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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 7-20 FEV.

2012

A TEMPESTADE GLOBAL DA LEI E ORDEM:


1
SOBRE PUNIÇÃO E NEOLIBERALISMO

Loïc Wacquant

RESUMO

Este artigo reflete sobre a recepção internacional ao livro Prisões da miséria como reveladora da expansão
penal nas sociedades avançadas na década de 2000. Ele revela que a tempestade global da “lei e ordem”
inspirada pelos Estados Unidos, que o livro detectou em 1999, continuou a espalhar-se por toda a parte.
Na verdade, ela estendeu-se dos países do Primeiro Mundo para os do Segundo Mundo e alterou a política
e as práticas de punição em todo o globo de uma forma que ninguém previa e que ninguém teria pensado
como possível há cerca de 15 anos. O artigo estende a análise para o papel dos institutos de consultoria
(em especial o Manhattan Institute) na difusão das noções de combate ao crime e das panacéias no estilo
estadunidense na América Latina como um elemento da circulação internacional dos pacotes de política
pró-mercado que alimentam a gerência punitiva da pobreza. O artigo elabora e revê o modelo original do
nexo entre neoliberalismo e penalidade punitiva, levando a análise da montagem do Estado na era da
insegurança social, desenvolvida no livro Punindo os pobres.
PALAVRAS-CHAVE: Justiça Criminal; tolerância zero; institutos de consultoria; Estado Penal;
transferência de políticas; neoliberalismo; globalização.

I. INTRODUÇÃO por outras cidades nos Estados Unidos e na


Europa Ocidental. Em meu livro Prisões da
No início da década de 1990, o novo Prefeito
miséria, publicado pela primeira vez em 1999, traço
republicano da cidade de Nova York, Rudolph
a incubação e a internacionalização de motes (“a
Giuliani, lançou a campanha de policiamento
prisão funciona”), teorias (“vidraças quebradas”)
conhecida por “Tolerância Zero”, voltada para o
e iniciativas (tais como a ampliação do
combate das desordens de rua e dos pequenos
encarceramento, sentenças mínimas obrigatórias,
infratores, encarnada pelo notório “lavador de
campos de treinamento correcionais e a adoção
carro”. Nova York logo se tornou uma vitrine para
do toque de recolher para jovens), compondo esse
uma agressiva abordagem da aplicação da lei que,
novo “senso comum” punitivo, moldado para
a despeito de seus custos extravagantes e da
controlar as crescentes desigualdade e
ausência da conexão com a queda da
marginalidade urbanas nas metrópoles
criminalidade, passou a ser admirada e imitada
(WACQUANT, 2009a). Verifico que uma rede de
institutos de consultoria conservadores da era
1 A ser publicado em Thesis Eleven (versão de 27 de Reagan, liderados pelo Manhattan Institute,
fevereiro de 2011); agradecemos ao autor a gentileza de forjou-as como arma em sua cruzada para
autorizar a tradução para o português do artigo. Este texto desmantelar o Estado do Bem-estar e, para todos
baseia-se no posfácio de Prisons of Poverty os efeitos, criminalizar a pobreza, tendo como
(WACQUANT, 2009a), a edição revista e ampliada em pano de fundo a ampliação da desigualdade
língua inglesa do livro em francês Les Prisons de la misère
(1999). O trabalho original beneficiou-se do apoio de uma
econômica e da difusão da insegurança social.
bolsa da MacArthur Foundation, do inigualável estímulo Traço sua importação-exportação por meio da ação
intelectual de Pierre Bourdieu e da generosidade de políticos obcecados com a visão neoliberal,
profissional de colegas em Criminologia e Penologia de dos grandes meios de comunicação e dos
instituições de pesquisa em três continentes. Uma bolsa institutos de opinião pró-mercado que se
da Alfonse Fletcher facilitou as revisões do livro, bem multiplicaram pela União Europeia, particularmente
como a preparação deste artigo. Tradução de Sérgio
Lamarão e revisão da tradução de Gustavo Biscaia de
na Grã-Bretanha de Tony Blair. Por fim, mostro
Lacerda. como os intelectuais locais ajudaram a

Recebido em 15 de dezembro de 2010.


Aprovado em 13 de maio de 2011.
Rev. Sociol. Polít., Curitiba, v. 20, n. 41, p. 7-20, fev. 2012
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A TEMPESTADE GLOBAL DA LEI E ORDEM

contrabandear técnicas de penalização dominantes que promovem a difusão dessa nova


estadunidenses para seus países, vestindo-as com doxa punitiva e alertar os acadêmicos, líderes civis
roupagens acadêmicas. Meu argumento central e cidadãos interessados da Europa para as origens
estabelece um elo entre a reestruturação neoliberal duvidosas dessa difusão, bem como para as
e a punição: o “Consenso de Washington” sobre terríveis consequências sociais e os perigos
a desregulamentação econômica e a retração do políticos do crescimento e da glorificação do
Estado do Bem-estar foi ampliado para abranger braço penal do Estado.
o controle do crime punitivo porque a “mão
No momento em que o escrevi não esperava
invisível” do mercado necessita do “punho de
aventurar-me mais profundamente no que era
ferro” do Estado penal e convoca-o.
então para mim um campo de investigação novo
Reflito, neste artigo, sobre a recepção e estranho. Eu havia trazido o aparato da Justiça
internacional de Prisões da miséria (idem) – que Criminal para meu âmbito analítico em razão de
em pouco tempo foi traduzido para 20 línguas – seu estupendo crescimento no gueto negro em
como reveladora da expansão penal em sociedades implosão nos Estados Unidos e de sua utilização
avançadas ao longo da década de 2000. Mostro agressiva em torno dele, após o declínio do
que a tempestade global da “lei e ordem”, inspirada movimento pelos direitos civis, e estava
pelos Estados Unidos que o livro detectou em firmemente decidido a retomar as questões da
1999, continuou a espalhar-se por toda a parte. desigualdade urbana e da dominação etno-racial2.
Em termos concretos, estendeu-se dos países do Ao longo do caminho, porém, dois
Primeiro Mundo para os do Segundo Mundo e acontecimentos inesperados estimularam-me a
alterou a grande política e as políticas específicas continuar nessa linha de pesquisa e de ativismo
de punição em todo o planeta de uma forma que intelectual.
ninguém previu e ninguém pensaria ser possível
O primeiro foi a acolhida incomum que o livro
há cerca de 15 anos. Estendo a análise do papel
teve na França e depois nos países que se
dos institutos de consultoria na difusão do estilo
apressaram a traduzi-lo, cruzando as fronteiras
americano de penalidade na América Latina (o que
que separam o conhecimento científico, a
foi chamado de “fator Giuliani”). Finalmente,
militância cidadã e a formulação de políticas. O
elaboro e revejo o modelo original do nexo entre
segundo foi o fato de que a dupla tese que ele
neoliberalismo e penalidade punitiva, fundamental
propõe – que um novo “bom senso punitivo”,
para a análise da modelagem do Estado na era da
forjado nos Estados Unidos como parte do ataque
insegurança social desenvolvida em meu livro
ao Estado de Bem-estar, está atravessando
Punindo os pobres (WACQUANT, 2009b).
rapidamente o Atlântico para ramificar-se pela
II. RASTREANDO A TEMPESTADE GLOBAL Europa Ocidental, e que essa disseminação não é
DA “LEI E ORDEM” AO REDOR DO uma resposta interna a mudanças na incidência e
MUNDO no perfil da criminalidade, mas antes um fruto da
difusão externa do projeto neoliberal – recebeu
Prisões da miséria utiliza as ferramentas das
uma espetacular e evidente validação quando Les
Ciências Sociais para lançar, e sustentar, um
Prisons de la misère foi publicado em uma dúzia
debate público que é de extrema significação social
de línguas no espaço de poucos anos após seu
em países ocidentais. O eixo do debate é o papel
lançamento.
cada vez mais crucial da prisão e da virada punitiva
na política penal, discernível nas sociedades mais Essa reação estrangeira apaixonada
avançadas a partir das duas últimas décadas do proporcionou-me a oportunidade de viajar por três
século XX. O alvo inicial foi a França e seus continentes para pôr à prova a viabilidade e a
vizinhos, na condição de ávidos importadores de
categorias, motes e medidas de controle da
criminalidade, elaborados durante a década de 2 Começando pela lógica da polarização urbana a partir de
1990 nos Estados Unidos como veículos para a baixo nos Estados Unidos e na Europa, investigada em
Urban Outcasts: A Comparative Sociology of Urban
substituição histórica do bem-estar social pela
Marginality (WACQUANT, 2008a), estabeleço as
gestão penal da marginalidade urbana, feita por conexões analíticas entre minhas investidas na desigualdade
esse país. O objetivo do livro foi escapar da urbana e na punição em The Body, the Ghetto and the
política e do discurso dos meios de comunicação Penal State (WACQUANT, 2009c).

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pertinência de seus argumentos. Permitiu-me em sua cantina lotada, bem perto da cidade. Em
verificar que a popularidade global do “modelo poucas semanas, a discussão estendeu-se aos
nova-iorquino” de policiamento, encarnado pelo principais órgãos de imprensa e a uma gama
ex-Chefe de Polícia de Nova York William Bratton variada de foros acadêmicos e de ativistas, que
e pelo Prefeito que o contratara (e que o demitiu), incluía desde a École Normale Supérieure, em
Rudolph Giuliani, é de fato a ponta do iceberg de Paris, até a feira anual do partido trotskista Lutte
uma reforma maior da autoridade pública, um Ouvrière, passando pela Maison des Sciences de
elemento em uma cadeia mais ampla de l’Homme, em Nantes, por um “debate de bar”
transferência transnacional de políticas que abarca promovido pelo Partido Verde em Lyon, pelo
a reorganização flexível do mercado de trabalho Centro Nacional de Pesquisa Científica e pela
desqualificado e a transformação restritiva do École de la Magistrature (a academia francesa para
welfare no workfare 3 , segundo o modelo os juízes). Participei igualmente de encontros
fornecido pelos Estados Unidos pós-fordistas e públicos por todo o país, patrocinados por
pós-keynesianos4. Um relato seletivo da trajetória entidades tão variadas quanto Les Amis du Monde
meteórica da edição original de As prisões da Diplomatique, a Anistia Internacional, Association
miséria por meio de esferas de debate e fronteiras pour la Taxation des Transactions pour l’Aide aux
nacionais pode ajudar-nos a discernir melhor o Citoyens (Associação pela Tributação das
que está em jogo na discussão intelectual e nas Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos
lutas políticas a que ele alia-se, as quais dizem – Attac), a Liga dos Direitos do Homem, Raisons
respeito menos ao crime e à punição e mais à d’Agir, o Genepi (uma associação nacional de
reengenharia do Estado para promover as estudantes que desenvolve programas
condições econômicas e sociomorais que se educacionais para presidiários), universidades
aglutinam sob o neoliberalismo hegemônico e que locais e associações de bairro, vários partidos
buscam responder a elas. políticos e uma das maiores lojas maçônicas do
país. Um encontro público sobre “A punição da
Desde o princípio, o livro transpôs as fronteiras
pobreza” que durou o dia todo, organizado em
entre as esferas acadêmica, jornalística e civil.
maio de 2000 na Maison des Syndicats em
Na França, Les Prisons de la misère foi literalmente
Montpellier, minha cidade natal, exemplificou esse
lançado a partir do coração da instituição
espírito de discussão aberta e vigorosa, reunindo
carcerária: em uma tarde cinzenta e fria de
cientistas sociais, advogados e magistrados, além
novembro de 1999, apresentei, ao vivo, os frutos
de ativistas e representantes dos sindicatos,
das minhas investigações no Canalweb e na Télé
abarcando os mais diversos braços do Estado:
la Santé, uma estação de televisão interna, dirigida
educacional, da saúde, previdenciário, da Justiça
pelos detentos na prisão de La Santé, no centro
para a juventude e correcional5.
de Paris. Mais tarde voltei a debatê-los, noite
adentro, com todo o staff e recrutas da Escola Logo Les Prisons de la misère foi adaptado
Nacional de Treinamento para Pessoal Correcional para o teatro (e encenado nos Rencontres de la
Cartoucherie, em junho de 2000); seus
argumentos inseridos em filmes publicitários;
3 Workfare designa, segundo o próprio autor, programas trechos seus reproduzidos em antologias
de assistência pública destinados aos pobres, que fazem
acadêmicas, fanzines libertários e publicações
do recebimento do auxílio um benefício pessoal condicional, governamentais. Fui convidado pela Organização
quando os beneficiários aceitam trabalho mal remunerado Internacional do Trabalho (OIT) para apresentá-
ou submetem-se a estratégias orientadas para o emprego, lo no Fórum 2000 da Organização das Nações
tais como o treinamento no local do trabalho ou job- Unidas (ONU) em Genebra, em que
searching; o workfare opõe-se ao welfare, enquanto um
direito inquestionável à assistência (nota do tradutor).
4 O impulso diferencial para a desregulação do mercado 5 O encontro propiciou a publicação de um livro muito
de trabalho nas nações pós-industrializadas é analisado lido e usado por ativistas no campo da justiça na França
por Boje (1993), Esping-Andersen e Regini (2004) e Koch (SAINATI & BONELLI, 2001). Ampliações e
(2006). A difusão e a adaptação do workfare de inspiração atualizações do diagnóstico da punição da pobreza na
estadunidense para outras sociedades avançadas são França sob o jugo de esquemas no estilo estadunidense,
acompanhadas por Trickey e Loedemel (2001), Peck propostas em Les Prisons de la misère, incluem Sainati e
(2001) e Handler (2004). Schalchli (2007), Bonelli (2008) e Mucchielli (2008a).

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A TEMPESTADE GLOBAL DA LEI E ORDEM

representantes de vários países insistiram para país, em uma tradução não-autorizada produzida
que eu viajasse a fim de fomentar a discussão por um comissário de polícia que o lera quando
política em diversas partes do mundo. fazia seus estudos de Sociologia na França, até
ser publicado em uma edição legal.
Foi difícil recusar esses convites, pois, em
questão de meses, o livro foi traduzido e lançado Mas foi a visita que fiz à Argentina em abril de
em meia dúzia de países, desencadeando um 2000 que revelou mais claramente o quanto era
dilúvio de telefonemas de universidades, centros sensível o nervo sociopolítico que o livro atingira.
de direitos humanos, governos municipais e Foi a primeira vez que pus os pés naquele país.
regionais e as mais diversas organizações Não tinha nenhum conhecimento prévio de sua
profissionais e políticas, todos eles ansiosos para polícia, sua Justiça e suas instituições e tradições
debater as implicações do livro em nações tão correcionais. No entanto, era como se eu tivesse
distantes como a Itália e o Equador, o Canadá e a formulado uma estrutura analítica destinada a
Hungria, a Finlândia e o Japão. Na península apreender e esclarecer o que ocorria naquele exato
ibérica, Les prisons de la misère foi logo traduzido momento na Argentina. Ao desembarcar em
não só para o espanhol, mas também para o Buenos Aires, na fase final de uma acalorada
catalão, o galego e o português. Na Bulgária, meu campanha para as eleições municipais – em que
tradutor foi convidado para apresentar os tanto o candidatos da esquerda quanto o da direita
argumentos da obra na televisão nacional, já que haviam feito do combate ao crime com métodos
eu não pude viajar até Sófia para fazê-lo inspirados pelos Estados Unidos sua prioridade
pessoalmente (WACQUANT, 2003). No Brasil, máxima –, e apenas um mês depois de o apóstolo
o lançamento da primeira edição de As prisões da global da “tolerância zero”, William Bratton, ter
miséria, patrocinado pelo Instituto Carioca de aportado na cidade para pregar seu evangelho
Criminologia e pelo Programa de Direito Criminal político, vi-me apanhado no olho de um furacão
da Universidade Cândido Mendes, teve como intelectual, político e midiático. Em dez dias, fiz
atração principal um debate com o Ministro da 29 palestras para plateias acadêmicas e de
Justiça e um ex-Governador do estado do Rio de ativistas, mantive conversações com funcionários
Janeiro e foi coberto pelos principais jornais do do governo e juristas e dei entrevista aos mais
país (talvez intrigados pelo título que eu dera à variados órgãos da imprensa escrita, de televisão
minha preleção: “Acaso a burguesia brasileira e rádio. Ao cabo de uma semana, eu estava sendo
deseja restabelecer uma ditadura?”) 6 . Poucas parado nas ruas de Buenos Aires por transeuntes
semanas depois a tese do livro era invocada por ansiosos por fazer mais perguntas sobre Las
jornalistas, professores e advogados, além de ter cárceles de la miseria.
sido citada em uma decisão do Supremo Tribunal
Quero enfatizar que o objetivo desta
Federal. Na Grécia seu lançamento ancorou uma
recapitulação não é sugerir que a acolhida
conferência de dois dias, copatrocinada pela
estrangeira a Prisões da miséria fornece medida
embaixada da França em Atenas, sobre “O Estado
adequada de seus méritos analíticos, mas dar uma
penal nos Estados Unidos, na França e na Grécia”,
ideia da ampla disseminação e da febre que o
reunindo cientistas sociais, juristas, historiadores,
fenômeno que o livro investiga provoca nos
funcionários da Justiça e um grande número de
campos político, artístico e intelectual de
repórteres. Na Dinamarca, a Associação Nacional
sociedades do Primeiro e do Segundo Mundo. O
de Assistentes Sociais patrocinou a publicação de
mundo vem sendo de fato assolado por uma
De Fattiges foengsel como munição acadêmica
tempestade de “lei e ordem”, que transformou o
para a resistência à assunção gradual e lenta da
debate público e a política sobre crime e punição
tarefa de supervisão punitiva dos pobres por
de maneiras que nenhum observador da cena
assistentes sociais. Na Turquia, o livro circulou
penal poderia ter previsto 12 anos atrás. A razão
por meio da Escola para Diretores de Polícia do
por detrás da inusitada paixão despertada pelo livro
foi a mesma que na França. Em todos esses países,
6 Para uma análise mais completa das modalidades e os mantras do policiamento com “tolerância zero”
implicações distintivas da contenção punitiva enquanto
e da “prisão funciona”, glorificado pelas
política antipobreza nos países da América Latina, ver autoridades estadunidenses e exibido pela dupla
Wacquant (2008b). Giuliani-Bratton como a causa da queda

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aparentemente miraculosa da criminalidade em tutela de organizações financeiras internacionais


Nova York, estava sendo aclamado por que impunham dogmas monetaristas, constituíam
funcionários locais. Em toda parte, políticos de um terreno mais propício para a adoção de versões
direita e, o que é mais significativo, de esquerda7 severas do populismo penal e a importação de
competiam para importar os mais recentes estratagemas estadunidenses de combate ao
métodos estadunidenses de imposição da lei, crime. Em síntese: as elites dominantes das nações
apresentados como panaceia para sanar a seduzidas, e depois transformadas, pelos
violência urbana e variadas modalidades de “Chicago Boys” de Milton Friedman, nos anos
desordem, enquanto céticos e críticos desses 1970, estavam fadadas a apaixonar-se pelos “New
métodos tentavam encontrar argumentos York Boys” de Rudy Giuliani, nos anos 1990,
teóricos, dados empíricos e barreiras cívicas com quando chegou o momento de lidar com a
os quais impedir a adoção do confinamento proliferação das consequências da reestruturação
punitivo como técnica generalizada para o manejo neoliberal e enfrentar a instabilidade social
da insegurança social descontrolada. endêmica e as perigosas desordens urbanas
geradas pela reforma do mercado na base da
III. SONDANDO O “ CONSENSO DE
estrutura de classes dualizante. Não foi por acaso
WASHINGTON” SOBRE O COMBATE
que o Chile, o primeiro na América Latina a abraçar
AO CRIME
as políticas ditadas pelos “doutores do dinheiro”
A rápida difusão internacional do livro da Universidade de Chicago (VALDÉS, 1984),
transformou-se em um experimento não- logo se tornou o campeão continental do
planejado na política do conhecimento científico encarceramento e viu sua taxa de aprisionamento
social. Ela revelou que, embora eu tivesse mirado saltar de 155 por 100 mil em 1992 para 240 em
com minha análise o cerne da União Europeia, o 100 mil em 2004, enquanto a taxa do Brasil saltou
modelo do vínculo entre neoliberalismo e de 74 para 183 e a da Argentina de 63 para 140
tratamento punitivo da insegurança nele esboçado (com a do Uruguai, preso entre eles, subindo de
era ainda mais pertinente à periferia do Velho 97 para 220) (cf. INTERNATIONAL CENTER
Mundo, apanhada nos estertores da conversão FOR PRISON STUDIES, 2007; SALLA &
pós-soviética, e aos países do Segundo Mundo RODRIGUEZ BALLESTEROS, 2008). Por todo
marcados por uma história de autoritarismo, uma o continente, há não apenas um agudo medo
concepção hierárquica de cidadania e pobreza em público da infecciosa criminalidade urbana, que
massa, sustentada por desigualdades sociais cresceu lado a lado com disparidades econômicas
excessivas e crescentes, nas quais a punição da na esteira do retorno do governo democrático e
pobreza certamente terá consequências do descompromisso social do Estado, como
calamitosas. também uma intensa preocupação política com
Dessa perspectiva, as sociedades latino- os domínios e as categorias do problema. Há
americanas, que se haviam envolvido na também um conjunto comum de soluções
experimentação precoce de uma desregulação punitivas: a ampliação dos poderes e das
econômica radical (isto é, rerregulação em favor prerrogativas da polícia, centrados em infrações
de empresas multinacionais) e depois caído sob a de rua e infrações associadas às drogas; a
aceleração e o endurecimento do processo judicial;
a expansão da prisão como depósito; a
normalização da “penalidade de emergência”
7 Apenas uma indicação sobre a Argentina: o principal aplicada de maneira diferencial através do espaço
panfleto de campanha do candidato de centro-esquerda social e físico8, inspiradas ou legitimadas por
Anibal Ibarrra, “Buenos Aires, un compromiso de todos”, panaceias vindas dos Estados Unidos, graças à
fez do combate ao crime o compromisso número um com
diligente ação de diplomatas estadunidenses,
os eleitores: “El compromiso de Ibarra-Felgueras: Con
la seguridad: vamos a terminar con el miedo y a combatir órgãos judiciais americanos no exterior e de seus
el delito con la ley en la mano”. Depois que apareci na aliados locais, e à sede de políticos estrangeiros
televisão nacional para discutir Las cárceles de la miseria,
os candidatos do Partido Peronista perguntaram-me, por
meio de meu editor, se eu concordaria em aparecer com
eles em uma entrevista coletiva para apoiar sua denúncia 8 Ver a acurada análise de Iturralde (2008) da rotinização
tática do compromisso de Ibarra com a “mano dura”. da “penalidade de emergência” na Colômbia.

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A TEMPESTADE GLOBAL DA LEI E ORDEM

por lemas e medidas para a imposição da lei central para promover seus remédios pró-
embrulhadas no mana dos Estados Unidos9. mercado e pró-policiamento. Foi o que ocorreu
na Venezuela, em que o esquerdista Presidente
No hemisfério Sul, como na Europa Ocidental,
Hugo Chávez deseja combater o crime reduzindo
o papel dos institutos de consultoria foi decisivo
a pobreza e a desigualdade, enquanto seus
na difusão da punição agressiva “made in USA”.
adversários políticos, como o Prefeito de Caracas,
Nos anos 1990, o Manhattan Institute encabeçou
partilham a ideia do Manhattan Institute de que
uma bem-sucedida campanha transatlântica para
os responsáveis pelos crimes são os criminosos,
alterar os parâmetros da conduta britânica em
e a missão de reprimi-los recai somente sobre as
relação à pobreza, ao welfare e ao crime. Uma
forças da ordem.
década depois, ele desenvolveu o Inter-American
Policy Exchange (IAPE), um programa concebido O Manhattan Institute traduz para o espanhol
para exportar suas estratégias favoritas de combate e para o português seus relatórios, resumos de
ao crime para a América Latina como parte de programas e os artigos dos meios de comunicação
um pacote de políticas neoliberais que que apoiam sua visão e distribui-os para
compreendia “distritos de melhoramento dos formadores de opinião em toda a América do Sul.
negócios”, reforma escolar por meio de Também leva grupos de funcionários latino-
comprovantes de despesas e contabilidade americanos à cidade de Nova York para visitas de
burocrática, redução do Estado e privatizações. campo, sessões de treinamento e doutrinação
Seus principais enviados foram ninguém menos intensiva sobre as virtudes do Estado mínimo (nos
que o próprio William Bratton, seu antigo assistente planos social e econômico) e da imposição severa
no Departamento de Polícia da cidade de Nova da lei (para os crimes da classe baixa). Esse
York William Andrews, e Geoge Kelling, o evangelismo “produziu uma geração inteira” de
celebrado co-inventor da teoria das “janelas políticos latino-americanos para os quais “o
quebradas”. Esses missionários da “lei e ordem” Instituto Manhattan é o equivalente de um Vaticano
viajaram para o Sul a fim de encontrar-se não só ideológico” (DEPALMA, 2002) e sua concepção
com chefes de polícia e prefeitos de grandes bifurcada do papel do Estado, sacrossanta: laissez-
cidades, mas também com governadores, faire e permissivismo no topo, hostilidade e
ministros e presidentes. Respaldados pelo incapacitação na base. Esses políticos mostram-
escritório permanente do IAPE em Santiago do se ansiosos em aplicar a imposição inflexível da
Chile, fizeram um trabalho de propaganda entre lei e o encarceramento ampliado para salvaguardar
institutos de consultoria de direita locais, braços as ruas e subjugar os tumultos que agitam suas
da Câmara Americana de Comércio no país, cidades, apesar da corrupção desbragada da
organizações comerciais e ricos patrocinadores, polícia, da falência processual de seus tribunais e
proferindo conferências, oferecendo consultoria da brutalidade perversa de cadeias e prisões em
política e até participando de comícios cívicos – seus países natais, os quais asseguram que
certa feita Kelling fez um notável discurso em estratégias de mano dura traduzam-se
Buenos Aires para cerca de 10 mil argentinos rotineiramente em medo crescente do crime, da
reunidos em Luna Park para protestar contra a violência e “detenção e punição extralegais para
escalada da criminalidade10 . Quando necessário, pequenos delitos, entre os quais a ocupação de
o IAPE ignora o nível nacional e trabalha com estilo militar e a punição coletiva de bairros
adversários regionais ou municipais do governo inteiros” (DAMMERT & MALONE, 2006)11 .
É interessante notar que o magnetismo da
9 Uma hábil dissecação da velha interseção entre a política punição ao estilo estadunidense e dos ganhos
externa dos Estados Unidos e normas e metas da Justiça políticos que ela promete é tamanho que líderes
Criminal é encontrada em Nadelmann (1994).
eleitos por toda a América Latina continuaram a
10 Os aliados do Manhattan Institute na América do Sul exigir respostas punitivas para os crimes de rua,
incluem o Instituto Liberal, a Fundação Victor Civita e a mesmo depois que partidos de esquerda
Fundação Getúlio Vargas no Brasil; o Instituto Libertad y ascenderam ao poder e transformaram a região
Desarrollo e a Fundación Paz Ciudadana no Chile e a
Fundación Libertad na Argentina. A fé cega na possibilidade
de passar diretamente a “tolerância zero”, apesar das 11 Para uma ilustração da situação no Brasil, ler Resende
vastas diferenças sociais, políticas e burocráticas entre os (1995) e assistir ao premiado filme de José Padilha, Tropa
dois continentes, é expressa por Bratton e Andrew (2001). de elite (2007).

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em um “epicentro de discordância com as ideias Washington” sobre a desregulação econômica e


liberais e de resistência ao domínio econômico e a retração do welfare estendeu-se para abranger,
político dos EUA” (HERSHBERG & ROSEN, de fato, o controle punitivo do crime em uma
2006, p. 432). Essa situação é bem exemplificada chave pornográfica e gerencialista, pois a “mão
pela assinatura solene, por Andrés Manuel López invisível” do mercado suscita o “punho de aço”
Obrador, o progressista Prefeito da Cidade do do Estado penal. A correspondência entre seus
México, de um contrato de US$ 4,5 milhões padrões geográficos e temporais de propagação
(pagos por um consórcio de empresários locais corrobora minha tese central de que o rápido
encabeçado pelo homem mais rico da América crescimento e a exaltação da polícia, dos tribunais
Latina, Carlos Slim Herú) com a firma de e das prisões nas sociedades do Primeiro e do
consultoria Giuliani Partners para aplicar sua Segundo Mundo nas duas últimas décadas são
poção mágica da “tolerância zero” à capital um elemento essencial da revolução neoliberal.
mexicana, apesar da óbvia inadequação de suas Onde quer que esses últimos avanços
medidas-padrão no nível do chão (LORPARD, desencadeiem-se, a desregulação do mercado de
2003)12 . Um exemplo: os esforços para eliminar trabalho de baixos salários exige a reforma
camelôs e flanelinhas (crianças, em sua maioria) restritiva do welfare para impor trabalho precário
mediante frequentes intervenções da polícia estão ao proletariado pós-industrial.
condenados ao fracasso, em razão de seus
Essas duas coisas, por sua vez, provocam a
números absolutos (dezenas de milhares) e do
ativação e a ampliação do braço penal do Estado:
papel central que eles desempenham na economia
em primeiro lugar, para reprimir e conter os
informal da cidade e, portanto, na reprodução de
deslocamentos urbanos causados pela difusão
famílias de classe baixa, cujo apoio eleitoral é
da insegurança social na base da hierarquia de
essencial para Obrador. Isso para não mencionar
classes e espacial; em segundo lugar, para
o fato de que a própria polícia mexicana está
restaurar a legitimidade de líderes políticos
profundamente envolvida em todo tipo de
desacreditados por sua aquiescência ou adesão
comércio informal, legal e ilegal, necessário para
à impotência do leviatã nas frentes social e
suplementar seus salários de fome. Mas isso não
econômica (WACQUANT, 2008c). A contrario,
importa. O que conta no México, como em
onde quer que a neoliberalização tenha sido
Marselha ou em Milão, é menos a adoção de
impedida nos campos do emprego e do welfare,
estratégias realistas para a redução do crime e
o impulso para a punição foi atenuado ou
mais a encenação da decisão das autoridades de
desviado, como indica, por exemplo, a obstinada
combatê-lo frontalmente, de modo a reafirmar,
surdez dos países nórdicos ao canto das sereias
de maneira ritual, o poder dos governantes.
da “tolerância zero” (apesar de seu maior zelo
A reação internacional a Prisões da miséria e em punir infrações associadas a drogas e a
os desdobramentos na Justiça Criminal ao longo direção alcoolizada durante a década de 2000) 14
da década de 2000 em países tão diferentes e a estagnação ou os modestos aumentos de suas
quanto a Suécia, a França, a Espanha e o México populações carcerárias, ainda que a preocupação
confirmaram não só que a “brattonmania” tornou- ou a angústia nacional associada à criminalidade
se (quase) global, mas também que a disseminação tenha aumentado.
da “tolerância zero” faz parte de um tráfego
IV. O QUE AS VIAGENS E OS ESFORÇOS DA
internacional mais amplo de fórmulas políticas que
PENALIDADE NEOLIBERAL TÊM A
une o império do mercado, a redução dos gastos
ENSINAR
sociais e a ampliação penal13 . O “Consenso de
Assim, o que As prisões da miséria propõem
é que suplementemos, ou mesmo suplantemos,
12 Um breve relato do “furacão de 36 horas por ruas
sórdidas e apartamentos elegantes” na Cidade do México 14 Um indicador: em toda uma década de publicação do
“pelo consultor mais bem pago do mundo no quesito
Journal of Scandinavian Studies in Criminology and Crime
combate ao crime” é oferecido por Weiner (2003).
Prevention, não há uma referência sequer a William Bratton
13 Para exemplos, ver Tham (2001) para a Suécia, Medina- ou a Rudolph Giuliani e somente 11 menções a “tolerância
Ariza (2006) para a Espanha, Davis (2007) para o México zero”. Isso deixa bem clara a inaplicabilidade do conceito
e Mucchielli (2008b) para a França. ao ambiente nórdico.

13
A TEMPESTADE GLOBAL DA LEI E ORDEM

os modelos evolucionários que dominaram os campanha de propaganda ideológica em múltiplos


debates teóricos recentes sobre mudança penal níveis através de fronteiras nacionais em
em sociedades avançadas com uma análise assuntos de capital, mão de obra, welfare e
descontinuísta e difusionista que rastreie a imposição da lei. Embora o neoliberalismo seja,
circulação de discursos, normas e políticas desde sua geração, uma formação que ocorre
punitivas elaborados nos Estados Unidos como em múltiplos lugares, policêntrica e
ingredientes constitutivos do governo neoliberal geografica mente irregular (PECK &
da desigualdade social e da marginalidade urbana. THEODORE, 2007), na virada do século essa
campanha para reformar o nexo triádico de
Na visão da “sociedade exclusiva”, proposta
Estado, mercado e cidadania a partir de cima
por Jock Young, e na descrição da “cultura do
teve um centro nervoso localizado nos Estados
controle”, feita por David Garland, bem como
Unidos, um anel interno de países colaboradores
nas mais recentes concepções elia siana s,
atuando como estações de retransmissão (como
neodurkheimianas e neofoucaultianas da
o Reino Unido, na Europa Ocidental, e o Chile,
penalidade (YOUNG, 1999; 2007; GARLAND,
na América do Sul) e uma faixa externa de
2001; PRATT, 2002; BOUTELLIER, 2004;
sociedades escolhidas como alvos de infiltração
O’MALLEY, 1998; SIMON, 2007), as mudanças
e conquista.
contemporâneas na reconfiguração política do
crime e da punição resultam da chegada a um Pode-se expor o contraste teórico entre a visão
estágio social – modernidade tardia, pós- da mudança penal propostas por advogados da
modernidade e sociedade de risco – e despontam, transição para a modernidade tardia ou pós-
de maneira endógena, em resposta ao aumento modernidade e o modelo esboçado em Prisões da
da insegurança criminal e suas reverberações miséria. Para o primeiro modelo, a ascensão da
culturais por todo o espaço social. No modelo punitividade é uma formação cultural que expressa
delineado em Prisões da miséria (e revisado em os dilemas da sociedade que responde a tendências
publicações subseqüentes), a virada punitiva da e padrões criminais; para o segundo, a restrição
política pública, aplicando-se tanto ao welfare simultânea do Estado do Bem-estar e a expansão
quanto à Justiça Criminal, faz parte de um da prisão marcam um desvio do gerenciamento
projeto político que responde à crescente social para o gerenciamento penal da marginalidade
insegurança social e a seus efeitos urbana. Ela é parte e parcela da refeitura do Estado
desestabilizadores nos degraus mais baixos da para alimentar a desregulamentação econômica e
ordem social e espacial. restringir as conseqüências da difusão da
insegurança social na base das dimensões de
Esse projeto envolve a reorganização e a
classe, etnicidade e lugar. Há áreas de
realocação do Estado para reforçar mecanismos
superposição entre essas duas abordagens,
semelhantes ao mercado e disciplinar o novo
particularmente na sua rejeição comum a
proletariado pós-industrial, restringindo, ao
perspectivas criminológicas estreitamente focadas
mesmo tempo, os distúrbios internos gerados pela
no par crime-punição, no seu desejo de unir
fragmentação da mão de obra, a redução dos
punição a aspectos mais amplos das sociedades
esquemas de proteção social e a reorganização
contemporâneas e na sua preocupação com a
correlata da hierarquia étnica estabelecida (etno-
dimensão cultural da penalidade. Não obstante, é
racial nos Estados Unidos, etnonacional na Europa
importante enfatizar suas divergências, em
Ocidental e uma mistura das duas na América
particular no papel que atribuem à questão da
Latina) (WACQUANT, 2010b) 15 . Mas a
pobreza, da hegemonia internacional e dos
fabricação do novo leviatã também registra as
operadores transnacionais na restauração do
influências externas de operadores políticos e
discurso penal e ação no limiar do novo século.
empreendedores intelectuais, envolvidos em uma

15 Ver também as respostas a esse ensaio dadas por


Campbell (2010), Harcourt (2010), Mayer (2010), Peck
(2010), Piven (2010) e Valverde (2010).

14
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 7-20 FEV. 2012

QUADRO 1 – COMPARAÇÃO ENTRE AS VISÕES SOBRE A MUDANÇA PENAL

Endógena

FONTE: o autor.

Com poucas e preciosas exceções, os reconhecimento de culpa e sentenças mínimas


estudiosos estadunidenses da punição ignoraram obrigatórias, registros de infratores sexuais e a
as ramificações externas dos esquemas de polícia, transferência de jovens para a justiça adulta – é a
justiça e encarceramento, forjados pelos Estados chave para elucidar as análises e a política da
Unidos em reação à desintegração do contrato penalidade neoliberal.
fordisto-keynesiano e ao colapso do gueto negro,
Em primeiro lugar, ela revela as conexões
quando não as negaram17 . No entanto, ajustar
diretas entre desregulação de mercado, redução do
contas com essa disseminação através de
welfare e expansão penal, colocando em foco sua
fronteiras – que trouxe para as costas europeias
difusão conjunta ou sequencial de um país para
não somente o policiamento com tolerância zero
outro. É revelador, por exemplo, que o Reino Unido
mas também toques de recolher noturnos e
tenha adotado em primeiro lugar a política de gestão
monitoramento eletrônico, programas de curta
flexível da mão de obra e em seguida o projeto de
duração, de inspiração militar, para adolescentes
workfare compulsório lançado pelos Estados
problemáticos e “encarceramento de choque” pré-
Unidos, antes de importar deles o vocabulário
julgamento, redução de pena em troca de
agressivo de controle do crime e programas
adequados para dramatizar o renascido rigor moral
16 “Prisonfare” é um termo introduzido pelo autor em e a severidade penal das autoridades (KING &
analogia a workfare para designar programas de WICKHAM-JONES, 1999; PECK & THEODORE,
penalização da pobreza via direcionamento preferencial e 2001; JONES & NEWBURN, 2002).
emprego ativo da polícia, dos tribunais e das prisões (bem
como suas extensões: liberdade vigiada, liberdade
Em segundo lugar, rastrear a circulação
condicional, bases de dados de criminosos e sistemas internacional das fórmulas penais dos Estados
variados de vigilância), no interior e nas proximidades dos Unidos ajuda-nos a evitar a armadilha conceitual
bairros marginalizados em que se aglomera o proletariado da excepcionalidade estadunidense, bem como
pós-industrial (N. T.). investigações nebulosas sobre a “modernidade
17 No momento mesmo em que a difusão transatlântica tardia”, já que aponta para os mecanismos que
das categorias e políticas penais estadunidesens estava no impulsionam o crescimento do Estado penal – ou,
auge, Tonry escreveu que “os Estados Unidos, em em alguns casos, para os obstáculos e vetores
particular, não são nem importadores bem-sucedidos nem que resistem a ele – em um espectro de sociedades
exportadores influentes” das medidas de combate ao crime,
sujeitas ao mesmo tropismo político-econômico.
afirmando que “os países da Europa Ocidental imitam
ativamente inovações à primeira vista bem-sucedidas de Convida-nos a visualizar a ascensão do Estado
outras partes da Europa, mas parecem quase totalmente penal nos Estados Unidos não como um caso
impermeáveis à influência estadunidense” (TONRY, 2001, idiossincrático, mas como um caso
p. 519). Um panorama amplo de estudos recentes das particularmente virulento, em razão de um grande
Ciências Sociais sobre o “Estado carcerário” nos Estados número de fatores que se combinam para facilitar,
Unidos é sintomaticamente mudo a respeito das
acelerar e intensificar a contenção punitiva da
ramificações externas dos desdobramentos estadunidenses
(GOTTSCHALK, 2008). insegurança social naquela sociedade, entre os

15
A TEMPESTADE GLOBAL DA LEI E ORDEM

quais a fragmentação do campo burocrático, a encarceramento? É exatamente porque esses


força do individualismo moral que sustenta o países foram menos longe na estrada da
princípio mântrico da “responsabilidade retroativa desregulação econômica, da disparidade de classe
individual”, a degradação generalizada da mão de e de empobrecimento urbano ou porque eles estão
obra, os níveis excepcionalmente elevados de ficando para trás na transição da supervisão social
segregação tanto de classe quanto étnica, e a para a supervisão penal da pobreza? Ou exercitam
proeminência e a rigidez da divisão racial que faz combinações específicas de controle social
dos negros da classe baixa e moradores nas áreas próximo, valores culturais, organização
centrais degradadas das grandes cidades alvos burocrática, autoridade de expertos e
propícios para campanhas convergentes de compromisso cívico com a inclusão que os
redução do welfare e de escalada penal capacitam a repelir pressões para um
(WACQUANT, 2010a; 2011). encarceramento mais elevado, mesmo quando
suas políticas penais tornam-se mais diligentes e
Finalmente, há uma relação circular entre
severas e afastam-se da reabilitação, como
inovação e imitação policial em nível local
ilustrado pela trajetória recente do Japão
(municipal ou regional), nacional e internacional,
(JOHNSON, 2007)19 ?
de tal modo que a pesquisa da globalização da
“tolerância zero” e da ideia da eficácia prisional Como primeiro estudo com dimensão de livro
fornece um ca minho proveitoso para a sobre a difusão transnacional da penalidade ao
dissecação dos processos de seleção e tradução estilo estadunidense no fim do século XX, As
de noções e medidas penais através de jurisdições prisões da miséria antecipou o florescimento do
e níveis de governo que, em geral, passam campo da “transferência de políticas” de polícia
despercebidos ou ficam sem análise dentro de e justiça (cf., em particular, NEWBURN &
um dado país. Ela proporciona novas revelações SPARKS, 2004; ANDREAS & NADELMANN,
sobre a fabricação da vulgata neoliberal reinante, 2006; JONES & NEWBURN, 2006; MUNCIE &
que transformou debates políticos em toda parte, GOLDSON, 2006). Como tal, é uma contribuição
por meio da difusão planetária dos conceitos e indireta para a pesquisa sobre a globalização do
das preocupações populares dos formuladores crime e da justiça do ponto de vista da punição,
de políticas e estudiosos estadunidenses. Ao mas uma contribuição que segue na direção
exportar suas teorias e políticas penais, os contrária dos estudos da globalização feitos até
Estados Unidos instituem-se como o barômetro hoje, uma vez que insiste em que o que parece
do controle sério do crime no mundo todo e um movimento cego e benigno rumo à
legitimam efetivamente sua visão da imposição convergência planetária, supostamente fomentado
da lei mediante a universalização de suas pela unificação tecnológica e cultural da sociedade
particularidades18 . mundial, é na verdade um processo estratificado
de americanização diferencial e difratada,
A contrario, o rastreamento da difusão que
promovido pelas atividades estratégicas de redes
cruza as fronteiras das fórmulas e medidas penais
hierárquicas de governantes, empreendedores
made in USA levanta de uma forma aguda a
ideológicos e marqueteiros acadêmicos nos
questão das bases sociais e culturais de
Estados Unidos e nos países receptores. É
resistência política à punitividade: como a
também um apelo para que os estudiosos da
Alemanha e a Escandinávia, na Euorpa Ocidental,
migração de políticas no cenário mundial
o Canadá, na América do Norte, e o Japão, na
introduzam o domínio penal em seu campo, lado
Ásia Oriental, conseguiram permanecer
a lado com políticas econômicas e de welfare, e
impermeáveis ou reticentes à conclamação pela
prestem atenção ao papel determinante exercido
intensificação da punição e pela expansão do

18 Não é por acaso que os Estados Unidos exportaram, 19 Entre os títulos de uma literatura pouco numerosa,
simultaneamente, suas noções populares – e as políticas a mas que cresce rapidamente, sobre divergência e
elas relacionadas – de crime com o “tolerância zero”, de diverificação penais em sociedades avançadas, cf.
pobreza com a lenda da “subclasse” e de raça definida por Oberwittler e Höfer (2005), Cavadino e Dignan (2006),
(hipo)descendência (ver BOURDIEU & WACQUANT, Doob e Webster (2006), Lacey (2008) e Pratt (2008a;
1999). 2008b).

16
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 7-20 FEV. 2012

por institutos de consultoria e disciplinas e cursos entre neoliberalismo e penalidade punitiva esboçado
heteronômicos nas peregrinações internacionais em As prisões da miséria.
de fórmulas de políticas públicas20 .
Essa foi a tarefa empreendida em Punir os
As viagens de As prisões da miséria através de pobres: a nova gestão da miséria nos Estados
fronteiras nacionais, como o impetuoso movimento Unidos (WACQUANT, 2009b). Esse livro rompe
da onda punitiva que o livro segue no mundo todo, os parâmetros usuais da economia política da
ensinaram-me que a difusão da penalidade neoliberal punição, trazendo seus desdobramentos no
está não apenas mais avançada, como também é welfare e na justiça criminal para uma única
mais diversificada e complexa do que a retratada moldura teórica igualmente atenta ao instrumental
no livro. Assim como há variedades de capitalismo, e aos momentos expressivos da política pública.
há muitos caminhos rumo ao império do mercado Ele utiliza o conceito de Pierre Bourdieu de “campo
e, portanto, muitas vias possíveis para a punição burocrático” para mostrar que as mudanças em
da pobreza. A própria punição assume u’a políticas sociais e penais em sociedades avançadas
multiplicidade de formas, não se limitando ao no último quartel de século estão mutuamente
encarceramento: ela infiltra-se por meio dos vinculadas (BOURDIEU, 1994); que o workfare
diferentes setores da polícia, da Justiça e dos mesquinho e o prisonfare generoso constituem
aparatos carcerários, com efeitos variáveis; estende- uma única geringonça organizacional para
se por domínios da política, intrometendo-se na disciplinar e supervisionar os pobres sob uma
provisão de outros bens públicos como serviços filosofia de comportamentalismo moral e que um
médicos, assistência à infância e habitação; em geral sistema penal expansivo e dispendioso não é uma
desperta reticências, muitas vezes encontra consequência do neoliberalismo, como afirmado
resistências e por vezes provoca vigorosos contra- em Prisões da miséria, mas um componente
ataques21. Além disso, o material e os componentes essencial do próprio Estado neoliberal. O fato é
discursivos da política penal podem ficar que os esforços contemporâneos da penalidade
dissociados e viajar separadamente, levando a fazem parte de uma reengenharia e de uma
acentuar, de maneira hiperbólica, a missão remasculinização mais ampla do Estado que
simbólica da punição como veículo para categorizar tornou obsoleta a separação acadêmica e política
e estabelecer fronteiras. Tudo isso exige que se convencional entre welfare e crime. A polícia, os
corrija e aperfeiçoe-se o modelo rudimentar do nexo tribunais e a prisão não são meros implementos
técnicos mediante os quais as autoridades reagem
ao crime – como quer a visão de senso comum
20 Uma respeitada revisão das pesquisas sociais sobre a
cultuada pelo Direito e pela Criminologia –, mas
difusão transnacional de políticas públicas não faz capacidades políticas essenciais por meio das
referência alguma a crime e punição e contém uma única
quais o leviatã produz e, ao mesmo tempo, gera a
menção aos institutos de consultoria (DOBBIN,
SIMMONS & GARRETT, 2007). desigualdade, a marginalidade e a identidade. Isso
21 Essa mistura, evidenciada em uma descrição provocativa
ilumina a necessidade de desenvolver uma
Sociologia Política do retorno do Estado penal ao
das influências estadunidenses e internacionais nas
tendências recentes à “repunição” do crime juvenil e das primeiro plano do palco histórico no início do
reações que elas suscitam, é apresentada por Muncie século XXI, um projeto para o qual As prisões da
(2008). miséria é tanto um prelúdio quanto um convite.

Loïc Wacquant (loic@uclink4.berkeley.edu) é professor de Sociologia na Universidade da Califórnia


(campus de Berkeley) (Estados Unidos) e pesquisador no Centre Européen de Sociologie et de Science
Politique (França).

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 255-260 FEV. 2012
ABSTRACTS

THE GLOBAL FIRESTORM OF LAW AND ORDER: ON PUNISHMENT AND


NEOLIBERALISM
Loïc Wacquant
This article reflects on the international reception of the book Prisons of Poverty as revelator of
penal developments in advanced societies over the past decade. It shows that the global firestorm of
“law and order” inspired by the United States that the book detected in 1999 has continued to rage
far and wide. Indeed, it has extended from First- to Second-World countries and has altered punishment
politics and policies around the globe in ways that no one foresaw and would have thought possible
some 15 years ago. It extends the analysis of the role of think tanks (especially the Manhattan
Institute) in the diffusion of US-style crime-fighting notions and nostrums in Latin America as one
element of the international circulation of pro-market policy packages fostering the punitive
management of poverty. It elaborates and revises the original model of the link between neoliberalism
and punitive penality, leading to the analysis of state-crafting in the age of social insecurity developed
in the book Punishing the Poor.
KEYWORDS: Criminal Justice; Zero Tolerance; Think Tanks; Penal State; Policy Transfer;
Neoliberalism; Globalization.
* * *
THE PROBLEM OF POLITICAL PARTICIPATION WITHIN THE DELIBERATIVE MODEL
OF DEMOCRACY
Francisco Paulo Jamil Almeida Marques
This paper discusses the premises of the deliberative model of democracy as they address the issue
of political participation. We attempt to clarify what political participation means for those who use
this model, while at the same time looking at some of the major critiques that have been directed
toward it. Through a review of an important part of the literature, and without losing sight of earlier
systematizations of democratic theory, three fundamental conditions for engendering participation
according to this discursive model are pointed to: political institutions should create and offer citizens
opportunities to participate in public input; improvement in people’s socio-economic condition must
be made; attention should be given to particular principles that have consistent regulatory influence
on the interactions and arguments in question. This is followed by attention to the criticisms raised
and flaws detected by deliberationism’s detractors. At the end of the text, a summary of the strengths
and weaknesses of the model is presented, along with a discussion of the problem of participation in
contemporary democracies.
KEYWORDS: Participation; Deliberation; Democracy; Representation.
* * *
CONVERGENCE AND CONTROVERSY ON INSTITUTIONAL CHANGE: TRADITIONAL
MODELS IN COMPARATIVE PERSPECTIVE
Flávio da Cunha Rezende
At present there is a paucity of work that seeks to clarify what a neo-institutional theory of change
is and what the fundamental elements to compare, evaluate and construct such a theory would be.
The present paper proposes reflections on this issue. We carry out comparative analysis of four neo-
institutionalist theories of social change. We present points of convergence and controversy regarding
the problem of endogeneity, the role of formal and informal institutions, typical explanatory patterns,
causal mechanisms and the causal modes that typify different neo-institutional models. Our main
goal is to understand how these four traditional approaches to change respond to the challenge to

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