, retirados de
inquéritos efectuados directamente aos idosos. As condições que estes idosos têm para
responder, quer do ponto de vista físico quer psicológico e afectivo, nem sempre são
levados em conta nesses estudos, levando a que os resultados sejam muitas vezes
enviesados.

Com o presente estudo optou-se por uma abordagem de proximidade, com o


estabelecimento de uma relação de confiança mútua entre investigador e entrevistado,
levando a que as respostas tenham sido desinibidas e sinceras. Surge desta relação de
proximidade que culmina numa análise qualitativa da informação um conjunto de
factos, que ficam escondidos numa primeira abordagem ao idoso, mas que em conversa
continuada acaba por vir ao de cima. De facto, as entrevistas acabam por revelar, na
maior parte dos casos, várias disfuncionalidades familiares, que começaram nas famílias
de origem e se prolongaram intergeracionalmente para a família de procriação de cada
um dos idosos, e que estão na base de um conjunto de disfuncionalidades ao nível da
personalidade. Estas alterações de personalidade acabam por estar na base de todas as
desavenças e disfuncionalidades afectivas com a família, precipitando por parte destas a
decisão de institucionalização do idoso, ainda que economicamente a situação se revele
desvantajosa e difícil de suportar.

Ficaram assim bem patentes os factores vivenciais da família como causa primeira da
decisão de institucionalização, contrariando-se um conjunto de teorias que apontam
simplesmente os estilos de vida modernos e o desrespeito pela senioridade como causas
primárias para a decisão de internamento em lar.

A divisão dimensional da informação obtida a partir das entrevistas e a sua


representação de forma tabular, complementada pelos estudos de caso individualizados,
acabam por dar um conjunto de informação qualitativa, tratada ao nível individual,
fazendo com que a investigação se situe num nível mais próximo das terapias familiares
do que propriamente no tratamento estatístico de informação que muito dificilmente
serviria de base para qualquer trabalho prático de intervenção junto da comunidade em
estudo. De facto, a aplicação prática de um conjunto de terapias que permitam suavizar

- 135 -
o estádio final da vida de cada um dos idosos estudados torna-se, a partir deste estudo,
bastante mais simples, uma vez que estão identificados todos os factores causadores de
disfuncionalidade, faltando apenas definir um conjunto de planos de acção
individualizados para cada um dos idosos.

Ao longo de todo o tempo da investigação houve um conjunto de factores que limitam


os resultados obtidos, apesar de estes estarem desde logo previstos antes do início da
investigação. A idade avançada dos idosos faz com que determinados acontecimentos
longínquos, principalmente relacionados com os pais e avós, estejam pouco presentes.
A não aderência de familiares ao estudo, pelo menos do ponto de vista formal,
condiciona as histórias e a visão dessa história de apenas uma das partes; sabendo-se
que uma das características do envelhecimento é a auto-vitimização que leva sempre a
encontrar “bodes expiatórios” para tudo o que de mal acontece, seria interessante ter
uma comparação da história, para analisar a veracidade dos factos.

Ao nível dos objectivos propostos para esta investigação conclui-se que estes foram
integralmente concluídos. Foi possível identificar para cada um dos casos os factores
familiares que estão na base de decisão de institucionalização e os impactos ao nível da
personalidade que estes tiveram, tendo sido possível fazê-lo nas várias gerações de cada
uma das famílias.

No final deste estudo conclui-se assim que a metodologia utilizada foi a apropriada face
ao problema definido e aos objectivos propostos, permitindo um conjunto de conclusões
bem fundamentadas e que de certa forma alteram os tipos de abordagem mais usuais em
investigação na terceira idade.

Do ponto das vista das instituições, torna-se fácil recomendar que estas passem a ter
apoio psicológico aos seus utentes e respectivas famílias, sendo também importante a
sensibilização junto da direcção e funcionários para a saúde mental dos idosos, e a sua
importância como meio de proporcionar o bem-estar possível para um grupo já de si
fragilizado pelo estigma do envelhecimento e da institucionalização.

É necessário desenvolver actividades para que os idosos consigam manter, até cada vez
mais tarde, um equilíbrio entre a parte física e emocional, sendo importante apoiar a
família para que esta consiga alterar a sua própria ideia de institucionalização e
integrar-se nesse novo mundo, sem complexos.

- 136 -
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- 141 -
ANEXO I – TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTAS

- 142 -
Entrevista D. Alcina

A entrevista foi realizada a 15 de Janeiro de 2008 às 10 horas da manhã, recorrendo a


gravador como suporte de gravação áudio, tendo este meio obtido o consentimento da
entrevistada.

Quantos anos tem ?

Nasci em 6 de Fevereiro de 1917.

Estado civil?

Sou viúva há mais de 20 anos.

Escolaridade?

Não tenho, mas sei ler e escrever.

Há quantos anos está a viver no lar?

Desde 2 de Fevereiro de 2003.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

A minha vida foi sempre uma tristeza; sofri muito desde pequenina, nunca fui a uma
escola. Vivia em Santa Maria da Feira. Com seis anos fui servir para Aveiro, passava o
dia a limpar escadas. Os meus avós maternos morreram muito cedo e não os conheci. Se
eles estivessem vivos, talvez não precisasse de ir servir aos seis anos.

Nunca conheci o meu pai. Fez um filho à minha mãe e desapareceu, nunca soube nada
dele. A minha mãe também era uma mulher da vida, por isso nunca nos deu grande
atenção; tenho uma irmã que também não se sabe quem é o pai. Nunca quis contar isto a
ninguém; até sinto vergonha. Prometi ao meu filho nunca contar isto, mas já que é você,
e os meus filhos já morreram, estou a contar-lhe, pois até me sinto aliviada. Por isso já
está a imaginar a minha vida.

Passei muita coisa, levei muita porrada dos senhores com quem trabalhava porque eu
cansava-me muito e tentava descansar pois eu era uma criança. Tive de ir servir porque
a minha mãe não tinha possibilidades de me dar comida, a mim e à minha irmã. Ela

- 143 -
trabalhava a bordar par fora, mas dava pouco dinheiro e segundo a minha mãe os pais
dela morreram muito cedo por isso também não tinha quem lhe deitasse a mão.

Passados para aí uns três anos eu e a minha irmã regressámos para junto da minha mãe e
ela resolveu que devíamos vir para o Porto, visto que ela sabia bordar muito bem, e
ensinou-nos a nós a bordar e a costurar, tinha eu cerca de 10 anos. E assim foi.
Começámos a trabalhar aqui no Porto; vivíamos as três num quarto muito pequeno e
acabámos de crescer assim. Nunca soubemos o que era ser criança e muito menos
brincar; nuca me lembro de um brinquedo. A minha mãe também era um a pessoa
amargurada, e só pensava no trabalho, por isso nunca nos deu um carinho que fosse. Eu
até gostava da costura e do trabalho com a roupa, mas a minha irmã não gostava nada,
por isso mal pôde arranjou um namorado e foi com ele para o Brasil.

Entretanto, eu também conheci um rapaz; só o conheci a ele nuca tive mais namorado
nenhum e casei com 17 anos, mas a minha vida não mudou muito: passei muita fome,
mal casei tive logo os meus filhos. Tive dois e fechei logo as portas. Era tempo de muita
fome, era tempo de guerra, a segunda guerra Mundial. Tirei muito da minha boca para
lhes dar a eles mas nunca os deixei ir servir. Era eu quem costurava todos os dias
centenas de fardas para os soldados levarem para a guerra; Todos os dias às seis da
manhã ia levar a trouxa de roupa, não dormia em toda a noite.

O meu marido trabalhava num escritório mas ganhava muito pouco, mas dava para
pagar as coisas de casa. Ele era um homem muito respeitoso, mas também era muito
rigoroso e muito ciumento; eu não podia olhar para o lado, por isso também sofri muito;
não podia usar um pequeno decote ou uma saia mais ousada que ele tratava-me logo
mal. Quando ia no autocarro e um cavalheiro se levantava para eu me sentar ele ficava
logo com uma cara e com vontade de me malhar. Passado três anos ele resolveu ir
também para o Brasil e queria que eu também fosse mas eu não quis ir fiquei cá com os
meus filhos. Esteve lá cerca de 3 anos, só mandou notícias duas ou três vezes, nunca
mandou um tostão por isso eu aqui matava-me a trabalhar para não faltar o essencial aos
meus filhos. Também tenho de reconhecer que também nuca lhes dei muita atenção
porque trabalhava muito, mas nunca os tirei de casa. Nem tinha tempo para pegar neles
ao colo. Depois o meu marido regressou e veio voltar a trabalhar no mesmo sitio onde
trabalhava antes. Continuava o mesmo tipo de pessoa, pouco tolerante e de poucas falas;
à mesa com os filhos era muito rigoroso; à mesa não se falava, não se podia dar uma

- 144 -
palavra. Com o dinheiro que ele trouxe do Brasil comprámos uma casa e a vida
começou a melhorar; os filhos foram crescendo.

A minha mãe morava perto de mim mas o meu marido não gostava muito dela devido à
maneira como ela levou a vida. Ela também era uma pessoa muito fechada, era como
eu. Vivia sozinha na casa dela mas eu quando podia ia lá vê-la e tratava-lhe das coisas
de casa e mandava-lhe a comida pelos meus filhos. Um dia de manhã fui ter com ela e
quando a vi ela tinha tido uma queda e estava morta; não sei bem o que teve mas pelo
menos nunca saiu de casa dela como era o seu desejo. Ainda hoje me sinto culpada por
a ter abandonado ao seu destino.

O meu filho estudou e depois foi trabalhar; a minha filha só fez a 4 ª classe e saiu cedo
de casa para casar, ainda que contra a minha vontade; trabalhava também na costura e
teve 2 filhos. O meu filho, depois de casar ainda morou algum tempo em nossa casa
mas depois, claro, foram governar a vida deles, mas moraram sempre aqui no Porto.

Fiquei viúva; o meu marido tinha 68 anos e morreu com o cancro do pulmão. Entretanto
a minha filha também ficou muito doente, pouco tempo depois do pai morrer; ela era
uma pessoa muito fechada e não contava a ninguém que estava doente; ainda tinha os
filhos pequenos. Um dia fui a casa dela; ela chorava de dores e levei-a para o hospital e
detectaram um cancro na vesícula. Já não saiu de lá viva. Hoje ainda me sinto
angustiada com a morte dela. Deveria ter percebido antes que ela estava doente. Como
já disse, saiu de casa cedo, pois não aguentava a vida lá de casa. O pai era muito
rigoroso, e eu nunca lhe dei o devido valor. Nunca falei com ela sobre as coisas da vida,
nunca a ouvi, e nunca lhe dei um carinho que fosse. Fiz exactamente o mesmo que a
minha mãe me fez a mim.

Mais dois desgostos. Fiquei a morar sozinha na minha casa, não tinha amigos, nem
nunca dei confiança aos vizinhos. Nunca gostei de me meter na vida de ninguém por
isso não queria que ninguém se metesse na minha vida. Os dias eram todos iguais. De
vez em quando o meu filho visitava-me, assim como os meus netos, mas tinham a vida
deles, tinha a minha reforma e a do meu marido e levava a minha vida sem grandes
luxos.

- 145 -
Como veio para o lar?

O tempo foi passando e eu cada vez mais velha, mas gostava de viver sozinha com as
minhas lembranças; fazia as minhas rotinas e lá vivia. Um dia de manhã fui às compras
e quando cheguei a casa tinha sido assaltada levaram tudo o que era de valor. O meu
filho e o meu neto vieram ter comigo dizendo que eu não podia estar só, e como a
minha relação com a minha nora não era das melhores fui viver para casa do meu neto.
A minha nora dizia que eu era a responsável pela morte da minha filha, dizendo que eu
nunca quis saber dela, e por isso os meus netos por parte da minha filha nunca mais
falaram comigo nem quiseram saber mais de mim. Mas eu gostava muito dela; ainda
hoje sofro muito com a morte dela.

Entretanto fui para casa do meu neto, mas não deu resultado. Eu estava todo o dia em
casa sozinha e eles acharam que eu assim não estava bem. Então resolveram colocar-me
no lar.

Um dia o meu filho veio cá visitar-me e no dia a seguir soube que ele tinha tido um
enfarte mas a culpa não foi minha. Eu só queria saber das minhas coisas, do meu
dinheiro que tinha no banco. Eu tenho direito a saber quanto dinheiro tenho; sempre
tratei das minhas coisas e depois enfiaram-me no lar e pensam que eu já morri. Eu só
queria que ele me levasse ao banco para saber das coisas. Desde que vim para cá
puseram-me ao lado de tudo (a utente contava isto com ar revoltado).

Dias depois o meu filho morreu. Mais uma culpa no corpo.

A senhora queria vir para o lar?

Nunca. Eu queria estar era na minha casa. Preferia estar sozinha. Vim para aqui comecei
logo a ficar cega. Caí e parti a anca e depois claro foi sempre a ficar cada vez mais
dependente. Não gosto que me dêem ordens; gostava de estar na cama até que horas me
apetecesse e não gosto de dar trabalho a ninguém. Gosto de estar no meu canto. Desde
que vim para aqui nuca mais fui a mesma. Tenho comichão pelo corpo todo, são uns
bichos que andam lá no quarto eu bem os vejo, são muito pequeninos. Sou uma
desgraça.

- 146 -
Foi ver algum lar antes de vir para este?

Eu não procurei nada eles trouxeram-me logo para aqui, gostasse ou não.

A sua família vem cá visitá-la?

Depois do meu filho falecer raramente vem cá alguém. A minha nora vem cá fazer os
pagamentos e só nesse dia é que a vejo. Os meus netos não vêm cá pois acham que eu
fui culpada pela morte dos pais, mas só Deus é que sabe como eu gostava que os meus
filhos estivessem vivos, pois por ordem das coisas eu teria de morrer antes e Deus não
se lembra de mim. O meu neto mais velho é que nas principais festas, como no Natal, é
que me vem buscar para eu ir lá cear mas até me sinto mal porque noto que só fazem
aquilo para eu não ficar só nessa noite no lar. Mas fico tantas outras que para mim
aquilo não faz sentido nenhum. Quem me telefona muitas vezes é a minha irmã do
Brasil. Nunca mais cá veio desde os seus 15 anos mas telefona muitas vezes. Os meus
sobrinhos também telefonam. Até queriam que eu lá fosse, mas se nunca fui, não vai ser
agora que lá vou; mas fico contente por não se esquecerem de mim.

Como é o seu dia no lar?

Passo muito tempo sozinha no meu quarto. Venho para estas salas e fico ainda mais
deprimida quando olho para estas pessoas que se tem de dar de comer à boca, babam-se
todas, é preciso levarem-nas à casa de banho. Só peço a Deus que se ficar assim que me
leve logo. Não gosto de jogar nem de fazer nada; já trabalhei muito quando era nova,
agora descanso. Sinto muita tristeza por ter de terminar a minha vida num lar sempre
gostei da minha casa.

Entrevista D. Laurinda

A entrevista foi realizada a 07-02-2008 às 11:00, não tendo sido usado o gravador como
suporte de gravação áudio, a pedido da entrevistada. O suporte usado foi o papel, e o
texto que se segue é a reconstituição textual da entrevista, efectuado logo após a
ocorrência, tendo como suporte as anotações efectuadas.

- 147 -
Quantos anos tem ?

A entrevistada referiu ter 88 anos.

Estado civil?

Respondeu prontamente a D. Laurinda: “Sou solteira, nunca gostei de me prender a


ninguém. Era uma pessoa que não gostava de ter uma vida presa, principalmente por um
homem”.

Escolaridade ?

Professora Primária.

Há quantos anos está a viver no lar?

Desde 3 de Janeiro de 2006.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

A idosa nasceu e morou até aos 15 anos em Lamego. “Naquela altura ainda era uma
terra muito longe do Porto, e até de Vila Real”, refere. Aponta a D. Laurinda que a sua
vida de criança foi como a de todas as outras: brincou, estudou na escola primária e com
15 anos foi para Vila Real, e morava com os seus primos. “Esses sim, lembro-me bem
deles e considerava-os mais família que a própria família pois eram eles que me ouviam
quando tinha algum problema”, apontou a D. Laurinda.

Os pais estavam longe, só telefonava de vez em quando: “Só perguntava como iam as
coisas não se entrava em grandes pormenores”. Por isso, segundo a D. Laurinda, os
laços iam-se desfazendo. Desde muito cedo começou a ter uma vida muito
independente. Visitava muito raramente a família porque os transportes eram muito
raros e também porque não tinha assim tanto dinheiro para andar para a frente e para
trás; o seu pai usava o mesmo argumento.

Quando terminou o curso veio para o Porto. Foi dar aulas para um colégio, do qual se
tornou proprietária e directora e assim dedicou a sua vida às crianças desde os três anos
até eles serem crescidos. Refere a D. Laurinda: “Eles preenchiam todo o meu tempo,
por isso nunca senti necessidade de namorar nem de ter filhos, preferia durante o dia
cuidar dos filhos dos outros e de noite dormir sossegada na minha cama”. Morava num

- 148 -
apartamento com uma colega: ”Gostávamos muito uma da outra e vivíamos como
irmãs. Passeávamos juntas e trabalhávamos no mesmo colégio”.

Sobre as vistas à família diz que as visitas eram esporádicas, o que lhe causou o
afastamento da família: “Contam-se as vezes que fui a Lamego; não me puxava nada,
porque detestava viajar. Também não havia grande preocupação por parte deles;
também nunca me visitaram. Eu, no Natal e na Páscoa ia lá, mas vinha logo embora ao
outro dia. Mais tarde os meus pais faleceram e eu nuca mais tive nenhum
relacionamento com o resto da família. Tive um irmão que também não tive grande
relacionamento pois era mais novo que eu cinco anos. Ele ficou sempre por Lamego.
Teve 8 filhos que foram todos para Lisboa; claro não querem saber da tia para nada ela
também nunca lhes ligou. O meu irmão já morreu assim como a mulher”.

Viveu sempre com uma colega que faleceu com 80 anos. “Essa senti realmente muito a
falta dela. Fiquei a morar sozinha, coisa que me custou muito, visto que estava
habituada a morar com aquela pessoa ela era realmente a minha família e só quando ela
me deixou a que eu vi a falta que me fazia”. Diz ainda a D. Laurinda: “Os dias
tornaram-se longos demais e como ao longo da minha vida não fiz grandes amigos
estava a pagar agora na pele. Tenho muitos conhecidos porque era uma pessoa que
conhecia muita gente devido à minha profissão, mas nada de especial”.

Nunca casou mas a amiga teve um filho e a D. Laurinda continuou a morar com toda a
família. “Numa altura comprei um apartamento porque não conhecia o temperamento
da pessoa com quem a minha amiga se casou, mas tive sorte, ele era uma excelente
pessoa”. A D. Laurinda criou aquele rapaz como um filho: “Esse filho cresceu e casou e
teve dois filhos, os quais eu trato por sobrinhos”.

Como foi a sua vinda para o lar?

A D. Laurinda morava sozinha no 5º andar. Todos os dias saía de casa, ou para tomar
café ou dar uma volta, e falava com os seus vizinhos, aquilo já era um hábito. Um dia
eles acharam estranho não a verem e foram-lhe bater à porta mas ela não respondeu.
Continua a D. Laurinda: “Eles chamaram a polícia e arrombaram a porta e lá estava eu
no chão. Levaram-me para o hospital onde me diagnosticaram uma fractura da anca;
ainda estive internada bastante tempo. Depois, quando tive alta uns primos meus que
também viviam aqui no Porto propuseram-me a minha ida para um lar. Quando me

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reformei, decidi doar o apartamento aos meus sobrinhos, nunca pensando que me
colocassem no lar, pois se eu soubesse nunca lho tinha dado”.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

“Eu antes de vir para aqui fui para outro lar, mas fui muito mal tratada. Mas estes
parentes que eu lhe falo não gostaram das instalações nem da maneira como fui tratada
e trouxeram-me para aqui”. Mas a D. Laurinda diz que nunca tinha ido ver nenhum lar
porque nunca pensou nessa possibilidade: “Só em pensar num lar dava-me uma tensão,
mas afinal até gosto de estar aqui”.

A sua família vem cá visitá-la?

A D. Laurinda diz que tem poucas visitas: “Os únicos familiares que me vêm visitar são
estes parentes que bem conhece. Deixei-lhes tudo o que tinha e eles tomam conta de
mim, pelo menos vêm saber se eu preciso de alguma coisa, mas felizmente não preciso
de nada. Por vezes sou visitada por antigos colegas e alguns conhecidos que sabem que
eu estou aqui. Os meus sobrinhos nunca me vieram visitar; eu sou uma pessoa estranha
para eles. Também não iam ter o trabalho de vir de Lisboa até aqui para verem a tia
velha, isso para eles não tem significado nenhum. Eu bem os gostava de ver, pelo
menos ver se os tirava pela pinta, mas é assim a vida”.

A senhora queria vir para o lar?

A D. Laurinda respondeu um peremptório não, e referia tremer sempre que pensava


neste assunto: “Tremia cada vez que pensava no assunto, mas a vida nem sempre é
como queremos. Mas agora gosto de estar aqui. Divirto-me ao ver esta velharia a andar
de um lado para o outro e vejo a paciência que vós tendes para aturar isto. Não é fácil”.

Como é o seu dia no lar?

Passa o dia sentada a ver televisão, a fazer trabalhos com a menina Liliana e a ver o
tempo passar: “Já não tenho olhos para ler nem para fazer mais nada, e penso como foi
a minha vida. Às vezes poderia ir passear mais vezes, mas custa-me muito andar e não
gosto de ir a estas ruas; Dão-me muitas lembranças, pois sempre morei por aqui. Nunca
mais consegui passar no colégio e muito menos na minha casa. Tenho medo da minha
reacção”.

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Entrevista D. Carolina

A entrevista foi realizada a 09-02-2008 às 14:00 h, recorrendo a gravador como suporte


de gravação áudio, tendo este meio obtido o consentimento da entrevistada.

Quantos anos tem ?

83 anos.

Estado civil?

Sou viúva.

Escolaridade?

Andei até à terceira classe na escola.

Há quantos anos está a viver no lar?

Vivo aqui há cerca de 5 anos, vai fazer a 31 de Julho. Vim em 2003.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

Eu tinha 12 irmãos, mas morreram todos muito novos. O meu irmão mais novo morreu
com 22 anos. Chamava-se Pedro, era marinheiro. Veio doente, foi para o hospital
militar e acabou por morrer, e deixou duas filhas pequenas e a mulher.

Os meus pais eram muito pobres. A minha mãe era doméstica e tratava de nós todos
como podia; quer ela quer o meu pai sempre gostaram muito dos filhos; os meus irmão
foram morrendo todos. Como já disse, só ficou o meu irmão mais novo que morreu com
22 anos e uma irmã que também morreu nova. A nossa vida em criança foi sempre
triste, porque a minha mãe com tanta desgraça apanhou uma depressão. Nunca a vi rir,
sempre triste. O meu pai também não lhe ligava muito, eram homens daquele tempo, de
poucos sentimentos. Ele passava muito tempo no cemitério ou na taberna, e dizia que
não a aguentava, pois ela tinha muito mau humor. Até a nós nos fazia confusão, estar
em casa com ela.

A minha mãe matou-se em casa com 54 anos, desgostosa porque a minha irmã teve um
acidente e ficou inválida, e a minha mãe é que tomou conta do filho dela. Mas o marido

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dela perante aquele quadro foi-se embora, mas passado algum tempo veio buscar o
filho, e a minha mãe com o desgosto matou-se. Pelo vistos o meu cunhado já tinha uma
amante, mesmo antes da minha irmã ter o acidente pelo qual depois acabou por falecer.
Nunca quis saber do miúdo, e de um dia para o outro veio buscá-lo. Ela matou-se com
“remédios”.

O meu pai era porteiro de Agramonte, era cobrador do cemitério. Ficou a viver só
depois da minha mãe morrer, e ele morreu também muito cedo, com 64 anos, com um
ataque. Era eu que tomava conta dele na altura.

Quando tinha 21 anos já não tinha pais nem irmãos. Eu trabalhei muito em solteira, era
o único sustento da casa depois do meu pai ficar doente. Tomei conta de crianças,
trabalhei muitos anos numa clínica de ecografias. Depois de casar deixei de trabalhar, só
tomava conta da casa. Arranjei um namorado; namorei com ele pouco tempo mas
engravidei ainda em solteira e tive de “deitar abaixo” a gravidez por causa da vergonha,
tanto minha como do meu namorado. Passado algum tempo resolvemos casar e voltei a
engravidar mas a criança só viveu 3 dias. Depois nunca mais consegui engravidar; cá
para mim foi um grande castigo que eu tive. Nunca fui de ligar muito à família, só tinha
as minhas sobrinhas, e nunca tive assim tanta confiança com elas.

O meu marido teve uma amante, da qual tinha um filho dela. Eu sempre soube, e ele
sabia que eu sabia, mas nem se importava. Eu ia a casa dela e berrava com ela e
batia-lhe; ela fazia queixa ao meu marido e ele quando chegava a casa batia-me a mim,
mas eu não me importava. Mas uma coisa é certa: ele nunca me deixou; mas teve a
amante durante 20 anos. Arranjou uma amante porque ele era um homem da noite e
procurava casas de prostituição: gostou da tipa. Passei muito por causa dela; sofri muito.
Mas também era muito meu amigo, e levou-me a conhecer o mundo inteiro: fui ao
Brasil, Grécia, França e em Portugal não há lugar nenhum que eu não fosse. Mas
continuava sempre a andar com ela. Ele era um ardido. Mas eu também lhe batia a ela,
muito; puxava-lhes por aqueles cabelos, e quando passava por ela na rua tratava-a muito
mal. Ao meu marido, eu perdoava-lhe tudo; era a única pessoa que tinha e como ele
tinha muitas possibilidades… e aguentei sempre assim a minha vida. No fundo ele
nunca me faltou com nada.

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Ao fim de 63 anos ele morreu. No dia do funeral dele zanguei-me com o filho da minha
irmã, que por causa dela a minha mãe se matou, porque ele foi ao banco e levantou o
dinheiro e deixou a casa toda vazia dos bens do meu pai; foi pessoa que também morreu
para mim. Depois do meu marido morrer fiquei a morar sozinha e arranjei uma rapariga
para ir morar comigo, mas durou pouco tempo, porque ela me roubou. Levou-me todo o
ouro que tinha. Depois tive outras moças que não prestavam, que só se queriam
aproveitar de mim. Eu tenho duas sobrinhas por parte do meu irmão: sempre foram
minha amigas enquanto eu não precisava, e o meu marido dava-lhes muito. Quando
fiquei sozinha tinha uma que vinha visitar-me e a outra só começou a vir depois de ficar
viúva. Eu bem as percebi, mas esqueceram-se que eu tinha gasto o dinheiro quase todo a
viajar. O que elas queriam era ver o que podiam levar, mas eu não sou tola, e
despachei-as.

E foi assim a minha vida

Como veio para o lar?

Eu vivia só como já disse. Quando podia ia visitar as minhas sobrinha, e até lhes
telefonava muitas vezes. Mas elas visitavam-me poucas vezes pois tinham a vida delas e
a família delas pois eu delas não era nada. A minha saúde também não era grande,
porque eu nunca trabalhei depois de casada. O meu marido trabalhava na EDP ganhava
bem para nós, ia eu trabalhar para ele dar o dinheiro ao filho dele, isso a que era bom.
Nessa altura eu dava tudo o que tinha às minhas sobrinhas, pois elas gostavam muito de
mim. Elas tratavam-me bem, iam passear comigo e levavam-me ao restaurante.

Era a idade e uma noite qualquer deu-me uma coisa; os vizinhos aperceberam-se e
arrombaram a porta e encontraram-me no chão. Levaram-me para o hospital e estive lá
cinco dias e depois trouxeram-me para aqui porque o marido da minha sobrinha não
queria que eu fosse para casa dela dizia que eu era muito chata e obrigou a minha
sobrinha a trazer-me para aqui. Quando eu viajava trazia-lhe sempre boas prendas a ele,
e agora foi a paga. É um mal agradecido.

A senhora queria vir para o lar?

Nunca quis. Sempre gostei da minha casa. Para um lar é a ultima ida para onde se quer
ir; deixámos as nossas coisas ao abandono, deixámos lá ficar a nossa vida, deixei lá em

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casa tudo o que era bom, mas elas já despacharam tudo, por isso não sei que fim deram
às minhas coisas. E aqui mexem-me em tudo até me roubam a minha roupa. Eu é que
não quero dizer nada para não me chatear. Triste ser-se velho, porque Deus não se
lembra de mim. Uma pessoa só está aqui para sofrer.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

Nunca fiz contas de vir para o lar. Tudo o que tinha dei às minha sobrinhas pensando
que um dia ela ficariam comigo mas foi um engano. Nunca pensei em vir, mas também
nuca pensei durar tantos anos. Já tenho 83 anos! Já não faço falta nenhuma; devia era
morrer.

A sua família vem cá visitá-la?

Vêm cá elas mais ou menos 1 vez por semana o que é muito pouco, depois vêm sempre
com muita pressa. Tenho uma vida muito triste, neste momento o que mais queria era
morrer.

Como é o seu dia no lar?

É a tomar conta do meu menino (o gato) e a olhar pela janela. Quando está bom tempo
ainda vou dar uma volta até à rua, quando está frio olho para as outras pessoas e tomo
conta do meu bicho. Quando as empregadas me pedem eu ainda ajudo a tirar as mesas
mas a directora não quer porque tem medo que eu caia e me aleije com a loiça. Ando
aqui sempre cheia de dores, o médico diz que já não sabe o que me há-de fazer. É uma
vida muito triste. É triste ser-se velho.

Entrevista D. Anunciação

A entrevista foi realizada a 01-03-2008 às 10:00 h, não tendo sido usado o gravador
como suporte de gravação áudio, devido ao desconforto demonstrado pela entrevistada.
O suporte usado foi o papel, e o texto que se segue é a reconstituição textual da
entrevista, efectuado logo após a ocorrência, tendo como suporte as anotações
efectuadas.

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Quantos anos tem ?

83 anos.

Estado civil?

Viúva.

Escolaridade?

Fiz a 2ª classe

Há quantos anos está a viver no lar?

Desde 27 de Julho de 2007. Diz a D. Anunciação: “Estou aqui há pouco tempo e nunca
pensei cá estar. Nunca achei que os meus filhos me colocassem num lar”.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

Os seus pais estiveram muito tempo em África e depois foram para o Brasil, onde
nasceu a D. Anunciação e o seu irmão mais velho. “O meu irmão mais novo nasceu em
Portugal”, refere. O seu pai trabalhava com o café, mas quando ele deixou de ser
economicamente rentável, voltaram para Portugal: “No Brasil o meu pai trabalhava no
café; eram pessoas muito endinheiradas mas quando ele deixou de dar, o meu pai veio
para Portugal. Pelo o que eu percebi na altura ele ficou com muitas dívidas e não
conseguiu pagar, mas nunca percebi muito bem a história, pois quando se abordava o
tema toda a gente chorava e ficava muito triste.”. Voltaram então para Portugal e os
seus pais tiveram de começar tudo de novo: “O meu pai trabalhava como sapateiro e a
minha mãe como costureira”. Sobre a relação entre os pais, a D. Anunciação diz: “Eu
sei que os meus pais eram muito amigos um do outro, e connosco sempre tiveram uma
boa relação. Deram-nos uma boa educação”.

O tempo foi passando mas a família não conseguiu reconstruir-se “Eu andei na escola
mas pouco tempo. Os meus irmãos fizeram a 4ª classe depois o meu irmão mais novo
começou a ter o vício do jogo. Para o meu pai foi uma tristeza pois ele gastava tudo o
que encontrava. Eu fiz pouca coisa, porque o meu pai começou a ter o vício do álcool e
tornou-se um malandro, mas a minha mãe trabalhava muito e ajudou o meu irmão do
meio a tirar um curso comercial. Eu, apesar de ter estudado pouco, sei ler e escrever. O

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meu pai, com o vinho, e com o desgosto do meu irmão, foi como se tivesse morrido,
ninguém contava com ele para nada.”.

Entretanto, começou a trabalhar com 14/15 anos na costura com a mãe: “Era modista.
Trabalhávamos noite e dia; tínhamos sempre muito trabalho. Não tínhamos tempo
sequer para ir ao jardim passear, nem para ir às festas”. Mais tarde arranjou um
namorado com quem namorou três anos e casou: “Mas não tive grande sorte com ele.
Ele gostava muito de mulheres: era um bom pai, mantinha a ordem lá em casa. O único
mal dele era andar com mulheres e isso fazia-me sofrer muito, mas sempre calada; mas
ele nunca me deixou. Ninguém imagina o que é sentir não ser amada, e isto aconteceu
duas vezes na minha vida, primeiro com o meu marido e agora com os meus filhos.”.
Sobre marido referiu ainda: “O meu marido era um homem rude e de poucas falas.
Nunca tivemos oportunidade de falar sobre a nossa vida privada. Quando tocava no
assunto, ele levantava-se da mesa e saía de casa”.

O marido era polícia e tinha de fazer umas tantas horas de treinos de avião e num desses
treinos o avião caiu e ele morreu: “Tinha na altura a minha filha mais velha 18 anos e o
mais novo 9. Fiquei com os meus filhos, trabalhei muito para que eles estudassem.
Todos eles tiraram curso superior. Eu trabalhei muito e eles também foram bons alunos.
Bem sei que não tinha grande tempo para lhes dar mimos, mas tinha de ganhar o
dinheiro para eles estudarem, e não terem de passar o que eu passei, mas parece que eles
não percebem isso, e eu às vezes sinto-me culpada. O meu filho António é advogado, a
Anabela é contabilista, a Vanda é analista e a Ana Paula é escritora. Eles sempre foram
muito independentes, estudaram todos fora.”.

Como veio para o lar?

Veio para o lar porque não tinha mais lugar nenhum para estar. Como a própria diz, “As
minhas filhas dizem que, como eu estou doente, o melhor lugar para eu estar é aqui.
Não quer dizer que eu não goste de estar aqui, mas preferia estar com os meus filhos,
pois eu fiz muito sacrifício por eles e não merecia este fim. A minha casa era alugada e
entregaram-na quando eu estive doente, deixei de andar. No início passava a minha vida
a passar de casa de filho em filho, mas não deu certo porque alguns dos meus filhos
nunca estão em casa. Então eu quase que estava sempre na casa da minha filha Vanda
mas ela disse que não aguentava mais e como os outros filhos não me levavam para

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casa ela decidiu colocar-me aqui. A minha filha mais nova estava contra, mas ela
também não podia tomar conta de mim. No início a minha filha ainda arranjou uma
empregada para ficar comigo e todos pagavam, mas as despesas eram muitas. Eu senti
que era um incómodo para os meus filhos, e que era um estorvo, pois se dinheiro não
lhes falta e aqui até pagam mais, só mesmo por não gostarem de mim é que me punham
aqui. Então vim para aqui contra minha vontade e nunca aceitei aqui ficar e claro não
posso mostrar bom grado. Quando elas cá vêm eu digo-lhes para me levarem mas elas
dizem que não podem tomar conta de mim.”

A senhora queria vir para o lar?

A D. Anunciação diz que nunca queria vir, nunca gostou de estar presa numa casa e não
se identifica com nada disto: “Queria a minha casa, estar com os meus filhos, com os
meus netos e bisnetos que mal os conheço, porque ninguém mos cá vêm mostrar. Parece
que aqui há doenças transmissíveis”.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

A resposta foi demorada mas acabou por sair: “Não, eu não vi nada nem sei se as
minhas filhas viram alguma coisa antes de me trazer para aqui. Se o fizeram nunca me
disseram nada”.

A sua família vem cá visitá-la?

A D. Anunciação queixa-se da falta de visitas por parte da família: “No início vinham
todos os dias agora vêm de mês a mês. A minha filha vem cá buscar o sangue para o
controle e nem sobe para me vir ver; elas pensam que eu não dou conta; mas eu bem
sei; não custava nada vir ver-me ou bastava dar-me um beijo e desejar-me um bom dia”.
Refere ainda que os familiares se queixam da falta de tempo para a visitar devido ao
trabalho: “Têm muito trabalho e segundo eles trabalham até muito tarde”.

Como é o seu dia no lar?

Passa o seu tempo no quarto e na sala, evitando o convívio com os restantes idosos:
“Não gosto de me juntar com aquelas pessoas. Gosto de estar em silêncio, nem a
televisão gosto de ver. Fico só aqui, não posso andar por isso estou sempre sentada na
cadeira ou deitada na cama a ver o tempo passar. Olho pela janela e vejo as nuvens. É

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um final de vida muito triste, desde que vim para aqui, nunca mais ninguém me levou a
passear”. Queixa-se ainda que nunca mais foi a casa dos filhos: “Os meus filhos não me
levam a casa deles nem sequer nas festas. Não percebo porquê, penso ter sido uma boa
mãe”.

Compreende que hoje a vida não é fácil e toda a gente tem muito que fazer: “Mas não
trabalham por turnos, ao fim-de-semana devem estar em casa. Poderiam vir buscar-me
pelo menos uma vez por mês, mas nem isso. Dizem que eu sou chata porque estou-me
sempre a queixar. Pois se eu tenho dores! Enfim”.

Entrevista D. Palmira

A entrevista foi realizada a 01-04-2008 às 10:00 h, recorrendo a gravador como suporte


de gravação áudio, tendo este meio obtido o consentimento da entrevistada.

Quantos anos tem ?

74 anos.

Estado civil?

Viúva há 27 anos.

Escolaridade?

3ª Classe

Há quantos anos está a viver no lar?

Estou cá há cerca de dois anos. Vim para aqui no dia 3 de Março de 2006.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

Nasci numa aldeia perto de Viseu. Da minha mãe nasceram 12 filhos, mas só
conseguiram sobreviver quatro raparigas, de resto morreram todos. Morriam quando
eram pequeninos, e só os rapazes. A minha mãe e o meu pai trabalhavam no campo.
Depois mais tarde o meu pai foi tratar de porcos para o Alentejo, e a minha mãe tomava

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conta de nós e dos terrenos. Gostávamos muito dela. Ela dava tudo para nos ver felizes.
O meu pai é que era diferente e só nos visitava uma a duas vezes por mês.

Fui para a escola e fiz a 3ª classe. Depois desisti, porque os meus pais não tinham
condições financeiras. Havia muita fome; eu ia descalça para a escola, era uma vida
muito dura. As minhas irmãs também foram para a escola mas todas nós começámos a
trabalhar muito cedo. Eu quando desisti de estudar fui trabalhar para um atelier de umas
pessoas muito ricas e eu fazia as entregas das roupas que lá se faziam. Era na rua do
Comércio em Viseu. Trabalhei lá durante muito tempo mas depois a dona foi para o
Brasil e eu fiquei desempregada. Então fui servir para casa de uns senhores mas à noite
vinha dormir a casa. Nessa altura o meu pai já tinha vindo do Alentejo. Eu gostava
muito da minha, mãe do meu pai nem por isso; tinha um mau génio… Eu e os meus
irmãos levávamos muita porrada do meu pai e a minha mãe sofria muito com isso,
porque gostava muito de nós. Ver o meu pai a maltratar-nos era como se lhe batessem a
ela, e ficava muito zangada e gritava por socorro, mas não podia fazer nada para
contrariar o meu pai. Quando ele nos batia, eu e os meus irmãos fugíamos para debaixo
da cama que eu já tinha comprado com o meu dinheiro, porque antes de trabalhar nós
dormíamos numa cama de tábuas. Com as minhas irmãs tínhamos uma boa relação
principalmente com a mais velha. Éramos muito confidenciais. Com as outras, como a
diferença de idades era grande, a relação já não era a mesma coisa. As duas mais novas
também eram mais chegadas uma coma outra.

Como vê, passei a minha infância a trabalhar, não sabia o que era o divertimento.
Depois de servir, fui trabalhar para uma lavandaria de um consultório de fazer biopsias.
Era eu quem lava aquela roupa toda, cheia de sangue. Nessa altura tinha eu cerca de 16
a 17 anos; nessa lavandaria trabalhei cerca de 10 anos. Entretanto a minha mãe adoeceu
e morreu com um cancro nos intestinos. Morreu nos meus braços coisa que nunca
esqueço. Naquele momento parecia que tudo tinha morrido com ela. Apesar dos maus-
tratos do meu pai, nunca saí de casa por causa da minha mãe, mas depois da morte dela
já não fazia sentido lá continuar.

O tempo foi passando, as minhas irmãs mais novas ficaram com o meu pai e eu e a
minha irmã mais velha viemos para o Porto, mais por causada do mau génio do meu
pai, e era mais connosco. Com as filhas mais novas ele não se zangava. A minha irmã
no Porto casou, mas eu não era pessoa de estar parada, então fui para Lisboa onde estive

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cerca de 2 anos. Trabalhei na Petrogal e também em vários sítios a fazer limpeza em
casas. Depois regressei ao Porto e vim viver com a minha irmã.

Aqui arranjei um namorado. Ele era muito mais velho que eu tinha 28 anos e ele 52. No
inicio foi tudo muito bom mas depois começou a deitas as unhas de fora. Só estive
casada com ele 8 anos. Ele tinha muitas posses, era merceeiro mas era uma pessoa
muito ruim. Levava muita porrada, até me espetou com um ferro na cabeça, mas os
meus vizinhos diziam para eu no hospital não dizer que era o meu marido. Ele batia-me
por causa de uma filha que ele já tinha de outro casamento e estava sempre a fazer
queixas de mim, por isso fazia-me a vida negra. Ela era muito má, só fazia intrigas. Mas
o diabo do homem teve azar apanhou uma doença nas pernas e passado pouco tempo
morreu. Depois de ele falecer tive de ir para tribunal porque ele deixou-me muitas
coisas em meu nome, até a mercearia, e a filha queria tirar-me tudo mas não conseguiu.
Fiquei três anos viúva, trabalhava na mercearia mas vivia muito só.

A minha irmã tinha duas filhas. Tinha a vida dela e também trabalhava. Por vezes ia ter
com ela aos domingos mas eu também não podia sair da mercearia. Nunca mais fui
visitar o meu pai nem as minhas outras irmãs, elas também nunca vieram ao Porto. Um
dia apareceu lá na mercearia um senhor muito bem parecido, muito bem encarado, que
sabia que eu vivia sozinha mas também era mais velho que eu. Tinha 57 anos. Eu tinha
uma pontaria… E eu e casei com ele e engravidei, mas por azar só durou 5 meses,
morreu canceroso do estômago. Ele nunca me disse, mas penso que ele já sabia que era
doente e queria ter alguém do lado dele. Coitado nem conheceu a filha. Ele tinha bom
coração, também não teve tempo de ser mau, pois mal casámos ficou logo doente. A
minha filha não conheceu o pai; ela sente muita tristeza com isso.

Fiquei novamente viúva e grávida, foram tempos de muito trabalho, porque mal a
criança nasceu fui logo para a mercearia. Não tinha com quem a deixar mas levávamos
uma vida tranquila. Quando a minha filha fez cinco anos, conheci um brasileiro que
morava em Baião. Este era da minha idade, mas também não saiu grande coisa. Tive a
má ideia de casar com ele. Batia-me, tratava-me mal, mas a minha filha nunca se
apercebeu. Ele gostava muito dela. Ela tratava-o por padrinho. Brincava muito com ela.
Ele queria tratar da minha mercearia e eu não deixava, porque queria levar-me à
falência, e aquele era o meus sustento. Ele era muito mulherengo, andava sempre
metido com as mulheres da vida, mas também morreu passados seis anos e fiquei

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novamente viúva. Este meu marido, quando casou comigo, também já era viúvo e tinha
três filhos que só apareceram quando ele morreu, e queriam tirar-me a mercearia
dizendo que também era do pai. Mas eu consegui provar que aquilo já era tudo meu.
Fiquei viúva pela terceira vez e fiz jura que não me casava mais, apesar de ainda só ter
47 anos.

Criei a minha filha, sempre lhe dei o melhor que podia. Foi estudar mas só quis fazer o
2º ano do ciclo e depois foi trabalhar desde os 14 anos num pronto a vestir e esteve lá
cerca de 18 anos. E eu trabalhava na minha mercaria.

Entretanto, soube que o meu pai tinha ficado doente arranjei uma empregada temporária
e fui a Viseu, mas passado pouco tempo morreu. Parecia que estava à minha espera,
para me dizer alguma coisa, mas não o dez. Mesmo assim, eu perdoei-o. Ele ficou a
viver com a minha irmã mais nova. Elas tinham pouco relacionamento comigo. A
minha irmã do Porto, passado algum tempo, ficou doente e morreu com 70 anos.

A minha filha casou com 22 anos, com um rapaz que trabalhava na Molin e depois foi
para a Soares da Costa. Ele tem mais três anos que ela. Desde aí o relacionamento com
a minha filha modificou-se bastante. Ele não gostava muito de mim nunca soube
porquê. Às vezes eu pergunto à minha filha, mas ela diz que é cisma minha, mas eu
percebia que não era bem vinda a casa deles e ele muito raramente vinha à minha. Mas a
minha filha quando podia ia sempre visitar-me. Um dia fomos passear, ela tinha um
carro, e tivemos um acidente bastante grave. Estive bastante tempo no hospital e depois
fui para casa; continuei a viver sozinha, lá fui recuperando e levava a minha vida. Mas
sentia tristeza porque eu tinha um relacionamento tão próximo da minha filha e por
causa do marido dela eu afastei-me, para ela levar uma vida boa. Teve os dois filhos
dela e eu parecia uma visita na casa da minha filha nuca tive à-vontade nem de lhe fazer
um chá. Ele olhava para mim e para a minha filha com uns olhos que disse logo à minha
filha: quando quiseres ver-me vai a minha casa e leva os meninos que eu à tua casa
nunca mais volto. E assim foi.

Como veio para o lar?

Depois do acidente recuperei e voltei a trabalhar na mercearia, mas já não dava quase
nada. Então reformei-me e passei muito mais tempo em casa e foi nessa altura que tive
um AVC. Fiquei muito mal, não sentia metade do corpo. Andei na fisioterapia, na

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terapia da fala, eu não dizia uma palavra, estive quase a morrer. Quando tive alta vim
directa para aqui. Quando vi esta casa não a reconheci. Fiquei muito triste, ainda não
vinha totalmente recuperada, mas senti uma tristeza no meu coração, um vazio por
dentro. As assistentes sociais quando me visitavam perguntavam se eu não tinha para
onde ir e eu dizia que morava sozinha pois se o meu genro não gostava de mim eu
simplesmente não ia para casa da minha filha, mas pensando que elas me iam arranjar
algum tipo de apoio domiciliário, mas não, vim para um lar. A minha filha nuca me
disse uma palavra acerca disto. Nesse dia senti que estava só. Na minha vida nunca tive
grandes pessoas ao meu redor, mas eu era nova e consegui dar a volta por cima mas
agora debilitada, quase não falava, pensava que o meu final ia mesmo ser triste.

Mas com Deus fiquei melhor da minha fala e consegui arranjar aqui pessoas que penso
gostarem de mim pelo menos fazem-me muitos mimos.

A senhora queria vir para o lar?

Querer não queria, mas já me tinha passado pela cabeça

Foi ver algum lar antes de vir para este?

Não, nem sequer tive tempo, mas já tinha pensado nisso. Quando tive o acidente pensei
que um dia, mais cedo ou mais tarde, teria de ir para um lar para tomarem conta de
mim. Se tivesse tido mais filhos poderia ser que tivesse mais sorte, mas só tive aquela.

A sua família vem cá visitá-la?

Como já disse, a minha irmã mais velha morreu. Deixou duas filhas: uma foi para
Lisboa e nunca cá veio, a outra mora aqui no Porto e por vezes vai telefonando para ver
como eu estou. A minha filha, estou com ela muitas vezes. As minha irmã de Viseu
perdi o contacto com elas. Sei que estão vivas; telefonam para aí uma vez por ano à
minha filha. Com elas perdi o contacto totalmente. Aqui quem me visita é a minha filha.
Ela, ao domingo, vem cá sempre; nos dias de semana não pode porque trabalha todos os
dias, por isso nesse dia fico logo ansiosa. Por vezes, para estarmos mais à vontade
saímos; ela leva-me ao café ou então conversamos no carro. Ela traz os meus netinhos e
mato saudades deles. Já me estou a habituar assim mas no início foi complicado. A
minha filha nunca quis falar da minha vinda para o lar e eu agora também faço de conta

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que foi uma coisa natural. Muito raramente, o meu genro também me visita, mas é de
poucas falas mas eu também não lhe ligo, porque se eu estou no lar é por causa dele.

A minha filha pergunta-me como estou eu digo-lhe que estou feliz mas o meu coração
não diz a mesma coisa, mas eu não quero que ela sofra, nem que se sinta culpada de
alguma coisa. Ela merece ser feliz. Raramente me leva a casa, tem sempre desculpas. Eu
gostava muito de rever as minhas coisas, que são velhas como ela diz, mas são minhas.
Também tenho o meu ouro que lhe queria dar mas se calhar ala até já o vendeu. É como
o dinheiro, desapareceu todo e olhe que eu tinha o meu pé de meia mas quando tive o
acidente a minha filha achou que devíamos colocar o dinheiro no nome dela pensando
que eu já ia morrer. Olhe foi a minha burrice.

Mas não faz mal aqui não preciso de nada mas é ela que me paga a prestação para estar
aqui e nunca falha. Quando vejo que se está a atrasar, telefono-lhe logo.

Como é o seu dia no lar?

Comparado com as outras idosas penso que me dou muito bem. Levanto-me de manhã,
tomo o meu pequeno almoço, vou-me arranjar, e depois vou ver um bocado de televisão
ou então peço à menina Liliana para me arranjar as unhas ou o cabelo. Depois vou
almoçar. De tarde, vou para as actividades ou então vou passear até lá fora. Penso que
apesar de tudo, tive sorte de vir para aqui. Claro que gostava de estar em minha casa ou
pelo menos ir visitá-la, mas isso é impossível. Rezo muito pela minha filha e pelos meus
netos. E é assim todos os dias. Ao Domingo, a minha filha vem-me ver. É um dia muito
agitado para mim porque ela não diz a hora a que vem, por isso depois do almoço fico
tão ansiosa que passo a tarde a olhar pela janela para ver se vejo o carro. Quando chega
é uma alegria para mim, porque gosto muito dela. É a luz dos meus olhos.

Entrevista D. Clara

A entrevista foi realizada a 01-04-2008 às 12:00 h, recorrendo a gravador como suporte


de gravação áudio, tendo este meio obtido o consentimento da entrevistada.

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Quantos anos tem ?

Nasci em 1921 em Vila Nova de Gaia.

Estado civil?

Viúva.

Escolaridade?

9º ano no Instituto de francês

Há quantos anos está a viver no lar?

Desde 17 de Marco de 2006. Já estou cá há 2 anos.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

O meu pai era brasileiro; a minha mãe casou com ele tinha 19 anos. Ele veio com 17
anos do Brasil, andavam os dois na escola e conheceram-se lá. Casaram. Depois, ela
teve um aborto e depois teve 2 irmão gémeos, mas a minha mãe ficou muito preocupada
pois não tinha leite para os dois e a minha avó levou um para casa dela. Mas a minha
mãe ficou muito desgostosa mas naquela altura foi melhor assim, apesar de não ter sido
a melhor opção. O meu irmão que foi morar com a minha avó acabou por morrer
quando tinha 2 anos; diziam na altura que foi uma troca de leites.

Depois de passar cinco anos, nasci eu, tinha a minha mãe 26 anos. Tive uma infância
normal. Eu e o meu irmão éramos muito chegados; para onde ia um o outro ia também.
Ele protegia-me muito, era muito meu amigo. Corríamos os bailes todos e ele andava
sempre comigo. A minha mãe era doméstica e o meu pai era empregado bancário.
Viemos para o Porto, tinha eu 8 anos o meu irmão 13 anos, ainda éramos umas crianças.
Mudámos de casa doze vezes. A minha mãe nunca estava satisfeita ou era por causa dos
vizinhos ou do sítio, ou porque era longe ou era perto, nunca nada estava bem. O que
era certo é que andávamos sempre a mudar de casa, punha sempre defeitos em tudo.
Andávamos os dois na escola.

Quando fui para o liceu, conheci lá o meu futuro marido. Eu tinha duas amigas no
instituto de francês e elas ajudaram-me a conhecê-lo melhor. Então soubemos que ele ia
a um passeio, e eu também me inscrevi. Então, dali para a frente, sempre que havia
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passeios íamos sempre os dois mas como amigos. Nunca fui de namoros mas era muito
brincalhona, fazia cada tolice…, e pior era com os rapazes. Começámos por ser muito
amigos. Só a Espanha, fizemos pelo Instituto Francês 5 viagens. Ele era um rapaz muito
respeitador. Os pais deles eram de Felgueiras e ele veio estudar sozinho para o Porto e
vivia numa pensão.

A minha mãe, como já disse, era uma pessoa muito difícil de temperamento. Andava
sempre incomodada com tudo: com os empregados, com a roupa, tudo era uma aflição
para ela, menos os outros dois filhos. Um dia dá-lhe uma aflição e morreu logo ali. Era
uma mulher nova, tinha 62 anos. O meu pai, como era um homem novo, resolveu casar
de novo, mas essa mulher nunca gostou dele, gostava daquilo que ele tinha. O meu pai
tinha muitas posses, ela era muito mais nova. Pelo que me apercebi mais tarde, eles já
eram amantes, mas acho que a minha mãe nunca soube. O meu pai era como o pai dele
…que era o meu avô… casou 3 vezes, e a última vez casou com a governanta e que
pelos vistos ela também já era amante dele.

Eu ainda era solteira. Eu e o meu irmão ficámos a viver sozinhos depois que o meu pai
casou. Éramos tipo unha e carne. Visitávamos o meu pai e deixámo-lo viver a aventura
da vida dele. Entretanto o meu irmão casou, mas a minha cunhada tinha muito mau
feitio. A nossa relação nunca mais foi a mesma. Nós gostávamos de brincar tanto um
com o outro e ela tinha ciúmes. Então, como o meu namorado vivia numa pensão,
resolvemos também casar, já eu tinha 33 anos.

Fiz de tudo um pouco: bordava, trabalhava em casa, mas nunca trabalhei para fora.
Viajei muito, estudei a minha língua preferida que era o francês, estudei espanhol e
italiano e depois viajava para aproveitar para falar, passeei muito. O meu marido era
desenhador, era funcionário público e trabalhava também no Instituto de Francês. Ele
desenhava cartazes, então ele viajava muito e eu ia sempre com ele.

Nunca consegui ter filhos tinha uma menina que era minha prima que passava muito
tempo comigo e apesar da minha cunhada não gostar de mim ajudei-a a tratar dos filhos
dela. Mas eu e o meu marido fomos muito felizes. Lembro-me que ao domingo de
manhã levantávamo-nos da cama, íamos aos concertos, depois almoçávamos fora.
Tínhamos uma vida muito feliz. Quando os filhos da meu irmão já eram grandinhos,
tive uma zanga muito feia com a minha cunhada. Estive 11 anos sem falar com ela e por

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isso também me afastei mais do meu irmão, mas sempre que podíamos
encontrávamo-nos, nem que fosse para matar saudades, e eu continuava a ver as minhas
sobrinhas de quem eu gostava muito, principalmente de uma.

Passado algum tempo, soubemos que a mulher do meu pai tinha morrido cancerosa.
Então o meu pai vivia sozinho com a empregada, mas com o passar do tempo levei-o
para minha casa, mas contra a vontade dele pois ele queria ficar em casa dele. Mas ele
estava doente, tinha um problema do mediastino. Ainda esteve em minha casa cerca de
um ano e depois morreu. No dia do funeral, fiz as pazes com a minha cunhada mas
nunca tivemos uma grande relação. Mas deixava as minhas sobrinhas irem para minha
casa e isso para mim já era bom, porque eu tinha muita tristeza de não ter filhos.

Segundo o médico, eu tinha o útero torcido. O meu marido nunca se interessou muito,
tínhamos muita confiança um no outro. Ele só tinha um defeito: trabalhava muito e
chegava tarde a casa. Ele era tão compreensivo que tínhamos de dividir o tempo porque
ele gostava de praia e eu gostava do campo. Fomos levando assim a vida. A minha
prima continuou a viver comigo até casar e as minhas sobrinhas também casaram.
Foram dias muito felizes para mim, elas eram como se fossem minhas filhas. Mais
tarde, o meu marido apanhou uma doença, a diabetes, e passado algum tempo morreu.
Para mim foi uma tristeza tão grande. Não sofri tanto com a morte dos meus pais, pois
tinha morrido a pessoa da minha vida com quem eu fui muito feliz. O meu marido foi
aquela pessoa incondicional.

Passei muito mal depois de ele falecer não conseguia viver com a sua ausência até que
decidi colocar termo a minha vida. Meti-me na cama e deixei de comer e beber. Eu
queria morrer, pois achei que a minha vida deixou de ter sentido. O meu irmão
entretanto também teve Alzeimer. As duas pessoas da minha vida já não estavam
comigo. Sempre tive muito mimo e de repente encontro-me sozinha.

Como veio para o lar?

Eu estava a ficar muito doente, na cama. A minha sobrinha foi lá a casa, meteu-me a
roupa na mala e disse-me que me ia levar para um lar onde eu pudesse estar melhor; não
me podia deixar morrer. Segundo ela, visitou vários lares mas não gostou de nenhum,
mas gostou deste porque é muito arrumado e ela sabia que eu gosto de ver tudo no
lugar. Então trouxe-me para aqui.

- 166 -
A senhora queria vir para o lar?

Não, porque eu tinha condições de viver sozinha. Mas eu não queria, mas se ficasse em
casa era bem capaz de me matar, pois tenho muitas saudades do meu marido. Por vezes
a minha sobrinha ainda me leva a casa do meu irmão, mas ele já não me conhece por
isso dói-me muito lá ir. A minha cunhada fala comigo, mas nunca gostou de mim, nem
agora aqui, nunca me veio visitar.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

Não.

A sua família vem cá visitá-la?

A única pessoa da família que me vem visitar é a minha sobrinha, mas ela mora em
Lousada e diz não ter tempo para cá vir ver-me. Segundo ela tem uma vida muito
atarefada. O que eu queria era que me levassem a minha casa pois deixei lá tudo, mas
ela diz que nunca tem tempo. Eu passei-lhe uma procuração com todos os poderes, se
calhar já se desfez de tudo.

O meu sobrinho, irmão dela, nunca me veio visitar. Fui tão amiga dele quando ele era
pequeno, mas quando fiquei doente fiz tudo o que tenho à minha sobrinha, por isso é ela
que tem todos os poderes sobre as minhas coisas e por isso é que ele deve ter ficado
triste comigo. Mas foi ela que tratou de tudo para eu vir para aqui, é ela que paga a
mensalidade, pois para mim, o que tenho aqui chega perfeitamente. Mas quando passei
a procuração, a minha sobrinha dizia que me vinha buscar todas as semanas mas na
realidade parece que se esqueceu do que prometeu. Os meus segundos sobrinhos
também vêem cá muito poucas vezes; têm a vida deles. Às vezes vêm cá uma amigas
que eram minhas vizinhas, mas vêm muito raramente.

Como é o seu dia no lar?

O meu dia é sempre igual estou sempre à espera que alguém entre por aquela porta e me
diga “venho buscá-la para ir passear”. O que eu mais queria era ver a minha casa. Mas
nunca vem ninguém. Passo o dia a conversar com as minhas colegas, faço um bocado
de camisola, uns bordados, vou passear, entro nas actividades que se fazem no lar e
assim se vão passando os dias. Mas, apesar de tudo gosto de estar aqui no lar. Gosto da

- 167 -
limpeza, e vivo das recordações. Tive uma vida carregada de felicidade, sempre fiz o
que quis. Estudei, cantei por isso acho que a minha passagem por este mundo foi
bastante positiva.

Entrevista D. Isabel

A entrevista foi realizada a 01-04-2008 às 16:00 h, recorrendo a gravador como suporte


de gravação áudio, tendo este meio obtido o consentimento da entrevistada.

Quantos anos tem ?

73 anos.

Estado civil?

Viúva.

Escolaridade?

3ª classe.

Há quantos anos está a viver no lar?

Há cerca de um ano.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

Nasci em Moreira da Maia. A minha mãe vendia fruta pelas ruas; o meu pai trabalhava
na fábrica dos Marinhos, era tintureiro. Tive um irmão, que era mais novo que eu três
anos.

Quando o meu irmão nasceu, o meu pai deixou a minha mãe, tinha eu três anos e o meu
irmão meses. O meu pai deixou a minha mãe porque descobriu que ela andava metida
com outros homens. Ela gastava todo o dinheiro que o meu pai ganhava. O meu pai
soube que ela andava com cinco homens não lhe bateu, mas deixou-a. Então eu fui
morar com o meu pai para casa da minha avó, com o meu pai e com uma tia, e a minha
mãe ficou com o bebé.

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Eu tive muita pouca sorte porque a minha tia era muito má. Na frente do meu pai era
minha amiga; por trás batia-me e obrigava-me a trabalhar eu ainda só tinha para aí uns 4
anos. A minha mãe, mais tarde, abandonou também o meu irmão e o meu pai foi
buscá-lo e vivemos todos juntos. Andei na escola até à 3 ª classe e depois fui trabalhar.
A minha tia continuava a bater-me e eu nunca disse nada ao meu pai. Ela era muito má.
Eu, quando saía da escola, ela punha-me a vender cerejas e laranjas à beira da estrada,
sem o meu pai saber. Aguentei assim até ao 13 anos. Ela a mim batia-me muito, mas eu
não deixava que batessem ao meu irmão.

Mas o meu pai começou a suspeitar de alguma coisa e um dia, durante o dia, veio a casa
e encontrou-me a trabalhar à beira da estrada. Eu contei-lhe tudo, e ele foi para casa e
zangou-se com ela. Então saímos da casa da minha avó, eu, o meu pai e o meu irmão, e
fomos morar só os três. Era eu que tomava conta da casa. A minha mãe nunca quis
saber de nós. Por vezes ela passava perto de casa mas virava a cabeça e dizia que nós
éramos maus. Depois, sei que morreu com 36 anos, nunca soube de quê.

O meu irmão tinha 15 anos e foi servir para casa de uns lavradores e mais tarde foi para
uma fábrica. Não gostava de estudar, preferia ir trabalhar. Mais tarde voltou para a
lavoura. O meu irmão nunca quis casar, tinha muita raiva das mulheres. Ele dizia que
elas não prestavam, dizia que a única mulher de que ele gostava era de mim; sempre
fomos muito amigos. Ficou solteiro e acabou por morrer cedo, tinha 42 anos; também
não se sabe de que morreu; sei que morreu no hospital de Matosinhos, e as coisas lá
ficaram na casa dos patrões.

Eu morei sempre com o meu pai. Casei e ficámos a morar todos. Antes de casar, tomava
conta do campo e da casa. Depois de casar fui para uma fábrica de conservas. Comecei
a namorar com 18 anos e casei-me com 23. O meu marido era pedreiro, e era muito
trabalhador. Se chegasse primeiro que eu a casa ia buscar a minha filha à ama. Tive
cinco filhos mas dois morreram quando eram pequenos e fiquei com três vivos. Os
meus filhos só fizeram o exame da 4ª classe. Não havia possibilidades para mais. O
rapaz foi para pedreiro e elas foram trabalhar para uma fábrica.

O meu pai viveu sempre comigo, mas já quando era velho enrabichou-se com uma
velha e saiu de casa para ir morar com ela, mas eu não queria nada. Ele sofreu tanto com
a minha mãe e nunca mais quis mulheres e depois de velho foi-se juntar com uma velha.

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Saiu de casa chateado comigo. Passado algum tempo vim a saber que ele tinha uma
ferida grande numa perna. Eu fui visitá-lo e parecia esgazeado de todo; não dizia coisa
com coisa; eu levei-o ao hospital e teve de cortar a perna e passado uns dias morreu.

O meu marido morreu em 1980 de repente. Foram tempos difíceis para mim. A minha
filha mais velha tinha casado, mas ainda tinha dois filhos em casa. Nessa altura já tinha
saído das conservas e estava desempregada. Então arranjei emprego como armadora
mas nem sempre havia trabalho. Os miúdos ficavam em casa arrumavam tudo e faziam
o almoço, mais tarde eles casaram e eu fiquei sozinha.

A minha filha mais velha casou muito nova, com 19 anos; casou com um trolha. Ele
para mim é um bom rapaz mas para a mulher sempre a fez sofrer; teve azar coitada;
tanto trabalha ela e é só porrada que leva daquele marido. A 2ª filha, Luciana, casou
com um marido que é um preguiçoso, só come o que ela trabalha. Tem uma vida
desgraçada, não se separaram mas mais valia, coitada; quando ele lhe faz um recado tem
de lhe dar o dinheiro para o tasco; coitados dos filhos deles. Casaram todos muito cedo
para saírem de casa e foram trabalhar para longe nunca mais cá vieram. O Valdemar,
vive em Penafiel. Casou lá, e lá ficou, cego. Andava numa pedreira e saltou pólvora.
Este teve sorte com o casamento, pois para infelicidade basta não ver. Tem uma menina
pequena. Como vê, os meus filhos não tiveram sorte nenhuma na vida; eu tentei
ajudá-los, mas não podia fazer grande coisa, pois se precisassem de dinheiro eu tirava
da minha boca para lhes dar, mas acerca das maridos eu não posso fazer nada.

Como veio para o lar?

Um dia, já eu morava sozinha, mas tinha a minha vida fazia as minha coisas, e ia
trabalhar. Veio um carro e apanhou-me na passadeira, partiu-me toda. Nunca mais fui a
mesma. Passei anos no hospital, por isso os meus filhos e o seguro resolveram trazer-me
para aqui, porque coitados, eles não podem tratar de mim, eu necessito de muita ajuda.
Agora, ainda me apareceu este cancro nos intestinos. Fizeram-me este buraco na
barriga, ainda pior.

A senhora queria vir para o lar?

Nunca pensei vir para um lar, sempre dizia que queria morrer em casa, mas estou
resignada a isto. Não sou pessoa de estar presa, sempre fiz tudo para me mexer.

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Trabalhei sempre e sentia que isso me fazia feliz. Agora estou aqui numa cadeira de
rodas, é como um pássaro na gaiola. A minha vida deixou de fazer sentido; estou aqui
como um animal que precisa de comer, beber e ser mudado.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

Não.

A sua família vem cá visitá-la?

A Fernanda e o Valdemar ainda me vêm visitar de vez em quando, mas eles dizem que
não podem vir muitas vezes para não gastarem dinheiro. A Luciana nunca vem porque
não tem condições. Os meus netos nunca cá vieram. Eu bem os percebo; também não
gostam disto, eu também não gosto; mas eu não tenho outro remédio. Às vezes, quem
me visita são os meus patrões. São muito meus amigos, mais que a família. Eles quando
podem visitam-me e trazem sempre um miminho para eu comer.

Como é o seu dia no lar?

Passo muito mal, tenho muitas dores. Aquele filho da mãe que me atropelou devia-me
ter matado, que pelo menos podia ser que os meus filhos recebessem uma indemnização
para me colocarem flores no cemitério. Assim, nem dinheiro têm para me virem visitar.
Passo a minha vida na cama, à espera do dia em que vou morrer que espero que não
esteja longe. Mas Deus é que sabe.

Entrevista Sr. Amândio

A entrevista foi realizada a 20-04-2008 às 18:00 h, recorrendo a gravador como suporte


de gravação áudio, tendo este meio obtido o consentimento do entrevistado.

Quantos anos tem?

Nasci em 11 de Junho de 1929.

Estado civil?

Divorciado.

Escolaridade?

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7º ano do Liceu.

Há quantos anos está a viver no lar?

Desde 3 de Novembro de 2003.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

Não gosto de falar da minha infância. Nasci a 11 de Junho de 1929. Tive uma irmã mais
velha que eu 2 anos. O meu pai era um homem rude, a minha mãe também não era
melhor, por isso já pode imaginar a minha vida de criança, mas passemos à frente. O
que valia era a minha irmã, porque éramos muito amigos e protegíamo-nos um ao outro.
Contávamos tudo um ao outro. Fiz o 7ª ano do liceu e depois não segui mais, porque o
meu pai queria a todo o custo que eu fosse trabalhar com ele numa fábrica de
confecções que ele tinha. Ele sempre me tratou mal, a mim e à minha irmã. Fazia
connosco o que fazia com as empregadas dele da fábrica. Por isso, no trabalho não era
melhor. Trabalhava com o meu pai mas estava farto, estava à espera de uma
oportunidade melhor para sair daquele trabalho e ir governar a vida.

Namorei e com 23 anos casei; foi em 1952; mas continuei a trabalhar com o meu pai. A
minha esposa era brasileira. Nós éramos muito devotos e andávamos numa igreja,
fazíamos parte dela. Íamos a umas reuniões e passávamos um bocado de tempo
principalmente à noite e ao domingo, porque desde que casei poucas vezes ia a casa dos
meus pais. Bastava ter de o aturar no trabalho e a minha mãe de vez em quando
visitava-a mas muito raramente porque ela também era muito má, tinha um mau feitio.

Fizemos isto durante muitos anos. Nasceram os nossos oito filhos e cresceram, também
com essa educação. Nós andávamos lá na igreja a tirar também um curso de
cristandade; foi coisa que sempre me interessou; tudo o que era místico. eu gostava e
interessava-me muito e a minha esposa acompanhava-me. Quem nos dava o curso era
um padre bastante novo, e com o passar do tempo vim a descobrir que a minha mulher
tinha um caso com ele, já há muitos anos. Nem sei sequer se os meus filhos são
realmente meus. Na altura fiquei mesmo mal. Traído, e logo com um padre. Eu nessa
altura morava em Miramar. Arrumei as minhas coisas e saí de casa. Nessa altura já
tínhamos os nossos filhos, tive e tenho 8 filhos. Então, a minha esposa pegou nos 5
filhos mais novos e foram todos para o Brasil e 3 ficaram cá em Portugal. Nessa altura,

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os três mais velhos já tinham saído de casa; já tinham a vida deles organizada, até já
estavam casados. Não quis saber mais de uma mulher só e comecei a coleccionar
mulheres, automóveis e relógios.

Continuava a trabalhar com o meu pai, nessa altura ele já era velhote. Tirei uns dia e fui
para Vidago. Eu sabia que havia para lá umas pretas e pedi-lhes para me ensinar a
magia. Tirei um curso de quirologia, depois vim para o Porto e comecei a dar consultas.
Ganhava muito dinheiro, mas continuava a trabalhar com o meu pai. Mais tarde, quis
entrar de sócio na empresa dele, mas depressa a fábrica do meu pai foi à falência. Então,
o meu pai vendeu a nossa parte para um outro sócio. O meu pai perdeu tudo, penso que
muita da culpa foi minha. Eu nunca tive jeito para trabalhar, mas o meu pai obrigou-me.
O meu pai ficou sem nada e com o desgosto morreu logo de seguida. A minha mãe veio
viver com a minha irmã que também já se tinha casado e descasado, o casamento dela
também durou pouco tempo, e ficaram a morar as duas até a minha mãe morrer. Eu
nessa altura ainda as visitava com bastante frequência e a relação com a minha mãe já
era melhor; já nos entendíamos melhor, já não entrávamos tanto em conflito, até porque
ela agora estava numa situação fragilizada. Enquanto o meu pai era vivo, a minha só lhe
podia ligar a ele, e esquecia-se dos filhos. Então, eu dediquei-me mais que nunca à
bruxaria e à lida da mão. Fui para as Taipas, enchi-me de dinheiro, fiz grandes fortunas.

Eu era uma pessoa polivalente, adorava música, gostava de fazer muita coisa ao mesmo
tempo. Os meus filhos por vezes visitavam-me mas tinham vergonha da minha
profissão. Os outros filhos nunca mais soube deles, também nunca me procuraram pois
dinheiro era o que eu tinha de sobra. Mas também nunca fui ao Brasil à procura deles.
Eles lá ficaram com a mãe; não sei se são vivos ou mortos.

Fiz muito bem a pessoas, ajudei-as muito, mas também fiz muito mal. Por isso é que eu
estou aqui agora e neste sofrimento. Passei o meu resto de tempo lá nas Taipas; era
conhecido pelo grande bruxo das Taipas.

Como veio para o lar?

Um dia, estava eu numa grande sessão de bruxaria, e sofri uma tonturas muitos fortes.
Sei que me encostei à parede e transpirei muito. Fui levado para o hospital onde me
detectarem um tumor na cabeça. Fui operado e fiquei sem sentir um lado do corpo.
Fiquei bastante mal, mas recuperei alguma coisa. Estive muito tempo na Prelada onde

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fui muito bem tratado, pois tinha dinheiro e era para esta altura que era preciso. Passava
os dias a fazer ginástica até que tive alta e arranjaram-me um lar em Santo Tirso, mas
não me tratavam bem. Os meus filhos diziam que não tinham condições para me terem
em casa. Não queriam, mas eu também não fiz grande questão, porque sei que não fui
um grande pai, pelo menos a partir em que a mãe deles nos deixou, a mim e a eles.
Porque se ela na altura me procurava e me explicava o que se tinha passado, eu
tinha-lhe perdoado, e talvez a minha vida fosse diferente. Então, como não estava
contente com aquele lar, a minha irmã vive aqui perto, e um dia trouxe-me aqui para eu
ver o lar, e gostei e aqui fiquei.

O senhor queria vir para o lar?

Nunca pensei nisso mas claro, estava melhor em casa, até porque eu tinha dinheiro para
ter empregadas em casa. Mas era difícil, porque eu sou uma pessoa difícil e é
complicado lidarem comigo.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

Como já disse, estava num, e vim visitar este.

A sua família vem cá visitá-lo?

A minha irmã vem sempre quando pode. Eu também lhe dei boa parte do meu dinheiro.
Vem visitar-me regularmente. Os meus filhos têm a família deles, vêm cá poucas vezes,
mas tenho aqui todas as fotografias dos meus netos.

Como é o seu dia no lar?

Gosto de estar sozinho no meu quarto. Tem de estar sempre escuro, não gosto da luz.
Gosto de ler, e ando a fazer um livro acerca da leitura das mãos, eu fiz assim a minha
vida. Vou à fisioterapia e passo assim os meus dias. Estou a pagar o que fiz de mal a
muitas pessoas.

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Entrevista D. Gorete

A entrevista foi realizada a 21-04-2008 às 09:00 h, não tenso sido usado o gravador
como suporte de gravação áudio, a pedido da entrevistada. O suporte usado foi o papel,
e o texto que se segue é a reconstituição textual da entrevista, efectuado logo após a
ocorrência, tendo como suporte as anotações efectuadas.

Quantos anos tem ?

78 anos.

Estado civil?

Viúva.

Escolaridade?

Analfabeta

Há quantos anos está a viver no lar?

Há cerca de 8 meses.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

Os pais da D. Gorete trabalhavam no campo, sendo, segundo ela, uma família muito
respeitadora. Não estudou, porque não quis, a família não obrigou: “Olhe não estudei
por preguiça. Não quis, nunca me apeteceu. O meu pai também nunca quis saber porque
se fosse outro eu não tinha quereres. Mesmo a minha mãe também não ligava nada, só
queria era beber, então comecei a trabalhar desde muito cedo. O meus dois irmãos mais
novos ainda estudaram alguma coisa, mas também pouco. Eu é que tinha de tomar conta
dos meus irmão, e eu era apenas uma criança, porque o meu pai e a minha mãe não
queriam saber de nada.”

Não gostava da vida do campo, e como tal, quando tinha 14 anos foi ter com umas
primas que moravam no Porto, como ela diz: “Tinha 14 anos e não gostava da vida do
campo, então vim ter com umas primas que moravam no Porto. Também já estava farta
de aturar a minha mãe, que andava sempre com os copos. O meu pai nem ligada a
nada.”. Foi servir, e esteve no Porto uns 7 ou 8 anos. Passado esse tempo voltou para

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Mondim, porque tinha lá arranjado um namorado: “Pois eu quando tinha uma folga, eu
ia lá à terra, e encontrei aquele rapaz que estava interessado em mim. Ele prometeu-me
que se eu fosse para Mondim casava comigo e não precisava de servir mais na casa de
ninguém. E assim foi, namorei e depois casei.”.

Sobre o marido e a vida de casada conta a D. Gorete: “O meu marido chamava-se


António. No início, ele trabalhava na lavoura e eu fiquei em casa e tivemos quatro
filhos. Mas decididamente eu não gostava daquela terra, e queria voltar para o Porto.
Então, consegui convencer o meu marido a vir viver para o Porto. Fomos os dois
trabalhar nas descargas de bacalhau em Leixões. Mas com o passar do tempo o meu
marido começou a beber e eu comecei a ter um trabalho de escrava, pois ele foi
despedido, passava o dia a preguiçar na tasca, e eu tinha de tomar conta dos nossos
filhos e de trabalhar para todos”.

Refere que nessa fase passou um tempo muito difícil. Os filhos ficavam sozinhos em
casa durante o dia: “Eu deixava-lhes a comida feita e eles ficavam sozinhos; eles lá
tomavam conta uns dos outros, que eles entendiam-se muito bem, e ainda hoje são
muito unidos; o pai passava o dia no tasco. Trabalhei muito.”. Conseguiu que os filhos
fossem para a escola mas estudaram pouco, porque havia pouco dinheiro. Passado
algum tempo, o marido conseguiu arranjar um novo trabalho, mas não deixou de beber.
“Um dia no trabalho teve um acidente, ficou esmagado numa empilhadora e morreu,
tinha ele 31 anos”, conta a D. Gorete sobre o acontecimento trágico da morte do marido.
Continua a falar do marido e da vida que este deu aos filhos: “Apesar de tudo foi o
homem com quem casei; os filhos levaram muito má vida por causa do pai, ele batia-
lhes muito. Eu levava e calava, mas os filhos mal puderam saíram todos de casa. Ele
morrer, não digo que foi um alívio, porque apesar de tudo eu gostava dele, mas pelo
menos tive uma melhor vida”.

A D. Gorete entra também no mundo do álcool: “Na altura em que ele me batia muito
eu também comecei a beber e os meus filhos ficaram traumatizados”. Entretanto os
filhos casaram: “A Rosa casou e teve 2 filhos. A minha neta tem 17 anos. Ela é muito
minha amiga, é ela que me costuma visitar. A minha Fátima casou, mas o casamento
não deu certo. Tem um casal, coitada tem uma vida muito triste, passa também muita
necessidade. Ela é como eu. Mata-se a trabalhar mas tem os filhos com ela. O meu filho
morreu com 36 anos do coração. Também era casado e deixou uma filha. Essa neta

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raramente a vejo. A mãe foi para Lisboa e penso que raramente cá vem. A minha outra
filha é casada e já tenho uma neta dessa filha que também casou, mas eu nem fui ao
casamento dela. Sabe, fiquei sozinha muito cedo, não tenho assim tanta confiança com
eles”.

Sente-se muito triste por não ter sido uma boa mãe. “Não fui grande mãe porque eu
nunca deveria ter começado a beber, pois assim os meus filhos não tinham ninguém em
quem se apoiar. Hoje sinto remorsos da vida que dei aos meus filhos, mas não posso
voltar atrás e nem agora eu lhes posso cobrar o amor, pois isso eles não têm para me
dar”.

Como veio para o lar?

Conta que estava em casa e apanhou uma ferida na mão: “Eu curava em casa mas ela
não melhorava nada, então tive de ir ao médico. Foi aí que me disseram que eu tinha
uma infecção na mão e tinha diabetes. Tiveram de me cortar a mão, nunca mais
consegui fazer nada sozinha”.

A assistência social falou com as filhas para tomarem conta da D. Gorete, mas elas
disseram que não podiam. Então arranjaram a solução de a colocar no lar: “A
assistência social falou com as minha filhas para tomarem conta de mim mas elas
disseram que não podiam…a solução era de me colocar num lar…”. Para aqui vim. Não
queria nada, queria ficar em casa, comer uma malga de sopa em minha casa. Eu sei que
as minhas filhas dão cinquenta contos cada uma para eu estar aqui. Com esse dinheiro
eu arranjava alguém que me ajudasse em casa, mas elas não querem dizendo que eu
estou aqui muito bem”.

A senhora queria vir para o lar?

Diz que não tinha vontade de vir para um lar: “Não menina, só vem para um lar quem
não tem família. Eu sei que não fui boa mãe mas fui eu que os pari e os sustentei. Dei
tudo de mim quando eles eram pequenos, agora eles têm o dever de olhar por mim”.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

A D. Gorete diz que não, nem a este veio. Quando veio para o lar nem sabia que vinha
para um lar, disseram-lhe que vinha para uma clínica por causa dos diabetes.

- 177 -
A sua família vem cá visitá-la?

As visitas são raras: “A minha filha mais velha vem cá poucas vezes, e é sempre a
correr. Ela trabalha na AMI e está sempre a dizer que tem de ir embora porque se não o
patrão manda-a embora. A minha neta a que vem cá mais vezes e conversa comigo. Do
resto, não vem mais ninguém”.

Como é o seu dia no lar?

Diz a D. Gorete que passa o dia a gritar com dores nos ossos: “Não gosto de estar aqui,
por isso ando sempre triste e amargurada. Que fim. Bem, podia ser pior, se não tivesse
ido ao médico por causa da ferida já tinha morrido era a minha sorte”.

Entrevista D. Miquelina

A entrevista foi realizada a 30-04-2008 às 11:30 h, recorrendo a gravador como suporte


de gravação áudio, tendo este meio obtido o consentimento da entrevistada.

Quantos anos tem?

Nasci em 1912.

Estado civil?

Divorciada e viúva, sou as duas coisas.

Escolaridade?

Sei ler e escrever, mas nunca fui à escola.

Há quantos anos está a viver no lar?

Vivo no lar desde 3 de Abril de 2006.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

Nasci em S. Nicolau aqui no Porto. Os meus pais eram de Resende, vieram para o
Porto, ainda muito novos. Já se conheciam e depois começaram a namorar aqui no Porto
e casaram. Os meus avós tinham muitos pomares e os meus pais tinham um armazém
onde armazenavam a fruta e depois a distribuíam para restaurantes, lojas, mercados. Os

- 178 -
meus avós paternos tinham barcos e barcas que faziam a ligação entre os barcos de
grande porte até ao cais do Porto. Por isso eram pessoas de grandes possibilidades,
naquele tempo eram consideradas pessoas ricas.

Eu nasci no Porto em 1912. Tive mais quatro irmãos, dois rapazes que ainda muito
novelos quiseram ir para o Brasil e as minhas duas irmãs, a Rosa e a Arminda ficaram a
viver com os meus pais. Não fui estudar, mas sabia muito bem ler e escrever. Passei o
tempo de criança como todas as outras, não me lembro nada de especial. Brincava com
os meus irmãos e nada de especial. Quando tivemos a idade de trabalhar, nós fomos
ajudar a minha mãe no armazém de frutas. Eu ficava na parte da escrita que era a coisa
de mais responsabilidade. Mais tarde os meus irmãos foram para o Brasil e eu e as
minhas irmãs fomos aprender costura. Fomos para a Singer; nunca trabalhámos para
fora, mas fazíamos tudo em casa.

Mais tarde arranjei um namorado com quem casei e tive 2 filhas mas o casamento não
deu certo e divorciei-me. Chegámos a acordo que não gostávamos um do outro. Bem,
naquele tempo foi como uma tempestade que caiu na minha cabeça. Os meus pais
ficaram muito tristes comigo mas depois de eu explicar as minhas razões lá me
aceitaram. Naquela altura, as minhas filhas, uma ficou com a minha mãe e a outra ficou
com a madrinha que era minha irmã. Mantinha sempre relações com elas. Eu só as
queria proteger da situação em que me encontrava, pois elas podiam ter vergonha de
mim, mas ficaram sempre a viver com a minha mãe e a minha irmã. Eu quando podia ia
lá vê-las, mas elas próprias já preferiam lá ficar.

Entretanto os meus avós morreram e os meus pais ainda tiveram de ficar com os barcos,
mas vieram umas cheias e destruíram tudo. Umas ficaram destruídas, outras foram
levadas pelo mar. Esse negócio ficou todo estragado e os meus pais desistiram desse
negócio e continuaram com o negócio de armazenamento de frutas. Ainda me lembro
que o meu pai depois comprou um camião para transportar as frutas e os legumes. Eu
nessa altura morava sozinha e trabalhava lá no armazém e conheci um rapaz que era
muito bonito. Ele era do Porto; era muito elegante e filho de boas famílias e filho único.
Começámos a namora, mas os pais dele não aceitaram o namoro por eu ser divorciada.
Os pais chegaram ao ponto de vir falar comigo para eu deixar o rapaz dizendo que ele
não era para mim. Como não nos conseguiram separar tentaram fazer a cabeça dele para
casar comigo com separação de bens, e voltaram a falar comigo dizendo que só

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aceitavam o casamento se fosse com separação de bens. Eu era uma rapariga divorciada,
mas era bonita e trabalhadora, e os meus pais não precisavam de nada se ninguém mas
achei aquilo uma brutalidade então resolvi que não me casaria com ele e assim foi.
Juntámo-nos e não casámos. Isto foi uma bomba para os pais dele mas eu também não
era pessoa de me submeter aos caprichos deles. Fomos para uma casa e vivemos juntos
e tivemos mais 2 filhos. Nem eu nem meu marido (José), nunca fizemos distinção entre
os filhos deste casamento e o anterior, mas as minhas 2 filhas nunca moraram comigo.
Eu e o meu marido ficámos com um segredo. Nunca ninguém soube que nós não
éramos casados e escondi isso sempre aos meus filhos, não havia necessidade de eles
saberem. Mas já a minha filha Lucília já era grandinha e se foi matricular para fazer um
curso achou estranho quando levava os meus papéis e dizia lá que eu era divorciada,
pois como eu nunca casei com o pai dela eu continuava divorciada. Mas ela nunca me
disse nada, mas sei que ela soube a verdade através da minha irmã, que pouco a pouco
lhe contou a verdade, e sei que mais tarde ela contou aos irmãos.

O meu marido durou pouco tempo. Morreram todos cedo. Os pais dele morreram pouco
depois de casarmos e ele morreu com 40 anos, tinha a minha filha mais nova 10 anos.
Nessa altura fiquei a morar com os meus dois filhos do segundo homem e as minhas
outras duas filhas também lá passavam muito tempo, apesar de irem sempre dormir a
casa da minha mãe e minha irmã. Naquela altura vivia-mos daquilo que o meu marido
nos deixou, pois ele já tinha herdado tudo dos pais e agora os meus filhos herdaram tudo
do pai. Não queriam que eu ficasse com a riqueza deles e acabei por ficar com tudo.

Vivemos sempre bem. A minha filha mais velha também quis ir para o Brasil, a outra
casou e foi viver para Lisboa a Lucília e o José ficaram a viver aqui no porto. A rapariga
aprendeu costura e foi trabalhar para a alta costura e o meu filho foi estudar tirou um
curso superior e foi trabalhar. Fiquei a morar sozinha mas eu ajudava muito os meus
filhos. O meu marido tinha deixado uma empresa na qual dava muito lucro. Eu
administrava a empresa mas tinha lá advogados e engenheiros que tratavam de tudo. O
meu filho, mais tarde, tomou ele conta dos negócios. Eu mandava dinheiro para a minha
filha do Brasil, para a de Lisboa e ajudava os meus filhos aqui no Porto. Eu morava
sozinha numa casa enorme e não gostava nada, porque sempre estive rodeada de
pessoas mas enfim era a vida. Cheguei a ir ao Brasil várias vezes visitar a minha filha.
Ajudei-a a construir uma grande casa e ficou bem de vida mas ela nunca quis vir a
Portugal. À minha filha de Lisboa também a ajudei muito. Apesar de tudo era a que
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tinha mais dificuldade na vida. Eu quando podia ia visitá-la e levava sempre o pé de
meia. Ela gostava muito de me ver e era muito bem tratada na casa dela mas ela vir ao
Porto era muito raramente.

Mas quando vinha para o Porto lá vinha eu morar para a minha casa. No início ainda
pensei em vender aquela casa e comprar uma mais pequena, mas depois lá me fui
habituando a viver só. Assim foi a minha vida.

Mais tarde, fiquei muito doente. Fiquei com uma febre que se chamava febre asiática. A
minha filha Lucília veio-me buscar para casa dela, e como ela mais tarde teve uma
menina eu acabei por ficar com ela, e vivi com eles até a minha neta ser grande e casar.
Então como vivia na casa da minha filha decidi dar todos os meus bens aos meus filhos
e fez-se a partilha de bens, resumindo fiquei sem nada, pois eu achava que eles podiam
dar melhor uso às coisas do que eu. E eu pensava que iria ficar para sempre na casa da
minha filha até porque ela também assim o dizia pois eu ajudei-a a tomar conta da filha
dela. Ela ia trabalhar e eu tomava conta da casa e da menina.

Como veio para o lar?

O problema começou a surgir quando esta minha filha ficou muito doente e teve de ser
hospitalizada. Ela tinha um cancro e teve de tirar várias coisas. Ela ficou muito mal,
escapou da morte mas nunca mais conseguiu trabalhar e nessa altura eu também já
estava muito doente das minhas perna, já não conseguia andar. Então a minha filha já
não podia tomar conta de mim. O meu genro falou com os outros meus filhos acerca do
que se passava para me arranjarem uma solução para mim mas todos se apresentaram
indisponíveis ou porque estavam longe, ou porque não tinham tempo. Ninguém estava
para me aturar. Mas a minha filha na realidade não podia tomar conta de mim, nem dela
podia tomar conta. Até esta data os meus filhos nunca se tinham zangado a partir daqui
estavam todos zangados.

Então a minha filha decidiu colocar-me num lar, eu sei o quanto lhe custou. Eu fiz de
conta que não percebi, mas ela chorou muito mas sozinha também não podia tomar
conta de mim e agora também tinha um neta que tinha de tomar conta, mas ela era uma
criança de meses. Na altura os meus outros filhos ficaram muito indignados por a
Lucília me trazer para o lar dizendo que o dever dela era ficar comigo, mas também
nunca ninguém me veio buscar. O meu grau de dependência era muito grande. A minha

- 181 -
filha também tem a vida dela, o marido também queria algum tempo para ele, e eu
ocupava-a a muito.

A senhora queria vir para o lar?

Fiquei sem nada, nunca o deveria fazer mas fiz, e fui viver para casa alheia. Devia ficar
na minha casa. Tinha possibilidade de colocar 5 ou 6 empregadas e vivia tranquila até à
minha morte. Fui para casa da minha filha quando, fiquei doente obriguei-a a fazer
obras pois eu fiquei sem andar, ela tive de fazer um quarto e uma casa de banho nova
para mim, e no fim vim calhar aqui sem um tostão. Eu sei que eles pagam ao lar, mas eu
podia estar na minha casa. Eu nunca vou aceitar estar aqui. Os meus filhos sabem disso
muito bem. São os erros da nossa vida.

Como é o seu dia no lar?

Passo a vida na cama não me levanto com as dores, por isso passo assim os dias. Vejo
televisão e durmo.

Entrevista D. Lucília

A entrevista foi realizada a 30-04-2008 às 16:00 h, não tenso sido usado o gravador
como suporte de gravação áudio, devido ao constrangimento sentido pela entrevistado.
O suporte usado foi o papel, e o texto que se segue é a reconstituição textual da
entrevista, efectuado logo após a ocorrência, tendo como suporte as anotações
efectuadas.

Quantos anos tem ?

91 anos.

Estado civil?

Casada.

Escolaridade?

Curso comercial.

Há quantos anos está a viver no lar?

- 182 -
Há cerca de uma ano.

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

Os seus pais são de Lisboa, mas vieram para o Porto morar. Casaram e nasceu a D.

Lucília e as suas três irmãs. Uma delas morreu muito nova, já que a idosa já nem se

lembra dela. A outra também morreu cedo mas ainda a conheceu “Fiquei eu e a minha

irmã Cristina. Éramos muito amigas uma da outra, andávamos sempre as duas,

passeávamos muito enquanto éramos jovens”. Depois de casarem raramente se

encontravam “Ela morava no Porto e eu depois fui novamente morar para Lisboa para

trabalhar”. Estudou e tirou o curso comercial e foi trabalhar para Lisboa numa empresa

de filmes. “Foi lá que conheci o meu marido e fiquei a morar lá, casei com 30 anos”

referiu ela na entrevista. O seu marido é médico veterinário e engenheiro agrícola e de

enologia. “Eu depois de casar deixei de trabalhar para tomar conta dos meus filhos. Tive

três filhos, uma rapariga e dois rapazes”.

Os seus pais morreram muito cedo, referindo no entanto a D. Lucília que enquanto ele

era criança se apercebia se eles se davam bem. Apercebia-se no entanto que eles diante

dos filhos sempre impuseram muita educação, referindo que à mesa mal se falava e

depois eles iam trabalhar.

O marido passou a ser o único sustento da casa “ele trabalhava muito mas gostava

daquilo que fazia”. Um dia apareceu-lhes a oportunidade de ir para Angola trabalhar e

foram. Abalaram depois para Moçambique referindo a D. Lucília: “O meu filho mais

velho ainda nasceu em Lisboa, os mais novos nasceram em Angola. Tínhamos uma vida

de ricos, um monte de empregadas para me tomarem conta dos filhos; eu passava o

tempo a ir para o mar. Foi o tempo da minha vida mais bem passado”. O marido

passava pouco tempo em casa, trabalhava e passava bastante tempo sem ir a casa.

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Depois do 25 de Abril regressaram a Portugal. Os filhos continuaram a estudar e tiraram

todos curso superior. “Os meus filhos foram muito bons estudantes, eram bons alunos.

Eu tinha com eles uma boa relação, falava muito com eles, era uma mãe presente e

sempre com uma grande preocupação. A minha filha tirou o curso de engenharia, o

Filipe é Eng.º civil e o Carlos é veterinário como o pai. Começaram a trabalhar muito

cedo por isso saíram logo de casa pois queriam ter a sua independência. O Filipe foi

trabalhar para o Estados Unidos, vem cá muito raramente, casou para lá e tem uma filha

mas só cá vem muito raramente. O Carlos casou mas depois divorciou-se e depois

voltou a casar e teve 3 filhos, tem 2 gémeos. Este filho ficou a trabalhar com o pai mas

passava muito tempo em Inglaterra. O pai tinha lá uma clínica e ele passava lá

temporadas e a minha filha foi morar para o Porto casou e teve duas filhas, são as

minhas netas do coração”, dizia isto com uma grande ternura. O marido continuava a

viajar muito. Nunca esteve em casa e era uma pessoa ausente: “Nunca esteve presente

numa data especial, nunca se lembrava da data de aniversário dos filhos. Então eu

passava o tempo só”. Um dia teve uma queda, e a partir dessa altura começou a ficar

afectada psicologicamente e só andava de bengala “mas a minha situação começou-se a

agravar e eu começava a necessitar de ajuda em casa. O meu marido disse logo que ele

não podia ficar comigo. O meu filho que trabalhava em Inglaterra achou que o melhor

era colocar-me no lar lá em Lisboa. E ali fiquei, era um lar muito bom. Tinha piscina,

tinha muitas boas condições. Eu sempre gostei muito dos meus filhos mas eles eram

muito independentes, nunca paravam em casa, mesmo a rapariga. Por isso eu passava

muito tempo sozinha. Eles tinham a mesma personalidade que o pai. Às vezes eu dizia

ao pai para estar mais tempo em casa e os filhos achavam mal. Eu estava no lar e o meu

marido passou a morar sozinho, mas ele gosta. Ele gostou de mim mas porque eu não

me importava com a vida que ele tinha. No meu parecer ele tem várias vidas, não é uma

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pessoa que se prende a coisas e a pessoas. É tipo um pássaro: gosta de liberdade. Mas eu

posso dizer que nunca tive um marido, tinha uma pessoa que me sustentava e que por

vezes ia lá a casa”.

Como veio para o lar?

Como já foi dito, a D. Lucília foi para um lar em Lisboa, mas depois o seu filho foi

definitivamente para Inglaterra e o meu marido não se responsabilizava por ela. Refere a

D. Lucília: “Então falou com a outra minha filha que mora no Porto e ela arranjou este

lar para eu vir, pois se eu precisar de alguma coisa ela está mais perto. O meu marido

continua a morar em Lisboa, nem quis saber”.

A senhora queria vir para o lar?

“Acho que ninguém quer vir para um lar onde temos regras para tudo, onde deixamos

que as pessoas mexam nas nossas coisas, onde não temos vida própria. Desde que vim

de Moçambique não tive mais empregadas era eu que tomava conta das minhas coisas e

do meu marido. Não gostava que mexessem nas minhas coisas”.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

Anteriormente, esteve num lar em Lisboa.

A sua família vem cá visita-la?

Segundo palavras da própria D. Lucília: “Só cá vêm visitar-me as minhas 2 netas, filhas

da minha filha. De resto não vem cá ninguém. O meu marido vem cá de longe em longe

e não está aqui mais de 15 minutos, depois vai embora para Lisboa. Os meus filhos

também não vêm saíram ao pai. Não têm amor por ninguém. Acho que a única que

sofre no meio disto tudo sou eu”.

Como é o seu dia no lar?

Em resposta a esta questão refere a entrevistada: “As auxiliares ajudam-me a vestir e a

fazer os meus cuidados de higiene por volta das 10 horas. Levam-me até uma sala para

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estar a conversar, mas eu não falo, estou sempre no meu silêncio. Depois almoço, vou

dormir a cesta, lancho e volto para a sala e é todos os dias a mesma coisa. No verão as

minhas duas netas ainda me vêm buscar e levam-me a passear até ao mar ou a um café”.

Entrevista D. Isabelinha

A entrevista foi realizada a 20-05-2008 às 15:00 h, não tenso sido usado o gravador
como suporte de gravação áudio, a pedido da entrevistada. O suporte usado foi o papel,
e o texto que se segue é a reconstituição textual da entrevista, efectuado logo após a
ocorrência, tendo como suporte as anotações efectuadas.

Quantos anos tem ?

Fez 100 anos no dia 08 de Abril de 2008.

Estado civil?

Viúva.

Escolaridade?

3ª classe.

Há quantos anos está a viver no lar?

Desde 29 de Novembro de 2002

Como foi a sua vida e o seu relacionamento com a família?

O seu pai era escrivão, a sua mãe era dona de casa, tendo tido cinco filhos no total. Na
altura viviam em Arganil perto de Coimbra, referindo a D. Isabelinha: “O meu pai era
uma pessoa muito rigorosa por isso eu mal pude vim viver sozinha para o Porto. Os
meus irmãos ficaram todos lá mas eu fugi, o meu pai não nos deixava namorar. Eu era
muito namoradeira e o meu pai não aceitava isso”.

Desde aí ela nunca mais teve grandes ligações com a família: “Os meus pais morreram
cedo; o meu pai morreu com 60 anos e a minha mãe morreu com 50 anos e a ligação

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com os meus irmão era muito fraca”. Veio para o Porto e depois arranjou maneira de ir
para o Brasil. Esteve lá cerca de 3 anos, depois regressou, referindo: “Aqui em Portugal
namorei e casei com um homem do qual tive dois filhos, mas o rapaz morreu em bebé.
Ainda hoje sinto essa perda foi uma grande tristeza. Então fiquei só com a minha filha.
O meu marido era uma boa pessoa, mas tinha um grande vício, gostava de correr. Eu
bem lhe dizia que aquilo ia ser a desgraça dele”.

Passados uns anos foram para Moçambique, a filha já se tinha casado. “Eu não gostei
nada de lá estar até porque o meu marido morreu lá numa das corrida de carros”.
Passado algum tempo veio logo para Portugal: “Nessa altura fui morar para casa da
minha filha. Ela dizia que também passava muito tempo sozinha porque o marido
viajava muito e eu fui, ajudei-a a tomar conta dos meus netos. Eles cresceram, foram à
vida deles, a minha filha também se reformou assim como o meu genro”. Os netos
foram trabalhar para o estrangeiro e a filha ia visitá-los muitas vezes referindo a D.
Isabelinha que passava muito tempo em casa sozinha com a empregada. Citando ainda
palavra da D. Isabelinha: “Acho que na minha vida tive tempos felizes e tristes. O mais
triste foi o não consentimento dos meus pais, de não me aceitarem como eu era: depois
foi morrer o meu filho e depois o meu marido. O que me fez mais feliz foi passar muito
tempo nesta vida e nunca ficar doente”.

Como veio para o lar?

“Comecei a dar trabalho, e eu não era pessoa fácil era muito exigente com as
empregadas por isso nenhuma parava em casa. A minha filha gosta muito de passear,
por isso ela colocou-me aqui para que ela tenha a sua liberdade. Segundo ela, assim está
mais descansada”.

A senhora queria vir para o lar?

“Menina claro que não, mas que hei-de eu fazer, eles quiseram assim”.

Foi ver algum lar antes de vir para este?

Não.

A sua família vem cá visitá-la?

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“A minha filha vem cá 2 a 3 vezes por semana e quando pode leva-me a casa. Quando
os meus filhos vêm cá a Portugal ela também me vem buscar para os ver porque eles
não gostam de vir aqui. Nas festas ela também vem sempre. Ao domingo quase sempre
vou almoçar a casa da minha filha.”

Como é o seu dia no lar?

“Faço muitas coisas para passar o meu tempo. De manhã vou compor o meu cabelo e as
minhas unhas. Depois ouço música, participo nas actividades do lar tais como nas
cantorias, no terço, na ginástica. Quando me apetece faço tricôs. Outras vezes durmo,
porque tenho sempre muito sono.”

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ANEXO II – CONSENTIMENTO DE ENTREVISTA

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Porto, 5 de Janeiro de 2008

Ex.ª Sra. Directora do Lar Raio de Sol

No âmbito do trabalho de investigação conducente à tese de mestrado, na área de


Psicologia da Saúde e Intervenção Comunitária, pela Universidade Fernando Pessoa,
venho põe este meio pedir autorização para a recolha de dados, através de entrevista aos
idosos que derem o seu consentimento.

Pede deferimento,

Margarida de Fátima Serrão Couto

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