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MANUAL DE PESQUISA ETNOBOTÂNICA:

O PROCESSO DE CATALOGAÇÃO ETNOBOTÂNICA ENTRE AS BENZEDEIRAS DE


REBOUÇAS – PR1

Caian Alberto Andrade de Mello e Bruschetta2


Orientador: Wanderlei Vieira París Junior3

RESUMO
Este trabalho visa suprir uma carência científico-metodológica no campo das pesquisas
etnobotânicas. A produção científica nesta área do conhecimento remonta os primórdios da
botânica, farmacologia e antropologia sendo seus primeiros exemplares feitos por leigos
muito anteriormente à consolidação destas ciências. Com o passar dos anos tais ciências
tornaram-se mais rígidas contudo pouco material foi produzido a fim de orientar as pesquisas
de catalogação de plantas utilizadas em contextos tradicionais. Neste trabalho desenvolvemos
um itinerário de preparação do leitor para realização de pesquisas desta natureza, não só
metodologicamente, mas também concretamente, ilustrando a proposta com a nossa própria
experiência produzindo o catálogo etnobotânico das benzedeiras da cidade de Rebouças – PR.
Palavras-Chave: Etno-botânica; Ofícios Tradicionais ;Catálogos de Plantas Medicinais

ABSTRACT

Key Words:

1 Trabalho apresentado ao curso de pós-graduação lato-sensu em Fitoterapia das Faculdades


Integradas Espírita como requisito parcial para obtenção do título de Especialista.
2 Graduado em Ciências Sociais e Pós-Graduando em Fitoterapia e Psicologia Transpessoal.
3 Professor Orientador, Mestre em Línguística, Especialista em Supervisão Escolar e Graduado em

Letras.
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1. INTRODUÇÃO: OFÍCIOS TRADICIONAIS DE CURA E A PRODUÇÃO
CIENTÍFICA ETNOBOTÂNICA

A benzedura é uma manifestação religiosa presente em todo o território nacional. Em


todas as regiões, os relatos de mulheres que trabalham promovendo curas a partir de seus
rezos são recorrentes. Tais mulheres, em sua maioria senhoras, trabalham com plantas e
orações, encaminham pedidos aos santos católicos e até mesmo negociam com as entidades
de um campo cosmológico local, unindo o catolicismo com as tradições negras, indígenas ou
mesmo de outras religiões institucionalizadas.
Esse trabalho é fruto de anos de atividades em conjunto com as benzedeiras de
Rebouças - PR. Ao fim de um ciclo intenso de pesquisas, trabalhamos para produzir um
catálogo etnobotânico que incluiria todas as plantas, os rezos e diversos outros elementos
dessa ciência tradicional como era ali praticada. Um livro com o objetivo de ensinar, de curar
e até mesmo de relembrar a memória de algum benzedor já apagada pelo tempo.
Inseridas dentro desse campo tão amplo da cultura popular, as benzedeiras de
Rebouças podem ser vistas como um dos milhares de pólos desse saber tradicional existentes
no Brasil. E, como todo pólo de produção científica, a benzedura de Rebouças tem suas
particularidades.

1.1. A CIDADE DE REBOUÇAS


Para entendermos a ciência da benzeção que se desenvolve em Rebouças, precisamos
compreender um pouco mais sobre essa cidade também. Através da sua história e até mesmo
de alguns dados sobre sua população, podemos começar a desbravar esse conhecimento
tradicional.
Rebouças é um município da região Sudeste do Paraná, localizado a 144 km da
Capital do Estado, Curitiba. Foi fundada em 1930 e, segundo o censo de 2010, possuía 14.176
habitantes, com densidade populacional média de 29 habitantes por quilômetro quadrado.
Oficialmente, Rebouças tem sua economia baseada na produção rural, em especial na
produção de fumo para a indústria tabagista. Segundo relatos locais, na última década alguns
agricultores, detentores de terras mais extensas tentaram se dedicar ao cultivo da soja; porém,
a maioria já retornou para o cultivo do fumo por não conseguir o retorno esperado. No
discurso da população local, o plantio de fumo é sempre relatado como objeto de sofrimento
devido à dificuldade de seu cultivo e os diversos males de saúde que sofrem seus produtores,

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principalmente após o envelhecimento. No entanto, o cultivo do tabaco é acionado nesse
discurso como única alternativa viável no município.
A colonização local é quase exclusivamente alemã e polonesa, havendo inicialmente,
nas histórias populares, ‘bugres’ na região. Essa herança indígena se faz presente nos corpos
de quase todos os habitantes, mas é completamente ausente na identidade histórica das
famílias reboucenses. Os ucranianos, também muito presentes na região, não marcam,
aparentemente, presença significativa na cidade de Rebouças. Apesar dessa miscelânea étnica,
desde já vale ressaltar que o benzimento de Rebouças contrariamente ao esperado
praticamente nunca utiliza do recurso das defumações por tabaco, típicas dos ameríndios que
habitavam a região. Assim, a herança indígena se faz presente nesse corpo de conhecimento a
partir do uso das folhas nativas e algumas narrativas cosmológicas sobre visagens e entidades.
Em Rebouças, metade de sua população é habitante do meio urbano (52.9%), outra
metade do meio rural (47.1%), havendo aproximadamente (com muitas informações
controversas) 23 comunidades rurais no município. Nesse contexto, a associação das
‘benzedeiras’ locais, MASA (Movimento Aprendizes da Sabedoria), identificou 133
‘detentores de ofícios tradicionais de cura’ no município em 2008; porém, esse número já se
elevou para aproximadamente 150 em 2015.
Esse dado é de fundamental importância, pois evidencia a particularidade do contexto
local no que tange às práticas de benzeção. Podemos imaginar que o número identificado de
benzedores na região corresponde a aproximadamente metade do número existente, ou ainda
menos. Muitos benzedores não foram catalogados por terem em suas práticas elementos
diferentes daqueles que definem a benzedura para associação, como por exemplo o “não
cobrar”. Outros, em grande número, declaradamente recusaram-se à identificação pela
associação por medo de represálias, médicas ou policiais, e por desinteresse na mobilização
política e participação na Associação. Ainda assim, o número identificado de benzedores na
cidade é maior que 1% da população local revelando o como essa prática está profundamente
enraizada na população local de forma geral.

1.2. HISTÓRIA DA PESQUISA


Nossa jornada se iniciou em 2012, quando iniciei meu primeiro trabalho de pesquisa
acadêmica. Na época, era um graduando de Ciências Sociais e tinha sido chamado para
desenvolver uma pesquisa própria na área de saberes tradicionais. Sem pensar muito, lembrei-

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me de um dia quando conversava com um amigo e ele me contava sobre um episódio em sua
cidade natal.
Segundo ele, os habitantes da cidade se revoltaram contra o padre da paróquia em
meio a missa, aos gritos e insultos. Isso aconteceu pois, minutos antes, ainda na mesma missa,
o padre teria denunciado a prática da benzedura como inadequada e contrária à Igreja.
Quando ouvi essa história, fiquei extremamente intrigado sobre como a benzedura
desse local era profundamente reconhecida e valorizada pelos habitantes e quão surpreendente
era o fato de estes se revoltarem com a maior autoridade eclesiástica da cidade para defender
as praticantes desse ofício! Achei linda essa história! E essa beleza inspirou minha decisão.
Após alguns percalços, meses depois, estaria indo pela primeira vez a campo para
conhecer as benzedeiras das cidades de Rebouças e São João do Triunfo (local do causo
contado). Chegando lá, fui informado sobre o processo de luta social e política que as
benzedeiras estavam realizando através do MASA. Nessa data, o movimento já havia gerado
um grande impacto local e já havia conquistado reconhecimento em nível nacional. Seu
momento era de buscar fortalecer as bases para dar continuidade ao trabalho após a
efervescência inicial.
Desse modo, acabei desenvolvendo uma maior aproximação com as lideranças de
Rebouças e mudei o foco de meu trabalho de campo para essa cidade. Nos anos seguintes,
dediquei-me a acompanhar o cotidiano de 5 benzedeiras - Dona Ana Maria, Dona Alzira,
Dona Aguida, Dona Dejanira e Dona Maria. Cada uma seguia uma espécie de linha da
benzedura, conhecimentos de origens muito diferentes, devoções religiosas distintas, formas
de aprendizado, dentre outros fatores distintivos. Isso proporcionou um trabalho com boa
amplitude e fundamentação, suficiente para a pesquisa que vinha desenvolvendo.
Contudo, próximo ao fim desse ciclo de imersão em campo, surgiu a necessidade de
produzir algo que fosse útil para as próprias benzedeiras, algo com uma utilidade para além da
mera produção acadêmica. Nesse momento, decidimos produzir um catálogo etnobotânico,
condensando o máximo de conhecimento possível de ser transmitido em linguagem escrita.
Esse trabalho nos tomou um longo período de coleta de dados e sistematização, mas agora
está terminado e pronto para sua publicação.

1.3. O ATUAL ESTÁGIO DESTA PESQUISA


Após o desenvolvimento desse catálogo, encerraram-se as incursões iniciais a campo,
mas não o vínculo com as benzedeiras de Rebouças ou com essa pesquisa. Enquanto o

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catálogo não é publicado, este trabalho é fruto de uma atual reflexão sobre todo o processo de
pesquisa e a importância de difundir e facilitar essas empreitadas em futuras pesquisas na
área.
Assim, nesse trabalho, busco transmitir um pouco dos aprendizados que tivemos em
campo, respondendo às perguntas de como realizar um processo de catalogação etnobotânica.
Para isso, responderemos não apenas num campo prescritivo, mas também descritivo - tendo
como pano de fundo os relatos de como realizamos o processo de catalogação em Rebouças.
Assim, o trabalho atual gira em torno dessa questão: como a realização da catalogação
etnobotânica pode servir como instrumento de mobilização social e como esse episódio pode
nos ajudar a executar futuras pesquisas nessa área.

1.3.1. Objetivo Principal


● Desenvolver um manual ilustrado de etnobotânica com base no processo desenvolvido
no contexto tradicional das benzedeiras de Rebouças – PR.

1.3.2. Objetivos Secundários


● Elencar princípios para estabelecer as relações e a autoria no processo de catalogação.
● Apresentar o processo e algumas técnicas etnográficas úteis para o processo de
catalogação etnobotânica.
● Determinar uma maneira eficaz de registrar e organizar os dados etnobotânicos.
● Prescrever uma maneira eficiente de transpor os dados ao texto de forma didática e
acessível ao receptor.

1.3.3. Metodologia
Para a realização desse trabalho, utilizaremos dos materiais desenvolvidos ao longo
de três anos de pesquisas de campo em observação participante, quando desenvolvi,
juntamente com as benzedeiras de Rebouças, uma etnografia sobre a sua forma de ser no
mundo e sua sabedoria tradicional.. Nessa ocasião, lancei mão de diversas técnicas
coadjuvantes, como a utilização de fichas catalográficas, registro audiovisual, entrevistas
abertas, dentre outros elementos que serão detalhadamente descritos e discutidos neste texto.

2. CATÁLOGOS ETNOBOTÂNICOS

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Os catálogos etnobotânicos são um tipo de produção transdisciplinar muito comum na
história das ciências. Constituem-se de livros que trazem uma grande listagem de plantas e
seus usos terapêuticos ou místicos em suas comunidades. Por muito tempo, foram formas de
transmissão de conhecimento de místicos e recentemente na história humana tem sido a
principal fonte de exploração botânica na busca por medicamentos novos, desenvolvida pela
indústria farmacêutica.
Contudo, a origem desses trabalhos precede em muito a constituição da botânica ou da
antropologia e são existentes desde os primeiros livros sobre usos terapêuticos ou nutricionais
de plantas diversas. Por muito tempo, os melhores trabalhos nesse campo do conhecimento
foram realizados por homens místicos buscando catalogar os usos terapêuticos e mágicos de
várias plantas. A alquimia antiga tratava esse tipo de produto com um campo de
conhecimento específico chamado Esparigía (HUTIN, 2017).
Com o avanço da modernidade e a consolidação das ciências no Ocidente, as
publicações dessa origem se tornaram ainda mais periféricas, dado o pouco impacto sobre as
discussões epistemológicas realizadas. Desde o avanço da botânica e da constituição da
antropologia como uma área de saber, esses produtos científicos têm sido realizados por
vários pesquisadores; contudo, nunca angariou força suficiente para se tornar uma área de
conhecimento autônoma ou mesmo auto-reprodutora, nem sua produção tem sido significante
o suficiente para alcançar relevância acadêmica.
Como exposto anteriormente, esse tipo de produção por muito tempo teve uma única
finalidade: o reconhecimento botânico de espécies tradicionalmente utilizadas e por
consequência a difusão no meio científico desses usos como hipóteses de eficácia para serem
verificados na busca por novos medicamentos.
Atualmente, esse tipo de produção retorna às discussões periféricas resgatando seu uso
tradicional, como forma de transmissão de saberes entre uma classe. Assim, suas produções
não visam mais à indústria farmacêutica, mas preferencialmente o fortalecimento e a
transmissão de conhecimentos dentro de grupos tradicionais. Uma forma de fortalecer,
reconhecer e preservar os saberes de ofícios tradicionais como as benzedeiras ou da sabedoria
de povos periféricos como ameríndios, caiçaras, pequenos agricultores, entre tantos outros.
Isso traz uma série nova de questões, a saber a ética autoral, o risco de produzir livros que
incentivem a "biopirataria" sem o reconhecimento da origem dos saberes em questão ou
mesmo o impacto destas produções na dinâmica de reprodução comum destas sociedades.

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3. PROCESSO ETNOGRÁFICO
A base de produção de todo e qualquer catálogo etnobotânico está no processo
etnográfico. Ou seja, para ser possível realizar uma produção desta natureza com o mínimo
rigor e qualidade, é necessária a imersão do pesquisador no ambiente tradicional que guarda
essa sabedoria ligada às plantas, seu ambiente e seu cotidiano. Somente assim é possível ter
uma compreensão da real significação terapêutica de cada espécie vegetal, bem como a forma
que esse produto se relaciona com todo um modo de vida e um ambiente.
E aqui não se fala em dias, mas em anos de pesquisa, buscando ao máximo a imersão
no contexto pesquisado. O pesquisador deve estar disposto a mergulhar em um outro modo de
vida a ponto de tornar-se uma possibilidade para ele próprio, uma possibilidade de forma de
vida; aprender dentro de si, como uma possibilidade, a linguagem formada pelos saberes
daquele contexto (EVANS-PRITCHARD, 2005). Para isso, o convívio não pode ser isolado,
mas o mais imerso possível, convivendo diariamente em todas as horas do dia - se possível - o
cotidiano das pessoas que detém essa sabedoria extraordinária.
Neste caso o trabalho de campo foi feito em curtas imersões (1 semana a 1 mês), de
duas a quatro vezes por ano, durante quatro anos consecutivos. Nessas imersões fui acolhido
por uma benzedeira, Dona Ana, com quem vivi e acompanhei cada minuto do seu dia-a-dia.
Vivi em sua casa, com sua família, dormindo e comendo sob seu teto e a seu modo, tornamo-
nos íntimos amigos por toda a vida, mesmo seguindo por caminhos muito diferentes.
Somente assim foi possível de forma muito incipiente e mínima começar a
compreender sua sabedoria e seu modo de existir naquele contexto, seu modo de interagir
com seu mundo e assim como utilizar sua vida em prol da cura de sua comunidade. Esse
conhecimento sempre será incipiente, mas a partir de um momento é possível começar a
internalizá-lo e tentar movê-lo para produzir um novo tipo de conhecimento em conjunto com
nossos interlocutores. Começar a juntos produzirmos o que seria um catálogo etnobotânico
com a principal finalidade de ser distribuído para as benzedeiras de Rebouças, a fim de tornar-
se um meio de troca de conhecimentos e de acesso rápido a qualquer saber oculto pelas
nuvens da memória.
3.1. INTERLOCUTORES E O PROCESSO DE BIOGRAFIA E GENEALOGIA
Na produção do catálogo não trabalhei apenas com Dona Ana, apesar de ela ter sido
minha anfitriã e ter me conduzido até cada uma das outras benzedeiras. Nosso catálogo foi
produzido com a participação de Dona Ana, Dona Dejanira, Dona Aguida, Dona Maria e
Dona Alzira - esta última de forma mais discreta.

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A maior parte dos conhecimentos surgiram de forma espontânea, conforme nossos
diálogos caminhavam por entre os ritos, as plantas, os santos e os rezos e orações. Contudo,
para poder assimilá-lo de forma mínima a conseguir sistematizá-lo em um texto escrito, foi
fundamental conhecer anteriormente os detalhes da biografia de cada uma das envolvidas.
Apenas lendo os livros religiosos e científicos, conhecendo seus mestres ensinadores, suas
devoções e a trajetória de vida de cada uma pude esboçar um mapa de usos etnobotânicos.
Alguns saberes advinham de uma sabedoria ancestral, outros produzidos por elas mesmas de
forma contextual, perante situações da própria vida, mudança de moradia ou queixas daqueles
que as procuravam. Ainda havia saberes de origem técnica, como em textos da Igreja Católica
ou Manuais de Homeopatia ou Nutrição. Todos esses saberes eram apropriados por essas
mulheres e remodelados de forma útil e plenamente coerente com sua comunidade e a
linguagem pela qual interagem com o mundo de forma eficaz e tradicional.
3.2. BIOGRAFIAS NÃO-HUMANAS
Aos poucos, foi se tornando claro que não apenas os humanos necessitavam de uma
biografia e do mapeamento genealógico de seus saberes, mas também outros agentes no
processo de cura, existências outras que não as humanas. Por mais que o homem ocidental
urbano negue o direito à consciência a outros seres, nos ritos e na interação tradicional dessas
mulheres diversos outros serem se manifestam concretamente e devem ser compreendidos
para que sejam mobilizados de forma benéfica ao ser humano.
Igor Kopytoff foi um marco de extrema lucidez ao propor a biografia de objetos para
compreender seu papel e sua agência de forma mais eficaz (KOPYTOFF, 2010). Talvez por
influência de sua obra que os primeiros a saltarem minha vista foram os Santos acionados nos
ritos de cura para interferirem no processo humano pelo que chamam de “Poder”
(BRUSCHETTA, 2015). Não distante desse momento, ficou clara a mesma necessidade para
plantas e ambientes, uma vez que as plantas nessa forma de relacionar-se com o mundo
possuem não só consciência, mas também personalidade, gênero, história e intenção. Os
ambientes do mesmo modo, em especial ambientes santos como os Olhos D’água de São João
Maria, terras "visagentas" ou mesmo locais onde processos muito intensos e impactantes
aconteceram - como bênçãos poderosas ou mortes calamitosas.
Aos poucos, isso foi expandido para os ritos e simpatias, para os espaços comuns
como casas e ambientes externos de todas ordens. Ter catalogado tais espaços e suas
biografias permitiu que se montasse uma rica e fértil rede de agentes humanos e não humanos
que têm papel crucial no processo de cura desencadeado por essas mulheres. Somente assim

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pude compreender de forma um pouco mais clara diversas nuances do modo de existir e viver
dessas pessoas e a complexa e precisa ciência de seus saberes tradicionais.
3.3. O ESPECTRO DE SAÚDE E DOENÇA
Outro aspecto fundamental para compreendermos os saberes ligados a ofícios
tradicionais de cura é o que chamamos de Espectro de Saúde e Doença. Por óbvio que em
contextos específicos, saúde e doença são conceitos que remetem a processos bastante
distintos. Assim, é fundamental compreender o que está se tratando por doença, por cura, por
saúde ou qualquer conceito próximo.
Elda Rizzo de Oliveira (OLIVEIRA, 1983), uma das pioneiras a se dedicar ao tema do
benzimento traz no seu contexto urbano estudado a definição de doença como incapacidade
de trabalhar. Assim, em sua obra, esse espectro gradual entre Saúde e Doença vão da plena
capacidade de trabalho e sustento até a incapacidade de garantir sua subsistência urbana.
Já no contexto das benzedeiras de Rebouças, podemos compreender a saúde como a
plena e satisfatória relação entre os seres, tanto humanos, quanto divinos, naturais ou
quaisquer outros, enquanto a doença é todo aquele processo que dificulta a plenitude desta
relação, impondo algum tipo de sofrimento ao sujeito ou à comunidade. Normalmente nesse
sentido, a doença é compreendida como agente concreto, seja ele material ou imaterial.
Quebrante, ar, bixas, sapinho ou uma gripe. Toda doença tem sua ontologia que fundamenta
como deve ser realizado o processo de cura para que seja efetivo: o formato do agente, o meio
de ingresso no corpo, sua origem, gênero, espécie. Todos esses elementos são importantes
para definir o tratamento adequado - a simpatia ou ritual adequados, as orações, santos
acionados, as plantas utilizadas e seu modo de preparo.

4. O PROCESSO CATALOGRÁFICO: QUESTÕES DE TRABALHO COLETIVO E


DE AUTORIA
Para desenvolver este tipo de atividade, é fundamental a construção de uma equipe
transdisciplinar e transcultural para o trabalho de campo. Inicialmente é recomendado ao
antropólogo longos de períodos de campo para estabelecimento de laços e aproximação de sua
linguagem com a linguagem tradicional da população estudada. Mas no momento de
empreender propriamente a pesquisa etnobotânica, o trabalho de campo deve deixar de ser um
trabalho solitário. Fotógrafos, botânicos e biólogos, dentre outros, são partes importantes
desse levantamento.

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Em nosso caso, após 03 anos e meio de aproximação e pesquisa etnográfica, surgiu o
intuito de construir um catálogo etnobotânico juntamente com as benzedeiras de Rebouças.
Numa ocasião futura, colegas de profissão, biólogos e fotógrafos somaram-se para registrar e
pesquisar as espécies nativas. Lembrando que a classificação nativa pode ser muito distinta da
acadêmica, onde uma mesma espécie pode ter diferenciada em várias e distintas espécies
dentro dos saberes tradicionais ou mesmo o inverso - sem contar casos onde o comportamento
do vegetal muda conforme o contexto cerimonial ou o estado de saúde sobre o qual é
aplicada.
Aqui surge uma questão fundamental a respeito de autoria da pesquisa. Assim como,
no fundo, todo saber etnográfico, este saber etnobotânico é construído num encontro entre
pessoas, trajetórias e perspectivas. Esse saber nasce sob essa forma a partir de técnicas
etnográficas, pela escrita antropológica, pelo saber nativo, e pelas relações estabelecidas, além
dos agentes naturais envolvidos. Dessa forma, seria pretensioso demais mantermos as
políticas autorais dos antropólogos e biólogos das antigas abordagens - de evolucionistas a
culturalistas - mantendo a ‘Autoridade Etnográfica’ para legitimar o “seu” saber e deixando
de lado o poder e o reconhecimento da legitimidade do saber nativo.
Em poucas palavras, devemos superar a dicotomia de saber nativo-saber acadêmico
e reconhecer que trabalhamos com um saber construído coletivamente e transculturalmente,
mobilizado por gerações em todas as partes envolvidas, inclusive não humanas. Um saber que
emerge de um encontro movido por um propósito coletivo mais ou menos comum e
construído nas formas possíveis de estabelecer este contato e manter essas relações. Assim,
talvez a melhor forma seja reconhecendo a autoria coletiva do trabalho e organizando sua
escrita de forma que seja útil e palatável às diversas comunidades ligadas em sua produção.

5. FICHAS CATALOGRÁFICAS
Montada a equipe e tornados todos seus membros conscientes do trabalho que será
feito, suas possíveis utilidades e a forma de sua realização até o fim do projeto de pesquisa é
necessário ao pesquisador etnobotânico e sua equipe diretrizes para normatizar e classificar o
conhecimento desenvolvido neste encontro da tradição acadêmica e da tradição nativa. Essa
organização tem de ser rígida ao ponto de criar uma forma de transmissão escrita deste
conhecimento, mas fluida a ponto de não rejeitar as nuances da sabedoria de relação com os
vegetais e outros agentes não humanos envolvidos.

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Aqui trago como ilustração desse processo a minha própria experiência com a
pesquisa etnobotânica com as benzedeiras de Rebouças. Nessa ocasião, criamos uma série de
fichas catalográficas. A princípio para os vegetais, mas naturalmente foi se tornando evidente
que outras fichas eram necessárias para buscar transmitir de forma mais íntegra os saberes que
se manifestavam em nossos encontros. Todas as fichas produzidas seguem em anexo e podem
ser reutilizadas ou modificadas por quaisquer pesquisadores de forma livre conforme as
necessidades e particularidades da pesquisa desenvolvida pelo leitor (apêndice II, nas páginas
19 a 25).
Para além das plantas, as primeiras fichas a nascerem em nossas pesquisas foram as
doenças e patologias. Ficou claro que só poderíamos transmitir a um leitor externo um pouco
dessa sabedoria caso este compreendesse minimamente a visão de saúde e doença do contexto
em produzimos esse conhecimento. Em seguida vieram os ritos e simpatias, pois não
conseguimos mobilizar as agências dos vegetais sem expor a linguagem que era utilizada para
mobilizá-las de forma sanadora. Em paralelo, surgiram as fichas a respeito de santos e suas
narrativas históricas e míticas, bem como dos ambientes, orações e visagens. Essas
completavam o quadro para compreender não só o rito e a planta utilizada, mas os
fundamentos dessa linguagem cerimonial que leva à cura naquela comunidade.
Claro que isso ocorre sem a ilusão de que seja possível uma completa transposição
desses saberes aos leitores, mas sim com a intenção de reduzir ao máximo a perda que ocorre
na tradução transcultural e na passagem para a linguagem escrita. Fica portanto a sugestão ao
leitor não apenas do uso deste sistema que criamos em nossa pesquisa, mas também o convite
a uma abertura para perceber as sutilezas (muitas vezes nem tão sutis) que interferem no
processo etnobotânico como os ambientes e as narrativas míticas que trazem diversos
aspectos fundamentais do processo de cura e magia realizado.

6. DO REGISTRO À ESCRITA: ELEMENTOS IMPORTANTES NO PROCESSO


TRANSCULTURAL
Neste item elaborei uma pequena lista de eventos fundamentais ao processo de
catalogação etnobotânica que pretendo sejam úteis ao leitor. Tais pontos trazem
argumentações e sugestões sintéticas para que o pesquisador que esteja lendo esse trabalho
construa seu próprio caminho de pesquisa com a comunidade em que esteja em relação.

6.1. TRABALHO ETNOGRÁFICO

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O trabalho etnográfico é a base de qualquer pesquisa etnobotânica. Suas
particularidades, técnicas, métodos, dificuldades e problematização abundam na literatura
antropológica. Caso o leitor não esteja familiarizado com esse tipo de pesquisa, é altamente
recomendável que curse algumas disciplinas de cursos universitários com essa temática.
Muitas vezes, perceber ou lidar com as dificuldades ou sutilezas de um trabalho dessa
natureza é bem mais desafiador do que imaginamos antes de defrontar tais situações
pessoalmente e nessas horas a orientação de profissionais que já passaram por esse tipo de
pesquisa é fundamental. Em termos de leituras, ainda sugiro alguns clássicos dessa temática
como “introdução” do livro “Argonautas do Pacífico Ocidental” de Bronislaw Malinowiski
(MALINOWISKI, 1976); os dois primeiros capítulos de “Invenção da Cultura” de Roy
Wagner (WAGNER, 2010) e; “Estar lá” e “Estar Aqui” de Clifford Geertz (GEERTZ, 1989).
Além de vários textos mais voltados a técnicas e métodos em antropologia.

6.2. ENTREVISTAS
As entrevistas antropológicas muitas vezes não ocorrem nos moldes imaginados pelo
leigo, onde perguntas e respostas se sucedem. Mas, sim, são diálogos onde temas são
abordados, buscando-se deixar o interlocutor o mais livre possível para explorar seu próprio
caminho de pensamento e expressão. Essa liberdade é fundamental para que o pesquisador
comece a se abrir - ou caso seja nativo da comunidade, comece a perceber de outra forma - o
conhecimento envolvido. Normalmente, trilham-se por itens que precisam de maior
aprofundamento, partindo de um pressuposto de máximo desconhecimento sobre o tema,
mesmo esse sendo familiar. Solicitam-se explicações mais profundas e muitas vezes muito
mais básicas, óbvias até para crianças no local, para que se cumpra uma real aproximação das
perspectivas envolvidas. Muitas vezes, ao fim do processo de entrevista, nascem mais
questões que respostas que exigem novos encontros nesses mesmos moldes ao longo de vários
períodos. Mesmo com fichas catalográficas, o ideal é receber dessa forma toda e qualquer
informação adicionando campos, detalhando pontos aparentemente sem importância e só
depois de toda livre-associação possível buscando preencher lacunas na compreensão técnica
das questões.

6.3. REGISTROS AUDIO-VISUAIS


O registro de áudio é fundamental para o fichamento e transcrição dos conhecimentos
recebidos em entrevistas ou mesmo em peregrinações para encontrar espécies nativas. Sua

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transcrição mais fiel possível é fundamental especialmente quando o saber envolve narrativas
como histórias de outros tempos ou naturezas, discursos sobre a natureza ontológica de seres,
plantas, animais, locais, santos e visagens entre tantos outros agentes. O registro visual das
plantas ou ambientes tem a mesma importância e deve-se realizá-lo em vários recortes das
espécies ou locais e em várias épocas do ano para verificar variações e padrões.

6.4. IDENTIFICAÇÃO BOTÂNICA


A identificação das espécies botânicas deve ser realizada por uma equipe preparada
com formação nas Ciências Biológicas. O ideal é uma equipe de vários pesquisadores para
otimizar o tempo do processo uma vez que algumas espécies são de difícil identificação. O
etnobotânico deve acompanhar todo processo para fazer uma tradução de equivalências e
diferenças nas classificações e nos princípios de classificação entre o saber botânico local e o
saber botânico acadêmico.

6.5. ESCRITA FINAL


A escrita final é um processo longo e delicado. Primeiramente, o material deve ser
organizado em vários sumários, a partir de males combatidos e funções, a partir de espécies, e
de todos outros princípios classificadores possíveis para facilitar seu manuseio. Além disso,
em um tomo separado ao fim do livro muitas vezes é fundamental argumentações acadêmicas
para o uso também científico deste material. A linguagem deve ser a mais simples possível e
deve-se manter em todo o texto o acesso dos povos tradicionais ao conhecimento produzido
por eles próprios mesmo nesta forma escrita. Isso é fundamental!

7. CONCLUSÃO
O processo de produção etnobotânica é um encontro entre perspectivas diferentes,
produzindo resultados sempre antes não existentes. Décadas atrás, era comum as ciências
ocidentais acreditarem estar observando o modo de vida de primitivos que ainda não haviam
alcançado o patamar de evolução das ciências, uma visão tão equivocada quanto ingênua.
Hoje nos é claro que tanto nossa ciência farmacológica e botânica quanto as ciências
tradicionais, como no nosso trabalho o ofício do benzimento, são modos igualmente válidos
de interação e compreensão. Ambas práticas refletem um modo de existir num mundo e seu
encontro não apenas confronta os limites de ambas realidades como cria novos conhecimentos
e um novo mundo, híbrido entre as tradições.

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Acreditar que de alguma forma atinjamos e compreendamos os saberes nativos é
novamente uma ingenuidade, uma vez que esse trabalho ocorre em uma situação que é mais
como o cruzamento entre mundos e modos de ser distintos em um campo relativamente
comum. De qualquer modo, podemos mobilizar a produção empírica desse tipo de pesquisa,
visando beneficiar ao máximo esses dois modos de ser e seus universos de interação. Buscar
tornar o conhecimento escrito útil, palatável aos povos tradicionais, bem como útil aos meios
científicos. Lembrando que esse choque de mundos é desigual e portanto buscando proteger e
preservar da imposição dos meios do capital ou do Estado ao meio nativo - de forma prática,
protegendo a autoria do conhecimento e tomando medidas para redução da biopirataria ou da
patenteação de saberes sem o crédito de seus autores e preservadores, os povos tradicionais.
Por fim, esse tipo de pesquisa evidencia não só a existência de mundos outros e
diferentes modos de existir e interagir com as realidades humanas. Assim, a reflexão sobre
esses saberes não só expande nosso conhecimento sobre plantas e ritos como nos permite
aproximar nossa lógica de outra e assim expandir os limites de nossa própria realidade.

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8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUSCHETTA, Caian Alberto Andrade de Mello e. Cura e devoção: a vida e a sabedoria


das benzedeiras de rebouças - PR. UFPR Curitiba, 2015.
EVANS-PRITCHARD, S. E. E. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Rio de
Janeiro: Zahar, 2005.
KOPYTOFF, Igor. A biografia cultural das coisas: a mercantilização como processo. In:
APPADURAI, Arjun. (Org.). A vida social das coisas: as mercadorias sob uma
perspectiva cultural. Niterói: Editora da Universidade Federal. Fluminense, 2010.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro:LTC, 1989.
HUTIN, Serge. História Geral da Alquimia: Origem, Filosofia e Simbolismo. Rio de
Janeiro: Instituto Sutilizar, 2017.
MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. (Introdução). São Paulo:
Abril Cultural, 1976.
OLIVEIRA, E. R. D. Doença, cura e benzedura: estudo sobre o oficio da benzedeira em
Campinas. Campinas: Dissertação de Mestrado - UNICAMP, 1983.
SANTOS, F. V. D. O ofício das rezadeiras: um estudo antropológico sobre as práticas
terapêuticas e a comunhão de crenças entre as rezadeiras de Cruzeta/RN. Natal:
Dissertação de mestrado - UFRN, 2007.
WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo,. Cosac Naify, 2010.

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9. APÊNDICE I: COMO REALIZAR UMA PESQUISA ETNOBOTÂNICA
Neste apêndice construí um manual resumido de como realizar uma pesquisa
etnobotânica, desde seu planejamento à sua conclusão, buscando facilitar a realização de
pesquisas nesse campo de conhecimento.

Passo 01: A Escolha do Contexto de Pesquisa


A escolha do contexto de pesquisa pode ser feita de forma arbitrária pelo próprio
desejo do pesquisador. Contudo, é importante que o pesquisador inicie seu trabalho em um
contexto que a cultura local não seja aversivo, uma vez que emergindo as dificuldades com os
vínculos sociais tal situação se torna uma bomba relógio de pressões e perigos.
Do mesmo modo escolher um local que lhe seja completamente familiar, como seu
local de origem e formação pode impor outros tipos de pontos cegos, pela extrema
familiaridade. Isso oculta aos olhos da pesquisa muitos pontos, alguns deles talvez sendo os
mais importantes, uma vez que somos inconscientes de nossa própria cultura.
Caso o contexto de pesquisa possua ofícios tradicionais ligados às plantas nativas o
processo de pesquisa torna-se muito facilitado e por vezes muito mais profundo, afinal estes
ofícios tradicionais tem sua profundidade, conhecimento e sabedoria. Contudo, é importante
estar atento ao campo do segredo. Ou seja, daqueles conhecimentos cuja os iniciados não
transmitem aos leigos, mas que pode ser mapeado de forma adjacente pela informação
etnográfica ou pelo contato e aprendizado íntimo e intenso com a população local.

Passo 02: Construção da Equipe


É fundamental a transdisciplinaridade neste tipo de estudo e portanto uma equipe
constituída de profissionais das áreas de antropologia para construção dos vínculos com a
comunidade e dos próprios saberes etnobotânicos, da botânica para identificação de espécies e
modos de cultivo, profissionais para ilustração botânica ou fotografia botânica e até mesmo
farmacêuticos para o estudo da farmacologia das plantas medicinais. A equipe deve ser
minimamente coesa e capaz de compreender a validade e importância do saber tradicional,
tendo o mínimo treinamento em não considerá-lo supersticioso ou ingênuo.

Parte 03: Construção dos Vínculos, Métodos e Objetivos.


Após esta organização inicial inicia-se as incursões à campo, preferencialmente
colocando o pesquisador de forma íntima e constante com a população local ou os

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especialistas no conhecimento tradicional. Quão mais próximo e por mais tempo estes
vínculos se derem, mais efetivo será o resultado deste trabalho. É altamente recomendável que
este pesquisador domine a língua nativa, mantenha laços de convívio cotidiano com um grupo
nativo - inclusive alimentação e alojamento - e registre cada passo dado em seu diário de
campo. Estabelecido este vínculo de forma profunda e duradoura pode-se construir junto dos
interlocutores de pesquisa o objetivo de construção coletiva de um catálogo etnobotânico,
momento de confecção das fichas catalográficas.

Parte 04: Catalogação


Neste momento é ideal a peregrinação com os interlocutores aproveitando qualquer
vegetal localizado, local visitado ou problema enfrentado em matéria prima para o catálogo
etnobotânico. Este é o momento também de romper os limites das fichas catalográficas e
adaptá-las ao saber encontrado ou mesmo descartá-las em alguns casos, total ou parcialmente.

Parte 05: Reformulações e Revisitações


Após o preenchimento das fichas o pesquisador deverá transcrevê-las de forma a
conseguir construir um saber mais linear, mais próximo da linguagem escrita. Nesta ocasião
irão surgir lacunas de conhecimentos importantes naturalmente exigindo um retorno ao
trabalho de campo para aprofundamento de diversas questões. Este processo cíclico pode ser
dar por anos até o pesquisador mesmo com novas lacunas dar-se por satisfeito com o
conhecimento produzido e sistematizado. De todo modo, ao menos um ciclo de três
reformulações e novas imersões em campo é fundamental. Neste estágio da pesquisa, também
é fundamental a união com botânicos e farmacêuticos para construção do saber dialogante
com as ciências biológicas ocidentais. Aqui serão realizadas as identificações de espécies
vegetais e de principais ativos na droga vegetal.

Parte 07: Organização e Escrita


Neste momento com os saberes sistematizados o pesquisador deverá dedicar-se ao
trabalho braçal da pesquisa etnobotânica, sistematizando em um texto os conhecimentos
adquiridos tanto por via botânica e farmacologia quanto via sabedoria tradicional, pesquisa
etnográfica, ou literatura paralela. O texto deve estar sempre claro e remetendo ao máximo a
autoria de saberes à população tradicional envolvida.

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Parte 08: Publicação e Distribuição
Concluído o processo de escrita, deve-se organizar a publicação e produção da
pesquisa em forma impressa e/ou digital. Independente do formato, é fundamental que o
pesquisador e os editores levem sempre em conta tornar o material acessível aos seus
produtores tanto em termos gráficos, quanto na forma do texto.

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10. APÊNDICE II: FICHAS CATALOGRÁFICAS

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