Você está na página 1de 141

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Ciências Sociais


Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Thársyla Glessa Lacerda da Cunha

A imprensa como instrumento político: uma análise sobre a atuação


dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora no segundo governo de
Getúlio Vargas (1951-1954)

Rio de Janeiro
2017
Thársyla Glessa Lacerda da Cunha

A imprensa como instrumento político: uma análise sobre a atuação dos jornais
Tribuna da Imprensa e Última Hora no segundo governo de Getúlio Vargas
(1951-1954)

Dissertação apresentada, como requisito


parcial para obtenção do título de Mestre,
ao Programa de Pós-Graduação em
História, da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro. Área de concentração: História
Política.

Orientação: Prof. Dr. Oswaldo Munteal Filho.

Rio de Janeiro
2017
CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUS/CCSA

V297 Cunha, Thársyla Glessa Lacerda da.


A imprensa como instrumento político: uma análise sobre a
atuação dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora no
segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954) / Thársyla
Glessa Lacerda da Cunha. – 2017.
140 f.

Orientador: Oswaldo Munteal Filho.


Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Bibliografia.

1. Vargas, Getúlio, 1883-1954. 2. Imprensa e política –


Brasil – História – Teses. 3. Jornalismo – Aspectos políticos –
Brasil – Teses. 4. Brasil – Política e governo – 1951-1954 –
Teses. I. Munteal Filho, Oswaldo, 1964-. II. Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas. III. Título.

CDU 981”1951/1954”

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação, desde que
citada a fonte

___________________________ _________________________
Assinatura Data
Thársyla Glessa Lacerda da Cunha

A imprensa como instrumento político: uma análise sobre a atuação dos jornais
Tribuna da Imprensa e Última Hora no segundo governo de Getúlio Vargas
(1951-1954)

Dissertação apresentada, como requisito


parcial para obtenção do título de Mestre,
ao Programa de Pós-Graduação em História
da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro. Área de concentração: História
Política.

Aprovada em 15 de março de 2017.


Banca Examinadora:

________________________________________________
Prof. Dr. Oswaldo Munteal Filho (Orientador)
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - UERJ
________________________________________________
Prof.ª Dra. Tania Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - UERJ
________________________________________________
Prof.ª Dra. Jöelle Rachel Rouchou
Fundação Casa de Rui Barbosa

Rio de Janeiro
2017
RESUMO

CUNHA, Thársyla Glessa Lacerda da. A imprensa como instrumento político: uma
análise sobre a atuação dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora no segundo
governo de Getúlio Vargas (1951-1954). 2017. 140 f. Dissertação (Mestrado em
História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade do Estado do Rio
de Janeiro, 2017.

A proposta desta dissertação é abordar a imprensa como um instrumento


político, verificando sua capacidade de atuar no campo histórico. Partimos da
perspectiva de que ela não é apenas um reflexo da sociedade, mas agente dos
acontecimentos, interferindo na forma como os mesmos serão observados pela
sociedade. Essa abordagem é feita, através da análise da atuação dos jornais Tribuna da
Imprensa e Última Hora durante o segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954).
Levamos em consideração o contexto da criação destes periódicos, verificando as
aspirações de seus fundadores para com eles. Junto a isso, fazemos um breve estudo
sobre o segundo governo de Vargas, identificando as principais dificuldades enfrentadas
por ele naquele período. Considerando as questões mencionadas, analisamos as capas
dos periódicos abordados, referentes ao mês de agosto de 1954, período em que as
dificuldades aumentaram para o presidente, principalmente após o Atentado da Rua
Toneleros, contra a vida de Carlos Lacerda. Através da comparação entre suas
publicações, podemos notar de que modo os discursos e interesses, defendidos por esses
periódicos, influenciaram diretamente nos rumos políticos do país, contribuindo para
um desfecho conturbado, com o suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 1954.

Palavras-chave: Imprensa. Getúlio Vargas. Tribuna da Imprensa . Última Hora


ABSTRACT

CUNHA, Thársyla Glessa Lacerda da. A imprensa como instrumento político: uma
análise sobre a atuação dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora no segundo
governo de Getúlio Vargas (1951-1954). 2017. 140 f. Dissertação (Mestrado em
História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade do Estado do Rio
de Janeiro, 2017.

The purpose of this dissertation is to approach the press as a political instrument,


verifying its capacity to act in the historical field. We start from the perspective that it is
not only a reflection of society, but also an agent of events, interfering with how they
will be observed by society. This approach is made through the analysis of the
newspaper Tribuna da Imprensa and Última Hora during the second Getulio Vargas
government (1951-1954). We take into account the context of the creation of these
periodicals, verifying the aspirations of their founders towards them. Therefore, we
make a brief study of Vargas's second government, identifying the main difficulties
faced by him in that period. Considering the above issues, we analyzed the covers of the
periodicals covered, referring to the month of August, 1954, when the difficulties
increased for the president, especially after the Toneleros Street Attack, against the life
of Carlos Lacerda. Through the comparison among their publications, we can see how
the discourses and interests defended by these periodicals directly influenced the
political course of the country, contributing to a troubled outcome, with the suicide of
Vargas, on August 24, 1954.

Keywords: Press . Getúlio Vargas . Tribuna da Imprensa . Última Hora


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 8
1 DE 1945 A 1950: TRANSIÇÃO PARA UM NOVO MOMENTO
POLÍTICO NO BRASIL ................................................................................................. 11
1.1 Imprensa, História e Política: novas perspectivas.................................................. 13
1.2 1950: novos destaques na imprensa .............................................................................. 20
1.3 De volta ao Catete! .............................................................................................................. 26
1.4 Tribuna da Imprensa e Última Hora: uma rivalidade da política
da política ............................................................................................................................... 36
2 UMA CRISE ANUNCIADA ........................................................................................... 49
2.1 A CPI da Última Hora ........................................................................................................ 59
2.2 1954: um ano decisivo ......................................................................................................... 71
2 UM MÊS DE DESGOSTO .............................................................................................. 78
3.1 A “gota d’água” .................................................................................................................... 82
3.2 Caçada aos assassinos! ....................................................................................................... 90
3.3 Apelo à Renúncia............................................................................................................... 104
3.4 A vitória disfarçada de derrota ................................................................................... 115
CONCLUSÃO .................................................................................................................... 128
REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 132
ANEXO ................................................................................................................................ 140
8

INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo entender o papel político da imprensa,


analisando sua capacidade de atuar no campo histórico. Será destacada a ideia de que
ela não é apenas um reflexo da sociedade, mas possui impacto na construção dos
acontecimentos, onde o que é apresentado pelos meios de comunicação, interfere na
forma como os acontecimentos políticos são vistos pela sociedade.
É necessário que o historiador tenha como compromisso se remeter às
experiências passadas partindo de questionamentos de sua época, uma vez que ele é
1
fruto de seu tempo. Michel de Certeau nos mostra isso ao dizer que o historiador fala
de um lugar social, ou seja, um tempo e um espaço em que ele próprio se insere que
reflete na forma como olha para seu objeto.
Dessa forma, a necessidade de estudar a imprensa e seu papel político parte de
uma ideia de que o discurso emitido pela imprensa muitas vezes é visto como verdade.
A ideia da objetividade da imprensa é muito presente de modo que, a população é
levada a optar por determinados caminhos e projetos para o país.
Para tal percepção, será feito aqui, um estudo de um momento importante da
História do Brasil, em que se vê a imprensa envolvida diretamente em seu processo.
Será analisada a atuação dos jornais Tribuna da imprensa e Última Hora, durante o
segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), mostrando que o embate entre eles
contribuiu para o desfecho político conturbado no ano de 1954, em que “uma briga de
2
imprensa matou um presidente da República, fato inédito na História do Brasil.”
O início da década de 1950 é marcado por momentos relevantes para a política
brasileira. A começar pela volta de Getulio Vargas à Presidência da República, que
despertou satisfação da população, a classe trabalhadora que o apoiava, mas que por
outro lado, despertou também a ira dos setores da elite conservadora, interessada numa
política liberal, contrários à política de amplo controle estatal promovida por Vargas.
A oposição estava presente, principalmente, através da União Democrática
Nacional (UDN), partido que corroborou em grande parte para sua deposição em 1945 e

1
CERTEAU, Michel. “A operação Historiográfica”. In: A escrita da História. Rio de Janeiro: Forense-
Universitária, 1982, p. 65-119.
2
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. “Batalhas em letras de forma: Chatô, Wainer e Lacerda.” In:
MARTINS, Ana Luiza; LUCA, Tania Regina. História da imprensa no Brasil. São Paulo:Contexto,2008
9

se dedicou em afastar Vargas de seu novo mandato. A ação opositora também foi
realizada de maneira bastante eficiente através da imprensa, o que se tornou uma
dificuldade para o presidente.
Ressaltamos que, durante seu primeiro mandato, especificamente no período do
Estado Novo (1937-1945), Vargas governou de forma autoritária, contando com total
controle dos meios de comunicação, que através do Departamento de Imprensa e
Propaganda (DIP), passaram a censurar toda propagação contrária ao governo e a
exaltar o presidente e seus feitos, o que foi, em grande parte, responsável pela alta
popularidade que alcançou. Devido a isso, ele se viu diante de grande dificuldade, em
seu segundo mandato, ao se deparar com uma imprensa livre e engajada em exercer
oposição, como no caso da Tribuna da Imprensa. Diante dessa situação, buscou uma
tentativa de reação, através do jornal Última Hora que exerceu o papel de ponto de
apoio, no que se referia ao campo midiático.
O segundo governo de Vargas foi marcado pela instabilidade. A falta de apoio
por parte dos partidos permitiu que a oposição ganhasse bastante espaço para alcançar
seus interesses. Além disso, o governo passava também por dificuldades econômicas
desde seu início, geradas principalmente pelo descontrole da inflação e pela necessidade
de reestabelecer o crescimento econômico.
Dentro desse cenário, é importante considerar a importância do momento vivido
pela imprensa naquele período. Era uma época de inovações na forma de produzir o
jornalismo, havia profissionalismo, técnicas mais modernas, principalmente inspiradas
no modelo de jornalismo norte-americano, que buscava maior objetividade da notícia
em detrimento do jornalismo tradicional baseado no discurso emotivo, pautado na
opinião. Assim, entender o momento de modernização da imprensa brasileira na década
de 1950, relacionando esse processo à sua atuação política que influenciou diretamente
o governo de Vargas é fundamental em nossa pesquisa, no que se refere ao
entendimento da imprensa como um instrumento político.
Para desenvolvimento de nosso tema, no primeiro capítulo, faremos uma
reflexão sobre o papel político da imprensa, levando em consideração seu papel como
construtora dos acontecimentos. Ainda será observado como a historiografia vem
abordando o estudo da imprensa nos últimos anos, destacando a relevância deste tema
para a mesma. Apresentaremos o contexto em que se insere a imprensa brasileira na
10

década de 1950, destacando o momento de transição pelo qual ela passava, no sentido
de estar se baseando em novas formas de produzir o jornalismo. Dentro desse contexto,
será abordada a criação dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora, entendendo os
interesses de seus donos, Carlos Lacerda e Samuel Wainer, respectivamente, para com
eles. Abordaremos, também, o contexto das eleições de 1950, destacando os processos
que conduziram Vargas à vitória.
No segundo capítulo será realizada uma análise referente às propostas de Vargas
para seu segundo mandato, bem como as dificuldades enfrentadas por ele para realizá-
las. Neste capítulo enfatizaremos as relações entre ele e seus opositores, direcionando
maior observação ao papel exercido pela UDN no Congresso Nacional contra o
governo, principalmente no episódio da CPI da Última Hora (1953), em que a oposição
buscou atingir o presidente através de acusações ao jornal que lhe era favorável. O
objetivo deste capítulo será considerar a conjuntura em que Vargas governava, para
entender em que se baseavam as críticas feitas a ele no jornal de Lacerda.
No terceiro capítulo haverá um enfoque no mês de agosto de 1954, momento
mais intenso da crise vivida naquele ano. Através da análise comparativa das capas dos
jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora, será mostrado como eles estavam se
posicionando diante da crise apresentada. Neste contexto será dada atenção específica
aos dois fatos mais impactantes do mês de agosto, que são o atentado da Rua Toneleros,
realizado contra a vida de Lacerda e o suicídio do Vargas. O estudo das manchetes dos
jornais neste período nos possibilitará relacionar estes dois fatos ao contexto
apresentado, mostrando a imprensa como fator fundamental para o fim antecipado do
governo de Vargas.
Finalmente, analisaremos a repercussão causada pelo suicídio de Vargas e como
os veículos de imprensa aqui abordados lidaram com essa situação, bem como observar
os rumos que o país tomaria até as eleições, no fim de 1954.
11

1 DE 1945 A 1950: TRANSIÇÃO PARA UM NOVO MOMENTO POLÍTICO


NO BRASIL

Em 1945, Vargas viu o Estado Novo ruir, em outubro, com sua deposição. No
entanto, apesar do fim do governo, sua influência na política ainda era relevante. Tal
influência é perceptível quando observamos que os partidos políticos criados nesse
contexto estão intimamente ligados a ele: o Partido Social Democrático (PSD), o
Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e a União Democrática Nacional (UDN). Estes
foram fundamentais para as eleições de 1950, bem como para as principais articulações
políticas até 1964.
O PSD foi fundado em 17 de Julho de 1945. Sua formação começou a ser
articulada nos estados, através de lideranças regionais, como interventores, prefeitos,
além de proprietários rurais, industriais, comerciantes, entre outros. Todos fundadores
do partido eram pessoas que haviam colaborado com a administração do Estado Novo,
3
em sua maioria advogados, militares e industriais.
O PTB teve sua fundação, em 15 de maio de 1945, articulada dentro do
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e por toda estrutura do movimento
sindical. Reunia basicamente operários urbanos e sindicatos. Não possuía grandes
lideranças políticas nacionais ou estaduais, não se firmando como forte máquina
4
partidária. Segundo Ângela de Castro Gomes , o partido nasceu sob a sombra do
carisma de Vargas e cresceu tendo-o como sua própria face, por conta disso, o partido
teve maior abrangência no Rio Grande do Sul, sua terra natal, enquanto que suas bases
sindicais, em outras regiões do país, como o nordeste, eram bastante debilitadas.
5
Através da liderança do PTB, Vargas promovia a filosofia política do trabalhismo.
Segundo Marcelo Bodea, a missão do PTB seria “garantir a continuidade das conquistas
de 1930, principalmente a legislação trabalhista, que Vargas e seus seguidores
6
acreditavam ameaçadas pelas forças políticas liberais-conservadoras”.

3
http://www.tse.jus.br/hotSites/registro_partidário/.
4
GOMES, Angela de castro. “Trabalhismo e democracia: o PTB sem Vargas”. In: _____. Vargas e a
crise dos anos 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.p. 133-160.
5
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. 1930-1945. 14ª edição, Rio de
janeiro - Paz e Terra, 2007.
6
Apud RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio
de Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. p. 246.
12

Outro partido, criado sob sua presença, foi a UDN, porém não devido à
proximidade, mas por se opor ferrenhamente a ele:

O grande movimento de oposição, surgiu oficialmente, em 7 de abril de


1945. Com o nome de União Democrática Nacional (UDN), o partido, nesse
momento, abrigava diversos grupos políticos heterogêneos que nem sempre
7
afinados ideologicamente, mas unidos pelo mesmo rancor a Vargas.

Este partido se tornou importante “personagem” no cenário que aqui é analisado,


contribuindo em grande parte, para o desenrolar dos acontecimentos que culminaram na
crise de agosto de 1954. “Surgiu como um movimento, ampla frente de oposição,
8
reunião de antigos partidos estaduais e aliança política entre novos parceiros”. O
partido tinha como suas bases principais de luta política, o antigetulismo e o
anticomunismo e defendia as liberdades democráticas. Sua existência foi marcada pela
retórica que caracterizava o partido, por influência de seus bacharéis e resumia o horror
a Vargas.
9
Segundo Benevides , a UDN era um partido heterogêneo, composto por grupos
que em comum, tinham apenas a rivalidade com Vargas. Dessa forma, podemos
considerar cinco categorias que formavam este partido: As oligarquias que tiveram seu
poder diminuído com a Revolução de 1930; os aliados que foram marginalizados após
1930 ou em 1937; os aliados que romperam durante o Estado Novo; os liberais que
possuíam forte apelo regional e as esquerdas, que também não representava um grupo
coeso.
Vargas chegou a avaliar o PSD e a UDN como grupos diferentes, mas que
significam a mesma coisa. “Tinham a mesma substância política, social e econômica,
são os expoentes da democracia burguesa, a velha democracia liberal que afirma a
10
liberdade política e nega a igualdade social”. Diferente dessa tendência estava o PTB.
A sua influência sobre os partidos recém-criados, naquele momento, também
pôde ser observada no resultado das eleições daquele ano, com a vitória do General
Eurico Gaspar Dutra, do PSD, ou seja, mesmo sendo deposto a sua imagem diante da

7
FERREIRA, Jorge. O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-1964. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 34)
8
BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. A UDN e o udenismo: ambiguidades do liberalismo
brasileiro (1945-1964). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. (coleção Estudos Brasileiros vol. 51). p. 23
9
Ibidem.
10
Apud RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio
de Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001.p. 248
13

população ainda era muito relevante, de modo que seu sucessor não foi alguém da
oposição como esperava a UDN, mas alguém que partiu de suas ligações políticas. Ao
deixar a presidência Vargas não se afastou da política, se refugiou em sua terra natal,
São Borja, assumindo o cargo de senador pelo Rio Grande do Sul, de onde articularia
11
mais tarde sua volta ao Palácio do Catete.

1.1. Imprensa, História e Política: novas perspectivas

Levamos em consideração, neste trabalho, em concordância com Maria Celina


12
D‟Araújo, a percepção de que a crise que se propagou em agosto de 1954, foi fruto do
processo de candidatura de Vargas e sua vitória nas eleições de 1950. Tal crise foi
amplamente difundida pela imprensa, ressaltando a importância dos veículos de
informação nas relações de poder na sociedade, visto que:

É improvável que a imprensa possa abandonar, em algum momento, sua


condição de instrumento político. Na medida em que noticia um fato, mesmo
sem defendê-lo ou criticá-lo, funciona como uma caixa de ressonância de
posições políticas ou ideológicas, através da repercussão que dá ao
13
episódio.

Nesse sentido, entendemos que os periódicos são veículos indispensáveis para a


difusão dos interesses políticos, pois trazem a notícia carregada de interesses dos grupos
a que pertencem com a intenção de transmitir suas opiniões aos leitores, influenciando-
os. A imprensa está atrelada a elementos como: Estado, política e poder, em momentos
favorecendo o discurso oficial, em outros se opondo a este. Isso se explicita quando
percebemos que os governos:

Sempre a utilizam e temem; ora adulando, ora vigiando, controlando e


punindo. Pois, os impressos têm a função de “„despertar as consciências‟ e
„modelá-las‟ conforme seus valores e interesses, procurando indicar uma
14
direção ao comportamento político do público leitor”

11
D‟ARAUJO, Maria Celina S. (org.) O segundo governo Vargas 1951-1954: democracia, partidos e
crise política. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992. 206 p.
12
Ibidem.
13
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora
SENAC, 1998 p. 99.
14
Apud CALONGA, Maurilio Dantielly. “O jornal e suas representações: objeto ou fonte da História?”
Comunicação & Mercado/UNIGRAN - Dourados - MS, vol. 01, n. 02 – edição especial, p. 79-87, nov
2012. p. 82.
14

Pierre Nora atribui a revalorização do acontecimento à importância que adquiriu


a mídia na nossa sociedade. Ele afirma que:

Imprensa, rádio, imagens, não agem apenas como meios dos quais os
acontecimentos seriam relativamente independentes. Mas como a condição
de sua própria existência. A publicidade dá forma à própria produção dos
acontecimentos. Para que haja acontecimento é necessário que ele seja
conhecido. É por isso que as afinidades entre um tipo de acontecimento e um
meio de comunicação são muitas vezes tão intensas que eles nos parecem
15
inseparáveis.

Levando isto em consideração, deve-se entender que o pesquisador dos jornais


trabalha com aquilo que virou notícia, e isso já denota uma série de questões, pois é
16
necessário entender por que motivos se tornou notícia. É imprescindível contextualizar o
próprio meio de comunicação para entender os motivos extratextuais que influenciam na
17
expressão de seu discurso. É possível perceber que o jornal não age como um simples
veículo de informação carregado de objetividade e neutralidade diante dos acontecimentos,
18
mas como um instrumento de manipulação de grande intervenção na vida social. A
imprensa, entendida como uma forma de poder, não pode ser dissociada do fator de
19
manipulação de acordo com as condições de cada época.
Ao abordar a imprensa como instrumento formador de opinião, deve-se atentar
20
para o conceito de capital político apresentado por Pierre Bourdieu, que se refere a
uma forma de capital simbólico, que há, na imprensa, que lhe é legitimado pela
credibilidade e reconhecimento que possui enquanto veículo de informação, permitindo
que seja exercido um poder sobre quem a recebe, influenciando na opinião que o leitor
terá sobre o que foi veiculado. A influência na opinião do leitor é um ponto crucial do

15
ABREU, Alzira Alves; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Fechando o cerco: a imprensa e a crise
de agosto de 1954”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará, 1994. p.25.
16
LUCA, Tania Regina. “História dos, nos e por meio dos periódicos”. IN: PINSKY, Carla (Org.). Fontes
históricas. 2ª Ed. São Paulo: Contexto, 2008.
17
CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo. “História e análise de textos”. In: ______. (Org.).
Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 536-567.
18
Apud CALONGA, Maurilio Dantielly. “O jornal e suas representações: objeto ou fonte da História?”
Comunicação & Mercado/UNIGRAN - Dourados - MS, vol. 01, n. 02 – edição especial, p. 79-87, nov
2012.
19
SOSA, Derocina Alves Campos. “Imprensa e História”. Biblos, Rio Grande, 19: 109-125, 2006.
Disponível em: <http://www.seer.furg.br/biblos/article/view/258> acesso em 13 mai. 2015. p. 112.
20
Partimos do pensamento de que o Poder Simbólico, dado pelo propósito de fazer ver e fazer crer, age
com a equivalência do que seria conseguido pela força, porém com o reconhecimento e de certa forma,
permissão, de modo que ao ser reconhecido como legítimo, é ignorada a arbitrariedade de tal poder.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
15

exercício da imprensa, é a tentativa de formar uma opinião pública, aqui entendida


como um “recurso para legitimação de práticas políticas, como operação simbólica de
21
transformar opiniões individuais ou setoriais em opinião geral.” Nelson Werneck
22
Sodré ressalta que “um jornal é procurado também, e principalmente pelo que
expressa, pela sua opinião, pela sua posição.” Assim, “a imprensa escrita atua em um
cenário com o qual interage o discurso; fazendo parte de sua atividade e enquanto órgão
23
de informação e de formação, é capaz de manipular a opinião pública.”

No entanto, ao estudar a imprensa, deve-se considerar, também, as diversas


formas de apropriação dos indivíduos que recebem seu discurso. Como ressalta Robert
24
Darnton, em relação ao “circuito da comunicação”, é necessário entender os caminhos
que a comunicação percorre desde onde foi produzida, até chegar ao seu leitor, que terá
a liberdade da interpretação de tal conteúdo e em relação a isso, aquele que produz tal
conteúdo não pode exercer controle, não havendo assim, possibilidade de um consenso
de opinião. Porém, mesmo diante da impossibilidade de tal consenso, é real que há esse
desejo por parte da produção da imprensa, ou seja, a intenção de que se chegue ao
consenso existe. Através dos jornais, é possível “identificar o modo como em diferentes
25
lugares e momentos uma realidade social é construída e dada a ler”.

O leitor é sempre, pensado pelo autor, pelo comentador, e pelo editor como
devendo ficar sujeito a um sentido único, a uma compreensão correta, a uma
leitura autorizada. Abordar a leitura é, portanto, considerar, conjuntamente, a
irredutível liberdade dos leitores e os condicionamentos que pretendem refreá-
26
la.

Essa preocupação com o leitor inspira a necessidade de conhecer seu público, ou


seja, os veículos de imprensa devem saber direcionar seu discurso para o público que
desejam, uma vez que “o poder da palavra é o de quem detém essa palavra, ou seja, não

21
MOREL, Marco. “Em nome da opinião pública: a gênese de uma noção”. In: _____. As transformações
dos espaços públicos. Imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial (1820-1840). São
Paulo: Editora Hucitec, 2005. p. 200.
22
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983. p.
395.
23
SOSA, Derocina Alves Campos. “Imprensa e História”. Biblos, Rio Grande, 19: 109-125, 2006.
Disponível em: <http://www.seer.furg.br/biblos/article/view/258> acesso em 13 mai. 2015. p. 118.
24
DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. São Paulo: Cia das Letras,
1990.
25
CHARTIER, R. A História cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990. p. 16.
26
Ibidem, p. 123.
16

27
só o discurso, mas também a formalização da maneira de falar.” Daí nota-se como
recurso fundamental à imprensa o uso da retórica, pois é perceptível:

Quão difícil é determinar, com ajuda de critérios puramente materiais, o


auditório de quem fala; essa dificuldade é muito maior quando se trata do
auditório do escritor, pois, na maioria dos casos, os leitores não podem ser
determinados com exatidão.
É por essa razão que, em matéria de retórica, parece-nos preferível definir o
auditório como conjunto daqueles que o orador quer influenciar com sua
argumentação. Cada orador pensa de uma forma mais ou menos consciente,
naqueles que procura persuadir e que constituem o auditório ao qual se dirigem
28
seus discursos.
29
A retórica, no tratado da argumentação de Perelman e Olbrechts-Tyteca
aparece como a capacidade da persuasão, que deve ser diferenciada da ideia de
convencimento no caso de se preocupar com os resultados, pois persuadir seria mais
completo que convencer. Muitas vezes há a aceitação do discurso, mas não a ação
desejada por ele. No entanto, se a preocupação é em relação à adesão, convencer parece
ser mais do que persuadir. No entanto, concordamos com a perspectiva de Olivier
30
Reboul, que contestou tal pensamento, demonstrando que a distinção entre persuadir e
convencer não é cabível, uma vez que a finalidade da persuasão na retórica é levar a
crer de modo que, se tal persuasão leva a fazer, é algo consecutivo, pois se a
argumentação leva a fazer sem levar a crer, já não está mais no campo da argumentação
retórica e sim na coerção por base na violência. A retórica, então, se preocupa em
persuadir através do discurso, logo entendemos a importância de seu domínio no seio da
produção jornalística, uma vez que em função de interesses dos grupos a que pertencem,
os jornais desejam que o público defenda efetivamente seus posicionamentos na
31
intenção de chegar ao consenso.
Na historiografia, até a década de 1970, ainda eram poucos os trabalhos que
utilizavam jornais e revistas como fontes para conhecimento da História do Brasil. “Não
era nova a preocupação de se escrever a História da imprensa, mas relutava-se em

27
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007.
p. 153.
28
PERELMAN, Chaim; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie.”Os âmbitos da argumentação”. In: Tratado da
argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 22.
29 Ibidem.
30
REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. Tradução Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins
Fontes, 2004.
31
CARVALHO, José Murilo. História intelectual no Brasil: a retórica como chave de leitura. Topoi, Rio
de Janeiro, v. 1, p. 123-152, jan. 2000.
17

32
mobilizá-los para a escrita da História por meio da imprensa”. Vários fatores se dão
para isso, dentre eles o caráter tradicional dominante durante o século XIX e início do
XX, que tinha como ideal a busca da verdade, através de documentos marcados pela
objetividade, neutralidade e que estivesse num tempo distante do seu. Nessa
perspectiva, os jornais não eram adequados para a pesquisa histórica, uma vez que
trazem registros do cotidiano.

O historiador, portanto, manter-se-ia neutro diante do objeto, para assim, poder


conhecer a verdade dos fatos. A ideia de que o historiador deveria ter uma visão
objetiva dos acontecimentos levou à negação de determinadas fontes, como a
imprensa, que não poderia servir à História por ter uma alta carga de
subjetividade na maneira como narrava os acontecimentos. Na verdade, pensava-
se “atingir seus fins aplicando técnicas rigorosas respeitantes ao inventário das
33
fontes, à crítica dos documentos, à organização das tarefas na profissão.”

Contudo, durante a segunda metade do século XX, houve na historiografia o


34 35
“retorno” da História Política . Segundo Alzira Abreu , a partir de então, houve um
interesse maior nas instituições por trabalhos relacionados à mídia, porém dedicados à
análise da imprensa escrita somente. No Brasil, os trabalhos de historiadores da
imprensa muitas vezes se limitavam à narração dos periódicos, mas com o tempo os
periódicos foram se tornando fontes e objetos das pesquisas e, os trabalhos relacionados
à mídia se estenderam à análise do rádio e televisão, inclusive em outras áreas do
conhecimento, como Antropologia e Sociologia, esse interesse foi perceptível.
A exemplo disso aparece, na década de 1960, o trabalho de Nelson Werneck
36
Sodré – História da Imprensa no Brasil - sendo um dos primeiros e um dos poucos a
fazer uma abordagem ampla da história da imprensa. A obra de Sodré trouxe um
impacto na historiografia, pois foi aplicado o referencial marxista do autor para explicar
nossa imprensa contraditória, e isso no período logo após o golpe civil-militar de 1964.
Dentro dos aportes do marxismo, Sodré nos mostrou que o desenvolvimento da
imprensa no Brasil e todas suas crises e transições estavam atreladas ao
desenvolvimento do capitalismo no Brasil. No entanto, concordamos com a concepção

32
LUCA, Tania Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. IN: PINSKY, Carla (Org.). Fontes
históricas. 2ª Ed. São Paulo: Contexto, 2008. p. 112.
33
BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. As Escolas Históricas. Lisboa: Publicações Europa-América, 1983.
p. 97.
34
RÉMOND, René. Por uma história política. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2003.
35
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora
SENAC, 1998.
36 SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
18

37
de Marialva Barbosa de que, embora a obra de Sodré seja muito importante, e
devemos muito a ela, ficamos presos às limitações que o autor tivera enquanto a
produziu, então se vê a necessidade de novas abordagens teórico-metodológicas ao
propor uma relação entre imprensa e História.
As Novas perspectivas e abordagens da História Política se dedicaram a analisar
o poder por diversas perspectivas, não apenas pelos grandes acontecimentos, mas
entender também os micropoderes, as simbologias políticas, o imaginário político, e
nesse sentido houve a intenção de entender as relações de poder que perpassam a
produção de um jornal. O historiador da imprensa tem a possibilidade de refletir sobre
acontecimentos, atuações de certos grupos sociais e relacionar ao contexto em que
aparecem. Então, é notória a importância de ter o estudo dos periódicos como objeto de
38
pesquisas.

O alargamento do campo da história nas últimas duas décadas, com


introdução de novas linhas de investigação, como a história das mentalidades
e a história da sociabilidade, e a volta do interesse pela história política e pela
história da cultura, a par da crise do comunismo e do questionamento dos
modelos de interpretação das ciências sociais oferecidos pelo marxismo ou
pelo estruturalismo, ajudaram sem dúvida alguma a aproximar os
39
historiadores dos jornalistas, do jornalismo e da mídia.

Em se tratando de obras mais recentes sobre a história da imprensa, podemos


40
destacar História da Imprensa no Brasil organizado por Ana Luiza Martins e Tânia
Regina de Luca, em 2008. Essas autoras realizaram uma análise do desenvolvimento da
imprensa desde 1808 até o início do século XXI, refletindo sobre as principais
características da imprensa em cada fase em que se apresenta. Tânia de Luca salienta
neste livro que a História do Brasil possui muitos de seus momentos ligados à imprensa,
41
sendo ela “a um só tempo, objeto e sujeito da história brasileira”.

37
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007
38
CALONGA, Maurilio Dantielly. O jornal e suas representações: objeto ou fonte da História?
Comunicação & Mercado/UNIGRAN - Dourados - MS, vol. 01, n. 02 – edição especial, p. 79-87, nov
2012.
39
ABREU, Alzira Alves. A imprensa em transição: o jornalismo brasileiro nos anos 50. Rio de Janeiro:
Editora FGV, 2008. p. 8.
40MARTINS, Ana Luiza; LUCA, Tania Regina. História da imprensa no Brasil. São
Paulo:Contexto,2008.
41
Ibidem, p. 8.
19

Vale ressaltar a grande relevância que possui também, a tese de doutorado de


42
Ana Paula Goulart Ribeiro , que estudou, de forma detalhada, a modernização da
imprensa carioca na década de 1950, mostrando o contexto profissional em que os
objetos aqui estudados estavam inseridos, garantindo melhor entendimento do
funcionamento e interesses da mídia neste período.
43
Ainda aparece como obra importante, História Cultural da Imprensa, de
Marialva Barbosa, que mesmo sendo produzida na área do jornalismo, é relevante para a
historiografia, pois insere o problema de fazer um estudo da imprensa à luz da História
Cultural, trazendo a importância de entendermos a necessidade de contextualizar os
jornais e vê-los como veículos de opiniões de modo que, são necessários cuidados
metodológicos nas pesquisas que estão sendo elaboradas. Desse modo, contribui para o
estudo aqui feito por demonstrar a década de 1950 como um período de modernização
da imprensa e um momento em que há, por parte dos que nela estão envolvidos, maiores
lutas por representação.
A autora também adverte que muitos trabalhos sobre imprensa que têm surgido por
vezes se limitam a abordar o aparecimento e desaparecimento dos jornais, relacionando
com o momento histórico em questão. A crítica feita por ela é que em alguns momentos é
esquecida a consideração das influências culturais envolvidas nos jornais e o entendimento
44
de como essas influências agem sobre os leitores, que, como nos mostra Chartier, é de
grande importância a questão da interpretação, pois tudo que
é escrito, deixa de ter a interpretação de quem o criou quando é “dado a ler”. Ainda é
importante entender as influências culturais presentes na forma de produção desses
impressos.
Falar em História da imprensa é, portanto, se reportar ao que se produziu, de que
forma, ao como se produziu, para quem se produziu e que consequências trouxe
essa produção para a sociedade. É se referir, igualmente, a forma como o público
reagiu àquelas mensagens e perceber de que forma realizaram leituras ou
interpretações plurais. Formas de leituras, formas de apropriação, interpretações
45
plurais de sentido.

42
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Imprensa e História. Imprensa do Rio de Janeiro de 1950. Rio de
Janeiro: ECO- UFRJ, 2000. Tese de Doutorado.
43
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007.
44
CHARTIER, R. A História cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990
45
BARBOSA, Marialva. Como escrever uma história da imprensa? In: Encontro Nacional da Rede
Alfredo de Carvalho, 2, 2004, Florianópolis. Anais... Florianópolis, abr.2004.
<www.jornalismo.ufsc.br/redealcar/cd/grupos/jornalismo/trabalhos_selecionados/marialva_barbosa.doc>
acesso em 18 mai. 2015 p. 3.
20

Assim se percebe dentro do cenário da renovação historiográfica que:

O redimensionamento da imprensa como fonte documental – na medida em que


expressa discursos e expressões de protagonistas – possibilitou a busca de novas
perspectivas para a análise dos processos históricos. Dessa forma, superou-se a
perspectiva limitada de identificar a imprensa como portadora dos “fatos” e da
46
“verdade”.

A partir desse entendimento, é possível aprofundar os estudos referentes a um


período, através do estudo crítico do papel exercido pela imprensa nos acontecimentos
políticos. Em relação ao período aqui estudado, Alzira Abreu e Fernando Lattman-
Weltman ressaltam o papel da imprensa durante a crise do governo Vargas e atentam
para entendermos a importância de sua atuação na política, pois:

Um dos mais diretamente envolvidos tanto conjunturalmente, no desenrolar


da crise de 1954, quanto estruturalmente, nos grandes processos de
transformação política e sócio-cultural da sociedade brasileira, e que,
curiosamente, de modo geral segue negligenciado pela pesquisa Histórica é a
imprensa. No entanto hoje, o papel político da imprensa na cobertura e na
própria condução das principais crises políticas se apresenta com clareza
47
cada vez maior.

Diante de tal perspectiva, buscaremos analisar o processo que levou Vargas a um


cenário crítico em seu governo e confrontá-lo ao papel exercido pela imprensa.

1.2 1950: novos destaques na imprensa

Para prosseguirmos, é necessário conhecermos dois personagens cruciais para o


entendimento do segundo governo Vargas, através da imprensa: Carlos Lacerda e
Samuel Wainer, que propagaram visões políticas em seus jornais, Tribuna da Imprensa
e Última Hora, respectivamente, fazendo, assim, parte da construção dos rumos que o
país tomaria.
Carlos Frederico Werneck de Lacerda nasceu em 30 de abril de 1914,
pertencente a uma família ligada à política, principalmente seu pai Maurício Paiva de
Lacerda e seu avô Sebastião Eurico Gonçalves de Lacerda, que foi ministro da
Indústria, Viação e Obras Públicas no governo de Prudente de Morais e ministro do
46
NEVES, Lucia Maria Bastos Pereira das; MOREL, Marco; FERREIRA, Tânia Maria Bessone da C.
(orgs.). História e Imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro, DP&A
Editora, 2006. p. 10.
47
ABREU, Alzira Alves; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Fechando o cerco: a imprensa e a crise
de agosto de 1954”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará, 1994. p. 24.
21

Supremo Tribunal Federal entre 1912 e 1925, além de seus tios Fernando e Paulo de
48
Lacerda, militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em depoimento Carlos
Lacerda afirmou: “fui criado num meio político. Ouvi falar de política em casa desde
49
que me entendo por gente”.

50
Figura 1: Sebastião de Lacerda com seus netos, Vera, Carlos e Mauricinho.

Sua atuação no jornalismo teve início em 1930, aos 16 anos, no Diário de


51
Notícias auxiliando Cecília Meireles em sua coluna diária sobre educação. Em 1932,
iniciou os estudos na faculdade de Direito, porém abandonou o curso no segundo ano.
Em seguida trabalhou na revista Diretrizes (1938), de Samuel Wainer, que seria seu
maior adversário na década de 1950. Ainda em 1938, trabalhou no Observador
Econômico e Financeiro (1938), de Valentim Bouças, onde passou por um momento
negativamente marcante de sua carreira. Em comemoração ao primeiro ano do Estado
Novo, Lacerda recebera a tarefa de publicar uma reportagem sobre o PCB, “A
exposição anticomunista”, que foi vista como traição pelos comunistas causando a
52
expulsão imediata de Lacerda deste partido. Além desses, também trabalhou na
agência de notícias Meridional e O Jornal para os Diários Associados, de
Chateaubriand, até 1944, época em que começou a lutar contra o Estado Novo. Após

48
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora
SENAC, 1998.
49
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. p. 27.
50 DULLES, John W. F. Carlos Lacerda - A Vida de um Lutador (1914-1960) - editora Nova
Fronteira, Rio de Janeiro, 1992.
51
Ibidem.
52
Carlos Lacerda teve sua atuação política iniciada na Aliança Libertadora. A partir de então se
aproximou do PCB, até mesmo pela influência de seu pai e seus tios, participando de momentos
importantes da trajetória do Partido. Um exemplo disso foi ter sido escolhido para proferir o discurso de
lançamento de Prestes como presidente de honra da Aliança. No entanto, Lacerda nunca se filiou
efetivamente ao Partido. Dessa forma, sua expulsão está atrelada a um rompimento com a militância e
não uma desfiliação. LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
22

sua demissão dos Diários Associados, trabalhou no Correio da Manhã como free lancer
escrevendo uma coluna chamada Tribuna da Imprensa, que mais tarde seria o nome de
seu jornal.
Rejeitado pelos setores da esquerda, Lacerda se filiou à UDN, em 1945. Neste
partido estavam presentes representantes de diversos grupos políticos, visto que a
unidade ideológica não era a sua base, o que os unia era o desejo pelo fim do Estado
Novo, a volta da democracia e a repulsa a Getúlio Vargas. Desse modo, era possível
53
encontrar setores da direita e alguns dissidentes do PCB , entre os quais estava
Lacerda que se dedicou, naquele momento, em apoiar a candidatura de Eduardo Gomes.
A partir de então, sua principal bandeira a defender seria o antigetulismo.
Colocou-se em oposição ao trabalhismo e ao nacionalismo, não como uma ideologia
que seguisse, mas por ser uma forma de atingir Vargas. As principais características do
discurso de Lacerda eram o moralismo ascético na administração pública, o anti-
esquerdismo e a defesa da moral cristã. No campo econômico à medida que se
aproximou da ideologia e política liberais da UDN, se colocou junto àqueles que
defendiam a propriedade privada, a livre iniciativa e a aproximação do Brasil ao
54
ocidente capitalista. Desse modo ele passava a se dedicar ferrenhamente ao ataque a
Vargas e a tudo que se referia a ele.
Trabalhando no Correio da Manhã, de Paulo Bittencourt, Lacerda escreveu um
artigo se manifestando contra a concessão de refino de petróleo a dois grupos privados
nacionais: Soares Sampaio e Corrêa e Castro, enquanto defendia a participação do
capital estrangeiro na exploração petrolífera. Sua retórica devastadora para expressar
suas opiniões, que seriam sua marca como jornalista e político, incomodou o dono do
jornal por se referir contrariamente ao grupo Soares Sampaio, que era de propriedade de
amigos antigos de Paulo Bittencourt e este não permitiu a publicação do artigo de
Lacerda, fato que o fez solicitar sua demissão. Naquele momento, Lacerda se viu
convencido de que era a hora de montar seu jornal, e em conversa com Paulo

53
FERREIRA, Jorge. O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-1964.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
54 DELGADO, Márcio de Paiva. “O Golpismo Democrático: Carlos Lacerda e o Jornal Tribuna da
Imprensa na quebra da ilegalidade (1949-1964)”. Juiz de Fora, 2006. Disponível em: <
http://www.ufjf.br/ppghistoria/files/2009/12/M%C3%A1rcio-de-Paiva-Delgado.pdf>.
23

Bittencourt, fez um pedido: “Me empresta o nome da Tribuna da Imprensa que eu vou
55
tentar fazer um jornal”.
Seu plano foi concretizado. A criação da Tribuna da Imprensa foi viabilizada
pela colaboração de empresas ligadas ao capital externo, que proporcionaram o
56
fornecimento dos recursos. “Com um capital de 12 mil Cruzeiros, nascia a Tribuna ”.
Assim, foi publicado o primeiro exemplar do vespertino, em 27 de dezembro de 1949.

Figura 2: Na Tribuna da Imprensa, preparações para a impressão do primeiro número. O líder da UDN,
57
Eduardo Gomes (na frente, de terno escuro), entre Carlos e Valter Cunto, repórter da Tribuna.

Em editorial de abertura, Lacerda procurou expressar a maneira como o


vespertino serviria ao leitor:

Quem lê esse jornal verá que não está mais sozinho. Chegamos para lhe fazer
companhia, dar-lhe a informação honrada; emprestar, também, à sua voz o
necessário eco. Gemer consigo as suas queixas, talvez guiá-lo nas horas de
vacilação, confortá-lo na dor, prepará-lo para reivindicação e para os dias de
58
vitória, afim de que, ao chegar, seja ela justa e bem aproveitada.

A Tribuna da Imprensa passou a ser o porta-voz da oposição a Getúlio Vargas,


expressando a opinião de seu dono que buscava liquidar seus adversários, demonstrando

55
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. p. 75.
56
Ibidem; O orçamento mínimo para o funcionamento do jornal, segundo Wilson Oliveira, secretário da
tribuna no período de sua criação, estimava despesas com instalação, com compras de máquinas, móveis
e outros equipamentos da ordem de 3 milhões e quinhentos mil cruzeiros. Isso sem contar os gastos com
pessoal, que somam cento e sessenta e quatro mil e oitocentos e quarenta cruzeiros, distribuídos entre
despesas com o pessoal administrativo (Cr$ 69.700,00) e com a redação (Cr$ 95.140,00). Com as oficinas
um gasto previsto de quase seis mil cruzeiros. BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa.
Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007 p. 166.
57 DULLES, John W. F. Carlos Lacerda - A Vida de um Lutador (1914-1960) - editora Nova
Fronteira, Rio de Janeiro, 1992.
58
Tribuna da Imprensa 27/12/1949.
24

bases sólidas para sua carreira política, agindo como defensor dos interesses burgueses
favoráveis ao capital estrangeiro.

O jornal apareceu, portanto, como uma verdadeira tribuna a serviço de um


jornalista político que, a partir de então, tornar-se-ia não só um crítico ao
governo, mas também se apresentaria como uma opção real, principalmente,
59
estimulado pela eleição a vereador do Distrito Federal em 1947.

60
Marina Gusmão Mendonça, em seu livro O demolidor de presidentes , defende
que além das divergências políticas, Lacerda se opunha cruelmente a Vargas com
intuito de fortalecer sua carreira política, por esse viés entende-se que a “liquidação de
Vargas se tornara a única possibilidade de vir a substituí-lo no imaginário popular”.
Vargas gozava de amplo prestígio por parte da população, e Lacerda estando do lado
oposto ao seu, não conseguiria alcançar tal prestígio à sombra de sua presença. Lacerda
buscou, então, fazer da imagem de Getúlio como se fosse a própria encarnação do
“demônio” culpando-o por todo mal que pudesse ocorrer no país. Assim, o jornal
representaria o interesse da oposição no pleito de 1950 e durante todo o segundo
mandato de Vargas.
Paralelo ao surgimento da Tribuna da Imprensa estava presente, a imagem
61
promissora de Samuel Wainer. Judeu, nascido na Bessarábia , no leste europeu, em 16
62
de janeiro de 1910 , veio para o Brasil, juntamente com seus pais Chaim (Jaime)
Wainer e Dvora (Dora Wainer), logo após o início da Primeira Guerra Mundial (1914).

59
DELGADO, Márcio de Paiva. Op. Cit. p. 76.
60
MENDONÇA, Marina Gusmão. O demolidor de presidentes. São Paulo: Editora Códex. 2002.
61
Sua nacionalidade mais tarde seria centro de grande conflito estimulado por Lacerda, que denunciou o
fato dele não ser brasileiro e possuir um jornal, coisa que a constituição não permitia, Wainer e seu irmão
José foram acusados de falsidade ideológica, rendendo a condenação de ambos.
62
No seu documento está datado de 1912, porém era comum na época atrasar os registros principalmente
em famílias de imigrantes e de poucas condições financeiras. LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit.
25

63
Figura 3: Jaime e Dora Wainer com os filhos – Samuel Wainer é o segundo à esquerda.

Iniciou suas atividades jornalísticas na juventude, quando foi de São Paulo para
o Rio de Janeiro, colaborando com o jornal da Associação de Estudantes Israelitas. Em
1933, começou a trabalhar no Diário de Notícias, divulgando em sua coluna ideias da
colônia judaica no período de ascensão do nazismo. Trabalhou também na edição do
Almanaque Israelita e foi indicado por Wolf Klabin, de grande prestigio na colônia
judaica, para trabalhar na Revista Brasileira. Em 1935, Wainer juntamente com Caio
Prado Jr. lançou a Revista Contemporânea, que tinha como principal bandeira a luta
contra o fascismo e o antissemitismo. Em 1938 foi convidado por Antônio de Azevedo
Amaral, para lançar uma revista, Diretrizes, que foi criada graças ao apoio financeiro
conseguidos por Azevedo Amaral junto à Light. A revista fechou em 1944, e Wainer foi
trabalhar como correspondente do O Globo na Alemanha no fim da Segunda Guerra
Mundial e em 1947, foi trabalhar na redação de O Jornal, dos Diários Associados,
convidado por Assis Chateaubriand.
Foi enquanto trabalhava para Chateaubriand, que Wainer teve a grande
oportunidade para alavancar sua carreira. Em 1949, foi enviado ao Rio Grande do Sul
para fazer uma reportagem, onde aproveitou para tentar uma entrevista com Vargas. Foi
o início de uma grande parceria.

63
WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um repórter. Rio de Janeiro: Record, 1987.
26

Figura 4: Samuel Wainer durante entrevista com Getúlio Vargas para O Jornal de Assis Chateaubriand,
64
em 03/03/1949.

A entrevista ocorreu num momento bastante oportuno para ambos: para Getúlio,
que, às vésperas do período de eleições, tinha intenção de voltar como candidato e
devido ao pequeno período em que ficou “afastado” (1945-1950), precisava falar, ser
ouvido pela grande massa, a quem ele sempre se direcionou, e pelos adversários que o
queriam longe deste cenário. Já Wainer, com essa entrevista alcançou um prestígio
como jornalista, por ter conseguido obter de Vargas a declaração que muitos esperavam:
que ele disputaria as eleições de 1950. Além disso, iniciou uma jornada ao lado do ainda
ex- presidente, conseguindo o apoio necessário para viabilizar a criação de seu próprio
jornal, em 1951.
A participação destes dois jornalistas foi de grande importância para a
construção dos caminhos a serem seguidos durante as eleições e estariam no centro das
principais disputas políticas na década de 1950.

1.3 De volta ao Catete!

Durante os preparativos para as eleições de 1950, Vargas ainda gozava de ampla


popularidade e possuía apoio principalmente da classe trabalhadora. Aos poucos foi
conseguindo mudar sua imagem de ditador para a imagem de um democrata, de modo
que, os políticos da UDN não conseguiam grande efeito contra ele ao se remeter aos
erros do Estado Novo para atacá-lo, visando impedir sua candidatura.

64
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora
SENAC, 1998.
27

Vargas procurou conquistar a lealdade dos líderes políticos do interior, através


65
do PSD, enquanto mantinha força eleitoral nos setores urbanos, através do PTB.
Outro apoio fundamental foi o Partido Social Progressista (PSP), representante do
movimento populista de Ademar de Barros, em São Paulo, que possuía grande
influência neste estado.

Se Getúlio quisesse alcançar a presidência, não o poderia fazer sem o auxílio


de Ademar. O próprio Ademar tinha também ambições presidenciais. Mas
achava muito cedo para testá-las e precisava do amparo de Getúlio para seus
planos de longo alcance. O apoio ao retorno de Vargas significava, em
contrapartida, o futuro apoio de Vargas ao nome de Ademar, que estendia
66
assim um trampolim para o cargo supremo.

A essa altura, Vargas contava com a ajuda do jovem João Goulart, com quem
67
construíra grande amizade durante sua temporada em São Borja. Goulart passou a
atuar em favor de sua candidatura. Para ele, a parceria com Ademar de Barros não era
bem vista, pois não confiava nele, além de defender a ideia de que Vargas não precisava
desta parceria para vencer, já que havia apelo popular pela sua volta. Numa das cartas
que costumava enviar a ele, falava sobre o que pensava sobre as intenções de Ademar:
“na minha opinião, o que ele deseja no movimento é a criação de um ambiente de
68
confusão. [...] O mais provável é que o homem quer mesmo é agitação”. No entanto, a
experiência de Vargas o fez preferir o apoio de Ademar, pois embora fosse fundador do
PTB, acreditava que este partido, sozinho, não teria força para disputar uma eleição
69
presidencial.

Além do apoio partidário, também era necessário, sondar o apoio dos militares.
Em 1949, Vargas e Ademar buscaram saber de Góes Monteiro de que maneira os
militares reagiriam à sua candidatura. Foi assegurado por ele que não haveria no seio
das Forças Armadas, a intenção de impedir sua posse, caso fosse eleito. Diante das
condições analisadas, Ademar de Barros anunciou publicamente, a candidatura de

65
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. 1930-1945. 14ª edição,
Rio de janeiro - Paz e Terra, 2007.
66
Ibidem, p. 104.
67
FERREIRA, Jorge. “Ao mestre com carinho, ao discípulo com carisma: as cartas de Jango a Getúlio”.
In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Escrita de si. Escrita da História. Rio de janeiro: Editora FGV,
2004.
68
Ibidem, p. 288.
69
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001.
28

Vargas, em Junho de 1950, pela aliança PTB/PSP, tendo como complemento da chapa,
a indicação de Café Filho para vice-presidente, vinda do PSP.

Pelo PSD, concorreria, o mineiro inexpressivo, Cristiano Machado. Sua


candidatura não era vista com possibilidade de vitória de modo que, ao tomar ciência da
candidatura de Vargas, alguns setores do próprio PSD, não direcionaram apoio ao
candidato do partido, decidindo apoiar o ex-presidente. Exemplo disso foi a dissidência
gaúcha, o PSD – Autonomista, criado após o rompimento com o General Dutra, o
presidente naquele momento, declarando seu apoio total a Vargas:

As urnas de 3 de outubro mostrarão que o genuíno espírito do PSD se


consubstancia na dissidência autonomista. Aos nossos companheiros de
todos os municípios pedimos que se incorporem aos comitês autonomistas e
70
que se manifestem, prestigiando esse movimento de redenção do Partido.

O nome de Cristiano Machado não foi capaz de unir o partido em seu favor e o
fracasso da unidade dentro do PSD pode ser atribuído à intransigência do General
Dutra, que rompeu com Vargas, não o aceitando como candidato. Diante disso, “o PSD
aderiu à cristianização: o candidato do partido foi abandonado à própria sorte, e sua
candidatura foi praticamente esvaziada, uma vez que os mais expressivos líderes
71
pessedistas aderiram a Getúlio Vargas”.
A UDN, por sua vez, apostou novamente no Brigadeiro Eduardo Gomes.
Embora o partido tivesse sido o primeiro a escolher um candidato, não havia
unanimidade entre os seus membros quanto sua candidatura, pois, uma vez que, o
Brigadeiro fora derrotado em 1945, “as chances de vitória udenista, que se pareciam tão
72
seguras na „redemocratização‟, eram, em 1950, praticamente nulas”. Julgava-se
necessário optar por um nome que tivesse maiores chances de vitória. Carlos Lacerda
foi um dos que ressaltaram essa necessidade, como consta em seu depoimento:

Foi quando eu sustentei que a UDN era um partido que não tinha vocação de
poder e que eu não tinha vocação para “derrotas gloriosas”. Que eu achava
que estava na hora de disputar o poder. É para isso que os partidos existem.
Que nós tínhamos de ter um candidato capaz de disputar o poder em
condições mínimas de vitória. Isso até um certo ponto. E chegou ao ponto em

70
RIBEIRO, José Augusto. Op. Cit.
71
HIPPOLITO, Lucia. Vargas e a gênese do sistema partidário brasileiro. Anos 90. Porto Alegre, v. 11, n.
19/20, p. 21-47, jan./dez. 2004. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/anos90/article/view/6350> acesso em 05 mai. 2015. p. 28.
72
BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. A UDN e o udenismo: ambiguidades do liberalismo
brasileiro (1945-1964). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. (coleção Estudos Brasileiros vol. 51). p. 77.
29

que a escolha era entre o Getúlio (o Cristiano já derrotado) e o Brigadeiro.


73
Então é evidente que fui apoiar o Brigadeiro.

A UDN, na opinião popular e dos seus membros, adquiriu a imagem de ser


“ruim de voto” e nesse sentido, utilizar de agressividade e alarde para atingir Vargas era
uma tentativa de construir uma imagem de partido forte, já que nas urnas essa força não
seria confirmada. No entanto, mesmo diante da fraqueza do candidato de seu partido,
Lacerda se via na responsabilidade de defender o Brigadeiro, já que era inaceitável ver
Vargas na presidência novamente. Na prática, seu discurso era permeado pelo
pensamento de que o Brigadeiro não era o melhor candidato, mas era melhor opção que
o “ex-ditador”, que era visto como o que havia de pior. Em editorial na Tribuna da
Imprensa, Lacerda esclareceu que:

O Brigadeiro ao meu ver, está cometendo vários erros, todos no sentido de


não calcular bem as suas possibilidades e não dar o tom devido à sua
campanha. Mas os seus acertos em favor do país são muito maiores e mais
importantes do que esses erros contra si mesmo. Ele reúne a esperança deste
país. Ele encarna o que o Brasil tem de mais positivo, de mais alto, de mais
digno. Abandoná-lo, portanto, seria uma traição não a ele, mas ao futuro do
74
Brasil.

Em virtude do reconhecimento do risco que a UDN corria com a candidatura do


Brigadeiro, Lacerda chegou a propor que houvesse a união deste partido com o PSD em
torno de um candidato apenas, no caso o próprio Brigadeiro, para somar forças e
conseguir derrotar Vargas, que tinha grandes chances de vitória. Com este pensamento,
foi até Cristiano Machado e propôs:

Dr. Cristiano parece que o senhor vai ser candidato pelo PSD. E já está
lançada a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes. Isto significa a vitória
do Dr. Getúlio Vargas. Só há uma maneira, talvez, de se entenderem: ou é o
Brigadeiro desistir da candidatura dele em seu favor ou é o senhor desistir da
sua candidatura em favor do Brigadeiro. A segunda hipótese me parece
melhor, não por nenhum desapreço ao senhor, mas é porque é muito mais
fácil levar o seu eleitorado para o Brigadeiro do que trazer o do Brigadeiro
75
para o senhor.

Cristiano Machado, porém, não aceitou o acordo. Lacerda, então, interpretou o


que ocorreria ao fim do pleito:
73
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.p. 101
74
Tribuna da Imprensa, 15-16/07/1950.
75
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. p. 100
30

É, nesse caso, nós vamos para a derrota, o senhor e nós! Com a diferença que
o senhor vem em terceiro lugar. [...] O senhor e o Brigadeiro, vão ficar com a
responsabilidade da volta de Getúlio ao poder. E, depois para tirar esse
homem vai custar muita coisa ao Brasil. Vai ser um negócio muito difícil.
76
Por eleição não se tira: ele já ganhou.

Diante desta fala, pode-se perceber uma ponta do desespero da oposição que
tinha consciência da popularidade de Vargas, e que por via eleitoral não seria possível
impedir sua volta, a partir de então, ela estabeleceu a meta de afastar Vargas do cenário
político a qualquer preço, como demonstra a fala de Lacerda: “O Sr. Getúlio Vargas
senador não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não
deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de
77
governar”.
Neste cenário, portanto, as candidaturas à presidência e vice-presidência da
República, de 1950, se configuraram da seguinte maneira:

Candidatos à Presidência em 1950


Presidente Vice-Presidente Principais partidos
*
Eduardo Gomes Odilon Braga UDN, PRP, PL
Altino Arantes
*
Cristiano Machado Vitorino Freire PSD, PR, PST
*
João Mangabeira Alípio Correia Neto PSB
Getúlio Vargas Café Filho PTB, PSP

* PL – Partido Libertador; PST – Partido Social Trabalhista; PSB - Partido Socialista


78
Brasileiro.

Vargas não teve muito tempo para percorrer o país em sua campanha. Nos meses
de agosto e setembro, se dedicou em visitar todos os estados e as principais cidades do
país. Sua campanha não contou com o apoio da grande imprensa, naquele momento
contava apenas com o apoio de Samuel Wainer, que mais tarde seria seu amparo
midiático com o jornal Última Hora. Porém, sua candidatura foi muito bem recebida
76
Ibidem.
77 DULLES, John W. F. Carlos Lacerda - A Vida de um Lutador (1914-1960) - editora Nova
Fronteira, Rio de Janeiro, 1992 p. 135.
78
D‟ARAUJO, Maria Celina S. (org.). O segundo governo Vargas 1951-1954: democracia, partidos e
crise política. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992. p. 78
31

pelo povo, que mantinha viva, a imagem do presidente que lhes oferecera direitos e
melhores condições de trabalho.

Para o novo governo havia o interesse em continuar o esforço para criação de


uma infraestrutura para o desenvolvimento econômico, visando o avanço da
industrialização no país. Vargas se dispôs em lutar pela independência econômica do
Brasil, e para isso, era preciso reforçar o papel do Estado e das empresas públicas nos
projetos econômicos, no momento em que o ocidente capitalista favorecia o setor
79
privado, ou seja, a proposta era uma política essencialmente nacionalista.

Além disso, estava em pauta a ampliação dos diretos trabalhistas, destinando ao


trabalhador rural os mesmos benefícios dos quais já desfrutava o trabalhador urbano.
Vale ressaltar a importância da preocupação de Vargas em atender o meio rural, pois
nenhum político naquele momento direcionava suas propostas ao campo, visto que
havia grande quantidade de analfabetos nessas regiões, que não tinham o direito ao voto
garantido pela Constituição, não tendo assim, “importância” no cenário político.

João Goulart percorreu pelo Rio de Janeiro e São Paulo, buscando informações
quanto à popularidade de Vargas, concluindo que, embora ele tivesse que se preparar
para enfrentar uma campanha dura, teria como estratégia fazer com que:

Gente que mereça confiança corra o Brasil convencendo em cada cidade um


grupo de getulistas que o senhor vai ser candidato e o resto eles mesmos se
carregarão, porque, Dr. Getúlio, o que se nota não é mais prestígio, e sim
80
puro e legítimo fanatismo pelo senhor.

No entanto, para Vargas, vencer as eleições não era o mais difícil, mas sim o que
viria após a vitória. Em julho de 1950, ele concedeu uma entrevista à Folha da Noite, de
São Paulo, onde apresentou os pontos básicos de sua candidatura e demonstrou suas
preocupações, que seriam confirmadas em 1954:

Conheço o meu povo e tenho confiança nele. Tenho plena certeza de que
serei eleito, mas sei também que pela segunda vez não chegarei ao fim do
meu governo. Terei de lutar. Até onde resistirei? Se não me matarem, até que

79
LEOPOLDI, Maria Antonieta. “O difícil caminho do meio: Estado, burguesia e industrialização no
segundo governo Vargas (1951-1954)”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos
50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p.162
80
FERREIRA, Jorge. “Ao mestre com carinho, ao discípulo com carisma: as cartas de Jango a Getúlio”.
In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Escrita de si. Escrita da História. Rio de janeiro: Editora FGV,
2004.p. 290.
32

ponto meus nervos poderão aguentar? Uma coisa digo: não poderei tolerar
81
humilhações.

Realmente Vargas pôde contar com o povo: venceu as eleições com 48,7% dos
votos, seguido pelo Brigadeiro Eduardo Gomes (29,7%), Cristiano Machado (21,5%) e
João Mangabeira (0,1%). Café Filho venceu para vice-presidência, consolidando a
82
vitória da união PTB/PSP. “Vargas se elegeu com quase 3.850.040 votos, num
83
eleitorado que atingia 8.254.989 votantes”. Naquele momento, o cenário era diferente
das eleições de 1930, onde se fraudavam os resultados facilmente. Em 1950 essa prática
havia se tornado mais difícil, pois o voto era secreto e contava com as garantias
previstas pela Justiça Eleitoral.
O fracasso da UDN foi atribuído, em parte, à falta de um projeto de governo
consistente, capaz de concorrer com toda experiência já mostrada por Vargas no seu
primeiro mandato. A fraqueza do programa foi demonstrada por Perseu Abramo, na
Folha Socialista, em Outubro de 1950:

Se a culpa cabe a alguém pela volta do ditador, cabe principalmente à União


Democrática Nacional, ao combater a ditadura e seu candidato sem
apresentar ao povo, em troca, nenhum programa, no sentido ideológico e
doutrinário do termo [...]. Por outro lado, arvorando-se em defensora da
democracia, manteve na expectativa centenas de consciências democráticas,
impedidas, assim, de convergir seus esforços em soluções mais radicais e
84
reais.
Carlos Lacerda também expressou, na Tribuna da Imprensa, seu pensamento em
relação ao que havia alertado à UDN sobre as eleições:

Alega-se agora surpresa quanto aos resultados da eleição. Creio na


sinceridade dos que recebem com espanto as notícias da apuração. Mas não
posso dizer que não foram advertidos. Desde a fundação deste jornal, a 27/12
do ano passado [1949], vínhamos insistindo na necessidade de unir o
85
eleitorado democrático em torno de um só candidato.

Ao reconhecer as falhas que cometera, durante as eleições, pesou sobre a UDN a


a responsabilidade pela volta de Vargas, fazendo com que sentisse a necessidade de

81
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. p. 312.
82
AURÉLIO, Daniel Rodrigues. Dossiê Getúlio Vargas. São Paulo: Universo dos Livros, 2009.
83
LEOPOLDI, Maria Antonieta. “O difícil caminho do meio: Estado, burguesia e industrialização no
segundo governo Vargas (1951-1954)”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos
50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p. 164.
84
Apud BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. A UDN e o udenismo: ambiguidades do liberalismo
brasileiro (1945-1964). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. (coleção Estudos Brasileiros vol. 51). p. 79
85
Tribuna da Imprensa, 06/10/1950.
33

recorrer a algum modo de impedir seu governo. Assim que foi apresentado o resultado
das eleições, o partido argumentou que Vargas não poderia tomar posse por não ter
alcançado a maioria absoluta de votos. A campanha foi bem recebida e amplamente
divulgada por Lacerda, em seu jornal. No exemplar da Tribuna da Imprensa, em 06 de
Novembro de 1950, foi feita uma comparação entre a eleição de Hitler, em 1933 com a
de Vargas naquele ano, visto que a imagem de Vargas como ditador, era um trunfo nas
mãos dos opositores. Assim dizia:

Como Hitler, Getúlio Vargas teve agora maioria relativa, mas não maioria
absoluta nas eleições. Quer dizer: uma parte considerável do povo brasileiro julga
que Getúlio deve ser o presidente. Mas a maioria não julga assim. Prova: Getúlio
não teve a metade mais um dos votos apurados. [...] Getúlio teve também maioria
86
relativa. Vamos, por isso, repetir o erro da Alemanha?

O jornal utilizava de um exemplo extremo e equivocado para o impedimento da


posse de Vargas. O argumento utilizado era que o fato dos alemães terem permitido
Hitler se eleger com maioria relativa dos votos tinha sido o motivo de todo estrago que
o nazismo causou à Alemanha, logo aconteceria o mesmo com o Brasil ao permitir a
vitória de Vargas pelos mesmos meios, demonstrando uma articulação golpista e
inescrupulosa.
No entanto, a campanha do jornal e a eloquência dos advogados udenistas não
87
foram suficientes para tal impedimento, pois a Constituição de 1946 não expressava a
necessidade da maioria absoluta de votos, o que também foi contestado pela Tribuna da
Imprensa:

A tradição brasileira é a da maioria absoluta para considerar-se eleito o


presidente da República. A omissão na Carta de 46 não poderia inovar a
tradição e sim, precisamente, confirmá-la. Pois, para romper a praxe, é
88
necessário manifestar explicitamente essa decisão.

Tão clara era a omissão da Constituição quanto a isso, que não havia nela
nenhuma menção ao que deveria ser feito diante da ausência de maioria absoluta.
Porém, uma vez que não estava clara a necessidade de obter metade dos votos mais um,
os advogados da UDN poderiam ter sanado esta dúvida antes das eleições, assim já
estaria definida tal exigência. No entanto, não o fizeram: primeiro por não acreditarem

86
Tribuna da Imprensa, 06/11/1950.
87
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao46.htm.
88
Tribuna da Imprensa, 06/11/1950.
34

na vitória de Vargas e também, para não prejudicar o Brigadeiro, caso não alcançasse a
maioria absoluta de votos.
Além de não conseguir êxito em relação à maioria absoluta, a UDN não pôde
contar com apoio do Exército para derrubar o novo presidente, pois a maioria dos
superiores decidiu se posicionar pela manutenção da legalidade. Dutra e o ministro da
Guerra, Canrobert Pereira, respeitaram a decisão do Tribunal Superior Eleitoral em
permitir a posse de Vargas. Para maior segurança, os generais, favoráveis ao presidente,
Estillac Leal e Zenóbio da Costa, declararam em reunião no Clube Militar que Vargas
estava eleito.

Enfim, Vargas tomou posse, em 31 de janeiro de 1951, proferindo as seguintes


palavras:

Eleito a 3 de outubro como o candidato do Povo, aspiro e espero governar


como o Presidente do Povo[...]. Não temia os riscos, os ônus e as vicissitudes
de luta política, nem me enfraqueciam o ânimo, as ameaças e as provocações
diretas ou veladas. Mesmo assim não me decidi a disputar o pleito sem antes
esgotar todos os recursos de conciliação e harmonia das forças políticas [...].
A minha candidatura não nasceu, por isso, das injunções da política ou das
combinações dos Partidos. Ela veio diretamente do povo, dos seus apelos e
dos seus clamores. Por isso vos escolhi, intrépido e valoroso povo carioca,
para serdes o intérprete da minha imensa gratidão. Serei fiel ao mandato, às
responsabilidades e aos deveres que me impusestes numa alentadora
renovação de apoio e confiança [...]. Estou certo de vossa ajuda e conto com
a vossa cooperação porque assim estaremos servindo não ao efêmero dum
Governo, mas à perenidade, à perpetuidade e à grandeza da Nação
89
brasileira.

90
Lúcia Hipolitto salienta que, a partir da vitória de Vargas se iniciou um
processo político de grande dificuldade para os anos que se seguiram, pois a oposição
sofrida pela UDN, desde o período da sua candidatura se acirrou após sua eleição para
mais um mandato na presidência. A UDN tentando impedi-lo de governar, a imprensa
que não deu nenhuma cobertura à sua volta e a falta de um bloco partidário de apoio no
Congresso foram as principais dificuldades. Vargas sofreu:

89
BONFIM, João Bosco Bezerra. Palavra de presidente: os discursos presidenciais de posse, de
Deodoro a Lula. Disponível em: <http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/91988> acesso em 22 de abril
de 2016. pg 238-240
90
HIPPOLITO, Lucia. Vargas e a gênese do sistema partidário brasileiro. Anos 90. Porto Alegre, v. 11,
n. 19/20, p. 21-47, jan./dez. 2004. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/anos90/article/view/6350> acesso em 05 mai. 2015.
35

Uma oposição ferrenha, herdeira de pesadas e ressentidas derrotas políticas,


em torno da qual alinhavam-se poderosos setores da sociedade civil e, cada
vez mais, as forças armadas perigosamente cindidas pelas clivagens
ideológicas da época. Tudo isso em meio a um cenário de grande polarização
91
das relações internacionais, com o desenrolar da chamada Guerra Fria.

Ao assumir o governo, adotou como estratégia uma conciliação político-


partidária que não estaria ligado a um ou mais partidos, mas acima deles. Essa estratégia
92
é ressaltada por Maria Antonieta Leopoldi , como “o difícil caminho do meio” seguido
por ele para tentar estabilizar uma conjuntura já fragmentada, no entanto essa atitude
acabou sendo responsável, em parte, por minar a base política de seu governo.
No entanto, podemos dizer que as principais divergências entre a UDN e o
governo Vargas estão relacionadas ao modelo econômico a ser seguido, pois o que se
viu de fato foi a continuação do propósito de desenvolver o Brasil economicamente,
principalmente no aspecto da industrialização e produção de energia. De acordo com
93
Jorge Ferreira , havia no cenário brasileiro pós 1945, um embate entre dois projetos
para o Brasil. De um lado as esquerdas, tendo como aliados os trabalhistas, comunistas,
socialistas, sindicalistas, estudantes e alguns setores do Exército com projeto de
desenvolvimento econômico e social garantindo a soberania nacional e participação do
Estado. De outro a direita, contrária aos direitos do movimento sindical, favorável ao
liberalismo econômico e abertura do país ao capital estrangeiro, grupo no qual estava
inserida a UDN. A falta de apoio por parte dos partidos se tornou cada vez mais
evidente no segundo governo de Vargas, de modo que a oposição conseguiu bastante
espaço para alcançar seus interesses.

91
ABREU, Alzira Alves; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Fechando o cerco: a imprensa e a crise
de agosto de 1954”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará, 1994. p. 24.
92
LEOPOLDI, Maria Antonieta. “O difícil caminho do meio: Estado, burguesia e industrialização no
segundo governo Vargas (1951-1954)”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos
50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p. 161-204.
93
FERREIRA, Jorge. O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-1964.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
36

1.4 Tribuna da Imprensa e Última Hora: uma rivalidade além da política

Após tomar posse, pela segunda vez, como Presidente da República, Vargas já
sofria forte perseguição por parte da imprensa e agora, com um governo constituído era
necessário que tivesse algum amparo midiático. Para isso, podia continuar contando
com Samuel Wainer que lhe mostrou lealdade desde 1949. Assim, ele sugeriu a Wainer
94
que criasse um jornal, colaborando para que o projeto se realizasse. Para Wainer essa
era a grande oportunidade de sua vida, a chance de mostrar que um imigrante, judeu, de
origem pobre, havia vencido, então passou a se dedicar com afinco a este projeto. Assim
nascia a Última Hora, em 12 de Junho de 1951, e seria um periódico de grande sucesso.

95
Figura 5: Samuel Wainer assiste à impressão do primeiro número de Última Hora.

Figura 6: Nas oficinas de a Última Hora, na av. Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, Samuel Wainer e
96
equipe retiravam das rotativas o primeiro exemplar da Última Hora, em 12/6/1951.

94
WAINER, Samuel. Samuel Wainer I (depoimento, 1996). Rio de Janeiro, CPDOC/ASSOCIAÇÃO
BRASILEIRA DE IMPRENSA (ABI), 2010.
95
WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um repórter. Rio de Janeiro: Record, 1987.
37

Segundo a direção do jornal, o seu objetivo era “abrir espaço para o presidente e
sua equipe, e para classe média baixa urbana, que começava a ter força no jogo político
97
da época”. No exemplar de inauguração, Wainer apresentou um editorial
transcrevendo a carta enviada por Vargas, onde discorria sobre a importância do jornal e
suas expectativas para com ele. Acompanhando a carta, dizia:

E este será o compromisso que aqui assumimos: corresponder ao que o Sr.


Getúlio Vargas de nós espera, com o mesmo entusiasmo e fé que
procuraremos não desapontar o mais humilde dos eleitores que o
98
reconduziram à chefia suprema da nação.”

Wainer esclarecia as metas do jornal, dizendo: “esta era a rota que traçamos para
99
este jornal, fazendo-o cada vez mais um jornal do povo para o governo”. O que era
publicado no jornal deveria estar em concordância com o presidente, pois ele
acompanhava minuciosamente o que era publicado e se irritava, inclusive, quando se
publicava algo contra ele ou quando se omitia algum acontecimento positivo a seu
100
respeito. Exemplo disso é o bilhete que Samuel Wainer escreveu a Vargas acerca de
101
um editorial intitulado “Um caso de frustração política”, em que o jornal se
pronunciava contra Odilon Braga, presidente da UDN. No bilhete Wainer dizia:

Presidente, bom dia.


Este foi o editorial que publicamos sábado ultimo sobre o Odilon. Amanhã
sairá o outro.
102
Abraços, Wainer.

Também podemos perceber a preocupação de Vargas com o que era publicado


no jornal, em um dos bilhetes que escreveu ao Chefe do Gabinete Civil, Lourival
Fontes, onde recomendou:

É preciso responder a uma carta do Samuel Wainer, comunicando a próxima


publicação de seu jornal A Última Hora. Agradecer a comunicação, fazer
votos pelo êxito de seu empreendimento, declarar que não espero outra coisa

96
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora
SENAC, 1998.
97
Ibidem, p. 53.
98
WAINER, Samuel. Coluna de Última Hora. Última Hora, 12 jun. 1951.
99
Última Hora, 13/06/1951.
100
GOMES, Angela de Castro (coordenadora). Getúlio escreve a Lourival: os bilhetes à Casa Civil da
Presidência da República (1951-1954). Aracaju: Edise, 2015.
101
Última Hora, 30/08/1952.
102
CPDOC ( GV c 1952.08.30/3).
38

de um jornalista como ele, inteligente, objetivo, sabendo escolher os


assuntos, expondo-os com clareza, simplicidade e elegância, sentindo o que
103
diz.

Em outro momento, recomendava a Lourival que falasse a Wainer sobre a sua


insatisfação em relação a um dos números do jornal:

Dizer ao Wainer que o número do jornal dele que li hoje só tratava de


esportes. Nada havia para alertar o povo e o Congresso, bem como as
informações sobre a entrada de gêneros, aumento de transportes, etc., a fim
de desfazer a campanha adversária de que o governo está parado. É
104
argumentar com o que está sendo feito.

Desse modo, percebe-se que o jornal seguia como um meio em que o presidente
buscava, realmente, propagar as ideias do governo, visto que era necessário para manter
o vínculo que construíra com o povo, por isso a preocupação em avaliar o que era
publicado. Durante o Estado Novo (1937-1945), o Departamento de Imprensa e
propaganda (DIP), realizou a tarefa de propagar a imagem de Vargas e as conquistas de
seu governo, fator esse, que contribuiu muito para a relação intensa de proximidade com
a classe trabalhadora. Agora, o presidente regendo um governo democrático, buscou
adequar a necessidade de um apoio midiático às liberdades de imprensa e isso ficou
notório através da forma como Wainer trabalhou com seu jornal, era a favor do
governo, assumiu um compromisso com ele, mas promoveu uma diversidade de
informações e técnicas na forma de produção jornalística, se destacando não só pelas
suas ideias políticas.
Última Hora representaria uma grande inovação para a imprensa brasileira,
reforçando o vínculo existente entre a população e o presidente, garantindo seu sucesso.
O jornal dizia que “a imprensa pode e deve estar ligada ao povo, ÚLTIMA HORA não
105
fugirá a essa obrigação”. Essa ligação era mantida, principalmente, na coluna
intitulada “O Dia do Presidente”, que trazia as principais ações do presidente no dia
anterior, informando as principais decisões tomadas por ele, uma espécie de boletim,
um diário em que a população estava sempre ciente das ações do presidente.
Diante do desenvolvimento de uma boa estrutura e do fato da Última Hora estar
em defesa de Vargas, indo pela contramão da maioria dos periódicos naquele momento,
103
GOMES, Angela de Castro (coordenadora). Getúlio escreve a Lourival: os bilhetes à Casa Civil da
Presidência da República (1951-1954). Aracaju: Edise, 2015. p. 117.
104
Ibidem, p. 151.
105
Última Hora, 13/06/1951.
39

o jornal atraiu inimigos, que se sentiam ameaçados com a popularidade conquistada tão
rápido, por ele. Nesse sentido, um de seus principais inimigos seria Carlos Lacerda,
através da Tribuna da Imprensa, por ser o inimigo mais aguerrido de Vargas e rival
ressentido de Wainer já a algum tempo, de modo que passou a destinar seus ataques a
este jornal visando destruir dois desafetos de uma só vez.

As origens da rivalidade entre Lacerda e Wainer estão na década de 1940. Após


ser expulso do PCB, acusado de traição, Lacerda passou uma fase muito difícil de sua
vida profissional, atraiu má fama e não conseguia trabalho. Naquele momento, ele podia
contar com o apoio de Wainer, um amigo muito próximo, que o levava ao convívio de
sua família e admirava seu trabalho. Wainer estava, a essa altura, dirigindo a Revista
Diretrizes e, acompanhando as dificuldades do amigo, o convidou para trabalhar com
ele, porém logo surgiria um problema. Lacerda sempre teve como principal
característica seu temperamento inflamado e críticas ofensivas, isso se mostrou
exacerbado durante seu trabalho em Diretrizes, ao dirigir comentários agressivos a
alguns ícones da época, como: o poeta Jorge de Lima, o pintor Cândido Portinari e o
escritor Mario de Andrade, causando descontentamento entre os companheiros de
redação. Diante de tal constrangimento, Wainer precisou dispensá-lo.
O ressentimento originado neste episódio fez nascer uma inimizade que traria
106
sérias consequências à política brasileira, na década de 1950. Além disso, esses dois
jornalistas viveram um momento crucial de suas vidas, quando criaram seus próprios
jornais, num período em que a imprensa brasileira passava por um processo de
importante mudança, no qual deveriam se enquadrar. Era o momento de transição entre
o jornalismo de opinião e o jornalismo empresarial.
Até a década de 1940 prevaleceu, no Brasil, um estilo de jornalismo panfletário,
onde “a imprensa era essencialmente de opinião e a linguagem da maioria dos jornais
era em geral agressiva e virulenta, marcada que estava pela paixão dos debates e das
107
polêmicas”. Esse estilo teve origem ainda no século XIX, quando nasceu nossa
imprensa.

106
WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um repórter. 8ªed. Rio de Janeiro:
Record,1987. p. 73-74; MENDONÇA, Marina Gusmão. O demolidor de presidentes. São Paulo: Editora
Códex. 2002.p. 127.
107
Ibidem, p. 148.
40

Vale ressaltar que, a imprensa brasileira surgiu tardiamente, se comparamos à


Europa e alguns países da América Latina. Começou suas atividades no ano de 1808,
quando foi criado o Correio Braziliense, que embora fosse impresso na Europa, era
amplamente lido no Brasil, como outros periódicos estrangeiros que tinham leitores
aqui desde o século XVIII. Efetivamente em solo brasileiro, surgiu nesse mesmo ano a
Gazeta do Rio de Janeiro, na impressão Régia instalada por D. João recém-chegado ao
Brasil com sua corte. Em seu início, a imprensa brasileira estava subordinada à censura,
esta se finda em 1821, quando o rei D. João VI decretou o fim da censura prévia,
108
iniciando o período de liberdade de imprensa no Brasil.
A partir de então possuiu mais destaque o jornalismo de opinião, com
característica de estilo panfletário “que expressou uma das fases mais criativas e
vigorosas dos debates políticos mundiais e da imprensa brasileira em particular, só
109
vindo a desaparecer na segunda metade do século XX”. Nesse período, jornalismo e
literatura se confundiam no Brasil, “o jornalismo era considerado um subproduto das
110
belas artes,” moldado nas bases do jornalismo francês, de opinião e com escrita
semelhante à literatura. O jornal era, inclusive, um meio pelo qual os intelectuais
poderiam alcançar o reconhecimento de suas obras, pois este era mais acessível ao
público do que os livros. Esse estilo permaneceu até a década de 1940, em que “a
imprensa era ainda essencialmente de opinião e a linguagem da maioria dos jornais era
em geral agressiva e virulenta, marcada que estava pela paixão dos debates e das
111
polêmicas”.

Com esse histórico, a imprensa brasileira tem a década de 1950 como um marco,
pois a partir desse momento ela passou por um processo de modernização, inovando a
112
sua forma de atuação. Para Marialva Barbosa esta década, pelo ponto de vista dos
atuantes da imprensa, foi o “momento mais singular de sua trajetória”.

108
MOREL, MARCO. “Os primeiros passos da palavra impressa”. In: MARTINS, Ana Luiza; LUCA, Tania
Regina. História da imprensa no Brasil. São Paulo:Contexto, 2008.
109
Ibidem, p .37.
110
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. “Jornalismo, literatura e política: a modernização da imprensa carioca nos
anos 1950”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 31, 2003. p. 147.
111
Ibidem, p. 148.
112
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X,
2007.
41

A imprensa foi abandonando a tradição de polêmica, de crítica e de doutrina,


substituindo-a por um jornalismo que privilegiava a informação (transmitida
“objetiva” e “imparcialmente” na forma de notícia) e que a separava (editorial e
113
graficamente) do comentário pessoal e da opinião.

Nesta nova fase, a imprensa recebeu inovações tecnológicas na área de


impressão e transmissão de notícias, possuindo um caráter mais técnico no qual a
escolha de dados, tratamento e revisão de notícias ganham uma atenção maior do que a
perspectiva literária. Essas inovações sofreram influências principalmente norte-
americanas que definiram padrões no que diz respeito à linguagem e à estrutura dos
textos, com a intenção de produzir uma notícia mais objetiva e rápida, garantindo a
retirada de apelo à emoção e clareza na transmissão da informação, tendo em vista que a
população envolvida em muitas atividades diárias não teria tempo para se dedicar a uma
leitura minuciosa. Os jornais se tornaram mais informativos e se mostraram como
114
grandes empresas, “a notícia passou a ocupar maior espaço do que a opinião.” Vale
ressaltar que, o processo de modernização da década de 1950 foi fruto de uma série de
mudanças que vinham sendo colocadas em prática desde o início do século XX, “o que
se procura naquele momento é a autonomização do campo jornalístico em relação ao
115
literário.”

O jornalismo americano influenciou diretamente a linguagem utilizada nos


jornais, a qual deveria ser mais forte e cada vez mais afastada da emoção do seu
emissor. Nesse sentido, a estrutura do jornal passou a contar com as técnicas do lead e a
“pirâmide invertida”. O lead correspondia à abertura do texto, onde deveria estar
apresentado, de forma resumida o relato do fato principal noticiado, de modo que
sempre respondesse a seis perguntas básicas: “Quem?, fez o quê?, quando?, onde?,
116
como? e por quê?”. O lead se tornou o símbolo da inovação jornalística, pois
eliminou toda narrativa rebuscada, geralmente com carga emotiva que se apresentava
nos jornais no período anterior. A “pirâmide invertida” fazia com que a notícia fosse
transmitida na ordem decrescente de acordo com a relevância, ou seja, as informações

113
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Op. Cit. p. 148.
114
ABREU, Alzira Alves de. “Os suplementos literários: os intelectuais e a imprensa nos anos 50.” In:
ABREU, Alzira. A imprensa em transição: o jornalismo brasileiro nos anos 50. Rio de Janeiro: Editora
FGV, 2008. p.16.
115
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X,
2007. p. 150.
116
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. “Jornalismo, literatura e política: a modernização da imprensa carioca nos
anos 1950”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 31, 2003. p. 149.
42

consideradas fundamentais deveriam estar presentes nos primeiros parágrafos. Assim, o


leitor poderia entender os acontecimentos de uma maneira mais rápida, caso não tivesse
tempo de ler a matéria por completo e, além disso, essa técnica também contribuía para
a diagramação do jornal, pois caso fosse necessário cortar a matéria no final para
melhor organização da página, não se perderia as informações importantes. Carlos
Lacerda dizia, em 1949, que um problema dos jornais brasileiros eram:

As manchetes grandes e sensacionalistas, que, disse ele, de modo geral já haviam


sido abolidas no exterior. Considerando fotografias e manchetes sensacionalistas
o resultado de irresponsabilidade, disse que “no Brasil, onde pagamos papel em
dólares, gasta-se às vezes a metade da primeira página, em milhares de páginas
117
para dizer uma tolice ou uma mentira.”
118
Segundo Lins da Silva, essa série de inovações inseridas no jornalismo
brasileiro na década de 1950 foi viabilizada por jornalistas brasileiros que viveram nos
Estados Unidos na década de 1940 e se destacaram em suas atividades ao voltarem ao
Brasil. Entre eles estavam Pompeu de Souza e Dalton Jobim, que levaram seus
aprendizados ao Diário Carioca, que foi o primeiro a introduzir as técnicas norte-
americanas, lançando o primeiro manual de redação e estilo do Brasil, composto de 16
páginas, escrito por Pompeu de Souza. Iniciou o uso do lead e ainda foi o primeiro a
119
incorporar à sua redação a equipe de copy-desk. Também se destacam Samuel
Wainer que se tornou referência no “fazer” jornalístico com Última Hora e Alberto
Dines que, no fim da década de 1950, levou grandes mudanças ao Jornal do Brasil,
também fruto de sua experiência nos estados Unidos, no Los Angeles Times.

Outro ponto a ser destacado nesta nova fase da imprensa é a questão da


publicidade. Até a década de 1940 a imprensa dependia dos favores do Estado, às vezes
contando com pequenos anúncios relacionados a questões domésticas ou publicidade de
lojas comerciais. No entanto, a partir dos anos 50 essa situação foi alterada e
começaram a aparecer maiores investimentos no ramo da publicidade, tornando-a
responsável por cerca de 80% da receita dos jornais. “Os anúncios nos jornais se

117 DULLES, John W. F. Carlos Lacerda - A Vida de um Lutador (1914-1960) - editora Nova Fronteira, Rio
de Janeiro, 1992. p. 127.
118
SILVA, Carlos Eduardo Lins da. O adiantado da Hora. A influência americana sobre o jornalismo
.
brasileiro. 2 ed. São Paulo: Summus, 1991.
119
Grupo de redatores, cuja função era revisar e, se necessário, reescrever as matérias para dar-lhes uma
unidade de estilo. Seu papel era essencialmente disciplinador: fiscalizava se os textos estavam de acordo com
as normas de redação. RIBEIRO, Ana Paula Goulart. “Jornalismo, literatura e política: a modernização da
imprensa carioca nos anos 1950”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 31, 2003. p.
151.
43

diversificaram, encontrando-se desde anúncios de automóveis, eletrodomésticos,


produtos alimentícios e produtos agrícolas até anúncios de produtos artesanais, os mais
120
variados.”

Além disso, a década de 1950 marcou o processo de profissionalização da


imprensa, o momento em que apareceu a figura do profissional dedicado ao jornalismo,
121
o jornalista formado , com dedicação exclusiva. A boa remuneração e o
reconhecimento da sociedade favoreceu a diferenciação entre o profissional do
jornalismo e o intelectual da literatura que buscava no jornal um espaço de promoção e
ascensão social. “O profissionalismo foi um longo processo empreendido pelas
122
empresas jornalísticas e corroborado pelo discurso dos próprios jornalistas.”

A transformação do jornalismo brasileiro, que teve início no Rio de Janeiro,


esteve ligada à atuação dos jornais Diário carioca, Tribuna da Imprensa, Última Hora e
Jornal do Brasil. No entanto, as transformações ocorridas neste período resultaram das
experiências desenvolvidas ao longo de muito tempo.

Podemos assim dizer, que por ser um processo de mudanças, além das rupturas,
também é possível observarmos, consequentemente, as continuidades. Embora os
jornais passassem a buscar maior neutralidade e objetividade, a carga opinativa não foi
abandonada por completo das publicações. Um exemplo disso foi a Tribuna da
Imprensa, que de início não demonstrava os aspectos inovadores esperados no momento
de modernização da imprensa.
A Tribuna da Imprensa viveu em suas páginas a ambiguidade daquele período
transitório, pois:
Não trazia nenhuma contribuição às artes gráficas e o próprio papel,
importação francesa, pouco encorpado, não ajudava a apresentação. O título
do jornal, encimado a página, em toda a extensão, quebrava o usual dos

120
ABREU, Alzira Alves de. “Os suplementos literários: os intelectuais e a imprensa nos anos 50.” In:
_____. A imprensa em transição: o jornalismo brasileiro nos anos 50. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008.
p.16.
121
A criação, do ensino superior de jornalismo, em 1943 por Getúlio Vargas, foi fundamental para a
profissionalização dos jornalistas. Até então alguns jornalistas possuíam ensino superior, porém
geralmente nas faculdades de direito, mas grande parte não tinha concluído nem mesmo o equivalente ao
ensino médio. Ibidem, p. 152.
122
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X,
2007. p. 157.
44

vespertinos, assemelhando-a mais a um matutino. Um único clichê, uma


123
reprodução. Títulos sem grande destaque. Uma página maçuda.

Em relação à administração do jornal, Carlos Chagas mostra que Lacerda


assumia totalmente o controle do jornal. “Ele decidia qual a manchete e diagramava a
primeira página, escrevia artigos e editoriais, mudava reportagens, transplantava
124
colunas e imprimia o seu toque pessoal em todas as páginas.” Diante disso, o jornal
não alcançou grande prestígio popular.
Última Hora, por sua vez, se destacou em incorporar produtivamente novas
ideias, inclusive no aspecto físico do jornal que agora procurava estabelecer um padrão
mais organizado e trouxe novas formas de diagramação, o uso da cor e da fotografia.
Nas décadas de 1950/60 este jornal foi considerado como “o mais inovador”. No
125
entanto, Marialva Barbosa nos chama atenção para o fato de que realmente Última
Hora era um meio de comunicação que abarcava as mudanças do jornalismo, mas o
sentido de inovação se torna uma mítica desse jornal, uma vez que ele não foi o
primeiro a mudar certos aspectos da produção, outros jornais que já vinham adotando
estratégias e inovações gráficas e editoriais, não obstante, ele foi responsável pela mais
intensa e marcante reforma do jornalismo.
Outro ponto importante foi o inicio da participação feminina, que teve Marita
Lima como primeira mulher a cobrir noticia de futebol no Brasil, e também a
desconstrução do paradigma de não ter negros trabalhando na redação do jornal, ao
contratar Waldinar Ranulpho, o “Meu Sinhô”, para fazer a cobertura de assuntos
musicais e do carnaval.
Dessa forma, as inovações implantadas, possibilitaram a este jornal um sucesso
comercial, exigindo que as empresas jornalísticas desenvolvessem suas estruturas para
concorrerem com um meio de comunicação de grande público.

Ao incentivar e favorecer a criação do inovador jornal de Samuel Wainer,


Vargas interviera diretamente no mercado, ou campo jornalístico, não apenas
privilegiando a ação de um jornalista particularmente bem-dotado, como
subvertendo as regras de acesso ao fechado clube dos proprietários de jornal, dos

123
OLIVEIRA,1966 apud BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro:
Mauad X, 2007 p. 165.
124 Apud DELGADO, Márcio de Paiva. O Golpismo Democrático: Carlos Lacerda e o Jornal Tribuna da
Imprensa na quebra da ilegalidade (1949-1964). Juiz de Fora, 2006. Disponível em: <
http://www.ufjf.br/ppghistoria/files/2009/12/M%C3%A1rcio-de-Paiva-Delgado.pdf> p. 58.
125
BARBOSA, Marialva. BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de
Janeiro: Mauad X, 2007.
45

fazedores de notícia. Ao dar a Wainer as condições para desequilibrar


inteiramente o jogo de forças do mercado jornalístico, o presidente fornecera
também aos seus adversários um alvo através do qual poderiam (e tentariam)
atingi-lo. Se, com a Última Hora, Vargas pretendia romper o cerco de grande
parte da imprensa contra seu governo e estabelecer um novo canal de
comunicação, ou propaganda, com as massas, os donos de jornais perceberam
toda a sua dimensão a dupla ameaça que a intervenção significava. Com a
criação de “seu” jornal o “ex-ditador” os atingia tanto como veículo quanto como
126
opositores.

Esse foi um dos fatores que impulsionou Lacerda a direcionar seus ataques ao
jornal de Wainer, visto que “a Tribuna era um jornal pequeno e não possuía tiragem
127
suficiente para transformá-lo num jornal da grande imprensa”.

Era um jornal de pequena circulação relativa, dirigindo basicamente a um


público cujo consumo jornalístico já era indicativo de seu posicionamento no
espectro político da época. A rigor a Tribuna tinha sua razão de ser ancorada
simplesmente no fato de ser o jornal do Lacerda, sem vida própria, independente
128
do uso político que seu diretor fazia dele.

A Tribuna recebeu o apelido de “lanterninha”, visto que, dentre os principais


periódicos do Rio de janeiro, ela ocupava o último lugar de vendas, como podemos
verificar na tabela a seguir:

126
ABREU, Alzira Alves; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Fechando o cerco: a imprensa e a crise de
agosto de 1954”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro: Relume-
Dumará, 1994 p. 29.
127
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X,
2007 p. 167.
128
ABREU, Alzira Alves; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Fechando o cerco: a imprensa e a crise de
agosto de 1954”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro: Relume-
Dumará, 1994. p. 30.
46

129
Tiragem dos vespertinos cariocas
(em mil exemplares)
Jornais/ Ano 1951 1952 1953 1954 1955 1958 1960

O Globo 100 120 100 110 110 187 218

A Notícia 120 130 130 95 60 58 56

Diário da Noite 95 129 88 75 90 70 40

Última Hora - 70 85 92 92 105 117

Tribuna da 30 25 25 40 40 24 18
Imprensa

Em dezembro de 1950, quando o jornal completava um ano, Lacerda escreveu


um editorial de comemoração, onde reconhecia a pouca tiragem do jornal.

Somos sem dúvida um jornal que faz opinião. Uma linha publicada neste
jornal tem influência na opinião pública, bem acima do que poderia esperar
quem estritamente olhasse para o número de exemplares que o jornal vende,
e que vai de 20 a 25 mil exemplares por dia. (Somos, também, um jornal que
130
divulga francamente a sua tiragem.).

Nesse caso, “para Lacerda, ambicioso e vaidoso, o sucesso da Última Hora seria
de difícil aceitação, tanto mais que, sendo um vespertino, concorreria diretamente com a
Tribuna da Imprensa, muito pobre de vendagem”. Isso é demonstrado na virulência que
ele atacava o rival, que em parte se remetia ao incômodo com o seu sucesso. Pois, além
de todo sucesso comercial, representava a voz de seu maior inimigo.

Embora a Última Hora tivesse tiragem muito superior à da Tribuna, e seja até
hoje lembrada por muitos outros de seus aspectos especificamente jornalísticos,
independentemente de sua origem e razão de ser políticas, não há dúvida de que
o jornal de Wainer representava o outro ponto extremo do espectro
político/jornalístico da cobertura da crise, com seu apoio incondicional à figura
131
de Vargas.

129
BARBOSA, Marialva. Op. Cit .p. 155.
130
Tribuna da Imprensa, 27/12/1950.
131
ABREU, Alzira Alves; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Fechando o cerco: a imprensa e a crise de agosto de
1954”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
p.31.
47

É importante considerar que a rivalidade entre os jornais, a divergência em suas


tiragens e popularidade se explicam também pelo momento de transição vivido pelo
próprio jornalismo naquele momento. Como ressalta Marialva Barbosa:

O processo de profissionalização do jornalismo no Brasil e, especificamente, no


Rio de Janeiro, se dá nas primeiras cinco décadas do século XX (e não apenas
como num passe de mágica na década de 1950/60), e será a partir desse modelo
que serão construídos valores e representações sobre o ideal profissional,
permitindo a conformação de uma dada identidade. Os jornalistas, notadamente
os que possuem poder de fala ampliado, passam cada vez mais a construir um
discurso em que as suas representações sociais conformam práticas, condutas e
132
tomada de posição, o que permite reconhecer uma dada identidade do grupo.

Ana Abreu Laurenza chama atenção para se perceber que, entre os periódicos
abordados:
A luta de fato era desigual em termos jornalísticos. A Tribuna da Imprensa era o
representante menor dos jornais da grande imprensa, cuja linha editorial cobria
os fatos na ótica dos proprietários da terra, dos bacharéis, dos originários do setor
exportador. [...] a Última Hora passa praticamente sozinha a historia do
jornalismo entre 1951 e 1954, como um órgão da grande imprensa que dava voz
133
aos grupos populares.

Porém, é importante considerar que, “apesar de ter uma tiragem inexpressiva, a


Tribuna era um jornal influente e teve papel decisivo na cena política, catalisando e
134
amplificando as contradições e tensões sociais do período”. Mesmo assim, sua
relevância na historiografia nem sempre foi reconhecida. No trabalho de Nelson
Werneck Sodré, por exemplo, um dos pioneiros na área de história da imprensa, como
já citamos, é omitida a atuação desse jornal no contexto da crise de 1954, ignorando
inclusive, a rivalidade e ataques entre ele e o jornal Última Hora, fator que nos leva a
observar a necessidade de entender não só o que é dito, como os silêncios muitas vezes
preferidos em determinados momentos.
Durante todo o segundo governo de Vargas a Tribuna da Imprensa se destacou
como principal rival do presidente, agindo diretamente como instrumento em favor dos
interesses da UDN, e assim, através de uma linguagem agressiva e combativa,
pressionou o governo de modo a prejudicar os interesses do presidente e a própria
sobrevivência de seu governo.
132
BARBOSA, Marialva. Op. Cit . p. 58.
133
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora SENAC,
1998. p. 17-18.
134
AZEVEDO, 1998 apud BARBOSA, Marialva. BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-
200. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007. p. 167.
48

A campanha da imprensa, em 1954, quando do suicídio do presidente Getúlio


Vargas, talvez seja o exemplo mais emblemático da sua vinculação ao campo
político e de seu reconhecimento como força dirigente superior mesmo aos
135
partidos e as facções políticas.

Nesse sentido, entender a atuação e rivalidade entre esses dois jornais nos remete
a observar que o embate entre eles, em especial a campanha da Tribuna da Imprensa
contra Vargas e Última Hora, contribuiu muito para a desestabilização do governo.
Assim, é visível que as questões políticas nunca desapareceram totalmente, sendo um
ponto fundamental na estrutura dos jornais, que jamais deixaram de prestar a função de
instrumento político.

135
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X,
2007. p. 151.
49

2 UMA CRISE ANUNCIADA

Estando resolvida a sucessão do cargo da presidência, apresentou-se ao Brasil


um cenário político turbulento, que permaneceu até 1954: a intensa luta da oposição em
ver Vargas fora da presidência da República.

O cenário político que [Vargas] encontrou no início da década de 50 era mais


difícil de dominar que qualquer outro que já tivesse enfrentado em seus anos
de poder, entre 1930 e 1945. Vargas, agora, presidia um sistema político
136
aberto e fluido.

Naquele momento, a estrutura de classes era mais diferenciada que outrora.


137
Segundo Skidmore, os industriais ainda se apresentavam com um grupo muito
pequeno, concentrando-se principalmente no centro-sul, no triângulo: Rio de Janeiro -
São Paulo - Belo Horizonte de modo que, ainda não eram muito atuantes na política. Na
mesma situação de desarticulação política, estava a classe operária que, embora
apresentasse crescimento acelerado, votava mais na condição de massa do que de classe.
Nesse cenário, estava presente, também, a classe média, sendo a mais difícil de
definir. Primeiro devemos considerar que não existia classe média nas regiões mais
pobres do Brasil, no caso, o norte e o nordeste, e que mesmo nas regiões mais
desenvolvidas, como São Paulo, não existia uma classe média, quando se trata do
interior, onde o foco era a produção agrícola. No entanto, o pequeno grupo médio das
regiões urbanas da região mais desenvolvida do país, possuía maior articulação política,
contando com o auxílio de burocratas, profissionais liberais e executivos industriais e do
setor do comércio. Não era, em números, um grupo grande, mas tinha força, pois era a
maioria do número de eleitores, já que naquele momento, o voto dos analfabetos ainda
não era permitido no Brasil e também, era de grande importância o apoio da classe
média na administração do país para garantia de maior desenvolvimento.
Parte da classe média era composta por profissionais liberais e industriais que
buscavam a expansão de seus negócios, através da inovação de técnicas, considerando a
modernização e o desenvolvimento econômico, indispensáveis ao Brasil. Diante disso, é
notório que o partido que mais buscava chamar sua atenção era a UDN, que com seu
discurso favorável a uma economia liberal, representava um atrativo para esta classe.

136
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. 1930-1945. 14ª edição, Rio de janeiro -
Paz e Terra, 2007. p. 133
137
Ibidem.
50

138
No entanto, como ressalta Benevides, não podemos definir a UDN como o
partido da classe média, devido à dificuldade em se estabelecer uma exata relação
partido/classe no Brasil. Na UDN, assim como no PSD, se viam representados grupos
da grande burguesia, nacional ou estrangeira, a pequena burguesia seja empresarial ou
profissional. A única representação nunca vista na UDN fora o povo, pois nunca foi e
nem houve interesse de sua parte ser um partido popular. Podemos atentar para a
existência de várias UDNs, se pensarmos que no Rio de Janeiro, por exemplo, ela estava
ligada à classe média, mas no norte e nordeste sua base era mais parecida com as bases
do PSD. Afonso Arinos definiu a UDN como: “o partido que tem a cabeça na cidade e o
corpo no campo.” No caso de São Paulo, Arrobas Martins ressaltou:

Se a UDN fosse realmente o partido da classe média ela teria uma expressão
muito forte em São Paulo. Quer dizer, nem mesmo a classe média estava na
UDN. A maioria dos udenistas pertencia à classe média, mas a maioria da
classe média não era udenista. A classe média estava muito dividida entre
139
PSD, PSP, UDN.

Diante dessa estrutura social, Vargas precisou se ajustar às necessidades de um


governo voltado para as liberdades políticas e regras democráticas, porém não foi fácil
se adequar a essa realidade. “Desde o primeiro momento, o governo federal foi
140
constituído à imagem e semelhança do presidente da República”. Os grandes
partidos (UDN e PSD) foram formalmente derrotados, em 1950, pelas agremiações
141
populistas (PSP e PTB), que, no entanto, não se tornaram Governo. Para Lúcia
142
Hippolito, os partidos políticos criados nesse cenário, não conseguiriam, até o início
do segundo governo de Vargas, construir um sistema partidário dentro das dinâmicas de
funcionamento desejáveis.
Vale ressaltar que, ainda em 1949, ao conceder entrevista a Samuel Wainer, Vargas
havia declarado seu interesse em voltar à presidência, dizendo: “Eu voltarei, mas

138
BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. A UDN e o udenismo: ambiguidades do liberalismo
brasileiro (1945-1964). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. (coleção Estudos Brasileiros vol. 51).
139
Ibidem. p. 213
140
HIPPOLITO, Lucia. Vargas e a gênese do sistema partidário brasileiro. Anos 90. Porto Alegre, v. 11,
n. 19/20, p. 21-47, jan./dez. 2004. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/anos90/article/view/6350> acesso em 05 mai. 2015.p. 29.
141 D‟ARAUJO, Maria Celina S. O segundo governo Vargas 1951-1954: democracia, partidos e crise
política. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992. 206 p. 28.
142 HIPPOLITO, Lucia. Op. Cit.
51

143
não como líder de partidos e sim como líder de massas” . No primeiro Dia do
Trabalho, após sua eleição, o presidente ressaltou:

Não me elegi sob a bandeira exclusiva de um partido, e sim por um


movimento empolgante e irresistível das massas populares. Não me foram
buscar na reclusão para que viesse fazer mera substituição de pessoas, ou
simples mudanças de quadros administrativos. A minha eleição teve
significado muito maior e muito mais profundo: porque o povo me
acompanha na esperança de que meu Governo possa edificar uma nova era de
solidariedade a uma democracia social e econômica – e não apenas para
emprestar o meu apoio e sua solidariedade a uma democracia meramente
144
política, que desconhece a igualdade social.

A orientação do Governo se evidencia ao notarmos que a Câmara dos


Deputados, em 1951, vivia sob uma complexa mistura de tendências políticas, como
ressaltou Alzira Vargas, sua filha: “Em minha opinião ele não governou com partido
algum, Getúlio tinha um cunho muito pessoal de governo e usava homens de um partido
145
ou de outro, mas não um partido” . Ele considerava o Brasil como um todo e não em
termos de partidos.
Desse modo, a maioria parlamentar, em seu governo, pertencia ao PSD, com 112
cadeiras; a UDN possuía 81, o PTB, 51 e o PSP, 24; as outras 36 cadeiras eram
divididas por partidos menores, principalmente “centristas”, na maioria das vezes sem
muita expressão quanto às decisões fundamentais para os caminhos a serem seguidos.
A equipe ministerial do novo governo era composta em sua maioria pelo PSD,
visto que o presidente tinha preferência pela participação de seus antigos amigos de
1930. Góes Monteiro assumiu o Estado Maior das Forças Armadas; João Neves da
Fontoura recebeu o ministério das Relações Exteriores; na Justiça estava Francisco
Negrão de Lima, para o Ministério da Fazenda, Horácio Lafer; como ministro da Guerra
foi escolhido o nacionalista Estillac Leal, o que começou a gerar contenda no Clube
Militar com a ala liberal-conservadora do Exército. Houve algum descontentamento
inicial, no PTB, com o fato do partido só ter sido contemplado com um Ministério, o do
Trabalho – que na verdade era do Trabalho e também da Indústria e do Comércio e da
Previdência Social – com Danton Coelho. Para amenizar a insatisfação do partido, “o
presidente respondeu que o PTB tinha muito mais que isso: tinha o Presidente da

143
WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um repórter. Rio de Janeiro: Record, 1987.
144
GOMES, Ângela de Castro (Org.). Getúlio escreve a Lourival: os bilhetes à Casa Civil da
Presidência da República (1951-1954). Aracaju: Edise, 2015. p. 352.
145
D‟ARAUJO, Maria Celina S. Op. Cit. p. 25.
52

146
República”. Por conta disso, durante a primeira fase do governo (1951-1952), o
relacionamento com o PTB gaúcho foi frio e distante.
Vargas desejava encontrar um modo de conciliar a maior quantidade de setores
políticos possível, isso é perceptível diante do quão heterogêneo era seu ministério.

Ainda que durante seu governo tenha respeitado o Congresso como uma
importante agência decisória de representação partidária, Vargas não ligava a
presidência e sua figura a um ou mais partidos. Essa posição suprapartidária
era vista por ele como um trunfo para conciliar e montar acordos. Dessa
forma ele buscava encontrar, na conciliação interpartidária, o caminho do
147
meio que viabilizaria a arrancada desenvolvimentista a que se propunha.

Vargas tentou buscar o caminho do meio, porém não gozava de credibilidade por
parte dos setores políticos, pois sua imagem estava marcada pelo passado de ditador.
Havia uma crise de desconfiança em relação a um possível golpe de Vargas em seus
148
opositores. Com a intenção de amenizar tal desconfiança, ele buscou alguma
aproximação com a UDN, visando também atrair os olhares da classe média, que
crescia em número de votos, porém suas tentativas foram fracassadas e lhe trariam
consequências. A busca pelo consenso máximo foi prejudicial para os partidos e para
ele, pois a UDN não tinha o menor interesse em uma conciliação com o presidente, seu
objetivo era bem definido: tirá-lo do poder! Enquanto buscou conquistar um inimigo,
Vargas deixou de conquistar seus aliados, causando grande descontentamento nos
setores do PSD e PTB, contribuindo para ressaltar a fragilidade de seu governo.

No campo econômico, devemos ressaltar que Vargas recebeu do General Dutra,


um quadro de dificuldades, uma situação caótica, principalmente a inflação e o
desequilíbrio nas finanças públicas, logo, o novo governo deveria contornar esta
situação e retomar o crescimento do país. Em janeiro de 1951, o presidente esclarecia a
situação econômica do país e quais eram as prioridades:

O quadro é desalentador. Com o imenso passivo que me legaram, com vícios


profundos de administração, em todos os setores se reflete a mesma

146
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. p. 321
147
LEOPOLDI, Maria Antonieta. “O difícil caminho do meio: Estado, burguesia e industrialização no
segundo governo Vargas (1951-1954)”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos
50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p. 161-204. pg 165.
148
D‟ARAUJO, Maria Celina S. (org.) As Instituições brasileiras da Era Vargas. Rio de Janeiro: Ed.
UERJ: Ed. Fundação Getulio Vargas, 1999. 212p.
53

necessidade de ordenamento. Será preciso, pois, demarcar os problemas mais


urgentes, para atendê-los em primeiro plano. A meu ver, são aqueles que
mais estreitamente se vinculam à vida do homem.
O Governo procurará, antes de tudo, frear o alto custo de vida, estabelecendo
um justo preço para os gêneros de primeira necessidade, e detendo com
149
medidas enérgicas, o avanço inflacionista.

Diante de um cenário financeiro em completa desordem, a necessidade era fazer


150
“tudo aquilo que o Governo anterior deixara de fazer ou desfizera”, no entanto, em
tal situação, as opções de Vargas para uma política econômica eram muito restritas.
Num primeiro momento, ele podia contar com o apoio dos Estados Unidos, através da
Comissão Mista Brasil - Estados Unidos (CMBEU), estabelecida em dezembro de 1950,
151
que realizaria um extenso programa de investimentos em infraestrutura. O trabalho
da Comissão contribuiu para um impulso na economia brasileira, como, por exemplo, a
criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), em 1952, que
procurou regularizar as deficiências infraestruturais de nossa economia. Para os Estados
Unidos seria fonte de obtenção de matérias-primas brasileiras.
Vargas concentrou os projetos de industrialização de seu governo em duas áreas:
152
a Assessoria Econômica e o Ministério da Fazenda.
Sua ênfase na industrialização recaía exatamente sobre a necessidade da
defesa nacional. Industrializar era, principalmente, equipar o país com uma
indústria de base nacional, livrar o Brasil da dependência externa e de sua
153
condição de exportador de matérias-primas.

As medidas de desenvolvimento também se estendiam à agricultura, visando


incrementar a atividade agrícola com novos equipamentos e recursos para alavancar a
produção, visto que essa atividade ainda era de grande importância para o crescimento
do país. Estabelecer melhorias na atividade agrícola permitiu melhores condições na
vida no campo, incluindo a extensão das leis trabalhistas, evitando o excesso de
migrações internas.
149
GOMES, Ângela de Castro (Org.). Getúlio escreve a Lourival: os bilhetes à Casa Civil da
Presidência da República (1951-1954). Aracaju: Edise, 2015. p. 332.
150
D‟ARAUJO, Maria Celina S. O segundo governo Vargas 1951-1954: democracia, partidos e crise
política. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992. 206 p. 103
151
FERREIRA, Jorge. Crises da República: 1954,1955 e 1961. In: ______; DELGADO, Lucília de
Almeida Neves (org). O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática, da democratização de
1945 ao golpe civil-militar. Civilização Brasileira, RJ: 2003. p. 301-343.
152
A Assessoria Econômica se constituía enquanto órgão técnico destinado a atender às solicitações da
Presidência da República para efeito de assessoramento e planejamento nas questões econômicas.
D‟ARAUJO, Maria Celina S. Op. Cit. p. 151.
153
Ibidem, p. 105.
54

O capital estrangeiro deveria ser bem recebido e estimulado, como ajuda


indispensável para o país.

O estímulo ao capital e empreendimentos estrangeiros eram controlados pelo


Estado, direcionando-os aos setores considerados prioritários pelo governo.
Não havia um projeto autárquico anti – Estados Unidos, na proposta inicial
de Getúlio Vargas [...]. O que se colocava claramente, desde a campanha, era
que o Brasil devia diversificar suas relações econômicas e comerciais com os
154
EUA e a Europa.

A questão da permissão da entrada de capital estrangeiro, assim como do capital


privado nacional, na indústria esteve em destaque no projeto de produção petrolífera
idealizado por Vargas: o plano de criação da Petrobrás. Não realizaremos, aqui, um
estudo específico da criação da Petrobrás, nem seus vínculos com a economia brasileira
diretamente, nosso objetivo ao mencionar tal momento é demonstrar mais um fato que
ressaltou as discordâncias e rivalidades políticas que já se apresentavam no quadro
analisado.
No dia 6 de dezembro de 1951, o presidente apresentou seu programa do
petróleo, propondo, ao invés do monopólio estatal, a criação de uma empresa de
economia mista que, embora estivesse sob o controle da União, permitia a participação
de acionistas privados, inclusive estrangeiros, na composição de seu capital. Não
estabelecer, no projeto, o monopólio estatal, foi uma recomendação da Assessoria
Econômica, que Vargas seguiu corretamente, pois o pensamento do governo era que, se
enviasse o projeto com cláusula do monopólio estatal, ele seria fortemente combatido.
Logo, o objetivo era que posteriormente fosse pedida uma emenda no projeto
solicitando o monopólio, sem que esta estivesse relacionada à autoria de Vargas,
contribuindo para menores conflitos em torno da aprovação do mesmo.
O projeto sofreu oposição tanto na esquerda, quanto pela UDN; para a corrente
nacionalista, a permissão de um capital misto favorecia a empresa Standard Oil na
administração da nova empresa. A UDN, tomando um posicionamento inesperado, mas
bem calculado para se opor a Vargas, se aproximou da tese nacionalista. Tancredo
Neves, então Ministro da Justiça, mostrou o posicionamento udenista:

Os parlamentares da União Democrática Nacional passaram a apoiar a tese


do monopólio estatal do petróleo e também a estatização das refinarias e de

154
LEOPOLDI, Maria Antonieta. “O difícil caminho do meio: Estado, burguesia e industrialização no
segundo governo Vargas (1951-1954)”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos
50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p. 161-204. p.165
55

todas as subsidiárias que viessem a ser criadas em razão do complexo


155
petrolífero estatal no Brasil.

Diante dessa posição, a UDN, viu que poderia prejudicar Vargas, pois com um
projeto tão criticado, seria tornado inviável, contribuindo para que o real interesse deste
partido fosse possível, já que a maioria da UDN apoiava o projeto do Estatuto do
Petróleo, que fora criado no governo Dutra, essencialmente “entreguista”. Por um
momento, estrategicamente, a UDN tentou ser mais nacionalista que o próprio Vargas.
156
A estratégia udenista pôde ser sentida na imprensa. A grande imprensa
brasileira era majoritariamente favorável à iniciativa privada, uma vez que estavam
comprometidas com uma economia liberal, seja através de grupos nacionais ou
estrangeiros. Última Hora e Tribuna da Imprensa defenderam o monopólio estatal,
porém com enfoque distinto em suas defesas.
Na Tribuna da Imprensa, apareceu em destaque a fala do deputado udenista
Aliomar Baleeiro, criticando o posicionamento do presidente no projeto:

Ele não é apenas o prisioneiro de tubarões denunciado por um dos seus


ministros, mas também dos trusts. [...] Se esse é o texto definitivo, pois não
foi contestado, reitero a minha afirmação de que o Sr. Getúlio Vargas é o
157
homem das soluções pequeninas para os problemas grandiosos.

A Tribuna acusava o governo de ser “entreguista”, e que estaria indo contra suas
promessas de defender uma economia nacional, o que demonstra uma inversão de
posição, pois o pensamento liberal era proveniente da UDN, então por que não apoiar
um empreendimento que contava com uma administração mista? Porque enfraquecer o
presidente para viabilizar o fim do seu mandato era mais importante, o que nos deixa
claro que, não havia trégua por parte da oposição.
Última Hora, por sua vez, buscava esclarecer à população sobre o que visava
este Projeto, rebatendo as críticas. No dia em que o documento foi enviado, pelo
presidente, ao Congresso, o periódico declarou que com o Projeto do Petróleo de
Vargas, o Brasil deixava a sua condição “humilhante e perigosa” de dependência

155
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. p.366.
156
CARVALHO JR, Celso. A criação da Petrobras nas páginas dos jornais O Estado de S. Paulo e
Diário de Notícias. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências e Letras – Universidade
Estadual Paulista, Assis-SP, 2005, 180 f. : il.
157
Tribuna da Imprensa, 12/12/51.
56

internacional, como o presidente havia prometido durante sua campanha. Com isso, era
apresentado que o país estava diante de um grande avanço, que era a exploração do
petróleo em nosso território e, independente de ter ou não o monopólio estatal, o
importante era enxergar o progresso que a Petrobrás trazia para o Brasil. A principal
crítica do jornal era que a oposição, principalmente a Tribuna da Imprensa, estava
acusando o governo por questões particulares, não direcionando a atenção para o que
realmente tinha valor naquele momento, ou seja, para o Projeto de um modo geral. O
vespertino dizia que a criação da empresa Petróleo Brasileiro S.A. “era mais importante
158
do que Volta Redonda, de maior alcance do que a Companhia do Vale do São
159
Francisco, de relevância superior a Vale do Rio Doce”.
No exemplar de 12 de dezembro de 1951, a Última Hora fez uma defesa ao
governo, fazendo um breve “tutorial” de como funcionaria a empresa. Em primeiro
lugar mostrava que bastava ter um pouco de bom senso para perceber que o capital
misto não atrapalhava o nacionalismo, visto que 51% das ações seriam pertencentes ao
governo. Além disso, explicava como seria a organização da empresa, como seriam
escolhidos os membros do Conselho de Administração, ressaltando a seriedade e
qualidade do Projeto. Após explicar o funcionamento, reiterava: “dentro de tais normas
de Constituição do corpo diretor da “Petrobrás” não pode prevalecer outro interesse que
160
não o nacional”.
O posicionamento da oposição diante da questão do petróleo, nos deixa bem
claro o quanto foi intensa a perseguição a Vargas e mostra a que ponto chegou essa
rivalidade, pois tirar o presidente do poder, a qualquer custo, foi levado muito a sério, se
apresentando de uma forma exagerada, se assemelhando a uma birra infantil, como por
exemplo, os termos utilizados na Tribuna da Imprensa ao se referir ao presidente ou
seus aliados como: “bobo”, “palhaço”, “idiota”. Desse modo, a conjuntura exigia de
Vargas maior esforço para conseguir dar sequência aos seus planos e cumprir as
promessas feitas ao povo, durante sua campanha, afinal, este era seu maior objetivo
desde que decidiu pela Presidência novamente.
Os problemas não se encerraram com o fim do primeiro ano de governo, a partir
de 1952, aumentaram as dificuldades econômicas, principalmente devido à vitória do
158
Aqui se faz referencia à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), localizada em Volta Redonda, criada no
primeiro governo Vargas.
159
Última Hora, 7/12/1951.
160
Última Hora, 12/12/51.
57

republicano, General Dwight Eisenhower, para a presidência dos Estados Unidos. O


presidente eleito investiu numa política de combate ao comunismo e desejando
aumentar a influência norte-americana, rompeu os acordos da CMBEU, alegando que
era necessário conter gastos públicos. Seu interesse era combater, claramente, as
tendências estatizantes e nacionalistas no terceiro mundo. Além disso, o Banco Mundial
161
passou a cobrar do Brasil as dividas referentes aos empréstimos atrasados.

Diante disso, o ano de 1953 se iniciou com a inflação em alta e com a queda dos
salários. Vargas não conseguiu manter a política de combate à inflação, principalmente,
devido à queda nos preços do café e a mudança no rumo da política externa, a partir do
162
resultado das eleições presidenciais norte-americanas.

A inflação agravava as tensões sociais, porque tornara dramáticas as


alterações na distribuição da renda, e criava incertezas quanto à participação
na mesma [...]. O grupo que mais sofria com o aumento do custo de vida era
163
a classe operária urbana.

Na câmara dos deputados, a oposição aproveitou para intensificar as críticas à


política econômica de Vargas. O deputado Alberto Deodato expressou sua indignação,
em março de 1953:

Nada mais objetivo, nada mais realista do que a ciência da administração


política e uma prova do erro tremendo praticado pela política financeira do
Sr. Presidente da República [...]. Que o resultado foi este: a inflação, a
omissão à seca no Nordeste, o desequilíbrio de nossa balança orçamentária, o
164
custo de vida.

Tais dificuldades econômicas contribuíram para a eclosão de uma grande greve


em São Paulo. O movimento contou com a participação de 180 mil operários,
reivindicando, principalmente, 60% de aumento salarial, tendo duração de cerca de um
165
mês, atingindo em maior parte os setores têxtil e metalúrgico.

161
FERREIRA, Jorge. Crises da República: 1954,1955 e 1961. In: ______; DELGADO, Lucília de
Almeida Neves (org). O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática, da democratização de
1945 ao golpe civil-militar. Civilização Brasileira, RJ: 2003. p. 301-343.
162
MENDONÇA, Marina Gusmão. O demolidor de presidentes. São Paulo: Editora Códex. 2002.
163
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. 1930-1945. 14ª edição, Rio de janeiro -
Paz e Terra, 2007. p. 145.
164
Diário do Congresso Nacional, 10/03/1953. p. 1623.
165
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora SENAC,
1998.
58

Após um mês de grandes discussões e conflitos violentos, as partes chegaram


a um acordo e o Comitê Intersindical da Greve, que reunia vários sindicatos,
aceitou a oferta patronal de um reajuste médio de 32% nos salários e
garantias para os trabalhadores presos. Terminava vitoriosa, aquela que ficou
166
conhecida como a Greve dos 300 mil.

Junto à Greve somavam-se as discussões sobre o aumento do salário mínimo,


que não tivera reajuste desde 1951. Última Hora publicou uma entrevista com o
presidente do sindicato dos têxteis de São Paulo, o Sr. Nelson Rustici que defendia os
operários de São Paulo, dizendo:

Desde o início do movimento grevista, os operários têxteis têm dado


demonstração de que o seu movimento é pacífico e que visa unicamente o
aumento do salário solicitado aos patrões e por eles negado. [...] Os têxteis
estão firmes no seu propósito de melhoria de vida e alheios a quaisquer
manifestações violentas, equidistantes, portanto, daqueles que querem
167
perturbar a ordem, em prejuízo desse mesmo propósito.

Diante da necessidade de encontrar a estabilidade, Vargas apostou numa


reorganização do seu Ministério, no início do segundo semestre de 1953. Para o
Ministério da Fazenda foi escolhido Oswaldo Aranha, para o Ministério da Justiça,
Tancredo Neves e para o Ministério do Trabalho, o seu jovem amigo, João Goulart. A
escolha do novo ministro do Trabalho provocou agitação nos setores da oposição, pois
com essa medida, o presidente, que já contava com a desconfiança da classe média,
estava demonstrando estar se aproximando do operariado. A insatisfação da UDN com a
indicação do novo ministro pode ser identificada no depoimento de Juracy Magalhães:
“Entre o Jango e Getúlio, não há duvida de que o Jango era muito pior do que o Getúlio
para os objetivos da UDN. Em síntese, Jango seria Getúlio sem as qualidades de
168
Getúlio”. Por outro lado, a indicação de Jango também acalmaria os ânimos dos
trabalhadores, uma vez que ele nunca tinha sido um grande incentivador de greves, já
que buscava resolver os conflitos antes que precisasse chegar a tal ponto, pois tinha

166
FERREIRA, Jorge. O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-1964.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 100.
167
Última Hora 28/03/1953.
168
Apud MENDONÇA, Marina Gusmão. O demolidor de presidentes. São Paulo: Editora Códex. 2002. p.
124.
59

aversão à violência e também, do ponto de vista político era mais vantajoso ser o
169
responsável por melhorias.

Além da proximidade com a classe trabalhadora, Vargas buscava uma


reaproximação com o próprio PTB, do qual Goulart fazia parte, já que nos primeiros
anos de seu governo se dedicou mais em buscar apoio dos adversários. Era necessária
uma estratégia para mobilização da classe operária, mas que não afastasse os industriais.
Algumas vertentes tendem a acreditar que a reforma ministerial representou uma
guinada à esquerda pelo governo. Porém, concordamos com Maria Celina D‟Araújo,
que não houve nessa atitude tal pretensão, visto que embora a reforma tenha sido
oriunda de uma necessidade do Governo reformular seus compromissos, não expressou
uma mudança real, uma opção por uma nova orientação.

A política de conciliação, promovida de Vargas, não obteve êxito, mesmo tendo


cedido ministérios à UDN. O ressentimento por parte da oposição e a hostilidade por
parte da imprensa somavam-se às desconfianças em relação ao período em que o
presidente fora um ditador.

A opção pelo golpe foi sendo gradativamente amadurecida, e tornou-se


irreversível a partir de 1953. Predominou uma postura intransigente de não-
colaboracionismo, e a UDN passou não apenas a se alhear das funções
governamentais, deixando que o Governo resolvesse seus problemas sozinho,
como ainda decidiu dificultar ao máximo e, se possível, obstruir as
170
possibilidades do Governo.

A difícil realidade vivida por Vargas se agravava de acordo com a proporção em


que a imprensa buscava influenciar a opinião pública, sobre os defeitos de seu governo.
A rivalidade entre Tribuna da Imprensa e Última Hora, que se apresentou desde o
início de seu mandato, alcançou um ponto mais crítico a partir de 1953.

2.1 A CPI da Última Hora

Lacerda, assim como todos os homens da grande imprensa, via a Última Hora
como grande rival comercial, visto que o periódico cada vez mais aumentava sua
tiragem e prestígio popular. Segundo ele, era “um jornal que pelo mesmo preço que a
gente vendia, fornecia um suplemento colorido diário, pagava os melhores salários da

169
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001.
170
Ibidem, p. 124.
60

171
praça e arrebanhou o que de melhor havia em colaboração e técnicos”. Além disso,
por ser um jornal a favor do presidente da República, causava ainda mais desconforto.

Em 1953, além dos problemas políticos e econômicos que já vinha enfrentando,


o presidente teria que dar conta de uma nova questão: a campanha contra a Última
Hora. Na época da criação do jornal, Samuel Wainer conseguiu apoio financeiro para o
jornal através de nomes conhecidos do empresariado nacional que eram ligados a
Vargas, como: Walter Moreira Salles, que foi embaixador do Brasil, em Washington;
Ricardo Jafet, a quem pertencia o Banco Cruzeiro do Sul e ocupava o cargo de
presidente do Banco do Brasil; o deputado Euvaldo Lodi, presidente da Confederação
Nacional da Indústria, possuindo grande influência da Fiesp, ligado, também, ao SESI e
ao SENAI; o governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitscheck e o influente
172
industrial, de São Paulo, Francisco Matarazzo III.

Tais ligações, mantidas por Wainer, levou à oposição a possibilidade de acusar o


presidente de utilizar as instituições públicas, no caso o Banco do Brasil, para
favorecimento de seu aliado na imprensa. O estopim para a largada ao ataque direto à
Última Hora foi uma entrevista, supostamente, feita por Natalício Norberto, que
trabalhava na Tribuna da Imprensa, com o ex-deputado Herófilo Azambuja, na qual o
entrevistado afirmava que o Banco do Brasil financiava quase todas as operações do
jornal, incluindo até a compra de papel.

O contexto dessa entrevista era nebuloso. Algum tempo depois da publicação da


entrevista, Natalício foi contratado pela Última Hora, onde revelou que tal entrevista
não fora realizada pessoalmente, mas por telefone, fator que colocava em dúvida se
quem proferiu tais informações fosse mesmo o Sr. Azambuja, além disso, o repórter
disse que não se lembrava de alguns detalhes que constavam na entrevista, que recebera
o aval de Carlos Lacerda para publicação.

Lacerda, por sua vez, traz outra versão para o ocorrido. Segundo ele, um
repórter, do qual nem se lembrava do nome, publicou uma reportagem na Tribuna da
Imprensa, que também alegou não se lembrar do assunto, desmentindo-a depois, na
Última Hora, levando a entender que seu jornal publicou uma notícia falsa, sendo que o

171
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. p. 125
172
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora SENAC,
1998.
61

autor da falsificação não fora o repórter, visto que ele quem estava denunciando. O
ocorrido foi interpretado por ele como uma possível armação de Wainer contra seu
jornal, já que alegou “que não tinha nada a ver com isso, tinha apenas publicado a
173
entrevista, confiando no repórter que a tinha feito”. Lacerda utilizou tal situação
como pretexto para disparar, com mais ênfase, a crítica aos recursos recebidos pela
Última Hora. Wainer entendia as motivações de Lacerda para o levantamento de
acusações:
Era preciso destruir meu jornal, sob o pretexto de que a Última Hora
representava uma ameaça à imprensa brasileira. Na linha de raciocínio de
Lacerda, era preciso provar que a Última Hora recebera irregularmente
dinheiro do governo, para liquidar o jornal e, em seguida, destruir Getúlio
174
Vargas.

Junto com os ataques de Lacerda, estavam as investidas por parte de


Chateaubriand. Para este, o jornal de Wainer também era muito ameaçador, visto que a
Última Hora já fazia mais sucesso que o seu Diário da Noite. O talento de Wainer era
conhecido pelo dono dos Diários Associados e era preciso eliminar este “problema”.
Para isso, Chatô colocou seu melhor repórter, David Nasser para se juntar a Lacerda na
destruição da Última Hora, pois além de ser um ótimo jornalista, Nasser tinha uma
motivação maior para esta tarefa, que era o ciúme que tinha de Wainer, ressentido desde
a época em que este conseguiu a entrevista com Vargas e se destacou mais do que ele
nos Diários Associados. Além disso, Chateaubriand abriu suas duas TVs, no Rio e em
São Paulo, para Lacerda ampliar sua campanha contra o jornal governista. O programa
de Lacerda começava às 22 horas e terminava sempre depois da meia noite, era
inovador por contar com a participação popular, existia um telefone para as pessoas
175
ligarem e tirar suas dúvidas, expressarem suas opiniões.

Com isso, Wainer viu a necessidade de encontrar uma maneira de atenuar os


ataques de Lacerda, no entanto ele e o presidente Vargas, não encontraram a melhor
estratégia, como ele mesmo reconheceu:

173
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. p. 126
174
WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um repórter. Rio de Janeiro: Record, 1987. p
140.
175
MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil, a vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das
Letras, 1994.
62

Àquela altura, a campanha contra a Última Hora atingiria níveis


decididamente perigosos, graças também a erros que eu cometera, alguns
deles com a plena aprovação de Getúlio. Um desses erros foi estimular a
instalação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar da
176
Última Hora.

Wainer defendeu que instalar uma CPI seria um mecanismo para desarmar
Lacerda. Em correspondência a Vargas disse: “Vamos assistir de camarote o estouro da
boiada. Já liquidamos o Lacerda no campo jornalístico, agora pretendemos dar-lhe um
177
“nock-out” no campo parlamentar”. No entanto, ocorreu o contrário, pois a
investigação da CPI tornou-se o “palco” que ele precisava. Wainer pensava que a parte
favorável a Getulio, no Congresso, o defenderia, fato que não ocorreu, pois além de ter
poucos membros do Legislativo apoiando o governo, os poucos que apoiavam não
hesitavam em traí-lo, pois não eram unânimes em simpatia a Wainer. Nem mesmo
Vargas conseguiu ter esta percepção no momento em que se originou a ideia da CPI.

Não prever tais resultados, porém, não foi o maior erro de Wainer. Como ele
ressalta em suas memórias, confiou demais em si mesmo, sua ingenuidade ou vaidade,
fez com que optasse por se defender, durante a CPI, sem acompanhamento de um
advogado. Ele subestimou seus adversários, visto que a CPI não foi uma investigação
efêmera, ela se tornou uma opção real de destruir o jornal com foco em derrubar o
presidente. Deve ser ressaltado, que a UDN tinha em seus membros um grande número
de advogados com vasta habilidade retórica. Desse modo, Wainer e Vargas embarcaram
num caminho errado que traria fortes consequências, entre elas o fortalecimento da
UDN e Lacerda contra Vargas.

A CPI foi aberta em 03 de junho de 1953, pela Resolução nº 313, presidida pelo
deputado Carlos Castilho Cabral (PSP), tendo como objetivo, realizar a apuração dos
178
empréstimos cedidos à Última Hora, pelo Banco do Brasil. Foi escolhido como
relator o petebista Frota Aguiar, pois segundo o presidente do partido, Brochado da
Rocha, sua experiência em inquéritos, adquirida nos tempos em que fora delegado, seria
importante para a investigação. O PSD tinha a maioria dos membros da comissão, a
UDN estava em minoria, porém a “Banda de Música”, a ala mais aguerrida do partido,

176
WAINER, Samuel. Op. Cit. p. 177.
177
Arquivo CPDOC: GV c 1953.05.00/3.
178
MENDONÇA, Marina Gusmão. O demolidor de presidentes. São Paulo: Editora Códex. 2002.
63

se dedicou em fazer o máximo para prejudicar Vargas, provocando desconfianças em


torno de sua imagem para alimentar a instauração de um processo de impeachment.

A partir de então, o assunto correu amplamente no Congresso. O deputado Bilac


Pinto acusou Wainer e seus financiadores de omitirem a participação do presidente da
República na articulação dos empréstimos aos jornais. Era importante para a UDN
mostrar o envolvimento de Vargas ou incendiar a CPI com essa possibilidade, para que
o alvo maior, que era a tentativa do impeachment, fosse alcançado. Tal intenção pode
ser vista em seu discurso, proferido na Câmara, em agosto de 1953:

Dentro em pouco verificará que há prova testemunhal e que a negativa


perante a Comissão de Inquérito de três dos financiadores, escondendo a
intervenção do Presidente da República, negando que ela se tinha feito,
constituiu delito de ocultação da verdade. [...] Conde Francisco Matarazzo,
declarou que tinha atendido à solicitação de Wainer em face da influência
direta ou indireta do Sr. Presidente da República. Interrogado perante a
Comissão de Inquérito, negou o fato [...] Mas porque o Sr. Matarazzo terá
negado, perante a Comissão de Inquérito, essa circunstância? A razão é
simples: se o Sr. Matarazzo teve interesse em atender à solicitação
presidencial, esse mesmo interesse estaria a determinar-lhe o silêncio diante
da Comissão de Inquérito[...]. Os dois outros responsáveis por operações de
caráter financeiro da “Última Hora”, o Sr. Ricardo Jafet e o honrado
deputado Euvaldo Lodi, também receberam, segundo comprovam indícios e
testemunhos, a palavra de interesse, a palavra de consentimento, a palavra de
autorização do Presidente da República para fazerem financiamentos à
179
“Última Hora”.

Nota-se que, Bilac Pinto utilizou de sua ironia para se referir ao deputado
Euvaldo Lodi como “um homem honrado”, levando a entender que se Lodi fosse de fato
um homem honrado não compactuaria com a “farsa” da qual Wainer e Vargas estariam
supostamente envolvidos. Com isso, agia através de duas possíveis estratégias: fazer o
deputado se sentir “culpado” e acabar falando mais sobre o que realmente fora acordado
durante o financiamento ou deixar subentendido que o deputado teria caráter duvidoso
por participar de uma negociata que tinha o Presidente da República em seu comando.
Ainda provocando Lodi, Bilac Pinto buscou demonstrar falhas de seu depoimento na
Comissão de Inquérito, reproduzindo um diálogo entre ele e Aloísio Alves, este que
exercia a função de redator da Tribuna da Imprensa.

179
Diário do Congresso Nacional, 28/08/1953. p. 914.
64

Ele [Lodi] declarou a Aloísio Alves que antes de fazer o empréstimo, fora ao
Sr. Getúlio Vargas e fizera a seguinte consulta: V. Ex.ª tem interesse em que
esse empréstimo seja feito ao Sr. Samuel Wainer? E o Sr. Getúlio Vargas
180
respondeu afirmativamente.

Lodi o rebatia afirmando sempre que não havia nenhuma prática ilegal no
financiamento, porém, a habilidade do deputado Bilac Pinto, em seu discurso de
acusação, dificultava a defesa dos envolvidos no caso da Última Hora. A oposição
explorou bastante sua retórica para dar uma entonação de que o que estava acontecendo
era muito grave e precisava de punição.
Além da atuação na Comissão de Inquérito, a UDN levava sua denúncia à
opinião pública, tendo como espaço para isso a Tribuna da Imprensa que também se
dedicava a utilizar tonalidade exagerada em suas publicações, visando se aproveitar do
momento de fraqueza pelo qual seu adversário passava.

A campanha contra a Última Hora foi benéfica para a circulação da Tribuna,


que havia caído de 19.050 exemplares em junho de 1951 para 14.900 em
junho de 1952 (devido à concorrência da Última Hora), mas que subiu para
24.700 em julho de 1953, levando Carlos a comentar com acionistas que
181
“Wainer tinha razão quando dizia que o crime ajuda a vender jornal”.

Para enfatizar a acusação, o jornal explorou o fato de Wainer não ter citado os
nomes de seus financiadores, abrindo, assim, um caminho para desconfianças. Em 07 de
Julho de 1953, o vespertino trazia uma matéria sobre Ricardo Jafet, dizendo: “era sócio
oculto de Wainer, o presidente do Banco do Brasil que emprestou milhões ao
182
aventureiro”.

Nessa matéria, Lacerda explorou a ideia de que Wainer estaria o tempo todo
guardando um segredo quanto às negociações, levantando suspeitas do tipo: “Mas que
segredo guarda Wainer?”. Nota-se na linguagem usada pelo jornal, as estratégias de
acusação: ao dizer que Jafet negociava com Wainer em oculto, denota a ideia de que era
algo errado, pois se é necessário ocultar é porque não é lícito. Além disso, ao se remeter
a Wainer como um aventureiro, transmitia sentido de irresponsabilidade, leviandade,

180
Diário do Congresso Nacional, 28/08/1953. p. 914
181 DULLES, John W. F. Carlos Lacerda - A Vida de um Lutador (1914-1960) - editora Nova Fronteira, Rio
de Janeiro, 1992, p. 164.
182
Tribuna da Imprensa, 07/07/1953.
65

desprestigiando o jornalista. Assim, ao relacionar tais ideias, insinuava a participação do


presidente em um crime real.

No dia seguinte, a Tribuna lançou uma nota informando que seria publicado o
discurso de Lacerda na Comissão, rebatendo as críticas feitas por Wainer, o que,
segundo o jornal, era uma “prestação de contas ao povo”. As batalhas travadas na
Comissão sendo estendidas à opinião pública fazia transparecer uma “lavagem de roupa
suja” pública, contribuindo para que o nome do presidente estivesse sempre em
evidência, na maioria das vezes em referência negativa.

Última Hora procurava se defender dos ataques na Comissão, demonstrando o


interesse político de seus adversários. Em editorial, o jornal afirmava que:

Interesses políticos estão tentando desviar os trabalhos da Comissão


Parlamentar de Inquérito, encarregada de investigar as relações do Banco do
Brasil com os órgãos da imprensa, escrita e falada. A intervenção dos Srs.
Aliomar Baleeiro e Armando Falcão, reforçada agora pela do Sr. Bilac Pinto,
não deixa margem à dúvida nesse sentido. [...] A atitude dos Srs. Baleeiro,
Falcão e Bilac, nos trabalhos da Comissão, põem a nu os seus desígnios: não
183
querem apurar a verdade, mas fazer confusão.

Lacerda buscou também, nesse contexto, mais um motivo para afetar seu
adversário. Dessa vez a proposta foi intrigar Wainer com a Igreja e os setores moralistas
da sociedade. Havia na Última Hora, a publicação do folhetim “A vida como ela é”,
escrito por Nelson Rodrigues, cuja temática normalmente envolviam histórias de moças
do subúrbio com rapazes cafajestes ou senhoras casadas que surpreendiam a todos com
a revelação de um adultério. Tais histórias rendiam boas vendas ao jornal. Então
Lacerda rapidamente, aproveitou uma oportunidade de cercar mais seu inimigo,
alegando que o jornal de Wainer usava o dinheiro recebido do Banco do Brasil,
“dinheiro público” para contribuir com a degradação moral da família brasileira. A
opinião de Lacerda foi compartilhada pelo jornalista Genival Rabelo editor da Revista
Publicidade e Negócios, que era da mesma empresa que publicava o Anuário Brasileiro
de Imprensa, que concordava com a ideia de que a obra de Nelson Rodrigues era um
desserviço para o Brasil e um absurdo vindo de um jornal que servia ao governo. Ao
fazer apelo moral em suas críticas, Lacerda mostrava Wainer como um perigo para a
família brasileira, além de ter um jornal “comunista”, duas coisas que causavam

183
Última Hora, 03/7/1953.
66

profundo espanto na classe média, sendo suficiente para conseguir aliados para a
184
condenação de seu jornal e do presidente.
Em meados de Julho de 1953, a campanha contra a Última Hora alcançou seu
auge, pois Lacerda declarou, na televisão, que possuía provas de que Wainer não havia
nascido no Brasil, pois sua família chegara ao Brasil, quando ele já tinha dois anos. Tal
fato impedia que ele fosse proprietário de um órgão de comunicação, conforme previa a
Constituição. Lacerda alegou que soube da informação por telefonema anônimo, porém,
há indícios de que ele já sabia disso há muito tempo, visto que na juventude foi muito
próximo de Wainer e sua família. A essa altura, já sendo um desafeto de Wainer, usou
185
desta informação e lançou na Tribuna da Imprensa a revelação “bombástica”. A
revelação feita por Lacerda, nessas condições, chegou a parecer uma traição, pois
mesmo que não fosse mais amigo de Wainer, se esperava que o que se passou na
juventude fosse mantido, tanto que Dora Wainer, mãe de Samuel, após assistir à
apresentação dele na televisão, perguntou ao filho: “Por que ele te odeia tanto? Ele vivia
186
na nossa casa, era tão bonzinho”. Porém, os tempos eram outros, e o que tinha valor
eram os interesses de cada um.
A acusação caía sobre a Última Hora como uma bomba. Movidos cada um deles,
por razões diferentes, Lacerda, Assis Chateaubriand e a oposição udenista desencadearam
uma ofensiva irresistível contra Wainer. Para o dono dos Diários Associados, tratava-se de
eliminar, a qualquer custo, um concorrente que ousara desafiar seu monopólio na edição de
revistas semanais. Para a UDN, a questão principal era provar que a Última Hora recebera,
de fato, um tratamento privilegiado do Banco do
Brasil, o que lhe permitiria vincular Getúlio e todos os seus correligionários ao “mar de
lama”. Finalmente, para Lacerda essa era a grande oportunidade de se vingar,
187
simultaneamente, de dois grandes inimigos políticos.

A situação de Wainer se complicou após ser acusado por falsidade ideológica,


pois foi descoberto que seu irmão, José, teria alterado, no Ministério do Trabalho, a data
de uma roupa no trem de imigrantes que constava 1920 para 1905, com a intenção de
184
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora
SENAC, 1998.
185
MENDONÇA, Marina Gusmão. O demolidor de presidentes. São Paulo: Editora Códex. 2002.
186 DULLES, John W. F. Carlos Lacerda - A Vida de um Lutador (1914-1960) - editora Nova
Fronteira, Rio de Janeiro, 1992, p. 162.
187
MENDONÇA, Marina Gusmão. Op. Cit. p. 136.
67

dizer que Wainer tinha nascido no Brasil. Tal acusação rendeu a condenação de Wainer
e seu irmão a um ano de prisão, no entanto a pena não foi cumprida, e seriam absolvidos
no julgamento, em 1955. Diante dos escândalos envolvendo o jornal, houve a perda de
alguns anunciantes e, apesar de não interferir na tiragem do jornal, ter menos
publicidade desequilibrou as finanças colocando-o em dificuldades financeiras.

A CPI da Última Hora estava causando grande desgaste para a política


brasileira. O deputado Armando Falcão, do PSD, expressou o quanto o governo estava
sendo prejudicado, alertando para a necessidade de reagir a isso.

Cada dia que o governo perde, sem tomar as providências que a moral e o
dever estão a exigir, nova revelação surge, e com ela, mais se comprometem
os que pela condescendência facilitaram esse assalto que bem poderá, se não
for exemplarmente punido, constituir o símbolo de uma época, a marca
definitiva de um governo. E a opinião pública, tão exemplar na reação que
está correspondendo aos esforços de alguns brasileiros, em cujo número,
embora modestamente, eu me orgulho de figurar, ainda mais vigilante se
torna e mais afastada vai ficando daqueles que não correspondem aos seus
anseios moralizadores. [...] É lamentável que o honrado senhor Getúlio
Vargas, que poderá ter muitos defeitos, mas que é um homem a que não falta
acuidade política, não tenha se dado conta da gravidade do caso da “Última
Hora”, do que representaria para o seu governo o prolongamento da
imprensa, do rádio, da televisão, das conferências e comícios, desse
escândalo sem precedentes, em que alguns aventureiros sob o pretexto de dar
cobertura jornalística ao governo, acabaram envolvendo-o num episódio
tanto mais vergonhoso quanto é certo que houve da parte deles, desses
aventureiros o propósito deliberado de envolver a própria família do chefe da
188
Nação.

No meio das investigações, do caso que o deputado Heitor Beltrão definiu como:
189
“escândalo inominável, ignomioso”, as acusações se estenderam a Lutero Vargas,
filho do Presidente, que era deputado do PTB, pelo Distrito Federal. Lutero colaborou
com Wainer durante as negociações do financiamento com o Banco do Brasil, fator este
que propiciou que as denúncias ao Presidente, já pelo envolvimento com Wainer,
fossem mais exploradas ao ter o nome de seu filho neste caso. Uma das principais
denúncias sobre Lutero foi proferida pelo udenista Aliomar Baleeiro, alegando que
houve favorecimento do Banco do Brasil para o empréstimo para a Última Hora, uma
vez que Wainer não teria condições para conseguir um empréstimo de uma quantia tão
alta, através dos métodos normais do banco.

188
Diário do Congresso Nacional, 22/08/1953.
189
Diário do Congresso Nacional, 03/09/1953.
68

Só pelo fato de se tratar de título assinado pelo senhor Samuel Wainer, que
se declarou insolvável, porque o único bem que possuía era um apartamento
de 200 mil Cruzeiros, e pelo nobre Deputado Lutero Vargas que declarou não
ter forças econômicas para responder por 22 milhões de cruzeiros: - só o fato
de se tratar de um título assinado por duas pessoas - uma das quais, o
Deputado Lutero Vargas, é digna, mas a outra, talvez não seja – sem
idoneidade financeira; só esse fato de um título do vulto de 22 milhões de
cruzeiros ter sido assinado por pessoas sem idoneidade financeira era
suficiente para caracterizar uma diferenciação, uma discriminação que coloca
aquela operação dos Srs. Wainer e [Lutero] Vargas como destoante dos
padrões gerais e uniformes que devem seguir todos os negócios feitos por
190
congressistas perante as sucursais do Banco do Brasil.

Em resposta, Lutero enfatizou que as acusações feitas ao jornalista eram


provenientes do incômodo dos outros jornais que o viam como forte concorrente, haja
vista seu sucesso de vendas. Em sua defesa, Lutero declarou:

Sob a alegação de ser eu filho do Sr. Presidente da República, quiseram


alguns de meus adversários, quiseram alguns detratores vislumbrar ou
estabelecer ligações entre atos da minha vida, de cidadão e de político, com
outros de meu honrado pai, o Sr. Getúlio Vargas . [...] o Sr. Samuel Wainer é
um jornalista como qualquer outro, terá defeitos e tem qualidades
indiscutíveis. [...] Após a eleição do Presidente poderia ter pleiteado
empregos ou cargos. Não os solicitou. Pediu apenas para ser considerado um
amigo. Nessa qualidade e apesar das advertências de que jornais favoráveis a
quaisquer governos sempre fracassam, buscou e encontrou quem o ajudasse,
inclusive eu. Se fracassasse alguns teriam feito um mau negócio. No entanto,
venceu. E é por isso que hoje o atacam de todos os modos. O desespero dos
seus competidores seria até cômico, se não estivesse, como está,
191
prejudicando ao próprio País, conturbando a opinião pública [...].

Lutero justificou, ainda, que por ter nascido no Rio Grande do Sul herdou a
característica de seus conterrâneos, de saber ajudar aqueles que são seus amigos, e
também a capacidade de serem filhos independentes. Logo, segundo ele, a colaboração
dada a Wainer nada tinha a ver com seu pai, visto que já era homem adulto e
responsável por seus atos, não precisando do consentimento de seu pai para resolver
algo dessa natureza. Dizia ainda que:

Não houve, como se vê, quebra de rotina nas praxes do Banco do Brasil e,
muito menos discriminação para favorecimento de quaisquer interesses. Não
violei, portanto, Sr. Presidente, qualquer dispositivo constitucional, qualquer
dispositivo legal, e muito menos qualquer das normas de moral, privada ou
pública que devem nortear os homens de bem. (...) Na verdade, quem se quer

190
Diário do Congresso Nacional, 15/09/1953.
191
Diário do Congresso Nacional, 03/10/1953.
69

atingir, por meu intermédio, é a pessoa, por todos os títulos digna e honrada
192
do Sr. Getúlio Vargas.

No entanto, por mais que houvesse a tentativa da defesa em mostrar que as


negociações não foram feitas pelo Presidente da República, não era possível dissociar
sua pessoa de tal contexto, pois os envolvidos eram pessoas muito próximas a ele e o
jornal Última Hora, que era declaradamente governista. Provar o envolvimento de
Vargas não era possível, porém para a oposição isso não era o mais importante, pois
gerar a dúvida já era suficiente para prejudicá-lo. O próprio Lacerda demonstrava isso
com suas manchetes, que muitas vezes não eram comprovadas, mas que a partir do
momento que foram veiculadas, devido à credibilidade que os meios de comunicação
possuem, já surtiram um efeito irrevogável.

Enfim, teve o encerramento da CPI em 03 de novembro de 1953. O relatório


dizia que os empréstimos cedidos a Wainer só foram possíveis devido à influência que
possuía nas altas cúpulas e apresentava testemunhas que provavam que os mesmos
estavam ligados aos interesses de Vargas. Desse modo a CPI conseguia provar todas as
acusações contra a Última Hora, restando apenas a incerteza de quem seria o quarto
financiador do jornal, que já havia sido relatado pela oposição, ser o presidente do
Banco do Brasil, Ricardo Jafet, o que foi comprovado, por Wainer, em suas memórias.
A defesa julgou o documento influenciado por interesses políticos, carregados de
opiniões pessoais, acrescentando que a ligação com empresas privadas não significava
infringir a lei.

O desfecho da CPI teve como consequências: a cassação da concessão da Rádio


Clube e a determinação de Vargas para a execução da dívida da editora Érica, também
de propriedade de Wainer, e do jornal Última Hora, estabelecendo que o pagamento
fosse realizado em oito dias. A dívida foi sanada após o fim do expediente da data limite
(08/11/1953), graças à ajuda recebida por Juscelino Kubitscheck.

Fazer o pagamento em cima do fim do prazo teria sido uma jogada de Wainer,
pois a Tribuna da Imprensa, que aguardava mais uma chance de atacar o inimigo, iria
publicar que a dívida não havia sido quitada, o que seria desmentido pela Última Hora,

192
Diário do Congresso Nacional, 03/10/1953.
70

193
desmoralizando Lacerda. No dia seguinte, a Última Hora buscou destacar o fato de
ter sanado suas dívidas como forma de se apresentar superior aos outros órgãos da
imprensa que também deviam à Instituição, dizendo: “quase todos os jornais devem ao
Banco do Brasil, mas somente ÚLTIMA HORA pagou integralmente os seus débitos
em tempo”. Assim, buscava calar os inimigos que julgavam o caráter de Wainer e o
andamento de suas empresas.

Na verdade, o crime de que Wainer fora acusado, era prática muito comum na
imprensa brasileira, a maioria dos jornais tomavam empréstimos do Banco do Brasil,
inclusive em maior valor que o seu. Até fevereiro de 1953, estava contabilizado CR$
277.088.115,10 em atraso nestes pagamentos, o que representava cerca de 50% do total.
Até mesmo a Tribuna da Imprensa contraiu empréstimos, como Lacerda contou em seu
depoimento:

Danton Coelho se aproximou de mim e me ofereceu um empréstimo do


Banco do Brasil. [...] Empréstimo que eu aceitei e que foi um ponto fraco de
que eles usaram em toda Campanha: “O senhor também recebeu um
194
empréstimo do Banco do Brasil”.

Diante disso, torna-se mais evidente que tal campanha contrária à Última Hora,
estava ligada aos interesses de inimigos políticos e jornalísticos que queriam destruir
195
um jornal potente e favorável ao governo. Fernando Morais ressalta, em sua
biografia de Assis Chateaubriand, que este dizia que este jornal não podia permitir que
se mantivesse o crescimento de um concorrente tão perigoso, pois a grande cadeia dos
Diários Associados começou como a Última Hora, ou seja, se o vespertino de Wainer
continuasse assim, se tornaria também, um “império” dos jornais.
No relatório final da CPI, a referência ao presidente Vargas dizia que o único ato
pessoal do presidente em favor de Wainer e seu jornal, além das audiências que lhe
concedia, fora a carta que lhe enviara na data de abertura de seu jornal em 12 de junho
de 1951, em que fazia votos ao jornal. Não havendo assim, a real criminalização do
presidente como desejava a UDN.

193
LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Editora
SENAC, 1998.
194
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. p. 125.
195
MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil, a vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia
das Letras, 1994.
71

2.2 1954: um ano decisivo

Os conflitos envolvendo o presidente e seus aliados não cessaram com o fim da


CPI, o ano de 1954 traria surpresas ainda mais complexas e decisivas para o país. Em
janeiro, a questão do aumento dos salários estava em voga, tendo como alvo da
discussão o Ministro do Trabalho, João Goulart. As decisões em torno dessa questão
foram tomadas em meio a uma série de protestos dos trabalhadores, e Jango buscava
atenuar tais conflitos. Vargas que passava o verão trabalhando, em Petrópolis, recebia
uma delegação de trabalhadores que lhe apresentaram suas reivindicações. No seio dos
setores conservadores a especulação era de que Jango proporia um aumento de 100%
dos salários, o que prejudicaria a classe média, causando seu descontentamento.
Paralelo a isto, em fevereiro, o Ministro da Guerra, Ciro do Espírito Santo Cardoso,
recebeu a notificação da existência de um documento em crítica ao governo, que havia
sido assinado por um grande número de coronéis do Exército. Este memorial teve
grande circulação na imprensa e causou impacto por sinalizar que Vargas estava à prova
da opinião do Exército, além disso, contribuiu para a demissão do Ministro da Guerra e
do Trabalho.
O memorial foi assinado por 82 oficiais, redigido pelo tenente-coronel Golbery
do Couto e Silva, alegando que:

Ao Exército faltavam verbas e equipamentos, que os efetivos eram mal


pagos, não contavam com eficaz assistência social e entre eles germinavam o
descontentamento e as inquietudes. E acrescentava que a elevação do salário
mínimo ao nível que atingiam os vencimentos máximos de um graduado
196
provocaria uma crise de recrutamento no Exército.

Era notório no manifesto, o ressentimento em relação à perda de status dos


oficiais, pois se o aumento de 100% no salário mínimo realmente fosse proporcionado,
significaria que um trabalhador comum, teria um padrão de vida semelhante ao de um
oficial. Preocupante era, neste movimento, a participação de jovens oficiais que
demonstravam seu descontentamento com o presidente, jovens estes que nunca
estiveram ligados a outros movimentos contra Vargas, além disso, grande parte desses
oficiais estava transmitindo um sentimento de grande parte da classe média.

196
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. p.518.
72

O memorial representou grande surpresa para Vargas, pois sempre esteve atento
às reivindicações do Exército, e quanto a isso, esteve incomodado com a atitude do
Ministro da Guerra que omitiu o descontentamento dos oficiais. O general Ciro do
Espírito Santo Cardoso, ao tomar conhecimento do documento dos coronéis teve reação
enérgica de providenciar a punição dos mesmos, porém após reunião com os generais
do Estado-Maior do Exército, percebeu que seria melhor não tomar esta atitude, para
evitar maiores complicações. Visto que a solução para o impasse com os oficiais seria
apenas o maior comprometimento do presidente, o Ministro declarou:

Não há crise militar [...]. Os coronéis fizeram um documento de colaboração


com o governo. Reafirmo que não houve indisciplina. Não há, portanto, que
197
se pensar na aplicação de sanções.

Na realidade, a intenção dos signatários, não era colaborar com o governo, como
o ministro tentou amenizar, mas sim, desestabilizar e derrubar o governo. Dessa forma o
general Cardoso preferiu não reagir ao memorial, e pediu demissão, já que, também,
estava “mal visto” pelo presidente. O Ministério da Guerra foi ocupado pelo General
Euclides Zenóbio da Costa, comandante da Zona Militar Leste, a mais importante de
todas. Conhecido por exercer franca oposição à infiltração comunista nas Forças
Armadas, ao assumir o cargo, declarou estar isento de interferências no caso do
memorial, alegava que: “A solução já foi dada pelo general Ciro do Espírito Santo
198
Cardoso. Para mim, a questão está superada”. Com a nomeação de Zenóbio, Vargas
esperava recuperar a autoridade sobre a oficialidade que o anterior havia perdido.
Junto à queda do general Cardoso, aconteceu a queda de Jango do Ministério do
Trabalho, que era o objetivo maior dos signatários do memorial. No dia 22 de fevereiro,
Jango apresentou a proposta do aumento de 100% do aumento do salário mínimo, nesta
mesma data foi a sua saída. Em seu pedido de demissão, escreveu ao presidente:

Acredito que tenha colaborado para dar um sentido mais social e mais cristão
à nossa democracia.... Tenho absoluta convicção de que agi com dignidade,
preferindo ficar do lado dos trabalhadores a pactuar com os inúmeros
advogados de interesses espúrios que muitas vezes bateram às portas do meu
gabinete, pretendendo especular com o sofrimento e a desgraça do povo. Não

197
Tribuna da Imprensa, 20/02/54.
198
Tribuna da Imprensa, 20/02/1954.
73

pretendo recuar do caminho que até agora venho seguindo. Continuo ao lado
199
dos trabalhadores. Apenas mudo de trincheira.

Para o Ministério do Trabalho, Vargas não nomeou sucessor a Jango, apenas


estabeleceu que, Hugo Faria ficaria interinamente respondendo pelo expediente desta
pasta. Assim, o presidente mostrava que mesmo Jango tendo deixado o cargo, a política
em relação aos trabalhadores não mudaria de sentido. Talvez por isso, Hugo Faria
adotou uma postura discreta, para não transparecer divergências em relação ao estilo de
seu antecessor. Houve especulações de que o presidente nomearia o embaixador na
Argentina, Batista Luzardo, para o Ministério do Trabalho, o que para a oposição
representava maior risco do que o próprio Jango, uma vez que esta vivia o medo da
implantação de uma república sindicalista, como na Argentina, e a subserviência de
200
Luzardo a Perón seria maior que a de Jango.
Em março, Vargas enviou a mensagem anual ao Congresso. Nesta, o tom
nacionalista era muito maior do que na anterior. Ressaltava que o Brasil estava
caminhando em direção de sua emancipação econômica, um exemplo disso fora o
projeto de lei da criação da Eletrobrás, empresa de energia elétrica, cuja administração
seria feita pelo Estado, superando o déficit de produção de energia apresentado pelas
empresas internacionais, principalmente norte-americanas e canadenses, nesse caso, ia
contra os interesses das empresas estrangeiras. Segundo Skidmore:

Com a saída de Jango, a oposição antigetulista perdera seu alvo predileto


para os ataques que dirigia aos membros do governo. Passaram então a
concentrar seu fogo sobre o próprio Getúlio, dizendo que o presidente ainda
nutria esperanças da possibilidade de um golpe destinado a mantê-lo no
201
poder quando se expirasse se mandato, em janeiro de 1956.

Vargas já se apresentava muito cansado, vivendo um mandato tão conturbado e,


para piorar, a oposição explorou com mais ênfase a ideia de que ele desejava implantar
uma República Sindicalista em moldes peronistas. Carlos Lacerda foi quem mais
explorou essa questão, através de seu jornal denunciou o pacto ABC (Argentina, Brasil
e Chile) contra a hegemonia norte-americana. Para esta acusação, Lacerda pôde contar

199
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. p. 522.
200
Tribuna da Imprensa, 23/02/54.
201
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. 1930-1945. 14ª edição, Rio de janeiro -
Paz e Terra, 2007, p. 169.
74

com o apoio do ex-ministro das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, que
relatou a existência deste pacto, em uma entrevista cedida ao jornal O Globo. As
acusações do ex-ministro partiam de ressentimentos do período em que esteve em
exercício no ministério, por julgar não ter recebido apoio político durante sua gestão e
também discordava das orientações de restrições ao capital estrangeiro, seguidas pelo
governo. O antiamericanismo contido no “pacto” acendia a fúria daqueles antigetulistas
que buscavam acatar as expectativas das lideranças dos Estados Unidos no que diz
respeito à política externa.
João Neves sustentava sua acusação, afirmando que Perón, teria feito um
discurso na Escola Superior de Guerra da Argentina, se queixando de que Vargas não
estava cumprindo o acordo. O governo da Argentina negou esta versão, porém o alarde
já havia sido feito no Brasil. A Tribuna da Imprensa trazia, no dia 04 de abril de 1954, o
depoimento do ex-ministro e transcrevia parte do dito discurso em que Perón dizia ter
202
ido ao Chile, com a permissão de Vargas, para afirmar o acordo. O chefe de
gabinete da Casa Civil, Lourival Fontes, responderia a acusação, dizendo:

Só porque enveredamos pelo reino da fábula é que podemos tomar a sério


essa história inverossímil. Somente um cérebro infantil poderia admitir que
um chefe de Estado descesse de sua posição soberana para pedir licença a
outro governante a fim de que pudesse visitar um terceiro país, como um
menino de escola primária que pede licença à professora para ir “lá fora”. Só
também uma inteligência retardada poderia admitir que um chefe de Estado
autorizasse um titular estrangeiro a representar o seu país perante outro
203
governo.

Com isso Lourival dizia que era absurda a afirmação da existência de um pacto
conspirador que seria tão amador se tratando de líderes de governos. Na verdade,
segundo ele, a única informação recebida por Vargas, em relação a isso, foi da parte do
Embaixador Luzardo, dizendo que o presidente argentino buscava melhorar as relações
com o Chile, um informe de caráter normal se tratando das funções de um Embaixador.
Porém, a capacidade da oposição em fazer coisas pequenas se tornarem um escândalo
falou mais alto. A Última Hora também se manifestou em relação ao depoimento do ex-
ministro, alegando que durante o tempo em que ele foi ministro, a política externa
adotada se caracterizou pelo pan-americanismo, logo se havia um pacto entre Vargas e

202
Tribuna da Imprensa, 04/04/1954.
203
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. p.540.
75

Perón desde o início do mandato, porque Vargas convidaria um ministro que não
seguisse essa linha? Além disso, acusar a existência de uma traição por causa de cartas
trocadas entre os presidentes, sem passar pelo ministério das Relações Exteriores, não
fazia sentido, pois era prática comum a troca de correspondências, inclusive Vargas
trocou algumas com o presidente norte-americano e o próprio João Neves também
transmitia cartas ao presidente quando era embaixador em Portugal, assim como o
embaixador Luzardo enviou se referindo à Argentina.
Diante do depoimento de João Neves da Fontoura, a UDN aproveitou para
buscar êxito em seu objetivo de afastar o presidente, abrindo um processo de
impeachment no Congresso. Esse processo contou com o engajamento do deputado
Aliomar Baleeiro, que se posicionou sobre a acusação de João Neves:

Não foi surpresa para mim a publicação dos fatos contido no depoimento do
Sr. João neves porque sempre julguei o Sr. Getúlio Vargas, à base de sua
vida anterior, capaz de praticar qualquer ato que sirva às ambições. Não me
espantou, portanto que cometesse o que se chama de alta traição, a traição do
governante contra seu próprio país, e em benefício do estrangeiro. Para mim,
não era necessário esperar por isso para compreender que só o impeachment
livrará o Brasil dos perigos que pairam sobre a vida nacional enquanto
204
estiver no poder um inimigo.

Percebemos que o discurso da oposição não é lógico, pois acusava o presidente


de estar unido a outros presidentes para impedir a permanência da influência norte-
americana no cone sul, mas se incomodavam com isso não por considerar que esta
posição favorecia aos interesses estrangeiros, mas por não favorecer os seus, visto que
estes sim estavam agindo em função de benefícios estrangeiros, ou seja, isso demonstra
uma indignação seletiva, pois mesmo que houvesse uma união entre Brasil, Argentina e
Chile nesse sentido, se isso visasse a autonomia do Brasil, o que estaria errado? No
entanto, a obstinação da UDN em derrubar Vargas fez com que este partido se
distanciasse cada vez mais de um objetivo de lutar pelo país, pois a rivalidade se tornou
a meta, independente das consequências.
O presidente reagiu a esse comportamento, demonstrando sua indignação em um
dos bilhetes enviados constantemente a Lourival Fontes:

204
Tribuna da Imprensa, 05/04/1954.
76

Ontem a Ivete [Vargas] esteve aqui informando-me que um particular


qualquer entrará com pedido de impeachment contra mim, e que a mesa da
Câmara nomeará uma comissão para tratar do assunto. Será que a
tranquilidade do país, o respeito aos poderes constituídos está tão abalado
[sic] que a queixa de um qualquer testa de ferro produza esse resultado?
205
Chego a duvidar da veracidade dessa informação. Em todo caso verifique.

Para os aliados de Vargas estava claro que esta era mais uma manobra oriunda
da rivalidade da UDN com o presidente, que colocava sob ameaça, a democracia
brasileira. A edição da Última Hora do dia 04/04/1954, trazia o posicionamento do
deputado Lucio Bittencourt (PTB), denunciando que o impeachment era, na verdade,
um golpe, visto que não havia nenhum ato de traição confirmado, nenhum crime
cometido pessoalmente pelo presidente de modo que, o impedimento não tinha o menor
cabimento. Segundo o deputado:

O que se pretende, realmente, é dar um “golpe branco”, para afastar do


Catete o homem que ali foi posto pela vontade do povo. Não creio que
verdadeiros democratas possam pretender um “golpe” desse tipo. O ódio que
mora no coração de certos políticos, torna-os indiferentes a sorte da
democracia. Querem tirar Getúlio do Catete ainda que, com isso, sacrifiquem
as instituições democráticas. Getúlio deve permanecer até o último dia do seu
governo e passar o cargo ao seu sucessor legitimamente eleito. Somente
assim, será possível consolidar a nascente democracia brasileira, que deve ser
206
preservada a qualquer preço.

O pedido de impeachment foi amplamente incentivado pelo Brigadeiro Eduardo


Gomes, que de início recebeu críticas de Afonso Arinos, este acreditava não haver
motivos suficientes para o impedimento e o presidente poderia sair fortalecido. O
Brigadeiro, porém via que até o fracasso do impeachment os ajudaria, pois na falta de
uma solução legal para o afastamento de Vargas, os militares se mobilizariam para sua
saída. Realmente o processo não teve êxito, até mesmo o ex-presidente Dutra defendeu
a manutenção do mandato de Vargas.

O pedido de impeachment foi votado no plenário da Câmara na sessão de 16


de junho e rejeitado por 136 a 35 votos. Dos votos favoráveis ao
impeachment, 21 foram dados pela UDN, um pelo PRT [...] dois pelo PR, um
pelo PSP, dois pelo PL, cinco pelo PSD do Rio Grande do Sul, um pelo PTB
(Frota Aguiar, relator da CPI da Última Hora) e dois por deputados que no

205
GOMES, Ângela de Castro (Org.). Getúlio escreve a Lourival: os bilhetes à Casa Civil da Presidência
da República (1951-1954). Aracaju: Edise, 2015, p. 253.
206
Última Hora, 04/04/1954.
77

momento estavam sem partido. Dos deputados da UDN, seis votaram contra
207
o impeachment e 40 abstiveram-se de votar.

Ao reboliço causado pela tentativa do impeachment, juntou-se a repercussão do


decreto de Vargas, afirmando o aumento de 100% do salário mínimo, anunciado no
rádio, na noite do dia 1 º de maio, Dia do Trabalho, cumprindo a proposta de Jango ao
deixar o Ministério do Trabalho. O aumento foi decretado com a reprovação de quase
todos os assessores econômicos consultados por Vargas, pois o aumento considerado
viável era de 40 %, porém na conjuntura apresentada, o presidente se preocupou mais
em fortalecer seu vínculo com a classe trabalhadora. O temor diante de um quadro
desequilibrado do governo, o fez tomar uma atitude imprudente, visto que os industriais,
classe média, militares, estavam em posição melhor para mobilizar a oposição do que os
trabalhadores para mobilizar o apoio ao governo.
As manifestações contrárias ao aumento do salário mínimo surgiram
imediatamente e, com os problemas econômicos se tornando mais complexos, a
oposição investia cada vez mais pesado contra o presidente, que já se sentia muito
cansado e abalado, até mesmo furioso com os meios de comunicação que não lhe davam
trégua. Ele não tinha mais forças para lidar com a pressão, talvez, até, porque já
houvesse previsto tudo isso, antes das eleições, tenha julgado pouco útil se “debater”.
Os próximos meses seriam de profundo desgaste, levando a um dos fatos de maior
comoção na História do Brasil.

207
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo Vargas. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001. p. 564.
78

3 UM MÊS DE DESGOSTO

O mês de agosto de 1954 marcou o momento mais dramático da crise que


Vargas vinha enfrentando desde outubro de 1950. As forças contrárias agiam
fortemente sobre ele e sua disposição para resistir já não era a mesma, pois ele não era
mais o mesmo. Já idoso, depois de tanto tempo servindo ao país, estar no meio de
disputas causadas por diversos interesses lhe custaram muito, inclusive a própria vida.
“A crise de agosto foi plena de significados simbólicos, permitindo que imagens e
208
representações gerassem imaginários sociais conflituosos. ”

Conforme tratamos até aqui, a oposição exercida pela UDN foi amplamente
fortalecida pela imprensa, através de Carlos Lacerda, na sua Tribuna da Imprensa.
Além disso, Lacerda também conseguiu expandir seu campo de atuação, quando lhe foi
concedido espaço no rádio e na, recém-chegada, Televisão. Em contrapartida Samuel
Wainer atuava, em seu moderno jornal, em favor do presidente. A rivalidade pessoal
entre Wainer e Lacerda se tornava cada vez mais intensa, segundo Wainer:

Desde 1952, esse ódio agudo, visceral, vinha-se multiplicando e podia ser
captado em todo o país. Na Tribuna da Imprensa e nos Diários Associados,
reportagens, artigos e editoriais fustigavam-me diariamente. Graças a TV Tupi, a
figura de Lacerda tornara-se familiar a centenas de milhares de espectadores que
209
a cada noite ouviam mais acusações contra mim.

Os dois procuravam atacar um ao outro em detalhes particulares, citando


defeitos, aplicando adjetivos relacionados à aparência e comportamentos. Até no
momento de reconhecer alguma qualidade, a linguagem era agressiva, como vemos no
depoimento de Lacerda: “Samuel, muito ignorante, mas muito inteligente, com um
grande faro de repórter, com um talento de repórter realmente fora do comum, capaz até
210
de encobrir a sua ignorância que é monumental, quase enciclopédica”. Isso se torna
muito claro, quando observamos que ambos costumavam criar apelidos pejorativos um
para o outro, visando atingir suas emoções e demonstrar um ódio ou ressentimento que
destinavam ao outro, beirando, muitas vezes a um comportamento imaturo de ambos.

208
FERREIRA, Jorge. O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-1964.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 168.
209
WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um repórter. Rio de Janeiro: Record, 1987. p.
181.
210
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. p. 123.
79

Lacerda, por exemplo, ficou conhecido como “O Corvo” como a representação, dada
por Wainer, de ser uma figura de mau agouro.

O apelido surgiu após um acontecimento que causou descontentamento no meio


jornalístico. Em 11 de maio de 1954, Nestor Moreira, repórter policial do jornal A
Noite, foi brutalmente espancado por membros da Guarda Civil, ao comparecer no 2º
distrito policial do Rio de Janeiro para solicitar informações após a meia noite, e acabou
tendo uma discussão com os policiais desse distrito. Entre os agressores se encontrava
um guarda conhecido como “Coice de mula”. Toda a imprensa ficou furiosa pela
brutalidade do ocorrido e jornalistas da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)
planejavam um protesto.
Na manhã de 22 de maio, Nestor veio a falecer, e seu corpo foi velado na ABI,
onde Lacerda discursou em sua homenagem aproveitando a ocasião para criticar o
governo Vargas. Ele mencionou a declaração de Vargas de que o crime fora monstruoso
211
e acrescentou que monstruoso era tudo no seu governo de corrupção e violência. Tal
fato causou tamanha repulsa em Wainer, que pediu para que Lanfranco Aldo Ricardo
Vaselli Cortellini Rossi, o LAN, cartunista da Última Hora, retratasse o jornalista
212
velando o cadáver como se fosse um corvo. Segundo Wainer , a comparação com a
ave se deu, pois ele estava vestido todo de preto, com ar sofredor. Além disso, toda vez
que ocorria uma morte interessante, ele estava lá. Então associou sua imagem a deste
213
animal de mau agouro, passando a publicar charges nesse sentido.

211 DULLES, John W. F. Carlos Lacerda - A Vida de um Lutador (1914-1960) - editora Nova
Fronteira, Rio de Janeiro, 1992. p. 169.
212
WAINER, Samuel.. Op. Cit. p. 181
213
DELGADO, Márcio de Paiva. O Golpismo Democrático: Carlos Lacerda e o Jornal Tribuna da
Imprensa na quebra da ilegalidade (1949-1964). Juiz de Fora, 2006.
80

Figura 7: O corvo vertendo lágrimas ao lado do caixão de Nestor Moreira. (Desenho de LAN na
214
Última Hora, 25 e 27 de maio de 1954).

Figura 8: O Corvo transmitindo pelo rádio. (Desenho de LAN na Última Hora, 3 de junho de
215
1954).

Essa relação conturbada, que já vinha sendo demonstrada em seus respectivos


jornais, tomou maior proporção no mês de agosto, tendo um investimento mais pesado,
por parte de Lacerda nos ataques diretos ao Presidente da República, principalmente
após o atentado praticado contra sua vida, do qual falaremos mais adiante. Dessa forma,
pretendemos mostrar, aqui, o desenrolar da crise de agosto de 1954, a partir das capas
desses dois periódicos, que de acordo com a visão que tinham sobre o governo,
noticiavam os principais acontecimentos. Lembrando que, antes de findar aquele mês,

214
DULLES, John W.F. Op. Cit. p. 171.
215
DULLES, John W.F. Op. Cit. p. 172.
81

ambos noticiariam um dos acontecimentos mais marcantes da história do Brasil: o


suicídio do Presidente Vargas.

Como discorremos no início deste trabalho, levamos em consideração a


importância do uso da retórica para a atividade jornalística, principalmente nos casos
aqui analisados, onde havia um grande interesse em construir uma opinião em torno da
pessoa e do governo de Getúlio Vargas. Nesse sentido, ao entendermos a retórica como
216
“a arte de persuadir pelo discurso” , percebemos o quanto é importante analisarmos
os periódicos, aqui abordados, a partir da interpretação de seus discursos. Fazemos essa
observação com maior ênfase na Tribuna da Imprensa, que por representar a opinião de
um grupo que não estava no poder, precisou investir mais no ataque.

Tal atitude nos remete à constatação feita por Perelman e Olbrechts-Tyteca:

Melhor a argumentação quando é desenvolvida por um orador que se dirige


verbalmente a um determinado auditório, do que quando está contida num livro
217
posto à venda em livraria.

Essa estratégia nos parece ter sido compreendida por Lacerda, no seu trabalho
jornalístico, pois como o próprio nome do jornal demonstra, ele fazia deste veículo de
informação, uma tribuna, ou seja, o discurso do jornal era elaborado como se fosse
falado. Isso é demonstrado na entonação das publicações e nas palavras escolhidas para
produzir as manchetes.

A Última Hora, por sua vez, apresentava um tom mais moderado em suas
publicações, não se assemelhando a uma tribuna política como seu adversário. No
entanto, percebemos também, neste jornal, a preocupação em buscar as melhores
palavras para suas manchetes, visando levar ao seu público uma ideia positiva do
governo. Dessa forma, buscaremos compreender como a retórica foi utilizada para os
interesses destes periódicos durante a crise de agosto de 1954.

216
REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. Tradução Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins
Fontes, 2004. p. 14.
217
PERELMAN, Chaim; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie.”Os âmbitos da argumentação”. In: Tratado da
argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 21.
82

Organizaremos o resultado da análise em quatro pontos, de acordo com as


principais temáticas veiculadas nos jornais e o período em que estiveram em maior
destaque, ressaltando que estes assuntos estão interligados, a saber:

Assunto Período

Repercussão da morte do major Rubem Vaz 05/08 a 11/08

Investigação do atentado da Rua Toneleros 05/08 a 25/08

Exigência da renúncia de Vargas 10/08 a 23/08

Repercussão do suicídio de Vargas 24/08 a 31/08

3.1 A “gota d’água”

A situação de Vargas ao findar o mês de julho era bastante debilitada, pois


mesmo que possuísse chances de alcançar bons resultados com o plano de estabilização,
os setores econômicos estavam marginalizados, e até mesmo a classe trabalhadora se
encontrava um tanto insatisfeita por ter esperado muito tempo pelo aumento do salário
mínimo. Além disso, após o manifesto dos coronéis, um grupo de militares se juntou à
UDN, na perseguição a Vargas e a imprensa oposicionista continuou a o ataque à
“imoralidade” e corrupção.

A Tribuna da Imprensa abriu o mês de agosto, acusando Lutero Vargas, filho do


presidente, de ladrão. Ligava a essa acusação, a notícia de manifestações promovidas
por operários em Volta Redonda, para os quais Lacerda dizia que o atraso em seus
pagamentos teria como causa, o fato de ter dinheiro retido no Banco do Brasil. Segundo
ele, este dinheiro estaria sendo destinado à corrupção.

O jornal trazia em destaque a seguinte manchete: “Somos um povo honrado,


218
governado por ladrões”. Esta manchete estava ligada a noticia referente aos
operários de Volta Redonda, mas buscava, com ela, associar que os representantes do
governo seriam corruptos, relação essa que remetia diretamente à ideia de que esta
corrupção partiria de Getúlio Vargas.

218
Tribuna da Imprensa, 02/08/1954.
83

As denúncias contra Lutero eram duras. Ao ser sentenciado a pagar, juntamente


com Waibo Chamas, a quantia de Cr$ 875 mil aos cofres públicos, a Tribuna destacava
que o filho do presidente estava sendo desmascarado, acusado de roubar o Tesouro
Nacional, dizendo:

Além dos crimes que cometeram nas negociatas da Última Hora, são reles
sonegadores de impostos. Foi isso que ficou provado, ontem, na Recebedoria
Federal de São Paulo, após o exame da denúncia do jornalista Amaral Netto,
219
presidente do “Clube da Lanterna”.

A perseguição a Lutero, que se acirrou durante a CPI da Última Hora se estendia


até então, visto que não era produtivo para a oposição apenas criticar o governo pelos
seus projetos ou pelas dificuldades econômicas, isso não era suficiente para derrubá-lo,
logo associar pessoas próximas a ele a crimes tornava-se cada vez uma estratégia mais
usada, ainda mais a essa altura em que o presidente já se encontrava em condições
bastante difíceis de se manter no poder.

Já há algum tempo, era notório que Lacerda estava na “mira” de seus inimigos,
prova disso é que já havia sofrido algumas agressões, visto que seu programa na Rádio
Globo e na TV Tupi ampliavam sua visibilidade e aumentavam as possibilidades de
sofrer alguma retaliação, pois era muito comum acontecer violências contra jornalistas
naquele tempo. Por conta disso, alguns oficiais da Força Aérea Brasileira o
aconselharam a não andar desacompanhado, como conta em seu depoimento:

Os oficiais da FAB me disseram: “Nós decidimos o seguinte: que se lhe


acontecer alguma coisa, vai ser apenas mais um jornalista morto no Brasil, e
isso continua como está e daí para pior. Se o senhor andar sempre com um de
nós e nos acontecer alguma coisa, será um acontecimento de uma gravidade
muito maior. Então, queríamos lhe pedir licença para lhe fazer
220
companhia.”

Lacerda concordou com a proposta e, então, passou a contar com a escolta de


oficiais que se revezavam em sua segurança, principalmente após sua apresentação na
TV que normalmente acabava muito tarde. No entanto, a previsão dos oficiais
aconteceu mais rápido do que se esperava: na madrugada do dia 05 de agosto, Lacerda
sofreu um atentado.

219
Tribuna da Imprensa, 03/08/1954.
220
LACERDA, Carlos. Op.cit. p. 128.
84

Ao chegar a sua casa, na Rua Toneleros, em Copacabana, após uma conferência


no Externato São José, na Tijuca, Lacerda estava acompanhado pelo Major Rubem
Florentino Vaz, de acordo com a ordem do revezamento dos oficiais que faziam sua
segurança, e seu filho Sérgio, de 15 anos. Antes de dar boa noite, Vaz repetiu um
conselho que dava a Lacerda: que deveria “ter muita calma e compreender as razões dos
outros”. Este era um conselho recorrente dado por Vaz, que dos acompanhantes de
Lacerda, era o que mais o incentivava a diminuir o tom de suas acusações.

Lacerda avistou alguns homens do outro lado da rua e se dirigiu à porta principal
do edifício quando notou que havia esquecido as chaves. Mandou Sérgio pela entrada
de serviço, pedir ao garagista do prédio que os deixasse entrar pela garagem. Naquele
momento um dos homens começou a atirar contra ele, que teve apenas seu pé
221
atingido , ele ainda tentou se defender revidando os tiros com seu revólver calibre 38
e procurou afastar o filho do perigo. Enquanto isso, o major avistando a cena, desceu do
carro, desarmado, e tentou lutar com o homem que atirava, porém somente com golpes
222
não foi possível imobilizá-lo e o major acabou levando dois tiros fatais. A caminho
do hospital, Lacerda, ainda confuso e abalado, disse:

Acho que vou enlouquecer! Foi uma enorme desgraça o que acaba de acontecer.
Talvez eu mesmo tenha matado Vaz. Dei uns tiros a esmo, já sem óculos, e tenho
223
a impressão de que ele estava na minha frente. Que horror!

Para seu alívio, suas suspeitas não seriam confirmadas, pois a polícia concluiu
que o tiro teria sido de um calibre 45. Algumas pesquisas vieram a contestar a versão
oficial dada ao atentado, tratando este fato como um crime comum. Um dos adeptos
deste pensamento é Luiz Roberto Guimarães da Costa Jr., que dentre outras hipóteses,
sustenta que:

Há possibilidade de os executores estarem seguindo o jornalista, com o


objetivo de colher dados para um relatório que pudesse citar dificuldades ao
sucesso da candidatura de Lacerda a deputado federal nas eleições de outubro

221
O fato de Lacerda ter sido ferido no pé causou algumas discordâncias, na época, pois segundo alguns
especialistas, se realmente ele tivesse sido atingido por uma bala do calibre 45, provavelmente teria
perdido seu pé, não apenas se machucado. Porém, durante as investigações, Lacerda sustentou a versão de
que fora atingido, mesmo que de leve.
222
DULLES, John W. F. Op. Cit. p. 177 e 178.
223
Ibidem, p. 178.
85

daquele ano, e não para matá-lo. A reação do major Vaz teria provocado os
224
tiros.

Apesar destas hipóteses, é perceptível que este fato proporcionou graves


consequências de cunho político. A partir deste grave acontecimento, a crise deixou de
ser política para ser militar. Ao tomar conhecimento do ocorrido, Vargas desabafou:
225
“Carlos Lacerda levou um tiro no pé. Eu levei dois tiros nas costas”. O presidente
sentiu que diante daquele acontecimento, seus dias no poder estavam mais ameaçados,
como confessou:

Até agora eu considerava o jornalista Carlos Lacerda meu principal inimigo.


Mas agora o considero meu 2º inimigo. Porque o 1º, aquele que maior
prejuízo causou ao meu governo, foi o homem que atentou contra sua vida e
226
assassinou esse jovem oficial da Aeronáutica.

Ele estava certo, a repercussão do atentado foi grande. Wainer conta, em suas
memórias, que ao ser informado do atentado e certificar-se que Lacerda não havia
morrido, ficou em choque e pressentiu que começava “uma das maiores tempestades
227
políticas da história do Brasil.” . Wainer fez essa constatação, pois sabia que Lacerda
faria disso uma forte arma contra Vargas, como realmente ocorreu.
A mobilização da Tribuna da Imprensa em torno de buscar os responsáveis
pelo crime foi intensa, não hesitando em acusar diretamente o presidente. Última Hora,
por sua vez, buscaria, também, cobrir a investigação desse acontecimento, porém
realizaria essa tarefa com muita cautela para não prejudicar Vargas, dedicando-se a
rebater as acusações lançadas pela Tribuna da Imprensa.
Esses posicionamentos são claros, quando observamos as capas dos dois
periódicos no dia 05, mesmo dia em que ocorreu o atentado. Como uma das vítimas do
atentado fora o responsável pelo jornal, a Tribuna da Imprensa dedicou todo esse
espaço para noticiar o ocorrido naquela madrugada, trazendo em letras bem grandes, a
indignação: “A nação exige o nome dos assassinos”. Diante da gravidade do
acontecimento, Lacerda escreveu um editorial, que diferente do habitual, estava na

224
MENDONÇA, Marina Gusmão. Op. Cit. p. 150.
225
AURÉLIO, Daniel Rodrigues. Dossiê Getúlio Vargas. São Paulo: Universo dos Livros, 2009. p. 111.
226
DULLES, John W. F. Op. Cit. p. 179.
227
WAINER, Samuel. Op. Cit. p. 199.
86

primeira página. Neste, intitulado “o sangue de um inocente”, o jornalista aproveitava o


momento envolvido de emoção para acusar o presidente como culpado por isso:

Rubem Florentino Vaz, herói do Correio Aéreo Nacional, pai de 4


crianças, caiu nesta noite a meu lado, meu próprio filho correu, com ele, o
risco a que estão sujeitos os brasileiros entregues a um regime de corrupção e
de terror.
Os que não cedem à corrupção caem sob a ação da violência.
Temos dito isto. Há neste país quem não saiba que a corrupção do
governo Vargas gera o terror do seu bando? Dia após dia, noite após noite, a
ronda de violência faz o cerco aos que não cedem à coação do dinheiro.
(...) Perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse
crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos
como os desta noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas. Ele é o
responsável intelectual por este crime. (...) Assim como a corrupção gera a
violência, a impunidade estimula os criminosos.
Penso nessas crianças e no meu filho. Rubem Vaz morreu na guerra.
Morreu este querido amigo, na mais terrível, na mais insidiosa das guerras: a
de um povo contra os bandidos que constituem o governo de Getúlio
228
Vargas.

Junto à acusação, apresentava uma foto do corpo do major e outra de Lacerda


sendo atendido no hospital, atrelando imediatamente o atentado à Guarda Pessoal de
Vargas, que o jornal alegou ter como participantes pessoas próximas a Lutero, o que
mantinha a ligação com o que já vinha sendo veiculado sobre Lutero e a corrupção.

228
Tribuna da Imprensa, 05/08/1954.
87

Figura 9: Capa da Tribuna da Imprensa, em 05/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?Bib=154083_01&PagFis=16683&Pesq=> acesso em:
25/01/2017.

A comoção em torno da morte do major foi bem explorada pela Tribuna da


Imprensa, de uma forma que levaria o leitor a se compadecer pela vida dele, e ainda
mais pela sua família. Exemplo disso foi uma nota dos oficiais da Aeronáutica, que
passou a sair quase todos os dias, neste jornal, após a morte do major, sempre com o
mesmo texto:

Há [quantidade] dias foi covardemente assassinado o major Rubem


Florentino Vaz. Eliminado por facínoras, não lhe foi dada a mínima chance
de defesa. Morreu inocente, exigimos justiça.

Assim, devido toda emoção envolvida pelo atentado, aumentada pelo fato de que
Lacerda estava completamente envolvido por ela, este deixou evidente que sua intenção
com as publicações era ir em busca da punição dos criminosos e fazer com que esse
fosse o sentimento dos seus leitores. Interessante é que, as manchetes que se referiam à
memória do major ou fotos dele, apareciam sempre próximas às manchetes que
acusavam Vargas, Lutero ou os membros de sua guarda, contribuindo para que o leitor,
88

comovido com a imagem do major, ficasse ainda mais indignado com o acontecimento
e exigisse a punição de todos.
O posicionamento da Última Hora sobre o atentado foi mais moderado, embora
não escondesse a surpresa e o lamento pelo o ocorrido. Wainer relatou que procurou
“apresentar o episódio sob um enfoque policial, embora soubesse que suas componentes
229
políticas não tardariam a monopolizar as atenções do país. ” .
A notícia do atentado não vinha em destaque, mas deixava clara a preocupação
do governo em mobilizar recursos para o esclarecimento do crime, além de ressaltar que
não era o momento para tentativas de golpes. Serenamente, próximo à foto do corpo do
major, narrava:

Em consequência da tentativa de morte, contra o jornalista Carlos Lacerda,


perdeu a vida, atingido pelas balas, o major Rubem Florentino Vaz, também
230
ferido, o guarda municipal Silvio Romeiro.

Figura 10: Capa da Última Hora, em 05/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

229
WAINER, Samuel. Op. Cit. p. 200.
230
Última Hora, 05/08/1954.
89

É notório o cuidado que a Última Hora teve em noticiar um crime de grave


consequência, em que a vítima original era o próprio inimigo do presidente que estava
sendo acusado, pelo mesmo, de ser o responsável pelo ato. Este periódico como
representante do governo, não poderia alarmar mais a situação, antes de maiores
esclarecimentos da Polícia, e deixar o presidente ainda mais vulnerável. Esse cuidado se
confirma nas palavras de Wainer:

Durante todo o tempo, fiz o que pude para eximir de qualquer culpa a figura
do presidente, sustentando a tese de que, ainda que houvesse gente do Catete
envolvida no episódio, Getúlio de nada sabia. Tratava-se de um brasileiro
honrado, muito acima, de torpezas desse gênero. Lastimavelmente, o esforço
231
da Última Hora em defesa de Vargas resultaria inútil.

Além da preocupação em poupar o presidente, este jornal tinha por característica


sua diversidade de assuntos, visto que estava bem enquadrado nas modernizações da
imprensa, naquele momento, de modo que, diferente da Tribuna da Imprensa, não
dedicou todo espaço da capa para se referir ao atentado, além de não dedicar as maiores
letras às manchetes referentes a ele. Até mesmo para amenizar os efeitos que este
assunto estava causando na opinião pública.
Iniciando sua defesa, o jornal trouxe o primeiro esclarecimento de Lutero sobre a
acusação de sua possível participação no atentado: “enquanto meu pai for Presidente da
República, eu me empenharei para que Carlos Lacerda não sofra qualquer atentado”
232
. Lutero, além de exercer o mandato de deputado, era médico, considerado o melhor
ortopedista ao lado das forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial, e 2º tenente
da Aeronáutica. Logo, também sofria a perda de um amigo e considerava toda a
acusação envolvendo seu nome, nada mais que uma forma de seus inimigos
conseguirem vantagem eleitoral, já que as novas eleições estavam próximas. Porém,
ressaltou que acreditava na justiça dos tribunais brasileiros e se defendeu dizendo que
todas as vezes em que se sentiu injuriado por Lacerda recorreu à justiça e nunca à
violência.
Ambos os jornais mostraram o sepultamento do major e toda comoção popular
em torno de seu infortúnio. As homenagens permaneceram até se completarem sete dias
de sua morte, sendo realizada a Missa de Sétimo Dia, que levou muitas pessoas à Igreja

231
WAINER, Samuel. Op. Cit. p. 201.
232
WAINER, Samuel. Op. Cit. p. 201.
90

da Candelária. A missa em homenagem ao Major, realizada por Dom Jaime de Barros


Câmara, arcebispo do Rio de janeiro, foi envolvida por grande respeito a ele, o
comércio fechou e foi-lhe concedida grande atenção, como foi mostrado pela Última
233
Hora: “povo, governo e Forças Armadas orando pela alma do major Rubem Vaz” .A
existência de mais um momento de lembrança, contribuiu para reforçar a indignação por
seu trágico fim. Segundo a Tribuna da Imprensa:

Cerca de dois mil oficiais das Forças Armadas, a maioria brigadeiros,


reafirmaram a intenção de punir os autores materiais e intelectuais do atentado da
234
Rua Toneleros.

A partir de então teria início a uma forte campanha pela renúncia do presidente.
É interessante observar o engajamento que a aeronáutica teve em buscar a punição para
os assassinos do major, fator este que foi muito explorado por Lacerda, em seu jornal,
com a intenção de ampliar a gravidade do caso. Por outro lado, a Última Hora
reforçava, também, que o governo estava lutando e mobilizando todos os seus recursos
em prol de fazer justiça e a fim de que cessasse toda agitação em torno deste
acontecimento, para que o país voltasse a ter paz.

3.2 Caçada aos assassinos!

Antes de prosseguirmos, é importante ressaltar que não é nossa intenção, gerar


novas interpretações sobre as origens do atentado da Rua Toneleros, nem averiguar a
existência da participação do presidente ou afirmar sua inocência. A intenção é observar
a maneira como os periódicos aqui abordados cobriram a investigação do mesmo e as
consequências políticas de tais interpretações.
A comoção em torno da morte do major Vaz proporcionou consequências
maiores do que pessoas indo às ruas acompanhar seu enterro ou a missa em sua
homenagem. O trágico acontecimento seria amplamente investigado, não só por ter
provocado sua morte, mas pela obscuridade em torno do crime, que tinha o presidente
Vargas como responsável, mesmo que indiretamente.

233
Última Hora, 11/08/1954.
234
Tribuna da Imprensa, 11/08/1954.
91

Durante o cortejo do major, o brigadeiro Eduardo Gomes conduzia uma faixa,


onde fazia apelo pela punição dos criminosos. Tal acontecimento permitiu que a
Aeronáutica se apresentasse como principal foco de oposição a Vargas no seio das
Forças Armadas e reclamou para si a responsabilidade pela apuração do crime,
instaurando um Inquérito Policial Militar (IPM), conduzido pelo coronel João Adil de
235
Oliveira. O desejo pela punição dos culpados estava presente em toda imprensa e por
todos os partidos, no Congresso.

Figura 11: Capa da Última Hora, em 06/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Para melhor compreensão da análise das manchetes, devemos apresentar os


principais nomes investigados. Basicamente havia quatro homens envolvidos na
236
execução do crime: Gregório Fortunato (chefe da Guarda Pessoal de Vargas),
Climério Euribes de Almeida (guarda presidencial), José Antônio Soares (motorista de
Climério) e Alcino João do Nascimento (pistoleiro, que já havia prestado serviço a José
Antônio Soares). Havia um quinto nome no início das investigações, que era de Nelson
Raimundo de Sousa (motorista de táxi e barbeiro do Catete), que teria recebido 20 mil
Cruzeiros e mais um emprego de investigador policial, para manter-se calado sobre o
que veria acontecer.

235
MENDONÇA, Marina Gusmão. O demolidor de presidentes. São Paulo: Editora Códex. 2002. p. 53.
236
Gregório nasceu em São Borja, era negro e de origem humilde. Era chefe da Guarda Pessoal de
Vargas. Em 1954, recebeu condecoração do Ministro da Guerra e recebeu de Mendes de Morais o título
de “Ministro da Defesa” do Brasil e a responsabilidade de evitar calamidades. Chamado pela imprensa
lacerdista de “o Anjo Negro do Palácio do Catete.”
92

Segundo as investigações, apontada pela Tribuna da Imprensa, os envolvidos


estariam ocupando as seguintes tarefas:

Nome Função
*** O mandante
Gregório Fortunato Por ordem do mandante teria designado
Climério a organizar o atentado.
Climério de Almeida Solicitou a José Antonio Soares que
contratasse o pistoleiro.
José Antonio Soares Motorista de Climério que contratou
Alcino para realizar os disparos contra
Lacerda.
Alcino João do Nascimento Pistoleiro contratado que seria o
responsável pelo tiro que matou o
major.

Nesse sentido, tanto a Tribuna da Imprensa quanto a Última Hora seguiram


firmes no acompanhamento das investigações. Os nomes e rostos dos envolvidos no
crime estariam bem presentes em suas capas durante o mês de agosto, possuindo maior
ênfase entre os dias 06 e 25. Um dos primeiros destaques sobre as apontado pela
Tribuna da Imprensa, foi a confirmação de que houve participação de membros da
Guarda Pessoal do presidente. Segundo o jornal, teriam recebido um telefonema, de
alguém que também fazia parte da Guarda, dizendo que os participantes do crime eram
pessoas muito próximas a Lutero.
No dia 07, a Tribuna da Imprensa, trazia em destaque a manchete: “Apurar
tudo, até o fim”, onde informava a decisão das Forças Armadas na reunião do dia
anterior, que foi: “ir até o fim do inquérito, custe o que custar”. Em nota sobre o
depoimento de Lacerda ao delegado Jorge Pastor, dizia que ele demonstrou não
acreditar que o inquérito teria consequências se fosse provado o envolvimento de
pessoal do Catete. No entanto, ressaltou: “a minha presença aqui indica que estou
disposto a levar o inquérito até o fim”.
93

Figura 12: Capa da Tribuna da Imprensa, em 07/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?Bib=154083_01&PagFis=16683&Pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Última Hora, por sua vez, trazia o depoimento do ministro da Justiça, Tancredo
Neves, que após ter se reunido com o presidente, disse: “O governo é o principal
interessado na apuração das responsabilidades”. Dessa forma, rebatia as acusações de
que o presidente teria algum envolvimento com o ocorrido e esclarecia que era
responsabilidade do poder Judiciário, a punição pelo crime, ou seja, o Poder Executivo
não teria nenhuma relação com o rumo das investigações. Assim, o jornal alertava que a
oposição não deveria tirar proveito eleitoral por causa do atentado.
Em busca de resultados das investigações, a Tribuna da Imprensa começou a
explorar o histórico dos criminosos, começando por Climério. No dia 09, destacava em
letras garrafais, a afirmação de Lacerda: “CLIMÉRIO ESTEVE COM LUTERO NA
AUDIÊNCIA DA 14ª VARA”, trazendo uma enorme foto de Climério, pedindo para o
encontrarem, visto que estava foragido, desde o atentado.
94

Figura 13: Capa da Tribuna da Imprensa, em 09/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?Bib=154083_01&PagFis=16683&Pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Segundo o jornal, ele era da Guarda Pessoal de Vargas, e havia sequestrado, em


1942, a mando de Benjamim Vargas (irmão do presidente), o jornalista Helio Sodré, na
ocasião chefe da seção de imprensa da Polícia. Além disso, fora visto, naquele mesmo
ano, em companhia de Gregório, no Rio de Janeiro.
O jornal de Lacerda ao apresentar Climério como membro da Guarda Pessoal de
Vargas, buscava mostrar o quão íntimo ele seria de Gregório e de Lutero e que vinha, há
alguns anos, prestando serviços dessa natureza ao Catete.
Desse modo a Guarda Pessoal passou a ser mostrada como uma gangue que
cometia crimes com o aval do presidente. Afirmava, ainda, que a fuga de Climério teve
a colaboração do Catete:
95

Desde a madrugada de anteontem [07/08] o governo sabia o nome de


Climério. Somente ontem [08/08] foi feita a primeira diligência, para facilitar
sua fuga. [...] A quadrilha que Getúlio Vargas chama de Guarda Pessoal, só
serve para implantar o terror e garantir a sua oligarquia. Climério Euribes de
237
Almeida não é o único criminoso a serviço da corrupção.

Com isso, insinuava que o governo estaria interferindo nas investigações,


atrasando as buscas ao criminoso para que a suposta culpa do presidente não fosse
confirmada.
Em contrapartida, a Última Hora noticiava em destaque a “espetacular caçada
238
pela captura de Climério, o assassino do major”. Trazendo uma foto grande do
criminoso, descrevia: “o bárbaro matador do major tem o rosto cheio de bexigas, marcas
239
de varíola, sua prisão é iminente”.

Figura 14: Capa da Última Hora, em 09/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

A cobertura feita pela Última Hora em torno da busca de Climério, tentava


contrariar a versão que estava sendo passada por seu adversário, de que o presidente
estivesse envolvido no crime, pois o jornal que lhe oferecia apoio mostrava com clareza
que estava interessado, como todos, em solucionar o enigma do atentado. A visão que o

237
Tribuna da Imprensa, 09/08/1954.
238
Última Hora, 09/08/1954.
239
Última Hora, 09/08/1954.
96

jornal de Wainer transmitia era de que o governo via o crime como uma atrocidade,
deveria ser esclarecido e todos seus responsáveis deveriam ser punidos pela sua
covardia em realizar tal coisa.
Porém as investidas da oposição se mostravam cada vez mais pesadas. A
Tribuna da Imprensa publicou uma foto em que Gregório está penteando os cabelos do
presidente (Figura 11), em que a edição aproveitou para criticar a postura da Guarda.
Em relação a Gregório dizia:

Gregório é o símbolo ostensivo da capangagem de que Getúlio Vargas, com


medo do povo, procura cercar-se. Ele representa o primarismo dos métodos
de fazer calar as vozes que incomodam o sono da Grande Oligarquia que não
quer senão dormir sem pesadelos, apesar de seus crimes.
240
Climério de Almeida é bem discípulo de ambos.

O jornal seguia, denunciando que a Guarda Pessoal era ilegal, visto que a
segurança do presidente podia ser feita tranquilamente pela Polícia Militar ou Civil.
Alegava, também, que não havia nenhuma lei que permitisse a existência de uma
Guarda Pessoal. Dessa forma, concluía:

A quadrilha que Getúlio Vargas chama de Guarda Pessoal, só serve para


implantar o terror e garantir a sua oligarquia. Climério Euribes de Almeida
241
não é o único criminoso a serviço da corrupção.

Ainda explorando a ficha suja de Climério, Lacerda começou a publicar fotos


em que ele aparecia junto de Vargas, fazendo sua segurança, alegando que este lhe
prestava serviços há muitos anos. Interessante que ao mostrar isso, o jornal se contradiz,
pois, dizia que, tendo Climério sido sempre um bom guarda de Vargas, o fato de o
governo apoiar sua prisão seria uma ingratidão do presidente. Aqui, vemos mais uma
vez, que a ideia de Lacerda era sempre de algum modo mostrar Vargas como alguém de
má índole. Se defendesse Climério, Vargas seria chamado de criminoso, se estava a
favor de sua condenação, era ingrato.
No dia 10, com o título “Quem é Climério capanga de Vargas, assassino de
242
Vaz” , dizia que este havia assassinado seu próprio sogro, que era afilhado de Lutero e
compadre de Gregório, tinha autorização para se locomover com carro do Catete. Além
disso, já tinha sido contrabandista de “lingerie” e casacos de pele. Com isso, deixava a
240
Tribuna da Imprensa, 09/08/1954.
241
Tribuna da Imprensa, 09/08/1954.
242
Tribuna da Imprensa, 10/08/1954.
97

entender que a Guarda Pessoal era composta por criminosos que estariam à disposição
para realizar serviços ilegais.
Diante das investigações, envolvendo os membros de sua Guarda, o presidente
decidiu dissolvê-la. Com esse ato demonstrava que estava deixando livre o espaço para
o Inquérito, entendendo que, na condição de réus não poderiam continuar prestando
serviços oficiais. As intenções do presidente foram explicitadas na Última Hora, em
nota especial: “dissolvendo sua Guarda Pessoal, Vargas coloca uma vez mais a sua
243
consciência do dever acima de todas as continências sentimentais.”.
Foi apresentada, também, uma manchete sobre os criminosos investigados.
Sobre José Antonio Soares, dizia: “„Biografia‟ do assassino do major Vaz. Pistoleiro em
Caxias, chantagista no Rio e assassino em Minas!”. Junto a esta publicação, trazia uma
declaração da mãe de Climério sobre o filho: “meu filho parece que tem o diabo no
corpo”.
Um dos pontos altos da acusação de que Vargas estava envolvido com a fuga de
Climério, foi quando a Tribuna da Imprensa publicou uma manchete dizendo que ele
estaria escondido em São Borja. Cada vez mais Lacerda construía a imagem corrupta do
presidente de maneira, até mesmo desleal. Não se tinha prova ou indício de que ele
estaria lá, tal informação era apenas mais uma forma de influenciar a opinião pública
contra o presidente, visto que era quase impossível não associar o envolvimento do
presidente no crime se realmente Climério estivesse em São Borja, uma cidade que
ficou conhecida pelos brasileiros especialmente por ser a terra natal de Vargas.
A Tribuna ainda foi mais longe. Publicou um histórico de quatro crimes que
teriam sido cometidos por Vargas, onde o tom das acusações se tornou ainda mais
agressivo, como podemos ver a seguir:

Em 1923, Getulio Vargas cometia um dos quatro crimes de morte que


assinalem sua vida pregressa de homicida. Atentou contra índios de sua terra,
segundo o relatório do engenheiro Ildefonso Soares Pinto. Esse não é o único
crime do atual presidente e sua família. No Rio Grande do Sul e Ouro Preto
outras pessoas foram trucidadas por seus capangas: o estudante Almeida
Prado, o médico Benjamim Torres Filho e o major Aureliano Coutinho.
244
Todos morreram em emboscadas como a da Rua Toneleros.

243
Última Hora, 10/08/1954.
244
Tribuna da Imprensa, 10/08/1954.
98

Associar o presidente a um crime já estava sendo terrível para seu governo,


mostrar que esse não era o único, deixava as coisas ainda mais difíceis. Principalmente
porque o trabalho realizado pelo jornal de Lacerda não poupava exagero nas palavras,
fazendo com que algo que já soava tão frio e sanguinolento se tornasse ainda mais forte.
A partir do dia 11, os dois jornais tiveram capas de grande destaque,
principalmente por conta das prisões dos acusados, em especial a de Climério que foi
um grande evento policial. Com todos os acusados presos, as investigações puderam
tomar rumos decisivos. Desse modo, as publicações se destinaram mais em mostrar as
novidades no inquérito. Em destaque, a Tribuna da Imprensa trazia as notícias após o
depoimento de Gregório:

Gregório depôs durante 5 horas – dormiu depois que soube do atentado –Os
capangas de Vargas custavam Cr$ 500 mil ao povo – Gregório vaiado pelo
245
povo ao sair do quartel do 2º Batalhão de Infantaria da PM.

Ao lado de uma grande foto de Gregório depondo, o jornal dizia que durante sua
fala ele permaneceu dando socos em uma das mãos, o que foi interpretado como uma
ameaça inconsciente de bater nos fotógrafos que cobriam o acontecimento. Essa
interpretação, bem explorada pelo jornal valorizava a imagem dele como um homem
violento, capaz de preparar um crime como o da Rua Toneleros. Gregório, no entanto,
se defendeu dizendo que era um hábito.
Seguia afirmando que os acusados do crime teriam recebido apoio do Catete
para fugir e chegou até repetir a notícia que os “capangas” de Vargas haviam cometido
assassinatos em São Borja. O jornal buscava fornecer todos os detalhes possíveis das
investigações, exemplo disso, foi a publicação da foto da arma do crime junto a foto de
pessoas que tinham interesse em negociar a arma usada no atentado.
Estava nítido que a prioridade era a cobertura do atentado, foi cedido todo
espaço necessário para publicar as novidades e em alguns momentos abriu mão de
outras notícias, como foi dito no exemplar do dia 13:

A partir de hoje o seu jornal não publicará a Página Feminina, toda vez que os
acontecimentos tumultuosos destes dias exigirem maior espaço para serem
noticiados. Estou certo de que nossas leitoras, de boa vontade, se privarão de sua

245
Tribuna da Imprensa, 11/08/1954.
99

página própria, a fim de acompanhar de perto tais acontecimentos, de que


246
também estão participando, com tanto interesse e entusiasmo.

Após terem acesso aos depoimentos dos acusados, a Tribuna lançou em


destaque que Lutero realmente era o mandante do crime. Segundo o jornal, o pistoleiro
Alcino e sua mulher teriam confessado que ele, Climério, Soares e o motorista Nelson
cumpriram ordens do filho do presidente, como dizia mais adiante:

Lutero era o mandante, Alcino confessou no depoimento quando preso no


aeroporto do Galeão. Confirmado pela sua mulher. Alcino foi o que atirou. A
ordem era ferir Lacerda no pé, só matou o major porque ele foi ao seu
encontro para o desarmar. Confessou que os outros foram Climério Euribes,
da Guarda de Getúlio Vargas e José Soares e Nelson Raimundo dos Santos
247
(motorista).

Dizia ainda que, o subchefe da Guarda Pessoal preparou a fuga de Soares. Com
isso, acusava que o delegado Jorge Pastor e o ministro da Justiça estavam tentando
proteger a família de Vargas. A resposta de Lutero viria em destaque pela Última Hora.
O deputado se dispunha a abrir mão de todas suas imunidades que seu cargo lhe
permitia para responder as acusações como um simples cidadão. Um grande espaço da
capa da edição do dia 14 foi dedicado à sua defesa, dizendo:

Num gesto inédito da história do nosso Congresso, Lutero não quer ser tratado
pelas autoridades nem como deputado, nem como filho do Presidente da
República – “Estou disposto a ir até as últimas consequências para que a Câmara
atenda o meu apelo” – Durante dois dias Lutero lutou contra seus companheiros
de direção do PTB, que não concordavam com sua decisão – Getúlio Vargas
aprovou comovido a decisão do filho – Sereno e despreocupado Lutero mostra-
248
se ansioso por enfrentar seus detratores.

246
Tribuna da Imprensa, 13/08/1954.
247
Tribuna da Imprensa, 14/08/1954.
248
Última Hora, 14/08/1954.
100

Figura 15: Capa da Última Hora, em 14/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Após se apresentar às autoridades do Inquérito, Lutero leu uma mensagem ao


povo, através da Radio Nacional, onde dizia que estava sendo difamado, pois, embora o
atentado fosse digno de repulsa, não era cabida tamanha exploração política que
estavam dando ao fato. Tal exploração foi criticada pelo jornal que acusou Lacerda de
espalhar confusão e estar perturbando o andamento do Inquérito, visto que não havia
nenhuma acusação direta a Lutero.
Na altura do dia 16, a Tribuna da Imprensa noticiava as novas informações
sobre Gregório que já se encontrava preso e incomunicável, na Ilha das Cobras, sob a
guarda da Marinha. Segundo o jornal, o chefe da Guarda Pessoal de Vargas agiu com
cinismo em seu depoimento, ao afirmar que foi dormir após saber do fracasso do
atentado. Vale ressaltar, aqui, que desde o atentado, Lacerda acusava Gregório de ser o
principal responsável pela articulação do crime e enfatiza a questão da participação da
Guarda Pessoal neste acontecimento.
Na Última Hora, porém, não vemos comentários sobre o fato da Guarda Pessoal
estar envolvida. Há a cobertura das investigações, mas sem muitas especulações sobre a
101

relação dos criminosos com Vargas, tanto que até o fim da primeira quinzena do mês,
não vemos referência a Gregório neste jornal. Era necessário que a Última Hora
conseguisse fazer uma cobertura mais amena, pois o atentado em si já foi suficiente para
causar maiores complicações ao governo, principalmente tendo ampla exploração pela
imprensa oposicionista.
Nesse sentido, demonstrando preocupação com a investigação do crime, a
Última Hora se dedicou todo espaço da capa do dia 17 para a cobertura da grandiosa
captura de Climério. Cerca de 200 homens armados com metralhadoras e equipamentos
de guerra, fecharam o cerco ao criminoso, que se encontrava escondido num bananal em
Nova Iguaçu. A cobertura da Última Hora foi bem mais enfática do que a da Tribuna da
Imprensa, o que nos faz pensar que a preocupação dos dois, com a cobertura do crime,
era diferente. O jornal de Wainer buscava mostrar a eficiência do Inquérito e o apoio
que o governo estava dando para que os órgãos responsáveis tivessem liberdade para
agir, enquanto que para a Tribuna era mais interessante mostrar os depoimentos dos
acusados, explorar quem eram os réus para alcançar o objetivo de provar a culpa do
presidente. Exemplo disso, é que este jornal, em alguns momentos, repetia manchetes,
insistia em notas que já haviam publicado em dias anteriores, para reforçar a acusação.

Figura 16: Capa da Tribuna da Imprensa, em 17/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?Bib=154083_01&PagFis=16683&Pesq=> acesso em:
25/01/2017.
102

Figura 17: Capa da Última Hora, em 14/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Os dois jornais mostraram que a caça a Climério foi de uma proporção nunca
vista, no entanto, para a Última Hora, a grandiosidade da busca ressaltava a capacidade
da polícia, favorecendo a imagem do governo. Para a Tribuna da Imprensa, a
grandiosidade da busca ressaltava o quanto Climério era perigoso e sua associação ao
presidente, desejava mostrar que o país estava nas mãos de um bandido. Após todos os
acusados serem presos, ambos os jornais publicaram em destaque seus depoimentos.
Logo, somente a partir daquele momento que a Última Hora começou a falar de
Gregório como “peça” importante no atentado.
As publicações da Tribuna da Imprensa referentes aos depoimentos dos
criminosos direcionavam toda a culpa a Lutero Vargas como o mandante do crime,
porém há indícios de que a participação de Lutero era algo explorado por Lacerda para
que se tornasse mais fácil associar o presidente ao crime e não algo provado no
Inquérito. Isso teria sido reconhecido pelo próprio Lacerda, como mostra a publicação
da Última Hora, intitulada “espantosa confissão”:
103

Lacerda sabia que Lutero não era o mandante! Confessou, ontem, na Rádio
Globo que há vários dias já sabia que Lutero não era o mandante do atentado
da Rua Toneleros, mas continuou divulgando na Tribuna da Imprensa –
249
perdeu a cabeça diante da verdade dos fatos.

Essa versão, no entanto, não foi confirmada por Lacerda no seu jornal, pelo
contrário, continuou a mostrar os depoimentos onde Lutero era acusado de ser o
mandante, como na publicação da íntegra do depoimento de Alcino:

Lutero foi a força que armou o braço de Alcino. O pistoleiro afirma que o
dinheiro veio do filho do presidente. A longa preparação do crime, as duas
emboscadas que falharam; as promessas de dinheiro e emprego; a certeza da
250
impunidade e a proteção de Lutero Vargas.

A versão de que Lutero teria prometido proteção aos criminosos, seria contada,
também por Climério. O jornal publicou parte do depoimento dele, onde afirma que
Gregório lhe garantiu que Lutero não deixaria que nada lhe acontecesse. No entanto, o
Inquérito não chegou a um consenso de quem seria o mandante. Lacerda realizou um
ataque mais profundo, acusando Vargas de co-autor do crime. Já que nenhum dos
acusados tocou no nome do presidente, ele decidiu acusá-lo de forma indireta, pois os
envolvidos eram pessoas ligadas a ele, então ele de alguma forma seria culpado. Com
esse pensamento, publicou na Tribuna a ideia de que, como medida preventiva, o
presidente deveria ser preso, enquadrado no artigo 25 do Código Penal.
O jornal intensificou as acusações sobre Gregório para enfatizar a co-autoria de
Vargas, dizendo:
Todos criminosos sabiam que Lutero era o mandante. Gregório era o
verdadeiro Presidente da República, decidia sobre todos os assuntos,
arranjava casa, emprego e telefone, tirava o “barato” de todos,
principalmente bicheiros do Rio [...] Wainer oferecia-lhe charutos por
sugestão de Vargas – Escândalos estarrecedores nos arquivos secretos do
251
chefe da guarda Pessoal do presidente.

A exploração de que os exemplares trariam notícias reveladoras, que


desvendasse segredos foi uma prática comum em ambos os jornais, não só pelos
interesses políticos, mas também, pelos econômicos, pois o atentado deixou o país
inteiro em choque e desejosos de conhecer seu desfecho. Por conta disso houve um
aumento nas vendas e consequentemente aumento no preço dos jornais. Em meados de

249
Última Hora, 20/08/1954.
250
Tribuna da Imprensa, 20/08/1954.
251
Tribuna da Imprensa, 18/08/1954.
104

agosto, a Tribuna e a Última Hora explicavam a seus leitores que depois de manterem
por tanto tempo o preço do jornal a Cr$ 1,00 era necessário aumentar para Cr$ 2,00,
alegando aumento dos custos na produção. Mesmo que este fosse um real motivo para
aumentar o preço, o fato é que o momento escolhido para fazer isso foi bem pensado,
pois o povo estava tão interessado em acompanhar a situação crítica do país, que o
aumento de 100% no preço não atrapalhou a tiragem dos jornais.
Diante desse cenário, conforme foram se intensificando as acusações sobre
Lutero e chegando ao ponto de sugerir a prisão do presidente, a estrutura do governo já
estava bastante comprometida, principalmente por estar em curso, paralela às
investigações, a campanha da Tribuna da Imprensa pela renúncia do presidente. Como
veremos a seguir, Vargas já não tinha mais chances de permanecer muito tempo no
poder.

3.3 Apelo à renúncia

Foi preciso que matassem este pai simples e de bom coração para que
Vargas dissolvesse o bando ilegal que chamava de sua guarda pessoal, e que
ao fim de quase 20 anos de promiscuidade com bandidos, Vargas
compreendesse que estava cercado de facínoras? “se no fundo da alma do
Sr. Getúlio Vargas houver uma sombra de patriotismo, ele compreenderá...
que a sua presença no governo neste momento constitui uma ameaça à
tranqüilidade da família brasileira, que a sua presença à frente do governo é
252
um desafio e uma afronta insuportável à consciência dos brasileiros.”.
(Carlos Lacerda)

Logo ao início das investigações do atentado da Rua Toneleros, a Tribuna da


imprensa se engajou na campanha pela renúncia de Vargas, alegando que ele era, de
certa forma, culpado pelo crime, e não poderia permanecer no cargo mais alto do país.
Ao mesmo tempo, a Última Hora se dedicava em não deixar que o presidente fosse
associado a este ato e tivesse seu mandato comprometido. A campanha impulsionada
por Lacerda desejava fazer parecer que era a vontade da população que Vargas deixasse
a presidência. Desse modo, a primeira publicação do seu jornal, se referindo a isso, foi
253
no dia 10, tendo destaque com o título: “A nação exige a renúncia de Vargas”. Esse
título era uma forma de dizer que a renúncia não era um desejo da oposição, apenas,
mas quem estava intimando tal atitude era o povo.

252
DULLES, W.F. Op. Cit. p. 184.
253
Tribuna da Imprensa, 10/08/1954.
105

Figura 18: Capa da Tribuna da Imprensa, em 10/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?Bib=154083_01&PagFis=16683&Pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Na sequência, o jornal insistia pela renúncia, tendo como sua aliada para a
campanha, a comoção pela morte do major, visto que, no dia 11 completavam sete dias
de sua morte. A presença das pessoas na missa celebrada em sua homenagem permitiu
que a Tribuna associasse que esta comoção tinha como consequência o apelo do povo
pela renúncia do presidente. Para exercer maior pressão, foi publicado um apelo
bastante direto e agressivo, como era de se esperar deste jornal, para que o presidente se
retirasse do cargo, através das seguintes palavras:

A Getúlio Vargas dirijo, de todo coração, um apelo supremo; Presidente da


República; renuncia para salvar a República. Getúlio Vargas: deixa o poder
para que o teu país, que é nosso país, possa respirar nos dias de paz que os
teus lhe roubaram. Sai do poder, Getúlio Vargas, se queres ainda merecer
algum respeito como criatura humana, já que perdeste o direito de ser
254
acatado como chefe do governo.

Para enfrentar a campanha contrária, a estratégia da Última Hora foi procurar


dar destaque aos benefícios do governo e não concentrar toda atenção para os problemas
que estavam ocorrendo. Exemplo disso, é que o jornal cobriu as investigações do
atentado, demonstrou repúdio ao acontecimento, porém é possível observar numa
mesma capa, notícias sobre o crime e outras como: aumento de salário para funcionários
públicos, abertura de novos cargos, melhorias de transporte, entre outros. A estratégia
foi usada desde o dia do atentado, em que se começou a cogitar a participação do

254
Tribuna da Imprensa, 11/08/1954.
106

presidente. No exemplar do dia 6, no topo da página estava a nota: “na ordem do dia, o
aumento para os militares”. Poderia ser uma notícia normal, mas não deixa de ser
intrigante ver que essa notícia veio um dia após a morte de um major da Aeronáutica,
vítima de um atentado do qual o presidente estava sendo acusado. Ou seja, um aumento
de salário tentaria amenizar a revolta dos militares para com Vargas.
Além dessa estratégia, também favorecia ao presidente o fato da Última Hora
ser um jornal que se encaixou bem no processo de modernização da imprensa, de modo
que, não assumiu um caráter essencialmente opinativo em suas páginas, embora, como
falamos anteriormente, nunca tenha deixado de opinar. A questão é que por estar
interado às novas técnicas do jornalismo, naquele período, o jornal de Wainer conseguia
englobar vários assuntos na sua edição, deixando sua leitura um pouco mais “leve” em
relação à Tribuna que permaneceu com características dos moldes antigos, fixando a
atenção para a opinião.
Durante o período analisado, as capas da Tribuna da Imprensa se dedicam, em
algumas datas, a falar apenas sobre o atentado e sobre o apelo à saída de Vargas, chega
a ser repetitivo, como já mencionamos. Nas capas da Última Hora, no entanto, vemos
uma melhor distribuição dos assuntos, há notícia de esporte, coluna social, notícias
internacionais, notícias sobre música. E isso não refletia uma tentativa de fuga para não
falar da crise, mas qualidade na variedade de informação. Este era um fator que
favorecia a defesa do governo, pois como o adversário agia de maneira intensa, acabava
parecendo exagerada e não conseguia receptividade melhor que a da Última Hora.
O exagero da Tribuna da Imprensa foi uma das principais críticas da Última
Hora, naquele período, esta fazia um apelo para que a ordem do país não fosse abalada
por conta das acusações do adversário. Na condição de porta-voz do governo, a Última
Hora transmitia a posição do ministro da Guerra, Zenóbio da Costa:

Não procurem instigar o povo à violência – disposição para apurar o crime até o
fim – não se cogitou renúncia do Presidente da Republica – necessário pôr um
freio nas informações alarmistas que inquietam a população – as Forças Armadas
255
mantêm-se vigilante e garantirão o regime.

O jornal manteve-se apresentando a agenda do presidente, mostrando que em


meio a aquela situação complicada de seu governo, ele permanecia atuando em prol dos

255
Última Hora, 12/08/1954.
107

trabalhadores. O país estava dividido: para alguns a paz só voltaria a estar presente no
país, se a Constituição fosse defendida e o mandato do presidente mantido. Para outros,
a paz viria com a renúncia do presidente, como defendia o ex-presidente General Dutra.
Os que defendiam a renúncia buscaram mobilizar a população para se
manifestar em favor disso, provocando alguns contratempos, que a Última Hora
chamou de “arruaças provocadas por um conhecido agitador profissional”,
subentendido ser Lacerda. Como recado aos causadores da desordem, foi publicado
parte do discurso de Vargas, proferido em Belo Horizonte:

Não permitirei que agentes da mentira levem o país ao caos. Sou o presidente
eleito e pretendo desempenhar meu mandato até o fim. Nem um minuto a
256
mais. Jamais pensei em renunciar.

De fato, o presidente não cogitava renunciar, porém, sua força para resistir aos
duros ataques que se estendiam, não era a mesma força que as palavras buscavam
transmitir. No entanto, a ação da Última Hora, conseguia mostrar a intenção do governo
de resistir. Foi publicada uma nota especial, no dia 13, onde estavam explícitos alguns
pontos fundamentais sobre o pensamento de Vargas diante daquela conjuntura:

1. Cumpriria seus deveres até o fim;


2. Estava havendo interesse de gerar confusão pela mentira para levar o
país ao caos e a anarquia;
3. Iria empenhar a autoridade e a honra do governo para ordem ser
257
mantida e as garantias constitucionais asseguradas.

Percebemos com isso, a importância da atuação de um órgão da imprensa a


favor do governo, pois assim, era possível o presidente alcançar um diálogo com a
população, dar alguma satisfação e acalmar os ânimos e incertezas que pairavam sobre
o país naquele momento.
No início da segunda quinzena do mês, conforme o Inquérito Policial Militar foi
avançando, a relação entre Vargas e o atentado foi sendo mais explorada,
principalmente envolvendo o nome de seu filho, Lutero. Como demonstra a manchete
em destaque, no dia 14, da Tribuna da Imprensa: “pode presidir a República o pai do
homem que vai ser inquirido? ”.

256
Última Hora, 13/08/1954.
257
Última Hora, 13/08/1954.
108

Figura 19: capa Tribuna da Imprensa, em 14/08/154. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?Bib=154083_01&PagFis=16683&Pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Com esta manchete, o jornal conseguia alarmar ainda mais o país, que se via
diante de uma série de incertezas em relação aos rumos que se tomaria. Com isso, o
jornal era beneficiado com o aumento das vendas, a ponto de apresentar duas edições
numa segunda-feira, uma matinal e outra vespertina. Diante disso, a Última Hora
energicamente, em destaque, dizia: “o crime da Rua Toneleros não deve continuar a
envenenar o Brasil”. Junto a isso trazia depoimentos de pessoas de alto cargo das Forças
Armadas para mostrar que não havia espaço para um golpe. Ao mostrar que as forças
militares estavam em harmonia com o presidente, o governo buscava tranquilizar a
população.
A campanha contra Vargas tinha o apoio dos Estados Unidos, que desde que
Enseinhower assumiu a presidência, teve as relações com Vargas abaladas. Durante a
crise de agosto, a imprensa norte-americana, representado por um dos mais importantes
jornais desse país, o The New Yok Times, daria seu apoio também à campanha. Apoio
este, que a Tribuna fez questão de mostrar em destaque na edição do dia 17. O jornal
norte-americano dizia que o atentado da Rua Toneleros, deu mau nome ao governo,
declarando:
Getúlio Vargas tem constituído certamente, uma profunda desilusão desde
que foi eleito a 03/10/1950. O melhor que pode dizer dele é que não tem feito
nada. O pior é que tem posto frente grupos e indivíduos para atingir seus
próprios propósitos políticos tem permitido que definhe a economia do seu
rico país até chegar à crise atual, que se manifesta nas dificuldades de
109

exportação, descontentamento dos trabalhadores, na inflação e no aumento


258
constante da qualidade de vida.

Na mesma edição, após mostrar o posicionamento do The New York Times vinha
uma entrevista com o ex-presidente Arthur Bernardes, com o título: “saia Vargas”. O
jornal já havia publicado a fala de Dutra e agora a de outro ex-presidente, com isso
mostrava que pessoas experientes em presidir o país consideravam inviável a
permanência de Vargas.
Ainda fazendo comparações com presidentes anteriores, a Tribuna fez alusão ao
momento da renúncia de Marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil.
A manchete dizia que “o bom exemplo vem de longe”, onde trazia um trecho do
discurso do marechal ao renunciar: “não quero aumentar o número de viúvas e órfãos
259
no meu país. Mandem chamar o Floriano, não sou mais Presidente da República”. A
comparação com Deodoro não foi feita apenas uma vez. No dia 21, foi publicado um
depoimento do neto dele, onde resaltava que: “Deodoro não quis ver o país incendiado
pela guerra civil”. Com essa lembrança, pretendia-se mostrar que um “presidente de
verdade” prefere deixar o cargo a ver o sofrimento de seu povo, insinuando que se
Vargas via as dificuldades do país e não renunciava era porque colocava a sua vontade
acima dos interesses do povo, sendo indigno do cargo.
Analisando as publicações dos jornais, podemos perceber como o ponto mais
alto da crise, o dia 23. A conjuntura complexa vivida desde a madrugada do dia 05
“explodiu” naquele dia, quando o país vivia um momento decisivo. De um lado a
oposição mais enérgica em definir a saída de Vargas em poucas horas. De outro, o
momento de decisão do presidente e das Forças Armadas para garantir a ordem no país.
A partir da análise das capas destes jornais, chegamos a ter a impressão de que os dois
jornais não estão falando do mesmo dia e do mesmo contexto, pois a forma de
transmitir o que estava ocorrendo foi muito diferente. A Tribuna da Imprensa resumia
os acontecimentos da seguinte forma:

Noite agitada no país inteiro – intensa movimentação nos círculos militares –


censuradas estações de rádio – Isolado o Palácio do Catete por um pelotão da
polícia do Exército – Zenóbio promete garantir a ordem – Café propõe a
260
Vargas a renúncia de ambos, em favor do presidente da Câmara.

258
Tribuna da Imprensa, 17/08/1954.
259
Tribuna da Imprensa, 18/08/1954.
260
Tribuna da Imprensa, 23/08/1954.
110

A Última Hora, por sua vez, resumia assim:

A marcha dos acontecimentos: até às 12 horas de hoje, a situação em todo o


país permanecia inalterável. As Forças Armadas e a Polícia Civil
permanecem em rigorosa prontidão, prontas a reprimir qualquer agitação,
venha de onde vier. Todos os comandos desta capital e das demais Zonas
Militares mantêm estreito contato com o Palácio da Guerra, onde o General
261
Zenóbio da Costa coordena as medidas em defesa da ordem.

Destacando que o Brasil estava livre de uma guerra civil, garças a atuação do
Ministro da Guerra, demonstrava que não havia nenhuma agitação e, caso houvesse,
estaria sobre controle, como mostra a nota especial desta data:
Tranquilo o Catete:
Às 09 horas da manhã de hoje, o Presidente da República iniciou seus
despachos normais. O Palácio do Catete permanece com a mesma guarda que
para ali foi destacada desde o início da crise atual. Diversos governadores
comunicaram-se hoje com o presidente, informando-o da situação de
tranquilidade em seus Estados. As audiências e despachos ministeriais de
hoje foram mantidos. Todos os departamentos da Presidência da República
262
estão exercendo suas funções normais, sem qualquer alteração.

Além destas informações, o jornal publicou um editorial fazendo forte crítica à


Tribuna da Imprensa, em relação a esta dizer sempre que representava a vontade do
povo, em relação à renúncia de Vargas, dizendo:

Nunca se mobilizou tanto o nome do povo como nessa hora que se pretende
liquidar nossa constituição. Quem ouve nas estações de rádio ou lê os jornais
tem a impressão de que o povo brasileiro está louco pela deposição de
Getúlio Vargas.
(...) vimos o que tem sido a agitação desses últimos 15 dias, não houve um
minuto do dia ou da noite que não se tentasse envenenar a opinião pública
com boatos os mais alarmantes, com notícias as mais mentirosas, tentando
263
fazer crer que o povo estava disposto a derrubar o governo.

Com essa crítica, o jornal mostrava que não era verdade que o povo estivesse de
fato ao lado da oposição. Prova disso, foi que ao ser convocado para ir às ruas pedir a
deposição de Vargas, o povo não correspondeu ao chamado. A saída de Vargas não era
um projeto popular, mas um projeto dos seus adversários. Era preciso alertar a
população quanto a isso, visto que Lacerda vinha falando em nome do povo, para
legitimar a pressão contra o governo. É notório que houve um grande esforço da parte
do jornal “governista” em amenizar o efeito da crise àquela altura, reforçando que a paz

261
Última Hora, 23/08/1954.
262
Última Hora, 23/08/1954.
263
Última Hora, 23/081954.
111

e a ordem seriam mantidas e que apesar de tudo, havia tranquilidade no expediente no


Palácio do Catete, até mesmo para tentar tranquilizar a população. O presidente não
permitiu que a crise atrapalhasse o expediente e trabalhou normalmente, porém, naquele
momento, a realidade não era tão tranquila como nas páginas da Última Hora.

Figura 20: capa Tribuna da Imprensa, em 23/08/154. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?Bib=154083_01&PagFis=16683&Pesq=> acesso em:
25/01/2017.
112

Figura 21: Capa da Última Hora, em 23/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Na noite do dia 23, Vargas dirigiu uma reunião ministerial de emergência para
refletirem sobre qual seria a melhor saída diante de tal conjuntura: renúncia ou licença.
No entanto, a reunião não foi produtiva em chegar a um acordo, então Vargas declarou
sua decisão:

Já que o ministério não chegou a uma conclusão, eu vou decidir: determino


que os ministros militares mantenham a ordem pública. Se a ordem for
mantida, entrarei com pedido de licença. Em caso contrário, os revoltosos
264
encontrarão aqui o meu cadáver.

“A virada de 23 para 24 de agosto de 1954 foi das mais tensas da história da


265
República.”. Naquela madrugada, Vargas sugeriu que para solucionar a crise, ele
deveria tirar uma licença temporária até acabarem as investigações. Junto ao pedido

264
AURÉLIO, Daniel Rodrigues. Op. Cit. p. 114.
265
Idem.
113

266
advertia: “se vêm para me depor, encontrarão meu cadáver”. Havia muita tensão,
muita expectativa no ar. Porém, poucas horas depois recebeu a notícia de que os
267
generais não aceitavam sua licença: ou ele renunciava, ou seria deposto. Ele já havia
declarado que:

Ainda que me veja abandonado pela Marinha, pelo Exército e pela


Aeronáutica e pelos meus próprios amigos, eu resistirei sozinho... Já vivi
muito. Agora posso morrer. Nunca darei, entretanto, uma demonstração de
268
pusilanimidade.

Como ele não aceitava a renúncia os militares decidiram derrubá-lo. A recusa de


Vargas em renunciar à Presidência da República levou a oposição a planejar seu
afastamento através de imposições militares. “Acuado diante da crise, com margem
269
mínima de manobra, Vargas encontrava-se em situação difícil e delicada”.
Vargas viu a negação de sua licença como uma deposição, sendo assim, pouco
antes das 7:00 horas da manhã de 24 de agosto de 1954, Vargas se recolheu em seu
quarto. Suas alternativas eram mínimas, renunciava à presidência da república, ao custo
de sua desmoralização política, ou seria deposto por um golpe militar.

Abalado pelas investigações do assassinato que incriminavam membros de


sua Guarda Pessoal, acuado também pela UDN, cujo líder Afonso Arinos de
Melo Franco, em discursos histéricos, segundo sua própria avaliação, pedia
sua renúncia. Vargas se viu indefeso. Diante do ultimato dos generais,
brigadeiros e almirantes, e sem apoio civil organizado, decidiu pela morte
270
voluntária, dando um tiro no coração.

Com a sua morte, veio a público uma carta que havia deixado para ser lida ao
271
povo, sendo conhecida como Carta-Testamento. A carta foi encontrada por Ernani
Amaral Peixoto, governador do estado do Rio de Janeiro e genro de Getúlio, em cima
de uma mesinha-de-cabeceira do quarto presidencial. O documento foi lido em voz alta

266
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. 1930-1945. 14ª edição, Rio de janeiro -
Paz e Terra, 2007. p. 179.
267
DELGADO, Márcio de Paiva. Op. Cit.
268
DULLES, W.F. Op. Cit. p. 188.
269
FERREIRA, Jorge. Crises da República: 1954,1955 e 1961. In: ______; DELGADO, Lucília de
Almeida Neves (org). O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática, da
democratização de 1945 ao golpe civil-militar. Civilização Brasileira, RJ: 2003. p. 309.
270
CARVALHO, José Murilo. Vargas e os militares: aprendiz de feiticeiro. In: D‟ARAUJO, Maria
Celina S. (org.) As Instituições brasileiras da Era Vargas. Rio de Janeiro: Ed. UERJ: Ed. Fundação
Getulio Vargas, 1999. 212p.
271
Existem duas cartas. Uma manuscrita e outra, um pouco maior, datilografada, o que causa dúvidas,
ainda, sobre a veracidade da carta datilografada.
114

por Osvaldo Aranha, ministro da Fazenda, para um grupo de pessoas que se encontrava
no palácio do Catete e em seguida transmitido por telefone para a Rádio Nacional.
Antes das nove horas da manhã, a mensagem começou a ser irradiada para todo o
272
país , transmitindo as seguintes palavras:
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e
novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me
combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a
minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender,
como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino
que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos
econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e
venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social.
Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha
subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais
revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros
extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do
salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na
potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a
funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o
desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo
seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que
destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras
alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que
importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de
dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto.
Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a
nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a
mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante,
tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo,
para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso
dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém,
querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a
minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos
humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome
bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e
vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força
para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa
bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa
consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio
respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com
a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna.
Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu
sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu
resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do
povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não
abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha
morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da
273
eternidade e saio da vida para entrar na História.

272
CPDOC. Verbete: Carta Testamento.
273
http://www2.camara.leg.br/atividade-egislativa/plenario/discursos/escrevendohistoria/getulio-
vargas/carta-testamento-de-getulio-vargas.
115

Este documento trouxe um sentido ao seu ato, que ao invés de mostrar desespero
ou covardia, fez com que seu suicídio entrasse para a história como uma atitude de
alguém que se sacrificou pelo país.

A magia em torno do ato de suicídio de Getúlio Vargas contribuiu para que a


mítica construída de herói impedisse o vislumbramento do complexo projeto
274
político e da violência por ele encetada.

Como podemos perceber, a carta transmitia um forte sentimento de entrega do


presidente e denunciava os seus inimigos, que seriam cobrados pelo povo, por causa
desse acontecimento. Através do suicídio, o mito Vargas se consolidou como o
275
“Salvador” no imaginário político, com base na ideia do sacrifício. Sua construção
continha todos os ingredientes necessários para causar comoção. O apelo à emoção foi
tão forte que contribuiria para apagar as lembranças do período ditatorial de 1937.
276
Segundo Capelato , na Carta-Testamento aparece novamente a ideia de
conspiração, onde os conspiradores seriam os políticos e os capitalistas ligados ao
capital estrangeiro, inimigos do Brasil. O documento assegurou a imortalidade do líder
e conseguiu envolver-se da liturgia católica, sacralizando a sua imagem. Dessa forma, a
dramaticidade presente na carta estreitou os vínculos com as massas como nunca visto
antes.

3.4 A vitória disfarçada de derrota.

Em sua interpretação sobre o suicídio de Vargas, Lacerda disse:

Getúlio era realmente um homem habilidoso quando o deixavam exercer a


habilidade. Mas, quando encontrava resistência, era um homem perplexo e
incapaz de improvisar uma solução. Ele precisava – e parece que era um
pouco do seu temperamento - refletir. [...] Ele precisava de tempo para
conceber os seus planos políticos. Então, a surpresa, o ataque direto intenso

274
Apud CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em cena: Propaganda política no varguismo e no peronismo.
2ª Ed. São Paulo: Unesp, 2009.
275
Raoul Girardet classificou quatro grandes conjuntos mitológicos identificáveis nas sociedades
contemporâneas, que são: a Conspiração, a Idade do ouro, o Salvador, a Unidade. Cf. GIRARDET, R..
“Para uma introdução ao imaginário político”. In: Mitos e mitologias políticas. São Paulo, Companhia das
Letras, 1987. p. 9-24.
276
CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em cena: Propaganda política no varguismo e no
peronismo. 2ª Ed. São Paulo: Unesp, 2009.
116

deixavam-no completamente perplexo e sem saída. E foi afinal o que


277
aconteceu em 54.

Para ele, o ato do presidente foi um puro ataque de desespero e covardia. No


entanto, Tancredo neves, naquela ocasião, Ministro da Justiça, contou a impressão que
teve, tendo acompanhado tudo de perto:

Eu tenho a impressão de que quando Vargas se convenceu de que a resistência ia


redundar em derramamento de sangue, ele achou que esse preço não devia ser
pago. (...) Ou a morte dele ou a luta armada com derramamento de sangue. O
Ministro da Guerra deixou bem claro na reunião que fizemos:
“Se Vossa Excelência der ordens, eu jogo a tropa na rua, mas vai haver
derramamento de sangue”. A essa hora, ele falou: “De maneira nenhuma eu
farei. Se a minha permanência no poder vai custar o sangue do brasileiro,
278
prefiro renunciar ao poder”.
Diante da intensidade da crise, Vargas percebeu que resistir, através da força,
não seria possível. A sua saída era inevitável, decidir pela resistência seria decretar uma
guerra civil, onde a população, inocente sofreria as consequências. Ele, assim como o
ex-presidente Deodoro, não quis ver o país incendiado por uma guerra civil, porém a
sua solução para tal problema, foi diferente. Deixou o cargo, mas de uma maneira mais
eficaz contra seus inimigos.
O inesperado ato do Presidente da República foi, sem dúvidas, o grande
destaque das capas dos jornais, aqui analisados. Porém, o posicionamento de cada um
deles foi bem diferente, demonstrando a postura que ambos seguiriam para viver a
política sem Vargas. A Tribuna da Imprensa, com letras garrafais, dizia: “suicidou-se
Getúlio Vargas.”. Segundo o periódico, o suicídio do presidente servia de “lição e
advertência eterna.”.
Enquanto a Última Hora fazia uma capa detalhista sobre a morte do presidente,
acusando os adversários do presidente de serem os culpados e mostrando a comoção
popular, a Tribuna já se dedicava em apresentar o novo governo. Trazia as primeiras
declarações de Café Filho e o recebimento de seus cumprimentos. Ora, acontecia uma
tragédia, um episódio que talvez até hoje, não tenha havido nada mais marcante, e o
jornal simplesmente se preocupa em dar uma nota e parabenizar o novo presidente?

277
LACERDA, Carlos. Op. Cit. p. 119.
278
RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas. livro 3: agosto de 1954: a crise e a morte do presidente. Rio de Janeiro:
Casa Jorge Editorial, 2001. p. 281.
117

Figura 22: capa Tribuna da Imprensa, em 24/08/154. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?Bib=154083_01&PagFis=16683&Pesq=> acesso em:
25/01/2017.
118

Figura 23: Capa da Última Hora, em 24/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

A Última Hora destacou que Vargas fora “vitima da ignomia e das campanhas
de adversários rasteiros. ”. O apelo deste jornal, como era de se esperar, foi pela
memória de Vargas, lamentar juntamente com o povo a perda de seu presidente, como
explícito em sua publicação:
119

Cenas de profunda dor estão sendo assistidas na rua. Lê-se o pesar no rosto do
povo. O povo brasileiro chora a perda do seu presidente, por ele escolhido,
por ele eleito e que - na crise gerada por seus inimigos – só saiu do Catete
279
morto.

Realmente o povo lamentou. As manifestações emocionadas das pessoas nas


280
ruas são destaques na nossa história. Jorge Ferreira foi um dos que se dedicaram em
fazer uma analise da reação popular à morte de Vargas. Segundo ele, as pessoas
receberam a notícia com perplexidade, o prefeito do Rio de Janeiro decretou feriado, as
crianças, na escola, receberam ordem para voltarem para casa. Pessoas choravam e
desmaiavam, expressando o estado de descontrole que o país estava naquele momento.

Na capital da República, a notícia do suicídio de Vargas detonou na


população um profundo sentimento de revolta e amargura. Grupos de
populares indignados, passaram a percorrer as ruas do centro da cidade com
paus e pedras. Dirigiam seu rancor particularmente contra todo e qualquer
material de propaganda política da oposição. Com escadas trazidas de casas e
prédios próximos, várias pessoas, com a ajuda de outras, subiam em postes e
marquizes e jogavam ao chão, faixas e cartazes que eram queimados
imediatamente. Os símbolos políticos mais visados e destruídos com certa
281
fúria aludiam aos candidatos da UDN.

Em virtude das expressões de revolta do povo, o Exército interditou a Avenida


Rio Branco e a Rua do Lavradio, onde situavam as sedes dos jornais O Globo e Tribuna
da Imprensa para controlar os ataques que para lá se dirigiam. Tanta era a revolta contra
os adversários, que o único jornal que teve condições de circular no dia seguinte foi a
Última Hora, com quase 800 mil exemplares, todos os outros tiveram a saída de seus
exemplares bloqueada pela ação popular.

279
Última Hora, 25/08/1954.
280
FERREIRA, Jorge. “O carnaval da tristeza: os motins urbanos do 24 de agosto. In: ______. O
imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-1964. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2005.
281
FERREIRA, Jorge. Op. Cit. p. 177.
120

282
Figura 24: povo disputa edição de Última Hora do dia da morte de Getúlio Vargas.

Figura 25: Capa da Última Hora, em 25/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

282
WAINER, Samuel. Op. Cit.
121

A edição daquele dia teve poucas palavras escritas, mas muitos sentimentos
expressados. Sob o título: “último encontro do povo com o grande presidente morto! ”,
informava sobre o velório e notificava que estavam contabilizados mais de dois mil
desmaios, sendo um fatal e dois graves. O restante da página se resumia a uma foto de
Vargas no caixão sendo observado por um cidadão comum. A imagem conseguia
transmitir através do olhar daquele cidadão, a expressão de tristeza que se encontrava no
rosto de cada um dos brasileiros.
Infelizmente, o presidente não conseguiu evitar, por completo, que houvesse
derramamento de sangue. Durante o velório, cerca de 2.100 e 2.800 pessoas foram
atendidas pelo socorro médico, além de pessoas feridas e mortas nos confrontos que se
seguiram entre populares e soldados da Aeronáutica, no momento da partida do corpo
de Vargas para São Borja. As pessoas comovidas demonstraram revolta pela
Aeronáutica que esteve diretamente envolvida nos acontecimentos recentes. No entanto
o confronto era bastante desigual e provocou a morte de inocentes. “Foram 15 minutos
283
de tiroteio ininterrupto, com um saldo trágico para a multidão. ”.
Situações como essa não se resumiram apenas à capital, em todo o país,
principalmente nas grandes capitais como: São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte,
Recife e Fortaleza, eram vistas manifestações do povo e a tentativa das forças
antigetulistas de calar sua voz. Foram muitos os feridos, os que tiveram problemas de
saúde e os mortos, pela violência ou por não conter a emoção diante do ocorrido.
284
Apesar de ter havido repressão em todas as manifestações, Jorge Ferreira , nos chama
a atenção para observarmos que nenhuma delas fora tão violenta quanto à repressão no
distrito federal.
No dia 26, quando a Tribuna da Imprensa teve a oportunidade de colocar seus
exemplares a venda novamente, Lacerda aproveitou para se pronunciar em relação à
“culpa” pelo ato trágico do presidente.

283
FERREIRA, Jorge. Op. Cit. p. 185
284
Idem.
122

Figura 26: Capa da Tribuna da Imprensa, em 26/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Vale ressaltar que este jornal não se importou em fazer a cobertura do velório de
Vargas, entendemos que o motivo tenha sido a intenção de minimizar as manifestações
populares, não era interessante reforçar uma situação, que para eles já fugia do controle.
Para sua defesa, escreveu um editorial de capa, intitulado “Pelo Brasil”. Nele,
dizia que se inclinava em respeito à morte de Vargas e suplicaria misericórdia a Deus
pelo seu ato de desespero. No entanto, alegava que:

Os que arrumaram o atentado da Rua Toneleros são os responsáveis pela


tragédia da Rua do Catete. (...) Os mandantes da morte de Rubem Vaz são os
285
responsáveis pelo suicídio de Getúlio Vargas.

Através dessas palavras, podemos notar que Lacerda reconhece Vargas como
vítima, contradizendo a postura mantida por ele antes do ocorrido, de que ele seria o
principal mandante do atentado, o que demonstra que o mais importava para ele era
alarmar a população contra Vargas do que realmente investigar sua participação no
crime. Ainda se defendendo, Lacerda dizia que nunca tinha usado de violência, sempre
o combateu com dignidade e lealdade, o que foi um exagero de sua parte, pois pode não
ter usado de violência, mas abriu mão da dignidade quando publicou notícias falsas
durante as investigações do atentado da Rua Toneleros, como no episódio em que
induziu uma confissão de Gregório Fortunato, como confessa em seu depoimento:

285
Tribuna da Imprensa, 26/08/1954.
123

Alguém – não me lembro quem, se o Fontelle ou o Borges, um dos dois – me


perguntou: “você é capaz de imprimir uma edição falsa da Tribuna da
Imprensa? Eu disse: Puxa, esse é um pedido, para um jornalista, meio chato!
Imprimir uma edição falsa de um jornal do ponto de vista ético é um negócio do
diabo!” “Bom, mas é a única solução para obrigar esse homem a confessar”.
Então, nós, muito em segredo, com dois ou três gráficos de total confiança da
gente lá da Tribuna – que tinha um corpo gráfico que era de uma dedicação sem
igual – imprimimos um jornalzinho de umas seis páginas, tudo direitinho, com
anúncios, artigos, etc. e tal, e a manchete era a seguinte:
“BEJO VARGAS FOGE PARA MONTEVIDÉU, ABANDONANDO OS
SEUS AMIGOS NA HORA DO PERIGO. O IRMÃO DO PRESIDENTE
286
DA REPÚBLICA FOGE PARA EVITAR...”

A intenção dessa falsa reportagem era fazer com que Gregório, ao ver que seu
suposto cúmplice, o havia deixado sozinho diante daquela situação, se indignaria e
contaria o que até então estaria escondendo. Tal atitude mostra o quanto o inquérito foi
manipulado para se alcançar a acusação de que o presidente fora o mandante do crime,
logo a oposição não foi digna e leal.
Além disso, chamava atenção para que esse episódio devesse ser tomado como
exemplo, superado e que deveria seguir em frente com o novo governo. Encerrava
dizendo que: “o suicídio não foi um ato de um homem combatido, mas de um homem
traído. ”. Diante dos últimos acontecimentos, a necessidade de se explicar, o jornal
publicou mais um breve editorial, apresentando os motivos pelos quais não pôde
circular no dia 25, dizendo que desejaram evitar o ódio dos comovidos com a morte do
presidente, visto que houve tentativa de depredação nos órgãos de imprensa. Após a
explicação, mais uma vez ressaltava: “em vez de voltarmos às vistas para as cinzas do
passado recente, preferimos deitar os olhos no futuro do país. ”.
Com estas palavras, estava claro o posicionamento da oposição, especialmente o
posicionamento do jornal, em relação a como seguir adiante. Os últimos dias do mês de
agosto, nas páginas da Tribuna da Imprensa não foram apresentados da mesma maneira
que na Última Hora. O periódico de Lacerda abandonou toda a nostalgia que pairava
sobre o povo brasileiro e seguiu no propósito de mostrar apoio ao governo Café Filho e
minimizar o efeito das manifestações populares, normalmente utilizando palavras
pejorativas para se referir a elas, como: desordens, agitações, entre outras semelhantes.
Foi feita a cobertura completa e empolgada de cada novidade. Exemplo disso foi a
matéria publicada em destaque com as fotos de todos os ministros nomeados pelo novo

286
LACERDA, Carlos. Op. Cit. p. 138.
124

presidente, desejando mostrar que um novo tempo começava, como se fosse um


momento de esperança.

Figura 27: Capa da Tribuna da Imprensa, em 26/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

Vale ressaltar que os principais jornais que atuaram como oposição durante a
crise de agosto, adotaram posturas diferentes em ralação à cobertura do suicídio. De
287
acordo com a pesquisa realizada por Alzira Abreu e Fernando Lattman-Weltman , os
jornais que faziam oposição mais radical, como o Diário de Notícias e Diário Carioca,
não deram ênfase à noticia do suicídio, delegando a ela espaço em submanchetes. Já O
Globo, Correio da Manhã e O Jornal, que faziam a oposição mais moderada, deram
amplo destaque ao ocorrido. O discurso comum entre eles era se eximir da culpa pelo
suicídio do presidente, culpando também os criminosos do atentado da Rua Toneleros
por isso, e demonstrava grande medo pela repercussão da Carta - Testamento. A autora,
nos mostra que a repercussão do suicídio, provocou uma mudança de comportamento
em seus adversários na imprensa, que rapidamente começaram a retocar a imagem de
Vargas.
O perfil até então construído teve que ser refeito - não coincidia com os atos
que agora se revelavam. O homem tinha também grandeza, patriotismo,
honestidade, e para alguns era um estadista. Assim, com um intervalo de
algumas horas, um novo retrato de Vargas começava a ser apresentado ao
288
público.

Apresentar um Vargas cheio de defeitos, naquele momento, não era interessante,


passou a ser mostrado o lado grandioso e patriota dele, para que assim esses periódicos
287
ABREU, Alzira Alves; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Fechando o cerco: a imprensa e a crise
de agosto de 1954”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará, 1994.
288
Ibidem, p. 44.
125

pudessem de alguma forma se reconciliar com o povo. No entanto, não vemos esta
mudança de postura na Tribuna da Imprensa. Este jornal manteve-se fiel ao discurso
contrário a Vargas e à sua memória, continuando a representar o ponto extremo do
antigetulismo. Para Lacerda o suicídio era um fato a ser superado e não isentava Getúlio
de seus erros.
Na Última Hora, porém, onde o maior interesse era lutar pela preservação da
memória de Vargas, o mês de agosto teria um desfecho marcado pela tristeza. Foi
cedido amplo espaço para a cobertura do velório, sendo que foram duas cerimônias,
uma no Rio, no dia 25 e outra em São Borja, terra natal do presidente, onde foi
sepultado. Além de mostrar a comoção popular, trazia depoimentos da família de
Vargas, sendo um espaço para perpetuar o contato com o povo. Mostrando que a sua
morte não significava o fim de sua importância, pelo contrário: “Vargas estava mais
289
vivo do que nunca!” . Isso era o que mais de 500 mil pessoas demonstraram em seu
cortejo fúnebre.
A cobertura das manifestações de carinho ao presidente teve bastante destaque
até o dia 31, onde foram realizadas as homenagens devido aos sete dias completados de
sua morte.

Figura 28: Capa da Última Hora, em 31/08/1954. Fonte:


<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=386030&pasta=ano%20195&pesq=> acesso em:
25/01/2017.

289
Última Hora, 26/08/1954.
126

A importância de Vargas e sua relação tão próxima do povo eram tão intensas
que percebemos um fato interessante, quando analisamos as homenagens a ele: a
sociedade brasileira sempre possuiu um grande número de adeptos do catolicismo,
religião esta, que abomina a prática do suicídio, considerando que quem pratica tal ato
não receberá o perdão divino. No entanto, mesmo sendo próximo a essa cultura, nãos
vemos, com essas manifestações, algum julgamento sobre seu ato. Nem mesmo a Igreja
Católica se mostrou indignada, pelo contrário, os religiosos também demonstraram
tristeza e realizaram as missas e todas as cerimônias pertinentes. A Carta - Testamento e
a conjuntura em que o presidente se matou, reforçaram a imagem de que ele se
sacrificou pelo povo, retirando então a culpa ou imagem de covardia e fraqueza que
normalmente um suicídio delega a quem o praticou.
No que diz respeito às consequências políticas geradas pelo suicídio de Vargas,
percebemos que a atuação de um povo revoltado e amargurado foi, junto com o suicídio
de Vargas, um ponto importante para desarmar o golpe pretendido pelo movimento
oposicionista.

Com o tiro no peito, Getúlio Vargas jogou com sua própria imagem a longo
prazo. A vingança foi meticulosamente planejada: se seus inimigos o queriam
desmoralizado politicamente, ele foi muito além, jogando seu próprio
cadáver nos braços dos udenistas que, atônitos, não souberam o que fazer
290
com ele.

Ao ter uma atitude extrema como um suicídio, juntamente com a comovente


“Carta Testamento”, a situação se reverteu e todo discurso difamador de Lacerda perdeu
o sentido e a força para legitimar a chegada da UDN ao poder. Na verdade a chance
deste partido chegar ao poder se tonou remota, visto que os inimigos de Vargas foram
apontados como principais culpados por sua morte. Lacerda reforçou essa constatação
em seu depoimento, dizendo que: “qualquer que tenha sido a intenção de Vargas, o
291
suicídio nos perturbou de uma maneira incrível.”. Diante disso:

A tática da oposição – notadamente de Lacerda e da UDN, que nunca haviam


se conformado com as derrotas sofridas -, procurando inviabilizar o governo
Vargas e acabar com a democracia populista por meio de virulentos ataques
no Congresso e na imprensa, e aliando-se às conspirações militares, mostrou-
se, com o suicídio, ineficaz. A vitória do antigetulismo, grande bandeira da

290
FERREIRA, Jorge. Crises da República: 1954,1955 e 1961. In: ______; DELGADO, Lucília de
Almeida Neves (org). O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática, da democratização de
1945 ao golpe civil-militar. Civilização Brasileira, RJ: 2003. p. 310.
291
LACERDA, Carlos. Op. Cit. p. 147.
127

UDN e sua própria razão de existência, não passaria, dessa forma, de uma
vitória de pirro, pois na verdade, a radicalização popular impediu a quebra do
292
jogo constitucional.

Diante do ocorrido, a opção da UDN foi se unir rapidamente ao governo de Café


Filho para de alguma forma garantir que estariam envolvidos no governo, porém as
eleições estavam às portas e o medo de caminhar para a terceira derrota era grande.
Inclusive, teve destaque na Última Hora o alerta de que havia o interesse da UDN em
articular uma forma de adiar as eleições, pois estas aconteceriam no início de outubro,
ou seja, há cerca de trinta e cinco dias após o suicídio de Vargas, muito recente e sem o
apoio da população seria muito difícil vencer. Nesse caso, podemos dizer que o feitiço
virou contra o feiticeiro, pois toda tentativa de eliminar Vargas e sua influência no
Brasil fez com que ele permanecesse na memória brasileira como um mártir, privando a
UDN de alcançar a tão desejada vitória e tornando o sonho de Lacerda em ser
Presidente da República cada dia mais distante. No entanto, essa constatação não estava
clara para os antigetulistas, que continuaram em busca de colocar o país sob o domínio
de seus interesses, como ficou evidente no golpe militar, dez anos mais tarde, em 1964.
Assim, Vargas fez valer sua frase, escrita na carta: “E aos que pensam que me
derrotaram respondo com a minha vitória. ”. Evidenciando a concepção de Skidmore,
de que: “na morte, como na vida, os atos de Getulio foram cuidadosamente calculados
293
para produzir o máximo de efeito político”.

292
MENDONÇA, Marina Gusmão. Op. Cit. p. 155.
293
SKIDMORE, Thomas. Op. Cit. p. 180.
128

CONCLUSÃO

Chegamos à etapa final desta pesquisa, onde analisamos a atuação política de


dois importantes periódicos que apresentavam posições opostas no cenário político
brasileiro, da década de 1950: Tribuna da Imprensa e Última Hora. Ambos foram
criados com o propósito de defender os interesses políticos de seus donos que, inseridos
num momento de transformações no jornalismo, buscavam se adequar a elas sem, no
entanto, abandonarem suas funções enquanto instrumentos políticos. Através dessa
análise refletimos sobre a capacidade da imprensa de atuar no cenário político, bem
como a importância de sua contribuição para o trabalho historiográfico.
Escolhemos o contexto do segundo governo de Getúlio Vargas, em que as
disputas entre os dois jornais foram bem intensa. Buscamos mostrar de que maneira foi
organizado, pela UDN e Carlos Lacerda, o ataque a Vargas com o intuito de
interromper seu mandato, ao mesmo tempo em que verificamos a maneira como a
Última Hora, através de Samuel Wainer, buscou atenuar os ataques recebidos, lutando
em favor do presidente juntamente com as forças governistas.
Era propósito da UDN impedir Vargas de governar para que seu objetivo maior
fosse alcançado: chegar ao poder! Lacerda enquanto representante deste partido seguiu
neste propósito, porém contava com algumas motivações a mais para seu engajamento
em exercer oposição. Foi motivado por questões pessoais e econômicas. A sua amizade
inimizade com Wainer contribuiu para sua mobilização contra a Última Hora, vendo
que ao atacar o jornal eliminaria dois desafetos. Além disso, interromperia o sucesso de
um jovem e grande jornal que atemorizava todos os órgãos de imprensa no Distrito
Federal.
Lutar contra Vargas no terreno político não era tão simples, visto que seu
governo possuía boas estratégias para o desenvolvimento do país, embora enfrentasse
dificuldades para executá-las. Além disso, a sua popularidade era grande. Diante disso,
a saída encontrada pela oposição foi o ataque pessoal, buscando manchar a imagem que
a população tinha do presidente, para que assim ele perdesse apoio e ganhasse novos
inimigos, levando ao fim de sua participação na política brasileira.
Durante todo o governo, a oposição explorou assuntos que pudessem prejudicar
Vargas, chegando a um ponto em que, não tendo do que acusá-lo diretamente, passaram
129

a utilizar a estratégia de ligar o presidente à atitude de terceiros, normalmente pessoas


envolvidas no governo, como no caso da CPI da Última Hora, onde direcionaram
acusações a Wainer e Lutero para associar a participação de Vargas em atividade
corrupta ou como no caso do atentado da Rua Toneleros, em que essa estratégia ganhou
mais espaço para ser utilizada, visto que se tratava de um crime real, sendo, portanto, o
melhor momento para manchar a imagem do presidente.
A gestão de Vargas apresentou alguns erros. O fato de ter governado num
modelo “suprapartidário” dificultou as suas relações. PSD e PTB se sentiram
desvalorizados e as suas alianças não foram fortes contra a UDN. O primeiro governo
de Vargas contou com uma relação “presidente-imprensa-povo”, onde os meios de
comunicação sob a organização do DIP criavam elementos para aproximar o diálogo do
presidente diretamente ao povo. Essa estrutura não coube a um sistema democrático,
pois a democracia conta com diversos atores políticos e com a influência dos partidos,
além da imprensa livre.
Por mais que Vargas tenha encontrado apoio no jornal Última Hora e, por mais
eficiente que este fosse, em seu trabalho favorável ao governo, não foi possível realizar
a relação experimentada outrora. No entanto, a liberdade de imprensa não
impossibilitou o contato entre Vargas e povo, até porque a construção da imagem de
Vargas no imaginário popular fora muito bem construída pelo DIP, de modo que a
relação entre povo e presidente se mantinha fortalecida. Nesse sentido, mesmo com toda
campanha contrária pela maioria dos órgãos de imprensa, a Última Hora teve um papel
fundamental no segundo governo de Vargas, pois seu trabalho envolveu a conservação
de uma imagem já consolidada.
Destacamos também a influência da Última Hora no meio jornalístico,
mostrando que não se concentrou apenas em ser um representante do governo, mas
incorporou novas técnicas em sua produção, permitindo se tornar influente no cenário
jornalístico, mesmo sendo muito mais novo do que jornais já reconhecidos como: O
Globo, O Jornal, Diário de Notícias, Correio da Manhã e outros. À Tribuna da
Imprensa coube o destaque de ser anti- Vargas, onde Lacerda demonstrou sua
personalidade, atacando Wainer no aspecto político para atingir antigos ressentimentos
e, na impossibilidade de concorrer com o jornal dele, lutou para destruí-lo.
130

A partir deste trabalho, entendemos que o desfecho do segundo governo de


Vargas deve ser compreendido através do atentado da Rua Toneleros. Este episódio,
sem dúvidas, foi importante na definição do cenário da crise apresentada, pois embora a
oposição estivesse já há um bom tempo, tentando buscar maneiras de ligar o presidente
a práticas ilegais, até este acontecimento, nenhuma delas tinha conseguido agir de com
eficácia. A tentativa de assassinato contra Lacerda se tornou uma possibilidade real de
relacionar Vargas a um crime, não administrativo, mas um crime inegável que é tentar
matar alguém, podendo dessa forma, manchar definitivamente a imagem de Vargas.
Diante disso, foi necessária a atitude extrema do suicídio para que Vargas
conseguisse manter a sua imagem limpa diante da população. Para ele a morte foi uma
forma de “consertar” a vida. Dentro de um mês apenas ele foi apresentado como
criminoso e como herói. Sua estratégia foi genial, pois deu fim a essa batalha. Se
continuasse vivo, além de ter dificuldade de se manter no poder, teria por muito tempo
seu nome ligado aos mais comentários maldosos. Com sua morte, porém, conseguiu
desconstruir a acusação de criminoso e, diante de seu cadáver, não restava mais espaço
para acusações. Sua imagem foi eternizada como o presidente amado que causou muitas
lágrimas de profunda tristeza do povo brasileiro.
Para seus adversários, ele ainda era um adversário, mesmo depois de morto, pois
o legado deixado por ele foi forte. Sua memória seria suficiente para impedir o avanço
dos udenistas naquele momento. O medo do legado de Vargas pôde ser notado na
oposição, quando percebemos que rapidamente os órgãos de imprensa se mobilizaram
para mudar a visão que apresentavam dele ou, como no caso da Tribuna, tratou de
mudar de assunto bem rápido, para não favorecer as repercussões de seu suicídio.
Diante das respostas trazidas pela pesquisa, foi possível ressaltar o objetivo
proposto de verificar a atuação política da imprensa. O embate entre esses dois jornais
demonstra a ação para a criação ou manutenção de uma visão do mundo social. Há a
necessidade desses meios de comunicação em se afirmarem como formador de
opiniões, buscando assim, legitimar sua identidade construída. Apesar de estarem em
lados opostos, Tribuna da Imprensa e Última Hora estão envolvidos no mesmo objetivo
de influência exercida pelo seu discurso, de modo que além das disputas políticas, fazia
diferença os recursos utilizados para a manipulação, visto que:
131

Os jornais constroem e referendam um discurso que faz da eloquência arma


política, valendo-se da retórica intempestiva e emocionada. Por outro lado,
articulam uma concepção que visualizam os leitores como sujeitos quase
passivos diante da notícia, cabendo à imprensa o papel de induzi-los a pensar
e, em consequência, atuar como atores políticos. (...) Os jornais se
autoconstituem como lugares de formação do leitor. Pelo combate, seja nos
editoriais, seja nas notícias, produzem um sentido único para a cena política,
não abrindo espaço para o diálogo. O tom autoritário não comporta outras
visões, além daquelas defendidas pelo periódico, multiplicando notícias em
que reproduzem uma temática única, com o propósito de impor uma
294
percepção do momento histórico em que se vivia.

Diante disso, entendemos que este trabalho contribuiu para a compreensão da


imprensa como instrumento político, que possui capacidade para atuar no campo
histórico. De modo que, os estudos de História Política, na análise das relações de poder
na sociedade, não podem se abster de considerá-la importante para a percepção de tais
relações. Demonstramos essa ideia através do estudo da atuação da Tribuna da
Imprensa e Última Hora durante o segundo governo de Vargas, analisando os interesses
defendidos por eles, expostos em seus editoriais e nas manchetes de suas capas, no
período mais complexo deste governo: a crise de agosto de 1954. A observação dos
recursos utilizados por eles para a influência sobre a opinião pública nos permitiu
compreender de maneira empírica a relação entre imprensa e política, que nos
mobilizou na realização desta pesquisa.

294
Apud BARBOSA, Marialva. Op. Cit. p. 181.
132

REFERÊNCIAS

Fontes documentais

Biblioteca Nacional
 Jornal Tribuna da Imprensa – Rio de Janeiro;

 Jornal Última Hora – Rio de Janeiro;

Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil


(CPDOC)
 Correspondências: Cartas enviadas a Vargas por Samuel Wainer; Carta
Testamento de Vargas;

 Inquérito acerca do financiamento do Banco do Brasil ao Jornal Última Hora;

 Mensagem de Vargas ao Congresso Nacional (1954);

 Discurso de Getúlio Vargas no dia de sua posse (1951);

Câmara dos Deputados (digital)


 Diário do Congresso Nacional.

Tribunal Superior Eleitoral (digital)


 Documentos de fundação: PSD, UDN e PTB.

Referências Bibliográficas:

ABREU, Alzira Alves. A imprensa em transição: o jornalismo brasileiro nos anos 50.
Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008. 200p.

______. Getúlio Vargas e a imprensa: uma relação conflituosa.


<http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/EleVoltou/RelacaoImprens
a> acesso em 15/12/2013.
133

______; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Fechando o cerco: a imprensa e a crise de


agosto de 1954”. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

AURÉLIO, Daniel Rodrigues. Dossiê Getúlio Vargas. São Paulo: Universo dos Livros,
2009.

BARBOSA, Marialva. Como escrever uma história da imprensa? In: Encontro Nacional
da Rede Alfredo de Carvalho, 2, 2004, Florianópolis. Anais... Florianópolis, abr. 2004.
<www.jornalismo.ufsc.br/redealcar/cd/grupos/jornalismo/trabalhos_selecionados/marial
va_barbosa.doc> acesso em 18 mai. 2015

______. História cultural da imprensa. Brasil 1900-200. Rio de Janeiro: Mauad X,


2007.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: edições 70, 1977.

BARROS, José D‟Assunção. O campo histórico – considerações sobre as


especialidades na historiografia contemporânea. História Unisinos, Setembro/Dezembro
2005, p.230-242. Disponível em:
<http://www.unisinos.br/publicacoes_cientificas/images/stories/pdfs_historia/vol9n3/art
9_jose.pdf acessado em 21/10/2010>. Acesso em 03 out. 2013.

______. Sobre a liberdade teórica. In: BARROS, José D‟Assunção. Teoria da história -
Vol. I Princípios e conceitos fundamentais. Petrópolis - RJ - 3ª edição- Editora Vozes
(2011).

BECKER, Jean-Jaques. A opinião pública. In: RÉMOND, René (Org.). Por uma
História Política. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. p. 185-212.

BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. A UDN e o udenismo: ambiguidades do


liberalismo brasileiro (1945-1964). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. (coleção Estudos
Brasileiros vol. 51).

BEZERRIL, Simone. Imprensa: objeto de pesquisa para a história política. In: Anais do
XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011. Disponível em:
<http://www.outrostempos.uema.br/anais/pdf/bezerrill.pdf> acesso em 05 mai. 2015.

BLOCH, Marc. “A favor de uma história comparada de las civilizações Europeas”.


Revue de synthèse historique, t. XLVI, 1928, pp. 15-50.
134

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

______. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, M.; AMADO, J. Usos e abusos da


história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996.

BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. As Escolas Históricas. Lisboa: Publicações Europa-


América, 1983.

BURKE, Peter. “Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro”. In: BURKE, Peter
(Org.). A escrita da História: novas perspectivas; tradução de Magda Lopes. São Paulo:
Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992. p. 7-38.

CALONGA, Maurilio Dantielly. “O jornal e suas representações: objeto ou fonte da


História?” Comunicação & Mercado/UNIGRAN - Dourados - MS, vol. 01, n. 02 –
edição especial, p. 79-87, nov 2012.

CAPELATO, Maria Helena Rolim. História política. Estudos Históricos, Rio de


Janeiro, v. 9, n. 17, p. 161-165, 1996.

______.Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto/EDUSP, 1988.

______. Multidões em cena: Propaganda política no varguismo e no peronismo. 2ª Ed.


São Paulo: Unesp, 2009.

CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo. Novos Domínios da História. Rio de


Janeiro: Elsevier, 2012.

______. História e análise de textos. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS,


Ronaldo (Org.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro:
Campus, 1997. p. 536-567.

CARVALHO, José Murilo. História intelectual no Brasil: a retórica como chave de


leitura. Topoi, Rio de Janeiro, v. 1, p. 123-152, jan. 2000.

______.Vargas e os militares: aprendiz de feiticeiro. In: D‟ARAUJO, Maria Celina S.


(org.) As Instituições brasileiras da Era Vargas. Rio de Janeiro: Ed. UERJ: Ed.
Fundação Getulio Vargas, 1999. 212p.

CHARTIER, R. A História cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel,


1990.
135

D‟ARAUJO, Maria Celina S. (org.) As Instituições brasileiras da Era Vargas. Rio de


Janeiro: Ed. UERJ: Ed. Fundação Getulio Vargas, 1999. 212p.

______. O segundo governo Vargas 1951-1954: democracia, partidos e crise política. 2.


ed. São Paulo: Ática, 1992. 206 p.
DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. São Paulo: Cia
das Letras, 1990.

DELGADO, Márcio de Paiva. O Golpismo Democrático: Carlos Lacerda e o Jornal


Tribuna da Imprensa na quebra da ilegalidade (1949-1964). Juiz de Fora, 2006.
Disponível em: < http://www.ufjf.br/ppghistoria/files/2009/12/M%C3%A1rcio-de-
Paiva-Delgado.pdf>

DULLES, John W. F. Carlos Lacerda - A Vida de um Lutador (1914-1960) - editora


Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1992.

FALCON, Francisco. História e poder. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS,


Ronaldo (Org.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro:
Campus, 1997. p. 97-138.

______. História das ideias. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo
(Org.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus,
1997. p. 138-188.

FAUSTO, Bóris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2002.

FERREIRA, Jorge. Crises da República: 1954,1955 e 1961. In: _____; DELGADO,


Lucília de Almeida Neves (org). O Brasil Republicano. O tempo da experiência
democrática, da democratização de 1945 ao golpe civil-militar. Civilização Brasileira,
RJ: 2003. p. 301-343.

______. O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-


1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

FONSECA, Silvia Carla Pereira de Brito; CORRÊA, Maria Letícia (orgs.). 200 Anos de
Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, Contracapa, 2010.

GIRARDET, R.. “Para uma introdução ao imaginário político”. In: Mitos e mitologias
políticas. São Paulo, Companhia das Letras, 1987. p. 9-24.
136

GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará, 1994.

______. Escrita de si. Escrita da História. Rio de janeiro: Editora FGV, 2004;

______. Getúlio escreve a Lourival: os bilhetes à Casa Civil da Presidência da


República (1951-1954). Aracaju: Edise, 2015.

HIPPOLITO, Lucia. Vargas e a gênese do sistema partidário brasileiro. Anos 90. Porto
Alegre, v. 11, n. 19/20, p. 21-47, jan./dez. 2004. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/anos90/article/view/6350> acesso em 05 mai.
2015.

JEANNENEY, Jean-Noël. A mídia. In: RÉMOND, René (Org.). Por uma História
Política. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. p. 213-230.

JUNIOR, Armando Boito. O golpe de 1954: a burguesia contra o populismo. São


Paulo, Editora Brasiliense, 1982, Coleção Tudo é História.

JULLIARD, Jacques. A política. In: J. Le Goff & P. Nora (orgs.). História: novas
abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 181-193.

KOSELLECK, R. “Espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”. In: ______.


Futuro passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro:
Contraponto/ Editora PUC – Rio, 2006. p. 305-327.

LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

LACERDA, Claudio. Uma crise de agosto: o atentado da Rua Toneleros. Rio de


Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

LATTMAN-WELTMAN, Fernando. “Imprensa carioca nos anos 50: os „anos


dourados‟”. In: ABREU, Alzira Alves. A imprensa em transição: o jornalismo
brasileiro nos anos 50. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008. 200p.

LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São


Paulo: Editora SENAC, 1998.

______. Batalhas em letras de forma: Chatô, Wainer e Lacerda. In: MARTINS, Ana
Luiza; LUCA, Tania Regina. História da imprensa no Brasil. São Paulo:Contexto,2008,
p. 179-206 .
137

LEOPOLDI, Maria Antonieta. “O difícil caminho do meio: Estado, burguesia e


industrialização no segundo governo Vargas (1951-1954)”. In: GOMES, Ângela de
Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p.
161-204.

LUCA, Tania Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. IN: PINSKY, Carla
(Org.). Fontes históricas. 2ª Ed. São Paulo: Contexto, 2008.

MARTINS, Luis Carlos dos Passos. A grande imprensa carioca e a política econômica
no segundo governo Vargas: conflitos em torno de programas de desenvolvimento.
Disponível em: <http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-
nacionais/6o-encontro-2008-
1/A%20grande%20imprensa%20carioca%20e%20a%20politica%20economica%20no
%20segundo.pdf> acesso em 08 mai. 2015.

MENDONÇA, Marina Gusmão. Imprensa e política no Brasil: Carlos Lacerda e a


tentativa de destruição da Última Hora. Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo
Público do Estado de São Paulo, n. 31, 2008. Disponível em:
<http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao31/materia04/
> acesso em 18 mai. 2015.

______. O demolidor de presidentes. São Paulo: Editora Códex. 2002.

MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil, a vida de Assis Chateaubriand. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994.

MOREL, MARCO. Os primeiros passos da palavra impressa. In: MARTINS, Ana


Luiza; LUCA, Tania Regina. História da imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto,
2008.

_______. “Em nome da opinião pública: a gênese de uma noção”. In: _____. As
transformações dos espaços públicos. Imprensa, atores políticos e sociabilidades na
cidade imperial (1820-1840). São Paulo: Editora Hucitec, 2005.

NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. “Opinião Pública”. In: JÚNIOR, João Feres
(org.). Léxico da História dos conceitos políticos do Brasil. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2009.

PEIXOTO, Alzira Vargas do Amaral. Getúlio Vargas, meu pai. Editora Globo, 1960.
138

PERELMAN, Chaim; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie.”Os âmbitos da argumentação”.


In: Tratado da argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 22.

POCOCK, J.G.A. Linguagens do Ideário Político. São Paulo: EDUSP. 2003.

REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. Tradução Ivone Castilho Benedetti. São


Paulo: Martins Fontes, 2004.

RÉMOND, René. Uma história presente. In: ______. (Org.). Por uma história política.
Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2003. p. 13-36.

______. Do político. In: RÉMOND, René. (Org.). Por uma história política. Rio de
Janeiro:Ed. FGV, 2003. p. 441-454.

RIBEIRO, Ana Paula Goulart. “Jornalismo, literatura e política: a modernização da


imprensa carioca nos anos 1950”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 31, 2003. p.
147.
_______. “Jornalismo, literatura e política: a modernização da imprensa carioca nos
anos 1950”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 31, 2003, p. 148.

RIBEIRO, José Augusto. A Era Vargas, volume 2: 1950-1954: o segundo governo


Vargas. Rio de Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001.

______. A Era Vargas, volume 3: agosto 1954: a crise e a morte do presidente. Rio de
Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2001.

ROUCHOU, Joëlle. Samuel Wainer: memórias entre jornalismo e política. In: NEVES,
Lucia Maria Bastos Pereira das; MOREL, Marco; FERREIRA, Tânia Maria Bessone da
C. (orgs.). História e Imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de
Janeiro, DP&A Editora, 2006.

_______. Samuel: duas vozes de Wainer. Rio de janeiro: Univercidade Ed., 2004. 209 p.

ROSANVALLON, Pierre. Por uma história conceitual do político (nota de trabalho).


Revista Brasileira de História. São Paulo, 15 (30): 9-22, 1995.

SILVA, Carlos Eduardo Lins da. O adiantado da Hora. A influência americana sobre o
jornalismo brasileiro. 2 ed. São Paulo: Summus, 1991
139

SIQUEIRA, Carla. Sensacionalismo e retórica política em Última Hora, O Dia e Luta


Democrática no segundo governo Vargas (1951-1954). In: NEVES, Lucia Maria Bastos
Pereira das; MOREL, Marco; FERREIRA, Tânia Maria Bessone da C. (orgs.). História
e Imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro, DP&A
Editora, 2006.

SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. 1930-1945. 14ª edição,
Rio de janeiro - Paz e Terra, 2007.

SKINNER, Quentin. Visões da Política. Lisboa: Difel, 2005.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 3ª Ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1983.

SOSA, Derocina Alves Campos. Imprensa e História. Biblos, Rio Grande, 19: 109-125,
2006. Disponível em: <http://www.seer.furg.br/biblos/article/view/258> acesso em 13
mai. 2015.

TUCK, Richard. História do pensamento político. In: BURKE, Peter (Org.). A escrita
da História: novas perspectivas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista,
1992. p. 273-290.

WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um repórter. Rio de Janeiro:


Record, 1987.

WINOCK, Michel. As ideias políticas. In: RÉMOND, René (Org.). Por uma história
política. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2003.
140

Anexo – Tabela Quantidade de capas por tema.

Tema Tribuna da Imprensa Última Hora


Repercussão da morte do Dias:5,6,7,10,11,12,13,14,17, Dias: 5,6 e 11.
major Rubem Vaz 30 e 31. Total: 3 capas
Total: 11 capas
Investigação do atentado Dias:5,7,9,10,11,12,13,14,16, Dias:
da Rua Toneleros 17,18,19,20,21,23,24,26,28,30 5,6,7,9,10,11,14,16,17,1
e 31. 8,19,20,21,24 e 30.
Total: 20 capas. Total: 15 capas
Exigência da renúncia de Dias:9,11,12,13,14,17,18,19, Dias: 13, 20,21 e 23.
Vargas 20 e 23. Total: 4 capas.
Total: 10 capas.
Repercussão do suicídio de Dias: 24,27 e 30. Dias: 24,25,26,27,28,30
Vargas Total: 3 capas. e 31.
Total: 7 capas.