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Nome da escola

Aluno ______________________________________ N.º ________


Turma ______________________________________ Data ________

1. Lê o texto e completa os espaços com as opções corretas.O conto "Sempre era uma companhia"
decorre na aldeia de Alcaria, _________________, descrita como um espaço _________________, com
menos de _________________ casas e uma _________________.Todas as personagens do texto
pertencem _________________, constituindo, assim, o seu espaço _________________.A
_________________ parece resumir bem o que entendemos por espaço _________________, contudo
notamos uma alteração a partir do momento em que _________________ chega à venda, permitindo um
maior _________________ entre todos os habitantes, que até então sofriam com _________________,
o isolamento.A telefonia vem, ainda, transformar o espaço _________________ através da transmissão
de notícias referentes ao que se passa em todo o mundo.
Consultar anexo 1

Opções:

Espaço 1 - Alentejo, Algarve, Estremadura


Espaço 2 - confuso, isolado, cosmopolita
Espaço 3 - dez, doze, vinte
Espaço 4 - venda, farmácia, biblioteca
Espaço 5 - ao povo, à burguesia, à nobreza
Espaço 6 - psicológico, político, social
Espaço 7 - alegria, resignação, atitude conservadora
Espaço 8 - psicológico, político, geográfico
Espaço 9 - o telefone, a rádio, o gira discos
Espaço 10 - isolamento, estranhamento, convívio
Espaço 11 - a solidão, as condições precárias , a falta de espaço
Espaço 12 - psicológico, físico, sociopolítico

2. Atenta no excerto e identifica os três vocábulos (por ordem de aparecimento) que traduzem o
ambiente social da aldeia.

"E o Batola por mais que não queira, tem de olhar todos os dias o mesmo: aí umas quinze casinhas
desgarradas e nuas; algumas só mostram o telhado escuro, de sumidas que estão no fundo dos córregos.
Depois disso, para qualquer parte que volte os olhos, estende-se a solidão dos campos. E o silêncio. Um
silêncio que caiu, estiraçado por vales e cabeços, e que dorme profundamente. Oh, que despropósito de
planos sem fim, todos de roda da aldeia, e desertos!"
Os três vocábulos são...

3. Completa a frase apresentada apenas com uma palavra.


Consultar anexo 2.

A personagem que traz alento a Batola antes da telefonia chegar à sua venda é o...

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4. Seleciona a opção correta.A chegada da telefonia à aldeia de Alcaria...
Consultar anexo 1.

(A) é uma metáfora das transformações tecnológicas que visavam trazer conhecimento e retirar todos as
pessoas da "escuridão"(desconhecido).
(B) é esperada por todos os seus habitantes, embora alguns tivessem receio do que podia advir da
inclusão da telefonia nas suas vidas.
(C) passa despercebida à maior parte dos habitantes.
(D) é assinalada com uma grande festa em que todos dançam ao som da música que ouvem pela
primeira vez.

5. Seleciona a opção que melhor traduz a reação da mulher de Batola à chegada da telefonia à venda.

Consultar anexo 1.

(A) A mulher de Batola fica irritada, porque a telefonia era muita cara, Batola quase não trabalhava na
venda e gastava todo o dinheiro em bebidas.
(B) A mulher de Batola discorda do marido em relação à aquisição da telefonia, chegando, até, a ameaçar
abandonar a casa de ambos, caso a venda se concretize.
(C) A mulher de Batola sente-se entusiasmada, pois a telefonia apresenta-lhe um mundo novo.
(D) A mulher de Batola aproveita o episódio da aquisição da telefonia para discutir com Batola.

6. Seleciona a opção correta.A vila onde a personagem principal cresceu simboliza...


Consultar anexo 3.

(A) uma revisitação do passado, do tempo da sua infância e juventude, de todos os sonhos pensados pela
sua família para si que não se concretizaram.
(B) as oportunidades que deixou de aproveitar por ter sido obrigada a mudar de país.
(C) uma memória perdida no tempo, vazia, sem qualquer ligação à sua realidade.
(D) a lembrança de uma infância feliz, livre, onde todos os seus sonhos eram possíveis e incentivados
pelos seus pais.

7. Seleciona a opção correta, com base no seguinte excerto "– Se não desenhasse dava em maluca. E
eles acham que eu tenho muito jeitinho, que hei de um dia ser uma boa senhora da vila, uma esposa
exemplar, uma mãe perfeita, tudo isso com muito jeito para o desenho. Até posso fazer retratos das
crianças quando tiver tempo, não é verdade?"
O recurso expressivo que resulta da utilização do diminutivo e da expressão "senhora da vila", bem como
da interrogação retórica é a ...

(A) hipálage.
(B) perífrase.
(C) ironia.
(D) sinédoque.

8. Seleciona a opção correta.George dirige-se à vila onde nasceu...


Consultar anexo 3.

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(A) para proceder à vender da casa da sua família.
(B) para visitar familiares e amigos.
(C) mas não reconhece nenhum dos espaços que visita.
(D) para receber um prémio pelo seu percurso profissional.

9. Seleciona a opção correta.Identifica os recursos expressivos presentes na seguinte expressão "são


como o dia e a noite".

(A) Metáfora e eufemismo.


(B) Metáfora e oximoro.
(C) Comparação e perífrase.
(D) Comparação e antítese.

10. Seleciona a opção correta.Relê o primeiro e último parágrafos e relaciona-os.


Consultar anexo 3.

(A) A ansiedade sentida à chegada à vila transforma-se em tristeza no momento em que parte para
Amesterdão.
(B) A passagem pela vila onde cresceu faz George relembrar com nostalgia os momentos que vivenciou
nesse lugar.
(C) A personagem principal é imune à passagem pela vila onde cresceu.
(D) A aproximação e afastamento à vila onde cresceu suscitam em George ansiedade e tranquilidade,
respetivamente.

11. Associa a opção correta a cada um dos espaços.

A) Todos os _________________ tinham características _________________. O _________________


procurava doentes na rua, o _________________, seu filho, sugeria aos doentes que consultassem outro
médico e o _________________ explicava de forma _________________ cada uma das doenças.
Embora diferentes, todos tinham _________________ o facto de se comportarem de forma
_________________, _________________ ao que a sociedade esperaria de cada um deles.

Opções:
médicos, peculiares, Dr. João Pedro, Dr. João, Dr. Paulo, pormenorizada, em comum, inusitada, contrária

12. Completa o texto com as opções corretas.

A) No final do conto, notamos uma _________________ de papéis quando o _________________ se


propõe ocupar o lugar de _________________ enquanto o mesmo não recupera do acidente, sublinhando
a sua _________________, pouco notada devido ao _________________ entre as duas famílias. Para
além disso, é o _________________ do semaforeiro que acaba, ainda, por proporcionar o fim desse
_________________.

Opções:
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inversão, Dr. Paulo, Paco, bondade, conflito, acidente, conflito, perfídia, Dr. João, manutenção

13. Lê o seguinte excerto da conto "Famílias desavindas" e completa a frase apresentada, escrevendo
apenas uma palavra.
"Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era
provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. (...) Herdou o ódio ao semáforo e passava grande
parte do tempo à janela, a encandear Ximenez com um espelho colorido.
 "

Quanto à posição, o narrador deste conto de Mário de Carvalho é um narrador...

14. Lê o seguinte excerto do conto "Famílias desavindas" e completa a frase apresentada, escrevendo
apenas uma palavra.
"Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há-de encontrar-se um
cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina telhados de ardósia em escama. Faltam
razões para flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo
conhecido de poucos: os únicos semáforos do mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda
funcionavam na Guatemala, no início dos anos setenta.
 "

O excerto apresenta a localização espacial da ação com recurso a diversos adjetivos. Assim, este excerto
tem um cariz predominantemente...

15. Seleciona a opção correta.O espaço urbano é caracterizado como...


Consultar anexo 4.

(A) qualquer espaço urbano europeu, comparável a Paris ou Londres.


(B) cosmopolita.
(C) antiquado, provincial, confuso.
(D) plano, sem causar grandes transtornos de deslocação aos seus habitantes.

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Anexo 1

Sempre à © uma companhia

Antà ³nio Barrasquinho, o Batola, à © um tipo bem achado. Nà £o faz nada, levanta-se quando
calha, e ainda vem dormindo là ¡ dos fundos da casa.

à ‰ a mulher quem abre a venda e avia aquela meia dà ºzia de fregueses de todas as
manhà £zinhas. Feito isto, volta à  lida da casa. Muito alta, grave, um rosto ossudo e um sossego de
maneiras que se và ª logo que à © ela quem ali pà µe e dispà µe.

Pois quando entra para os fundos da casa, vem saindo o Batola com a cara redonda amarfanhada num
bocejo. Que pessoas tà £o diferentes! Ele quase lhe nà £o chega ao ombro, atarracado, as pernas
arqueadas. De chapeirà £o caà Â-do para a nuca, lenà §o vermelho amarrado ao pescoà §o, vem
tropeà §ando nos caixotes atà © que là ¡ consegue encostar-se ao umbral da porta. Fica assim um
pedaà §o, a oscilar o corpo, enquanto vai passando as mà £os pela cara, como que para afastar os
restos do sono. Os olhos, semicerrados, abrem-se-lhe um pouco mais para os campos. Mas fecha-os logo,
diante daquela monotonia desolada.

Dà ¡ meia volta, enche a medida com o melhor vinho que hà ¡ na venda, coloca-a sobre o balcà £o.
Ao lado, um copo. Puxa o caixote, senta-se e comeà §a a beber a pequenos goles. De quando em quando,
cospe por cima do balcà £o para a terra negra que faz de pavimento. Enterra o queixo nas mà £os
grossas e, de cotovelo vincado na tà ¡bua, para ali fica com um olhar mortià §o.

à € s vezes, um rapazito entra na venda:

†“ Tio Batola, cinco tostà µes de cafà ©.

O chapeirà £o redondo volta-se, vagaroso:

†“ Hà £?... †“ Cinco tostà µes de cafà ©!

Batola demora os olhos na portinha que dà ¡ para os fundos da casa. Mas à © inà ºtil esperar
mais. †œAh, se a mulher nà £o vem aviar o rapazito à © porque nà £o quer, pois està ¡ a
ouvir muito bem o que se passa ali na loja!†• Quando se assegura que à © esta e nà £o outra
a verdade dos factos, Batola tem de levantar-se. Espreguià §a-se, boceja, e arrasta-se atà ©
à  caixa de lata enferrujada. Mede o cafà © a olho, um olho cheio de tà ©dio, caà Â-do sobre o
canudinho de papel.

Volta a encher o copo, atira-se para cima do caixote. E, no jeito que lhe fica depois de vazar o vinho goela
abaixo, num movimento brusco, e de ter cuspido com uns longes de raiva, parece que acaba de se vingar
de alguà ©m.

Tais momentos de ira sà £o pedaà §os de revolta passiva contra a mulher. à ‰uma longa luta,
esta. A raiva do Batola demora muito, cresce com o tempo, dura anos. Ela, silenciosa e distante, como se
em nada reparasse, vai-lhe trocando as voltas. Desfaz compras, encomendas, negà ³cios. Tudo vem a
fazer-se como ela entende que deve ser feito. E assim tem governado a casa.

Batola vai ruminando a revolta sentado pelos caixotes. Chegam ocasià µes em que nem pode
encarà ¡-la. De olhos baixos, pà µe-se a beber de manhà £ à  noite, solità ¡rio como um
desgraà §ado. O fim daquelas crises tem dado que falar: jà ¡ muitas vezes, de hà ¡ trinta anos para
cà ¡, aconteceu a gente da aldeia ouvir gritos aflitivos para os lados da venda. Era o Batola, bà ªbado,
a espancar a mulher.

Tirando isto, a vida do Batola à © uma sonolà ªncia pegada. Agora, para ali està ¡, diante do copo,
matando o tempo com longos bocejos. No estio, entà £o, o sol faz os dias do tamanho de meses. Sequer
à  noite virà ¡ alguà ©m à  venda palestrar um bocado. à ‰sempre o mesmo. Os homens
chegam com a noitinha, cansados da faina. Và £o direito a casa e daà Â- a pouco toda a aldeia dorme.

Està ¡ nestes pensamentos o Batola quando, de sà ºbito, lhe vem à  ideia o velho Rata. Que belo
companheiro! Pedia de monte a monte, chegava a ir a Ourique, a Castro, à  Messejana. Atà © fora a
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Beja. Voltava cheio de novidades. Durante tardes inteiras, sà ³ de ouvi-lo parecia ao Batola que andava
a viajar por todo aquele mundo.

Mas o velho Rata matara-se. Na aldeia, ninguà ©m ainda atina ao certo com a razà £o que levou o
mendigo a suicidar-se. Nos à ºltimos tempos, o reumatismo tolhera-lhe as pernas, amarrando-o
à  porta do casebre. De quando em quando, o Batola matava-lhe a fome; mas nem trocavam uma
palavra. Que sabia agora o Rata? Nada. Encostado à  parede de pernas estendidas, errava o olhar
enevoado pelos longes. Veio o verà £o com os dias enormes, a misà ©ria cresceu. Uma tarde, là ¡
se arrastou como pà ´de e atirou-se para dentro do pego da ribeira da Alcaria.

Aos poucos o tempo apagou a lembranà §a do Rata, o mendigo. Sà ³ o Batola o recorda là ¡ de
vez em quando. Mas, agora, abandonou a recordaà §Ã £o e o vinho, e vai atà © ao almoà §o.
Nunca bebe durante as refeià §Ã µes.

Depois, o sol desanda para trà ¡s da casa. Comeà §a a acercar-se a tardinha. Batola, que acaba de
dormir a sesta, jà ¡ pode vir sentar-se, cà ¡ fora, no banco que corre ao longo da parede. A seus
pà ©s, passa o velho caminho que vem de Ourique e continua para o sul. Por cima, cruzam os fios da
eletricidade que và £o para Valmurado, uma tomada de corrente cai dos fios e entra, junto das telhas,
para dentro da venda.

E o Batola, por mais que nà £o queira, tem de olhar todos os dias o mesmo: aà Â- umas quinze
casinhas desgarradas e nuas; algumas sà ³ mostram o telhado escuro, de sumidas que està £o no
fundo dos cà ³rregos. Depois disso, para qualquer parte que volte os olhos, estende-se a solidà £o dos
campos. E o silà ªncio. Um silà ªncio que caiu, estiraà §ado por vales e cabeà §os, e que dorme
profundamente. Oh, que despropà ³sito de plainos sem fim, todos de roda da aldeia, e desertos!

Carregado de tristeza, o entardecer demora anos. A noite vem de longe, cansada, tomba tà £o
vagarosamente que o mundo parece que vai ficar para sempre naquela magoada penumbra.

Là ¡ và ªm figurinhas dobradas pelos atalhos, direito à  s casas tresmalhadas da aldeia. Nenhuma
virà ¡ atà © à  venda falar um bocado, desviar a atenà §Ã £o daquele poente dolorido.
Sà £o ceifeiros, exaustos da faina, que recolhem. Breve, a aldeia ficarà ¡ adormecida, afundada nas
trevas. E Antà ³nio Barrasquinho, o Batola, nà £o tem ninguà ©m para conversar, nà £o tem
nada que fazer. Està ¡ preso e apagado no silà ªncio que o cerca.

Ergue-se pesadamente do banco. Olha uma à ºltima vez para a noite derramada. Leva as mà £os
à  cara, esfrega-a, amachucando o nariz, os olhos. Fecha os punhos, comeà §a a esticar os
braà §os. E abre a boca num bocejo tà £o fundo, o corpo torcido numa tal ansiedade, que parece que
todo ele se vai despegar aos bocados. Um suspiro estrangulado sai-lhe das entranhas e engrossa atà ©
se alongar, como um uivo de animal solità ¡rio.

Quando consegue dominar-se, entra na venda, arrastando os pà ©s. E, sem pressentir que aquela noite
à © a và ©spera de um extraordinà ¡rio acontecimento, là ¡ se vai deitar o Batola, derrotado por
mais um dia.

De facto, na tarde seguinte apareceu uma nuvenzinha de poeira para as bandas do sul: ouvia-se ronronar
um motor. Pouco depois, o carro parou à  porta da venda. Fazia anos que tal se nà £o dava na aldeia.
Pelas portas, apareceram mulheres e crianà §as.

Dois homens saà Â-ram do carro. Um deles trazia fato de ganga, o outro, bem vestido, adiantou-se
atà © à  porta:

†“ Nà £o nos pode dispensar uma bilha de à ¡gua?

Batola, daà Â- a pouco, sai com a infusa a escorrer.

O do fato de ganga, que havia tirado a tampazinha da frente do carro, pà ´s-se a deitar a à ¡gua
para dentro. Enquanto isto acontece, o sujeito bem vestido dà ¡ uma mirada pela aldeia, pelos campos.
Sopra, afogueado:

†“ Que sà Â-tio!...

Mas ao ver os fios da eletricidade e a ligaà §Ã £o que entra junto das telhas da casa, olha para o
Batola com atenà §Ã £o, medindo-o de alto a baixo. Entra na venda, pà µe-se a observar as

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prateleiras. O exame parece agradar-lhe. Volta-se, sorridente, para o Batola, que lhe segue, desconfiado,
todos os movimentos:

†“ Tem cerveja?

†“ Nà ¡. Sà ³ vinho...

†“ Traga o vinho.

Muito instado, Batola bebe tambà ©m. E aqui comeà §a uma conversa que ele nà £o entende.
Sà ³ percebe, e isso agrada-lhe, que o homem à © simpà ¡tico e franco. Mas agora hà ¡ uma
pergunta a que tem de responder.

†“ Nà £o, senhor...

O sujeito vai à  porta, e diz para o motorista:

†“ Calcinhas, traz aà Â- uma caixa do modelo pequeno.

A caixa à © colocada sobre o balcà £o. De dentro sai uma outra caixa, mas de madeira polida. Ao
meio tem um retà ¢ngulo azul, cheio de letras e, em baixo, ao comprido, quatro grandes botà µes
negros.

†“ Nà £o tem uma tomada?

Em face da resposta, o homem vai ao automà ³vel. Volta e sobe ao balcà £o. Tira a là ¢mpada,
enrosca aà Â- a tomada, puxa o fio que sai da caixa, liga-o, e salta para o chà £o. Sà ³ nesse
momento o Batola compreende. A princà Â-pio, apenas saem ruà Â-dos à ¡speros da caixinha, mas,
aos poucos, desaparecem. Vem entà £o uma mà ºsica modulada, grave.

†“ Hem? Que tal?

Esfregando as mà £os, comeà §a a enumerar rapidamente as qualidades de um tal aparelho:

†“ à ‰o à ºltimo modelo chegado ao paà Â-s. Quando se quer, à © mà ºsica toda a
noite e todo o dia. Ou entà £o canà §Ã µes. E fados e guitarradas! Notà Â-cias de todo o mundo,
desde manhà £ atà © à  noite, notà Â-cias da guerra!...

Aponta para o retà ¢ngulo azul:

†“ Olhe, aqui, à © Londres; aqui, a Alemanha; aqui, a Amà ©rica. à ‰simples: vai-se
rodando este botà £ozinho...

Poisa a mà £o sobre o ombro do Batola, e exclama:

†“ Dou-lhe a minha palavra de honra que nà £o encontra nenhum aparelho pelo preà §o deste!

Sem dar tempo a qualquer resposta, ordena:

†“ Traz a pasta, Calcinhas!

Vem a pasta. Batola, aturdido, olha para os papà ©is de và ¡rias cores que và £o aparecendo
sobre o balcà £o. A mà ºsica, vibrante, enche a venda, ressoa pelos campos.

†“ Aqui à © Londres, hem! †“ grita o homem. †“ O senhor sabe ler? Entà £o leia
aqui!

Mostra os papà ©is, gesticula e sorri, sorri sempre. Batola coà §a o queixo com os dedos grossos.
Olha as contas que o outro lhe mostra, olha de soslaio para a mulher. Volta a coà §ar-se. E tudo isto se
repete durante uma longa hora.

Batola, por fim, cabisbaixo, emudece, como que vencido. Rapidamente, o vendedor preenche, sobre o
balcà £o, um largo impresso e, depois, doze letras. Sà £o as prestaà §Ã µes. Dà ¡ a caneta ao
Batola que se pà µe a assinar penosamente papelinho a papelinho. Està ¡ quase a acabar a difà Â-cil
tarefa quando a mulher o interrompe, numa voz lenta e carregada

†“ Antà ³nio, tu nà £o compras isso.


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Entà £o, inicia-se uma luta entre o vendedor e a mulher. Mas as frases e o sorriso do homem bem
vestido nà £o surtem agora o mesmo efeito: và £o-se sumindo, sem remà ©dio, diante daquele
rosto ossudo e decidido. Ali, sà ³ hà ¡ uma palavra:

†“ Nà £o.

A cara redonda do Batola comeà §a a encher-se de fundas rugas. Num repente, pega na caneta e assina
o resto das letras:

†“ Pronto! Quem manda sou eu!

Os olhos da mulher trespassam-no. Volta o rosto pà ¡lido para o vendedor de telefonias, torna a voltar-
se para o marido. Por momentos, parece alheada de tudo quanto a cerca. Vagarosa, no tom de quem acaba
de tomar uma resoluà §Ã £o inabalà ¡vel, apruma-se, muito alta, dominadora, e diz:

†“ Antà ³nio, se isso aqui ficar eu saio hoje mesmo de casa. Escolhe.

Toda a gente da aldeia que enche a venda sabe que ela farà ¡ o que acaba de dizer.

Atà © o vendedor pressente que assim serà ¡. Pensativo, olha para o Batola. De sà ºbito, tira um
papel qualquer de dentro da pasta e adianta-se:

†“ Bem, a senhora nà £o se exalte. Faz-se uma coisa: a telefonia fica à  experià ªncia,
durante um mà ªs. Se nà £o quiserem, devolvem-na; nà ³s devolvemos as letras. Assine aqui, Sr.
Barrasquinho. Pronto. Agora jà ¡ a senhora pode ficar descansada.

†“ Mas †“ pergunta ainda a mulher †“ quanto se paga de aluguer por esse mà ªs?

†“ Nada! †“ responde o homem, de novo risonho. †“ Por isso nà £o se paga nada!

E, ao meter os papà ©is dentro da pasta, repara que jà ¡ à © muito tarde. Apressado, conta que
veio por ali devido a um engano no caminho. Sai da venda, entra no carro, e diz ao Batola, aproveitando o
ruà Â-do do motor:

†“ Vocà ª, agora, arrume a questà £o: tem um mà ªs para a convencer.

Mal o carro parte, deixando uma nuvem de poeira à  retaguarda, atira a pasta para o assento de
trà ¡s, e grita alegremente:

†“ Hem, Calcinhas! Levou-me uma tarde inteira, mas foi. Foi de esticà £o!

De facto, era sol-posto, pelos atalhos, os ceifeiros recolhiam à  aldeia.

Mas, nessa tarde, vieram todos à  venda, onde entraram com um olhar admirado. Uma voz forte,
rà ¡pida, dava notà Â-cias da guerra.

Sà ³ de là ¡ saà Â-ram depois de a voz se calar. Cearam à  pressa, e voltaram. Era jà ¡ alta
noite quando recolheram a casa, discutindo ainda, pelas portas, numa grande animaà §Ã £o.

Um sopro de vida paira agora sobre a aldeia. Todos sabem o que acontece fora dali. E sentem que nà £o
està £o jà ¡ tà £o distantes as suas pobres casas. Atà © as mulheres và ªm para a venda
depois da ceia. Hà ¡ assuntos de sobra para conversar. E grandes silà ªncios quando aquela voz
poderosa fala de cidades conquistadas, divisà µes vencidas, bombardeamentos, ofensivas. Tambà ©m
silà ªncio para ouvir as melodias que và ªm de longe atà © à  aldeia, e que sà £o tà £o
bonitas!...

Acontece atà © que, certa noite, se arma uma festa na venda do Batola. Atà © as velhas
danà §aram ao som da telefonia. Nos intervalos, os homens bebiam um copo, junto ao balcà £o, os
pares namoravam-se, pelos cantos. Por fim, mudou-se de posto para ouvir as notà Â-cias do mundo. Todos
se quedaram, atentos.

†“ Ah! †“ grita de repente o Batola. †“ Se o Rata ouvisse estas coisas nà £o se
matava!

Mas ninguà ©m o compreende, de absorvidos que està £o.

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E os dias passam agora rà ¡pidos para Antà ³nio Barrasquinho, o Batola. Atà © comeà §ou a
levantar-se cedo e a aviar os fregueses de todas as manhà £zinhas. Assim, pode continuar as conversas
da và ©spera. Que o Batola à ©, de todos, o que mais vaticà Â-nios faz sobre as coisas da guerra.
Muito antes do meio-dia jà ¡ ele comeà §a a consultar o velho relà ³gio, preso por um fio de ouro
ao colete.

Sà ³ a mulher quase deixou de aparecer na venda. E ninguà ©m sabe que pensa ela do que contam
as vozes desconhecidas aos homens da aldeia, pois, atravà ©s do tabique de ripas separadas por grandes
fendas, ouve-se tudo que se passa na venda. Ouve-se e và ª-se, querendo, a alegria que certas
notà Â-cias trazem aos ceifeiros, o gosto e o propà ³sito que eles tà ªm ao ouvir determinada voz
que à © de todas a mais desejada e acreditada.

E os dias custaram tà £o pouco a passar que o fim do mà ªs caiu de surpresa em cima da aldeia da
Alcaria. Era jà ¡ no dia seguinte que a telefonia deixaria de ouvir-se. Iam todos, de novo, recuar para
muito longe, là ¡ para o fim do mundo, onde sempre tinham vivido.

Foi a primeira noite em que os homens saà Â-ram da venda mudos e taciturnos. For a esperava-os o
negrume fechado. E eles voltavam para a escuridà £o, iam ser, outra vez, o rebanho que se levanta com
o dia, lavra, cava a terra, ceifa e recolhe vergado pelo cansaà §o e pela noite. Mais nada que o abandono
e a solidà £o. A esperanà §a de melhor vida para todos, que a voz poderosa do homem desconhecido
levava atà © à  aldeia, apagava-se nessa noite para nà £o mais se ouvir.

Dentro da venda, o Batola està ¡ tà £o desalentado como os ceifeiros. O mà ªs passou de tal modo
veloz que se esqueceu de preparar a mulher. Sobe ao balcà £o, desliga o fio e arruma o aparelho. Um
pouco dobrado sobre as pernas arqueadas, com o chapeirà £o a encher-lhe a cara de sombra, observa
magoadamente a preciosa caixa.

Assim està ¡, quando um pressentimento o obriga a voltar a cabeà §a: junto da porta que dà ¡
para os fundos da casa, a mulher olha-o com um ar submisso. †œQue terà ¡ acontecido?†•,
pensa o Batola, admirado de a ver ainda levantada à  quela hora.

†“ Antà ³nio †“ murmura ela, adiantando-se atà © ao meio da venda. †“ Eu
queria pedir-te uma coisa...

Suspenso, o homem aguarda. Entà £o, ela desabafa, inclinando o rosto ossudo, onde os olhos negros
brilham com uma quase expressà £o de ternura:

†“ Olha... Se tu quisesses, a gente ficava com o aparelho. Sempre à © uma companhia

FONSECA, Manuel da †“ †œSempre à © uma companhia†•. In O Fogo e as Cinzas. 23. ª
ed. Lisboa: Caminho, 2014

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Anexo 2

Sempre à © uma companhia

Antà ³nio Barrasquinho, o Batola, à © um tipo bem achado. Nà £o faz nada, levanta-se quando
calha, e ainda vem dormindo là ¡ dos fundos da casa.

à ‰ a mulher quem abre a venda e avia aquela meia dà ºzia de fregueses de todas as
manhà £zinhas. Feito isto, volta à  lida da casa. Muito alta, grave, um rosto ossudo e um sossego de
maneiras que se và ª logo que à © ela quem ali pà µe e dispà µe.

Pois quando entra para os fundos da casa, vem saindo o Batola com a cara redonda amarfanhada num
bocejo. Que pessoas tà £o diferentes! Ele quase lhe nà £o chega ao ombro, atarracado, as pernas
arqueadas. De chapeirà £o caà Â-do para a nuca, lenà §o vermelho amarrado ao pescoà §o, vem
tropeà §ando nos caixotes atà © que là ¡ consegue encostar-se ao umbral da porta. Fica assim um
pedaà §o, a oscilar o corpo, enquanto vai passando as mà £os pela cara, como que para afastar os
restos do sono. Os olhos, semicerrados, abrem-se-lhe um pouco mais para os campos. Mas fecha-os logo,
diante daquela monotonia desolada.

Dà ¡ meia volta, enche a medida com o melhor vinho que hà ¡ na venda, coloca-a sobre o balcà £o.
Ao lado, um copo. Puxa o caixote, senta-se e comeà §a a beber a pequenos goles. De quando em quando,
cospe por cima do balcà £o para a terra negra que faz de pavimento. Enterra o queixo nas mà £os
grossas e, de cotovelo vincado na tà ¡bua, para ali fica com um olhar mortià §o.

à € s vezes, um rapazito entra na venda:

†“ Tio Batola, cinco tostà µes de cafà ©.

O chapeirà £o redondo volta-se, vagaroso:

†“ Hà £?... †“ Cinco tostà µes de cafà ©!

Batola demora os olhos na portinha que dà ¡ para os fundos da casa. Mas à © inà ºtil esperar
mais. †œAh, se a mulher nà £o vem aviar o rapazito à © porque nà £o quer, pois està ¡ a
ouvir muito bem o que se passa ali na loja!†• Quando se assegura que à © esta e nà £o outra
a verdade dos factos, Batola tem de levantar-se. Espreguià §a-se, boceja, e arrasta-se atà ©
à  caixa de lata enferrujada. Mede o cafà © a olho, um olho cheio de tà ©dio, caà Â-do sobre o
canudinho de papel.

Volta a encher o copo, atira-se para cima do caixote. E, no jeito que lhe fica depois de vazar o vinho goela
abaixo, num movimento brusco, e de ter cuspido com uns longes de raiva, parece que acaba de se vingar
de alguà ©m.

Tais momentos de ira sà £o pedaà §os de revolta passiva contra a mulher. à ‰uma longa luta,
esta. A raiva do Batola demora muito, cresce com o tempo, dura anos. Ela, silenciosa e distante, como se
em nada reparasse, vai-lhe trocando as voltas. Desfaz compras, encomendas, negà ³cios. Tudo vem a
fazer-se como ela entende que deve ser feito. E assim tem governado a casa.

Batola vai ruminando a revolta sentado pelos caixotes. Chegam ocasià µes em que nem pode
encarà ¡-la. De olhos baixos, pà µe-se a beber de manhà £ à  noite, solità ¡rio como um
desgraà §ado. O fim daquelas crises tem dado que falar: jà ¡ muitas vezes, de hà ¡ trinta anos para
cà ¡, aconteceu a gente da aldeia ouvir gritos aflitivos para os lados da venda. Era o Batola, bà ªbado,
a espancar a mulher.

Tirando isto, a vida do Batola à © uma sonolà ªncia pegada. Agora, para ali està ¡, diante do copo,
matando o tempo com longos bocejos. No estio, entà £o, o sol faz os dias do tamanho de meses. Sequer
à  noite virà ¡ alguà ©m à  venda palestrar um bocado. à ‰sempre o mesmo. Os homens
chegam com a noitinha, cansados da faina. Và £o direito a casa e daà Â- a pouco toda a aldeia dorme.

Està ¡ nestes pensamentos o Batola quando, de sà ºbito, lhe vem à  ideia o velho Rata. Que belo
companheiro! Pedia de monte a monte, chegava a ir a Ourique, a Castro, à  Messejana. Atà © fora a
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Beja. Voltava cheio de novidades. Durante tardes inteiras, sà ³ de ouvi-lo parecia ao Batola que andava
a viajar por todo aquele mundo.

Mas o velho Rata matara-se. Na aldeia, ninguà ©m ainda atina ao certo com a razà £o que levou o
mendigo a suicidar-se. Nos à ºltimos tempos, o reumatismo tolhera-lhe as pernas, amarrando-o
à  porta do casebre. De quando em quando, o Batola matava-lhe a fome; mas nem trocavam uma
palavra. Que sabia agora o Rata? Nada. Encostado à  parede de pernas estendidas, errava o olhar
enevoado pelos longes. Veio o verà £o com os dias enormes, a misà ©ria cresceu. Uma tarde, là ¡
se arrastou como pà ´de e atirou-se para dentro do pego da ribeira da Alcaria.

Aos poucos o tempo apagou a lembranà §a do Rata, o mendigo. Sà ³ o Batola o recorda là ¡ de
vez em quando. Mas, agora, abandonou a recordaà §Ã £o e o vinho, e vai atà © ao almoà §o.
Nunca bebe durante as refeià §Ã µes.

Depois, o sol desanda para trà ¡s da casa. Comeà §a a acercar-se a tardinha. Batola, que acaba de
dormir a sesta, jà ¡ pode vir sentar-se, cà ¡ fora, no banco que corre ao longo da parede. A seus
pà ©s, passa o velho caminho que vem de Ourique e continua para o sul. Por cima, cruzam os fios da
eletricidade que và £o para Valmurado, uma tomada de corrente cai dos fios e entra, junto das telhas,
para dentro da venda.

E o Batola, por mais que nà £o queira, tem de olhar todos os dias o mesmo: aà Â- umas quinze
casinhas desgarradas e nuas; algumas sà ³ mostram o telhado escuro, de sumidas que està £o no
fundo dos cà ³rregos. Depois disso, para qualquer parte que volte os olhos, estende-se a solidà £o dos
campos. E o silà ªncio. Um silà ªncio que caiu, estiraà §ado por vales e cabeà §os, e que dorme
profundamente. Oh, que despropà ³sito de plainos sem fim, todos de roda da aldeia, e desertos!

Carregado de tristeza, o entardecer demora anos. A noite vem de longe, cansada, tomba tà £o
vagarosamente que o mundo parece que vai ficar para sempre naquela magoada penumbra.

Là ¡ và ªm figurinhas dobradas pelos atalhos, direito à  s casas tresmalhadas da aldeia. Nenhuma
virà ¡ atà © à  venda falar um bocado, desviar a atenà §Ã £o daquele poente dolorido.
Sà £o ceifeiros, exaustos da faina, que recolhem. Breve, a aldeia ficarà ¡ adormecida, afundada nas
trevas. E Antà ³nio Barrasquinho, o Batola, nà £o tem ninguà ©m para conversar, nà £o tem
nada que fazer. Està ¡ preso e apagado no silà ªncio que o cerca.

Ergue-se pesadamente do banco. Olha uma à ºltima vez para a noite derramada. Leva as mà £os
à  cara, esfrega-a, amachucando o nariz, os olhos. Fecha os punhos, comeà §a a esticar os
braà §os. E abre a boca num bocejo tà £o fundo, o corpo torcido numa tal ansiedade, que parece que
todo ele se vai despegar aos bocados. Um suspiro estrangulado sai-lhe das entranhas e engrossa atà ©
se alongar, como um uivo de animal solità ¡rio.

Quando consegue dominar-se, entra na venda, arrastando os pà ©s. E, sem pressentir que aquela noite
à © a và ©spera de um extraordinà ¡rio acontecimento, là ¡ se vai deitar o Batola, derrotado por
mais um dia.

De facto, na tarde seguinte apareceu uma nuvenzinha de poeira para as bandas do sul: ouvia-se ronronar
um motor. Pouco depois, o carro parou à  porta da venda. Fazia anos que tal se nà £o dava na aldeia.
Pelas portas, apareceram mulheres e crianà §as.

Dois homens saà Â-ram do carro. Um deles trazia fato de ganga, o outro, bem vestido, adiantou-se
atà © à  porta:

†“ Nà £o nos pode dispensar uma bilha de à ¡gua?

Batola, daà Â- a pouco, sai com a infusa a escorrer.

O do fato de ganga, que havia tirado a tampazinha da frente do carro, pà ´s-se a deitar a à ¡gua
para dentro. Enquanto isto acontece, o sujeito bem vestido dà ¡ uma mirada pela aldeia, pelos campos.
Sopra, afogueado:

†“ Que sà Â-tio!...

Mas ao ver os fios da eletricidade e a ligaà §Ã £o que entra junto das telhas da casa, olha para o
Batola com atenà §Ã £o, medindo-o de alto a baixo. Entra na venda, pà µe-se a observar as

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prateleiras. O exame parece agradar-lhe. Volta-se, sorridente, para o Batola, que lhe segue, desconfiado,
todos os movimentos:

†“ Tem cerveja?

†“ Nà ¡. Sà ³ vinho...

†“ Traga o vinho.

Muito instado, Batola bebe tambà ©m. E aqui comeà §a uma conversa que ele nà £o entende.
Sà ³ percebe, e isso agrada-lhe, que o homem à © simpà ¡tico e franco. Mas agora hà ¡ uma
pergunta a que tem de responder.

†“ Nà £o, senhor...

O sujeito vai à  porta, e diz para o motorista:

†“ Calcinhas, traz aà Â- uma caixa do modelo pequeno.

A caixa à © colocada sobre o balcà £o. De dentro sai uma outra caixa, mas de madeira polida. Ao
meio tem um retà ¢ngulo azul, cheio de letras e, em baixo, ao comprido, quatro grandes botà µes
negros.

†“ Nà £o tem uma tomada?

Em face da resposta, o homem vai ao automà ³vel. Volta e sobe ao balcà £o. Tira a là ¢mpada,
enrosca aà Â- a tomada, puxa o fio que sai da caixa, liga-o, e salta para o chà £o. Sà ³ nesse
momento o Batola compreende. A princà Â-pio, apenas saem ruà Â-dos à ¡speros da caixinha, mas,
aos poucos, desaparecem. Vem entà £o uma mà ºsica modulada, grave.

†“ Hem? Que tal?

Esfregando as mà £os, comeà §a a enumerar rapidamente as qualidades de um tal aparelho:

†“ à ‰o à ºltimo modelo chegado ao paà Â-s. Quando se quer, à © mà ºsica toda a
noite e todo o dia. Ou entà £o canà §Ã µes. E fados e guitarradas! Notà Â-cias de todo o mundo,
desde manhà £ atà © à  noite, notà Â-cias da guerra!...

Aponta para o retà ¢ngulo azul:

†“ Olhe, aqui, à © Londres; aqui, a Alemanha; aqui, a Amà ©rica. à ‰simples: vai-se
rodando este botà £ozinho...

Poisa a mà £o sobre o ombro do Batola, e exclama:

†“ Dou-lhe a minha palavra de honra que nà £o encontra nenhum aparelho pelo preà §o deste!

Sem dar tempo a qualquer resposta, ordena:

†“ Traz a pasta, Calcinhas!

Vem a pasta. Batola, aturdido, olha para os papà ©is de và ¡rias cores que và £o aparecendo
sobre o balcà £o. A mà ºsica, vibrante, enche a venda, ressoa pelos campos.

†“ Aqui à © Londres, hem! †“ grita o homem. †“ O senhor sabe ler? Entà £o leia
aqui!

Mostra os papà ©is, gesticula e sorri, sorri sempre. Batola coà §a o queixo com os dedos grossos.
Olha as contas que o outro lhe mostra, olha de soslaio para a mulher. Volta a coà §ar-se. E tudo isto se
repete durante uma longa hora.

Batola, por fim, cabisbaixo, emudece, como que vencido. Rapidamente, o vendedor preenche, sobre o
balcà £o, um largo impresso e, depois, doze letras. Sà £o as prestaà §Ã µes. Dà ¡ a caneta ao
Batola que se pà µe a assinar penosamente papelinho a papelinho. Està ¡ quase a acabar a difà Â-cil
tarefa quando a mulher o interrompe, numa voz lenta e carregada

†“ Antà ³nio, tu nà £o compras isso.


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Entà £o, inicia-se uma luta entre o vendedor e a mulher. Mas as frases e o sorriso do homem bem
vestido nà £o surtem agora o mesmo efeito: và £o-se sumindo, sem remà ©dio, diante daquele
rosto ossudo e decidido. Ali, sà ³ hà ¡ uma palavra:

†“ Nà £o.

A cara redonda do Batola comeà §a a encher-se de fundas rugas. Num repente, pega na caneta e assina
o resto das letras:

†“ Pronto! Quem manda sou eu!

Os olhos da mulher trespassam-no. Volta o rosto pà ¡lido para o vendedor de telefonias, torna a voltar-
se para o marido. Por momentos, parece alheada de tudo quanto a cerca. Vagarosa, no tom de quem acaba
de tomar uma resoluà §Ã £o inabalà ¡vel, apruma-se, muito alta, dominadora, e diz:

†“ Antà ³nio, se isso aqui ficar eu saio hoje mesmo de casa. Escolhe.

Toda a gente da aldeia que enche a venda sabe que ela farà ¡ o que acaba de dizer.

Atà © o vendedor pressente que assim serà ¡. Pensativo, olha para o Batola. De sà ºbito, tira um
papel qualquer de dentro da pasta e adianta-se:

†“ Bem, a senhora nà £o se exalte. Faz-se uma coisa: a telefonia fica à  experià ªncia,
durante um mà ªs. Se nà £o quiserem, devolvem-na; nà ³s devolvemos as letras. Assine aqui, Sr.
Barrasquinho. Pronto. Agora jà ¡ a senhora pode ficar descansada.

†“ Mas †“ pergunta ainda a mulher †“ quanto se paga de aluguer por esse mà ªs?

†“ Nada! †“ responde o homem, de novo risonho. †“ Por isso nà £o se paga nada!

E, ao meter os papà ©is dentro da pasta, repara que jà ¡ à © muito tarde. Apressado, conta que
veio por ali devido a um engano no caminho. Sai da venda, entra no carro, e diz ao Batola, aproveitando o
ruà Â-do do motor:

†“ Vocà ª, agora, arrume a questà £o: tem um mà ªs para a convencer.

Mal o carro parte, deixando uma nuvem de poeira à  retaguarda, atira a pasta para o assento de
trà ¡s, e grita alegremente:

†“ Hem, Calcinhas! Levou-me uma tarde inteira, mas foi. Foi de esticà £o!

De facto, era sol-posto, pelos atalhos, os ceifeiros recolhiam à  aldeia.

Mas, nessa tarde, vieram todos à  venda, onde entraram com um olhar admirado. Uma voz forte,
rà ¡pida, dava notà Â-cias da guerra.

Sà ³ de là ¡ saà Â-ram depois de a voz se calar. Cearam à  pressa, e voltaram. Era jà ¡ alta
noite quando recolheram a casa, discutindo ainda, pelas portas, numa grande animaà §Ã £o.

Um sopro de vida paira agora sobre a aldeia. Todos sabem o que acontece fora dali. E sentem que nà £o
està £o jà ¡ tà £o distantes as suas pobres casas. Atà © as mulheres và ªm para a venda
depois da ceia. Hà ¡ assuntos de sobra para conversar. E grandes silà ªncios quando aquela voz
poderosa fala de cidades conquistadas, divisà µes vencidas, bombardeamentos, ofensivas. Tambà ©m
silà ªncio para ouvir as melodias que và ªm de longe atà © à  aldeia, e que sà £o tà £o
bonitas!...

Acontece atà © que, certa noite, se arma uma festa na venda do Batola. Atà © as velhas
danà §aram ao som da telefonia. Nos intervalos, os homens bebiam um copo, junto ao balcà £o, os
pares namoravam-se, pelos cantos. Por fim, mudou-se de posto para ouvir as notà Â-cias do mundo. Todos
se quedaram, atentos.

†“ Ah! †“ grita de repente o Batola. †“ Se o Rata ouvisse estas coisas nà £o se
matava!

Mas ninguà ©m o compreende, de absorvidos que està £o.

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E os dias passam agora rà ¡pidos para Antà ³nio Barrasquinho, o Batola. Atà © comeà §ou a
levantar-se cedo e a aviar os fregueses de todas as manhà £zinhas. Assim, pode continuar as conversas
da và ©spera. Que o Batola à ©, de todos, o que mais vaticà Â-nios faz sobre as coisas da guerra.
Muito antes do meio-dia jà ¡ ele comeà §a a consultar o velho relà ³gio, preso por um fio de ouro
ao colete.

Sà ³ a mulher quase deixou de aparecer na venda. E ninguà ©m sabe que pensa ela do que contam
as vozes desconhecidas aos homens da aldeia, pois, atravà ©s do tabique de ripas separadas por grandes
fendas, ouve-se tudo que se passa na venda. Ouve-se e và ª-se, querendo, a alegria que certas
notà Â-cias trazem aos ceifeiros, o gosto e o propà ³sito que eles tà ªm ao ouvir determinada voz
que à © de todas a mais desejada e acreditada.

E os dias custaram tà £o pouco a passar que o fim do mà ªs caiu de surpresa em cima da aldeia da
Alcaria. Era jà ¡ no dia seguinte que a telefonia deixaria de ouvir-se. Iam todos, de novo, recuar para
muito longe, là ¡ para o fim do mundo, onde sempre tinham vivido.

Foi a primeira noite em que os homens saà Â-ram da venda mudos e taciturnos. For a esperava-os o
negrume fechado. E eles voltavam para a escuridà £o, iam ser, outra vez, o rebanho que se levanta com
o dia, lavra, cava a terra, ceifa e recolhe vergado pelo cansaà §o e pela noite. Mais nada que o abandono
e a solidà £o. A esperanà §a de melhor vida para todos, que a voz poderosa do homem desconhecido
levava atà © à  aldeia, apagava-se nessa noite para nà £o mais se ouvir.

Dentro da venda, o Batola està ¡ tà £o desalentado como os ceifeiros. O mà ªs passou de tal modo
veloz que se esqueceu de preparar a mulher. Sobe ao balcà £o, desliga o fio e arruma o aparelho. Um
pouco dobrado sobre as pernas arqueadas, com o chapeirà £o a encher-lhe a cara de sombra, observa
magoadamente a preciosa caixa.

Assim està ¡, quando um pressentimento o obriga a voltar a cabeà §a: junto da porta que dà ¡
para os fundos da casa, a mulher olha-o com um ar submisso. †œQue terà ¡ acontecido?†•,
pensa o Batola, admirado de a ver ainda levantada à  quela hora.

†“ Antà ³nio †“ murmura ela, adiantando-se atà © ao meio da venda. †“ Eu
queria pedir-te uma coisa...

Suspenso, o homem aguarda. Entà £o, ela desabafa, inclinando o rosto ossudo, onde os olhos negros
brilham com uma quase expressà £o de ternura:

†“ Olha... Se tu quisesses, a gente ficava com o aparelho. Sempre à © uma companhia

FONSECA, Manuel da †“ †œSempre à © uma companhia†•. In O Fogo e as Cinzas. 23. ª
ed. Lisboa: Caminho, 2014

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Anexo 3

George
Andam lentamente, mais do que se pode, como quem luta sem forças contra o vento, ou como quem caminha,
também é possível, na pesada e espessa e dura água do mar. Mas não há água nem vento, só calor, na longa rua
onde George volta a passear depois de mais de vinte anos. Calor e também aquela aragem macia e como que
redonda, de forno aberto, que talvez venha do sul ou de qualquer outro ponto cardeal ou colateral, perdeu a bússola
não sabe onde nem quando, perdeu tanta coisa sem ser a bússola. Perdeu ou largou?

Caminham pois lentamente, George e a outra cujo nome quase quis esquecer, quase esqueceu. Trazem ambas
vestidos claros, amplos, e a aragem empurra-os ao de leve, um deles para o lado esquerdo de quem vai, o outro para
o lado direito de quem vem, ambos na mesma direção, naturalmente.

O rosto da jovem que se aproxima é vago e sem contornos, uma pincelada clara, e, quando os tiver, a esses
contornos, ele será o rosto de uma fotografia que tem corrido mundo numa mala qualquer, que tem morado no fundo
de muitas gavetas, o único fetiche de George. As suas feições ainda são incertas, salpicando a mancha pálida, como
acontece com o rosto das pessoas mortas. Mas, tal como essas pessoas, tem, vai ter, uma voz muito real e viva, uma
voz que a cal e as pás de terra, e a pedra e o tempo, e ainda a distância e a confusão da vida de George, não
prejudicaram. Quando falar não criará espanto, um simples mal-estar.

Agora estão mais perto e ela encontra, ainda sem os ver, dois olhos largos, semicerrados, uma boca fina, cabelos
escuros, lisos, sobre um pescoço alto de Modigliani. Mas nesse tempo, dantes, não sabia quem era Modigliani e outros
que tais, não eram lá de casa, os pais tinham sido condenados pelas instâncias supremas à quase ignorância, gente de
trabalho, diziam como se os outros não trabalhassem, e sorriam um pouco com a superioridade dessa mesma
ignorância se a ouviam falar de um livro, de um filme, de um quadro nem pensar, o único que tinham visto talvez fosse
a velha estampa desbotada do Angelus que estava na casa de jantar. Com superioridade, pois, e também com uma
certa indignação. Ou seria mesmo vergonha? Como quem ouve um filho atrasado dizer inépcias diante de gente de
fora que depois, Senhor, pode ir contar ao mundo o que ouviu. E rir. E rir.

Já não sabe, não quer saber, quando saiu da vila e partiu à descoberta da cidade grande, onde, dizia-se lá em casa, as
mulheres se perdem. Mais tarde partiu por além-terra, por além-mar. Fez loiros os cabelos, de todos os loiros, um dia
ruivos por cansaço de si, mais tarde castanhos, loiros de novo, esverdeados, nunca escuros, quase pretos, como
dantes eram. Teve muitos amores, grandes e não tanto, definitivos e passageiros, simples amores, casou-se,
divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a chegar, quantas vezes? Agora está – estava –, até quando?, em
Amesterdão.

Depois de ter deixado a vila, viveu sempre em quartos alugados mais ou menos modestos, depois em casas mobiladas
mais ou menos agradáveis. As últimas foram mesmo francamente confortáveis. Vives numa casa mobilada sem nada
de teu? Mas deve ser um horror, como podes?, teria dito a mãe, se soubesse. Não o soube, porém. As cartas que lhe
escrevia nunca tinham sido minuciosas, de resto detestava escrever cartas e só muito raramente o fazia. Depois o pai
morreu e a mãe logo a seguir.

Uma casa mobilada, sempre pensou, é a certeza de uma porta aberta de par em par, de mãos livres, de rua nova à
espera dos seus pés. As pessoas ficam tão estupidamente presas a um móvel, a um tapete já gasto de tantos passos,
aos bibelots acumulados ao longo das vidas e cheios de recordações, de vozes, de olhares, de mãos, de gente, enfim.
Pega-se numa jarra e ali está algo de quem um dia apareceu com rosas.

Tem alguns livros, mas poucos, como os amigos que julga sinceros, sê-lo-ão? Aos outros livros, dá-os, vende-os a
peso, que leve se sente depois!

– Parece-me que às vezes fazes isso, enfim, toda essa desertificação, com esforço, com sofrimento – disse-lhe um dia
o seu amor de então.

– Talvez – respondeu –, talvez. Mas prefiro não pensar no caso.

Queria estar sempre pronta para partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a obrigassem a demorar-se
mais um dia que fosse. Disponível, pensava. Senhora de si. Para partir, para chegar. Mesmo para estar onde estava.

Os pais não sabiam compreender esse desejo de liberdade, por isso se foi um dia com uma velha mala de cabedal
riscado, não havia outra lá em casa. Mas prefere não pensar nos primeiros tempos. E as suas malas agora são caras,
leves, malas de voar, e com rodinhas.

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A outra está perto. Se houve um momento de nitidez no seu rosto, ele já passou, George não deu por isso. Está
novamente esfumado. A proximidade destrói ultimamente as imagens de George, por isso a vai vendo pior à medida
que ela se aproxima. É certo que podia pôr os óculos, mas sabe que não vale a pena tal trabalho. Param ao mesmo
tempo, espantam-se em uníssono, embora o espanto seja relativo, um pequeno espanto inverdadeiro, preparado com
tempo.

– Tu?

– Tu, Gi?

Tão jovem, Gi. A rapariguinha frágil, um vime, que ela tem levado a vida inteira a pintar, primeiro à maneira de
Modigliani, depois à sua própria maneira, à de George, pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da
Europa. Gi com um pregador de oiro que um dia ficou, por tuta e meia, num penhorista qualquer de Lisboa. Em
tempos tão difíceis.

– Vim vender a casa.

– Ah, a casa.

É esquisito não lhe causar estranheza que Gi continue tão jovem que podia ser sua filha. Quieta, de olhar esquecido,
vazio, e que não se espante com a venda assim anunciada, tão subitamente, sem preparação, da casa onde talvez
ainda more.

– Que pensas fazer, Gi?

– Partir, não é? Em que se pode pensar aqui, neste cu de Judas, senão em partir? Ainda não me fui embora por causa
do Carlos, mas… O Carlos pertence a isto, nunca se irá embora. Só a ideia o apavora, não é?

– Sim. Só a ideia.

– Ri-se de partir, como nós nos rimos de uma coisa impossível, de uma ideia louca. Quer comprar uma terra, construir
uma casa a seu modo. Recebeu uma herança e só sonha com isso. Creio que é a altura de eu…

– Creio que sim.

– Pois não é verdade?

– Ainda desenhas?

– Se não desenhasse dava em maluca. E eles acham que eu tenho muito jeitinho, que hei de um dia ser uma boa
senhora da vila, uma esposa exemplar, uma mãe perfeita, tudo isso com muito jeito para o desenho. Até posso fazer
retratos das crianças quando tiver tempo, não é verdade?

– É o que eles acham, não é?

– A mãe está a acabar o meu enxoval.

– Eu sei.

Há um breve silêncio, depois George diz devagar:

– Que calor, cheira a queimado, o ar. Terá sido sempre assim?

– Farto-me de dizer: cheira a queimado, o ar. Ninguém me ouve.

– Ninguém ouve ninguém, não sabes? Que aprendeste com a vida, mulher?

A sua voz está mole, pegajosa, difícil, as palavras perdem o fim, desinteressadas de si próprias, é como se se
preparassem para o sono.

– Creio que estou atrasada – diz então, olhando para o relógio. – Estou mesmo – acrescenta, olhando melhor. – E não
posso perder o comboio. Amanhã bem cedo sigo para Amesterdão. Estou a viver em Amesterdão, agora. Tenho lá um
atelier.

– Amesterdão é? Onde fica isso?

Mas é uma pergunta que não pede resposta.

Gi fá-la por fazer e sorri o seu lindo sorriso branco de 18 anos. Depois ambas dão um beijo rápido, breve, no ar, não se
tocam, nem tal seria possível, começam a mover-se ao mesmo tempo, devagar, como quem anda na água ou contra o
vento. Vão ficando longe, mais longe. E nenhuma delas olha para trás. O esquecimento desceu sobre ambas.
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Agora está à janela a ver o comboio fugir de dantes, perder para todo o sempre árvores e casas da sua juventude,
perder mesmo a mulher gorda, da passagem de nível, será a mesma ou uma filha ou uma neta igual a ela? Árvores,
casas e mulher acabam agora mesmo de morrer, deram o último suspiro, adeus. Uma lágrima que não tem nada a ver
com isto mas com o que se passou antes – que terá sido que já não se lembra? –, uma simples lágrima no olho direito,
o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar os seus problemas, não e não.

A figura vai-se formando aos poucos como um puzzle gasoso, inquieto, informe. Vê-se um pedacinho bem nítido e
colorido mas que logo se esvai para aparecer daí a pouco, nítido ainda, mas esfumado. George fecha os olhos com a
força possível, tem sono, volta a abri-los com dificuldade, olhos de pupilas escuras, semicirculares, boiando num
material qualquer, esbranquiçado e oleoso.

À sua frente uma senhora de idade, primeiro esboçada, finalmente completa, olha-a atentamente. De idade não,
George detesta eufemismos, mesmo só pensados, uma mulher velha. Tem as mãos enrugadas sobre uma carteira
preta, cara, talvez italiana, italiana, sim, tem a certeza. A velha sorri de si para consigo, ou então partiu para qualquer
lugar e deixou o sorriso como quem deixa um guarda-chuva esquecido numa sala de espera. O seu sorriso não tem
nada a ver com o de Gi – porque havia de ter? –, são como o dia e a noite. Uma velha de cabelos pintados de acaju,
de rosto pintado de vários tons de rosa, é certo que discretamente mas sem grande perfeição. A boca, por exemplo,
está um pouco esborratada.

Sem voz e sem perder o sorriso diz:

– Verá que há de passar, tudo passa. Amanhã é sempre outro dia. Só há uma coisa, um crime, que ninguém nos
perdoa, nada a fazer. Mas isso ainda está longe, muito longe, para quê pensar nisso? Ainda ninguém a acusa, ainda
ninguém a condena. Que idade tem?

– Quarenta e cinco anos. Porquê?

– É muito nova – afirma. – Muito nova.

– Sinto-me velha, às vezes.

– É normal. Eu tenho quase 70 anos. Como estava a chorar, pensei…

Encolhe os ombros, responde aborrecida:

– Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro…

– Também tenho muitos encontros, eu. Não quero tê-los mas sou obrigada a isso, vivo tão só. Cheguei à ignomínia de
pedir a pessoas conhecidas retratos da minha família. Não tinha nenhum, só um retrato meu, de rapariguinha. E
retratos de amigos, também. De amigos desaparecidos, levados pelas tempestades, os mais queridos, naturalmente.
Porque… o tal crime de que lhe falei, o único sem perdão, a velhice. Um dia vai acordar na sua casa mobilada…

– Como sabe que…

– E verá que está só e olhará para o espelho com mais atenção e verá que está velha. Irremediavelmente velha.

– Tenho um trabalho que me agrada.

– Não seja tonta, menina. Outro dia vai reparar, ou talvez já tenha dado por isso, que está a ver pior, e outro ainda
que as mãos lhe tremem. E, se for um pouco sensata, ou se souber olhar em volta, descobrirá que este mundo já não
lhe pertence, é dos outros, dos que julgam que Baden Powell é um tipo que toca guitarra e que Levi Strauss é uma
marca de calças.

– Isso é ignorância, não tem nada a ver com a idade.

– Talvez seja ignorância, também. Talvez seja. Estou a incomodá-la, parece-me.

– Dói-me simplesmente a cabeça.

– Desculpe.

George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que
vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que
pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa – sabe? – que com
dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido. A
velhice também traz consigo, deve trazer, um certo esquecimento das coisas essenciais, pensa. Abre os olhos para lho
dizer, para lho pensar, para lho atirar em silêncio à cara enrugada, mas a velha já ali não está.

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O calor de há pouco foi desaparecendo e agora não há vestígios daquela aragem de forno aberto. O ar está muito
levemente morno e quase agradável. George suspira, tranquilizada. Amanhã estará em Amesterdão na bela casa
mobilada onde, durante quanto tempo?, vai morar com o último dos seus amores.

CARVALHO, Maria Judite de. “George”. In George e Seta Despedida. Porto: Porto Editora, 2015. (pp. 7-22

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Anexo 4

Famílias desavindas
Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há-de encontrar-se um cruzamento alto,
de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina telhados de ardósia em escama. Faltam razões para flanar por esta rua,
banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os únicos semáforos do
mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no início dos anos
setenta.†¨

No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de
convencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia eléctrica, capaz de bem
ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e landós da sociedade. A autoridade gostou do projeto e das
garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos estiveram ensejados para a Ponte, mas, de
proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acabaram na infrequentada Rua Fernão
Penteado, na intersecção com a travessa de João Roiz Castelo Branco.†¨

O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, luminoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida a dez
centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia gerada vai
acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida uma melhoria.
Uma inspeção da Câmara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada.†¨Houve muitos
candidatos ao cargo de semaforeiro, embora um equívoco tivesse levado à exigência de que os concorrentes
soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um galego chamado
Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era
esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.†¨

Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e comutou. Por alturas da segunda Grande Guerra foi substituído pelo
seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. A
administração continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é pelo ordenado que
aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e bisneto foram vistos de
ferramenta em riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e opuseram-se quase com
selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o carreto bastasse.†¨

Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semáforos manuais, porque é sempre possível personalizar a
relação com o sinal. Diz-se, por exemplo, “Ó Paco, dá lá um jeitinho!” e o Paco, se estiver bem-disposto, comuta,
facilita.†¨

Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz
consultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o Doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e
médico singular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a
interpelar os transeuntes: “Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.” E nesta
ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se do Ramon e bradou,
severo: “A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e desimpedido.” Ramon
entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao
doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes
casadoiros. Piora sempre os resultados.†¨Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava
sempre que o seu diagnóstico era provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os
pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do
tempo à janela, a encandear Ximenez com um espelho colorido.†¨

Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou a vias de facto. O médico passava e rosnava “Sus, galego”.
E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: “Xó, magarefe!” Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo a mão e o doutor
encurvou-se e enrijou o passo.†¨

Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e
começava: “As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no
segundo, bacterianas.” E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele
praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a
consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem:
“Arrenego de ti, galego!” Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.†¨

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Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de-ovos na mão, e já trazia entredentes o “arrenego!” com que
insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão um jovem que vinha de
mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo
largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistrado: “Isto, em matéria de lesões, elas
podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes.”†¨

Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das “manchas de sangue”.†¨

Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está todos os dias naquela
rua, do nascer ao pôr do Sol, a acionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de
remorsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa.

CARVALHO, Ma̕rio de, 2014. Contos Vagabundos. Porto: Porto Editora (pp. 72-76)

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Solução do teste

1. Alentejo; isolado; vinte; venda; ao povo; social; resignação; psicológico; a rádio; convívio; a solidão;
sociopolítico
2. A) solidão, silêncio e desertos.
3. A) Rata.
4. (A)
5. (B)
6. (A)
7. (C)
8. (A)
9. (D)
10. (D)
11. A) médicos, peculiares, Dr. João Pedro, Dr. João, Dr. Paulo, pormenorizada, em comum, inusitada,
contrária
12. A) inversão, Dr. Paulo, Paco, bondade, conflito, acidente, conflito
13. A) subjetivo.
14. A) descritivo.
15. (C)

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