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VARIAÇÃO E ENSINO DE LÍNGUA MATERNA:

IMPLICAÇÕES
aula
7
Ao final desta aula, você deverá:
Objetivos

• ter consciência de que o preconceito linguístico é


consequente da incompreensão de que a língua
é, por natureza, heterogênea, variável;

• entender que a gramática tradicional é tida


como o berço do preconceito linguístico;

• saber que norma padrão e norma culta não


podem ser consideradas como sinônimas;

• compreender o papel da escola frente às


variações e às mudanças linguísticas;

• reconhecer pressupostos básicos que


caracterizam a chamada reeducação
sociolinguística;

• perceber as contribuições da sociolinguística


para o ensino de língua materna.
AULA 7
VARIAÇÃO E ENSINO DE LÍNGUA MATERNA:
IMPLICAÇÕES

1 INTRODUÇÃO

Com os conteúdos das aulas anteriores, você já


aprendeu sobre um dos princípios que regem as línguas:
por natureza, toda língua é heterogênea, logo, variável. Viu
que, por meio da sociolinguística, é possível mostrar que a VOCÊ SABIA?

heterogeneidade linguística está relacionada à heterogeneidade


O preconceito linguístico, atitude
social; que a variação não se constitui um “caos” linguístico, que consiste em discriminar um fa-
lante pelo modo de falar a sua lín-
como pressupõem aqueles que desconhecem o verdadeiro gua, é um dos temas mais debatidos
na atualidade, por vários autores
funcionamento de uma língua. Também viu que, numa brasileiros. Entre eles, destaca-se
perspectiva variacionista, é possível explicar as mudanças que Marcos Bagno, linguista que atua
na Universidade de Brasília, e que
se processam no interior de uma língua. Portanto, você já deve já publicou várias obras que reite-
ram a necessidade de uma educação
estar consciente de que a variação é realmente um princípio linguística voltada para a inclusão
social e pelo respeito à diversidade
inerente às línguas e que ela contribui para o processo de

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linguística do Brasil. Entre as suas
mudança linguística; pressupostos estes considerados básicos obras, destacam-se: Preconceito
lingüístico: o que é, como se faz
da disciplina que está estudando.

Aula
(1999); Dramática da língua portu-
guesa: tradição gramatical, mídia
Diante dessa realidade, a questão agora é: como ensinar
& exclusão social (2000); Norma
a língua materna frente à variação e mudança linguísticas? lingüística (Org.) (2001); Lingüísti-
ca da norma (Org.) (2002); Língua
Esta é uma das perguntas que normalmente são feitas quando materna: letramento, variação & en-
sino (Org.) (2002); A norma oculta:
se tem em vista o ensino tradicional de língua. Como você língua & poder na sociedade brasi-
sabe, em se tratando de língua, somos formados a “pensar” leira (2003); A língua de Eulália: no-
vela sociolingüística (2008) (aquele
que tudo aquilo que foge ao modelo idealizado de língua, a livro que foi recomendado na aula
1); Nada na língua é por acaso: por
chamada língua culta, se constitui em “erro”. Logo, aquele uma pedagogia da variação lingüís-
tica (2007); Não é errado falar as-
falante que não faz uso da modalidade prestigiada pela escola
sim? Em defesa do português brasi-
não é visto com “bons olhos”, gerando, assim, uma escala leiro (2009). Para saber mais sobre
o autor e ter acesso a alguns de seus
de julgamentos e valores que vão caracterizar o chamado textos, recomendo acessar o seu
site: www.marcosbagno.com.br
preconceito linguístico. Portanto, nesta aula, vamos
refletir sobre as consequências sociais da variação linguística,
bem como ressaltar a necessidade de uma reeducação
sociolinguística no espaço escolar.

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Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

2 VARIAÇÃO E PRECONCEITO LINGUÍSTICO

ATENÇÃO Você sabia que, de modo geral, do ponto de vista sociocultural,


Vale registrar que “nas variação linguística implica em erro, deficiência, estigmatização,
sociedades modernas, os
valores culturais associa- negligenciamento... enfim, preconceito linguístico? Que a diferença
dos à norma lingüística
de prestígio, considerada linguística é vista, por muitos, como um “mal” a ser erradicado? Que a
correta, apropriada e bela,
são ainda mais arraigados escola, fonte primordial do letramento na nossa sociedade, é uma das
e persistentes que outros,
de natureza ética, moral e reprodutoras de desigualdades sociais? São fatos que, infelizmente,
estética”. (BORTONI-RI-
CARDO, 2006, p.13).
ocorrem em nossa sociedade.
Que uma sociedade é regida por normas, você sabe! Normas
que refletem os diferentes domínios sociais. Por exemplo, aqueles que
caracterizam as relações de poder, os conflitos
SAIBA MAIS
sociais, as imposições de valores de determinados
Stella Maris Bortoni-Ricardo, um dos nomes mais
importantes da Sociolinguística no Brasil, tem procurado, grupos sobre outros, as distribuições de bens
por meio de seus vários trabalhos, enfatizar a contribuição
materiais e culturais... e, por que não dizer, as
da sociolinguística para o ensino de língua materna no Brasil.
Nessa perspectiva, dois livros se destacam: Educação em diferenças linguísticas. Que essas diferenças
língua materna: a sociolingüística na sala de aula (2004)
e Nós cheguemu na escola, E AGORA? Sociolingüística refletem os grupos sociais, é verdade! Mas atenção!
& educação (2005). Para saber mais sobre a autora e suas
obras, acesse o seu site: www.stellabortoni.com.br
Não é verdade que as diferenças se constituem
em “erro”, em deficiência. Infelizmente, não é
bem assim que a escola preconiza. A forma como
a língua é ensinada leva o aluno a acreditar que
as diferenças linguísticas, em particular aquelas
produzidas por falantes de origem rural, de classe
social baixa, com pouca ou nenhuma escolaridade,
de locais/regiões culturalmente desvalorizados
etc., constituem num “defeito”.
A propósito, você já deve ter ouvido alguém
Fonte: www.livrariasaraiva.com.br/
criticar, ou mesmo você, uma pessoa que fale
pranta; bicicreta, pexi; trabaiá; istudá; preguntá;
cunzinhá; cumê; nós vai; nós foi; pega ele etc. Que absurdo! Como
soa mal! É um ignorante mesmo! Como pode falar desse jeito! E aquele
indivíduo que fala o chamado “R” caipira (retroflexo), que aparece em
toRta; impoRta; veRde; peRto... aquele que é do interioR de São
Paulo? cerRto? É caipira mesmo! E o mineiro, que fala nossinhora
(nossa senhora); tomei uma pincumel (pinga com mel); comprei um
kidicarne (quilo de carne); pega o midipipoca e o liditeiti (milho de
pipoca e o litro de leite); que trem doidimais (doido demais)! Tadin do
minerin, né! Economiza até nas palavras! É pão-duro mesmo!
Percebe que são julgamentos sociais? Você sabia que esse
tipo de julgamento ocorre em qualquer lugar do mundo, em qualquer
comunidade linguística? Em qualquer sociedade humana, há sempre
indivíduos que acreditam que seu modo de representar a língua é

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mais “correto”, mais “bonito” do que o de outros que fazem parte SAIBA MAIS
daquela comunidade. Ou que uma língua X é mais simples/inferior “Todas as línguas são es-
truturas de igual comple-
do que outra... Você já deve ter ouvido afirmações do tipo: a língua xidade (...) não há diale-
tos mais simples do que
portuguesa é muito complexa, difícil, com muitas regras! E as
outros”. Com estas afirma-
exceções, então!!! Ora, se a língua portuguesa é tão difícil, como é ções de Possenti (1998,
p. 26, 28), podemos de-
que uma criança a aprende em dois ou três anos de vida?! Você nota fender, com segurança, a
ideia de que não é mais
o equívoco desse tipo de avaliação?
difícil aprender uma língua
A propósito, você sabe em que se baseiam essas avaliações do que outra; quem co-
nhece ou usa um dialeto X
que são feitas a respeito das línguas? Conforme Alkmim (2001, não é nem mais capaz nem
mais incapaz do que quem
p.42), “podemos afirmar, com toda tranqüilidade, que os julgamentos conhece outro. Se alguém
sociais ante a língua – ou melhor, as atitudes sociais – se baseiam pensar diferente disso, não
passa de preconceito e/ou
em critérios não lingüísticos: são julgamentos de natureza política e ignorância!

social”. A autora completa:

A não aceitação da diferença é responsável por numerosos PARA CONHECER


e nefastos preconceitos sociais e, neste aspecto, o
preconceito lingüístico tem um efeito particularmente Sírio Possenti, um dos
mais renomados linguistas
consensual quando se trata de questões lingüísticas: da atualidade, é autor do
ficamos unanimemente chocados diante da palavra livro Por que (não) ensi-
nar gramática na escola,
inadequada, da concordância verbal não realizada, do estilo o qual recomendo a você
impróprio à situação de fala. A intolerância lingüística é um como leitura obrigatória
para a sua formação.
dos comportamentos sociais mais facilmente observáveis,
seja na mídia, nas relações sociais cotidianas, nos espaços
institucionais etc. (p. 42).

Que o preconceito linguístico ocorre em nossa sociedade, é


fato! Rejeitar qualquer manifestação linguística diferente daquela
modalidade que a escola determina como padrão evidencia um tipo de
julgamento que impera em nossas gramáticas tradicionais há muito

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tempo. Estamos falando aqui do que é “certo” e do que é “errado” na

Aula
língua.
A gramática tradicional, aquela que você conhece bem,
preconiza um modelo de “língua exemplar”, a língua regida pela
norma culta, que não admite todo e qualquer uso que escape
desse modelo idealizado. Portanto, você nota, claramente, que
esse modelo se constitui, ao mesmo tempo, da seleção de algumas
variantes, consideradas de prestígio, e da exclusão de todas as
formas alternativas. Nesse modelo, variação e mudança linguísticas
não têm vez. Consequentemente, abre-se um abismo social, pois
os usos linguísticos reais não correspondem ao que é preconizado
tradicionalmente.
Conforme Bagno (2007), esse abismo existe “porque a nossa
tradição gramatical se inspira em grande parte em determinados usos
(literários, antigos, lisboetas) do português de Portugal e despreza

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Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

ou condena as variantes mais freqüentemente empregadas pelos


brasileiros” (p. 94). Vamos a um exemplo prático!
Pense nas regras para as colocações pronominais: próclise,
mesóclise e ênclise. Pensou? Quantas regras!!! E quantas delas você
usa? Com certeza, uma ou outra. No geral, é a próclise (lembre-se
do poema de Oswald de Andrade: Dê-me um cigarro X Me dá um
cigarro). E a mesóclise? Afinal, será que você a conhece? E a ênclise?
Será que ela é realmente funcional?
Pense na seguinte situação: você se encontra num ponto de
ônibus ao lado de várias pessoas, entre elas uma velhinha. De repente,
um homem leva a bolsa dessa pobre mulher. Agora, imagine se ela
grita: PEGUEM-NO! Será que a sua colocação pronominal surtirá
efeito e alguém correrá para pegar o ladrão? Mas, e se ela gritar:
PEGA O LADRÃO! ou PEGA ELE! A situação será outra, concorda? Essa
é apenas uma das muitas situações que ilustram o abismo existente
entre o que é prescrito e o que, de fato, é usado. Mas de uma coisa
você pode ter certeza: a recomendação da ênclise, como em PEGUEM-
NO, pode não ser tão pragmática quanto nos outros casos. Ou seja,
PEGA O LADRÃO e PEGA ELE, gramaticalmente “erradas”, podem ser
PARA CONHECER mais eficientes do que aquela que é tida como “correta”.
Maria Marta Pereira Scher- A propósito do que seja “certo” e “errado” na língua, Scherre
re é, também, uma das pes-
quisadoras mais conhecidas
(2005) afirma:
da área da Sociolinguística,
com inúmeros trabalhos so-
No dia-a-dia, por razões diversas, convivemos com estas
bre variação. Um deles tem
um título bastante sugestivo: noções como se fossem valores absolutos, portadores de
DOA-SE lindos filhotes de verdades inerentes e, até, imutáveis. Esse sentimento
poodle: variação lingüística,
toma uma dimensão fora do comum quando se trata de
mídia e preconceito, publica-
do pela Parábola, em 2005. questões que envolvem a linguagem. De forma geral, as
Nele, a autora reflete sobre a pessoas crêem que há uma língua estruturalmente mais
língua portuguesa em uso e o certa do que outra, que há um dialeto mais certo do que
preconceito linguístico. Na luta
pela democracia linguística,
outro ou que há uma variedade mais certa do que outra, e
argumenta sobre a necessida- poucos percebem que as formas consideradas certas e/ou
de de “dar vez e voz a todas as de prestígio são as que pertencem à língua, aos dialetos ou
falas”, entre elas, as que são
às variedades das pessoas ou grupos que detêm o poder
erroneamente classificadas
como erradas. econômico ou cultural. Mesmo pessoas que analisam de
forma objetiva os fenômenos lingüísticos freqüentemente
emitem enunciados que revelam esse tipo de crença. Uma
das conseqüências dessa crença se reflete no preconceito
lingüístico, que estigmatiza direta ou indiretamente as
pessoas que não dominam formas lingüísticas consideradas
certas por uma dada comunidade (p. 16-17).

Pelas palavras da autora, você nota que construções como


PEGA O LADRÃO e PEGA ELE são fortemente estigmatizadas porque
não representam o modelo idealizado de língua. Ora, mesmo não
representando tal modelo, não podemos considerá-la menos correta
http://www.parabolaeditorial.com.br

166 Módulo 2 I Volume 5 EAD


do que a outra forma, afinal, correto é tudo
o que está de acordo com as regras ou
princípios de um determinado grupo dentro
dos limites do próprio grupo. Ou seja, na
situação descrita acima, o correto pode não
ser PEGUEM-NO.
Para que você entenda mais sobre a
razão do discurso do “certo” e do “errado”,
característico da gramática tradicional, vamos
falar, na próxima seção, um pouco da sua
história. Como verá, é um discurso de
muitos séculos!
Figura: UAB/UESC

2.1 Gramática tradicional: o berço do preconceito


linguístico

A gramática que você conhece hoje, conjunto de normas


que devem ser seguidas, surgiu, no mundo ocidental, por volta
do século III a.C, com o propósito “de criar um ‘padrão’ uniforme
e homogêneo que se erguesse acima das diferenças regionais e
sociais para se transformar num instrumento de unificação política e
cultural” (BAGNO, 2007, p. 63). Como você pode notar, uniformidade
e homogeneidade são os princípios básicos desse modelo instituído
como padrão. Nele, não há lugar para a heterogeneidade e a variação
linguísticas. Portanto, é visível a exclusão social das variedades que

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não correspondem ao modelo unificador.
Segundo Bagno (2007, p. 67), a gramática tradicional é

Aula
um “produto intelectual de uma sociedade aristocrática, machista,
escravagista, oligárquica, fortemente hierarquizada” que adotou um
modelo de língua característico de um grupo restrito de falantes,
que são: “do sexo masculino; livres (não-escravos); membros da
elite cultural (letrados); cidadãos (eleitores e elegíveis); membros
da aristocracia política; detentores da riqueza econômica” (p.
68). Somente essas pessoas falavam bem a língua; logo, todas
as variedades regionais e sociais foram consideradas defeituosas,
corrompidas, feias etc.
Ainda sobre a variação, o autor completa:

Os primeiros gramáticos, comparando a língua escrita


dos grandes escritores do passado e a língua falada
espontânea, concluíram que a língua falada era caótica,
sem regra, ilógica, e que somente a língua escrita literária

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Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

merecia ser estudada, analisada e servir de base para o


modelo do ‘bom uso’ do idioma [...] Comparando também
a língua falada de seus contemporâneos e a língua escrita
das grandes obras literárias do passado, eles concluíram
que, com o tempo, a língua tinha se degenerado se
corrompido e que era preciso preservá-la da ruína e da
deterioração. Tinham, portanto, uma visão pessimista da
mudança (p. 68).

Como você pode ver, nessa perspectiva, língua falada implica
em inferioridade; mudança significa degeneração, ruína, deterioração.
Percebe o preconceito linguístico explícito? Nota que, realmente, é a
gramática tradicional o berço da noção de “erro”?
Agora, o mais preocupante, é que, mesmo depois de muitos
séculos, o discurso do “certo” e do “errado” ainda continua vigorando
em nossas gramáticas, ou melhor, em nossa sociedade. Certamente,
você já ouviu correções do tipo: o certo é dizer nós e não, a gente;
cantar e não, cantá; de-me um cigarro e não, me dá um cigarro;
ATENÇÃO
vendem-se casas e não, vende-se casas; assisti ao filme e não, o
Você pode questionar: mas
o que seria erro então? Do filme; para eu fazer e não, para mim fazer; há uma pedra no meio do
ponto de vista linguístico,
só existe erro se as for-
caminho e não, tem uma pedra no meio do caminho... O que muitos
mas ou construções não não sabem é que esses “erros” já fazem parte da gramática intuitiva
fazem parte de maneira
sistemática de nenhuma do falante do português brasileiro, que são inovações resultadas dos
das variantes de uma lín-
gua. Estamos falando aqui usos diversos que os falantes fazem da sua língua. Como já afirmamos
de sequências do tipo: o
acima, são construções tão corretas quanto aquelas que são tidas
menina; o meninos; meni-
no o; casa a caiu etc. São verdadeiramente como corretas. São construções diferentes! Você
construções que você não
ouvirá nem mesmo de um deve notar que, nessa perspectiva, diferenças linguísticas não são
falante que nunca frequen-
tou uma escola.
julgadas como erros, são apenas formas ou estruturas que divergem
de um determinado padrão.
Infelizmente, essa verdade não é aceita por todos. Vale
destacar aqui o papel dos defensores intransigentes da norma
padrão tradicional, os chamados puristas, no trabalho de ampliação
do preconceito linguístico. Normalmente, essas pessoas ignoram os
avanços das pesquisas linguísticas e desprezam a relevância, por
exemplo, de uma disciplina como a sociolinguística, que muito tem
contribuído para a compreensão das variações e mudanças linguísticas,
bem como para o ensino de língua materna. Bagno (2007, p. 156)
apresenta um exemplo da reação tradicional à mudança e ao trabalho
dos cientistas da linguagem. Trata-se do famoso gramático Pasquale
Cipro Neto que, no Jornal O Globo de 1998, escreveu:

Alguns lingüistas talvez já estejam preparando suas


baterias para me criticar, sob o argumento de que deve
existir um motivo para que o brasileiro em geral não faça
concordância de nada e o que importa é discutir o motivo

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do erro, como se o motivo do erro justificasse o erro.
Aliás, esse tipo de lingüista [...] adora dizer que em língua
não existe erro, o que existe é a variação lingüística, o que
importa é comunicar. Esses mesmos lingüistas perdem
seu precioso tempo e a verba do contribuinte com teses
mirabolantes, financiadas pelo dinheiro público, em que
se descabelam para justificar por que o brasileiro diz
‘falta dez minuto’. Um argumento clássico é que ‘quando
o sujeito vem depois do verbo o falante não o reconhece
como tal e acaba colocando o verbo no singular’. Chique,
não? nhenhenhém.

Percebe o descaso do gramático ao finalizar a sua fala? Assim PARA REFLETIR

como ele, muitos outros também se exprimem dessa forma. Scherre Conforme Bagno, são
(2005), ao falar de variação e mídia, relata: “como representantes muitas as declarações
apocalípticas sobre a
legítimos da sociedade brasileira, os jornais brasileiros, de forma mais suposta decadência da
ou menos explícita, apresentam situações diversas de preconceito língua portuguesa, uma
visão que se desdobra
lingüístico” (p. 38). ao longo de quase tre-
Na sua investigação, a pesquisadora detecta em jornais, como zentos anos. Veja algu-
mas delas:
o Correio Brasiliense, um dos mais bem conceituados de Brasília,
vários casos de preconceito linguístico explícito. Em seções que ● “Se não existissem livros
compostos por frades, em
têm como foco a língua em uso, frases como estas são destacadas: que o tesouro está conser-
vado, dentro em pouco po-
uma seção de olho nos atentados ao idioma; não dá para aceitar;
díamos dizer: ora morreu
falar em nível aceitável de linguagem é exigência de civilidade; a língua portuguesa, e não
descansa em paz” (José
empobreceu a linguagem; gafes no horário nobre; a concordância foi Agostinho de Almeida (...),
escritor português);
nocauteada; estão assassinando a nossa língua; estão atropelando
● “(...) português – um
a gramática... São frases resultantes de julgamentos extremamente idioma que de tão mal-
tratado no dia-a-dia dos
preconceituosos sobre falas reais de indivíduos de nossa sociedade. brasileiros precisa ser di-
vulgado e explicado para
Para a pesquisadora, um veículo como o jornal poderia prestar, de

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os milhões que o têm como
forma cidadã, um grande serviço à comunidade. No entanto, língua materna” (Mário Sa-
bino (...) 1997);

Aula
● “Não fique nenhuma dú-
[...] ela presta um desserviço, porque reforça um dos vida, o português do Brasil
caminha para a degrada-
aspectos mais sórdidos do ser humano, que é a divisão ção total’ (Marcos de Cas-
entre classes e a exclusão social, também por meio da tro (...) 1998);
língua que se usa [...] praticar preconceito lingüístico, ● “Que língua falamos? A
resposta veio das terras lu-
explícito ou implícito, é, sem dúvida, atentar contra a
sitanas. Falamos o caipirês.
cidadania (p. 89). Sem nenhum compromisso
com a gramática portugue-
sa. Vale tudo (...)” (Dad
Como você vê, a autora fala em exclusão social. Pois bem, Squarisi (...) 1996). (BAG-
NO 2007, p. 72).
esta é uma das consequências do discurso do “certo” e do ”errado”.
Se alguém condena ou exclui uma pessoa, por ter usado uma
modalidade que não a de prestígio, está praticando o preconceito
linguístico, como você pode perceber na ilustração abaixo:

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Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

Figura: UAB/UESC
Esse tipo de resposta dada pela professora manifesta,
explicitamente, o preconceito à forma “errada” do aluno. Para a
professora, falar pobrema é realmente um problema, pois revela
ignorância e falta de cultura. E mais ainda: esse aluno não sabe falar!
Quanta ingenuidade!!! Ele sabe falar, sim! E, se sabe falar, significa
que tem conhecimento suficiente para falar efetivamente a língua.
Portanto, se você ouvir alguém dizer “não sei falar a minha
língua” ou “a língua portuguesa é muito difícil”, precisa esclarecer
a essa pessoa que ela está se referindo não à língua propriamente
SAIBA MAIS
dita, mas à gramática normativa. Tal indivíduo pode não saber se
A propósito das noções de
“certo” e ”errado”, Cagliari expressar usando as regras prescritas, mas, com certeza, ele sabe
(1997, p. 82) afirma: muito bem uma língua. Se tal indivíduo também diz “falei errado”,
precisa também conscientizá-lo de que esse “erro” tem sentido apenas
[...] são conceitos pouco ho-
nestos que a sociedade usa num contexto específico. É dessa forma que podemos desmistificar
para marcar os indivíduos e
classes sociais pelos modos as noções do “certo” e do “errado” no que diz respeito aos usos da
de falar e para revelar em
língua. Como você viu, são noções que imperam, há muitos séculos,
que consideração os tem, se
são pessoas que gozam de in- em nossas gramáticas.
fluência ou ocupam posições
de prestígio ou não, se exer- Diante do que foi exposto, você pode questionar: como fica a
cem o poder instituído ou não
etc. Essa atitude revela seus
escola? afinal, é seu papel ensinar sobre língua? Com certeza! Mas
preconceitos, pois marca as não é e não pode ser da forma que tem sido feito. Ela deve ensinar,
diferenças lingüísticas com
marcas de prestígio ou estig- sim, a chamada norma culta do português, mas jamais ignorar as
mas. A escola, incorporando
esse comportamento precon- outras modalidades dessa língua. Sobre isso, Bortoni-Ricardo (2005)
ceituoso da sociedade em ge-
afirma:
ral, também rotula seus alu-
nos pelos modos diferentes A escola não pode ignorar as diferenças sociolingüísticas.
de falar [...]. A escola, como Os professores e, por meio deles, os alunos têm que estar
espelho da sociedade, não bem conscientes de que existem duas ou mais maneiras
admite o diferente e prefere
adotar só as noções de certo
de dizer a mesma coisa. E mais, que essas formas
e errado, numa falsa visão da alternativas servem a propósitos distintos e são recebidas
realidade. de maneira diferenciada pela sociedade. Algumas

170 Módulo 2 I Volume 5 EAD


conferem prestígio ao falante, aumentando credibilidade e
o poder de persuasão; outras contribuem para formar-lhe
uma imagem negativa, diminuindo-lhe as oportunidades.
Há que se ter em conta que essas reações dependem
das circunstâncias que cercam a interação. Os alunos
que chegam à escola falando ‘nós cheguemu’, ‘abrido’
e ‘ele drome’, por exemplo, têm que ser respeitados e
valorizadas as suas peculiaridades lingüístico-culturais,
mas têm o direito inalienável de aprender as variantes de
prestígio dessas expressões. Não lhes pode negar esse
conhecimento, sob pena de se fecharem para eles as
portas, já estreitas, da ascensão social. O caminho para
uma democracia é a distribuição justa de bens culturais,
entre os quais a língua é o mais importante (p. 15).

Segundo a autora, questões desse tipo precisam ser mais


discutidas no âmbito educacional, visando a implantação de um
estado democrático, compromissado com a formação plena dos
indivíduos e contra toda forma de exclusão social pela linguagem. A
pergunta que surge é: como fazer isso? Por meio de uma reeducação
sociolinguística, como verá mais adiante. Antes, vamos falar um pouco
sobre como a “norma” é vista pelas gramáticas e pelos linguistas.

2.2 Norma padrão e norma culta aos “olhos” da


gramática tradicional e da linguística

Como você está vendo, a escola, por meio da gramática


normativa, prescreve o uso da norma culta, ou melhor, a chamada
norma padrão da língua. E que padrão é esse? Como ele foi instituído?

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Motivado por critérios políticos e ideológicos, esse modelo

Aula
padrão surgiu da necessidade de instituir uma língua única para
receber o título de língua oficial de uma determinada nação. Ele se
constituiu a partir da seleção de variantes consideradas de prestígio,
bem como da exclusão daquelas formas que não correspondiam a tal
padrão.
Uma vez estabelecido tal modelo, ele “vai ser objeto de um
grande investimento (...) vai precisar atender todas as exigências
de uma língua oficial, de uma língua literária, de uma língua de
ensino, de uma língua que será veículo da ciência, de uma língua
institucionalizada” (BAGNO, 2007, p. 89). Para que isso ocorra, será
preciso então:

● criar um modo único de escrever essa língua – daí


a necessidade de uma ortografia oficial, que é uma lei
promulgada, em todos os países, pelo poder central;

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Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

● catalogar o repertório lexical dessa língua – origem dos


dicionários, que se interessam tradicionalmente por listar
e definir as palavras que pertencem às variedades de
maior prestígio social e cultural;
● criar novos vocábulos (sobretudo técnicos e científicos),
para que a língua se torne veículo de uma cultura erudita,
acadêmica;
● estabelecer as regras de uso ‘correto’ da língua – origem
das gramáticas normativas, que descrevem e prescrevem
os modos de usar a língua mais próximos da tradição
literária e das variedades de prestígio;
● criar instituições que divulguem e preservem essa língua
padronizada – função primordial da escola, dentro de uma
visão tradicional de ensino de língua, das academias de
língua e de outras instituições (BAGNO, 2007, p. 90).

Esse modelo corresponde ao padrão culto da língua. Portanto,


tradicionalmente, norma padrão e norma culta são vistas como
sinônimas. Todavia, alguns linguistas chamam a atenção para o
equívoco que se instaurou a partir dessa visão. Veja o que diz Bagno
(2007):

A norma-padrão não faz parte da língua, não corresponde


a nenhum uso real da língua, constituindo-se muito
mais como um modelo, uma entidade abstrata, um
discurso sobre a língua, uma ideologia lingüística, que
exerce evidentemente um grande poder simbólico sobre
o imaginário dos falantes em geral, mas principalmente
sobre os falantes urbanos mais escolarizados (p. 106).

Na visão desse autor, nesse modelo ideal não há espaço para


os usos reais da língua. E usos reais seriam todas as formas de
representação de uma língua, incluindo aí as variantes prestigiadas
(norma culta) e as estigmatizadas (norma vernácula popular). O
autor chama a atenção para o termo “norma culta” e questiona: “por
que chamar de culto apenas o que vem das camadas privilegiadas
da população? E por que opor ‘culto’ a ‘popular’, como se o povo não
tivesse cultura e como se os falantes ‘cultos’ não fizessem parte do
povo?” (p. 104).
Uma resposta para esse tipo de questionamento é fornecida
por Faraco (2002), em seu texto “Norma-padrão brasileira:
desembaraçando alguns nós”:

Há na designação norma culta um emaranhado de


pressupostos nem sempre claramente discerníveis. O
qualificativo ‘culto’, por exemplo, tomado em sentido
absoluto pode sugerir que esta norma se opõe a normas
‘incultas’, que seriam faladas por grupos desprovidos de

172 Módulo 2 I Volume 5 EAD


cultura. Tal perspectiva está, muitas vezes, presente no
universo conceitual e axiológico dos falantes da norma
culta, como fica evidenciado pelos julgamentos que
Conforme o Aurélio, axio-
costumam fazer dos falantes de outras normas, dizendo
lógico (Adj. Filos.) signi-
que estes ‘não sabem falar’, ’falam mal’, ’falam errado’, fica: 1. Concernente à, ou
‘são incultos’, ‘são ignorantes’ etc. que constitui uma axiolo-
Contudo, não há grupo humano sem cultura, como gia; 2. Concernente a, ou
que constitui um valor.
bem demonstram os estudos antropológicos. Por isso, é
preciso trabalhar criticamente o sentido do qualificativo
culta, apontando seu efetivo limite: ele diz respeito
especificamente a uma certa dimensão da cultura, isto é,
à cultura escrita. Assim, a expressão norma culta deve ser
entendida como designando a norma lingüística praticada,
em determinadas situações (aquelas que envolvem
certo grau de formalidade), por aqueles grupos sociais
mais diretamente relacionados com a cultura escrita,
em especial por aquela legitimada historicamente pelos
grupos que controlam o poder social (p. 39-40).

Mesmo sendo essa norma culta usada por um grupo específico,


é preciso lembrar que ela também está em contato com outras normas
sociais, sofrendo influências e participando, inclusive, dos processos
de mudanças. Vale destacar, aqui, casos de variações linguísticas
registradas em situações de escritas monitoradas, por exemplo,
reveladas por Bagno (2000), (2007) e Scherre (2005). São casos
que provam a influência da língua falada sobre a língua escrita; ou PARA CONHECER

seja, revelam que pessoas cultas estão usando, também, formas e O texto de Mário A. Perini
está no seu livro Sofrendo
estruturas que, antes, faziam parte do universo linguístico de pessoas a gramática, no qual o

“não-cultas”. autor apresenta, na forma


de ensaios, várias questões
Como você pode ver, a discussão gira em torno da natureza referentes à linguagem/
língua/ gramática. Numa

7
polarizada da realidade sociolinguística de uma língua. De um lado,
linguagem clara, com tí-
estão aqueles que defendem um português de padrão-culto; de outro, tulos bastante instigantes,

Aula
o autor promove uma dis-
um português que é usado pela maioria dos brasileiros. Sobre essa
cussão sobre a necessidade
divisão, autores como Perini (2005), Bagno (2007), Mattos e Silva de uma nova postura dos
professores em relação ao
(2004) e Lucchesi (2002) defendem diferentes propostas, porém, ensino de gramática, par-
todas com um foco em comum: a realidade linguística brasileira é ticularmente. Vale a pena
lê-lo!!! Recomendo-o como
constituída por diferentes sistemas. uma leitura complementar.
Perini, em seu texto “As duas línguas do Brasil: qual é mesmo Também instigante é o livro
de Rosa Virgínia Mattos
a língua que falamos” sugere uma divisão entre a língua falada e Silva: “O português

(vernáculo brasileiro) e a língua escrita (português). Segundo o autor, são dois...” Novas fron-
teiras, velhos problemas.
“o português e o vernáculo são, é claro, línguas muito parecidas. Mas Fazendo alusão ao famoso
poema de Carlos Drum-
não são em absoluto idênticas” (p. 36). Mattos e Silva, em seu livro
mond de Andrade, Aula de
“o português são dois: novas fronteiras, velhos problemas...”, discute português, a autora discute
sobre o ensino de portu-
sobre o multilinguismo brasileiro e afirma que “o português no Brasil
guês do Brasil; diversidade
sempre foi (...) mais de um” (p. 131). No caso, a autora se refere linguística; variação e mu-
dança; entre outras ques-
à coexistência de diferentes sistemas que caracterizam o português tões.

UESC Letras Vernáculas 173


Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

ensinado nas escolas e o que é falado por grande parte da nação


brasileira.
Lucchesi e Bagno, por sua vez, propõem uma análise tripartida.
O primeiro defende os seguintes termos: norma-padrão, norma culta e
norma popular. Para ele, norma culta seria “constituída pelos padrões
de comportamento lingüísticos dos cidadãos brasileiros que têm
formação escolar (...) e é tributária, enquanto norma lingüística, dos
modelos transmitidos ao longo dos séculos (...)”. Já a norma popular
“se define pelos padrões de comportamento lingüístico da grande
maioria da população alijada de seus direitos elementares e mantida
na exclusão e na bastardia social” (LUCCHESI, 2002, p. 87). Bagno,
por sua vez, substitui “norma culta” por variedades prestigiadas e
“norma popular” ou “vernácula”, por variedades estigmatizadas,
“sobre as quais se impõe um modelo idealizado e ideologizado de
‘língua certa’, a norma padrão” (p. 117).
O que essas divisões sugerem é que não podemos encarar
a língua portuguesa como um sistema homogêneo, modelado
por um único e exclusivo padrão. Com elas, é possível desfazer o
mito da unidade do português brasileiro e encarar outros padrões
que caracterizam a realidade linguística dessa língua. Como afirma
Lucchesi (2002, p. 89), é preciso “propor uma atualização da norma
padrão com base nos padrões reais de uso que verificamos nas
normas lingüísticas brasileiras, condição necessária para a verdadeira
democratização do ensino da língua no país”. Como você verá, a
seguir, esse é um dos pressupostos que regem a chamada reeducação
sociolinguística.

3 A NECESSIDADE DA REEDUCAÇÃO SOCIOLINGUÍSTICA

Certamente, a primeira pergunta é: o que é reeducação


sociolinguística? Para respondê-la, vamos recorrer a Bagno (2007, p.
86): “é uma proposta de pedagogia da variação lingüística que leva
em conta as conquistas das ciências da linguagem, mas, também,
as dinâmicas sociais e culturais em que a língua está envolvida”.
Reeducação significa uma nova educação,

[...] uma reorganização dos saberes lingüísticos que não


tem nada a ver com ‘correção’ nem com substituição de
um modo de falar por outro – ao contrário, a reeducação
sociolingüística tem que partir daquilo que a pessoa já sabe
e sabe bem: falar a sua língua materna com desenvoltura
e eficiência (p. 85).

174 Módulo 2 I Volume 5 EAD


Para que essa pedagogia surta efeito, é necessária, portanto, a SAIBA MAIS

reeducação do próprio professor. Para tanto, ele precisa se conscientizar Vale destacar, aqui, as
de várias coisas. Entre elas, destacamos as necessidades de: palavras de Mattos e Sil-
va (2004, p. 27):

Qualquer indivíduo normal


• Ter uma concepção clara do que seja uma língua e do que seja que entre na escola para ser
alfabetizado em sua língua
um aluno (ou mesmo qualquer indivíduo). Não se pode pensar em materna já é senhor de sua
língua, na modalidade oral
língua a partir do modelo estabelecido como padrão-culto. Língua própria a sua comunidade
de fala. Admitido esse prin-
não se resume a um modelo específico. Língua é constituída por
cípio, qualquer trabalho de
vários modelos, que podem ser aprendidos pelos falantes em ensino da língua materna se
constitui em um processo de
diferentes circunstâncias. Não se pode pensar que o indivíduo que enriquecimento do potencial
lingüístico do falante nativo,
chega à escola não sabe ainda uma língua. Se ele se comunica, não se perdendo de vista a
multiplicidade de comunida-
prova que realmente tem conhecimento de língua, de uma des de fala que compõe o
universo de qualquer língua
gramática. Mas, atenção! Não estamos necessariamente falando natural, multiplicidade que
variará, a depender das ca-
de gramática normativa. Estamos nos referindo à gramática racterísticas de cada uma,
enquanto língua histórica,
internalizada, aquela que o falante adquire naturalmente. isto é, língua inserida tanto
sincrônica quanto diacronica-
mente no contexto histórico
em que se constitui e em que
• Desmistificar a ideia de que gramática normativa se constitui
se constituiu.
num conjunto de verdades absolutas sobre a língua. O que temos
ali é apenas uma descrição de uma das inúmeras manifestações
possíveis da língua escrita.
SAIBA MAIS

• Ter em mente que língua não é ensinada. Na verdade, aprende-se Sobre as gramáticas
uma língua. Para entender melhor isso, é só pensar nas crianças! normativas, Bagno
(2007, p. 199) lembra:
Por volta dos três anos de idade, a criança fala efetivamente a
sua língua. Não se ensina uma criança a falar uma língua a partir Na nossa cultura, existe a
idéia de que as gramáticas

7
de descrições do tipo: tal palavra é verbo, adjetivo, substantivo... normativas explicam ‘a’
língua, ‘o’ português, mas
essa é uma sentença interrogativa, negativa... essa é uma isso está muitíssimo longe

Aula
de ser verdade. Basta ver
sentença coordenada, subordinada... Já pensou se fosse assim?!!! os exemplos dado nessas
obras; eles são sempre
retirados de obras literá-
rias, sobretudo de autores
• Reconhecer que o que o aluno já sabe não precisa ser consagrados e já mortos.
Isso revela que as gramá-
ensinado. Estamos nos referindo aqui a muito do que se ensina ticas normativas querem
ser (mas nem isso elas
tradicionalmente. Por exemplo, se o aluno já produz orações conseguem plenamente)
uma descrição-prescrição
diversas, por que perder tanto tempo ensinado sobre os tipos de
dos usos da língua literá-
orações? Se ele faz uso, é porque já as conhece. Se ele aplica ria.

corretamente as regras da concordância, por que então ensiná-


las? Deve-se ensinar se ele realmente não sabe.

• Fazer o aluno reconhecer as suas competências linguística e


comunicativa, promovendo a auto-estima linguística dos alunos,
dizendo-lhes que eles já sabem o que é uma língua e que a escola
vai ajudar a desenvolver ainda mais esse saber. Por exemplo, se ele

UESC Letras Vernáculas 175


Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

não sabe usar a língua em situações que exijam monitoração,


SAIBA MAIS deve-se ensiná-lo, permitindo-lhe o aprimoramento dos
Como você já estudou em disci- recursos linguístico-comunicativos necessários para o bom
plina anterior, o conceito de com-
desempenho nas mais diferentes situações.
petência linguística foi apre-
sentado por Chomsky. Segundo o
autor, consiste no conhecimento
internalizado que o falante tem • Entender que a variação e a mudança são princípios
das regras para a formação das
sentenças. Dell Hymes (1966),
inerentes às línguas. Que não existe comunidade linguística
sociolinguista norte-americano, na qual todos falem da mesma forma. Que as variantes
argumentou que o conceito pro-
posto por Chomsky não dava con- produzidas pelos indivíduos podem ser resultantes das
ta das questões da variação da
língua. Propôs, então, um novo influências de diferentes fatores. Estamos falando aqui
conceito, o de competência co- dos fatores linguísticos e extralinguísticos. Que as línguas
municativa, que abarca tanto as
regras de formação das sentenças mudam, e que a variação é responsável por isso. É preciso
quanto as normas sociais e cultu-
rais que definem a adequação da explicar o fenômeno que se apresenta em variação na língua
fala. Conforme Bortoni-Ricardo
e demonstrar a situação adequada ao uso de cada uma das
(2004, p. 73),
variantes da regra.
[...] a principal novidade na proposta
de Dell Hymes foi, portanto, ter inclu-
ído a noção de ‘adequação’ no âmbito
da competência. Quando faz uso da • Promover o reconhecimento da diversidade linguística
língua, o falante não só aplica as re-
gras para obter sentenças bem forma- como uma riqueza da nossa cultura, da nossa sociedade,
das, mas também faz uso de normas
de adequação definidas em sua cultu-
trabalhando no sentido de reconhecer a variação como um fato
ra. São essas normas que lhe dizem
quando e como monitorar seu estilo.
linguístico e não como um “caos” linguístico. Há necessidade
Em situações que exijam mais formali- de entender que negar o que é caracteristicamente nosso
dade, porque está diante de um inter-
locutor desconhecido ou que mereça na língua é negar a nossa própria identidade cultural. É
grande consideração, ou porque o as-
sunto exige um tratamento formação, preciso construir uma atitude de simpatia frente às formas
o falante vai selecionar um estilo mais
monitorado; em situações de descon- variantes, uma atitude de investigação e de observação
tração, em seus interlocutores sejam
pessoas que ele ama e em que confia, dinâmica da linguagem.
o falante vai sentir-se desobrigado de
proceder a uma vigilante monitoração
e pode usar estilos mais coloquiais. Em
todos esses processos, ele tem sempre • Conscientizar o aluno da escala de valores que existe na sociedade
de levar em conta o papel social que
está desempenhando.
com relação aos usos da língua. Mas, atenção! Ter consciência não
significa aceitar a situação de discriminação nem submeter-
se a ela! Cabe à escola ensinar não apenas uma modalidade
da língua, o padrão-culto, mas também reconhecer a
legitimidade das outras variedades. Ensinando outras formas
de falar e de escrever, a escola estará contribuindo para a
ampliação do repertório comunicativo do aluno.

• Refletir com o aluno sobre os preconceitos que vigoram em


nossa sociedade, entre eles, o linguístico, conscientizando-o
da necessidade de destruir mitos do tipo: “certo” e “errado”.
É preciso mostrar que a noção de “erro” nada tem de
linguística, é apenas resultante dos valores sociais atribuídos
pelos falantes. Que, do ponto de vista linguístico, não existe
“erro”, existem diferenças.

176 Módulo 2 I Volume 5 EAD


SAIBA MAIS

• Trabalhar para a inserção plena do aluno na cultura letrada, por Cabe aqui lembrar o
que diz Bortoni-Ricardo
meio das práticas da escrita e da leitura, bem como promover o
(2004, p. 33-34):
conhecimento ativo das convenções dos muitos gêneros textuais
Em toda comunidade de
que circulam na sociedade, sobretudo dos gêneros escritos mais fala onde convivem falantes
de diversas variedades re-
monitorados. gionais, como é o caso das
grandes metrópoles brasi-
leiras, os falantes que são
detentores de maior poder
• Explicar ao aluno que o falante culto é exatamente aquele que – e por isso gozam de mais
prestígio – transferem esse
dispõe da consciência da prática da variação da linguagem e prestígio para a variedade
lingüística que falam. Assim,
de sua adequação às diversas situações de interação. Que, no as variedades faladas pelos
grupos de maior poder políti-
desempenho dos papéis sociais, ele circula por diferentes espaços,
co e econômico passam a ser
que poderão exigir adequações e certos usos especializados da vistas como variedades mais
bonitas e até mais corretas.
língua. Mas essas variedades, que
ganham prestígio porque são
faladas por grupos de maior
poder, nada têm de intrinse-
• Ressaltar que o aprimoramento da competência comunicativa camente superior às demais.
O prestígio que adquirem é
do aluno se dá espontaneamente no convívio social. Mas, para mero resultado de fatores
políticos e econômicos.
o desempenho de algumas tarefas especializadas, em particular
aquelas que estão relacionadas às práticas sociais de letramento,
ele precisará desenvolver recursos comunicativos através de uma
aprendizagem escolar.

O que acabamos de expor aqui são apenas alguns dos princípios


que fundamentam a reeducação sociolinguística. Tendo consciência
dessa necessidade, revendo os seus conceitos e os seus valores,
o professor pode e deve ser um transformador do espaço-tempo
pedagógico, contribuindo para desmistificar muitas “verdades” sobre

7
a língua portuguesa e seu funcionamento, bem como para combater
o preconceito linguístico e a toda forma de discriminação social.

Aula
Você, que está sendo formado para trabalhar com língua
portuguesa, está disposto a encarar o desafio? Então, já é hora de
“arregaçar as mangas” e começar a refletir sobre o que precisa ser
mudado!

UESC Letras Vernáculas 177


Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

ATIVIDADES
1 Você deverá ler o livro de Marcos Bagno, Preconceito lingüístico:
o que é, como se faz, e fazer um resumo esquemático sobre os mitos
infundados que favorecem o preconceito linguístico em nossa sociedade.

2 Com base no poema de Carlos Drummond de Andrade, Aula de


português, procure elaborar um pequeno texto, refletindo sobre o ensino
de língua portuguesa, particularmente sobre a polarização retratada pelo
poeta.

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
PARA CONHECER

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,


Carlos Góis (1881-1934),
filólogo-autor de obras gra- e vai desmatando
maticais empregadas nas o amazonas de minha ignorância.
escolas brasileiras no início
do século passado. Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.

Já esqueci a língua que comia,


em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro mistério.

3 Como afirma Possenti (1998), falamos mais corretamente do que


pensamos. É relativamente pequena a diferença entre o que um aluno
já conhece da sua língua e aquilo que lhe falta para ser um usuário
semelhante ao que a escola imagina. Muitos dos “erros” são, em geral,
hipóteses significativas sobre o funcionamento de uma língua. Para você
refletir sobre isso, considere as produções abaixo:

a. kaza, vazo, kaxorro, xá, pratu, leiti, omeim e ovu (escritas por
um aluno numa dessas atividades chamadas de “ditado”);
b. Nós vai comprá dois doce pra nós comê na hora do lanche (dita
por um aluno num determinado momento de uma aula);
c. Eu fazi o dever de casa (dita também por um aluno, quando o
professor lhe perguntou se havia feito o dever de casa);

178 Módulo 2 I Volume 5 EAD


d. “Cabrita” é o diminutivo de “cabra” e o plural de boi é “boiada”
(dita por um aluno quando o professor falava sobre flexão de
grau e de número);
e. “Talento” significa “andar devagar” e “cálice”, “a ordem para ficar
calado” (resposta dada por um aluno).

Na sua reflexão, você deverá considerar: que tipo de conhecimento


linguístico esses alunos demonstram ter? Há algum tipo de erro? Escolha
uma das situações para justificar a sua resposta. Também procure
esclarecer como o professor deve proceder diante da situação?

4 Como você viu, a proposta da reeducação sociolinguística visa


promover, entre outras coisas, um ensino de língua mais democratizado.
Procure, então, explicar, e exemplificar, como o professor deve dar conta
das variações e das mudanças que se implementam numa língua como
a nossa.

LEITURA RECOMENDADA

Para complementar esta nossa aula, recomendo a leitura do artigo Variação linguística e ensino
de gramática, de Görski e Coelho (2009), ambas professoras do Programa de Pós-graduação
em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina. Para ter acesso, basta ir ao seguinte
endereço: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/view/10749

7
Aula
RESUMINDO

Nesta aula, você viu que a sociolinguística tem contribuído para reflexões
sobre:

● O preconceito linguístico, instaurado a partir da gramática tradicional.


● As normas linguísticas, particularmente norma padrão e culta, que não
devem ser consideradas como sinônimas.
● O papel da escola frente às variações e às mudanças.
● A reeducação sociolinguística, uma prática necessária no âmbito escolar
brasileiro.

UESC Letras Vernáculas 179


Linguística II: sociolinguística Variação e ensino de língua materna: implicações

ALKMIM, T. Sociolingüística. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A. C. (Orgs.).


Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez,
2001, p. 21- 47.

BAGNO, M. Preconceito lingüístico: o que é e como se faz. São


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BAGNO, M. Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical,


mídia & exclusão social. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

BAGNO, M. (Org.). Lingüística da norma. São Paulo: Edições Loyola,


2002.

AGNO, M. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da


variação lingüística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna: a


sociolingüística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

BORTONI-RICARDO, S. M. Nos cheguemu na escola, E AGORA?


Sociolinguística & educação. 2. ed. São Paulo: Parábola Editorial: 2005.

CAGLIARI, L. C. Alfabetização e lingüística. 10. ed. São Paulo:


Scipione, 1997.

FARACO, C. A. Desembaraçando alguns nós. In: BAGNO, M. (Org.).


Lingüística da norma. São Paulo: Edições Loyola, 2002, p. 37-61.

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio


de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

LUCCHESI, D. Norma lingüística e realidade social. In: BAGNO, M.


(Org.). Lingüística da norma. São Paulo: Edições Loyola, 2002, p.
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MATTOS E SILVA, R. V. O português são dois... novas fronteiras,


velhos problemas. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

PERINI, M. A. Sofrendo a gramática. 3. ed. São Paulo: Ática, 2005.

POSSENTI, S. Por que (não) ensinar gramática na escola.


Campinas: Mercado de Letras, 1996.

SCHERRE, M. M. P. Doa-se lindos filhotes de poodle: variação


lingüística, mídia e preconceito. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

180 Módulo 2 I Volume 5 EAD


Suas anotações
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