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Temas de Direito III

Temas de Direito III Universidade Federal do Piauí

Universidade Federal do Piauí

a

Gestão Primavera Ana Beatriz Silva Ferreira

(Organização)

Temas de Direito III

DIREITO CONSTITUCIONAL DIREITOS HUMANOS CIÊNCIA POLÍTICA DIREITO ELEITORAL DIREITO PENAL

1ª edição

CONSTITUCIONAL DIREITOS HUMANOS CIÊNCIA POLÍTICA DIREITO ELEITORAL DIREITO PENAL 1ª edição Teresina - Piauí 2017

Teresina - Piauí

2017

a

1ª edição

Temas de Direito III

Ana Luísa Melo Nogueira Ana Teresa Ribeiro da Silveira Andreia Marreiro Barbosa Augusto César Bezerra Chaves Carolina Pereira Madureira Catarina Vilna Gomes de Oliveira Santos Iago Masciel Vanderlei Liza Tajra Nery Luana Elainy Rocha Magalhães Lucineide Barros Medeiros Luzia Eduarda Bezerra Valadares Marcus Vinícius Carvalho da Silva Sousa Pedro Rhuan Piauilino Lima Samille Lima Alves Yago Roberto Lopes Correia Lima

Teresina - Piauí

2017

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ Reitor: Prof. Dr. José Arimatéia Dantas Lopes Vice-Reitora: Prof.ª Dr.ª Nadir

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

Reitor: Prof. Dr. José Arimatéia Dantas Lopes Vice-Reitora: Prof.ª Dr.ª Nadir do Nascimento Nogueira Superintendente de Comunicação Social: Prof.ª Dr.ª Jacqueline Lima Dourado

CONSELHO EDITORIAL Ricardo Alaggio Ribeiro (presidente) Acácio Salvador Veras e Silva Antonio Fonseca dos Santos Neto Cláudia Simone de Oliveira Andrade Solimar Oliveira Lima Teresinha de Jesus Mesquita Queiroz Viriato Campelo

Lima Teresinha de Jesus Mesquita Queiroz Viriato Campelo Editora da Universidade Federal do Piauí - EDUFPI

Editora da Universidade Federal do Piauí - EDUFPI Campus Universitário Ministro Petrônio Portella CEP: 64049-550 - Bairro Ininga - Teresina - PI - Brasil Todos os direitos reservados

- Teresina - PI - Brasil Todos os direitos reservados Organizador: Ana Beatriz Silva Ferreira (Gestão

Organizador: Ana Beatriz Silva Ferreira (Gestão Primavera) Impressão: Gráfica Universitária da UFPI Capa: Francicleiton Cardoso Projeto Gráfico e Diagramação: Joana D’arc Corrêa Cortez Almeida

Banca Examinadora Profª Ms. Christianne Matos de Paiva Profª Dra. Maria Sueli Rodrigues de Sousa Profª Ms. Natasha Karenina de Sousa Rego Prof. Dr. Samuel Pontes do Nascimento

FICHA CATALOGRÁFICA Serviço de Processamento Técnico da Universidade Federal do Piauí Biblioteca Comunitária Jornalista Carlos Castello Branco

T278

Temas de Direito III / Organizadora, Ana Beatriz Silva Ferreira. – Teresina: EDUFPI, 2017. 181 p.

ISBN 978-85-509-0257-9

1. Direito. 2. Pesquisa. 3. Produção Acadêmica. 4. Trabalho Científico. 5. Direitos Humanos. I. Ferreira, Ana Beatriz Silva.

SUMÁRIO

Prefácio - Andreia Marreiro Barbosa

10

Capítulo 1 - A EFICÁCIA DAS AÇÕES AFIRMATIVAS DE GÊNERO E SEU IMPACTO NAS CANDIDATURAS FEMININAS PARA A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO

ESTADO DO PIAUÍ - Samille Lima Alves e Lucineide Barros Medeiros

15

Capítulo 2 - DIRIGISMO CONSTITUCIONAL E DE - SENVOLVIMENTISMO: A ATUALIDADE DO COM- PROMISSO SOCIAL DO CONSTITUCIONALISMO LA- TINO-AMERICANO - Ana Teresa Ribeiro da Silveira e Yago Roberto Lopes Correia Lima

46

Capítulo 3 - FEMINICÍDIO NO SISTEMA PENAL BRA - SILEIRO: ANÁLISE CRÍTICA ALÉM DA TIPIFICAÇÃO -

Carolina Pereira Madureira e Andreia Marreiro Barbosa

67

Capítulo 4 - A RAZÃO COMUNICATIVA E SEU FUNCIONAMENTO – ANÁLISE DO CASO DANIELLA PEREZ - Liza Tajra Nery e Luzia Eduarda Bezerra Valadares

86

Capítulo 5 - UMA ANÁLISE DAS CONTRIBUI - ÇÕES DE “A GAROTA DINAMARQUESA” AO ENSINO DO DIREITO COMPROMETIDO COM OS DIREITOS HUMANOS- Iago Masciel Vanderlei e Marcus Vinícius Carvalho da Silva Sousa

101

Capítulo 6 - SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO E O DESEMPENHO DOS PARTIDOS POLÍTICOS NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2016 - Pedro Rhuan Piauilino Lima e Samille Lima Alves

118

Capítulo 7 - O DIREITO À TERRA: BREVES NOTAS SOBRE TERRITÓRIO - Luana Elainy Rocha Magalhães

137

Capítulo 8 - FEMINICÍDIO: A LEI 13.104/2015 COMO UM INOVADOR JURÍDICO NA TUTELA DOS DIREITOS DAS MULHERES - Augusto César Bezerra Chaves e Catarina Vilna Gomes de Oliveira Santos

152

Capítulo 9 - A FEDERAÇÃO É A UNIDADE: JÚLIO DE CASTILHOS E A DEFESA DO ULTRAFEDERALISMO TRIBUTÁRIO NA PRIMEIRA CONSTITUINTE REPU- BLICANA - Ana Luísa Melo Nogueira

165

Préfacio

Este livro é artesanado com a ousadia e o compromisso de

estudantes que assumem as rédeas dos seus processos de educação

e se colocam como sujeitas 1 capazes de criar, inventar, construir e não apenas reproduzir conhecimento. O protagonismo estudantil

e o incentivo à pesquisa, portanto, são marcas dignas de distin-

ção desta coletânea, que vocaliza artigos científicos sobre temas fundamentais à comunidade jurídica e à sociedade em geral. Ao lançar o Concurso de Artigos Maria Sueli Rodrigues de Sousa, a Gestão Primavera do Centro Acadêmico de Direito Cromwell de Carvalho (CACC) fez mais: provocou deslocamentos e fissuras na história da educação jurídica na Universidade Federal do Piauí (UFPI). A sala de retratos do Departamento de Ciências Jurídicas (DCJ) ilustra minha afirmação: em suas paredes, não identifica- mos rostos femininos. No curso de Direito da UFPI, como no de tantas outras universidades brasileiras, o lugar das mulheres, es- pecialmente das negras e das filhas da classe trabalhadora, sempre foi a ausência ou exceção. Maria Sueli é exceção. Rara. A lógica do capital lhe destinou o curso técnico, o emprego de operadora de caixa no comércio e secretária, mas com indignação e coragem tor-

1 Transgrido o masculino plural e neutro e escrevo no feminino em busca de coerência e respeito ao testemunhar a existência de Maria Sueli Rodrigues de Sousa.

nou-se professora, advogada e cientista social. Mulher, negra, pobre, moradora da roça, desafiou o determinismo e, em um país construído em desigualdades, chegou a ser professora do ensino fundamental e médio de escolas particulares em Teresina e depois professora no curso de Direito da Universidade Federal, espaço historicamente destinado às elites piauienses. Rompeu o asfalto e abalou as estruturas de raça, classe e gênero; entretanto, em vez de louvar e acreditar na meritocracia, lutou para que o direito à educação superior e a Constituição de 1988 fossem levados a sério. Professora Sueli nos ensinou que as exceções confirmam as regras de uma sociedade perversa, em que as pessoas negras, sobretudo as mulheres, ainda não são reconhecidas como sujeitas constitucionais, não têm direito à vida digna, muito menos acessos democráticos à educação superior. Em 2017, pela primeira vez, professora Sueli é convidada para ser patronesse de uma turma de formandos, a turma Espe- rança Garcia — no mesmo ano em que a Comissão da Verdade da Escravidão Negra prepara dossiê para solicitar o reconhe- cimento de Esperança Garcia como advogada. Professora Sueli chama atenção para o que Antônio Bispo, doutor da vida, re- conhecido nas Universidades de Brasília e Minas Gerais e seu amigo de tantas lutas, denomina de confluência. A confluência

é tamanha que os artigos publicados nesta obra estão implica-

dos com os esforços para olhar o Direito a partir das lentes de gênero, raça, etnia, classe, demonstrando um compromisso com horizontes mais democráticos, mais igualitários, mais humanos, mais justos – esforços e compromisso inspirados na rigorosida- de da homenageada. Assim é professora Sueli: possui a rigorosi- dade de quem está engajada com a coisa pública, de quem sabe

o valor do suor do povo brasileiro que mantém a estrutura de

uma universidade funcionando e, por isso, sabe também da res- ponsabilidade em lutar por uma educação pública de qualidade. Quem foi seu estudante está ciente da lembrança fundamental de que a universidade é erguida e sustentada com verba pública, uma advertência cotidiana da professora: “Leram o texto? Não? Vocês estão jogando fora o dinheiro público”. Presença visceral no mundo, esperança-fortaleza, pro- fessora Sueli é uma provocadora de deslocamentos, uma crítica incansável. É uma sonhadora, é uma fogueira, dessas que quem

chega perto, pega fogo, como versa Eduardo Galeano. Desde que cheguei na Universidade de Brasília, em 2011, inúmeras vezes,

colegas lembravam-se dela, a quem se reportavam com muito respeito e admiração. Ali, na universidade-sonho de Darcy Ribeiro

e Anísio Teixeira, construída com o objetivo de pensar o Brasil,

professora Sueli cursou o doutorado em Direito. Ali, pensou os povos da Serra da Capivara, pensou o Piauí, dando seguimento ao trabalho que já tinha iniciado no mestrado, investigando as

ruralidades e as questões socioambientais. Estudante disciplinada, resistente, determinada, é uma sujeita singular, que sabe ler os livros e sabe ler o mundo. A curiosidade e a crítica aguçadas em toda a sua trajetória de vida, na universidade e também fora dela, são evidentes em sua atuação como professora na UFPI, nas disciplinas Teoria Geral do Direito (TGD) e Sociologia Jurídica, em que as estudantes são estimuladas e avaliadas pela escrita de trabalhos acadêmicos que, ao longo dos anos, têm rompido a redoma das disciplinas e sido apresentados em eventos científicos. Foi desse compromisso com a docência que nasceram os Seminários de TGD, uma semente que deu vida, posteriormente, aos Encontros Interdisciplinares de Direitos Humanos. Em união com as disciplinas de Direitos Humanos, ministrada por mim, e Biodireito, ministrada pela professora Natasha Karenina, em 2016, e agregando professoras e estudantes da UFPI e outras instituições, em edições seguintes, o evento vem constituindo um importante momento de trocas e reflexões sobre direitos humanos no estado. Professora Sueli é amiga do "sim, e daí?", por isso é não só uma professora exemplar, mas também uma pesquisadora admirável. Na coordenação do Grupo de Pesquisa e Extensão Direitos Humanos e Cidadania (DiHuCi) e do projeto de extensão Cajuína, na UFPI, trabalhou com as comunidades quilombolas e tradicionais Contente e Barro Vermelho e com

a comunidade pesqueira Pedra do Sal, ambas impactadas por

projetos de desenvolvimentismo. Suas atuações desafiam o epistemicídio e a colonização do saber institucionalizados nas universidades brasileiras e provocam encontros entre o saber científico e o tradicional na luta pela garantia da dignidade

humana. Neste grupo, coordenou uma pesquisa financiada

pelo Projeto Pensando o Direito, do Ministério da Justiça, em 2012 e 2013, sobre a violação dos direitos das comunidades quilombolas gerada pelo Estado nos processos administrativos

e judiciais de desapropriação de imóveis rurais em decorrência do projeto Transnordestina. O trabalho, desenvolvido com uma equipe formada majoritariamente por estudantes de graduação,

é um exemplo de pesquisa socialmente engajada, por demonstrar

as contradições do Estado brasileiro e apontar a crueldade de um judiciário capaz de indenizar com 5 reais um agricultor que perdeu

seu pedaço de terra. Diante das limitações acadêmicas, nesta atuação, nasceu em 2014 o Coletivo Antônia Flor (CAF), grupo de advogadas populares que desenvolvem ações de litigância estratégica na defesa de direitos humanos, o que demonstra o fazer-ser da professora Sueli assentado na articulação entre ensino, pesquisa, extensão e movimento. Essas experiências contribuíram para a formação de um grupo de jovens pesquisadoras e professoras. Sou uma de suas aprendizes. Juntas, temos conjugado o verbo esperançar construindo a Comissão da Verdade da Escravidão Negra e a Comissão de Direitos Difusos e Coletivos da Ordem dos Advogados do Piauí (OAB/PI), o Curso de Especialização em Direitos Humanos Esperança Garcia e a Ciranda de Juristas Populares. Temos nos inspirado nesta mulher extraordinária que foi Esperança Garcia, uma negra escravizada que há 247 anos escreveu uma carta ao governador da capitania denunciando as situações de violência por que passava com seus filhos e suas companheiras. Nossas energias têm sido empenhadas em comunicar a voz insurgente por direitos humanos de Esperança Garcia, infelizmente ainda ocultada das histórias oficiais. Compartilho o texto em português atualizado: "Eu sou uma escrava de vossa senhoria da administração do Capitão Antônio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da fazenda dos algodões, aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira da sua casa, onde nela passo muito mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho meu sendo uma criança que lhe faz extrair sangue pela boca, em mim não posso explicar que

sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez de Sobrado abaixo peiada; por misericórdia de deus escapei. A segunda estou eu e minhas parceiras por confessar há três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a Vossa Senhoria pelo amor de Deus e do seu valioso poder que ponha os olhos em mim, como Procurador ordene que o Capitão me mande de volta para a fazenda de onde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha. De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia, 6 de setembro de 1770". Esperança nos uniu. E sua ousadia e coragem têm nos dado forças para pensar e enfrentar os obstáculos de um cotidiano marcado pelo racismo, elitismo e machismo. A intelectual negra Angela Davis disse que "as mulheres negras tiveram que desenvolver uma visão mais ampla da nossa sociedade, mais do que talvez qualquer outro grupo. Elas tiveram de compreender os homens brancos, as mulheres brancas e os homens negros. E elas tiveram de se compreender. Quando uma mulher negra conquista uma vitória é um ganho para praticamente cada segmento da sociedade." Não temos dúvida. Em 2016, imaginávamos que Maria Sueli Rodrigues de Sousa era uma mulher forte. Em 2017, aprendemos que o que ela carrega tem outro nome, que ainda não descobrimos na língua portuguesa. Professora Sueli é artesã negra das vozes-irmãs que sentem, sofrem com os sistemáticos silenciamentos e ocultamentos. Mas, como Esperança Garcia e Conceição Evaristo, professora Sueli pratica a Escrevivência. Fala de si, fala de nós, se insurge para reivindicar direitos de todas aquelas que não são vistas como sujeitas. É infinita fiadeira de sonhos e esperanças.

Com amor, Andreia Marreiro Barbosa Teresina, maio de 2017.

I

A EFICÁCIA DAS AÇÕES AFIRMATIVAS DE GÊNE- RO E SEU IMPACTO NAS CANDIDATURAS FEMINI- NAS PARA A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTA- DO DO PIAUÍ

Samille Lima Alves 1 Dra. Lucineide Barros Medeiros 2

1 Introdução

Desde a conquista ao direito de sufrágio, da capacidade civil plena no século passado até a promulgação da Constituição Cidadã de 1988, a mulher brasileira ocupou importantes espaços na esfera pública e privada. Apesar dos avanços, ainda são notó- rios os traços de uma sociedade fundada no patriarcalismo que atribui prerrogativas às mulheres em condições inferiores aos ho- mens, tendo vedado por muito tempo o acesso à educação, a livre manifestação de vontade, a possiblidade de exercer um ofício ou mesmo o direito à sucessão. É visível a desvalorização do trabalho da mulher que ainda recebe remuneração menor que o trabalha- dor do sexo masculino no exercício do mesmo ofício. São maioria

1 Advogada, Bacharela em Direito pela Universidade Estadual do Piauí. E-mail: samilleli- ma@outlook.com.

2 Professora da Universidade Estatual do Piauí. Doutora em Educação pela Universidade do Rio do Sinos. E-mail: lucineidebarrosmedeiros@yahoo.com.br.

entre o número de analfabetos e as principais responsáveis pela educação dos filhos e trabalhos domésticos, necessitando conci- liar as rotinas profissionais com os cuidados com a família e pos- suem inexpressiva representação nas instâncias formais de poder. Muito se tem debatido sobre a função da mulher na atual sociedade e das dificuldades enfrentadas e da importância do sexo feminino preencher cada vez mais os espaços predominantemente masculinos. As ações afirmativas surgiram como possiblidades de inclusão da mulher no meio político formal. Tais medidas foram adotadas ainda na década de 1970 por países europeus e entraram em vigência no Brasil duas décadas depois. Trouxeram consigo debates e posicionamentos antagônicos, dentre os que suscitam

a questão do mérito, da inconstitucionalidade, da imperiosidade

da adoção das cotas eleitorais para inserir de modo mais incisivo

a mulher nos diversos cargos eletivos, uma vez que não se pode

considerar como estado democrático aquele no qual uma parcela

significativa da população não pode influir nos rumos da sociedade. Buscou-se analisar a problemática do distanciamento da mulher brasileira e piauiense do campo político e a impor- tância em assegurar tal participação como forma de se garan- tir a concretização do princípio constitucional da isonomia, da democracia e da cidadania. E, sob a ótica das ações de dis- criminação positiva adotadas no Brasil com a promulgação das leis 9.096/1995, 9.100/1995, 9.504/1997 e 12.034/2009, ve- rificar as mudanças ocorridas ao longo de 20 (vinte) anos, se tais medidas tem sido eficazes e tem cumprido o objetivo para qual foram criadas, qual seja, a inserção feminina na política. Para tanto, comparou-se os candidatos e eleitos em razão do sexo, no período entre 1996 e 2016, para as câmaras legislativas pátrias, com enfoque na Assembleia Legislativa do Piauí. Coleta- ram-se informações sobre ações afirmativas e a representação fe- minina na política em diferentes fontes bibliográficas, com desta- que aos autores Araújo, Miguel, Pinheiro, Varikas, dentre outros.

A pesquisa quantitativa de base documental foi realizada no ban-

co de dados virtual do Tribunal Superior Eleitoral. Os resultados obtidos foram organizados em tabelas, utilizando-se de técnica de

percentagem. A escolha desse intervalo temporal foi de extrema importância na análise do impacto e da eficácia das cotas na inser- ção da mulher na política.

2 AS AÇÕES AFIRMATIVAS DE GÊNERO NO SISTE- MA ELEITORAL BRASILEIRO.

2.1 A problemática da sub-representação da mulher na política

brasileira.

As mulheres correspondem a 51% da população brasileira segundo o IBGE 3 , proporção completamente diferente da que se verifica no campo político. O quadro de representação política da mulher brasileira fomentou (e ainda fomenta) debates, proposi- ções e tensões, que culminou com a adoção das cotas de gênero na política no Brasil. Entretanto, o problema persiste, não obstante a vigência da legislação de cotas desde 1996. Farah 4 discriminou o número mulheres candidatas e o de eleitas no intervalo de 1932 a 1994, observando que, das 492 mu- lheres que disputaram cargos ao Congresso Nacional, apenas 123 foram eleitas em 15 eleições ao longo de 62 anos. O percentual de representatividade feminina nas Assembleias Legislativas foi ainda menor visto que, entre 1946 e 1994, das 1.387 candidatas à deputada estadual, apenas 200 se elegeram. Segundo a Inter- Parliamentary Union 5 , até 01 de janeiro de 2014, a média mun- dial de participação das mulheres nos parlamentos era de 21,77%, considerando 189 países. Nas Câmaras baixas a participação foi de 22,16%, enquanto nas Câmaras altas de 19,64%. Das nações analisadas, apenas 39 apresentaram percentual superior a 30% de mulheres compondo as câmaras da plebe. O Brasil ocupou a 124º posição no ranking, integrando o grupo de países com o pior

3 IBGE, 2010.

4 Citada por MASCHIO, 2003.

5 INTER-PARLIAMENTARY UNION, 2014.

desempenho (apenas 8,6% das mulheres ocupando a Câmara dos Deputados e 16% no Senado Federal. As explicações suscitadas ao problema são diver- sas. Miguel e Biroli 6 distinguiram três vertentes explicativas. Na primeira, enfatiza-se o caráter patriarcal subjacente às instituições políticas liberais. Na segunda, os padrões culturais e de socialização que constroem o político como espaço masculino e inibem o surgimento da "ambição política" entre as mulheres. A última versa sobre os constrangimentos estruturais à participação política das mulheres que possuem, em regra, restrito acesso a recursos econômicos e menos tempo livre que os homens. A discussão acerca do patriarcalismo envolve a histórica diferenciação dos papéis de gêneros na sociedade. Competia às mulheres o trato da casa e da família, o cuidado e a educação dos filhos, enquanto aos homens a vida pública, o trabalho externo e a manutenção econômica da família. Quando crianças estavam sob o mando do genitor e após o casamento subordinavam-se aos maridos. O espaço privado continua na maioria dos lares brasileiros sob a responsabilidade da mulher que tem a difícil tarefa de conciliar a vida pública com a vida privada, o que dificulta a ascensão a cargos de decisão e chefia, que ainda percebem rendimentos inferiores aos dos homens no exercício de atividades similares 7 . Na década de 1930, permitiu-se às mulheres o exercício de um ofício, vedando-se, contudo, o trabalho nas áreas consideradas masculinas. A Constituição indicou que os cargos das áreas de ensino e saúde fossem ocupados necessariamente por mulheres (art. 121, § 1º, d e § 3º da Constituição de 1934) 8 . Construiu-se uma imagem estereotipada da mulher sempre meiga, dócil, emocional, cuidadosa: a elas estariam reservadas as profissões consideradas femininas, como professora, enfermeira e secretária, não se in- cluindo nesse grupo a política 9 .

6 MIGUEL E BIROLI, 2010. p. 655-656.

7 PINHEIRO, 2007. p. 80; TABAK, 1982. p. 64, PINTO, 2001. p. 103; BLAY, 2001. p. 85.

8 BRASIL, 1934.

9 SILVA, 2010. p. 129.

Varikas 10 afirma que o sistema político é naturalmente excluden- te, assim a sub-representação feminina é uma constante desde a obtenção do direito de sufrágio. Bellozo 11 entende que o problema não se trata exclusão por distanciamento, mas sim que essa política

é pouco permeável às mulheres. Outros autores suscitam dificul-

dades e até a resistência partidária em inserir a mulher na disputa eleitoral, preferindo investir em seus candidatos, em detrimento

de uma candidata com chances de vitória 12 . Araújo 13 pontua que não há um grande universo de mulheres dispostas a concorrer

a cargos eletivos, o que ocorre não porque sejam mais apáticas

que os homens e sim em razão das trajetórias sociais e a situação estrutural frente às relações de gênero, aliadas às condições em que a política institucional e a competição eleitoral operam no país, não lhes oferecem um cenário favorável ou sequer animador. Alguns estudiosos 14 entendem que, em regra, os recursos são destinados aos concorrentes com maior chance de elegibilidade, não se ajustando nesse perfil, a maioria das candidatas. Logo, a falta de capital social dos grupos dominados (ou mais frágeis) é um dos mais evidentes limites à participação na política o que impossibilita uma disputa igualitária e real aos cargos eletivos. Todavia, Araújo 15 salienta que a análise da inserção da mulher na política não pode estar centrada na manifestação da chamada resistência masculino-partidária, pois "a ênfase na ideia de resistência ou preconceito tende a gerar certa subestimação dos fatores institucionais relacionados com o sistema político- eleitoral, bem como com a capacidade de avaliação das mulheres". Para a aludida autora, o espaço político foi estruturado com base nas vivências das práticas masculinas. É nesse contexto que permanece e é reproduzido. Contudo, as mulheres também

10 VARIKAS, 1996. p. 66.

11 BELLOZO, 2006. p. 53-54.

12 PINHEIRO, 2007. p. 83; ABREU, 2010. p. 25; FONSECA, 2012. p. 57.

13 ARAÚJO, 2001. p. 238.

14 ABREU, 2010. p. 26; PINTO, 2001. p. 102.

15 ARAÚJO, 2009. p. 27; 2001. p. 239.

são agentes desse quadro, pois podem conquistar autonomia e racionalidade para as escolhas. De fato, a questão de gênero não é a única que influencia na baixa representatividade feminina. Não cabe a simples afirmação de que há uma forte intervenção dos partidos e seus dirigentes, esquecendo-se de todo o planejamento partidário, no intuito de lançar o maior número de candidatos que tenham condições de elegibilidade, independentemente do sexo. No presente trabalho, apreciaremos tal problemática sob a ótica do gênero sem desconsiderar a ingerência de questões culturais, econômicas, sociais, dentre outras, que determinam a dinâmica da participação da mulher no cenário do legislativo brasileiro e piauiense.

2.2 Por que as mulheres precisam ocupar espaços nas instâncias

decisórias?

A discussão sobre a sub-representação feminina na política leva-nos a refletir sobre o distanciamento das mulheres do poder. Muitos consideram que esse quadro deve ser modificado, por não condizer com e até ferir a democracia, uma vez que as mulheres devem estar presentes nos parlamentos, nos tribunais, nos gabinetes do Executivo, na direção dos partidos políticos e nos mais altos postos de chefias de empresas. Diante desse po- sicionamento, uma questão imperiosa se apresenta: por que as mulheres devem ocupar espaços nas instâncias decisórias? Miguel 16 aponta três vertentes que procuram justificar a necessidade de se assegurar a participação da mulher na políti- ca. A primeira diz respeito à representação descritiva em que as mulheres precisam ocupar mais espaços na política formal por uma questão de justiça intuitiva, por não ser correto um grupo tão numeroso ser extremamente sub-representado no âmbito político. A segunda trata da política do desvelo, segundo a qual

16 MIGUEL, 2000. p. 92.

as mulheres, por saberem como cuidar, devem adentrar na esfera política, trazendo um abrandamento para esse meio essencialmente masculino; a terceira vertente é a política de presença, em que as mulheres são legitimadas para proteger os interesses que lhes concernem. Para o autor 17 , a descrição representativa é problemática, pois quando se analisa a indispensabilidade de representação política por grupo, faz- se necessária a determinação de quais categorias de pessoas devem ser levadas em conta, tarefa que é fruto de lutas e

pressões políticas. Sob essa ótica, entende-se como prejudicial

a distância da mulher das esferas políticas e, de tal monta,

o distanciamento dos demais grupos minoritários. Porém, como se fatiar o parlamento por grupos? Como delimitar

quais categorias devem imprescindivelmente ter participação

garantida?

No sistema democrático representativo, a participação política possibilita em tese, que qualquer do povo tenha seus

interesses defendidos e garantidos pelos representantes. Todavia, a ideia de democracia como garantia de participação de todos os cidadãos em igualdade perdeu-se na prática ao longo dos anos, tornando-se cenário de disputas de interesse de grupos, em especial os da minoria dominante. Questiona- se se a modificação do significado fático do sistema democrático não legitimaria a fragmentação do parlamento. Araújo 18 entende como questão de reparação e justiça a equidade de presença entre homens e mulheres, sendo prejudicial a ausência feminina na política, uma vez que as decisões tomadas afetam diretamente as mulheres e o efeito pode não ser positivo. Varikas 19 aduz que o reconhecimento da dimensão de gênero consiste em integrar nas assembleias representativas as mulheres, enquanto mulheres, e os homens enquanto homens, contudo, isso é estranho e ameaça a visão

17 MIGUEL, 2000, p. 95.

18 ARAÚJO, 2011. p. 93-94.

19 VARIKAS, 1996. p. 73.

de indivíduo abstrato no sistema político, que é substrato de base da democracia representativa e é desprovido de qualquer atributo particular. Quanto à política do desvelo, Miguel 20 expõe que esse posicionamento é prejudicial, por restringir a área de atuação das parlamentares aos temas sociais, afastando-as do que ele denominou de hard politics, que engloba os temas de administração pública, política econômica e relações internacionais. O autor considera ainda que

O discurso da "política maternal" insula as mulheres neste nicho (o social) e desta forma, mantém a divisão do trabalho político, uma divisão que mais uma vez destina aos homens as tarefas socialmente mais valorizadas. Ao mesmo tempo, torna impossível que se cobre dos homens a sua parcela de responsabilidade na educação das crianças ou, em termos mais gerais, para com as futuras gerações. Trata-se de uma perspectiva essencialista, que apresenta um "eterno feminino" (associado às tarefas de cuidar dos outros) e, assim, naturaliza a atribuição dos papéis sexuais.

A política de presença considera que as mulheres são as melhores advogadas de si mesmas devendo apresentar e defender seus anseios presencialmente nos parlamentos. As críticas a esse posicionamento devem-se à divisão do parlamento como um retrato exato da sociedade o que não é possível nem plausível visto que, os representantes políticos possuem obrigações com seus representados, devendo defender seus interesses de forma geral. Por sua vez, os defensores da política de presença entendem que esperar por uma ação generalizada dos agentes políticos do parlamento é um posicionamento ilusório, dado que, independente de exercer um mandato que sirva à população em geral, o parlamentar defenderá interesses dos grupos que lhe aprouver. Tal justificativa, da mesma forma que a política de desvelo, restringe a atuação política da mulher,

20 MIGUEL, 2000. p. 92-93.

desconsiderando que as parlamentares estão ligadas aos partidos seus posicionamentos políticos e que sustentam outros interesses, desvinculados das questões de gênero. Varikas 21 discorda da visão de que apenas alguém de um grupo pode falar por este e considera ingênua a ideia das parlamentares defenderem somente interesses relacionados ao gênero, deixando de agir segundo suas posições políticas. Araújo 22 sintetiza a questão afirmando que:

Primeiro, porque há a crença de que política importa. Segundo, porque se promove um link entre uma cidadania ativa e participatória e demandas por direitos e igualdade política e civil. Por fim, o foco na agência das mulheres aponta para a importância das suas atividades como mães, trabalhadoras e ativistas e para a interconexão das diferentes arenas do estado, do mercado e da sociedade civil.

Sobre o tema, algumas indagações pertinentes são levantadas por Varikas 23 : a presença de um número considerável de mulheres eleitas nas assembleias é capaz de neutralizar imagens bem mais marcantes presentes no cotidiano de mulheres (e homens) e que retratam uma realidade na qual prevalecem a segregação, a dependência, a hierarquia, a desvalorização, a heteronomia que se abatem sobre um dos sexos? Outrossim, essa presença é capaz por si mesma de suscitar uma dinâmica de mobilização e resistência por parte de outras mulheres? Pode constituir- se num ponto de partida para a transformação substantiva das condições materiais e simbólicas que fazem das mulheres cidadãs de segunda classe? Tais indagações não serão detalhadamente analisadas no presente trabalho, mas são importantes quando tratamos sobre a relevância da atuação não apenas das mulheres, mas da população em geral no contexto da política brasileira.

21 VARIKAS, 1996. p. 74.

22 ARAÚJO, 2012. p. 157.

23 VARIKAS, 1996. p. 89.

3 UMA ANÁLISE DA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA DE AÇÕES AFIRMATIVAS DE GÊNERO NA POLÍTICA

O Brasil instituiu as cotas eleitorais de gênero em 1995.

Desde então, o legislador pátrio consolidou as ações afirma- tivas de gênero na legislação eleitoral subsequente, com des- taque para a Lei nº 9.100/1995, a Lei nº 9.504/1997 e a Lei nº

12.034/2009.

A Lei nº 9.100/1995 foi pioneira no Brasil no estabelecimento de reserva de vagas para mulheres nas listas eleitorais dos partidos. O legislador adotou expressamente cotas com reserva de vagas, garantindo às mulheres 20% nas listas partidárias (art. 11, § 3º). Ainda foi permitido o aumento do número de candidatos por partido/coligação (art. 11, §§ 1º

e 2º). O que na prática, reduziu o percentual real das cotas que configurou o aumento de candidatos concorrendo no mesmo pleito 24 . A medida não era obrigatória nem acarretava qualquer sanção ou penalidade por parte da Justiça Eleitoral ao partido que a descumprisse, o que frustrou as expectativas de progresso na representação política feminina. A lei não previu qualquer outra medida que contribuísse juntamente com a cota para a inserção política da mulher. A despeito das deficiências apontadas, essa norma jurídica foi importante, pois trouxe à tona a questão da sub-representação política da mulher brasileira, reconhecendo-a como problema e levantando a necessidade de modificá-lo.

A Lei nº 9.504/1997, denominada de lei das eleições,

regulou as eleições gerais no país desde 1998 e foi alterada pelas leis 9.840/1999, 10.408/2002, 10.740/2003, 11.300/2006, 12.034/2009, 12.350/2010 e 12.875/2013. O termo "mulheres", utilizado na primeira norma, não foi reproduzido nessa lei, que

24 BELLOZO, 2006; ARAÚJO, 2001.

ainda dispôs sobre a reserva mínima e máxima de cotas por sexo:

Art. 10. Cada partido poderá registrar candidatos para a Câmara dos Deputados, Câmara Legislativa, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais, até cento e cinquenta por cento do número de lugares a preencher. ( ) § 3º Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação deverá reservar o mínimo de trinta por cento e o máximo de setenta por cento para candidaturas de cada sexo 25 .

A reserva de 30% novamente foi mitigada com o aumento em 150% do número de vagas que cada partido/coligação poderia dispor. Também não foi prevista qualquer punição aos partidos que descumprissem o dispositivo legal. Para Bellozo 26 , a inexistência de ônus legal para o partido facilitava o lançamento de candidaturas fictícias o que diminuía o impacto das medias afirmativas. A simples inserção de mulheres nas listas eleitorais não garante que as concorrentes estejam aptas para a disputa. A inclusão de candidatos de diversos segmentos sociais não importa dizer que o partido deseja ver a classe representada. O abarcamento desses grupos implica em visibilidade ao partido, o que pode ser convertido em mais votos e na possibilidade de eleger mais representantes e intensifica o chamado "efeito contágio", influenciando os partidos a adotarem medidas que favoreçam a inclusão feminina 27 . A Lei nº 12.034/2009 promoveu mudanças substanciais no sistema brasileiro de cotas de gênero, modificando a lei dos partidos e a lei das eleições. Outros tipos de ações afirmativas foram adotados e a inovação ficou por conta da previsão de punição aos partidos que descumprissem as determinações legais. Ao art. 44 da Lei nº 9.096/1995 foi acrescido o inciso V, que previu a destinação obrigatória do mínimo de 5% do fundo partidário para criação e manutenção de programas de incentivo à participação das

25 BRASIL, 1997.

26 BELLOZO, 2006. p. 73.

27 ARAÚJO, 2005. p. 195; WRIGTH, 2009. p. 91; PINTO, 2001. p. 102.

mulheres. A penalidade em caso de descumprimento consiste na impossibilidade do partido utilizar o fundo para outra finalidade, além de ter acrescido ao valor mínimo legal o percentual de 2,5% (art. 44, § 5º). Incluiu-se o inciso IV ao art. 45 da Lei nº 9.096/1995, que determinou aos partidos políticos o desenvolvimento de formas de difusão e promoção da participação feminina na propaganda partidária. Para tanto, devem dedicar ao menos 10% do tempo destinado à propaganda eleitoral partidária para tal finalidade. Em caso de descumprimento, a Justiça Eleitoral aplicará as seguintes penalidades:

Art. 45. ( ) § 2º O partido que contrariar o disposto neste artigo será punido:

I - quando a infração ocorrer nas transmissões em bloco, com a cassação do direito de transmissão no semestre seguinte; II - quando a infração ocorrer nas transmissões em inserções, com a cassação de tempo equivalente a 5 (cinco) vezes ao da inserção ilícita, no semestre seguinte 28 .

O percentual de reserva de vagas nas listas eleitorais previsto no § 3º do art. 10 da Lei nº 9.504/1997 foi mantido em 30%. A modificação trazida pela Lei nº 12.034/2009 ficou por conta da troca da expressão "deverá reservar" por "preencherá": "Art. 10, § 3º Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo 29 ". Segundo entendimento do Tribunal Superior Eleitoral, o termo preencherá tornou aquele dispositivo em uma norma imperativa aos partidos que, se desobedecerem, serão penalizados pela Justiça Eleitoral. Dessa forma, a Lei 12.034/2009 veio ao encontro a parte das críticas proferidas à legislação brasileira de cotas de gênero. Todavia, ainda restringe as ações afirmativas ao sistema proporcional e à reserva de vagas nas listas eleitorais e não ao parlamento como querem os defensores da paridade 30 .

28 BRASIL, 1995

29 BRASIL, 1997.

30 RICHARTZ, 2007, MIGUEL, 2000, ARAÚJO, 2001, 2009, 2011.

4 A EFICÁCIA DAS AÇÕES AFIRMATIVAS DE GÊNERO NA POLÍTICA BRASILEIRA

A adoção das medidas de discriminação positiva pelo legislador pátrio foi fruto de intensas e longas discussões travadas por grupos de mulheres, organizações sociais e parlamentares, iniciadas ainda na década de 1970, em todo o mundo, tendo como marco as Convenções promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU). Analisando-se o teor das Leis nº 9.100/1995, 9.096/1995, 9.504/1997 e 12.034/2009, percebeu-se que as medidas tiveram por alvo direto os partidos políticos, dirigindo-lhes comandos imperativos a fim de incrementar o quadro de mulheres na política formal.

4.1 O impacto das medidas afirmativas de gênero na representa-

tividade feminina nos partidos políticos brasileiros

Não obstante a obrigatoriedade de difusão e promoção da participação feminina, a atuação dos partidos nesse sentido ainda não é consistente e eficaz no Brasil. Analisando-se a situação concreta, até outubro de 2016, dos 35 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral, 19 previam expressamente nos estatutos órgãos ou departamentos para mulheres 31 , enquanto os demais, com exceção do NOVO e do PMB, organizaram departamento destinado às mulheres não mencionado nos estatutos. As ações afirmativas para mulheres estiveram presentes nos estatutos de 18 partidos, que trataram da reserva de vagas para mulheres nos órgãos partidários, nas listas de candidaturas para mandatos eletivos e na destinação de percentual mínimo do fundo partidário para promoção de programas de incentivo à participação da mulher na política, conforme teor do art. 44, V,

31 Os dezenove partidos são: PTB, PDT, PT, DEM, PSB, PSDB, PRP, PPS, PV, PP, PRTB, PSDC, PSOL, PR, PSD, PPL, PEN, PROS e SD.

da Lei nº 9096/95. A reserva de vagas foi a medida adotada pelos seguintes partidos: PDT, PSB, PPS, PP e REDE. Enquanto PMDB, PTB, PT do B, PHS, PSL, PRB, PR, PROS, SD e NOVO dispuseram apenas sobre a aplicação do fundo partidário. As duas medidas foram adotadas simultaneamente pelo PT, PSDB e PV. Dos 17 partidos que não previram qualquer tipo de ação afirmativa de gênero, dez alteraram seus estatutos após a publicação da Lei nº 12.034/2009, não se adequando à lei, a saber, PSTU, PC do B, PSOL, PPL, PTC, PRP, PSD, PEN, PSDC e PMB (Apêndice A - Quadro 1). A maioria dos partidos ou coligações não preenche as vagas nas listas eleitorais com o percentual mínimo, seja ainda pela ausência de mulheres dispostas a concorrer ou por influência do comando partidário. Nos casos de inobservância da norma eleitoral da cota mínima por gênero, a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é pacífica quanto à forma de penalizar os partidos que não preencherem ao menos 30% de candidatos por sexo em suas listas eleitorais. No julgamento do RESPE 78432 PA/2010 32 , o TSE esclareceu que o cálculo desse percentual deve ser feito com base no número de candidatos efetivamente lançados pelo partido ou coligação. Caso não seja atendido, o TRE local deverá convocar o partido para proceder ao ajuste e regularização na forma da lei. O TSE entendeu também que se o percentual mínimo não for atingido, será defeso ao partido ou coligação preencher com um sexo as vagas destinadas ao outro. Tal conduta, nos dizeres do Ministro Arnaldo Versiani Leite Soares, tornaria inócua a previsão legal de reforço da participação feminina nas eleições, com reiterado descumprimento da lei. Caso não seja possível o preenchimento do percentual mínimo, o partido ou coligação deverá reduzir o número de candidatos masculinos para adequar os respectivos percentuais cuja providência, caso não atendida, ensejará o indeferimento do demonstrativo de regularidade dos atos partidários (RESPE 2939 PE/2012) 33 .

32 BRASIL, 2010.

33 BRASIL, 2012.

Ademais, o preenchimento do percentual mínimo deve ser observado no momento do registro da candidatura e em eventual preenchimento de vagas remanescentes ou na substituição de candidatos (RESPE 21498 TRE-RS/2013) 34 . Quanto ao repasse obrigatório do mínimo de 5% (cinco por cento) do fundo partidário, os Tribunais Regionais Eleitorais do Pará e da Paraíba decidiram que há possibilidade de compensação no exercício seguinte quanto à do percentual mínimo de recursos do fundo partidário (PC 3784 TRE-PB/2013) 35 e que o partido que descumpriu o disposto no artigo 44, V, § 5º da Lei nº 9.096/1995 será penalizado com o acréscimo de 2,5% ao percentual mínimo de 5% (PC 6142, TRE-PA/2013) 36 . Em relação às irregularidades na propaganda eleitoral, os Tribunais Eleitorais de São Paulo e do Espírito Santo entenderam que o art. 45 da Lei nº 9.096/95 é cumprido quando difunde ideias que promovam a participação política da mulher ou quando demonstre a efetiva atuação e o desempenho das mulheres filiadas a um determinado partido, não bastando a simples narrativa por pessoa do sexo feminino que não seja filiada ou não esteja identificada (REP 30416 TRE-SP/2013) 37 . O descumprimento foi considerado uma infração e ensejou a cassação do tempo de propaganda de partido no equivalente a cinco vezes o que deixou de reservar para as mulheres (REP 26956 TRE SP/2013; REP 29202 TRE SP/2013) 38 e no percentual de 10% do tempo total das inserções veiculadas 39 . Sem dúvidas, a atuação dos órgãos da Justiça Eleitoral é imprescindível para que as ações afirmativas de gênero sejam cumpridas em sua inteireza pelos partidos e coligações. As penalidades, em seu caráter educativo, minimizam a discricionariedade da direção partidária quanto à elaboração das listas e na aplicação das demais medidas.

34 BRASIL, 2013.

35 PARAÍBA, 2013.

36 PARÁ, 2013.

37 SÃO PAULO, 2013b.

38 SÃO PAULO, 2013c; SÃO PAULO, 2013a.

39 ESPÍRITO SANTO, 2014.

4.2 A representatividade política da mulher brasileira e piauien-

se e a influência das cotas de gênero.

Desde a adoção das ações afirmativas de gênero, o número de mulheres candidatas ao cargo de vereador só aumentou passando de 33.279, em 1996, para 142.732, em 2016, o que, em relação aos candidatos do sexo masculina, representou um salto de 17,32% para 32,46%. Entretanto, o mesmo não ocorreu quanto às eleitas, que alcançaram o maior índice em 2016, com 13,52%, enquanto em 1996 foram 11,07%. Logo, quando comparados os eleitos de cada sexo, verificou-se que permanece baixa a representação política da mulher nas câmaras municipais (Tabela 1).

Tabela 1 – Eleições para as Câmaras Municipais: candidatos e eleitos por gênero de 1996 a 2016.

   
             
     
             
   

Ano

               

de

Total

Total

eleição

eleição
eleição
eleição
eleição

1996

33.279

17,32

158.878

82,68

192.157

4.347

11,07

34.931

88,93

39.278

2000

70.395

19,15

297.297

80,85

367.692

6.987

11,60

53.235

88,40

60.222

2004

76.684

22,14

269.665

77,86

346.349

6.548

12,64

45.256

87,36

51.804

2008

72.476

21,92

258.154

78,08

330.630

6.504

12,53

45.399

87,47

51.903

2012

134.113

31,90

286.291

68,10

420.404

7.653

13,33

49.740

86,67

57.393

2016

142.732

32,46

297.033

67,54

439.765

7.768

13,52

49.806

86,48

57.592

Total

529.679

23,35

1.567.318

76,65

2.096.997

32.039

12,29

228,561

87,71

260.600

Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Para a Câmara Federal, entre 1998 e 2014, houve considerável aumento na quantidade de mulheres candidatas (397,17%). Quanto aos eleitos, a bancada feminina na Câmara Federal que se mantinha na proporção de 8% desde 2002, com pouca variação em 2006 (8,58%) e em 2010 (8,77%), saltou para 9,94% em 2014. Em termos absolutos, o número de Deputadas Federais passou de 29, em 1998, para 51 em 2014. Quanto às Assembleias Legislativas, o cenário é bem similar ao descrito acima. O número de candidatas aumentou 235,12% de 1998 a 2014,

enquanto o número de eleitas subiu 12,75% no período avaliado. Porém, o número de eleitas caiu na última eleição, pois em 2010 foram eleitas 134 deputadas estaduais (12,95%), enquanto em 2014 esse número foi de 115 (11,11%). Em relação à Assembleia do Distrito Federal, o aumento das candidaturas femininas foi de 143,22% também entre 1998 e 2014. Das 24 (vinte e quatro) vagas disputadas a cada pleito, as mulheres ocuparam em média 4 (quatro) cadeiras por legislatura, totalizando 21 deputadas distritais no período. Em 2014, as mulheres representaram 20,83% dos parlamentares distritais. O número de homens candidatos cresceu no período em questão, para os três cargos, mas em proporção menor (39,20%, 19,09% e 35,86%, respectivamente). Curiosamente, o número de eleitos decaiu também nos três cargos (-4,55%, -1,39% e -5,00%, respectivamente). Entretanto, os homens ainda são maioria considerável das casas legislativas no Brasil, representando 90,06% dos deputados federais, 88,89% dos deputados estaduais e 79,17% dos deputados distritais (Tabela 2).

Tabela 2 - Eleições para as Câmaras Federal, Estadual e Distrital: candidatos e eleitos por gênero de 1998 a 2014.

 

Candidatos

                   

Cargo

e eleitos

por sexo

1998

%

2002

%

2006

%

2010

%

2014

%

 

Mulheres

353

10,33

490

11,41

628

12,67

933

19,09

 

29,15

candidatas

1755

Federal (a)

Deputado

Homens

candidatos

Mulheres

eleitas

Homens

3064

29

484

89,67

5,65

94,35

3806

42

471

88,59

8,19

91,81

4328

44

469

87,33

8,58

91,42

3954

45

468

80,91

8,77

4265

51

70,85

9,94

eleitos

91,23

462

90,06

 

Mulheres

                   

Deputado (a)

 

candidatas

1270

12,64

1638

14,45

1602

13,94

2439

20,66

4256

28,93

Estadual

Homens

candidatos

8781

87,36

9700

85,55

9888

86,06

9367

79,34

10457

71,07

Mulheres

eleitas

102

9,86

129

12,46

119

11,5

134

12,95

115

11,11

 

Homens

 

eleitos

933

90,14

906

87,54

916

88,5

901

87,05

920

88,89

 

Mulheres

                   

Deputado (a)

 

candidatas

118

19,03

129

20,51

134

20,74

201

25,19

287

29,62

Distrital

Homens

candidatos

502

80,97

500

79,49

512

79,26

597

74,81

682

70,38

Mulheres

eleitas

4

16,67

5

20,83

3

12,5

4

16,67

5

20,83

 

Homens

 

eleitos

20

83,33

19

79,17

21

87,5

20

83,33

19

79,17

Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Candidata

Candidata

Candidata

Candidata

Candidata

Eleita

Eleita

Eleita

Eleita

Eleita

No Piauí, no período de 1945 a 1994, 1.534 mulheres concorreram aos cargos de deputadas federal e estadual, vereadoras, prefeitas e vice-prefeitas, das quais 419 foram eleitas, representando um êxito de 27,31%. A participação da mulher piauiense no parlamento federal e no estadual foi bastante irrisória até 1994. Apenas uma deputada federal foi eleita, em 1986, dentre as 12 que se candidataram e uma exerceu mandato na Assembleia Legislativa do Piauí, no ano de 1970, dentre as 31 que concorreram. Até 1994, nenhuma mulher no estado candidatou- se ao Senado ou ao Governo do Estado e nas eleições de 1950, 1954, 1956, 1962, 1978 e 1982 nenhuma candidatura feminina foi registrada (Tabela 3).

Tabela 3 - Número de mulheres candidatas e eleitas no Piauí por cargo entre 1945 e 1994.

Vereadora

Prefeita

Vice- Prefeita

Deputada

Federal

Deputada

Estadual

Ano/

Cargo

1945

-

-

-

-

-

-

1

-

-

-

1947

-

-

-

-

-

-

-

-

4

-

1948

1

1

-

-

-

-

-

-

-

-

1950

17

x

-

-

-

-

-

-

-

-

1954

19

-

-

-

-

-

-

-

-

-

1958

15

4

1

1

-

-

-

-

1

-

1962

18

1

2

x

-

-

-

-

-

-

1966

23

19

1

1

1

1

1

-

3

-

1970

44

23

7

3

5

2

1

-

1

1

1972

42

33

7

4

8

5

-

-

-

-

1974

-

-

-

-

-

-

-

-

1

-

1976

60

33

6

4

10

5

-

-

-

-

1982

125

43

13

6

9

2

-

-

-

-

1986

-

-

-

-

-

-

6

1

6

-

1988

410

72

14

4

26

10

-

-

-

-

1990

-

-

-

-

-

-

2

-

8

-

1992

580

134

27

6

-

-

-

-

-

-

1994

-

-

-

-

-

-

1

-

7

-

Total

1354

363

78

29

59

25

12

1

31

1

Quanto às eleições para as Câmaras Municipais piauienses, entre 1996 e 2016, os números são pouco diferenciados. As 10.881 mulheres candidatas no período representaram 24,15% do total de concorrentes e apenas 14,37% foram eleitas. O melhor desempenho ocorreu em 2012, enquanto o pior ocorreu nas eleições de 2000 (Tabela

4).

Tabela 4 - Assembleia Legislativa do Piauí: candidatos e eleitos por sexo de 1998 a 2014.

Ano da

Candidato (a)

   

Eleito (a)

 

Eleição

Feminino

%

Masculino

%

Feminino

%

Masculino

%

1998

23

13,22

151

13,22

2

6,67

28

93,33

2002

16

8,56

171

8,56

3

6,67

28

93,33

2006

22

12,22

158

12,22

3

10,00

27

90,00

2010

46

25,00

138

25,00

7

23,33

23

76,67

2014

66

30,14

153

30,14

4

13,33

26

86,67

Total

173

18,33

771

81,67

18

12,00

132

88,00

Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados do TSE, Eleições anteriores.

Na disputa ao Congresso Nacional e à Assembleia

Legislativa do Piauí, o número de candidatas entre 1998 e

2014

aumentou em 186,96%, passando de 23 concorrentes em

1998

para 66 em 2014. Em relação aos candidatos do sexo

masculino, o maior percentual de candidaturas femininas ocorreu no último pleito, na razão de 30,14%. Quanto às

eleitas, a representação aumentou em 100%, de 2 deputadas em

1998 para 4 em 2014. Porém, se comparada a eleição de 2010,

a representatividade feminina no parlamento estadual caiu consideravelmente, de 7 para 4 deputadas, um decréscimo de

42,86%. Em 2014 as mulheres eleitas representaram 13,33% do parlamento, enquanto em 2010 correspondiam a 23,33% (Tabela 5).

Tabela 5 – Candidatos e eleitos para vereador no estado do Piauí entre 1996 e 2016.

   
             
     
             
   

Ano

               

de

Total

Total

eleição

eleição
eleição
eleição
eleição

1996

1.021

17,14

4.936

82,86

5.957

267

12,73

1.830

87,27

2.097

2000

1.200

17,20

5.777

82,80

6.977

269

12,69

1.835

87,31

2.119

2004

1.437

19,55

5.913

80,45

7.350

265

13,09

1.759

86,91

2.024

2008

1.405

19,61

5.758

80,39

7.163

284

13,97

1.749

86,03

2.033

2012

2.938

33,06

5.950

66,94

8.888

360

16,85

1.776

83,15

3.136

2016

2.880

33,03

5.840

66,97

8.720

357

16,73

1.777

83,27

2.134

Total

10.881

24,15

34.174

75,85

45.055

1.802

14,37

10.741

85,63

12.543

Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados do TSE, Eleições 2016.

Segundo ensinamento de Diniz 40 , eficácia é a qualidade da norma vigente de produzir, no seio da coletividade, efeitos jurídicos concretos, considerando não só a questão de sua condição técnica de aplicação, observância ou não pelas pessoas a quem se dirige, mas também a de sua adequação em face da realidade social por ela disciplinada e dos valores vigentes na sociedade, o que conduziria ao seu sucesso. A eficácia diz respeito a saber se os destinatários da norma ajustam ou não seu comportamento em maior ou menor grau, às prescrições normativas. Sendo o objetivo das ações afirmativas em promover a isonomia de gênero na política, tanto em relação ao incremento das mulheres filiadas nas listas partidárias quanto ao aumento da quantidade de mulheres ocupando cargos políticos no Poder Legislativo, constatou-se que não ocorreram grandes mudanças após a adoção das cotas de reservas de vagas partidárias por gênero, fato corroborado em outros trabalhos 41 . Araújo 42 considera como desafio a mudança de foco da discussão em torno da representação política da mulher, que não deve ser apenas quanto a ter ou não cotas, pois

40 DINIZ, 2005, p. 319.

41 ARAÚJO, 2001; FREIRE, 2008. p. 75; MIGUEL, 2000. p. 98.

42 ARAÚJO, 2010. p. 119.

"as cotas como um recurso válido dependem de outros aspectos relacionados com a democratização da representação. Há várias outras estratégias importantes para ampliar e facilitar a participação política das mulheres". Essa questão deve ser analisada pelo legislador, face à ineficácia das cotas por reserva de assentos, adotada há duas décadas. Já não caberia a substituição dessa medida por outra com efeito mais promissor? Muito se discute se a mudança no tipo de lista eleitoral ou mesmo do próprio sistema eleitoral podem alterar

o quadro de sub-representação feminina na política. Levando-se

em conta a natureza temporária da ação afirmativa, o que se vê

é um certo comodismo do legislador em adotar o mesmo método

reiteradamente, esquecendo-se que a problemática é mais ampla, indo além do campo político. Há de se discutir também o legado do patriarcado, o papel da mulher na sociedade, na família e no mercado de trabalho e sobre a importância de se garantir acesso aos espaços decisórios aos cidadãos. Nos dizeres de Wright 43 , as cotas

não removem as barreiras culturais e as dificuldades das mulheres combinarem vida familiar, trabalho e política. Há que se promover

o empoderamento feminino, que implica a alteração radical dos

processos e das estruturas que reproduzem a posição da mulher como submissa 44 .

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As ações afirmativas surgiram com o propósito de mudar o

quadro da baixa participação da mulher na política. Após a adoção das cotas de reserva de vagas em listas eleitorais, em 1995, aumentou

o número de mulheres candidatas e eleitas em relação às eleições anteriores. Porém, esse crescimento não pode ser considerado

significativo, uma vez que o número de candidaturas femininas não ultrapassou a marca de 26% e o número de eleitas não foi superior

a 17%, sendo que na Câmara Federal, o maior percentual alcançado

43 WRIGHT, 2009. p. 115.

44 LISBOA, 2008.

foi de 8,77%, em 2010. No Piauí, o número das candidaturas femininas e de eleitas cresceu consideravelmente entre 1998 e 2010, passando de, respectivamente, 13,22% a 25%, e 6,67% a 23,33%, e entre 1996 e 2016, de 17,14% para 33,03% e de 12,73% para 16,73%. Todavia, há muito o que evoluir ainda. As ações afirmativas cumprem sua função de suscitar o debate mas não tem sido o instrumento mais eficaz de promoção do princípio constitucional da isonomia. As mulheres, como outros segmentos sociais, continuam a não exercer plenamente a capacidade de contribuir para as questões que afetam a sociedade, ou seja, não exercem o poder de forma plena 45 . Há muito tem-se afirmado a ineficácia do sistema de cotas eleitorais no Brasil e levantado a necessidade de que outras medidas sejam postas em prática, como a adoção de cotas de reserva de vagas no parlamento as mudanças no sistema eleitoral no tocante a adoção de lista fechada ou flexível, com a alternância de candidatos por sexo na lista. É sabido que tais medidas por si só, não podem incrementar a representação política da mulher e que a problemática não pode ser analisada apenas por esta ótica. As cotas eleitorais são medidas essencialmente temporárias, intervenções de natureza "cirúrgica" que visam sanar determinado problema que se revela urgente e que cedo ou tarde devem ser retiradas do ordenamento jurídico. Deve ser consolidada em nossa sociedade a noção de empoderamento feminino, pois as mulheres podem sim ocupar espaços de decisão, em qualquer âmbito, quer público ou privado devendo ser tratada de forma isonômica ampliando-se o acesso à educação, à profissionalização, o combate à violência doméstica, de forma a superar os traços do patriarcado. Há que se discutir o papel da mulher na sociedade, que foram inseridas intensamente no mercado de trabalho no decorrer do século XX, mas ainda estão fortemente associadas ao âmbito familiar, sendo grande ainda a desigualdade entre homens e mulheres.

45 ARAÚJO, 2011.

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30416, Relator: Antonio Carlos Mathias Coltro, DJESP, São Paulo,

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26956, Relator: Antonio Carlos Mathias Coltro, DJESP, São Paulo,

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APENDICE A

Quadro 1 – Estatuto dos partidos políticos segundo a presença de órgão para mulheres e a adoção de ações afirmativas de gênero

Sem

AA

-

-

-

-

1

1

-

 

1

1

1

1

-

-

-

eAA1

AA1

AA2

-

-

-

1

-

-

-

---

1

-

-

-

 

-

 

-

1

 

AA2

1

1

-

-

-

-

-

 

-

-

-

 

-

 

- -

--

1

 

-

-

1

-

-

-

1

 

-

-

-

 

-

1

-

 

Previsão no

Estatutoo

 

Art. 17 -C

Art. 26 e 83

Art. 22, IV e 200, e

   

art. 22, §1º

art. 25; 41, caput; 142, V

-

 

-

art.67, par. unico

art. 14, II

art. 99, §1º, “e”; 61, I

art. 86, VI

Ano do

Estatuto

2015

2014

2015

2015

2007

2010

2013

2015

2015

2007

2008

2015

2011

2011

2015

Nome

Art. 107, IVNão

PMDB Mulher

PTB Mulher

Mulher

Ação Trabalhista

da

Setorial de Mulheres

Mulher Democrata

Nacio-

nal da Mulher

Secretaria

Secretaria das Mulheres

Muheres de

Secretarias

PTC MulherNão

-Não

PSC Mulher

PMN Mulher

PRP Mulher

de

Coordenação

Mulheres -CM

PV Mulher

PT do B MulherNão

Partido Órgão feminino no estatuto

 

Sim (art. 49, b)

Sim (art. 11, §2º)

Sim (art. 135)

-Sim

(art. 17, III, a)

-Não

(art. 53 a 55)

Sim (art. 12, IV, 43, “e”)

17,

108, II; §1º)

§1º, 16,

(arts.

IV, 90,

   

Não

§2º; 52, VIII;

Sim (art. 31,

55, IX)

Sim (art. 26, caput)

Sim (art. 34, XIII; 76)

 
 

PMDB

PTB

PDT

PT

DEM

PC do B

PSB

PSDB Sim

PTC

PSC

PMN

PRP

PPS

PV

PT do B

Sem

AA

-

1

 

1

1

-

1

1

1

-

-

1

-

-

1

1

eAA1

AA1

AA2

--

-

 

-

-

-

-

 

-

-

-

-

--

-

-

-

-

AA2

 

-

 

-

-

1

-

 

-

 

1

1

 

1

-

-

-

 

-

-

 

-

-

-

-

 

-

--

-

-

-

-

-

-

-

Previsão no

Estatutoo

art. 116

-

 

-

 

- art. 21, II

-

 

-

-

art. 163, IV

art. 50, §2º, III

-

art. 34, §3º

-

-

-

Ano do

Estatuto

2015

2013

 

2008

2004

2015

2016

1995

2006

2011

2014

2010

2015

 

2013

2015

Nome

PP Mulher

Secretaria de Mulheres

de Mulheres

Coletivo

Ana Montenegro

PRTB Mulher

PHS Mulher

PSDC Mulher

Mulheres do

de Luxemburgo

PCO Rosa

Coletivo

PTN Mulher

PSL Mulher

PRB Mulher

Mulheres do

Setorial de PSOL

PR Mulher

PSD Mulher

PPL Mulher

PEN Mulher

Partido Órgão no estatuto feminino

Sim (art. 115, caput)

Não

Não

Sim (arts. 13; IV; 63)

Não

Sim (arts. 9, IV, f; 83)

Não

Não

Não

Não

Sim (art. 64)

Sim (art. 34, §2º)

2015PSD

Sim (arts. 14, III, “a”; 72)

Sim (arts. 22, IV; 36)

im (arts. 29, X; 51, VIII)

 

PP

PSTU

PCB

PRTB

PHS

PSDC

PCO

PTN

PSL

PRB

PSOL

PR

 

PPL

PEN

Sem

AA

-

-

-

-

1

eAA1

AA1

AA2

-

-

-

-

-

AA2

1

1

1

-

-

 

-

-

-

1

-

Previsão no

Estatutoo

     

33,

único

90, par.

 

art. 44, III

art. 87

art. 87, V

26, 32,

arts.

-

Ano do

Estatuto

2015

2015

2015

2016

2016

Nome

Secretaria da

Mulher

Secretaria da

Mulher

-

mulheres

Rede de

-

Partido Órgão no estatuto feminino

§15) IV;

I; 37, 10,

Sim 36, (arts.

Sim “a”; (arts. 58, I a 13, III) VI,

     

Não

Não

Não

 

PROS

SD

Novo

Rede

PMB

Fonte:

Elaborado

pelas autoras

com base

nos estatutos

dos partidos

disponíveis no

sítio eletrônico

do TSE

Legenda:

AA1: Ação

afirmativa

1 - Reserva

de vagas para mulheres em órgãos, na diretoria ou nas listas partidárias;

AA2: Ação

afirmativa

2 - Destinação

de 5% do fundo partidário para

o programa de promoção da participação política da mulher;

Sem AA: não há previsão de ação afirmativa no estatuto do partido.

II

DIRIGISMO CONSTITUCIONAL E DESENVOLVI- MENTISMO: A ATUALIDADE DO COMPROMISSO SOCIAL DO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO

Yago Roberto Lopes Correia Lima 1 Ana Teresa Ribeiro Da Silveira 2

Introdução

O problema instaurado pelo constitucionalismo dirigen- te não é novo e já foi profusamente discutido no exterior, através da matriz teórica Canotilho-Lerche-Crisafulli, e no Brasil, atra- vés de Streck-Faria-Grau-Bercovici-Comparato. Vale referir, o constitucionalismo compromissório assumiu vasta importância em solo latino-americano, ou no chamado capitalismo periféri- co, e inspirou a promulgação de várias Cartas Constitucionais com missões interventivas, sociais e redistributivas, sobretudo após a erosão das ditaduras militares.

1 Graduando em Direito pelo Instituto Camillo Filho. Graduando em Filosofia pela Univer- sidade Federal do Piauí. Membro do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA-SP). Estagiário do Ministério Público do Estado do Piauí – Fazenda Pública.

2 Graduada em Bacharelado em Direito pelo Centro Universitário de Brasília (2001). Mes- tre em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2006). Doutora em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2011). Professora adjunta do Instituto Camillo Filho e Assessora jurídica do Tribunal de Contas do Estado do Piauí.

Diante disso, a questão que se coloca é: transcorrido quase três décadas de vigência da Constituição, a tese de uma Constituição dirigente ainda é sustentável? Tomando, portanto, como pano de fundo a matriz teórica legada a partir do dirigismo constitucional, o objetivo do trabalho é apresentar a atualidade do projeto social e compromissório do constitucionalismo latino-a- mericano em épocas de volatilidade econômica e de rediscussão do pacto constitucional diretivo na América Latina, diante do flo- rescimento da Constituição dirigente invertida.

1 O DISCURSO JURÍDICO EMANCIPATÓRIO REVELADO PELO CONSTITUCIONALISMO CON- TEMPORÂNEO.

Em 1909, Lima Barreto, inesquecível literato brasileiro, escreveu o primeiro e um de seus romances mais importantes, in- titulado Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Nele, descreveu de forma primorosa as fissuras da jovem república brasileira, atra- vés da dura trajetória vivida por Isaías Caminha, prodígio rapaz nascido no interior, que viu, no Rio de Janeiro do alvorecer do sé- culo XX, genuínas esperanças de ascender socialmente e realizar seus sonhos 3 . Nesse contexto, pode-se dizer que o constitucionalismo produzido após a Segunda Guerra Mundial, isto é, no interior do qual Eric Hobsbawn denominou de Era dos Extremos 4 , projetou algumas consequências importantes para o debate contemporâ-

3 Cf. CAMATTA, Nelson; PAULA, Rodrigo Francisco de. Lima Barreto: Subcidadania, Negação do Estado de Direito e Constitucionalismo Dirigente no Brasil, Direito, Arte e Literatura. XXI Congresso do CONPEDI, Niterói-RJ, Brasil, 31. Out - 03 Nov., 2012. Ver, também, CORREIA LIMA, Yago Roberto; MAGALHÃES, Virgínia Maria. A necessidade de um dirigismo consti- tucional brasileiro através do retrato socioeconômico vislumbrado na obra Recordações do Escrivão Isaías Caminha. V Colóquio Internacional de Direito e Literatura, Uberaba-MG, Bra- sil, 26-28 out. 2016.

4 Cf. HOBSBAWNS, Eric. A Era dos Extremos. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Com- panhia das Letras, 1995.

neo em torno da cautonomia do discurso jurídico, da garantia dos direitos fundamentais e sociais e do compromisso social assumido pelas constituições democráticas, diante das volatilidades da eco- nomia e da política em épocas de crise. Com efeito, este capítulo pretende realizar um estudo em torno do discurso jurídico (dominante) no constitucionalismo contemporâneo 5 , que, por sua vez, permite defender a existência de três pontos de partida essenciais para a discussão travada en- tre "volatilidade econômica" versus "autonomia do estatuto jurí- dico-constitucional". Assim, tal perspectiva direciona a discussão para: (a) a constatação de uma autonomia jurídica conquistada por intermédio do reconhecimento da normatividade e da supe- rioridade hierárquica da Constituição; (b) a constatação de uma expansão do papel da jurisdição constitucional na concretização dos direitos fundamentais e sociais; (c) a constatação de uma vin- culatividade do compromisso social e interventivo assumido pelo conceito de objetivos fundamentais, frequentemente acoplado ao conteúdo do dirigismo constitucional. Nesse sentido, pode-se dizer que um ponto indiscutivel- mente útil para a defesa da autonomia de um estatuto jurídico mínimo em face das volatilidades econômicas reside no reconhe- cimento da força normativa e da superioridade hierárquica das disposições constitucionais. Isso porque, tal constatação possibi- lita que o debate em torno da autonomia do discurso jurídico seja enfrentado no plano da evolução do constitucionalismo e do Esta- do, que evidenciam a formação de um paradigma jurídico-consti- tucional incompatível com a (mera) sujeição do estatuto jurídico ao estatuto econômico; discussão que, por seu turno, aponta para a própria incompatibilidade existente entre o constitucionalismo contemporâneo e o constitucionalismo liberal 6 . Interpretando o atual o estado de coisas do constitucio-

5 Cf. STRECK, Lenio L. Lições de Crítica Hermenêutica do Direito. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2014.

6 Cf. DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 32 ed. São Paulo: Sa- raiva, 2013, p.199 e Cf. Do Estado Liberal ao Estado Social. 7 ed. São Paulo: Malheiros, 2001.

nalismo contemporâneo, v.g, Pietro Sanchís 7 expõe que o neo- constitucionalismo não constitui uma postura pronta e acabada (isto é, "pacificamente compartilhada entre os publicistas"). As- sim, segundo sua concepção, conquanto não possa ser definido por completo, tal fenômeno pode ser concebido a partir de quatro acepções: (a) de um Estado de Direito; (b) de uma teoria do direito; (c) de uma ideologia de filosofia política; (d) ou de uma filosofia jurídica. Para efeito deste estudo, suficiente o exame do aspecto (a), que trata do Estado de Direito. Segundo Pietro Sanchís 8 , a concepção de um Estado de Di- reito Constitucional, justifica-se pela nova forma de organização política e institucional concebida pelo novo constitucionalismo. Em outras palavras, é que, para Sanchís, o neoconstitucionalis- mo teve o condão de reunir tradições constitucionais "distintas", porquanto albergou tanto o modelo norte-americano (na propor- ção que acolheu o sentido de superioridade constitucional e de constituição como "procedimento") quanto o modelo francês (na proporção que aderiu a uma tradição constitucional destinada a criar um projeto de transformação social e política), com o intuito de perfazer uma solução institucional para os novos problemas do século XX. Como salienta Lenio Streck 9 , o constitucionalismo con- temporâneo constitui, verdadeiramente, a continuação do projeto do État Providence com um adendo especial: o plus normativo. Em resumo, equivale a dizer que "a Constituição não configura, ape- nas a expressão de um ser, mas também de um dever ser" 10 . Por esse motivo, como lembra Guastini 11 , a superioridade hierárquica e a normatividade constitucional produzem consequências rele-

7 SANCHÍS, Pietro. Justicia constitucional y derechos fundamentales. 2 ed. Madrid: Editora Trotta, 2009.

8 Id., Ibid., passim.

9 STRECK, Lenio L. Jurisdição Constitucional e Decisão Jurídica. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014.

10 HESSE, Konrad. A força normativa da Constituição. Trad. Gilmar Ferreira Mendes. Porto Alegre: Segio Antonio Fabris, 1991.

11 GUASTINI, Ricardo. La Constitucionalización del ordenamiento jurídico: el caso italiano. In: CARBONELL, Miguel (org.) Neoconstitucionalismo (s). Madrid: Trotta, 2003.

vantes do novo constitucionalismo; quer dizer, na medida em que há uma aproximação entre "a noção" de constitucionalismo e de teoria das fontes 12 . Para Guastini, tal aproximação se verifica em dois mo- mentos. No primeiro, observa-se com a visão de que a consti- tuição é, realmente, uma "fonte diferenciada", caracterizada pela distinção do procedimento e/ou das exigências criadas para sua própria elaboração (que pode defluir desde uma concepção outor- gada ou promulgada). No segundo, verifica-se com a visão de que a constituição apresenta, também, um procedimento de "reforma agravado", impediente de ab-rogação, derrogação ou modificação por lei de envergadura jurídica positivamente inferior 13 . Por outro lado, Guastini também defende que do pró- prio ponto de vista do sentido das fontes jurídicas, a constituição pode ser vista a partir de três perspectivas. A primeira, relativa à circunstância de ela conter mandamentos normativos disci- plinadores e organizativos das relações entre o Poder Público e os particulares, e entre estes e o Estado (lato sensu). A segunda, consistente na idoneidade de a constituição conter instrumentos para invalidar normas anteriores de nível subconstitucional mate- rialmente incompatíveis com seu texto ou para invalidar normas posteriores de nível subconstitucional (formal e materialmente) em desacordo com seus preceitos 14 . Por fim, Guastini destaca o terceiro sentido de "fontes ju- rídicas", ligado à ideia de que a constituição não submete aos seus rigores apenas a disciplina entre o cidadão e o Estado (perspecti- va vertical do direito público), mas também entre os particulares (perspectiva horizontal). Portanto, para o autor italiano, é possí- vel encarar o particular como sujeito passível de "aplicação" por parte dos juízes constitucionais 15 . Ora, este último ponto destacado por Guastini diz exata- mente respeito à ampliação do papel endereçado à justiça cons-

12

13

14

15

Id., Ibid.

Id., Ibid.

Id., Ibid.

GUASTINI, Ricardo, op.cit.

titucional no Direito pós-Auschwitz 16 . Indubitavelmente, como lembra Luigi Ferrajoli 17 – inclusive quando propõe uma revisão terminológica do neoconstitucionalismo para constitucionalismo jurídico ou Estado Judicial de Direito – o Estado Democrático de Direito – ou, mais amplamente, social e ambiental, como quer Ingo Sarlet 18 – fornece importantíssimos poderes hermenêuticos 19 para os juízes na concretização da Constituição. Isso indica que, respeitado "o esquema organizatório- funcional constitucionalmente estabelecido", como afirma Canotilho 20 , a missão institucional incumbida à justiça constitucional liga-se, frequentemente, à realizabilidade e à efetivação dos direitos fundamentais e dos direitos sociais. Para a maioria dos autores, esse fenômeno se verifica com aumento das atribuições das Cortes Constitucionais, que podem ser mais ou menos sumarizadas do seguinte modo:

1)Tutela dei diritti e delle libertà fondamentali (sponsor et defensor iurum et libertatum; Grundrechtschutz); 2) garanzia della pace interna e dell’unità politica (sponsor et defensor pacis et unitatis; Staatsgerichtsbarkeit – Kompetenzgerischtsbarkeit): in tale veste l’organo di giustizia costituzzionale agisce quale arbitro e mediatore in sede di risoluzione dei conflitti interorganici e dei conflitti intersoggettivi, nonché quale garante del sistema di articolazione delle competenze; 3) tutela della comunità statale

(defensor rei publicae, censor civitatis – Staatsschutz): in tale veste l’organo di giustizia costituzionale giudica, in sede di giurusdizione penale, sulle acuse formulate contro il capo dello stato, ministri

funge da organo di verifica della legittimità costituzionale

ecc (

dei partiti politici; è l’instanza che dichiara la perdita dei diritti fondamentali in caso di abusi da parte del titolare; 4) garanzia della democracia: l’organo di giustizia costituzionale si configura quale custode di un correto procedimento elettorale; 5) verifica

);

16 Cf. LOSANO, Mario G. Sistema e Estrutura no Direito. Volume 2: O Século XX. São Paulo:

Martins Fontes, 2010.

17 FERRAJOLI, Luigi. Constitucionalismo garantista e constitucionalismo principialista. Tra- dução de André Karam Trindade. In: FERRAJOLI, L; STRECK, L.L; TRINDADE, Andre Karam (orgs). Garantismo, hermenêutica e (neo)constitucionalismo: um debate com Luigi Ferrajoli. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012.

18 SARLET, Ingo; MARINONI, Luiz G.; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito Constitucional. Revista dos Tribunais, 2012.

19 Cf. STRECK, Lenio L. O que é isto – decido conforme minha consciência? In: Coleção O Que é Isto? v.1. 4 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013.

20 CANOTILHO, J.J. GOMES. Direito constitucional e teoria da constituição. 3 ed. Coimbra:

Almedina, 1999, p.1224.

in via preventiva della illegitimià costituzionale di progretti di legge ed emanazione di pareri in mérito (funzione consultiva); 6) funzioni di instanza giurisdizion ale di grado supremo; 7) funzione nomofilatica di guardiano della legge, custode della Constituzione, garante dell’ordinamento costituzionale oggettivo e del sistem