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A ORIGEM DA LINGUAGEM
Gladstone Chaves de Melo
Para ser a comunicação verbal o mais cotidiano e constante fato de cultura e
por nos afazermos a ele como à respiração e à ingestão de alimentos, só muito
raramente e em raros aparece a indagação por que? E como?
Começaria eu por uma distinção que não se costuma fazer: Fala-se na “origem da linguagem”,
quando se queria falar na origem, remota e primeira, das línguas.
Sim, porque linguagem é a palavra de duplo sentido, nenhum dos quais adequado à nossa
indagação de hoje. Pode significar a faculdade que o homem tem de comunicar-se
intencionalmente e por meio de sinais. Neste caso, a origem do homem, porque se trata de
uma propriedade essencial à espécie: todos os homens têm e sempre tiveram essa faculdade.
Significa também a palavra qualquer manifestação exterior realizada por sinais, sejam eles
gestuais, fisionômicos ou construídos, como as fogueiras significantes, o telégrafo de Morse, os
atuais semáforos para governar o trânsito nas cidades maiores, a dupla comunicação dos
surdos-mudos, através de gestos que significam letras ou dos gestos simbólicos por eles
criados e que permitem uma conversa quase tão rápida quanto a nossa.
Neste segundo sentido da palavra linguagem, ela vale como elaboração concreta da faculdade,
de acordo com a indústria humana, mais remota ou mais recente.
O problema que de fato se nos põe é o da origem primeira de um tipo de linguagem articulada,
porque se realiza por meio de sons ou ruídos vocais, produzidos pela laringe e modificados na
caixa de ressonância, fixa ou móvel, que produz, num caso, o timbre individual e, noutro caso,
os diversos fonemas que constituem o sistema sonoro do idioma tal ou tal: /a/, /e/, /i/, /o/,
/u/, /b/, /t/, /ç/, etc.
Vemos, pois, que a língua é uma espécie – e a mais importante – do gênero linguagem, cuja
origem tem sido preocupação de filósofos e curiosidades da antigüidade, da Idade Média e dos
tempos modernos.
Os lingüistas geralmente não se ocupam do problema, porque foge de suas cogitações. No
século passado estiveram eles aplicados em estudar, através da comparação, os grupos de
línguas afins, resultados históricos de uma protolíngua muito antiga e já desaparecida.
Essa atividade prosseguiu, com menos fervor, no primeiro quartel deste século, tendo os
lingüistas, daí por diante, aplicado seu esforço e erudição em descrever estruturalmente a
língua X ou Y, descrição tão minuciosa quanto possível e usando uma nomenclatura técnica
bastante complicada e inacessível aos leigos.
O lingüista trabalha com documentos, escritos ou falados, e, evidentemente, da primeira língua
que o mundo se usou não ficou, nem pode ter ficado qualquer documento.
A comparação, tão fecunda no século passado e nos começos deste, chegou a estabelecer
diversas famílias de línguas, resultados históricos e variados de um tronco remoto, chamado
pelos alemães Ursprache.
Com maior ou menor rigor descobriram diversas famílias, como a indo-chinesa, a dravídica, a
malaio-polinésica, a uraloaltaica, a indo-européia, a banta, a camítica, a semítica, a sudanesa e
os grupos americanos.
O eminente glótico italiano Alfredo Trombetti foi defensor acérrimo do monogenismo lingüístico
e pensava que, com os dados atuais, se poderia chegar à existência da Ursprache, que estaria
na origem de todos os idiomas atualmente falados (mais de dois mil, fora os dialetos).
Defende a tese no seu livro Elementi di Glottologia (Bolonha, 1923), que, apesar de chamar-se
Elementi, tem 751 páginas, fora os mapas.
Das diversas famílias aqui enumeradas, a mais conhecida e mais estudada é a indo-européia,
que apresenta documentos muito antigos e que cobre uma grande área, desde a Índia,
passando pelo Afganistão, a Pérsia e o Mar Cáspio, até praticamente toda a Europa,
exceptuadas apenas três línguas, o basco, o húngaro e o finlandês, estas duas últimas
aparentadas, embora separadas e distanciadas a talvez dois mil anos.
Esse indo-europeu comum, que teria existido há mais de quatro mil anos, com o tempo e com
a expansão, se desgarrou em 12 grupos, dos quais manam sobgrupos e, daí, dezenas de
línguas diferentes: o hitita, falado outrora na Capadócia e desaparecido há cerca de dois mil
anos, o tocário, também desaparecido, falado em Koutchua até o século VII de nossa era, e o
ramo indo-iraniano, que se desdobrou em índico e iraniano. Saltando por etapas intermédias,
está ele hoje representando por mais de cem línguas, que se falam quase todas dentro dos
domínios políticos da índia (onde se ouvem mais de 200 idiomas filiados ou não ao indo-
europeu, ao dravídico e ao monkmer). Aí se destaca, pela importância cultural, o sânscrito,
fixado pelo admirável gramático Panini, cuja obra só agora vem sendo conhecida e que viveu
no século IV a. C. O sânscrito é uma língua clássica, de vasta literatura e que até hoje funciona
como língua erudita de comunicação entre os pandites da Índia, exatamente como o foi o latim
na Idade Média. Poderíamos fazer referência, entre as línguas atuais, ao Bengali (na região de
Calcutá e do delta do Ganges), em que estão as obras do poeta universal Rabindranath Tagore.
Do ramo, persa, ou irariano, provieram e provêm diversas línguas, que se estendem dos vales
do Pamir ao Curdistão e do Balochistão e Afganistão ao Mar Cáspio. Delas a mais importante é
o persa, que vem de longe e que atualmente é escrito em alfabeto árabe, como, aliás,
acontece com quase todas as línguas modernas do grupo. A par da influência na escrita
contribui largamente o árabe para a língua persa de hoje, cujo vocabulário é já talvez menos
iraniano que semita.
Dos ramos que floresceram e se multiplicaram na Europa, cabe referir em primeiro lugar (pela
ordem geográfica) o grego-comum, idioma dos antigos helenos. Quando se toma contato
histórico com a língua, já está ela diversificada nas diversas regiões, de modo que se podem
classificar os falares em quatro grupos dialetais, jônico-ático, aqueu, eólico e dórico. Das
línguas antigas, destaca-se, como todos sabem, o grego clássico, atico, veículo de uma
importantíssima literatura e de que se serviram Platão e Aristóteles. O grego atual, ou romaico,
está para esse grego clássico, mais ou menos como o italiano para o latim.
Teria havido uma unidade ítalo-celta, cedo repartida em itálico e celta, teoria de Meillet,
abalada por Marstrander. O traço comum seria o genitivo em –i. De qualquer modo, do ramo
itálico promanam o latim, o osco e o umbro, sendo o primeiro, a princípio, a língua de Roma e
arredores. Todos conhecem o impressionante destino dessa pobre e tosca língua de pastores:
com o tempo e a expansão da urbs veio a ser falado em toda a România Ocidental e hoje está
representado por cerca de quarenta línguas e grandes dialetos, entre os quais figura o nosso
português, ao lado do castelhano, do italiano, do francês e do romeno (que ainda tem vestígios
de declinação e usa o artigo posposto ao nome), para só falar nas línguas de civilização, isto é,
correspondentes a unidades políticas autônomas. O celta, mal conhecido no seu aspecto
antigo, se triparte em gaulês, britônico e gaélico. Do britônico o atual galês, do País de Gales
na Inglaterra, e o bretão, usado nas zonas rurais da Armórica Francesa. Pertencem à feição
gaélica a língua local do interior da Irlanda e do interior da Escócia.
Do antigo germânico procedem várias línguas atuais, excluído o gótico e seus dialetos, hoje
língua morta. Do germânico setentrional temos hoje o sueco, o norueguês e o dinamarquês.
Do germânico ocidental, consideravelmente menos uno que o nórdico procedem vários fatores
e línguas, entre as quais se destacam o alemão culto, o neerlandês, o frisão e o ferroês.
No interior da Alemanha, a língua é muito dialetada, pertencendo os diversos falares ao
chamado baixo-alemão, Neider-Deutsch. O alemão culto é do tipo alto-alemão, Hoch-Deutsch e
provém de falares francônios, que receberam sua feição literária na versão de Lutero, que, sob
este ponto-de-vista, se assemelha a Dante, para o italiano culto. Este se opõe a grande
quantidade de dialetos, muitos dos quais são verdadeiras línguas, como o napolitano e o barês.
O inglês formou-se na segunda metade do século XIV, com predominância de elementos do
centro do país e que, da cidade de Londres, se irradiou por toda a ilha, a Irlanda e as ilhas
menores circunvizinhas. Pela colonização, estendeu-se aos Estados Unidos, Canadá Austrália,
Nova Zelândia e, como língua-segunda, ao Egito, Índia e África do Sul, sem falar nas jovens
nações africanas que o adotaram como língua nacional.
Depois da segunda guerra mundial adquiriu grande prestígio e alçou-se à condição de língua
universal, apesar da extrema dificuldade da pronúncia e da disparidade total entre a feição
falada e a feição escrita.
Para se ter uma idéia concreta de como as línguas se modificam no tempo, peço licença pra
transcrever aqui três versos do poema Beowulf, que remonta ao século VI, mas que foi escrito
muito depois:
Gethenc nu, se maera maga Healfdenes,
Snofra fengel, nu ic eom sidhes fus,
Gold-wine gumena, hwaet wit geo spraecon:
(vs. 1474-76)
Traduzindo: “Lembra-te agora, ó ilustre filho de Healfdene, chefe sábio, -agora que eu
estou pronto para partir, generoso amigo dos homens - , do que nós dois dissemos para partir,
generoso amigo dos homens-, do que nós dois dissemos há pouco”. Com um pouco de esforço,
poderemos aí descobrir alguma coisa do Inglês moderno: em ge-thec não é difícil descobrir to
think: em nu, now: em Healfdenes, no-es final, o genitivo –s ainda usado em determinadas
situações; em Ic (aliás igual ao holandês atual), pode-se desvendar o pronome pessoal da
primeira, hoje sem a consoante final e com a vogal alongada em ditongo – I; eom traz à
memória am (ic eom, I am); gumena é o genitivo plural de guma, “homem”, facilmente
aproximável do latim homo e do atual inglês woman que, historicamente, é o correspondente
da forma indo-européia masculina; hwaet quase se identifica com what; wit é o dual de “nós”
(cfr. we) ; spraecon está próximo do alemão sprechen e não muito longe do atual inglês
speech.
Do antigo báltico, temos hoje representantes no letão e no lituânio, língua esta
particularmente interessante ao indo-europeista, por causa de seu aspecto muito arcaico,
exemplificando em esti (terceira pessoa do singular do verbo “ser”) paralelo ao sânscrito védico
ásti e do grego homérico esti.
O ramo eslavo, cujo protótipo é o velho-eslavo, no qual S. Cirilo e S. Metódio
traduziram os Evangelhos, datável do século IX, tripartiu-se em meridional, oriental e
ocidental. Do primeiro temos hoje representantes do búlgaro, no serbo-croata (da Iugoslávia)
e no esloveno. No segundo, encontramos o grande russo, ou simplesmente russo, que adquiriu
grande importância depois da Segunda Guerra; o pequeno russo, ruteno ou ucraniano e o
russo branco, língua da Bielorrúsia. No ocidental encontramos o tcheco, o eslovaco, muito
parecido, e o polonês. Com seus dialetos lequitas, sorábico, eslovinco e o catchub, talvez os
dois últimos emudecidos, por causa da trágica situação da Polônia.
Do ramo albanês, só conhecido no século XV, estacam-se hoje os falares guéguico, ao
norte, e tosco, ao sul, língua da Albânia e dos albaneses habitantes de dezenas de paesi
italianos, na Calábria, Apúlia, Abruzos e Sicília.
O armênio, hoje espalhado um pouco por toda a parte, por causa da perseguição
turca, é falado, com relativa unidade, por três milhões de pessoas, que se estendem, apesar
das duas línguas literárias em que se bipartiu.
Fizemos hoje longo e fastidioso excurso, para mostrar como as línguas, apesar do
tronco comum, se diferenciam e se multiplicam, dando esse resultado aqui resumido, em que
não quisemos, quase, falar em datas e em dialetos. E isto, em muitos casos, num espaço curto
de tempo.
A tendência natural das línguas é para se modificarem, o que é uma espécie de
mistério, porque as novas gerações fazem sempre questão, põem o maior empenho em
reproduzir a língua que lhes é ministrada. Se a diversificação não é maior e se se consegue
manter uma língua una durante um lapso maior de tempo, isto se deve a fatores extra-
lingüísticos, como a escrita, a unidade nacional, a escola e o prestígio das elites. Faltando
esses elementos, entregues à sua própria sorte, as línguas se modificam muito e rapidamente.
É ver, por exemplo, o que aconteceu ao latim vulgar, fonte das línguas românicas, no lapso de
tempo entre o século V e o século IX, em que desaparecerem ou entrarem em crise os
elementos frenadores da evolução lingüística.
Imaginemos agora o que terá acontecido às línguas da América, faladas por tribos
esparsas e carentes ação unificadora. Aliás, note-se, entre parênteses, que quando se
organizou politicamente o Império Inca, houve nele uma língua comum, o quíchua, que até
hoje é o mais falado dos idiomas pré-colombianos: 5.000.000 de falantes. Hoje há línguas
ameríndias faladas por uma centena de pessoas e ás vezes até por menos, como aconteceu ao
fulniô, no interior de Pernambuco e Alagoas, que, por fim, quando o pôde gramaticalizar o
Padre Antônio Barbosa, já estava reduzido, se não me trai a memória, a vinte e seis pessoas.
Imaginemos, igualmente o que aconteceu e acontece com as línguas da Austrália e da
África, distribuídas por centenas e centenas de tribos.
Em todo caso, as línguas do grupo banto são muito aparentadas entre si, mas a
língua dos hotentotes, por exemplo, apresenta um tipo de consoantes implosivas, chamadas
cliques, que semelham ao som que utilizamos para incitar um cavalo à marcha. Um leigo (e
quase todo o mundo o é em relação a essa língua) não distingue entre os estalos de língua:
porém, na realidade, eles são opositivos, como se diz em Lingüística moderna, isto é, servem
de suporte a diferenças de significado, como, em português, as diferentes consoantes desta
série: bala, cala, fala, gala, mala, pala, rala, sala, tala, vala.
Não obstante a variedade de línguas sudanesas, guineanas, nigrilas, hotentotes,
bosquímanas e banas, um grande africanólogo. Homburger, no seu famoso livro Lês langues
africaines et lês peuple que les parlent (Payot, Paris, 1941), defende a tese da unidade inicial
dessas muitas línguas negras: “Dans le dernier chapitre nous avons exposé les faits qui nous
ont amenée à voir dans les langues négro-africaines modernes des formes tardives de
l’egyptien ancien”. (Avant propos). Para ele, pois, as variadas e numerosas línguas da África
Negra são nada mais que formas atuais do antigo egípcio.
Ainda quando pequena é a distância no tempo entre a protolíngua e as derivadas,
podem ocorrer diferenças muito sensíveis e até profundas no resultado histórico. O latim aqua,
por exemplo, está representado por ova, no engadinês, no friulês age, no Lombardo uva, no
francês atual eau. Esta última forma é a mais distante da forma originária, e ninguém, leigo no
assunto, poderia ver aí uma evolução fonética. Também ninguém pode desconfiar que vinculu,
latino, viesse a dar, por evolução e derivação, brinquedo em português. Tão pouco seria um
leigo capaz de encontrar em ontem, português, a continuação histórica de ad noctem. E assim,
eu poderia multiplicar às dúzias exemplos em que o resultado final de uma cadeia evolutiva
desfigura completamente a forma originária. E isto, nas línguas latinas, que, para o estudo e
pesquisa, são privilegiadas, porque temos meios, vários, de reconstituir a Ursprache, o latim
vulgar, e de acompanhar, a partir do século IX, algumas transformações sofridas pela fonte
vocabular. Depois do século XII, então, dispomos de farta documentação, que nos atestam a
evolução das formas. Assim, de tenere, temos, ao longo do tempo, te)er, teer, ter, cujo
resultado atual está paralelo ao engadinês tignair e ao frinle)s, tiñi.
Até agora temos, do assunto, como preâmbulo, com material lingüístico, atestado
direta ou indiretamente.
Cabe ainda lembrar que, atualmente, há forte tendência a supor que o indo-europeu,
o caucásio com as línguas mediterrâneas, do lício ao basco, o fino-urgiano e o câmito-semita
(hoje considerado uma família única)têm origem comum, em data muito remota.
Vemos, pois, que só com os dados positivos, manipulados pelos lingüistas, temos
várias trilhas conducentes a um resultado unigenético. Eu gostaria de lembrar ainda que
Meillet, no prefácio da primeira edição de Les langues du monte (depois recolhido em
Linguistique historique et Linguistique générale), observa que todas as línguas, em todos os
tempos, no fundo têm a mesma textura: são palavras arrumadas de determinada maneira.
Estamos, pois, no terreno dos fatos, apreendidos com maior ou menor dificuldade,
pelos lingüistas.
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Pareceu-me necessário este longo preâmbulo, para mostrar que a ciência lingüística
não pode contrair a posição que eu aqui defenderei.
O problema da origem da linguagem articulada não pertence nem pode pertencer, à
ciência da linguagem, sobretudo nas suas feições comparativas e diacrônicas -, conforme se diz
depois de Saussurre, para designar a perquirição no tempo, passado, sobretudo na evolução
lingüistica.
Cabe à Filosofia indagar da origem mais remota, do ponto-de-partida, da gênese do
fenômeno, tão universal e hoje tão embaraçosamente variado. E não têm faltado filósofos e
filosofantes que propuseram solução ou soluções para o problema.
Na antigüidade, Epicuro entendeu que o homem chegou à linguagem articulada sem o
sentir, como os animais gritam ou vazeiam. Depois, o progresso teria sido feito por convenção.
Lucrécio situa-se mais ou menos na mesma posição, acrescentando que o homem se valeu dos
órgãos da fala para inventar a linguagem, levando pela necessidade, de acordo com seu
conceito (De rerum natura, V, 1029): utilitas expressit nomina rerum.
De Bonald, De maistre e Lamennais entendem que a língua é dom divino.
Outros, partidários da aquisição lenta e gradual, supõem que o homem a princípio
proferiu exclamações e imitou os barulhos da natureza. É a origem onomatopéica, cheia de
adeptos.
Renan, romântico que era, sustentou que a aquisição da linguagem articulada foi
instantânea e de um jato no gênio de cada raça. (1) Ora, o conceito de raça é muito relativo e,
de fato, não há qualquer paralelismo entre língua e raça: povos de raças diferentes falam a
mesma língua e um grupo humano de semelhantes caracteres somáticos (ou da mesma raça)
falam línguas diversas. Basta lembrar o português falado (e muito bem falado) por negros
mulatos angolanos ou moçambicanos, assim como o francês falado por congoleses.
A língua é um fato de cultura e nada tem que ver com a cor da pele, o ângulo facial, o
formato do nariz. Uma criança trazida da China ou do Japão, novinha, para o Brasil e posta
num meio lingüístico homogênio falará como qualquer brasileiro.
A teoria da origem onomatopéica, que a tanto a seduziu, não tem a menor base.
Primeiro, a onomatopéia já é um fato de cultura, tanto assim que varia de língua para língua:
na linguagem infantil,
(1) Apud Ismael de Lima Coutinho, Pontos de Gramática Histórica, 7º ed., Ao Livro Técnico,
Rio, pg. 23.
Cachorro é auau no Brasil, béubéu, na Alemanha wauwau na Inglaterra bow-wou, wanwan em
japonês e por aí fora. (2) A criança ou o adulto não repete o ruído ou som da coisa ou a voz do
animal; cria uma palavra sugestiva e, com isso, já se situou no campo da língua, que é o do
sinal convencional, motivado ou imotivado. No caso em apreço, motivado. O pássaro chamado
joãotemneném evidentemente não se chama a si mesmo por esse vocábulo, que, criação
lingüística, lhe interpreta o canto.
Além disso, segundo ensina o grande lingüista americano Sapir, que conhecia muitas
línguas ameríndias, o número de vozes onomatopéicas nas línguas primitivas é muito menor do
que o das nossas línguas modernas de civilização. Aliás, também é dele a observação arguta
de que a onomatopéia já é língua, já é dele a observação arguta de que a onomatopéia já é
língua, já é elaboração do espírito, já é sinal e não mera e simples imitação. (3)
Há também a teoria gestual, por alguns seguida: o homem teria começado por se
comunicar gesticulando, até que um dia descobriu
_____________
(2) Crf. Kurt Baldinger, Teoria Semántica, Madrid, 1970, pg. 30.
(3) Le langage, trad. De S. M. Guillement, Payot, Paris, 1953, pgs. 12-16.
que o gesto larígeo, a voz articulada, é um gesto mais rico, porque unívoco. Quando expus a
Gustavo Corção esta teoria, ele respondeu-me imediatamente, com um argumento decisivo e
definitivo: “Esse homem se esqueceu de que há noite no mundo”.
É claro que os gestos (sobretudo para os italianos do sul) são auxiliares da
comunicação e acompanhantes da linguagem articulada; mas constituem aquilo que
Sechehaye chama contexto, que são elementos extralingüísticos, coadjuvantes da
comunicação. Opõe-se ao texto, que é o elemento estritamente lingüístico.
Quero agora deter-me mais longamente na teoria de um filósofo de valor e de
excelente orientação, F. j. Thonnard, que, no meu entender, errou seriamente na matéria,
exatamente por falta de preparo lingüístico. O assunto é filosófico, mas exige conhecimento
seguro do fenômeno língua, de seus componentes e de seu funcionamento.
Tratando do assunto em perspectiva estritamente filosófica, depois de esclarecer, em
nota, que, de fato, a Bíblia nos ensina que Deus revelou a linguagem articulada ao primeiro
homem, Thonnard se inclina pela formação gradual, tomando como modelo, digamos, o
aprendizado da língua por parte da criança.
Demo-lhes a palavra, numa citação longa:
“Neste assunto, a Filosofia só pode formular uma hipótese. Supondo que o homem
surgiu na terra dotado apenas de seu instinto bem aparelhado e de bom senso, sem
instrumento sensível apropriado, (4) devemos concluir que ele tem de forjar para si esse
instrumento indispensável ao progresso de seu pensamento, pelo mesmo método da criança
atual; mas inventando, pouco a pouco, os sinais convencionais que ainda nenhuma sociedade
lhe poderia fornecer. Parece que se impõe a escolha da linguagem articulada, por si mesma,
por causa de suas vantagens, sem, aliás, ser de uso exclusivo; porque os outros sinais
convencionais, visuais e táteis, gestos, toques, etc., também se usam como linguagem
complementar.
“Pode-se imaginar a evolução como começando também pelo
______________
(4) Nota do autor: “De fato, ensina-nos a Bíblia que Deus revelou a linguagem articulada ao
primeiro homem”.
emprego de sinais naturais, em particular onomatopéias, que em grande número se encontram
nas raízes das palavras de nossas línguas modernas, como, por exemplo, em francês, buisser,
crisser, ronfler, susurer, o coq, o cou-cou, o glou-glou, o tic-tac etc. Eram já sinais vocais, que
ele ajeitava e variava, para torná-los adequados a significar os matrizes do pensamento,
transformando-os em sinais arbitrários: estabelecem-se espontaneamente desde que dois ou
vários homens se compreendem...
“Aperfeiçoar-se pelo esforço de todos a linguagem assim inventada e graças à
tradição, que transmite os resultados bem sucedidos; mas ao mesmo tempo, ela se modifica,
como tudo que vive; e quando as raças e grupos sociais da humanidade se dividiram e
diversificaram, também ela se cindiu em línguas diferentes. Aqui se verifica que a linguagem se
comporta como um fato social; apesar de formada por sinais arbitrários, ela não evolui ao
acaso, mas, ao contrário, seguindo leis que a ciência determina: há, em estas têm, por
exemplo, tendência a se abreviarem: sacramentum torna-se serment, a cinématographie
torna-se cinema, ou cine etc.; leis morfológicas, concernentes às regras gramaticais; por
exemplo, caaem em desuso as declinações, o que torna mais rígida a ordem das palavras e
multiplica as partículas de ligação; - leis semânticas, relativas ao sentido das palavras: por
exemplo, o sentido vai do concreto ao abstrato, da parte ao todo Etc. Tais leis, aliás, se
explicam em conformidade com os outros fatores sociológicos de evolução, como o meio, o
tempo, a raça.
“Assim, as línguas universais criadas peça por peça, como o esperanto, o volapuque e
o ido sempre serão de uso secundário; se elas fossem adotadas pelos povos, diversificar-se-
iam, como a primeira língua da humanidade.”
“Apesar de todas as diversidades, todas as línguas humanas têm um fundo comum,
constituído por certo número de raízes semelhantes. (5) Mas, sobretudo o que por toda parte é
idêntico é o próprio pensamento, são as operações intelectuais significadas e sintetizadas em
sistemas de verdades científicas: em todos os
__________
(5) Nota do autor: “Cf. Ribot, Evolution des idées générales, pg, 81
lugares e sempre, sem grande dificuldade, os homens de todas as raças chegam a
compreender-se e a comunicar, uns aos outros, seu patrimônio intelectual, estabelecendo uma
equivalência entre suas línguas. A única hipótese explicativa deste fato é a unidade específica
da humanidade, estando ligada a diversidade das línguas às diferenças individuais, socializadas
pelas raças e as nações.” (6)
Esta longa citação foi de propósito, para tentar não trair o pensamento do autor, que
é de primeira categoria. O último parágrafo da citação, relativo à unidade básica de todas as
línguas do monogenismo da espécie humana e da universalidade do pensamento e de seus
processos está inteiramente certo. O único senão considerar a “raça” como fator de câmbio
lingüístico, coisa que já vimos, antes, não ter fundamento, porque não há qualquer paralelismo
entre tipo racial e tipo lingüístico, mesmo atenuado, como faz o autor, pela dimensão
socializadora. Repetimos: as línguas são fatos culturais e independem, absolutamente, de
fatores
_______________
(6) Précis de Philosophie. Société de Saint Jean l’Evangeliste, Desclée & Cie. Paris, Tournai,
Rome, 1950, pgs. 782-83.
raciais: qualquer indivíduo, de qualquer raça, pode falar perfeitamente qualquer língua.
Thonnard faz uma hipótese inaceitável, com vários desdobramentos. Assim, de
começo ele estabelece um paralelismo entre a invenção da linguagem articulada e o
aprendizado da língua Por parte da criança: “nous devons conclure qu’il doit se forger cet
instrument indispensable au progrès de as pensée, par la même méthode que l’enfant actuel;
mais inventant peu à peu les signes conventionnels qu’aucune société ne pouvait encore lui
fornir”.
Ora, vai nisso um indiscutível engano. As duas situações são completamente diversas.
A criança encontra um sistema lingüístico já todo feito, que ela vai assimilar aos poucos. Chego
a pensar que o balbucio dos recém-nascidos é algo diferente, segundo as línguas que eles
estão ouvido: talvez um bebê alemão balbucie diferente de um bebê brasileiro.
Depois, a criança vai associando determinados vocábulos a tais ou a tais objetos:
começa a compreender, muito elementarmente, a língua que se lhe está fornecendo. Nessa
altura ela muita vez inventa palavras, monossilábicas ou dissilábicas, imitativas ou não, para se
fazer compreendida. Mas já tem vaga e instintiva noção do que chamamos signo, isto é,
relação entre significante e significado. Daí por diante, ela vai tateando, à procura da aquisição
ativa do complexo sistema que houve, seja nas conversas a ela dirigidas, seja nas conversas
de terceiros.
Mais: ela aprende e compreende a língua às vezes muito antes de começar a falar
(todos já observamos isto). Entre três e quatro anos, ela já se assenhoreou do sistema, para
expressar seu mundo infantil e o ambiente que a cerca: já fala de aviões, carros, televisores,
cavalos, charretes etc.
O essencial aí é notar que a criança vai receber e de fato recebe um sistema
lingüístico, que lhe vão fornecendo os que o rodeiam: crianças mais velhas, adolescentes, pais,
tio e outros adultos.
Todo o seu esforço é, pois, de interpretação e de imitação, laborioso, penoso, mas
coroado de sucesso.
Não era esta – nem podia sê-lo – a situação do primeiro casal, que tinha o que
assimilar e o que imitar. Mas também não poderia criar uma língua, como vamos tentar
explicar.

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Depois de Saussure, fiou clássica na Lingüística moderna a dicotomia “língua” e “fala”


– langue e parole. São os dois aspectos fundamentais da atividade e da realidade lingüística. A
“língua” é social; a “fala” é individual.
A langue é um sistema, isto é, um todo, extremamente complexo e fechado.
Podemos, para facilidade desdobrar esse sistema em subsistemas: fonológico, morfológico,
sintático, semântico.
Considerando o primeiro, observaremos que o material sonoro de uma língua é
coerente e interdependente. As dezoito vogais mais comuns da língua portuguesa têm um
mesmo tipo geral de articulação, de intensidade, de musicalidade, de modulação. Quando
falamos uma ou mais línguas estrangeiras, tendemos a levar para o novo idioma as
características do nosso, nativo: é o sotaque. A música, o ritmo, o desempenho da frase
também é diferente, e isto é o que mais nos custa apreender, se é que chegamos a fazê-lo.
Exemplifico com o subsistema vocálico inglês em relação ao português. Sobretudo no que diz
respeito aos tênues matizes das vogais chamadas neutras. E que ocorrem com extrema
freqüência. A língua, na sua feição culta (pelo menos) não tem /a/ puro, mas, sim, velarizado
ou palatalizado, quando tônico, e indefinível quando neutro. A música, tonalidade e cadência
da frase são completamente diversas das nossas. Com o francês se passa a mesma coisa, no
que diz às nasais, diferentes uma das outras e todas diferentes das portuguesas. O alemão
(neste ponto, como o francês) tem vogais compósitas, palato-velares, e tem um forte acento
de intensidade inicial, de palavra, de frase e de período, que é quase impossível imitar, mas
que qualquer alemãozinho de cinco anos sabe perfeitamente fazer. E por aí fora.
O mesmo se diga do complexo consonântico, que forma um todo coerente, mas que é
diverso em cada língua. Assim, por exemplo, os alemães têm as oclusivas aspiradas, coisa que
não acontece no português ou no espanhol, por exemplo. O holandês tem uma aspiração glotal
sonora, que é praticamente impossível para nós (e qualquer estrangeiro) realizar. O árabe tem
íctus intervocálicos, muito característico e que se opõe frontalmente ao nosso subsistema, que
funde as vogais átonas finais na inicial do vocábulo seguinte, produzindo ditongo, tritongo ou
crase: “nesta idade”; Foi em março, ao final das chuvas...”, “ainda agora” – que soam
“nestaydade”, “marçawaw findar”, “aindagora”.
O subsistema morfológico, o mais fácil de perceber, pode chegar a ter uma enorme
complexidade. O nosso é bastante complicado na ordenação dos constituintes imediatos dos
vocábulos, tem grande variedade de prefixos e sufixos (com matrizes semânticos muito
variados), tem um plural sigmático (que, nos casos concretos, oferece variantes): mesa-
mesas, fácil-fáceis, barril-barris, doutor-doutores, lápis-lápis. Formam-se palavras novas,
tiradas das virtualidades da língua, por derivação (sufixal, prefixal, parassintética e regressiva),
por mudança de classe e por composição. Os verbos, além de pertencerem a três conjunções
(caracterizadas pelo tema), apresentam uma abundância de formas, que totalizam sessenta e
cinco, fora os tempos compostos e as chamadas perifrásticas ou locução verbais, estas quase
sempre como recurso de aspecto, que a língua não tem como categoria gramatical autônoma.
Somem-se a isto os chamados verbos irregulares, onde brilha o verbo ir, com três raízes
diferentes.
A sintaxe portuguesa marca-se pela variedade e pela liberdade, sobretudo quanto à
ordem das palavras na frase. A concordância, em vários casos, apresenta variantes aceitas e a
regência verbal e nominal (como, em geral, em todas as línguas) é muito complexa e
apresenta não poucos casos de sincretismo.
Está aí dada, descritivamente, uma primeira idéia de sistema (ou esquema, ou
código, como hoje preferem dizer os partidários de certa corrente lingüística, ainda muito
prestigiosa no Brasil).
Esse sistema, que é o arcabouço da língua, sua estrutura, sua montagem, existe em
estado virtual na memória de todos os membros de uma comunidade lingüística e constitui o
que se poderia chamar a gramática interior. Todas as suas inúmeras peças se equilibram e se
combinam, valendo-se umas às outras, justificando-se umas às outras, num todo homogêneo,
coerente e fechado, que só se rompe para dar nascimento a outra língua. Um exemplo:
teoricamente e (na realidade) instintivamente e por força de hábito maquinal, para se
compreender uma forma verbal como fiz, é necessário estabelecer uma porção de oposições
lingüísticas, como, por exemplo: fiz não é faço, não é farei, não é fazemos, não é fizemos, não
é faremos. E assim por diante. Isto é a travação interna do sistema, que, além disso, se
manifesta em dois eixos sintagmático e paradigmático, de que não vou tratar para não
importunar mais do que o vento fazendo.
Hoje, como disse, muitos dizem código, em vez de sistema, por dar nova (e mais
completa) explicação do circuito lingüístico, binário até Saussure.
A fala (ou discurso, ou texto, como tem traduzido a parole saussuriana) é a execução
individual da língua, do sistema. Cada pessoa que se exprime, oralmente ou por escrito, faz
sucessivas escolhas no grande armazém de possibilidades, que é o sistema, transformando o
que é virtual em atual, concreto. Escolhe fonemas, formas, palavras, combinações de palavras,
o frases, e vai exteriorizando suas vivências.
Aí esbarramos com um curioso paradoxo? A língua é importantíssimo fato social e só
existe em estado latente, na memória dos membros da mesma comunidade. Só temos contato
com a fala dos indivíduos. Quem me ouve neste momento está acompanhando meus
sucessivos atos de escolha no material lingüístico pré-existente, e interpreta-o.
Assim se forma o circuito: um emissor se exterioriza, dentro de um código (ou
sistema); sua mensagem (que é o conteúdo) é transmitida através da atmosfera e é captada
pelo receptor (que tem na memória o mesmo sistema) e descodifica-a, ou interpreta, ou
entende.
Logo, para haver a comunicação, o circuito lingüístico, é necessário que os emissores
e receptores (ou falantes e escreventes; ouvintes e leitores) tenham na cabeça o mesmo
código, o mesmo sistema.
Se eu disser a um estrangeiro (que não saiba português): - “Você é um canalha”, ele
ficará na mesma, fará um ar indagatório e dará a perceber, pela fisionomia ou por um gesto,
que não entendeu, isto é, não captou, decifrou, descodificou nada.
Para que um ouvinte tome conhecimento da mais simples frase, é necessário que ele
tenha, em estado virtual, na memória o mesmo sistema. Para se entender a mais simples frase
– “está chovendo”, “il pleut”, “it rains” ou “es regnet”, é preciso que o ouvinte conheça o código
português, ou francês, ou o inglês, ou o alemão. Do contrário, não descodifica, não interpreta.
Agora, examine-se a hipótese de duas pessoas, que não têm na cabeça nenhum
sistema, conversarem. Ou, se quiserem, forme um no outro, peça por peça, desde a primeira,
um código. É impossível a intelecção.
Noutros termos: o sistema que possibilita e fala, preexiste a esta, senão ela nunca
poderá realizar-se. O caso da hipótese é mais absurdo do que entenderem um chinês e um
brasileiro que não conheçam, cada um, o código do ouvinte-falante e falante-ouvinte. Mais
absurdo, porque, em todo caso, cada um dos dois interlocutores incompreensíveis já têm na
cabeça um código, apenas não conhecido dos dois. Poderão entender-se, por gestos e
indicações digitais, coisas simplicíssimas, elementares, curiais e, ainda assim, irão, sem o
quererem (melhor, sem disso tomarem consciência), acompanhando os gestos com as
respectivas palavras nas respectivas línguas.
Os dois supostos interlocutores que não têm na cabeça qualquer código jamais
poderão conversar, ainda que de coisas rudimentares. É impensável a formação,
complexíssima, do código a partir da mútua estaca zero. Portanto, é-nos forçoso concluir que
os dois primeiros falantes receberam (de fato, não de direito) o código feito e daí por diante
começaram a usá-lo. Com o tempo e na variedade do espaço, seus descendentes foram-no
alterando e aí surgiram os dialetos e novas línguas (a partir da ruptura do sistema), até se
chegar às milhares de hoje, espalhadas pelo mundo inteiro.
Ignoro se outro lingüista já fez exata análise para chegar, assim, à mesma conclusão.
Mas, no caso afirmativo, tanto melhor para mim: estarei bem acompanhado.
O que não posso aceitar (e estou certo de que ninguém que considere com realismo o
problema), o que não posso aceitar é a teoria da formação gradual da língua ou de sua origem
imitativa, onomatopaica ou gestual. Nada disso explica. É uma petição de princípio.
O mal é que os lingüistas geralmente não põem este problema, porque não está ao
alcance da documentação e da pesquisa da ciência positiva, enquanto os filósofos que indagam
da origem da linguagem articulada e de sua formação geralmente não conhecem, na sua
estrutura íntima, o fenômeno lingüístico e não analisam o circuito, coisa, aliás, muito recente,
a partir de Roman Jakobson, se estou bem informado.
Não sei se consegui fazer-me entendido, num assunto meio abstrato como este e que
exige vários pressupostos, que não têm obrigação de possuir os enfadados ouvintes.
Aproveito para lembrar que um dos dramas da cultura é a, talvez inevitável,
incomunicabilidade. Acontece que, por vezes, homens sábios chegam a conclusões idênticas
seguindo caminhos diferentes, ou reclamam de certas carências, ignorando uns o trabalho dos
outros. É o que acontece, por exemplo, com Ferdinand de Saussure, o pai da Lingüística atual,
e com o grande filósofo Maritain; reclamam pela constituição de uma nova ciência, sem que os
dois, defasados, aliás, no tempo, pudessem saber da coincidência.
Saussure, para situar bem a Lingüística, acha que seria necessário enquadra-la numa
disciplina mais geral, a que chama Semasiologia, que tivesse como escopo o estudo da
importância do sinal na vida das sociedades, e Maritain faz o mesmo reclamo, bastante tempo
depois, no capítulo “Signe et symbole”, do seu Quatre essais sur l’esprit dans as codition
charnelle.
Há cerca de 30 anos aqui esteve Eugenio Coseriu (talvez o maior lingüista de hoje) e
fez-nos duas conferências sobre as idéias lingüistas de Platão e Aristóteles, muitas delas
correspondentes e coincidentes com as nossas nações de hoje. Na ocasião até escrevi um
artigo (nesse tempo eu era colaborador regular de O Jornal) exatamente com o título “Um
drama da cultura”.
Quanta coisa nova ou novíssima aparece hoje, que já foi dita e arrazoadas pelos
antigos! Certas coisas de Psicologia de Freud estão em Santo Agostinho, assim como no seu De
Magistro está, com todas as letras e todos os argumentos, a moderna teoria pedagógica, de
que o principal educador é o próprio educando e de que nada de aprende papagueando ou
repetindo o professor, mas meditando e chegando, pela própria inteligência, à conclusão, certa,
a ele comunicada ab extrínseco.

Este excurso final talvez seja pretexto para eu me desculpar de lhes ter prendido a
atenção com coisas estranhas e talvez áridas.

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