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Universidade de Brasília

Instituto de Ciências Exatas


Departamento de Matemática

Recorrências – Problemas e Aplicações

por

Marcus Vinícius Pereira

Brasília
2014
Universidade de Brasília
Instituto de Ciências Exatas
Departamento de Matemática

Recorrências – Problemas e Aplicações


Marcus Vinícius Pereira

Dissertação apresentada ao Programa


de Pós - Graduação Mestrado Profissi-
onal em Matemática em Rede Nacio-
nal (PROFMAT) como requisito par-
cial para a obtenção do grau de Mestre

Orientadora Profa. Dra. Aline Gomes da Silva Pinto


2014
Ao Mestre Jesus.
Agradecimentos

Agradeço primeiramente e acima de tudo ao nosso Pai já que, sem Ele coisa al-
guma sequer existiria.
A meus pais Maria e Hélio que me concederam a graça desta atual existência e
que primeiro me mostraram a importância dos estudos e do conhecimento, à minha irmã
Cláudia pelo amor que sempre me dedicou e a todos os meus familiares que contribuíram
para que eu me tornasse a pessoa que sou hoje.
Agradeço à minha esposa Niulza pelo apoio nos momentos mais difíceis e à minha
filha Julia que já me ensinava muito sobre a Vida mesmo antes de se tornar a fantástica
bióloga que é hoje.
Aos amigos desta e da outra vida que, não obstante minhas tantas imperfeições,
optaram por apoiar-me em meus projetos e em particular neste último.
Aos meus colegas de mestrado pelos momentos que passamos juntos e que já dei-
xam saudades.
Aos nossos professores, a todo o Departamento de Matemática e aos demais ser-
vidores da UnB que, de uma forma ou de outra, foram fundamentais neste percurso. Foi
fantástico “viver” na Universidade de Brasília nestes últimos dois anos e meio.
À minha orientadora, Prof.ª Dr.ª Aline Gomes da Silva Pinto, pelo fundamental
apoio na consecução deste trabalho.
À dedicação de todos os matemáticos, famosos ou anônimos, que nos legaram os
conhecimentos que tanto amamos e tanto nos esforçamos por honrar.
Agradeço ainda à CAPES pelo apoio financeiro concedido.
Por fim devo acrescentar que agradecer não é tarefa simples. Não pelo ato em si,
mas por devermos tanto a tantos. Assim, peço desculpas por não poder citar todos nomi-
nalmente e reafirmo que minha gratidão há de alcançá-los onde quer que estejam.
A Matemática é o alfabeto com que
Deus escreveu o Universo.
Galileu Galilei

Uma única frustração persiste em mim


com relação à Matemática: a de não co-
nhecê-la tanto quanto a amo.
Marcus Vinícius Pereira
Resumo

O objetivo deste texto é realizar um estudo sobre sequências numéricas mostrando


exemplos de sequências não comumente estudadas no ensino médio inclusive as decor-
rentes da solução de determinados problemas. Abordamos também as relações de recor-
rência, apresentando alguns resultados sobre a resolução de tais recorrências e sugerindo
atividades de investigação matemática em sala de aula.

Palavras-chave: Equação de Pell, Fibonacci, números de Lucas, números figurados, re-


lações de recorrência, sequências numéricas.
Abstract

The aim of this paper is to conduct a study on numerical sequences showing ex-
amples of sequences unusually studied in high school including those resulting from the
solution of certain problems. We also analyze the recurrence relations, present some re-
sults about solving such recurrences and suggest mathematical research activities in the
classroom.

Keywords: Fibonacci, figurate numbers, Lucas numbers, numerical sequences, Pell’s


equation, recurrence relations.
Sumário
Introdução.................................................................................................................................... 1
1. Recorrências Lineares de primeira ordem ........................................................................... 2
1.1 Sequências .......................................................................................................................... 2
1.2 Recorrências ...................................................................................................................... 2
1.3 Resolução de recorrências lineares homogêneas ............................................................ 3
1.4 Resolução de recorrências lineares não-homogêneas..................................................... 5
1.5 Reduzindo uma recorrência não-homogênea ao caso 𝒂𝒏 + 𝟏 = 𝒂𝒏 + 𝒇𝒏 .................. 7
2. Recorrências lineares de segunda ordem ............................................................................ 13
2.1 Definições ......................................................................................................................... 14
2.2 A equação característica ................................................................................................. 14
2.3 Resolução de recorrências de segunda ordem .............................................................. 15
2.4 Resolução de recorrências de segunda ordem cuja equação característica tem raízes
iguais ....................................................................................................................................... 17
2.5 Resolução de recorrências de segunda ordem não-homogêneas ................................. 20
2.6 A sequência de Fibonacci ................................................................................................ 21
2.7 A fórmula de Binet .......................................................................................................... 26
2.8 Os números de Lucas ...................................................................................................... 27
2.9 A Equação de Pell............................................................................................................ 29
2.10 Aproximação de radicais por frações .......................................................................... 32
3. Recorrências Lineares de ordem qualquer ......................................................................... 34
3.1 Definições ......................................................................................................................... 34
3.2 Resolução de recorrências de ordem qualquer ............................................................. 35
3.3 Progressões Aritméticas de ordem qualquer ................................................................ 36
3.4 Números poligonais ......................................................................................................... 38
3.5 Números piramidais ........................................................................................................ 40
3.6 Números figurados de dimensão qualquer ................................................................... 41
4. Problemas e Aplicações ......................................................................................................... 44
4.1 Problemas......................................................................................................................... 44
4.2 Sugestões de atividades ................................................................................................... 54
Conclusão ................................................................................................................................... 60
Referências Bibliográficas ........................................................................................................ 61
Introdução
Em que pese a relevância e a abrangência do tema, as sequências têm sido estuda-
das no ensino básico de maneira muito limitada.
Fala-se pouco ou quase nada além das progressões aritmética e geométrica sendo
que, outros tipos de sequência aparecem, quando muito, de maneira discreta e normal-
mente apenas como exemplos.
Acreditamos na importância de trabalhar com nossos alunos uma visão mais am-
pla do assunto abordando, tanto quanto possível, sequências as mais diversas, bem como
aplicações e problemas que fujam da obviedade de apenas calcular determinado termo ou
a soma dos termos de uma P.A. ou de uma P.G.
No primeiro capítulo definimos e classificamos as relações de recorrência tratando
especificamente das recorrências de primeira ordem.
No segundo capítulo estudamos as recorrências de segunda ordem e várias de suas
aplicações como as sequências de Fibonacci e de Lucas além da Equação de Pell.
Ampliamos no capítulo 3 nosso estudo de recorrências de modo a abranger as
recorrências de ordem qualquer analisando sob esse prisma as progressões aritméticas de
ordem superior, os números figurados em suas várias dimensões além de suas relações
com o Triângulo de Pascal.
No capítulo 4 procuramos enfocar algumas atividades e problemas envolvendo os
assuntos discutidos nos capítulos anteriores.
Nas palavras de David Wells em [13]: ” Centenas de sequências têm sido literal-
mente estudadas na procura da solução de problemas matemáticos ou pelo seu próprio
interesse. ” Claro está que esgotar o assunto é tarefa impraticável. Não obstante entende-
mos ser fundamental ampliar os horizontes sobre o mesmo e é este o nosso principal
objetivo.

1
1. Recorrências Lineares de primeira ordem
1.1 Sequências

Definição 1.1.1. Uma sequência de números reais é uma função 𝑎: ℕ → ℝ , que para cada
𝑛 ∈ ℕ associa um número 𝑎𝑛 pertencente aos reais chamado n-ésimo termo.
É denominada finita, a sequência que possui um número limitado de termos. Do
contrário a sequência é chamada infinita.
Usualmente representamos estes casos respectivamente como (𝑎1 , 𝑎2 , 𝑎3 , … , 𝑎𝑛 )
e (𝑎1 , 𝑎2 , 𝑎3 , … , 𝑎𝑛 , … ).
Nem sempre uma dada sequência apresenta uma regra ou lei de formação definida
ou conhecida. Nos casos em que tal regra é definida, ela pode ser apresentada principal-
mente das seguintes maneiras:
 Por meio de uma propriedade exclusiva dos termos da sequência. Exem-
plo: a sequência dos números primos, (𝑎𝑛 ) = (2, 3, 5, 7, 11, … ) .
 Por meio de uma expressão matemática que associa a cada 𝑛 um determi-
nado valor de 𝑎𝑛 . Exemplo: 𝑎𝑛 = 2𝑛 − 3, (𝑎𝑛 ) = (−1, 1, 3, 5, 7, … ) .
 Por meio de uma relação de recorrência que, a partir de um certo termo,
determina cada termo seguinte em função dos anteriores. Exemplo: a se-
quência em que o primeiro termo é 𝑎1 = 3 e cada termo a partir do se-
gundo é dado por 𝑎𝑛 = 2𝑎𝑛−1 + 1, (𝑎𝑛 ) = (3, 7, 15, 31, 63, … ) .

1.2 Recorrências

Definição 1.2.1. Uma relação de recorrência ou, como também é chamada, uma equação
de recorrência, é uma relação que determina cada termo de uma dada sequência, a partir
de certo termo, em função dos termos anteriores
Uma equação de recorrência na qual cada termo depende exclusivamente dos an-
teriores é dita homogênea. Se, além dos termos anteriores, cada elemento da sequência
está também em função de um termo independente da sequência, a recorrência é dita não-
homogênea.
Observe ainda que, para que uma sequência seja completamente definida por uma
relação de recorrência, é necessário que sejam informados também os primeiros termos a
partir dos quais os demais serão obtidos. Note que, na recorrência 𝑎𝑛 = 2𝑎𝑛−1 + 1, citada
na Seção 1.1, se o primeiro termo mudar para, digamos, 𝑎1 = 2, a sequência torna-se
(𝑎𝑛 ) = (2, 5, 11, 23, 47, … ).

Definição 1.2.2. Uma relação de recorrência é dita linear quando a função que relaciona
cada termo aos termos anteriores é linear. Além disso, é dita de primeira ordem quando
cada termo da sequência é obtido a partir do termo imediatamente anterior a ele, ou seja,
quando 𝑎𝑛 está em função de 𝑎𝑛−1 .

2
Definição 1.2.3. Resolver uma relação ou equação de recorrência, significa encontrar
uma fórmula fechada para a recorrência, ou seja, uma expressão que forneça cada termo
𝑎𝑛 da sequência em função apenas de 𝑛 e não dos termos anteriores. Tal expressão é
chamada solução da recorrência.

1.3 Resolução de recorrências lineares homogêneas

Uma recorrência linear homogênea de primeira ordem é do tipo:

𝑎𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑎𝑛

Onde 𝑔(𝑛) e 𝑎𝑛 são não-nulos.


Podemos então escrever:
𝑎2 = 𝑔(1)𝑎1
𝑎3 = 𝑔(2)𝑎2
𝑎4 = 𝑔(3)𝑎3

𝑎𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑎𝑛
Substituindo cada termo na expressão seguinte, obtemos:

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 ∙ 𝑔(1) ∙ 𝑔(2) ∙ 𝑔(3) ∙ … ∙ 𝑔(𝑛),


ou seja,
𝑛

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 ∏ 𝑔(𝑗) . (1.1)


𝑗=1

Exemplo 1.3.1. Resolver a recorrência 𝑎𝑛+1 = 𝑐 ∙ 𝑎𝑛 , sendo 𝑐 constante.

Neste caso, 𝑔(𝑛) = 𝑐 , ∀ 𝑛 ∈ ℕ.


Assim, temos:

3
𝑛

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 ∏ 𝑐
𝑗=1

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 𝑐 𝑛 ,
ou seja,
𝑎𝑛 = 𝑎1 𝑐 𝑛−1

Esta recorrência generaliza as chamadas progressões geométricas.


Definição 1.3.1. Denominamos progressão geométrica, toda sequência (𝑎𝑛 ) de termos
𝑎
não nulos, tal que o quociente 𝑎𝑛+1 é constante, ∀ 𝑛 ∊ ℕ.
𝑛

𝑎𝑛+1
O quociente é chamado de razão e usualmente representada por 𝑞 de modo
𝑎𝑛
que uma vez definido o primeiro termo, todos os outros a partir do segundo são obtidos
multiplicando-se a razão ao termo anterior, ou seja:
𝑎2 = 𝑎1 ∙ 𝑞
𝑎3 = 𝑎2 ∙ 𝑞 = 𝑎1 ∙ 𝑞 2
𝑎4 = 𝑎3 ∙ 𝑞 = 𝑎1 ∙ 𝑞 3

𝑎𝑛 = 𝑎1 ∙ 𝑞 𝑛−1 (1.2)
que é a expressão do termo geral da progressão geométrica.
Note que, se tomarmos 𝑞 = 𝑐 , a expressão (1.2) torna-se idêntica ao resultado
obtido no Exemplo 1.3.1.
Exemplo 1.3.2. Resolver a recorrência 𝑎𝑛+1 = 𝑛 ∙ 𝑎𝑛 .

Neste caso, 𝑔(𝑛) = 𝑛, ∀ 𝑛 ∊ ℕ.


Assim, temos:
𝑛

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 ∏ 𝑗
𝑗=1

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 ∙ 1 ∙ 2 ∙ … ∙ 𝑛
𝑎𝑛+1 = 𝑎1 ∙ 𝑛!
Ou seja,
𝑎𝑛 = 𝑎1 (𝑛 − 1)!

4
Note que, se tomarmos 𝑎1 = 1, (𝑎𝑛 ) representará a sequência do fatorial de 𝑛.
Outras sequências envolvendo fatorial podem ser descritas por meio de recorrên-
cias deste tipo.
Exemplo 1.3.3. Determine o produto dos 𝑛 primeiros números pares positivos.
Determinar este produto equivale a resolver a recorrência 𝑎𝑛 = 2𝑛 ∙ 𝑎𝑛−1 . Com
𝑎1 = 2.
Neste caso, 𝑔(𝑛) = 2𝑛 ∀ 𝑛 ∊ ℕ.
Assim, temos:
𝑛

𝑎𝑛 = 2 ∙ ∏ 2𝑗
𝑗=2

𝑎𝑛 = 2 ∙ (2 ∙ 2) ∙ (2 ∙ 3) ∙ … ∙ 2𝑛
𝑎𝑛 = 2𝑛 ∙ 𝑛!

1.4 Resolução de recorrências lineares não-homogêneas

Uma recorrência linear não-homogênea de primeira ordem é do tipo:

𝑎𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑎𝑛 + 𝑓(𝑛)

onde 𝑔(𝑛) 𝑒 𝑓(𝑛) são funções não-nulas.

Analisemos primeiramente o caso particular: 𝑔(𝑛) = 1

Neste caso, a equação assume a forma:


𝑎𝑛+1 = 𝑎𝑛 + 𝑓(𝑛)
Podemos então escrever:
𝑎2 = 𝑎1 + 𝑓(1)
𝑎3 = 𝑎2 + 𝑓(2)

𝑎𝑛+1 = 𝑎𝑛 + 𝑓(𝑛)

5
Somando as igualdades e cancelando os termos semelhantes, obtemos:
𝑎𝑛+1 = 𝑎1 + 𝑓(1) + 𝑓(2) + ⋯ + 𝑓(𝑛)
Ou seja,
𝑛

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 + ∑ 𝑓(𝑗) (1.3)


𝑗=1

Exemplo 1.4.1. Resolver a recorrência 𝑎𝑛+1 = 𝑎𝑛 + 𝑐 .

Neste caso, 𝑓(𝑛) = 𝑐 ∀ 𝑛 ∈ ℕ.


Assim, temos:
𝑛

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 + ∑ 𝑐
𝑗=1

𝑎𝑛+1 = 𝑎1 + 𝑛𝑐
Ou seja,
𝑎𝑛 = 𝑎1 + (𝑛 − 1)𝑐

Esta recorrência generaliza as chamadas progressões aritméticas. Para defini-las


vamos, inicialmente, estabelecer o conceito de operador diferença.
Definição 1.4.1. Para uma dada sequência define-se o operador ∆, chamado operador
diferença e representado por ∆𝑎𝑛 = 𝑎𝑛+1 − 𝑎𝑛
Partindo das diferenças entre os termos de uma dada sequência, podemos ampliar
o conceito de operador diferença, denotando por ∆² 𝑎𝑛 = ∆𝑎𝑛+1 − ∆𝑎𝑛 , o operador di-
ferença de segunda ordem.
De modo semelhante podemos generalizar o conceito definindo o operador dife-
rença de ordem k representado por ∆𝑘 𝑎𝑛 = ∆𝑘−1 𝑎𝑛+1 − ∆𝑘−1 𝑎𝑛 .
Definição 1.4.2. Denominamos progressão aritmética, toda sequência (𝑎𝑛 ), tal que a di-
ferença ∆𝑎𝑛 = 𝑎𝑛+1 − 𝑎𝑛 é constante ∀ 𝑛 ∊ ℕ.
Neste caso, a diferença ∆𝑎𝑛 é chamada de razão e usualmente representada por 𝑟
de modo que uma vez definido o primeiro termo, todos os outros a partir do segundo são
obtidos acrescentando-se a razão ao termo anterior, isto é:
𝑎2 = 𝑎1 + 𝑟
𝑎3 = 𝑎2 + 𝑟 = 𝑎1 + 2𝑟

6
𝑎4 = 𝑎3 + 𝑟 = 𝑎1 + 3𝑟

Ou seja:
𝑎𝑛 = 𝑎1 + (𝑛 − 1)𝑟 (1.4)
que é a expressão do termo geral da progressão aritmética.
Note que, se tomarmos 𝑟 = 𝑐 , a expressão (1.4) torna-se idêntica ao resultado
obtido no Exemplo 1.4.1.

1.5 Reduzindo uma recorrência não-homogênea ao caso 𝒂𝒏+𝟏 = 𝒂𝒏 + 𝒇(𝒏)

O teorema seguinte nos mostra um modo de reduzir a recorrência que se quer


resolver ao caso mais simples já estudado.

Teorema 1.5.1. Se 𝑥𝑛 é solução não nula da recorrência 𝑎𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑎𝑛 , então a subs-
tituição 𝑎𝑛 = 𝑥𝑛 𝑦𝑛 , transforma a recorrência 𝑎𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑎𝑛 + ℎ(𝑛) em
ℎ(𝑛)
𝑦𝑛+1 = 𝑦𝑛 +
𝑔(𝑛)𝑥𝑛
Demonstração:
Tomando 𝑎𝑛 = 𝑥𝑛 𝑦𝑛 podemos escrever a equação 𝑎𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑎𝑛 + ℎ(𝑛) como:

𝑥𝑛+1 𝑦𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑥𝑛 𝑦𝑛 + ℎ(𝑛) (1.5)

Mas, 𝑥𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑥𝑛 pois 𝑥𝑛 é solução de 𝑎𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑎𝑛 , o que transforma a


equação (1.5) em
𝑔(𝑛)𝑥𝑛 𝑦𝑛+1 = 𝑔(𝑛)𝑥𝑛 𝑦𝑛 + ℎ(𝑛)
Ou seja,
ℎ(𝑛)
𝑦𝑛+1 = 𝑦𝑛 +
𝑔(𝑛)𝑥𝑛

Exemplo 1.5.1 Resolver a recorrência 𝑎𝑛+1 = 𝑐1 𝑎𝑛 + 𝑐2, com 𝑐1,𝑐2 constantes e 𝑐1 ≠ 0


.

7
Uma solução da recorrência 𝑎𝑛+1 = 𝑐1 𝑎𝑛 é 𝑥𝑛 = 𝑐1𝑛−1 conforme vimos no Exem-
plo 1.3.1.
Tomando 𝑎𝑛 = 𝑐1𝑛−1 𝑦𝑛 obtemos:
𝑐1𝑛 𝑦𝑛+1 = 𝑐1 𝑐1𝑛−1 𝑦𝑛 + 𝑐2
Ou seja,
𝑐2
𝑦𝑛+1 = 𝑦𝑛 +
𝑐1𝑛
Resolvendo esta equação simplificada, encontramos:
𝑛
𝑐2
𝑦𝑛+1 = 𝑦1 + ∑ 𝑗
𝑐
𝑗=1 1

Desfazendo a mudança de variável por meio da igualdade 𝑎𝑛 = 𝑐1𝑛−1 𝑦𝑛 , obtemos


o resultado:
𝑛
𝑎𝑛+1 1 𝑗
= 𝑎1 + 𝑐2 ∑ ( )
𝑐1𝑛 𝑐1
𝑗=1

Ou seja,
𝑛
1 𝑗
𝑎𝑛+1 = 𝑐1𝑛 (𝑎1 + 𝑐2 ∑ ( ) ) (1.6)
𝑐1
𝑗=1

Note que, para resolvermos completamente a recorrência, precisamos desenvolver


1 𝑗
o somatório de (𝑐 ) em que as parcelas a serem somadas são os termos de uma progres-
1
1
são geométrica cujo primeiro termo e a razão são ambos iguais a .
𝑐1
O somatório exigido é portanto, a soma dos 𝑛 primeiros termos da progressão
geométrica, cuja expressão obteremos em seguida.

Proposição 1.5.1. A soma dos 𝑛 primeiros termos de uma progressão geométrica (𝑎𝑛 )
𝑞 𝑛 −1
de razão 𝑞 ≠ 1 , é 𝑆𝑛 = 𝑎1 .
𝑞−1

Demonstração:
𝑆𝑛 = 𝑎1 + 𝑎2 + 𝑎3 + ⋯ + 𝑎𝑛−1 + 𝑎𝑛
Multiplicando a igualdade pela razão 𝑞, obtemos:
𝑞𝑆𝑛 = 𝑎2 + 𝑎3 + 𝑎4 + ⋯ + 𝑎𝑛 + 𝑎𝑛+1
Subtraindo as igualdades encontramos:
𝑞𝑆𝑛 − 𝑆𝑛 = 𝑎𝑛+1 − 𝑎𝑛

8
𝑆𝑛 (𝑞 − 1) = 𝑎𝑛+1 − 𝑎1
Entretanto, de acordo com a expressão (1.2), 𝑎𝑛+1 = 𝑎1 𝑞 𝑛 .
Ou seja,
𝑞𝑛 − 1
𝑆𝑛 = 𝑎1
𝑞−1
Podemos agora concluir a solução do Exemplo 1.5.1.
O somatório
𝑛
1 𝑗 1 1 2 1 𝑛
∑( ) = + ( ) + … + ( )
𝑐1 𝑐1 𝑐1 𝑐1
𝑗=1

Equivale a:
1 𝑛
1 (𝑐 ) − 1
𝑆𝑛 = ∙ 1
𝑐1 1 − 1
𝑐1
1 1 𝑐1
𝑆𝑛 = ∙ ( 𝑛 − 1) ∙
𝑐1 𝑐1 1 − 𝑐1
𝑛
𝑐1𝑛 − 1 1 𝑗
𝑆𝑛 = = ∑ ( ) (1.7)
(𝑐1 − 1) 𝑐1𝑛 𝑐1
𝑗=1

Substituindo o resultado (1.7) na expressão (1.6), obtemos:

𝑐1𝑛 − 1
𝑎𝑛+1 = 𝑐1𝑛 (𝑎1 + 𝑐2 ∙ )
(𝑐1 − 1) 𝑐1𝑛
𝑐1𝑛 − 1
𝑎𝑛+1 = 𝑎1 𝑐1𝑛 + 𝑐2 ∙
(𝑐1 − 1)
[𝑎1 (𝑐1 − 1) + 𝑐2 ]𝑐1𝑛 − 𝑐2
𝑎𝑛+1 =
𝑐1 − 1

Nem sempre, ao resolvermos a recorrência em sua forma mais simples, encontra-
mos um somatório já previamente conhecido como no Exemplo 1.5.1 no qual fizemos
uso da soma dos 𝑛 primeiros termos da progressão geométrica.
A seguinte proposição será útil na solução da próxima recorrência.
Proposição 1.5.2. Sejam (𝑎𝑛 ) uma progressão aritmética de razão 𝑟 e (𝑏𝑛 ) uma pro-
gressão geométrica de razão 𝑞 ≠ 1. Além disso considere 𝑆′𝑛 = 1 + 𝑞 + 𝑞 2 + ⋯ +
𝑞 𝑛−1 .

9
A soma dos 𝑛 primeiros termos da sequência (𝑎1 𝑏1 , 𝑎2 𝑏2 , 𝑎3 𝑏3 , … , 𝑎𝑛 𝑏𝑛 , … ) em
que cada termo de uma das progressões é multiplicado ordenadamente pelos termos da
outra é dado por
𝑛
𝑏1
∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = {[(𝑞 − 1)(𝑎1 + 𝑛𝑟) − 𝑟𝑞]𝑆′𝑛 + 𝑟𝑛} (1.8)
𝑞−1
𝑗=1

Demonstração:
Vamos proceder por indução sobre 𝑛.
Para 𝑛 = 1, temos:
𝑏1
𝑎1 𝑏1 = {[(𝑞 − 1)(𝑎1 + 𝑟) − 𝑟𝑞] ∙ 1 + 𝑟}
𝑞−1
𝑏1
𝑎1 𝑏1 = (𝑞𝑎1 + 𝑞𝑟 − 𝑎1 − 𝑟 − 𝑟𝑞 + 𝑟)
𝑞−1
𝑏1
𝑎1 𝑏1 = 𝑎 (𝑞 − 1)
𝑞−1 1
Como 𝑞 ≠ 1, podemos cancelar os fatores 𝑞 − 1 o que prova a validade da afir-
mação.
Agora, supondo por hipótese de indução que a expressão seja verdadeira para um
certo 𝑛 , vamos provar que ela é verdadeira para 𝑛 + 1.
𝑛+1 𝑛

∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = ∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 + 𝑎𝑛+1 𝑏𝑛+1
𝑗=1 𝑗=1

𝑛+1
𝑏1
∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = {[(𝑞 − 1)(𝑎1 + 𝑛𝑟) − 𝑟𝑞]𝑆′𝑛 + 𝑟𝑛} + (𝑎1 + 𝑛𝑟 )𝑏1 𝑞 𝑛
𝑞−1
𝑗=1

𝑛+1
𝑏1
∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = {[(𝑞 − 1)(𝑎1 + 𝑛𝑟) − 𝑟𝑞]𝑆′𝑛 + 𝑟𝑛 + (𝑞 − 1)(𝑎1 + 𝑛𝑟 )𝑞 𝑛 }
𝑞−1
𝑗=1

𝑛+1
𝑏1
∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = {(𝑞 − 1)(𝑎1 + 𝑛𝑟)( 𝑆′𝑛 + 𝑞 𝑛 ) − 𝑟𝑞 𝑆′𝑛 + 𝑟𝑛}
𝑞−1
𝑗=1

Fazendo as substituições 𝑆′𝑛 + 𝑞 𝑛 = 𝑆′𝑛+1 e 𝑞 𝑆′𝑛 = 𝑆′𝑛+1 − 1 , obtemos:


𝑛+1
𝑏1
∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = {(𝑞 − 1)(𝑎1 + 𝑛𝑟) 𝑆′𝑛+1 − 𝑟 𝑆′𝑛+1 + 𝑟 + 𝑟𝑛}
𝑞−1
𝑗=1

𝑛+1
𝑏1
∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = {[( 𝑞 − 1)(𝑎1 + (𝑛 + 1)𝑟 − 𝑟) − 𝑟] 𝑆′𝑛+1 + 𝑟(𝑛 + 1)}
𝑞−1
𝑗=1

10
𝑛+1
𝑏1
∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = {[(𝑞 − 1)(𝑎1 + (𝑛 + 1)𝑟) − 𝑟𝑞 + 𝑟 − 𝑟] 𝑆′𝑛+1 + 𝑟(𝑛 + 1)}
𝑞−1
𝑗=1

Ou seja,
𝑛+1
𝑏1
∑ 𝑎𝑗 𝑏𝑗 = {[(𝑞 − 1)(𝑎1 + (𝑛 + 1)𝑟) − 𝑟𝑞] 𝑆′𝑛+1 + 𝑟(𝑛 + 1)}
𝑞−1
𝑗=1


No próximo exemplo, detalhamos a solução de um interessante problema encon-
trado em [8], fazendo uso dos conceitos descritos nesta seção.
Exemplo 1.5.2. “O Ministro Apressado”

Um rei decidiu distribuir pelos seus ministros, uma grande quantia em moedas de
ouro.
Esse rei tinha uma estranha ideia de justiça e por isso resolveu distribuir as moedas
do seguinte modo:
- para o primeiro ministro, 5 moedas;
- para o segundo, o dobro das moedas do primeiro menos 2 moedas;
- para o terceiro, o dobro das moedas do segundo menos 3 moedas; e assim suces-
sivamente, de tal modo que cada ministro receberia o dobro do anterior menos o número
de moedas igual ao seu número de ordem.
O décimo ministro, avido de receber a sua parte, quer saber quantas moedas rece-
berá. Será possível saber este valor sem calcular primeiro todos os valores anteriores?
Quantas moedas receberá este ministro?

Escrevendo alguns termos a partir do segundo, encontramos:


𝑎2 = 2𝑎1 + 2
𝑎3 = 2𝑎2 + 3
𝑎4 = 2𝑎3 + 4
O que nos mostra que o problema pode ser representado pela seguinte relação de
recorrência:
𝑎𝑛+1 = 2𝑎𝑛 − (𝑛 + 1)
com 𝑎1 = 5.

Neste caso 𝑔(𝑛) = 2 e 𝑓(𝑛) = −(𝑛 + 1), ∀ 𝑛 ∊ ℕ.

Inicialmente, vamos resolver a recorrência sem atribuirmos o valor de 𝑎1 .

Uma solução da recorrência 𝑎𝑛+1 = 2𝑎𝑛 é 𝑥𝑛 = 2𝑛−1 .

Tomando 𝑎𝑛 = 𝑥𝑛 𝑦𝑛 , reescrevemos a recorrência como:

𝑥𝑛+1 𝑦𝑛+1 = 2𝑥𝑛 𝑦𝑛 − (𝑛 + 1)

11
Mas, 𝑥𝑛+1 = 2𝑥𝑛 pois 𝑥𝑛 é solução de 𝑎𝑛+1 = 2𝑎𝑛 , o que transforma a recorrên-
cia em:

𝑛+1
𝑦𝑛+1 = 𝑦𝑛 −
2 ∙ 2𝑛−1
𝑛+1
𝑦𝑛+1 = 𝑦𝑛 −
2𝑛

De acordo com a expressão (1.3) podemos escrever:


𝑛
𝑗+1
𝑦𝑛+1 = 𝑦1 − ∑
2𝑗
𝑗=1

Desfazendo a mudança de variável por meio da igualdade 𝑎𝑛 = 2𝑛−1 𝑦𝑛 , obtemos


o resultado:
𝑛
𝑎𝑛+1 𝑗+1
𝑛
= 𝑎1 − ∑ 𝑗
2 2
𝑗=1
𝑛
𝑛 𝑛
𝑗+1
𝑎𝑛+1 = 2 𝑎1 − 2 ∑ (1.9)
2𝑗
𝑗=1

Note que, para resolvermos completamente a recorrência, precisamos desenvolver


o somatório

𝑛
𝑗+1 1 1 2 1 3 1 𝑛−1 1 𝑛
∑ 𝑗 = 2 ∙ +3 ∙( ) +4 ∙( ) +⋯+𝑛 ∙( ) + (𝑛 + 1) ∙ ( )
2 2 2 2 2 2
𝑗=1

no qual as parcelas a serem somadas são os produtos ordenados dos termos de uma pro-
gressão aritmética de primeiro termo 𝑎1 = 2 e razão 𝑟 = 1 pelos termos de uma progres-
1
são geométrica cujo primeiro termo 𝑏1 e a razão 𝑞 são ambos iguais a 2 .
Substituindo estes valores na expressão (1.8) obtemos:

𝑛
1 𝑗 1⁄2 1 1
∑(𝑗 + 1) ∙ ( ) = {[( − 1) (2 + 𝑛) − ] 𝑆′𝑛 + 𝑛}
2 1⁄2 − 1 2 2
𝑗=1
𝑛
1 𝑗 𝑛+3 ′
∑(𝑗 + 1) ∙ ( ) = ( )𝑆 𝑛 − 𝑛
2 2
𝑗=1

1 2𝑛 −1
Mas, de acordo com a Proposição 1.5.2, sendo 𝑞 = 2 , 𝑆′𝑛 = .
2𝑛−1

Portanto,

12
𝑛
1 𝑗 𝑛 + 3 2𝑛 − 1
∑(𝑗 + 1) ∙ ( ) = ( ) ( 𝑛−1 ) − 𝑛
2 2 2
𝑗=1
𝑛
1 𝑗 𝑛 ∙ 2𝑛 − 𝑛 + 3 ∙ 2𝑛 − 3 − 𝑛 ∙ 2𝑛
∑(𝑗 + 1) ∙ ( ) =
2 2𝑛
𝑗=1
𝑛
1 𝑗 3 ∙ 2𝑛 − 3 − 𝑛
∑(𝑗 + 1) ∙ ( ) = (1.10)
2 2𝑛
𝑗=1

Podemos agora completar a solução da recorrência do exemplo 1.5.2 substituindo


a expressão (1.10) em (1.9).
3 ∙ 2𝑛 − 3 − 𝑛
𝑎𝑛+1 = 2𝑛 𝑎1 − 2𝑛
2𝑛
𝑎𝑛+1 = 2𝑛 𝑎1 − 3 ∙ 2𝑛 + 3 + 𝑛
𝑎𝑛+1 = 2𝑛 (𝑎1 − 3) + 3 + 𝑛
Que é a solução procurada.
Como o primeiro ministro recebeu 5 moedas, 𝑎1 = 5 e a solução torna-se:
𝑎𝑛+1 = 2𝑛+1 + 3 + 𝑛
Consequentemente, o décimo ministro receberá:
𝑎10 = 210 + 3 + 9 = 1036 moedas de ouro.
É interessante notar o quanto o resultado de um problema como este pode ser
diferente se alterarmos por exemplo o valor de 𝑎1 .
Voltando à solução obtida ainda sem o valor do primeiro termo, observamos ini-
cialmente que se o primeiro ministro houvesse recebido 3 moedas, a solução da recorrên-
cia se resumiria a:
𝑎𝑛+1 = 𝑛 + 3
E o décimo ministro poderia facilmente calcular seu prêmio.
Por outro lado, se o primeiro termo da sequência fosse menor que 3, a parcela
relativa à potência de 2 na solução, seria negativa.
Assim, se o rei começasse a premiação distribuindo duas moedas ao primeiro mi-
nistro, teríamos 𝑎1 = 𝑎2 = 2 , 𝑎3 = 1 e todos os demais termos seriam negativos. E se
começasse com uma moeda, 𝑎1 = 1, 𝑎2 = 0 e todos os demais termos seriam negativos.
Portanto, somente quando 𝑎1 ≥ 3 a sequência de premiação é estritamente cres-
cente.

2. Recorrências lineares de segunda ordem

13
2.1 Definições

Definição 2.1.1 Uma relação de recorrência linear é dita de segunda ordem quando cada
termo da sequência é obtido a partir dos dois termos imediatamente anteriores a ele, ou
seja, quando 𝑎𝑛 está em função de 𝑎𝑛−1 e 𝑎𝑛−2 .
Uma recorrência linear de segunda ordem é do tipo:
𝑎𝑛 = ℎ(𝑛)𝑎𝑛−1 + 𝑔(𝑛)𝑎𝑛−2 + 𝑓(𝑛),
onde 𝑔(𝑛) é uma função não nula, caso contrário a recorrência será de primeira ordem.
Além disso, se 𝑓(𝑛) = 0 a recorrência é dita homogênea, caso contrário será não-homo-
gênea.

2.2 A equação característica

Quando ℎ(𝑛) e 𝑔(𝑛) são constantes e 𝑓(𝑛) = 0 , a relação de recorrência assume


a forma
𝑎𝑛 = 𝑝𝑎𝑛−1 + 𝑞𝑎𝑛−2
Ou ainda,
𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0
A cada relação de recorrência da forma acima podemos associar uma equação do
segundo grau 𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞 = 0, chamada equação característica. O teorema seguinte re-
laciona as raízes da equação característica com a solução da recorrência.

Teorema 2.2.1. Se 𝑡1 e 𝑡2 são raízes da equação 𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞 = 0, então 𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡1𝑛 +


𝑐2 𝑡2𝑛 é solução da recorrência 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0 para quaisquer valores de 𝑐1 e
𝑐2 .
Demonstração:
Substituindo 𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡1𝑛 + 𝑐2 𝑡2𝑛 em 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 e agrupando os termos,
obtemos:
𝑐1 𝑡1𝑛 + 𝑐2 𝑡2𝑛 − 𝑝(𝑐1 𝑡1𝑛−1 + 𝑐2 𝑡2𝑛−1 ) − 𝑞(𝑐1 𝑡1𝑛−2 + 𝑐2 𝑡2𝑛−2 ) =
𝑐1 (𝑡1𝑛 − 𝑝𝑡1𝑛−1 − 𝑞𝑡1𝑛−2 ) + 𝑐2 (𝑡2𝑛 − 𝑝 𝑡2𝑛−1 − 𝑞𝑡2𝑛−2 ) =
𝑐1 𝑡1𝑛−2 (𝑡12 − 𝑝𝑡1 − 𝑞) + 𝑐2 𝑡2𝑛−2 (𝑡22 − 𝑝𝑡2 − 𝑞) =
𝑐1 𝑡1𝑛−2 ∙ 0 + 𝑐2 𝑡2𝑛−2 ∙ 0 = 0
Então 𝑥𝑛 é solução.

14
2.3 Resolução de recorrências de segunda ordem

Teorema 2.3.1. Se 𝑡1 e 𝑡2 com 𝑡1 ≠ 𝑡2 e 𝑡1 , 𝑡2 ≠ 0, são raízes da equação característica


𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞 = 0, então todas as soluções da recorrência 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0 são
da forma 𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡1𝑛 + 𝑐2 𝑡2𝑛 com 𝑐1 e 𝑐2 constantes.
Demonstração:
Seja 𝑢𝑛 uma solução qualquer de 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0.
Vamos primeiro tentar escrever 𝑢1 e 𝑢2 na forma desejada. Ou seja, vamos tentar
determinar 𝑐1 e 𝑐2 tais que 𝑢𝑛 seja da forma 𝑐1 𝑡1𝑛 + 𝑐2 𝑡2𝑛 .
Escrevendo igualdades para 𝑢1 e 𝑢2 , podemos formar um sistema de equações do
qual as constantes 𝑐1 e 𝑐2 sejam as soluções:
𝑐1 𝑡1 + 𝑐2 𝑡2 = 𝑢1
{ 2
𝑐1 𝑡1 + 𝑐2 𝑡22 = 𝑢2
Ou seja,
𝑢1 𝑡2 − 𝑢2 𝑢2− 𝑢1 𝑡1
𝑐1 = 𝑒 𝑐2 =
𝑡1 (𝑡2 − 𝑡1 ) 𝑡2 (𝑡2 − 𝑡1 )
Note que, estas soluções são possíveis já que 𝑡1 ≠ 𝑡2 e 𝑡1 , 𝑡2 ≠ 0.
Tomemos 𝑣𝑛 = 𝑢𝑛 − 𝑐1 𝑡1𝑛 − 𝑐2 𝑡2𝑛 .Vamos provar que 𝑣𝑛 = 0 para todo 𝑛.
Temos,
𝑣𝑛 − 𝑝𝑣𝑛−1 − 𝑞𝑣𝑛−2 = (𝑢𝑛 − 𝑝𝑢𝑛−1 − 𝑞𝑢𝑛−2 ) − 𝑐1 𝑡1𝑛−2 (𝑡12 − 𝑝𝑡1 − 𝑞) − 𝑐2 𝑡2𝑛−2 (𝑡22 − 𝑝𝑡2 − 𝑞).

O primeiro parêntese é igual a zero já que 𝑢𝑛 é solução de 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 =


0 e os dois últimos parênteses são iguais a zero pois 𝑡1 e 𝑡2 são raízes da equação 𝑡 2 −
𝑝𝑡 − 𝑞 = 0. Assim, 𝑣𝑛 − 𝑝𝑣𝑛−1 − 𝑞𝑣𝑛−2 = 0.
Além disso, como 𝑐1 𝑡1 + 𝑐2 𝑡2 = 𝑢1 e 𝑐1 𝑡12 + 𝑐2 𝑡22 = 𝑢2 , temos 𝑣1 = 𝑣2 = 0.
Entretanto, se 𝑣𝑛 − 𝑝𝑣𝑛−1 − 𝑞𝑣𝑛−2 = 0 e 𝑣1 = 𝑣2 = 0 então 𝑣𝑛 = 0 para todo 𝑛.

Exemplo 2.3.1. Resolver a recorrência 𝑎𝑛 = −3𝑎𝑛−1 + 10𝑎𝑛−2 , com 𝑎1 = 2 e 𝑎2 = 1.
Inicialmente, vamos resolver a recorrência sem atribuirmos os valores de 𝑎1 e 𝑎2 .
A equação característica 𝑡 2 + 3𝑡 − 10 = 0 tem raízes 𝑡1 = 2 e 𝑡2 = −5.
De acordo com o Teorema 2.3.1 as soluções da recorrência são da forma
𝑎𝑛 = 𝑐1 2𝑛 + 𝑐2 (−5)𝑛 onde 𝑐1 e 𝑐2 são constantes cujo valor depende de 𝑎1 e 𝑎2 .
Ou seja,
5𝑎1 + 𝑎2 𝑎2− 2𝑎1
𝑐1 = 𝑒 𝑐2 =
14 35

15
Substituindo os valores de 𝑎1 e 𝑎2 encontramos as constantes e, com elas, a solu-
ção da recorrência:
11 𝑛 3
𝑎𝑛 = ∙2 − (−5)𝑛
14 35
Com relação à solução geral desta recorrência, é interessante notar que a constante
𝑐2 anula-se no caso em que 𝑎2 = 2𝑎1.
Quando tal acontece temos:
7𝑎1 𝑎1
𝑐1 = =
14 2
E então
𝑎1 𝑛
𝑎𝑛 = ∙ 2 + 0 ∙ (−5)𝑛
2
𝑎𝑛 = 𝑎1 ∙ 2𝑛−1
Ou seja, neste caso a recorrência torna-se uma progressão geométrica de razão 2.

A proposição seguinte generaliza este caso.

Proposição 2.3.1. Seja (𝑎𝑛 ) é uma sequência de termos não nulos definida pela recorrên-
𝑎
cia 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0 e 𝑘 = 𝑎2 . Se 𝑞 = 𝑘(𝑘 − 𝑝), então (𝑎𝑛 ) é uma progressão
1
geométrica de razão 𝑘.

Demonstração:

Substituindo a expressão 𝑞 = 𝑘(𝑘 − 𝑝) na recorrência 𝑎𝑛 = 𝑝𝑎𝑛−1 + 𝑞𝑎𝑛−2 , te-


mos:
𝑎𝑛 = 𝑝𝑎𝑛−1 + 𝑘(𝑘 − 𝑝)𝑎𝑛−2

cuja equação característica 𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑘(𝑘 − 𝑝) = 0 tem raízes 𝑡1 = 𝑘 e 𝑡2 = 𝑝 − 𝑘.

De acordo com o Teorema 2.3.1 as soluções da recorrência são da forma


𝑎𝑛 = 𝑐1 𝑘 𝑛 + 𝑐2 (𝑝 − 𝑘)𝑛

onde 𝑐1 e 𝑐2 são constantes cujo valor depende de 𝑎1 e 𝑎2 .


Escrevendo igualdades para 𝑎1 e 𝑎2 , podemos formar um sistema de equações do
qual as constantes 𝑐1 e 𝑐2 sejam as soluções:
c1 𝑘 + c2 (𝑝 − 𝑘) = 𝑎1
{
c1 𝑘 2 + c2 (𝑝 − 𝑘)2 = 𝑎2
Resolvendo o sistema encontramos

16
𝑘𝑎1 − 𝑎2
𝑐2 =
𝑝(𝑘 − 𝑝)
𝑎
Mas, 𝑘 = 𝑎2 e portanto 𝑐2 = 0.
1
Assim temos
𝑎1
𝑐1 =
𝑘
e finalmente,
𝑎𝑛 = 𝑎1 ∙ 𝑘 𝑛−1

2.4 Resolução de recorrências de segunda ordem cuja equação caracte-


rística tem raízes iguais

Inicialmente vamos pesquisar, por inspeção de soluções, que forma deverá ter a
solução de uma recorrência de segunda ordem cuja equação característica tem raízes
iguais.
Se 𝑡 é raiz única da equação 𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞 = 0, então 𝑢𝑛 = 𝑡 𝑛 é solução da recor-
rência 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0.
𝑝
Além disso, o discriminante de 𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞 = 0 é 𝑝2 + 4𝑞 = 0 e 𝑡 = 2 .
𝑣 𝑣
Tome 𝑣𝑛 uma solução qualquer da recorrência e faça 𝑦𝑛 = 𝑢𝑛 = 𝑡 𝑛𝑛 .
𝑛

Segue que 𝑣𝑛 = 𝑦𝑛 𝑡 𝑛 é solução de 𝑦𝑛 𝑡 𝑛 − 𝑝𝑦𝑛−1 𝑡 𝑛−1 − 𝑞𝑦𝑛−2 𝑡 𝑛−2 = 0 e tam-


bém de 𝑦𝑛 𝑡 2 − 𝑝𝑦𝑛−1 𝑡 − 𝑞𝑦𝑛−2 = 0 .
𝑝 𝑝2
Substituindo 𝑡 por 2 e 𝑞 por − , temos:
4

𝑝2 𝑝2 𝑝2
𝑦𝑛 − 𝑦𝑛−1 + 𝑦𝑛−2 =0
4 2 4
𝑦𝑛 − 2𝑦𝑛−1 + 𝑦𝑛−2 = 0
𝑦𝑛 − 𝑦𝑛−1 = 𝑦𝑛−1 − 𝑦𝑛−2
Logo, pela Definição 1.4.2, 𝑦𝑛 é uma progressão aritmética e pode ser escrita
como 𝑦𝑛 = 𝑎 + 𝑏𝑛 para constantes 𝑎, 𝑏 ∊ ℝ .
Portanto, a solução procurada é da forma 𝑣𝑛 = 𝑎𝑡 𝑛 + 𝑏𝑛𝑡 𝑛 .
Teorema 2.4.1. Se 𝑡1 = 𝑡2 = 𝑡 são raízes iguais da equação 𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞 = 0, então
𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡 𝑛 + 𝑐2 𝑛𝑡 𝑛 é solução da recorrência 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0 para quaisquer
valores de 𝑐1 e 𝑐2 .
Demonstração:
Substituindo 𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡 𝑛 + 𝑐2 𝑛𝑡 𝑛 em 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 e agrupando os ter-
mos, obtemos:
𝑐1 𝑡 𝑛 + 𝑐2 𝑛𝑡 𝑛 − 𝑝(𝑐1 𝑡 𝑛−1 + 𝑐2 (𝑛 − 1)𝑡 𝑛−1 ) − 𝑞(𝑐1 𝑡 𝑛−2 + 𝑐2 (𝑛 − 2)𝑡 𝑛−2 ) =
17
𝑐1 (𝑡 𝑛 − 𝑝𝑡 𝑛−1 − 𝑞𝑡 𝑛−2 ) + 𝑐2 (𝑛𝑡 𝑛 − 𝑝 (𝑛 − 1)𝑡 𝑛−1 − 𝑞(𝑛 − 2)𝑡 𝑛−2 ) =
𝑐1 𝑡 𝑛−2 (𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞) + 𝑐2 𝑛𝑡 𝑛−2 (𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞) + 𝑐2 𝑡 𝑛−2 (𝑝𝑡 + 2𝑞) =
Como 𝑡1 = 𝑡2 = 𝑡, temos que 𝑝 = 2𝑡 e 𝑞 = −𝑡 2 portanto:
𝑐1 𝑡1𝑛−2 ∙ 0 + 𝑐2 𝑡2𝑛−2 ∙ 0 + 𝑐2 𝑡2𝑛−2 ∙ 0 = 0
Então 𝑥𝑛 é solução.

Teorema 2.4.2. Se 𝑡1 = 𝑡2 = 𝑡 ≠ 0 são raízes da equação característica, então todas as
soluções da recorrência 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0 são da forma 𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡 𝑛 + 𝑐2 𝑛𝑡 𝑛 com
𝑐1 e 𝑐2 constantes.
Demonstração:
Seja 𝑢𝑛 uma solução qualquer de 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 = 0.
Vamos primeiro tentar escrever 𝑢1 e 𝑢2 na forma desejada. Ou seja, vamos tentar
determinar 𝑐1 e 𝑐2 tais que 𝑢𝑛 seja da forma 𝑐1 𝑡 𝑛 + 𝑐2 𝑛𝑡 𝑛 .
Escrevendo igualdades para 𝑢1 e 𝑢2 , podemos formar um sistema de equações do
qual as constantes 𝑐1 e 𝑐2 sejam as soluções:
𝑐1 𝑡 + 𝑐2 𝑡 = 𝑢1
{
𝑐1 𝑡 2 + 2𝑐2 𝑡 2 = 𝑢2
Ou seja,
2𝑡𝑢1 − 𝑢2 𝑢2− 𝑡𝑢1
𝑐1 = 2
𝑒 𝑐2 =
𝑡 𝑡2

Note que, estas soluções são possíveis já que 𝑡 2 ≠ 0.


Tomemos 𝑣𝑛 = 𝑢𝑛 − 𝑐1 𝑡 𝑛 − 𝑐2 𝑛𝑡 𝑛 .Vamos provar que 𝑣𝑛 = 0 para todo 𝑛.
Temos,
𝑣𝑛 − 𝑝𝑣𝑛−1 − 𝑞𝑣𝑛−2 = (𝑢𝑛 − 𝑝𝑢𝑛−1 − 𝑞𝑢𝑛−2 ) − 𝑐1 𝑡 𝑛−2 (𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞) −
−𝑐2 𝑛𝑡 𝑛−2 (𝑡 2 − 𝑝𝑡 − 𝑞) − 𝑐2 𝑡 𝑛−2 (𝑝𝑡 + 2𝑞).
O primeiro parêntese é igual a zero já que 𝑢𝑛 é solução de 𝑎𝑛 − 𝑝𝑎𝑛−1 − 𝑞𝑎𝑛−2 =
0, o segundo e o terceiro parênteses são iguais a zero pois 𝑡 é raiz da equação 𝑡 2 − 𝑝𝑡 −
𝑞 = 0, o último parêntese é igual a zero pois quando 𝑡1 = 𝑡2 = 𝑡, 𝑝 = 2𝑡 e 𝑞 = −𝑡 2 e
assim, 𝑝𝑡 + 2𝑞 = 0. Portanto, 𝑣𝑛 − 𝑝𝑣𝑛−1 − 𝑞𝑣𝑛−2 = 0.
Além disso, como 𝑐1 𝑡 + 𝑐2 𝑡 = 𝑢1 e 𝑐1 𝑡 2 + 𝑐2 𝑡 2 = 𝑢2 , temos 𝑣1 = 𝑣2 = 0.
Entretanto, se 𝑣𝑛 − 𝑝𝑣𝑛−1 − 𝑞𝑣𝑛−2 = 0 e 𝑣1 = 𝑣2 = 0 então 𝑣𝑛 = 0 para todo 𝑛.

Exemplo 2.4.1 Resolver a recorrência 𝑎𝑛 = 6𝑎𝑛−1 −9𝑎𝑛−2 , com 𝑎1 = 0 e 𝑎2 = 1.

18
A equação característica 𝑡 2 − 6𝑡 + 9 = 0 tem raízes 𝑡1 = 𝑡2 = 𝑡 = 3.
De acordo com o Teorema 2.4.2 as soluções da recorrência são da forma
𝑎𝑛 = 𝑐1 3𝑛 + 𝑐2 𝑛3𝑛 onde 𝑐1 e 𝑐2 são constantes cujo valor depende de 𝑎1 e 𝑎2 .

Ou seja,

6𝑎1 − 𝑎2 𝑎2 − 3𝑎1
𝑐1 = 𝑒 𝑐2 =
9 9

Substituindo os valores de 𝑎1 e 𝑎2 encontramos as constantes e, com elas, a solu-


ção da recorrência:
1 1
𝑎𝑛 = − ∙ 3𝑛 + 𝑛3𝑛
9 9
𝑎𝑛 = (𝑛 − 1) ∙ 3𝑛−2

Exemplo 2.4.2 Resolver a recorrência 𝑎𝑛 = 2𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2 .
Inicialmente, vamos resolver a recorrência sem atribuirmos valores para 𝑎1 e 𝑎2 .
A equação característica 𝑡 2 − 2𝑡 + 1 = 0 tem raízes 𝑡1 = 𝑡2 = 𝑡 = 1.
De acordo com o Teorema 2.4.2 as soluções da recorrência são da forma
𝑎𝑛 = 𝑐1 𝑡 𝑛 + 𝑐2 𝑛𝑡 𝑛 onde 𝑐1 e 𝑐2 são constantes cujo valor depende de 𝑎1 e 𝑎2 .
Neste exemplo em particular, como 𝑡 = 1, as soluções assumem a forma

𝑎𝑛 = 𝑐1 + 𝑛𝑐2
Ou seja,
𝑐1 + 𝑐2 = 𝑎1
{
𝑐1 + 2𝑐2 = 𝑎2
𝑐1 = 2𝑎1 − 𝑎2 𝑒 𝑐2 = 𝑎2 − 𝑎1
Substituindo as expressões obtidas para 𝑐1 e 𝑐2 e agrupando os termos, encontra-
mos a solução da recorrência:
𝑎𝑛 = 2𝑎1 − 𝑎2 + 𝑛(𝑎2 − 𝑎1 )
𝑎𝑛 = 𝑎1 + (𝑎1 − 𝑎2 ) + 𝑛(𝑎2 − 𝑎1 )
𝑎𝑛 = 𝑎1 + (𝑛 − 1)(𝑎2 − 𝑎1 )
Note que, se tomarmos 𝑎2 − 𝑎1 = 𝑟, a expressão torna-se:
𝑎𝑛 = 𝑎1 + (𝑛 − 1)𝑟
Que corresponde ao termo geral de uma progressão aritmética.
Vimos na Seção 1.4 que toda progressão aritmética pode ser expressa por uma
recorrência de primeira ordem.

19
Nesta seção, concluímos que toda progressão aritmética também pode ser ex-
pressa por uma recorrência de segunda ordem 𝑎𝑛 = 𝑝𝑎𝑛−1 + 𝑞𝑎𝑛−2 desde que tenhamos
𝑝 = 2 e 𝑞 = −1.
De fato, em toda progressão aritmética temos:
𝑎𝑛 − 𝑎𝑛−1 = 𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2
Portanto
𝑎𝑛 = 2𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2

2.5 Resolução de recorrências de segunda ordem não-homogêneas

Teorema 2.5.1. Se 𝑥𝑛 é uma solução da recorrência 𝑎𝑛 = 𝑝𝑎𝑛−1 + 𝑞𝑎𝑛−2 + 𝑓(𝑛) então


a substituição 𝑎𝑛 = 𝑥𝑛 + 𝑦𝑛 reduz a recorrência ao caso homogêneo
𝑦𝑛 = 𝑝𝑦𝑛−1 + 𝑞𝑦𝑛−2
Demonstração:
Substituindo 𝑎𝑛 na recorrência, obtemos
𝑥𝑛 + 𝑦𝑛 = 𝑝𝑥𝑛−1 + 𝑞𝑥𝑛−2 + 𝑝𝑦𝑛−1 + 𝑞𝑦𝑛−2 + 𝑓(𝑛)
Mas, 𝑥𝑛 = 𝑝𝑥𝑛−1 + 𝑞𝑥𝑛−2 + 𝑓(𝑛) pois 𝑥𝑛 é solução da recorrência
𝑎𝑛 = 𝑝𝑎𝑛−1 + 𝑞𝑎𝑛−2 + 𝑓(𝑛).
Assim, a recorrência torna-se:
𝑦𝑛 = 𝑝𝑦𝑛−1 + 𝑞𝑦𝑛−2

Exemplo 2.5.1 Resolver a recorrência 𝑎𝑛 = 6𝑎𝑛−1 − 8𝑎𝑛−2 + 2 , com 𝑎1 = 𝑎2 = 1.

De acordo com o Teorema 2.5.1 devemos encontrar uma solução 𝑥𝑛 da recorrên-


cia 𝑎𝑛 = 6𝑎𝑛−1 − 8𝑎𝑛−2 + 2 tal que 𝑥𝑛 = 6𝑥𝑛−1 − 8𝑥𝑛−2 + 2.
Suponha inicialmente que a solução 𝑥𝑛 seja constante e portanto 𝑥𝑛 = 𝑥𝑛−1 =
𝑥𝑛−2 .
Podemos então escrever:
𝑥𝑛 = 6𝑥𝑛 − 8𝑥𝑛 + 2
de onde resulta,
2
𝑥𝑛 =
3

20
2
Assim a expressão 𝑎𝑛 = 𝑥𝑛 + 𝑦𝑛 torna-se 𝑎𝑛 = 𝑦𝑛 + 3 .

Substituindo 𝑎𝑛 na recorrência, temos:


2 2 2
𝑦𝑛 + = 6 (𝑦𝑛−1 + ) − 8 (𝑦𝑛−2 + ) + 2
3 3 3
2 12 16
𝑦𝑛 + = 6𝑦𝑛−1 + ( ) − 8𝑦𝑛−2 − ( ) + 2
3 3 3
𝑦𝑛 = 6𝑦𝑛−1 − 8𝑦𝑛−2
Uma vez reduzida a recorrência ao caso homogêneo, procedemos de acordo com
o Teorema 2.3.1.
Equação característica: 𝑡 2 − 6𝑡 + 8 = 0
Raízes: 𝑡1 = 2 e 𝑡2 = 4
As soluções são da forma: 𝑦𝑛 = 𝑐1 ∙ 2𝑛 + 𝑐2 ∙ 4𝑛

Com as expressões de 𝑦1 e 𝑦2 montamos o sistema:

2 𝑐1 + 4 𝑐2 = 𝑦1
{
4 𝑐1 + 16 𝑐2 = 𝑦2

2
2 𝑐1 + 4 𝑐2 = 𝑎1 −
{ 3
2
4 𝑐1 + 16 𝑐2 = 𝑎2 −
3

1
2 𝑐1 + 4 𝑐2 =
{ 3
1
4 𝑐1 + 16 𝑐2 =
3
1 1
Que nos fornece os coeficientes 𝑐1 = 4 e 𝑐2 = − 24 .
1 1
Portanto a solução da recorrência homogênea é dada por 𝑦𝑛 = 4 ∙ 2𝑛 − 24 ∙ 4𝑛 .
2
Mas, 𝑎𝑛 = 𝑦𝑛 + 3
Assim, a solução procurada é
2𝑛 4𝑛 2
𝑎𝑛 = − +
4 24 3


2.6 A sequência de Fibonacci

Um dos exemplos mais famosos de sequências definidas por recorrência é, sem


dúvida, a chamada sequência de Fibonacci.

21
Fibonacci (“filho de Bonaccio”, 1175-1250) foi “o matemático mais talentoso da
Idade Média” (EVES, 2011, p.292).
Natural de Pisa, Itália, era também conhecido como Leonardo de pisa ou Leonardo
Pisano.
As atividades mercantis de seu pai, além da própria vocação comercial da cidade,
favoreceram a Leonardo a oportunidade de estudar fora da Itália e de viajar entrando em
contato com o pensamento matemático árabe e do oriente.
Em seu livro “Liber Abaci”, publicado em 1202 assim que retornou de suas via-
gens, Fibonacci defendeu com vigor a adoção do sistema de numeração indo-arábico em
lugar dos algarismos romanos então utilizados.
É neste mesmo livro que encontramos, entre outros, o problema que deu origem à
famosa sequência.
“Quantos pares de coelhos serão produzidos num ano, a partir de um único casal,
se cada casal procria a cada mês um novo casal que se torna produtivo depois de dois
meses? ” (EVES, 2011, p.315)
A questão é fascinante tanto por sua aparente simplicidade como pela multiplici-
dade de formas em que pode ser apresentada.
Podemos visualizar melhor o raciocínio inerente à situação descrita no problema
por meio do esquema explicitado na Tabela 2.6.1, a seguir.

MESES (𝑛) REPRODUÇÃO CASAIS (𝐹𝑛 )


𝐶1
0 1

𝐶1
1 1

𝐶1
2 ↓ 2
𝐶2
𝐶1 𝐶2
3 ↓ 3
𝐶3
𝐶1 𝐶2 𝐶3
4 ↓ ↓ 5
𝐶4 𝐶5
𝐶1 𝐶2 𝐶3 𝐶4 𝐶5
5 ↓ ↓ ↓ 8
𝐶6 𝐶7 𝐶8
𝐶1 𝐶2 𝐶3 𝐶4 𝐶5 𝐶6 𝐶7 𝐶8
6 ↓ ↓ ↓ ↓ ↓ 13
𝐶9 𝐶10 𝐶11 𝐶12 𝐶13
Tabela 2.6.1 – O problema dos coelhos de Fibonacci
Observe que fica bastante clara a relação de recorrência com o total de casais, a
partir do segundo mês, sendo dado pela soma do número de casais dos dois meses ante-
riores, ou seja, 𝐹𝑛 = 𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛−2, com 𝐹1 = 𝐹2 = 1. Assim, o número de casais a cada
mês gera a sequência (𝐹𝑛 ) = (1,1,2,3,5,8, … ), chamada sequência de Fibonacci.

22
Apresentamos no exemplo seguinte um problema de argumentação combinatória
que representa a mesma situação descrita por Fibonacci.
Exemplo 2.6.1. Usando apenas os algarismos 1 ou 2, quantos números podem ser forma-
dos de modo que a soma de seus algarismos seja um certo 𝑛 ∈ ℕ ?
Fazendo 𝑛 variar podemos compor a seguinte tabela de resultados:
SOMA 0 dígitos 2 1 dígito 2 2 dígitos 2 3 dígitos 2 TOTAL
1 1 1
2 11 2 2
3 111 12, 21 3
4 1111 112, 121, 211 22 5
5 11111 1112, 1121, 122, 212, 221 8
1211, 2111
6 111111 11112, 11121, 1122, 1212, 222 13
11211, 12111, 1221, 2112,
21111 2121, 2211
7 1111111 111112, 11122, 11212, 1222, 21
111121, 11221, 12112, 2122,
111211, 12121, 12211, 2212, 2221
112111, 21112, 21121,
121111, 21211, 22111
211111

Tabela 2.6.2 – Números formados pelos algarismos 1 ou 2 e agrupados segundo a soma


de seus dígitos.
Se relacionarmos apenas a quantidade de números que aparece em cada coluna
teremos:
SOMA 0 dígitos 2 1 dígito 2 2 dígitos 2 3 dígitos 2 TOTAL
1 1 1
2 1 1 2
3 1 2 3
4 1 3 1 5
5 1 4 3 8
6 1 5 6 1 13
7 1 6 10 4 21
Tabela 2.6.3 – Quantidade de números formados pelos algarismos 1 ou 2 e agrupados
segundo a soma de seus dígitos.
A observação das sequências numéricas que surgem nas colunas sugere que elas
sejam as mesmas colunas do Triângulo de Pascal. Vamos demonstrar que a sequência
de Fibonacci pode ser obtida pela soma ordenada de elementos do Triângulo de Pascal
dispostos do modo mostrado na Tabela 2.6.3. Para tanto, vamos definir o conceito de
números binomiais e o próprio Triângulo de Pascal.

Definição 2.6.1. Chama-se número binomial o número representado por (𝑛𝑘) e calculado
pela expressão

23
𝑛 𝑛!
( )= (2.1)
𝑘 𝑘! (𝑛 − 𝑘)!
Onde 𝑛, 𝑘 ∊ ℕ e 𝑛 ≥ 𝑘.
Definição 2.6.2. Chama-se Triângulo de Pascal ao conjunto de sequências formadas pe-
los números binomiais (𝑛𝑘), ou por seus valores, e dispostas em linhas e colunas de tal
modo que em cada linha os números binomiais apresentam o mesmo valor de 𝑛 e em cada
coluna apresentam o mesmo valor de 𝑘. As linhas e colunas do Triângulo de Pascal são
numeradas a partir de zero.
Assim, podemos escrever o Triângulo de Pascal usando os números binomiais:
0
( )
0
1 1
( )( )
0 1
2 2 2
( )( )( )
0 1 2
3 3 3 3
( )( )( )( )
0 1 2 3
4 4 4 4 4
( )( )( )( )( )
0 1 2 3 4

𝑛 𝑛 𝑛 𝑛 𝑛 𝑛 𝑛
( )( )( )( )( )⋯( )( )
0 1 2 3 4 𝑛−1 𝑛
O nome dado ao Triângulo refere-se ao matemático francês do século dezessete
Blaise Pascal (1623-1662).
Embora o Triângulo Aritmético, como também é chamado, já fosse conhecido
por exemplo pelos chineses cerca de três séculos antes de Pascal, este em sua obra
Traité du triangle Arithmétique escrita em 1653 mas, publicada apenas em 1665, estu-
dou as propriedades e desenvolveu aplicações para o mesmo.
Podemos construir o Triângulo de Pascal apenas com os valores dos números bi-
nomiais lançando mão da relação de Stifel, assim chamada em referência a Michael Stifel
(1486-1567) matemático alemão que publicou em 1544 a obra Arithmetica Integra, livro
no qual, entre outros assuntos, estuda os coeficientes do desenvolvimento binomial.

Teorema 2.6.1. Relação de Stifel. A partir da terceira linha do Triângulo de Pascal, cada
elemento entre o primeiro e o último, pode ser obtido pela soma de dois elementos con-
secutivos da linha anterior sendo o segundo o elemento imediatamente acima do que se
quer obter.
Usando a notação de números binomiais podemos escrever a relação de Stifel
como:
𝑛−1 𝑛−1 𝑛
( )+( )=( ) (2.2)
𝑘−1 𝑘 𝑘

24
Demonstração:
Usando a relação (2.1) para representar os números binomiais na Relação de Sti-
fel podemos escrever:
𝑛−1 𝑛−1
( )+( )=
𝑘−1 𝑘
(𝑛 − 1)! (𝑛 − 1)!
= + =
(𝑘 − 1)! (𝑛 − 1 − 𝑘 + 1)! 𝑘! (𝑛 − 𝑘 − 1)!
𝑘(𝑛 − 1)! + (𝑛 − 𝑘)(𝑛 − 1)!
= =
𝑘! (𝑛 − 𝑘)!
𝑛! 𝑛
= =( )
𝑘! (𝑛 − 𝑘)! 𝑘

Podemos agora demonstrar a relação entre a sequência de Fibonacci e os números
binomiais, sugerida pelo Exemplo 2.6.1.
Proposição 2.6.1. Se o Triângulo de Pascal for reescrito de modo que cada coluna tenha
início nas linhas ímpares, então a soma dos elementos de duas linhas consecutivas é igual
à soma dos elementos da linha subsequente. Além disso a soma de cada linha representa
um termo da sequência de Fibonacci.
Demonstração:
Reescrevendo o Triângulo Aritmético de modo que cada coluna tenha início nas
linhas de ordem ímpar, temos:
0
( )
0
1
( )
0
2 1
( )( )
0 1
3 2
( )( )
0 1
4 3 2
( )( )( )
0 1 2
5 4 3
( )( )( )
0 1 2
Seja 𝐹𝑛 a soma dos números binomiais da n-ésima linha do triângulo reescrito do
modo acima.

Então, 𝐹1 = (00) = 1 e 𝐹2 = (10) = 1 coincidem com o primeiro e com o segundo


termos da sequência de Fibonacci.

25
Queremos provar que 𝐹𝑛 = 𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛−2 para todo 𝑛 ≥ 3.
Vamos proceder por indução sobre 𝑛.
Inicialmente note que a expressão 𝐹𝑛 = 𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛−2 é válida para 𝑛 = 3 pois,
𝐹3 = (0) + (11) por definição e além disso, (20) + (11) = (10) + (00) já que (20) = (11) =
2

(10) = (00) = 1 o que mostra ainda que 𝐹3 = 2 coincide com o terceiro termo da sequência
de Fibonacci.
Agora, supondo por hipótese de indução que 𝐹𝑛−1 e 𝐹𝑛−2 coincidam com os ter-
mos de mesma ordem da sequência de Fibonacci, vamos mostrar que 𝐹𝑛 coincide com o
n-ésimo termo desta mesma sequência.
Para 𝑛 ímpar, digamos 𝑛 = 2𝑢 − 1, temos:
2𝑢 − 2 2𝑢 − 3 𝑢−1
𝐹𝑛−2 = ( )+( )+⋯+( )
0 1 𝑢−1
2𝑢 − 1 2𝑢 − 2 𝑢
𝐹𝑛−1 = ( )+( )+⋯+( )
0 1 𝑢−1
2𝑢 2𝑢 − 1 𝑢+1 𝑢
𝐹𝑛 = ( ) + ( ) + ⋯+ ( )+( )
0 1 𝑢−1 𝑢
Somando as duas primeiras igualdades e agrupando convenientemente as parcelas
obtemos:
2𝑢 − 1 2𝑢 − 2 2𝑢 − 2 2𝑢 − 3 2𝑢 − 3
𝐹𝑛−2 + 𝐹𝑛−1 = ( ) + [( )+( )] + [( )+( )] + ⋯
0 0 1 1 2
𝑢 𝑢 𝑢−1
+ [( )+( )] + ( )
𝑢−2 𝑢−1 𝑢−1
Note que (2𝑢−1
0
) = (2𝑢
0
) = 1 e (𝑢−1
𝑢−1
) = (𝑢𝑢) = 1.

Além disso, de acordo com a relação de Stifel, a primeira soma entre colchetes é
igual a (2𝑢−1
1
), a segunda é igual a (2𝑢−2
2
)e assim por diante, o que mostra que a soma do
lado direito da igualdade é igual a 𝐹𝑛 .
Portanto, 𝐹𝑛 = 𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛−2 e 𝐹𝑛 corresponde ao n-ésimo termo da sequência de
Fibonacci.
Para 𝑛 par, a demonstração é análoga.

2.7 A fórmula de Binet

Vimos que a sequência de Fibonacci é definida pela recorrência linear homogênea


de segunda ordem: 𝐹𝑛 = 𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛−2, com 𝐹1 = 𝐹2 = 1.
Resolvendo-a, podemos encontrar uma fórmula fechada para cada termo da se-
quência.
A equação característica: 𝑡 2 − 𝑡 − 1 = 0

26
1+√5 1−√5
Raízes: 𝑡1 = e 𝑡2 =
2 2
𝑛 𝑛
1+√5 1−√5
As soluções são da forma: 𝐹𝑛 = 𝑐1 ∙ ( ) + 𝑐2 ∙ ( )
2 2

Com as expressões de 𝐹1 e 𝐹2 montamos o sistema:

1 + √5 1 − √5
( ) 𝑐1 + ( ) 𝑐2 = 1
2 2
2 2
1 + √5 1 − √5
( ) 𝑐1 + ( ) 𝑐2 = 1
{ 2 2

1 1
Que nos fornece os coeficientes 𝑐1 = e 𝑐2 = − .
√5 √5

Portanto a solução da recorrência é dada por


𝑛 𝑛
1 1 + √5 1 1 − √5
𝐹𝑛 = ∙( ) − ∙( ) (2.3)
√5 2 √5 2

Tal resultado é conhecido como fórmula de Binet.


Percebemos, pelo exposto, que a referida fórmula nada mais é do que a solução
de uma recorrência particular.

2.8 Os números de Lucas

Vimos na Seção 1.2 que uma sequência não pode ser completamente definida por
uma relação de recorrência sem que se informe o primeiro ou os primeiros termos dos
quais os termos subsequentes dependem. Na prática, isto significa que, uma mesma rela-
ção de recorrência pode dar origem a inúmeras sequências distintas. O Exemplo 1.5.2 nos
mostra o quanto uma sequência pode tornar-se diferente a partir de mudanças nos termos
iniciais.
O matemático francês Edouard Lucas (1842-1891) estudou as propriedades da se-
quência de Fibonacci sendo inclusive devido a ele que a chamamos assim. Lucas procurou
ainda compreender como seria o comportamento de sequências que obedecessem a
mesma relação de recorrência mas, fossem iniciadas por outros valores.
Em particular, quando os primeiros termos da recorrência são 1 e 3, a recorrência
é conhecida por Sequência de Lucas e usualmente representada por
(𝐿𝑛 ) = (1,3,4,7,11, … )
.

27
É interessante notar que as duas sequências têm muito em comum, a começar pelas
fórmulas que solucionam suas respectivas recorrências, pois, como a relação de recorrên-
cia é a mesma, as equações características bem como suas raízes também o serão, dife-
rindo, as fórmulas, apenas nos coeficientes que, no caso da sequência de Lucas, serão
𝑐1 = 𝑐2 = 1, gerando então a solução:

𝑛 𝑛
1 + √5 1 − √5
𝐿𝑛 = ( ) +( ) (2.4)
2 2

Além disso, muitas são as propriedades que relacionam as duas sequências ou que
são ao menos semelhantes de modo que, em alguns casos, a propriedade parece ser muito
mais uma característica da relação de recorrência do que propriamente da sequência em
si.
A proposição seguinte ilustra esta afirmação.
Proposição 2.8.1 A soma dos 𝑛 primeiros números de Fibonacci é igual ao (𝑛 + 2)-ésimo
número de Fibonacci diminuído de uma unidade.
Demonstração:
Queremos mostrar que:
𝑛

∑ 𝐹𝑗 = 𝐹𝑛+2 − 1
𝑗=1

Provaremos por indução sobre 𝑛.


Para 𝑛 = 1 a propriedade é verdadeira pois,
𝐹1 = 𝐹3 − 1 = 2 − 1 = 1
Supondo que a propriedade seja verdadeira para um certo 𝑛, vamos provar que é
verdadeira para 𝑛 + 1.
𝐹1 + 𝐹2 + 𝐹3 + ⋯ + 𝐹𝑛 = 𝐹𝑛+2 − 1
Somando 𝐹𝑛+1 dos dois lados da igualdade, obtemos:
𝐹1 + 𝐹2 + 𝐹3 + ⋯ + 𝐹𝑛 + 𝐹𝑛+1 = 𝐹𝑛+1 + 𝐹𝑛+2 − 1
E como 𝐹𝑛+1 + 𝐹𝑛+2 = 𝐹𝑛+3, podemos escrever:
𝐹1 + 𝐹2 + 𝐹3 + ⋯ + 𝐹𝑛 + 𝐹𝑛+1 = 𝐹𝑛+3 − 1 (2.5)


A proposição seguinte generaliza este resultado para toda sequência que obedeça
esta mesma relação de recorrência.

28
Proposição 2.8.2 Seja (𝑎𝑛 ) uma sequência tal que, 𝑎𝑛 = 𝑎𝑛−1 + 𝑎𝑛−2 para todo 𝑛 ∊ ℕ.
A soma dos 𝑛 primeiros termos de (𝑎𝑛 ) é igual ao (𝑛 + 2)-ésimo termo de (𝑎𝑛 ) diminu-
ído do segundo termo.
Demonstração:
Queremos mostrar que:
𝑛

∑ 𝑎𝑗 = 𝑎𝑛+2 − 𝑎2
𝑗=1

Provaremos por indução sobre 𝑛.


Para 𝑛 = 1 a propriedade é verdadeira pois,
𝑎1 = 𝑎3 − 𝑎2
𝑎1 + 𝑎2 = 𝑎3
Supondo que a propriedade seja verdadeira para um certo 𝑛, vamos provar que é
verdadeira para 𝑛 + 1.
𝑎1 + 𝑎2 + 𝑎3 + ⋯ + 𝑎𝑛 = 𝑎𝑛+2 − 𝑎2
Somando 𝑎𝑛+1 dos dois lados da igualdade, obtemos:
𝑎1 + 𝑎2 + 𝑎3 + ⋯ + 𝑎𝑛 + 𝑎𝑛+1 = 𝑎𝑛+1 + 𝑎𝑛+2 − 𝑎2
E como 𝑎𝑛+1 + 𝑎𝑛+2 = 𝑎𝑛+3, podemos escrever:
𝑎1 + 𝑎2 + 𝑎3 + ⋯ + 𝑎𝑛 + 𝑎𝑛+1 = 𝑎𝑛+3 − 𝑎2 (2.6)


Note ainda que, o resultado (2.5) é um caso particular da expressão (2.6) pois,
quando a sequência é a de Fibonacci, o segundo termo é 𝑎2 = 1.
Veremos no Capítulo 4 algumas outras propriedades interessantes destas sequên-
cias.

2.9 A Equação de Pell

Definição 2.9.1 Chama-se Equação de Pell, toda equação do tipo 𝑥 2 − 𝐷𝑦 2 = 1, com 𝐷


não nulo, 𝑥, 𝑦, 𝐷 ∊ ℕ e 𝐷 ≠ 𝑧 2 para todo 𝑧 ∊ ℕ.
A denominação “Equação de Pell” é, na verdade, um equívoco que vingou e foi
mantido pelo uso e pelo costume. Trata-se de um engano de Euler que entendeu que o
matemático inglês John Pell (1611-1685) teria obtido um método de resolução deste gê-
nero de equações. Tal método deve-se entretanto ao também inglês Lord Brouncker
(1620-1684).

29
Para cada valor distinto de 𝐷, a equação de Pell admite infinitas soluções, sendo
cada solução um par ordenado (𝑥, 𝑦).
Na seguinte proposição, vamos mostrar que as sequências (𝑎𝑛 ) e (𝑏𝑛 ) formadas
respectivamente pelos valores de 𝑥 e 𝑦 que satisfazem as equações de Pell são recorrên-
cias lineares homogêneas de segunda ordem. Ao resolver tais recorrências obteremos fór-
mulas fechadas que nos permitirão encontrar infinitas soluções de uma Equação de Pell.
Proposição 2.9.1 Seja 𝑥 2 − 𝐷𝑦 2 = 1, a Equação de Pell para um certo valor 𝐷.Sejam 𝑥′
e 𝑦′ os menores valores não nulos que satisfazem a equação e (𝑎0 , 𝑏0 ) = (1 , 0) a solução
trivial para todo 𝐷. Sejam ainda, (𝑎𝑛 ) e (𝑏𝑛 ) sequências tais que 𝑎𝑛 = 2𝑥′ ∙ 𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2
e 𝑏𝑛 = 2𝑥′ ∙ 𝑏𝑛−1 − 𝑏𝑛−2. Se 𝑎1 = 𝑥′ e 𝑏1 = 𝑦′, então o par ordenado (𝑎𝑛 , 𝑏𝑛 ) é solução
da Equação de Pell para todo 𝑛 ∊ ℕ.
Demonstração:
Tanto 𝑎𝑛 = 2𝑥′ ∙ 𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2 como 𝑏𝑛 = 2𝑥′ ∙ 𝑏𝑛−1 − 𝑏𝑛−2 têm como equação
característica 𝑡 2 − 2𝑥 ′ 𝑡 + 1 = 0, cujas raízes são 𝑡1 = 𝑥 ′ + √(𝑥 ′ )2 − 1 e 𝑡2 = 𝑥 ′ −
√(𝑥 ′ )2 − 1.

Mas, como 𝑥′ e 𝑦′ são soluções da equação de Pell, então (𝑥 ′ )2 − 1 = 𝐷(𝑦 ′ )² e


portanto, podemos escrever 𝑡1 = 𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷 e 𝑡2 = 𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷.
Assim, pelo Teorema 2.3.1 as soluções são da forma: 𝑎𝑛 = 𝑐1 ∙ 𝑡1 𝑛 + 𝑐2 ∙ 𝑡2 𝑛 e
𝑏𝑛 = 𝑑1 ∙ 𝑡1 𝑛 + 𝑑2 ∙ 𝑡2 𝑛 .

Com as expressões de 𝑎0 e 𝑎1 montamos o sistema:

𝑐1 + 𝑐2 = 1
{
(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷)𝑐1 + (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷) 𝑐2 = 𝑥′

1
Que nos fornece os coeficientes 𝑐1 = 𝑐2 = 2 para (𝑎𝑛 ).

Portanto a solução da recorrência é dada por


1 𝑛 𝑛
𝑎𝑛 = ∙ [(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) + (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷) ]
2

Já com as expressões de 𝑏0 e 𝑏1 montamos o sistema:

𝑑1 + 𝑑2 = 0
{
(𝑥 + 𝑦 √𝐷)𝑑1 + (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷) 𝑑2 = 𝑦′
′ ′

1 1
Que nos fornece os coeficientes 𝑑1 = 2√𝐷 e 𝑑2 = − 2√𝐷 para (𝑏𝑛 ).

30
Portanto a solução da recorrência é dada por
1 𝑛 𝑛
𝑏𝑛 = ∙ [(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) − (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷) ]
2√𝐷

Reescrevendo as soluções encontradas temos:


𝑛 𝑛
2𝑎𝑛 = (𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) + (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)
{ 𝑛 𝑛
2𝑏𝑛 √𝐷 = (𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) − (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)
Somando as igualdades e em seguida subtraindo a segunda da primeira, obtemos:
𝑛
2𝑎𝑛 + 2𝑏𝑛 √𝐷 = 2(𝑥 ′ + 𝑦′√𝐷)
e
𝑛
2𝑎𝑛 − 2𝑏𝑛 √𝐷 = 2(𝑥 ′ − 𝑦′√𝐷)
Eliminando os fatores 2 e multiplicando uma expressão pela outra encontramos:

(𝑎𝑛 + 𝑏𝑛 √𝐷)(𝑎𝑛 − 𝑏𝑛 √𝐷) = ((𝑥 ′ )² − 𝐷(𝑦 ′ )²)𝑛


E finalmente:
𝑎𝑛2 − 𝐷𝑏𝑛2 = 1

Exemplo 2.9.1 Determine as soluções da equação 𝑥 2 − 2𝑦 2 = 1.

Neste caso, temos 𝐷 = 2 e (𝑥 ′ , 𝑦 ′ ) = (3 , 2).


As sequências associadas à equação são: 𝑎𝑛 = 6𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2 e 𝑏𝑛 = 6𝑏𝑛−1 −
𝑏𝑛−2 .
Para ambas as sequências, a equação característica é 𝑡 2 − 6𝑡 + 1 = 0, cujas raízes
são 𝑡1 = 3 + 2√2 e 𝑡2 = 3 − 2√2.
Assim, de acordo com a Proposição 2.9.1, as soluções são:

1 𝑛 𝑛
𝑎𝑛 = ∙ [(3 + 2√2) + (3 − 2√2) ]
2

1 𝑛 𝑛
𝑏𝑛 = ∙ [(3 + 2√2) − (3 − 2√2) ]
2√2

Fazendo 𝑛 variar obtemos:


(𝑎𝑛 ) = (1, 3, 17, 99, 577, … ) e (𝑏𝑛 ) = (0, 2, 12, 70, 408, … )

31
Portanto, as soluções procuradas são {(1,0), (3,2), (17,12), (99,70), … }.

Note que, como as recorrências foram resolvidas, podemos encontrar qualquer


solução particular independentemente das demais. Por exemplo, para 𝑛 = 9 a solução é
(3880899, 2744210).

2.10 Aproximação de radicais por frações

Tomando as soluções encontradas no Exemplo 2.9.1, à exceção da primeira, po-


demos escrever as seguintes frações:
𝑎1 3
= = 1,5
𝑏1 2
𝑎2 17
= = 1,41666 …
𝑏2 12
𝑎3 99
= = 1,4142857 …
𝑏3 70
𝑎4 577
= = 1,414215686 …
𝑏4 408
𝑎5 3363
= = 1,414213625 …
𝑏5 2378
𝑎𝑛
A observação dos valores das frações sugere que à medida que 𝑛 cresce, se
𝑏𝑛
aproxima de √2.
De fato, na proposição seguinte vamos provar a veracidade desta observação além
de generalizá-la para qualquer valor 𝐷.
Proposição 2.10.1 Dada a equação 𝑥 2 − 𝐷𝑦 2 = 1, se (𝑎𝑛 , 𝑏𝑛 ) é solução da equação para
𝑎
todo 𝑛 ∊ ℕ, então a sequência 𝑧𝑛 = 𝑏𝑛 converge para √𝐷.
𝑛

Demonstração:
Se (𝑎𝑛 , 𝑏𝑛 ) é solução da equação, temos de acordo com a Proposição 2.9.1:

1 𝑛 𝑛
𝑎𝑛 = ∙ [(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) + (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷) ]
2
e
1 𝑛 𝑛
𝑏𝑛 = ∙ [(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) − (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷) ]
2√𝐷
De modo que podemos escrever;

32
𝑛 𝑛
(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) + (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)
𝑧𝑛 = √𝐷 𝑛 𝑛
(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) − (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)

Calculando o limite de 𝑧𝑛 , obtemos:


lim 𝑧𝑛 =
𝑛→∞
𝑛 𝑛
(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) + (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)
= lim [√𝐷 𝑛 𝑛] =
𝑛→∞ (𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) − (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)
𝑛
(𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)
1+ 𝑛
(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷)
= lim √𝐷 𝑛 =
𝑛→∞ (𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)
1− 𝑛
[ (𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) ]
𝑛
𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷
1+( ′ )
𝑥 + 𝑦 ′ √𝐷
= lim √𝐷 𝑛 =
𝑛→∞
𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷
1−( ′ )
[ 𝑥 + 𝑦 ′ √𝐷 ]
Mas, como (𝑥 ′ , 𝑦 ′ ) é solução da equação de Pell, podemos escrever:
𝑥′2 − 𝐷𝑦′2 = 1

(𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷)(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) = 1
1
(𝑥 ′ − 𝑦 ′ √𝐷) =
(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷)
E portanto,
lim 𝑧𝑛 =
𝑛→∞

1
1+ 2𝑛
(𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷)
= lim √𝐷 = √𝐷
𝑛→∞ 1
1− 2𝑛
[ (𝑥 ′ + 𝑦 ′ √𝐷) ]

33
3. Recorrências Lineares de ordem qualquer

3.1 Definições

O estudo feito nos dois primeiros capítulos deste trabalho, pode ser generalizado
para recorrências de ordem qualquer, tendo em vista que, os conceitos já explorados per-
manecem válidos quando estendidos para recorrências de ordem maior que dois, como
veremos nas definições seguintes.
Definição 3.1.1 Chama-se relação de recorrência linear de ordem k à sequência na qual
cada termo é obtido a partir dos 𝑘 termos imediatamente anteriores a ele.
Uma recorrência linear de ordem 𝑘 é do tipo:
𝑎𝑛 = 𝑔1 (𝑛)𝑎𝑛−1 + 𝑔2 (𝑛)𝑎𝑛−2 + 𝑔3 (𝑛)𝑎𝑛−3 + ⋯ + 𝑔𝑘 (𝑛)𝑎𝑛−𝑘 + 𝑓(𝑛),
onde 𝑔𝑘 (𝑛) é uma função não nula. Além disso, se 𝑓(𝑛) = 0 a recorrência é dita homo-
gênea, caso contrário será não-homogênea.
Quando 𝑔1 (𝑛), 𝑔2 (𝑛), ... , 𝑔𝑘 (𝑛) são constantes e 𝑓(𝑛) = 0 , a relação de recor-
rência assume a forma
𝑎𝑛 = 𝑞1 𝑎𝑛−1 + 𝑞2 𝑎𝑛−2 + 𝑞3 𝑎𝑛−3 + ⋯ + 𝑞𝑘 𝑎𝑛−𝑘
A cada relação de recorrência linear de ordem 𝑘 podemos associar uma equação
de grau 𝑘, 𝑡 𝑘 − 𝑞1 𝑡 𝑘−1 − 𝑞2 𝑡 𝑘−2 − ⋯ − 𝑞𝑘−1 𝑡 − 𝑞𝑘 = 0, chamada equação caracterís-
tica.
Teorema 3.1.1. Se 𝑡1 , 𝑡2 , … , 𝑡𝑘−1 , 𝑡𝑘 são raízes da equação 𝑡 𝑘 − 𝑞1 𝑡 𝑘−1 − ⋯ − 𝑞𝑘−1 𝑡 −
𝑞𝑘 = 0, então 𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡1𝑛 + 𝑐2 𝑡2𝑛 + 𝑐3 𝑡3𝑛 + ⋯ + 𝑐𝑘 𝑡𝑘𝑛 é solução da recorrência para
quaisquer valores de 𝑐1 , 𝑐2 , 𝑐3 , … , 𝑐𝑘 .
Demonstração:
Substituindo 𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡1𝑛 + 𝑐2 𝑡2𝑛 + 𝑐3 𝑡3𝑛 + ⋯ + 𝑐𝑘 𝑡𝑘𝑛 na relação de recorrência
𝑎𝑛 − 𝑞1 𝑎𝑛−1 − 𝑞2 𝑎𝑛−2 − 𝑞3 𝑎𝑛−3 − ⋯ − 𝑞𝑘 𝑎𝑛−𝑘 e agrupando os termos, obtemos:

𝑐1 𝑡1𝑛−𝑘 (𝑡1𝑘 − 𝑞1 𝑡1𝑘−1 − ⋯ − 𝑞𝑘 ) + 𝑐2 𝑡2𝑛−𝑘 (𝑡2𝑘 − 𝑞1 𝑡2𝑘−1 − ⋯ − 𝑞𝑘 ) + ⋯


+ 𝑐𝑘 𝑡𝑘𝑛−𝑘 (𝑡𝑘𝑘 − 𝑞1 𝑡𝑘𝑘−1 − ⋯ − 𝑞𝑘 ) =

𝑐1 𝑡1𝑛−𝑘 ∙ 0 + 𝑐2 𝑡2𝑛−𝑘 ∙ 0 + ⋯ + 𝑐𝑘 𝑡𝑘𝑛−𝑘 ∙ 0 = 0


34
3.2 Resolução de recorrências de ordem qualquer

Teorema 3.2.1. Se 𝑡1 , 𝑡2 , … , 𝑡𝑘−1 , 𝑡𝑘 , são raízes distintas e não nulas da equação caracte-
rística, então todas as soluções da recorrência 𝑎𝑛 = 𝑞1 𝑎𝑛−1 + 𝑞2 𝑎𝑛−2 + 𝑞3 𝑎𝑛−3 + ⋯ +
𝑞𝑘 𝑎𝑛−𝑘 são da forma 𝑥𝑛 = 𝑐1 𝑡1𝑛 + 𝑐2 𝑡2𝑛 + 𝑐3 𝑡3𝑛 + ⋯ + 𝑐𝑘 𝑡𝑘𝑛 com 𝑐1 , 𝑐2 , 𝑐3 , … , 𝑐𝑘 cons-
tantes.
Demonstração:
Seja 𝑢𝑛 uma solução qualquer de 𝑎𝑛 − 𝑞1 𝑎𝑛−1 − 𝑞2 𝑎𝑛−2 − 𝑞3 𝑎𝑛−3 − ⋯ −
𝑞𝑘 𝑎𝑛−𝑘 = 0.
Pelo Teorema 3.1.1 podemos formar um sistema de equações no qual as constan-
tes 𝑐1 , 𝑐2 , 𝑐3 , … , 𝑐𝑘 sejam as soluções:
1 1 1 𝑐1 𝑢1
⋯ 𝑐2 𝑢2
𝑡1 𝑡2 𝑡𝑘
( ⋮ ⋱ ⋮ )∙( ⋮ )=( ⋮ )
𝑡1𝑘−1 𝑡2𝑘−1 ⋯ 𝑡𝑘𝑘−1 𝑐𝑘 𝑢𝑘

Note que, estas soluções são possíveis já que 𝑡1 , 𝑡2 , … , 𝑡𝑘−1 , 𝑡𝑘 , são raízes distintas
e não nulas.
Além disso o determinante
1 1 1

𝑡1 𝑡2 𝑡𝑘
| ⋮ ⋱ ⋮ |= ∏ (𝑡𝑗 −𝑡𝑖 )
𝑡𝑘−1
1 𝑡𝑘−1
2 ⋯ 𝑡𝑘−1
𝑘
1≤𝑖<𝑗≤𝑘

é diferente de zero. O que garante que o sistema tem solução.


Tomemos 𝑣𝑛 = 𝑢𝑛 − 𝑐1 𝑡1𝑛 − 𝑐2 𝑡2𝑛 − 𝑐3 𝑡3𝑛 − ⋯ − 𝑐𝑘 𝑡𝑘𝑛 . Vamos provar que
𝑣𝑛 = 0 para todo 𝑛.
Temos,
𝑣𝑛 − 𝑞1 𝑣𝑛−1 − 𝑞2 𝑣𝑛−2 − 𝑞3 𝑣𝑛−3 − ⋯ − 𝑞𝑘 𝑣𝑛−𝑘 = (𝑢𝑛 − 𝑞1 𝑢𝑛−1 − 𝑞2 𝑢𝑛−2 −
𝑞3 𝑢𝑛−3 − ⋯ − 𝑞𝑘 𝑢𝑛−𝑘 ) − 𝑐1 𝑡1𝑛−𝑘 (𝑡1𝑘 − 𝑞1 𝑡1𝑘−1 − ⋯ − 𝑞𝑘 ) − 𝑐2 𝑡2𝑛−𝑘 (𝑡2𝑘 − 𝑞1 𝑡2𝑘−1 −
⋯ − 𝑞𝑘 ) − ⋯ − 𝑐𝑘 𝑡𝑘𝑛−𝑘 (𝑡𝑘𝑘 − 𝑞1 𝑡𝑘𝑘−1 − ⋯ − 𝑞𝑘 ).

O primeiro parêntese é igual a zero já que 𝑢𝑛 é solução de 𝑎𝑛 − 𝑞1 𝑎𝑛−1 −


𝑞2 𝑎𝑛−2 − 𝑞3 𝑎𝑛−3 − ⋯ − 𝑞𝑘 𝑎𝑛−𝑘 = 0 e os demais parênteses são iguais a zero pois
𝑡1 , 𝑡2 , … , 𝑡𝑘−1 , 𝑡𝑘 são raízes da equação 𝑡 𝑘 − 𝑞1 𝑡 𝑘−1 − ⋯ − 𝑞𝑘−1 𝑡 − 𝑞𝑘 = 0. Assim,
𝑣𝑛 − 𝑞1 𝑣𝑛−1 − 𝑞2 𝑣𝑛−2 − 𝑞3 𝑣𝑛−3 − ⋯ − 𝑞𝑘 𝑣𝑛−𝑘 = 0.

Além disso, como 𝑐1 𝑡1 + 𝑐2 𝑡2 + 𝑐3 𝑡3 + ⋯ + 𝑐𝑘 𝑡𝑘 = 𝑢1 e 𝑐1 𝑡12 + 𝑐2 𝑡22 + 𝑐3 𝑡32 +


⋯ + 𝑐𝑘 𝑡𝑘2 = 𝑢2 , temos 𝑣1 = 𝑣2 = 0.
Entretanto, se 𝑣𝑛 − 𝑞1 𝑣𝑛−1 − 𝑞2 𝑣𝑛−2 − 𝑞3 𝑣𝑛−3 − ⋯ − 𝑞𝑘 𝑣𝑛−𝑘 = 0 e 𝑣1 = 𝑣2 = 0
então 𝑣𝑛 = 0 para todo 𝑛. ∎

35
3.3 Progressões Aritméticas de ordem qualquer

A Definição 1.4.1 nos permite ampliar o conceito de progressão aritmética para


ordens superiores de modo que dada uma sequência (𝑎𝑛 ), se a sequência das diferenças
∆𝑎𝑛 formam uma P.A., diz-se que a sequência (𝑎𝑛 ) é uma progressão aritmética de se-
gunda ordem. Neste caso, a diferença de segunda ordem ∆²𝑎𝑛 = ∆𝑎𝑛+1 - ∆𝑎𝑛 , é constante.
A próxima definição generaliza o conceito de progressão aritmética para uma or-
dem k qualquer.
Definição 3.3.1 Uma progressão aritmética de ordem 𝑘 é uma sequência tal que as dife-
renças entre cada termo e o termo anterior formam uma progressão aritmética de ordem
𝑘 − 1. Neste caso, a diferença de ordem 𝑘, ∆𝑘 𝑎𝑛 = ∆𝑘−1 𝑎𝑛+1 − ∆𝑘−1 𝑎𝑛 , é constante.
Vimos na Seção 2.4 que toda progressão aritmética de primeira ordem pode ser
representada por uma recorrência de segunda ordem do tipo 𝑎𝑛 = 2𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2.
Podemos então, empregar o mesmo raciocínio na análise de progressões superio-
res, como mostra o próximo exemplo.
Exemplo 3.3.1 Que relação de recorrência representa a progressão aritmética de segunda
ordem?
Em uma progressão aritmética de segunda ordem, a diferença constante é, como
vimos, a de ordem 2. Isso significa que a sequência das diferenças de ordem um é uma
P.A. de primeira ordem, ou seja:
∆𝑎𝑛 = 2∆𝑎𝑛−1 − ∆𝑎𝑛−2 .
Mas, por definição,
∆𝑎𝑛 = 𝑎𝑛+1 − 𝑎𝑛
Então,
𝑎𝑛+1 − 𝑎𝑛 = 2(𝑎𝑛 − 𝑎𝑛−1 ) − (𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2 )
𝑎𝑛+1 = 𝑎𝑛 + 2𝑎𝑛 − 2𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−1 + 𝑎𝑛−2
𝑎𝑛+1 = 3𝑎𝑛 − 3𝑎𝑛−1 + 𝑎𝑛−2 .
Ou ainda,
𝑎𝑛 = 3𝑎𝑛−1 − 3𝑎𝑛−2 + 𝑎𝑛−3 .
A proposição seguinte generaliza este resultado.
Proposição 3.3.1 Toda progressão aritmética (𝑎𝑛 ) de ordem 𝑘 pode ser representada por
uma recorrência linear de ordem 𝑘 + 1 tal que, 𝑎𝑛 = (𝑘+1 1
)𝑎𝑛−1 − (𝑘+12
)𝑎𝑛−2 +
𝑘+1 𝑘+1
( 3 )𝑎𝑛−3 + ⋯ + (−1)𝑘 (𝑘+1)𝑎𝑛−𝑘−1 .

Demonstração:

36
Vamos proceder por indução sobre 𝑘.
Para 𝑘 = 1, a proposição é claramente verdadeira, pois a expressão
𝑎𝑛 = 2𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2 encontrada na Seção 2.4 pode ser reescrita como:
2 2
𝑎𝑛 = ( ) 𝑎𝑛−1 − ( ) 𝑎𝑛−2
1 2
Supondo que a proposição seja correta para um certo 𝑘, vamos provar que ela é
verdadeira para 𝑘 + 1.
De fato, seja (𝑎𝑛 ) uma progressão aritmética de ordem 𝑘 + 1.
De acordo com a Definição 3.3.1 a sequência (∆𝑎𝑛 ) das diferenças entre seus
termos consecutivos é uma progressão aritmética de ordem 𝑘.
Mas, por hipótese de indução, (∆𝑎𝑛 ) pode ser expressa por uma relação de recor-
rência como:
𝑘+1 𝑘+1 𝑘+1
∆𝑎𝑛−1 = ( ) ∆𝑎𝑛−2 − ( ) ∆𝑎𝑛−3 + ⋯ + (−1)𝑘 ( ) ∆𝑎𝑛−𝑘−2
1 2 𝑘+1
Entretanto, ∆𝑎𝑛 = 𝑎𝑛+1 − 𝑎𝑛 .
Fazendo as substituições, temos:
𝑘+1 𝑘+1
𝑎𝑛 − 𝑎𝑛−1 = ( ) ∙ (𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2 ) − ( ) ∙ (𝑎𝑛−2 − 𝑎𝑛−3 ) + ⋯ + (−1)𝑘
1 2
𝑘+1
∙( ) ∙ (𝑎𝑛−𝑘−1 − 𝑎𝑛−𝑘−2 )
𝑘+1
Assim,
𝑘+1 𝑘+1 𝑘+1
𝑎𝑛 = [1 + ( )] ∙ 𝑎𝑛−1 − [( )+( )] ∙ 𝑎𝑛−2 + ⋯
1 1 2
𝑘+1 𝑘+1 𝑘+1
+ (−1)𝑘+1 [( )+( )] ∙ 𝑎𝑛−𝑘−1 + (−1)𝑘+2 ( ) ∙ 𝑎𝑛−𝑘−2
𝑘 𝑘+1 𝑘+1
e, pela equação (2.2), obtemos
𝑘+2 𝑘+2 𝑘+2 𝑘+2
𝑎𝑛 = ( ) 𝑎𝑛−1 − ( ) 𝑎𝑛−2 + ( ) 𝑎𝑛−3 + ⋯ + (−1)𝑘+3 ( )𝑎
1 2 3 𝑘 + 2 𝑛−𝑘−2

37
3.4 Números poligonais

Tendo seu berço na Grécia antiga, mais precisamente junto à Escola Pitagórica,
os chamados números figurados são exemplo de progressões aritméticas de várias ordens
e, por conseguinte são também exemplo de sequências que podem ser representadas por
relações de recorrência.
Os Pitagóricos representavam com tais números, a quantidade necessária de pon-
tos para formar determinados arranjos geométricos, fazendo assim uma espécie de ponte
entre a geometria e a aritmética.
Vemos nas figuras 3.4.1, 3.4.2 e 3.4.3 alguns exemplos iniciais.

1 3 6 10 15

Figura 3.4.1 Números triangulares

38
Podemos observar que o padrão de pontos cresce formando figuras planas, em
particular, polígonos regulares, vindo daí as denominações triangulares, quadrados, pen-
tagonais... Tais denominações costumam ser classificadas como números poligonais.
Definição 3.4.1 Chama-se número poligonal, a quantidade de pontos usada para construir
uma figura formada pela sobreposição sucessiva de polígonos regulares de mesmo nú-
mero de lados e com quantidade de pontos em cada lado aumentada de uma unidade em
relação ao polígono imediatamente anterior e de modo que cada polígono sobreposto te-
nha dois lados coincidentes com todos os antecessores e os pontos sobre estes lados tam-
bém coincidam.
Cada sequência de números poligonais é classificada de acordo com o polígono
do qual se originou.
Observando as imagens notamos que, em cada sequência:

 A primeira “figura” é formada por um único ponto. Portanto o número 1 é, ao


mesmo tempo, triangular, quadrado, pentagonal e assim por diante.
 A segunda figura é formada pelo número de pontos correspondente à quantidade
de vértices do polígono que nomeia a sequência.
 A quantidade de pontos é sempre a mesma em todos os lados de cada figura.
 A partir da terceira figura, cada polígono cresce “aproveitando” alguns pontos da
figura antecedente. Em particular, todos os pontos de dois lados adjacentes de uma
dada figura pertencem à figura subsequente.
Partindo destas observações, vamos mostrar que as sequências de números poli-
gonais podem ser expressas por meio de relações de recorrência.
Proposição 3.4.1 Seja 𝕓 ∊ ℕ, o número de vértices do polígono que nomeia a sequên-
cia de números poligonais. Se (𝑎𝑛 ) é a sequência do número de pontos que formam
o polígono de 𝕓 vértices, então (𝑎𝑛 ) é uma progressão aritmética de segunda ordem
e obedece à recorrência 𝑎𝑛 = 3𝑎𝑛−1 − 3𝑎𝑛−2 + 𝑎𝑛−3 .
Demonstração:
Primeiramente observe que, em cada sequência, ao passar de uma figura à se-
guinte, acrescentamos (𝕓 − 2) lados pois, dois são “aproveitados”. Se estamos constru-
indo a n-ésima figura, serão acrescidos (𝕓 − 2) ∙ 𝑛 pontos.
Entretanto, é preciso subtrair deste número, os vértices comuns aos lados acresci-
dos para não serem contados em duplicata. Estes são em número de (𝕓 − 3) vértices.
Assim, o número real de pontos acrescentados a uma figura para formar a seguinte
é de (𝕓 − 2) ∙ 𝑛 − (𝕓 − 3).
Portanto podemos escrever:

𝑎𝑛 = 𝑎𝑛−1 + (𝕓 − 2) ∙ 𝑛 − 𝕓 + 3 (3.1)

Note que,

39
∆𝑎𝑛−1 = 𝑎𝑛 − 𝑎𝑛−1 = (𝕓 − 2) ∙ 𝑛 − 𝕓 + 3
Ou seja, como 𝕓 é constante em cada sequência, as diferenças entre os termos
consecutivos formam uma P.A.
Por conseguinte, toda sequência de números poligonais é uma progressão aritmé-
tica de segunda ordem e, conforme vimos na Seção 3.3, pode ser representada pela recor-
rência 𝑎𝑛 = 3𝑎𝑛−1 − 3𝑎𝑛−2 + 𝑎𝑛−3.

Vemos na Tabela 3.4.1 os valores iniciais de algumas sequências de números po-
ligonais.
Números Poligonais

Tabela 3.4.1

3.5 Números piramidais

O passo natural seguinte no âmbito dos números figurados é seguir do plano ao


espaço formando figuras tridimensionais a partir das que dão origem aos números poli-
gonais.
Desta forma, se trocarmos os pontos dos números poligonais podemos por bolas
ou esferas ou ainda por cubos, poderemos criar “pirâmides” sobrepondo as esferas orga-
nizadas em formato poligonal como camadas sucessivas.
Os arranjos construídos deste modo são classificados em função da figura poligo-
nal da qual se originou. Assim teremos os números piramidais de base triangular, qua-
drada, pentagonal e assim por diante.
Com base nestas ideias temos a definição de números piramidais.
Definição 3.5.1 Chama-se número piramidal de base triangular, quadrada, pentagonal e
assim por diante, ao número obtido pela soma dos 𝑛 primeiros números poligonais res-
pectivamente triangulares, quadrados, pentagonais e assim por diante.

40
Partindo desta definição concluímos que as sequências de números piramidais são
progressões aritméticas de terceira ordem pois as diferenças entre seus termos consecuti-
vos formam as sequências de números poligonais que, como já vimos são progressões de
segunda ordem.
A figura 3.5.1 nos dá uma ideia do processo realizado com os números quadrados.

Figura 3.5.1 Números piramidais de base quadrada

Vemos na Tabela 3.5.1 os valores iniciais de algumas sequências de números pi-


ramidais.
Números Piramidais de base

Tabela 3.5.1

3.6 Números figurados de dimensão qualquer

Vimos na seção anterior que o conceito de número poligonal pode ser ampliado
para o de número piramidal.
Embora não haja meios de visualizar uma figura quadridimensional formada pela
sobreposição de números piramidais, é perfeitamente possível generalizar a definição de
números piramidais para dimensões maiores (e menores) que as já vistas.

41
Definição 3.6.1 Chama-se número figurado de dimensão 𝕕 na base 𝕓, o número igual à
soma dos 𝑛 primeiros termos da sequência formada pelos números figurados de dimensão
𝕕 − 1 na base 𝕓, sendo 𝕓, 𝕕 ∊ ℕ e 𝕕 ≥ 1 e 𝕓 ≥ 3 .
Definidos desta forma, os números figurados representam toda uma classe de pro-
gressões aritméticas de ordem igual à dimensão 𝕕, sendo que para cada dimensão, as
progressões se diferenciam pela base à qual se vinculam.
Vemos na Tabela 3.6.1 um resumo desta nomenclatura.
Nomenclatura dos números figurados
𝕓 Base Dimensão (𝕕) Classificação
3 Triângulo 1 Lineares
4 Quadrado 2 Poligonais
5 Pentágono 3 Piramidais
6 Hexágono 4 4ª dimensão
7 Heptágono 5 5ª dimensão
Tabela 3.6.1
Como exemplo, vemos na Tabela 3.6.2 as primeiras sequências de números figu-
rados de base 𝕓 = 3 e dimensões de 1 a 9 até o 7º termo.

n⧵𝕕 1 2 3 4 5 6 7 8 9
1 1 1 1 1 1 1 1 1 1
2 2 3 4 5 6 7 8 9 10
3 3 6 10 15 21 28 36 45 55
4 4 10 20 35 56 84 120 165 220
5 5 15 35 70 126 210 330 495 715
6 6 21 56 126 252 462 792 1287 2002
7 7 28 84 210 462 924 1716 3003 5005
Tabela 3.6.2

Note que as sequências dos números figurados de base triangular correspondem


às colunas do Triângulo de Pascal.
De fato, as sequências de números binomiais que surgem nas colunas do Triângulo
de Pascal são, ao mesmo tempo, números figurados e progressões aritméticas de ordem
qualquer.
Devido ao fato de que sendo os números triangulares de dimensão 1 a sequência
dos números naturais e portanto idêntica à coluna 1 do Triângulo, ao obedecerem à rela-
ção de Stifel, cada número de uma coluna 𝑘 qualquer do Triângulo Aritmético equivale à
soma dos n primeiros termos da coluna 𝑘 − 1. Exatamente como ocorre com os números
figurados.
Poderíamos então alternativamente definir o Triângulo de Pascal como o Triân-
gulo dos números figurados de base 3.
Isto significa que podemos construir um “triângulo aritmético” para cada uma das
bases de números figurados.
O número de ordem das colunas do triângulo corresponde à dimensão do número
figurado, sendo que, no triângulo admite-se a dimensão 0 para a primeira coluna, embora
esta seja sempre, por isso mesmo, uma sequência constante.

42
Como exemplo, construímos as primeiras linhas de um triângulo com números
figurados de base 4.
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
0 2
1 2 1
2 2 3 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0
3 2 5 4 1 0 0 0 0 0 0 0 0
4 2 7 9 5 1 0 0 0 0 0 0 0
5 2 9 16 14 6 1 0 0 0 0 0 0
6 2 11 25 30 20 7 1 0 0 0 0 0
7 2 13 36 55 50 27 8 1 0 0 0 0
8 2 15 49 91 105 77 35 9 1 0 0 0
9 2 17 64 140 196 182 112 44 10 1 0 0
10 2 19 81 204 336 378 294 156 54 11 1 0
11 2 21 100 285 540 714 672 450 210 65 12 1
Tabela 3.6.3 Triângulo de números figurados de base 4

É possível explorar este, bem como qualquer dos outros triângulos aritméticos
assim formados que guardam várias semelhanças e identidades relacionadas com o triân-
gulo aritmético original.

43
4. Problemas e Aplicações
Procuramos trazer neste capítulo alguns problemas envolvendo os conceitos de-
senvolvidos até aqui, bem como os conceitos que envolvem sequências de modo geral
além de sugerir algumas atividades para o trabalho em sala de aula.
Queremos ressaltar o fato de que quaisquer que sejam as aplicações, problemas
ou atividades sugeridas, o mais importante talvez seja a investigação matemática.
O professor deve orientar tanto quanto possível seus alunos na descoberta de re-
lações matemáticas, padrões e regularidades. Algo que, no estudo de sequências, é de uma
riqueza incalculável.
Uma boa medida, por exemplo, é explorar determinado problema já resolvido,
mudando parâmetros, variáveis ou o próprio questionamento afim de que o aluno perceba
que influência esta ou aquela informação tem na situação-problema.
É preciso ter em mente que:
... se um dos objetivos da educação matemática é fazer com que os
alunos aprendam como é que as pessoas descobrem fatos e métodos, deveriam
também, durante uma parte significativa do tempo de aprendizagem, dedicar-
se a essa mesma atividade: descobrir os fatos. (GOLDENBERG, 1999, apud,
FIORENTINI, 2006, p.135)

Em vários momentos, nos capítulos precedentes procuramos agir desta forma.


Pensando e repensando as situações. Esta é, acreditamos, nossa melhor sugestão de ativi-
dade.

4.1 Problemas

Problema 4.1.1
Segundo PERELMAN (1986) o problema mais antigo que se conhece sobre pro-
gressões não é o da recompensa ao inventor do xadrez e sim um que aparece no famoso
papiro egípcio de Rind e que enunciamos em seguida.
Foram repartidas cem medidas de trigo entre cinco pessoas de modo que a segunda
recebeu mais que a primeira, tanto quanto a terceira recebeu a mais que a segunda, a
quarta recebeu mais que a terceira e a quinta mais que a quarta. Além disso, as duas
primeiras juntas receberam sete vezes menos que as três últimas juntas.
Quanto recebeu cada pessoa?
Solução:
As quantidades de medidas de trigo recebidas pelas pessoas formam uma progres-
são aritmética de 5 termos na qual a soma dos 3 últimos termos é igual a sete vezes a
soma dos 2 primeiros.

44
Sejam 𝑎 − 2𝑟, 𝑎 − 𝑟, 𝑎, 𝑎 + 𝑟, 𝑎 + 2𝑟 as medidas de trigo.
A soma dos termos é 5𝑎 = 100 portanto uma das pessoas recebe 20 medidas de
trigo.
Além disso, temos que 𝑎 + (𝑎 + 𝑟) + (𝑎 + 2𝑟) = 7 ∙ [(𝑎 − 𝑟) + (𝑎 − 2𝑟)].
55
E como já sabemos que 𝑎 = 20, encontramos 𝑟 = .
6
5 65 175 115
Assim, as medidas de trigo são: 3 , , 20, e .
6 6 3

Observações:
Surge aqui uma oportunidade de trabalhar frações que é um tema espinhoso para
muitos alunos.
Por outro lado, uma boa linha de investigação pode ser a de determinar para que
quantidade de “medidas de trigo”, todas as pessoas receberiam valores inteiros.
Se bem orientados, os alunos descobrirão que, para alguns valores isto é impossí-
vel enquanto que, para outros, é necessário alterar a proporção entre as parcelas.
Por exemplo, no problema em questão, se a quantia recebida pelos 3 últimos fosse
o triplo do recebido pelos 2 primeiros, teríamos como resultados: 10, 15, 20, 25 e 30.

Problema 4.1.2
Para 31 galinhas planejou-se uma quantidade de alimento a base de 100 gramas
semanais para cada uma durante certo tempo. Entretanto, como a cada semana o número
de galinhas diminuía em uma unidade, a reserva de alimento durou o dobro do planejado.
Que quantidade de alimento foi reservada e para quanto tempo?
Solução:
Uma das formas de pensar este problema é verificar quanto alimento deixou de
ser consumido ao longo do tempo.
Se a quantidade de aves houvesse permanecido sempre a mesma, o gasto de ali-
mento seria de 3100𝑔 por semana. Tomando 𝑛 como o número de semanas e (𝑎𝑛 ) como
a sequência que representa o gasto acumulado de alimento, poderíamos escrever:
𝑎𝑛 = 3100𝑛
Entretanto, na segunda semana foram gastos 100𝑔 a menos de alimento, na ter-
ceira 200𝑔 a menos e assim por diante. De modo que a economia acumulada de alimento
foi de 𝟏𝟎𝟎𝒈 na 2ª semana, 100𝑔 + 200𝑔 = 𝟑𝟎𝟎𝒈 na 3ª semana, 100𝑔 + 200𝑔 +
300𝑔 = 𝟔𝟎𝟎𝒈 na 4ª semana e assim por diante.
Note que os valores encontrados são os números triangulares multiplicados por
100. Resolvendo a recorrência que define os números triangulares, encontramos a conhe-
𝑛(𝑛−1)
cida fórmula que neste caso será multiplicada por 100 como vimos.
2

45
Chamando de (𝑎′ 𝑛 ) a sequência que representa a quantidade real de gasto acu-
mulado de alimento podemos escrever:

𝑛(𝑛 − 1)
𝑎′𝑛 = 3100𝑛 − 100
2
𝑎′𝑛 = 3150𝑛 − 50𝑛2 (4.1)
Tomando o número de semanas por 𝑚, temos que a quantidade de alimento reser-
vado foi 3100𝑚 mas, segundo o problema essa reserva durou 2𝑚 semanas, ou seja,
𝑎′2𝑚 = 3100𝑚.
Substituindo a expressão (4.1) na igualdade obtida temos.
3100𝑚 = 3150 ∙ (2𝑚) − 50 ∙ (2𝑚)2
O que nos fornece 𝑚 = 16.
Foram preparados portanto, 49600𝑔 de alimentos para 16 semanas.

Problema 4.1.3
Um problema clássico e que já foi recontado em outras versões é o da pessoa que
sai às compras e gasta na primeira loja que entra, metade do que tem no bolso e mais um
real. Na segunda loja gasta metade do que sobrou e mais um real. Na loja seguinte ocorre
o mesmo. Entretanto, ao sair da terceira e última loja, a pessoa percebe que não tem di-
nheiro algum. Quantos reais ela possuía ao sair de casa?
Solução:
A estratégia mais utilizada na resolução deste problema é a de voltar da situação
final até a inicial realizando as operações inversas. Sem dúvida para valores pequenos e
uma sequência de apenas 3 termos, é uma boa estratégia. Vamos porém, aproveitar a ideia
do problema para pensar de modo mais geral.
Seja (𝑎𝑛 ) a sequência que fornece a quantidade, em reais, que restou a cada com-
pra.
Neste caso, 𝑎1 corresponde ao que a pessoa possuía ao sair de casa e 𝑎𝑛+1 corres-
ponde ao que restou após a n-ésima compra.
Após cada compra, resta o valor antecedente menos metade dele e menos um real.
Ou seja,
𝑎𝑛
𝑎𝑛+1 = 𝑎𝑛 − −1
2
𝑎𝑛
𝑎𝑛+1 = −1
2

46
Resolvendo esta recorrência de acordo com o que vimos no Exemplo 1.5.1, en-
contramos:
𝑎1 + 2
𝑎𝑛+1 = −2
2𝑛
No problema em questão, o dinheiro acaba após a 3ª compra. Portanto, 𝑎4 = 0.
Assim, temos:
𝑎1 + 2
𝑎4 = −2=0 ,
23
de onde encontramos que a pessoa saiu de casa com 14 reais.
Note que, a solução da recorrência nos permite encontrar o valor inicial qualquer
que seja o número de compras efetuadas até o dinheiro acabar.
Além disso, pode-se propor mudanças no problema como por exemplo no que
resta após a última compra. Ou então, quanto deve ser o valor inicial para que após 𝑛
compras, mesmo ainda restando dinheiro, seja impossível continuar gastando metade
mais um.

Problema 4.1.4
Em [11], encontramos um problema semelhante ao anterior e bastante interessante
chamado “As pérolas do Rajá”.
Um velho rajá deixou como herança para suas filhas um lote de pérolas. Determi-
nou, porém, que a partilha deveria ser feita por ordem decrescente de idade e de modo
que à primeira filha coubessem uma pérola e mais um sétimo do que restasse, à segunda
filha coubessem duas pérolas e mais um sétimo do que restasse e assim por diante até a
filha mais nova.
Como cada filha, antes de retirar a sétima parte, deveria retirar uma quantidade
sempre de uma unidade a mais que a antecessora, as filhas mais novas acreditaram-se
prejudicadas e o caso foi parar na justiça.
O juiz, entretanto afirmou que a partilha estava correta e que todas receberiam
partes iguais.
Quantas eram as filhas e quantas pérolas deixou como herança o rajá?
Solução:
Seja (𝑎𝑛 ) uma sequência tal que, 𝑎1 corresponde ao número de pérolas deixadas
como herança e 𝑎𝑛+1 corresponde ao que sobrou do total após a retirada da n-ésima filha.
Assim, temos:
𝑎𝑛 − 𝑛
𝑎𝑛+1 = 𝑎𝑛 − 𝑛 − ( )
7

47
𝑎𝑛 − 𝑛
𝑎𝑛+1 = 6 ( ) (4.2)
7
Note que, como a herança é dividida igualmente para cada filha, a diferença ∆𝑎𝑛
é constante e portanto a sequência (𝑎𝑛 ) é uma progressão aritmética!
Mas, já vimos que toda progressão aritmética obedece à recorrência 𝑎𝑛 =
2𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2 e portanto podemos escrever;
𝑎3 = 2𝑎2 − 𝑎1
Substituindo nos três primeiros termos a expressão (4.2), obtemos:
𝑎2 − 2 𝑎1 − 1
6( ) = 2 ∙ 6( ) − 𝑎1
7 7
7𝑎1
𝑎2 − 2 = 2𝑎1 − 2 −
6
5𝑎1
𝑎2 =
6
𝑎1 − 1 5𝑎1
6( )=
7 6
36𝑎1 − 36 = 35𝑎1
𝑎1 = 36
Assim, vemos que o rajá deixou 36 pérolas para suas filhas e, como a primeira
filha retirou uma pérola e mais a sétima parte das 35 que sobraram, ficou com 6 pérolas,
a mesma quantidade cabendo a todas as outras. Portanto o rajá tinha 6 filhas.
É inevitável observar que a quantidade de filhas e de pérolas que couberam a cada
uma é a mesma, assim como a aparente coincidência de a herança total ser o quadrado do
número de filhas.
De fato, é possível mostrar com os mesmos argumentos usados na solução, que a
forma de partilha proposta pelo rajá funciona somente nestas condições. Ou seja, se o
número de filhas for a raiz quadrada do número total de pérolas.
1 1
Se generalizarmos o problema substituindo 7 por, digamos 𝑞 , sendo 𝑞 − 1, o nú-
mero de filhas, encontraremos (𝑞 − 1)2 como sendo o total de pérolas deixadas como
herança.

Problema 4.1.5 (32nd British Mathematical Olympiad, 1996)


Uma função 𝑓 é definida para todos os inteiros positivos e satisfaz as condições:
𝑓(1) = 1996 e 𝑓(1) + 𝑓(2) + 𝑓(3) + ⋯ + 𝑓(𝑛) = 𝑛2 𝑓(𝑛).
Calcule o exato valor de 𝑓(1996).

48
Solução:
Este interessante problema, apresenta uma solução relativamente simples, embora
talvez a princípio não pareça.
Note inicialmente que, apesar de a função ser definida por recorrência, o número
de termos anteriores dos quais cada termo seguinte depende, não é fixo, aumentando a
cada passo.
Isolando 𝑓(𝑛) na expressão que define a função, obtemos a recorrência:
𝑓(1) + 𝑓(2) + ⋯ + 𝑓(𝑛 − 1)
𝑓(𝑛) =
𝑛2 − 1
Para entender melhor o problema vamos calcular os valores iniciais de 𝑓(𝑛) omi-
tindo, porém, o valor de 𝑓(1).
𝑓(1)
𝑓(2) =
3

𝑓(1) + 𝑓(2) 𝑓(1) 𝑓(1) 𝑓(1)


𝑓(3) = = + =
8 8 3∙8 6
𝑓(1) + 𝑓(2) + 𝑓(3) 𝑓(1) 𝑓(1) 𝑓(1) 𝑓(1)
𝑓(4) = = + + =
15 15 3 ∙ 15 6 ∙ 15 10
A observação dos primeiros resultados sugere que, quando escrevemos cada 𝑓(𝑛)
em função de 𝑓(1), os denominadores das frações que surgem são os números triangula-
res.
Simbolicamente, parece que a solução da recorrência é:
𝑓(1)
𝑓(𝑛) =
(𝑛+1
2
)

Antes de completarmos a solução do problema, vamos demonstrar que a solução


da recorrência está correta.
Vamos proceder por indução sobre 𝑛
𝑓(1)
Para 𝑛 = 1, a solução é correta pois, 𝑓(1) = (22)
= 𝑓(1).

Supondo que a expressão seja válida para um certo 𝑛, vamos provar que é válida
para 𝑛 + 1.
A partir da definição da função, podemos escrever:
(𝑛2 − 1)𝑓(𝑛) = 𝑓(1) + 𝑓(2) + ⋯ + 𝑓(𝑛 − 1)
e
[(𝑛 + 1)2 − 1]𝑓(𝑛 + 1) = 𝑓(1) + 𝑓(2) + ⋯ + 𝑓(𝑛 − 1) + 𝑓(𝑛)
Subtraindo uma igualdade da outra, encontramos:

49
[(𝑛 + 1)2 − 1]𝑓(𝑛 + 1) − (𝑛2 − 1)𝑓(𝑛) = 𝑓(𝑛)
[𝑛2 + 2𝑛]𝑓(𝑛 + 1) = 𝑛2 𝑓(𝑛)
𝑛𝑓(𝑛)
𝑓(𝑛 + 1) =
𝑛+2
𝑓(1)
Mas, por hipótese de indução, temos que 𝑓(𝑛) = (𝑛+1), portanto:
2

𝑛 𝑓(1)
𝑓(𝑛 + 1) = ∙ 𝑛+1
𝑛+2 ( 2 )

𝑛 𝑓(1)
𝑓(𝑛 + 1) = ∙
𝑛 + 2 (𝑛 + 1)𝑛
2
𝑓(1)
𝑓(𝑛 + 1) =
(𝑛 + 2)(𝑛 + 1)
2
Ou seja,
𝑓(1)
𝑓(𝑛 + 1) =
(𝑛+2
2
)


Assim, sabendo que 𝑓(1) = 1996, podemos concluir a solução do problema.
𝑓(1)
𝑓(1996) =
(1997
2
)
1996 2
𝑓(1996) = =
1997 ∙ 1996 1997
2
Podemos ainda explorar com os alunos outras vertentes deste problema, alterando
as condições iniciais da recorrência e tentando identificar as mudanças decorrentes na
sequência.

Problema 4.1.6
Considere um retângulo de dimensões 𝑛 e 𝑛 + 1 unidades de comprimento subdi-
vidido em quadrados com uma unidade de comprimento de lado. A figura mostra um
retângulo 3 𝑥 4 como exemplo.

50
De quantas maneiras podemos escolher dois quadrados deste retângulo de modo
que sejam adjacentes?
Solução:
Por simples inspeção verificamos que para 𝑛 = 1 (retângulo 1 𝑥 2) só há uma
escolha possível.
Para 𝑛 = 2 (retângulo 2 𝑥 3) há sete escolhas possíveis.
Prosseguindo, obtemos os resultados:
Medida 1𝑥2 2𝑥3 3𝑥4 4𝑥5 ⋯ 𝑛𝑥𝑛+1
Escolhas 1 7 17 31 ⋯ ?

Chamemos (𝑎𝑛 ) = (1, 7, 17, 31, … ) a sequência dos resultados.


Note que as diferenças entre termos consecutivos da sequência formam uma P.A.
de primeira ordem, ∆𝑎𝑛 = (6, 10, 14, … ), o que significa que a sequência dos resultados
é uma progressão aritmética de segunda ordem e obedece à recorrência 𝑎𝑛 = 3𝑎𝑛−1 −
3𝑎𝑛−2 + 𝑎𝑛−3 .
Como exemplo observe que 𝑎4 = 3 ∙ 17 − 3 ∙ 7 + 1 = 31.
Resolvendo a recorrência encontramos, 𝑎𝑛 = 2𝑛2 − 1.
Inúmeras são as variações que tal problema admite. Podemos mudar o critério de
escolha, a relação entre as dimensões da figura ou mesmo a própria figura, gerando novas
situações-problema e consequentemente novas sequências.

Problema 4.1.7
Sejam os pontos 𝐴(𝑖, 1), 𝐵(𝑗, 2) 𝑒 𝐶(𝑘, 3) com 𝑖, 𝑗, 𝑘 ≤ 𝑛 e 𝑖, 𝑗, 𝑘, 𝑛 ∊ ℕ. De quan-
tos modos diferentes se pode escolher os pontos 𝐴, 𝐵 e 𝐶 de modo que estejam alinhados?
Solução:
Sabemos da Geometria Analítica que, se três pontos são colineares, o determi-
nante formado por suas coordenadas é igual a zero. Ou seja,
𝑖 1 1
|𝑗 2 1| = 0
𝑘 3 1
De onde obtemos,
𝑘+𝑖
𝑗=
2
Ora, como 𝑗, 𝑘, 𝑖 são naturais, 𝑘 e 𝑖 devem ter a mesma paridade e como são abs-
cissas de pontos no plano, a ordem em que os valores de 𝑘 e 𝑖 são dados, corresponde a
dois outros pontos no plano. Por exemplo, (2, 1), (4, 2), (6, 3) e (6, 1), (4, 2), (2, 3).

51
Trata-se então de verificar quantos números pares e quantos ímpares existem de 1
a 𝑛 elevando ao quadrado cada quantidade para obter o número de formas com que as
coordenadas 𝑖 e 𝑘 podem ser simultaneamente pares ou ímpares, somando-se então os
resultados parciais.
Por exemplo, no caso em que 𝑛 = 5, temos 2 números pares (2 e 4) e 3 números
ímpares (1,3 e 5). Portanto, 𝑖 e 𝑘 podem assumir 4 valores (2 e 2, 2 e 4, 4 e 2, 4 e 4),
partindo dos números pares. O mesmo ocorre com os ímpares que vão gerar 9 valores
para 𝑖 e 𝑘.
Vamos dividir a solução em dois casos:
𝑛−1 𝑛+1
Para 𝑛 ímpar, temos números pares e números ímpares e portanto:
2 2

𝑛−1 2 𝑛+1 2
𝑎𝑛 = ( ) +( )
2 2

𝑛2 + 1
𝑎𝑛 = (4.3)
2
𝑛 𝑛
Para 𝑛 par, temos 2 números pares e 2 números ímpares e portanto:

𝑛 2 𝑛 2
𝑎𝑛 = ( ) + ( )
2 2

𝑛2
𝑎𝑛 = (4.4)
2
Os primeiros valores de 𝑎𝑛 podem ser vistos na tabela abaixo:
𝑛 1 2 3 4 5 6 7 8 9
𝑎𝑛 1 2 5 8 13 18 25 32 41
∆𝑎𝑛 1 3 3 5 5 7 7 9 9
∆²𝑎𝑛 2 0 2 0 2 0 2 0 2
Tabela 4.1.1

Observe ainda que as expressões (4.3) e (4.4) diferem unicamente pelo acréscimo,
1
ou não, da fração 2.

Assim, podemos escrever:

𝑛2 1
𝑎𝑛 = + ∙1 ( 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑛 í𝑚𝑝𝑎𝑟)
2 2

𝑛2 1
𝑎𝑛 = + ∙0 (𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑛 𝑝𝑎𝑟)
2 2
Podemos unir as expressões escrevendo,

52
𝑛2 1
𝑎𝑛 = + ∙𝑏
2 2 𝑛
1−(−1)𝑛
Se tomarmos 𝑏𝑛 = , teremos 𝑏𝑛 = 1 quando 𝑛 é ímpar e 𝑏𝑛 = 0 quando 𝑛
2
é par. E portanto,
2𝑛2 + 1 − (−1)𝑛
𝑎𝑛 =
4

Problema 4.1.8
Considere os números 24 e 48. Note que, além de o último ser o dobro do primeiro,
ambos são antecessores de quadrados perfeitos. Ou seja,
24 + 1 = 25 = 52
e,
2 ∙ 24 + 1 = 48 + 1 = 49 = 7²
Existirão outras duplas de inteiros positivos com a mesma propriedade? Quantas?
Quais?
Solução:
Exprimindo a situação algebricamente, escrevemos:
𝑘 + 1 = 𝑥2 e
2 ∙ 𝑘 + 1 = 𝑦2
Da primeira igualdade, obtemos: 𝑘 = 𝑥 2 − 1 o que, substituída na segunda, for-
nece:
2(𝑥 2 − 1) + 1 = 𝑦²
2𝑥 2 − 1 = 𝑦²
2𝑥 2 − 𝑦 2 = 1
Note que, a expressão que obtivemos é uma variante da Equação de Pell já discu-
tida na seção 2.9.
Neste caso, a solução trivial é o par (1, 1) e a solução seguinte é justamente a que
dá origem aos números mencionados pelo problema. Ou seja, para o par (5, 7), temos
𝑘 = 52 − 1 = 24.
De modo análogo ao que fizemos na seção 2.9, podemos mostrar que a solução
geral (𝑎𝑛 , 𝑏𝑛 ) é formada pelas sequências (𝑎𝑛 ) e (𝑏𝑛 ) tais que 𝑎𝑛 = 6 ∙ 𝑎𝑛−1 − 𝑎𝑛−2 e
𝑏𝑛 = 6 ∙ 𝑏𝑛−1 − 𝑏𝑛−2. Assim, o problema apresentado tem infinitas soluções sendo a pró-
xima o par (29, 41) e portanto, 𝑘 = 292 − 1 = 840 e 2𝑘 = 1680.

53
4.2 Sugestões de atividades

Atividade 4.2.1
Trabalho em grupo.
Algumas pessoas uniram-se para realizar um trabalho coletivo. Se todos houves-
sem trabalhado o mesmo número de horas, o trabalho teria sido realizado em 24 horas.
Entretanto, na hora marcada para início do trabalho, apenas uma pessoa do grupo compa-
receu. Após certo período de tempo, outro membro do grupo uniu-se ao primeiro. Passado
mais um período igual de tempo, incorporou-se ao trabalho uma terceira pessoa e assim
por diante até o último membro do grupo. Quando o trabalho foi concluído, verificou-se
que a primeira pessoa a chegar havia trabalhado por um período de tempo 11 vezes maior
que a última pessoa a chegar. Durante quanto tempo trabalhou a última pessoa?
Este problema, encontrado em [9] e aqui transcrito com adaptações, é semelhante
ao Problema 4.1.2 e será deixado como exercício. Vale a pena, após resolvido, explorar
com os alunos alguns aspectos como:
O fato de o intervalo de tempo em que os trabalhadores chegam não ter sido defi-
nido influencia a solução do problema?
É possível, com os dados disponíveis, encontrar o número de trabalhadores do
grupo?
O que muda e o que não muda se alterarmos os dados do problema?

Atividade 4.2.2

Na mesma linha dos problemas 4.1.3 e 4.1.4, encontramos em [11] o problema


dos 3 marinheiros.
Uma embarcação escapou de um naufrágio contando com a bravura e a destreza
de 3 de seus marujos. O capitão do navio resolve então recompensá-los e promete repartir
igualmente entre eles certo número de moedas. Ora, tais moedas que se contavam entre
200 e 300, foram colocadas em uma caixa para que o almoxarife do navio fizesse a entrega
no dia seguinte.
Entretanto, durante a noite, um dos marinheiros acordou e foi até a caixa com o
pensamento de que seria melhor tirar logo a sua parte para que não surgisse, na hora da
partilha, qualquer motivo de discussão entre os amigos. Acontece que, ao partir o mon-
tante em três, descobriu que a divisão não era exata pois sobrava uma moeda. Pensando
que aquela moeda poderia ser motivo de discórdia, atirou-a ao mar e levou sua parte con-
sigo.
Horas depois, o segundo marinheiro tendo a mesma ideia, foi até a caixa e, encon-
trando a mesma situação, atirou uma moeda ao mar e levou para si a terça parte do que
ficou na caixa.

54
O terceiro marujo, não sabendo da iniciativa dos colegas levantou-se algum tempo
depois com o mesmo intuito. Encontrou situação idêntica à dos demais e resolveu-a do
mesmo modo: atirando uma moeda ao mar e levando a terça parte do que ainda havia na
caixa.
No dia seguinte, chegada a hora do desembarque, o almoxarife foi até a caixa e
repartiu o que encontrou em 3 partes iguais. Ainda desta vez sobrou uma moeda que o
funcionário guardou para si como paga pelo serviço distribuindo as 3 partes restantes aos
marujos.
Quantas moedas havia na caixa? Quantas moedas cada marujo recebeu?
A resolução deste problema, semelhante à dos já mencionados, nos mostra que
havia 241 moedas na caixa. Entretanto, ainda mais interessante que o exercício em si, é
pensar em outras possibilidades.
O primeiro detalhe que chama atenção é a informação de que o montante situa-se
entre 200 e 300 moedas. Esta informação faz supor que o problema não tem solução única
e uma atividade interessante é a de solicitar aos alunos que encontrem outras soluções
fora desta faixa.
De fato, há infinitas soluções e todas elas são termos de uma progressão aritmética
de razão 𝑟 = 81 e primeiro termo 𝑎1 = 79.
Outra questão que pode ser levantada é se há algo de especial nos números 81 e
79. São inerentes a esse tipo de problema? Se alterarmos os dados, as soluções serão
termos de uma outra sequência? E esta outra sequência apresentará similaridades com a
que resolve o problema original?

Atividade 4.2.3
1
Considere a sequência definida pela recorrência 𝑎𝑛 = 1 + 𝑎 com 𝑎1 = 1. Em-
𝑛−1
bora seja de primeira ordem, note que não é uma recorrência linear.
Entretanto, se calcularmos os primeiros valores da sequência, encontramos:
1 2 3 5 8 13
(𝑎𝑛 ) = ( , , , , , , … )
1 1 2 3 5 8
A observação sugere que as sequências formadas pelos numeradores e pelos de-
nominadores são ambas iguais à sequência de Fibonacci, apresentando apenas uma defa-
sagem de um termo uma em relação à outra.
𝑦
De fato, é possível mostrar que toda recorrência do tipo 𝑎𝑛 = 𝑥 + 𝑎 e com ter-
𝑛−1
mos não nulos, apresenta comportamento semelhante e a exploração dessa recorrência
alterando os valores de 𝑥 e 𝑦 ou ainda o primeiro termo pode ser uma atividade muito
interessante para que os alunos percebam padrões e regularidades.
𝑏𝑛
Observe que, se tomarmos 𝑎𝑛 = 𝑏 , poderemos escrever:
𝑛−1

55
𝑏𝑛 𝑦
=𝑥+
𝑏𝑛−1 𝑏𝑛−1
⁄𝑏
𝑛−2
𝑏𝑛 𝑦𝑏𝑛−2
=𝑥+
𝑏𝑛−1 𝑏𝑛−1
Ou seja,
𝑏𝑛 = 𝑥𝑏𝑛−1 + 𝑦𝑏𝑛−2
O que mostra que tanto os numeradores quanto os denominadores formam uma
sequência que obedece a uma recorrência linear de segunda ordem. Em particular, se 𝑎1 =
𝑥 = 𝑦 = 1, a sequência é a de Fibonacci.

Atividade 4.2.4
Vimos na seção 2.8 que as sequências de Fibonacci, de Lucas e todas as que obe-
decem à mesma recorrência, possuem propriedades semelhantes ou que as relacionam
umas às outras.
Neste sentido, uma interessante atividade de investigação matemática, pode ser a
exploração de tais identidades buscando compreender, como fizemos na referida seção,
se uma identidade de Fibonacci também é válida para Lucas ou para outras recorrências
semelhantes. Ou ainda, que propriedades relacionam tais sequências.
Como exemplo, citamos inicialmente três identidades relativas à sequência de Fi-
bonacci:
𝐹1 + 𝐹3 + ⋯ + 𝐹2𝑛−1 = 𝐹2𝑛 (4.5)
𝐹2 + 𝐹4 + ⋯ + 𝐹2𝑛 = 𝐹2𝑛+1 − 1 (4.6)
𝐹²1 + 𝐹²2 + ⋯ + 𝐹 2 𝑛 = 𝐹𝑛 ∙ 𝐹𝑛+1 (4.7)
Uma proposta inicial pode ser a de que os alunos tentem deduzir tais identidades
efetuando as operações indicadas do lado esquerdo das igualdades e comparando os re-
sultados com os termos da sequência de Fibonacci.
Em uma etapa posterior, os alunos poderão verificar se tais propriedades são cor-
retas na sequência de Lucas e em outras sequências que seguem a mesma recorrência.
De modo inteiramente análogo ao que fizemos na seção 2.8, é possível demonstrar
por indução que as identidades (4.5), (4.6) e (4.7) podem ser generalizadas de modo que,
sendo (𝑎𝑛 ) uma sequência regida pela recorrência 𝑎𝑛 = 𝑎𝑛−1 + 𝑎𝑛−2 então valem as
identidades:
𝑎1 + 𝑎3 + ⋯ + 𝑎2𝑛−1 = 𝑎2𝑛 − (𝑎2 − 𝑎1 ) (4.8)
𝑎2 + 𝑎4 + ⋯ + 𝑎2𝑛 = 𝑎2𝑛+1 − 𝑎1 (4.9)
𝑎²1 + 𝑎²2 + ⋯ + 𝑎2 𝑛 = 𝑎𝑛 ∙ 𝑎𝑛+1 − (𝑎2 − 𝑎1 ) ∙ 𝑎1 (4.10)

56
Outro foco interessante de investigação é o de explorar identidades que relacio-
nam diretamente os termos de Fibonacci com os de Lucas e até mesmo com os de outras
recorrências semelhantes.
Observe na Tabela 4.2.1 uma das relações entre os termos das sequências.

𝑛 1 2 3 4 5 6 7 8 9
𝐹𝑛 1 1 2 3 5 8 13 21 34
𝐿𝑛 1 3 4 7 11 18 29 47 76

Os termos destacados na tabela sugerem que cada número de Lucas a partir do


segundo é igual à soma de dois números de Fibonacci, de modo que 𝐿𝑛 = 𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛+1 .
De fato, note que para 𝑛 = 2 e 𝑛 = 3, a identidade se verifica, pois
𝐿2 = 𝐹1 + 𝐹3 = 1 + 2 = 3 𝑒
𝐿3 = 𝐹2 + 𝐹4 = 1 + 3 = 4
Supondo que a identidade se verifique para certos 𝐿𝑛 e 𝐿𝑛+1 ,mostremos que ela
é valida para 𝐿𝑛+2 .
Por hipótese podemos escrever as igualdades:
𝐿𝑛 = 𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛+1
𝐿𝑛+1 = 𝐹𝑛 + 𝐹𝑛+2
Somando as igualdades, obtemos:
𝐿𝑛 + 𝐿𝑛+1 = 𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛+1 +𝐹𝑛 + 𝐹𝑛+2
Que resulta em:
𝐿𝑛+2 = 𝐹𝑛+1 + 𝐹𝑛+3 (4.11)

Se compararmos a sequência de Fibonacci com outras recorrências de mesmo tipo,
veremos que é possível obter uma expressão geral que forneça os termos de uma destas
recorrências em função dos números de Fibonacci.
Proposição 4.2.1 Sendo (𝑎𝑛 ) uma sequência tal que 𝑎𝑛 = 𝑎𝑛−1 + 𝑎𝑛−2 , então
𝑎𝑛 = (𝑎2 − 2𝑎1 )𝐹𝑛−1 + 𝑎1 𝐹𝑛+1 .
Demonstração:
Vamos proceder por indução sobre 𝑛.
Note que para 𝑎2 e 𝑎3 a expressão se verifica pois,
𝑎2 = (𝑎2 − 2𝑎1 )𝐹1 + 𝑎1 𝐹3
Mas, 𝐹1 = 1 e 𝐹3 = 2 então,

57
𝑎2 = 𝑎2 − 2𝑎1 + 2𝑎1 = 𝑎2
Da mesma forma temos,
𝑎3 = (𝑎2 − 2𝑎1 )𝐹2 + 𝑎1 𝐹4
Mas, 𝐹2 = 1 e 𝐹4 = 3 então,
𝑎3 = 𝑎2 − 2𝑎1 + 3𝑎1 = 𝑎2 + 𝑎1
Supondo que a expressão seja verdade para 𝑎𝑛 e 𝑎𝑛+1 , vamos mostrar que é ver-
dade para 𝑎𝑛+2 .
Por hipótese de indução, temos que:
𝑎𝑛 = (𝑎2 − 2𝑎1 )𝐹𝑛−1 + 𝑎1 𝐹𝑛+1
e,
𝑎𝑛+1 = (𝑎2 − 2𝑎1 )𝐹𝑛 + 𝑎1 𝐹𝑛+2
Somando as duas expressões e agrupando convenientemente os termos obtemos:
𝑎𝑛 +𝑎𝑛+1 = (𝑎2 − 2𝑎1 )(𝐹𝑛−1 + 𝐹𝑛 ) + 𝑎1 (𝐹𝑛+1 + 𝐹𝑛+2 )
Ou seja,
𝑎𝑛+2 = (𝑎2 − 2𝑎1 )𝐹𝑛+1 + 𝑎1 𝐹𝑛+3 (4.12)
Note que, em particular na sequência de Lucas, 𝑎1 = 1 e 𝑎2 = 3 o que torna a
expressão (4.12) idêntica ao resultado (4.11).

Atividade 4.2.5
Pelo que vimos nas seções 3.4, 3.5 e 3.6, outra fonte inesgotável de sequências e
de explorações possíveis são os números figurados. E, neste sentido, vale salientar que
não apenas pelo que vimos no Capítulo 3, já que, é possível explorar a mesma ideia que
originou o estudo dos números figurados elaborando configurações que saiam do âmbito
dos polígonos regulares
Sugerimos como exemplo, duas sequências de figuras que podem ser exploradas
quanto ao número de pontos. Muitas outras porém podem ser imaginadas.

Figura 4.2.1

58
Figura 4.2.2

Na figura 4.2.1 encontramos a sequência (1, 5, 11, 19, … ) e na figura 4.2.2 encon-
tramos a sequência (1, 8, 19, 34, … ) ambas, progressões aritméticas de segunda ordem.
Quais são as progressões aritméticas a elas associadas? Quais são suas razões? Quantos
pontos compõem a n-ésima figura? Responder tais perguntas para estas e outras configu-
rações constitui um processo de investigação e de aprendizado interessante e instrutivo.

59
Conclusão

Ao longo deste trabalho procuramos ressaltar a importância do estudo das sequên-


cias numéricas, um tema valioso não apenas por estar ligado a vários outros assuntos
como também pelo fato de ser um estudo relevante em si mesmo.
Nas sequências nos deparamos com o estudo de regularidades, padrões, simetrias,
relações algébricas, generalização de situações particulares, entre outros tópicos funda-
mentais no aprendizado matemático.
Acreditamos que, embora seja tratado tradicionalmente na primeira série do En-
sino Médio, este assunto poderia, e deveria, permear as três séries, sendo revisto e ampli-
ado sempre que surgisse um novo foco ou uma aplicação ainda não vista na resolução de
problemas.
Inúmeras são as situações em que a partir de um problema pode-se iniciar um
estudo de sequências. Muitas vezes basta apenas escolher um dado que seja expresso por
números naturais e substituí-lo por uma variável analisando então, o que muda no pro-
blema e quais são as respostas obtidas por meio da variação deste parâmetro.
Ressaltamos ainda que o estudo das relações de recorrência, embora não possa
talvez ser repassado integralmente aos estudantes, deve ser conhecido pelos professores,
visto que inúmeras são as situações em que é útil expressar o termo de uma sequência por
sua posição na mesma.
Finalmente queremos sugerir que os professores não parem por aqui. Que apro-
fundem tanto quanto possível seus estudos ainda que apenas para a compreensão das
sequências em si mesmas. Afinal, muitos são os casos na Matemática em que a utilidade
atual de determinado assunto extrapola em muito a motivação inicial de seu estudo.

60
Referências Bibliográficas
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entertains. 2nd ed. New York. Dover 1966.
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61