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JOSÉ HONÓRIO RODRIGUES

TEORIA DA HISTORIA
DO BRASIL
Introdução Me todológica

5.a edição
Acrescida de ura Posfácio

CO M PA N H IA E D IT O R A NACIONAL
CIP-B rasil. C atalogação-na-Fonte
C âm ara B rasileira do Livro, SP

R odrigues, José H onorio, 1913-


R613t T eo ria da história do Brasil: in trodução m etodo-
5.ed. lógica. 4. ed. atualizada. São Paulo, Ed. N acional,
1978.

(Brasiliana. G rande form ato, v.11)

1. Brasil - H istória - M etodologia 2- H istória -


Filosofia I . T ítu lo . I I . Série.

CDD-981.077
77-1169 -901

índices p a ra catálogo sistem ático:


1. Brasil : M etodologia histórica 981.077
2. H istória : Filosofia e teoria 901
3. H istória : T e o ria 901
4. M etodologia : H istória do Brasil 981.0077

D ire ito s ' ¡ u t o jej l i ção reservados à

C O M PA N H IA E D IT O R A NA CIO N A L
R u a dos Gusmões, 639
SÃo P a u l o - SP

1978
Im presso no Brasil
OBRAS DO AUTOR

Livros

Civilização holandesa n o Brasil. l.° Prêm io de E rudição d a A cadem ia Brasileira de L e­


tras. São Paulo, C om panhia E ditora N acional, 1940. (Em colaboração com Joaquim
R ibeiro.)
Teoria da H istória do Brasil. São Paulo, In stitu to Progresso E ditorial, 1949; 2.a edição,
São Paulo, C om panhia E ditora N acional, 1957, 2 vols. (Brasiliana G rande); 3.a e d i­
ção, São Paulo, C om panhia E ditora N acional, 1969.
H istoriografia e bibliografia do dom inio holandês no Brasil. R io de Janeiro, In stitu to
N acional do Livro, 1949.
As fo n tes da H istória do Brasil na E uropa. R io de Janeiro, Im prensa X a d o n al, 1950.
N oticia de vária história. R io de Janeiro, L ivraria São José, 1951.
A pesquisa histórica no Brasil. Sua evolução e problem as atuais. R io de Jan eiro , In stitu to
N acional do Livro, 1952; 2.a edição, São Paulo, C om panhia E d ito ra N acional, 1969.
Brasil. Periodo colonial. M éxico, In stitu to P anam ericano de G eografia e H istória, 1953.
O c o ntinente do R io Grande. R io de Janeiro, Edições São José, 1954.
H istoriografia dei Brasil. Siglo X V I. México, In stitu to P anam ericano de G eografia e
H istória, 1957.
A situação do A rq u ivo N acional. R io de Jan eiro , M inistério da Justiça e Negócios Inter-
riores, 1959.
Brasil e Africa. O utro horizonte. R io de Janeiro, E ditora Civilização Brasileira, 1961; 2.a
edição id., id., 1964, 2 vols.
Aspirações nacionais. Interpretação histórico-politica, São Paulo, E ditora Fulgor, 1963;
2.a edição, id., id., 1965; 3.a edição, id., id., 1965; 4.a edição, R io de Janeiro, E ditora
Civilização B rasileira, 1969.
H istoriografia dei Brasil. Siglo X V II. M éxico. In stitu to Panam ericano de G eografia e
H istória, 1963.
Conciliação e reform a no Brasil. Interpretação histórico-politica. R io de Jan eiro , E ditora
Civilização B rasileira, 1965.
H istória e historiadores do Brasil. São Paulo, E ditora Fulgor, 1965.
Interesse nacional e politica externa. R io d e Janeiro, E ditora Civilização B rasileira, 1966.
Vida e H istória. R io de Jan eiro , E ditora Civilização B rasileira, 1966.
H istória e H istoriografia. Petrópolis, E ditora Vozes, 1970.
O Parlam ento e a evolução nacional. Introdução histórica, 1826-1840. Brasília, Senado
Federal, 1972. 1.° vol. da série “O P arlam en to e a evolução nacional. Seleção de te x ­
tos p a rla m e n tare s”, 3 vols. em 6 tomos, e 1 vol. de “ín d ic e e Personalia”. (O rga­
nizados com a colaboração de L êda B oechat R odrigues e O ctáciano Nogueira.)
A Assem bléia C onstituinte de 1823. Petrópolis, E ditora Vozes, 1974.
Independência: revolução e contra-revolução. R io de Janeiro, L ivraria Francisco Alves
E ditora, 1976, 5 vols.
H istória, corpo do tem po. São Paulo, E ditora Perspectiva, 1976.

Livros traduzidos

B razil and Africa. T rad u z id o p o r R ich ard A. Mazzara e Sam H ilem an. “In tro d u c tio n ”
por A lan K. M anchester. Berkeley e Los Angeles, U niversity of C alifornia Press,
1965.

3
The T h e ir character a n d aspiration. T rad u zid o p o r R a lp h E dw ard Dim m ick.
*Fo»cirord~ e "A dditional N otes” p o r E. B radford B um es. A ustin e L ondres, U ni-
TsrsírT o í T e s a s Press, 1967.

Opúsculos

'C a p ita lism o e protestantism o. Estado a tu al do p ro b lem a.” Sep. de Digesto Econôm ico,
São Paulo, 1946.
“ A lfredo do Vale C abral.” R io de Jan eiro , 1954. T rad u zid o p a ra o inglês. Sep. da R e ­
vista Interam ericana de B ibliografia, W ashington, 1958.
"C apistrano de A breu, ein F reu n d D eutschlands.” Sep. d o Staden Jahrbuch, São Paulo,
1958.
“A ntônio V ieira, d o u trin a d o r do im perialism o p ortuguês.” Sep. da Revista B erb u m , R io
de Janeiro, 1958.
"L a H istoriografia B rasileña y el actu al processo historico.” Sep. do A nuario de E studios
A m ericanos, Sevilha, 1958, t. XIV.
“A lgum as idéias políticas d e G ilberto A m ado.” Sep. da R evista Brasileira de E studos P o­
líticos, Belo H orizonte, 1959.
“D. H e n riq u e e a a b ertu ra da fro n teira m u n d ia l.” Sep. d a R evista P ortuguesa de H istó ­
ria, C oim bra, 1961.
“N ueva a ctitu d e xterior dei B rasil.” Sep. do Foro Internacional, Mcxico, janeiro e m arço
de 1962.
“T h e influence of A frica on Brazil a n d of B razil on A frica.” Sep. de Journal of African
H istory, Londres, 1962, vol. 3.
“T h e F oundations o f B razil’s Foreign Policy.” Sep. de In ternational A (¡aire, Londres,
1963, vol. 3.
“A lfredo de Carvalho. Vida e obra.” Sep. dos A nais da Biblioteca Nacional, R io de J a ­
neiro, 1963, vol. 77.
“Discurso de posse na A cadem ia B rasileira de L etras.” Sep. da R evista de H istória, São
Paulo, 1970, n.° 81.
“O livro e a civilização b rasileira.” Sep. da R evista de C ultura Vozes, Petrópolis, a b ril
de 1971, vol. 67, n.° 3.
“O liberalism o no B rasil”. Sep. dos Discursos Acadêmicos. R io de Janeiro, Academ ia B ra ­
sileira de Letras, 1972, vol. 20. '
“O clero e a Independência.” Sep. d a R evista Eclesiástica Brasileira, ju n h o d e 1972, vol.
32, fase. 126.
“M attoso C âm ara.” Sep. da R evista de C ultura Vozes, Petrópolis, ju n h o /ju lh o de 1973,
vol. I.XV11.
“O sentido d a H istória do B rasil.” S e p .'d a R evista de H istória, São Paülo, 1974, n.° 100.

Colaboração em livros coletivos

“W eb b ’s Great F rontier a n d the In te rp re ta tio n of M odem H istory.”In A. R. Lewis e


T . F. M cG ann (eds.), T h e N ew W orld looks at its H istory. U niversity of Texas
Press, 1963.
“Brazil a n d C hina. T h e V arying F ortunes of In d e p en d e n t D iplom acy.” In A. M. H alpern
(ed.), Policies toward China. Views from Six Continents. Nova Y o t Ic, C ouncil on Fo­
reign R elations, 1965.
“B razilian H istoriography, Present T r e r d s and Research. R equirem ents.” In M anuel Dié-
gues J ú n io r e Brycc W ood (eds.), Social Science in L a tin A m erica. Nova York e L o n ­
dres, C olum bia U niversity Press, 1967.
“A.s tendências da historiografia brasileira e as necesidades da pesquisa.” In C entro L a ­
tino-am ericano de Pesquisas em Ciências Sociais, A s Ciências Sociais na Am érica Latina.
São Paulo, Difusão E uropéia do Livro, 1967.

4
“Problem s in B razilian H istory” e “ C apistrano de A breu a n d B razilian H istoriography”.
In Perspectives on B razilian H istory. (“In tro d u c tio n ” e “B ibliographical Essay” p o r
E. B radford Burns.), Nova York e Londres, C olum bia U niversity Press, 1967.
“H istory belongs to o u r ow n G eneration.” In Lewis H anke (ed.), H istory o f L a tin A m e ­
rican Civilization. L ittle Brown, 1967, vol. II (T h e M odern Age).
“José B onifácio et la direction d u m ouvem ent d ’In dépendance.” In É tudes offertés à
Jacques L am bert. Paris, É dition Cujas, 1975.

Indices anotados

“Indice A notado” da R evista do In stitu to do Ceará. Fortaleza, Im prensa U niversitária


do Ceará, 1959.
“Indice A notado" da R evista do In stitu to Arqueológico, H istórico e Geográfico P ernam ­
bucano. Recife, 1961.

Edições críticas

Jo h a n N ieuhof. M em orável viagem m arítim a e terrestre ao Brasil. Confronto com a edi­


ção holandesa de 1682. Intro d u ção e n ota, crítica bibliográfica e bibliografia. São
Paulo, L ivraria M artins, 1942.
C apistrano de A breu. C apítulos de H istoria Colonial. 4.a edição, Revisão, N otas e P re­
fácio. R io de Jan eiro , L ivraria B riguiet, 1954; 5.a edição, Brasília, E ditora da U niver­
sidade de Brasilia, 1963; 6.a edição, R io de Janeiro, E ditora Civilização Brasileira, 1976.

Direção e Prefácio de publicações oficiais

Os holandeses no Brasil. Prefácio, notas e bibliografia. R io de Janeiro, In stitu to do A çú­


car e do Álcool, 1942.
A nais da B iblioteca Nacional. R io de Janeiro, Im prensa N acional, 1948-1963, vols. 66
a 74.
D ocum entos históricos da B iblioteca Nacional. R io de Janeiro, Im prensa N acional, 1946-
1955, vols. 71 a 110.
Catálogo da Coleção Visconde do R io Branco. R io de Jan eiro , In stitu to R io Branco, M i­
nistério das Relações E xteriores, 1953.
José M aria da Silva Paranhos. Cartas ao am igo ausente. R io de Janeiro, In stitu to Rio
Branco, M inistério das Relações E xteriores, 1953.
Correspondência de Capistrano de A breu. R io de Janeiro, In stitu to N acional do Livro,
1954-1956, 3 vols.
Publicações do A rq u ivo N acional. R io de Janeiro. Im prensa N acional, 1960-1962, vols.
43 a 50.
O P arlam ento e a evolução nacional. Seleção de textos parlam entares, 1826-1840. Brasília,
Senado Federal, 1972, 3 vols., 6 tomos, 1 vol. de índice. (Com a colaboração de Lêda
Boechat R odrigues e O ctáciano Nogueira.)
A las do Conselho de Estado. Brasília, Senado Federal, 1973, vols. I, 2 e 9.

Prefácios

J. E. Pohl. Viagem ao interior do Brasil em preendida nos anos de 1S1T a 1821. R io d :


Janeiro, In stitu to N acional do Livro, 1951.
D aniel de Carvalho. E studos e depoim entos. l.a série. R io de Janeiro, L ivraria José O lym ­
pio E ditora, 1953.
G uilherm e Piso. H istória natural e médica da ín d ia Ocidental. R io de Janeiro, In stitu to
N acional do Livro, 1957 (Prefácio e bibliografia).

5
J . r y v n n a de A breu. C am inhos antigos e povoam ento do Brasil. 4.a edição. R io de
j a m o . E d ito ra Civilização Brasileira, 1975.
J. Ca r ee r a n o de A breu. Ensaios e estudos. l .a série. 2.a edição. R io de Janeiro, E ditora
G r ü ã a ç ã o Brasileira, 1976.
| . G ip s rr a n o de A breu. Ensaios e estudos. 2.a série. 2.a edição. R io de Jan eiro , E ditora
ClTÜização Brasileira, 1976.
J C ip ístra n o de A breu. Ensaio e estudos. 2.a série. 2.a edição R io de Jan eiro , E ditora
Civilização Brasileira, 1976.
J. C apistrano de A breu. Ensaios e estudos. 4.a série. 2.a edição. R io d e Janeiro, E ditora
Civilização B rasileira, 1976.
J C apistrano de A breu. O descobrim ento do Brasil. S.a edição. R io de Janeiro, E ditora
Civilização B rasileira, 1976.

Livro em preparo:

H istória da H istória do Brasil.

6
SUMÁRIO

P refá cio da 1 .aedição .............................................................................................................................. 11

P refá cio da 2.aedição ....................................................................................................................... 15

P refá cio da 3.aedição .............................................................................................................................. 21

Prefácio à 4.aedição ....................................................................................................................... 23

A b r e v ia tu r a s ................................................................................................................................................... 25

C apitulo 1. Os PR O BLEM A S DA H ISTÓ R IA E AS TA REFA S DO H ISTO RIAD OR. Os p ro b le ­


m as da história e da historiografia b ra sile ira ................................................................ 27

C apitulo 2. D e s e n v o l v i m e n t o d a i d é i a d e h i s t ó r i a . A palavra história. H istó ria


n arrativ a, pragm ática, genética ou científica................................................................... 43

C apitulo 3. F i l o s o f i a e h i s t ó r i a . O c o n h e c i m e n t o h i s t ó r i c o . I. H istó ria e


ciência. A razão histórica; D ilthey. W in d elb an d . R ickert. C onceito de valor
de R ickert. C rítica aó conceito de v alor de R ickert. X enopol. C rítica a Xe-
nopol. N atu ralism o e historicism o. H istoricism o e historicism os. Ciências
n a tu ra is e c ulturais. Características do fato histórico. D esenvolvim entos pos­
teriores. Positivism o lógico e a história. A linguagem h istórica............................ 63
II. E xplicação causal. À lei da causalidade científica. O positivism o lógico e
a causalidade científica. A história e a explicação causal. A com preensão. 95
III. A natu reza da convicção histórica. O conhecim ento histórico e sua posi-
tividade. A convicção histó rica.............................................................................................. 106

C a p itu lo 4. P e r i o d i z a ç ã o . Periodização na h istó ria universal. Periodizações p o ­


líticas, filosóficas, ideológicas e sociológico-institucionais. Os ciclos históricos.
A teoria das gerações. O rigem de certas denom inações de períodos................... 112

C a p itu lo 5 . P e r i o d i z a ç ã o n a h i s t ó r i a d o B r a s i l . J a n u á rio da C u n h a Barbosa.


C unha M atos. A breu e Lim a. Visconde de C airu. D iretrizes m etodológicas
de M artius. Francisco Adolfo de V arnhagen. Ju stin ian o José da R ocha. C a­
p istran o de A breu. Joaquim X abuco. João R ibeiro. O liveira L im a. P an d iá
Calógeras. O liveira V iana. G ilberto Freyre. Sérgio B uarque de H olanda. . . . 12.">

C a p i t u l o 6.D iv írso s c .ím ro s da iiistó riv . Os géneros históricos na história do


Brasil. 1. H istória geral e histó ria local. 2. H istó ria política. B ibliografia
de história a d m in isira th a . ' H istó tia constitucional. B ibliografia de h istó ­
ria constitucional. 4. H istória do direito. B ibliografia de histó ria do direito.
Bibliografia de história da legislação portuguesa. 5. H istória económica.
B ibliografia de história económ ica, õ. H istó ria d iplom ática. 7. H istó ria do
exército. 8. H istória n a \a l. 9. H iü ó ria da aviação. 10. H istó ria d a Igreja
e da religião. 11. H istória c a história. H istó ria lite rá ria e h istó ria das
idéias ou intelectual. 12 H istó ria da ciência. 13. H istória da educacão.
14. H istória da im prensa. B ibliografia de histó ria da im prensa. B ibliografia

7
óe H istó ria da tipografia. 15. H istória regional e da form ação territo rial.
16. A b io g ra fia . B ib lio g ra fia d a b io g ra fia . 17. H is tó r ia social. 18. H is tó ria
d a a r t e ....................................................................................................................................................... 145
C tp itu lo 7 - A m e t o d o l o g i a h i s t ó r i c a . A história d a m etodologia histórica. Necessi­
d ades dos cursos de m etodologia histórica. Evolução do ensino da m etodo­
logia histó rica................................................................................................................................. 222
C apitulo 8. As fon tes h is t ó r ic a s .................................................................................................. 234
C apitulo 9. D i s c i p l i n a s a u x i l i a r e s d a h i s t ó r i a . 1. D iplom ática e paleografía. 2.
E pigrafía. B ibliografia sobre as inscrições lapidares. 3. Sigilografía. 4. H e ­
ráldica. B ibliografia de heráldica e n o b iliarq u ia. 5. G enealogia. B ibliogra­
fia d e genealogia. 6. N um ism ática. B ibliografia de num ism ática. M edalhas.
7. Cronologia. B ibliografia de cronologia no Brasil. 8. B ibliografia. B iblio­
grafia das bibliografias. O bras de referência soore o Brasil. 9. C artografia.
Evolução da cartografia no Brasil. C artografia de lim ites............................................ 239
C apitulo 10. C r í t i c a h i s t ó r i c a . A posição de A lexandre H ercu la n o e Francisco
A dolfo de V arnhagen. P rincipais etapas da crítica. D eterm inação das datas. . . 308
C apitulo 11. A u t e n t i c i d a d e e f o r j i c a ç ã o . T e o ria da falsidade. Exem plos de for-
jicação. C arta de T oscanelli. Exem plos brasileiros de forjicação. As “cartas
falsas”. O p ian o Cohén. A perícia técnica. L ista selecionada de exem plos
de aplicação dos prin cíp io s da crítica aos problem as de au te n tic id a d e especial­
m ente relacionados com forjicações reconhecidas ou alegadas................................ 320
Capitulo 12. C r í t i c a d e a t r i b u i ç ã o . B ibliografia de pseudônim os portugueses e
brasileiros. A crítica de a trib u içã o n a historiografia brasileira. Relação do
p iloto anônim o. As obras de F ernão C ardim . A Prosopopéia. Diálogos das
grandezas do Brasil. C ultura e opulência do Brasil. H istória do Brasil de
J o h n A rm itage. E studos sobre Caxias. Casos de a u to ria ain d a discutidos. A
A rte de furtar. Cartas chilenas. L ista de casos de crítica de atrib u ição ........... 349
C apitulo 13. C r í t i c a d e t e x t o s e a e d i ç ã o d e d o c u m e n t o s h i s t ó r i c o s . A edição
de docum entos históricos. O p re p a ro de um a edição de docum entos históricos.
A seleção. N orm as de transcrição. Os sinais de modificações no texto. O rd e­
nação. Colação. A notação. P rep aro do m anuscrito p a ra o im pressor. A edição
crítica em geral e em P ortugal. O bras históricas. Edições críticas n o Brasil.
D iário da navegação de P ero Lopes de Sousa. As obras de F ern ão C ardim .
Diálogos das grandezas do Brasil. H istória do B rasil de frei V icente do Sal­
vador. H istoriografia das m inas. H istória geral do Brasil de F. A. de V ar­
nhagen. O T ác ito português. C ultura e opulência do Brasil. A nais do R io
de Janeiro. R ecopilação de noticias soteropolitanas e brasilicas. D ocum en­
tos holandeses.................................................................................................................................. 378
C apitulo 14. C r í t i c a i n t e r n a . O a u to r e o valor do testem unho. O testem unho
único. T este m u n h o controlado e incontrolado. O a rg u m en tu m èx silentio.
C redibilidade de fontes específicas. 1. A utobiografia. D iários. M em órias.
2. Cartas. 3. O jornal. 4.R elatos de v iajantes.................................. ........................... 405
C apitulo 15. A c o m p r e e n s ã o e a s í n t e s e h i s t ó r i c a s . In terp retação . T eo rias in te r ­
pretativas. A análise histórica. Crise do pensam ento histórico. T a re fa cien ­
tífica d a h istó ria.......................................................................................................; ................... 419

A P Ê N D I C E S

I. M étodo, teoria, historiografia epesquisa, disciplinas u n iv ersitá ria s.......................... 431


Posfácio .................................................................................................................................................. 45'
Índice remissivo

8
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

JOH A N HUIZINGA ............................................................................................................... 61

M ax W eber ....................................................................................................................................... 120


F r a n c is c o A d o l f o d e V a r n h a c e n ................................................................................ 150
João C a p is t r a n o de A breu .............................................................................................. 202
B. F. de R a m iz G a l v á o .......................................................................................................... 237
Guia de cam inhantes (São Paulo) ........................................................ 288
A lexa nd re H erculano .......................................................................................................... 310
Carta falsa de Jacinto G uimarães ........................................................ 333

9
JOSÉ HONÓRIO RODRIGUES

O Professor J o s f . H o n o r i o R o d r i g u e s nasceu no R io em 1913. Foi


educado na Escola Deodoro, no E xternato Santo A ntonio M aría Zacarías,
no Ginásio de São Bento, no Instituto Superior de Preparatórios, na Facul­
dade de D ireito da então Universidade do Brasil.
Começou a escrever na Faculdade de Direito, na revista A Época,
órgão estudantil, e ao term inar o curso, em 1937, recebeu o Prêm io de
Erudição da Academia Brasileira de Letras.
Com bolsa de estudos e pesquisa da Fundação Rockefeller, passou
um ano nos Estados Unidos (1943-1944), onde freqüentou cursos na U ni­
versidade de Colúm bia e fez pesquisas históricas. Graduou-se na Escola
Superior de G uerra em 1955. Foi sempre servidor público, jornalista e
professor. Começou no Instituto Nacional do Livro, com Augusto Meyer,
trabalhando na Seção de Publicações, dirigida, então, por Sérgio Buarque
de H ollanda. Foi diretor interino da Biblioteca Nacional e diretor efetivo
do Arquivo Nacional. Foi professor do Instituto R io Branco (História
do Brasil e H istória D iplom ática do Brasil) e é professor do ensino superior
do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense. Tem
dado cursos na Universidade Católica e tem feito m uitas conferências
para padres nacionais e estrangeiros em cursos de aperfeiçoam ento pro­
movidos por instituições religiosas (Centro Intercultural e Conferência dos
Bispos). Foi conferencista da Escola Superior de G uerra de 1957 a 1964.
T em ensinado em universidades norte-americanas.
É membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de Institutos
históricos estaduais, da Academia Portuguesa da História, da T h e Hispanic
American Society (Estados Unidos), da Royal H istorical Society (Ingla­
terra) e da Sociedade Histórica de U trecht (Holanda). T em participado
de várias conferências, congressos, seminários, nos Estados Unidos, Europa
e América Latina, e tem feito pesquisas no estrangeiro. T em vários livros
traduzidos para o inglês e para o espanhol, e sua obra tem m erecido m uitas
notas e estudos críticos nos Estados Unidos e Europa, nas revistas especiali­
zadas. T em sido e é m em bro da direção de várias revistas internacionais
de História, como a H ispanic American Historical Review (Estados U ni­
dos), a Revista de H istória (México), o Historical Abstracts (Alemanha e
Estados Unidos), e os Cahiers d’Histoire Internationale (França). Tem
colaborado também em várias revistas de política internacional, como
International Affairs (Inglaterra), Forum Internacional (México) e Politice
(Venezuela). Foi diretor do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais
e dirigiu a Revista Brasileira de Política Internacional (1963-1968).
A bibliografia com pleta do A utor figura neste volume. E sua obra
foi objeto de tese de doutoram ento na Universidade de São Paulo: R aquel
Glezer, O jazer e o saber na obra de José H onório Rodrigues: um rr,lodelo
de análise historiográfica, 1977.
PREFÁCIO DA 1.a EDIÇÃO

Quando, em 1943-44, foi o autor contem plado com um a bolsa de


pesquisa da Fundação Rockefeller, para investigar documentos relativos
aos holandeses na América e estudar crítica histórica, já pretendia, alar­
gando o segundo objetivo, exam inar e estudar a m etodologia da história.
Verificou, então, que tal como na Europa ninguém podia, naquele país,
especializar-se em história sem que, prim eiro, tivesse cursado a cadeira
de Metodologia, denom inada diversamente na Europa e nos Estados U ni­
dos da América. Por nim ia gentileza da U niversidade de C olum bia teve
o autor oportunidade de assistir, como “visiting scholar”, a algumas aulas
do curso m inistrado pelo D epartam ento de H istória e dirigido pelo pro­
fessor Charles W. Cole. E foi com extrem o devotam ento que prosseguiu,
nos Estados Unidos da América, e depois no Brasil, no estudo da m etodo­
logia, da pesquisa, da historiografia, da teoria e filosofia da história.
Já vinha escrevendo esta obra, sempre em contacto com o que de
mais recente se publicava nos Estados Unidos da América e na Europa
quando, convidado pelo Sr. Em baixador H ildebrando Accioly, então di­
retor do Instituto R io Branco, para lecionar no curso de aperfeiçoam ento
a cadeira de H istória do Brasil, viu o autor a oportunidade de planejar
um curso superior em que, prelim inarm ente, seriam estudadas a m etodo­
logia da história e a nossa historiografia. Visava-se dar aos alunos uma
idéia mais exata do que é a história, de seus métodos e de sua crítica,
da bibliografia e historiografia brasileiras, de m odo a prepará-los para
um conhecim ento crítico da história do Brasil.
As lições dadas desde 1946 são aqui recolhidas, depois de corrigidas
e am pliadas. Há, assim, um fim pedagógico como objetivo prim ordial
deste trabalho. Procura-se oferecer aos estudantes de história geral e do
Brasil, aos professores secundários, aos estudiosos ocupados com a história
concreta, um a visão de conjunto dos principais problemas de metodologia
da história. Da história do Brasil, tão-somente, já que os exemplos ilus­
trativos são puram ente brasileiros.
T en to u o autor fugir a toda visão unilateral dos problem as e ser
o mais seguro e exato que lhe foi possível. Cinco anos e meio de leituras
e pesquisas consumiu este livro. Seu plano teórico inicial teve que sofrer,
naturalm ente, o embate das dificuldades da prática e aqui e ali houve
supressões, acréscimos ou cortes. A configuração da obra apresentava-se
particularm ente difícil, em face da seriedade da m atéria, da vastidão da

11
bibliografia, da variedade da doutrina. Seria um a estulticia pretender
esgotar o assunto ou defini-lo precisamente. O trabalho devia ser, antes,
um a simples introdução à história e à pesquisa histórica no Brasil, e,
por isso mesmo, um guia, um roteiro de problemas, processos, crítica e
teoria.
Não é necessário m ostrar aqui a necessidade de p rep arar o encontro
pessoal, quase sempre árduo, do estudante ou estudioso com o fato puro,
n u e cru. Ensinar num plano universitário os fatos sem a teoria seria
o mesmo que limitar-se, nos cursos jurídicos, a m inistrar a lei e os códigos
sem a teoria e a interpretação. Portanto, o valor de um a exposição do
m étodo histórico aplicado ao Brasil torna-se evidente, pelo simples fato
de que nada existe sobre a m atéria n a historiografia de língua portuguesa.
N a história, como em qualquer ciência, os progressos referentes ao
esclarecimento conceituai, teórico e m etódico são tão necessários quanto
os relativos ao conhecim ento mesmo dos fatos. Se, por outro lado, deve­
mos justam ente adm itir a pluralidade de métodos científicos, então é neces­
sário conhecer o método próprio, peculiar, específico da história. O
método aqui exposto aplica-se especialmente à história concreta, mas,
de um modo geral, adapta-se a todas as ciências que têm por ideal o
conhecimento histórico, ou sejam, a economia, o direito, a geografia h u ­
m ana, a sociologia, a antropologia, a literatura, porque todas usam o
m étodo histórico, ao contrário das ciências matemáticas, físico-naturais,
outro grupo de conhecinlentos.
Rarissimos serão os países mais cultos que não tenham várias obras
dedicadas à m etodologia histórica, de tão necessária inclusão no currículo
das universidades. Obras clássicas são as de Bernheim, n a Alem anha, a
de Langlois e Seignobos, na França, a de Garcia Villada, n a Espanha,
a de Lappo Danilevsky, na Rússia, a de Hockett, nos Estados Unidos da
América. Na América, tam bém a A rgentina possui o curso de M etodologia
em suas universidades, em bora não disponha de obras im portantes sobre
o assunto. No Brasil, onde o apetite pela história é tão grande e tantos
são os que a ela se dedicam, seria urgente e indispensável a inauguração
de um curso universitário dessa natureza. O que já se fez em direito e
em filosofia, com a cadeira de Introdução, dever-se-ia fazer com a história.
Os livros clássicos citados obedecem de regra a planos inteiram ente
diferentes. Se alguns, como Langlois e Seignobos, se lim itam exclusiva­
mente aos problem as de heurística e das ciências auxiliares e da crítica
in terna e externa, outros, como Bernheim, dão aos problem as da teoria
e da filosofia um lugar de destaque. A obra de Bernheim sofreu em suas
várias edições um a constante renovação. A princípio, pouca atenção foi
dada às questões filosóficas e teóricas, às relações da história com as outras
disciplinas sociais. Só nas últim as edições, especialmente n a sexta, é que
o autor lhes dedicou um a atenção mais sistemática e mais ampla, sendo,
ainda assim, as relações da história com as ciências sociais m uito super­
ficialmente tratadas. O pequeno mas substancioso livro de H ockett obe­
dece ao sistema de ensino da m atéria nos Estados Unidos da América,
ao tem po em que foi escrito: heurística, crítica e composição. Mas a

12
parte heurística é prática, objetiva e assume aspecto puram ente bibliográ­
fico e do que eles chamam de “detective problem s”, ou sejam, verdadeiras
charadas históricas. O livro de F. M. Fling, sobre o m odo de escrever a
história, m uito usado nos Estados Unidos da América, é um a síntese
inteiram ente obediente ao plano de Bernheim.
O projeto que traçamos inicialm ente tinha por base estas obras clás­
sicas. N aturalm ente, novos estudos citados no correr destas páginas guia­
ram-nos no desenvolvimento da m atéria e obrigaram-nos a inumeráveis
modificações. Reconhecemos a deficiência de alguns capítulos, e para
isto pedimos desde já aos leitores as nossas desculpas. O capítulo sobre
“Os vários tipos de história”, sugerido pelo curso do Prof. Charles Cole,
da Universidade de Columbia, é quase que simplesmente bibliográfico,
e, ainda assim, exemplificativo e não exaustivo. Ele poderia ou deveria
constituir um a parte da historiografia que estamos preparando, mas era
necessário metodológicamente, ainda assim, discutir alguns problem as re­
lativos à divisão da m atéria histórica, como seguimento lógico ao capítulo
sobre a periodização. Ele é omisso e falho, ainda como tentativa e esboço.
O mesmo se pode dizer da parte relativa ao “Desenvolvimento da idéia
de história”, quadro sumaríssimo, que serve apenas para um contacto
inicial e rápido com a idéia de história, m atéria considerada indispensável
pelos tratadistas num a m etodologia da história. O pequeno trecho sobre
os diplomatas-historiadores que aparece no capítulo sobre a “Significação
dos estudos históricos” é simplesmente evocativo, num livro nascido, de
certo modo, no Itam arati. N a historiografia que estamos escrevendo a
m atéria será desenvolvida. Queremos tam bém acentuar que não desco­
nhecemos a im portância da iconografia como disciplina auxiliar da his­
tória, mas foi-nos impossível preparar, nesta oportunidade, um capítulo
menos incompleto. Estudamos a possibilidade de incluir, na parte refe­
rente às Fontes, um exame crítico e bibliográfico das fontes da história
do Brasil, tom ando como base a periodização feita por C apistrano de
Abreu. Preferimos deixar essa tarefa para a obra sobre A Evolução da
Pesquisa no Brasil, que também temos em preparo. Finalm ente, o capí­
tulo sobre “Crítica histórica” m ostra suas origens no Brasil, situa o
feito de Varnhagen e Capistrano de Abreu, compila o que já se fez aqui
e apresenta m atéria nova.
O nosso plano prim itivo incluía ainda, por sugestão vinda da leitura
da obra de E duard Meyer, Zur Theorie und M ethodik der Geschichte,
e de E. M. Hulm e, H istory and its Neighbours, o estudo das relações da
história com as ciências sociais e vizinhas, que auxiliam a interpretação.
As lições dadas e os esboços escritos são ainda insatisfatórios e exigiam
tempo para pesquisas e reflexão, retardando a publicação do livro.
Um a verdadeira compreensão do ensino superior da história exige
o contato do estudante com os grandes e pequenos mestres, ou seja, um
curso de historiografia tal como existe na grande m aioria das universi­
dades européias, norte-americanas e argentinas. Foi sentindo esta necessi­
dade que esboçamos, no curso, a historiografia brasileira, que constituirá
outro livro, pois seria impossível, pela extensão deste, incluí-la aqui.

13
A grande tarefa do ensino universitário da história é m ostrar como
se investiga, como se m anejam as fontes, como se aplicam os métodos e
a crítica, como se doutrina e interpreta o m aterial colhido e criticado,
na tentativa de recriar o passado num a composição ou síntese histórica.
Esta Teoria representa um a prim eira tentativa do autor no sentido de
atender a esses objetivos. C ertam ente não está isenta de falhas, mas ani­
ma-nos, sobretudo, ao publicá-la, a idéia de que ela possa ser, ainda sob
form a im perfeita, de utilidade a professores e alunos.
Não é por simples lem brança dos dias que juntos e unidos discutimos
o plano deste livro, que era então simples ideal, nem em recordação dos
anos de trabalho na pesquisa, n a criação e na revisão que quero agradecer
a Lêda, m inha m ulher. Que se saiba que m uito lhe cabe, é o que desejo,
como desejo agradecer ao m eu amigo Augusto Meyer as inúm eras suges­
tões feitas em conversas diárias e o estím ulo que dele sempre recebi. O
nosso agradecim ento se estende a todos aqueles que colaboraram neste
livro, indicando fontes, referindo ou fornecendo livros, corrigindo erros,
apontando deficiências. Pedimos insistentem ente aos leitores que coope­
rem, relevando-nos os erros graves ou veniais que nos tenham escapado,
por omissão ou ignorância. Saberemos aproveitar a lição.

1949.

14
PREFÁCIO DA 2.a EDIÇÃO

Sai este livro em 2.a edição, quando se inaugura, nas quatro dezenas
de faculdades de filosofia, dotadas de cursos de H istória, a disciplina
de Introdução aos Estudos Históricos. O autor, desde 1945 em artigos
e desde 1949 em livro, pleiteia sua criação. Ela resulta da regulam entação
da lei 2.594, de 8 de setembro de 1955, que desdobrou os cursos de H istória
e Geografia, dando-lhes autonom ia e exigindo o u tra seriação. A nova
disciplina, que futuram ente deverá transformar-se em cadeira, foi u n á­
nim em ente incluída no novo currículo pela iniciativa e inteligência dos
professores universitários de história, que h á m uito tem po am adureciam
a idéia de sua indispensabilidade n a formação do licenciado.
Esgotada há vários anos a prim eira edição desta obra e solicitado
a reeditá-la, viu-se o A utor diante da necessidade de atender às críticas
e observações dos estudiosos e de um público leitor m uito mais infor­
m ado e exigente, preparado pelas faculdades de filosofia.
O prim eiro problem a era o do título. Já na prim eira edição hesitá­
ramos m uito em adotar o de Teoria da história do Brasil, tão censurado
p or vários críticos. N inguém duvida do acerto de cham ar T eo ria a parte
intro d u tó ria filosófica e vários autores, desde W. W achsmuths, em sua
E ntw urf einer Theorie der Geschichte (2.a ed., 1711), até Xenopol, Croce,
Meyer, Teggart, Vincent, Beard, R om ein e Gottschalk assim denom ina­
ram seus estudos ou capítulos de seus livros. O desacerto estaria em que
a teoria é sempre geral e não da história do Brasil. Mas tam bém se o
título fosse “Introdução à história do Brasil”, como na época se pensou
e novam ente se voltou a cogitar, não atenderia ao objeto, pois toda a
parte filosófica, metodológica e crítica seria geral, sendo relativos ao
Brasil apenas os capítulos referentes à pesquisa, fontes egêneros histó­
ricos. A mesma crítica ficaria, assim, de pé. “Introdução à história”
poderia, em parte, resolver o problem a, mas o autor não quis fazer um
guia ao estudo da história em geral, porque seu campo de trabalho na
história concreta é a do Brasil e o livro se baseia nesta e dela são extraídos
os exemplos que o ilustram . É verdade que toda metodologia, desde
Bernheim e Langlois e Seignobos, sempre se esclarece com exemplos da
p rópria história nacional do autor. Mas nenhum historiador consideraria
apropriado elucidar a história geral com exemplos da história do Brasil,
país que é mais consum idor que produtor de história, no quadro inter­
nacional. O que se desejava, portanto, era escrever um a introdução teórica

15
à história em geral e metodológica à história do Brasil, isto é, um a pro­
pedêutica circunstancial, que tratasse da situação da história concreta do
Brasil.
Em bora fossem vários os exemplos de m udança de título da prim eira
para a segunda edição, como são os casos recentes dos livros de Américo
de Castro e H. C. Hockett, não se viu vantagem em fazê-lo, quando não
se encontrou denom inação inteiram ente satisfatória, única hipótese em
que se justificaria a criação de um problem a bibliográfico, com a obri­
gação de se referir ao prim eiro título, já com entado e resenhado no Brasil
e no estrangeiro.
A ligação da teoria à prática, que se procura fazer no livro, obedece
ao desejo de servir de introdução metodológica ao estudo da história
do Brasil, expondo as teorias, os métodos e a crítica históricas.' Daí a
necessidade de chamar de teoria aquilo que trata de princípios conceituais
que precedem, guiam e acom panham a técnica da pesquisa e o processo
crítico na história geral ou nacional. Por isso o Comitê de H istoriografia
do Conselho de Pesquisas nas Ciências Sociais chamou o seu estudo
metodológico de Theory and Practice in Historical Study. “Não há nada
de mais prático que a teoria. A teoria existe para que as experiências
práticas não se façam sem motivos e sim sejam feitas desde o início em
condições que ofereçam possibilidades de êxito”, dizia P. K irn em sua
E in fü hrung in die Geschichtswissenchaft. Já em 1828 K. F. Eichhorn
(1781-1854) escrevia em sua História do direito e das instituições ale­
mães que se tivesse tido um guia aprenderia mais em um ano do que
aprendera em dez.
O plano do livro, como observou o professor Oliveira França, é clás­
sico e só deixaria de o ser se o tratam ento crítico e auxiliar fosse reduzido
ou condensado em benefició da filosofia e da historiografia. Nesse caso
seria preciso fazer um a total revisão do livro, o que não se tinha em
vista, especialmente porque o autor escreve um a história da história do
Brasil, que cobrirá a área historiográfica. A inda assim fez-se um a m elhor
distribuição da m atéria e novos capítulos esclarecem aspectos não exam i­
nados anteriorm ente. O prim eiro capítulo, “Os problem as da história e
as tarefas do historiador” substitui “A significação dos estudos históricos”.
Dedica-se longo tratam ento à descoberta dos fatos e talvez se exagere
a “toilette dos docum entos”, resultando não só num a centralização de
um aspecto da metodologia, como num a desarm onia nos capítulos, espe­
cialm ente o cartográfico, como observou o professor Francisco Iglésias.
Não se pretendeu destacar nem defender nenhum a etapa, pois a m etodo­
logia não as estabelece e reconhece que o processo é o único e a divisão
m eram ente didática. Talvez a riqueza do m aterial das disciplinas auxi­
liares e da crítica histórica, as únicas mais exercitadas no Brasil, seja a
responsável pelos excessos que se notaram . Nem desta vez foi possível
harmonizá-las em capítulos mais condensados. É um a tarefa para outra
edição. Mas desde já se esclarece, como aliás se fizera na prim eira edição,
ao tratar da nova orientação metodológica nos Estados Unidos da Amé­
rica, que o autor, para usar da expressão de M arrou, não tem a tendência

16
a representar o progresso do conhecim ento histórico como um a vitória
contínua da crítica, que tem feito progressos helicoidais e não lineares^).
Os erros da hipercrítica têm sua base na incompreensão e o A utor quis
destacar, no últim o capítulo, o papel capital da compreensão na ciência
histórica. Mas ninguém desconhecerá que certas descobertas factuais são
decisivas. U m só exemplo ilustraria a tese: em 1952, Michael Ventris
lançou um a grande luz no conhecim ento homérico, ao prom over a deci-
fração do “B ” na grafia m inoana linear e ao estabelecer, em 1956, com
John Chadwick, os métodos da decifração da escrita m icênica(2). Assim
também as descobertas dos pergam inhos do M ar M orto do Antigo T es­
tam ento e seu estudo atual por vários críticos textuais podem conduzir
a novas conquistas no conhecimento histórico e, a p artir destas, a nova
compreensão do sentido dos atos e da vida hum ana. O historiador dá
grande im portância ao fato de possuir um a metodologia própria e ao
problem a da suficiência ou insuficiência d a compreensão. Esta existe
com o quadro geral que dirige e acom panha a pesquisa, se esclarece ou
se obscurece no desenvolvimento desta; m uitas vezes a compreensão será
insuficiente pela simples deficiência do texto ou desconhecimento de fatos.
O plano, o sentido, o fim, as forças e os poderes impulsionadores, suas
possibilidades e pressupostos só se com preendem n a relação m útua, fun­
cional e dependente do fato ou texto com a teoria interpretativa.
O historiador não se preocupa com a “etiq u eta” de ciência que seja
ou não reconhecida à sua disciplina. A exposição que se fez não teve
o sentido de provar a cientificidade da história, mas, apenas, de apre­
sentar o pensam ento de D ilthey e Rickert, cuja filosofia crítica da história
foi um passo capital na elaboração de um a teoria da história. O capítulo
sobre filosofia e história foi conservado m ais ou menos como estava,
incluindo-se um a parte sobre o positivismo lógico e não se tratando, ainda,
de Jaspers, Heidegger e Husserl. Não se pode deixar de acentuar a
frivolidade do pensam ento positivista sobre história, que torna ínfimos
seus problemas, porque começa destruindo o significado dos conceitos,
desconhece que as entidades abstratas são instrum entos indispensáveis a
qualquer língua civilizada, e ao generalizar as leis da significação se
esquece da natureza e uso da linguagem comum ou científica, que é
prim ariam ente um meio de comunicação das atividades hum anas.
A parte, filosófica ficou reunida num mesmo capítulo, subdividida
em várias partes, e escreveu-se o da “N atureza da explicação histórica: a
convicção histórica”, em lugar da “Certeza histórica”. N a periodização
acrescentou-se um trecho final, que exam ina os últimos trabalhos. O
“Desenvolvimento da idéia de história” foi tam bém m udado e atualizado
com os grandes nomes contemporâneos. Nos capítulos sobre pesquisa,
fontes e instrum entos do trabalho histórico foram incorporadas novas
informações; nas disciplinas auxiliares e n a crítica poucas modificações
foram feitas, além da inclusão das notas, bibliografias e listas de casos

(1) H. I. M a r r o u , “ De Ia logique de 1’histoire à une éthique de rh isto rie n ” , R evue de


M étaphysique et de Morale, julho-out. 1949, p. 264.
(2) Vide Docum ents in Mycenaean Greek, Cambridge, 1956.

17
ao pé das páginas ou no próprio texto, quando antes estavam no fim
do livro. M aior modificação sofreu todo o capitulo sobre os “Gêneros
históricos”, não só no texto de certos gêneros, como na elaboração de
outros que não figuravam na prim eira edição: a história econômica, do
exército, naval, e a biografia foram m uito alteradas; a social, da aviação,
das artes e iconografia, intelectual e das idéias e da educação foram in ­
troduzidas.
Com a atenção voltada p ara essas tarefas não se pôde, ainda, reduzir
as proporções das disciplinas auxiliares, especialmente da cartografia, nem
se pôde, como era desejo do A utor desde a prim eira edição, trata r das
relações da história com as ciências sociais, cujos originais a serem revistos
agora destinam-se a um a publicação independente.
Alguns problem as menores, como o ensino da história, as sociedades
históricas, a novela e a resenha crítica históricas não puderam merecer
nenhum tratam ento. Do prim eiro será possível cuidar na historiografia
didática, sobre a qual reunim os m aterial para possível capítulo de nossa
história da história ou para trabalho autônom o; sobre as sociedades
históricas era nossa intenção, além das informações já dadas, tanto no
capítulo sobre as fontes, como em A pesquisa histórica no Brasil, seguir
o exemplo de Pierre Caron, no M anuel pratique pour 1’étude de la
R évolution Française (Paris, 1947); sobre a resenha crítica de história,
o A utor gostaria de acentuar as diferenças entre a resenha crítica, forma
de apreciação bibliográfico-crítica, e a identificação e exame do valor dos
testemunhos, ou seja, a constatação da autenticidade e fidedignidade dos
textos históricos; sobre a novela histórica, outro gênero histórico-literário,
sempre em voga, pretendia o A utor cham ar atenção sobre suas caracterís­
ticas, virtudes e defeitos capitais e, especialmente, sobre a necessidade de
guias que, a exemplo de Jonathan Niel, em seu A Guide to T he Best
Historical N ovéis and Tales (Londres, 1904), e Ernest A. Baker, em seu
A G uide to Historical Fiction (Londres, 1914), ajudem a identificar os
heróis e os temas da novelística histórica.
Um crítico norte-am ericano censurou a tendência legal ou jurídica
de certos trechos do livro. No capítulo sobre a certeza histórica, agora
retirado, havia realm ente certa comparação excessiva entre o processo ju ­
rídico e o histórico, a que fora levado o A utor por influência da leitura
de Jo h n W igmore (T he Principies of Judicial Proof, 3.a ed., Boston, 1937),
que conhecera por indicação de Alian Nevins (T h e Gateway to History,
Boston, 1938). Com a retirada do capítulo, sob inspiração- daquela crítica
e do pensam ento de W ach: “die Geschichte ist kein K rim inalgericht”(3'i,
o A utor escreveu, sob a orientação de G ardiner, um novo capítulo, com
novo título. Mas ficam de pé em sua integridade as comparações jurídicas
que fez em m atéria de espécie e colheita de fontes e sobre autenticidade,
falsificação e fidedignidade.
T an to no prim eiro capítulo como no relativo à história social, pro­
curou o A utor evidenciar a im portância da ficção como fonte na reconstru­
ção histórica. John dos Passos, na reunião anual dos historiadores ame­
(3) Das Verstehen, T übingen, 1933, iii, 125.

18
ricanos, realizada em W ashington, em 1955, destacou os valores hum anos
dos documentos históricos e m ostrou a necessidade da imaginação e de
psicologia hum anas para sua interpretação. Os historiadores podem
aprender m uito com os romancistas, novelistas e contistas sóbre os métodos
da descrição viva; poucos historiadores dão atenção aos momentos livres
e quotidianos das grandes personagens históricas, quando estas revelam
sua essência natural, e não estudam a arte literária da caracterização e
narração, como o fazem os próprios romancistas, que substancialm ente
fazem história ou “estórias”.
A Teoria cresceu demasiado, m uito além de nossa expectativa, em par­
te devido à incorporação das notas, bibliografia e listas ao texto e também
porque se reescreveram capítulos antigos ou se incluíram novos. Fica para
outra oportunidade reduzir seus excessos.
Aos meus amigos Américo Jacobina Lacombe, A rtu r César Ferreira
Reis e José A ntônio Soares de Souza desejo agradecer a generosidade das
notas e observações com que ajudaram a corrigir erros e omissões deste
livro. Aos críticos estrangeiros e nacionais, alguns citados, que me guia­
ram no cam inho de alguns acertos teóricos ou concretos, deixo aqui con­
signado m eu agradecimento. Finalm ente, tenho a graça de contar com
a colaboração constante e cuidadosa de Lêda, que me assistiu n a corre­
ção dos originais e provas e n a feitura do índice.

13 de fevereiro de 1957

19
PREFACIO DA 3.a EDIÇÃO

Esta 3.a edição aparece com dois capítulos novos: o


prim eiro aborda problem as do m étodo e da teoria his­
tórica, e o segundo versa sobre o ensino superior da
historia e a reform a universitária. A fim de não per­
tu rbar a estrutura do livro, bem como não criar dificul­
dades gráficas, decidi colocá-los no final, como apéndices.
Foram feitas umas poucas modificações no texto e novas
informações foram acrescentadas nas notas e nas biblio­
grafias especiais, sem caráter exaustivo. R etirei quase
inteiro o capítulo “As fontes históricas”, que passará
a figurar, modificado e acrescido com novos elementos
inform ativos e orientadores, na 2.a edição de A pesquisa
histórica no Brasil, que logo será lançada também por
esta Editora. Espero que estas novas edições venham
atender à necessidade dos estudantes de ensino superior
de livros deste gênero.
Agradeço a m inha m ulher, Lêda Boechat Rodrigues,
a colaboração que deu a esta reedição.

J osé H o n ó r io R o d r ig u e s

J u lh o de 1968
PREFÁCIO À 4.a EDIÇÃO

Esta 4.a edição aparece sem o Apêndice II, relativo


a “O Ensino Superior da H istória e a Reform a U niver­
sitária”, por ter se tornado desatualizado. Em seu lugar
inclui-se um posfácio, tentando apontar novas contribui­
ções à parte da “Filosofia e H istória”, e aos capítulos so­
bre “Periodização n a H istória do Brasil” e sobre os “Di­
versos Gêneros da H istória”, sentindo todas as reform u­
lações e renovações naturais destes últim os anos entre
a 3.a e esta nova edição.
Espero possa a Teoria da H istória do Brasil trazer
aos professores e estudantes superiores de história em ge­
ral e de história do Brasil em particular a contribuição
do exame, debate e crítica teórica e prática da nossa dis­
ciplina universitária, que é um dos fundam entos da cul­
tu ra brasileira.
J o sé H o n o r io R o d r ig u e s
Novem bro de 1977.
A B R E V IA T U R A S

ABN A nais da B iblioteca N acional do R io de Janeiro.


AHR A m erican H istorical R eview .
AM I A nais do M u seu Im perial.
CEHB “C atálogo d a Exposição de H istó ria do B rasil”,
p ublicad o nos A nais da B iblioteca N acional do R io
de Janeiro, vol. 9, 1881-1882, 2 vols. e u ra suple­
m ento (1883).
DHGEB D icionário H istorico, Geographico e E thnographico
do Brasil, R io de Ja n e iro , 1922, 2 vols.
HAHR H ispanic A m erican H istorical R eview .
HZ H istorische Z eitschrift (M unique)
MBEB M anual bibliográfico de estudos brasileiros, R io
de Jan eiro , G ráfica E d ito ra Souza, 1949.
RAM SP R evista do A rq u ivo M unicipal de São P aulo.
RA PM R evista do A rq u ivo P úblico M ineiro.
RBEP R evista Brasileira de E studos Pedagógicos.
RH R evista de H istória (São Paulo).
R IA G P R evista do In stitu to A rqueológico e Geográfico de
P ernam buco.
R IC R evista do In stitu to do Ceará.
R IH A R evista do In stitu to H istórico de Alagoas.
R IH G B R evista do In s titu to H istórico e Geográfico Brasi­
leiro.
R IH G S P R evista do In stitu to H istórico e Geográfico de São
Paulo.
R SPH A N R evista do Serviço do P atrim ônio H istórico e A r ­
tístico Nacional.
TLS T h e T im e s L itterary S u p p lem en t (Londres).
C a p ít u l o 1

Os problemas da historia e as tarefas


do historiador

eus n ãoÉ d o s m o r t o s . , mas dos vivos, porque, para ele,

D todos são vivos. A historia tam bém não é dos mortos,


mas dos vivos, pois ela é a realidade presente, obrigatória para a c
ência, frutífera para a experiência. A vida e a realidade são historia, ge­
rando passado e futuro. Assim, todo o m ovimento da consciência, toda
a pulsação vital do espírito é história, no duplo sentido de res gestae e
historia res gestae, segundo a lição de Croce. Por isso a historiografia está
sempre na dependência da historia.
É pela conexão íntim a entre o passado e o presente que a historia
possui incessantemente o m undo e age sobre a vida, como a vida age
sobre a historia. Assim para a historia todos são vivos, os que criaram
a vida e persistem com sua influência, e os que estão criando a vida,
gerando o futuro. O historiador, lem bra Oliveira França, lida com de­
funtos não para conhecer a morte, o passado, mas para conhecer a vida;
é nela que ele pensa; é o m istério da vida que ele persegue (x). Este é o
dinam ismo da vida e a oposição entre o instante e o eterno, o presente e
a história, a unidade do passado e do presente.
A realidade histórica que o historiador tem por missão com preender
existe, disse W. von H um boldt, n a escala do seu presente. O historiador
devè aprender a viver em diferentes mundos. As significações vitais pas­
sadas anunciam seus títulos; o presente coloca-se em posição de fazer valer
os seus próprios valores, pois o que vive tem sempre razão. O historiador
está essencialmente ligado ao ponto de vista contem porâneo (2).
Daí a im portância da história p ara a vida e sua significação para o
presente. O quadro da história será tanto mais vivo quanto mais próxi­
m a for a problem ática que dele derive. A história, diz R itter, não deve
ser estranha à vida. Ela seria um a obra essencialmente factual, acumu­
(1) Eduardo de Oliveira França, “ Considerações sobre a função cultural da história” ,
R H , out.-dez. 1951, 256.
(2) E. Spranger, “Aufgaben des Geschichtschreibers,” HZ, out. 1952, 251 e seguintes.

27
lação m orta de matérias, despida de espírito, se permanecesse indiferente
aos impulsos e estímulos da vida (s). Nem poderia ser de outro modo.
A historiografia é verdadeiram ente um espelho onde se refletem os
problem as da própria nação e da hum anidade. Neste sentido, as revisões
históricas não nascem das noções históricas concretas, mas da análise e
da crítica dos elementos ideológicos determ inativos. E ’ um realismo in­
gênuo acreditar que se possa conhecer o objeto histórico em si próprio,
como num a fotografia. A realidade histórica é um a p in tu ra que depende
da perspectiva do historiador. Mas “o historiador só pode ver o fato atra­
vés de si mesmo”, como homem do seu século, com parando com o tempo
em que vive. Sem fatos não há história, mas sem historiador os fatos não
têm sentido, e como o historiador é hom em de certa época, e muda, com
ele m uda a história (4).
Deste modo, um problem a histórico é sempre um a questão levantada
pelo presente em relação ao passado. Conseqüentem ente, o interesse do
interrogador, o princípio da seleção, a análise final, o sistema de valores e
a ideologia são elementos decisivos na definição da pesquisa. Um a com­
preensão da história nunca é realizada sem suposições apriorísticas, sem
hipóteses, sem um quadro geral composto pelos que nos precederam. O
revisionismo histórico, porém, não quer atingir fatos mas as idéias e os
■valores, e, especialmente, as relações entre o presente e o passado que os
exigem. Os fatos nus e crus são despidos de significação, e esta só o his­
toriador, prem ido pelo presente, lhe dá. Mas o acento da significação
pode ser colocado de m aneira inteiram ente diferente.
Por isso mesmo que a história se ocupa dos vivos e serve à vida é que
se impõe, em certos momentos, um a revisão que restabeleça a conexão
entre o passado e o presente. A grande crise do m undo contem porâneo
gera um a crise no pensam ento histórico. A pesquisa histórica, porém, atin­
giu, desde o século xix, grande am plitude, plenitude e profundeza. Pode
ser difícil digerir tanta sabedoria e conservar o dom ínio sobre o m aterial
já am pliado. A nota de desencanto só nasce da insuficiência de forças
capazes de controlar tanta descoberta factual. Todos os historiadores estão
conscientes das dificuldades que se apresentam, de um lado devido ao ideal
de fundar todo o trabalho em fontes originais de informações e, de outro,
pela abertura de novos e imensos campos de investigação (5).
A verdadeira crise existe e é tanto mais forte nos fundam entos filo­
sóficos, nos elementos do pensamento histórico, na concepção dos valores
históricos com os quais temos de im aginar e construir o m undo histórico.
O enorm e desejo por um a visão de co íjunto un itária da vida histórica
filiou uns e outros às concepções filosóficas. De um lado, M arx, seguido
daqueles que dele se aproxim am espiritualm ente, modificou todo o q u a­
dro tradicional da história e ensinou novos meios de explicação e novos
(3)G erhard R itter, “Leistungen, Problem e und Aufgaben der internationaler Geschichts-
Zlir neueren Geschichte” , Relazioni, vol. vi, x Congresso Internazionale di Scienze
s c h re ib u n g
Storiche, Florença, Sansoni, 1955, 169-330.
(4) Eduardo de Oliveira França, artigo citado, 258.
(5) Arnold Toynbee, “T h e L im itation of Historical Knowledge” , T L S, 6 de janeiro de 1956.

28
fins. De outro lado, Max W eber ensinou, em contrapartida, um a teoria
funcional de interação pluralista. Novos caminhos ensinados por Bene-
detto Croce, por Toynbee, ou os descaminhos de Nietzsche e Spengler,
sacudiram a consciência histórica. E então veio a prova terrível de todas
as teorias históricas que se formam na época de paz. Guerras m undiais
e revoluções são ensinam entos práticos históricos de força trem enda. Não
teorizamos e construímos mais sob a proteção de um a ordem que tudo
suporta e que torna as mais atrevidas teorias m era insignificância, mas
no meio da tempestade da reform a do m undo, onde cada palavra velha
deve ser exam inada pelos seus efeitos ou pela ausência de efeitos, onde
inúm eras idéias se tornaram meras frases e papel.
É nessa hora que um reexame se impõe. 19-13 é um a reviravolta na
história, diz o Prof. Barraclough. “Foi a vitória russa de Estalingrado que
tornou im perativa uma revisão total da história européia” (6). A Segun­
da G uerra M undial precipitou, ao menos para os historiadores, ensina
o mestre inglês, a inversão total da antiquada teoria de que o valor do
estudo da história estava em h abilitar os homens a conduzir m elhor seus
problem as atuais pela lição dos erros do passado: muitos historiadores
sentiram , ao contrário, entre 1939 e 1945, que o principal valor de sua
participação no presente era o novo descortino que lhes dava n a com­
preensão dos erros do passado. E como resultado descobriram que Ale­
xandre, o Grande, e Júlio César eram m uito mais relevantes para o m undo
m oderno que Luís xiv, N apoleão e Bismarck, e que não havia nada de con­
tem porâneo em Biilow ou T irpitz, Lloyd George ou Stanley Baldwin.
O presente descobrindo o passado, m ostrando que só nos im porta e só
queremos conhecer e conhecemos m elhor aquele passado que interessa ao
presente. Só aquele para quem o presente é im portante escreve um a crô­
nica, disse Goethe (7). A verdadeira compreensão da periodização já de­
veria ter esclarecido Barraclough, hoje considerado um dos mais altos va­
lores da historiografia inglesa, que certos períodos e suas personalidades
ou ações populares se tornam mais relevantes não pela contigüidade tem ­
poral, mas pela significação espiritual e m aterial. No Brasil, por exemplo,
seria ingenuidade querer atrib u ir relevância para a compreensão da época
atual, à história republicana mais remota. São dois mundos diferentes,
que se separam definitivam ente por volta de 1930. A época da Indepen­
dência apresenta m uito m aior contem poraneidade.
U m a nova época, como a inaugurada em 1945, exigia novos valores.
O resultado da guerra representa um a m udança na perspectiva histórica.
Reconhecem os historiadores essa m udança ? M uito antes da Segunda
G uerra M undial o im pacto soviético sóbre o m undo ocidental e as conse­
qüências esmagadoras do colapso americano de 1929 estavam m ostrando
que a história que ensinamos e aprendemos tinha pouca conexão com
as forças em jógo no m undo atual. Mas os historiadores conservam-se ex­
trem am ente ligados à paixão da Europa histórica. Mesmo aqueles que

(6) Geoffrey Barraclough, History in a Changing W orld, Oxford, 1956, 9 e 181. T radução
brasileira: Europa, um a revisão histórica. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1964.
(7) Cit. por Joachim Wach, Das Verstehen, vol. m , Das Verstehen in der H istorik von
R anke bis zum Positivismus, T übingen, 1933, x.

29
viam mais longe se contentavam em seguir a expansão da Europa no Novo
M undo, no M undo O riental Próxim o e Extremo.
Se a história não existe para a estultificação e fossilização e deve m anter
um a conexão viva com o presente, é chegada a hora de enfrentar a nova
situação. A U nião Soviética e os próprios e . u . a ., os dois gigantes do
poder, os dois construtores maiores da história presente e da criação do
futuro, não recebem nas histórias gerais o tratam ento equivalente. Estas
não nos estão preparando para a emergência do m undo em que vivemos
e não nos oferecem nada para a compreensão do presente. Novos aspectos
do passado, em face daquela preem inência, devem ser esclarecidos para
ilum inar nossa compreensão do presente. N ão significa isso que devemos
descartar-nos da E uropa e libertar nosso pensam ento da concentração mío­
pe sobre o Ocidente. Essa história europeizante nos conduz a confundir
perigosam ente a atual distribuição do poder e das forças que agem no
m undo em que vivemos. Além disso, ela inocula um falso senso de con­
tinuidade, contra o qual a experiência se rebela, e obscurece o fato de que
estamos vivendo num m undo inteiram ente diferente, em quase todas as suas
condições básicas, daquele em que Bismarck, por exemplo, se locomoveu.
As questões que devemos levantar hoje m udaram e o passado se apresenta
em forma inteiram ente diferente daquela que víamos antes de 1939 (8).
C ontinuar ignorando que a Rússia é hoje um sexto da superfície ter­
restre e que é incontestavelm ente um a das duas maiores forças políticas
do m undo; ignorar o nascim ento da C hina Comunista, da liberdade e
independência da índia, da libertação nacional de várias antigas colônias
européias do O riente e da África para continuar focalizando especial­
m ente o poder da Europa, a europeização do m undo, significa desservir
a história e o presente.
As questões que perguntam os ao passado m udaram assim como m u­
daram as condições do m undo. T o d a época exige sua própria visão da
história. Hoje, precisamos de um a nova visão do m undo, adaptada às
novas perspectivas. Se devemos restaurar a conexão entre o passado e o
presente e tornar a história um a força viva e não um peso m orto de conden­
sada erudição, a prim eira tarefa consiste num a nova visão interpretativa
do escrito histórico, com todas as suas conseqüências pedagógicas. “É
fácil para o historiador ser sábio depois do acontecimento; e terrivelm en­
te difícil sê-lo na sua própria época; nós podemos, porém, dizer, com toda
a segurança, que quanto m ais universal for seu ponto de vista e quanto
mais ele se liberte das preocupações nacionais e regionais mais próxim o
estará de um a concepção do passado que seja válida para o presente” (9).
O mesmo acento revisionista que se exprim e assim pela voz inglesa
se encontra na palavra dos atuais historiadores alemães, que tentam re­
pensar sua história, em bora os velhos conceitos ainda estejam servindo.
Trata-se nesse caso, especialmente, da revisão de um a própria história e
da via dolorosa do espírito civil na Alem anha, de dim inuir a ênfase sobre
o Estado e o poder e a influência do militarism o. Para W alther Hofer, o
(8) Geoffrey Barraclough, “ T h e L arger View of H istory", T L S, 6 de janeiro de 1956.
(9) G. Barraclough, History in a Changing W orld, Oxford, 1956, 182.

30
revisionismo alemão deve observar os seguintes pontos: 1) Análise crítica e
revisão dos pressupostos ideológicos, isto é, metafísicos, éticos, históricos
e filosófico-políticos. 2) C rítica e revisão de todo o quadro do próprio
desenvolvim ento histórico. N ão se trata só de um a revisão de fatos e da
incorporação de novos aspectos, mas de um a revisão geral, que atenda à
nova relação entre o passado e o presente, isto é, à nova posição da Ale­
m anha no quadro europeu (10). Friedrich Meinecke, Ludw ig Dehio e
G ehrard R itter, o prim eiro como um Mestre venerado, o segundo pela im­
portância de sua posição, como responsável pela Historische Zeitschrift,
e o terceiro como Presidente d a Associação dos Historiadores Alemães,
dedicaram-se aos trabalhos de religar a historia alemã à situação presente
da Europa.
Os historiadores soviéticos, convencidos tam bém da im portância da
periodização (n ) — que levou B arraclough àquelas considerações sobre a
revisão do quadro da historia universal —, afirmam recusar, resolutam ente,
“a lenda reacionária dos povos ditos históricos e sem historia, lenda que
foi e continua como um pára-vento ideológico de que se servem as forças
agressivas para dissim ular sua política colonial e seus objetivos de con­
quista. A historiografía soviética se pronuncia contra as concepções euro-
centristas, contra a oposição artificial do O riente e Ocidente, contra o
colonialismo. N a nossa historia universal nós reservamos um lugar im­
portante à história dos povos eslavos, e dos países do Oriente, da China
e da In d ia ” (12).
Como se vê, um m ovim ento geral reivindica um a revisão geral que
perm ita: 1) ligar o presente ao passado, estudando mais as origens e de­
senvolvimento das grandes forças do m undo atual; isso significa d ar mais
ênfase à história dos e . u . a ., à história da U nião Soviética e à história
do O riente e da América do que centralizar o m undo na Europa; 2) es­
tu d ar mais certos períodos que possam ilum inar o nosso presente, como
lem brou Barraclough. A lexandre e César nos interessam mais do que,
digamos, a história medieval.
Duas forças histórico-culturais se impõem lioje: a americanização do
Ocidente e a sovietização do Oriente. Como compreendê-las se a história
que ensinamos e lemos é a história da europeização do m undo, quando a
Europa não é mais o mesmo poder criador da história ?
T o d a a realidade histórica, tal como existe hoje, “produz” um a di­
ferente consciência da realidade. Devemos voltar ao passado com novos
(10) Vide especialmente a obra de F. Meinecke, T h e Germán Catastrophe, H arvard Uni-
versity Press, 1950; de G. R itter, Europa und die deutsche Vrage, M unique, 1947, e Ludwig
D ehio, Gleichgewicht oder H egem onie, Krefeld, 1948.
(11) T om ando por base a lu ta libertadora das massas e as revoluções sociais, os historia­
dores soviéticos adotam como lim ite entre a história antiga e a Idade Média a queda do Im ­
pério Rom ano provocada pelo movim ento popular antiescravagista e a pressão das tribos ger­
mânicas e eslavas. Os tempos modernos começam com as prim eiras revoluções burguesas na
E uropa nos séculos xvn e xvm . Enfim , a história contem porânea se abre com a Revolução
Socialista de O utubro de 1917, que provocou mudanças radicais não só na Rússia como no m undo
inteiro. Vide A. L. Sidorov, Les problèmes fondam entaux de la science historique soviétique et
certains résultats de son développem ent, Moscou, 1955, 79. (T ravaux des historiens soviétiques
préparés po u r le xe Congrès In ternational des Sciences H istoriques à Rome.)
(12) Sidorov, ob. cit., 79-80.

31
problemas Impostos pelo presente. A consciência histórica, como disse
Spranger, não- é m eram ente reprodutiva. “M uito mais do que isso, o gran­
de historiador constrói o m undo espiritual, que começa nele de m aneira
indissolúvel. A vida de cuja compreensão ele se apropriou torna-se im e­
diatam ente um a força presente e form adora do fu tu ro ” (13).

OS PROBLEM AS DA H IS T Ó R IA E DA H IS T O R IO G R A FIA
BRA SILEIRA

Do mesmo modo, a historiografia brasileira é um espelho de sua pró­


pria história. A historiografia, como outros ramos do pensam ento e da
atividade hum anos, está inegavelmente integrada na sociedade de que é
parte. Há, assim, um a estreita conexão entre a historiografia de um
período e as predileções e características de um a sociedade. O nexo é
econômico e ideológico. A atividade erudita não é um luxo; depende do
apoio com que um a sociedade a nutre.
A historiografia brasileira, expressão de sua história, representava até
há pouco, e ainda representa em significativa proporção, a sociedade velha
e arcaica, a que se referiram Pierre Denis e Jacques Lam bert(14), e por
isso se dedicava tão esm agadoram ente à história colonial, expressão do seu
apego às tradições e à cultura luso-brasileiras, forma de concepção his-
tórico-filosófica de sua personalidade básica e de seu caráter social. O
Brasil arcaico é o Brasil rural, com 54,92% de sua total população, ao
contrário de um a sociedade nova, m uito mais evoluída e com m uito m aior
estabilidade que dom ina de m odo geral o Estado de São Paulo e o extre­
mo sul, mas que no resto do país é sobretudo um a sociedade urbana.
O Brasil recebeu, de 1850 a 1950, apenas 4.800.000 imigrantes, dos
quais somente 3.400.000 perm aneceram no país, sendo, ainda, a m aioria
constituída de portugueses, cuja personalidade básica parece ter sido a pre­
dom inante no caráter brasileiro. Houve, assim, continuidade de popula­
ção, de personalidade e cultura e a classe ru ral dom inou até 1930. Em­
bora a personalidade básica luso-brasileira e ru ral fosse a dom inante, ela
não determ ina todas as vicissitudes da cultura, mas supre a direção e defi­
ne a m aneira pela qual se m anejam essas vicissitudes de adaptação. T e­
mos, assim, dois elementos fundam entais para o conhecim ento da história
do Brasil e as direções de sua historiografia: a personalidade básica por­
tuguesa e a sociedade rural. Além disso, um a sociedade com alto cresci­
m ento potencial demográfico, em constante ascensão, fabrica e modela
um tipo de caráter social, a que Riesm an (15) chamou tradicional, no
sentido de que o indivíduo aprende a tratar a vida com a adaptação e
não com a inovação. No Brasil arcaico, com um a sociedade relativam ente
(13) E. Spranger, “Aufgaben des Geschichtschreibers” , H Z , out. 1952, 268.
(14) P ierre Denis, L e Brésil au x x e siècle, 6.a ed., Paris, 1921; Jacques L am bert, Le
Brésil, Structure sociale et institutions politiques, Paris, 1953 (trad. bras. Os dois Brasis,
iNEp, M inistério da Educação e C ultura, 1959).
(15) David Riesm an, T h e Lonely Crowd, New H aven, Yale Univ. Press, 1950.

32
estável e de grande tenacidade dos costumes, o caráter social, isto é, aquele
que assegura os padrões de conform idade a certos elementos da produ­
tividade, da política, do lazer e da cultura, é tradicional; o ritual, a rotina
e a etiqueta orientam todos e pouca energia é exigida para descobrir
novas soluções para os velhos problemas.
Assim a historiografia brasileira, expressão do Brasil arcaico, era p re
dom inantem ente dedicada à fase colonial. A Revista do In stitu to Histó­
rico e Geográfico Brasileiro, por exemplo, contém mais de 60% de con­
tribuições, nos seus prim eiros cem anos, à história colonial. Seus volu-
mes especiais tam bém apresentam o mesmo índice, 60% (16). É esta a p ri­
m eira verificação de fato. Mas se adotarm os o critério de problem ática
historiográfica, vamos n otar tam bém que os grandes temas encarados e
resolvidos pela pesquisa histórica são, em sua m aioria, de história colo­
nial. As histórias gerais ou não ultrapassaram a fase colonial ou se ex­
cedem desproporcionalm ente nesta em relação à nacional; nos vários gê­
neros históricos, n a história religiosa, diplom ática, econômica, política,
etc., a predom inância colonial é indiscutível; nas grandes coleções de fon­
tes, a grande m aioria dos textos históricos é colonial (17).
Deste modo, a história colonial foi, durante ainda os trin ta primeiros
anos deste século, a eleita dos historiadores nacionais e dos responsáveis
pelas edições de textos históricos. O excessivo apego ao passado português
e europeu, quando o Brasil era apenas um fragm ento essencial da histó­
ria de Portugal ultram arino, ou um pouco mais adiante, quando passa
a ser parte integrante do grande dram a m undial, sob a preponderância
britânica, é bem expressão da sociedade arcaica, e da falta de am adure­
cim ento que provocava certos desajustamentos emocionais, levando-nos
ao mazombismo, isto é, ao desapreço pelo Brasil e ao am or à Europa, ou
nos conduzia à auto-exaltação ufanista, ou ainda a certa flagelação crítica
a que se referiu Viana M oog(18).
Mas não é somente esta a significação psicológica que revela a histó­
ria brasileira dom inada pela vida e especialmente pela vida da sociedade
arcaica. U m dos traços do caráter luso-brasileiro está na ênfase que no
m undo luso-brasileiro se coloca nas relações pessoais e simpáticas e não
nas impessoais (19). Ora, esse personalismo de tão nefastas conseqüências
políticas haveria de conduzir ao biografismo histórico, ao estudo das per­
sonalidades e dos heróis, tidos como os condutores e elaboradores da his­
tória, como mostraremos mais adiante, no nosso capítulo sóbre a biografia.
A política im perial ou republicana — um a semilibertação do espírito
colonial, era p or sua vez igual à biografia im perial ou republicana, for­
(16) Rollie E. Poppino, “A Century of the Revista do Instituto H istórico e Geográfico
Brasileiro”, separata da H A H R , vol. x x x i i i , n.° 2, maio 1953.
(17) Das 36 publicações do Arquivo N acional, 17 são consagradas à época colonial; dos
108 volumes dos Documentos históricos da Biblioteca N acional, 100 são relativos à época
colonial, e dos 75 vols. de Anais da mesma instituição, grande parte é sobre a Colônia; a série
de documentos históricos paulistas e baianos são coloniais e assim ocorre com as demais re­
vistas dos Institutos Históricos estaduais.
(18) Bandeirantes e pioneiros, E ditora Globo, 1954.
(19) Em ílio W illems, “Luzo-Brazilian C haracter” , A tas do coloquio internacional de estudos
luso-brasileiros, V anderbilt University, 1953, 77-78.

33
ma personalista ligada ao caráter social do Brasil arcaico e tradicional.
Os estudos sobre indígenas e negros e sobre a arte são tam bém predom i­
nantem ente dedicados à fase colonial, aos vários grupos que mais contri­
buíram para a formação do povo, desde o início da colonização, mas sem um
estudo correspondente histórico-cultural da influência indígena e especi­
alm ente negra na sociedade m oderna contem porânea brasileira.
Aos poucos, a historiografia do Brasil novo começa a se manifestar,
especialmente n a história econômica e social. Basta acentuar que no pe­
ríodo de 1890 a 1914 a história social ocupa, nas venerandas páginas da
Revista do Instituto H istórico e Geográfico Brasileiro, 44% da m atéria
publicada. E no período de 1915 a 1938, 55%, sendo que nos volumes
especiais, entre 1889 e 1914, 95% (20).
É especialmente com C apistrano de Abreu que se inicia a historio­
grafia nova, expressão do Brasil novo, pois ao escrever os Caminhos anti­
gos e o povoam ento do Brasil (1899), tema colonial ainda, êle rejeita a
ênfase sobre as origens européias e as relações européias. Seu tema é intei­
ram ente nacional, pois convidava os historiadores brasileiros a não cen­
tralizar o seu interesse nas com unidades do litoral, mas no interior, no
próprio Brasil arcaico, é verdade, mas nas origens autônom as do Brasil
nóvo: as minas, as bandeiras, os caminhos. A rejeição colonial está im­
plícita no próprio tem a colonial. Além disso, desde 1875 C apistrano con­
siderava a Independência como a transform ação da emoção de inferiori­
dade a Portugal em consciência de nossa superioridade, em bora sem mo­
dificar a emoção de inferioridade à E uropa (21).
Mas é sua orientação para a historiografia nova que nos interessa
agora. Éle a enriqueceu, graças à sua formação, de novos conceitos: o de
cultura substitui o de raça, seus estudos indígenas são atuais e renovam
nossa etnografía; a im portância da história social e dos costumes aparece
pela prim eira vez nos Capítulos; e o próprio sistema de casa-grande e
de senzala e sua im portância no Nordeste viu-o pela prim eira vez em
1910. Éle sugeriu e indicou a seus amigos e discípulos novos problem as e
teses, ainda não resolvidos, como a história do regime de terras, a história
da legislação e do parlam ento, a dos partidos, um dicionário e um atlas
de história do Brasil.
Como bem disse Sérgio B uarque de H olanda(22), a “bibliografia his­
tórica do decênio de 30 é largam ente ocupada por escritos onde a inter-
pretação elucidativa, e às vezes interessada e mesmo deform adora dos fa­
tos, visa explicar tais fatos ou a caracterizá-los em suas configurações es­
pecificamente nacionais”. Reconhece o mestre de São Paulo a im portância
desses escritos, suscitados em parte pelas perplexidades de um a época de
crise e transform ação e que contribuíram para dar novo rum o aos estudos
históricos.
Ora, já acentuamos que desde a segunda década deste século, devido
às rápidas transformações econômicas e aos impulsos das mudanças cul-
(20) Vide Rollie E. Poppino, artigo citado.
(21) Capistrano de A breu, “A literatura brasileira contem porânea” , Ensaios e estudos,
l . a série, Rio de Janeiro, Sociedade Capistrano de A breu, 1931.
(22) “ O pensam ento histórico no Brasil” , Correio da M anhã, 15 de junho de 1951.

34
r-irais e técnicas, a historiografia não quer só estudar o passado colonial,
—ís quer aproximar-se do presente, da fase nacional, seja por interesse
de usar o “passado utilizável”, seja pela superação catártica do colonial
•xlo nacional. É evidente que atualidade e interesse vivo não são a mes-
—-• coisa e a expansão do horizonte espiritual através dos estudos históricos
niD conhece limitações fundam entais.
E ntre os exemplos daquela bibliografia histórica citava justam ente
Sergio B uarque de H olanda o R etrato do Brasil (1928), onde o historia­
dor de Paulística (1934), intim am ente vinculado à escola de Capistrano
de Abreu se propõe, apoiado em copiosa informação histórica, m ostrar
que o país dorm ia “seu sono colonial” e, dois anos antes do movimento
de 30, enum era a necessidade de se “fazer tábua rasa para depois cuidar da
renovação total”. Desejava assim, Paulo Prado, discípulo de Capistrano,
libertar o Brasil da pressão do passado que simplesmente pesa sobre ele,
pela p rópria compreensão do mal de que padecíamos.
N ão nos parece que a Política geral do Brasil (1930), sem favor a mais
inteligente análise crítica do Segundo Im pério e da Prim eira República,
adote atitude oposta, como quer Sérgio B uarque de H olanda. Não é pelo
apelo aos remédios do passado recente contra os males do presente que se há
de caraterizar a obra de José M aria dos Santos, mas como disse H enri
H auser (23), pela “verdadeira e definitiva ru p tu ra com o passado colonial,
até às vésperas do tem po atual; um a história que afasta todas as legendas
piedosas e todas as ficções patrióticas para m ostrar a verdade crua. A na­
lisando os excessos da ideologia comtiana, pensando na corrução parla­
m entar, nas sedições m ilitares, na substituição da m onarquia não por um
regime de livre discussão, mas por um presidencialismo cujo absolutismo
e tem perado pelas revoluções quase periódicas, ele tem a tran q ü ila au­
dácia — e a falta de respeito, como dizia Michelet, é o prim eiro dever de
um historiador — “de in titu la r um a parte de seu livro: a deformação re­
publicana, que levaria àquela que chamamos a Segunda R epública”.
Se o excesso de apego ao passado colonial é um sinal de im aturidade,
a rejeição total do passado tam bém o é. Em ambos os livros dom inam os
excessos da prim eira entrevista analítica. Em ambos há a rejeição pa­
terna e o remorso há de surgir como conseqüência n atu ral da solução
im atura. A verdadeira catarse consiste na libertação e assimilação do pas­
sado, sentim entos ambivalentes de toda consciência histórica.
Inteiram ente correta parece-nos a lúcida idéia de Sérgio B uarque de
H olanda de que “em numerosos estudos de formação publicados pela
mesma época, encontra-se o apego àquilo que um ensaísta norte-america­
no denom ina o “passado utilizável”, para a composição de quadros em­
polgantes, que se apresentam para todas as nossas mazelas. Essas supostas
reconstruções, que levadas à sua forma extrem a desembocariam em m ani­
festações totalitárias, especialmente n a doutrinação integralista, m al inte­
ressaria, em sua generalidade, à pesquisa histórica”.
O pensam ento de C apistrano de Abreu, de P aulo Prado e de José
M aria dos Santos reflete o próprio processo histórico da vida nacional.
(23) H enri H auser, “ Notes et reflexions sur le travail historique au Brésil” , R evue Histu
•zçue, jan .-março 1937, 93-94.

35
Agora já não se trata só, usando a linguagem de Marc Bloch, de com­
preender o presente pelo passado, mas tam bém de com preender o passado
pelo presente. A faculdade de apreensão do vivo, eis aí, com efeito, diz
aquele mestre, a qualidade essencial do historiador. P ara com preender as
características fundam entais de certos problem as históricos, é necessário
observar e analisar a paisagem atual, porque só ela dá as perspectivas de
conjunto, das quais deveríamos p a rtir para nosso estudo. As ligações pro­
fundas do passado e do presente exigem a eterna busca e compreensão da
m udança, pois a história é a ciência da m udança.
Evidentem ente, historiografia viva não é só aquela que trata de temas
atuais. Isso seria um a incompreensão, igual à de que o historiador deve
não só form ular suas questões como suas respostas de acordo com os con­
ceitos vivos do presente. As perguntas são feitas m uitas vezes de acordo
com o presente, como já dissemos, mas as respostas dependem da pesquisa,
pois de outro m odo o historiador se tornaria tendencioso e sem categoria
científica.
Quando, porém, o interesse pelo período nacional sobrepuja o inte­
resse pelo passado colonial, não h á dúvida que já conseguimos penetrar
num a fase nova da nossa historiografia. Sem rejeitar a herança colonial
e procurando assimilá-la num a contradição dialética, e num a catarse ana­
lítica, iniciamos, aos impulsos do Brasil novo, a nova historiografia.
Se de 1900 a 1956 crescemos de 18 milhões de habitantes para 60
milhões, num a taxa demográfica de 2,5% ao ano, e num índice de 5%
de aum ento da renda nacional, taxas altas e proporcionadas, que podem
prom over a passagem de um país subdesenvolvido para um país desenvol­
vido, as tarefas e os problem as da historiografia hão de apresentar-se sob
formas novas, pela com plexidade, variedade e grandeza, e novos campos
de ação e pensam ento se oferecem aos historiadores nacionais. As taxas
de crescimento demográfico e do produto nacional não são acompanhadas,
infelizmente, pelo desenvolvimento da educação. C ontinuam os com 50%
de analfabetismo, quando possuímos, em 1880, 80%; mas possuímos agora
37 faculdades de filosofia, com 1.693 alunos de história e geografia (24).
O simples crescimento da população escolar e as maiores possibili­
dades de recursos econômicos exigem a formação e o aperfeiçoamento
senão de historiadores, pelo menos de professores de história. Mas não é
somente no campo da educação que se oferecem novas oportunidades de
ação para os que se dedicam à história. Nos serviços da adm inistração
pública ampliam-se as tarefas especializadas dos profissionais da história;
nos arquivos, nas bibliotecas, nos museus, que controlam , preservam e
adm inistram as principais fontes da história do Brasil. Pleiteia-se, por
isso mesmo, que os atuais graduados em história das faculdades de filo­
sofia, juntam ente com os servidores já exercitados nas investigações his­
tóricas, possam ver reconhecidas pelo Governo a profissão de historio-
(24) Sinopse estatística do ensino superior, 1955, publicada pelo M . E. c. De 1960 para
1968 passamos de 69,720 milhões para 89,376 milhões; a taxa m édia anual de crescimento
populacional foi de 3,1% na década de 1950 e de 3,4 na década de 1960. E ntre 1957-1961, o
Brasil cresceu a um a taxa de 6% e já em 1964 estimava-se em 3% a queda da produção real.
O crescimento foi de 4,5% em 1965, 5% em 1966 e 4,5% em 1967. A taxa de analfabetismo
é, segundo o censo de 1960, de 40%.

36
çrafo e de pesquisadores de historia, a exemplo do que se faz nos E. u . A.
e do que já fez o M useu Paulista. São novos grupos ocupacionais, que
executam serviços especializados de investigação histórica, que devem ser
reconhecidos pelo Governo, na classificação dos cargos do serviço público
em geral.
Sabem todos os que se dedicam à historia que não é só ñas biblio­
tecas, arquivos e museus que se utilizam os serviços profissionais de his­
toriadores. Nos e . u. a . possuem as Secretarias do Exterior, da Defesa,
da G uerra e da M arinha um corpo especial de historiadores que executam
serviços de historia próxim a passada ou contem poránea. Samuel Elliot
Morison, o grande professor de H arvard, escreve a crônica detalhada da
ação naval am ericana na Segunda G uerra M undial, como G. B ernard
N oble dirige a División of H istorical Policy Research da Secretaria de
Estado e R udolph A. W innacker é o historiador da Secretaria de Defesa,
todos com um corpo de auxiliares e im itados por vários serviços públicos,
federais.
O gosto pela historia, como já dizia H auser em 1937 (2B), permanece
vivo no Brasil. O núm ero de pesquisadores cresce, o m étodo já não é
mais privilégio de urna ínfim a m inoria e, aos poucos, os usos oratorios,
as declamações congratulatorias e os trabalhos de segunda e terceira mão
desaparecem.
O apelo à historia é um dos meios mais populares e efetivos de reu n ir
apoio ou oposição ao curso controvertido de um a ação pública. Ñas horas
mais carregadas de futuro é comum a invocação aos exemplos ou à ana­
logia com as ações que a história conservou. Quem não procura, desejoso
e ansioso, as páginas da história para reaver forças na força dos grandes
homens e elevação de propósitos na lem brança das ações elevadas, assim
como p ara encontrar virtude de resignação nas ásperas provas da vida
m oral e política, para obter sugestões e conselhos, para repetir a si mesmo
oportunas palavras viris ?(26).
Tem os assistido recentem ente, nas horas difíceis da Nação, à invo­
cação não dos exemplos passados, mas ao julgam ento fu tu ro da história.
Esse apelo é, dia a dia, mais comum nos homens públicos brasileiros.
Seria interessante exam inar os problem as ligados a estas invocações
n a sociedade atual. Que significam na consciência m oral dos homens p ri­
vados e públicos e como refletem o apreço ou desapreço à história, que
escusa, resgata ou redim e procedim entos históricos ?
Nem sempre esses pedidos refletem os mesmos sentimentos. H á gru­
pos políticos que apelam para a terrível “sentença na voz da história” e há
grupos que pedem apenas que seus contemporâneos julguem seus atos,
pois esses são os julgadores dos acontecimentos in statu nascendi. H á os,
que sofrem um grande sentim ento de culpa diante dos acontecimentos,
como responsáveis ou não; há os que refletem um sentim ento de vergonha
e, finalm ente, os que revelam ansiedade. No notável estudo de Riesman,
já por nós referido, cada sentim ento corresponde a um tipo de sociedade e

(25) A rtigo citado, 93.


(26) B enedetto Croce, Orientações. Ensaios de filosofia politica, R io de Janeiro, s. d., 50.

37
de caráter e reflete a sanção pela conduta social não aprovada. É evidente
que a vergonha e a indignação m oral são sentim entos da classe média,
aquela, segundo Toynbee, a que se devem os maiores benefícios da civi­
lização ocidental européia e norte-am ericana: a democracia e o industria­
lismo.
“O apelo que a Nação dirige aos seus hom ens públicos”, dizia há
alguns anos um publicista (27), “pode ser traduzido em termos familiares
como um pedido, um a súplica de sinceridade, honestidade intelectual e
vergonha — essa vergonha que infelizm ente não é comum nos meios polí­
ticos e cuja falta exasperava o mesmo R ui, que foi quem mais profligou
e vergastou, em suas campanhas inesquecíveis, os caras de bronze de todos
os feitios.” O utro cronista dos nossos dias escrevia estas palavras tão
autênticas do seu sentim ento: “£ que sentia o cronista ? O h ! m eu Deus,
como tudo isto m ata de vergonha ! Que seria do historiador do futuro se
ele entender de dar ênfase cívica aos dias de hoje e procurar entre as
personagens e os fatos um a palavra ou um episódio de grandeza ?” (28).
A instabilidade social e política provocada pela lu ta entre as tradi­
ções da sociedade arcaica e os elementos culturais do Brasil novo e as
rápidas m udanças tecnológicas e culturais podem, talvez, explicar os sen­
timentos de culpa, tão notórios no caráter nacional. Q uando as perso­
nalidades políticas das grandes massas rurais analfabetas e do proletariado
urbano com níveis de cultura m uito baixos e modos de vida arcaicos, um a
vez que vieram há pouco tem po do cam po retardado, vencem a lu ta con­
tra a classe média, podem sentir, m uitas vezes, um grande sentim ento de
culpa, que lhes vem de impulsos interiores e de flutuantes vozes contem­
porâneas. Ai seu apelo à história revela a insegurança de confiar mesmo
nos sinais de afirmação dos outros. Serão sinceros ? Perm anecerão no mes­
mo ponto de vista quando souberem de todos os fatos ? Em ambos os casos,
a história é vista como um a espécie de justiça transcendental mora-
lizadora.
No terceiro tipo, que começa a aparecer na sociedade brasileira das
grandes concentrações urbanas, não h á atitude ativa em face da história,
nem se procura configurá-la de acordo com sua dinâm ica im ánente. Ele
tem um a atitude passiva: é um consumidor, não um p rodutor de história,
e sua tarefa é o presente, sem futuro, aprovado pelos seus contem porâ­
neos. Sabe que suas opiniões variam rapidam ente e im agina que as dos
outros tam bém possam m udar. Não apela para a história como um a
opinião que possa vir a ser contrária à dos seus contem porâneos; prefe­
rentem ente se associa a estes, procurando olhar-se a si mesmo e às suas
ações, através dos olhos de um futuro m uito próxim o e da geração mais
jovem. N ão fabrica a história, mas a consome e, como nas historietas
de quadrinhos, o principal é vencer, é ter sucesso, é apostar no cavalo
q ue vai ganhar, porque o julgam ento histórico não tem significação m o­
ral direta. A discussão do veredito da história não é mais confinada aos
diários dos grandes homens, mas estende-se a toda a massa média. Atores

(27) Pedro D antas (P rudente de M orais N>eto), artigo in Diário de Notícias, 26 de novem­
bro de 1955.
(28) Joel da Silveira, artigo in Diário de Notícias, 24 de novembro de 1955.

38
e públicos perguntam-se a si mesmos: como apareceremos aos outros ho­
mens atuais ? Éles aprovarão nossos atos ? Irão declarar que estávamos
no caminho certo ? Daí o sentim ento de ansiedade, a sanção m oral não
histórica, transcendental, mas contem porânea e im ediatista, e as moções
oportunistas de solidariedade que vencem a ansiedade em relação à situ­
ação do momento.
Esse novo tipo deseja ardentem ente ser julgado; teme o julgam ento
alheio, mas, ao mesmo tempo, dele necessita como um artigo de consumo
indispensável ao seu m odo de vida, em bora não lhe atribua significação
m oral direta (29). Como o m edalhão de M achado de Assis, figura que só
tem nascim ento na sociedade arcaica, dirigida pela tradição, quer o juízo
im ediato dos contemporâneos, com a diferença que aquele sabia o logro
que estava querendo passar na história. Procura fabricar a “boa von­
tade” ou a “opinião pública dos jornais” como um a projeção m uito vaga
de um possível registo que possa influir num possível julgam ento. Para
ele, é obsoleta a prática do apelo escatológico ao futuro e as próprias auto-
incriminações das entrevistas e do falatório excessivo revelam a instabi­
lidade psíquica e não visam a fazê-lo en trar na história. Considera que o
julgam ento m oral saiu de moda e que a invocação a um a fu tu ra consci­
ência da hum anidade é ligeiram ente ridícula, senão inteiram ente im pra­
ticável. Nem Deus nem os homens a ouvirão. Só a conversa com os vivos
parece real; a conversa com o futuro é im aginária (30).
O político moralizador, que pertence à classe média, diante de sua
im potência de fabricar ele próprio a história, como um revolucionário
criador da Revolução Americana, Francesa ou Russa, ou ainda como cal­
vinista crente na predestinação, se indigna e se envergonha, e apela para
o julgam ento final da história.
Seria um estudo com plem entar m uito valioso, pelo seu conteúdo his­
tórico e psicossocial e hoje m uito focalizado nos e . u . a ., o de tentar
com preender os evidentes sinais de um generalizado conformismo popu­
lar e de elites. Q uatro ou mais pessoas decidem um caminho e a nação
e o povo se conformam. Sabemos todos que o inconformismo tem sido
o grande propulsor do progresso social e sabemos tam bém que o confor­
mismo é um dos baluartes d a estática social. O próprio caráter social se
aquilata pelas formas com que se asseguram os padrões de conform idade da
m aioria. No jogo m útuo de forças de conform idade e inconformismo
realiza-se o progresso social.
No Brasil verifica-se ultim am ente, ao lado daqueles aspectos negativos
da personalidade básica brasileira (sentimentalismo, horror às soluções
trágicas), um alarm ante e unânim e espírito de conformismo, num a socie­
dade com um contingente tão forte de jovens (em 1.000 pessoas economica­
mente ativas existem 779 pessoas economicamente passivas, contando de 0
a 14 anos, ou melhor, mais de 50% de jovens em idade escolar) (30a).
(29) O A. seguiu e resum iu David Riesm an, ob. cit. na nota 14, 267 e seguintes.
^30) Ib id ., 260.
(30a) Calcula-se em 42% a população em idade pré-produtiva, com menos de 15 anos. Sobre
o conformismo e inconformismo, ver nossa Conciliação e reforma no Brasil, R io de Janeiro,
Editora Civilização Brasileira, 1965.

39
Estes aspectos psicossociais, morais e culturais da sociedade contem porânea,
com seus componentes residuais do passado, nos m ostram as vantagens do
estudo da história presente.
A m elhor lição sobre as vantagens da história contem porânea, de
que tanto necessitamos, vem do grande historiador A rnold Toynbee, ao
declarar que não lhe teria sido possível escrever o seu A Study of His-
tory (31) sem a experiência do Royal Institute of International Affairs,
onde com punha o Survey of International Affairs. Ele acredita que só pôde
fazer um porque fazia o outro. U m in q u érito sobre os negócios correntes
do m undo só poderia ser feito sobre os fundam entos de um a história do
m undo, e um estudo da história do m undo não teria vida se deixasse de
lado a história da época do escritor, porque os contem porâneos são as
únicas pessoas que podemos capturar vivas (32).
Em qu alq u er hipótese, vê-se claram ente que para a história não ser
estranha à vida deve ocupar-se das consideráveis modificações da vida es­
p iritu al, social e política que experim enta o m undo hodierno. A p rin ­
cipal questão consiste em como realizar esta tarefa de m aneira realm ente
fértil, sem fazer da história m atéria publicitária diária e do historiador
um escritor tendencioso, um publicitário sem categoria científica. A his­
tória, mesmo a contem porânea, é história compreensiva, que se esforça
p or um a justiça mais forte e mais objetiva, dizia G erhard R itter no x
Congresso Internacional de História.
T u d o com preender não significa tudo louvar. H á um a forma de his­
toriografia que aprova tudo que aconteceu e teve conseqüência, sem re­
p arar no seu significado moral. Esta espécie m uito difundida de “positi­
vismo”, que torna o historiador um simples “claqueur” dos fatos e acon­
tecimentos, não pode ser considerada história de alto estilo e m uito me­
nos científica. A verdadeira história é um a ciência hum ana. N ão teme
verdades incômodas, porque serve à Verdade e não aos sucessos políticos
do dia.
O exemplo do Royal Institute of In tern atio n al Affairs serve para to­
dos como um padrão de alta categoria científica e rigorosa objetividade.
Não se trata, evidentemente, de um a história definitiva, mas de alguma
coisa que é tentada como subsídio para um a interpretação, de preferência
à simples enum eração factual.
J á no Brasil, infelizmente, é grande a m aioria entre os que, exercendo
a história, consideram-na im praticável. Já vimos a razão principal no
excessivo am or ao passado colonial e vemos no citado estudo de Poppino
que, só decorrido um qu arto de século do acontecim ento histórico, este
recebe, no Brasil, tratam ento histórico.
O estudo da historiografia contem porânea é, assim, um a das p rin ­
cipais tarefas da historiografia brasileira. Não podemos continuar a des­
conhecê-la, a evitá-la, deixando que só os historiadores norte-americanos
dela tratem nos seus encontros anuais ou os soviéticos, nos Congressos
(31) Londres, 1934-1961, 12 vols.
(32) Arnold Toynbee, “A Study of History. W hat I Am T ry in g to D o”, International
A ffairs, xxxi, jan. 1955, n.° 1, 1-4.

40
Internacionais, como tem acontecido ultim am ente. É necessário cuidar,
para usar da expressão de Fidelino de Figueiredo, das zonas vivas, não
de preferência, mas ao lado dos aspectos extintos (38). Um povo em fase
de transição para o seu completo desenvolvimento econômico não pode
continuar a dissipar toda a sua inteligência histórica na rememoração
colonial, sem cuidar dos temas que nos auxiliam a enfrentar os problemas
atuais. Há, naturalm ente, diz J. R. M. B u tle r(34), grandes e óbvias obje-
ções à história contem porânea, como há grandes e óbvias atrações, e o
m undo seria im ensuravelmente mais pobre se a história contem porânea
nunca tivesse sido escrita. Não é necessário relem brar os exemplos de
Tucídides, Políbio e T ácito, em que os segredos não puderam ser des­
vendados em livros e documentos, mas no coração dos homens que muitas
vezes, na m aioria das vezes, querem conservar intactas as razões de suas
atividades.
A controvérsia contem porânea, vil ou nobre, apaixonada ou serena,
não deve im pedir que se tragam à luz depoim entos indispensáveis. Diz
C hurchill no seu livro sobre a Segunda G uerra M undial, que ele aderiu
à sua regra de nunca criticar qualquer m edida de guerra ou política
depois dos acontecimentos, a menos que ele a tenha exprim ido pública
ou formalm ente. Foi-lhe desagradável registrar os desacordos com muitos
hom ens que ele adm ira ou respeita; mas seria errado não e x tra ir as
lições do passado, diante do futuro. Não esperava tam bém que todos
concordassem com seu ponto de vista e ainda menos esperava escrever um
livro popular. Deu seu testem unho tendo o máximo cuidado em verificar
os fatos; mas é tão grande a revelação dos novos documentos que é pos­
sível se chegue a um novo aspecto das conclusões expostas no seu livro.
Por isso é im portante confiar nos papéis contemporâneos autênticos e nas
opiniões emitidas enquanto tudo era ainda obscuro (35).
Churchill, historiador e estadista, resume na introdução ao prim eiro
volume de seu livro, a idéia da história contemporânea. O desacordo não
im pede a exposição, já que a própria história mais antiga não consegue
m anter um a total concordância de interpretação. O que se deve desejar
é que os depoim entos dos que participaram dos acontecimentos sejam re­
velados e os arquivos das personalidades sejam, pelo menos, resguardados
e preservados para consulta futura.
A massa de docum entação diplom ática publicada pelas grandes n a­
ções européias, sobre a Prim eira e a Segunda Guerras M undiais, mostram
como é possível cuidar de selecionar e preservar os m ateriais da história
presente, não só político-m ilitar, mas geral.
É certo que a história contem porânea oferece m uitas dificuldades
nem sempre superáveis. E ntre estas podemos destacar: 1) O lado derro­
tado sempre ou quase sempre reluta em contar a história que precedeu o
desastre; 2) E nquanto as fontes do passado são acessíveis, nos grandes cen­
tros do m undo culto, praticam ente a todo estudioso sério, as fontes da
(33) “ H istoriografia portuguesa do século xx ” , R H , n.° 20, out.-dez. 1954, 348.
(34) T h e Present N eed fo r H istory, Cambridge, 1948, 19.
(35) T h e Second W orld War, vol. i. T h e Gathering Storm , Londres, Cassei Sc Co.,
1948, ix-x.

41
história contem porânea tendem a ser reveladas somente aos favorecidos.
O Estado e os M inistros tentam influir nos editores ou estudiosos destes
papéis. Estes não são nem persona gratissima nem non grata, mas sim­
plesmente estudiosos interessados na apuração da verdade. 3) As perso­
nalidades envolvidas nos acontecimentos deste ou daquele lado não que­
rem prestar um serviço ao esclarecimento da verdade histórica, mas aos
seus cortesãos ou às suas paixões.
A história conquista dia a dia novos territórios e mais ainda se articula
com novos problem as. De todos, o mais im portante, sem dúvida, é o da
história econômica e seus novos ramos, história dos empresários, e dos ne­
gócios, da qual falamos nos gêneros históricos.
A história social não constitui novidade: teve, desde 1920, grandes
adeptos e produziu um a bibliografia realm ente valiosa. O Instituto de
H istória Social de Am sterdã (36), o novo Instituto de H istória Social de
Paris e a Hoover L ibrary on W ar, R evolution and Peace, da Universi­
dade de Stanford, dedicam-se especialmente à história dos movimentos
sociais, objeto de um a dissertação no x Congresso Internacional de Ci­
ências Históricas, escrita pelo Prof. Carlos Ram a, de M ontevidéu.
As histórias demográficas, imigratórias, urbana e ru ral crescem nos
países mais desenvolvidos, mas merecem aqui pouca ou nenhum a conside­
ração. A história intelectual limita-se à literatura e m uito pouco, por um
ou outro dedicado, à das idéias. Nossa história continua m uito narrativa,
cronológica e biográfica. N um povo essencialmente sentim ental e em que
predom inam as soluções personalistas, não é de surpreender que as bio­
grafias representem percentagem tão grande na produção histórica na­
cional.
Tendências novas que não atraíram ainda a inteligência histórica b ra­
sileira são os estudos sobre a formação da consciência rural e burguesa no
Brasil, esta últim a criada antes do aparecim ento de uma classe burguesa,
e a rural, dom inante em toda a história brasileira, e ainda hoje consti­
tuindo 54,92% da nossa população. O papel da classe m édia urbana e
das classes rurais das zonas pioneiras, tão decisivas na evolução histórica
destes últimos trin ta anos, não foi ainda estudado.
B ernard Groethuysen escreveu aquele magnífico ensaio sobre a for­
mação da consciência burguesa na França durante o século xvm (37), ba­
seado especialmente nos Sermões. As próprias fontes literárias, tão indis­
pensáveis pela sua força impressionista, para a descrição espiritual do am­
biente histórico, não foram ainda utilizadas.
Os estudos sóbre a opinião pública e eleitoral e sobre a natureza da
ação política não mereceram ainda, entre nós, nenhum cuidado. A his­
tória das relações internacionais não tem interessado aos historiadores e
m uito menos o grande tema, hoje tão exam inado nos centros altam ente
desenvolvidos da pesquisa histórica, das características nacionais de cada
(36) Vide José H onório Rodrigues, A s fontes para a história do Brasil na Europa, Rio
de Janeiro, 1950.
(37) La formación de la conciencia burguesa en Francia durante el siglo xvm , México.
1943 (l.a ed., 1927).

42
povo. Estes dois últimos são de extrem a im portância e m uito poderiam
contribuir para o esclarecimento de atitudes e tensões atuais.
Toynbee notava que na elaboração da paz, em 1919-1921, os Estados
de poder médio tinham sido reintroduzidos no m apa político pela recons­
tituição da Polônia e pela aspiração do Brasil de ter ultrapassado a esta­
tu ra de pequeno Estado, mesmo que não pudesse ser julgado como já ten­
do atingido as dimensões de um G rande Poder. A Europa, acrescentava,
ver-se-ia em breve cercada p o r um a dúzia de gigantes do Poder, quando
o Canadá, a A rgentina, a A ustrália tivessem povoado seus espaços vazios
e quando a Rússia, a India, a C hina e o Brasil tivessem adquirido o
dom da eficiência. Que fazemos nós, historiadores, para esclarecer as ra­
zões do nosso caminho nacional e internacional em busca do poder e do
respeito internacionais ? Que fazemos nós, historiadores, para reconhecer
e esclarecer os climas especiais de opinião, as características de certas épocas
e lugares, o caráter de nossa cultura, a personalidade básica de nosso povo,
seus traços especificamente nacionais ? (38).
Que fazemos para esclarecer, por exemplo, os aspectos capitais da
vida brasileira atual ? Jacques Lam bert dizia que o Brasil era como uma
m etrópole com suas próprias colônias, constituídas pelo N orte e o N or­
deste, as quais apresentam tais desequilíbrios econômicos que ameaçam
ou podem ameaçar a unidade nacional. Os economistas da Comissão
M ista Brasil-Estados Unidos acentuam as enormes disparidades das taxas
de crescimento e da distribuição regional da renda entre o centro econô­
mico brasileiro e a zona N orte e Nordeste, que possui 40% da população
nacional. O que se tem feito para esclarecer não as razões deste compor­
tam ento diferente — o que seria lógico num a nação tão extrem am ente
variada no seu localismo e provincialism o — mas especialmente o porquê
deste profundo desequilíbrio econômico e cultural, que prejudica a inte­
gração nacional ?
T odos estes últim os problem as relacionam a economia com a histo­
riografia e é de esperar-se que tal como nos e . u . a . o fenômeno do
crescimento econômico sugira ou im pulsione um grande desenvolvimento
historiográfico. Haverá, naturalm ente, diferenças de opiniões sóbre os ca­
m inhos da reform a e os instrum entos particulares a serem empregados
para promovê-la, mas a integração nacional será a suma política e seus
enormes efeitos na história decidirão os novos rum os da historiografia,
que deverá ser mais nacional que estadual ou local.
Mas não é só na tem ática que surgem as questões fundam entais da
m oderna historiografia. Q ue im portaria conhecer toda esta am pliação do
campo da investigação, se não considerássemos alguns problem as funda­
m entais do pensam ento e da m etódica históricos? N a verdade, todos
sabemos que a controvérsia filosófica pouco tem refletido sobre a pesquisa
ou o escrito histórico. Nem gerou, tam pouco, novos métodos ou m odi­
(38) Vide José H onorio Rodrigues, Aspirações nacionais. Interpretação histórico-politica.
São Paulo, Fulgor, l.a ed. 1963, 2.a e 3.a ed. 1965. A bibliografia norte-am ericana é imensa.
A. Sidorov, na obra citada, refere-se várias vezes aos “ traços especificamene nacionais” dos
diferentes países (81) e da antiga cultura russa (101). Assim tam bém os atuais historiadores
poloneses. Cf. B. Lésnodorski, “ Les scienoes historiques en Pologne au cours des années
1945-1955” , Relazioni, vol. vi, obra citada na nota 3, 463 e 487.

43
ficou grandem ente os já usados. Já notava H enri Hauser, no estudo ci­
tado, como um dos nossos defeitos a falta de preparo metodológico e o
conseqüente autodidatism o. A inda assim é indispensável relem brar e re­
petir sempre e sempre a ladainha de que não podemos fazer crescer nossa
historiografia, se não cuidarmos de introduzir nos departam entos de his­
tória as disciplinas de M etodologia e Historiografia.
Estes são, na realidade, os pecados capitais da historiografia brasileira.
Pecados venais, que há pouco o Prof. Charles Boxer considerava como mor­
tais na historiografia portuguesa (39), podem ser culpados tam bém por
algumas deficiências de nossa historiografia. E entre estes: a prolixidade,
a atração pelos discursos e conferências, a falta de consulta das obras es­
trangeiras, a falta de bons índices. É curiosa a coincidência destas obser­
vações do Prof. Boxer sobre os defeitos da historiografia portuguesa com
as do Prof. H auser sobre a historiografia brasileira, a que já nos referi­
mos: os métodos oratórios, a rotina e inércia de certas instituições, o ex­
cesso de biografia e os elogios acadêmicos, as comemorações e homenagens
dos nossos grandes mortos em tom discursivo.
A situação atual da historiografia no Brasil oferece ainda vários ou­
tros aspectos das suas fraquezas e forças. Um estado de anim ação e os
resultados conseguidos ultim am ente fazem-nos acreditar que brevemente
poderemos superar algumas das deficiências que perturbam o seu livre
caminho. A liberação do currículo acadêmico, tão antiquado com suas
cinco cadeiras, sem as disciplinas preferenciais ou optativas, o excesso de
ênfase dada a certos períodos e a deficiência de estudo de áreas mais
im portantes atualm ente, como os e . u . a . , a Rússia e o O riente, o esta­
belecimento de padrões profissionais, o reconhecimento da profissão e o
am paro do Estado podem prom over o crescimento e aperfeiçoam ento da
historiografia brasileira.
Jacob B urckhardt disse, certa vez, que não queria construir para hoje
ou para am anhã, mas para todo o sempre. Ao recordar suas palavras de­
clarou o grande mestre alemão de hoje, o Prof. R itter, no seu discurso
de encerram ento do x Congresso Internacional de História, aos 11 de se­
tem bro de 1955, que só pode com preender quem trabalha tam bém com o
coração. Quem realm ente conhecer a história estará protegido do entu­
siasmo barato, mas não poderá encarar o jogo histórico sem profunda
emoção, pelo menos quando se trata do futuro de sua própria terra e
de seu próprio povo.

(39) “Some Notes on Portuguese Historiographv, 1930-1950” , separata de History, fevereiro


e junho 1954, 10.
C a p ít u l o 2

Desenvolvimento da idéia de historia

A PALAVRA H IS T Ó R IA

p a la v ra h i s t o r i a origina-se do grego (istoria), de onde

A passou para a m aioria dos idiomas modernos, com exce­


ção das línguas germânicas (Geschichte, em alemão, Geschie den
holandês). A origem exata da palavra grega é incerta, mas tal como acon­
tece com a alemã, que é, às vezes, considerada objetivam ente como o que
sucede ou o que sucedeu, e outras vezes subjetivam ente, como o conhe­
cimento do sucedido, ela tem duplo sentido. Exprim iria, assim, portanto,
não só o sucesso como o inquérito ou investigação sobre o sucesso.
P ara tornar mais clara a distinção entre os sentidos objetivo e subjeti­
vo da palavra história, basta cham ar a atenção, por exemplo, para o fato
de que o nosso conhecim ento da era prim itiva dos russos, húngaros, sér-
vios, croatas e búlgaros seria um a página em branco se os escritores do
Im pério R om ano do O cidente não tivessem tido um interesse tão vivo
pelos seus vizinhos. Ora, não deixou de haver sucessos históricos; o que
teria deixado de haver era o conhecim ento histórico.
É preciso frisar, porém, que se ambas as palavras, tanto a grega, como
a alemã, têm dupla significação, não sofreram, entretanto, a mesma evo­
lução. No grego, istoria significava, a princípio, o investigador, o infor­
m ante. Partiu-se da qualificação subjetiva para depois exprim ir o objeto
da investigação ou suceder; portanto, o sentido objetivo. No alemão,
Geschichte veio de geschehen, suceder, e passou da significação objetiva
do sucedido para a subjetiva da narração ou conhecim ento do sucedido.
Alguns acrescentam ainda a essas duas acepções — o que sucedeu e a
compreensão literária do sucedido — um a mais m oderna, de formação
m uito mais recente, o conhecim ento da história ou ciência histórica. A
m elhor m aneira, porém, de se conhecer a exata significação da palavra
está no estudo da evolução da idéia de história.

45
DESEN V O LV IM EN TO DA IDÉIA DE H IS T Ó R IA (i)

Costuma-se distinguir no desenvolvimento da idéia de história três


modos de exposição: o narrativo, o pragmático, o genético. Esta a divisão
apresentada por Bernheim e seguida por Bauer. Ela se origina de Leibniz,
que reconhecia esta tríplice apresentação da historiografia. “T ria sunt
quae expetim us in H istoria, prim um voluptatem noscendi res singulares,
deinde u tilia im prim is vitae praecepta, at denique origines praesentium
a praeteritis, repetitas, cum om nia optim e ex causis noscantur”(2).
H uizinga considera essa classificação ilógica, fonte de erros e p rati­
camente inoperante. Esses três aspectos não se sucedem no tem po nem se
superam uns aos outros qu an to ao valor (3).
Sem elhante a esta classificação é a que apresenta Hegel de um a his­
tória im ediata, reflexiva e filosófica(4). A prim eira é especialmente repre­
sentada por H eródoto e Tucídides, que viveram no espírito dos aconteci­
mentos por eles descritos. R egistraram os sucessos da sua atualidade ime­
diata. O principal caráter da segunda m aneira consiste em transcender o
presente. Neste gênero convém distinguir diferentes espécies: prim eiro,
a história geral, que se relaciona intim am ente com o gênero anterior, quan­
do se propõe expor o conjunto total da história de um país. Hegel lem­
bra, como exemplos, T ito Livio e Diodoro de Sicilia. A segunda espécie
da história reflexiva é a pragm ática. Os historiadores têm um propósito
m oral: procuram extrair da história lições práticas. As reflexões morais
são, então, os fins essenciais da história.
Hegel criticou com extrem a severidade o pragmatism o histórico, di­
zendo que as abstrações morais dos historiadores de nada servem e que a
experiência e a história nos ensinam que nenhum povo ou governo apren­
deu q ualquer lição da história ou atuou segundo doutrinas dela extraídas.
A negação do pragm atism o estava realm ente na negação da reversibilidade

(1 ) Este capítulo é um brevíssimo resumo sem pretensões e inteiram ente baseado nas me­
lhores historiografías. Scrvimo-nos especialmente das seguintes obras: Ed. Fueter, Histoire
de V historio graphie moderne. T ra d u it de 1’Allem and p a r Émile Jeanm aire, Paris, Félix Alean,
1914; G. P. Gooch, Historia e historiadores en el siglo xix. Versión española de Ernestina de
C ham pourein y Ram ón Iglesia, México, Fondo de C ultura Económica, 1942; Histoire et his-
toriens depuis cinquante ans. M éthodes, organisations et résultats dn travail historique de
1876 à 1926, Paris, Félix Alean, 1927; Louis H alphcn, L ’histoire en France depuis cent ans,
Paris, Arm and Colin, 1914; Picrre M orcan, U histoire en France au xrxc siécle, París, Les
Belles Lettres, s. d.; Jam es T . Shotwell, T h e H istory of H istory, Nova York, Colum bia University
Press, 1939; B ernadotte E. Schmitt, Some Historians of M odern Europe, Chicago, T h e U ni­
versity of Chicago Press, 1942; Jam es W estfall T hom pson, A History of Historical IVriling,
Nova York, T h e M acmillan Co., 1942, 2 vols.; B. Sánchez Alonso, Historia de la historiografia
española, M adri, Consejo Superior de Investigaciones, 1.° vol. 1947, 2.a ed., 2.° 1944, 3.° 1950; a
prim eira edição é de M adri, 1944; B enedetto Croce, Storia della sloriografia italiana nel secolo
decimonono, Bari, Laterza & Figli, 1947, 2 vols.; M. L. VV. Laistner, The Greater R om án H isto­
rians, Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1947; Georges Lefébure, Notions
d ’historiographie m oderne, Paris, Centre de D ocum entaron Universítaire, curso dado na Sor­
bonne e mimeografado, 1946.
(2) G. W. Leibniz, “ Accessiones historicae” , R evue de Synthése H istorique, t. 23, 1911, 266.
(3 ) J. H uizinga, El concepto de la historia y otros ensayos, México, Fondo de Cultura
Económica, 1946, 29.
(4) F. Hegel, Lecciones sobre la filosofia de la historia universal, Buenos Aires, Revista
de Occidente A rgentina, 1946, 151-160.

46
da historia. “Não h á um caso que seja com pletam ente igual a outro”,
afirmava Hegel.
Convém lem brar aqui que se o pragmatism o prevaleceu em todo o
século xvin, na época de Hegel já estava com pletam ente destruído e, mais
do que isto, para negá-lo ele não precisava renegar a história como mais
tarde veio tam bém a fazer Nietzsche. Era um exagero, talvez, pelos erros
do pragmatism o (5).
O terceiro modo da historia reflexiva é o crítico, que consiste na his­
toria da historia, no juízo sobre as narrações e na investigação sobre sua
verdade e crédito. Já aqui estamos realm ente em face do que Bernheim
chama de historia genética. A últim a esfera da historia reflexiva é a es­
pecial, parcial ou particular. É, por exemplo, a historia da arte, do di­
reito, da religião, da ciência. A historia filosófica é universal e procura
a alma que dirige os acontecimentos.

H istoria narrativa

A historia puram ente narrativa, de tradição escrita m ais antiga, bus-


cava registrar fatos ou acontecim entos que pareciam extraordinários. Exis­
tem pequenos fragmentos referentes aos fenicios, caldeus, egípcios, assí­
rios, babilônios, hindus e persas descobertos e coligidos no século xix
por estudiosos de arqueologia. Até então considerava-se o Velho T esta­
m ento como a mais antiga história. Para a história do Egito, Babilônia,
Assíria, Pérsia e Fenicia, só possuímos, afora as pequenas referências do
Velho Testam ento, os fragmentos que foram reproduzidos pelos escrito­
res gregos. N aturalm ente, toda essa história é ligeira e lendária, como
o é também, em parte, a história inicial judaica, que se encontra regis­
trada na Bíblia, especialmente no Pentateuco, ou seja nos cinco livros de
Moisés, cujo valor histórico tem sido estudado por alguns historiadores.
Neles se assinalam as migrações, glórias e sofrimentos do povo de Israel.
N a Grécia, antes de H eródoto (480-425 a. C.), os escritores que registra­
vam fatos históricos, entrelaçados em grande parte com legendas e mitos,
são chamados logógrafos ou prosadores, em oposição aos poetas.
É com Heródoto, apelidado o Pai da H istória por Cícero, que se
caracteriza nitidam ente o período da história narrativa. Foi ele de fato,
o prim eiro a fazer do passado objeto de pesquisa e de verificação, m ostran­
do um grande avanço sobre os logógrafos. É nele que se nota, pela pri­
m eira vez, a persistência ao princípio de fidelidade que começa a dignifi­
car a história grega. Em bora seu m étodo já revele caráter crítico, seu cri-

(5) Segundo W ilhelm Dilthey, só a história nos diz o que o homem é, e é inútil, como
fazem alguns, desprender-se de todo o passado para começar de novo a vida sem preconceito
algum. N ão è possível desvencilhar-se do que foi; os deuses do passado se convertem em
fantasmas. A m elodia de nossa vida traz o acom panham ento do passado. O homem se liberta
da agonia do m om ento e da fugacidade de toda a alegria entregando-se aos grandes poderes
que a história engendra. Cf. Introducción a las ciencias del espíritu, xxix.

47
ticismo está lim itado pelas condições da idade, que era prim itiva nas
suas crenças religiosas e restrita no seu conhecim ento geral. H eródoto é
o m aior exemplo da história puram ente narrativa.

H istória pragmática

A segunda fase da história é a cham ada pragm ática. O m étodo p u ­


ram ente narrativo é abandonado e já se faz a investigação daquelas forças
que operam no suceder histórico. T ucídides (460-400 a. C.), justam ente
considerado o m aior historiador da A ntiguidade, é o iniciador do novo
período. Sua Guerra do Peloponeso é um trabalho m onum ental, notá­
vel pelo estilo condensado e direto, pela fidelidade do m étodo e pela pes­
quisa dos motivos que o autor já observa entre os acontecimentos, assim
como pelo raciocínio severo e im parcial das questões políticas. Ao iniciá-
lo, declara que talvez o livro apresente poucos atrativos para os que o lêem,
pelo fato de nada conter de lendário; mas que lhe basta seja ele reconhe­
cido como ú til por aqueles que desejam conseguir um claro conhecimento
dos sucessos passados e, graças a ele, com preender bem aqueles processos
que, segundo o curso das coisas hum anas, possam repetir-se no futuro do
mesmo modo ou de modo semelhante. Vê-se aqui expressamente afirma­
do o conceito da reversibilidade dos fatos históricos.
No capítulo 22 de sua grande obra, Tucídides traça o plano a que
obedeceu e que alguns consideram como a prim eira tentativa de trata­
m ento científico da história. No final do plano encontra-se a famosa frase
do historiador grego de que ele não escrevia um ensaio para ser lido no
momento, mas um a obra de efeito sólido e duradouro. Não se pode dizer,
contudo, que ele já seja um historiador científico. Apesar de sua obra de
gênio ser universal e de todos os tempos, traz na sua elaboração as m ar­
cas do lugar e do tempo.
T ucídides foi o prim eiro a ressaltar a estratégia da guerra como um
fenômeno da história e a valorizar os aspetos sociais e econômicos. E é,
sem dúvida, o exemplo mais típico da história pragmática, que centraliza
sua atenção sobre os motivos, os pensamentos e os fins dos acontecimen­
tos, pretendendo tirar do conhecimento do passado ensinam entos práticos
para ocasiões políticas semelhantes.
A fase da história pragm ática ou didática ocupa a m aior parte da his­
tória da história e estende-se até meados do século xix. Começa, como
dissemos, com Tucídides, relem bra Políbio e os maiores historiadores ro­
manos, como T ito Livio e T ácito. Para todos eles o caráter pragmático
da história é decisivo. Ela devia ensinar e edificar e não apenas contar
ou n arrar a verdade.
T ito Lívio (59 a.C. — 17 a.D.) foi o historiador nacional de Roma,
o único que, com sucesso, escreveu a longa e intrincada história da guerra
e da política romanas, desde a formação da cidade até o estabelecimento
do Im pério. Sua obra é até hoje considerada um m onum ento.

48
Mas o m aior dos historiadores rom anos é T ácito (55-117), comparável
a Tucídides na historiografia grega. E pode-se dizer, com Shotwell (6),
que T ito Lívio é para T ácito o que H eródoto é para Tucídides. Seu
estilo é o resultado da m aturidade do espírito rom ano e o seu apelo,
como o de Tucídides, dirige-se à inteligência do leitor. Como seus prede-
cessores, T ácito desejava pesquisar a verdade que fosse ú til ao m undo.
Seu m étodo de exposição é puram ente o do orador; não om ite a oportu­
nidade de ressaltar os acontecimentos, de filiar as causas, de in terp retar
os movimentos e dp utilizar-se do discurso. Os Anais registram a história
dos im peradores da Casa Juliana, desde T ib ério até Nero. Pelo poder de
análise e p lano literário, T ácito é o sím bolo do am adurecim ento rom ano.
Mas é preciso lê-lo com infinito cuidado, devido à sua parcialidade (7).
É fácil observar que todos esses grandes historiadores da A ntiguida­
de estavam sempre interessados no que aconteceu em razão do que estava
acontecendo. A história, então, é sempre história da atualidade. P or isso
é de.surpreender que escritores m odernos digam que a A ntiguidade clás­
sica parece ter guardado o segredo de descrever os fatos como se eles se
tivessem passado sob os nossos olhos, com as personagens movendo-se, fa­
lando e vivendo ao nosso lado. Esta arte de descrever, que alguns consi­
deram qualidade essencial do historiador clássico, resultava apenas de
que, em geral, ele escrevia os fatos que se haviam passado ou que se pas­
savam sob os seus olhos. Se a história atualm ente é a descrição do pas­
sado, ela nasceu como narração do presente. Ao invés de esperar a m orte
do acontecimento p ara descrevê-lo e analisá-lo, a história clássica descrevia
os acontecimentos que nasciam e se desenrolavam à sua vista.
Com a vitória do cristianismo, a história continua pragm ática. Ape­
nas um novo elemento se juntava à concepção da idéia histórica. Depois
das tentativas de Santo Eusébio (ca. 260-340), ao escrever a História ecle­
siástica, segundo o plano idealizado por Santo Agostinho (354-430) na
Cidade de Deus, e da obra de Paulo Orósio, inicia-se a idéia da história
universal. A universalização da história é um a idéia cristã. Mas a verdade
é que durante toda essa fase de dom ínio incontestado e incontestável da
Igreja a história não progride: limita-se apenas a preservar os antigos tex­
tos clássicos gregos e latinos.
A época medieval é um a fase de transmissão dos textos clássicos para
a Renascença. Do século vil ao xiv, os escritores clássicos sobrevivem par­
cialmente porque form am a base necessária da educação monástica e par­
cialmente porque uns poucos homens excepcionais defendem a preserva­
ção das cópias clássicas. De fato, o entusiasmo pelos clássicos encontra sem­
pre, então, um a reação zelosa que visa resguardá-los do conhecim ento
geral. Entre as sete artes dos estudos escolásticos não estava incluída a
história.
Foi somente nos séculos ix e x que se teve m aior cuidado com cópias
mais exatas e seguras. O espírito de crítica, que foi o fruto do Renasci-
(6) James T . Shotwell, T h e History of H istory, Nova York, Colum bia University Press,
1939, I.® vol., 301.
(7) Sobre a parcialidade de T ácito, vide M. L. W . Laistner, T h e Greater R om án H isto­
riaras, Berkeley e Los Angeles, University of C alifornia Press, 1947, 123.

49
m ento italiano, vai estim ular um novo interesse pelos clássicos e perm itir
um verdadeiro florescimento da erudição. D urante toda a Idade M édia
o clamor pela autenticidade dos docum entos não dera nenhum resultado
e o im pulso para se chegar a um a certeza sobre a autenticidade ou não
dos documentos proveio dos ataques feitos a inúm eras forjicações que
tinham sido aceitas pela Igreja medieval.
Mas antes que o Renascim ento despontasse, em plena Idade M édia, o
“m aior cronista de todas as épocas e nações”, Fernão Lopes (1380-1460),
no cargo de ordenar “estórias”, recontava os feitos dos reis de Portugal,
convencido de que a história era a clara certidão da verdade(8).
É no século xvi, com João de Barros (1496 P-1570) e suas Décadas da
Asia (1552, 1553, 1563), que se atende àquele prim eiro apelo e se concre­
tiza a idéia cristã da universalização da história. G rande historiador não
só pelo estilo e pujança da língua, mas pelo m odelo que seguiu, T ito
Lívio. João de Barros revelou ao O cidente o m undo desconhecido do O ri­
ente, que seu povo pouco antes descobrira. Suas digressões sobre o co­
mércio, a geografia, as cidades e costumes orientais e sobre a religião de
M afoma universalizam a história até então só ocidental e ligam o Ocidente
ao O riente. Esta a contribuição de João de Barros que, esquecida pela
história da história, deve ser assinalada.
Outras manifestações desse novo espírito erudito são encontradas no
século xvii, com a edição, em 1643, das Acta sanctorum , feita pelo jesuíta
Jean Bolland (1596-1665). A rejeição p o r B olland da autenticidade dos
documentos merovíngios que comproyavam a propriedade de mosteiros
beneditinos prom oveu a formação da paleografía. Jean M abillon (1632-
1707) foi o fundador da diplom ática ou estudo da autenticidade dos di­
plomas, com o seu livro aparecido em 1681, De re diplomática libri VI.
J. J. Scaliger (1540-1609) um século antes, em 1583, havia fundado a cro­
nologia em base científica e Jean Bodin escrevera, já em 1566, o prim eiro
tratado metodológico da história. A bibliografia histórica iniciava-se com
a Bibliotheca hispana vetus e a Bibliotheca hispana nova de Nicolau
A ntônio (1617-1684). As principais ciências auxiliares da história esta-
vam assim fundadas no século xvn.
Duas grandes figuras desta época são G. W. Leibniz (1646-1716), que
in fluiu consideravelm ente n a história com suas idéias de continuidade e
do processo genético n a sociedade hum ana, e G iam battista Vico (1668-
1744) que, pela prim eira vez, im pugna a teoria do conhecim ento de Des­
cartes, no qual a história não era um ram o do saber. Vico mostrou que
o pensam ento histórico era construtivo e crítico e desenvolveu princípios
filosóficos implícitos no seu trabalho histórico, censurando a estreiteza do
credo filosófico dom inante (9).
N a Época das Luzes e do racionalismo, a história continuava com seu
caráter pragm atista e generalizador. A filosofia da história para V oltaire
(8) V. Aubrey F. G. Bell, Fernão Lopes, trad. de A. A. D ória, Lisboa, 2.a ed., 1943;
P. E. Russell, As fontes de Fernão Lopes, trad. de A. G. Rodrigues, Coim bra, s. d. Aubrey Bell
adota o juízo de R. Southey, de que Fernão Lopes foi m aior que Froissart e López de Ayala.
(9) R. G. Collingwood, T h e Idea of H istory, Oxford, Clarendon Press, 1946, 64 e 71.

50
• 1694-1778) nada mais é que a tentativa de extrair da historia as verdades
uicií. O hom em era considerado com suas razões, suas paixões, seus vícios
; suas virtudes como o mesmo, fundam entalm ente, e a concepção jus-na-
turalista que então im perou, inculcando a fé na estabilidade da natureza
hum ana, só podia originar um método histórico pragmático.
M ontesquieu (1689-1755), nas suas Considérations sur les causes de
li. p-andeur des R om ains et de leur décadence (1734), requer da historio­
grafia pragm ática que responda às perguntas sobre as causas do suceder,
¿juntando ao prático e m oralizador a crítica racionalista e preparando,
issim. caminho para a história científica. L ’esprit des lois (1748) é a
principal obra política do século xvm. Com ela inaugura-se um a nova
epoca no pensam ento político e histórico.
É nessa fase que devemos tam bém a Edw ard G ibbon (1737-94), o
m aior historiador de fala inglesa e um dos maiores do século x v i i i , a idéia
de continuidade da história. É verdade que o próprio conceito de evolu­
ção durante essa fase se distingue nítidam ente do que vai, mais tarde, ser
exposto pelos grandes filósofos alemães, que fundam entam o conceito mo­
derno da história. Mas todas essas contribuições iam tornar possível um a
:déia mais positiva da história.
Dois im portantes subsídios à noção da história datam dessa época.
O prim eiro é a secularização da história e o segundo é o conceito de pro-
fresso ou de evolução, que abre caminhos novos para a interpretação his­
tórica, acentuando o desenvolvimento da arte, dos costumes e da ciência.
Eisas duas idéias derivam do pensam ento de Voltaire, que liquidou a his­
toriografia teológica de B ossuet(10). A opinião corrente de que o século
rv m é um século especificamente a-histórico não é um a concepção histo­
ricam ente fundada ou fundam entável; é mais um lem a levantado pelo Ro-
tnantismo em sua luta contra a Filosofia das Luzes (n ).
P ara Cassirer, se chamarmos a K ant de Copérnico da filosofia, bem
*e pode cham ar a J. G. H erder (1744-1803) o C opérnico da história.
H erder substitui a historiografia pragm ática de sua época p o r um a nova
história que já não era “uma simples coleção de sucessos, mas um dram a
interior da hum anidade”. E ra preciso ver n o hom em não a soma dos seus
aros, mas a dinâm ica do seu sentir. Era preciso ver não sua fachada, mas
seu íntim o (12). H erder, para Cassirer, é o marco que separa duas épocas;
com seus livros Auch eine Philosophie der Geschichte zur B ildung der
M enschheit (1774) e Ideen zur Philosophie der Geschichte der M enschheit
1784-1791) começam o historicismo e o relativism o históricos (13).
A m pliando e refinando o campo da história, os racionalistas obtive­
ram enorme sucesso popular. O grande interesse pela literatu ra histórica
(10) W ilhelm Dilthey, E l m undo histórico, México, Fondo de C ultura Económica, 1944,
5se
(11) E rnst Cassirer, La filosofía de la ilustración, México, Fondo de C ultura Económica,
LM3, 191. M ostra Cassirer (194) que o prim eiro passo para se converter a história num mo-
àtjo metódico consistiria em emancipá-la da tutela da teologia.
(12) Ernst Cassirer, El problema del conocimiento, México e Buenos Aires, Fondo de
C slrnra Económica, 1948, 315.
(13) E rnst Cassirer, E l problema del conocimiento, 312-318, e Friedrich Meinecke, El
x^szoricismo y su génesis, México, Fondo de C ultura Económica, 1943, 305-378.

51
no século xvm explica-se talvez pelo fato de que ela não só era considerada
como um ram o da literatu ra como porque, para os pensadores da época,
continuava sendo a grande m estra d a vida. Chegou-se a dizer que a his­
tória era a filosofia ensinada por exemplos. Ao elevar-se a historiografia
pragm ática ao ponto de vista histórico universal do século xvm, conver­
te-se a história num a potência, pois é ela que, dando consciência à idéia
da solidariedade, de progresso e de cultura, a transform a num a força que
atu a em toda parte e penetra n o m undo culto. Ela se faz popular para
produzir este efeito e converte-se num a obra de a r te (14).
Sob o estím ulo do pensam ento desses precursores, inicia-se, n a Alema­
nha, no século xix, um grande m ovim ento de estudos históricos. A nova
história que ali começa a ser escrita já não se contenta mais com a sim­
ples erudição. Procura salientar a significação, a continuidade dos acon­
tecimentos, observar e entender o desenvolvim ento da história. Vai-se
in au g u rar a fase da história científica.

H istória genética ou científica

O início do século xix é a grande época em que a história conquista


seu lugar ju n to às ciências naturais. O cenário é a Alem anha, onde se
conservavam, a p a rtir da Reform a, como lem bra Dilthey, as forças do pas­
sado europeu, a cultura grega, a jurisprudência rom ana, o cristianismo
prim itivo (15).
O mais forte espírito crítico e a mais viva e inteligente consciência
histórica crescem nesse solo. E é por tudo isso que nasce nele a M onu­
m enta Germaniae H istorica, a mais autorizada coleção de fontes docu­
mentais. Dois grandes historiadores dom inam esta fase. O prim eiro é
B. G. N iebuhr (1776-1831) e o segundo Leopoldo R anke (1795-1885). A
ambos deve a ciência histórica um a contribuição de im portância decisiva.
Pode-se dizer que é então, com o ap u ro do exame crítico das fontes e
a grande e minuciosa colheita de documentos, que a história se torna,
definitivam ente, no campo de seu m étodo de trabalho e de investigação,
um a ciência de indiscutível aceitação.
N iebuhr foi o prim eiro, acentua Cassirer, a perceber a diferença fun­
dam ental que distingue as fontes do saber histórico e a observar que é
necessário ter-se sempre em vista tal diferença, se se quiser chegar a um a
com preensão realm ente segura do suceder histórico. Precisamente por
com preender bem o que era o m ito podia distingui-lo clara e segura­
m ente da realidade histórica. O novo ideal de conhecim ento histórico é
bem caracterizado por N iebuhr, ao com parar o historiador a um a pessoa
encerrada num quarto escuro e cujos olhos vão pouco a pouco se acos­
tu m ando à obscuridade, até poder distinguir nela os objetos que não via e
q u e reputava invisíveis. O trabalho do historiador é, assim, um trabalho
subterrâneo (16).
(14) W ilhelm Dilthey, E l m undo histórico, 405.
.(15i) W ilhelm D ilihey, E l m undo histórico, 116.
(1.6) E rnst Cassirer, El problema del conocimiento, 327-328.

52
A figura dom inante e mais alta personalidade do movimento alemão
de renascim ento dos estudos históricos é R anke, cuja compreensão do m un­
do histórico o torna o m aior historiador do m undo m oderno, tão clássico
quanto Tucídides. R anke afirm ou, na Europa, a suprem acia da erudição
alemã e jam ais alguém se aproxim ou tan to q u an to ele do verdadeiro his­
toriador. Os serviços que prestou à história podem ser assim resumidos:
dissociou o estudo do passado das paixões do presente e pretendeu n arrar
a história como n a realidade foi. Estabeleceu a necessidade de basear-se
a construção histórica em fontes estritam ente contemporâneas. Fundou
a ciência da prova, m ediante a análise das autoridades contem porâneas(17).
Lançou os fundam entos da crítica histórica no seu prim eiro livro, a
História dos povos románicos e teutónicos (1824), que lhe deu reputação
internacional.
No apêndice que acom panhou essa obra, sob o título “Para a crítica
dos mais novos historiadores” (18), R anke não só discutia com com pro­
vada erudição as fontes históricas como estabelecia princípios críticos so­
bre o valor adequado do exam e e interpretação das fontes. T odos os
estudos modernos sobre o valor das fontes contem porâneas têm como fun­
dam ento esse apêndice crítico.
Com isso R anke tam bém provava a in u tilid ad e das histórias gerais
como fontes principais e a necessidade de o historiador usar arquivos e
documentos. Esse pequeno apêndice representou um passo decisivo na
evolução da idéia de história. Ele tornou o método, a pesquisa e a investi­
gação das fontes um processo científico. Pelo menos, a história já podia
dizer com certo orgulho que n a investigação e valorização dos documentos
os seus processos críticos eram de tal m odo apurados que ela podia-se
afirm ar como um a ciência.
Foi graças a este m étodo que R anke pôde ser o historiador da R efor­
ma e dos Papas. O que lhe dá autoridade incondicional é o fato de n ão
se lim itar a form ular um program a, mas executá-lo. Cassirer considera-o
como um a das maiores figuras de todas as manisfestações do espírito e não
só da historiografia (19).
Os historiadores dos inícios do século xix com o m étodo filológico
da crítica das fontes e a am pla utilização das disciplinas auxiliares sa­
biam como fazer seu trabalho, segundo seus próprios meios, e não corriam
mais o risco de pretender assim ilar o m étodo histórico ao natural. As
seduções e imposições vindas pouco depois de A ugusto Comte e do evo­
lucionismo encontrariam a indiferença dos historiadores competentes, de
^osse de um m étodo seguro e apurado. Da Alem anha, o m étodo espalhou-
ie pela França, Inglaterra e Bélgica, como veremos a seguir. R anke e
X iebuhr enriqueceram a consciência histórica, elevando-a a um a etapa
mais alta do que as conhecidas até então.
(17) G. P. Gooch, Historia e historiadores en el siglo xix, México, Fondo de C ultura
Económica, 1942, 108-109.
'18) O estudo de R anke in titu la d o “ P ara a crítica dos m ais novos historiadores” , p u b li­
cado pela prim eira vez como apêndice à H istória dos povos románicos e teutónicos (1824),
a i u tam bém em separado, Z ur K ritik neurer Geschichtsschreiber, Leipzig e Berlim, 1824, e
yiK reimpresso em suas Obras Completas, Sam tliche W erke, 2-a ed., 1874, xxxm -xxxiv.
19) Ernst Cassirer, E l problem a del conocimiento, 333-334, 337, 338.

53
A influência do positivismo de Com te rom pia toda a evolução do
pensam ento histórico, reduzido à descoberta e colheita dos fatos, sobre os
quais o sociólogo, como um super-historiador, cientificam ente estabelecia
as relações de causa e efeito e form ulava as leis gerais do desenvolvimento
hum ano. O m undo histórico era esquematizado com idéias gerais empi-
ricam ente fundam entadas e só causal e geneticam ente podia ser compreen­
dido. Um a das leis fundam entais é a dos três estados.
N a Inglaterra, H. Thom as Buckle (1821-1862), e na França H ippolyte
A. T aine (1828-1892), foram os grandes entusiastas e aplicadores da dou­
trin a positivista ao m undo da história. T aine, cuja significação e im por­
tância sobrepassam a de Buckle, foi o ídolo da França radical e do m a­
terialismo, e um dos três grandes historiadores franceses, com R enan e
Fustel de Coulanges, a p a rtir de 1850(20). Suas principais idéias se en­
contram na introdução à Histoire de la littérature anglaise (1863;, onde
a história é considerada sim ilar não à geometria, mas à fisiología e geo­
logia. A grupa as ciências exatas em torno da m atem ática e as inexatas
em torno da história, ambas operando sobre quantidades mensuráveis ou
imensuráveis. Procura as leis históricas, a conexão geral dos grandes acon­
tecimentos, a causa das conexões, em resumo, as condições da transfor­
mação e do desenvolvimento hum ano. A história deve reduzir-se a uma
série de definições que se desenvolvem, a um problem a de mecânica, isto
é, ao jogo das três forças: a raça, o meio e o momento. A obra histórica
que construiu mostrou como ele violentou, com suas idéias teóricas pre­
concebidas, a própria história. Sua filosofia foi repudiada e sua erudição
criticada.
Nessa mesma época, outro historiador francês, Fustel de Coulanges
(1830-1889), especialmente com La Cité antique (1864), mostrava seu
h o rror à filosofia e às generalizações, e estabelecia um princípio a que fi­
caram fiéis os historiadores franceses durante m uito tempo: “O m elhor
historiador é aquele que se prende aos textos, que os interpreta com a
m aior justeza, que não pensa senão de acordo com eles” (21).
O dever do historiador era, assim, estabelecer os fatos e ordená-los de
modo efetivo. Os homens que se form aram depois de 1870 curvaram-se
sobre os documentos diplomáticos para pesquisar as razões da derrota e
muitos ainda o fizeram depois de 1940. H enri Berr e Lucien Febvre in­
surgiram-se contra essa história-historizante, que se basta a si mesma e que
pretende ser suficiente para a compreensão histórica.
Na Alem anha, a consciência e a pesquisa históricas encontraram em
T heodor Mommsen (1817-1903) um a das m aravilhas da erudição ociden­
tal. Mommsen é o próprio gênero histórico e, com R anke e Burckhardt,
forma a mais com pleta trinca de historiadores do século xix. Roma,
antes de Mommsen, era como a E uropa m oderna antes de Ranke, disse
Gooch (22).
(20) Louis H alphen, L ’histoire en France depuis cent ans, Paris, 1914, 96.
(21) H istoire des institutions politiques de Vancienne France, 1888, 33, cit. por Louis
H alphen, ob. cit., 107.
(22) Historia e historiadores en el siglo xix, México, Fondo de C ultura Económica,
1942, 464.

54
A H istoria de R om a (3 vols. 1854-1856), o Corpus incriptionum
latinarum (15 vols., como organizador geral), e o Direito público romano
(1871-1875), tornaram famoso Mommsen. Ao contrário de Ranke, ele não
conhecia a quietude contem plativa; procurava captar os acontecimentos
revivendo-os, pensando neles, submergindo-se neles(23). Senhor de vá­
rios campos de estudos, num ismática, epigrafía, arqueologia, historia, di­
reito e filologia rom ana, Mommsen conquistou fama não só como mestre
da narração, mas como intérprete das instituições e editor de inscrições e
textos (24). D urante sessenta anos publicou milhares de páginas (25), que
se distinguem pela originalidade da contribuição, na qual não se nota,
segundo observou Gooch, nem falta de m aturidade nas primeiras, nem
decadência nas últim as. Mommsen reafirm ou a superioridade do gênio
e da erudição histórica germânicas.
Jacob B urckhardt (1818-1897) está hoje mais vivo que nunca pela
força de suas idéias e pela compreensão da arte e do pensamento na his­
tória. N ão professava as idéias de R anke sobre o poder e considerava a
cultura um a das forças da história universal. Sua grande obra, A cultura
do Renascim ento na Itália (1860), o mais penetrante e sutil tratado de
história da civilização que existe na literatura, segundo Lord Acton, ocu­
pou im ediatam ente um lugar entre as grandes obras históricas clássicas.
Seu grande equívoco foi o de crer na reversibilidade e procurar, na his­
tória, o típico e constante. Talvez a nenhum historiador do século xix,
diz Cassirer (26), se aplique mais que a B urckhardt a frase de Mommsen,
de que o historiador tem mais de artista do que de erudito. B urckhardt
quis, ao estudar a época de Constantino, o G rande (1853), ad q u irir um a
m edida para o julgam ento dos fatos de sua época. Aquilo que havia acon­
tecido nos séculos m e iv, quando o m undo antigo se desmoronou, podia
acontecer de novo. B urckhardt evadiu-se para a Itália, num a solidão
estóico-epicurista, p ara m elhor perceber e contar, em sua obra Época de
Constantino, os perigos que ameaçavam o m undo do século xix (27).
A historiografia norte-am ericana aparece realm ente na cena da grande
historiografia universal com um a contribuição nova e original na obra
de F. J. T u rn e r (1861-1932). Até então, H. B. Adams, introduzindo os
métodos de sem inário e a m etodologia germânica, prom overa a iniciação
científica da historiografia americana. Coube a T u rn e r fazer a declaração
de independência da historiografia americana, com seu ensaio T h e Signi-
ficance of the Frontier in American H istory (1893). Demasiada atenção,
escrevia ele, “tem sido dada às origens germânicas e m uito pouca aos fa­
tores americanos. Cada fronteira sucessiva deixou sua influência caracte­
rística. O avanço da fronteira significou um constante movimento de iso­
lam ento da influência da Europa, um invariável crescimento da indepen­
(23) E. Cassirer, E l problema del conocimiento, 371.
(24) G. P. Gooch, ob. cit., 464.
(25) Cerca de 1.510 títulos, dos quais 1.000 independentes, tudo a mão, havendo quem
calculasse que seriam necessários 400 anos de vida para copiar a mão o que Mommsen editou.
(26) E. Cassirer, ob. cit., 391.
(27) José H onório Rodrigues, “B urckhardt”, Vida e história. R io de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1966, 214-217; e W erner Kaegi, Jacob B urckhardt. E ine Biographie. B asiléia/Stuttgart,
Besino Schwabe, 1956.

55
dência em linhas americanas. E estudar este avanço . .. é estudar a parte
realm ente am ericana de nossa história”. Seus estudos dem onstraram que
o verdadeiro ponto de vista para com preender a história norte-am ericana
era o m ovim ento da fronteira para o ocidente; que tudo que era caracte­
rísticam ente norte-am ericano deriva com pletam ente de um a psicologia da
fronteira e das peculiaridades das instituições desta, que são produtos das
condições ambientes. O im portante é que o centro de interesse se deslocava
da política federal para a história dos Estados e das localidades menores;
das origens européias para o am biente e a experiência norte-americanas(28).
Poucos historiadores no começo do século xx terão influenciado o
estudo da história como H enri Pirenne (1869-1935), considerado como
um dos maiores mestres que a historiografia possuiu. Pirenne foi o m aior
historiador de língua francesa e o mais com pleto pelo exercício continuado
de todas as atividades eruditas. Editou a Bibliografia da história da
Bélgica (1895) e, preocupado com as vidas das cidades na Idade Média,
escreveu Les anciennes démocraties des Pays Bas (1910) e Les villes du
M oyen Age (1927). Foi dos prim eiros a investigar, na prática do trabalho
histórico, a influência do fator econômico, do comércio e da indústria.
Deu-nos a representação esquemática do feudalismo ao capitalismo e
recuou a fase inicial do capitalism o p ara o século x n (T he Stage of Social
H istory of Capitalism, 1924). Espírito extraordinariam ente aberto e amplo,
q ue se dirigia para o real e o concreto, pouco dado à especulação filosófica,
P irenne tornou-se o mais claro e mais vigoroso dos intérpretes históricos
econômicos, sem cair no unilateralism o e no esquematism o do m aterialis­
mo histórico. Esse realismo não o im pediu de chegar ao historicismo
relativista, áo afirm ar que “il y a en somme plusieurs vérités p o u r une
même chose”. T odo seu pensam ento era histórico, mas o essencial foi
seu grande talento para a composição, dando-nós um quadro vivo e colo­
rido, vigoroso e convincente, como só nos poderia transm itir um a p intura
bem realizada, na sua H istoire de la Belgique (1894-1932). Não existe,
provavelmente, nenhum país que tenha recebido das mãos de um só
hom em um a tão com pleta representação de sua história. Pode-se dizer,
sem exagero, que a Bélgica, sem a história escrita por Pirenne, seria hoje,
do ponto de vista político e nacional, menos do que é ( 29).
F riedrich Meinecke (1862-1954) foi um dos maiores historiadores ale­
mães n a longa série dos pesquisadores históricos germânicos. C ontribuiu
decisivamente para o desenvolvimento da história das idéias n a Alemanha.
Sua visão filosófica logo o colocou entre os prim eiros historiadores euro­
peus. Seus grandes livros são: Das Zeitalter der Deutschen Erhebung,
1795-1815 (1906), W eltbuergertum u n d Nationalstaat (1908), Vom Stein
zu Bismarck (1908), Preussen u n d D eutschland im 19. und 20. Jahrhim dert
(1919), D ie Idee der Staatsrãson in der neuerem Geschichte (1924, trad.
italiana, 2 vols., 1942), D ie E ntstehung des Historvsmus (2 vols., 1936, trad.
esp., 1946), D ie Deutsche Katastrophe (1946, trad. ingl., 1950). Meinecke,
ao assumir a direção da Historische Zeitschrift em 1896, a mais im portan­
(28) H. H ale Bellot, American History and American H istorians, Londres, Athlone
Press, 1952, 22-23.
(29) José H onório R odrigues, “ H enri P irenne” , Vida e história, 218-222.

56
te revista histórica alemã, e mais tarde (1914) a cadeira de Ranke, n a U ni­
versidade de Berlim adquiriria, com seus trabalhos e seu seminário, cuja
reputação ultrapassaria a Alemanha, a liderança dos historiadores ale­
mães, da linha que vinha desde Rarlke e se tornara universalm ente res­
peitada e adm irada. Sua W eltbuergcrtum u n d N ationalstaad abria nova
visão da história germânica, com a combinação entre a história política
e intelectual. Nela revela Meinecke sua mais profunda preocupação a res­
peito do conflito entre o poder e as idéias na história. Sua Idee der
Staatsrãson é um a história m agistral da antinom ia entre a ética política
e privada (30). Sua m aior contribuição é Die E ntstehung des Historismus
(1936), na qual descreve a origem do historicismo desde os precursores
até Goethe. De formação prussiana estritam ente conservadora, louvou
na sua juventude a evolução germ ânica do cosmopolitismo de K ant e
Goethe à Nação-Estado de R anke e Bismarck. Mais tarde começou a se
interrogar até onde R anke não deturpara a historiografia alemã e o desen­
volvim ento intelectual alemão com a sua glorificação do Estado. N um
estudo com parativo entre R anke e B urckhardt, o prim eiro vendo no Es­
tado a mais alta m anifestação de civilização, e o segundo colocando esta
acima do Estado, Meinecke considera indispensável u n ir em síntese Os
dois espíritos e revalorizar a obra de B urckhardt n a historiografia alemã.
Meinecke foi um dos mais altos pensadores históricos e sua contribuição
um a das mais im portantes para a história das idéias no m undo ocidental.
B enedetto 'Croce (1866-1952), historiador e filósofo da história, foi
um a das figuras mais controvertidas do pensam ento histórico deste século.
Como historiador prático, sua obra teve interesse local (31) e pouco de­
pois projetou-se, num campo mais amplo, como estudioso da cultura ita­
liana do Renascim ento aos tempos modernos, da Itália de 1871 a 1915 e da
história da E uropa no século xix (32). Suas críticas ao marxismo e ao he­
gelianismo revelaram a força de seu pensam ento filosófico. Suas idéias
sobre Lógica e Estética deram-lhe renom e universal, sendo mesmo o mais
universal dos italianos. Para o historiador interessa sobretudo o M ate­
rialismo storico e economia marxista (Bari, 1900, trad. esp. 1942); Ciò
che è vivo e ciò che è m orto delia filosofia di H egel (Bari, 1907, trad. esp.,
1943), e La filosofia di Giambattista Vico (Bari, 1911), obras de crítica
e de avaliação de três grandes pensadores da filosofia da história, especi­
almente a do últim o, que ele considerava um dos maiores pensadores da
história da filosofia.
A concepção da história de Croce se desenvolve aos poucos, em al­
guns de seus mais im portantes livros, como Teoria e storia delia storio-
grafia (Bari, 1917) e La storia come pensiero e como azione (Bari, 1938),
nas quais reivindica a autonom ia da história e dissolve a filosofia na his­
tória. T o d a a história é história contem porânea, no sentido de que re­
vive na p rópria consciência a atividade passada. O que constitui a história
(30) José H onório Rodrigues, “Meinecke e a razão de Estado” , Vida e história, 229-232.
(31) La rivoluzione napoletana dei 1790, Bari, 1912; I teatri di N apoli dal Rinascim ento
tlls. fine dei secolo decimottavo, Bari, 1916; Storie e leggende napoletane, Bari, 1918.
(32) La Spagna nella vita italiana durante la Rinascenza, Bari, 1914; Storia d’Italia dal
1*71 al 1915, Bari, 1928; Storia delia Europa nel secolo decimonono, Bari, 1932.

57
é o ato de com preender e entender, induzido pelas exigencias da vida
prática. As obras históricas de todos os tem pos e de todos os povos nas­
ceram destas exigências e das perplexidades que implicam. A ciência e
a cultura histórica existem com o propósito de m anter e desenvolver a
vida ativa e civilizada da sociedade hum ana.
A teoria da historia contem porânea apresenta duplo aspecto: o p ri­
meiro, restrito, consistindo n a concepção da historia como aquilo que se
recría e se revive para fazer servir a qu an to serve aos nossos interesses
particulares; o outro, mais largo, no sentido de que a historia do passado
se ilum ina com as luzes de nossa própria historia. A história não consiste
na descrição das personagens, dos acontecimentos, catástrofes, horrores do
m undo, mas na indagação de quais foram as necessidades efetivas dos
povos e de que modo as superaram . A historia é, assim, obra do historia­
dor, clara afirmação subjetivista. A historia é o conhecim ento do eterno
presente. Para reviver o passado devemos aproxim ar-nos de nós mesmos;
a historia é a historia do espirito; finalm ente, a historia é filosofía, que
não é senão m etodologia da historia (33).
N a linha que vem de Ranke, passa por Mommsen e B urckhardt, colo-
cam-se M ax W eber (1864-1920) e Ernst T roeltsch (1865-1923), pelas pro­
fundas e frutíferas idéias com que im pulsionaram a interpretação histó­
rica. W eber, que foi o m aior sociólogo do m undo m oderno e historiador
da economia e da cultura, pode servir de exemplo, justam ente, dessa idéia
de estudar a historia concreta, próxim a dos acontecimentos particulares
de cada momento^ cheio de reservas nas generalizações, porque nunca se
esquece da m ultiplicidade dos fatores reais. A teoria da m ultiplicidade
das conexões causais, da im portância dos fatores ideais, as idéias sobre a
periodização da historia universal receberam de W eber e de T roeltsch as
mais decisivas contribuições concretas. Die Protestantische Et.hik und der
Geist des K apitalism us (1904-1905, trad. ingl., 1930), a Wirtschaftsgeschich-
te (M unique, 1923, trad. ingl., 1927 e esp., 1942), a W irtschaft und
Gesellschaft (1922, 2.a ed., 2 vols., 1925), seus vários estudos históricos e
sociológicos (34) (Gesammelte Aufsaetze zur Sozial und Wirtschaftsgeschich-
te, 1924) representam um corpo sistemático novo e original de inter­
pretação histórica, que nenhum historiador pode desconhecer. M ax W eber
foi, na verdade, um dos alemães mais vigorosos e um dos sábios mais
universais e mais severamente metódicos da nossa época (35).
E rnst Troeltsch, com seu Die Soziallehren der christlichen Kirchen
un d G ruppen (1912, trad. ingl., 1931), suplem enta e enriquece as pes­
quisas originais de W eber, reforçando a teoría da interação pluralística
dos fatores que influem na historia (36): Seu Der Historism us u n d seine

(33) Sobre o historicism o de Croce, vide o capítulo seguinte.


(34) Vide From M ax W eber: Essays in Sociology, translated and edited by H. H . Gerth
and S. W right Mills, Londres, 1947; e M ax W eber, Essais sur la théorie de la Science, Paris,
Lib. Plon, 1965, trad. de Ju lien Freund.
(35) José H onorio R odrigues, “ Capitalism o e Protestantism o”, Notícia de varia historia,
Rio de Janeiro, 1951, 37.
(36) jDie B edeutung des Protestantism us fu er die E ntstehung der modernen W elt (1911,
trad. ingl. Protestantism and Progress, 1912) estuda as relações do protestantism o com o m undo
moderno.

58
Probleme (1922) é um dos mais completos e ricos exames do historicismo
e dos fundam entos lógicos da filosofia da história. Ele analisa as grandes
correntes de idéias na história da história e especialmente o historicis­
mo, que procura superar no seu Der Historism us u n d seine Ueberwindung
(Berlim, 1924). Seu estudo sobre a periodização no H istorism us und seine
Probleme é o mais completo exame do problem a, tão fundam ental para
uma verdadeira concepção histórica (37).
Não são só os pensadores da história e suas teorias que devem inte­
ressar à história da história. Osvaldo Spengler (1880-1936), com sua m or­
fología da cultura, originada da teoria de Danilevsky (38), e o determ i­
nismo ou fatalidade dos ciclos de civilização, representa um a naturalização
do pensam ento histórico. As inter-relações morfológicas, que consistem
de sim ilaridades de estrutura, são inteiram ente naturalistas, pois a concep­
ção da sucessão das fases dentro de um a cultura se assemelha à vida n a­
tural: nascimento, crescimento e morte. Spengler é um a figura de menor
categoria no pensam ento histórico (39).
Charles Seignobos (1854-1942) foi um dos historiadores franceses de
m aior reputação internacional e se a sua obra hoje está em grande parte
superada pela investigação moderna, coube-lhe escrever, juntam ente com
Charles V. Langlois o m elhor sum ário do m étodo histórico, exercendo,
deste modo, uma influência didática decisiva na m oderna formação dos
historiadores.
Alguns trabalhos de Sir W illiam Ashley (1860-1927) representam o re­
sultado de pesquisa original, mas grande parte de sua obra se baseia em
fontes reconhecidam ente secundárias ou é apenas a síntese de trabalhos
de outros autores. Ele nunca com pletou sua im portante Introduction to
English Economic History and Theory (1892); sua significação na história
'e m não da originalidade do que escreveu, mas da originalidade do cam­
po a que se dedicou e do m étodo que empregou. Éle foi o mais persis­
tente advogado do estudo da história econômica e, por três vézes, criou,
em T oronto, H arvard e Birm ingham , o departam ento de história eco­
nômica, encarregando-se da prim eira cadeira de H istória Econômica no
m undo (40).
Alfons Dopsch (1868-1953) começou seu trabalho histórico colaborando
na M onum enta Germaniae historica e mais tarde desenvolveu-o no campo
social, económico e constitucional da A ustria Medieval. Seu sem inário
W irtschaft u n d K ulturgeschichte tornou-se famoso e nenhum trabalho
austríaco rivaliza, nos anos de entre guerra, com Die wirtschaftliche und
soziale Grundlagen der europáischen K ulturentw icklung ans der Zeit von
Casar bis auf Karl den Grossen (2 vols., 1918-20). Sua obra anterior sobre
o desenvolvimento econômico da época carolíngia especialmente n a Ale­
m anha (Die W irtschaftsentwicklung der Karolingerzeit vornehm lich in
(37) No capítulo sobre a periodização resumimos suas idéias.
(38) H. S tuart Hughes, Oswald Spengler, A Criticai E stím ate, Nova York, Scribner, 1952.
\ jde capítulo sobre a periodização.
(39) Collingwood, T h e Idea of History, ob. cit., 181-183, e Stuart Hughes, ob. cit., 152.
(40) Ja n et L. Mac Donald, “Sir W illiam Ashley (1860-1927)” , in B ernadotte E*. Schmitt
orç-i. Some Historians o f M odern Europe, Chicago, 1842, 20-42.

59
D eutschland, 2 vols., 1912-1913) reconstruiu os fatores da civilização me­
dieval. Sustentou, ainda, a teoria da continuidade dos tempos antigos e
da Idade M édia e rejeitou a tese de Karl Bücher da sucessão de distintos
tipos econômicos n a história. Os germânicos assimilaram a herança ro­
m ana sem nenhum a quebra cultural. Suas interpretações provocaram
amplas críticas, mas a obra de Dopsch é ainda de valor perm anente.
A significação da obra de Johan H uizinga (1872-1945) é tão grande
que éle dom ina um a época da historiografia como um a de suas figuras
centrais. Se não é o maior, o mais perfeito, o mais completo, é certamente,
o mais original, nos métodos, n o pensamento, nos caminhos escolhidos.
A história das idéias e da cultura tem especialmente em H uizinga e Ber-
n ard Groethuysen as mais autênticas expressões de seu cultivo, pelo are­
jam ento incomum, pela iniciativa, vigor e efeitos duradouros. É o encanto
de sua obra, o forte sentim ento histórico, o gósto literário, aquela capa­
cidade de pôr-nos em contacto com as próprias coisas, dando-lhes vida,
que o tornam um dos maiores historiadores déste meio século.
Huizinga teve sua obra traduzida nas principais línguas e o reconhe­
cim ento universal da sua apurada contribuição à história. São qu atro as
obras traduzidas em espanhol e mais conhecidas do público brasileiro:
E ntre las sombras de la mañana (M adri, 1936); H om o ludens (México,
1943); E l otoño de la Edad M edia (M adri, 1946) e Sobre el estado actual
de la ciencia histórica (M adri, 1934). O Concepto de la historia (Mé­
xico, 1946) é um a coletânea de ensaios, extraídos de livros e revistas, tal
como Im Bann der Geschichte (Basiléia, 1943). Suas Obras completas
estão sendo agora editadas ña Holanda.
O Outono da Idade M édia, considerado justam ente como sua obra-
prim a, pela renovação dos métodos e conceitos, apareceu em 1919, depois
de doze anos de trabalho e meditação, e provocou, em toda a Europa, uma
acolhida extraordinária. Poucos livros terão modificado tão estrutural­
m ente o nosso conhecim ento da Idade M édia como este.
N a sua autobiografia (41), escreve H uizinga: “Se devo me atrib u ir
um merecimento para explicar o sucesso do m eu trabalho, eu o chamarei
o resultado de um a busca feliz e de algum a observação. Recebi, para usar
a expressão do nosso velho W indersheim er, apenas um a pequena centelha,
que de vez em quandó quis arder.”
A centelha se apagou na noite de 1.° de fevereiro de 1945 e, real­
m ente, quem ainda não o conhece não possui um a das melhores fontes
de enriquecim ento intelectual (42).
R itter von Srbik (1872-1951), o m aior dos historiadores austríacos no
campo da história m oderna, produziu dois grandes trabalhos que nenhum
estudioso da E uropa do século xix pode negligenciar. Escreveu a mais
completa biografia de M etternich (2 vols., 1925) e a Deutsche E inheit (4

(41) M ein W eg zu r Geschichte, Basiléia, 1947; editado tam bém em holandês, M ijn W eg tot
de Historie, 1947.
(42) José H onorio Rodrigues, “H uizinga” , Vida e história, Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1966, 223*228.

60
J o h a n H u i/in ^ a

61
vols., 1935-1942), que traça a história da rivalidade austro-prussiana (43).
Form ado no Instituto de Pesquisa Histórica da Áustria, seu prim eiro traba­
lho, W allenstein Ende (1920), foi um a obra-prim a de m etodologia his­
tórica. Legou ao m undo, ao falecer, em 1925, um a das obras mais im por­
tantes do após-guerra. Seu livro Espírito e história do hum anism o (Geist
u nd Geschichte vom Deutschen H um anism us, M unique, 1950-51, 2 vols.),
foi acolhido na Europa e nos e . u . a . como a mais lim pa e autêntica ex­
pressão do hum anism o europeu.
Srbik era um a das mais renomadas figuras intelectuais da Á ustria e
conhecido e considerado expositor no campo da ciência histórica. No úl­
tim o trabalho citado conta a história da historiografia alemã desde a
Idade M édia e do hum anism o até o fim do m Reich. Mas ao mesmo
tempo que conta o suceder da historiografia alemã, seus guias e principais
obras, em consonância com os grandes períodos vitais do pensam ento ger­
mânico e europeu, estende-se sobre as questões fundam entais da vida eu­
ropéia, constituindo um a história do espírito do m undo ocidental (44).
Nesse ligeiro sum ário destacaram-se, apenas, aqueles que, mortos, re­
velaram durante sua vida im portantes idéias no esclarecimento da his­
tória, quer pela sugestão teórica, quer pelas contribuições concretas. M uitos
outros faltam, mesmo entre os nomes recentes, como Sir Charles F irth
(1857-1936), D. Rafael de A ltam ira y Crevea (1866-1952), H enri H auser
(1867-1946), Philippe Sagnac (1868-1954), A. F. Pollard (1869-1948), Louis
H alphen (1881-1951), Jo h n H. C lapham (1873-1946), H arold Tem berley
(1879-1939), Eileen Power (1889-1940), Carl Becker (1899-1945), cujos
trabalhos eruditos ou de divulgação contribuíram para a história concreta,
mas cuja exata avaliação e julgam ento exige m aior espera. O utros cOmo
G. M. Trevelyan, G. N. Clark, F. M. Powicke, R. H. Taw ney, L. B. Na-
mier, A rnold Toynbee (45), G. P. Gooch, W instoñ Churchill, Charles
W ebster, George Barraclough, Lucien Febvre, Pierre R enouvin, Ludwig
Dehio, G erhard R itter, A rnaldo M omigliano, os dois Potem kine (F. e
V.), A. Sidorov, F. Vercauteren e muitos outros ainda estão contribuindo
com novos estudos.

(43)Cf. G. P. Gooch, History and Historians in the N ineteenth Century, ob. cit., xrv-Xv.
(44) José H onorio Rodrigues, “A historiografia alem ã”, e “A história e Srbik” , Vida
e história, 201-204-205-208.
(45) Vide José H onório R odrigues, “Toynbee e a filosofia da história na In glaterra” ,
O Jornal (R io de Janeiro), 6 e 13 de abril de 1947, e “ Um a conversa com Toynbee” , O Jornal,
7 de fevereiro de 1952.

62
C a p ít u l o 3

Filosofia e história. O conhecim ento


histórico

H IS T Ó R IA E CIÊNCIA

oi s o m e n t e nos meados do século xix que a história


F
atingiu não apenas um grande desenvolvimento mas
aperfeiçoou seus métodos e definiu seus problemas e interesses, começa
do alguns pensadores, filósofos e lógicos a estudar os aspectos teóricos do
conhecimento histórico.
Seguia-se, até aí, a opinião sustentada por Descartes e mais tarde apoi­
ada p o r Kant, de que só poderia ser considerado científico o saber rigo­
rosamente demonstrável. No Discurso do m étodo, escrito em 1637, lançou
Descartes os fundam entos do naturalism o que, por três séculos, iria do­
m inar o pensam ento europeu. Aí explicava porque as matemáticas, cheias
de certeza e evidência, tanto agradavam, enquanto a história, as línguas,
a eloqüência e a poesia, em bora estimadas, pertenciam a plano inferior (1).
O conhecim ento científico deve ser certo e evidente e não dar lugar a
opiniões prováveis. “Se o nosso raciocínio é justo”, dizia, “das ciências já
conhecidas as únicas às quais nos conduz a observação destas regras para
a direção do espírito são a aritm ética e a geom etria” (2).
De acordo com esse critério, todo saber que não pudesse passar pelo
crivo da dem onstração m atem ática e ser reduzido a axiomas evidentes
devia ser posto de lado. O histórico ficava, portanto, excluído do ideal
científico cartesiano.
O naturalism o, como se convencionou cham ar a essa filosofia, foi pro­
vocado pelo grande desenvolvimento das ciências naturais.

(1 ) R ené Descartes, Discours de la m éthode, edição da Bibliothèque de la Pléiade,


Oeuvres et lettres, Paris, 1937, 95-96.
(2) René Descartes, Règles pour la direction de Vesprit, ibid., 7-8. N a Recherche de la
vérité par la lum ière naturelle {ibid., 672-673), Descartes m ostra o mesmo desprezo pela história,
a geografia e as línguas.

63
Ele é o fundam ento de um sistema de expressão possivelmente m a­
temático, de leis de relação quantitativa, por meio das quais se atinge a
libertação do acaso, das impressões visuais, o dom ínio sobre o que se
repete. C onstitui a m aravilhosa base de todas as técnicas que o homem
já conheceu e a ele devem-se os magníficos progressos da matem ática, da
astronomia, da física, da quím ica (3). Mas nada disso é realm ente algo
de novo e a própria aplicação dessas idéias à m anufatura e à indústria
modernas não deixou de estar im plícita n a física do século xvn, que desa-
brochou na filosofia naturalista de Descartes (4).
Do mesmo modo, quando K ant vai construir o seu sistema filosófico
é sobre as ciências naturais que m edita e se apóia. Q uando ele explica
os rudim entos metafísicos das ciências naturais, chegara-se ao esplendor
do naturalism o. Para ele só existe ciência quando, das observações que
constituem o objeto do estudo, se podem extrair leis de caráter universal,
não afetadas pelas circunstâncias de lugar e tempo, e passíveis de veri­
ficação todas as vezes que se repete o fenômeno. R episando o pensamento
cartesiano, ele diria não ser possível caráter científico num a disciplina a
não ser que nela entrasse a m atem ática (5).
Não havia, assim, possibilidade de a história ser considerada um a dis­
ciplina científica. O desinteresse de K ant pela história explica-se por cir­
cunstâncias pessoais e pelo grande desenvolvimento das ciências naturais
na sua época. Já houve quem dissesse que o filósofo de Conisberga não
conhecia nem o alfabeto nem a tábua de m ultiplicar de toda a teoria da
história (°). A isso redargüiram os kantianos e neokantianos que Hegel
desconhecia inteiram ente os fundam entos das ciências naturais.
Sob o poderoso influxo do pensam ento de que apenas a lei universal
caracterizava a ciência, os homens dedicados à investigação da natureza
pareciam ofendidos quando alguém lhes dizia não serem eles os únicos
a trabalhar cientificamente, e muitos historiadores prosseguiram no afã
de transpor para as ciências culturais ou históricas os conceitos das ciên­
cias físicas (7).
Desde a Época das Luzes, em que ainda predom ina o pensamento
naturalista, registram-se tentativas de aplicar os princípios metodológicos
das ciências naturais à investigação dos sucessos históricos. A física e a
m atem ática m ostrariam como se deve trabalhar no campo da história.
O suceder histórico estaria determ inado por leis naturais, do mesmo modo

(3) Ernst T roeltsch, D er Historismus and seine Probleme, T übingen, M ohr, 1922, 104.
(4) R. G. Collingwood, T h e Idea of History, Oxford, Clarendon Press, 1946, 208-209.
(5 ) Emmanu-el Kant, M etaphysische Anfangsgruende der Naturwissenschaft, Riga, 1784,
cit. por E. Cassirer, K ant, México, 1948, 263.
(6) G. G. Gervinus, Grundzuege der H istorik, 1837, 63.
(7) Benedetto Croce (La historia como hazaña de la libertad, México, Fondo de C ultura
Económica, 1942, 328) declara não caluniar as ciências naturais quando define seus métodos e
propósitos como abstrações, produtos de um a operação prática, na qual as coisas são assinaladas
e marcadas para poderem ser de novo encontradas e usadas quando necessário, e não para que
possam ser compreendidas. Os próprios estudiosos dessas ciências não as definem de outra
m aneira quando afirm am que se detêm nas aparências e fenômenos, deixando de lado as
essências e noúm enos e declarando que além dos fenômenos estão o incognoscível e o mistério.
Efetivam ente, além ou por baixo deles está a história.

64
que o m ovim ento dos astros ou os processos físicos e químicos. Os repre­
sentantes desse pensam ento n aturalista aplicado às ciências sociais são,
p o r exemplo, no campo da teoria concreta da história, Comte, Buckle,
Lam precht e, de certo modo, Marx.
O fato do conhecim ento histórico ter ficado, por assim dizer, relegado
à obscuridade, em conseqüência da atenção geral estar voltada para as
ciências naturais, fez com que os próprios historiadores erroneam ente che­
gassem a deform ar sua tarefa e, face aos progressos realizados n a física por
um Newton, n a quím ica por um Lavoisier e na biologia por um Darwin,
se mostrassem descontentes com a situação da história no m om ento. Esta
deveria tam bém sofrer os impulsos naturalistas p ara chegar a igualar-se
à física na “exatidão” e seguir os passos da biologia (8).
Foi nesse sentido que trabalhou Karl Lam precht. Mas ele nada conse­
guiu trazer ao caráter lógico do m étodo histórico com toda a sua massa
de conceitos biológicos, como o tipism o e a excitabilidade. Seus trabalhos
históricos não coincidem com seu objetivo, pois ele continuou, como qual­
q u er outro historiador, a expor as evoluções históricas singulares na sua
singularidade, sem proceder à m aneira das ciências naturais. Lam precht,
tal como Buckle, seu antecessor, procurou aplicar no campo da história
concreta as teorias evolucionistas e naturalistas. Ambos saíram-se m al da
empresa.
M uito parecido com Lam precht é K urt Breysig, iniciador da escola
da “doutrina histórica” (Geschichtslehre), que se consagra à teoria da
essência e formas do devenir histórico. Estabeleceu(9) vinte e quatro leis
históricas sem nenhum a aplicação.
A novidade dos processos de Lam precht e Breysig está hoje inteira­
m ente desfeita. Melhores pensadores, como Rickert, Croce e Spranger já
julgaram severamente essa pseudo-história, que usou apenas de fórmulas
tautológicas, como evolução, lu ta pela existência, sobrevivência do mais
forte, tipismo, tropismos, destruindo todo o sentido histórico genuíno e
todo pensam ento histórico poderoso (10).
(8 ) L. M. H artm ann, Über historische E ntw icklung, 1905, 3, citado por W. Bauer, In tro ­
ducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 41. Um exemplo do entusiasmo com
q u e se tentou, com extraordinária aceitação, aplicar às ciências sociais e históricas os processos
naturalísticos, especialmente biológicos, está no livro, hoje inteiram ente ultrapassado e to tal­
m ente (e squecido de P aul Mougeolle, Les problèm es de Vhistoire (Paris, 2.a ed., 1902).
O au to r procurava d a r à história um corpo científico-biológico, sob a base de que a história
da hum anidade era apenas um capítulo da história dos seres vivos. Como éste, outros modelos
podem ser apontados, inclusive no campo do direito, como é o caso de S. Stucker, Fisiología dei
Derechoy trad . 1896. Eles nos m ostram não só a aplicação prática no campo da história concreta
como no da teoria da história, onde, ao lado de Mougeolle, figura a Philosophie de Vhistoire
de Charles R appoport (Paris, 2.a ed., 1925), m istura de evolucionismo e marxismo. A impro-
priedade da combinação originava-se da p rópria biologia filogenética, com método histórico
e objeto naturalista. Os biólogos foram buscar na história o conceito de evolução. O extraordi­
nário sucesso da biologia, ciência histórica nos seus métodos, levou os historiadores, num a
confusão infeliz, a aplicar à história métodos naturalistas.
(9) K urt Breysig, D er Stufen Bau und die Gesetze der W eltgeschichte, 1905. Em il Erma-
tinger defende o estabelecimento de leis na própria ciência literária. Form ula apenas princípios
lógicos e metodológicos e não leis, por evidente influência da metodologia histórica, em bora com­
b ata as diretrizes de D ilthey e Rickert. “ La ley en la ciencia litera ria” , Filosofia de la ciencia
literaria, México, Fondo de C ultura Económica, 1946, 353-400.
(tO) Cf. H . R ickert, Ciencia cultural y ciencia natural, Buenos Aires, 1937, 28; Benedetto
Croce, Teoria e storia della storiografia, Bari, Gius. Laterza 8c Figli, 1943, 272, 278, e La
historia como hazaña de la libertad, México, Fondo de C ultura Económica, 1948, 330-331;

65
Mesmo no Brasil, ao findar do século xix, quando o problem a do co­
nhecim ento histórico já se achava posto em outros termos, Pedro Lessa (u )
negava à história caráter científico porque, até então, não fora possível
determ inar leis históricas. O m étodo descritivo aplicado pelo historiador
perm itia apenas colecionar e dispor os m ateriais e fatos em cuja obser­
vação e comparações hauriam suas induções diversas ciências. Era a
idéia, sempre de novo repetida, de que a existência de um a disciplina
como ciência está condicionada à possibilidade ou não da formulação
de leis.
As ciências naturais gozavam de um a tradição firme, tinham um pro­
pósito comum, assentavam-se em bases filosóficas, apresentavam-se im pres­
sionantes pela solidez mesma de sua estrutura e haviam realizado pro­
gressos admiráveis, enquanto as ciências históricas ou culturais, m uito
mais jovens, não realizavam nenhum a investigação positiva. Só no século
xix é que atingiram a um a altura inesperada e im prim iram seu caráter à
vida científica dessa época, em oposição ao século anterior, predom inante­
m ente naturalista. Mas nem por isso se devia confundir a ciência com o
progresso científico, isto é, sua existência com sua m aturidade.
Rickert disse com m uita agudeza que o fundam entalm ente novo
nesse terreno das ciências particulares do século xix foi constituído, antes
de tudo, pelos trabalhos dos grandes historiadores que investigaram a
vida da cultura (12). Assim como o grande desenvolvimento das ciências
naturais possibilitou sua conceituação filosófica, tam bém o grande desen­
volvimento das ciências históricas ou culturais possibilitou aos filósofos e
lógicos contem porâneos a m editação sobre seu caráter científico. Ao invés
de reduzir-se a reflexões filosóficas e lógicas sobre as ciências físicas, como
fez Kant, buscou-se o contato com as ciências históricas. Desse contato
nasceu um a nova conceituação lógica e filosófica do que seja ciência é a
justificativa de que a história seria um a ciência.

A razão histórica; D ilthey

Form ulou-a W ilhelm D ilthey (1833-1911), um dos maiores pensa­


dores dos últim os tempos, considerado o mais vivo e mais distinto repre­
sentante do historicismo — movimento hum anista e filosófico que, em
oposição ao naturalism o, busca n a história o fundam ento de um a con­
cepção do m undo. Sua Introdução às ciências do espírito (1883) (13) é

E duard Spranger, Die Grundlagen der Geistes W issenschaft, 1905, 43; Siegfrid-Erzberg Fránkel,
M oderne Geschichtsauffasung, Czernowitzer U niversitãtscher, 1906, 39. A obra de E duard Meyer
propõe-se refutar especialmente a “ nova teoria” de Karl Lam precht. Vide “Zur T heorie und
M ethodik der Geschichte” , Kleine Schriften zur Geschichtstheorie und zur wirtschaftlichen und
politischen Geschichte des A ltertum s, H alle, Verlag von Max Niemeyer, 1910. -
(11) Pedro Lessa, É a história um a ciência ?, São Paulo, 1900.
(12) H. R ickert, Ciencia cultural y ciencia natural, Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1937, 120.
(13) W ilhelm Dilthey, Introducción a las ciencias del espíritu, México, Fondo de C ultura
Económica, 1944.

66
a mais im portante obra filosófica dos fins do século xix e o m elhor con
ju n to de idéias para os estudiosos das ciências históricas.
Estamos, agora, em posição com pletam ente diferente. Com Dilthey
inicia-se um m ovimento filosófico e lógico que tem por base não mais as
ciências naturais e sim as ciências históricas. Desse movimento origina-se
a autonom ia dos conceitos de natureza e história, os quais se distinguem
pelo seu objeto e pelos seus métodos. Procurando investigar a natureza
e a condição da consciência histórica e realizar um a crítica da razão his­
tórica, D ilthey estabeleceu, logo de início, a autonom ia da cultura e das
ciências culturais em relação à natureza e às ciências naturais.
D ilthey propôs-se naquela obra, como principal tarefa, fazer valer a
independência das ciências do espírito dentro da formação do pensam ento
filosófico, em face do predom ínio das ciências da natureza, e, ao mesmo
tempo, pôr em relevo o alcance que para a filosofia podiam ter os co­
nhecim entos das ciências culturais. Para ele não eram somente as ciências
que descobriam as leis causais que apresentavam garantia de conhecimento
positivo. A crítica histórica, que substitui a conexão tradicional por outra
determ inada intelectualm ente, pela crítica e interpretação das fontes, e que
encontra em cada novo docum ento um a nova confirmação dessa conexão,
logra tam bém um a garantia objetiva de certeza histórica (14). As ciências
do espírito, entre as quais está a história, têm como fundam ento a per­
cepção interna e a compreensão. Como as ciências espirituais e históricas
não explicam, mas com preendem e interpretam , a psicologia passa a ser
o fundam ento das ciências do espírito e, portanto, do conhecim ento histó­
rico (15). Segundo Dilthey, nós explicamos a natureza e compreendemos
a vida espiritual.
Dilthey emprega a palavra espírito no mesmo sentido em que Mon-
tesquieu falou do “Espírito das Leis”, Hegel de “Espírito objetivo” e
lh erin g de ‘E sp írito do D ireito R om ano”. Para ele todas as ciências do
espírito descansam no estudo da história e a psicologia ■— não a experi­
m ental, mas um a nova que ele propõe seja criada — deve conhecer o ho­
mem na história, m ediante a introspecção histórica. Spranger, discípulo
de Dilthey, veio posteriorm ente dar expressão a essa nova psicologia (16).
Para Dilthey, as ciências espirituais são incapazes da mesma objetivi­
dade e precisão das ciências naturais, e o novato encontra-se, diante delas,
num caos de relatividade. Isso não significa, no entanto, que elas não
tenham padrões de precisão e objetividade. O cepticismo que tal afirmasse
seria barato e ignorante. Por ser concreta e pela riqueza e colorido de sua
experiência hum ana, paga a história alto preço: é menos objetiva.
D ilthey dissentiu com pletam ente de Comte quanto à classificação das
ciências. Para este, as ciências naturais eram um a pirâm ide tendo por
base a mecânica. As ciências eram logicamente dependentes umas das ou-
(14) W ilhelm Dilthey, Teoria de la concepción dei m undo, México, Fondo de C ultura
Económica, 1945, 119.
(15) W ilhelm Dilthey, E l m undo histórico, México, Fondo de C ultura Económica, 1944, 340.
(16) E duardo Spranger, Formas de vida. Psicologia y etica de la personalidad, Buenos
Aires, Revista de Occidente A rgentina, 1946.

67
tras, estando sempre as mais simples à frente das mais complexas. Os es­
tudos hum anos eram reduzidos à ciência da sociologia. Para Dilthey, os
estudos hum anos não podem ser a continuação de um a hierarquia das
ciências naturais, porque descansam sobre um fundam ento diferente. Não
h á nèles a observação dos fatos físicos, mas a compreensão dos fatos h u ­
manos. As ciencias naturais e as ciências do espirito desenvolveram-se lado
a lado e não h á o prim ado de urnas sobre outras (17).

W indelband

W. W indelband (1848-1915), em 1894, num discurso como reitor da


Universidade de Estrasburgo (18), foi o prim eiro a mostrar, do ponto de
vista filosófico, a im possibilidade de identificação das conceituações ci­
entíficas da física e da historia. D istinguiu os conceitos ideográficos, que
são os próprios da investigação histórica, dos conceitos nomotéticos, gerais
ou de leis, que são exclusivos da ciência natural, e, em especial, da física.
P artindo do principio de que, incontestavelm ente, o novo — no sentido
form al e objetivo da palavra — do trabalho científico do século xix
deve ser procurado no caráter do pensam ento histórico e de que só q u an ­
do a vida de um a ciência atinge seu apogeu, conquista seu sucesso e afirm a
sua originalidade é que a reflexão filosófica entra em cena e se propõe
conhecer as formas do pensam ento que tornaram possível aquele resul­
tado, W indelband dividiu as ciências, segundo os fins que elas visam, em
ciências de leis e ciências de acontecimentos.
Essa divisão foi proposta n a A lem anha por W indelband e por Sim-
mel e foi apoiada, n a Suíça, por A drien Naville (19). Como o próprio
W indelband reconhece, ela procede de Leibniz, quando se referiu às ver­
dades eternas e às verdades de fato. Os fatos reais não derivam de leis, mas
supõem sempre outros fatos reais, dos quais decorrem, como um a necessi­
dade rigorosa. As leis naturais têm em todos os casos um a regularidade
perm anente e da observação dos fatos e da obediência de um a lei pode
originar-se um fato novo. T o d a aplicação da física e da m atem ática à
indústria m anufatureira m oderna provém desse princípio, que não se apli­
ca às ciências dos acontecimentos, ou seja, às ciências históricas ou cul­
turais.
(17) H. A. Hodges, Wilhelm, D ilthey, an Introduction, Nova York, Oxford University
Press, 1944, 76-78.
(18) W. W indelband, Geschichte und Natunvissenschaft, Estrasburgo, 1894; reimpresso in
Praludien, v. n, T üb in g en , 1915.
(19) A classificação de A drien N aville encontra-se em seu livro N ouvelle classification des
sciences (Paris, 1901). Recentem ente, outros autores, seguindo a orientação de D ilthey e
R ickert, ou a de Heidegger, propuseram classificações m uito parecidas. É assim a de Johannes
Thyssen que, em bora proponha se abandone a divisão de ciências do espírito e ciências da
natureza, liga-se a R ickert, ao sugerir que se proceda atendendo unicam ente ao ponto de
vista lógico-formal, distinguindo as ciências em píricas das históricas. (Die E inm aligkeit der
Geschichte. E ine geschichtslogistische Untersuchung, Bonn, Cohén, 1924, citado por Benedetto
Croce, Teoria e storia delia storiografia, 5.a ed., Bari, Laterza 8c Figli, 1943, 308.) A classifi­
cação de Eric D ardel (L*histoire, science du concret, Paris, 1946, 15) divide as ciências em
exatas e hum anas ou concretas, entre estas últim as incluindo a história. Ele obedece a uma
orientação fenomenológica e liga-se, tam bém , a Dilthey.

68
Exatam ente porque não é possível a form ulação de leis históricas, tam ­
bém não é possível que um fato novo se origine da observância de um a
lei. Os caracteres distintivos dos fatos históricos são, segundo W indelband,
os seguintes: serem únicos, individuais e não sujeitos à repetição (20).

R ickert

O abismo aberto por D ilthey e W indelband entre as ciências n a ­


turais e as ciências do espírito foi levado a seus últim os extremos do
ponto de vista metodológico e lógico p o r H . R ickert (1863-1936). R ickert
tentou estudar a estrutura lógica da história e dem onstrar não só a opo­
sição capital entre as ciências culturais e naturais, como, ainda, que nas
prim eiras é o caráter de individualidade, de particularidade, que condi­
ciona seu conceito e metodologia. T o d a tentativa, portanto, de trans­
ferir para a ciência histórica os conceitos das ciências naturais seria um
erro de graves conseqüências.
N um a conferência pronunciada em 1898, R ickert definiu os inte­
resses, problem as e métodos comuns às disciplinas culturais e traçou a
divisória entre estas e as ciências naturais. Seu objetivo era exam inar os
limites da ciência cultural e sua relação com a investigação da natureza.
Nesse trabalho que, no ano seguinte, foi publicado em livro (21), Rickert
diz que natureza e história são dois conceitos opostos, que se distinguem
pelo seu objeto e pelos seus métodos. E nquanto n a natureza se considera
um fato, um ser ou um fenômeno sem referência a valores, e buscam-se as
relações universais a fim de procurar estabelecer leis que valham sempre
para todos os fenômenos, a história estuda o fenômeno cultural na sua
particularidade, na sua individualidade. A tarefa do historiador é a do
particularizador e não a do generalizador, como a do físico, por exemplo.
A natureza é um a realidade total, concebida de m odo generalizador e in­
diferente a valores. Nas ciências culturais ou históricas, o espírito e a cons­
ciência do hom em devem ser compreendidos. E ntre o objeto da história
e o historiador h á um a relação de vida (22).
O mesmo não acontece em relação às ciências naturais. Nelas o inves­
tigador se destaca de toda perspectiva histórico-social e por essa razão
(20) W. W indelband, “La Science et 1'histoire devant la logique contem poraine” ,
R evu e de synthèse historique, ix, n.° 26, 1904, 125-140. Vide tam bém E inleitung in die P hilo­
sophie, T ü bingen, M ohr, 1923, onde sustenta que, assim como nos prim eiros estádios da filosofia
da natureza ela foi orientada como um a filosofia das ciências naturais, ou seja, como teoria
do conhecim ento da pesquisa naturalista, assim tam bém a filosofia da história pode ser orientada
como filosofia das ciências históricas, ou seja, um a teoria do conhecimento da pesquisa cultural.
(21) H. R ickert, Ciencia cultural y ciencia natural, Buenos Aires, Espasa Calpe, 1937.
R ickert tratou da filosofia da história em correspondência à sua introdução lógica à ciência
histórica não só em D ie Grenzen der nati^rwissenschaftlichen Begriffsbildung (1896-1902), como
em D ie Probleme der Geschichtsphilosophie (H eidelberg, 1924), onde expõe os problem as da
filosofia da história, os “ princípios” da vida histórica, as possibilidades de um a história
universal filosófica e a situação atual da filosofia da história. Nas Grenzen, como na Ciência
cultural e ciência natural, lim ita-se à lógica da história, m ostrando nesta últim a que, em bora a
lógica seja o fundam ento de qualquer filosofia da história científica, os problem as da filosofia
não coincidem com os lógicos, nem se exaurem neles.
(22) W. Dilthey, E l m undo histórico, México, Fondo de C ultura Económica, 1944, 140.

69
foram consideradas o ideal de trabalho científico a que todas as outras
ciências deviam aspirar. T odo conhecim ento que tivesse por fim a com­
preensão da qualidade era considerado de m enor valia.
Procura-se hoje, é certo, resolver as antinom ias do conhecim ento cien­
tífico naturalista e histórico. Edgar W in d (23), por exemplo, afirm a a
introm issão do observador no processo de conhecim ento da própria física
e estabelece um a analogia em m atéria de evidência en tre o docum ento e o
instrum ento físico, o qual, como aquele, participaria da estrutura do que
pretende revelar. D eixou de lado, contudo, um fato fundam ental. A
razão da im possibilidade de exatidão por parte da ciência histórica, tão
denunciada p o r Dilthey, está em que na pesquisa da qualidade existem
elementos mais ou menos inter-relacionados com a concepção do m undo
do sujeito conhecedor. Assim, por exemplo, se n a teoria de Einstein
existe um a relação entre o observador e o fato, de tal m odo que as figuras
geométricas descritas por um corpo, ao ser lançado no ar, dependem dos
sistemas de coordenadas do observador, coordenada da inércia ou do mo­
vimento, não existe n a relação: fato e observador, um a concepção do m un­
do que o impeça de estabelecer um a lei válida universalm ente p ara os
observadores dos dois sistemas de coordenadas.
A história tem como fito a particularização do único e do que não
ocorre outra vez. Por isso ela nunca se repete. P or isso tam bém não é
possível determ inar leis, tal como acontece nas ciências naturais, em que
a repetição dos fenômenos obedece à mesma ordem de causalidade, dá
lugar a leis generalizadoras para todos os fenômenos produzidos segundo
as mesmas circunstâncias de causa e efeito.
Temos, assim, segundo Rickert, um a m aneira clara de distinguir entre
os dois objetos. A realidade é natureza quando a consideramos com re­
ferência ao universal; é história quando a consideramos com relação ao
particular, ao individual. Daí se origina um a conseqüência metodoló- r
gica: o processo generalizador da ciência natu ral e o processo individuali-
zador da ciência histórica. Existem duas espécies de trabalho de caráter
científico; de um lado o das ciências naturais, generalizadoras, e de outro
o das ciências históricas, culturais ou sociais, particularizadoras.
R ickert e Dilthey divergem em alguns pontos. A própria designação
diltheyana de ciências do espírito é considerada por R ickert como defi-
cientíssima para as ciências particulares não-naturalistas, desde que, para
ele, a psicologia, sendo como reconhece o próprio Dilthey um a ciência
n atural, não poderia servir de base para as ciências do espírito. Rickert
propõe a designação de ciências culturais, tendo como fundam ento a his­
tória. A oposição ao conceito de natureza encontra-se no de história, como
o de suceder singular, n a sua particularidade e individualidade.

(23) E dgar W ind, “Some Points of Contact between H istory and N atu ral Science” , in
Philosophy ir History. Essays Presented to Ernst Cassirer, Oxford, Clarendon Press, 1936, 255-264.

70
O conceito de valor de Rickert

Para que se tenha um a compreensão m elhor da posição de Rickert


é necessário falar-se do conceito de valor em sua teoria. O que torna o
fato histórico um suceder singular n a sua particularidade, na sua indivi­
dualidade, na sua irreversibilidade é a relação de valor que dá ao acon­
tecim ento a im portância de fato histórico. Assim como o hom em indivi­
dual é incapaz de acum ular em sua m emoria toda a soma de detalhes de
que foi testem unha, não conservando e não falando senão daqueles que
lhe pareceram im portantes, ou que possuam a seus olhos certo valor, do
mesmo modo o conjunto das recordações da hum anidade não é constituído
senão pelos fatos e acontecimentos que apresentam um a relação qualquer
com valores que determ inam a vida da espécie. Entre a enorm e m ultidão
de objetos individuais, diferentes todos uns dos outros, fixa-se o historia­
dor somente naqueles que, pela sua peculiaridade individual, encarnem
valores culturais ou estejam em relação com estes.
O conceito de cultura proporciona, assim, o princípio de seleção do
essencial para a conceituação histórica. Os valores que residem na cultura
e as referências a eles constituem o conceito de individualidade histórica
apta a ser exposta. A história como ciência, ou como ciência da cultura,
não é possível senão quando existem valores que têm um alcance geral e
que nos fornecem a razão da escolha e da síntese dos fatos.
Essa posição de R ickert mereceu apoio do próprio W indelband, seu
predecessor e seu mestre, que a aceitou integralm ente. Mas, ao mesmo
tempo, é um dos pontos em que R ickert tem sofrido maiores críticas. É
a noção de valor que ensina a distinguir, em história, o que é essencial
do que não o é. Os fatos só se tornam históricos quando se referem a va­
lores de cultura ou valores de civilização. O conceito de valor é, por­
tanto, fundam ental no sistema de Rickert. H averá que distinguir quatro
atitudes hum anas: a prim eira, cega para os valores, constitui a essência
do pensam ento naturalista; a segunda, valorativa, constituiria a essência
da lógica, da m oral e da estética. Ao lado dessas duas atitudes, a não-
valorativa e a valorativa, teríamos outras duas: a que refere realidades
a valores e a que supera os valores. A prim eira é o m undo da cultura,
onde se coloca a história; a segunda o da religião.
Desde logo, cabe distinguir entre avaloração ou referência a valor e
valoração ou valorização de natureza prática, que é elogio ou censura. Não
se trata, por exemplo, de dizer se a Revolução Francesa foi benéfica ou
nociva p ara a França ou a Europa, mas se foi im portante e significa­
tiva (24).

(24) H . R ickert, Ciencia cultural y ciencia natural, Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1937, 109.
A h istória prova a verdade ou falsidade dos fatos e não das opiniões, diz G. M. Trevelyan,
era T h e Recreations o f an Historian, Londres, T hom as Nelson and Sons, 1919, 54.

71
Crítica ao conceito de valor de Rickert

Para Rickert, os valores reconhecidos por todos os homens são, para


a história, o que as leis são para as ciências naturais. Esta opinião foi
aceita por W indelband e Dilthey, tornando-se o ponto crítico de todo o
sistema rickertiano (25). Nesta parte R ickert foi censurado por grandes
figuras, como por exemplo Ernst Troeltsch, M ax W eber, Ernst Cassirer,
E duard Meyer e A. D. X en o p o l(26).
O grande historiador E duard Meyer opôs à teoria do valor de R ickert
a d a eficácia histórica. É histórico aquilo que é ou foi eficaz(27). Mas
R ickert respondeu satisfatoriam ente a essa objeção, lem brando que a pro­
posição — a história expõe o que é historicam ente eficaz — não é outra
coisa senão um a fórm ula diferente de dizer que a história trata dos efeitos
essenciais para os valores culturais. Onde faltar o ponto de vista do valor,
que é o que decide quais os efeitos historicam ente essenciais, tornar-se-á
com pletam ente inaplicável, como princípio de seleção, o conceito da efi­
cácia histórica (28). Bauer, por exemplo, lem bra que a eficácia histórica,
por meio da qual um fato passa o um bral da consciência histórica, ou se
faz digno da história, está condicionado: 1) pelos sinais externos dos seus
efeitos (juízos dos contem porâneos ou da posteridade); 2) pela influência
que provadam ente exerceu sobre outros fenômenos (29). Ora, se a eficácia
se resolve segundo os juízos dos contemporâneos, isto é, os valores dos
contemporâneos, então a tese de R ickert é apenas um segundo passo da­
quela de Meyer. Um fato histórico é eficaz segundo os juízos de valor dos
contem porâneos ou segundo o “interesse histórico” que o presente atribui
a tal ou qual ordem de fatos.

(25) A opinião de W. W indelband aparece registrada um pouco adiante. Dilthey trata


do assunto no livro E l m undo histórico, México, Fondo de C ultura Económica, 1944, 317-318.
(26) A m elhor revisão crítica encontra-se em Ernst Troeltsch, Der H istorism us und seine
Probleme, T übingen, M ohr, 1922, 200-220. Troeltsch adm itiu que o homem ativo e a história
que relata suas atividades não podem ser compreendidos sem a idéia da relatividade dos valores.
É um a posição de acolhim ento m oderado, ou m elhor, relativista. Ernst Cassirer, ao assumir
posição contrária à de R ickert, em sua Z u r L ogik der Kulturwissenschaften (G otem burgo, 1942),
faz a este graves objeções. Achou mais n atu ral e plausível a atitu d e do grande historiador e
teórico E duard Meyer. Cf. sua Antropologia filosófica, México, Fondo de C ultura Económica,
1945, 356.
(27) E duard Meyer, “ Z ur T heorie und M ethodik der Geschichte’', K leine Schriften zur
Geschichtstheorie un d zur wirtschaftlichen u n d politischen Geschichte des A ltertum s, H alle,
Vcrlag von Max Niemeyer, 1910, 43-44.
(28) H . R ickert, Ciencia cultural y ciencia natural, Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1937, 115.
(29) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 35, e
E duard Meyer, “Z ur T heorie u n d M ethodik der Geschichte” , já citado, 44. Assim como
Colombo ignorava haver descoberto o novo m undo, assim tam bém D arw in ignorou que sua tese
biológica conduzia à admissão do histórico no biológico. “ O histórico, que era até então
sim plesm ente tolerado, passou a ser cham ado a substituir o racional. N ão se adm ite outra
explicação racional do m undo orgânico senão a que consiste em m ostrar sua gênese. As leis
da natureza real passam a ser leis históricas; sua descoberta é a única coisa que nos perm ite
fu g ir ao simples esquem atism o lógico e rem ontarm os às verdadeiras causas dos fenômenos” .
Como explicar-se, pergunta Cassirer, que a teoria da evolução alcançasse tal im portância e
vigor no pensam ento do século xix, se o seu m aterial probatório era tão deficiente e lacunoso ?
É porque na atitu d e espiritual do século xix havia o prim ado da história e com aquela teoria
esta m entalidade penetra no campo da biologia. E rnst Cassirer, E l problema del conocimiento,
México e Buenos Aires, Fondo de C ultura Económico, 1948, 244-245.

72
Aqui, ainda, pode-se recordar que Ernst Cassirer, ao declarar que o
conhecim ento histórico é a resposta a perguntas levantadas e ditadas pelo
presente, pelos nossos interesses intelectuais, morais e sociais presentes (30),
não faz senão reconhecer, de certo modo, que a eficácia depende do
juízo de valor dos contemporâneos. Apenas o presente, segundo Meyer,
n ão é jam ais histórico, porque ainda não produziu efeitos.
Crítica mais séria foi apresentada por Xenopol, ao dizer que para
firm ar essa noção de valores culturais teríamos de submeter-nos ao critério
do valor absoluto e que, dessa forma, a m oral passaria a ser o fundam ento
de toda a ciência histórica. Aliás, W indelband, que precedeu R ickert na
exposição do problem a, mas depois o seguiu nessa questão dos valores,
afirm ou ser a m oral a ciência filosófica dos valores gerais que constituem
a teoria do conhecim ento geral da história (31). Ela se incum biria da
análise dos princípios sem os quais a pesquisa histórica não poderia fazer
um só passo para se orientar n a escolha da quantidade inum erável dos
fatos que encontra. Para Xenopol, essa noção de valor que escolhe os
fatos, que designa os que im porta conhecer e os que se devem afastar, não
pode ser exclusiva da história e não pode servir para a constituição cien­
tífica desta pelos seguintes motivos: prim eiro, porque é estranha ao do­
m ínio da lógica, por ser de natureza moral; segundo, porque não pode
ser absoluta, e a ciência não pode basear-se no relativo; terceiro, porque se
se lhe dá a acepção de síntese científica, ela pertence à esfera de todo o
conhecim ento e não pode constituir traço distintivo da história; quarto,
porque se for entendida como valor cultural aplica-se a todo o dom ínio das
ciências do espírito; e, finalm ente, porque ela se induz somente da evo­
lução do espírito e não pode ser aplicada à evolução inteira.
Apesar dessa divergência, que parece separar tão frontalm ente Xe­
nopol de Rickert, a verdade é, como diz Troeltsch, que ambos são, no
fundo, m uito aparentados (32).

X enopol

Foi em 1899, nos seus Princípios fundam entais da história, que Xe­
nopol pela prim eira vez estudou a diferença entre a história e as outras
ciências. Mais tarde, na sua Teoria da história, publicada em 1908, de­
senvolveu as idéias que havia abordado em seu prim eiro livro. Para Xe­
nopol, o fundam ento lógico que há de ditar um a classificação racional
das ciências consiste em distinguir os fatos de repetição dos fatos de suces­
são. A ciência se dividiria, assim, em dois ramos. O prim eiro compreen­
deria os fenômenos em que em nada influi o tempo, a saber, os de repe-
(30) E rnst Cassirer, Antropologia filosófica, México, Fondo de C ultura Económica,
1945, 326.
(31) W. W indelband, “ La science et 1’histoire devant la logique contem poraine” , R evue de
synthèse historique, t. ix, n.° 26, 1904, 136-137, e L ehrbuch der Geschichte der Philosophie,
3.a ed., T ü b ingen, 1903, 542-552.
(32) E rnst Troeltsch, D er H istorism us un d seine Probleme, T übingen, M ohr, 1922,
110-111, nota 48.

73
tiçâo. O segundo com preenderia as ciências que tenham por objeto os
fenômenos submetidos ao influxo transform ador das forças que atuam no
tempo, a saber, os sucessivos. X enopol designou as ciências da prim eira
categoria de teóricas, ou, segundo H erm ann Paul, ciências de leis, reser­
vando para as segundas o nom e de ciências históricas. Ao passo que as
outras ciências estudam os fenômenos que se repetem mercê da perm a­
nência e da força que os produz e que, assim, incidem constantem ente em
condições essencialmente idênticas no tempo e no espaço, os fenômenos
históricos nunca se repetem , não fazendo mais que suceder-se, pois ainda
que as mesmas forças os produzissem, as circunstâncias já se teriam de tal
modo modificado, seriam tão diferentes que os efeitos não poderiam ja­
mais ser idênticos.
Daí conclui Xenopol que as ciências dos fenômenos de repetição são
as únicas que podem form ular leis. As séries são os quadros gerais de
sucessão em que se enfileiram os fatos individuais evolutivos, isto é, his­
tóricos. Ao passo que as ciências dos fenômenos de repetição têm por
fim descobrir leis, a história tem por objeto estabelecer a série dos acon­
tecimentos, isto é, ligá-los entre si e relacioná-los com a sua causa. O ele­
m ento da série evolutiva ocupa todo o campo da sucessão. Do ponto de
vista lógico, acrescenta Xenopol, essa circunstância torna a série apta
para constituir o elemento distintivo da sucessão, porque, como diz R i­
ckert, a realidade não pode ser observada senão de duas maneiras: nas
ciências de repetição por meio das noções gerais e nas ciências históricas
por meio dos fatos individuais. As ciências de repetição encontram um
elem ento universal que as caracteriza, a lei; as ciências de sucessão neces­
sitam tam bém de um elem ento que seja aplicável a todas elas, e esse ele­
m ento é a série. A série histórica é sempre única e particular em relação,
ao tem po no qual se realiza e ao qual vai encadeada de m odo indissolú­
vel. A série difere da lei quanto à relação em que se acha com o elemento
tempo. E nquanto a lei independe dele, a série só no seu transcurso'
existe (33).
X enopol cita, então, vários exemplos de série. T o d a série de desen­
volvimento enquadra um a sucessão de fatos que parte de um núcleo, sobe
ou baixa p ara chegar a um resultado que dê nome à série. É típico o
caso da evolução das liberdades inglesas que tiveram sua origem na con­
quista norm anda e que se desenvolveram através de grande núm ero de
fatos e sucessos até a C onstituição de 1628, que fixou de m aneira defini­
tiva o triu n fo do constitucionalismo. O utro exem plo é o da afirmação
do poder real na França, que começa com Luís vi e chega, através dos
(33) Depois da teoria da relatividade de Einstein é impossível sustentar que a lei inde­
pende do tempo. É sintom ática como exemplo, apesar do evidente exagero, decorrente da falta
de contato teórico com a história, a afirm ação de E instein e Infeld de que na “ física, m uito
mais do que na história, a exata caracterização de onde e quando um acontecimento se verificou
é de grande im portância, porque esses dados form am a base de um a descrição q u an titativ a” .
A lbert Einstein e Leopold Infeld, T h e Evolution of Physics, Nova York, Simon e Schuster,
1938, 210. Ela mostra, talvez, a influência do pensam ento histórico no campo das ciências
físicas. A ntigam ente não se levavam em conta fatores essenciais de toda investigação histórica,
como datas, e hoje se acredita que a descrição histórica presta todos os serviços próprios da
explicação. Vide E rnst Cassirer, El problema del conocimiento, México e Buenos Aires, Fondo
de C ultura Económica, 1948, 134, 246-247.

74
fatos mais diversos, ao apogeu de seu desenvolvimento com Luís xiv,
fazendo triu n far por completo o poder absoluto. O renascim ento artís­
tico nasce na Itália com Nicolás Pisano e penetrando cada vez mais fundo
nos espíritos faz triu n far definitivam ente o retorno da p in tu ra e da escul­
tura às velhas formas da Antiguidade.
C oncluindo, Xenopol afirm a três principios: que a historia é em si
um a ciência; que a noção de valor é inteiram ente estranha à historia e
que ela não tem necessidade de apoiar-se em tal noção para constituir-se
em ciência; que o verdadeiro elemento organizador da ciência histórica é
a série.

Crítica a X enopol

A teoria de X enopol tem sido bastante discutida e m uito poucos a


aceitam. A verdade é que ele, ao apresentar suas novidades, limita-se a
períodos m uito curtos, a exposições m uito breves e é m uito pobre em suas
exemplificações. A oposição que estabelece entre os fatos de coexistência
e repetição ou os de sucessão não poderia satisfazer-nos porque nos obri­
garia a aproxim ar estudos tão diversos como a história dos astros ou a das
espécies ao estudo das sociedades. Isso se nota na sua classificação das
ciências e especialmente na parte referente aos fenômenos de sucessão, pois
ao lado das ciências da m atéria, que seriam a geologia, a paleontologia
e a teoria da hereditariedade, Xenopol coloca as ciências do espírito, a
história em todos os seus ramos. De m odo que a geologia, expondo a
história da terra, e a paleontologia, expondo a sucessão dos seres na
superfície do globo, se aproxim ariam ou estariam classificadas dentro do
mesmo grupo de sucessão com a história política ou a história das insti­
tuições econômicas. Esse grupo de conhecimentos sucessivos seria, para
X enopol, a classe das ciências históricas reais (34).
D ificilm ente se poderia concordar em que a paleontologia ou a geo­
logia pudessem se aproxim ar da história civil, social ou econômica pelos
seus objetivos e pelos seus métodos. Além disso, como bem observou
Troeltsch, aqueles que, como Xenopol, adm item duas espécies de causa­
lidade, a das ciências naturais e a das ciências do desenvolvimento his­
tórico ou tam bém psicológicas, chegam a esse resultado através da analogia
que estabelecem com as ciências naturais e, portanto, através de forte
inconseqüência (S5).
Realm ente, X enopol estabelece um a dupla forma de causalidade: a
dos fatos que se repetem e a dos fatos que se seguem, e depois estabelece
como princípio que a causalidade nos fatos de repetição, ou seja, nas ci­
ências naturais, tem m uito menos im portância do que a causalidade nos
fatos de sucessão ou nas ciências históricas, para chegar à aplicação, num a
(34) Sobre a classificação das ciências de Xenopol, vide sua Teoria de la historia, M adri,
1911, 27-28, e especialmente seu artigo “ Les classificaiions des sciences et 1’histoire” , R evue de
Synthèse H istorique, t. II, 1901, 264-276.
(35) E rnst T roeltsch, Der Historismus und seine Probleme, 659-660.

75
analogia inconseqüente, da causalidade n atu ral às ciências de sucessão ou
históricas. Tratarem os da causalidade na história em capítulo especial.
Como vimos dessa exposição, um a nova classificação das ciências apa­
rece, rom pendo com pletam ente com o critério das anteriores. As de Bacon,
d ’Alembert, Comte são todas inspiradas no naturalism o. O que caracte­
rizava a ciência em geral era a existência de leis naturais. A contribuição
de D ilthey e R ickert está em que, pela prim eira vez, se vê aparecer, ao
lado do m undo da natureza, o m undo da história e, ao lado da ciência na­
tural, um a ciência histórica, social ou cultural, filosoficamente justifica­
da (36). A novidade dessa classificação está em que ela quebra com toda
a tradição da lógica aristotélica. Desde Aristóteles era aceito unanim e­
mente, inclusive pelos historiadores, que um a disciplina científica não
adm itia o particular, o individual. A idéia de universalidade, como pres­
suposto da ciência, ficou definida por Descartes e por K ant, como vimos.
Das investigações de D ilthey e de R ickert percebe-se, antes de tudo, o fato
de que existe outro proceder científico distinto form alm ente da ciência
natural.
Não se coaduna bem esse fato com a lógica tradicional ? pergunta
Rickert. Pois tanto pior para ela, responde. H á tam bém ciências que não
se propõem estabelecer leis naturais e que não se preocupam de modo
absoluto em form ular conceitos universais. São elas as ciências históricas,
no sentido mais amplo da palavra.
N ada há a objetar aos que quiserem reservar o nome de ciência para
os produtos da concepção generalizadora, diz Rickert, e nem se poderia
cham ar sem elhante determ inação terminológica de verdadeira ou falsa;
mas ninguém sustentará que seja particularm ente feliz um a term inologia
que não adm ite o nom e de ciência para as obras de R anke e de outros
grandes historiadores. M elhor será, ao contrário, esforçar-se por elaborar
um conceito de ciência que com preenda de fato tudo que geralm ente se
tem como ciência. Para tal fim, porém, é preciso ter em conta, antes de
tudo, que as ciências não apresentam sempre a mesma form a do m étodo
naturalista ou generalizador. Este é, portanto, o ponto decisivo.

N aturalism o e historicismo

Desde que a história lida com fatos individuais, seu conteúdo e seus
métodos hão de, por força, ser diferentes dos das ciências naturais. A con­
tribuição essencial dos grandes pensadores alemães que citamos é ter mos-
(36) A classificação das ciências da hum anidade ou ciências morais, em oposição às
ciências da natureza, é do século xvm , embora sem nenhum a fundam entação lógica e filosófica. Cf.
W. Dilthey, El m undo histórico, México, Fondo de C ultura Económica, 1944, 106; Ernest
R enán, U avenir de la Science, pensées de 1848, Paris, s. d.., 211.. No volume especial da
R evu e de Synthèse H istorique (t. 62, 1931), dedicado às ciências da natureza e à síntese geral,
P aul Valéry (9-11) considerou aquelas essencialmente diferentes das ciências do espírito.
“J ’appelle Science, au sens m oderne, l ’ensemble des recettes q ui reussissent toujours. H istoire,
psychologie, m orale, sociologie appartiennent entièrem ent à la catégorie du savoir non vérifiable.
L eu r a ttrait et leur intérêt est essentiellem ent de produire des excitations de l ’esprit” . O q u e não
for receita é literatura. A dicotomía lettres et sciences, tradicional na França, está aqui bem
caracterizada. T am bém quando Valéry fala de excitations lem bra a exterioridade dos êxtases
na linguagem de Heidegger.

76
trado a diferença entre naturalism o e historicismo, as duas grandes con­
cepções científicas do m undo m oderno, desconhecidas nesse sentido pela
A ntiguidade e pela Idade Média. Exatidão, clareza, lógica e calculabili-
dade são propriedades do conhecim ento natural, como acentua Troeltsch.
M utabilidade, criação, plenitude e responsabilidade, dram atism o e perso­
nalidade pertencem à história.
A essa teoria da vida histórica, entretanto, não pode estar ligado ne­
n h u m desprezo pelas ciências naturais. É justam ente p o r meio dela que
podem ser destacadas a grandeza da oposição e a im portância das ciências
naturais. Com a delim itação puram ente lógica entre os dois métodos pos-
sibilita-se o m elhor exam e de um a realidade que se apresenta universal
ou p articular aos olhos do observador. O historicismo, como um movi­
m ento hum anista e filosófico que, em oposição ao naturalism o, busca na
história o fundam ento de um a concepção do m undo, continua a ser um a
das bases das mais recentes atividades que se desenvolvem no campo da
teoria das ciências. Pelo menos assim é na Alem anha, onde mais a fundo
se penetrou neste problem a e onde se afirm a hoje com m aior força de con­
vicção, e em sentido m uito mais am plo do que aquele da época em que
R ickert escrevia, o ponto de vista de um a ciência'do espírito com exis­
tência p rópria (37).
O historicismo significou, assim, um a separação do naturalism o, fun­
dam entando pela prim eira vez um a teoria do conhecim ento das ciências
do espírito sob bases próprias, emancipando-as da tutela das ciências na­
turais. Ele revelou que a ciência e a gênese do conhecim ento histórico
diferiam fundam entalm ente da investigação própria das ciências naturais,
que a história que não buscasse a meta de seus conhecimentos no p arti­
cular dos acontecimentos mesmos se condenava a uma’ atrofia geral. O
m ovimento historicista teve um a im portância tão fundam ental, que hoje
se diz que o que h á de novo nas ciências naturais deriva do que a his­
tória lhes forneceu.
H á para o naturalista, diz Mach, um a especial cultura clássica, que
consiste no conhecim ento das leis que presidem a evolução de sua ciência.
Não abandonem os a m ão guiadora da história. A história fez tudo e pode
m udar tú d o (38).
Deste modo, o século xix assiste ao prim eiro deslinde substancial de
campos entre dois grandes ideais. O ideal das ciências m atemáticas da n a­
tureza, que havia dom inado o século x v i i i , j á não está isolado. Desde
H erder e o Rom antism o, enfrenta-o, de modo cada vez mais enérgico e
consciente, o utra direção espiritual e outra potência do espírito. Pela
prim eira vez, no campo da filosofia e da ciência se vê colocado no centro
da atenção o conhecim ento histórico (39).

(37) J. H uizinga, E l concepto de la historia y otros ensayos, México, Fondo de Cultura


Económica, 1946, 25. Cita, a propósito, na nota 3, trabalhos de E. R othacker, T heodor L itt
e H ans Freyer.
(38) E. Mach, D ie Geschichte und die W urzel des Satzes von der E rhaltung der A rbeit,
Praga, 1872, citado po r Cassirer, El problema del conocimiento, 134.
(39) E rnst Cassirer, E l problema del conocimiento, 244-246.

77
Foi à história que a ciência n atu ral pediu em prestado o conceito de
evolução. Cassirer m ostra como nada h á de novo, de essencialmente novo
no campo da natureza que já não estivesse im plícito na física do século
xvii. E duard Meyer, tão insuspeito quanto a um a afirmação dessa n atu­
reza, porque não se filiou ao m ovimento de Rickert, sustenta que todas as
disciplinas descritivas naturais e a geologia tom am cada vez mais um ca­
ráter histórico. E segundo W indelband, a única direção em que se ultra­
passou os princípios encontrados, estabelecidos e elaborados no século
xvn, foi determ inada pelo fato de haver-se pedido em prestado ao pensa­
m ento histórico o princípio da evolução. Deste modo, nas próprias ciên­
cias naturais o princípio novo foi de natureza histórica (40).

Historicismo e historicismos

A palavra historicismo (41) foi, provavelm ente, usada pela prim eira
vez por Karl W erner, ao falar do historicismo filosófico de Vico (42), num
dos melhores estudos sobre o grande autor da Scienza nuova. Vico foi
o único, em sua época, a lu tar contra o naturalism o cartesiano e o me­
canicismo das ciências naturais. A palavra teve, assim, nascim ento le­
gítimo, significando aquela concepção da realidade como história e que
só historicam ente pode ser conhecida. Mas o conceito não teve aceitação
e a palavra foi utilizada inadequadam ente por Carlos Menger, em seu
livro de crítica à escola histórica da economia de Gustavo Schmoeller (43),
e p o r Adolf W agner, em 1892, no mesmo sentido de valorização excessiva
da história ou das origens dos erros econômicos presentes.
É em 1905 que Karl Lam precht se refere ao “im potente espírito de
epígono da arte e da poesia, como ao infrutífero historicismo das ciências
do espírito dos anos 50 a 70 do século xix ” (44). Não é preciso lem brar que
Lam precht foi o historiador que mais procurou sujeitar as ciências histó­
ricas ao dom ínio das ciências naturais. A história da hum anidade era
apenas um a continuação da história da natureza. Estávamos, então, em
pleno dom ínio da biologia e da teoria evolucionista. A plicar seus p rin ­
cípios às ciências históricas parecia ser a últim a palavra. Lam precht não
percebia que o grande m ovim ento historiográfico do século xix iria con­
duzir à elaboração da razão histórica e à sua total emancipação do n atu ra­
lismo. O uso inadequado continuava. George Simmel, tratando da teoria
do conhecim ento histórico, assinala como historicismo o simples conhe­
(40) E d u ard Meyer, “ Z ur T heorie und M ethodik der Geschichte” , K leine Schrifíen zur
Geschichtstheorie u n d zur wirtschaftlichen und politischen Geschichte des A ltertum s, Halle,
Verlag von M ax Niemeyer, 1910, 127. O mesmo em R. G. Collingwood, T h e Idea o f History,
O xford, Clarendon Press, 1946, 208-209.
(41) Boa exposição, que seguimos em parte, é a de K arl Heussi, Die Krisis des Historismus,
T ü bingen, 1932. Vide tam bém Frederich Engel-Janosi, T h e Growth o f Germán Historicism,
Baltim ore, 1944.
(42) Giambattista Vico ais Philosoph un d gelehrter Forscher, Viena, 1881.
(43) Die Irrtüm er des H istorism us in der Deutschen Nationalôkonom ie, Viena, 1884, apud
E. Meinecke, E l historicismo y su génesis, México, 1943, 11.
(44) M oderne Geschichtswissenschaft, F riburgo, 1905, 12.

78
cimento da produtividade form adora do nosso espírito (45). Era já um
passo para o seu exato sentido.
É somente em 1922, quando aparece o livro de Troeltsch (46), que se
passa a definir o historicismo como um dos traços fundam entais do
século. “O naturalism o e o historicismo são as duas grandes criações cientí­
ficas do m undo m oderno, desconhecidas nesse sentido pela A ntiguidade
e pela Idade Média, enquanto, ao inverso, a metafísica, a ética e a lógica
nele decaíram .” “Este historicismo se opõe principal e geralm ente ao na­
turalism o e é preciso afastar os falsos subentendidos dessa palavra, que deve
ser com preendida como toda realidade de um a vasta conexão que abstrai
de toda experiência im ediata e de todo qualitativo, abrangendo tudo o
que existe. O naturalism o é o fundam ento de um sistema de expressão
possivelmente matem ática, de leis de relação quantitativa, de onde se
liberta do acaso e das impressões visuais, atingindo ao m aior grau de ex­
tensão e clareza, de dom ínio do que m uda e do que é sempre o mesmo e
constitui a m aravilhosa base de todas as técnicas que o hom em já conhe­
ceu. A ele são devidos os progressos da matem ática, astronom ia, física,
quím ica, biologia, etc.” J á o historicism o é a própria compreensão do
espírito enquanto se trata de sua produção na história, como se verá
adiante.
N ão nos parece que possa haver m elhor definição e o tratam ento de
T roeltsch não teve ainda quem o superasse. Mas a conceituação de
T roeltsch não é a única e deve-se distinguir, pelo menos, três grupos
distintos, de raízes comuns. Se para T roeltsch o historicismo é um a con­
cepção do m undo, um a interpretação filosófica que se opõe ao naturalism o
cartesiano, para Meinecke, que escreveu a história dos precursores do
historicismo (47), ele é um a das maiores revoluções espirituais surgida no
pensam ento dos povos do Ocidente. Sua substância está na substituição de
um a consideração generalizadora das forças hum anas históricas por uma
consideração individualizadora. O historicismo, para Meinecke, é mais que
um m étodo das ciências do espírito, pois não julga, ao contrário da dou­
trin a jusnaturalista, que o homem, com sua razão e suas paixões, com
seus vícios e virtudes, haja sido sempre o mesmo, fundam entalm ente, em
todos os tempos. A doutrina jusnaturalista contém um fundo de verdade,
mas desconhece as profundas transformações e a diversidade das formas
que experim entam a vida aním ica e espiritual do indivíduo e das comu­
nidades, não obstante a perm anência das qualidades fundam entais hum a­
nas. Ele é, assim, o mais alto grau atingido até agora para a compreensão
das coisas hum anas no campo da filosofia e da historiografia. O histo­
ricismo que, em geral, não era só um a nova m aneira de ver do historia­
dor, senão de toda a vida hum ana, levou o processo de individualização
à sua p rópria consciência, porque ensinou a com preender toda a vida
(45) Die Probleme der Geschichtsphilosophie, Leipzig, 1907, ix, 28.
(46) Der H istorism us un d seine Probleme, T übingen, M ohr, 1922, 104. T roeltsch, em
seu D er Historismus und seine Ueberxvindung (Berlim , 1924), tentou superar o historicismo
como um a reivindicação da consciência m oral, pois para ele o historicismo levava ao relativismo
absoluto. Vide sobre” a superação do historicismo, Karl Jaspers, Origen y meta de la historia,
M adri, 1949, 291-295.
(47) El historicismo y su génesis, México, 1946.

79
histórica como evolução do individual, ainda que sempre encam inhada
em cursos típicos e regulares.
O terceiro grupo, o mais extrem ado, é representado por Croce. O
historicismo é a afirmação de que a vida e a realidade são história e nada
mais que história. O historicismo nasceu em oposição ao racionalismo
abstrato e à Ilustração, e seu mais im portante precursor é J. B. Vico, que
prim eiro refutou as extremas conseqüências do direito natu ral e do carte­
sianismo. Vico só foi com preendido quando as novas gerações se conver­
teram de “ilustradas, enciclopedistas e jacobinas, em românticas, histo-
ricistas e liberais”. Para chegar à concepção de que a vida é história e
estabelecer o historicismo como um princípio lógico foi preciso um a re­
volução espiritual que contém em si a sucessão de vários pensadores e filó­
sofos. Para Croce, história e filosofia são idênticas, pois que um a e outra
consistem na forma lógica do juízo, que é verdadeiro e genuíno. O ho­
mem conhece o que faz e assim verdade e fato se convertem um no outro.
O meio de conhecim ento da filosofia é o conhecim ento histórico, de tal
m odo que aquela é um a espécie de historiografia ideal. A distinção que
se costuma fazer só tem valor didático, mas não rigor absoluto.
Croce aproxim ou os conceitos hum anism o e historicismo p ara mos­
trar a identificação de ambos nesta fórm ula: o historicismo é o verdadei­
ro hum anism o. O princípio universal do hum anism o consiste na referên­
cia a um passado, para ex trair dele as luzes que esclareçam a obra e ação
próprias. Mas o hum anism o, por amplas que fossem suas concessões, n u n ­
ca chegou à conclusão que ele mesmo enunciava, isto é, que o passado,
graças ao qual se ilum ina nossa determ inação e ação, é a história inteira
da hum anidade, que de vez em quando volta a fazer-se presente. A rea­
lidade é história e só historicam ente a conhecemos; as ciências podem me­
di-la e classificá-la, como é necessário, mas não a conhecem propriam ente,
nem é seu ofício conhecê-la intrínsecam ente (48).
Estas são as principais acepções. Outras foram dadas por Karl Mann-
heim e E. R othacker (49). O prim eiro definiu o historicismo como um
poder espiritual de imprevisível alcance, “o verdadeiro suporte de nossa
concepção do m undo, um princípio que não só organiza, com mão invi­
sível, todo o trabalho científico-espiritual, como condiciona a vida diária.
O historicismo não é historiografia, mas concepção d o m undo, e seu eixo
filosófico é o pensam ento da evolução”. Para Rothacker, o historicismo é
um a direção das ciências do espírito; o que se nota é a historização das
ciências espirituais, isto é, das ciências hum anas, em contraposição às fí-
sico-naturais.
H á outras acepções, como, por exemplo, a de Karl Popper, segundo
o qual historicismo é a “teoria ligada a todas as ciências sociais, que faz
(48) Vide especialmente La historia como hazaña de la libertad, México, Fondo de C ultura
Económica, 1942 ( “El historicismo y su historia” e “ Historicismo e hum anism o”); II carattere
delia filosofia modern'a, 2.a ed., Bari, 1945 (onde discute o conceito de filosofia como histo­
ricismo absoluto); Filosofia e storiografia, Bari, 1949 (O historicism o e a idéia tradicional da
filosofia). Vide ainda M anlio Ciardo, L e quatro epoche dello storicismo (Vico, Kant, Hegel,
Croce), Bari, 1947.
(49) Cf. “ Historism us” , A rchiv fu er Sozialwissenschaft un d Sozialpolitik, vol. 52, i, 1-60;
E. R othacker, L ogik und Systematik der Geisteswissenschaft, Bonn, 1948.

80
da predição histórica seu principal fim e ensina que o mesmo pode ser
alcançado se se descobrem os ritm os ou padrões, as leis ou tendências
gerais que dirigem os desenvolvimentos históricos” (B0). Popper faz vigo­
rosa crítica ao historicismo.
Os conceitos ele Troeltsch, Meinecke e Croce apresentam traços co­
muns, que mostram sua raiz comum e unidade lógica, podendo ser assim
caracterizados: 1) O historicismo é a conseqüente historização fundam ental
de todo nosso pensamento sobre os homens para com preender sua cultura
e seus valores. 2) É um a categoria do conhecim ento hum ano, não só his­
tórico, mas até poético, como pensa Croce. O fato é a verdade. 3) É um
movimento espiritual, um a tendência que se opõe ao naturalism o e forma,
com este, um a das duas principais tendências dom inantes. 4) T o d a a ló­
gica m oderna se centraliza ora no pensam ento matemático-físico (natu­
ral), ora no pensam ento histórico-genético. Os dois movimentos não estão
apenas um ao lado do outro; procedem, apesar de todos os seus antago­
nismos, de raiz comum, da análise da consciência como fundam ento da
filosofia. 5) Ambos vingam no presente e levam a ameaçadores desenvol­
vimentos. O naturalism o pode conduzir ilim itadam ente a um a temível na­
turalização, ao m aterialismo, à desolação da vida; o historicismo, ao ce­
ticismo relativista dos valores e a um a dúvida da cognoscibilidade. 6) Como
disse Eugênio Imaz(51) trata-se, no historicismo, de um a consideração
historicista da problem ática filosófica. N o lugar da metafísica coloca-se
um a meta-história. No lugar da mathesis universalis de Descartes, a
história universal. A filosofia não encontra a verdade refletindo sobre
o m undo físico, que não é radicalm ente cognoscível, mas sobre o m undo
hum ano, o m undo histórico, sobre o hom em concreto, não abstrato. Desde
que não mais se reconhecem as norm as da formação da vida n o dogma
eclesiástico ou no seu descendente, o dogma racionalista, só restam a his­
tória como fonte e a filosofia da história como solução (B2).
Em conclusão, o historicismo não é só um a concepção do m undo,
um a teoria do conhecim ento filosófico, um a historização da vida. Signi­
fica que a vida é história (não historiografia) e não natureza, e só conhe­
cemos através da história (passado e vida presente). Procura elaborar os
fundam entos da razão histórica (como K ant elaborou os princípios da
(50) Vicie Karl Popper, Misère de Vhistoricisme, trad. francesa, Paris, 1956, xv. Esta
obra saiu prim eiro em francês; T h e Poverty of Historicism, Londres, 1957. T h e Open Society
and its Enemies, Londres, 1945 (trad. brasileira, Belo Horizonte, 1959) é tam bém um a mordaz
crítica ao historicismo. Vide também von Mises, Positivism. A Study in H um an Understanding.
H arvard University Press, 1951, 224, que entende o term o como exagero ou superestim ativa do
ponto de vista histórico.
(51) El pensamiento de D ilthey, México, El Colegio de México, 1946, 13-29. Análise
m uito valiosa das relações do historicism o e do existencialismo encontra-se em E. Nicol,
Historicismo y existencialismo, México, 1950.
(52) E. T roeltsch, D er Historismus, ob. cit., 109. A posição da Igreja em face da con­
cepção do historicismo, que desconhece “qualquer verdade ou lei absoluta” , está afirm ada na
Carta Encíclica ' ‘H um ani Generis” de Pió xn. Vide Sobre algumas doutrinas errôneas. D o­
cum entos pontifícios, Editora Vozes, Petrópolis, 1950, e Discours de Sa Sainteté L e Pape P ie x i i
au x em<‘ Congrés International des Sciences Historiques, 7 Septembre 1955, Cidade do Vaticano,
7, onde se diz: “ O term o historicismo designa um sistema filosófico; aquele que não percebe em
toda realidade espiritual, no conhecimento da verdade, na religião, na m oralidade e no direito,
senão m udança e evolução, e rejeita, por conseqüência, tudo o que é perm anente, eternam ente
válido e absoluto” .

81
razão pura), que se contrapõem aos do naturalism o, que é a base filosófica
das ciencias naturais. Historicismo e naturalism o são as duas estruturas
do conhecim ento teórico. Este é indispensável para o m undo extenso e
am plo da natureza, aquele para o m undo da vida hum ana; um correspon­
de ao m undo da exatidão, clareza, calculabilidade, o outro ao m undo
hum ano e social da historia, da criação, m utabilidade, responsabilidade,
conteúdo espiritual e criação de valores. O historicismo procura estudar
o m undo próprio da historia, isto é, a estrutura íntim a das operações e
transformações das nações no tempo.

Ciências naturais e culturais

Para fazermos um a comparação de exemplos que distinguem perfei­


tamente, segundo Rickert, as ciências naturais e culturais, basta lem brar
a exposição de von Baer sobre o desenvolvimento do pinto no ovo e a
exposição de Ranke sobre os papas romanos nos séculos xvi e xvn. No
prim eiro caso, um a m ultidão de objetos, em núm ero incalculável, ficou
reduzida a um sistema de conceitos universais, que se propõem valer para
a generalidade dos casos que se repetem sempre de novo. Ao contrário, no
segundo caso, um a série de realidades, um a série singular determ inada é
concebida de tal sorte que a particularidade e invidualidade de cada caso
recebe um a expressão que a exposição acolhe, a qual nunca existiu antes
e jam ais se repetirá. Dessa diversidade de problemas seguem-se, necessa­
riam ente, diversos modos e diversas formas lógicas de pensamento. Von
Baer, como todos os especialistas da ciência natural, reúne o que têm de
comum os diferentes objetos e o produto do seu pensam ento é, em tal
caso, o conceito específico universal. Ao contrário, R anke tem de reduzir
cada um dos papas a um conceito particular e, para consegui-lo, necessita
form ar conceitos com conteúdo individual.
O utro exemplo que bem pode ilustrar essa diferença entre as ciências
naturais e as ciências históricas é o seguinte: Um m eteorologista estuda
um ciclone com o fim de compará-lo com outros e estuda o seu núm ero
com o fito de verificar quais são suas características constantes, de modo
a poder dizer o que são os ciclones. O historiador procede de m aneira
diferente. Q uando ele estuda a Revolução Praieira ou a Balaiada, não
tem como fim últim o concluir o que sejam as revoluções. A diferença
está em que as ciências de observação, ciências naturais, são organiza­
das para fins diversos. E nquanto na organização da m eteorologia o fim
últim o do que se observou sobre um a situação é condicionado pela sua
relação conr o> que se observou em outras situações, na organização da his­
tória o valor últim o do que se conhece sobre a Balaiada ou sobre a Re­
volução Praieira é condicionado não pelas relações com o que é conhe­
cido sobre as outras revoluções, porém em relação ao que é conhecido
sobre as outras coisas que o povo fez na época da Balaiada ou da R evolu­
ção Praieira.

82
Características do fato histórico

A história é, assim, o suceder singular em sua particularidade, indi­


vidualidade e irreversibilidade.
Essa diferença essencial entre ciência n atu ral e ciência cultural, jus­
tificada filosófica e logicamente por D ilthey e Rickert, não ganhou logo
a unanim idade de historiadores e filósofos. Já acentuam os que m uito de­
pois da obra dos dois mestres, Lam precht fazia exatam ente o contrário:
usava e abusava da biologia n a história. Em bora os historiadores esti­
vessem bem m unidos m etodológicam ente p ara resistir a esta tentativa de
deturpação da história e a erudição alemã permanecesse cética em rela­
ção à falsa história científica de Lam precht, foi somente em 1903, na reu­
nião do Sétimo Congresso de Historiadores Alemães que Friedrich von
G ottl-O ttilienfeld protestou contra essa historiografia naturalista, negan-
do-se a adm itir que a história da hum anidade fosse apenas um a continua­
ção da história da natureza. E propôs, então, que se emancipasse o pen­
samento histórico do naturalism o (53).
No campo da história concreta, atendia-se ao pensam ento de Dilthey
e Rickert, mais tarde incorporado aos tratados de metodologia histórica.
Assim, p or exemplo, o mais recente tratado alemão, o de W ilhelm Bauer,
ao distinguir as duas espécies de ciência declara: a n atu ra l tende à sim­
plificação de sua conceituação, subordinando os fatos particulares a gran­
des conceitos gerais, ènquanto que a história se detém de preferência ante
a m ultiplicidade dos fenômenos e considera especialmente sua individua­
lidade e irreversibilidade, o fato de que se deu um a vez e não voltará a
se dar.
A ciência natural atinge a sua mais alta finalidade quando consegue
expressar em fórmulas gerais as relações fixas que existem entre os ele­
mentos da realidade. Ela atomiza, em prim eiro lugar, o m undo, e logo o
reduz a um esquema (lei matemática), a um a receita, no dizer de Paul
Valéry, dom inada pela necessidade. Por isso a sua finalidade é o conhe­
cim ento do geral, enquanto que a finalidade da história é a compreensão;
um a compreensão que quer que reviva entre nós a vida em toda sua ple­
nitude de relações, tendendo a conhecer o que é especial n a generalidade
do conceito.
Vimos, com Dilthey, o papel que representa a compreensão nas ciên­
cias culturais e especialmente na história, considerada por Cassirer como
um a ciência herm enêutica, ao contrário das ciências naturais que são ci­
ências de leis. Os conceitos de individualidade, singularidade, particula­
ridade e irreversibilidade que, segundo a m aioria dos autores dessa cor­
rente, constituem os característicos principais dos fatos históricos, devem
ficar bem esclarecidos.
É preciso exam inar porque o processo científico-histórico se orienta
sempre para a particularidade, a individualidade da realidade que suce­

(53) Friedrich von G ottl-O ttilienfeld, W irtschaft ais Leben, eine Sam m lung erkenntnis-
kritischer A rbeiten, Jena, Fischer, 1925, citado por Benedetto Croce, La historia como hazaña
de la libertad, México, Fondo de C ultura Económica, 1942, 330-331.

83
deu e não sucederá de novo. Os fatos singulares são aqueles que se consi­
deram em sua individualidade, distintos de quaisquer outros. Assim, por
exemplo, a Restauração da Bahia, em 1625, é um fato singular. Ela se
distingue de todos os outros fatos históricos. É o transcorrer individual
e único que sempre interessa à história.
O objeto científico da história é o único, o especial, não só no seu
isolam ento, mas na dependência da evolução dentro da qual ele existe e
é levado em consideração (54). A unicidade concreta do fato histórico ou
sua singularidade, particularidade e individualidade im plica a sua irre-
versibilidade. Os fatos isolados, particulares, singulares ou individuais
são os ocorridos um a só vez(55).
Desde Hegel, que foi o prim eiro grande filósofo da história, sustenta se
a irreversibilidade dos fatos históricos. A lição essencial que colhemos da
história é a de que não há jamais um caso com pletam ente igual a outro
e que, portanto, um fato nunca se repete; mesmo que um a causa igual ou
sem elhante atue. “Os fatos históricos não aparecem senão um a vez no
transcurso do tempo e não se reproduzem nunca de modo igual” (56).
É a necessidade didática de classificação dos fatos históricos que con­
duz à falsa idéia da repetição na história. Mas não é possível que por sim­
ples exigência didática se deforme a essência da história, que é a eterna
m udança, não de nomes e de colocação no espaço e no tempo, mas dos
próprios atos e fatos. A própria variação de nomes não basta para mos­
tra r que. se m odificaram os conteúdos espirituais ? pergunta Croce. E já
H uizinga denunciou os perigos da inflação de conceitos e do uso de p a­
drões fixos. É assim o caso do termo Renascimento, que se deve datar de
época entre Donatello e Tiziano e que, no entanto, tem-se estendido de
tal m odo que se chegou a falar de “renascim ento” carolíngio e “renasci­
m ento” geral. Com isso a palavra perde seu miolo e seu sabor, já que um
term o histórico só conserva sua valia quando se liga a um passado his­
toricam ente determ inado. O mesmo ocorreu com as palavras gótico e
barroco (67).
O outro perigo está na tentação de aplicar um conceito ou esquema
a fatos que exigem um a nova penetração, um a nova qualificação espe­
cial. São assim os termos capitalismo, feudalismo, reação, burguesia e
democracia. O h isto riad o r que trata a sério de dar um a reprodução viva

(54) Ernst Bernheim , L ehrbuch der historischen M ethode und der Geschichtsphilosophie,
Leipzig, Verlag von D uncker & H um blot, 1908, 10.
(55) Johannes Thyssen, Die E inm aligkeit der Geschichte. E ine Geschichtslogistiche Unter-
suchung, Bonn, Cohén, 1924.
(56) Hegel, Lecciones sobre la filosofía de la historia universal, Buenos Aires, Revista de
Occidente A rgentina, 1946, 157; Louis H alphen, Introduction à Vhistoire, Paris, Presses Uni-
versitaires de France, 1946, 73; W. Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch,
1944, 48; Xenopol, Teoría de la historia, M adri, 1911, 106.
(57) Num estudo recente, Isaiah Berlín ( Historical Inevitability, Oxford Univ. Press,
1955, 37, 61, 72) fala de am bigüidade e confusão geradas por termos ou conceitos que têm
significação fluida e m udam de significação ou aplicação. Tais, por exemplo, “ espírito clássico” ,
“renascim ento” (fala-se agora em renascim ento na China com unista), “ espírito m edieval” ou
“capitalista” , “o século xx, a últim a etapa do capitalism o”, que, às vezes, parecem entidades
supernaturais de grande poder, espíritos neoplatônicos ou gnósticos, anjos e demônios que
brincam conosco e fa/em exigências que, não obedecidas, nos põem em' perigo.

84
e digna de confiança do passado deve evitar cuidadosam ente o uso de
termos carregados de sentim ento e ressentim ento (58).
Ora, o uso de termos como rom antism o e classicismo na história da
arte, de m aterialism o e espiritualism o na historia da filosofia, de liber­
dade e democracia, tiran ia e demagogia na historia política fez crer que a
historia fosse, como lem bra Croce, um a alternativa m onótona dos mesmos
fatos, que se repetiam sob formas sucessivas. Mas o ponto essencial, o pró­
p rio da historia, não está nos rótulos postos sobre os acontecimentos mas
nos próprios acontecimentos, cada qual de per si, com sua fisionomia in­
confundível (59).
Do mesmo modo que é sempre perigoso querer com parar figuras li­
terárias, mesmo levando em conta apenas sua obra, assim tam bém seria
um a ilusão com parar personalidades políticas ou acontecimentos sempre
essencialmente únicos e singulares. Eles filiam-se à história precedente,
como as revoluções sucessivas da Regência e do Segundo Im pério, mas
1832 difere totalm ente de 1835-1845 ou de 1848. Cada revolução é um fato
único que não se repete e nem seus produtos se transm item intactos, salvo
quando são etapas de um mesmo processo. Cada líder, como um poeta,
mesmo que venere seus antecessores, entoa um canto que este não
entoou (60).
A história é perpétua m udança, como um rio que corre num fluxo
incessante. N unca pára e nunca retom a. Segue sempre para a frente, li­
gada ao que precede e ao que será (61).
É lógico que ao conceituar o fato histórico como singular e individual
não se elim inam da história as manifestações coletivas. A singularidade
ou individualidade está n a eterna diferença de um para outro. A his­
tória considera tanto o indivíduo quanto a coletividade, que produziu o
fato. Em face de fenômenos análogos, a Independência do Brasil ou a
Independência americana, o historiador individualiza o que corresponde

(58) J. H uizinga, Im Bann der Geschichte, B etrachtungen und Gestaltungen, Basiléia,


Akademische Verlagsanstalt P antheon Schweizerische Lizenzausgabe, 1943, 55, 58, 59.
(59) Benedetto Croce, La historia como hazaña de la libertad, México, Fondo de C ultura
Económica, 1942, 299.
(60) B enedetto Croce, ibid., 303.
. (61) Sobre a irreversibilidade da história é quase unânim e a opinião dos teóricos e
filósofos da história, constituindo exceção alguns historiadores remanescentes do pragmatismo.
Coube a R anke afirm ar, pela prim eira vez, que o singular é o fundam ento do saber histórico.
(W . Dilthey, E l m undo histórico, México, Fondo de C ultura Económica, 1944, 123.) E ntre os
teóricos da história que participam desse ponto de vista, apontam -se todos os grandes autores
de trabalhos metodológicos, como E rnst Bernheim ( Lehrbuch der historischen M ethode und
der Geschichtsphilosophie, Leipzig, Verlag von D uncker & H um blot, 1908, 9-10), W ilhelm
Bauer (Introduccón al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 36, 38, 39, 48), G. M.
T revelyan ( T h e Recreations o f an Historian, Londres, 1919, 22), Fred M. Fling ( T h e W riting of
H istory, New Haven, Yale U niversity Press, 1926, 24) e Charles Beard ( “ Ground. for a Recon-
sideration of H istoriography” , in T heory and Practice in Historical Study: a R eport o f the Com­
m itte on Historiography, Nova York, Social Science Research Council, B ulletin 54,. 1946, 6-7 e
137). E n tre os filósofos da história, vide: Hegel (Lecciones sobre la filosofia de la historia
universal, Buenos Aires, Revista de Occidente A rgentina, 1946, 157), W ilhelm Dilthey (In tro ­
ducción a las ciencias del espíritu, México, Fondo de C ultura Económica, 1944, 39-41 e
El m undo histórico, México, Fondo de C ultura Económica, 1944, 108, 123, 139), H einrich
R ickert ( Ciencia cultural y ciencia natural, Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1937, 79, 103), Bene­
d etto Croce {La historia como hazaña de la libertad, México, Fondo de C ultura Económica,
1942, 297-304) e T heodor L itt ( “ T h e Universal in the S tructure of H istorical Knowledge” ,
in Philosophy & History. Essays Presented to E rnst Cassirer, Oxford, Clarendon Press, 1936, 131).

85
a cada suceder, dirigindo-se ao especial de cada fato e não, como nas ci­
ências naturais, ao geral.
O fato histórico é, então, precisam ente aquele que sempre se distingue
pelas suas particularidades dos outros, que nada têm de comum com os
outros fatos históricos. A tarefa prim ária da história é com unicar aos
menos sensíveis ou menos eruditos um a consciência viva de outros tempos
e outros lugares, como sempre distintos e peculiares.
Mas de que modo existe o universal na história ? Este foi um dos
problem as mais debatidos da lógica de Dilthey e R ickert (62). Dizer ape­
nas que as verdades universais do pensam ento abstrato não são o- funda­
m ento da ciência histórica, mas seu fim últim o, e que elas estão sempre
em relação m útua com o conhecim ento histórico singular não parece re­
solver o problem a. Esta a palavra de Dilthey. Para Rickert, o universal
entra na história não como nas ciências naturais, mas como um meio in­
dispensável. O fim não é o universal, mas o único e a história usa da
significação universal das palavras como elem ento que representa a im a­
gem do particular.
Para Rickert, o naturalm ente universal é a lei física, o teorem a m ate­
mático, e o historicam ente universal é o valor cultural. O prim eiro tem
um a validez universal e é universalm ente aceito. Assim a teoria da rela­
tividade (63) ou o teorema de Pitágoras. O histórico só é universal pela
sua im portância. A realidade histórica tem um valor universal quando,
na sua individualidade, se tornou im portante, e não porque possa ser
observada ou experim entada universalm ente. A Independência dos e . u . a .
é um fato de im portância universal. O conhecim ento do fato histórico
— Independência dos e . u . a . — é tam bém aceito universalm ente. A dife­
rença está em que um teorem a algébrico, um a fórm ula quím ica ou uma
lei física têm existência universal, podendo ser observada ou experim en­
tada universalm ente, enquanto a Independência dos e . u . a ., em bora seja
universalm ente conhecida, não sucedeu nem sucederá universalm ente. É
um fato histórico particular dos e . u . a ., mas universal pela sua im por­
tância e significação social, política ou cultural. O universal histórico é
o que ultrapassa os limites da existência m eram ente local e tem poral e
possui significação válida para todos os homens e todos os tempos.
Mas não é só pela consideração que todos os homens em todos os tem­
pos atribuem ao fato histórico que o universal entra n a história. O fato
histórico individual exprime-se em formas universais de pensam ento e lin­
guagem. H á padrões de conduta, alguns comuns à natureza hum ana. O
(62) T heodor L itt, “T h e Universal in the S tructure of H istorical Knowledge” , in
Philosophy & History. Essays Presented to Ernst Cassirer, Oxford, Clarendon Press, 1936, 125.
(63) A teoria da relatividade form ula as leis físicas para todos os sistemas de coordenadas,
ao contrário da lei de Newton, que em bora continue como a base de todos os cálculos astronô­
micos, em m atéria de gravidade só é válida no sistema de inércia, porque se baseia apenas n
distância. N a teoria da relatividade, as leis físicas são as mesmas em todos os sistemas de
coordenadas, movendo-se uniform em ente. Cf. A lbert E instein e Leopold Infeld, T h e Evolution
of Physics, Nova York Simón and Schuster, 1938, 67, 225, 226, 249 e 259. N a história concreta,
tan to R anke como W. von H um boldt afirm aram que o historiador só busca o particular. “ O
form al é o universal, o real é o particular, o vivo” . L. R anke, Politisches Gesprãch, citado por
Ernst Cassirer, El problema del conocimiento, México e Buenos Aires, Fondo de C ultura
Económica, 1948, 343, 346, 359.
historiador não procura descrevê-los em sua generalidade, mas particula-
rizá-los em sua individualidade.
H á um a forma de conduta universal dos grupos sociais chamada re­
volução. Pois bem, o historiador não descreve a revolução em geral — o
que não é problem a histórico, mas sociológico, mas esta forma universal
de conduta, no caso particular da Revolução Francesa, Inglesa, Am eri­
cana, etc. H á tam bém padrões característicos de conduta econômica como,
por exemplo, o laissez faire na Inglaterra na época vitoriana, ou o capita­
lismo, sistema econômico particular com características bem determ inadas.
Tratam -se de generalizações empíricas indispensáveis, formas universais
de expressão do particular. N a forma puram ente simbólica do universal
contém-se apenas o particular, como no qualificativo da Revolução Fran­
cesa se exprim e o individual do conceito universal revolução. O que se
q uer é qualificar a particularidade do fato histórico.
É certo que o historiador pode fazer um a história das revoluções ou
do capitalismo, mas, nesse caso, ele terá que destacar cada um a delas em
sua particularidade. A inda assim não estaria fazendo essencialmente his­
tória, mas história social ou econômica, as quais, pela vizinhança com a
sociologia e a economia, têm m aior possibilidade de generalização.
H á ainda a considerar a significação universal das palavras. Quando,
por exemplo, V arnhagen escreve que “pelo mesmo tem po que a Corte, em
ju lh o de 1609, se ocupava com ternura e carinho de m andar declarar li­
vres todos os índios, os de Porto Seguro se m ostravam insolentes e alevan-
tados, pondo em apertado cerco o engenho de Gomes de Aragão” (64). O
caráter da particularidade dos “índios de Porto Seguro” não se confina ao
sujeito gram atical indicado pelo nom e próprio, mas está no predicado
“insolentes e alevantados”, independente da universalidade da significa­
ção daquelas palavras. A significação do predicado não exclui a particu­
laridade da insolência e do alevantam ento do sujeito definido. É pre­
cisamente a insolência destes definidos índios que ele quis significar e não
a insolência como form a universal de atividade que éles exercem como
inumeráveis outros índios. Aqui, naturalm ente, entra em jogo aquela
forma de universal no desenvolvimento da qual a linguagem torna possível
um processo classificador do pensam ento (65).
Vemos assim, além da im portância histórica, as generalizações empí­
ricas, os conceitos fundam entais a priori e a significação universal das pa­
lavras, como form a do universal na estrutura do conhecimento histó­
rico (66).
Exemplificados esses conceitos, podemos concluir cham ando de histó­
rico a essa plenitude de suceder na m ultiplicidade das suas relações e en­
laces externos e internos que constituem, por assim dizer, o m aterial em
b ru to do qual o historiador extrai e forma a história no sentido subjetivo.

(64) Francisco Adolfo de V arnhagen, H istória geral do Brasil, S. Paulo, E ditora M elho­
ram entos, s. d., vol. ii# 138.
(65) As pesquisas sóbre o universal na linguagem devem-se a E rnst Cassirer, na sua
Philosophie der symbolischer Formen, Berlim, 1923, vol. I, Die Sprache, 244. Cf. T heodor L itt,
“T h e Universal in the Structure of Historical Knowledge", in ob. cit., 131.
(66) T heodor L itt, ob. cit., 135-136, e H. R ickert, “Les quatre modes de 1’universel
dans 1’histoire” , R evue de Synthèse H istorique, t. 2, 1901, 121-140.

87
Vemos tam bém que, ao form ar a história, ele se utiliza d a seleção, que se
acha condicionada, por sua vez, aos sinais externos dos fatos e de seus efei­
tos ou à influência que os mesmos tenham exercido sóbre outros fatos.
É a questão da eficácia histórica, segundo a expressão de E duard Meyer,
ou do valor cultural do fato, segundo Rickert, no fundo duas fórmulas
m uito parecidas para exprim ir a mesma idéia, desde que a eficácia se
comprova pelos juízos dos contemporâneos, ou seja pelos juízos de valor
que os contem porâneos fazem dos fatos históricos.
Para com preender a seleção é preciso não confundir a história com o
escrito histórico. A continuidade do processo histórico só é datada por
necessidade de compreensão e recriação, e, portanto, no escrito histórico,
que trata do passado. É nesse sentido que se deve com preender a frase
de Croce, de que a contem poraneidade é o caráter de toda a história (67).
T am bém Heidegger acentuou que a equação entre o histórico e o passado
não é mais que um a ilusão, devido a que, de ordinário, os acontecimentos
a que se ajunta o epíteto histórico são de fato já passados; porém, pode­
mos perfeitam ente definir tal ação contem porânea como histórica, porque
prevemos que determ inará “a história”, isto é, os sucessos que estão por
v ir(68). E nquanto o passado é o m om ento fundam ental da historicidade, a
fonte principal da historicidade está no presente, que é capaz de constituir
um a história. Assim, não há, filosoficamente, distinção no processo histó­
rico entre as três etapas fundam entais da própria vida quotidiana, o on­
tem, o hoje e o am anhã. O escrito histórico só se ocupa do passado, em­
bora o presente, que logo se transform a em passado, seja criador da his­
tória. Por isso diz Jaspers que a história e o presente são inseparáveis,
que a objetividade da história e a subjetividade do agora vivem em vir­
tude um do outro, e na visão do grande resplandece a história como
presente eterno (69).
Ora, se a história está tão entrelaçada com o presente é lógico que
este representa um papel decisivo no escrito histórico. Éle é fonte da his­
tória futura pela criação dos fatos, e é árbitro da seleção dos fatos; ele
é o historiador, não porque este possa antever a historicidade — e aí ele
já faria seleção no próprio presente, mas porque “está sujeito à ressonância
dos fatos no seu próprio tem po” (70). Não se trata só de apresentar o
passado com vestuário do presente mas de recolher e recriar o im portante
ou ínfimo, que para os homens presentes é essencial na sua existência, ou
que pertence ao m undo atual de sua experiência (71).
De modo que os fatos podem repousar durante m uito tempo, através
dos séculos, para reaparecer devido ao interesse que alcançaram na atua­
(67) Vide Teoria e storia delia storiografia, 5.a ed., Bari, 1943, 5. P. G ardiner, por
não com preender aquela distinção, considerou um a contradição em si mesmo o pensam ento
croceano de que a história é conhecim ento do presente eterno. Vide T h e N ature of Historical
Explanatiori, Oxford Univ. Press, 1952, 36, nota 1.
(68) A. de W aelhens, La filosofia de M artin H eidegger, M adri, 1945, 234.
(69) Karl Jaspers, Vom Ursprung u n d Ziel der Geschichte, M ünchen, 1949, 333 e 339,trad.
esp., M adri, 1950, 289 e 294. A frase é quase igual à de Croce.
(70) E duardo de Oliveira França, “A teoria geral da história” , R H , n.° 7, 1951, 122-123.
(71) Cf. Oakeshott, Experience and its M odes, citado por P. G ardiner, T h e N ature of
Historical Explanation, ob. cit., 35.
lidade, no juízo dos contemporâneos. Como disse Cassirer, o conhecim ento
histórico é a resposta a perguntas definidas. U m a resposta que deve ser
proporcionada pelo passado. Porém, as próprias perguntas acham-se co­
locadas e ditadas pelo presente, pelos nossos interésses intelectuais pre­
sentes e pelas nossas necessidades morais e sociais presentes. É devido aos
interesses diferentes de cada geração que a história é reescrita, bem como
pelo encontro de novos materiais, que tom am possível um a visão clara
dos fatos estudados.
Isto n ão significa, no entanto, que o historiador se torne um simples
“claqueur” dos fatos e acontecimentos e só form ule questões com suas res­
postas de acordo com as correntes vivas do presente, pois se assim fósse,
se ele se pusesse a reforçar ou reprim ir tendências, opiniões e doutrinas
atuais com explicações do passado, seria um escritor tendencioso, um p u ­
blicista sem categoria (72). A história serve à própria história, mas grande
p arte da história é elaborada para atender às solicitações das gerações
presentes.

Desenvolvimentos posteriores

O m undo histórico recebeu de Dilthey e R ickert a mais autêntica


compreensão filosófica. R ickert continuou suas investigações em sua obra
O problem a da filosofia da história (73), onde, ao analisar as três épocas
da filosofia da história, m ostra que na terceira é o sujeito e não a natureza
o ponto central da teoria do conhecimento. A natureza, diz ele, não é a
realidade absoluta, mas seu m odo geral, determ inado por formas compre­
ensivas subjetivas, e assim o infindável universo não é nada mais que
um a idéia do sujeito. Através dessa idéia, os fundam entos do naturalis­
mo estão totalm ente m inados (74). O homem, agora como sujeito, não
só está no centro da natureza cientificam ente concebida pela sua razão
teórica, como a com preende com sua razão prática. A natureza já não é
mais o m undo, mas um a representação do ser sensorial através do homem.
Há, assim, um sentido em explicar a vida cultural historicam ente condi­
cionada em sua unicidade e individualidade de valores.
Troeltsch, Croce, Collingwood, Ortega y Gasset e o próprio Jaspers (75)
aceitam, em linhas gerais, as características do conhecim ento histórico,
tais como foram aqui expostas nas linhas do pensam ento de Dilthey e
R ickert.
(72) G. R itter, “ Leistungen, Problem e und Aufgaben der internationalen Geschichts-
schreibung zur neuren Geschichte” , R elazioni, vol. vi, x Congresso Intem azionale di Scienze
Storiche, Florença, 1955, 322.
(73) Die Problem e der Geschichtsphilosophie. E ine E infuehrung, 3.a ed., H eidelberg, 1924.
(74) Ob. cit., 138-139.
(75) As principais obras de E. Troeltsch, Der H istorism us u n d seine Probleme, 1922;
de B. Croce, Teoria e storia delia storiografia, 1943; de R . G. Collingwood, T h e Idea of N ature,
1945 e T h e Idea of H istory, 1946; de O rtega y Gasset, Historia como sistema, 2.a ed., 1942,
já foram aqui aproveitadas. Resta lem brar o continuador de Ortega, Ju liá n Marías, Introducción
ala filosofía, e, aceitando tam bém a unidade, irreversibilidade, particularidade da historia,
Karl Jaspers, Vom Ursprung und Ziel der Geschichte, 1949, trad. esp., Origen e meta de la
historia, Revista de Occidente, 1950.

89
O positivism o lógico e a historia

Urna nova escola filosófica, o positivismo lógico do “círculo de V iena”,


ou a cham ada filosofia científica, não aceita as teses de Dilthey e R ickert
e seus sucessores e defende a unidade do conhecim ento científico. Segundo
os positivistas lógicos, a prim eira dificuldade para o estabelecim ento de
juízos positivos está na linguagem, que dividem em científica e do senso
comum. A “lógica” acum ulada na linguagem comum representa um es­
tágio prim itivo da ciência; o positivista, como toda gente, usa a lingua­
gem coloquial de modo a se fazer com preendido, mas usa-a de modo crí­
tico. A filosofia científica procura, em prim eiro lugar, determ inar o que
há de comum em todos os ramos da ciência. O principal problem a surge
qu ando se estudam as relações m útuas dos dois grupos de ciências, que, de
regra, têm sido consideradas como opostas ou mesmo incompatíveis: as
ciências naturais e as hum anidades. O positivismo lógico pela prim eira
vez desenvolveu a idéia de que a epistemología não' é senão o estudo ló­
gico da linguagem n a qual se expressam os resultados científicos (76).
O “círculo de V iena” desenvolveu a teoria de que a linguagem cien­
tífica pode ser construída de m aneira coerente em simples elementos u n i­
formes. As sentenças são curtas e im ediatam ente compreensíveis. Para eles
não existe diferença fundam ental entre a ciência natu ral e a historia, es­
pecialmente entre os dois casos extremos: a física teórica e a historia
pu ra (?). Para sustentar isso afirm am que o historiador usando, p ara a
descrição dos acontecimentos, das expressões que a linguagem coloquial
lhe oferece (e só ocasionalmente a suplem entam ou alteram com suas
próprias formulações), reduz (!) o "único” a um a combinação de elementos
reversíveis ou capazes de repetição, e então procede analogam ente ao fí­
sico, que retira da corrente dos fenômenos naturais os aspectos que se
repetem ou recorrentes. O trabalho científico do historiador consiste es­
sencialmente nesta redução e na concepção de juízos gerais sobre os quais
repousa a redução. Pode-se dizer que o trabalho do historiador está mais
próxim o da realidade do que o do físico, no sentido de que os processos
de abstração e simplificação que aplica não se adiantam m uito ao usual
na linguagem diária. O contraste entre os dois campos extremos pode,
talvez, ser esquematizado dizendo-se que o físico faz especialmente afir­
mações gerais e deixa as inferências dos casos individuais ao leitor, ao
passo que o historiador, ao contrário, usa seus julgam entos gerais antes
de tudo para a seleção e formulação das sentenças que descrevem a ocor­
rência individual. Assim, não concordam os positivistas que seja um a
caracterização ú til afirm ar que a física, no caso ideal, consista somente
em sentenças que são tão gerais quanto possíveis, e que a história consista
somente em afirmações puram ente individualizadas. Para eles, em todos
os campos se enContra um a progressão da observação simples para a ge­
neralização compreensiva, que corresponde à essência do trabalho cientí­
fico, mesmo que a extensão da generalização que se almeja e se consegue
seja m uito diferente nas várias disciplinas.
(76) N ão aceitam o dualism o científico, mas defendem o dualism o e, até mesmo, a
pluralidade lingüística.

90
Finalm ente, não se pode construir um contraste básico entre as ciên­
cias naturais e as hum anidades em relação à m atéria ou ao m étodo. Es­
tabelecidos esses princípios gerais sobre a alegada lim itação dos conceitos
científicos e afirm ada a inexistência do dualism o científico, propõem-se
os positivistas lógicos a tratar da conceituação histórica. Depois de fixar
que a palavra história é em pregada no sentido de objeto do escrito histó­
rico e de escrito de um historiador, afirmam : 1) que não se pode distinguir
entre ciência n atu ral e história, na base da unicidade, pois na evolução
biológica do homem, na teoria da descendência e n a paleontologia ocorre
o “único”, no mesmo sentido histórico; 2) que n a história científica, em
princípio, tal como ocorre na física, se destacam do curso único dos acon­
tecimentos os fenômenos parciais que se repetem (reversibilidade); que
a história trata dos eventos que aconteceram nos últim os 5 ou 6 m il anos,
e que estão conotados uns com os outros pela tradição (!); num passo
adiante, estão as ocorrências filogênicas, que influem umas sobre as outras,
pela hereditariedade; um passo abaixo, os processos físicos, fisiológicos e
psicológicos, cuja duração tem a mesma ordem de m agnitude da prolon-
gação das reações hum anas individuais; que o problem a epistemológico de­
cisivo na ciência histórica é o da verdade histórica (Neste caso exem pli­
ficam deste modo: quando nós afirmamos “César cruzou o R ubicão”, a
questão do critério de verdade aparece e o conceito aristotélico da ver­
dade, de acordo com o qual a sentença “A é B é verdadeira se A é real­
m ente B” não basta aqui, porque é exatam ente aquele è realmente já
que se trata de passado, que precisa de explicação. N aturalm ente, racioci­
nam os lógicos positivistas, que concordam que a sentença em questão é
conotada com as regras apropriadas da linguagem, isto é, César é o nome
de um a pessoa e não de um rio, e R ubicão de um rio e não de um a pro­
priedade. Ora, como não é possível a verificação, afirm am que em relação
ao passado só se pode dizer sobre aquilo que deixou traços); q u e o critério
da verdade de um a afirm ação histórica repousa n a verificação possível dos
efeitos posteriores observados dos fatos alegados e de suas conseqüências
indiretas (fontes!), incluindo a aplicação de inferências derivadas de ex­
periências gerais.
O texto de um a exposição histórica, como um todo, ou de um deta­
lhe, não é nunca determ inado pelos fatos, mas sempre se origina da
teoria (todo registo histórico é um a teoria do acontecim ento em questão,
como a aplicação das equações de N ewton é um a teoria de um simples
fenômeno do m ovimento). A teoria está incluída nas convenções lingüís­
ticas geralm ente aceitas, por estipulações im plicitam ente adm itidas, por
suposições hipotéticas sobre relações causais e, finalm ente, pelos fins m a­
nifestam ente estabelecidos e as tendências tácitas. Ás teorias históricas
(Comte, M arx, Buckle, Spengler) consistem em princípios gerais fraca­
m ente fundam entados, que pretendem ser exclusivistas. T o rn a r precisas
essas idéias, adaptá-las umas às outras, determ inar seus fundam entos em­
píricos e delinear os limites da validez, parecem ser os problem as cuja
solução se encontra num futuro rem oto (77).
(77) Seguimos e resum imos a exposição de R ichard von Mises, Positivism. A Study in
H um an Understanding, H arvard Univ. Press, 1951, 2, 3, 9, 211, 212, 213, 219-223.

91
A chamada filosofia científica, que reduz o m étodo à linguagem,
exprime-se com um a total incompreensão das características do trabalho
histórico, falando de história pura, de redução, desconhecendo a unici-
dade, particularidade e individualidade do fato histórico, tal como foi
exemplificado nessas páginas. Baseando-se no velho tratad o de J. G.
Droysen, hoje tão ultrapassado; estabelecendo que o problem a decisivo é a
verdade histórica, com o citado exemplo tão ingênuo; ensinando que na
história só se pode afirm ar o que deixou conseqüências, e explicando d a­
quele modo cândido qual o critério da verdade histórica; não com preen­
dendo o papel dos conceitos gerais, como revolução, na individualidade
histórica, o positivismo lógico não traz conseqüências para o conhecim ento
histórico e em nada contribui para seu esclarecimento positivo. Dizer que
todo acontecim ento físico é único, como o fez von Mises e reafirm a H ans
R eichenbach (78), e, portanto, que a unicidade não é característica da his­
tória, é não com preender o conceito já explicado. Dizer que “duas situa­
ções políticas que conduzem à guerra podem ser m uito diferentes em m ui­
tos detalhes, mas que ambas exibem certas feições comuns, que as fazem
conduzir à guerra” e que, portanto, a explicação histórica, como física,
consiste em m ostrar que a ocorrência individual é o padrão para um a
relação geral que pode ser estabelecida (79), não parece contribuir para
o esclarecimento do problem a. Sustentar n a crítica ao conceito da irrever­
sibilidade histórica que o processo da combustão (80) é irreversível, pa­
rece aos historiadores e filósofos da história total incom preensão (81) da
(78) “ Probability M ethods in Social Sciences” , Policy Sciences, Stanford U niv. Press, 1951,
121-128.
(79) H ans Reichenbach, ibid.
(80) H ans Reichenbach, La filosofía científica, México, Fondo de C ultura Económica,
1953, 138.
(81) T otal incom preensão do conhecimento e pesquisa histórica e da historiografia se
revela em artigo de E uríalo Canabrava, partid ário da filosofia científica no Brasil ( “ H istória
e ciência” , Diário de Noticias (R io de Janeiro) 18 de dezembro de 1955.) Vejam-se por exemplo,
as seguintes afirmações: “ O estudò histórico, ao contrário do q u e acontece no dom ínio cien­
tífico, desenvolve-se em plano puram ente discursivo, sem recorrer a equações funcionais, que
captem os vínculos de proporcionalidade constante entre as variáveis”. Certas disciplinas (e a
história seria um a delas) sofrem de infantilism o metodológico. Im aturidade m aior, porém,
revela o próprio au to r ao escrever que o registo cronológico” baseado na observação dos
períodos cíclicos que correspondem às inundações do N ilo seria trabalho de historiador. O
registo cronológico, simples auxílio à história, não é trabalho de historiador e nem sequer
de cronista. O A utor declara que “ a m anipulação ( ! ) direta das fontes e documentos
req u er aptidão de especialista, que se m ostre capaz de discernir os dados autênticos por
mais que eles se ocultem sob a cam ada espessa do trivial e aleatório” . Ao lado disso ohistoriador
deve recorrer à “pesquisa das causas, porém suplem entada po r hipóteses sobre a influência no
concreto de poder político e de liberdade social, que se projeta no plano da metodologia
científica” . “Sua atividade se m ostra extrem am ente complexa, pois im plica um jogo duplo
em que poucos se m ostram peritos, revelando quase todos m aior inclinação para a técnica
historiográfica, desacom panhada de qualquer preocupação com a crítica das instituições e a
análise de seu sentido político e social.” A historiografia não aguardou a lição dos positivistas
e do filósofo brasileiro para recorrer à pesquisa das “ causas” e motivos e para exam inar
e criticar as instituições, o poder político e a liberdade social. R anke, Dopsch, Mommsen,
H uizinga, Meinecke e P irenne há m uito tem po deram à história o sentido crítico que
dela exigem os positivistas que efetivam ente não a conhecem. O que eles não puderam
fazer e nunca se fará em qualquer disciplina hum anística — foi elim inar o plano narrativo e
recorrer “ a equações funcionais que captem os vínculos de proporcionalidade constante entre
as variáveis”, pois, de outro modo, elim inar-se-iam a linguagem e a palavra com todas as
suas inevitáveis am bigüidades. Não é possível converter a história num a fórm ula algébrica
ou em figuras geométricas. Podemos identificar-nos com as personagens históricas e as obras

92
impossibilidade de reproduzir um fato histórico, a menos que se esteja
jogando com os conceitos gerais, indispensáveis n a narração histórica,
como, por exemplo, o de revolução, já tratado, e esquecendo que só o
fato histórico deve ser sempre qualificado: Revolução Francesa, Am eri­
cana, Russa, sem o que se trata de um a abstração a-histórica. A história
não estuda revoluções em abstrato, mas revoluções específicas.

A linguagem histórica

U m a crítica do positivismo deve ser mais cuidadosam ente observada:


a linguagem histórica deve ser menos vaga e complexa, menos obscura e
ornada, evitando-se o tom discursivo oratório, heróico e fútil para torná-la
inconcussa. A variedade e riqueza da história não deve ser motivo para
o uso de uma linguagem vaga e enfeitada. A precisão e definição de cer­
tos conceitos em termos exatos deve ser tentada, para que se evitem de­
sentendim entos. J á nos referimos aos conceitos como revolução, feudalismo,
barroco, Renascimento, capitalismo, civilização (82), que são m uitas vezes
empregados em sentidos diferentes.
Sobre o conceito das palavras revolução, revolta, rebelião, Barbosa
Lim a Sobrinho (83) m ostrou como “a divergência no seu emprego an u n ­
cia, antes de tudo, um a interpretação diferente dos fatos”, o que revela a
im portância do esclarecimento conceituai destes termos na historiografia.
Lem bra o autor que no tem po do Im pério todo m ovim ento arm ado era
denom inado rebelião, mas isso “seria m esquinho para nós que desejamos
en q u ad rar o m ovimento de 1848 na história do Brasil e não no Código
Penal do Im pério. Do ponto de vista dos governos constituídos, tòda
revolução não passa de uma rebelião. Mas que valeria um a história su­
jeita a critérios prim itivos, ou adstrita às classificações das leis penais ?”
Além das revoluções que são qualificadas pelos adjetivos como Praieira,
Farroupilha etc., ou pela época, Revolução de 1817, fala-se, m uitas vezes,
de revolução social, industrial, significando movimentos sociais e econô­
micos. No prim eiro caso, como acentuou ainda Barbosa Lim a Sobrinho(84),
todas as revoluções são movimentos sociais. “Para se dizer, porém, de
um a determ inada revolução que fora um a revolução social, seria ne­
cessário exigir um pouco mais que a simples presença e atuação de fa­
tores econômicos. O que poderia justificar sem elhante classificação seria
um conflito de classes, mas um conflito perfeitam ente definido e com
as necessárias proporções, para decidir dos sucessos e p ara orientar os fatos.”
E não só isto. Como a história não estuda em geral revoluções políticas
ou sociais, mas tais e quais revoluções políticas e sociais, sempre se há de
poéticas e com preendê-las, diz P. Kirn, mas não com as idéias ou o m undo dos sentimentos do
quadrado da hipotenusa ou de um a nuvem carregada de eletricidade (E infuehrung in die
Geschichtsxvissenschaft, Berlim, 1947, 64).
(82) José H onório Rodrigues, “ Civilização. Palavra e conceito” , Vida e história, Rio
de Janeiro, E ditora Civilização Brasileira, 1966, 258-262; Alfred Cobban, ‘T h e Vocabulary of Social
H istory”, P olitical Science Quarterly, 1956, vol. 71, 1-17.
(83) “Revolução, revolta, rebelião” , Jornal do Brasil, 10 de julho de 1949.
(84) A Revolução Praieira, Recife, 1949, 53.

93
ater o historiador a revoluções específicas no tempo e no espaço. Ele
pode descrever a história das revoluções, mas sua narração se fará tendo
em vista movimentos particulares. Da mesma forma se fará em relação a
q u alq uer outro tipo qualificado de revolução, como a chamada Revolu­
ção Industrial, cujo conceito e conjunção de palavras se originou na
França (85), em bora caracterizasse um fato econômico e social que ocorreu
especialmente na Inglaterra, onde, aliás, a palavra mais se generalizou na
linguagem comum (8e). Para Clark, a idéia expressa no tèrm o Revolução
Industrial é inadequada, vaga e capaz de gerar confusão. Não é suscetível
de prova estatística, não emerge de um exame compreensivo das fontes
m anuscritas, não deve nada a nenhum a espécie de técnica científica. Mas
como são as idéias que nos dão acesso ao concreto, que não se pode expri­
m ir em fórmulas, é através delas que chegamos à idéia da Revolução In ­
dustrial, frase composta de dois nomes abstratos, mas que adquiriu, com
o uso, quase tanta natureza quanto um nome próprio (87).
Há, como diz C ardiner, um a fundam ental distinção entre as lingua­
gens usadas pelo historiador e o cientista na descrição do m undo em que
estão interessados respectivamente. A teoria das “construções lógicas” en­
sina que se deve evitar o uso de palavras de conceituação duvidosa, a que já
nos referimos. O historiador não pode formalizar sua linguagem, como
o cientista; a term inologia que usa reflete a variedade e riqueza de sua m a­
téria, e sua linguagem é aquela do senso comum, que por motivos de eco­
nom ia e força se enche de expressões elípticas e metafóricas. Não é tarefa
do filósofo, dizem os positivistas, alterar os hábitos lingüísticos do povo
ou reduzir a riqueza e variedade da língua coloquial e comum, mas é
im portante im pedir a ocorrência de confusões filosóficas e para isso deve-se
sublinhar as metáforas quando delas se utilizam e apontar os limites ló­
gicos das expressões figurativas (8S). Não quer isso significar o em pobre­
cimento da linguagem do historiador, que tem um a liberdade m aior de
expressão pela força de seu estilo próprio, em bora a clareza e a concisão
devam ser suas normas. Já ensinava Fernão Lopes que “escrevendo ho­
mem do que não é certo, ou contar mais curto do que foi, ou falar a mais
largo do que devemos, m entirá, e este costume é m uito afastado de nossa
vontade”. Seu objetivo era só escrever a verdade e desprezariam o seu livro
os que “p o r ventura em esta crônica buscam fermosura e novidade de pa­
lavras e não a certidão das histórias. . . ” “Nem entendaes que certificamos
cousa, salvo de muitos aprovada e por escrituras vestidas de fé. D outra
guisa, ante nos calaríamos, que escrever cousas falsas; que logar nos ficaria
para a ferm osura e afeitam ento das palavras pois todo nosso cuidado é
isto, desprezo n ão abasta para ordenar a má verdade” (80).
Como lem brou Dilthey, a história não é nem precisa nem exata como
as ciências naturais, porque sendo mais concreta e aproximando-se m uito

(85) Anna Bezanson, “ Early Use of the T erm Industrial R evolution” , Quarterly Journal
of Economics, xxxvi (1922), 343.
(86) George N orm an Clark, T h e Idea of the Industrial R evolution, Glasgow, 1953.
(87) Ob. cit., 32-33.
(88) Patrick G ardiner, T h e N ature of Historical E xplanation, Oxford Univ. Press. 1952,
51-64 e 120.
(89) Crônica dei rei D om João, Lisboa, 1644, 2.

94
mais da experiência hum ana tem de ser, por isso mesmo, algumas vezes
imprecisa. Daí o dizer-se acertadam ente que o que distingue, n a verdade,
o grande historiador é a riqueza, a profundidade e intensidade de sua ex­
periência pessoal. Sem ela o historiador não poderia penetrar nos fatos
históricos, que são essencialmente fatos hum anos.
P or isso que a ciência n atu ral é tão tipicam ente exata e as ciências
históricas são tão tipicam ente inexatas é que alguns disseram, como Tre-
velyan, que a história seria científica, nos seus métodos, mas literária na
exposição (90). Form a errônea de ver o problem a, pois, como escreveu
Huizinga, seria deplorável para a nossa cultura se as obras da história
destinadas a pessoas de cultura geral fossem entregues a historiadores mo­
vidos mais por um interesse estético, que escrevessem obedecendo a um
im pulso literário, buscando, com meios literários, efeitos literários (01).
Mas o fato de se desejar, como disse Huizinga, que o historiador não
procure só efeitos literários ou não use só de meios estéticos não significa
que ele não tenha como obrigação essencial utilizar-se de um a lingua­
gem correta, de vez que a forma da exposição desempenha na história um
papel m uito mais im portante que em qualquer outra especialidade cien­
tífica.

EXPLICAÇÃO CAUSAL

A lei da causalidade científica

Q uando a ciência procura explicar os fenômenos, ela recorre ao p rin ­


cípio da causalidade, ou seja, à identificação do antecedente com o conse­
qüente. O princípio da causalidade não é outra coisa que a suposição de
que todos os fenômenos da natureza estão subm etidos a leis. Deste modo, a
causa de um fenômeno é a lei, a regra em pírica que governa toda a classe
de fenômenos análogos. Houve assim, explica Meyerson, um a assimilação
completa entre os dois conceitos de causa e lei, o segundo dom inando e
absorvendo o prim eiro e transform ando o princípio da causalidade em
princípio de legalidade, ou seja, a suposição da legalidade de todos os fe­
nômenos da natureza.
A fé absoluta no valor das leis não podia, por si só, sustentar o pos­
tulado, pois é claro que a lei não exprim e diretam ente a realidade, já que
(90) Q uanto à posição de George Macaulay T revelyan, já nos referimos, anteriorm ente,
à sua reação ao chamado “cientificismo histórico” . Mas é preciso ressaltar que esse “ cientifi­
cismo” nada tem a ver com a fundam entação da história como ciência, de Dilthey e Rickert.
Aquele era a transposição do naturalism o, especialmente biológico, para a história, enquanto que
este era a afirm ação autônom a da ciência histórica. Trevelyan simplesmente desconheceu os pro ­
blemas levantados por esta últim a corrente e, por isso, sua crítica não se dirige a Dilthey
e R ickert. Além disso, a afirm ação filosófica e lógica da história como ciência, feita princi­
palm ente pelos dois filósofos, não conduzia nem conduz à negação da qualidade artística da
composição histórica. A força do grande historiador está tam bém na capacidade literária de
sua narração. J á o cientificismo de L am precht, falso e superficial, im pedia, pelo uso e abuso
de um a linguagem deform ada, a arte da composição histórica.
(91) J. H uizinga, E l concepto de la história y otros ensayos, México, Fondo de C ultura
Económica, 1946, 36.

95
ela é um a construção ideal não do que se passa, mas do que Se passaria,
caso certas condições se realizassem . A lei enuncia que se as condições
se modificam de m aneira determ inada, as propriedades atuais dos corpos
devem sofrer também um a modificação igualm ente determ inada, e nesse
caso, pelo princípio causai, deve haver ali um a relação entre as causas e
os efeitos, isto é, as propriedades prim itivas e mais a modificação das con­
dições devem igualar as propriedades modificadas.
Meyerson, depois de assim expor a relação da lei com a causa, afirm a
que de nenhum modo se pode dizer que esta últim a, que é um a das con­
dições determ inantes do fenômeno, seja única. Ela pode, apenas, ter
aparecido como a mais notável (1).
Hoje, nas próprias ciências exatas há menos confiança na universali­
dade e necessidade da explicação mecanicista. W hitehead, por exemplo,
sustenta que o eléctron, dentro de um corpo vivo, difere de um eléctron
fora deste. “O eléctron corre cegamente dentro ou fora do corpo, mas
dentro do corpo ele corre de acordo com o caráter desse mesmo corpo,
isto é, de acordo com o plano geral do corpo, e éste plano inclui o estado
m ental” (2).

O positivism o lógico e a causalidade científica

As proposições causais são insustentáveis, afirm am os lógicos. Para a


filosofia científica, a relação de causa e efeito, entre outras tão usadas na
linguagem comum, é das mais interessantes do ponto de vista epistem o­
lógico (3). O riginalm ente não há distinção entre a relação causal e a p u ra­
m ente tem poral. As explicações sempre procuram relacionar um aconte­
cimento com outro ou com um conjunto de acontecimentos que o oca­
sionam ou condicionam (4).
A explicação causai procura, portanto, um a correlação de aconteci­
mentos, e a formulação' de leis ou generalização. Para Russell, é desejável
a elim inação completa da palavra causa do vocabulário filosófico e a sim­
ples razão pela qual a física deixou de pesquisar as causas é porque, de
fato, elas inexistem (5). Segundo os positivistas lógicos, H um e representa o
ponto culm inante no tratam ento do problem a da causalidade: a sucessão
causal e a tem poral não são equivalentes, e infere-se a impressão necessá­
ria de conexão simplesmente da conexão tem poral experim ental entre
certos fenômenos (e).
(1) Émile Meyerson, Id en tité et réalité, 4.a ed., Paris, Alean, 1932, xvni, 1-3, 9*10,
21-22, 35, 39.
(2) A. N. W hitehead, Science and the M odern W orld, Londres, Penguin Books, L td., 1935,
96. Aí se mostra, ainda, que é com a M écanique analytique de Lagrange, publicada em 1787,
que culm ina a idéia da explicação mecânica, 76.
(3) Von Mises, Positivism. A Study in H um an Understanding, H arvard Univ. Press, 1951, 152.
(4) P. G ardiner, T h e N ature of Historical E xplanation, O xford University Press, 1952, 1,
a quem seguimos nesta exposição.
(5) B ertrand Russell, M ysticism and Logic, Nova York, 1918, 180.
(6) Von Mises, ob. cit., 156.

96
A opinião clássica a respeito da causalidade era a de que a causa de
um acontecim ento tinha um a certa duração definida, e que logo que esta
se extinguía começava o efeito. Haveria, assim, um instante de cessação
da causa e outro de inicio dos efeitos. Más se o tem po é considerado como
um a série de instantes, é claro que não pode haver instantes contiguos, pois
entre dois instantes, por mais próximos que se possa imaginá-los, é sempre
possível in terpor outros. Por conseguinte, se dissermos que a causa é a
parte que precede diretam ente o efeito, ou seja, o instante final antes de
começar o efeito, logo surge um a dificuldade — a de que é possível intérpor
um núm ero infinito de instantes entre os dois selecionados e nossa pes­
quisa p or urna causa correspondente aos últim os instantes de um processo
redunda em um regresso infinito aos acontecimentos em questão. Seria,
assim, impossível estabelecer a causa de um efeito.
P ara os positivistas lógicos h á que distinguir entre a causalidade no
conceito p opular e a causalidade no conceito científico. N a vida diária,
a relação causa e efeito não possui a precisão da análise crítica preceden­
te, em termos de duração, contigüidade im ediata, etc. Para acender um
fósforo basta que se saiba que riscando-o se obterá o efeito desejado (7).
O senso comum é seletivo; seleciona como causa dos acontecimentos aque­
les aspectos que possam ser utilizados para sua produção ou prevenção.
As generalizações do senso comum afirm am um a relação relevante entre
os fenómenos que conotam: isto é tautología. Não vão álém, não fazem
um a análise estrutural dos fenômenos que ligam: contentam-se em noticiar
um a simples co-presença ou sucessão na experiência (8). A vida diária
não exige precisão e os termos gerais servem adequadam ente aos propó­
sitos da comunicação. Preocupam-se com as regularidades de um a espécie
relativam ente simples.
Já a linguagem científica usa outra espécie de generalização na for­
m ulação de leis. A correlação completa entre hipóteses de níveis mais
altos e mais baixos de generalidade e abstração é acom panhada do desen­
volvimento de correspondentes terminológicos (9). Um a lei física nunca se
exprim e em form a de generalização simples; tódas as leis físicas têm a for­
ma de equações, em que um a variável é função de outra (10). Haveria,
assim, segundo Mach, correlação funcional em termos de m edida e esta,
ainda assim, seria feita m ediante padrões independentes dos sentimentos
do observador. Mas os positivistas lógicos, tratando-se de fenômenos m en­
suráveis, consideram — u m pouco diferentem ente de M ach — que a ex­
pressão m atem ática da relação causai não é a relação funcional entre duas
variáveis, mas um a equação diferencial, em que o tempo desempenha o
papel de variável independente (11). A lei de causalidade é a generalização
indutiva da experiência que, de regra, se pode achar para qualquer acon­
tecim ento B outro acontecim ento A, de tãl modo que B segue A e nunca
ocorre sem A. Mas se se abandonar a idéia de atom izar o m undo em
(7) G ardiner, ob. cit., 9-10.
(8) G ardiner, ob. cit., 16.
(9) G ardiner, ob. cit., 17.
(10) G ardiner, ob. cit., 21.
(11) Von Mises, ob. cit., 158.

97
acontecimentos isolados simples, que se repetem sob certas condições, então
a lei de causalidade perde sua significação (12).
A ciência prefere a noção de probabilidade (13), que gradua as in ­
fluências e procura não om itir nenhum a, nem aceitar um a só. Se não en­
contrarm os leis causais nas ciências mais avançadas como a física, se filóso­
fos como Russell a rejeitam , isso não significa, diz G ardiner, que ela seja
inútil. Ela é indispensável em outros níveis, como o do senso comum.
A explicação física e a comum dependem das correlações observadas na
experiência (14). E entre as duas se interpõe um a outra: a das disciplinas
históricas, que não podem atingir a precisão da física e da m atem ática
e que ainda usam de formas causais de explicação, em bora suas teorias
tentem tam bém eliminá-las do seu vocabulário.

A história e a explicação causal. A compreensão

É lógico que tal reação haveria de fortalecer se nas ciências históricas,


especialmente depois das contribuições filosóficas de D ilthey e Rickert.
Em 1898, W u n d t dizia que toda tentativa de construir a história de cada
povo e a da hum anidade segundo leis de causalidade seria em presa não
só inexeqüível como falha (15). Q uer no campo da atividade histórica,
q uer no da teoria, foi ganhando força a afirm ativa não só da im possibili­
dade de conhecer as ‘causas dos acontecimentos, mas tam bém da própria
inutilidade do conceito, im portante na segunda m etade do século xix,
mas hoje excluído da filosofia e da história, libertadas do naturalism o (16).
Foi a falsa analogia estabelecida entre os processos do m undo n a tu ­
ral estudado pelos naturalistas e as vicissitudes dos negócios hum anos que
provocou seu uso e abuso. “Se o princípio de causa fòsse introduzido no
processo vivo da ação histórica, a história se reduziria a um m omento;
introduzido n a historiografia, transforma-a logo em algo ininteligível; in­
troduzido na filosofia, torna inconcebível a vida espiritual” (17).
N ão se pretende evitar o uso da palavra, mas o do conceito. O his­
toriador pode valer-se déle como de um a metáfora, mas não julgar que,
com éle, descreve um processo efetivo do pensam ento histórico. O jogo
das causas eficientes, sem alm a alguma, é substituído pelas representações,
sentimentos e motivos. A torrente que se precipita compõe-se de gotas
dágua homogêneas, que se entrechocam ; porém, um a só frase, que não
é mais que o hálito de um a boca, comove toda a sociedade, m ediante
um jogo de motivos de puras unidades individuais. É um a interação di­
ferente que consiste não só no fator externo mas na ação interna, pessoal,

.(12) Von Mises, ob. cit., 152 e 161.


(13) Von Mises, ob. cit., 163 e seguintes.
(14) G ardiner, ob. cit., 24.
(15) W undt, Vorlesungen über die Menschen und Tierseele, Leipzig, 1898, 3.a ed., 488.
(16) Benedetto Croce, La historia como hazaña de la libertad, México, Fondo de C ultura
Económica, 1942, 322.
(17) Benedetto Croce, Teoria e storia delia storiografia} Bari, Laterza & Figli, 1943, 291.

98
individual, singular. Existe um fim, e o historiador procura ver a ade­
quação do ato ao propósito. É um a tarefa psicológica, alheia às explica­
ções naturais. A intenção im pedida, a pressão do m undo, o im pulso e a
resistência, tudo isso mostra a relação íntim a entre a ação e o fato. Um
espírito se objetiva no fato. Êste não pode ser com preendido se nos lim i­
tarmos a um a relação mecânica de causa e efeito. Formam-se fins, reali­
zam-se valores, e é este algo espiritual que se incorpora ao fato, que im­
pede explicação e exige compreensão (ls).
Os grandes historiadores, experim entados no exercício constante da
atividade concreta, não hesitam em afirm ar com a mesma convicção a
verdade enunciada por um Croce ou um Dilthey. É assim que Trevelyan,
o grande historiador e professor inglês, escreve que “os sentimentos, es­
peculações e ações dos soldados do exército de Cromwell são interessantes
em si mesmos e não m eram ente como parte de um processo de causa e efei­
to”. Seu prim eiro dever é contar a história, tecer a narrativa, compreender
os acontecimentos. “Nós queremos saber, independentem ente de causa
e efeito, os pensamentos e realizações da raça hum ana, um a coisa que n u n ­
ca se repetirá, que um a vez tom ou forma e existiu” (19).
Neste mesmo sentido, diria Charles Beard, por exemplo, que os ter­
mos causa e causalidade deveriam ser elim inados da história, porque são
ambos ambíguos. Q ualquer fato histórico, como a Revolução Americana,
com plicado agregado de acontecimentos, condições e personalidades, é
um a delim itação no espaço e no tempo e assim seria um a operação alta­
m ente duvidosa atrib u ir causa ou causas a fatos que não podem ser iso­
lados na sua ocorrência. H á apenas aspectos limitadores, determ inantes
ou condicionadores (20).
M ax W eber, teórico e prático da história econômica e da sociologia,
campos onde mais faqilmente se generaliza, afirm a que as leis da causa­
lidade não dom inam as ciências históricas; no m undo das ciências cultu­
rais e históricas há relações compreensivas de meios e fins, isto é, de m oti­
vos e atos.
A compreensão histórica é alguma coisa de inteiram ente diferente,
sendo quase que exclusivamente um a questão psicológica. N a esfera his­
tórica, quase tudo passa pela consciência. Apenas em determ inadas épocas
revolucionárias, de crise ou guerra, os fatores irracionais exercem um a
influência mais acentuada^ Mas, na verdade, no campo histórico tudo se
volta p ara a interação dos esforços conscientes, nos quais mesmo os ele­
mentos inconscientes tendem a se resolver (21).
Devemos ter sempre em mente a infinita complexidade dos motivos
que aparecem de todos os lados e agem uns sobre os outros, com plexidade

(18) W ilhelm Dilthey, Introducción a las ciencias del espíritu, México, Fondo de C ultura
Económica, 1944, 50.
(19) George M acaulay Trevelyan, T he Recreations of an H istorian, Londres, T hom as Nelson
and Sons, 1919, 21-22.
(20) Charles Beard, “G round for a R econsideration on H istoriography”, in Theory and
Practice in H istorical Study, A Report of the Com m ittee on Historiography, Nova York, Social
Science Research Council, B ulletin 54, 1946, 136-137.
(21) Baseamo-nos num excelente resum o feito por E rnst Troeltsch, na Encyclopaedia of
Religión and Ethics, editada por Jam es Hastings, 1913, vol. vi, verbo “ H istoriography’'.

99
que dá um caráter peculiar a todo caso individual e desafia todo cálculo e
experim entação. Daí a im possibilidade de previsão ou prognose (22).
Conseqüentem ente, todas as ocorrências da vida individual ou do
grupo são tão afetadas pela condição psíquica do indivíduo e da massa que
se introduz nas mesmas um elemento incalculável. No processo histórico
sempre emerge o novo, que nunca é a mera transform ação das forças exis­
tentes, mas um elemento de sentido essencialmente original, devido à con­
vergência dos vários fatores históricos. O novo não é somente a síntese da
tese e da antítese. É algo de inteiram ente incalculável e imprevisível.
É evidente que há, assim, um a correlação entre a situação da vida e o
processo de pensam ento que vai realizar e participar da nova situação.
T o d a a dificuldade de aplicação da causalidade à vida histórica está exa­
tam ente no fato de. que este processo de pensam ento não pode ser previsto.
Como ocorreu, só depois de ocorrido é que se apreende. E como nunca se
repete, será impossível saber como ocorrerá n o u tra situação, em que a ana­
logia e semelhança pudessem fazer crer tratar-se de situação igual.
Eis por que a motivação psicológica difere, a todos os respeitos, da
causação natural. Sendo em bora a essência da causalidade histórica de
natureza preponderantem ente psíquica, o historiador não precisa, como
acentua Graebner, esperar até que um determ inado problem a seja resol­
vido pelos psicólogos, mesmo porque a pesquisa psicológica é sempre d iri­
gida ao geral, ao típico, e portanto não perm ite um a aplicação certa aos
acontecimentos individuais da história. O que o historiador precisa, em
p rim eiro lugar, é de um grande conhecim ento prático do espírito hum ano,
um a compreensão da natureza hum ana. Essa qualidade não pode ser
aprendida como o resultado de um a ciência, mas nasce do íntim o da
pessoa e pode ser desenvolvida pela educação (23).
Trata-se, assim, não da explicação d a vida aním ica em geral, da psi­
cologia experim ental, ciência natural, mas da inteligência de alguns hcv

(22) São ilustrativos estes casos de previsão no Brasil, um acertado, outro errôneo. O p ri­
m eiro foi form ulado, em 1878, po r H enrique de B eaurepaire-Rohan, profundo conheoedor da
geografia e da economia e história brasileira, nos seguintes termos: “N o lapso de dez anos estará
ex tin ta ou quase extinta a escravidão no Brasil” . (O fu tu ro da grande lavoura e da grande pro­
priedade no Brasil, R io de Janeiro, T ipografia Nacional, 1878, 12.) O outrcf foi feito por J u s ti­
niano José da Rocha, jornalista de O Brasil, no núm ero de sábado, dois de ab ril de 1843, com data
de 1943. Aí noticia a chegada de S. M. O Im perador de um a visita pelas 52 províncias do Brasil,
diretam ente da capital de Minas, em viagem de trem com a rapidez surpreendente de 36 horas.
Diz que S. M. fóra visitar a Província de M ato Grosso ipas, p ara poder exam iná-la mais d eti­
dam ente, preferiu viajar n ã o ‘ de trem ou fluvialm ente e sim pela estrada de coche. Registra
depois o aparecim ento de um a história do Brasil que abrange nossa época. Sum aria os aconte­
cimentos de nossa evolução até o reinado de D. Ped.ro iii e João I, nos quais “ todas as in stitu i­
ções se desenvolveram, a prosperidade pública aum enta, a m arinha, o comércio e a indústria p ro ­
tegidos com habilidade m ultiplicam nossas relações e dão-nos desconhecida influência no exterior.
As nossas hábeis negociações m ercantis com a Europa, nossas alianças com a Alem anha, nossas
relações com os dois reinos da América do N orte e de Buenos Aires, com o grão-ducado de M on­
tevidéu e do Chile, hoje tão opulanto, mostram a influência do sistema brasileiro na sorte dessas
o utrora m alfadadas repúblicas” . O utro caso de profecia acertada é o de D avid Caldas (1835-1879),
que no O itenta e Nove, jornal de T eresina, afirm ou, em 1.° de janeiro de 1873, dezessete anos
antes da proclamação da R epública, que a m udança de regime se daria em 1889. Vide Jussien
Batista, “David Caldas, o profeta da R epública”, Diário de São Paulo, 1.° de janeiro de 1950.
Apesar dos exemplos, a história não profetiza. Vide Ortega y Gasset, L a rebelión de las masas,
M adri, 1948, 59.
(23) F. G raebner, M ethode der Ethnologie, Heidelbôw? XTSrt W inter’s Universitátsbuch-
h andlung, 1911, 161-170.

100
mens ou de certas massas determ inadas, em determ inada época. A psico­
logia naturalista quer afirm ar leis, a psicologia histórica n arra fatos e
revive “a vida da alm a n a história”, no seu transcurso individual (24).
É p or esta razão que se encontra entre os historiadores notáveis psicólogos,
no tem po mesmo em que não havia nem sequer o conceito atual do psí­
quico. É, portanto, a psicologia descritiva, narrativa, compreensiva (Geií-
teswissenschaft), em contraposição à psicologia naturalista, que explica e
form ula leis (Naturwissenschaftliche Psy chologie), a auxiliar indispensá­
vel do historiador.
Essa psicologia, criada por E. Spranger (25), estuda as diferentes for­
mas de vida necessárias para as diferentes realizações espirituais dos vários
tipos. E ntre as formas de vida, Spranger descreve-nos como tipos ideais
e fundam entais, o homem-teórico, o econômico, o esteta, o social, o polí­
tico e o religioso. B ernhard Groethuysen descreveu o tipo econômico b u r­
guês como um a forma de homem, de ser, pensar e agir como hom em (26).
A diferença fundam ental entre esta psicologia e a explicativa está exa­
tam ente em que nesta se trabalha com a percepção, observam-se os fatos,
generaliza-se, formulam-se leis sobre a associação de idéias, num homem
geral e abstrato. A psicologia cultural descreve um hom em concreto, vi­
vido na história, e procura compreendê-lo. Todavia, isso não significa que
a etiología histórica possa ser interpretada por meio da psicologia. E por
q u ê1? Porque os estudos históricos não trabalham só com motivos psico­
lógicos, mas recorrem a vários motivos, entre os quais os fatores de ordem
m aterial.
Às vezes, causas puram ente naturais, tais como as limitações da região
polar, as fomes, os invernos, as secas destrutivas, representam um grande
papel na história, nem sempre pelos seus efeitos puram ente materiais.
Como exem plo de um a influência m aterial que se exerce não direta mas
indiretam ente, pela m otivação psicológica que produz, temos o referido
p o r R odolfo Teófilo, a propósito das chamadas “experiências de Santa
L uzia”, no dia 15 de dezembro, e que consistiam, não só na atenta obser­
vação do tem po nessa data, que corresponderia ao mês de janeiro, e os se­
guintes aos meses de fevereiro, março e assim por diante, como na colo­
cação de seis pedras de sal em um plano, ao relento, já na véspera. No
prim eiro caso, se amanhecesse escuro e caíssem alguns chuviscos, ocorre­
riam chuvas regulares; do contrário, todo o mês correspondente àquele
dia seria seco. No segundo caso, a pedra mais dissolvida pela m anhã re­
presentaria o mês mais chuvoso. A influência psicológica dessas experi­
ências sobre os m atutos era de tal sorte que, q uando os resultados eram
negativos, logo havia alguns que abandonavam tudo e tratavam de emi-
grar (27).

(24) H . R ickert, Ciencia cultural y ciencia natural, Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1937, 82.
(25) E duard Spranger, Formas de vida, psicologia y etica de la personalidad, Buenos Aires,
Revista de Occidente A rgentina, 1946.
(26) B ernhard Groethuysen, L a form ación de la conciencia burguesa en Francia durante
el siglo xvm , México, Fondo de C ultura Económica, 1943.
(27) Rodolfo T eófilo, História da seca do Ceará, 1877 a 1880, R io de Janeiro, Im prensa
Inglésa, 1922, 74-75. Vide tam bém Josa Magalhães, “Previsões folclóricas das sècas e dos invernos
n o Nordeste brasileiro” , R IC , t. l x v i , 1952, 252-268.

101
Sobre a influência direta da ação de um fator climático no curso de
um acontecim ento histórico temos, por exemplo, o papel im portante re­
presentado pelo inverno na destruição dos exércitos napoleónicos pelos
exércitos russos.
Os determ inistas geográficos e econômicos atribuem , apesar da nega­
tiva de alguns dos seus partidários, a causas puram enle m ateriais a eclosão
dos fatos históricos. Se não se pode aceitar o exagéro de Simmel, de que
as condições do solo e do clima são para o curso d;t história tão indiferen­
tes qu an to o clim a e o solo de Sírio, um a vez que não influenciem direta
ou indiretam ente a constituição psicológica dos povos (28), ou o de Ratzel,
da influência decisiva destas condições materiais, pode-se aceitar m ode­
radam ente que a natureza e a geografia são apenas-o substrato da história,
como escreveu E duard Meyer. As condições geográficas não têm poder
criador; sob idênticas condições do solo e clima houve a eclosão do gênio
grego e sua miséria m oderna e atual; sob idênticas condições geográficas
houve a cultura indígena pré-cabralina e a singular civilização tropical
que o m undo conhece.
N a pesquisa das causas m ateriais, de natureza econômica, não se pode
deixar de ver tam bém a própria motivação psicológica e as reações ideo­
lógicas e superestruturais. A origem do capitalismo, por exemplo, ilustra
bem a tese da íntim a relação entre as causas econômicas e éticas, e da insu­
bordinação às vezes decisiva destas às sugestões daquelas. M ax W eber
m ostrou que, enquanto o calvinismo, provocando um a revolução m oral e
espiritual, libertava a consciência protestante dos problem as surgidos com
a formação do capitalismo e deste m odo facilitava a nova síntese capita­
lista, a superestrutura católica dos países que prim eiro contribuíram para
a formação do capitalismo, pelas descobertas marítim as, pela abertura de
novos mercados, pelo influxo de m etal precioso trazido à Europa, dificul­
tava, pela criação de conflitos m orais e religiosos, a definitiva constituição
do capitalism o (29).
A m elhor atitude interpretativa será sempre aquela que procurar ver o
conjunto das condições materiais, relacionadas funcionalm ente, ou seja,
na dinâm ica do fato que sucedeu, a função de cada parte no conjunto.
Não há prioridade de um a causa, erigida em fundam ental pelos deter­
ministas. N isto assenta a principal divergência entre eles e entre eles e os
historiadores. Não se pode adm itir hierarquia na m otivação histórica.
Ao investigar um acontecimento, o historiador distingue entre o que
se pode cham ar o lado externo e o lado interno do fato. O interno é o que
só pode ser descrito em termos de pensam ento. O historiador nunca pode
excluir qualquer déles. Ele investiga não meros acontecimentos, mas ações,
e ação é a unidade do aspecto externo e interno de um acontecimento. Ele
sempre se lem bra que sua tarefa consiste em pensar na ação, para discer­
n ir o pensamento, o motivo, o fim ou o propósito do agente.
(28) Georg Simmel, Die Probleme der Geschichtsphilosophie, Leipzig, 1905, 1.
(29) M ax W eber, T h e Protestant E th ik and the Spirit of Capitalism, Londres, 1930. Vide
tam bém José H onorio R odrigues, “ Capitalism o e protestantism o”, N oticia de vária história,
Livraria São José, 1951, 9-42. Sóbre o caso especial de Portugal, vide José H onório Rodrigues,
“Expansão capitalista versus ideologia canônica em P ortugal” , N oticia de vária história, 43-66.

102
Na natureza, essa distinção não aparece. Os acontecimentos da n atu ­
reza são meros acontecimentos e não atos de agentes, cujo pensam ento se
procurasse descobrir. Collingwood escreve, a esse propósito, que o histo­
riador, investigando qualquer acontecim ento no passado, distingue entre
o que pode ser chamado o exterior e o interior do acontecim ento. Por
exterior significa qualquer coisa que possa ser descrita em termos de cor­
pos e movimentos e por interior o que somente pode ser descrito em ter­
mos de pensamento. O historiador nunca trata somente de um desses
aspectos com exclusão do outro. Investiga não o simples acontecimento,
mas ações e estas constituem a unidade do exterior e do interior (30). Isso
significa que o historiador tenta com preender o fato e o espírito do fato.
P ara o cientista, a natureza é sempre e apenas um fenômeno, um es­
petáculo apresentado à sua inteligência; os acontecimentos, da história, ao
contrário, não são nunca meros fenômenos, meros espetáculos, mas coisas
carregadas de pensamentos e fins. Ao penetrar no interior dos sucessos
para descobrir o pensam ento que neles se exprime, o historiador faz o que
nenhum cientista n atu ra l necessita ou pode fazer. Descobrir o pensam ento
e com preender a ação é um a tarefa m uito mais complexa e, ao mesmo
tempo, é mais simples, na pesquisa dos motivos dos acontecimentos. O
que ele precisa é com preender o fato e quando o com preende sabe porque
aconteceu. Q uando o historiador pergunta por que B rutus assassinou
César, procura conhecer não a causa, mas o que B rutus pensava quando
se decidiu a cometer aquele ato (31). A causalidade histórica entendida
como um a relação entre causa e efeito escapa à história (32).
O processo n atu ra l é processo de acontecimentos, a história é proces­
so de pensamentos e ações. A inda quando se tratam de ações irracionais
ou puram ente naturais (comer, beber, amar), a consciência e o pensam en­
to se fazem sentir no resultado, como já observamos.
(30) T h e Idea of H istory, Oxford, Clarendon Press, 1946, 2-3.. G ardiner {T h e N ature of .
Historical Explanation, ob. cit., na nota 4), de cuja exposição sóbre a causalidade no s<enso
comum e no científico nos aproveitamos, argum enta cuidadosam ente contra a teoria de Colling­
wood e Croce, das intenções e planos q u e tornam sui generis a explicação histórica. P ara éle,
a term inologia do historiador é a da linguagem comum e, em bora diga que está narrando, está,
realm ente, explicando em tèrm os causais do senso comum (68-82). Para ele, essa term inologia
é confusa e perigosa, pois seu uso de conceitos, como inevitabilidade, necessidade, e de verbos
metafóricos, como forçar, compelir, etc., dá a impressão de q u e a história é a descrição do
hom em como pobre e agitada criatura, sujeita a um Destino cruel e irracional (69). Essa afirm a­
ção revela o desconhecimento da historiografia, em bora o A utor não negue que a explicação
histórica é um problem a extrem am ente complicado, que freqüentem ente exige um a análise longa
e detalhada e que, quanto m ais complexo, maiores são as exigências feitas ao julgam ento do
h istoriador (98). Diz tam bém que o historiador seleciona um a causa “ verdadeira” e que as
cham adas teorias históricas têm sua fonte num a incorreta interpretação das explicações históricas
do tipo de causa fundam ental. A causa única está ligada à fundam ental e não há historiador
q ue as aceite, senão os que a isso estão obrigados, ou os que vieram para a história para
provar um a causa, como os m arxistas, positivistas, determ inistas geográficos, etc. A inda re­
centem ente, Clark protestava contra a causa única como a q u e se tenta procurar para
explicar a Revolução Industrial: o crescimento do comércio internacional, invenções técnicas
(M a rx ), aum ento da procura e da taxa de ju ro e o desenvolvimento demográfico ( T h e Idea of
the Industrial R evolution, ob. cit., 32). O verdadeiro historiador não concorda com as causas
decisivas, nem que as condições econômicas criaram Napoleão (110-111). É lógico tam bém que
as teorias históricas não funcionam como teorias científicas: sua significação reside no seu poder
de sugestão e na sua im portância diretiva (112).
(31) R. G. Collingwood, ob. cit., 213-214.
(32) E rnst Troeltsch, T h e Social Teaching o f the Christian Churches, Nova York, M acmillan,
1931, vol. II, 1003. D o mesmo modo pensa H enri Sée, Science et philosophie de Vhistoire, Paris,
1933, 143-150.

103
Em resumo, na explicação mecanicista e natural, os motivos psico­
lógicos, as intenções, os fins são irrelevantes. N a história, os fatos são pro­
positados, intencionais e têm um a finalidade. E ntendida a causalidade
histórica como reconstrução de motivos ou conexões individuais (não ge­
rais ou universais), vê-se que a história não está isenta de causa. O que se
nega é a aplicabilidade da lei causai naturalista ao fato histórico. Cada
fato ou ato está carregado de espírito e de propósito, que não podem ser
determ inados em seu processo segundo o m odo causai naturalista. Do­
m ina tam bém o espírito do homem, que é o agente, a determ inação inte­
rior, o fim (33).
A história esforça-se por com preender os vínculos, os nexos, as cone­
xões que ligam o agente aos resultados ou efeitos. N arra um processo que
sob determ inadas condições se efetuou como necessário. Se a causa é con­
cebida como um a atividade que opera na produção de um efeito, temos
no conceito de causa três térmos: antecedente, um processo de intervenção
que deve ser determ inado pelo investigador, e o conseqüente. N a história
temos tam bém três termos, com a diferença fundam ental que o segundo
é o homem, e que portanto dom inam motivos psíquicos que só a com pre­
ensão pode conhecer, mas que não podem ser explicados, como nas ciências
naturais. Daí os acasos (34), os condicionais e o azar na história. Que
aconteceria se os franceses tivessem perdido a batalha do M arne ? Se a
ordem de retirada não tivesse sido dada às tropas alemães ? Se não hou­
vesse a intervenção am ericana ?
U m dos mais famosos de todos os Se foi originalm ente apresentado
por E duard Meyer e usado como exem plo por M ax W eber para ilustrar
seu discurso sóbre a possibilidade objetiva da história. Q ual teria sido a
conseqüente história da E uropa se as hostes persas tivessem vencido as
batalhas de M aratona, Salam ina e Platéia ? Meyer afirma, com razão, que
tanto a história política como os valores culturais da civilização grega e
européia teriam sido profundam ente diferentes do legado que chegou até

(33) Sidney Hook, Os heróis através da história, S. Paulo, Ed. U niversitária, 1945, 149-150.
A mesma afirm ação fez A. N. W hitehead em Science and the M o d em W orld (Londres, P enguin
Books, 1935, 17)*.
(34) P ara E duard Meyer, o acaso não está absolutam ente em contradição com a causalidade.
“ Z ur T heorie u n d M ethodik der Geschichte”, Kleine Schriften zur Geschichtstheorie und zur
wirtschaftlichen un d politischen Geschichte des A ltertum s, H alle, V erlag von M ax Niemeyer,
1910, 23. O acaso pode significar apenas a colisão de duas ou mais cadeias independentes de
causas ou motivos. Vide G ardiner, ob. cit., 111. Vide tam bém excelente artigo de Sérgio
B uarque de H olanda, “ABC das catástrofes” , Diário Carioca, 3 de fevereiro de 1951.
(35) E rnst Troeltsch, “H istoriography” , Encyclopaedia o f R eligión and Ethics, editada por
Jam es Hastings, vi, 1913. E ntre outros vários exemplos de “se” na história, podem citar-se: 1)
Afirma-se que se Colombo não tivesse m udado aos 7 de outubro de 1492 a direção de sua rota,
que era de este para oeste, e governado para sul-oeste, ele teria entrado na corrente de água
q uente ou gulf-stream e teria sido levado para a Flórida, e daí, talvez, para o Cabo H ateras e
a V irgínia, lisse incidente seria de enorme im portância, pois que teria podido dar aos e . u . a .
em lu g ar de um a população protestante inglésa um a população católica espanhola (Ale­
xandre H um boldt, E xam en critique de Vhistoire de la géographie du Nouveau Continent, Paris.
1836-39, 3.° vol., 158); 2) “Se M arco A urélio e Avídio Cássio houvessem dado ao ocidente do
Im pério um a nova constituição, um a espécie de constituição representativa, convertido em cida­
dãos os h ab itantes da G ália, Espanha, Itália e Grécia, destruído a grande propriedade territorial,
reform ado a religião com sentido estoico, teriam dado firmeza ao Im pério e o teriam protegido
contra os cristãos, inim igos do Estado. Deste modo, não teria havido Idade M édia na Europa

104
Portanto, em resumo, a natureza peculiar da causalidade histórica
m ostra a natureza distinta do conhecim ento histórico, mas não lhe fornece
um a base. Essa base deriva só do método, que é determ inado não pela
sua pró p ria substância, mas pelo fim em vista, pois o conhecim ento não
é um a m era reprodução de experiências, mas sempre um a seleção abstrata
dos elementos particulares da experiência para um fim intelectual defi­
nido. O m étodo das ciências históricas é condicionado pelo objetivo de
selecionar do fluxo dos acontecimentos aquilo que em m aior ou m enor
escala é qualitativa e unicam ente individual. Ele abstrai das leis universais
que não explicam os elementos concretos e específicos e trabalha com as
causas individuais que precisamente, devido à sua infinita complexidade,
reproduzem o único, e não com a concepção de eqüivalência causal. O
m étodo das ciências naturais, por conseguinte, exige um a lei universal.
O m étodo das ciências históricas exige um a motivação individual. O p ri­
m eiro com preende o m undo físico, pela dedução de leis universais; o se­
gundo faz a reconstituição das conexões causais.
Individualidade, aí como já repetimos várias vezes, não expele o un i­
versal. Mesmo a história universal ou a história da hum anidade será um
assunto livrem ente selecionado e individualm ente concreto e assim só
pode ser observado ou com preendido como um a concatenação particular e
não como um a operação de lei universal. T a l explicação causai constitui
o caráter distintivo da história como ciência teórica do individual, do sin­
gular, do que não se repete.
E ntre o antecedente e o conseqüente, temos a ação hum ana (36), sempre
tão com plexa e imprecisa, incapaz de se reduzir à fórm ula de um a lei. Co­
mo vimos, o novo não é somente a síntese da tese e da antítese; é algo de
imprevisível, algo de incalculável, algo sujeito ao homem, capaz de ação
própria, consciente ou inconsciente, racional ou irracional (37). É este
algo interm ediário que torna diferente a relação de causa e efeito na ciên­
cia n atu ra l e na ciência histórica.
e o cristianism o ter-se-ia reduzido ao O riente”. (Charles Renouvier, Ucronia. La utopia en la
historia, Buenos Aires, E dit. Losada, 1945.) N a realidade, o historiador não está prim ariam ente
preocupado em descrever o que teria ou poderia ter acontecido, se determ inadas circunstâncias
fõssem diferentes. N o entanto Joaquim Nabuco escreveu que a revolução de Pernam buco (1848)
não teria acontecido se o M inistério, em vez de adiá-la para abril, tivesse dissolvido logo em
o u tu b ro a Câm ara dos Deputados, que só veio a dissolver em fevereiro do ano seguinte. Um
estadista do Im pério, 2.a ed., 1936, i, 69. Os exemplos são inúmeros. Vide Joseph Calmette,
L ’élaboration du m onde m oderne, Paris, Clio, 1942, 533.
(36) Frederick J. T eggart, Theory and Processes of H istory, Univ. of California Press,
1941, 70-71.
(37) Os psicanalistas falam tam bém mais em motivos e intenções que em causas e gene­
ralizações. Vide Stephen T oulm in, “ T h e Logical Status of Psychoanalysis” , Analysis, dez. 1948,
citado por G ardiner, ob. cit., nota 13. O próprio Freud fala em causação dos atos pelos processos
mentais. Os motivos das ações atuais são correlacionados às experiências infantis e à conduta adulta
e ajustados ao sistema conceituai adaptado às suas descobertas. Vide G ardiner, ob. cit., 13-15.
Baseados na influência desses fatores irracionais, os psicanalistas quiseram tam bém contribuir
p ara a explicação dos motivos hum anos na história. Franz A lexander, chefe da escola psicana­
lista de Chicago, num ensaio sobre a psicologia e a interpretação dos fatos históricos, declara
que os historiadores, du ran te séculos, não viram senão os motivos superficiais e que não nos
devemos surpreender que não pudessem testem unhar o poder das forças ocultas e destrutivas.
Somente o psiquiatra sente, naqueles fenômenos, a voz baixa; mas inescapável, da consciência
h um ana ( “ Psychology and the Interpretation of H istorical Events” , T h e Cultural Approach to
H istory , Chicago Univ. Press, 1940, 48-57. Nos e . u . a ,, alguns psicanalistas afirm am que
Jefferson tin ha um complexo antiautoritário que se originou de certas relações desagradáveis

105
A N A TU R EZ A DA CONVICÇÃO H IST Ó R IC A

O conhecimento histórico. Sua positividade


A historia tem de comum com todas as outras ciências a necessidade
de provar o historiador a si mesmo e a terceiros as razões em que se ba­
seou seu conhecim ento histórico.
Antes de ten tar descobrir as características da indução histórica pelo
seu lado positivo, é necessário m ostrar como, até bem pouco, os historia­
dores, de regra, procuravam um a resposta pronta às questões que a his­
toria levantava. Se, form ulada determ inada pergunta, encontravam a res-
posta dada por outras pessoas e a aceitavam, estas eram tidas como “auto­
ridades” e sua declaração, denom inada de testem unho, era transcrita e
incorporada à narração.
M uitas vézes havia duas e mais respostas que eram englobadas na ex­
posição, em bora houvesse entre elas contradições; o mais que se fazia, em
tal caso, era procurar conciliar tais respostas ou decidir por um a delas.
D urante m uito tempo, essa história que com binava os testem unhos de
várias autoridades foi dom inante na história da história. Evidentem ente,
ela não nos podia conduzir a nenhum a espécie de certeza nem satisfazer
às condições indispensáveis de um conhecim ento positivo. Daí m uitos re­
petirem que a história, que procurava respostas dadas nos livros antigos,
contem porâneos ou não aos acontecimentos, que se lim itava a repetir as
informações, conciliando-as, quando contraditórias, não era um a ciência,
a despeito dos clamores dos historiadores profissionais, que procuravam
— diziam os céticos — exaltá-la. Ficaram famosas as frases de Fontenelle:
“La histoire n ’est q u ’une fable convenue”, e a daquele célebre capitão de
indústria americano: “History is a B unk” (A história é um a balela) (J).
Foi somente no século xvn, com o aparecim ento da diplom ática e da
paleografía, como veremos adiante, que os historiadores começaram a pôr
em ordem sua casa. Dois novos movimentos apareceram então. Um, o
do exam e sistemático das autoridades, a fim de determ inar a sua credi­
bilidade e, em particular, o estabelecim ento de princípios, de acórdo com
os quais essa determ inação pudesse ser levada adiante. O outro foi o
m ovim ento para am pliar as bases da história, fazendo uso de fontes não
literárias, que tam bém estudaremos quando tratarm os das disciplinas au­
xiliares (2).
Logo se passou a com preender que era impossível aceitar um a ver­
dade histórica até que a credibilidade do autor em geral e de sua determi-
era seus dias de infância, entre ele e o pai). M. N athan considera prem aturo decidir se a
psicanálise deve ou não ser adm itida entre os métodos históricos, de vez que, na sua opinião,
um docum ento histórico não pode ser interpretado como confissão psicanalítica. Diz, porém ,
que se essa fonte de inform ação não tem valor absoluto, talvez se lhe possa reconhecer valor
sugestivo e pedir à psicanálise sugestões que os métodos precisos da história se encarregarão
de controlar e verificar.
(1) G. J. C arraghan, A Guide to H istorical M ethod, Nova York, Fordham University Press,
1946, 78.
(2) Nos últim os cem anos, o ideal de basear o trabalho nas fontes originais, a abertura
de novos campos de atividade e o apuro do padrão m etódico têm fieito crescer as dificuldades
dos historiadores. V. Arnold Toynbee, “ T h e Lim itations, or H istorical Knowledge” , T L S, 6 de
janeiro de 1956.

106
nação em particular fosse sistem aticam ente investigada. O docum ento que
antigam ente era chamado de autoridade adquiriu um a nova expressão e
passou a chamar-se “fonte”, um a palavra que indica apenas que ele con­
tém um a informação, sem que isso im plique na determ inação do seu valor.
O docum ento está sub judice, vai ser exam inado e criticado. É o histo­
riador quem vai julgar de sua veracidade ou não.
É, portanto, um a história crítica a que se inicia no século xvn e atinge
seu apogeu com as regras de m etodologia estabelecidas quase que defini­
tivam ente no século xix, com a escola de Ranke. Agora já não mais se
tratava de incorporar aquelas declarações encontradas nas autoridades,
mas de perguntar prim eiro, por interm édio dos métodos de crítica his­
tórica, do valor ou não da informação.
Vico foi o prim eiro a m ostrar que as declarações contidas num a fonte
m uitas vezes não devem ser aceitas em seu sentido literal, mas que se deve
procurar saber o que o autor quis dizer. É o problem a da crítica interna
que estudaremos mais adiante, quando tratarm os da crítica histórica.
Vemos, por aí, que para atingirm os a convicção histórica, repelindo
vitoriosam ente todos os motivos contrários, é indispensável o preenchi­
m ento de certas condições. Devemos conhecer as fontes, devemos exam inar
sua autoridade e integridade, o que fazemos por interm édio das disciplinas
auxiliares e da crítica histórica. Só assim poderemos chegar à realidade do
que aconteceu.
Collingwood declara que os historiadores de sua geração estarão bem
lem brados da excitação que provavelm ente sentiram quando, pela p ri­
m eira vez, verificaram que tinham em suas mãos um a afirmação histórica
que nada deixava ao capricho e que não adm itia nenhum a conclusão al­
ternativa, mas provava ser, em todos os pontos, tão conclusiva quanto uma
dem onstração matem ática. Em face dos elementos colhidos não e ra possí­
vel um a conclusão alternativa, só aquela a que se chegara era admissível,
e não o u tra (3).
Evidentem ente, a afirm ativa de Collingwood sobre a certeza histórica
refere-se a determ inados casos nos quais a plenitude das fontes encontra­
das nos perm ite chegar a um a conclusão exata de como realm ente as coisas
sucederam.
É exato que as línguas da antiga C reta e da E trú ria são ainda desco­
nhecidas, mas a decifração dos caracteres hieróglifos e cuneiformes, a re­
construção da antiga vida do O riente-Próxim o pelas escavações arqueoló­
gicas e outras realizações da pesquisa histórica são conquistas tão grandes
q u an to aquelas realizadas pela mais exata ciência (4). Não é a existên­
cia insolúvel do problem a que justificaria o ceticismo. Nem é a revira­
volta radical do pensam ento que invalida o conhecim ento (8). No campo
d a ciência física, a teoria da relatividade de Einstein significa um a brusca
m udança total de pensam ento tão grande quanto representou a revolu­

(3) R. G. Collingwood, T he Idea o f H istory, Oxford, Clarendon Press, 1946, 254-255 e 262.
(4) G. Salvemini, Historian and Scientist, Cam bridge, H arvard Univ. Press, 1939, 50.
(5 ) H. R ickert, Ciencia cultural y ciencia natural, Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1937, 158.

107
ção econômica prom ovida por Karl M arx, ou a reform a iniciada pelos
constitucionalistas contra as teorias de Pasteur.
Deste m odo não se justificaria o velho ceticismo, não o de Fontenelle,
ou o daquele industrial am ericano, mas do nosso M achado de Assis, q u an ­
do escreveu, nas M emórias póstumas de Brás Cubas: “Viva pois a história,
a volúvel história que dá para tu d o ” (6).
Não é só a história, “com seus caprichos de dam a elegante”, que m uda
de opinião. Os conceitos das ciências naturais, generalizadoras, formados
p or um a geração de investigadores, são logo modificados e até desfeitos
pela geração seguinte, a q ual deve resignar-se a ver seus conceitos subs­
tituídos por outros novos. Não é pois um a objeção contra o caráter cien­
tífico da história dizer que ela tem de voltar a ser reescrita constantemente,
pois tal é a sorte comum de todas as ciências. O caráter obrigatório das
conclusões das ciências naturais está tam bém sujeito a modificações gerais
e radicais (7).

A convicção histórica

Não se trata, porém, da realidade do passado, da positividade do co­


nhecim ento histórico. A queda do Im pério Rom ano, ou a Independência
do Brasil, em 1822, são fatos positivos sobre os quais possuímos certeza.
É um a verdade objetiva de que a tradição nos inform a e as fontes nos con­
firmam. O problem a não se inicia com a positividade do conhecimento,
a fatualidade do acontecim ento ou sua verificabilidade. É possível che-
gar-se a esta não pela repetição — não podemos reproduzir as condições
que determ inaram o colapso do Im pério R om ano e observar suas con­
seqüências, mas, como sustentou M ax W eber, pela comparação da inter­
pretação subjetiva com o curso concreto do acontecimento, indispensável
em tòdas as hipóteses (8). Q uando se trata de saber como e por que o
Im pério caiu ou a Independência do Brasil se féz, aí é que a verdade obje­
tiva desse fato vai se transform ar num a verdade subjetiva, não só por inter­
ferência do historiador, construtor d a história, que tem, ele próprio, suas
idéias, sua concepção do m undo, como em conseqüência do exame da ação
histórica, misto de fato e de espírito do fato.
A história é um estudo empírico, no sentido de que não é um aglo­
m erado não-interpretado de símbolos, sem referência à experiência. Daí

(6) Machado de Assis, M emórias póstum as de Brás Cubas, Rio de Janeiro, ed. Jackson,
í 938, 19.
(7) R ickert, ob. cit., 158. As respostas científicas tam bém se modificam diante dos resul­
tados da investigação. Os fundam entos do pensam ento científico exigem reinterpretação. Cf. E.
W ind, “ Some Points of Contact between H istory and N atu ral Science", Philosophy ó* History.
Èssays Presented to Ernst Cassirer, Oxford, Clarendon Press, 1936, 257. Vide sôbre as oscilações
da teoria dos físicos na questão da m atéria e do éter, R . G. Collingwood, T h e Idea of N ature,
Oxford, 1945, 149; A. N. W hitehead, Science and the M o d em W orld, Penguin Book, 1938, 28, 62,
69; A lbert Einstein e Leopold Infeld, T h e E volution of Physics, Nova York, 1938, 275; E rnst
Cassirer, E l problema del conocimiento, México, 1948, 162-163.
(8) Max W eber, T h e Theory of Social and Economic Organization, Londres, W. Hodges, 1947
e Nova York, Oxford Univ. Press, 1947.

108
representar a intuição ou a adivinhação de que falava C apistrano de Abreu
um papel im portante, pois é nesse sentido que se pode com preender que
o m undo da experiência do historiador não começa com os fatos, mas
acaba com eles(9). É com sua experiência do m undo, com sua ideologia,
sua concepção, suas teorias que éle vai do fato objetivo à construção sub­
jetiva, à interpretação que se eleva do m undo da prova para a explicação
ou compreensão dos motivos da queda do Im pério R om ano ou da In d e­
pendência do Brasil. Nesse trab alh o 'ele tenta estabelecer a interconexão
processual, ou seja, descobrir os fatos e m ostrar suas relações, processo si­
m ultâneo. O valor do trabalho do historiador consiste largam ente na re­
velação dessas conexões. Mas a subjetividade consiste em que diante de
toda evidência, lim pa pela crítica de qualquer suspeita, historiadores da
m elhor categoria intelectual e do m elhor preparo crítico metodológico e
filosófico interpretam diferentem ente os acontecimentos. Isso porque há
historiadores desiguais, escrevendo com fins e interesses diferentes, e com­
preendendo os acontecimentos com as mais variadas ideologias e teorias.
Daí as antinom ias e as contradições do trabalho histórico. U m his­
toriador republicano e outro m onarquista verão a figura de Floriano de
modo diferente na reconstrução da história republicana devido à sua con­
cepção do m undo político. Fatores outros tam bém interferem , como a
distinção dos aspectos relevantes e irrelevantes e de suas correlações (10).
A fide ou infidedignidade das fontes é um problem a de prim eira instância,
mas, no final, na hora do julgam ento e da avaliação, o historiador, como
o juiz, para chegar à convicção tem sua liberdade de interpretação. Assim
como o juiz deixa de ser “um espectador inerte na produção das p ro ­
vas” (n ), o historiador tam bém conduz sua pesquisa das fontes segundo
sua intuição, suas hipóteses (12), e livrem ente constrói sua interpretação e
sua narrativa.
Deste modo, a narrativa é objetiva e subjetivam ente verdadeira, isto
é, a realidade do passado é objetivam ente estabelecida pelas fontes, mas
subjetivam ente interpretada pelo historiador. O historiador, participante
do processo histórico, indivisível no seu suceder contínuo, composto de
presentes passados e de passados presentes, e carregado de historicidade
pela criação do histórico futuro, tem por função recriar e repensar o acon­
tecido, que existiu na sua fatualidade, mas que lhe cabe construir, no
escrito histórico, e, conseqüentem ente, no processo histórico atual. Para
isso é extrem am ente im portante o problem a da interconexão processual
entre os fatos e o espírito do fato. Os historiadores, na discussão d a vida
hum ana, fazem sempre referência aos desejos, pensamentos e diretrizes das
pessoas e povos de que tratam . Temos, assim, os propósitos do próprio
(9) M. J. Oakeshott, Experience and its M odes, Cam bridge, 1933, 107.
(10) Luciano (115-200), na sua De historia conscribenda (traduzida por Custódio José e
Oliveira, Sobre o modo de escrever historia, Lisboa, 1771, 60-61), critica severamente os histo­
riadores que registavam os preços dos peixes, “pois escrevendo, estas coisas com miudeza se ficaria
ignorando as grandes façanhas” .
(11) Francisco Campos, Exposição de m otivos ao Código de Processo Penal, Im prensa N a ­
cional, R io de Janeiro, 1941, 8; Narcélio de Queiroz, “ O novo Código de Processo Penal” ,
Revista Forense, março 1943, 457-467.
(12) E duardo de Oliveira França, ‘ A teoria geral da historia” , R H , n.° 7, julho-set. 1951,
128-131.

109
historiador, sua concepção do m undo e sua teoria da história e os pensa­
mentos e propósitos das personagens e do povo que agiram, e quando se
fala em ação se com preende o misto de ato e de pensamento.
Seria infantil negar a im portância desse fato, que se torna um ponto
central da interpretação histórica e a distingue profundam ente de qual­
q uer ciência exata. “Seria falta de senso falar de fenômenos naturais mo­
tivados por desejos. A maçã de Newton não caiu porque assim o desejava,
nem irrupções vulcânicas ou erosões se destinaram a destruir os habitantes
ou evitar o aproveitam ento da terra. Os planétas não se movem porque
assim o desejam, ou porque não querem p ertu rb ar o trabalho do sistema
solar. Nas formas de vida, especialmente a anim al, a distinção seria mais
difícil, mas h á um certo constrangim ento, um a sensação de que a lingua­
gem está sendo sutilm ente em baraçada, quando se fala das abelhas guar­
dando mel p ara provisão do inverno, ou que o gato passeia pela janela
porque planeja ir-se embora. É somente do hom em e de seus feitos que é
estritam ente correto falar de intuição, crença, pensamento, plan o ” (13).
Por isso, a explicação na história é tão diferente da científica e se chama
ou se deve cham ar compreensão (14). A distinção foi exemplificada por
Collingwood, ao propor que o historiador, quando pergunta: P or que
Brutus m atou César ?, quer saber o que B rutus pensou e o que o féz de­
cidir m atar César (15).
A explicação histórica é, assim, e sempre, um a tentativa de recons­
trução, não só das condições físicas ou m ateriais do acontecim ento, mas
uma com preensão dos pensamentos, das decisões que irrom peram e deram
curso ao acontecimento. Para com preender a responsabilidade da lide­
rança, a irracionalidade ou racionalidade do povo, agitado na Indepen­
dência, não basta falar de causas físicas e materiais, não basta eleger uma
condição fundam ental (racial, geográfica, econômica), mas com preender,
isto é, penetrar sim paticam ente na m entalidade das personalidades e dos
períodos, para ver nos acontecimentos concretos a expressão de tais mo­
tivos, de esperanças e desejos, de resoluções e cálculos.
A compreensão não é, porcanto, nenhum mistério, nem se procuram
fantasmas psíquicos, como alguns críticos da compreensão histórica a jul­
gam, vendo tam bém um a disputa entre teorias materialistas e idealistas.
Mesmo que se elegesse um a condição m aterial, digamos a econômica, como
o principal fator dos acontecimentos, nunca se poderia compreendê-los
se não entrássemos em com unhão de sim patia com os motivos concretos
e inconscientes, as esperanças e liberdade dos povos, a responsabilidade
e decisão das m inorias criadoras ou dom inantes, os desafios e as respostas,
etc. Dizer que é impossível conhecer os motivos internos das ações hum a­
nas e que se deve reconhecer seus limites lógicos como expressões figura­
tivas, usadas na linguagem comum e empregadas livrem ente pelo histo­
riador, é reduzir a significação das fontes conhecidas ou por conhecer, no
estabelecim ento da positividade do fato e encurtar a capacidade de com-
(18) Patrick G ardiner, T h e N ature o f Historical Explanatiori, Oxford Univ. Press, 1952, 115.
(14) Vide últim o capítulo.
(15) R. G. Collingwood, T h e Idea of H istory, ob cit., 214-215.

uo
preensão hum ana, que pode descobrir a intenção ou intenções, tidas e
modificadas no curso dos acontecimentos. O historiador pode dar expli­
cação inteiram ente satisfatória do curso do acontecim ento e das intenções,
una ou dupla, das personagens.
T o d o o capítulo sobre a Proclamação da Independência, em A vida
de D. Pedro I, de Otávio T arq u in io de Sousa, por exemplo, é um a aná­
lise dos motivos, das esperanças, das intenções, da duplicidade dos fins
das personagens e especialmente de D. Pedro I ( 18). Substantiva um a in ­
tenção principal, que é a Independência, e não deixa de analisar os vários
motivos psicológicos que repercutiram no acontecimento.
Porque não se desconhece a insegurança das referências às form ula­
ções verbais e simbólicas, que se ligam a palavras como intenções, planos,
desejos — em bora possamos obter essa espécie de informação, é que se diz
que não se trata de certeza, mas da convicção, que livrem ente o historia­
dor forma na interpretação dos fatos históricos. A própria experiência
do historiador no processo vivo da história do seu tem po sugere as hipó­
teses para colher os elementos de convicção, os guias para descobrir e in­
terpretar as razões e os propósitos de alguém. P ara sua m aior segurança,
ele verifica, como ensinou W eber, que a interpretação subjetiva coincide
com o curso concreto do acontecimento.
Da positividade do fato surge a certeza: a Independência foi procla­
m ada em 1822; da interpretação do porquê e como se deu, da concepção
do m undo e das teorias interpretativas, especialm ente as monistas (racial,
geográfica, econômica) do historiador e dos planos, desejos, pensamentos,
esperanças, decisões do povo e personagens não surge a certeza, mas a con­
vicção que livrem ente o historiador forma e segundo a qual constrói a
sua narração.

(16) R io de Janeiro, José Olympio, 1952, vol. n.

lll
C a p ít u l o 4

Periodização

n a h i s t o r i a já é, certam ente dividi-la, periodizá-la,


ensar

P
pois, como lem bra Croce, pensam ento é organismo, dia­
lética, dram a e, como tal, tem seu princípio, meio e fim e todas a
pausas que um dram a com porta e requer (1).
Todas as periodizações e delimitações do curso da historia universal são
apenas condicionais e voluntárias. Que pausas, que períodos seriam ideais,
se a historia é realm ente um suceder continuo, em que os acontecimentos
estão ligados uns aos outros, sem ru p tu ra nem desunião (2).
Os historiadores, em sua unanim idade, sentem um m oderado tem or
de encerrar a vida do suceder histórico em rígidos limites de datas e con­
ceitos. Mas, por mais falhas que sejam as periodizações históricas, delas
não se pode prescindir. A necessidade que nos im pulsiona para a perio­
dização não é outra senão a de elim inar a tram a obscura dos fenômenos
históricos, com preender e ordenar as relações históricas.
A periodização tem como fim descobrir a estrutura de um a época
histórica e como m étodo a formação de conceitos que exprim em o ser pró­
prio da época. D entro de cada um desses conceitos deve ajustar-se à série
de fatos, até mesmo os antagônicos, que são tam bém característicos da
fase conceituada. A totalidade da época com preendida é, então, definida
como um a categoria histórica. Para Dilthey, estas surgem por intuição (3).
Só o verdadeiro historiador é capaz de sentir e com preender a essência
de um a época.
A linha de curso histórico, com suas transformações e os nexos efe­
tivos que as ligam como a um todo, pode ser destacada analíticam ente
e separada em seções temporais. São as tendências dom inantes e que

(1) Benedetto Croce, Teoria e storia delia storiografia, 5.a ed., Bari, Laterza & Figli,
1943, 98.
(2) O professor C. S. Lewis (De descriptione tem porum , Cam bridge, 1955, 4), em aula
in augural, declara: “ T odas as divisões falsificam nosso m aterial de algum modo; o m elhor que
se pode esperar é escolher aquelas que menos falsifiquem ” . É exatam ente isto o qu e tenta a
teoria da periodização.
(3) W ilhelm Dilthey, E l m undo histórico, México, Fondo de C ultura Económica, 1944, 313.

112
logo caracterizam um a época. O historiador concentra num período toda
a cultura de um a época, de tal m odo que n a atribuição de valores, na
adoção de fins e no estabelecimento de regras de vida ele estabelece o
padrão que a caracteriza. Às vezes um a pessoa, um simples fato, um acon­
tecim ento encarnam em si mesmos um período. As tendências dom inan­
tes coexistem com as que se lhes opõem, porque toda oposição se m an­
tém no terreno e estrutura da época. Portanto, a principal tarefa consiste
em reconhecer nas diversas manifestações da vida a unidade da determ i­
nação de valores e da adoção de fins. N aturalm ente, cada época continua
suas relações com a anterior e a que se lhe segue.
Assim como das insuficiências da época anterior nasceu o afã cria­
dor que gerou o período atual, assim cada época traz em seu bòjo os li­
mites, tensões e sofrimentos que preparam a fase seguinte (4). T o d a for­
ma histórica é finita e universal, contém um a m istura de satisfação e ne­
cessidade, fórça e agonia. Novas opressões form adas pelo anelo insatis­
feito dós hom ens geram a necessidade de transformação, obrigam a pro­
cura de novas soluções e, conseqüentem ente, de novos períodos.
A periodização nasce, pois, da necessidade que sente o historiador de
destacar na sua especialidade o sucessivo encadeam ento do processo his­
tórico. Nasce do conhecim ento mais profundo das relações do devenir
histórico. Em nenhum a parte como aqui o historiador dem onstra tan to se
ficou n a exterioridade ou na superfície do suceder ou se penetrou mais
profundam ente na essência de um a época. É aqui, ainda, onde ele mos­
tra se é um pedante, um rato de biblioteca, um burocrata da história ou
realm ente um historiador (B).
N a capacidade de bem periodizar estaria a força do grande histo­
riador. P ara Troeltsch, o principal problem a da síntese cultural está
na periodização da história universal, que é o corte das diversas grandes
conexões culturais um a das outras, a adoção de grandes cesuras entre
elas e : a caracterização geral e ligação ideal destas partes com grandes
totalidades culturais existentes e características. Em tal periodização está
o elem ento propriam ente filosófico da história universal (e).
É preciso, porém, antes de entrar sum ariam ente nas discussões havi­
das entre os vários historiadores e filósofos da história sòbre os vários
períodos, expor como surgiram as fronteiras tradicionais que nos têm
servido de guia no estudo da história.
Diz H uizinga que a necessidade de dividir a história do m undo n u ­
ma série de períodos, cada um dos quais continha sua própria essência
e determ inava seus próprios termos, não responde às exigências da prct
pria historiografia, mas tem sua raiz na explicação cosmológica, na astro­
logia. Somente com o cristianismo a idéia de sucessão de épocas se trans­
feriu do cosmológico para o histórico. Serviu de base para a divisão da
história universal em épocas a concepção dos q u atro impérios universais:
Assíria, Pérsia, M acedônia e Roma, que se sucedem uns aos outros, supe-
(4) W ilhelm D ilthey, E l m undo histórico, 201.
(5) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 155.
(6) Ernst Troeltsch, Der H istorism us und seine Problem e, T übingen, M ohr, 1922, 700.

113
rando cada um os anteriores. A doutrina dos q u atro im périos universais
manteve-se de pé como esquema de divisão da história sem que ninguém
a impugnasse até o século x v i(7).
O esquema dos quatro períodos', os quatro impérios, baseou-se não
n um a observação exata dos fatos, mas num esquema arbitrário d o livro
de D aniel ( v i i , 14, 23). É certo que houve na Idadè M édia tentativa de
periodização tríplice da história universal. Assim a de Joaquim de Floris,
com o R eino de Deus, que é a idade pré-cristã, o R eino do Filho, que
é a cristã, e o R eino do Espírito Santo, que deveria começar no futuro.
Jean Bodin foi o prim eiro a refutar a teoria das q u atro m onarquias
e dos quatro séculos de o u ro (8).
D urante a Idade M édia, • a ficção da persistência do Im pério R o­
m ano perm itiu continuar enquadrando na últim a das q u atro idades pro­
fetizadas do m undo tu d o que havia sucedido e o que havia de suceder
desde a aparição de Cristo n a terra. Foram os hum anistas que deram o
im pulso para um a nova concepção. Sua visão da A ntiguidade como ideal
literário e cultural do m undo inspirou-lhes a distinção segundo a qual,
com a queda do Im pério R om ano do Ocidente, se havia iniciado um a
época interm ediária, bárbara e desprezível, o m edium aevum, de m au latim
e arte gótica, da qual o O cidente fora salvo nos últim os tempos pela res­
tauração das boas letras (9).
A inda no século xvn, A ntônio Vieira era condenado pelo T rib u n a l
do Santo Ofício, por ter afirmado, nos Comentários às Esperanças de
Portugal Q uinto Im pério do M undo, Primeira e Segunda Vida de El-Rei
D. João IV , escritas por Gonçalo Annes B andarra, “que ainda há de
haver quin to Im pério no m undo”. Ora, o Im pério Rom ano, segundo os
teólogos, havia de d u rar até o fim do m undo, e entre aquele e o do Anti-
Cristo nenhum surgiria, a menos que se declinasse ao èrro dos judeus,
que esperavam reino tem poral contra Cristo R edentor. A sentença que
o condenou, lida aos 23 de dezembro de 1667, censura não só a profecia,
mas a heresia do Q uinto Im pério (10).
Até o fim do século x v i i , aproxim adam ente, não passa da term ino­
logia literária para o campo específico da história o esquema tripartido:
A ntiguidade, Idade M édia e Época M oderna. De princípio, essa divisão
apenas tin h a valor escolar, mas foi-se im pondo pouco a pouco através
dos livros de ensino. Foi Cristóvão Cellarius, professor de Halle, quem
transplantou essa ordem para a história geral. Segundo Cellarius, a histó­
(7) J. H uizinga, E l concepto de la historia y outros ensayos, México, Fondo de C ultura
Económica, 1946, 71-72.
(8) M ethodus ad facilem historiarum cognitionem, Paris, 1566. Vale citar duas edições
recentes dessa obra. Uma francesa, La m éthode de Vhistoire, Publication de la Faculté de Lettres
d ’Alger, 1941, e o utra inglesa, M ethod for the Easy Comprehension o f H istoryt Records of Civi-
lizations, Nova York, C olum bia University Press, 1945.
(9) A expressão Idade M édia foi criada em 1667 pelo professor H orn, em Leiden. Cf.
Oswald Spengler, La decadencia de Occidente, M adri, Espasa-Calpe, 1944, i, 39.
(10) Cf. Obras inéditas do padre A ntônio V ieira, tom o I, Lisboa, J. M. C. Seabra & T . Q-
A ntunes, 1845, 133-173. Os comentários de Vieira a B andarra são de 29 de abril de 1659,
84-131.

114
ria antiga chegava até Constantino, o G rande, em 337, a história m édia
até a queda de C onstantinopla, em 1453, e a estas se agregava a história
nova.
Sem que essa determ inação tivesse conseguido reconhecim ento geral,
foi adm itida de novo por G atterer, que adiantou os limites de cada época.
A A ntiguidade foi estendida até 476 e o começo da Idade M oderna foi
situado entre 1492, descobrimento da América, e 1517, R eform a de Lu-
tero. No conjunto, manteve-se firme a trilogia (1:l). T a l divisão foi aceita
em princípio pela m aioria das escolas, inclusive por ser tão fácil de guar­
dar-se de memória. Além disso, ela corresponde ao campo ideológico da
Ilustração, que caracterizava os séculos de dom ínio absoluto da Igreja
Rom ana como um a época de superstições obscuras e sombrias.
Nos estudos de Jacob Grim m , de Savigny e de outros, a imagem da
Idade M édia ganha claridade (12). Os seus fatos adquirem perfis mais
nítidos e começa-se a duvidar se ela está suficientem ente definida para
poder ser em pregada como um conceito histórico. H.esitava-se quanto
ao acerto do ano de 476 como divisório entre duas épocas históricas e
vacilava-se entre o ano de 1453, queda de C onstantinopla, e 1492, desco­
brim ento da América, como limites finais da cham ada Idade Média. O u­
tros ainda queriam fazer valer o ano 1450, época do nascimento da im­
prensa, como aquele que assinala o aparecim ento de um novo período.
O caráter artificial dos períodos pode ser apreendido quando se pro­
cura determ inar a passagem de um deles para o seguinte. Assim, por
exemplo, quais são os fenômenos predom inantes que nos perm item anun­
ciar a vinda ao m undo da Idade M édia ? É a queda do Im pério Romano,
são as invasões bárbaras, é a difusão do cristianismo ? (13)
Sustentam-se as mais variadas opiniões sobre a época do nasci­
m ento da Idade Média. Pirenne e Fueter datam -na de 622, com a apari­
ção do Islã (14) . Para Pirenne, é errônea a hipótese tradicional de que a
fundação do reino franco seja a base e o ponto de p artid a da época caro-
lingia e, conseqüentem ente, da Idade M édia (1B). Foi com a aparição
dos m uçulm anos que se produziu um a variação radical, política e econô­
mica. Dopsch tam bém concorda que em geral a época m erovíngia seja
um a continuação da A ntiguidade (16).
Para Troeltsch, os séculos xvi e xvn não são Idade M édia nem Idade
M oderna: são a época confessional da história européia e do m útuo roça-

(11) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 145.
(12) H erd er foi dos prim eiros a reabilitar a Idade M édia, mais a germ ânica que a cristã.
Ainda assim, ele se opôs às opiniões dom inantes sobre aquela época. Vide Une autre p h ilo ­
sophie de Vhistoire, A ubier, s. d., edição bilíngüe; Friedrich Meinecke, E l historicismo y su
génesis, México, Fondo de C ultura Económica, 1943, 345 e segs.; Eriíst Cassirer, E l problema
del conocimiento, México, Fondo de C ultura Económica, 1948, 318.
(13) H enri Sée, Science et philosophie de Vhistoire, Paris, Félix Alean, 1933, 2.a ed., 268.
(14) H enri P irenne, Les villes du M oyen Âge, Bruxelas, 1927, e Ed. Fueter, Inschrifte
fü r Schweizerische Geschichte, vol. 3, 1923, 456, e vol. 4, 1924, 177.
(15) H enri P irenne, “ M ahomet et Charlem agne” , R evue Belge de Philologie et d’H istoire,
vol. 1, 1922, 77, especialmente 80.
(16) Alfons Dopsch, Economia natural y economia monetaria, México, Fondo de Cultura
Económica, 1943, 137 e 138.

115
m ento de três fatores, o catolicismo, o luteranism o e o calvinismo, de
que se origina o m undo m oderno (17). Q uando se designa o m undo oci­
d ental como m undo m oderno em relação à A ntiguidade, expressa-se, pela
prim eira vez, a valorização da Idade M édia como base e cultura anterior
de nossa vida atual. D a parte da m aioria dos pesquisadores modernos há
hoje um a tendência bem pronunciada a não considerar a Idade M édia
como um período distinto (18).
A noção do Medievo foi im plantada quando esse período era con­
siderado de decadência e profunda estagnação. Mas os progressos da
história e os estudos monográficos mais recentes desafiam tal modo de
pensar. A Idade M édia marca, ao contrário do que se julgou por tanto
tempo, o surgim ento do m undo m oderno. Ela é a m atriz da civilização
ocidental, sustenta T roeltsch (19). É o instante em que a civilização pe­
n etra mais profundam ente o m undo ocidental, ganha a G erm ânia e de­
pois os países eslavos. Do ponto de vista da ciência m atem ática é o mo­
m ento em que os árabes em prestam ao m undo ocidental a álgebra, que
p repara os espantosos progressos do m undo moderno.
O m undo m oderno ou o presente é, para Troeltsch, a transformação
dos estados bárbaros ocidentais e dos domínios feudais nos grandes quadros
dos modernos estados unitários militarizados e burocratizados e nas imensas
massas de populações que originam e m antêm os sistemas econômico-
sociais do capitalismo, da grande exploração e da expansão colonial.
Esse m undo começa ha Alta Idade Média, com o início dos Estados so­
beranos e absolutos, que corresponde, ao mesmo tempo, ao aparecim ento
de o u tra formação espiritual soberana, livre e individual e de um a incrí­
vel civilização intelectual e técnica (20). P ara êle, o N euzeit, a época mo­
derna em sentido lato, começa no século xv, e em sentido estrito com a
Revolução Inglesa e a Época das Luzes.
Em toda periodização se introm ete a idéia do m undo do historiador
ou filósofo. Uns preferem periodizar segundo critérios econômicos, ou­
tros, como Troeltsch, marcam os períodos baseados nas transformações es­
pirituais e culturais ou nas suas relações com as modificações econômicas,
e outros, finalm ente, com von Below, de acórdo com a tradição, preferem
apoiar-se nas modificações políticas (21).
Q ualquer fixação de fronteiras históricas no curso do suceder con­
tínuo está condicionada subjetivam ente às crenças ou ideologias do ‘his­
toriador ou filósofo. Os católicos vêem na Reforma, na Renascença e na
Época das Luzes um intermezzo, ou um recuo ao paganismo. Para os
(17) E rnst T roeltsch, Protestantisrn and Progress, Nova York, P u tn am ’s, 1912, 89.
(18) Alfons Dopsch, ob. cit., distingue Idade M édia P rim itiva (m erovíngia e carolíngia),
Alta Idade Média, séculos x a xn, e Baixa Idade Média, séculos xm e xiv.
(19) Ernst T roeltsch, ob. cit., 40.
(20) Ernst Troeltsch, D er H istorism us und seine Probleme, T übingen, M ohr, 1922, 764.
(21) G. von Below criticou severamente Troeltsch, restabelecendo entre as duas idades
a fronteira tradicional e política de 1500. (G. von Below, Ueber historische Periodisierung
m it besondere Blicke a uf die Grenze zwischen M ittelalter un d N euzeit, Berlin, Deutsche
Verlagsgesellschaft fuer P olitik un d Geschichte, 1925, 108, apud O. de Halecki, “ Moyen âge
e t tem ps modernes, Une nouvelle défense des divisions traditionelles de l ’histoire” , R evue de
Synthèse H istorique, t. x l i i i , 69-82.) A data de 1500 é tam bém aceitar por Dopsch, ob. cit., 227.

116
protestantes, a Reform a é o ponto decisivo que decide o lim ite entre os
dois mundos históricos; para os clássicos e hum anistas, a Renascença e,
para os historiadores políticos, a formação dos Estados nacionais. En­
quanto as periodizações ideológicas, como as de Vico, Comte, Marx, in­
teressam-se pela significação geral da história para a concepção do m un­
do, as simplesmente históricas resolvem o problem a com meios puram ente
empíricos, com dados exclusivamente concretos. Nas prim eiras h á sem­
pre um caráter qualificativo que deform a a história universal concreta.
A época divina, heróica e hum ana de Vico, o Estado teológico, m eta­
físico e positivo de Comte, o feudalismo, capitalismo e socialismo de
M arx sucedem-se qualitativam ente em toda a história universal. Eles se
repetem e são inevitáveis.
A qui se destaca claram ente o pensam ento naturalista que condiciona
estes esquemas. .Eles são um foco de emoções e um incentivo à ação. Os
que ainda não atingiram um período mais elevado devem lutar para que
o fim últim o da história universal seja alcançado. O últim o período é,
então, o ideal supremo, e relem bra o Reino do Espírito Santo de Joaquim
de Floris. O caráter religioso e ortodoxo, o valor mágico e o gosto me­
tafísico estão presentes em todos esses esquemas.
Oswald Spengler tentou em preender um estudo com parativo da m or­
fología das culturas. Depois de reagir contra os velhos esquemas (Idade
Antiga, M édia e M oderna) e de louvar a idealização de J. de Floris (22),
propõe quatro épocas correspondentes às da arte (Egípcia, Antiga, Árabe
e O cidental). N a realidade, a Decadência do Ocidente é essencialmente
um a série de comparações entre as atitudes do homem ocidental e clássico
e, em m enor extensão, o homem mágico, inserido entre aqueles. As três
culturas, egípcia, indiana e chinesa, aparecem em raros intervalos; as
duas outras, babilônia e mexicana, figuram excepcionalmente em ligeiras
referências. Spengler dá um tratam ento especial à últim a cultura — a
russa, vista por éle como um a sociedade cuja verdadeira história ainda
não começou. Das oito culturas prim itivas, quatro, a egípcia, chinesa,
semítica e indica, reaparecem como na classificação de Danilevsky. As
outras, éle acaba por reduzir a duas. Funde gregos e romanos em clássico
ou “apolíneo”, e os iranianos, judeus e árabes no conceito “mágico”.
Sobram os germanos e latinos ou cultura européia, à qual corresponde
o Ocidente ou o hom em “fáustico”. A Rússia e a E uropa O riental estão
fora do que denom inam os sociedade européia; a mexicana é prom ovida
ao estado de civilização e a peruana é tratada descuidadam ente (23).
Estamos, assim, no reino do subjetivismo, onde um a periodização
morfológica se baseia num a história inconsciente anim al, num a torrente
biológica, que tenta tornar-se consciente, mas acaba num a disciplina n a­
tural. A reunião de antigos e ocidentais dom ina a periodização de Spen­
gler, que se torna somente européia: sucedem-se as culturas apolínea,
árabe-mágica, isto é, cristã-semítica-neoplatônica, fáustica ou gótica e

(22) La decadencia de Occidente, Espasa-Calpe, 1944, vol. 1, 33, 35, 39, 42.
(23) H . S tuart H ughes, Osxvald Spengler. A Criticai Estímate, Nova York, Scribner’s, 1952,
67-68.

117
barroca, e as civilizações da inteligência, da técnica, dos grandes Estados,
da democracia e do cosmopolitismo (24).
A esta periodização filia-se a de A rnold Toynbee, com a principal
diferença de que em Spengler o isolam ento das várias culturas é tão com­
pleto quanto o das m ónadas de Leibniz. As relações de tempo, lugar e
sim ilaridade entre elas só são perceptíveis ao historiador. Para Toynbee,
essas relações, embora externas, fazem parte da experiência das próprias
civilizações. É essencial para ele que as sociedades se filiem umas às outras,
e, assim, salvaguarda-se a continuidade histórica. Deste modo, o triunfo
do naturalism o em Toynbee só afeta os princípios gerais e em Spengler
penetra em todos'os detalhes (25).
Toynbee apresentou uma classificação de dezenove sociedades com as
datas de seus nascim ento e desaparecimento. São elas: ocidental, cristã-
ortodoxa, irânica, arábica (que mais tarde, com a incorporação da
irânica, se apresenta na sociedade islâmica), hindu, extremo-oriente,
helénica, síria, indiana, sínica, m inoana, sumérica, hitita, babilónica,
andina, yucateca, maia e egípcia (2e). Estas civilizações são estudadas
em suas relações e contactos, na sua gênese, crescimento, decadência e de­
sintegração. O resultado é um a visão objetiva de seis m il anos de his­
tória, enquadrada na teoria estoica dos ciclos históricos, ou das recor­
rências cíclicas. Seu gosto em “botanizar” a história, em classificá-la em
gêneros e espécies, revela bem o naturalism o que atinge de m orte os p rin ­
cípios gerais do seu m étodo e da sua pesquisa. Isso foi possível na botânica
com Lineu, mas não na história, que é m ultiforme. Ele fala em leis e
pontifica com 21 civilizações, que se sucedem e se ligam em períodos his­
tóricos. No período, leis e civilizações são apenas nebulosas estruturas
m entais (27).
O livro de Toynbee, revelador de um conhecim ento histórico ini­
gualável e sem paralelo na época atual, representa um a submersão no
estudo das características de cada época, em bora não se possa seguir suas
linhas de separação, por demais subjetivas (2S).
T odas essas construções histórico-religiosas e histórico-filosóficas são
irreais. Para Troeltsch, quem quiser libertar-se desse esquematismo em
busca de formas mais duradouras deve m ergulhar m uito mais profunda­
mente nos segredos da teoria da estrutura-superestrutura, que vem de
Marx, mas já não é mais M arx. E não o é, prim eiro porque se afirm a

(24) E. Troeltsch, Der Historismus und seine Probleme, ob. cit., 734-735.
(25) R. G. Collingwood, T h e Idea of History, O xford, 1946, 183.
(26) A Study of History, Oxford, 2.a ed., 1945, 1.° vol., 129-133. O A utor aum entou de
19 p ara 21 as civilizações, com o desdobram ento em duas da cristã-ortodoxa (Rússia e Corpo
P rincipal) e da do E xtrem o-O riente (Coréia e Japão e Corpo P rincipal). Vide T áb u a, in vol.
VI,, 327, reimpressa em vol. v i i , 769, e vol. ix, 758.
(27) Ernest Baker, “Dr. T oynbee’s Study of H istory” , R eview of International A ffairs,
vol. xxxi, n.° 1, ian. 1955, 5-16.
(28) José H onório Rodrigues, “ Toynbee e a filosofia da história na In glaterra” , O
Jornal, 6 e 13 de abril de 194/; “ Uma conversa com Toynbee” , id., 7 de fevereiro de 1952;
“A civilização ocidental e Toynbee” , id., 14 de fevereiro de 1952, “Arnold Toynbee e sua
visão da história das civilizações” , Correio da M anhã, 21 de agôsto de 1966; “Toynbee. Encontro
com a h istória” , M anchete, 3 de setembro de 1966, 33-34.

118
um a liberdade na relação m útua, sem hierarquia, e um a dependência
recíproca, condicional, de um lado e de outro; segundo, porque a perio­
dização não é abstrata, filosófica e valorativa, mas simplesmente objetiva.
C ada círculo cultural é decomposto em seus componentes sócio-econômi-
co-políticos e civilizatório-técnicos, de acordo com sua própria lógica. O
elem ento puram ente sociológico e, antes de tudo, o econômico são algu­
mas vèzes condicionados pela base cultural-espiritual e m uitas vezes do­
minados, mas m uitas vezes, também, procuram trazer esta ao seu dom í­
n io ^ 9). Terceiro, porque se separa diante da pesquisa objetiva o mun-
do( oriental do ocidental, aquele impossível, para nós, de sujeitar-se a
um a mesma periodização. Q uarto, porque M arx sofria as deficiências de
um a época ainda não de todo científica no seu saber histórico. A his­
tória estava, então, ainda dom inada pelos historiadores de cola e tesoura
e p or isso sua classificação denota as insuficiências da falta de pesquisa
profunda e de saber histórico. Q uinto, porque as etapas não são nem
necessárias nem fatais, e assim se evita afirm ar qual será o período do
futuro, ganhando em objetividade e exatidão.
M ax W eber estabelece a distinção fundam ental entre a sociedade
asiático-oriental e a mediterrânea-asiático-ocidental-européia. N a segunda
existe a seguinte periodização: nomadismo, fundação e evolução da Polis,
im pério m undial e m onarquia m ilitar, com a conseqüência do nivela­
m ento e da organização coercitiva. Para M ax W eber a história do Oci­
dente antigo e m oderno é a história do espírito citadino, com curtas in­
terrupções de épocas sem cidades. A cidade antiga é m uito diferente da
moderna, e nisso repousa a m aior parte das diferenças das grandes
eras (30).
A exposição de W erner Sombart foi feita em t O moderno capitalis­
mo. Limita-se à história ocidental e liga-se à de M ax W eber. Ao período
do nom adism o e da colonização, do qual estudou fortem ente os funda­
mentos jurídicos, segue-se o feudalismo. Depois há a fase de transição
da economia de troca para a cultura das cidades e finalm ente o capita­
lismo ocidental, m oderno, específico, que cresceu com o Estado moderno,
a técnica, a ciência. Essa periodização é sociologicamente pensada e his­
toricam ente fundada. Temos, assim: 1) nomadismo; 2) Idade M édia ini­
cial feudal; 3) A lta Idade M édia citadina; 4) M undo m oderno, caracte­
rizado pelo capitalism o e Estado unitário. A periodização económico-
sociológica é a subestrutura das periodizações gerais ou políticas, estas
sempre mais refinadas (31).
Os dois grandes pensadores evidenciaram as formas e motivos fun­
dam entais económico-sociológicos dos períodos singulares e deixaram para
um a pesquisa mais complicada e sutil o exame do com portam ento relacio­
nado entre a estrutura económico-sociológica e os elementos ideológicos.
Por isso T roeltsch pôde afirm ar que desse profundo exame nasce um a pe­
riodização inteiram ente condicionada pela prova das formas reais de vida.

(29) E rnst Troeltsch, ob. cit., 748.


(30) E rnst Troeltsch, ibid., 749.
(31) Ernst Troeltsch, ibid., 751-754.

119
Max Weber

120
em cuja seqüência intervem naturalm ente fatóres psicológicos e tam bém
catástrofes e transformações exteriores (3a).
Temos, assim, ao lado de periodizações políticas, as filosóficas, ideo-
lógicas e sociológico-institucionais. Quase tódas as periodizações que se
baseiam em circunstâncias naturais, geográficas e antropológicas são, no
fundo, um a busca dos últim os subfundam entos e, portanto, estão ligadas
à relação estrutura-subestrutura. Falham porque hierarquizam um dos sub­
fundam entos da estrutura e fazem-no dom inar inteiram ente a superes-
tru tu ra. A contribuição significativa de M ax W eber e W erner Sombart
está precisam ente em estabelecer que a relação consiste num jógo livre de
dependência m útua e em caracterizar a estrutura como um todo geográ­
fico, antropológico, sócio-econômico.
A teoria dos ciclos históricos, de origem estoica, ou a repetição cíclica
(anacylosis), que Cícero chamava, seguindo Políbio, o mirabilis circuitus,
representa um a explicação rítm ica do processo histórico, que se sucede
em momentos repetidos. Ela vive e revive no pensam ento histórico. Sem
falar nos antigos, ressurgiu em Vico, q uando afirm a que certos períodos
da história têm um caráter geral, que de tal m odo reaparece em outros que
dois períodos diferentes podem ter um mesmo caráter geral. Há, dizia ele,
um a semelhança geral entre o período hom érico da história grega e a
Idade M édia européia, o que nos perm ite chamá-los pelo nom e genérico de
período heróico. É a lei do corso e ricorso, que mostra que éstes períodos
tendem a se repetir n a mesma ordem. O período heróico é seguido pelo
clássico e assim por diante. Mas, de acòrdo com Vico, não se trata de um a
m era rotação da história segundo um ciclo de fases fixadas; não h á um
círculo, e sim um a espiral; a história nunca se repete, modifica-se n a nova
fase em form a diferenciada da que foi antes (33).
Toynbee aplicou m uito a teoria cíclica para explicar a queda das civi­
lizações. Ela seria um a das explicações sóbre a predestinação das.sociedades.
A teoria deve ter nascido da com paração entre a vida da civilização e o
universo físico e sua aplicação à história da hum anidade foi um corolário
n atu ral da sensacional descoberta astronômica, que parece ter sido feita
no m undo babilónico, entre o oitavo e o sexto séculos antes de Cristo: o
ciclo terrestre de dia e noite, o ciclo lunar do mês e o ciclo solar do
ano (34).
A teoria das gerações, que últim am ente parece ter revivido na inter­
pretação do processo histórico, origina-se talvez da Bíblia e encontra sua
prim eira expressão nos Provérbios de Salomão e especialm enté no livro
do Eclesiastes ou Pregador (xxx, 11-14 e I, 4), onde se diz que um a ge­
ração vai e outra geração vem, mas que a terra sempre permanece; o sol
nasce e se põe e volta ao lugar donde nasceu.
Giuseppe Ferrari foi quem prim eiro concebeu um a teoria dos perío­
dos históricos, segundo gerações calculadas em trin ta anos e fração e

(32( Ernst Troeltsch, ibid., 749. A obra de Sombart, D er m odcm e Kapitalism us, é de
1902, 2 vols.; 4.a ed., 3 vols., M unique, 1921-27.
(33) Benedetto Croce, La filosofia di Giambattista Vico, Bari, Laterza, 4.a ed., 1947,
127-137; R. G. Collingwood, T h e Idea o f History, ob. cit., 667-68.
(34) A. Toynbee, A Study of H istory, Oxford, 1940, iv, 23-39.

121
trin ta e três anos e fração, reagrupacfas por tetraedros ou tríades em pe­
ríodos de 125 anos ou de um século. Em 1872, A. A. C ournot form ulava a
mesma teoria, que foi retom ada, em 1886, por O ttokar Lorenz. A mesma
idéia aparecida em 1857 renasce, independentem ente, em 1872, e depois
em 1886, sem nenhum a ligação entre os três doutrinadores. Só m uito recen­
temente, é que W alter Vogel, Karl Joel, W ilhelm P inder e Alfred Lorenz
retom am a idéia de O ttokar Lorenz para aplicá-la à historia e à a rte (3D).
O ttokar Lorenz fora buscar num a frase de G. R üm elin(38) o pensam en­
to fundam ental sobre um sistema natural de períodos históricos. A duração
de três gerações no sentido histórico perfaz cem anos e encontra sua sig­
nificação no século, que representa um a certa unidade histórica espiritual,
e no qual repousa aquela elem entar lei das três gerações. O século passa,
então, a ser um a m edida objetivam ente fundada de todos os acontecim en­
tos históricos. A significação histórica dos ciclos de gerações que O ttokar
Lorenz cita como exemplo não é senão o fato de que, por vezes, a relação
natu ral de várias gerações se evidencia nos acontecimentos históricos, mas
não se pode sequer falar num a regularidade dos acontecimentos e m uito
menos em leis. A lei das três gerações não é, como quer Lorenz, o p rin ­
cípio objetivam ente fundado dos acontecimentos históricos, nem um dos
seus princípios inerentes, mesmo porque ele próprio declara que a lei só é
válida para as famílias monogâmicas (37). Além disso, como lem bra H u i­
zinga, h á um a falta de lógica na doutrina. Assim como há um a trindade
de gerações de 1700 a 1733, de 1734 a 1769 e de 1770 a 1800, h á outra ca­
deia de 1701 a 1734, de 1735 a 1770, 1771 a 1801 e assim sim ultaneam ente,
com a mesma variação qu an to ao ano inicial e praticam ente quanto ao
dia (38).
O prim eiro exame crítico fundam ental da teoria das gerações e de sua
aplicação ao processo histórico foi feito p o r Ju lián M arías (39), exaltan­
do, naturalm ente, o pensam ento renovador de O rtega y Gasset.
Atribui-se um papel preponderante na m archa da história às gerações
e procura-se com preender como as vigências e as inovações substanciais
coincidem com as sucessões cíclicas de gerações. Ora, as variações hum a­
nas, tema central da história, dependem das gerações, que são os fatòres

(35) A. A. C ournot, Considération sur la marche des idées et des événem ents dans les%
tem ps modernes, 1872; O ttokar Lorenz, Die Geschichtswissenschaft in ihren' H auptrichtungen
und Aufgaben, Berlim , 1886; W alter Vogel, “ Ü ber den R ythm us im geschichtlichen Leben des
abendlãndischen E uropa” , Historische Zeitschrift, t. 129, 1924, 1-68; Karl Joel, “D er sàkulãre
Rythm us der Geschichte”, Jahrbuch fü r Soziologie, 1925; W ilhelm P inder, Das Problern der
Generation in der Kunstgeschichte Europas, Berlim , 1926; foi traduzido para o espanhol sob o
títu lo E l problema de las generaciones en la historia del arte de Europa, E ditorial Losada, 1946;
e Alfred Lorenz, AbendlÜndische M usikgeschichte im R yth m u s der Generation, 1928.
(36) G. R üm elin, Über den B egriff u n d die Dauer einer Generation, 1875, apud E rnst
Bernheim , Lehrbuch der historischen M ethode und der Geschichtsphilosophie, Leipzig, Verlag
von D uncker & H um blot, 1908, 82. Sobre os períodos na historia, literária, vide H erbert
Cysarz, “EI principio de los periodos en la ciencia litera ria” , in Filosofía de la ciencia litera­
ria, México, Fondo de C ultura Económica, 1946, 93-135. O trabalho é acom panhado de exce­
lente bibliografia.
(37) Ernst Bernheim , Lehrbüch, ob. cit., 82.
(38) J. H uizinga, El concepto de la historia y otros ensayos, México, Fondo de C ultura
Económica, 1946, 80.
(39) E l método histórico de las generaciones, M adri, Revista de Occidente, 1944.

122
hum anos destas transformações. A história move-se em função das ge­
rações sucessivas. Cada geração representa um a certa atitude diante da
vida, dos problem as e situações que esta apresenta. Mas a geração não
•coincide com a idade. U m velho pode pensar como um moço. Nem
todos os contem porâneos são coetáneos, isto é, possuem a mesma idade
histórica, possuem os mesmos ideais e se com portam igualm ente diante
do dram a. Pois o conjunto dos que são coetáneos é que constitui uma
geração.
O conceito de idade histórica é de im portância capital. Ortega divide
idade hum ana vital em cinco períodos dos quais, para a eficácia histórica,
só dois têm im portância. Nos prim eiros quinze anos (sem atuação histó­
rica) e dos quinze aos trin ta (época de inform ação e acumulação) não se
influi na vida histórica. É da lu ta entre os homens de 30 a 45 anos (época
d a gestação), quando se começa a atu ar e se deseja im por sua inovação, e
dos homens de 45 a 60 anos (época de predom ínio), quando se conseguiu
im por o que se desejava inovar, que depende a transform ação do mundo.
A nova geração entre os 30 e 45 anos já encontra as formas de vida im­
postas pela que a antecedeu (45 a 60 anos) e quer im por suas idéias e va­
lorizações, qut; esta não deseja alterar. Dos 60 anos em diante é a época
da sobrevivência histórica. H á m uito menos homens desta idade que nos
outros grupos. Eles estão fora da vida e o seu papel é transm itir a forma
social vigente. Considerando que hoje h á m uito mais homens desta idade
em predom ínio, Ortega espera que em futuro próxim o se altere o es­
quem a.
Nem sempre h á crise, porque existem fases históricas cumulativas, em
q u e a nova geração se sente solidária ou hom ogênea com a anterior, e
tam bém épocas elim inatórias ou polêmicas, em que se combatem e se ini­
ciam as novas formas. Dèste modo, um a geração é um a m udança de sen­
tir e com preender a vida, oposta à m aneira anterior, ou pelo menos, di­
ferente dela. Nas gerações renovadoras aparecem sempre os mestres da
transição, aqueles que, pela prim eira vez, ensinam os novos caminhos. Sem
éles a geração que representam e a história parariam , num a formação de­
finitiva, sem possibilidade de renovação radical.
Assim, para O rtega y Gasset m uito mais im portante que a distinção
entre um revolucionário e um reacionário, homens de seu tempo, é a dis­
tância que separa, num a mesma geração, os indivíduos portadores de um
ideal e os vulgares. Os antagonistas atuais são m uito mais próxim os entre
•eles que de qualquer afiliado de suas idéias no século passado. Os amigos
e inimigos, pertencem , pois, a um a mesma geração.
Bernheim , Croce e H uizinga objetaram contra a teoria das gerações
•especialmente seu caráter naturalista e biológico. Mas Ju lián M arías fez
questão, no trabalho acima referido, de responder às contestações. H u i­
zinga, diz ele, apesar dé ser um a das melhores cabeças que escreveram neste
século sobre história, esquece-se que só com a idéia de gerações se com­
preende a duração e substituição dos sistemas de vigência. Só com elas po­
demos entender por que certas idéias e costumes desaparecem ou são re­
novados. Para compreender-se a distância que separa um hom em de 50
anos de um jovem, para explicar a distância espiritual que separa nossos

123
pais de nossos próprios sentim entos e idéias e de que modo nossos filhos
compreendem ou repelem nossos usos e idéias, a teoria das gerações é um
recurso ideal, um m étodo aconselhável.
A teoria das gerações não é naturalista, diz Marías, porque se baseia
na razão histórica. Ela é historicista como toda a filosofia cultura-lista de
hoje. Não se trata de continuidade biológica, mas de estrutura de vigên­
cia, nascimento, duração e extinção de formas sociais e, logicamente, dos
seus representantes, da geração que varia o m undo e incorpora esta ino­
vação ao m undo que não variou. Não se trata de sucessão biológica, mas
transmissão de formas sociais por grupos qualificados pela mesma idade.
Trata-se de transmissão espiritual e não de herança biológica.
No Brasil, contando-se a média de três gerações para cada século, es­
taríamos hoje, segundo essa teoria, a p artir de nossa descoberta, no curso
da décima quarta geração (40). Essa teoria poderá servir, ainda, para re­
novar a genealogia, como veremos quando desta tratarm os.
O estudo da periodização contribui também para explicar as origens
de algumas palavras que caracterizam certos períodos. Assim, por exemplo,
veio dizer-nos que até Os anos 50 do século xix, a época que hoje desig­
namos com a palavra Renascim ento ou Renascença não foi considerada
pelos historiadores como um período de cultura própria que se destacasse
cabalm ente dos outros. Se M ichelet foi o prim eiro a adotar a expressão,
B urckhardt foi o prim eiro a dar a esse conceito o seu verdadeiro: sentido.
A palavra helenismo, que significa um período determ inado da história
grega, foi criada por Droysen, em 1833. A expressão Contra-Reform a, que
nos prim eiros anos do século xvm se usou como denom inação aplicada
aos distintos casos de regiões que, tendo chegado a ser protestantes, volta­
ram à prática da religião católica, procedia do direito im perial alemão. Da
história da arte nos vêm as palavras “rococó” e “barroco” (41). À prim eira
usa-se no sentido de um a periodização geral na história da arte e. a segun­
da, que foi em pregada a princípio para designar certo período da .Antigui­
dade grega, veio mais tarde a ser utilizada como conceito geiral de estilo
na história da arte.
Esta exposição nos m ostra como a periodização (42) se tQrnou, no
campo da história, um dos problem as mais agitados e de solução mais
difícil.

(40) Sõbre a teoria das gerações na América, cf. Carlos Alberto Evro, “ Introducción al
estudio de la generación dei 37” , Panorama, vol. 2, n.° 2, 84-89, e Justo P astor Bénitez,
“ A teoria das gerações” , O Jornal, 15 de ju lh o de 1952. O prim eiro estuda a geração de 1837,
que sucedeu à de 1810 (Revolução e Independência) e promoveu a Organização Nacional. O
segundo retrata rápidam ente as gerações do U ruguai, A rgentina e P araguai.
(41) Sòbre o barroco no Brasil, cf. Sérgio Buarque de H olanda, “Sòbre o ibarroco” ,
Diário de Noticias, 16 de fevereiro de 1951; “ Lim ites do barroco” , i d 23 de dezembro de 1951;
“Ainda o barroco” , id., 27 de janeiro de 1952.
(42) A mais completa exposição sòbre a teoria de periodização se encontra em J. tf . J. van
der Pot, De Periodisering der Geschiedenis, H aia, 1951. Estudos especiais sõbre periodização
na E uropa e na Alem anha são, por exemplo, os de Oscar H alecki, T h e L im its and D ivisión of
European H istory, Londres, 1950, e Johannes H aller, Die Epochen der Deutschen Gèschichte,
S tuttgart, 1951.

124
C a p ít u l o 5

A periodização na historia do Brasil

t a r e f a de distinguir as épocas de nossa histo­


in t r ic a d a

A ria nasce naturalm ente com os nossos prim eiros livros


históricos. Dom ina, então, a necessidade puram ente didática ou lógic
classificação do m aterial selecionado. Não há nenhum a preocupação de
natureza ideológica, filosófica ou teórica. É só m uito mais tarde, com o
desenvolvimento da historiografia que se iniciam contribuições de caráter
filosófico ou sociológico. Mas a compreensão da necessidade de um cri­
tério e de sua im portância surge, no Brasil, com a fundação do Instituto
H istórico e Geográfico Brasileiro, que foi o principal estim ulador dos es­
tudos históricos.
Logo n a prim eira sessão do Instituto, em 1.° de dezembro de 1838,
Jan u ário da C unha Barbosa propôs a seguinte questão, que deveria ser
discutida pelos vários sócios: “Determinar-se as verdadeiras épocas da
história do Brasil e se esta se deve dividir em antiga ou m oderna, ou
quais devem ser suas divisões” ^ ) .
O problem a, pósto nesses termos, vai ocupar a ordem do dia de vá­
rias sessões daquela instituição (2). N a segunda, leram trabalhos escritos
e participaram das discussões o brigadeiro C unha Matos, Lino de M oura
e Silvestre Rebelo. N a terceira, em 19 de janeiro de 1839, C unha Matos
e Silvestre Rebelo continuaram a leitura de seus trabalhos escritos, sendo
o do prim eiro, ligeiram ente modificado, publicado mais tarde na Revista
do In stituto (3), sob o título “Dissertações acerca do sistema de escrever
a história antiga e m oderna do Brasil”. Nele, depois de um a notícia sòbre
as várias fontes da história brasileira, C unha M atos p ro punha três épocas:
a prim eira, relativa aos aborígines ou autóctones, a segunda, com preen­
dendo ás eras do descobrimento pelos portugueses e a adm inistração colo-
(1) Cf. R IH G B , t. 1, 2.a ed., 1856. 57.
(2) N a segunda sessão do In stitu to H istórico e Geográfico Brasileiro ofereceram sugestões
sobre as épocas da história do Brasil o brigadeiro R aim undo José da Cunha Matos, José L ino de
M oura e José Silvestre Rebelo, que leram sobre o assunto trabalhos escritos. T om aram parte
das discussões Pedro de Alcântara Bellegarde, Januário da C unha Barbosa, C unha Matos, Emílio
Jo aq u im da Silva M aia, José Feliciano Fernandes P inheiro (Visconde de S. Leopoldo) e José
M arcelino Rocha Cabral.
(3) R IH G B , t. 26, 1863, 121-144.

125
nial, e a terceira, abrangendo todos os acontecimentos nacionais desde a
Independência. Éle próprio dizia que talvez houvesse algumas divergências,
acerca dos princípios da prim eira e terceira épocas, cada um tendo boas
razões para m arcar datas diversas. E após um a série de considerações so­
bre cada um a das três épocas, responde à pretensão então geral de que se
escrevesse um a história filosófica do Brasil, propondo que, em faoe da
ignorância em que então se vivia a respeito de m uitas províncias, o m elhor
seria escrever antes a história particular de cada um a delas, e só depois
redigir um a história geral cronológica. Fazia tam bém um a classificação
filosófica dos períodos e dizia que m uitos historiadores descreviam em
prim eiro lugar as notícias ou tradições dos tempos fabulosos, depois des­
tes os heróicos e, finalm ente, os antigos e modernos. Nessa classificação
C unha Matos lem bra, de certo modo, os três cursos da história universal
propostos por Vico. Dividia tam bém em três períodos diferentes a his­
tória do Brasil anterior ao seu descobrimento. Tratava-se, assim, com
C unha Matos, de um a prim eira exposição teórica das épocas ou dos dife­
rentes períodos da história brasileira.
O problem a não estava resolvido e nem se encerraram as discussões.
O In stitu to Histórico, na sua faina de estabelecer métodos e preparar
questões filosóficas — como então se dizia —, continuou a discutir, em ses­
sões posteriores, problem as relativos à periodização. Na q u arta sessão, em
1839, Jan u ário da C unha Barbosa, que é no Brasil o verdadeiro precursor
nesse assunto, propôs, entre outras, a seguinte questão: “M arcar as diver­
sas épocas da criação das capitanias gerais do Brasil, da fundação de seus
bispados e das suas relações”. Somente na sexta sessão, em 2 de m arço de
1839, foi que entrou em discussão o parecer de comissão sóbre as épocas
brasileiras, aprovando-se a divisão em três períodos (4). É evidente que a
comissão se deixou influenciar pelo trabalho de C unha Matos, que já
então falecera. Mas ainda depois de aprovada essa divisão, o In stitu to con­
tinuou a discutir questões ligadas à periodização.
N a verdade, porém, quem prim eiro pretendeu concretizar a idéia ven­
tilada no Institu to H istórico foi o general José Inácio de A breu e Lima,
no seu C ompêndio da história do Brasil(s). N um a carta dirigida ao Ins­
titu to Histórico, apresentando seu livro à douta associação, A breu e Lima
escrevia: “U m a coisa resulta do m eu com pêndio e é quanto basta para
dar-lhe algum valor. T u d o quanto existia escrito acerca do Brasil era sem
método nem plano algum histórico. Era um m ontão de fatos atirados ao
acaso, sem discriminação de épocas nem de períodos. E tan to é assim que
o Instituto há pouco se ocupou desse objeto, tratando, antes de tudo, de
(4) Pronunciaram -se tam bém na sexta sessão do Instituto H istórico Silvestre Rebelo, J a ­
n uário da C unha Barbosa, o desem bargador R odrigo de Sousa da Silva Pontes e o Dr. Em ílio
Joaquim da Silva Maia.
(5) Inácio de A breu e Lim a, Compêndio da história do Brasil, R io de Janeiro, E duardo e
H enrique Laem m ert, 1843. Saiu um a segunda edição, “ continuada até nossos dias por um distinto
literato”, Rio de Janeiro, L aem m ert, 1882, a qual não merece confiança, não só pelo desrespeito
ao texto da prim eira, como po r estar eivada de erros de impressão. Cf. José H onório Rodrigues,
“A breu e Lim a. O general das massas” , Digesto Econômico, n.° 25, dezembro, 1951, 97-106,
e “José Inácio de Abreu e Lim a” , História e historiadores do Brasil, São Paulo, Fulgor, 1965,
62-72. O estudo da divisão das épocas nascia tam bém em Portugal, na obra de A lexandre
H erculano. Cf. “ Cartas sobre a história de P ortugal” , Opúsculos, t. 5, 33-155, especialmente,
1 2 0 -2 2 1 .

126
triangular o terreno sobre que devia um hábil corógrafo traçar a carta da
nossa historia” (6). Dizia então que não havendo o Institu to decidido de­
finitivam ente essa im portante questão, tom ara a resolução de fazê-lo no
seu com pêndio, adotando oito épocas ou capítulos em que dividia a his­
toria p átria até a coroação de D. Pedro n. Acrescentava: “Eis as cores
com que distribuí as épocas: 1) Descobrimento. As prim eiras explorações.
Estado físico do país; 2) Colonização; 3) T ransição para o dom ínio estran­
geiro; 4) Volta ao dom ínio pátrio. G uerra dos holandeses; 5) Estado da
colonia. M elhoramentos. A dm inistração interna; 6) Estabelecimento da
Corte no Brasil. Adm inistração del rei; 7) Independência. A dm inistra­
ção do Prim eiro Im pério; 8) M enoridade. A dm inistração da Regência. A
m aioridade.” Declarava que a q u in ta época, abrangendo século e meio,
bem poderia ser dividida marcando-se a prim eira parte de 1654 a 1763 e
a segunda desta data a 1807. “Porém toda ela é tão estéril de acontecim en­
tos notáveis”, dizia A breu e Lima, “que não vejo a cor que deva distinguir
essas duas partes, pois os dois acontecimentos mais notáveis são a invasão
de Duguay T ro u in no R io de Janeiro e a ocupação de Santa C atarina pe­
los espanhóis, fatos transitórios que não deixaram no país outros vestí­
gios senão a dissolução inerente a todas as conquistas de pouca duração.”
Acentuava que todo èsse espaço de tem po devia form ar um a só época
pois, de outro modo, ter-se-ia de traçar longam ente êsses dois “episódios
desgraçados de nossa história”, o que iria afetar em m uito o corpo do com­
pêndio, cujas partes ele havia gradualm ente calculado e descrito, de modo
que conservassem justa proporção com o todo. T erm inava sua carta di­
zendo que n a “divisão das épocas buscara sempre um a cór que as distin-
guisse, mas que essa cor devia ser tal que se apresentasse à prim eira vista e
que, para ser bem com preendida, era m ister que cada época tivesse seu
cunho particular, isto é, um a m udança, um a variação do estado anterior”.
Nessa missiva vangloriava-se Abreu e Lim a de haver atingido com a sua
divisão de épocas ou períodos um dos prim eiros alvos do Instituto (7).
Oferecido o com pêndio ao In stitu to Histórico, coube a Francisco
Adolfo de V arnhagen a incum bência de dar parecer sobre o mesmo. Do
Juízo que V arnhagen redigiu, e o Instituto aprovou, originou-se um a das
mais violentas polêmicas da historiografia brasileira (8). A breu e Lim a
saiu logo em campo, com um a réplica publicada em Pernam buco, no mes­
mo ano de 1844 (9). É preciso acentuar que Varnhagen, n a sua crítica a
A breu e Lima, não entrou na questão que ora examinamos. Disse p rin ­
cipalm ente que este se havia baseado quase que exclusivamente n a H is­
tória do Brasil de Alphonse Beauchamp, plagiário conhecido do livro de
R obert Southey, e o Com pêndio estava inçado de erros graves porque
(6) Carta de A breu e Lim a a Januário da Cunha Barbosa, s. d., lida na sessão de 14 de
setem bro de 1843, R IH G B , t. 5, 2.a ed., 1843, 370.
(7 ) R IH G B , vol. 5, t. 5, 1843, 369-371. A carta de Abreu e Lim a foi lida na 112.a sessão,
a 14 de setembro de 1843.
(8) “ Prim eiro Juízo. Subm etido ao Instituto H istórico e Geográfico Brasileiro pelo seu
sócio Francisco Adolfo de V arnhagen, acerca do “ Com pêndio de história do Brasil” pelo sr.
José Inácio de Abreu e L im a”, R IH G B , t. 6, 60-83.
(9 ) Resposta do general J. I. de A breu e L im a ao cônego Januário da Cunha Barbosa
ou análise do Prim eiro Juízo de Francisco A dolfo Varnhagen acerca, do Compêndio de história
do Brasil, Pernam buco, na T ip . de M. F. de Faria, 1844.

127
Beauchàm p um a vez por outra decidira fazer incursões próprias no dom í­
nio da história brasileira e com etera erros imperdoáveis.
V arnhagen não poderia discutir o problem a das épocas porque, como
veremos adiante, ao tratar de sua H istória geral, ele não possuía base
teórica e filosófica sobre a m atéria. Mas A breu e Lima, em sua resposta,
aproveita a ocasião para, mais um a vez, declarar que sem a perfeita di­
visão dessas épocas não se poderia jam ais escrever a história segundo as
regras da cronologia. Acrescenta que achou a sua prim eira época perfei­
tam ente concebida por Aires de Casal e as outras em R ocha Pita, B rito
Freire, Simão de Vasconcelos, frei Rafael de Jesus, Berredo, frei G aspar
da M adre de Deus, m onsenhor Pizarro e Armitage; o que éle queria era
os grandes acontecimentos que lhe servissem de baliza para dem arcar as
épocas (10).
A resposta de A breu e Lim a é concebida em termos tão violentos
que Januário da C unha Barbosa, dizendo ter ela ultrapassado os limites
da decência, propôs ao In stitu to H istórico que inserisse nos jornais um a
nota declarando que não se lhe respondia por não estar escrita em tér-
m o s(H). Por outro lado, Varnhagen, n a sua R éplica apologética de um
escritor caluniado e Juízo final de um plagiário difam ador que se intitula
general (12), dava p o r encerrada a discussão, limitando-se a publicar tí­
tulos com probatorios de sua nacionalidade brasileira e não alemã, como
afirm ara A breu e Lima.
É fácil verificar que a periodização de Abreu e Lim a obedece a cri­
térios bem suscetíveis de crítica. Em prim eiro lugar, preocupou-se em
demasia com os aspectos puram ente adm inistrativos, apesar de declarar
que buscou sempre um a cor que distinguisse os períodos apresentando-os
logo à prim eira vista, e que desse a cada época um cunho particular. Fal­
tou-lhe um a m aior capacidade de penetração nos fatos da história que
lhe ppssibilitasse uma divisão mais bem definida nos seus contornos. Não
se lhe poderia censurar a falta de critérios sociais e econômicos n a distin­
ção dos períodos e a divisão político-adm inistrativa, desde que a história
social e econômica é de data m uito recente e essa crítica não atenderia
aos critérios de sua época.
C rítica mais grave que se poderia fazer à periodização de A breu e
Lim a é a de que ele mesmo declarou, em sua resposta ao Juízo de V arnha­
gen, que não p artira do conhecim ento e penetração do m aterial bruto da
história brasileira para então organizar teoricam ente a divisão em perío­
dos. Disse, expressamente, que de posse de um quadro sinótico das dife­
rentes épocas de nossa história, teve a sugestão de um compêndio. Então,
acrescentava, só faltava preencher os períodos de cada época colocando os
fatos secundários n a ordem cronológica e fazendo-os e n tra r no lugar e
tem po correspondentes, por meio de um a narração adequada (13). Abreu

(10) Inácio de A breu e Lim a, Resposta, etc., 39.


(11) Sessão 138.a, de 7 de agosto de 1845, R IH G B , t. 7, 1845, 421.
(12) M adri, Im prensa da viúva de D. R. J. Domínguez, 1846.
(13) Inácio de Abreu e Lim a, Resposta, ob. cit., 39.

128
e Lima, pois, partiu de um a çlassificação parados fatos, quando a atitude
correta deve ser a contrária.
De qualquer forma, seu C ompêndio de história do Brasil marca, na
realidade, a prim eira tentativa de um agrupam ento de fatos por períodos.
Mas o In stitu to Histórico foi tão injusto em sua crítica a A breu e Lima
que chegou até a considerar o trabalho de H enrique Luís de Niemeyer
Bellegarde, um compêndio elem entar então adotado nas escolas, como su­
perior ao do general(14).
N ó Resum o de Bellegarde (1B) adotam-se seis épocas superficialm ente
distintas, como nos antigos cronistas que se preocupavam mais com a dis­
tribuição das matérias do que Com as delimitações periódicas. Não teve
o autor, ao contrário de Abreu e Lima, nenhum interesse em periodização.
Seu trabalho antecede de quatro anos o levantam ento do problem a pelo
In stitu to Histórico. As seis épocas são: 1) O Brasil antes da conquista;
2) O Brasil conquistado pelos portugueses; 3) O Brasil no dom ínio es­
panhol; 4) Brasil livre do jugo da Espanha; 5) O Brasil como sede da
m onarquia portuguesa; 6) O Brasil Im pério C onstitucional Independente.
Apesar de ambos terem feito compilação, ou m elhor, usarem e abusarem
da cola e tesoura, e de terem cometido alguns mesmos erros e enganos, a
obra de A breu e Lim a é nitidam ente superior à de Bellegarde, não só
porque julga e interpreta, procurando tecer as conexões dos fatos, como
porque compõe m elhor a narrativa(16).
Portanto, o Instituto Histórico, que desde a sua prim eira sessão se
preocupara com o problem a da periodização, é duplam ente injusto quan­
do decide, poucos anos passados, desconhecer a contribuição de A breu e
Lim a a um a periodização brasileira, para limitar-se apenas à crítica dos
fatos m ateriais com preendidos em cada época, e apontar como modelo
um a obra na qual não se fazia nenhum esforço de periodização, como a
de Bellegarde e que era, além do mais, um simples com pêndio elem entar,
bem inferior ao de A breu e Lima, especialmente n a parte do Bra­
sil Reino.
Foi tam bém m uito fácil nesse período a confusão entre divisão por
épocas e efemérides. É assim que tanto o C ompêndio das eras da província
do Pará, de A ntônio Ladislau M onteiro Baena (17), como o “Com pêndio
das épocas da C apitania de Minas Gerais desde o ano de 1694 até

(14) : Parecer da Comissão de Redação, assinado por Ja n ú ario da C unha Barbosa, Antônio
José de Paiva Guedes de Andrade, aos 11 de janeiro de 1844. R IH G B , t. 6, 1844, 125.
(15) R esum o da história do Brasil até 1828. T raduzido de M. Denis, correto e aum entado
por H . L. de Niemeyer Bellegarde, R io de Janeiro, T ip . de Gueffier e Cie., 1831. Existe uma
segunda edição, R io de Janeiro, T ip . R. Ogier, 1834. Nesta, declara Bellegarde ter abandonado
o prim eiro original e composto outro, ho q u al os dados tirados de F. Denis são “os menos
circunstanciados", razão po r q u e já não se diz mais “ traduzido de M. D enis” . Esta segunda
edição foi adotada pelo governo para uso das escolas e aprovada pela C ircular às Câmaras
M unicipais de 26 de abril de 1834.
(16) Um exem plo flagrante do uso da cola e tesoura está no trecho, referente à invasão da
Bahia, em 1624, escrita com as mesmas palavras. Não nos parece que Abreu e Lim a tenha
copiado Bellegarde. N o caso, ambos repetiram um a mesma “autoridade” . C om parar Bellegarde,
edição de 1831, 85, ed. de 1834, 89, e Abreu e Lim a, ed. de 1843, 112-113 e ed. de 1882, 75.
(17) Pará, T ipografia de Santos e Santos M enor, 1838.

129
1780” (18), de autor anônim o, organizaram a m atéria, seja observando ex­
clusivamente um a dedução cronológica, como no prim eiro caso, seja em
forma de efemérides, como no segundo.
Vê-se, assim, que cabe a Jan u ário da C unha Barbosa o levantam ento
do problem a, ao brigadeiro C unha Matos a prim eira discussão teórica, a
Abreu e Lim a a prim eira tentativa de realização concreta. A obra de
Bellegarde é didática, a de Baena de efemérides e, finalm ente, a de José
da Silva Lisboa, Visconde de Cairu, H istória dos principais sucessos po­
líticos do Brasil (19), limita-se a distribuir a m atéria coligida. Escreveu
ele por incum bência de D. Pedro i, “a fim de perpetuar a m em ória dos
sucessos do Brasil desde o dia de sua Independência”. D ividiu em dez
períodos ou épocas a história brasileira, relativos, respectivamente, à acha­
da, divisão, conquista, restauração, invasões, minas, Vice-Reinados, Corte,
Estados e Constituições do Brasil. O plano, como logo se verifica, tinha
excessivo caráter político-adm inistrativo e, ademais, o autor se preocu­
pava especialmente em que fossem dignam ente transm itidos à posteridade
pela história os feitos e fatos cie caráter heróico.
O im pulso mais im portante e a m elhor contribuição aparecida du­
rante toda essa época para um a periodização da história do Brasil é a que
traz o grande naturalista alemão Karl Friedrich P hilip von M artius
(1794-1868), no seu trabalho “Como se deve escrever a história do Brasil”,
escrito em 10 de janeiro de 1843 (20). Jan u ário da C unha Barbosa, cujo
nome está tão indelevelm ente ligado a essa questão, porque dele partiram
tòdas as iniciativas nesse sentido, foi quem, na 51.a sessão do Instituto His­
tórico, em 14 de novem bro de 1840, ofereceu cem mil-réis como prêmio
àquele que oferecesse ao Instituto um plano para se escrever a história
antiga e m oderna do Brasil, organizado de tal m odo que nele se com­
preendessem as partes política, civil, eclesiástica e literária. O Instituto,
considerando excelente a idéia, resolveu acrescentar mais cem mil-réis ao
referido prêmio, que foi anunciado. Candidataram -se von M artius e
W allenstein, sendo M artius o premiado.
O plano do sábio naturalista não traduz, na realidade, nenhum a ten­
tativa ou esboço de periodização. Mas contém tantas idéias gerais sobre
o problem a da história brasileira que irá servir de ponto de partida para
vários trabalhos que mais tarde serão escritos sob a inspiração do m étodo
aí delineado. A fòrça da penetração de M artius, a acuidade de suas obser­
vações e de suas idéias gerais sobre a história brasileira vão facilitar aos
que o seguiram a delim itação mais exata, a segregação de certos tipos ou
de certas seções da nossa história.
M artius é o prim eiro a cham ar atenção sobre a im portância da con­
tribuição das três raças na história brasileira. É o prim eiro a dizer que
seria um erro, em face de todos os princípios da historiografia, desprezar
as forças dos indígenas e dos negros im portados, forças essas que igual­
m ente concorreram com o elemento europeu para o desenvolvimento físi­

(18) R IH G B , t. 8, 1846, 53-64.


(19) Rio de Janeiro, T ip . Im perial e Nacional, 1826-30, 4 vols.
(20) R IH G B , t. 6, 1845, 389-411.

130
co, m oral e civil da totalidade da população. Lem bra, então, a necessidade
de se estudar os indígenas, seus costumes, seus usos, sua língua; de se ter
sempre em conta, ao estudar o papel dos portugueses, que o período do
descobrim ento e colonização prim itiva do Brasil não poderia ser com­
preendido senão em conexão com as suas façanhas m arítimas, comerciais
e guerreiras, e jam ais deveria ser considerado como fato isolado n a his­
tória; que o historiador do Brasil jam ais deveria perder de vista, na his­
tória da colonização e do desenvolvimento civil e legislativo do país, os
movimentos do comércio universal de então, incorporando-os mais ou
menos extensam ente à nossa história.
A pontou, ainda, a necessidade de se estudar a história da legislação
e do estado social da nação portuguésa, para poder m ostrar como nela se
desenvolveram pouco a pouco instituições m unicipais tão liberais como as
que foram transplantadas p ara o Brasil, e averiguar quais as causas que
concorreram para o seu aperfeiçoam ento neste país. Acentuou o papel
dos jesuítas e m ostrou ser necessário estudar-se o desenvolvimento das
relações eclesiásticas e monacais. Indicou como um a das tarefas de maior
interesse m ostrar como se estabeleceram e desenvolveram as ciências e artes,
como reflexo da vida européia.
Sem esquecer-se dos menores detalhes, M artius acrescentava que se
devia m ostrar como viviam os colonos, transportando o leitor para suas
casas, tanto na cidade como nos estabelecimentos rurais, fossem eles cida­
dãos ou escravos. Para evitar o conflito das histórias especiais de cada
província, que então se andava propondo, lem brava que m elhor seria tra­
ta r conjuntam ente daquelas porções do país que, por analogias de sua n a­
tureza física pertencessem umas às outras, ou seja, que se fizessem histórias
dos grandes grupos regionais. Assim, por exemplo, p ro punha a conver­
gência da história das possessões de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e
M ato Grosso; do M aranhão e Pará; a de Pernam buco com o Ceará, Rio
G rande do N orte e Paraíba; a história de Sergipe, Alagoas e Pórto Seguro
não poderia ser escrita sem a da Bahia. Era, assim, a prim eira sugestão de
história regional que se fazia no nosso país.
É evidente que, se M artius não propôs classificação algum a de épocas
ou períodos, suas idéias serviram m uito para daí em diante relacionarem-se
os fatos, agrupá-los e portanto, dividi-los sob m elhor critério. O parecer
do In stitu to H istórico que decidiu dos dois planos que concorreram ao
prêmio, e de que foi relator Freire Alemão, diz que o de M artius é pro­
fundam ente pensado. Dizia mesmo que era bom demais e que não pode­
ria ser posto em prática naquele momento, mas serviria de modelo para
q u ando fosse realizável. E acrescentava que sua utilidade se manifestava
desde logo na direção qüe deveriam tom ar as investigações históricas no
Brasil (21).
O utro projeto apresentado ao Instituto H istórico naquela ocasião,
o de W allenstein, estava m ilito longe do de M artius. Considerava o mais
acertado seguir T ito Lívio, João de Barros e Diogo do Couto, isto é, expor
(21) “ Parecer do D r. Francisco F reire Alemão, m onsenhor Joaquim da Silveira e Dr.
Tom ás Gomes dos Santos sobre a M e m ó ria ..., Como se deve escrever a história do Brasil (20
d e m aio de 1847)", R IH G B , t. 9, 279.

131
a historia dividida em décadas, narrando-se os acontecimentos dentro de
períodos certos. Sustentava que só assim seriam os sucessos bem encadea­
dos. O texto deveria conter especialmente a historia política, julgada por
ele a principal. A historia civil, eclesiástica e literária deveria ser trata­
da no final de cada década, em separado, servindo de observação ao
texto (22).
Em 1854-57, publicava Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de
Porto Seguro, sua H istoria geral do Brasil que é, até hoje, a que reúne,
sem contestação, o m aior núm ero de fatos. O plano da obra, porém, ape­
sar de ter-se o autor inspirado fortem ente nas sugestões de M artius, não
traz nenhum a novidade em m atéria de periodização. As linhas mestras
de classificação são quase as mesmas de Southey, ou mesmo dos mais an­
tigos, que se lim itavam a seguir os clássicos, dividindo a história em déca­
das. Se é verdade que ele não se lim itou à p u ra narração dos fatos polí­
ticos ou à história biográfica dos mandões e procurou ocupar-se princi­
palm ente dos fatos mais em relação com o verdadeiro desenvolvimento
da civilização do país, como ele próprio escreveu no Prólogo da obra,
tam bém é certo que foi incapaz de com preender os fatos, de reuni-los,
agrupá-los, relacioná-los em períodos característicos.
O m étodo de trabalho de V arnhagen foi quase que exclusivam ente o
de realizar investigações m ateriais dos fatos apontados por M artius como
im portantes e significativos, sem a capacidade m aior de generalização que
lhe possibilitasse apresentá-lós dentro do esquem a de um a classificação
original. M artius declarara ser indispensável estudar os índios do Brasil,
sua língua, seus usos, costumes e organização social. V arnhagen pesquisou
os fatos relativos a esses temas, nras não teve força suficiente para, sentindo
que se tratava de um mesmo grupo de fatos, reuni-los sob um mesmo ca­
pítulo, que abrangesse o conhecim ento da gente indígena do Brasil. M ar­
tius apontara a necessidade de se estudar o direito dos colonos, a legis­
lação social desses povos, e V arnhagen reu n iu num a seção, por exemplo,
os direitos dos donatários e colonos. Ora, tais direitos, estabelecidos nos
prim eiros Regimentos e nos Códigos M anuelino e especialmente Filipino,
não constituíam , como é sabido, direitos característicos de um período.
Eles persistem além do período colonial. Apenas os direitos dos donatários
é que deixavam de subsistir, quando vão desaparecendo, aos poucos, as
donatarias (23).
V arnhagen, na realidade, não teve a m enor preocupação de periodi-
zar. E tanto isso é exato que no seu Prólogo ele diz: “Bem que prefería­
mos agrupar os assuntos sob determ inadas épocas, esmerando-nos por que
(22) H enrique Júlio de W allenstein, “$õbre o m elhor plano de se escrever a história antiga
e m oderna do Brasil” , R IH G B , x l v , 159-160. É datada do R io de Janeiro, 30 de setembro
de 1843.
(23) É preciso registrar que V arnhagen variou m uito na divisão de m atéria da prim eira
para a segunda edição da H istória geral do Brasil. Ambas obedecem a um critério puram ente
cronológico e são m uito infelizes nos títulos, às vezes absolutam ente vagos: “Sucessos imediatos
à criação do Arcebispado” ( l . a ed., sec. 137), ou “ Õ utros fatos e providências d u ran te 1750.
O uro e diam antes” ( l .a ed., sec. 42); “ Fatos e sucessos de 1703 a 1715 estranhos à lu ta ” (2.a
ed., sec. 39). Além disso, a sua prim eira edição continha 58 seções, enquanto a segunda contém
somente 54. Realm ente, apesar de deficiente nesse sentido, a segunda edição ganha em concisão
e m elhor divisão. A terceira edição seguiu a segunda, deixando assim de lado toda â p arte que

132
fossem as transições fáceis. Julgam os poder-nos dispensar de adotar no tex­
to as divisões pedantes e escolásticas em grandes períodos e livros, conten-
tando-nos, como n a anterior edição, com a simples divisão em seções” (24).
Como disse Capistrano de Abreu, V arnhagen soube escavar docum en­
tos, demonstrar-lhes a autenticidade, solver enigmas, desvendar mistérios,
revelar um a m ultidão de fatos. Com preender, porém, tais fatos em suas
origens, em sua ligação com outros mais amplos e radicais de que dima-
nam, generalizar as ações e formular-lhes a teoria, não conseguiu nem
consegui-lo-ia (25). Foi essa incapacidade teórica de V arnhagen que o im­
possibilitou de realizar, na obra mais com pleta da historiografia brasileira,
um a bem planejada e bem arquitetada divisão de períodos. V arnhagen
obedeceu quase que exclusivamente à cronologia, a que todos obedecem,
mas sem periodizar.
Ju stiniano José da Rocha propôs um a divisão puram ente cronológica,
baseada nas ações e reações da vida política. “De 1822 a 1831, período de
inexperiência e de luta dos elementos m onárquico e democrático; de 1831
a 1836, triunfo democrático incontestado; de 1836 a 1840, lu ta de reação
m onárquica, acabando pela m aioridade; de 1840 até 1852, dom ínio do
princípio m onárquico, reagindo contra a obra social do dom ínio democrá­
tico, que não sabe defender-se senão pela violência e é esmagado; de 1852
até hoje (1855), arrefecim ento das paixões, quietação no presente, ansie­
dade do futuro, período de transação (26).- Era um a visão excessivamente
contem porânea da vida política, mas tam bém m uito valiosa como sugestão
para o estudo da nossa história.
Em 1881, quando foi realizada a Exposição de H istória do Brasil da
Biblioteca Nacional, Ramiz Galvão fez um a classificação puram ente cro­
nológica, na base do m aterial bibliográfico. A dotou oito épocas; 1500-
1548; 1549-1639; 1640-1762; 1763-1807; 1808-1821; 1822-1831; 1831-1840;
1841-1881 (27).
Não é à toa que o m aior historiador brasileiro, não pela contribuição
m aterial mas pela agudeza e capacidade crítica, tenha sido tam bém quem
m elhor distinguiu os períodos de nossa história. C apistrano de A breu sen­
tiu a necessidade espiritual de buscai, sob métodos críticos de pesquisa,
as raízes de nossas verdadeiras épocas, distintas, únicas e singulares. Sua
periodização não é só objetiva, em píricam ente baseada nas fontes m ate­
riais e nos fatos, mas sociológica. As construções periódicas passam a ser
mais autônom as e com pletam ente libertadas do esquematism o ou da sim-
vai de 1817 a 1831, que fazia p arte da l.a edição e que fora abolida na segunda. É curioso
observar, além disso, que sentindo a censura de d ’Avezac, V arnhagen colocou na segunda edição
toda a p arte referente à terra e à gente logo no início do livro. A prim eira edição come­
çava com a descoberta da América e as explorações prim itivas, para só na seção 7 começar
a descrever o Brasil e sua gente. Vide José H onório R odrigues, “V arnhagen, m estre da história
geral do Brasil”, R IH G B , vol. 275, ab.-jun. 1967, 170-196.
(24) Francisco Adolfo de V arnhagen, H istória geral do Brasil, t. 1, 4.a ed., S. Paulo,
Com panhia M elhoramentos, s. d., xm .
(25) Necrológio de Francisco Adolfo de V arnhagen por Capistrano de A breu, História
geral do Brasil, 4.a ed., 1.° tomo, 507.
(26) Ação: Reação: Transação. Duas palavras acerca da atualidade política do Brasil, Rio
de Janeiro, 1855, 5.
(27) Cf. CEHB, Suplem ento, 1883, Chave da classificação, n.

133
pies distribuição da m atéria. Pela prim eira vez se põe em relevo as for­
mas e os motivos fundam entais económico-sociológicos de cada período
individual e se deixa em aberto as relações de com portam ento entre esses
fundam entos e as superestruturas ideais. C apistrano de A breu prim eiro
decompõe e analisa os componentes sócio-econômicos e políticos para, en­
tão, estudar as várias conexões culturais. É das últim as camadas dessas
raízes econômicas, nas circunstâncias geográficas e naturais e nas suas trans­
formações e continuações em cada período, que nasce a verdadeira perio­
dização de C apistrano de Abreu.
É exato que C apistrano foi como outros historiadores de sua época,
bastante influenciado pelo determ inism o geográfico, pela teoria evolu­
cionista e pelo positivism o de Comte. Isto explica p o r que sua obra parece
basear-se mais nas características geográficas do que nos elementos sócio-
econômicos. Mas seria um erro ver apenas nos rótulos os elementos essen­
ciais de sua periodização. Além do mais, não se deve esquecer que as cir­
cunstâncias geográficas, naturais e antropológicas, que parecem ter sido a
preocupação principal de sua análise, são tam bém , como já dissemos, os
últim os subfundam entos das formas económico-sociológicas. Ele nunca se
esqueceu de decompor a m ultilateralidade dos fundam entos sócio-econô­
micos e de relacioná-los com os diferentes elementos da superestrutura es­
p iritu al ou psicológica (28).
O prim eiro aprofundam ento consciente do problem a da periodização
aparece no artigò escrito por C apistrano de A breu a propósito do Visconde
de Porto Seguro (29), a mais profunda e aguda página de periodização da
história do Brasil jam ais escrita na nossa historiografia. “A história do
Brasil de 1500 a 1614 oferece um a feição que lhe é própria. Aí se tratou
principalm ente de ocupar o litoral, não só porque os indígenas proibiam
a internação, como porque os franceses, com os seus ataques continuados,
exigiam a presença dos colonos ju n to ao mar. No período que vai de
1614 a 1700, o litoral está todo povoado, exceto um a nesga ao Sul e os
terrenos ao norte do Amazonas. Começa agora a internação, mas pelos
rios.” Expedições pelo rio Amazonas e seus afluentes; bandeiras paulistas
que seguem o T ietê, vão ao P araná e U ruguai expulsar os jesuítas, e se
estendem pelas margens do Paraíba, galgam a serra da M antiqueira, per-
lustram M inas Gerais e seguindo o Mogi Guaçu transpõem o rio G rande
e vão ter a Goiás, caracterizam a fase de conquista do sertão. “No rio
de São Francisco encontram-se paulistas que descem e baianos e sergipanos
que sobem. As suas margens são rapidam ente povoadas e a criação de
gado assume proporções enormes.” U m criador de gado descobre o P iauí
e Gomes Freire de A ndrade m anda explorar o caminho entre o M aranhão
e a Bahia. De 1700 a 1750, dom inavam as minas. M inas Gerais, Goiás,
Cuiabá, M ato Grosso são explorados e povoados e a agricultura é aban­
(28) Cf. sobre as teorias de C apistrano de A breu, José H onório Rodrigues, “Capistrano
de A breu e a historiografia brasileira” , R IH G B , vol. 221, out.-dez. 1953, 120-138, e 1.° vol.
da Correspondência de Capistrano de A breu, R io de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954,
X X X V II-LV I.
(29) Capistrano de A breu, artigo na Gazeta do R io de Janeiro, 21, 22 e 23 de novembro
de 1882, reproduzido na História geral do Brasil de V arnhagen, ob. cit., t. 3, 440-444.

134
donada. Rom pem rivalidades e a anarquia toma grandes proporções.
Continua-se o processo de internam ento, povoando-se Santa C atarina e
R io G rande do Sul, descobrindo-se o cam inho de M ato Grosso pelo
M adeira, descendo o T ocantins e o P am aíba e subindo o Itapicuru. “O
período que vai de 1750 a 1808 é o d a consolidação do sistema colonial.”
Anulam-se as m unicipalidades, proíbe-se a indústria, resgatam-se as capi­
tanias dos donatários, declinam as minas, expulsam-se os jesuítas, transfere-
se a capital para o R io de Janeiro. “As rivalidades entre colonos e rei­
néis se acusam e dão em resultado a idéia de independência. O período
seguinte, que começa em 1808, é o da decomposição do sistema colonial.”
Iniciou-o D. João vi e continuou-o D. Pedro i. A Regência concluiu com
seus códigos e D. Pedro n com a debelação das tentativas separatistas.
“Desde 1850 começou um novo período, que se poderá cham ar centralista,
im perialista ou industrial.” O vapor p u n h a o Brasil em comunicação rá­
p id a com a E uropa e as províncias, o tráfico term ina e a escravidão ago­
niza, enquanto a indústria é im plantada. “Esses seis períodos, parece-nos,
apresentam entre si, ao lado de feições congêneres, caracteres que os sepa­
ram pronunciadam ente.” C apistrano de Abreu acrescentava então que o
defeito fundam ental da m aior história geral do Brasil era o de não ter
sabido distinguir estes caracteres e outros talvez mais im portantes, em bora
pouco conhecidos.
Mais tarde, novo exame aparece na Introdução às Informações e frag­
mentos históricos cio padre José de A nchieta (*°). Aí ele escreve que o
ponto mais característico para a definição do período que começa com o
descobrimento de C abral e rem ata com a conquista do M aranhão — pe­
ríodo que se pode cham ar o transoceánico — é o desdém pela terra, o des­
dém pelos naturais. Os prim itivos colonos achavam a terra melancólica,
pelas suas privações, pelos perigos internos de bichos e índios, e pelos
externos, que os traziam em constante sobressalto; os filhos de portu­
gueses nascidos no Brasil eram tratados com desdém, “faltos de engenho” e
afeiçoados aos costumes indígenas.
Ao período transoceánico segue-se, em 1614, o da exploração do inte­
rior, com exceção de São Paulo, onde já m uito antes se iniciara, porque
a estreita restinga que separa a cordilheira oriental do Oceano obrigou a
galgá-la desde logo. As bandeiras se alastram e os conquistadores esten­
dem os limites dai civilização. A criação de gado se alonga e em 1697 des­
cobre-se o caminho da terra entre a Bahia e M aranhão pelo Piauí. A
ligação térrea perm ite a unidade e vai-se desfazendo o desdém pelo terri­
tório e pela gente.
O terceiro período inicia-se nos prim eiros anos do século xvn, com
as minás e a conseqüente revolução psicológica. As rusgas, as guerras
contra os em boabas em Minas Gerais, e dos .mascates em Pernambuco
m ostram as diferenças que separam èste período do transoceánico. Agora
os desdenhados não são mais os mazombos e caboclos.
N ão será exagero dizer que C apistrano de A breu soube, com essas
poucas páginas, elevar-se realm ente a um a altura ainda não atingida por
(30) Inform ações e fragm entos históricos do padre José de Anchieta (M ateriais e achegas
para h istória da geografia do Brasil), R io de Janeiro, Im prensa N acional, 1886, n.° 1.

255
nenhum historiador brasileiro. É aqui, então, que èle anota a deficiência
fundam ental de Varnhagen, sua falta de percepção filosófica. E é aqui,
ao adotar estas grandes cesuras, ao caracterizá-las e ligá-las, que ele móstra
o elemento propriam ente filosófico da história do Brasil e dem onstra sua
penetrante capacidade teórica, que o distingue de qualquer pedante, de
q u alquer rato ou burocrata da história para elevá-lo ao nível de um
verdadeiro historiador. Os grandes grupos concentrados distinguem-se n iti­
dam ente. Mas não é só nos fundam entos sócio-econômicos ou nos subfun-
damentos naturais e antropológicos que ele vai buscar a categoria histórica
de um período. É tam bém — e aí toda a grandeza lógica de suas seções
tem porais — nos fins, nas regras de vida, nos sentimentos e ideais de
cada círculo que ele busca as fronteiras de suas épocas. Fundam entos
econômicos e psicológicos ligados tão estreitam ente, entrevistos em con­
junto, mostram a profundeza das revelações de C apistrano de Abreu. N ada
de subordinação ou hierarquia; às vezes é o fato psicológico desdém que
caracteriza toda um a época; outras é a substituição do sentim ento de
inferioridade pela consciência da superioridade que define o traço essencial
de um período.
Alguns anos depois publicava Capistrano de A breu os seus Capítulos
de história colonial(31). Embora, como o título indique, só se abranja a
fase da Colônia, a verdade é que se trata mais de distribuição de m atéria
do que de periodização. A inda assim a divisão do livro em onze capítu­
los caracterizava m uito bem cada período, que constituía um conjunto
bem delim itado e configurado, distinguindo-se claram ente o que precedia
do que sucedia. Os títulos adotados foram; Antecedentes indígenas, Fa­
tores exóticos, Primeiros descobridores, Prim eiros conflitos, Capitanias
hereditárias, Capitanias da Coroa, Franceses e ingleses, G uerra flamenga,
Sertão, Formação de limites, Três séculos depois.
É claro que a divisão não obedeceu ao intuito de periodizar, já que
não seria difícil a Capistrano de Abreu seguir neste livro a distinção an­
teriorm ente feita de seis períodos perfeitam ente delineados. Ao próprio
C apistrano não passaria despercebido não só a inexpressividade de certos
rótulos, como o segundo e o últim o, como tam bém a falta de uniform idade
dos fundam entos divisórios. Ele que sempre ligara, n a caracterização dos
seus seis períodos, as bases econômicas aos elementos superestruturais, per­
ceberia que o quinto e o sexto capítulos obedecem a um critério quase
exclusivamente político-adm inistrativo, o prim eiro a um juízo mais geo­
gráfico, os outros a dados históricos, sendo o últim o apenas um título e
n ada mais. Ora, já observou B auer que toda classificação de períodos
deve subordinar-se a um mesmo critério, seguindo de perto as transform a­
ções históricas, ou baseando-se em fatos políticos, adm inistrativos, etc. (32).

(31) A prim eira edição dos Capítulos de história colonial de Capistrano die A breu foi
publicada em O Brasil, suas riquezas naturais (R io de Janeiro, M. Orosco e C .ia, 1907, sob
os auspícios do Centro Industrial do Brasil), levando o títu lo de “ Breves traços da história do
Brasil Colônia, Im pério é R epública” . A separata já traz o títu lo definitivo. É de 1928 a
edição da Sociedade Capistrano de Abreu (R io de Janeiro, Leuzinger), 4.a ed., rev., anot.
e pref. por José H onório Rodrigues, Livraria B riguiet, Sociedade Capistrano de A breu, 1954.
(32) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 157.

136
C ontra a opinião de B auer pode dizer-se que é quase impossivel na
historia do Brasil obedecer exclusivamente a um critério uniform e de
classificação de períodos. Possuímos largos trechos de nossa formação ain­
da m uito mal ou pouco conhecidos. Observa-se perfeitam ente esse fato
quan d o se verifica que na história colonial os historiadores mais m oder­
nos, com o conhecimento dos fatos — já que a periodização deve sempre
p artir dos fatos p ara a teoria e não ao contrário, como fez Abreu e Lim a
— têm podido classificar sob critérios sociais e econômicos a fase colonial,
o que já não se verifica em relação ao Im pério e ao meio século de Re­
pública.
Duas observações devem ainda ser feitas quanto à divisão de Capistra­
no de A breu neste trabalho. A prim eira refere-se à crítica que D ’Avezac
fizera à periodização de Varnhagen, censurando-lhe o ter principiado sua
obra com a E uropa e não com o Brasil. Deveria ter começado com a des­
crição do país e dos indígenas seus habitantes e só em seguida viria a
época da chegada dos europeus (33). V arnhagen respondeu que a obra
se inicia com a chegada de C abral a Porto Seguro, sendo o capítulo pre­
cedente apenas um a introdução. Com isto pretendia ligá-lo à história da
hum anidade (34). Parece-nos que Capistrano de Abreu considerou justa a
observação de D ’Avezac e assim começou sua narrativa com os antecedentes
indígenas. Além disso, C apistrano esqueceu-se — e diz-se que interrogado
declarou que o fizera propositadam ente — de certos movimentos de opinião
que foram formadores da consciência nacional, tais como os movimentos
revolucionários que ocorreram no século xvm , entre os quais a Inconfi­
dência M ineira. Desta, em particular, poderia ter-se esquecido, mas não
do movimento nacional de opinião e consciência que ele tão bem apontou
como um a das características fundam entais do qu arto período.
O u tra contribuição im portante para a periodização histórica brasi­
leira é a de Joaquim Nabuco, no seu Um estadista da Im pério (1897).
Ao propor, aí, algumas divisões da história política, alargou a contribui­
ção de C apistrano de Abreu, adotando a princípio, a classificação de Jus­
tiniano José da R ocha (35) e considerando a G uerra do Paraguai como “o
divisor das águas da história contem porânea” (36), pois em bora marcasse o
apogeu do Im pério tam bém déle procediam as causas principais da deca­
dência e da queda da dinastia. N abuco tentou dividir a história do Im ­
pério e percebeu, com toda a lucidez de sua visão histórica, certos m om en­
tos decisivos de reviravolta. “O reinado de D. Pedro n (1840-1889) pó-
de-se dividir em seis fases distintas: de 1840 a 1850, consolidação da ordem
interna, fim das revoluções, aperfeiçoam ento do governo parlam entar, luta
contra o tráfico; de 1850 a 1863, política exterior, equilíbrio do Prata, con­
ciliação política, em preendim entos industriais, emissões bancárias, aber­
tu ra do país pelas estradas de ferro, centralização crescente; de 1864 a
(33) D ’Avezac, Considérations géographiques sur Vhistoire du Brésil, Paris, Im prim erie
de L. M artinet, 1857, 9-10.
(34) Francisco Adolfo de V arnhagen, E xam en des quelques points de Vhistoire géogra-
ph iq u e du Brésil, Paris, Im prim erie de L. M artinet, 1858, 12-13.
(35) U m estadista do Im pério, 2.a ed., 1936, t. 1, 30, nota.
(36) Id ., id., 428.

137
1870, guerra do Paraguai; de 1871 a 1878, em ancipação gradual, liqui
dação diplom ática da Aliança, começo da democratização do sistemá (im
prensa e condução barata, — os bondes, que tinham começado em 1868
revolucionam os antigos hábitos da população — idéia republicana, via
gens im periais e caráter dem ocrático que o Im perador nelas ostenta e de
pois delas assume); de 1879 a 1887, eleição direta, agitação abolicionista
im portância m aior do Sul pelo progresso rápido de São Paulo, desapare
cim ento de antigos estadistas, novos moldes, processos e ambições; de
1887 a 1889, doença do Im perador, seu afastam ento gradual dos negócios
descontentam ento do exército, abolição súbita, prevenções contra o Tercei
ro R einado (da grande propriedade contra a Princesa D. Isabel; do
exército contra o Conde d ’Eu, futuro Im perador); ouro abundante, febre
da Bolsa, positivismo, surpresa final de 15 de N ovem bro”(37).
Não se poderia exigir m elhor quadro geral, no qual conexões estru­
turais e superestruturais revelam a m aior ligação e intim idade do que
neste esboço e especialmente no ensaio de C apistrano de A breu intitulado
“Fases do Segundo Im pério”(37a). Capistrano e N abuco viam as reviravoltas
da continuidade histórica, e tinham o senso de que novos períodos surgiam,
de q ue as m udanças caracterizavam unidades singulares pela sua particu­
laridade e individualidade. A despeito do caráter mais político de suas
periodizações, percebiam a unidade da vida histórica e com a mesma e pro­
funda objetividade histórica e concepção filosófica apresentavam um qua­
dro resumido, um esboço, mas que revelava a profunda distância que os
separava de seus contemporâneos, na visão e compreensão do processo his­
tórico. Representam , assim, as duas maiores figuras da nossa historiogra­
fia, no fim do século.
A lição de C apistrano de A breu e Joaquim Nabuco era m uito recen­
te para que João R ibeiro, Oliveira Lim a e Pandiá Calógeras dela se apro­
veitassem. A contribuição do prim eiro se lim itou a um a História do Bra­
sil de caráter escolar. Apesar da enorme influência didática que esse livro
exerceu — e num capítulo sobre a historiografia didática m elhor será es­
tu d a d a ^ 8), João R ibeiro não fez nenhum a pesquisa decisiva em bora
trouxesse algum a contribuição im portante ao nosso saber histórico. Al­
guns subsídios originais, algumas interpretações felizes podem realm ente
ser destacadas no seu com pêndio superior de história do Brasil. A decisiva
influência do determ inism o geográfico — tão própria de sua geração —
não o im pediria de periodizar com acerto e assim contribuir para um a
m elhor delim itação das diferentes categorias históricas de nossa evolução.
E isso porque já acentuamos que qualquer periodização tendo por base
a pesquisa dos subfundam entos naturais ou geográficos não deixa de ser
um a contribuição, em bora lim itada, a um a periodização real e objetiva.
Na obra de João R ibeiro é nos fundam entos naturais e nos elementos po­
líticos que se estabelece a relação estrutura-superestrutura. Os próprios
(37) Idem , idem ^ t. 2, 374, nota.
(37a) Ensaios e estudos 3.a série, R io de Janeiro, Sociedade C apistrano de A breu, 1938,
115-130.
(38) O autor deste trabalho tem em preparo um a “ H istória da historiografia brasileira” ,
onde figura um capítulo especial sobre a história didática.

138
rótulos são essencialmente políticos e às vezes jurídicos, como o iv “Do­
m ínio espanhol”, o x, “Absolutismo e revolução”, xi, “O Im pério. Pro­
gresso da dem ocracia”, e o xn, “A R epública” (39). E isso se prova in­
clusive tam bém pelo período absolutismo e revolução pois, como mostrou
Bauer, a denom inação “época de absolutism o” procede do direito cons­
titucional (40).
João R ibeiro, influenciado p o r M artius, notà em cada um dos núcleos
prim itivos da nação um sentim ento característico: o da Bahia é o da reli­
gião e da tradição; o de Pernam buco é o radicalismo republicano e extre­
mo de todas as revoluções; o de S. Paulo (Minas e Rio) é o liberalism o
m oderado; o do Amazonas, dem asiado indígena, é talvez o da separação,
como o é no extrem o sul o R io Grande, demasiado platino. Excluídos os
dois últimos, o prim eiro dos quais sinal de ressentim ento pelo abandono
a que se vê voltado, e não propriam ente sentim ento característico, e o se­
g undo extravagante, não h á que negar a capacidade de observar certas
feições características capazes de ajudar a futura e complicada pesquisa das
relações de com portam ento en tre a estrutura e a superestrutura, tarefa in­
dispensável a um a periodização mais segura e acertada.
A obra de Oliveira Lim a é um dos mais poderosos conjuntos de in­
terpretação da vida brasileira, especialmente nas fases pré-independência
e independência. Nos seus trabalhos mais gerais, como A formação his­
tórica da nacionalidade brasileira (41) ou os Aspectos da história e da
cultura do Brasil (4~), não se nota nenhum a preocupação maior, tal como
em João Ribeiro, por uma periodização objetiva e em píricam ente fun­
dada. H á um a excelente distribuição da matéria, que não se lim ita aos
aspectos puram ente políticos, mas acolhe os de natureza sociológica, os
econômicos e os antropológicos. Como naqueles, porém, há que assinalar
nestes trabalhos algumas originalidades felizes e capazes de revelar as re­
lações profundas entre os fundam entos econômicos e os ideais. Evitando
o erro grosseiro de converter a literatura num apêndice final de todos os
capítulos — tal como os atuais programas de ensino secundário estabele­
cem, O liveira Lim a relaciona sempre a vida econômica e a literatura, ex­
pressão refinada de toda estrutura. Sua Formação da nacionalidade é uma
tentativa clara e lúcida de ver a ligação interna e lógica dos dois fatores.
Nova e séria aproxim ação para a solução do problem a, sua contribuição
não pára aí e nisso se espelha a diferença essencial que o separa de João
R ibeiro. D. João VI no Brasil (4S) é um dos melhores e dos mais exatos
(39) São os seguintes os capítulos da História do Brasil de João R ibeiro: 1) O descobri­
mento; 2) T entativa de unidade e organização da . defesa; S) L uta pelo comércio livre contra
o monopólio. Franceses e holandeses; 4) Prelim inares. D om ínio espanhol; 5) A invasão ho­
landesa; 6) A formação do Brasil, a) H istória universal; 7) A formação do Brasil, b) H istória
local; 8) D efinição territorial do país; 9) O espírito de autonom ia; 10) O ábsolutismo e a revo­
lução republicana e constitucionalista; 11) O Im pério. Progresso da democracia; 12) A R e­
pública. (R io de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1929, 12.a ed., Curso Superior.)
(40) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 154.
(41) Oliveira Lim a, Formation historique de la nationalité brésilienne, Paris, 1911, 176,
trad . port. de Aurélio Domingues, C. Ed. L eitura, 1944.
(42) Liyr. Classica E ditora, 1923.
(43) Rio de Janeiro, Jo rn al do Comércio, 1909, 2 vols., 2.a ed., José Olympio, 1945, 3 vols.

139
estudos históricos brasileiros, explicando-nos um a fase característica bem
definida nos seus contornos físicos e intelectuais. Com ele avança-se de­
cisivamente para um a m elhor e verdadeira periodização da história do
Brasil Reino. Já notam os que as pesquisas e o saber sobre a fase colonial
já nos perm itiam periodização objetiva, o que se não podia fazer a p artir
da decomposição do sistema politicam ente colonial. Com D. João VI, com
O reconhecimento do Im pério (44), com o p ró p rio Im pério do Brasil (45),
obra simples de síntese, já penetram os m elhor no conjunto da história
q ue se gera a p artir de 1808 até 1889.
Posição sem elhante de certo modo ocupa João P andiá Calógeras, não
pela sua Formação histórica do Brasil (46), que não tem intuitos de perio­
dização, mas, como no caso de O liveira Lima, pelo conhecim ento profundo
que lança, com certeza e exatidão, sobre determ inados aspectos de nossa
vida. A Formação histórica do Braisil que, conforme afirm a o autor, é
inspirada p ara os séculos xix e xx no m odelo inexcedível dos Capítulos de
história colonial de C apistrano de A breu não nos parece m uito feliz nas
atribuições periódicas, de vez que Calógeras costuma separar a p arte econô­
mica e social da parte político-adm inistrativa. T a n to é assim que ao capí­
tulo “Descobrimento e colonização” se segue um de organização econômica
e outro de riquezas minerais. Isso na parte colonial. N o trecho relativo
à Independência dedica três capítulos a fatos político-adm inistrativos e
m ilitares p ara novam ente separar em capítulo especial os problem as de
organização, de trabalho e tráfico. Por conseguinte, não só desliga fatos
inseparáveis de um a época ou período como abandona quase inteiram énte
os dados culturais, entregando-se excessivamente à seleção política. Em­
bora seja sua obra um a magnífica síntese, superior talvez sob este aspecto
à Formation historique de la nationalité brésilienne, a verdade é que
Calógeras não trouxe aí um a contribuição valiosa à periodização da his­
tória do Brasil.
A contribuição im portante vem de suas obras de análise, como as
M inas do Brasil e sua legislação(47), La politique monétaire du Brésil e
a Política exterior do Im pério. Com a prim eira chega-se a um exam e mi­
nucioso e exato dos últim os fundam entos estruturais de certos e definidos
períodos de nossa história. N inguém m elhor que ele analisa detidam ente
e caracteriza logicamente o terceiro período de nossa história, segundo a
classificação de C apistrano de Abreu. J á registamos a observação de
W ilhelm Dilthey, de que a energia que determ ina a direção fundam ental
se objetiva na legislação da época. Estudando-a, Calógeras revelaria, ao
lado dos fundam entos econômicos do período, os elementos espirituais que
o encarnam. Trata-se, assim, da concentração de toda a cultura de um a épo­

(44) Oliveira Lim a, H istória diplomática do Brasil, O reconhecimento d ó Im pério, G arnier


(1901).
(45) Oliveira Lim a, O Im pério do Brasil. 1822-1889, S. Paulo, s. d. (1927).
(46) 1.a ed., R io de Janeiro, Livr. Pim enta de Melo e C .la , s. d.; 3.a edição, S. Paulo,
Com panhia Editora Nacional, 1938 (coleção Brasiliana).
(47) R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1904-1905, 3 vols.; L a politique monétaire du
Brésil, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1910; A politica, exterior do Im pério, R io de Janeiro,
Im prettsa Nacional, 1927i 1928, 2 vols.

140
ca, objetivam ente encarada e característicam ente decomposta. Neste livro
assim como para Oliveira Lima, a regência de D. João vi inicia um a nova
era: ''um a série de providências, umas técnicas, outras adm inistrativas
foram tomadas com o plano de favorecer a revivescência das m inas” (48).
P ara ele, o ano de 1819 pode considerar-se característico da evolução in­
dustrial brasileira em assuntos de m ineração (49). A extensão da obra,
que se alonga até a época presente, facilitaria uma ou outra afirmação, tal
como esta, que segundo C apistrano' de Abreu, era mais aparente que
real (50).
Com a Política monetária P andiá Calógeras esboçaria um novo exa­
me dos fundam entos econômicos de nossa vida, preparando, assim, uma
caracterização lógica de períodos. A grande contribuição do historiador e
hom em público dos mais preparados que tivemos está, portanto, nas várias
e minüciosas análises de natureza econômica, tarefa que exigia, como acen­
tuou C apistrano de Abreu, largo fôlego e om bros fortes.
Chegamos, afinal, às contribuições de Oliveira Viana, G ilberto Freyre
e Sérgio B uarque de H olanda, que trouxeram à história do Brasil novos
critérios de pesquisas e interpretação e levaram, tal como no caso de M ar­
tius, a u m a nova penetração e distribuição dos fatos históricos.
Os trabalhos de Oliveira Viana, m uito mais preocupado com os fatos
sociológicos e antropológicos do que com os políticos, vieram caracterizar
a aristocracia ru ral como o fator hum ano mais im portante da evolução
da sociedade brasileira e m ostrar, no evolver das instituições políticas, o
papel representado p o r essa aristocracia da terra, não só n o período co­
lonial como no im perial.
Talvez se possa dizer que os seus capítulos sobre a evolução da raça
estejam hoje inteiram ente superados, devido ao critério racista que os
inform ou. A verdade, porém, é que A evolução do povo brasileiro (51)
foi um marco na história da história brasileira e representou um a contri­
buição m uito im portante para a periodização da nossa história.
,0 conhecim ento de novas épocas, no entanto, a capacidade de atri­
buição feliz de um nome que constitua uma época de descobrimento que
nos leva a regiões nunca conhecidas antes, se deve a Casa-grande e sen­
zala (52).. Este é o estudo mais exaustivo e mais completo da formação da
famílig. brasileira sob o regime de um a economia patriarcal, que possuí­
mos até hoje.
A casa-grande, com pletada pela senzala, como diz G ilberto Freyre,
representa todo um sistema econômico, social e político de produção —

(48)Calógeras, A s M inas do Brasil e sua legislação, 1.° vol., 149-50, 2.° vol., 523.
(49) Calógeras, ibid., 1.° vol., 175.
(50) Capistrano de A breu, “ As m inas nacionais” , Jornal do Comércio de 26 e 27 de o u tu ­
b ro de 1904, reproduzido in Calógeras na opinião de seus contemporâneos, edição de Antônio
G ontijo de Carvalho, S. Paulo, 1934, 31-32.
(51) l . a éd., São Paulo, M onteiro L obato e C .la, s. d. (depois de 1923); 2.a ed., São Paulo,
C om panhia E ditora Nacional, 1933.
(52) G ilberto Freyre, Casa-grande e senzala, I.a ed., M aia &: Schmidt L tda., 1934; a p artir
da 2 a ed., L ivraria José Olym pio E ditora, sendo a 5.a ed. em 2 vols.

141
a m onocultura latifundiária; de trabalho — a escravidão; de transporte
— o carro de boi, o bangüê, a rede, o cavalo; de religião — o catolicismo;
de fam ília — com o capelão subordinado ao pater familias, culto da morte,
etc., de vida sexual e de fam ilia — o patriarcalism o polígamo; de higiene
do eorpo e da casa — o banho de rio, o banho de assento, o lava-pé;
de política — o compadrismo.
Pela prim eira vez ficam perfeitam ente estudadas sob base am pla e se­
gura as características gerais da colonização portuguesa no Brasil, a for­
mação de um a sociedade agrária, escravocrata e híbrida. E pela prim eira
vez o velho plano de M artius, do estudo do indígena, do colonizador por­
tugués e do escravo negro na formação da fam ília e da sociedade brasileira
é plenam ente realizado. Se V arnhagen seguiu o plano de M artius, seguiu-o
apenas na colheita do m aterial, mas foi G ilberto Freyre que, dem onstran­
do urna enorme capacidade de interpretação, reuniu e relacionou os fatos
num a caracterização geral da sociedade e da fam ília brasileiras.
O plano da Casa-grande e senzala encontrou seu desenvolvimento
n um período posterior em Sobrados e mocambos (53), que G ilberto Freyre
com pletou com Ordem e progresso. Assim, a velha trilogia periódica,
que foi discutida e aprovada segundo o plano de C unha Matos, no Insti­
tu to Histórico, volta novam ente a dom inar a periodização brasileira. T e­
remos a prim eira fase colonial, de form ação da família brasileira, sob a
base da economia patriarcal, seguida de um a fase de transição, onde se
estuda a decadência do patriarcado ru ral no Brasil e o sentido em q u e se
m odificou a paisagem social brasileira durante o século xvm e a prim eira
m etade do século xix, para nos dar, com Ordem e progresso, a substituição
do trabalho escravo pelo trabalho livre. O terreno triangular de A breu e
Lim a vem, assim, se realizar sob aspectos sociais e antropológicos m uito
mais bem definidos, na obra com pleta de G ilberto Freyre.
Não é menos de louvar-se a capacidade de escolher títulos tão suges­
tivos e felizes na caracterização dos períodos da história brasileira: Casa-
grande e senzala (1933), Sobrados e mocambos (1936) e Ordem e pro­
gresso (1959). Nem todos, naturalm ente, aceitariam como definitiva —
não a contribuição, mas a sugestão dos títulos. Mas, de qu alq u er forma,
a verdade é que os trabalhos de G ilberto Freyre nos possibilitam um a me­
lhor compreensão, um a m elhor fixação entre a imensa m ultidão das co­
nexões causais, a divisão dos grupos históricos do suceder brasileiro.
N a obra de Sérgio B uarque de H olanda, Raízes do Brasil (54), se de­
lineia ainda um a sugestão que realm ente é bastante valiosa, como contri­
buição para a periodização na história brasileira. É assim que ele marca
1888, a data da abolição, como um marco divisório entre duas épocas, o
instante talvez mais decisivo de nossa evolução de povo. A p a rtir désse
momento, a vida brasileira desloca-se nítidam ente de um polo a outro,

(53) Sobrados e mocambos. Decadência do patriarcado rural no Brasil, São Paulo, Com­
p anhia E ditora Nacional, 1936.
(54) Raizes do Brasil, 1.a ed., R io de Janeiro* José Olympio, 1936; 2.a ed. rev. e am p.,
R io de Janeiro, José Olympio, 1948.

142
com a transição para a urbanocracia, que desde então se impõe com
pletam ente.
Teremos, assim, segundo Sérgio B uarque de H olanda, dois períodos:
um que dom ina até às vésperas da R epública, com o poderío agrário, e
outro a p a rtir da Abolição, que marca os novos tempos, com o hachare-
lismo, as cidades, o rom antism o, o positivismo e a transição do trabalho
escravo para o livre. O próprio autor reconheceu que havia algum exagero
nos limites do inicio do segundo período.
A verdade, parece-nos, está mais com G ilberto Freyre, segundo o qual
o dom ínio agrário se desfaz e m uda com pletam ente a paisagem social na
segunda m etade do século xix. O liveira Viana põe tam bém como marco
do dom ínio da “aristocracia ru ra l” (ou “patriarcado ru ra l”, na expressão
de G ilberto Freyre) o últim o decênio do século xix.
Como explica G ilberto Freyre, a nobreza rural conservaria quase in­
tactos alguns de seus privilégios e principalm ente o elem ento decorativo
de seu brilho até os fins do século xix. Mas esse elemento, como todo
ritual, toda liturgia, sabe-se que tem um a extraordinária capacidade para
prolongar a grandeza ou, pelo menos, a aparência de grandeza de insti­
tuições já feridas de m orte em suas raízes. De m odo que a decadência
do patriarcado rural, que se iniciara a p a rtir da chegada do Príncipe Re­
gente, com a fundação das cidades e os prim eiros inícios de um a burguesia
urbana, com a fundação, em 1827, das Faculdades de Direito, portanto,
de um bacharelism o citadino e livresco, tem a sua fase, por assim dizer,
final de vida por volta de 1850-1875. Inicia-se aí um a era industrial, com
o desenvolvimento enorme da civilização m aterial no Brasil.
Poder-se-ia, assim, dizer que o que há entre 1850 e 1888 é apenas um a
aparência de grandeza e de dom ínio rural, ou seja, um a época de transição
do patriarcado rural p ara a burguesia urbana. 1888 seria, então, o extre­
mo dessa fase, porque daí em diante nem a liturgia, nem o ritual, que dão
a aparência de grandeza às instituições, existem mais, iniciándose, já, a
substituição do trabalho escravo pelo livre.
O utro im portante ponto teórico que se extrai da obra de G ilberto
Freyre é o de que a passagem de um período para outro n ão ocorre sem­
pre igualm ente em todo o território nacional. T razendo da antropologia
o conceito da área cultural e aplicando-o ao caso particular da periodi­
zação, a obra de G ilberto Freyre faz ver que as m udanças em um a área cul­
tu ral não coincidem com as de outras.
A qui mais depressa sucede a transform ação da prim eira para a segun­
da época; ali, em outra área cultural, mais dem orada é a passagem do se­
gundo período para o terceiro. O puro critério histórico tem po fica, por­
tanto, mais ligado ao critério espaço, que não é só físico, mas cultural.
As delimitações de G ilberto Freyre são, assim, baseadas n a sua teoria
antropológica e não apresentam a mesma fixidez dos antigos autores. As
possibilidades de variação nos períodos estão m uito mais próxim as da rea­
lidade do suceder histórico.

143
Segundo Troeltsch, o mais notável pensador histórico é aquele que
m elhor periodiza. No Brasil, C apistrano de A breu e Joaquim Nabuco
souberam desenvolver um a classificação mais em píricam ente exata, vendo
num detalhe, num fato, o espírito de um a época. Ambos levaram longe e
aprofundaram a relação de com portam ento entre a estrutura e a superes-
tru tu ra, possibilitando-nos o trabalho do prim eiro m elhor compreensão
e fixação entre a imensa m ultidão de conexões causais e a divisão dos gru­
pos históricos do suceder brasileiro. Com o iniciador e pioneiro, mestre
e guia, representa C apistrano o que de mais alto produziu a historiografia
brasileira, não só empírica, como filosoficamente.

144
C a p ít u l o 6

Diversos gêneros da historia

é único e indivisível. A periodização


su c e d e r h is tó ric o

O procura, apenas, como vimos, destacar na plenitude dos


sucessos contínuos aquilo que se distingue. Ela não chega, deste modo, a
dividir os sucessos históricos que fluem sem cessar; tenta, Unicamente,
reunir os elementos estruturais e os objetivos espirituais que marcam uma
fase característica.
Q uando o historiador se dedica especialmente a um a determ inada
m atéria histórica, então sim, ele realm ente a divide, deform ando a reali­
dade do sucedido. A devoção exclusiva à recriação da vida económica,
artística ou política significa a m utilação da unidade do sucesso histó­
rico, conjunto complexo de fatos de estrutura e de fenômenos ideais (1).
Deve-se, deste modo, distinguir clara e lógicamente a periodização da
divisão da m atéria histórica. N a prim eira não há divisão; h á apenas dis­
tinção. A vida hum ana é apreendida na m ultilateralidade dos seus aspec­
tos fundam entais. N a segunda h á um a m utilação da unidade, porque o
historiador revela apenas os aspectos da vida que o interessam na sua es­
pecialização. Além disso, a própria continuidade histórica não é perce­
bida totalm ente, mas aparentem ente, sob a base daquele aspecto unilate­
ral, que se elegeu como objeto de narrativa. Assim, a eleição de um as­
pecto da atividade hum ana, como objeto da história, representa não só
um a relativa quebra da continuidade, como um a ru p tu ra da unidade com­
plexa da vida. A especialização não é um erro, mas expõe o historiador
a graves perigos.
Ao lado da especialização por gênero de atividade coexiste a especia­
lização periódica, na qual não m utila o historiador a unidade da atividade
hum ana, embora, de regra, não veja a significação do seu período na tota­
lidade do passado. O processo histórico é infinito, e os períodos, divisões
ou especializações por gêneros rom pem a continuidade nos seus repousos
finitos. O historiador de certos gêneros (econômico, político, social, etc.)
não só m utila a unidade global da vida, como a vida histórica é ferida
na unilateralidade da visão.
O prim eiro especialista salva-se apenas pela graça de ver o homem
todo; o segundo mais se perde que se salva porque apenas um a parte da
(1) Os autores franceses, como L u d e n Febvre ( Combats pour Vhistoire, Paris, A rm and
Colin, 1953, 19) e M are Bloch (Apologie pour Vhistoire, Paris, A rm and Colin 1949, 72 e segs.),
adotam o ponto de vista da unidade histórica.

145
continuidade é poupada. O prim eiro pode conservar intacta sua qualida­
de de verdadeiro historiador se souber m ostrar a significação de sua obra
no conjunto de toda a história; o segundo para salvar-se precisa de um a
força excepcional; precisa relacionar a atividade histórica eleita ao con­
ju n to da realidade histórica, o que é obra dificilm ente realizável.
H á, ainda, um terceiro m odo de especialização histórica. A m atéria
não é selecionada segundo um a atividade hum ana, mas segundo o espaço
em que esta se realiza. Aí se estuda o grupo hum ano em todo seu con­
ju n to de atividades, limitañdo-se o historiador a recriar a vida deste num
espaço delim itado. É a história das cidades, dos Estados, regional, territo­
rial. Sabemos que espaço e tem po estão sempre entrelaçados no conjunto
histórico. N a periodização prepondera o fator tempo; nesta últim a espe­
cialização dom ina o fator espaço: a unidade de vida não está m utilada,
nem a continuidade histórica rom pida. Vê-se o hom em todo, na multi-
lateralidade de suas realizações, como na periodização, e ao contrário do
que ocorre nas histórias especializadas, econômica, política ou religiosa.
Este especialista não corre, assim, todos os perigos que acima apontamos,
mas sua visão é tão estreitam ente reduzida que a vida histórica fica ames-
q uinhada. O remédio, como no caso do especialista de períodos^ consiste
em en quadrar a especialização n a história geral. Q ualquer especialização
pode ser exercida nobrem ente, com efetivos resultados para a compreensão
geral da vida histórica. Não se dim inui seu relevante papel ao apontar
os riscos a que se expõe um historiador que a ela se lim ita.
Finalm ente, um qu arto modo de especialização da m atéria histórica
é a biografia. A qui tam bém o historiador desrespeita a continuidade his­
tórica, porque a suspende intencional e intem pestivam ente, e ofende a
totalidade da vida histórica pelo aspecto personalizador. É por isso que
grandes historiadores, como E duard Meyer, dizem que em bora a biografia
seja, em nosso tempo, tratada por historiadores, ela não é propriam ente
um a atividade histórica. Seu objeto, diz ele, é a personalidade em sua
totalidade e não como fator efetivo da história — o fato de ela o ter sido
é um pressuposto, razão por que se escreve sua biografia. N enhum a bio­
grafia, enq u an to perm anecer puram ente biografia, pode realizar a tarefa
p ró p ria da obra histórica, ou seja, um a compreensão total e criadora de
um curso histórico (2), quer pelas limitações de sua própria tarefa, quer
pelo finito da pessoa descrita.
Mas nos seus métodos, n a sua compreensão e n a narrativa a biografia
é tam bém história, história de um a única vida, com suas crenças, seus sen­
timentos, seus pensamentos, suas decisões, seus erros e virtudes. Q uando o
biografado chefiou homens, dom inou, esteve a serviço do poder ou contra
ele lutou, influiu pela sedução de sua conduta e de suas idéias sobre a
história de sua época, então estamos diante de um fato não só biográfico,
(2) E duard Meyer, “Z ur T heorie und M ethodik der Geschichte” , K leine Schriften zur
Geschíchtstheorie urtd zur wirtschaftlichen und politischen Geschichte des A ltertum s, H alle,
Verlag von Max Niemeyer, 1910, 66. Meyer m ostra q u e essa diferença en tre descrição de um a
vida e a narrativa histórica iá era percebida pelos antigos, que distinguiam perfieitamente a
biografia da história. O tipo ideal de biografia está em Plutarco. A comparação d e sua biografia
com o Anábase ilustra a distinção. Ao lado dessa form a “ peripatética” da biografia, existe
a form a eru d ita “alexandrina” , em que o m aterial é organizado esquem áticam ente, segundo
categorias. É o tipo feito po r Suetônio.

146
mas tam bém histórico cuja descrição ajuda a com preender o curso histó­
rico, dentro, naturalm ente, das condições restritivas da unilateralidade e
do fato de tratar-se de um objeto finito, porque tudo é feito em torno
da pessoa.
A biografia tem como tarefa a personalidade, que é a individualida­
de tornada objetiva, a individualidade própria. T odos os homens são in­
divíduos, mas nem todos pessoas. R eunidos, em massa, têm personalidade
coletiva, potencial (3). Ao personalizar a história, desleixando as rela­
ções totais da estrutura do fato histórico, cuidando apenas daquele hom em
e no máxim o de suas ligações sociais, econômicas e morais, a biografia tor­
na o fato histórico u n ilateral e parcial. Esta é sua fraqueza. Nem por
isso suas realizações deixam de trazer ao saber histórico um a decisiva e
definitiva contribuição, focalizando aspectos de regra descurados. T re ­
velyan observou que a vida de estadistas rivais, soldados e pensadores é,
muitas vezes, o caminho mais rápido para os diversos pontos de vista
que compõem a vida de um a época. Ceteris paribus, é mais provável que
uma simples biografia desencam inhe o estudioso do que um a história do
período; mas diversas biografias são m uitas vezes mais profundam ente
instrutivas do que um a simples história (4).
D eixando de lado o biógrafo, vemos que a tarefa inicial do historiador
especialista consiste fundam entalm ente em distinguir seja as características
ou formas de vida do homem, seja os espaços e tempos em que aquelas
essencialmente se exerceram. T odos naturalm ente procuram n arrar as
atividades hum anas exercidas num espaço e tem po determ inados. Sabemos
que a divisão da m atéria histórica é sempre arb itrária e produz um a forte
ru p tu ra. “A vida histórica form a um a engrenagem e enlace de relações
m últiplas das quais um a invade a outra, engrenagem de tal modo estreita
que os fundam entos da divisão não se podem 'distinguir com clareza” (B).
O especialista dos períodos, levando em conta todos esses fatores,
marca suas fases num tem po determ inado. A condição tempo é então pre­
ponderante. O especialista de m atéria considera essencialmente um a ativi­
dade. Esta a marca de sua obra. O especialista de certos locais ou Estados
atende à delim itação geográfica — espaço — que é a dom inante.
H á ainda a considerar a história intelectual, da qual a história lite­
rária e a história da história seriam ramos.
Os riscos que apontam os em todas as especializações não im pedem
a sua legitim idade e que elas abram novos caminhos de conhecimento. H á
pesquisadores que consagram toda sua vida a um problem a especial e
reduzido, e é evidente que nessa investigação podem descobrir novos as­
pectos e criar um saber autêntico e legítimo. Para êstes seria sempre útil
a possibilidade de um m ergulho livre n a totalidade da vida histórica.
Q uanto mais vasto for o horizonte e quanto mais profundam ente nele se
penetre m elhor será a compreensão.
(3) W ilhelm W indelband, E inleitung in die Philosophie, T übingen, 1923, 338.
(4) George M acaulay Trevelyan, “T h e Muse of H istory” , T h e Recreations of an H istorian,
Londres, 1919, 55-
(5) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 144. T u d o
se liga na vida social, em q u alq u er momento, em qualquer povo; existe entre as instituições
privadas, econômicas, políticas desse povo um a solidariedade estreita. Cf. H auser, L ’enseigne-
m ent des sciences sociales, Paris, 1903, 441-445.

147
Os especialistas das diversas atividades hum anas têm hoje, na carac­
terização teórica de Spranger, as várias formas de vida necessárias para as
diferentes realizações dos vários tipos hum anos. São formas-tipos ideais
e fundam entais as seguintes: o hom em teórico, o económico, o esteta, o
social, o político e o religioso.
O historiador especialista que procura descrever a vida intelectual
tom a como centro de sua pesquisa o hom em teórico, assim como o histo­
riad o r da economia o económico, o historiador da arte, o esteta, o histo­
riad o r da sociedade, o social, e o historiador eclesiástico, o religioso.
De tudo isso se segue que quanto m aior fòr a experiência de um his­
toriador com um determ inado período ou campo, tan to m elhor com preen­
derá ele o passado. O que distingue, em verdade, o grande historiador,
disse Cassirer, é, sem dúvida, a riqueza e variedade, a profundeza e inten­
sidade de sua experiência pessoal (8). O que tem um a am pla experiência
dos fatos econômicos terá mais sucesso como intérprete da vida económica
do que aquele a quem falte toda experiência naquele campo. O que tem
am pla experiência dos fatos m ilitares terá mais éxito nos estudos de his­
toria m ilitar do que aquele cujo treino tenha sido exclusivamente lite­
rário (7).
A compreensão histórica é obra da educação e da cultura, mas pre­
sume, também, como todo dote do espírito, um a certa predisposição p ri­
m á ria ^ ). É essa vocação que possibilita — mais que no especialista da
m atéria, a compreensão de um período, de um século, de um a fase. No
especialista da história econômica, da história política ou religiosa, predo­
m in a a experiência, e no especialista de períodos prevalece aquela ten­
dência. É por isso que C apistrano de A breu e Ernst Cassirer concordaram
em afirm ar, em épocas diferentes e sem conhecim ento um do outro, que
cada século exige certas qualidades especiais em quem o estuda (9).

OS GÊNEROS H ISTÓ R IC O S NA H IS T Ó R IA DO BRASIL


N a historiografia brasileira tem-se praticado os vários gêneros históri­
cos. O Catálogo da Exposição de H istória do Brasil (10) adotou do ponto
de vista da m atéria histórica os seguintes: 1) H istória civil, ou seja, polí­
tica, abrangendo a história geral e provincial; 2) H istória adm inistrativa;
3) H istória eclesiástica; 4) H istória constitucional; 5) H istória diplom ática;
6) H istória m ilitar; 7) H istória natural; 8) H istória literária e das artes;
9) H istória econômica. Esta classificação não é de todo satisfatória, p ar­
ticularm ente porque não inclui todos os gêneros e espécies. É assim, por
exemplo, que não vemos um a história da legislação, já que a constitucional
ou a adm inistrativa não abrangem todos os aspectos da legislação, nem
(6) Ernst Cassirer, Antropologia filosófica, México, Fondo de C ultura Económica, 1945, 341.
(7) Giovanni Salvemini, Historian and Scientist, Cam bridge, H arvard University Press,
1939, 71.
(8) E duard Spranger, Formas de vida, psicología y ética de la personalidad, Buenos Aires,
Rev. de Occidente A rgentina, 1946, 432.
(9) Capistrano de A breu, “ Sobre o Visconde de Porto Seguro” , in Historia geral do Brasil
de Francisco Adolfo de V arnhagen, S. Paulo, C om panhia E ditora Nacional, s. d., 3.a ed., t. 3, 438,
e E rnst Cassirer Antropología filosófica, México, Fondo de C ultura Económica, 1945, 372.
(10) A B N , vol. 9, 1881-1882, 2 vols. e um suplem ento (R io de Janeiro, 1883).

148
julgamos satisfatórios certos títulos que deveriam ser mais amplos. His­
tória literária e das artes não compreende a história das idéias políticas,
econômicas ou sociais e nem sempre contém a história da im prensa e a
história da história.
A título provisório poder-se-ia propor a seguinte classificação (n ):
1) H istória geral, com preendendo a história geral do Brasil, que considera
especialmente os fatos políticos, em bora não despreze totalm ente os adm i­
nistrativos, constitucionais, legais, diplomáticos, m ilitares, econômicos, so­
ciais, religiosos e intelectuais; 2) H istória particular ou local, lim itada à
descrição de um a província, um Estado, um a cidade, de acordo com os
princípios da prim eira; 3) H istória política (adm inistrativa, legal, cons­
titucional, de partidos políticos), que descreveria apenas os aspectos adm i­
nistrativos, legais, constitucionais, desprezando quase totalm ente os outros
fatos. É evidente que se poderia adotar ao invés de história política uma
história adm inistrativa, um a história constitucional, um a história da
legislação. É por m edida de economia de classificação, tendo em vista es­
pecialmente. a pobreza da história inteiram ente dedicada a cada um desses
aspectos que se considera m elhor reuni-los num só item. 4) H istória diplo^
mática; 5) H istória do exército, da m arinha e da aeronáutica; 6) H istória
social e econômica; 7) H istória cultural, intelectual e das idéias, compreen­
dendo a história literária, a científica, a da educação, a artística, a da
música, a da im prensa e opinião pública, a história da história e a história
das idéias econômicas, sociais e políticas; 8) H istória religiosa; 9) H istória
territorial, com preendendo a expansão geográfica e a conquista do terri­
tório; ela abrangeria desde problem as das fronteiras até a formação de
seções, tendo em vista especialmente história geográfica.
Q ualquer que seja a classificação adotada ou a adotar, não se pode
deixar de considerar os gêneros aqui apontados (12) .

1. História geral e história local


A história geral (13) tem como exemplos R obert Southey, Francisco
Adolfo de Varnhagen, H einrich H andelm ann (14). A história local é um a
(11) A divisão ou subdivisão dos gêneros e espécies históricas — uma sobrevivência n a tu ­
ralista do século xix e especialmente da botânica de Lineu, pode atin g ir o infinito, revelando
um a quebra da unidade histórica. Um exem plo ilustra o caso. O Prof. J. M. Rom ein, que
leciona teoria da história na Universidade de Am sterdã, subdivide a história dos seguintes
gêneros: 1. H istória política; 2. H istória institucional; 3. H istória econômica; 4. H istória da
técnica; 5. H istória da geografia; 6. H istória social; 7. H istória da Igreja; 8. H istória do
direito; 9. H istória da guerra; 10. H istória literária; 11. H istórra da arte; 12. H istória da
ciência; 13. H istória da filosofia; 14. H istória do serviço religioso. H istória da cultura.
Cf. A pparaat voor de Studie der Geschiedenis, Groningen, J. B. W olters, 1949.
(12) Este capítulo poderia constituir um a p arte da historiografia brasileira que o autor
está escrevendo. Mas a necessidade de exem plificar os vários gêneros da história o fêz indicar
aqui obras que serão exam inadas naquele trabalho. N ão é necessário declarar que, às vezes,
o que se aponta é pouco e que, m uitas vêzes, chega-se mesmo à omissão.
(13) A história geral desde frei Vicente do Salvador, Rocha P ita, A breu e Lim a, R io
Branco, G alanti, Rocha Pom bo até Pedro Calmon, S. B uarque de H olanda (diretor) e E. Silva
Bueno, afora os estrangeiros e a parte didática (especialmente os mais representativos, José
Pedro X avier Pinheiro, J. M. de Macedo e João R ibeiro) constitui capítulo da nossa história da
historiografia brasileira.
(14) A principal bibliografia encontra-se no CEHB (até 1881) e no M anual de estudos
brasileiros. R obert Southey, History of Brazil, Londres, 1810-19, 3 vols.; tradução portuguesa
de L. J. Oliveira e Castro, anotada por J. C. Fernandes Pinheiro, História do Brasil, R io de

149
F rancisco A dolfo d e V a rn h ag e n ,
q u a n d o na Espanha. O r i g i n a l n o M u s e u N a c i o n a l d e Belas A rtes

150
das mais efetivas contribuições à historiografia e à ciência social. M uito
pouco tem sido escrito no Brasil, apesar de não ser difícil despertar o in­
teresse pelo seu cultivo. Em bora não se possa sustentar que a história
geral ou a estadual sejam a soma das histórias locais, é certo que as gene­
ralizações nunca serão seguras se não se levar em conta os desenvolvimentos
locais. U m a história detalhada do desenvolvimento de um a com unidade re­
presenta a mais legítim a contribuição à história nacional. A história de
um a nação é incom pleta se deixa de trata r dos interésses e atividades dos
homens comuns, e a história local cuida como nenhum a outra dos acon­
tecimentos diários do hom em comum, promovendo, deste modo, um co­
nhecim ento mais seguro e amplo da vida nacional que o historiador tenta
reconstruir.
A história local (15) corre sempre o perigo de ser fragm entária ou di­
fusa. Ela deve recorrer aos arquivos privados, nem sempre integralm ente
preservados, e ao conhecimento pessoal dos velhos habitantes, seja por in­
quéritos, seja por conversas. A tradição oral é um a das mais ricas fontes
cia história local, quase sempre m uito preocupada com detalhes e minúcias.
A história local pode alargar sua especialização da mais ínfim a localidade
à mais im portante província ou Estado. Os arquivos m unicipais e esta­
duais e a im prensa local têm sido m uito pouco explorados como fontes
p ara o estudo da história local, m unicipal, provincial ou estadual. A his­
tória das cidades ou urbana, tão cultivada ultim am ente (10), pode ser
escrita como m era história territorial, como história das origens histórico-
jurídicas (caráter de sua formação), ou dos aspectos políticos, ou, por
últim o, enciclopédicamente.
T a l como no caso da história geral, ela inclui todos os ramos da his­
tória política, eclesiástica, social, econômica e, em certos distritos, naval
e m ilitar. Mas os incidentes locais nem sempre são representativos e po-
Janeiro, G arnier, 1862, 6 vols. — Francisco Adolfo de V arnhagen, H istória geral do Brasil,
l .a ed., M adri, 1854-1857, 2 vols.; 2.a ed., R io de Janeiro, Laem m ert, 1877, 2 vols.; 3.a ed.,
integral, anotada por C apistrano de Abreu e Rodolfo Garcia, São Paulo, C .,a Melhoramentos,
s. d., 5 vols. — H einrich H andelm ann, Geschichte von Brasilien, Berlim , Julius Springer, 1860;
tradução brasileira publicada na R IH G B , t. 108, vol. 162, 1931, 1 vol., História do Brasil, tra­
dução de Lúcia F urquim Lahmeyer, rev. do gen. Bertoldo Klinger.
(15) T . J. Weaver, T h e M aterial on English History, Londres, T hom as Nelson and Sons
Ltd., 1938, 151. O mais prático e valioso guia para o estudo da história local (e nós no
Brasil, tanto precisamos de um) é o de Donald Dean P arker, Local History. H ow to Gather it,
W rite it and Publish it, Social Science Research Council, 1944. Em Portugal, a monografia de
P. M. L aranjo Coelho, A s monografias locais na literatura histórica portuguesa (Lisboa, Aca­
demia das Ciências, 1935), apresenta a evolução do gênero em geral e os estudos portugueses. ‘
Vide tam bém M anuel Silva, “Esquema de história local” , R evista de história (P ortugal), 7,
1913, 182-183. Diz que em Portugal não existem ainda estudos de m etodologia de história local
e sugere para os mesmos o seguinte esquema:
f geologia — terreno.
. antropologia — povos, tipos.
n, s tj arqueologia — vestígios, prim eiros itens.
° etnologia — usos, costumes, legislação.
I filologia — filologia, vocábulos, etc.
literatura — lendas, tradições, memórias, crônicas,

{ diplom ática — documentos, registro de arquivos públicos


e particulares
aite — m onumentos.
(16) Ao lado dos ensaios histórico-sentim entais sobre várias cidades brasileiras, têm apare­
cido ultim am ente m uitos estudos históricos sobre as velhas e novas cidades.

151
dem ter pouca relação uns com os outros. É por isso que W eaver (17)
aconselha o historiador local a aceitar francam ente as limitações impostas
pela natureza do assunto e não tentar produzir um quadro cujos claros
sejam com pletados com m aterial hipotético. N unca se deve pensar que
o êxito na pesquisa da história local seja menos árduo e prolongado e
necessite de m enor devoção do que em qualquer outro ram o de inquérito
histórico.
À história provincial ou estadual tem como seus melhores e mais au­
tênticos representantes José Feliciano Fernandes Pinheiro, João Francisco
Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, o Barão de Studart e Oliveira Lim a
(18). A m oderna historiografia estadual encontra no In stitu to do Ceará (19)
e no C entro de Estudos Baianos (20) os dois mais influentes e mais ativos
focos de pesquisa e publicação. N aturalm ente, no Paraná(21), no Rio
G rande do N orte (22) e no R io G rande do Sul (2S), em Pernam buco (24),
em São Paulo(24a) e em Minas Gerais(25) adiantam-se por influências pes­

(17) T. J. W eaver, T h e M aterial on English H istory, Londres, 1938, 165.


(18) A principal bibliografia até 1881 se encontra no CEHB. Vide tam bém José Feliciano
Fernandes Pinheiro, Anais da província de São Pedro, R io de Janeiro, 1819 (1.° tomo), Lisboa
(2.° tomo); 2.a ed., Paris, 1830; 3a ed., R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1946. — João F ran­
cisco Lisboa, "Apontam entos e observações para servir à história do M aranhão” , Obras completas,
São Luís, 1864-1865, e Lisboa, 1901, 2 vols. — j . F. dos Santos, M emórias do D istrito D iamantino
( l . a ed., 1868; 3.a ed., 1956.) — A bibliografia do Barão de Studart é enorm e; espalha-se em
suas várias monografias e na Revista do Instituto do Ceará. — Oliveira Lim a, Pernambuco e
seu desenvolvimento histórico, Leipzig, F. A. Brockhaus, 1895.
(19) Desde 1938 o Instituto do Ceará decidiu publicar um a exaustiva história do Ceará.
O plano vem sendo realizado aos poucos, tendo sido publicadas até agora as seguintes m ono­
grafias: n.° 3. T h . Pom peu Sobrinho, Pré-história cearense, 1953; n.° 4. T h . Pompeu Sobrinho,
Proto-história cearense, 1946; n.° 12. R aim undo Girão, História econômica do Ceará, 1947;
n.° 15. Euzébio de Sousa, História m ilitar do Ceará, 1950; n.° 18. l.° tomo e 2.° tomo, l.a
parte, e 3.° tomo, Dolor B arreira, História da literatura cearense, 1948-1954; n.° 23. Joaquim
Alves, História das secas (séculos X V I I a X IX ), 1953. Fora do plano editou R aim undo Girão
a Pequena história do Ceará, 1953.
(20) O Centro de Estudos Baianos não se dedica exclusivamente à história baiana, mas
já publicou mais de 32 m onografias de alta categoria pelo rigor e m étodo da pesquisa e pela
novidade do conhecim ento. M uitas se dedicam a m atéria baiana.
(21) A obra de Rom ário M artins (História do Paraná, 2.a ed., São Paulo, 1939; 3.a ed.,
ed. G uaira, s. d., Terra e gente do Paraná, C uritiba, 1944) representa um esfòrço de com­
pilação e um valioso conjunto de informações. A obra mais séria e mais valiosa pelo método
antropológico que segue, pela riqueza da interpretação e pelo caráter social é a de Wilson
M artins, Um Brasil diferente. Ensaio sobre os fenôm enos de aculturação no Paraná, São
Paulo, 1955.
(22) Vide L uís Câm ara Cascudo, H istória do R io Grande do N orte, M inistério da E d u ­
cação e C ultura, 1955. T rata-se de obra de extraordinária riqueza inform ativa e interpretativa.
(23) A bibliografia histórica do Rio G rande do Sul é extrem am ente rica. Cf. João F ran­
cisco Ferreira, “Elementos para um a bibliografia sobre o Rio Grande do Sul”, in Fundamentos
da cultura rio-gr ándense, Faculdade de Filosofia do R. G. S., 1954. Esse volume representa
um a das melhores iniciativas universitárias no sentido de criar e estim ular a investigação his­
tórica local. Vide tam bém E. F. de Souza Docca, História do R io Grande do Sulr Organização
Simões, 1954; e A rtu r Ferreira Filho, História geral do R io Grande do Sul, 1503-1957, Pôrto
Alegre, 1958. A revista Província de São Pedro (21 vols., 1957), as editoras Globo e Selbach
de P òrto Alegre editaram valiosos trabalhos regionais.
(24) O I I I Centenário da R estauração de Pernam buco estim ulou um grande movimento
de estudos regionalistas e estaduais. A comemoração da revolta de 1848 e a ação do Arquivo
Público E stadual desem penharam papéis análogos.
(24a) A comemoração do IV C entenário da Fundação de São Paulo concorreu para im pul­
sionar inum eráveis e valiosas investigações históricas e promover a publicação de estudos.
Bom exemplo de história local é o de Alberto Lamego, A terra goitacá, R io de Janeiro,
1913-1945, 7 vols.
(25) Primeiro Seminário de Estudos M ineiros (1957), e Segundo Seminário de Estudos
M ineiros, s. d.

152
soais ou universitárias os estudos de história local. Um dos fatores de
convergência e estím ulo seria a criação da cadeira de H istória de cada
Estado nas faculdades de filosofia(25a).

2. H istória política

A história das instituições políticas, em qualquer de seus aspectos po­


lítico-administrativos, legais e constitucionais, está intim am ente ligada à
política e ao direito. O conhecimento da organização do Estado e da or­
ganização jurídica convertem-se em problemas decisivos e adquirem uma
significação extrem am ente im portante. Até m uito recentem ente, a his­
tória quase se lim itava ao estudo do Estado e de seu desenvolvimento, con­
siderado, a p artir de Hegel, como acima da própria economia. Os adeptos
da história exclusivamente política diziam, com toda razão, que os historia­
dores se haviam preocupado sempre quase que só com o Estado, porque
este era o terreno especial da história. As ligações exteriores dos aconteci­
mentos só deveriam ser fundam entadas pelos historiadores q uando tives­
sem por ponto de partida as idéias dom inantes e as influências espiri­
tuais na sociedade estatal (2e). É, portanto, o efeito do poder sobre o
homem e sobre o Estado, e do homem poderoso, que estuda com especial
interesse a história política (27).
Relações tão íntim as aproxim am a política, ou seja, a teoria do Estado,
como ciência, da história política, com a qual m uitos a têm confundido.
E nquanto a prim eira exam ina o desenvolvimento, as condições e necessi­
dades da existência do Estado e da vida política, a fim de conhecer, pela
comparação, os tipos gerais das diversas formas de Estado e os fatores de
sua m anutenção, e assim caracterizar as modificações no progresso das
várias formas, a história limita-se ao conhecimento da evolução em si mss-
ma, sem preocupação por qualquer tipo geral. N aturalm ente, na com­
preensão do Estado, o historiador necessita do conhecimento de outros
tipos de Estado, podendo-se dizer que a política é um a auxiliar im por­
tante da história e esta da política, pois tem seu substrato concreto nos
acontecimentos reais da história (28).
N o Brasil, a história política foi tam bém dom inante até os princípios
deste século. Pode-se dizer, mesmo, que antes da história política, da o r­
ganização política do Estado e das instituições políticas brasileiras tive-
(25a) A disciplina já está criada em curso de H istória de algum as faculdades de filo­
sofia dos Estados.
(26) P aul B arth, Die Philosophie der Geschichte ais Soziologie, Leipzig, O. R. Reisland, 1897,
262-264, capítulo sóbre “A compreensão política da história".
(27) Sobre o homem político, visto psicologicamente, vide E duard Spranger, Formas de
lid a , psicología y ética de la personalidad, Buenos Aires, Revista de Occidente, 1946, 231.
A mais antiga historiografia até a positivista identificou a história com história política e
ignorou a história da arte, da religião, da ciência e da filosofia. Como o conhecimento é
um instrum ento de predom ínio, que tão facilmente se revela na regra “voir pour savoir, savoir
pour prévoir, prévoir pour régler” , então a história verdadeiram ente pragm ática é a política.
Esta deve constituir a substância da história.
(28) E rnst Bernheim, L ehrbuch der historischen M ethode und der Geschichtsphilosophie,
Leipzig, 1908, 92.

153
mos biografia das personagens políticas ou historia doméstica dos heróis.
Se alguns e m uito poucos, como Nabuco (29), conseguiram, em torno de
urna figura política, relatar as grandes instituições políticas da época do
seu biografado, e se outros, como José M aria dos Santos, na sua Política
geral do Brasil, conseguiram estudar a influência das idéias na historia
política do Brasil, a verdade é que até hoje, por exemplo, não possuímos
um a história dos partidos políticos, sem a qual pouco se pode compreen­
der de nossas atividades políticas passadas (30).
N ada se fez para estudar certos aspectos mais modernos da vida po­
lítica, como os grupos de pressão, tão atuantes na época do tráfico e na fase
da escravidão, numerosos, bem organizados e fortes, na vida brasileira
deste século. N ada se fez ainda para estudar os conformismos e inconfor­
mismos na vida brasileira, especialmente o prim eiro, que tanto marcou
nossa evolução política feita de compromissos e acordos desde a Indepen­
dência. T e n ta r com preender os com portamentos históricos das elites e
das classes populares diante das grandes horas históricas m uito ajudaria
a verdadeira interpretação de nossa história, onde m uitos agem como os
heróis das historietas em quadrinhos. Pouco se tem feito para estudar
tam bém o papel dos m ilitares n a vida política brasileira, fator dom inante,
ou dos bastidores. O estudo do coronelismo, devido a Victor Nunes Leal,
constituiu um a das melhores análises objetivas da vida política brasileira.
A história política pode-se dividir em história adm inistrativa e his­
tória jurídica, da qual a constitucional é parte. A prim eira trata dos m i­
nistérios, dos conselhos de Estado, da adm inistração provincial, das câma­
ras municipais, das repartições públicas e autárquicas e seu funcionam ento
e baseia-se especialmente em relatórios, orçamentos, exposições, legisla­
ção e inquérito (31).

(29) Vide a seguir a p arte Biografia, onde se aponta a relação entre a biografia e a
história política.
(30) O pouco que possuímos sobre a história dos partidos políticos resume-se em José
de Alencar, Página da atualidade. Os partidos, R io de Janeiro, T ip . Q uirino, 1866; Américo
Brasiliense, Os programas dos partidos e o 2.° Im pério, São Paulo, T ip , de Jorge Seckler,
1878; José A rtu r Boiteux, “ Os partidos políticos de Santa C atarina (1821-1871)” , A nais do 1.°
Congresso de H istória Nacional, vol. 1, 901-950, t. especial da R IH G B ; Afonso Celso, “O
poder pessoal do im perador; Inversão das situações políticas; Os program as dos partidos; Agi­
tação dem ocrática”, A nais do 1.° Congresso de H istória Nacional, vol. 4, 375-414; padre João
M anuel [de Carvalho!, R eminiscências sobre vultos e fatos do Im pério e da R epública, Amparo,
1894; Afonso A rinos de Melo Franco, H istória e teoria do partido politico no direito constitu­
cional brasileiro, R io de Janeiro, 1948; George C. A. Boehrer, Da M onarquia à República.
H istória do partido republicano do Brasil (1870-1889), R io de Janeiro, M inistério da Educação
e C u ltu ra (1954). Vide tam bém Um estadista do Im pério, de Joaquim N abuco, onde se e n ­
contram numerosos estudos sobre os vários partidos políticos do Im pério, e R ui Barbosa,
O partido republicano conservador, in Obras completas xxiv, 1897, t. 1, Rio de Janeiro, 1952.
(31) Essa história tem seu m odelo inexcedível na obra de H enrique da Gama Barros,
H istória da administração em P ortugal nos sécs. x n a xv, Lisboa, Livr. Sá da Costa, 1945-54;
11 vols., 2.a ed. dirigida po r T o rq u ato de Souza Soares. É preciso não esquecer q u e o
prim eiro grande trabalho sobre adm inistração colonial é de José João T eixeira Coelho, “ Ins­
trução p ara o governo da capitania de M inas Gerais” (1780), R IH G B , xv, 1852, 257. T rês
obras recentes da mais alta significação para a história adm inistrativa e econômica são: Da-
m ião Peres, R egim ento das Casas das Indias e M ina, Coim bra, 1947; Francisco M endes da Luz,
“ R egim ento da Casa da ín d ia ” , A nais 1951, vi, t. 2, M inistério das Colônias, Ju n ta de
Investigações Coloniais, Lisboa, 1951; Exposição histórica do M inistério das Finanças, Notícia
H istórica dos Serviços, Catálogo, Bibliografia, Lisboa, 5 de julho, 1952. Um grande exemplo
m unicipal é o de Afonso R uy, História política e adm inistrativa da cidade de Salvador, Salva­
dor, Bahia, 1949.

154
BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA ADMINISTRATIVA

P ara os trab alh o s m ais antigos, vide C E H B , 695-749. O m elh o r trab a lh o brasileiro
é o de R odolfo G arcia, Ensaio sobre a história política e adm inistrativa do Brasil
(1500-1810), R io de Jan eiro , José O lym pio. 1956. Devem ser tam bém consultados:
T avares de L yra, “O rganização política e a d m in istrativ a do B rasil”, A nais do 3.° Con­
gresso de H istória N acional, t. esp. d a R IH G B , vol. 2, 1941, 45-224, e d ita d a em volum e
na B rasiliana, vol. 202 (C om panhia E d ito ra N acional, 1941); M ax Fleiuss, H istória
a dm inistrativa do Brasil, São Paulo, C .1* M elhoram entos (1925); D iogo de Vasconcelos,
■'Linhas gerais da adm inistração colonial. Com o se exercia. O vice-rei, os capitães-m ores
de vilas e cidades”, A nais do 1.° Congresso de H istória N acional, vol. 3, 281-298, tom o
esp. da R IH G B . E studos fu n d a m e n ta is sobre a adm inistração n o Im pério, em bora não
sejam história ad m in istrativ a, m as sim fontes p a ra a h istó ria ad m in istrativ a, são os de
P a u lin o José Soares de Souza, Visconde d o U ru g u ai, E nsaio sobre o direito adm inistra­
tivo, R io de Jan eiro , T ip o g ra fia N acional, 1862, 2 vols.; d o m esm o a u to r, E studos p rá ­
ticos sobre a adm inistração das províncias do Brasil, R io de Ja n e iro , T ip o g ra fia N acio­
nal, 1865, 2 vols.; A. C. T avares Bastos, Cartas do solitário, l.a ed., 1862, 2.a ed., 1863,
3.a ed., S. P aulo, C.ia E d ito ra N acional, 1938; d o m esm o au to r, A Provincia. E studo
sobre a descentralização do Brasil, R io de Jan eiro , T ip . B. L. G arn ier, 1870; J. G u i­
lh erm e de A ragão, L a jurisdiction a d m inistrative au Brésil, R io de Ja n e iro , d a s p , 1955.

3. H istória constitucional

A história constitucional estuda o regime eleitoral, eleições, assem­


bléias legislativas, gerais e provinciais, as constituições e a legislação pro­
vincial. Baseia-se em discursos, atas, anais, falas, pareceres, relatórios, cons­
tituições, formulários, instruções, folhetos, etc.

BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA CONSTITUCIONAL

Sobre a histó ria constitucional consulte-se o CE H B , 813-875. As obras m ris im p o r­


tantes p a ra o estudo da C onstituição do Im p ério são as de José A ntônio P im en ta Bueno,
D ireito púb lico brasileiro, R io de Janeiro, V illeneuve, 1857; e Jo a q u im R odrigues de
Sousa. A nálise e com entário da C onstituição política do Im p é rio do Brasil, ou teoria
e prática do governo constitucional brasileiro, S. L uís do M aranhão, T ip . de B. de
M attos, 1867-70, 2 vols. P a ra a C onstituição re p u b lica n a de 1891, João B arbalho
U ehoa, C avalcanti, Constituição Federal brasileira, T ip . da C om panhia L ito-T ipográfica,
1902; e A urelino Leal, Teoria e prática da Constituição Federal, T o u rs, B riguiet. 1925,
1.° vol. (arts. 1-40). Para. a C onstituição de 1934: A raú jo Castro, A nova Constituição
Brasileira, 2.a ed., R io de Janeiro, F reitas Bastos, 1936; Pontes de M iranda, Com entário
à Constituição da R ep ú b lica dos E stados U nidos do Brasil, R io de Jan eiro , E ditora
G uanabara, s. d., 2 tomos. P a ra a C onstituição de 1946, Fontes de M iranda, Com entários
à C onstituição de 1946, São Paulo, M ax L im onad, 1953, 5 vols.; Carlos M axim iliano,
C om entários à C onstituição brasileira, R io de Ja n e iro , Freitas Bastos, 1954. 3 vols.;
Tem ístocles B randão Cavalcanti, A C onstituição F ederal com entada, R io de Janeiro,
K onfino, 1948-49, 4 vols. Cf. tam bém C onstituições do B rasil (1824-1946), R io de Janeiro,
Im prensa N acional, 1948.
Com o trab alh o s de h istó ria geral constitucional, consultem -se: A genor de R oure,
Formação constitucional do Brasil, R io de Jan eiro , T ip . do Jo rn a l do Com ércio, 1914;
A urelino L eal, H istória constitucional do B rasil, R io de J a n e iro , Im prensa N acional,
1915; Felisbelo Freire, H istória da Constituição da R ep ú b lica dos Estados U nidos do

155
B ra sil, R io de Ja n e iro , T ip o g ra fia A ldina, 1894-1895, 3 vols.; do m esm o a u to r, A s
C o n stitu iç õ e s d o s E sta d o s e a C o n stitu iç ã o F ed era l, R io de Ja n e iro , Im p ren sa N acional,
1898; A n a is d o 1.° C ongresso d e H isto r ia N a c io n a l, vol. 3, onde se encontram num erosos
estudos; Percy Alvim M artin, “O federalism o no Brasil", H A H R , 18, m aio, 1938,
143-163; V ictor N unes Leal. O m u n ic ip io e o re g im e r e p re s e n ta tiv o n o B ra sil. C o n ­
trib u iç ã o ao e s tu d o do " c o ro n e lis m o " , R io de Ja n e iro , 1948, tam bém pub licad o sob o
títu lo C o ro n e lism o , e n x a d a e v o to ; E d m u n d o Z enha, O m u n ic ip io n o B ra sil (1532-
1700), São P aulo, Ipê, 1948.
Sobre os três Podêres, vide A níbal Freire d a Fonseca, D o p o d e r e x e c u tiv o na R e ­
p ú b lic a brasileira, R io de Ja n e iro , 1916; João M angabeira, O p o d e r leg isla tivo , R io
de Janeiro, F undação G etúlio Vargas, 1956; e L éda Boechat R odrigues, H isto r ia do
S u p r e m o T r ib u n a l F ed era l (1898-1910), R io de Ja n e iro , E d ito ra Civilização Brasileira,
1965-1968, 2 vols.

4. H istoria do direito

N ão é possível trata r da história do direito sem pôr em relevo as ín ­


timas relações que unem estas duas disciplinas: direito e política. Ñas par­
tes relativas à certeza histórica e às fontes novos aspectos serão revistos, mas
aqui é preciso dizer que a historia não pode ignorar o direito, que tem
n a lei a expressão da m aneira de ser de um a sociedade em dado momento.
P ara Troeltsch, M ax W eber só se tornou um filósofo da historia porque
soube estudar com profundeza as instituições jurídicas (32). Do mesmo
modo, quem quiser conhecer profundam ente o direito terá de buscar o
socorro da historia, que explica m uitas das instituições jurídicas.
E studando os aspectos jurídicos em que não pode haver progresso sem
história, B enjam in Cardozo aponta como o exemplo mais característico
no sistema da common law o direito relativo à propriedade imóvel, afir­
m ando que nenhum legislador, m editando um código de leis, concebeu
o direito feudal de propriedade. A história construiu o sistema e o direito
que o acom panhou (33). As sesmarias (34), os laudémios, a enfiteuse, os
corpos de mão-morta, os m orgados(35) são instituições jurídicas que não
podem ser com preendidas senão à luz da história. Clóvis Bevilaqua lem­
bra alguns casos em que o costume forçou a adoção de norm as legais regu­
ladoras, em face da realidade já existente (36).
(32) E rnst Troeltsch, Der Historismus und seine Probleme, T übingen, M ohr, 1922, 565.
(33) Benjam in N. Cardozo, A natureza do processo e a evolução do direito, tradução
de Lêda Boechat Rodrigues, S. Paulo, C .la E ditora N acional, 1943, 39; 2.a ed., com notícia bio-
bibliográfica. 1956. No direito anglo-am ericano, essa questão é excelentemente exposta por Cardozo,
especialmente no capítulo ‘‘Métodos da história. T radição e sociologia” (ob. cit., especialmente
37-42) e por Oliver W endell Holmes, em seu estudo “T h e p ath of Law” , Collected Legal Papers,
Nova York, H arcourt and Brace, 1920, 167 e segs.
(34) José H onório Rodrigues, “H istória das concessões de terras no Brasil” , Digesto
Econômico, n.° 28, março de 1947, 44-48; R ui Cirne Lim a, Pequena história territorial do Brasil.
Sesmarias e terras devolutas, Põrto Alegre, Edição Sulina, 1954; W aldem ar Matos, Contribuição
ao estudo da sesmaria no Brasil, Publicação n.° 18 do Centro de Estudos Baianos, Salvador,
1955.
(35) Cid T eixeira, Contribuição ao estudo dos morgados em Portugal e no Brasil, P u b li­
cação n.° 19 do Centro de Estudos Baianos, Salvador, Bahia, 1953.
(36) Clóvis Bevilaqua, Teoria geral do direito civil, 2.a ed., R io de Janeiro, Livr. Alves,
1929, 34-35.

156
O que nos im porta aqui, essencialmente, porém, não é o auxílio que
a historia possa prestar à interpretação de instituições jurídicas. Interes-
sa-nos m uito mais m ostrar que o historiador, para conhecer a vida da so­
ciedade, necessita saber as leis e normas que disciplinavam a vida social
dos povos a estudar. A regulam entação das relações entre a vida social
e a organização exterior da sociedade, entre os homens e as coisas é m an­
tida pelo direito. Assim o conhecim ento dessas relações jurídicas torna-se
um a das diretrizes fundam entais do saber histórico.
Já M artius cham ara atenção para a necessidade de o historiador estu­
dar a história da legislação e do estado social da nação portuguesa, para
m elhor compreensão das instituições m unicipais portuguesas transplanta­
das para o Brasil e quais as causas que concorreram para o seu aperfei­
çoamento neste p a ís(37). Seria tarefa de s u n o interesse para o historia­
dor da nossa legislação reconhecer até que ionto, por exemplo, a legis­
lação portuguesa ficou mais isenta da influência do direito rom ano, que
os reis espanhóis haviam propagado em Portugal.
O historiador precisa ter não só noções gerais de direto público e
privado como conhecer as fontes onde encontrar a legislação pertinente
aos períodos ou épocas estudados. As fontes de direito escrito anteriores à
Independência do Brasil são não só as leis em espécie, como alvarás, car­
tas régias, decretos, resoluções, e as consultas e assentos da Casa da Su-
plicação.
Quais são as leis gerais do R eino que vigoraram n o Brasil e discipli­
naram a nossa vida social ? Q uando o Brasil foi descoberto, até o ano de
1514, dom inaram as Ordenações Afonsinas, que eram o mais antigo códi­
go português e haviam sido publicadas em 1446. Como o período de sua
vigência é demasiado curto, o nosso interesse dim inui m uito. Foram se­
guidas pelas Ordenações M anuelinas, publicadas em 1514, em endadas e
concluídas na impressão em 1521. Foram decretadas por D. M anuel. A
divisão da obra, o sistema e o espírito geral da legislação são os mesmos.
U nicam ente foram inseridas as novas providências e alterações que no in­
tervalo entre um a e outra compilações haviam sido publicadas.
O prim eiro livro das Ordenações M anuelinas, que trata da organiza­
ção da justiça, tribunais, magistrados e de seus respectivos auxiliares, foi
o que sofreu mais notáveis alterações. No segundo livro, em que se trata
do direito dos soberanos e dos privilégios da Igreja e da nobreza, foram
om itidas todas as regras referentes aos mouros e judeus, que anteriorm ente
haviam sido obrigados a converter-se ou a expatriar-se. Os direitos rom ano
e canônico continuavam a ser subsidiários, nos mesmos termos em que o
eram antes, nas Ordenações Afonsinas. O terceiro livro era referente ao
processo civil (idêntico ao penal), o quarto ao direito privado (civil e
comercial) e o quinto ao direito penal. A vigência das Ordenações M anue­
linas vai de 1521 até 1603, quando é feita a reform a e entra em vigor o
novo Código Filipino, decretado por Filipe ii , durante o dom ínio espa­
nhol de Portugal.

(37) Karl Friedrich P hilip von M artius, “Como escrever a história do Brasil", R IH G B ,
1844, vol. 6, 400.

157
A reform a das Ordenações m andada fazer por D. Filipe i logo nos
principios do seu reinado, com o fim de evitar a confusão das leis e obter
a estim a dos portugueses, e mais tarde publicada p o r seu filho D. Filipe
i i , em 1603, foi a que mais longam ente nos regeu, pois que seu dom inio
persistiu desde essa data até 1823, e depois disso, parcialm ente, dim inuin­
do, gradativam ente, até 1917, quando começou a vigorar o Código Civil
Brasileiro e cessou de todo a vigência da legislação portuguesa no
Brasil (38).
As Ordenações Filipinas seguiam o mesmo m étodo das Ordenações
M anuelinas, tendo-se apenas inserido nelas as leis posteriores, sobretudo
as que se continham n a Coleção de D uarte Nunes de Leão. O livro p ri­
meiro ficou como estava, sofrendo poucas alterações. Nos outros livros
se encontram algumas alterações, mas não são tais que influíssem no sis­
tem a ou mudassem a natureza da legislação anterior. De 1603 a 1823,
isto é, pelo espaço de 220 anos, vigoraram essas Ordenações, com as m odifi­
cações introduzidas pela própria legislação portuguésa.
As chamadas leis extravagantes são o utra fonte do direito. Elas se
compõem de toda a legislação posterior às Ordenações e constam, em p ri­
meiro lugar, das leis propriam ente ditas, cartas de leis ou cartas patentes,
nas quais se expediam as providências que deviam ter efeito perm anente,
de mais de um ano.
Pela lei de 20 de outubro de 1823, prom ulgada pela Assembléia Cons­
titu in te Legislativa, mandaram-se vigorar no novo Im pério as Ordenações,
leis, regimentos, alvarás, decretos e resoluções sancionados pelo rei de
Portugal e pelos quais se governara o país até o dia 25 de abril de 1821,
quan d o se deu a partida de D. João vi para Portugal. Esta lei assegurou
aqui à antiga legislação portuguesa e ao Código Filipino um a vitalidade
mais prolongada. A p artir daí, as modificações são as introduzidas pela
legislação brasileira.
É necessário lem brar tam bém que a aplicação dessa legislação portu-
guêsa sofreu, no Brasil, restrições motivadas pelas condições sociais, cul­
turais, econômicas e geográficas. A própria obrigatoriedade do direito ha­
via de sofrer, aqui, enormes dificuldades. Somos levados, assim, a adm i­
tir diferentes graus possíveis de obrigatoriedade das norm as jurídicas por­
tuguesas aplicadas ao Brasil. “Esta terra não se deve nem pode regular,
pelas leis e estilos do Reino; se vossa alteza não for m uito fácil em per­
doar não terá gente no Brasil”, escrevia M em de Sá em 31 de m arço de
1560 (3£>).
Teremos, neste ponto, um a das melhores justificativas para a expli­
cação histórico-sociológica da obrigatoriedade do direito. Clóvis Bevila-
q ua acha que o elem ento negro predispôs o brasileiro para um certo modo
de conceber e executar o direito. As nossas instituições jurídicas sofreram
a influência indireta do elem ento negro. N ão acreditava Clóvis que a
nossa benignidade jurídica fosse exclusivamente latin a ou um a simples

(38) Sõbre as razões da reform a, vide Cândido Mendes de Almeida, D ireito civil ecle­
siástico brasileiro, R io de Janeiro, G am ier, 1866, 1.° vol., c c x x i i e segs.
(39) Mem de Sá, “ Carta a el-rei de 31 de março de 1560", ABN, vol. 27, 1906, 228.

158
superfetação literária. Não se encontraria entre nós nenhum instituto
em que a ação do negro se manifestasse de m odo apreciável, mas a in­
fluência negra apareceria na nossa legislação para determ inar o regime
de exceção, visto que o negro entra na formação do povo brasileiro como
escravo, isto é, sem personalidade e sem capacidade jurídica. N ão sendo
considerado cidadão para os efeitos da vida social, política e pública, não
gozando de direitos políticos e não podendo exercer cargos públicos, as
antigas leis portuguesas perm itiam , em relação a ele, os açoites, as tortu­
ras, as m utilações e penas* cruéis. Foi somente com a Constituição do
Im pério de 1824 que se aboliram as torturas, marcas de ferro quente e
penas cruéis, em bora permanecessem no Código C rim inal os açoites (40).
É difícil tam bém falar-se de uma influência indígena no direito b ra­
sileiro. Dizer-se que certa suavidade brasileira na punição do crime de
furto talvez reflita particular contemporização do europeu com o am eríndio
quase insensível à noção dêsse crime, em virtude do regime com unista de
sua vida e economia, como escreveu G ilberto Freyre, baseado n a afirm a­
ção de Clóvis Bevilaqua da quase n u la repressão do furto, não nos parece
exato. A propriedade entre os indígenas é comum, só existindo, em regra,
a propriedade pessoal dos objetos de uso, mas por isso mesmo é que a
grande m aioria dos autores reconhece que o furto é punido com m uito
m aior severidade entre os povos prim itivos do que os crimes contra a vida.
Por isso tam bém é que se diz, com acerto, que reinava no sertão m uito
m aior respeito pela propriedade do que pela vida hum ana. L adrão era
e ainda é hoje o mais afrontoso dos epítetos.
A vida hum ana não inspirava o mesmo acatamento. Se não se pu n ia o
crime e se o furto de gado era de enorm e extensão, por exemplo, é por­
que não só inexistiam os meios m ateriais de punição do crime, faltando
até cadeias, como pela insuficiência do aparelham ento de repressão, difi­
culdades de transporte, pequena densidade da população, etc. A punição
do crime de m orte é tam bém dificultada por todos esses fatores, mas a
verdade é que se dava m uito m enor im portância ao hom icídio do que ao
furto. Aquele era m uito mais adm itido e facilitado.
As lutas entre famílias no sertão, verdadeiras vinditas, favoreceram a
expansão e admissão do assassinato. No Ceará, por exemplo, o Desembar­
gador J. A. Rodrigues de Carvalho (41) capitulava entre as razões de seu
definham ento a freqüência dos crimes de morte, que perdiam logo dois
homens, o m orto e o agressor, que ordinariam ente escapava, e lembrava
a indiferença com que os habitantes consideravam tais crimes.
Havia, além disso, um a generalizada im punidade e fraqueza, de tal
m odo que José M artiniano de Alencar, ao assumir o govêrno do Ceará,
considerou como um a de suas principais tarefas o combate aos facinorosos
que o infestavam (42). O mesmo sucedeu com João M aria da Silva B itten­
(40) Perdigão Malheiro, em A escravidão no Brasil (Rio de Janeiro, 1867, 3 vols.), estuda
magníficamente a posição do negro escravo perante as leis positivas. Na 2.a parte do 2.° vol.
trata da escravidão dos índios, extinção, catequese e civilização.
(41) J. A. Rodrigues de Carvalho, “Descrição geográfica abreviada da Caq>itania do
Ceará”, RIC, t. 12, 1898, 13.
(42) Paulino Nogueira Borges da Fonseca, “Presidentes do Ceará, 7.° Presidente, José Mar­
tiniano de Alencat", RIC, t. 13, 1899, 47-106.

159
co u rt(43), tam bém preocupado em p u n ir o crime e defender a segurança
individual. “O puxar da faca é o modo usual de liquidar desavenças nessa
terra sem lei”, escreveu o viajante George G ardner. E era tão difícil apli­
car a lei que José M artiniano de Alencar escrevia que o interior do Brasil
ainda não estava bem preparado para as instalações que garantissem o
Código de Processo C rim inal de 1832.
Seria influência indígena esse modo de liquidar desavenças fam ilia­
res ? É certam ente difícil responder-se, mas no estudo sobre o direito
entre os povos indígenas, realizado por Max Schmidt, o mais exaustivo
que até hoje se féz em relação aos índios brasileiros, vê-se que entre estes
o ofendido e seus parentes procuravam, eles próprios, obter a satisfação
das ofensas.
É certo que o próprio Código F ilipino (V, 36, § 1) autorizava o pai
a castigar e prender seus familiares. Essa lei coercitiva da família p o rtu ­
guesa, a que os colonos prim itivos deram extensão, foi transform ada no
direito lato das sociedades prim ordiais em relação ao pater familias. Os
filhos, genros, noras, netos, escravos, todos reconheciam a autoridade desse
chefe, isto é, o poder parental, que não obstante as leis existiu de fato no
Brasil. A permissão de castigar não significava a legalização do homicídio,
nem tampouco o direito de se substituir à autoridade, solvendo obrigações
civis, etc.
Da enorme extensão que teve o pater familias no Brasil colonial nas­
ceram as lutas intestinas com que se celebrizou o interior da terra brasí-
lica; as contendas dos Militões e Guerreiros no sertão da Bahia e dos
Melos e Mourões no Ceará ainda hoje são lembradas. Verdadeiros barões
feudais, os fazendeiros opulentos não prestavam obediência à autoridade
pública. A opinião pública não reprovava a punição em praça pública
da moça seduzida, para desagravo da família, e aceitava o direito de vida
e m orte sobre a família e os escravos por parte do pai e senhor (44).
Vê-se, assim, que a aplicação do direito sofria, no Brasil, várias res­
trições, cujo conhecimento é indispensável para m elhor se poder recons­
tru ir a vida da antiga sociedade brasileira. M uitos problem as histórico-
jurídicos como estes estão a exigir estudo no Brasil. Q ual a extensão e o
lim ite do sentim ento de justiça no hom em comum e no de elite ? Quais
as influências político-sociais dos juizes na vida nacional (45) e quais as
reações do povo às decisões judiciárias ?

(43) Paulino Nogueira Borges da Fonseca, "Presidentes do Ceará, 12.° Presidente, José
Manoel da Silva B ittencourt” , R IC , vol. 21, 1907, 3-11.
(44) T ristão de Alencar Araripe. “O pater fam ilias no Brasil dos tempos coloniais”,
R IH G B , 2 - , 15.
(45) Cf. Afonso Ruy, “Os Juizes do Povo e sua influência político-social no cenário baiano
do século xvn” , Anais do Segundo Congresso de H istória da Bahia, 1952, Salvador, Bahia,
1955, 141-153; “Alguns documentos relativos à adm inistração da Justiça nos tempos coloniais” ,
R IH G SP , xix, 303.

160
BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA DO DIREITO

B ib lio g r a fia geral: Cf. C E H B ; C ândido M endes de A lm eida, O rd en a çõ es F ilip in a s,


ob. cit., x x x i x - l x i i ; E dw in M. B orchard, G u id e to th e L a w a n d L e g a l L ite r a tu r e o f
A r g e n tin e , B ra zil a n d C hile, L ib rary of Congress, W ashington, 1917.
H istó r ia d o d ire ito e m P o rtu g a l e no B ra sil: M. A. Coelho da R ocha, E n sa io sobre
a h istó ria d o g o v e rn o e da legislação de P o rtu g a l p a ra se rv ir d e in tro d u ç ã o ao e s tu d o
do d ire ito p á tr io (3.a ed., 1851); M artins Jú n io r, H is tó r ia do d ire ito n a c io n a l (l.a
ed., 1895; 2.a, 1941); Clóvis B evilaqua, “O d ireito no B rasil”, A B N , vol. 38, 1916, 1-11;
V irgílio de Sá P ereira, “O código crim inal de processo e com ercial. Form ação do nosso
d ir e ito civil”, A n a is do 1.° C ongresso de H is tó r ia N a c io n a l , t. esp. da R I H G B , 1916,
vol. 4. 149 e segs.; A delino M arques e C onstantino Cardoso, E xp o siçã o s u c in ta da h istó ria
do d ire ito , C oim bra, E ditora, 1923, e P au lo M erea, L iç õ e s d e h istó ria do d ir e ito p o r ­
tu g u é s. Coim bra, 1923; Pontes de M iranda, F o n te s e evo lu çã o do d ire ito c iv il brasileiro,
R io de Jan eiro , 1928; Clóvis Bevilaqua, C ódigo c iv il , R io de Janeiro, L ivraria Francisco
Alves. 4.a ed „ 1931, 6 vol.; J. X . C arvalho de M endonça, T r a ta d o de d ir e ito co m ercia l
b ra sileiro , R io de Janeiro, 2.a ed., 1933, 10 vols.; P a u lo M erea, A p o n ta m e n to s p a ra a h is ­
tória d o d ire ito p r iv a d o , C oim bra E ditora, 1937, e N o v o s estu d o s de h istó ria do d ire ito ,
Barcelos, 1937; L. C abral M oneada, E stu d o s de h istó ria d o d ire ito , C oim bra, 1948-49,
2 vols.; G uilherm e B raga d a Cruz, F orm ação h istó rica do m o d e r n o d ir e ito p riv a d o
p o r tu g u ê s e b rasileiro, Braga, 1954; José C âm ara, S u b sid io s p a ra a h istó ria do d ire ito
p á trio , R io de Ja n e iro , Livr. São José, 1954, vols. 1 e 2, L iv raria B rasiliana E ditora,
19*54-1966, vols. 3 e 4; Oswaldo R. C abral, A organização das ju stiç a s na C olônia e no
I m p é r io e a h istó ria da com arca d e L a g u n a , P o rto Alegre, 1955; W ald em ar M artins
Ferreira, H istó r ia do d ire ito brasileiro, R io de Jan eiro , 1951-1955, 3 vols.; e H istó r ia
d o d ire ito c o n s titu c io n a l b ra sileiro , São Paulo, M ax L im onad, 1955; A nyda M archant,
"Politics, G overnm ent and L aw ” , in T . L ynn Sm ith e A lexander M a rch a n t (orgs.),
B ra zil, P o r tr a it o f H a l f a C o n tin e n t, N ova York, 1951.

BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA DA LEGISLAÇÃO


PORTUGUESA

Sobre o Código Filipino, vide a edição de C ândido M endes de A lm eida, C ódigo


F ilip in o o u O rdenações e leis do R e in o de P o rtu g a l reco p ila d a s p o r m a n d a d o d ’el rei
D . F ilip e I. Décim a q u a rta edição, segundo a p rim e ira de 1603 e a nona de C oim bra
de 1824. Com diversas notas p o r C ândido M endes de A lm eida, R io de Jan eiro , T ip .
do In stitu to Filom ático, 1870; José A nastácio de Figueiredo, S in o p se cronológica de
su b síd io s a in d a os m a is raros p a ra a h istó ria e e s tu d o critico da legislação p o rtu g u e sa ,
Academ ia R eal das Ciências, 1143-1603, L isboa, 2, tomos, 1790; João Pedro R ibeiro,
“M em órias sobre as fontes do Código F ilip in o ”, M e m ó ria s de lite ra tu r a p o rtu g u é sa ,
Academ ia R eal das Ciências, 1792, t. 2.
Fontes de legislação p o sterior ao C ódigo F ilipino: C oelho de Sousa, S istem a ou
iv le ç ã o d e re g im e n to s p e r te n c e n te s à a d m in istra ç ã o da F a zen d a R e a l, Lisboa, 1783,
6 vols.; A ntônio Delgado da Silva, Coleção de legislação p o r tu g u e sa desde a ú ltim a
co m p ila çã o das O rdenações, 1750-1820, Lisboa, 1825-47, 9 vols. com preendidos os 3 de
suplem ento; José Ju stin ian o de A ndrade e Silva, Coleção cronológica da legislação p o r ­
tu g u esa , com pilada e anotada desde 1603 até 1700, Lisboa, 1854, 10 vols. A prim eira
coleção dos regim entos reais contém m até ria da m aior im p o rtân cia p a ra o estudo da
história econôm ica brasileira, pois nela se reproduzem vários regim entos referentes à
adm inistração da Fazenda R eal. As ou tras duas coleções contêm a legislação esparsa
referente à m até ria variada e q u e não estava o rd en ad a pelo Código F ilipino. Falta
ordenação da legislação en tre 1700 e 1750, o que pode ser su p rid o pela C oleção c r o ­
noló g ica d e leis e x tra v a g a n te s, p o ste rio re s à n o v a co m p ila çã o das O rdenações do R e in o
p u b lic a d a s e m 1603, d esd e esse an o a té o d e 1761, C oim bra, 1819, 6 vol.; B o le tim do
C o n selh o U ltra m a r in o , Legislação A ntiga, vol. 1, Lisboa, 1867; João P edro R ibeiro,

161
Ín d ic e cro n o ló g ico re m issiv o da legislação p o rtu g u e sa p o ste rio r à p u b lic a ç ã o d o C ódigo
F ilip in o , co m u m a p ê n d ic e , L isb o a, 1805-1820, 6 vols.; D e s e m b a rg a d o r M a n u e l F e r n a n ­
d es T h o m a z , R e p e r tó r io g era l o u ín d ic e a lfa b é tic o das leis e x tra v a g a n te s do R e in o de
P o rtu g a l, p u b lic a d o s d e p o is das O rd en a çõ es, c o m p r e e n d e n d o ta m b é m a lg u m a s a n te rio re s
q u e se a ch a m e m obsenrância, C o im b ra , n a R e a l I m p r. d a U n iv e rsid a d e , 18-15, t. 2,
L isb o a , Im p . R é g ia , 1825, 2 vols.; ín d ic e a lfa b é tic o das leis d o B ra sil e m c o n tin u a ç ã o
d o re p e rtó r io g era l de M a n u e l F ern a n d e s T h o m a z , p o r A lb e rto A n tô n io d e M o ra is e
C a rv a lh o , R io d e J a n e iro , 1831; R e p e r tó r io a lfa b é tic o das leis d o B ra sil p r o m u lg a d a s
d e 1829 a té o f i m do a n o de 1840. E m c o n tin u a ç ã o ao R e p e r tó r io G eral d e M a n u e l
F ern a n d e s T h o m a z e ao Í n d ic e a lfa b é tic o d e A lb e r to A n tô n io d e M o ra is e C arvalho,
p o r. . a d v o g a d o b ra sile iro , R io d e J a n e iro , 1842. O D e s e m b a rg a d o r V ie ira F e r re ir a de
m o d o s u m á rio c o m p ila a “L eg islação p o r tu g u e s a r e la tiv a a o B ra s il” , R I H G B , t. 105,
v. 159, 199-229.
D ic io n á rio m u ito ú til é o d e Jo sé C a e ta n o P e re ira e Sousa, E sboço d e u m d ic io ­
n á rio ju r íd ic o , teo rétic o e p rá tic o , re m issiv o às leis c o m p ila d a s e e x tra v a g a n te s, O b ra
p ó s tu m a , 3 t., L isb o a , T ip . R o la n d ia n a , 1825-1827.
B ib lio g r a fia d e legislação brasileira: A leg islaç ão b r a s ile ir a está p u b lic a d a n a
C oleção d e leis do B ra sil, e d ita d a a p r in c íp io n a T ip o g r a f ia N a c io n a l e d e p o is n a
I m p re n s a N a c io n a l. D u r a n te o I m p é rio ch am o u -se C oleção das leis d o I m p é r io do
B ra sil. C o n té m , a in d a , as leis d e 1808 a 1822, q u a n d o o B rasil e ra sede d a M o n a rq u ia
p o rtu g u e s a . V id e ta m b é m J . P. d e F ig u e ro a N a b u c o d e A ra ú jo , L egislação brasileira,
o u coleção cronológica das leis, d ecreto s, resoluções de c o n s u lta , pro v isõ es etc. do I m ­
p é r io d o B ra sil, desde o a n o d e 1808 a té 1831 in c lu siv e , R io d e J a n e iro , J . V ille n e u v e
e C o m p., 1836-1844, 7 vols. (m ais d e 2.000 p eças in é d ita s); R e p e r tó r io geral ou Ín d ic e
a lfa b é tic o das leis d o I m p é r io do B ra sil p u b lic a d a s d esd e o co m eço do a n o de 1808 até
o p r e se n te , e m se g u im e n to ao R e p e r tó r io g era l d o D e se m b a rg a d o r M a n u e l F ern a n d es
T h o m a z , o r d e n a d o p o r F ra n cisco M a ria d e S ousa F u r ta d o d e M e n d o n ç a , R io de
Ja n e iro , E. e H . L a e m m e rt, 1847-62, 5 vols.; C oleção das leis brasileiras, 1808-1840, O u ro
P re to , n a T ip . d e Silva, 1834-41, 14 vols.; C ódigo b ra silien se o u C oleção das leis, alvarás,
d ecreto s, cartas régias etc. p r o m u lg a d a s n o B ra sil desde a fe liz ch egada do P rin c ip e
R e g e n te N . S. a estes E sta d o s. C o m u m ín d ic e c ro n o ló g ic o , to m o 1, d esd e 1808 a té o
fim d e 1810, R io d e J a n e iro , N a Im p re ssã o R é g ia , 1811; C oleção das leis e d ecreto s do
I m p é r io do B ra sil desde a fe liz época da su a In d e p e n d ê n c ia , o b r a d e d ic a d a à A ssem ­
b lé ia L e g isla tiv a , Sess. d e 1822 a 1826, R io d e J a n e iro , E. S eig n o t P la n c h e r. 1831-1844;
C oleção de leis (1808-1821), R io d e J a n e iro , I m p re n s a N a c io n a l, 1889-1891; Coleção
das leis do I m p é r io do B ra sil (1822-1825), R io d e J a n e iro , I m p re n s a N a c io n a l, 1887;
C oleção das leis do I m p é r io do B ra sil (1826-1889), R io d e J a n e iro , T ip . N a c io n a l,
1850-1889; D ecreto s do G o vern o P ro visó rio da R e p ú b lic a dos E sta d o s U n id o s do
B ra sil (1889-1891), R io d e J a n e iro , I m p re n s a N a c io n a l, 1890-1891; C oleção das leis da
R e p ú b lic a dos E sta d o s U n id o s do B ra sil de 1891, R io d e Ja n e iro , I m p re n s a N a c io n a l,
1891.
A leg islaç ão re fe re n te aos ín d io s foi s u m a ria d a p o r J o ã o F ra n c isc o L isb o a, O bras
c o m p leta s, São L u ís, 1864-1865, vol. 1, 370 e segs.; R e g im e n to e leis so b re as m issões dos
E sta d o s do M a ra n h ã o e P ará e so b re a lib e rd a d e dos ín d io s, 1724; C oleção de breves
p o n tifíc io s e leis régias q u e fo r a m e x p e d id o s e p u b lic a d o s d e sd e o a n o de 1741 sòbre
a lib e rd a d e das pessoas, bens e co m ércio dos ín d io s do B ra sil, L isb o a , 1759; e M a th ia s
C. K ie m a n , T h e ln d ia n P o licy o f P o rtu g a l in A m e ric a , w ith Special R e fe r e n c e to t.he
O ld S ta te o f M a ra n h ã o , 1500-1755, R e p r. fro m T h e A m é ric a s, vol. v, a b r il 1949, n .° 4.
A leg islaç ão re fe re n te a n eg ro s foi s u m a ria d a p o r P e rd ig ã o M a lh e iro , A escravidão
n o B ra sil, R io d e J a n e iro , 1867, 3 vols.
A leg islaç ão eclesiástica, tã o i m p o r ta n te a té a se p a ra ç ã o d a I g re ja d o E sta d o , o b ra
d a R e p ú b lic a , e n c o n tra -se n a C o n stitu iç ã o do a rceb isp a d o da B a h ia , l . a ed., L isb o a,
1719, 2.a ed., C o im b ra , 1720, 3.a ed., São P a u lo , 1853, e em C â n d id o M e n d e s d e A lm e id a ,
D ir e ito c iv il eclesiástico brasileiro a n tig o e m o d e r n o , R io d e J a n e iro , G a rn ie r, 1866-73,
2 t. e m 4 vols.

162
5. História econômica

A história econômica é hoje um dos gêneros mais cultivados. O fato


de poder e dever basear-se em dados quantititivos e estatísticos torna-a, tal­
vez, o mais exato ramo da história. Os historiadores econômicos, com o
desenvolvimento da estatística, deveriam adquirir o que C lapham (46)
chamou o “senso estatístico”, isto é, o hábito de sempre indagar, em face
de qualquer instituição ou qualquer política, grupo ou m ovimento: qual
sua extensão ? qual sua duração ? qual sua freqüência ? qual sua signi­
ficação ?
O desenvolvimento da história econômica se deve a m uitas razões, teó­
ricas e práticas. Q uanto às prim eiras, é de assinalar-se a im portância que
lhe deu Karl M arx ao sustentar a influência dos fatores econômicos na
totalidade da vida presente histórica. Q uanto às segundas, porque o ca­
m inho para a história dos negócios e das grandes empresas atraiu para
as pesquisas os fundos de grandes firmas em penhadas em relatar a história
de suas atividades.
Karl Marx, na sua Crítica da economia política, form ulou a dialética
histórica nestes termos: O modo de produção n a vida m aterial determ ina
o caráter geral dos processos da vida social, política e espiritual. N ão
é a consciência do hom em que determ ina sua existência, mas, ao con­
trário, sua existência social que determ ina sua consciência (47). E já an­
teriorm ente, em 1847, na Miséria da filosofia, M arx declara que o m oinho
de mão dera como resultado um a sociedade de gênero feudal e o m oinho
a vapor um a sociedade capitalista-industrial (48).
Esta tese deve ser considerada como um a hipótese de interpretação
teórica, um m étodo de trabalho, e assim inteiram ente afastada da pro­
fecia revolucionária, da teoria do fatalm ente necessário, que nos diz que
o desenvolvimento econômico conduzirá, necessariamente, a um a orga­
nização econômica e jurídica socialista. Esta últim a se torna não um a
fundam entação de ordem optativa, mas de fatalidade histórica, de transição
da fase utópica para a fase científica da sociedade.
Pelo fato da hipótese de trabalho e do socialismo, como program a po­
lítico partidário, terem nascido da mesma cabeça, foi fácil ligar a hip ó ­
tese ao program a. Este é um ponto que se torna da m aior im portância
prática e cujas trágicas dificuldades hoje verificamos. Seria precário acre­
d itar na inevitabilidade do program a socialista. Se o historiador pode
aceitar a interpretação econômica como um a hipótese de trabalho — e
no capítulo final tratarnos desse aspecto — não pode, pelo menos em sua
atividade profissional, iludir-se quanto à segunda parte, que é prognose,
verbo, profecia e program a (49).

(46) J. H. Clapham , “Economic H istory as a Discipline” , Encyclopaedia of the Social


Sciences, Nova York, M acmillan, 1942, vol. 5, 328.
(47) K arl M arx, A Contribution to the Critique of Political Economy. Chicago, Charles A.
Kerr and Co., s- d., 11-12.
(48) K arl M arx, Misère de la philosophie, réponse à la philosophie de la misêre de M .
Proudhon, Paris, M. Giard, 1922, 125.
(49) G. R adbruch, Filosofia do direito, S. Paulo, 1934, 34.

163
U m é um a teoria do que foi, outro do que deve ser; um é teleológico,
o u tro descritivo, e como tal divergem. Sua estreita correlação é de grande
im portância para o efeito prático agitador, como concepção do m undo de
um p artido revolucionário, mas de m enor im portância para as simples
tarefas e métodos históricos, que são os únicos que aqui nos interessam.
P o r mais paradoxal que pareça, aplicando-se o marxismo ao marxismo, a
concepção da história de M arx é, ela própria, um a superestrutura ideoló­
gica das condições de sua época (50).
De qualquer forma, quer se aceite ou não esta interpretação, mesmo
como m étodo de trabalho, deve-se reconhecer que ela estim ulou os estudos
de história econômica, tão indispensáveis para a compreensão do desen­
volvimento das sociedades, obrigou os historiadores a se preocuparem com
as lutas de classe e os fatos econômicos nas reconstruções da sociedade pas­
sada e fez surgir um a enorme literatu ra sobre as origens do capitalismo.
Os historiadores soviéticos afirm am que, ao considerar as relações so­
ciais e econômicas como fator prim ordial da evolução histórica, não ten­
tam d im inuir o papel das instituições políticas do Estado, que em cada
sociedade exprim e os interesses das classes no poder (51).
Os historiadores dos negócios, treinados por N. S. B. Gras, da U niver­
sidade de H arvard, vêem sua especialidade como distinta da história eco­
nômica. A sutil linha de divisão está exem plificada nas 1.200 páginas do
G uide to Business H istory, com pilado por H enrietta Larson(52).
A business history é o estudo da adm inistração e operação dos ne­
gócios no passado. Origina-se da história econômica, mas é um campo novo
e separado, que se preocupa com o hom em de negócio e as unidades de
trabalho, mais do que com a descrição do desenvolvimento geral das in­
dústrias, as instituições e organizações econômicas ou com outros interesses
de vários tipos da história econômica. A concepção da im portância do
hom em de negócio e de sua unidade de trabalho foi o pensam ento guiador
da business history, desenvolvido na Escola G raduada de Adm inistração
de Negócios da Universidade de H arvard. O estudo de homens de ne­
gócios e de suas firmas é a prim eira tarefa daqueles que trabalham na bu-
siness history. Seus adeptos acreditam que somente partin d o da com preen­
são de como os homens e firmas trabalharam e desenvolveram seus ne­
gócios podem ser escritos os grandes estudos históricos de certas indústrias,
da adm inistração de negócios ou de certos sistemas econômicos.
A business history estuda todas as espécies de negócios agrícolas indus­
triais, de mineração, petróleo, colonização, imóveis, transportes, financei­
ros, seguros, etc. A história dos empresários encontra, no Research Center
in Entrepeneurial History (53), de H arvard, o seu foco de irradiação. O
(50) Salo Barón, A Social and R eligious History of the Jews, Nova York Colum bia U ni­
versity Press, 1937, vol. 3, 129.
(51) A. L. Sidorov, Les problèm es fondam entaux de la Science historique soviètique et
certains résultats de son développem ent, Moscou. T ravaux des historiens soviétiques prèparès
po u r le X e Congrès International des Sciences H istoriques à R om e, 1955, 109.
(52) H arvard University Press, 1950. Gras é autor de Business and Capitalism. A n Intro-
duction to Business H istory, Nova Yoork, 1939.
(53) Research Center in E ntrepreneurial History, Change and the Entrepreneur, Cam­
bridge, H arvard University Press, 1950.

164
C entro dedica-se especialmente ao papel do líder de negócios na m udança
econômica e social. Parte do princípio de que na elaboração do- m undo
ocidental o negócio foi um a força prodigiosa e por isso é indispensável à
compreensão deste m undo estudar a história dos negócios e dos homens
que os dirigiram .
Quando, como agora, já não se desestimam os homens de negócios e
as atividades prático-econômicas, como antigam ente, e jovens procuram
nessas atividades o exercício de suas capacidades, antes inteiram ente vol­
tadas para as profissões liberais, m ilitares ou eclesiásticas, fontes únicas
do prestígio social, não seria valioso que nossa historiografia se dedicasse
tam bém a esse campo novo ?
T endência mais antiga é a da história dos preços, que encontra em
H arvard o seu grande centro de investigações, depois de ter tido grande
florescimento na Universidade de Berlim. A história dos preços possui hoje
bibliografia considerável e de alta categoria. A história econômica não deve
limitar-se à conjuntura e aos fatos do momento, mas deve estudar os pro­
blemas de fundo, que determ inam o desenvolvimento social.
A própria historiografia da história econômica revela sua inconstância
intelectual. Nos meados do século passado, além das influências m arxis­
tas, as teorias liberais estavam especialmente interessadas nas diretrizes
políticas do Estado e desejavam firm ar as razões intelectuais das campa­
nhas im perialistas e protecionistas. Gerações posteriores procuraram ex­
plicar, tam bém sob inspiração alemã, as relações da religião e do capita­
lismo. Assim foram W eber, Sombart e Tawney. Outros estabeleciam os
vários ciclos do desenvolvimento econômico, inspirados inicialm ente em
B runo H ildebrand e Karl Bücher e mais tarde sob influência m arxista
devotaram-se ao estudo especialmente dos dois ciclos: feudalism o e capi­
talismo e socialismo (54). Aquele e este tornaram-se um dos temas de
m aior interesse e que suscitaram a m aior bibliografia da história econô­
mica nestes últim os tempos (BB).
Outros, ainda, marxistas ou antim arxistas, estudam a significação da
etapa capitalista, o preconceito anticapitalista, os efeitos do capitalism o
sobre as classes trabalhadoras (s6). Procuram alguns dem onstrar que a his­
tória real das conexões entre o capitalismo e o proletariado é quase o
oposto do que sugeriam as teorias sobre a expropriação das massas. Deste
modo, a história econômica deve ser m uito mais do que se pensou a p rin ­
cípio. Deve estudar a influência da teoria política, das idéias morais e
da política-fiscal nas mudanças de produção e do consumo. A m oderna
(54) Excelente iniciação à história econômica geral in Charles Veríinden, Introduction
à Vhistoire économique générale, Coim bra, 1948. N o Décimo Congresso Internacional de
Ciências H istóricas, reunido em Rom a, em setembro de 1955, o tem a principal das discussões
foi o das tendências ou fases alternativas na ascendência econômica da E uropa O cidental. Cf.
Relazioni, Florença, Sansoni, vol. 4, e os trabalhos soviéticos apresentados; E. A. Kosminsky,
Basic Problems of W est-European Feudalism as Reflected in Soviet Historical Sciente, M oscou,
1955; N. M. D roujnine, La genèse du capitalisme en Russie, Moscou, 1955, e A. L. Sidrov,
Les problèmes fondam entaux de la Science historique soviétique et certains resultáis de son
développem ent, Moscou, 1955.
(55) José H onório Rodrigues, “ Capitalism o e protestantism o” , Noticia de vária história,
Rio de Janeiro, Livr. São José, 1951.
(56) C. A. Hayek, editor, Capitalism and the Historians, Chicago, 1954.

165
história econômica prefere estudar a contribuição dos índices de nasci­
m ento e m orte nas tendências da população, a validez da hipótese m ar­
xista da expropriação das terras dos lavradores como um requisito da
Revolução Industrial, a influência da taxa de juros no suprim ento do
capital, o procedim ento do hom em de negócios nas diferentes fases do
desenvolvimento econômico, a capacidade de resposta do trabalhador ao
estím ulo econômico do salário(57), os estímulos do desenvolvimento eco­
nômico dos países subdesenvolvidos comparados aos desenvolvidos.
A história geral, a caracterização dos ciclos econômicos, inspirados no
desenvolvimento da história européia, os temas gerais dom inam a história
econômica brasileira. U m desses é o da lu ta de classes no Brasil, sobre a
qual foi o prim eiro a cham ar atenção A breu e Lima. Ao escrever sôbre
a escravidão negra no Brasil e sua necessidade naquela fase de nossa evo­
lução, esclarece que quando em prega as denominações de “branco”, “m u­
lato ” ou “negro” estas devem ser entendidas apenas como acidentais, para
denotar um a classe, “pois ninguém deverá persuadir-se que possamos usar
de um a expressão com o desígnio de ofender a pessoa alguma, nem para
menoscabar a dignidade de um a porção de homens que, em nosso con­
ceito, têm tanto direito à nossa benevolência como o utra qualquer classe
ou indivíduo”. Diz Abreu e Lim a que logo à prim eira vista se nota que a
população brasileira está dividida em duas partes iguais, isto é, pessoas-
livres e pessoas escravas, que de certo m odo não apresentam grande afini­
dade, as quais por sua vez, se dividem em q u atro grandes famílias distin­
tas tão opostas e inimigas umas das outras como as duas grandes seções
en tre si (58) .
Em 1889 Nabuco adm itia que o partido republicano é um “partido
de classe, como os dois partidos m onárquicos” (59).
Oliveira Viana, em b o ra. reconhecendo que toda a evolução grega,
rom ana, medieval e m oderna se fez sob a influência das lutas de classe,
negou, em relação à história do Brasil, qualquer influência desse fator (60).
Disse ele que sem quadros sociais completos, sem traços sociais definidos,
sem h ierarquia social organizada, sem classe m édia industrial, comercial,
e urb an a em geral, a nossa sociedade ru ral lem bra um vasto e im ponente
edifício em arcabouço incom pleto, insólido, com os travejam entos mal-
ajustados e ainda sem ponto firme de apoio (61).
Em nossa história, segundo Oliveira Viana, os conflitos de classe são
rarissimos e, quando surgem, apresentam invariavelm ente um caráter efê­
mero, descontínuo, local (62). A strojildo Pereira critica tais afirmações,
dizendo que nas próprias Populações meridionais do Brasil se encontram

(57) M. Postan, “Economic Social H istory” , T L S, 6 de janeiro de 1956.


(58) Abreu eLim a, Bosquejo de história do Brasil, N iterói, 1835, 55-56.
(59) Joaquim Nabuco, Discuisos parlamentares, São Paulo, Ip ê, 1949, vol. 11, 373,
discurso de 11 de junho de 1889.
(60) Oliveira Viana, Populações meridionais do Brasil, São Paulo, C .ia EJditora Nacional,
1933, 229.
(61) Oliveira Viana, ibid., 190-191.
(62) Oliveira Viana, ibid., 229.

166
vários exemplos de lutas de classe n a história brasileira, tais como a qui-
lom bada dos Palmares, e atritos entre rurais e urbanos (63).
Caio Prado Jú n io r procurou m ostrar que tam bém na nossa história
os heróis e os grandes feitos não são heróis e grandes senão na m edida
em que acordam com os interesses da classe vigente, em cujo benefício se
faz a história oficial. Dá enorme im portância à Cabanagem do Pará
(1833-36), à Balaiada do M aranhão (1838-1841) e à revolta P raieira de
1848, que são as principais revoluções populares ou de classe no Bra­
sil (64).
É pela infância da historiografia econômica que se justifica sua po­
breza bibliográfica e sua improvisação. A obra dos prim itivos cronistas,
como Gabriel Soares de Sousa, Ambrosio Fernandes Brandão, A ndré João
Antonil, José M ariano da Conceição Veloso, Diogo Pereira R ibeiro de
Vasconcelos e Luís Vilhena é descrição da atualidade econômica e não
história econômica, assim como as de José da Silva Lisboa, Visconde de
Cairu, as do desembargador João Rodrigues de B rito e as dos reform ado­
res da fabricação de açúcar, como João Manso Pereira, M anuel Ferreira
d a Câmara, Morais Navarro, Caetano Gomes, M anuel Jacinto Sampaio e
Melo e M iguel Calmon du Pin e Almeida, são obras de política econô­
mica (85).
A historiografia econômica começa neste século, com a obra de Amaro
Cavalcanti, Leopoldo Bulhões, João Pandiá Calógeras, A ntônio Carlos
R ibeiro de A ndrada, F. T . de Sousa Reis, Afonso T aunay, R oberto Si-
monsen, Alfredo Filis Júnior, Caio Prado Júnior, Afonso Arinos de Melo
Franco, Josias Leão, Marcos Carneiro de M endonça, José Jobim , Pires do
Rio, Alice Canabrava, José J. F. N orm ano, W anderley Pinho e Francisco
Iglésias. A historiografia portuguesa, fundam ento da nossa, é também
extrem am ente pobre. Ela tem em João Lúcio de Azevedo e Francisco An­
tônio Correia (ee) seus principais historiadores gerais e em V irgínia R au
(63) A strojildo Pereira, Interpretações, R io de Janeiro, 1944, 161-178. Sobre os motivos e
a lu ta característica entre os senhores de engenho arruinados e os burgueses do Recife, vide
especialmente José H onório Rodrigues e Joaquim R ibeiro, A civilização holandesa no Brasil,
São Paulo, Com panhia E ditora Nacional, 1940, capítulo relativo à revolução.
(64) Caio P rado Jú n io r, Evolução política do Brasil. Ensaio de interpretação materialista
da história do Brasil, São Paulo, 1938. A prim eira interpretação m arxista foi a de E dgardo de
Castro Rebelo, M auá, restaurando a verdade, R io de Janeiro, E ditora Universo, 1932.
Os estudos sobre rebeliões negras (Clóvis de M oura, Rebeliões da senzala, R io de Janeiro, 1956),
sobre revoltas sertanejas, cangaço e jagunços (R u i Facó, Cangaceiros e fanáticos, R io de Janeiro,
1963; W alfrido Moraes, Jagunços e heróis, Rio de Janeiro 1963), fanatismos (M aria Isaura
Pereira de Queiroz, La guerre sainte au Brésil. L e m ouvem ent messianique do Contestado,
São Paulo, 1957, e O messianismo no Brasil e no m undo, São Paulo, 1965; M aurício Vinhas de
Queiroz, Messianismo e conflito social. A guerra sertaneja do Contestado, 1912-1917, R io de
Janeiro, 1966), as lutas do operariado (Jover Telles, M ovim ento sindical no Brasil, Rio de Janeiro,
1962; Moisés Vinhas, Operários e camponeses na revolução brasileira, São Paulo, 1963; Assis
Simão, Sindicato e Estado, São Paulo, 1966; Leoncio Rodrigues, C onflito industrial e sindicalismo
no Brasil, São Paulo, 1966; M. Bandeira, Clóvis Melo e A. T . A ndrade, O ano verm elho, Rio
de Janeiro, 1967) vêm tom ando grande im pulso na historiografia brasileira. T rab alh o de síntese,
em bora ainda m uito falho, é o de Everardo Dias, H istórias das lutas sociais no Brasil, São
Paulo, 1962.
(65) José H onório Rodrigues, “ A literatu ra brasileira sobre açúcar nos séculos xvm e
xix” , Brasil açucareiro, julho e m aio de 1942.
(66) João Lúcio de Azevedo, O m arquês de Pombal e a sua época, R io de Janeiro, 1922;
Épocas de Portugal econômico, Lisboa, 1929; Novas epanáforas, Lisboa, 1932. Francisco Antônio
C orreia, História econômica de Portugal, Lisboa, 1929-31, 2 vols.

167
e V itorino M agalhães G odinho seus grandes intérpretes modernos (67).
O estudo da historiografia econômica, seu conceito e sua interpretação e
a síntese da historiografia econômica brasileira foram feitos por Francis­
co Iglésias (68).
A história econômica, porém, não é só a história da utilização pelo
hom em do solo, para obtenção de sua subsistência, nem a história da
transform ação da m atéria-prim a e de sua distribuição. N a m ultiplicidade
dos seus aspectos, história do capital e dos bancos, história da indústria
e dos processos de produção cabe, como já vimos, a história dos negócios
e dos grandes empreendedores, como por exemplo, M auá e A ntônio
Prado (68a).

BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA ECONÔMICA

A b ibliografia de h istó ria econôm ica geral a té 1881 está registrada n o C E H B ,


1115-1249, abrangendo in d ú stria , m a n u fa tu ra , comércio, finanças, estradas, navegação,
telégrafo. U m a ten ta tiv a m ais m o d ern a é a T h e E conom ic L itera tu re of L a tin A m erica,
C am bridge, H a rv ard U niversity Press, 1935-36, 2 vols.
T ra b a lh o s de história econôm ica são os de C astro C arreira, H istória financeira e
orçam entária do Im p é rio do B rasil desde sua fundação, R io de Ja n e iro , 1889; C apítulos
de h istó ria econôm ica encontram -se em L e Brésil en 1889, Paris, 1889 (população, tra ­
b alho, zonas agrícolas, finanças, Bancos e instituições de crédito, cam inhos de ferro,
com ércio e navegação, correios, etc.); A m aro C avalcânti, O m eio circulante nacional,
R io de Ja n e iro , 1893, R esenha financeira do ex-Im pério do Brasil, R io d e Janeiro,
1890, “A vida econôm ica e financeira do B rasil”, A B N , 1916, vol. 38, 12-34; de A ntônio
Carlos R ib eiro de A ndrada, O M inistro da Fazenda da Indep en d ên cia e da M aiori-
dade, R io de Ja n e iro , 1918, Bancos de emissão no Brasil, R io de Ja n e iro , 1923; de
L eopoldo B ulhões, “Os financistas do B rasil”, A B N , vol. 35, 1913, 191-210; de J. P a n d iá
Calógeras, “O Brasil .e seu desenvolvim ento econôm ico” , A B N , vol. 35, 1913, 48-61, A s
m inas do Brasil e sua legislação, R io de Jan eiro , Im p ren sa N acional, 1904-1905, 3

(67) V irgínia R au, Os holandeses e a exportação do sal de Setúbal nos fin s do século
xvii, Coim bra, 1950; A exploração e o comércio do sal de Setúbal, E studo de história eco­
nômica, Lisboa, 1951; V irgínia R au e Bailey W . Diffie, “Alleged F ifteenth-C entury Portuguese
Joint-stock Companies and th e Articles of Dr. Fitzler” , T h e B ulletin of the In stitu te of Histo-
rical Research, vol. 26, 1953. V itorino M agalhães Godinho, H istória econômica e social da
expansão portuguesa, Lisboa, 1947, t. 1; Documentos sobre a expansão portuguesa, Lisboa,
1955, vol. III; P rix et monnaies au Portugal, Paris, 1955. Cf. tam bém H enrique Gomes de
Amorim P arreira, “ H istória do açúcar em P ortugal” , Anais, Ju n ta das Investigações do U ltra­
m ar, vol. 7, t. 1, 1952, Lisboa; e Frédéric M auro, M onnaie et conjoncture à Lisbonne au
x v n e siècle, Paris, 1951 (E xtrait de Hommage à L ucien Febvre); V irgínia R au, A casa dos
contos, Coim bra, 1951; Vitorino de M agalhães G odinho, “ Portugal, as frotas de açúcar e as
frotas de ouro (1670-1770)” , R evista de história, n.° 15, julho-set. 1953, 69*88; V irgínia R au,
Subsidios para o estudo do m ovim ento dos portos de Faro e Lisboai durante o século xvn,
Lisboa, 1954.
(68) Introdução à historiografia econômica, Belo Horizonte, 1959. Tem os já preparada
um a introdução m etodológica à história econômica (posição no quadro geral, evolução, tarefas,
instrum entos de trabalho, periodização, ciclos e gêneros), resultado dos nossos cursos na Facul­
dade de Ciências Econômicas.
(68a) Alberto de Faria, M auá, São P aulo, 2.a ed., 1933; Edgardo de Castro Rebelo, Mauá,
restaurando a verdade, R io de Janeiro, 1932; L ídia Besouchet, M auá e seu tem po, São Paulo,
1942; Visconde de M auá, Autobiografia, Pref. e anotações de C láudio Ganns, R io de Janeiro,
2.a ed., 1943; Correspondência política de M auá no R io da Prata (1850-1885), São Paulo, 1943;
sobre o conselheiro Antônio da Silva Prado, vide Nazareth Prado, A ntônio Prado no Im pério e
na R epública, R io de Janeiro, 1929; 1.° Centenário do conselheiro A ntônio da Silva Prado,
São Paulo, 1946, e José H onório Rodrigues, “A ntônio da Silva P rado” , Digesto Econômico,
n.° 30, 1947; F ernando M onteiro, Figuras do Banco do Brasil, Cadernos AA BB, n:° 8, R io de
Janeiro 1955.

168
vols., L a p o litiq u e m o n é ta ir e d u B résil, R io de J a n e iro , Im p re n s a N a c io n a l, 1910;
d e F. T . d e S ousa R e is, “ D ív id a do B ra sil, p ú b lic a e p r iv a d a ” , A n a is do 1.° C ongresso
d e H istó ria N a c io n a l, vol. iv, 613-690, t. esp. d a R I H G B ; V íto r V ian a, O B a n c o do
B rasil, su a fo rm a ç ã o , seu e n g r a n d e c im e n to , sua m issão n a cio n a l, R io d e J a n e iro , 1926;
M arcos C. M e n d o n ç a , O in te n d e n te C âm ara, R io de J a n e iro , 1933; A fonso d ’E. T a u -
nay , H istó r ia do café n o B rasil', R io d e J a n e iro , 1939-41, 12 vols., P e q u e n a h istó ria do
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B ra sil, São P a u lo , C .la E d ito r a N a c io n a l, 1937, A evolução in d u s tr ia l do B ra sil, São
P a u lo , 1939; de C aio P ra d o J ú n io r , F orm ação do B ra sil c o n te m p o r â n e o , São P a u lo ,
1942, e H istó r ia eco n ô m ica do B ra sil, São P a u lo , 1945; d e A fonso A rin o s d e M elo
F ra n co , S ín tese da h istó ria eco n ô m ica d o B ra sil, R io d e J a n e iro , 1938, D e s e n v o lv i­
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B ra sil, São P a u lo , 1947; L em o s B rito , P o n to s de p a r tid a p a ra a h istó ria econôm ica
do B ra sil, R io d e J a n e iro , 1923, 2.a ed ., São P a u lo , 1939; J . F. N o rm a n o , E vo lu çã o
eco n ó m ica d o B ra sil, São P a u lo , 1939; Jo s ia s L eão , M in e s a n d M in e ra is in B ra zil, R io
d e J a n e iro , s. d .; Jo sé J o b im , H istó r ia das in d ú str ia s n o B ra sil, R io , 1941; A lice P . C ana-
b ra v a , O co m ércio p o r tu g u ê s n o R io da P rata 1580-1640, São P a u lo , 1944;W a n d e rle y
P in h o , H istó r ia d e u m e n g e n h o do R e c ô n c a v o , 1552-1944, R io , 1946; H . W . S piegeí,
T h e B ra zilia n E c o n o m y . C h r o n ie I n fla tio n a n d S p o ra d ic I n d u s tr ia liz a tio n , F ila d é lfia ,
1W9; F re d e ric o E delw eiss, O cacau na e c o n o m ia brasileira, p u b lic a ç ã o n .° 6 d o C e n tro de
E stu d o s B aian o s, S alv ad o r, 1951; B ra zil, P o rtra it o f H a lf a C o n tin e n t, N o v a Y ork, 1951
p o p u la ç ã o , v id a r u ra l, im ig ra n te s , eco n o m ia, in d u stria liz a ç ã o , com ércio in te r n o , leg is­
lação social); J e ró n im o d e V iveiros, H is tó r ia do co m ércio do M a ra n h ã o , 1612-1895, São
L u ís, M a ra n h ã o , 1954, 2 vols.; B asilio d e M a g alh ães, O açúcar n o s p r im o r d io s do B ra sil
C o lo n ia l, R io d e J a n e iro , I n s titu to d o A çú ca r e d o Á lcool, 1953; Jo ã o B a tis ta M a g alh ães
(oig .), “D o c u m e n ta ç ã o d o c o n se lh e iro Jo sé A n tô n io L isb o a, fin a n c ista d o B rasil R e in o
e B rasil I m p é rio ”, R I H G B , vol. 213, 1953, 3-132; H e ito r F e r re ir a L im a , E v o lu ç ã o i n ­
d u str ia l d e São P a u lo , São P a u lo , 1954; D o c u m e n to s p a ra a h istó ria do açúcar, I n s ­
titu to d o A çú ca r e d o Á lcool, S erviço E sp ecial de D o c u m e n ta ç ã o H istó ric a , v o l. 1,
L egislação, 1534-1596, vol. 2, E n g e n h o Serg ip e do C onde. L iv r o d e contas, 1622-1653,
R io d e J a n e iro , 1954-1956; M iria m E llis. O m o n o p ó lio do sa l n o E sta d o do B ra sil,
1631-1801, São P a u lo , F a c u ld a d e d e F ilo so fia, C iên c ia s e L e tra s , 1956; Jo rg e B enci,
E c o n o m ia cristã dos se n h o res n o g o vern o dos escravos, 1700, 2.a ed . p re p ., p re f. e
a n o ta d a p o r S erafim L e ite , P o rto , 1954; S tan ley G . S tein , Vassouras. A B ra zilia n C o ffee
C o u n try , 1850-1900, H a r v a r d U n iv . P ress, 1957, T h e B ra zilia n C o tto n M a n u fa c tu r e ,
T e x tile E n te rp r is e in a n U n d e r d e v e lo p e d A re a , 1850-1900, H a r v a r d U n iv . P ress, 1957;
F ra n cisco Ig lésias, P o lític a eco n ô m ica do g o vern o p ro v in c ia l m in e ir o , 1835-1889, B e lo
H o riz o n te , 1959; A ristó te le s M o u ra , C apitais estrangeiros n o B ra sil, São P a u lo , 1959;
N íc ia V ilela L u z, A lu ta p e la in d u stria liza ç ã o do B ra sil, S ão P a u lo , 1961; e Jo ã o P a u lo
d e A lm e id a M a g a lh ã e s ( c o o rd e n a d o r), 25 anos d e e c o n o m ia brasileira, R io d e J a n e iro ,
1965.

6. H istória diplom ática

A história diplom ática investiga e relata a defesa dos direitos nacio­


nais e as relações econômicas, sociais e políticas que se codificaram em tra­
tados e convenções (69). Com preende o exame das origens e dos resultados
de nossas negociações diplomáticas, as reparações pacíficas de afrontas, as
aquisições sem guerra de partes de nosso território, as incorporações defi­
nitivas â custa de argumentos históricos e geográficos de grandes trechos,
objetos de litígios, como as questões das Missões e do Amapá. Exige gran­

(69) Temos preparada uma “Introdução à história diplomática”, semelhante à da história


econômica mencionada na nota 68, e uma História diplomática do Brasil (esta escrita desde
1956), resultados de nosso curso no Instituto Rio Branco.

169
des qualidades e virtudes de exposição, pois de outro modo pode tornar se,
como acentuou Rowse, descolorida e m onótona (70), como um a historia
sem fim de intrigas, de memorandos e conversas. É por isso que um dos
grandes meios de dar-lhe vida é enchê-la do elem ento hum ano; a biografia
é um dos melhores instrum entos de qualificação da historia diplom ática.
Foi naturalm ente pensando nisso que Edgar Prestage, um a das melhores
autoridades da historia diplom ática, ao escrever As relações diplomáticas
de Portugal com a França, Inglaterra e Holanda de 1640 a 1668 (71),
focalizou especialmente as várias embaixadas, missões e residências. Assim,
anim a o seu quadro dos enredos políticos com as dificuldades, os serviços,
as agruras e os frutos da vida diplom ática. É um a lição que deve ser
guardada.
É evidente tam bém que a historia diplom ática contém em si o estudo
da evolução de nossa organização diplom ática, constituida desde nossa
Independência para o fim exclusivo da defesa dos nossos direitos inter­
nacionais. Para nossa historia diplom ática anterior à Independência é
necessário, então, conhecer o organismo diplom ático de Portugal e seus
servidores, bem como seus atos e relações. Neste campo ninguém excedeu,
até hoje, quer no plano, quer n a execução, M anuel Francisco de Barros,
Visconde de Santarém. É certo que tanto o Quadro elem entar das rela­
ções políticas e diplomáticas de Portugal(J2Y como o Corpo diplomático
português (73) são m uito mais fontes que obras de história diplom ática.
Do mesmo modo se deve considerar a párte diplom ática que se contém
nas coleções de tratados e convenções, como a coordenada por José Fer­
reira Borges de Castro e continuada por Jú lio Firm ino Judice B ik er(74).
A historiografia diplom ática portuguesa é m uito pobre ou insatisfa­
tória. T rabalhos como os de Edgar Prestage são exceção. Ele se dedicou
a historiar as relações de Portugal com a França, Inglaterra e H olanda de
1640 a 1668, e com a Suécia, de 1641 a 1670. Sua obra erudita, extraor-
dinàriam ente bem feita, serve-nos de exemplo de história não só espe­
cializada n a m atéria como no período (75).
(70) A. L. Rowse, T h e Use of H istory, Londres, H odder & Stoughton L td., 1946, 80.
(71) Coim bra, Im prensa da Universidade, 1928.
(72) Edição do Visconde de Santarém , L uís Augusto R ebelo da Silva e J. da Silva Mendes
Leal, 19 vols., Paris, 1842-1860.
(73) Edição de L. A. Rebelo da Silva, José da Silva M endes Leal e Jaim e Constantino de
Freitas M uniz, Lisboa, 1862-1902, 12 vols. Estas duas obras são incompletas. A prim eira só
abrange as relações diplom áticas com a Espanha, França, C úria Rom ana e In glaterra até 1815,
deixando de lado as relações com a H olanda, D inam arca, Suécia, Prússia, Im pério da Alem anha,
T u rq u ia, África e Potências Barbarescas, E. U. A. e Ásia. 9 segunda só abrange a Cúria
Rom ana a p a rtir do século xvi.
(74) Coleção dos tratados, convenções, contratos e atos publicados entre a Coroa de Portugal
e as mais potências desde 1640 ao presente, Lisboa, Im prensa N acional, 1856-1858, 8 vols.,
Suplem ento, ibid., 1872-79, vols. 9 a 18, faltando o 17.
(75) A bibliografia de Edgar Prestage é bem extensa. Abrange, afora as obras já citadas,
M inistros portugueses nas côrtes estrangeiras no reinado de D. João iv e sua correspondência,
Porto, 1915; Dr. A ntônio de Sousa Macedo, residente de Portugal em Londres ( 1642-1646),
Coim bra, 1916; Frei D iniz de Lencastre, em baixador extraordinário na Holanda, P orto, 1917;
A s duas embaixadas do prim eiro m arquês de Nisa à França (1642-1646 e 1647-1649), Coimbra,
1919; A embaixada de Tristão de M endonça Furtado à H olanda em 1641, Coim bra, 1920;
“As missões de Francisco Rebelo, de R ui Teles de Menezes e do M arquês de Sande, 1663 a
1665”, Revista de História, vol. 10, 1921; Frei Dom ingos do Rosário, diplom ata e político (1591-

170
Poucos trabalhos merecem, pela correção da pesquisa e pela contri­
buição original form ar ao lado dos de Prestage. Entre èstes figuram os de
Aldo M arques Guedes, sobre a aliança inglesa, Carlos Herm enegildo de
Sousa, sobre a aliança anglo-portuguesa, Damião Peres sobre a diplomacia
portuguesa na sucessão de Espanha e especialmente a magnífica biografia
feita por M aria Amália Vaz de Carvalho, do D uque de P alm ela(76).
Os trabalhos de história diplom ática de E duardo Brasão são, de modo
geral, valiosos pelos dados inform ativos (77).
Vê-se, assim, que não há correspondência entre a riqueza das fontes e
a historiografia diplom ática portuguesa.
A situação brasileira é com pletam ente diferente. Não possuímos uma
edição de fontes gerais, como os portugueses: apenas algumas fontes fun­
dam entais para um episódio e para a história geral diplom ática (7S).
Graças ao nobre esforço de um grande historiador, possuímos um
quadro geral da evolução de nossas relações internacionais, desde as ori­
gens coloniais até a queda de Rosas. E nquanto o Visconde de Santarém
planejou e executou em grande parte um a das mais exaustivas pesquisas
jamais realizadas no campo da política internacional, P andiá Calógeras
analisava os principais documentos indispensáveis e aprofundava a leitura
dos clássicos de história política brasileira, portuguesa e européia para
oferecer-nos um admirável ensaio das vicissitudes e grandezas dos negó-
1662), Coim bra, 1926: Ralação do tratado de 1641 entre Portugal e H olanda pelo Dr. A ntônio
de Sousa Tavares, Lisboa, 1917; Chapters in Anglo-Portuguese R elations, W atford, 1935. De cola­
boração com Pedro de A.evedo, editou Prestage a Correspondência diplomática de Francisco de
Souza Coutinho até sua embaixada na Holanda, Coimbra, 1920-1926, 3 vols.; e com o general
Carlos du Bocage, a Relação da embaixada à França em 1641 por João Franco Barreto, Coim bra,
1918.
(76) Aldo M arques Guedes, A aliança inglesa. Notas de história diplomática, l.a ed-,
1938; 2.a ed., Lisboa, 1943; Carlos H erm enegildo de Sousa, Aliança anglo-portuguesa, Lisboa,
1939; Dam ião Peres, A diplomacia portuguesa na sucessão da Espanha, 1700-1714, Barcelos, 1943;
M aria Amália Vaz de Carvalho, Vida do D uque de Palmela, Lisboa, 1898-1903, 3 vols.
(77) E duard Brasão, Relance de história diplomática de Portugal, P órto, L ivraria Civi­
lização, 1940; Restauração, relações diplomáticas de Portugal de 1640 a 1668, Lisboa, Livraria
B ertrand, s. d.; Relações externas de Portugal: reiando de D. João V, Porto, 1938, 2 vols.
(78) Arquivo diplomático da Independência, R io de Janeiro, 1922-25, 6 vols.; Antônio
Pereira Pinto, Apontam entos para o direito internacional ou Coleção completa dos tratados
celebrados com diferentes nações estrangeiras, R io de Janeiro, F. L. P into & Cia., e T ip . Nacional
1864-69, 4 vols.; Feliciano José da Costa, “Sinopse dos tratados, convenções, protocolos e outros
atos celebrados entre o Brasil e as demais nações, em vigor em 30 de abril de 1896” , anexo ao
Relatório do M inistério das Relações Exteriores de 1896 e Código das relações exteriores do Brasil,
Rio de Janeiro, 1900, 2 vols.; J. M. Cardoso de Oliveira, A tos diplomáticos do Brasil, R io de
Janeiro, T ip. do Jornal do Comércio, 1912, 2 vols.; H ildebrando Accioly, A tos internacionais
vigentes no Brasil, Rio de Janeiro, 1937, 2 a ed., 2 vols.; R aul A dalberto de Campos, R ela­
ções diplomáticas do Brasil, contendo os nomes dos representantes diplomáticos do Brasil nó'
estrangeiro e os dos representantes diplomáticos dos diversos países no R io de Janeiro de 1808
a 1912; Rio de Janeiro, T ip . do Jornal do Comércio, 1913; e do mesmo, Legislação internacional
do Brasil, 1808-1929, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1929, 2 vols.; M inistros e altos funcioná­
rios da antiga Repartição dos Negócios Estrangeiros, etc., R io de Janeiro, 1939; Jaim e Cortesão
(org.), Alexandre de Gusmão e o Tratado de M adri (1750), Instituto R io Branco, M inistério
das Relações Exteriores, 1950-1954, p arte i i , t. 1 (Obras várias, 1950), parte i i , t. 2 (Docu­
mentos Biográficos, 1950), p arte m , t. 1 (Antecedentes do T ratado, 1951), parte m , t. 2
(Antecedentes do T ratado, 1951), p arte i, t. 1 (Alexandre de Gusmão e o T ratad o de M adri,
1952), parte iv, t. 1 (Negociações, 1953); José H onório Rodrigues (org.) Catálogo da coleção
Visconde do R io Branco, Instituto R io Branco, M inistério das Relações Exteriores, 1950, 2 vols.;
José Maria da Silva Paranhos, Cartas ao amigo ausente, Instituto Rio Branco, M inistério das
Relações Exteriores, 1953, edição preparada e prefaciada por José H onório Rodrigues; Tratado de
M adri — Antecedentes Colônia do Sacramento, Biblioteca Nacional, 1954 (M anuscrito da
Coleção de Angelis, preparado por Jaim e Cortesão).

171
cios do Brasil em suas relações com o estrangeiro. Mas seria um a tem eri­
dade dizer que A política exterior do Im pério (79) é um a obra completa
e definitiva.
Antes de P andiá Calógeras já P into da Rocha professara no Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro um curso de história diplom ática do
Brasil. Não h á comparação possível entre os dois trabalhos, mas, ainda
assim, à vista da pobreza bibliográfica do assunto, a obra de P into da
Rocha, feita sem nenhum cuidado metodológico, mais compilação que
pesquisa e interpretação, deve ser citada (80).
A nossa força no campo da história diplom ática concentra-se espe­
cialm ente nas questões de limites ou em episódios especiais, como a Inde­
pendência. Aí produzimos trabalhos que nada deixam a desejar e podem
ser justam ente apontados como modelos inexcedíveis, mesmo em face de
historiografías mais am adurecidas. É o caso das obras de Joaquim Cae­
tano da Silva, R io Branco e Joaquim Nabuco, sobre as questões do Ama­
pá, Missões e G uiana Inglesa. Antes déles, Varnhagen, os Viscondes de
São Leopoldo e do U ruguai, D uarte da Ponte R ibeiro, J. M. Nascentes de
Azam buja e A. Pereira P into (81), haviam preparado memórias e m ate­
riais sobre problem as de limites. M odernam ente, H ildebrando Accioly,
Souza Docca e A rtu r César Ferreira Reis escreveram monografias sobre
problem as de limites (82).
O único capítulo ou período da história diplom ática brasileira que
se apresenta farta e poderosam ente estudado, seja pela riqueza das fontes,
seja pela capacidade crítica, seja finalm ente pela lucidez da exposição, é
o da Independência, a propósito do qual avultam Oliveira Lim a e H ilde­
brando Accioly (83). Possuímos tam bém algumas boas introduções ao pro-
(79) João Pandiá Calógeras, A política exterior do Im pério, Rio de Janeiro, Im prensa N a­
cional, 1927-28, 2 vols., tomos especiais da R IH G B . A obra é com pletada com o volum e Da
Regência à Queda de Rosas, São Paulo, Com panhia E ditora Nacional, 1933.
(80) A rtu r P into da Rocha, “H istória diplom ática do Brasil” , l.a série, R IH G B , t. 77,
2.a parte, 1916, 219-418; “ H istória diplom ática” , DHGEB, vol. 1, 926-939. O segundo trabalho é
um resumo do prim eiro, nada lhe acrescentando.
(81) Francisco Adolfo de Varnhagen, A s primeiras negociações diplomáticas respectivas ao
Brasil, Rio de Janeiro, 1843; Visconde de São Leopoldo, “Q uais são os lim ites naturais, pactuados
e necessários . do Im pério do B rasil", R IH G B , vol. 65, 341; D uarte da Ponte R ibeiro, M emória
sobre a questão de lim ites entre o Im pério do Brasil e a República da Nova Granada, R íq de
Janeiro, 1870; L im ites do Brasil com o Paraguai, R io de Janeiro, 1872; A pontam entos relativos
à fronteira do Im pério do Brasil com a Guiana Francesa, R io de Janeiro, 1895; A pontam entos
sobre o estado da fronteira do Brasil em 1844, R io de Janeiro, 1895; Comissões científicas
nomeadas pelo govtrno imperial desde 1843, para exame de lim ites e demarcações de fro n ­
teiras do B r a s il..., coordenados pelo Barão da Ponte R ibeiro, Rio de Janeiro, Laemm ert,
1876; Joaquim M aria Nascentes de Azambuja, Questão territorial com a R epública Argentina,
L im ites do Brasil com as Guianas Francesa e Inglesa, R io de Janeiro, 1891-92, 2 vols.;
Antônio Pereira ¡Pinto, Questões internacionais, São Paulo, 1867.
(82) A principal bibliografia se encontra no CEHB. Vide ainda: H ildebrando Accioly,
L im ites do Brasil, a fronteira com o Paraguai, São Paulo, C .la E ditora N acional, 1938; Souza
Docca, L im ites entre o Brasil e o Uruguai, R io de Janeiro, 1939; A rtur César Ferreira Reis,
L im ites e demarcações na Amazônia brasileira, 1.° tomo, A fronteira colonial com a Guiana
Francesa, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1947; 2.° tomo, A fronteira com as colônias
espanholas, R io de Janeiro, 1948. Sòbre as fronteiras em geral, vide a obra de H élio Viana,
História das fronteiras do Brasil, Rio de Janeiro, Biblioteca M ilitar, 1949.
(83) .Oliveira Lim a, O reconhecimento do Im pério, R io de Janeiro, G arnier, s. d. (1901);
2.a ed., 1902; H ildebrando Accioly, O reconhecimento da Independência do Brasil, R io de
Janeiro, Im prensa Nacional, 1927, 2 a ed., Im prensa N acional, 1945; vide tam bém José de A l­
m eida Correia de Sá (M arquês de Lavradio), D. João vi e a Independência do Brasil, Ú lti­
mos anos do seu reinado, Lisboa, 1937.

172
blem a da história diplomática, como são as de Menezes de Drum m ond,
Oliveira Lim a e A raújo Jorge. Oliveira Lima, com as Coisas diplom á­
ticas e as conferências Vida diplomática e Nossos diplomatas sugeriu co­
mo e de que modo se poderia escrever um a história diplom ática do Brasil.
A raújo Jorge, com sua Introdução às Obras de R io Branco, esboçou todo o
quadro dos nossos problem as de limites na Colônia, no Im pério e na Re­
pública, tendo como centro a figura do barão (84).
Com estes elementos bibliográficos e com novas e exaustivas pesquisas
das fontes brasileiras e estrangeiras, poder-se-á tentar tanto monografias
especiais, episódicas e periódicas, como obras gerais de história diplom á­
tica que venham corrigir as lacunas, falhas ou omissões de P andiá Caló­
geras. Já possuímos alguns ensaios especiais sobre episódios, afora os
relativos à história da Independência, como, por exemplo, os de Hélio
L obo sobre as relações diplomáticas da guerra do Paraguai ou sobre Rio
Branco (85), os de H eitor Lyra sobre a política brasileira no P rata (8e),
os de M ário de Vasconcelos sobre alguns motivos de história diplom á­
tica do Brasil (87), os de R enato de M endonça sobre o Barão de Penedo e
sua época (88), os de Joaquim Nabuco relativos à intervenção estrangeira
d urante a revolta de 1893 (89), os de H ildebrando Accioly e M anuel Car-
dozo (90) sobre os núncios apostólicos, a delegação apostólica e a questão
(84) A ntônio Vasconcelos Menezes de D rum m ond, Preleções de diplomacia, com referência
e aplicação de seus princípios às leis particulares do Brasil até 1867, Pernam buco, T ip . do
Correio do Recife, 1876; Oliveira Lim a, Coisas diplomáticas, Lisboa, Com panhia Editora,
1908; Vida diplomática, Conferência no Instituto Arqueológico e Geográficò Pernam bucano,
Edição do Jo rn al do Recife, 1904; “ Nossos diplom atas” , A B N , vol. 35, 1913, 77-88; A nossa
diplomacia, Conferência na Sociedade de C ultura Artística, São Paulo, 1914; Na Argentina,
Impressões, 1918-19, São Paulo, Weiszflog Irmãos, 1920. A. G. de A raújo Jorge, Introdução às
obras de R io Branco, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1945; ‘‘H istória do Brasil holandês” ,
Revista americana, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, junho-novem bro de 1918 e agôsto-
setembro de 1919; A Restauração e a história diplomática do Brasil holandês ( 1640-1661),
separata dos Anais da Academia Portuguesa de H istória, vol. vn, Lisboa, 1942; Ensaios de
história diplomática do Brasil no regime republicano, R io de Janeiro, 1912.
Sòbre o Barão do R io Branco, cf.: R a u l Fernandes, R io Branco, R ió de Janeiro, M inis­
tério das Relações Exteriores, s. d.; G ilberto Amado, R io Branco, R io < de Janeiro, M inistério
das Relações Exteriores, 1947; H ildebrando Accioly, O Barão do R io Branco e a segunda con­
ferência da Haia, R io de Janeiro, M inistério das Relações Exteriores, 1945; R aul do Rio
Branco, Reminiscências do Barão do R io Branco, R io de Janeiro, José Olympio, 1942; Álvaro
Lins, R io Branco, R io de Janeiro, José Olympio, 1945, 2. vols.; 2.a ed., revista, São Paulo,
C.la E ditora Nacional, 1965; Dunshee de Abranches, R io Branco e a política exterior do Brasil
(1902-1912), R io de Janeiro, 1945, 2 vols.; Francisco Venâncio Filho, R io Branco e Euclides da
Cunha, Rio de Janeiro, M inistério das Relações Exteriores, 1946; Américo Jacobina Lacombe,
R io Branco e R u i Barbosa, Rio de Janeiro, M inistério das Relações Exteriores, 1948; Aluísio
N apoleão, R io Branco e as relações entre o Brasil e os E. U. A ., Rio de Janeiro, M inistério das
Relações Exteriores, 1947.
(85) H élio Lobo, A ntes da guerra. A missão Saraiva ou os preliminares do conflito
com o Paraguai, R io de Janeiro, 1914; História diplomática do Brasil. Às portas da guerra
(Do ultimátum, Saraiva, 10 de agòsto de 1864 à convenção de 1865), R io de Janeiro, 1916;
R io Branco e o arbitramento com a Argentina, Rio, J. Olympio, 1952.
(86) H eitor Lyra, Ensaios diplomáticos, São Paulo, 1922.
(87) M ário Vasconcelos, M otivos de história diplomática do Brasil, l .a série, R io de
Janeiro, Im prensa N acional, 1930.
(88) R enato de M endonça, Um diplomata na corte de Inglaterra, São P aulo, C .Ia E di­
tora N acional, 1942. .
(89) Joaquim N abuco, A intervenção estrangeira durante a revolta de 1893, R io de
Janeiro, 1896; 2.a ed., São Paulo, C .ia E ditora N acional, 1939. Este assunto foi novamente
exam inado por Sérgio Correia da Costa, A diplomacia do Marechal, R io de Janeiro, Zéüo
Valverde, 1945.
(90) H ildebrando Accioly, Os prim eiros núncios no Brasil, São Paulo, Ipê, 1949; Manuel
Cardozo, T h e First Apostolic Delegation in R io de Janeiro and its Influence in Spanish America.

173
dos bispos, e, finalm ente, os de José A ntonio Soares de Souza sobre o Vis-
conde do U ruguai e o Barão da Ponte R ibeiro(81), todos resultados de
excelentes pesquisas de arquivo e de boa e lúcida interpretação e
exposição.
Mas se as relações diplom áticas não se esgotam no m anejo das coisas
políticas, e envolvem, sobretudo hoje, os negocios econômicos, então, capí­
tulo dos mais im portantes da historia diplom ática seria o que narrasse
as missões comerciais e o intercurso m ercantil. As relações comerciais da
Inglaterra e de Portugal estão descritas no trabalho de Shillington e Chap-
m an, as de Portugal e Suécia esboçadas na obra de Prestage e M ellander,
as antigas relações comerciais do Brasil com a França, nos inicios do
século xix, tam bém foram descritas por Horace Say (92).
Não será com a condensação da m atéria conhecida, mesmo em forma
sintética e agradável, que se poderá contribuir para o conhecim ento da
h istoria diplom ática do Brasil. T rabalhos gerais como os de P into da
Rocha, já citados, e R enato de M endonça (93), um anterior e outro pos­
terior a P andiá Calógeras, servem mais a fins didáticos que científicos.

7. H istoria do exército

A historiografia do exército e a naval, m uito especialmente a p ri­


meira, têm devorado grande parte de historia política (94). Desde os clássi­
cos até m uito recentem ente, são as façanhas e os sucessos guerreiros que
têm constituído a m atéria selecionada da história política. As origens
e o desenvolvimento das instituições políticas, constitucionais, legais e
adm inistrativas foram abandonadas a favor das audácias ou fraquezas da
força m ilitar. É talvez por essa razão que até hoje não se constituiu a his­
tória m ilitar num a verdadeira especialidade. A falsa história política
tem-lhe roubado a m atéria e a m ilitar tem-se lim itadò a esm iuçar os fastos
guerreiros tratados naquela.
De regra ela se enquadra n a historiografia pragm ática, pois deve vir
em auxílio dos oficiais para sua futura atuação no campo de batalha (95).

A Study in Papal Policy, 1830-1840, W ashington T h e Catholic University, 1950; e T h e H oly


See and the Question of the Bishop-Elect o f R io, 1833-1839, R epr. from T h e Américas, vol. 10,
julho 1953, n.° 1.
(91) A vida do Visconde de Uruguai, Brasiliana, vol., 243, São Paulo, 1944; e Um
diplom ata do Im pério (Barão da Ponte Ribeiro), Brasiliana, vol. 273, São Paulo, 1952.
(92) V. M. Shillington e A. B. W. Chapm an, T h e Commercial R elations of England and
Portugal, Londres, 1907; E dgar Prestage e K arl M ellander, Relações diplomáticas e comerciais
entre a Suécia e P ortugal de 1641 a 1670, P orto, Edições Gama, 1943; H orace Say, Histoire
des relations commerciales entre la France et le Brésil et considérations générales sur les mon-
naies, les changes, les banques et le commerce extérieur, Paris, 1839.
(93) R enato de M endonça, H istoria de la política exterior dei Brasil, In stitu to Pan-am e­
ricano de Geografia e H istória, 1945.
(94) O autor tem reunido m uito m aterial para um guia bibliográfico de história m ilitar.
(95) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944,
177. Vide tam bém Varnhagen, História das lutas com os holandeses no Brasil desde 1624 a 1654,
Lisboa, 1872, vi.

174
Os chefes e historiadores m ilitares acreditam que ela seja essencial à corre­
ção de idéias e à habil condução de guerra. O grande alm irante e histo­
riador naval M ahan afirm a que é particularm ente no campo da estratégia
naval que os ensinamentos do passado têm valor que não pode ser subesti­
mado. Eles são úteis não só como ilustração dos princípios, mas como pre­
cedentes, devido à perm anência com parativa das condições. A m udança
de armas, da m aneira de lutar, não invalida o estudo das experiências pas­
sadas, com as quais se aprendem os princípios da guerra e o m odo de apli­
cá-los ao uso tático dos instrum entos modernos (96).
O estudo da estratégia m ilitar do m undo m oderno e contem porâneo
e do crescimento e decadência do espírito m ilitar entre os vários povos do
m undo, os problem as e práticas de guerra m oderna, as várias idades he­
róicas da hum anidade mereceram de A rnold T oynbee páginas notáveis de
estudo,, que m uito serviriam aos nossos historiadores militares, como me­
todologia e interpretação (97).
A historiografia do exército, cuja finalidade principal está no estudo
da estratégia, tática, armas, recrutam ento, transporte, abastecimento, sol­
do e desenvolvimento das forças adversárias, tem sido infelizmente trata­
da sem o cuidadoso exame das fontes e da bibliografia.
A história das guerras, não só como luta armada, mas como crise so­
cial e política, tem im portância fundam ental para o conhecim ento do pas­
sado. Burckhardt, estudando o papel das guerras nas crises dos povos,
mostrou a im portância e significação dos fatos bélicos para a compreensão
da sociedade passada. Alguns acontecimentos decisivos da história foram
o resultado de sucessos guerreiros e não poderiam ser compreendidos só
com o estudo das tendências constitucionais, das condições econômicas ou
das instituições sociais. N ão seria necessário ilustrar a afirm ativa com
conhecidos fatos, como o da batalha de Salamina, cujo resultado decidiu,
segundo E duard Meyer, os destinos da civilização grega e dos seus frutos.
As campanhas coloniais contra franceses e ingleses, as memoráveis lu­
tas contra os holandeses, por exemplo, representaram acontecimentos ne-
gligenciáveis na vida e n o desenvolvimento social do Brasil ? A guerra
pela Independência não forçou o governo português a desistir de suas
teorias de adm inistração colonial e não afetou o governo e o crescimento
do Im pério do Brasil ? As façanhas de Caxias não representaram um papel
im portantíssim o na formação constitucional e legal do poder público no
Brasil ? E os exemplos não teriam fim.
Não se devem estudar tão-sómente as campanhas dos grandes gene-.
rais, mas tam bém as felizes operações de comandantes e chefes menores,
cujos resultados decidiram a vitória final. E não só as grandes lutas e
seus grandes chefes, mas tam bém a descoberta ou inovação m ilitar em
armamentos, tática e organização devem ser exam inadas e tratadas com
todo o cuidado. A invenção de certas armas de combate é fator de tanta
im portância como qualquer invenção mecânica na vida civil.

(96) A. T . M ahan, T he Influence of Sea Power upon History, 1660-1783, 12.a ed., Boston,
Little, Brown and Co., 1943, 9.
(97) Arnold Toynbçe, A Study of H istory, Oxford, 1954, vol. viu, H eroic Ages, e vol. ix,
Technology, W ar and Government, vol. x, 1.a partè.
Esta é a verdadeira apologia do estudo da historia m ilitar, no con­
ju n to de suas operações navais, aéreas e terrestres. Intensiva pesquisa das
fontes manuscritas e impressas, dos mapas, das armas, dos sistemas de ata­
que e defesa, do abastecimento, exame cuidadoso da bibliografia (98),
treino crítico, publicação docum ental erudita, divulgação de trabalhos de
caráter popular, cursos e conferências em colégios e instituições militares
superiores possibilitam um crescimento do saber e facilitam a obra de
defesa nacional.
Todos estão convencidos de que se não pode negligenciar a contem­
plação e o estudo das campanhas e batalhas dos predecessores, em bora a
teoria, que se baseia na historia, não possa, portanto, form ular prescrições
positivas. Lucas A lexandre Boiteux, estudando as quatro fontes para a
compreensão da tática naval, escreve que a “principal é a historia”. “Do
exame aprofundado, meticuloso da vida, ações e campanhas dos grandes
capitães, dos lutadores mais notáveis de m ar e guerra, alcançaram os his­
toriadores analistas e críticos re u n ir farta messe de observações conceituo-
sas que racionalm ente comparadas nas suas aplicações e resultados foram
adotadas como verdadeiros preceitos fundam entais da arte da guerra” ( " ) .
De regra, o m ilitar tem a experiencia necessária para o estudo técnico
dos fatos, mas falha pela falta de métodos de pesquisa, por não saber va­
lorizar as fontes e pelo despreparo crítico. O historiador dispõe destes
elementos essenciais, mas não possui a especialização própria do oficial,
tam bém indispensável para a compreensão do fenômeno (10°). Assim, o
problem a fundam ental de um historiador m ilitar — que é reconstruir o
plano da cam panha e narrar a sua execução — deixa de ser plenam ente
(98) Papel im portante no exame da bibliografia tem desem penhado últim am ente a R e ­
vista M ilitar Brasileira, editada pela Secretaria Geral do M inistério da G uerra e também
a Revista do Instituto de Geografia e H istoria M ilitar do Brasil. Na prim eira distinguem-se,
pela alta categoria de sua com petência crítica e m étodo os “Verbetes para um Dicionário bio-
bibliográfico m ilitar brasileiro’', do general F. Paula Cidade (vol. 52, n.os 1-2, jan.-junho
1950; vol. 53, n.os 3-4, julho-dez. 1950; vol. 54, n .os 1 e 2, jan.-junho 1951 vol. 55, n.os 3-4,
julho-dez. 1951; vol. 56, n.os 1-2, jan-junho 1952; vol. 57, n.os 3-4, julho-dez. 1952; vol.
58, n.os 1-2, jan.-junho 1953; vol. 59, n.os 3-4, julho-dez. 1953; vol. 60, n.os 1-2, jan.-junho
1954; vol. 61, n.os 3-4, julho-dez. 1954; a Sintese de três séculos de literatura militar
brasileira (R io de Janeiro, 1959) do mesmo autor é um exame critico da bibliografia m ilitar
brasileira, contendo p arte da m atéria discutida nos “Verbetes".
(99) Lucas Alexandre Boiteux, A tática nas campanhas navais, São Paulo C .la M elhora-,
m entos, s. d., 10-11. Nos e . u . a ., cada Arma possui seu corpo de historiadores e seus
m anuais metodológicos, como, por exemplo: Guide to the W riting of American M ilitary History,
Army Pam phlet, n.° 20-200, G. P. U., W ashington, 1951; M anual for A ir Force Historian,
D epartm ent of A ir Force, W ashington, 1952. O bras de caráter geral preparam o historiador
m ilitar: J. D. H ittle, T h e M ilitary Staff: its History and Developtnent, Pa., 1945; e P aul P.
van Rifer, “Survey of M aterials for the Study of M ilitary M anagem ent” , T h e Am erican Political
Science Review , 1955, 828-850; sobre a organização e trabalho do corpo de historiadores da P ri­
m eira G uerra M undial, cf. Elizabeth B. Drewry, Historical Units of Agencies o f the First World
W ar, N ational Archives, 1942; sobre a Segunda G uerra M undial, ver Plans fo r the Historiography
of the U nited States in W orld War, n (Separata da A H R , jan. 1944), e Kent Roberts Greenfeld,
T h e Historian and the A rm y, R utgers University Press, 1954; sobre os arquivos públicos durante
a ocupação m ilitar, cf. E rnst Posner, “ Public Records under M ilitary O ccupation” , T he American
Historical Review, vol. 49, n.° 2, jan. 1944. Sobre o acesso aos arquivos do Exército, ver Kent
R. Greenfeld, “ Accesibility of U. S. Army Records to H istorical Records” , in M ilitary A ffairs,
Spring, 1951, 10-15. Existe nos Países Baixos um In stitu to especial sobre a documentação
m ilitar, o R ijks In stitu t vorr Oorlogs D ocum entatie, Amsterdã (H erengracht, 474), que já tem
publicado vários relatórios sobre suas atividades.
(100) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944, 173.

176
realizado. O remédio simples seria a formação de historiadores militares,
com p reparo metodológico e critico e noções de natureza m ilitar que fa­
cilitassem o julgam ento da cam panha, da técnica de guerra, da estratégia
das batalhas.
Além disso, poucos têm estudado os efeitos do poder m ilitar e naval
no curso da nossa história. Colecionar os fatos que se encontram esparsos
nas histórias políticas é um a m aneira vaga e imprecisa de reconhecer
aquela influência. A crônica das ocorrências m ilitares e os anais das
vicissitudes navais não relacionam esses fatos com os da história geral, pro­
curando m ostrar quando as influências destes foram decisivas no suceder.
O estudo da história m ilitar oferece, no Brasil, estes defeitos funda­
mentais. N a realidade, sempre cultivamos m uito mais a história do exér­
cito que a naval, apesar da enorme influência do fator m arítim o n a nossa
história. Mas todo esse cultivo tem sido insatisfátório em razão daqueles
motivos.
Como nos casos anteriores, temos de recorrer às histórias m ilitares
2>ortuguesas, encontrando aí as obras de Cristóvão Aires, Carlos Selvagem,
Inácio da Costa Q uíntela, Toão M anuel Cordeiro, A. Tavares e T. A. da
Silva (101).
N ão possuímos até hoje um a história do exército. A de José de M í­
rales não passa de um arcabouço, digno pela documentação, mas falto
de outros requisitos indispensáveis para que se lhe possa d ar o nom e de
história (102).
Os analistas ou memorialistas m ilitares anteriores a Mirales ocupam
grande parte de nossa historiografia m ilitar. H ouve época em que esta
era a única especialidade histórica acolhida com certa benevolência pela
censura inquisitorial (103). Houve época, também, em que se unia a pena
à espada e grandes m ilitares são historiadores ou grandes escritores são
militares. É o caso de Francisco M anuel de Melo e do seu mestre M anuel
de Meneses, restaurador d a Bahia.
A história do exército brasileiro abrange especialmente as lutas com
os holandeses, as lutas com os espanhóis sobre a Colônia do Sacramento
(104), a invasão do R io G rande do Sul, as lutas com a G uiana Francesa

(101) U ma das melhores críticas das fontes m ilitares se encontra in J. Leite de Vas­
concelos, Etnografía portuguesa, Lisboa, 1933, 98-108. Cristóvão Aires, História do exército,
4 vols., 1896-1908; Provas, 13 vols., 1902-1921; Carlos Selvagem, Portugal m ilitar, Lisboa, 1931;
Inácio da Costa Q uintela, A nais da m arinha portuguesa, Lisboa, 1839-1840, 2 tomos; João»
M anuel Cordeiro, A pontam entos para a história da artilharia portuguesa, Lisboa, 1895; A.
Tavares e J. A. da Silva, N oticia histórica das ordens militares e civis, 2.a ed., 1881; F ran­
cisco Augusto M artins de Carvalho, Dicionário bibliográfico m ilitar-português, Lisboa, 1891.
(102) A principal bibliografia se encontra no CEHB. José de Mirales, “H istória m ilitar
<3o Brasil” , Ã B N , vol. 22, 1900.
(103) A pró p ria M etrópole exigia notícia dos sucessos m ilitares da Colônia. Cf. C arta
d ’el-rei d e 20 de maio de 1649, in Correspondência de Francisco de Sousa Coutinho durante
sua em baixada em Holanda, Coim bra, Im prensa da Universidade 1920 (editada por Pedro
d e Azevedo e E dgar P T e s ta g e ) .
(104) O prim eiro trabalho histórico-m ilitar sobre as lutas pela posse da Colônia é o
d e Simão Pereira de Sá, História topográfica e bélica da nova Colônia do Sacramento do R io
da Prata, composta por volta de 1737, mas só publicada em 1900 (Liceu L iterário P ortuguês,
Rio de Janeiro), com introdução de Capistrano de Abreu. O bra m oderna, baseada em documentos
originais, é a de Jônatas da Costa Rego M onteiro, A Colônia do Sacramento ( 1680-1777), PÔrto
Alegre, L ivraria G lobo, 1937-, 2, vols.

177
em tòrno de Caiena, as com os Estados Platinos (1811-27) (105), a guerra
do Paraguai e a participação do Brasil ñas guerras de 1914-18 e 1939-45.
A bibliografia de cada episodio é imensa e só cabe nos períodos respectivos
da historia do Brasil. A qui só os livros gerais de historia m ilitar devem
ser indicados. É aqui tam bém que reside a nossa m aior debilidade, se
excetuarm os as Efemérides do Barão do R io Branco, pois sobre os episo­
dios particulares da historia do exército possuímos alguns bons exemplos
que revelam qualidades superiores no trato dos problem as táticos e estra­
tégicos, como o do general Tasso Fragoso (10(i). É na imensa bibliografia
sobre a guerra do Paraguai que está concentrada a m elhor e mais autêntica
história m ilitar do Brasil.
Pode-se dizer que quem m elhor estudou no Brasil história do exército
foi o Barão do R io Branco, quer no seu “Esboço biográfico do general
José de Abreu, Barão do Serro L argo”, onde tratou das lutas do sul entre
1811 e 1827, quer nas anotações a Schneider sobre a G uerra da T ríplice
Aliança, quer finalm ente nas Efemérides brasileiras, que contêm, até hoje,
a m aior e m elhor coleção de fatos m ilitares de nossa história (107). O
Barão do Rio Branco tinha em preparo um a H istória M ilitar do Brasil,
que deveria ser naturalm ente o mais com pleto trabalho especializado (108).
U ltim am ente, seguindo o exem plo dos estados maiores europeus, o
exército tem estimulado, prom ovido e publicado vários estudos. O auxí­
lio e incentivo não têm sido infelizm ente correspondidos, salvo raras ex­
ceções. As histórias m ilitares de Genserico de Vasconcelos e de A liatar
Loreto não correspondem à expectativa, exatam ente pela falta de preparo
critico histórico, dos métodos de pesquisa e .pelo desconhecimento das
fontes e das autoridades (109). Como sempre, o m elhor está na parte técni­
ca, estratégica ou tática, que sabem apreciar e julgar com acerto. Mais
bem feita é a m onografia de Luís Lobo, sobre a história m ilitar do Pará,
na qual tam bém se podem anotar algumas das deficiências acima apon­
tadas (110).
(105) General F. de Paula Cidade, Lutas, ao sul do Brasil, com os espanhóis e seus
descendentes, ed. da Biblioteca M ilitar, 1948; tenente-coronal Antônio de Souza Júnior,
Caminhos históricos de invasão, ed- da Biblioteca do Exército, 1950.
(106) Tasso Fragoso, H istória da guerra entre a T riplice Aliança e o Paraguai, R io de
Janeiro, Im prensa do Estado M aior do Exército, 1934, 5 vols.
(107) Barão do R io Branco, “Esboço biográfico do general José de A breu, Barão do
Serro Largo”, R IH G B , t. 31, parte 2, 1868, 62-135, reproduzido no vol. 7, Biografias, das Obras
do Barão do R io Branco, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1947, publicação do M inistério
das Relações Exteriores; A guerra da Triplice Aliança (Im pério do Brasil, República A rgen­
tina e República Oriental do Uruguai) contra o governo da R epública do Paraguai (1864-
1870) de L. Schneider, tradução de M. T h . Alves Nogueira, anotada po r J. M. da Silva Pa-
ranhos, Rio de Janeiro, T ip . Americana, 1875-76, 2 vols.; Efemérides brasileiras, l .a ed., R IH G B ,
t. 82, vol. 136, 1917; 2.a ed., ibidem , 1938; 3.a ed., M inistério das Relações Exteriores, 1946.
(108) Os A pontam entos para a história m ilitar do Brasil do Barão do R io Branco foram
prim eiram ente publicados na R evista Americana, ano vi, out. e nov. de 1916, n.os 1 e 2, e
reproduzidos, conforme o texto original que se conserva no Arquivo H istórico do Itam arati,
nos Estudos históricos, vol. 8 das Obras do Barão do R io Branco, R io de Janeiro, M inistério
das Relações Exteriores, 1948, 155-200.
(109) Genserico de Vasconcelos, História m ilitar do Brasil, R io de Janeiro, 1941-42,
Biblioteca M ilitar, vols. 48-49; A liatar Loreto, Capítulos de história m ilitar do Brasil. Colônia.
R eino, R io de Janeiro, 1946, Biblioteca M ilitar, vol. 103.
(110) Luís Lobo, História m ilitar do Pará, R io de Janeiro, 1943, Biblioteca M ilitar, vol.
65. O autor não indica as fontes e a bibliografia de que se utilizou.

178
A historia do exército pode com preender, também-, as biografias dos
grandes soldados, e estas se têm esgotado quase inteiram ente nas figuras
de Caxias e Osório (m ). Se a historiografia m ilitar é assim tão débil nos
seus fundam entos críticos, já a biografia m ilitar eleva-se realm ente, nos
trabalhos de V ilhena de Morais (112), a um nível de superior qualidade,
em que o método, a pesquisa, a crítica das fontes e a lucidez da exposição
são o que há de mais apurado. As biografias de João Batista Hafkemeyer
sobre Caxias (O D uque de Caxias, P orto Alegre, 1920), com o pseudônimo
de Alfredo de Toledo, e sóbre Osório (Porto Alegre, s. d.) são tam bém
de excelente qualidade, enquanto o Osório do coronel J. B. Magalhães
peca pelo desmedido da introdução, pelo esparram ado da exposição e por
certas deficiências de m étodo (113).
O estudo das fontes, dos instrum entos de lu ta e dos veículos de trans­
p orte e dos uniformes (114) n ão tem m erecido a atenção dos eruditos. A
obra de J. da Silva Campos sobre as fortificações da Bahia (115) cuida mais
do aspecto arquitetônico e artístico, dos fortes considerados m onum entos
históricos, do que das posições fortificadas de valor puram ente m ilitar.

8. H istória naval

Não é pequena a bibliografia sobre a influência do poder naval na


história das grandes nações européias. N aturalm ente, os melhores estu­
dos são ingleses, pois nunca a história presenciou um poder im perial tão
grande e unânim e, um a paz tão duradoura, m antida, não em um mesmo
continente, mas em mais de sete mares, como o da Grã-Bretanha.
Afora o trabalho clássico do alm irante Alfredo T hayer M ahan (116),
considerado como a m aior obra m oderna de estratégia naval, e as confe­
rências do alm irante Sir H erbert R ichm ond (117), h á que assinalar os tra­
balhos do alm irante Sir W. M. Jam es (118).
(111) Como exemplo sofrível de biografias m ilitares, consulte-se H enrique Boiteux, Santa
Catarina no Exército, R io de Janeiro, Bedesdii, 1942.
(112) V ilhena de Morais, O D uque de Ferro, Aspectos da figura de Caxias,. R io de
Janeiro, Calvino, 1933; Caxias em São Paulo. A revolução de Sorocaba, R io de Janeiro, Briguiet,
1934; Novos aspectos da figura de Caxias. R io d e Janeiro, Leuzinger, 1937; Introdução aos apon­
tam entos para a história m ilitar do D uque de Ferro- por Eudoro Berlink, R io de Janeiro,
B riguiet, 1934.
(113) J. B. M agalhães, Osório. Símbolo de u m povo. Sintese de um a época, R io de
Janeiro, Agir, 1946.
(114) Uniformes do exército brasileiro, desenhos, aquarelas e documentos de J. W asth
Rodrigues, direção geral e organização do texto p o r Gustavo Barroso, R io de Janeiro e Paris,
1922- O texto contém a história da organização do Exército e de seus uniformes. A segunda
p arte é a docum entação geral, acom panhada de índice.
(115) Fortificações da Bahia, R io de Janeiro, 1940, Publicações do Patrim ônio Histórico
e A rtístico Nacional, n.° 7. Vide tam bém A ugusto Fausto de Souza, “ Fortificações no Brasil",
R IH G B , t. 48 (1885), parte ii, 5-10. A legislação sóbre fortificações tem sofrido evolução.
Cf. Dec. n.° 7.669 de 21 fev. 1880, Dec. n.° 26.959 de 27 ju l. 1949, e Decretos nos 31. 061 de
ju l. 1952, e 37.268, de 28 ab. 1955.
(116) T h e Influence of Sea Power upon H istory, Boston, L ittle, Brown and Co., 1943,
12.a ed.
(117) Statesmen and Sea Power, Oxford, 1947.
(118) T h e Influence of Sea Power on the H istory of the British People, Cam bridge, 1948,
cuja exposição seguimos tendo-a divulgado antes em “ O poder m arítim o e a h istó ria” , O Jornal,
9 de agosto de 1952.

179
O poder naval é aquela forma de força nacional que habilita seu
possuidor a enviar seus exércitos e comerciar através dos mares e oceanos.
O tema principal das conferências do alm irante Jam es é m ostrar que em
toda a historia q u atro elementos conferem poder para controlar as rotas
oceánicas: os navios mercantes, as bases, as armas e os homens treinados
a m anejar esses instrum entos. N a sua opinião, a G rã-B retanha emergiu vi­
toriosa de dez grandes guerras marítim as, porque faltou aos seus inimigos
um desses elementos. Mas é especialmente no quarto elemento, a liderança
e as qualidades de luta que o Im pério B ritânico mostrou sempre conside­
rável superioridade.
Para o alm irante James, o conhecim ento da história m ilitar e das rea­
lizações dos antepassados nos campos de batalha fortificou o povo b ritâ­
nico nos tempos de adversidade e inspirou os atos de soberbo heroísm o
de seus homens e mulheres.
O m étodo de conduzir a guerra operava sistem aticam ente de acordo
com o desenvolvimento das armas de guerra. Os princípios permaneciam
intangíveis e, deste modo, o estudo dos métodos empregados nas guerras
anteriores era proveitoso, e talvez essencial, se no rom pim ento da guerra
as forças fossem utilizadas para a m elhor vantagem e se as táticas em pre­
gadas pelos com andantes em terra, no m ar e no ar, fossem não somente
fruto de súbita inspiração, mas o conhecim ento das táticas empregadas
pelos grandes com andantes no passado.
Aí está toda a justificativa prática do estudo da história m ilitar.
Todos os chefes e historiadores m ilitares participam da opinião de que
ele é indispensável à hábil condução da guerra. Os ensinamentos da his­
tória m ilitar devem vir em auxílio dos oficiais para a sua fu tu ra atuação
no campo de batalha. E não só como um a inspiração psicológica e um
estím ulo ao heroísmo, mas como ilustração do princípio e precedentes
que, devido à perm anência das mesmas condições, tam bém não mudam ,
como disse o alm irante James. A própria m udança das armas e da m a­
neira de lu tar não invalida o estudo das experiências passadas, com as
quais se aprendem os princípios da guerra e o modo de aplicá-los ao uso
tático dos instrum entos modernos.
Mas nem o acontecim ento nòvo da bom ba atôm ica levanta dúvida
sobre a utilidade desse estudo. Ao lado da explosão atômica, que inicia
um capítulo novo na história da guerra, sobrevivem as guerras locais e
limitadas. A prim eira representa um a ru p tu ra do conhecimento estraté­
gico e tático das guerras antigas, mas a guerrilha, a chamada guerra revo­
lucionária, im põe o dom ínio dos precedentes, especialmente em países
como o Brasil, onde a guerra contra os holandeses ou as lutas sertanejas
foram travadas com elementos atuais de surpresa e m obilidade.
Lógicamente, o valor desse estudo perderia todo seu interesse. Mas
tam bém seria a prim eira vez na história que um a nova arm a não inspira­
ria a concepção de um a contra-arma. De regra, o aparecim ento de um no­
vo instrum ento m ortífero tem feito crer que as demais armas são obso­
letas. Isto, porém, não é verdadeiro. N a época m oderna, o torpedeiro,
o subm arino, o aeroplano e o tanque foram considerados como armas do-

180
m inantes, contra as quais as demais eram im potentes. Cada um a foi, aos
poucos, sendo colocada no seu verdadeiro lugar. Não há, diz o alm irante
James, nenhum a prova de que os criadores desta nova e terrível arma
sejam incapazes de inventar um meio de fazê-la explodir antes de alcan­
çar seu objetivo. Basta lem brar que o rápido avião era quase invulne­
rável à artilharia antiaérea, mas hoje já se está m uito próxim o de um
projétil que atingirá certam ente o aeroplano e, logo que isso seja alcan­
çado, o bom bardeiro ocupará um lugar menos im portante.
As lições da Prim eira e Segunda Guerras M undiais m ostram a im ­
portância extraordinária do poder m arítim o. A estratégia da prim eira
guerra, diz o alm irante James, foi a da G uerra dos Sete Anos (1756-1763).
A esquadra principal perm anecia em Scapa Flow, donde continha a arm a­
da germánica. Nos cinco oceanos, esquadrões de cruzadores conservavam
abertas as linhas de comunicação e, aos poucos, lim pavam os mares dos
navios alemães destinados a atacar o comércio inglês. Mas a luta p rin ­
cipal se fez entre o dom ínio dos mares, a m anutenção do comércio aliado
e o bloqueio subm arino. O controle naval tem sido a chave das vitórias
m ilitares da história inglesa.
A cam panha, entre as duas guerras, para convencer o povo de que
o aeroplano tinha tornado obsoletas todas as demais armas quase pôs em
perigo, mais tarde, a defesa das rotas m arítim as. O principal argum ento
era de que um encouraçado custava o preço de m il aeroplanos. Mas esque-
ceram-se que as próprias forças m ilitares e os transportes tornavam-se cada
vez mais dependentes de óleo e este tinha de ser trazido à Grã-Bretanha,
como tam bém alimentos e os m inerais indispensáveis à guerra. A cam­
panha não deu resultado e, na Segunda Guerra, os mesmos princípios eram
jolicados.
Só um novo elem ento trouxe ansiedade ao comando inglês: a m ina
rnagnética, que, lançada de aeroplano nos estuários do sul, ameaçou des­
tru ir as comunicações inglesas. D urante um pequeno período, os inglêses
-perderam o controle das rotas, até que duas minas, caçadas no estuário
do Tâm isa, possibilitaram a descoberta do segredo e as contramedidas,
inclusive a m ina acústica, que sucedeu à magnética.
O controle dos mares perm itiu o transporte, entre setembro de 1939
e dezembro de 1944, de cerca de 10 milhões de tropas, das quais só se per­
deram 2.848 vidas. O poder m arítim o exprim iu nestes algarismos toda a
?ua força e significação. Mas se na Prim eira G uerra faltou aos alemães
o terceiro elem ento de que se compõe o poder naval — bases — na segunda,
com a queda da França, não só parte da esquadra francesa passou-se para
o Eixo, dando-lhe a suprem acia num érica, como lhe foram cedidas as ba­
ses da larga costa francesa. Mas agora o que faltava era o quarto elemen­
to — a liderança e a capacidade de dirigir as forças navais. As obrigações
das forças navais inglesas nunca foram tão extensas. Com a entrada da
Rússia na guerra, largas forças eram devotadas a guardar os comboios até
Arcángel; com a entrada do Japão, grandes forças foram retiradas do Oci­
dente, para tentar deter o avanço jai3onês para o Sul.

181
Nunca, na longa história da guerra m arítim a, teve o poder naval do­
mínio tão incontrastável como quando mil navios carregaram os exércitos
aliados de um a costa a outra.
O poder m arítim o foi, assim, segundo o alm irante James, decisivo no
resultado da Segunda G uerra M undial. Novas armas ioram usadas para
que o poder m arítim o se exercesse, mas foi ele que, dando liberdade ao
uso das rotas, decidiu o problem a. Pretende, ainda, que não foi a bomba
atômica o elem ento decisivo na derrota do Japão, e sim o poder naval,
que forçou os japoneses a se retirarem de suas amplas conquistas e a
oferecer, na sua própria terra, a últim a batalha. O poder m arítim o cor­
tou as linhas japonesas de comunicação com as ilhas Salomão e a Nova
Guiné.
Por outro lado, W inston C hurchill (nu) atribui às batalhas navais no
M ar da Coréia e das Ilhas Midway, ganhas pelas forças navais america­
nas, a reviravolta da posição dom inante no Pacífico.
O dom ínio dos mares foi decisivo. Neste século, todos nós testem u­
nhamos o rápido desenvolvimento do poder e do alcance das armas, mas
dois elementos perm aneceram imutáveis, como peças do jogo final: o
soldado de infantaria e o navio m ercante. Este alterou-se um pouco nos
últim os cinqüenta anos e pouco se alterará nos próximos cinqüenta anos.
Do navio m ercante e do de guerra depende o bom êxito de um a luta. Se
é assim, há um argum ento irrespondível na defesa da tese do valor do es­
tudo dos métodos de conduzir as guerras passadas. A história continua a
ser, para os estrategistas ingleses, um a lição pragm ática e útil.
A história naval no Brasil sofre dos mesmos defeitos apontados em
relação à m ilitar. A criação, em 1937, no M inistério da M arinha, da
Divisão de H istória M arítim a do Brasil, subordinada ao Estado-M aior da
Arm ada (120), não evitou o amadorismo da pesquisa. As instruções que
regulavam o cum prim ento do decreto respectivo estabeleciam não o pre­
paro e formação de historiadores navais, mas a coordenação dos elementos
indispensáveis para a elaboração do texto oficial da história m arítim a do
Brasil (121). É exato que o curso de história naval adotado oficialmente
na Escola de M arinha durante longo período poderia ter originado a for­
mação de historiadores navais. O fato é que os trabalhos iniciais de M.
P in to Bravo e T eotônio Meireles da Silva (122) não conseguiram ultrapassar
as fronteiras dos compêndios para uso das escolas de m arinha e ganhar
geral estima dos estudiosos da história brasileira.
Para o estudo do papel da m arinha durante a G uerra do Paraguai,
contamos com excelente m onografia do Visconde de O uro Preto (123), ex­
(119) T he H inge of Fate, 4.° vol. das Memórias, Cassei & Co., 1951.
(120) Decreto-lei n.° 101, de 23 de dezembro de 1937, publicado no Diário Oficial de 31
de dezembro de 1937.
(121) Cf. “Instruções de 29 de dezembro de 1937” , in Subsídios para a história da
m arinha do Brasil, Rio de Janeiro, Im prensa Naval, 1938, 7-9.
(122) M. Pinto Bravo, Curso de história naval, R io de Janeiro, T ip . de João de
Aguiar, 1878; 2.a ed., 1959, com prefácio de José H onório Rodrigues, “ O sentido da história
naval” . T eotônio Meireles da Silva, H istória naval brasileira, Rio de Janeiro, G arnier, 1884.
(123) “A m arinha de outrora. Nota subsidiária para a sua história” , R IH G B , vol. 166,
1932, 5-381. Pela segurança das informações e sobriedade de linguagem , constitui fonte para
a história dos negócios da m arinha d urante a G uerra do Paraguai.

182
perim entado no assunto e M inistro daquela pasta em 1866, e com várias
contribuições de valor desigual do alm irante A rtur Silveira da Mota,
Barão de Jaceguai (124), nas quais ora o relato dos acontecimentos é enri­
quecido com observações vajiosas e interessantes de natureza estratégica
e tática, ora se apresenta sem força e sem fôlego.
Pouco se tem feito para m ostrar a influência do poder naval na nos­
sa história e os fatores táticos e estratégicos das nossas campanhas navais.
O poder naval foi, talvez, um dos fatores que mais influíram para abreviar
a nossa em ancipação (las). A ela se deve, também, a m anutenção de nossa
unidade, quando ameaçada de destruição pelas numerosas revoluções dos
inícios do século xix. O máximo de nosso período naval foi atingido
nos dois últim os anos da G uerra do Paraguai, quando se forçou a passa­
gem de H um aitá. Apesar das numerosas monografias, não se escreveu
ainda um estudo exaustivo, inspirado nas melhores fontes, sobre a influ­
ência da m arinha no curso da história brasileira.
Entre os autores que mais se têm dedicado aos estudos de história
naval estão H enrique Boiteux (12(i) e Lucas Alexandre B oiteux (m ), dos
(124) Barão de Jaceguai (A lm irante A rtur Silveira da M ota), “ Reflexões críticas sobre as
operações com binadas da esquadra brasileira e exército aliados” , publicadas em Quatro sé­
culos de atividade marítim a. Portugal e Brasil, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1900,
e depois reproduzidas no volume De aspirante a almirante, R io de Janeiro, Im prensa Nacional,
2 vols., 1906-1907. T rata-se de um a exposição clara e lim pa, cheia de expertos comentários de
quem soube ver, à luz dos ensinam entos m ilitares, os acontecimentos depois recriados. A
prim eira obra citada, os Quatro séculos de atividade m arítim a, foi escrita em colaboração
pelo Barão de Jaceguai e C. Vidal de Oliveira Freitas. O riginalm ente, fora destinada ao
Livro do centenário do descobrimento do Brasil, mas foi rejeitado, por exceder as proporções
m arcadas para a inclusão naquela coletânea. Não se alonga nos detalhes indispensáveis; é
sem fôrça e sem fôlego. Um resumo foi feito pelos dois autores para o Livro do centenário
(R io de Janeiro, 1900, 2 tomos), e leva o títu lo “Ensaio histórico sobre a gênese e o
desenvolvimento da Arm ada Brasileira”. Tem caráter didático e além de excessivamente redu­
zido, o “ Ensaio” contém contradições chocantes. Foi, como as “ Reflexões” , reproduzido no
volume De aspirante a almirante. — Vide ainda as Reminiscencias da Guerra do Paraguai (R io de
Janeiro, 1935), que abrangem dois anos do comando em chefe do m arquês de T am andaré. Sobre o
barão, Barbosa Lim a Sobrinho, A rtu r Jaceguai. Ensaios biobibliográficos, Rio de Janeiro, 1955.
(125) Capitão de Fragata R aja Gabaglia, “ A im portância do poder m arítim o em relação
ao Brasil” , Jornal do Comércio, 17-6-1949.
(126) H enrique Boiteux, Santa Catarina na M arinha, R io de Janeiro, Ofic. Gráfica da Liga
M arítim a Brasileira, 1912; “ A m arinha na guerra dos Farrapos. Expedição a Santa C atarina” ,
Anais do I.° Congresso de História Nacional, vol. 5, 49-110, tom o esp. da R IH G B ; O marquês
de Tamandaré, Rio de Janeiro, Zélio Valverde, 1943, e pequenos folhetos como O almirante
Jesuino Lamego Costa (Barão de Laguna), R io de Janeiro, Liga M arítim a Brasileira, 1912;
O. capitão de m ar• e guerra João Nepom uceno de Menezes, R io de Janeiro, Liga M arítim a
Brasileira, 1912; O alm irante José M arques Guimarães, R io de Janeiro, Liga M arítim a Bra­
sileira, 1913; O tenente Álvaro Augusto de Carvalho, R io de Janeiro, Liga M arítim a Bra­
sileira, 1913; O segundo tenente José de Jesus. O piloto José Poluxeno da Silva de Andrada
Costa, Rio de Janeiro, Liga M arítim a Brasileira, 1914; O naufrágio do cruzador misto A lm i­
rante Barroso (21-5-1893), R io de Janeiro, Oficina Industrial Gráfica, 1929.
(127) Lucas Alexandre Boiteux, A marinha de guerra brasileira no reinado de D. João
V I e de D. Pedro I (1807-1831), Rio de Janeiro, Im prensa Nacional, 1913; A tática nas
campanhas navais nacionais, São Paulo, C .,a Melhoramentos, s. d.; A marinha imperial na
Revolução Farroupilha, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1935; M arinha imperial versus
Cabànagem, Rio de Janeiro, Im prensa Nacional, 1943; Pozos e Riachuelo (11-6-1826,
11-6-1865), Florianópolis, 1918; O tenente-general A ntero José Ferreira de Brito, Barão de Tra-
mandai, Rio de Janeiro, T ip . do Jo rn al do Comércio, 1931; M inistros da marinha, Notas
biográficas (1808-1840), Rio de Janeiro, Im prensa Nacional, 1933; A s façanhas de João das
Botas, o m arinheiro da Independência, R io de Janeiro, Im prensa Naval, 1936; M inistros da
marinha (Notas biográficas), 2.a série, 1840-1865, R io de Janeiro, Im prensa Nacional, 1939;
A escola naval (Seu histórico, 1761-1937), R io de Janeiro, Im prensa Naval, 1940.

183
quais possuímos numerosos trabalhos. P rado M aia escreveu um belo en­
saio interpretativo, bem fundam entado, e Carlos C arneiro é au to r de um a
pequena sinopse inform ativa, sem indicação de fontes e sem bibliogra­
fia (128).

9. H istória da aviação

N ada ou quase nada se tem feito sobre a história da aviação no Bra­


sil, de que somos pioneiros e precursores. Os estudos sobre B artolom eu
de Gusmão e a prioridade aerostática (129), sobre Santos D um ont (lso) e a
prioridade brasileira da dirigibilidade dos aeróstatos e do vôo do mais
pesado que o ar representam a nossa contribuição para a história da avia­
ção. O extraordinário desenvolvimento da aeronáutica civil e comercial
no Brasil (m ) — fator de extrem a im portância n a vida econômica brasi­
leira, a função do Correio Aéreo Nacional, fundado a 12 de ju n h o de
1931 e a grande significação da f a b no poderio m ilitar estão a exigir
um conhecim ento mais am plo e seguro de sua história (132), especialmente
depois da participação da f a b na 2.a G uerra M undial (isa).

(128) P rado M aia, A m arinha d e guerra do Brasil na Colônia e no Im perio, R io de J a ­


neiro, Liv. José Olympio, 1965; Carlos Carneiro, “Sinopse de história naval brasileira” , Dicionário
histórico, geográfico e etnográfico do Brasil, vol. 1, R io de Janeiro, Im prensa N acional, 1922,
1.211-1.255. Cf. tam bém P rado M aia, Através da história naval, São P aulo C .ia E ditora N acional,
1936; Juvenal Greenhalgh, O Arsenal de M arinha do R io de Janeiro na história, 1763-1822. R io de
Janeiro, 1955; Luís M onteiro da Costa, Construções navais da B ahia no século X V II. O Galeão
Nossa Senhora do Pópulo, publicação n.° 17 do Centro de Estudos Baianos, Salvador, 1952.
(129) Afonso d ’E. T aunay, Bartolomeu de Gusmão e sua prioridade aerostática, São Paulo,
1938; Bartolomeu de Gusmão, inventor do aeróstato, A vida e a obra do prim eiro inventor
americano, São Paulo, 1942, e Antônio de Portugal de Faria, Le prècurseur des jiavigateurs
aériens, B artholom eu Lourenço de Gusmão, Vhom m e volant portugais né au Brésil (1685-1724),
Paris, 1910.
(130) Aluízio Napoleão, Santos D um ont e a conquista do ar, M inistério das Relações E x­
teriores, R io de Janeiro, 1941, tradução inglesa, 1945, tradução francesa, 1947; Lysias R o d ri­
gues, Brasileiros pioneiros do ar, R io de Janeiro, 1944; José Garcia de Souza, A famosa con­
trovérsia irmãos W right, Santos D um ont, R io de Janeiro, 1948; H enrique D um ont Villares,
Q uem deu asas ao homem. Santos-Dumont, sua vida e sua glória, São Paulo, 1953. Vide
tam bém C. V. Gago G outinho, Como nasceu o aeroplano, Lisboa, 1948.
(131) A aviação comercial brasileira nasceu em 1927, com o K ondor Syndicat. A luta
entre a Pan-Am erican e o Kondor Syndicat (Condor) pelo dom ínio do transporte aéreo durou
até a Segunda G uerra M undial. A prim eira concentrou seu esforço nas rotas externas, e a se­
gunda nas rotas domésticas, mas fora das lutas pela posse de bases do transporte aéreo —
um a espécie de colonialismo dos meios de transporte —, o Brasil em ergiu como um a nação
ligada aéream ente. A história da aviação comercial ainda não foi contada. Em 1927 reali­
zaram-se 128 viagens, com um percurso de 119.585km, a duração de 844 horas, 643 passageiros,
e 210kg de carga; em 1963, foram realizadas 94.036 viagens, com um percurso de 121.816.336km,
321.592 horas, 3.451.084 passageiros, e 64.495.604kg de carga.
(132) O M inistério da Aeronáutica acaba de publicar a H istória da Força Aérea Brasileira,
do tenente brig. Nélson F. Lavenère-W anderlei, de circulação privada, e apesar de nossos pedi­
dos, não conseguimos obter um exemplar.
(133) Vide sobre os efeitos de abril de 1945, o discurso da senador general Caiado de Castro,
Diário do Congresso, 24 de abril 1956.

184
10. História da Igreja e da religião

O utro gênero de história é a eclesiástica, de formação m oderna, fruto


da Reform a religiosa. De regra, os hum anistas não se preocupavam com
a história interna da Igreja. A história da doutrina e da adm inistração
eclesiástica é filha da Reform a quinhentista.
A história da Igreja pode ser dividida em externa e interna, a p ri­
m eira estudando as relações da Igreja com os homens, e a segunda exa­
m inando a doutrina e constituição da Igreja, seu culto e disciplina. A dife­
rença fundam ental desta história com as histórias leigas reside especial­
m ente na não-exclusão de fatores sobrenaturais, como a intervenção de
Deus no curso dos sucessos e a existência de milagres (184).
T rab alho de extrem a erudição, rico de informações, mas pobre de
espírito crítico, é o Agiológio lusitano dos santos e varões ilustres (13r>),
fonte indispensável da pesquisa histórica religiosa. A ntônio Rodrigues da
Costa foi incum bido pela Academia Real da H istória Portuguesa de redi­
gir a história eclesiástica do U ltram ar, mas não chegou a executá-la (136).
A história da Igreja em Portugal foi escrita por F ortunato de Almeida,
porém de m odo insatisfatório (137)- O autor lim itou suas pesquisas de
arquivo, organizando o trabalho com os m ateriais que se encontravam dis­
persos nas obras impressas.
A história da Igreja no Brasil encontra no Direito civil cclesiásti-
c0 (138)> de C ândido Mendes de Almeida, sua obra fundam ental. Esta
contém a legislação civil eclesiástica cronologicamente disposta (bulas,
brevês e outros rescritos pontifícios, acerca do Padroado, dos dízimos, da
criação e lim itação das dioceses e outras matérias que particularm ente in­
teressam à Igreja brasileira). C ândido Mendes procurou definir a posi­
ção legal da Igreja brasileira, reunindo a legislação civil de 1500 a 1866
e a legislação puram ente eclesiástica prom ulgada pelo poder tem poral
quando em sua relação com a Igreja. Como a Igreja brasileira é filha da
cie Portugal, reuniu diferentes atos relativos a ela, prom ulgados em época
em que aqui não existia, mas cujas disposições foram aqui codificadas e
fundidas na legislação civil eclesiástica comum às duas Igrejas, tais como
concordias e concordatas.
(134) A existência de milagres é essencial para os católicos. Nos seus trabalhos de
metodologia histórica aplicada à história leiga, dedicam um capítulo especial a esta questão.
Cf., por exemplo, G. J. Carraghan, A G uide to H istoriad M ethod, Nova York, Fordham Univ.
Press, 1946, 298-304.
(135) Lisboa, Oficina Craesbcckiana, 1652-1744, 4 vols. O 1.° vol. compreende janeiro e
fevereiro, o 2.°, março e abril, o 3.°, m aio e junho e o 4.°, composto por Antônio Caetano
de Sousa, julho e agosto.
(136) M anuel Teles da Silva, História da Academia R eal da História Portuguesa, Lisboa,
1727, 63, 96, 182, 189, 219-220, 225, 304, 381.
(137) F ortunato de Almeida, H istória da Igreja em Portugal, Coimbra, Im prensa Acadê­
mica, 1910-1923, 9 vols.
(138) Direito civil eclesiástico brasileiro antigo e moderno em suas relações com o direito
canônico, ou Coleção completa cronologicamente posta desde a prim eira dinastia portuguesa
até o presente, R io de Janeiro, G arnier, 1866, 3 vols. A principal bibliografia se encontra no
CEHB. Vide tam bém Berta Leite, “ O Brasil no índice bulário rom ano” . Anais do IV Cong. de
Hist. Nacional, In stitu to H istórico e Geográfico Brasileiro, 1950, vol. 2, 345.

1S5
Na introdução, C ândido Mendes trata da utilidade dos estudos teo-
lógico-canônicos, do ensino do direito eclesiástico e do progresso da Igre­
ja Católica. N o capítulo ix estuda as liberdades da Igreja no Brasil; no
x, o Padroado, e no xi, o futuro do catolicismo no Brasil. N enhum a
obra geral conseguiu, até hoje, ultrapassar o D ireito civil eclesiástico,
que reuniu os frutos de um a pesquisa exaustiva, orientada por seguro mé­
todo e pela competência universal de C ândido Mendes. F. de Lacerda
de Almeida prosseguiu neste caminho realizando tam bém com grande
competência seu estudo A Igreja c o Estado brasileiro. Suas relações no
direito brasileiro(1S8a).
Antes escrevera Inácio Acióli de Cerqueira e Silva a história eclesiás­
tica da Bahia (1S0). Mais tarde, a história da Igreja, que tinha no direito
civil eclesiástico um a fonte e um a inspiração metodológica, foi retratada
em livros limitados à história religiosa regional, como os de m onsenhor
Alves Ferreira dos Santos (140) sobre a arquidiocese do Rio de Janeiro, de
Francisco de Paula e Silva (141) sobre a história eclesiástica do M aranhão,
do Cônego R aim undo T rindade (142) sóbre a arquidiocese de M ariana, ou
de m onsenhor Paulo Florêncio da Silveira Camargo (143), sobre a Igreja na
história de São Paulo, todos contribuindo para o m elhor conhecim ento
da Igreja no Brasil.
A história geral continua seu curso, não com a força e a inspiração
que movera C ândido Mendes, mas com o mesmo desejo de ilustrar as ati­
vidades da Igreja no Brasil, como nos tratam entos do padre M anuel Bar­
bosa (144), Paulo Florêncio da Silveira Camargo (145), Américo Jacobina
Lacombe (146), ou na lim itação tem poral (época colonial), de frei Odulfo
van der Vat (14T).
Poucas, por outro lado, são as notícias históricas dos vários arcebis-
pados e de seus titulares, citando-se entre outras as de Francisco Soares
Maris (14S) sobre as instituições canônico-pátrias, em que o autor se mostra
(138a) Rio de Janeiro, 1924.
(139) Memórias históricas e politicas da provincia da Bahia, Bahia, 1835-37, 4 tomos.
O 4.° trata dos bispos da Bahia; 2.a ed., Bahia, 1919-1940, 5 tomos, sendo os bispos da
Bahia tratados no t. 5.°.
(140) A arquidiocese de São Sebastião do R io de Janeiro, R io de Janeiro, 1914.
(141) Apontam entos para a história eclesiástica do M aranhão, Bahia, T ip . de São F ran ­
cisco, 1922.
(142) A arquidiocese de M ariana, 1.a ed., São Paulo, 1928-1929, 3 vols.; 2.a ed., Belo
Horizonte, 1953-1955, 2 vols.
(143) A Igreja na história de São Paulo, São Paulo, 1952-1953, 7 vols.; e H istória ecle­
siástica no Brasil, Petrópolis, E ditora Vozes, 1955.
(144) A Igreja no Brasil, R io de Janeiro, 1945.
(145) História eclesiástica do Brasil, Petrópolis, 1955.
(146) Américo Jacobina Lacombe, capítulo sobre o Brasil, in R ichard Pattee, E l cato­
licismo contemporáneo en hispanoamerica, Buenos Aires, 1951.
(147) Principios da Igreja no Brasil, Petrópolis, E ditora Vozes, 1952.
(148) Instituições canônico-pátrias, Rio de Janeiro, T ip . N acional, 1822. O autor, natural
de Pernam buco, form ado em leis pela Universidade de Coim bra, escreveu este livro para uso do
clero pernam bucano, que dele tanto necessitava, especialmente “ porque a constituição do arcebis-
pado da Bahia, de que se servia o bispado de Pernam buco, contém umas decisões e m uitas
tem poralidades que são usurpações da soberania terrena” . A princípio, trata da história
eclesiástica pernam bucana, do direito canônico escrito e não-escrito, de coleções de cânones e
decretos, e escreve que para compor sua história “ desenterrei carcomidos papéis, m endiguei tr u n ­
cados m anuscritos e descobri um im perfeito índice de ordens régias sem expressão dos motivos” .
Abrange desde o prim eiro bispo até frei Antônio de São José Bastos, em 1811.

186
pouco ortodoxo, revoltado contra o que qualificava de usurpações da so­
berania terrena, promovidas pelas constituições dos arcebispados, a de
Carlos A. Peixoto de Alencar (149) sóbre os bispos do Brasil, e a de Ma­
nuel de Alvarenga (150).
Para o conhecimento da vida religiosa no Brasil são de leitura indis­
pensável as constituições do arcebispado da Bahia, promulgadas em 1707
por D. Sebastião M onteiro da Vide, que discutira com o clero convocado
todas as leis disciplinares da Igreja (1B1).
As constituições resultaram de estudos feitos pelo Sínodo Diocesano
reunido na Bahia; foi o prim eiro código em anado de assembléia colonial,
sem audiência dos mestres do reino, e um dos grandes m onum entos da
cultura brasileira católica do século xvm. Tom aram parte no Sínodo o pro­
visor do arcebispado, o vigário-geral, o prom otor, o secretário, notários e
juizes delegados, religiosos de várias ordens (jesuítas, beneditinos, carme­
litas, franciscanos), procedendo-se de acordo com o Concilio de T rento.
No campo da história eclesiástica externa possuímos um a bibliogra­
fia de m érito incontestável. Não é nas obras dos cronistas religiosos ou
leigos, devotados à narração do desenvolvimento da vida religiosa no Brasil
que se encontram exemplos dignos de menção. Os livros de frei Agostinho
de Santa M aria, A polinário da Conceição (152) e de frei A ntônio de Santa
M aria Jaboatão (153) não merecem o nom e de história; podem ser fontes,
tal como as cartas jesuíticas dos prim eiros padres. Estas, fontes primárias,
e, as outras, fontes secundárias.
É especialmente com o padre Serafim Leite que se reinicia uma nova
e decisiva fase da história religiosa luso-brasileira (1S4). A colheita de do­
cumentos inéditos, a crítica das 'fontes, a exposição ordenada e sistemática,
a correta citação bibliográfica, mostram que a História da Companhia de
Jesus no Brasil (l55) é um dos mais m aduros exemplos da literatura his­
tórica luso-brasileira. Fica-se conhecendo am plam ente a história das ativi­
dades jesuíticas no Brasil, em bora nem sempre se possam conhecer as fon­
tes, fechadas à curiosidade leiga, e nem sempre se concorde com algumas
das interpretações do autor, devidas à sua formação e ideologia de homem
da Com panhia.
Mas a história das atividades dos jesuítas no Brasil não se lim ita ao
auto-exame pelos próprios jesuítas. O grande tema tem merecido trata-
(149) Roteiro dos bispados do Brasil e seus respectivos bispos, desde os primeiros tempos
coloniais até o presente, T ip . Cearense, 1864.
(150) O episcopado brasileiro. Subsídios para a história da Igreja Católica no Brasil,
São Paulo, 1915.
(151) D. Sebastião M onteiro da Vide, Constituições do arcebispado da Bahia, l.a ed.,
Lisboa, 1719; 2a. ed., Coim bra, 1720; 3.a ed., São Paulo, 1853.
(152) Frei Agostinho de Santa M aria, Santuário M ariano, Lisboa, 1707-1723, 10 vols.;
Apolinário da Conceição, Primazia seráfica na região da América, Lisboa, 1733.
(153) Novo orbe seráfico brasílico, ou Crônica dos frades menores da província do Brasil,
Lisboa, 1761, R io de Janeiro, 1858-59, 2 vols.
(154) A obra dc João Lúcio de Azevedo, Os jesuítas no Grão-Pará. Suas missões e coloni­
zação (2.a ed., rev., Coim bra, 1930), já dera um rum o às pesquisas regionais sobre ordens
religiosas.
(155) Lisboa, Rio de Janeiro, 1938-1950, 10 vols. Sobre esta obra, cf. José Honório R o­
drigues, “A historiografia brasileira em 1945” , N oticia de vária história, Rio de Janeiro,

187
m ento de gente de toda origem e formação, quer na publicação das fon-
tes (158), quer na interpretação histórica, como o fez, com vasta e rigorosa
pesquisa e extraordinária competência, M agnus M õ rn e r(157).
Já as histórias das atividades dos carmelitas, franciscanos, capuchinhos
e beneditinos não são tão bem conhecidas q u an to a dos jesuítas. Os tra­
balhos do Barão de Ram iz Galvão sobre a ordem beneditina em geral e em
particular sobre o Mosteiro de N. S. do M ontesserrate(158), de frei Basilio
Rõwer sóbre os franciscanos (1B8), de frei Fidelis M. do Prim ério sóbre os
capuchinhos (160) e de frei A ndré P rat sóbre os carmelitas (iei), embora
não ostentem o apuro crítico e a erudição da m onum ental obra do padre
Serafim Leite, merecem, realm ente, pelo tratam ento metódico sério do
assunto, alta posição n a historiografia religiosa (162).
Os trabalhos da pesquisa das fontes, do exame crítico bibliográfico,
da inform ação erudita, das referências prelim inares indispensáveis para
um a história legítim a estão sendo iniciados e realizados, sendo a obra de
José Carlos de Macedo Soares (163) um exemplo de inform ação geral sóbre

1951, 113-122. Serafim Leite publicou A rtes e ofícios dos jesuítas no Brasil, Lisboa, 1953;
Breves itinerários para um a biografia do padre M anuel da Nóbrega, Lisboa, 1955; M anuel
da Nóbrega, diálogos sóbre a conversão do gentio, Lisboa, 1954; Cartas dos prim eiros jesuítas
do Brasil, S. Paulo, 1954; Cartas do Brasil e mais escritos do P. M anuel da Nóbrega, Coim bra,
1955; e preparou os M onum enta Brasiliae (4 vols., 1538-1568, in coleção M onum enta Historica
Societatis Iesu, Rom a, 1954-1960); estes volumes, com capa própria, foram editados em São Paulo
pela Comissão do iv Centenário.
(156) Vide, p reparados,por Jaim e Cortesão, os m anuscritos da Coleção de Angelis, da Biblio­
teca Nacional, vol. 1, Jesuítas e bandeirantes no Guairá (1549-1640); vol. 2, Jesuítas e Baii-
deirantes no Ita tim (1596-1760), vol. 5, Tratado de M adri. Antecedentes. Colonia do Sacra­
mento ( 1669-1749); vol. 6, Antecedentes no Paraguai (1703-1751), Biblioteca Nacional, 1951-
1955. O padre Arnaldo Bruxel, do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, realizou extensa pesquisa
na E uropa e publicou Dois anos nos arquivos europeus, separata da Revista do Museu Julio
de Castilho, Porto Alegre, 1957. No volume P esq u isa sC o m m u n ic a tio n s 1, 1960, Instituto
A nchietano de Pesquisas, descrevem-se as pesquisas realizadas entre 1957-1960.
(157) T h e Political and Economic A ctivities of the Jesuits in the La Plata Región, T h e
Habsburg Era, L ibrary and Institute of Ibero-American Studies, Estocolmo, 1953; Jesuitstaten
I Paraguay M yt och verklighet, Uppsala, 1953.
(158) “ A pontam entos históricos para a Ordem Beneditina em geral e em particular
sobre o M osteiro de N. S. de M ontesserrate” , R IH G B , 1872, 6-35, 2.a parte, 249.
(159) Páginas de história franciscana no Brasil, Petrópolis, E ditora Vozes, 1941.
(160) Os capuchinhos na Terra de Santa Cruz nos séculos x v i i , xvm , xix, São Paulo,
M artins, 1942.
(161) Notas históricas sóbre as missões carmelitanas no extrem o norte do Brasil, séculos
xvii e xvm , Recife, 1941. Apêndice, Recife, 1942. Vide tam bém frei Gregório de S. M arino,
“ Os capuchinhos n a Bahia", Anais do Primeiro Congresso de H istória da Bahia, Salvador,
1950.
(162) Sobre as ordens religiosas vide: frei Ildefonso, o p m , “As ordens religiosas e
a legislação no P rim eiro Im pério” , Revista eclesiástica brasileira, dez., 1958, 970-980; Biblioteca
carmelítico-lusitana histórica, crítica, cronológica, Roma, 1754; A ugustin de Backer (e) Alois de
Backer, Bibliothèque des écrivains de la Compagnie de Jésus, ou notices bibliographiques.. . ,
Liège, Im pr. de L. G randm ont, 1853-1861, 7 tomos; A ugustin Backer, Alois de Backer e Charles
Sommervogel, Bibliothèque des écrivains de la Compagnie de Jésus, nova edição refundida e
consideravelmente aum entada, Liège, 1869-76, 3 vols.; P adre Auguste Carayon, Bibliographie
historique de la Compagnie de Jésus ou Catalogue des ouvrages relatifs à l’histoire des jésuites
depuis leur origine jusqu’á nos jours, Paris Auguste D uran, 1864. Charles Sommervogel, B i­
bliothèque de la Compagnie de Jésus. Prem ière P artie: Bibliographie p a r les Pères Augustin et
Alois de Backer. Seconde Partie: H istoire p a r le Père Auguste Carayon, nouvelle édition, par
Charles Sommervogel, Bruxelas e Paris, 1890-1932, 11 tomos.
(163) Fontes da história da Igreja Católica no Brasil, São Paulo, 1954. A propósito da
publicação de fontes, vide tam bém Berta Leite, “ H istória eclesiástica do Brasil (Subsídio)” ,
A nais do iv Congresso de H istória Nacional, 1951, 1.° vol., 207-259; C. A. Peixoto, Roteiro

188
as fontes, e os estudos do Padre Júlio M aria (1(i4) e especialmente o de
A polônio Nóbrega (163), preciosas fontes de referência e informação.
Episódios como os da luta contra os holandeses (108), problemas das
relações da Igreja e do Estado, como a Questão dos Bispos (1BT), estudos
particulares sobre capelas e igrejas (16S), sobre direito eclesiástico (169), e
sobre o Padroado (170), e vários outros (m ), especiais ou gerais sobre a
evolução religiosa no Brasil (172), ajudam a reconstruir o quadro histórico-
religioso.
Mas seria incom pleta tal visão se não se procurasse estudar as demais
religiões que vêm ultim am ente conquistando fiéis e influindo no com­
portam ento, no conformismo e nas características gerais do povo brasilei­
ro. Estudos como os de José Carlos Rodrigues (173), de Erasmo Braga e
K enneth G rubb (174), e especialmente de Emile G. Leonard (175), revelam
o nascim ento e a expansão paulatina das várias seitas protestantes (176) que
contam, hoje, com mais de dois milhões de fiéis (1964).

dos bispados do Brasil, Ceará 1801; José M oreira Brandão Castelo Branco, “ Igrejas e freguesias
do R io G rande do N orte” , R IH G B , vol. 215 (1952), 1953, 3-10.
(164) “ A religião católica. Ordens religiosas. Instituições pias e beneficentes no Brasil” ,
m em ória no Livro do centenário, R io de Janeiro, 1900, vol. 1, 81-134.
(165) “Dioceses e bispos do Brasil” , R IH G B , vol. 222 (1954), 3-328.
(166) Cf. José H onório Rodrigues, Bibliografia e historiografia do dom ínio holandês no
Brasil, R io de Janeiro,. In stitu to N acional do Livro, 1949. Posteriorm ente foi publicada vasta
literatu ra, mas, neste gênero, vide Francisco Leite de Faria, Os barbadinhos franceses e a res­
tauração pernambucana, Coim bra, 1954; idem, frei M ateus S. Francisco (1591-1663), M ontariol,
Braga, 1955.
(167) Cf. Ramos de Oliveira, O conflito maçônico-religioso de 1872, Petrópolis, Editora
Vozes, 1952.
(168) A nfrísia Santiago, Capelas antigas da Bahia, publicação n.° 1 do Centro de Estudos
Baianos, 1951; e a série Pequeno guia das igrejas da Bahia, ed. pela P refeitura do Salvador,
1949.
(169) Frei Bartolom eu, O. C., “As ordens religiosas e as leis de m ão-m orta na República
brasileira”, R evista eclesiástica brasileira, vol. 9, fase. 1, março 1949, 68-77.
(170) João Dornas Filho, O Padroado e a Igreja brasileira, C .ia E ditora N acional, 1938.
(171) Luís M onteiro da Costa, A Virgem milagrosa de S. Lucas e a invocação de N . S.
ào P ópulo, Salvador, 1953; cônego M anuel de A quino Barbosa, “ A prim eira reunião do epis­
copado brasileiro” , A nais do 1.° Congresso de H istória da Bahia, vol. vi, 467-505 (1950).
(172) T ristão de A taíde (Alceu de Amoroso Lim a), nota sobre a evolução religiosa no
Brasil, A M anhã (R io de Ja n e iro ), 9 de agosto de 1942.
(173) “As religiões acatólicas do Brasil”, m em ória in Livro do centenário, R io de Janeiro,
vol. 2, 135. Sõbre José Carlos R odrigues, cf. Charles A. G auld, R H , n.° 16, out.-dez. 1953,
427-438.
(174) T h e R epublic of Brazil. A Survey of the R eligious Situation, Londres, 1932.
(175) “Brasil, terra de H istória” , R H , n.° 2, abril-junho, 1950, 219-228; “O protestantism o
brasileiro, estudo de eclesiologia e de história social”, R H , n.° 5, jan .-março 1951; n.° 6, abril-
junho 1951; n.° 7, julho-set. 1951; n.° 8, out.-dez. 1951; n.° 9, jan .-março 1952; n.° 10, abril-
junho 1952; n.° 11, julho-set. 1952; n.° 12, out.-dez. 1952. Vide tam bém V illu m in ism e dans
un protestantisme de constitution récent (Brésil), Paris, Presses Universitaires, 1953.
(176) Afora as obras de viajantes como K idder e Fletcher, vide tam bém os opúsculos da
Ig reja evangélica de Friburgo: Oração fúnebre em memória do pastor Frederico Oswald Sauer-
bronn, Nova Friburgo, 1897; H istória da emigração friburguense para o Brasil, 1819-1820,
Nova Friburgo, 1918; C om unidade evangélica luterana de N ova Friburgo, R io de Janeiro, 1924.
Sobre atividades de missionários, como H ugh Clarence T ucker, vide L ula T hom as Holmes,
A Citizen of the Américas, H ugh Clarence T ucker, Nova York, 1951. A revista teológica do
Seminário P resbiteriano do Sul (São Paulo) contém informações úteis.

189
Além disso, nenhum historiador pode deixar de lado os aspectos so­
ciais das religiões; suas relações com nossa organização social; temas como
aqueles enumerados nesse pequeno e adm irável livro de T hales de Aze­
vedo (177), “a feição peculiar do catolicismo brasileiro, com as suas variantes
regionais relacionadas com a origem e a história política e econômica de
suas populações, — catolicismo quadrissecular, trazido de Portugal e so­
mente modificado, de modo por assim dizer vegetativo, por sua própria
dinâmica inierior como sucedeu por efeito do relativo isolamento, às sub-
culturas das regiões em apreço; catolicismo novecentista dos imigrantes eu­
ropeus, enxertado sobre a mesma matriz, porém adaptada, através de uma
história diferente daquela, a áreas agrícolas e industriais e a meios urbanos
mais dinâmicos; e no catolicismo mais tradicionalm ente brasileiro, o culto
dos santos, as devoções domésticas, as promessas, as romarias, as “bandei­
ras” e as “folias” do Divino, as irm andades, a posição e o papel das pessoas
simplesmente religiosas e daquelas consideradas “beatas” e “carolas”, bem
como dos clérigos, do seminarista, do antigo seminarista, do padre egresso;
as maneiras de participação nos atos do culto; as funções sociais, integra-
tiva e coesiva, da religião; as relações da Igreja com outras instituições;
a expansão e as características do protestantism o, do espiritismo, do ocul­
tismo, da teoria, como as implicações sociais da indiferença religiosa e do
próprio ateísmo, do peculiar anticlericalismo brasileiro; dos sincretismos,
encarados não somente do lado das religiões africanas e do espiritismo mas
do lado do catolicismo; dos surtos de fanatismo e de misticismo em torno
de líderes carismáticos, de “taum aturgos” e até de sacerdotes católicos
como o padre Cícero e o padre Antônio, de U rucânia”. Neste sentido o
livro de Thales de Azevedo, como os de Roger Bastide (178), abre um cam­
po novo de pesquisa, lançando as bases metodológicas e interpretando,
com visão sociológica, o campo da história religiosa e social.

11. H istória da história, história literária e história


das idéias ou intelectual

A emancipação da historiografia da história literária é um a realiza­


ção do princípio deste século, quando se pleiteou que a obra histórica
fosse analisada ou avaliada segundo critérios históricos e não-literários ou
estéticos. A história da história libertou-se da história literária e m oder­
nam ente constitui não somente um campo extraordinariam ente rico da
investigação histórica, com extensa bibliografia (179), como é independen-

(177) O catolicismo no Brasil, R io de Janeiro, Cadernos de C ultura, M inistério da E d u ­


cação e C ultura, 1955, 5-6.
(178) R oger Bastide, “ Contribuição ao estudo da geografia religiosa no Estado de São
P aulo” , Anais do ix Congresso Brasileiro de Geografia, vol. 3, Rio de Janeiro, 1944; “Structuros
sociales et religions afro-brésilienns”, Renaissances, n.08 2 e 3, Nova York, 1945; “Religión and
the Church in Brazil” , in Brazil, Portrait o f H a lf a Continent, Nova York, T h e Dryden Press,
1951, 334-355.
(179) Vide nota 1 do capítulo 2.

190
tem ente estudada em cursos universitários (1S0) e estim ulado seu cultivo
por instituições históricas (181).
A história da literatura no Brasil teve o seu prim eiro ensaio histó­
rico escrito por Francisco Adolfo de Varnhagen, no Florilegio da poesia
brasileira (182) . Depois da obra de V arnhagen foram publicados vários
cursos de história da literatura brasileira, como os de F erdinand Denis;
Fernandes Pinheiro; F. Wolf; F. Sotero dos Reis; Sílvio Rom ero; José
Veríssimo; A rtu r M ota; Lúcia M iguel Pereira; A ndrade Muricy; A írânio
C outinho; Eugênio Gomes e Barreto Filho, e G uilherm ino César (183).
Entre os trabalhos de síntese, o m elhor é o Compêndio de história da
literatura brasileira, de Sílvio Rom ero e João R ibeiro. Merece também
citação a Pequena história da literatura brasileira, de R onald de Car­
valho.
A história da cultura, outro campo im portante deste gênero, tem em
Fernando de Azevedo o grande e am adurecido precursor, com a sua A
cultura brasileira (1.a ed., R io de Janeiro, 1943; 2.a ed., São Paulo, 1944).
A história das idéias começou há 26 anos nos e . u . a ., num movimento
iniciado por A rth u r O. Lovejoy, professor de filosofia, cujo m étodo con­
siste na análise filosófica das idéias, dando-se atenção especial à term ino­
logia e às contradições dos escritores. Procura estudar a disseminação das
idéias através dos filósofos populares e dos poetas. Seu método pode ser
criticado pelo excessivo intelectualism o. Lovejoy fundou um a revista es­
pecial para a divulgação de suas idéias e das de seus discípulos, o Journal
of the H istory of Ideas. Concebe a m udança ideológica como um processo
que subsiste por si próprio e dá pouca atenção ao conteúdo histórico ou
psicológico. Para ele, a poesia é m eram ente um docum ento para a his­
tória intelectual e as idéias em literatura são idéias filosóficas em dissolu­
ção. A história das idéias é um a disciplina com valor de exegese para o
estudo da história da literatura (184). Deseja exam inar a influência das
(180) Vide capítulo sobre a metodologia.
(181) A iv Assembléia (Caracas, 1946) do In stituto Pan-am ericano de Geografia e H istória
decidiu “recom endar que o Instituto Pan-am ericano de Geografia e H istória patrocine a p u b li­
cação de um a Biblioteca de H istoriografia Am ericana” , que tenha como objeto servir de guia
com respeito às obras mais notáveis que existem acerca da história de cada país americano.
O Instituto já publicou: Catts Pressoir, Ernst T rouillot, Henock T rouillot, Historiographie
d’Ha'iti, México, 1953; Elsa V. Goveia, A Study on the Historiography o f the British West
Indies to the E nd of the N ineteenth Century, México, 1956; José H onório Rodrigues, H isto­
riografia dei Brasil. Siglo xvi, México, 1957; id. id., Siglo xvu, México, 1963; Efraim Car­
dozo, Historiografia Paraguaya, Mtéxico, 1959; Issae J. B arreira, Historiografia del Ecuador, Mé­
xico, 1956; José M anuel Pérez Cabrera, Historiografia de Cuba, México, 1962. A obra pioneira
e clássica da historiografia am ericana é a de R ôm ulo D. Carbia, Historia crítica de la historio-
grafia argentina, Buenos Aires, 1940.
(182) l . a ed., t. 1-2, Lisboa, 1850, t. 3, M adri, 1853, Apêndice, Viena, 1872; 2.a ed.,
Academia Brasileira de Letras, 1946, 3 vols., com a bibliografia das obras literárias de V arnha­
gen p o r Ciado R ibeiro Lessa e biografias, notas e pesquisas sóbre os autores contidos no
Florilégio, por Rodolfo Garcia. Começa com Eusébio e Gregorio de Matos, no século xvu,
e vai até José Bonifácio, Januário da C unha Barbosa e Francisco Vilela Barbosa, no século xix.
(183) A frânio C outinho, Eugênio Gomes e Barreto Filho, A literatura no Brasil, Rio de
Janeiro, 1955-1959, 4 vols.; Afrânio C outinho, Introdução à literatura no Brasil, R io de Janeiro,
1964; O tto M aria Carpeaux, Pequena bibliografia critica da literatura brasileira, l .a ed..
R io de Janeiro, 1951; G uilherm ino César, História da literatura no R io Grande do Sul
(1737-1902), E ditora Globo, 1956; Pedro Calmon, H istória da literatura baiana, Bahia, 1949; Dolor
B arreira, H istória da literatura cearense, Fortaleza, Instituto do Ceará, 1951.
(184) René W ellek, “ Literary Scholarship” , in American Scholarship in the T w entieth
Century, H arvard Univ. Press, 1953, 119.

191
idéias filosóficas sobre a literatura, a religião, o pensam ento social como
a influência dos progressos científicos sobre a filosofia e a cultura (185).
A história das idéias tem em polgado largos círculos históricos con­
tem porâneos e Pierre R enouvin, na Relação Geral que apresentou ao
décimo Congresso Internacional de Ciências H istórias (Roma, 1955) (18e),
estuda e relata as últim as iniciativas que pretendem dar um a explicação
espiritual ao com portam ento do povo. Acrescenta que n o estudo dos pro­
blemas do m étodo reconhecem os vários grupos que um a história inte­
lectual é diferente de um a história dos intelectuais ou de um a história das
idéias, e que ela deve ter por objetivo o estudo do conjunto das ativida­
des mentais, nas suas relações m útuas, isto é, que ela se propõe a ser ao
mesmo tempo um estudo com parativo e um estudo das influências recí­
procas, de conexões. N a história intelectual, a pesquisa pelas conexões
entre os vários corpos conjuntos de pensam ento e as áreas relacionadas de
experiência intelectual e social é central e sistemática (187). A história
intelectual começou a crescer nos e . u . a . a p a rtir de 1940 e seus inves­
tigadores reconhecem que o aparecim ento, declínio e modificação de con­
ceitos, como democracia, nacionalismo, individualism o, consciência de clas­
se, preconceito racial, antiintelectualism o, e crenças fundam entais sóbre
Deus e a natureza ainda desafiam a erudição histórica (188).
R enouvin lem bra que duas escolas se “desenham ”: para uns basta
exam inar essas influências no seio da elite intelectual, isto é, pesquisar
q u e relações é possível estabelecer entre as preocupações e as concepções
dos “homens de pensam ento”; outros desejam ir além; querem ver em
que m edida a influência desses homens se exerce sóbre as massas, reconsti­
tuir, em suma, o clima intelectual de u m povo, determ inar os motivos das
mudanças dèsse clima.
N a América, afora os e . u . a . , é especialmente no México, C uba e
A rgentina que se desenvolvem estudos desta natureza. A prim eira R eu­
nião de Consulta da Comissão de H istória do Institu to Pan-americano
de Geografia e H istória resolveu (Resolução x v i i ) recom endar às institui­
ções culturais a criação de centros de investigação nos países onde não
existiam , para que neles se elaborem as respectivas histórias nacionais das
idéias, o pensam ento e a filosofia; recom endar o estabelecimento de cáte­
dras como se faz n a Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade
N acional A utônom a do México, e estim ular os trabalhos prévios de um a
H istória Geral das Idéias, pensamento e Filosofia na América (189). Pela
Resolução x v i i i , recom endava que a Comissão de H istória estudasse a
conveniência de criar um Comitê de H istória das Idéias (190) . C riado o

(185) A obra principal de Lovejoy é T h e Great Chain of Being, H arvard Univ. Press, 1936.
(186) “ L 'orientation actuelle des travaux d ’histoire contem poraine” , Relazioni, vol. 6,
Florença, Sansoni, 1955, 354-356.
(187) John H igham , “T h e Rise of American Intelectual H istory” , A H R , abril 1951, 453-471.
(188) Id ., 467 e 471.
(189) Primera reunión de consulta de la Comisión de Historia, Instituto Pan-am ericano
d e Geografia e H istoria, México, 1947, 29.
(190) Id., 30. A 2.a R eunião (1950) reafirm ou as resoluções da prim eira (Resolução n.°
x ix ) . Cf. Segunda reunión de consulta de la Comisión de Historia? Instituto Pan-am ericano de
Geografia e H istória, México., 1951., 20.

192
Comitê, com a finalidade de estim ular o estudo das idéias, o pensam ento
c as influências filosóficas no continente, planejou-se um largo program a
de publicações, com a ajuda financeira da Fundação Rockefeller (191).
N o Brasil, João Cruz Costa estudou o desenvolvimento da filoso­
fia no Brasil, analisou a herança portuguesa, as vicissitudes da formação
colonial, o pensam ento e as idéias du ran te o século xix, o positivismo e
as idéias do século x x ( 192).
A história das idéias desenvolveu-se m uito no Brasil nos últim os
anos, com Ivan Lins à frente(192a). A coleção “H istória das Idéias no
Brasil”, dirigida por Luís W ashington Vita, é m uito representativa desse
esforço de colher e criticar as idéias influentes no Brasil.
A história d a erudição histórica h á de ser também, cedo ou tarde,
um tema da história intelectual (19S).

12. H istória d a ciência

A iniciativa da historiografia científica deve-se a Ranke, quando,


em 1858, apresentou à Comissão H istórica da Academia Bavariana um a
notável m em ória pleiteando que a H istória da Ciência Alemã fósse es­
crita p or um grupo de especialistas de reconhecida competência (194).
N o ano seguinte, R anke desenvolveu a idéia nu m discurso, n a mesma
Academia, sob o título de "Esquema para um a história da ciência na
A lem anha” (19B).
J á vimos, q uando tratam os das relações filosóficas da história com as
ciências naturais, que o novo nesse campo era a tendência dessa a his-
torizar-se, m ediante a introdução da idéia da evolução e o emprego do
tempo, no sentido histórico. O evolucionismo, fazendo abandonar a idéia
d a natureza como um sistema estático, increm entou o prestígio do pen­
sam ento histórico. Como lem bra Collingwood, havia antagonism o entre o
(191) O Boletim do Comité de Historia de las Ideas en America publicou u ni plano orga­
nizado p ara a divulgação de vários trabalhos sõbre a história das idéias na América.
(192) Contribuições à história das idéias no Brasil, R io de Janeiro, José Olympio, 1956.
(192a) Ivan Lins, H istória do positivism o no Brasil, São Paulo, 1964; R oque Spencer M a­
ciel de Barros, A ilustração brasileira e a idéia de universidade, São Paulo, 1959, e A evolução
do pensamento de Pereir<a Barreto, São Paulo, 1967; Francisco Iglésias, E studo sobre o pensa­
m ento reacionário: Jackson de Figueiredo, Belo Horizonte, 1962, separata da Revista Brasileira
d e Ciências Sociais, vol. 2, n.° 2, ju lh o 1962. V am ireh Chacón, H istória das idéias socialistas
no Brasil, R io de Janeiro, 1965; L uís W ashington Vita, Tríptico de idéias, São Paulo, 1967;
José Antônio T obias, Idéias estéticas no Brasil, São Paulo, 1967; João Camilo de Oliveira T orres,
Idéias religiosas no Brasil, São Paulo, 1968; Antônio Paim , Idéias filosóficas no Brasil, São
Paulo, 1967.
(193) O livro clássico sobre o assunto é o de John Edw in Sandys, A Short History of Classical
Scholarship, Cam bridge, 1915. Vide tam bém H istorical Scholarship in America. A R eport by
the Comm ittee of th e Am erican Historical Association on the P lanning of Research, Nova York,
1932; e Merle C urti {org.), Am erican Scholarship in the T w entieth Century, H arvard U niv.
Press, 1953.
(194) H Z, i, 1859, 29-35; reim pressa nas Sãmíliche W erke, 3.a ed., Leipzig, 1824-90, vol. 54,
41-52 e 485-91.
(195) Leopold R anke, “E ntw urf zu ein er Geschichte der Wissenschaft in D eutschland” ,
H Z, i i , 56-6L

193
pensam ento histórico e o científico. A história exigia um a m atéria essen­
cialm ente progressiva, e a natureza um a essencialmente estática.
Com Darwin, o ponto de vista científico capitulou ante o histórico,
e ambos concordaram em aceitar seu m aterial como progressivo. A evolu­
ção podia ser usada como um term o genérico, com preendendo o progresso
histórico e natural. A vitória do evolucionismo, nos círculos científicos,
significou não só a tentativa de in ju riar a história, submetendo-a à lei da
natureza, como tam bém um a redução parcial da natureza à história, ao
conceito de tempo e progresso (196). A história livrou-se da injúria devido
à solidez do seu m étodo definitivam ente estabelecido. A natureza deixou-
se em parte historizar, levando os especialistas ao estudo da história de
cada ciência natural.
A história da ciência natural no Brasil relem bra os prim eiros cro­
nistas, os viajantes e os estudiosos da botânica, zoologia, m atéria médica,
m edicina e geografia física, cujas observações m uito contribuem para o
conhecim ento do nosso país. O m elhor trabalho até hoje realizado sóbre
essas explorações científicas foi escrito por Rodolfo Garcia (197), que se
ocupa das prim eiras investigações astronômicas, dos prim eiros viajantes,
da marcação de latitudes e longitudes da costa, das prim eiras tentativas
cartográficas, das prim eiras observações médicas de Piso e das observações
sobre a botânica e a zoologia feitas desde os prim eiros cronistas até os mais
recentes viajantes.
Sobre a utilidade desses estudos, não para as ciências naturais, sóbre
as quais não nos cabe aqui dizer, mas para o próprio conhecim ento histó­
rico, basta assinalar que eles nos revelam as condições prim itivas de nossa
vida m aterial (188).
Os principais trabalhos de história da botânica, da zoologia, da mi­
neralogía e da geologia no Brasil encontram-se registrados no Catálogo
da Exposição de História do Brasil. T rabalhos mais recentes sóbre a bo­
tânica e a agricultura, a biologia, a fitogeografia, a fauna e a flora do
Brasil são os de F. C. Hoehne, Melo Leitão, A. J. de Sampaio, Alípio de
M iranda R ibeiro e Olím pio da Fonseca (199).
As histórias da m edicina, da higiene e saúde publicas (200) têm sido
tam bém cultivadas e apresentam a mesma utilidade no campo da histó­
(196) R. G. Collingwood, T h e Idea o f History, Oxford, Clarendon Press, 1946, 129.
(197) “Explorações científicas no Brasil” , D HGEB, 856-910.
(198) José R ibeiro de Souza Fontes, “ Quais foram os anim ais introduzidos na América
pelos conquistadores ?” , R IH G B , t. 19, 1856, 509-527; Francisco F reire Alemão, “ Quais as p rin ­
cipais plantas que hoje se acham aclim atadas no Brasil ?”, R IH G B , t. 19, 1856, 539-78.
(199) F. C. H oehne, Botânica e agricultura no Brasil no século xvi, São Paulo, C .ia Edit.
Nac., 1937; C. de Melo Leitão, A biologia no Brasil, São P aulo, C .la E dit. Nac., 1937; A. J.
de Sampaio, Fitogeografia do Brasil, 2.a ed., rev. e aum ., São Paulo, C .la E dit. Nac., 1938;
A lípio de M iranda R ibeiro, “ Fauna do Brasil” , D H G EB, \, 190-219; Olím pio da Fonseca, “ Flora
do Brasil” , D HGEB, i, 210-225; Olivério M. de Oliveira P into, “ A zoologia no Brasil” , in
A s ciências no Brasil, São Paulo, Edições M elhoramentos, s. d., 93-148; M ário Guim arães Ferri,
“ A botânica no Brasil” , in ob. cit., 149-200.
(200) A principal H istória da medicina em Portugal é a de M axim iano Lopes, Coim bra,
1899, 2 vols. No Brasil, vide Licurgo Santos Filho, História da medicina no Brasil ( do séc.
xvi ao séc. xix), São Paulo, 1947; Plácido Barbosa e Cássio Barbosa de Resende, Os serviços
de saúde pública no Brasil, R io de Janeiro, 1909; Clem entino Fraga, A febre amarela no Brasil,
Rio de Janeiro, 1930, e Orientação profissional e higiene pública, R io de Janeiro, 1934.

194
ria geral. Elas nos dirão as epidem ias que sofremos e as principais espé­
cies das chamadas doenças tropicais, assim como as prim eiras iniciativas,
como a da criação do prim eiro laboratório quím ico no Brasil, em 1812,
a do tabelam ento dos preços das drogas medicinais em 1808 (201) e outras
de interesse mais am plo ou restrito.
É verdade que alguns especialistas, como Afrânio Peixoto, dizem que
a saúde no globo é independente da fatalidade das latitudes e que se
pode declarar que o Brasil, por exemplo, não tem nenhum a doença pró­
pria. A nossa história nos teria mostrado, sucessivamente, a im portação
da varíola, da febre am arela, do cólera, do tracoma, trazidos por europeus,
e das quais m uito custamos a nos desvencilhar. Apenas a m alária, desde
os tempos da Colônia, e o beribéri desde o século passado constituíram
as doenças mais notórias. A febre amarela, que se tornou um problem a
no Brasil, foi im portada no período colonial e depois, novamente, em
1849. A sífilis, segundo, especialmente, as pesquisas de Friederici (202),
não era originária da América, como disseram sempre alguns autores. Foi,
tam bém , im portada.
A frânio Peixoto, que foi dos nossos melhores especialistas no campo
da m edicina pública, chegou à conclusão de que não h á doenças climáticas
e, portanto, que não h á doenças tropicais (203). Nos trabalhos de Melo
Morais (204) e de J. F. Sigaud (205) encontram os excelentes capítulos para
a história da m edicina e cirurgia nos tempos coloniais e no Im pério e sobre
a introdução da hom eopatía no Brasil. Autores de contribuições m ais
recentes são J. E. T eixeira de Sousa, Alfredo Nascimento, J. P. Fontenelle,
Álvaro A. de Sousa Reis, A rtur Viana, Joaquim José da Silva Jardim ,
Ju lian o M oreira, M aurício de Medeiros e M ário P inotti (206). Seus tra­
balhos podem dar-nos um a boa visão desses problem as no Brasil.

(201) Cf. Antônio Delgado da Silva, Coleção de legislação portuguesa, volum e correspon
dente aos anos 1811-20, 1825, 117, decreto de 25 de janeiro de 1812, e volume correspondente aos
anos de 1808-10, 630, decreto de 5 de novembro de 1808.
(202) Georg Friederici, Der Charakter der E ntdeckung un d Eroberung Amerikas, t. 1,
S tuttgart, 1925.
(203) Clima e saúde. Introdução biogeográfica à civilização brasileira, São Paulo, C .la E dit.
Nac., 1938.
(204) H istória da trasladação da Córte Portuguèsa para o Brasil em 1807-1808, R io de
Jan eiro , 1872; Brasil histórico, R io de Janeiro, 1866-1868, 3 tomos.
(205) D u clim at et des maladies du Brésil, ou statistique médicale de cet E m pire, Paris,
1844; Discurso sobre o estado atual da farmácia no R io de Janeiro, R io de Janeiro, Seignot-
P lancher, s. d.
(206) José E duardo T eixeira de Sousa e Agostinho José de Sousa Lemos, “As ciências
médico-farm acêuticas. M em ória” , in Livro%do centenário, R io de Janeiro, 1901, l .a parte, introd.
de J. E. T . de Sousa, 1-63 e 2.a parte, 1808-1900, de A. J. de Sousa Lemos, 64-147; J. E.
T eix eira de Sousa, A medicina antes da organização do ensino médico, R io de Janeiro, Jornal
do Comércio, 1908; Alfredo Nascim ento, Prim ordios e evolução da medicina no Brasil, R io de
Janeiro, Academia Nacional de Medicina, 1929; J. P. Fontenelle, “ H igiene e saúde públicas” ,
D H G EB, i, 418-64; Álvaro A. de Souza Reis, “ H istória da m edicina no Brasil” , D H G EB, i, 1.279-
1.293; A rtu r Viana, A s epidem ias no Pará, P ará, 1906; Joaquim José da Silva Jard im , “ Higiene
pública. Apontam entos para a história da repartição da Saúde no porto do Rio de Janeiro” ,
Anais do 1.° Congresso de H istória Nacional, m , 717-756, t. esp. da R IH G B ; Juliano M oreira,
“ O progresso das ciências no Brasil” , A B N , xxxv, 32-47 e 147-163; M aurício de Medeiros, “A
evolução da m edicina brasileira” , in Aspectos da formação e evolução do Brasil, R io de Janeiro.
Jo rn al do Comércio, 1953, 298-317; M ário P in o tti, Vida e m orte do brasileiro,, Rio de
Janeiro, 1959.

195
A mais im portante contribuição p ara a historia das ciências é de
iniciativa de Leonídio R ibeiro, n a obra organizada sob a direção de Fer­
nando de Azevedo, As ciências no Brasil (207).
A historia das chamadas ciências naturais (zoologia, botânica, mine-
ralogia, etc.) tem sido mais cultivada que a das ciências exatas (matemá­
tica, física etc.), que encontram nas indicações acima o prim eiro tratam ento
histórico já realizado no Brasil.

13. H istória da educação

A história da educação no Brasil ainda não foi escrita. Os estudos


publicados sobre a evolução geral do ensino em seus vários graus carecem
de pesquisa, desconhecem as fontes e repetem-se na compilação dos fatos
sumariados. O levantam ento bibliográfico já feito (208), não exaustivam en­
te, pode servir como um -roteiro inicial, para estudo mais sério. T o m an ­
do-se como base a divisão política das etapas de nossa história, pode-se
dizer que mesmo a história colonial ainda está por se fazer. H á, nesta
fase, contribuições definitivas para certos aspectos, como o do ensaio jesuí­
tico e franciscano no Brasil (209) e o superior da Universidade de Coim­
bra (210).
Mesmo o exame cuidadoso da legislação colonial nunca foi feito, em­
bora se saiba que as obras de J. J. de A ndrade e Silva, A ntônio Delgado
da Silva e as compilações de leis extravagantes (211) reúnem grande parte
das leis e reformas do ensino. O desconhecimento dessas fontes, essenciais
no caso, e a falta de dom ínio com pleto da bibliografia histórica im pedem
um a realização de categoria científica. A pesquisa dos arquivos coloniais
de Portugal visando à história da educação, para com pletar o exame da
bibliografia, e a análise e compilação da legislação tam bém nunca foram
feitas, se excetuarmos as obras do padre • Serafim Leite, as publicações
(207) Edições M elhoram entos, s. d.
(208) R aul B riguet, “Educação" (1500-1899), Lourenço Filho, “Educação” (1889-1941),
in M anual bibliográfico de estudos brasileiros, R io de Janeiro, 1949, 151-159, 159-166, biblio­
grafia, 167-197. A obra bibliográfica principal é a do CEHB (1881), ii, 1.057 e seguintes, e
Suplem ento, 1689.
(209) H istória da Companhia de Jesus, do P .e Serafim Leite, Lisboa, R io de Janeiro,
1937-1950, 10 vols., especialm ente vols. 1, 4, 5, 6 e 7 sobre os vários colégios e o ensino superior
nas várias capitanias. O livro 2 do vol. 7 trata do m agistério de dois séculos. Vide tam bém ,
de Serafim Leite, O curso de filosofia e tentativa para se criar a universidade do Brasil no
século xvu, R io de Janeiro, Universidade Católica, 1948 (Separata de Verbum , t. 1, fase. 2,
ju n h o 1948); João Gonçalves, prim eiro mestre de noviços no Brasil (1556), R io de Janeiro,
Universidade Católica, 1951 (Separata de Verbum , t. 8, fase. 3, março 1951); A cabana de
A ntônio R odrigues, prim eiro mestre-escola de São Paulo (1553-1554), Lisboa, 1953 (Separata de
Brotéria, l v i , abril 1953). Sobre o ensino superior franciscano, vide Frei Basilio Rõwer,
Franciscanos no sul do Brasil durante o século xvm , A contribuição francesa na formação
religiosa da capitania das M inas Gerais. Os estudos da provincia franciscana da Imaculada
Conceição do Brasil nos séculos x v i i e xvm , 2.a ed., Petrópolis, 1954.
(210) Universidade de Coimbra. Publicações do A rquivo Nacional, R io de Janeiro, 1941.
Francisco Morais, E studantes da U niversidade• de Coimbra nascidos no Brasil, Coim bra, 1949
(In stitu to de Estudos Brasileiros da Universidade de Coimbra). Vide tam bém “E studantes B ra­
sileiros da Universidade de Coim bra (1772-1872)”, A B N , l x i i (1942), 137-335.
(211) Coleção cronológica, ob. cit. (1603-1700); Coleção de legislação, ob. cit. (1750-1820)
e as várias coleções de leis extravagantes citadas na p arte “ H istória do direito” .

196
sobre os estudantes brasileiros na Universidade de C oim bra e alguipas
raras investigações(212), assim como o magnífico roteiro histórico-legal de
Oliveira Santos (213).
Os educadores ou publicistas (214) que têm escrito a história da edu­
cação desconhecem os princípios da pesquisa histórica e se lim itam a re­
petir os trabalhos anteriores. Um só exemplo bastaria para comprovar o
desconhecimento total das fontes legais. Todos ou quase todos os publi­
cistas tratàin de Pom bal e da expulsão dos jesuítas e se esquecem da lei
de 28 de ju n h o de 1759, fundam ental pela reform a de ensino que intro­
duziu (21B).
Já a época im perial da instrução pública está m elhor tratada (2le) e
assim mesmo por m uito poucos estudiosos, que se arrojaram às investi­
gações arquivais, consultando os relatórios ministeriais, alguns m anuscri­
tos, outros impressos, lendo a legislação da época. Alguns, viciados ainda
no regime da compilação, deixaram de se referir a qualquer fonte, em­
bora as tivessem consultado, pois de outro m odo não poderiam se reportar
aos fatos reunidos. N a época im perial outras fontes se apresentam aos es­
tudiosos e foram pouco ou quase nada consultadas, tais como a legislação,
os discursos no Parlam ento (Anais), os relatórios provinciais e, ultim a­
mente, as reuniões e exposições, planos e obras individuais e oficiais de
reforma, as descrições da atualidade e a obra pedagógica, fontes essenciais
tam bém da história da educação n a R epública (217).
Nestas acrescente-se o exame cuidadoso e mais extensivo, porque mais
freqüente, dos planos de reform abas discussões da atualidade educacional
e os documentos oficiais, as interpretações críticas sobre a m oderna e con­
tem porânea pedagogia (218), os estudos e pesquisas sobre o ensino de cer-
(212) M. D. M oreira de Azevedo, “A instrução pública nos tempos coloniais", R IH G B ,
vol. 55, 2.a parte, 141-158; Afonso d ’E. T aunay, “ Os jesuítas e o progresso cultural. Os jesuítas
e o ensino colonial", Mensário do Jornal do Comércio, t. 115, vol. 3, 619-623, 673-677, 731-735,
R io de Janeiro, setembro de 1941; id., “ Coisas do ensino e da cultura no São Paulo regencial” ,
Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, vol. 22, n.° 55, julho-set. 1954, 142-150. Vide tam ­
bém Ernesto G oulart Penteado, “ A instrução p o p u lar em São P aulo”, R IIIG SP , xxn, 309.
(213) M. P. de Oliveira Santos, “ Instrução pública” , DHGEB, I, 373-382.
(214) Vide M BEB. J. R. Pires de Almeida, U instruction publique au Brésil, histoire et
législation, R io de Janeiro, 1889 (só consultou a legislação do Império); José Veríssimo Dias
de Matos, “A instrução e a im prensa. M em ória”, in Livro do centenário, R io de Janeiro,
Im prensa Nacional, 1900, vol. 1 (1500-1822); Fernando Magalhães, “O ensino público” , Anais
do 1.° Congresso de H istória do Brasil (1914), t. esp. da R IH G B , vol. 3, 482-488; Sud Menucci,
“Instrução pública (1822-1922)”, O Estado de São Paulo, 7 de setem bro de 1922; Afrânio
Peixoto, “ Cem anos de ensino p rim ário ", in Livro do centenário do poder legislativo, R io de
Janeiro, 1926, vol. I, 401-527; R aul Alves, Esboço histórico e critico geral da educação, R io de
Janeiro, 1929; A ntônio Figueira de Almeida, H istória do ensino secundário no Brasil, R io de
Janeiro, 1936; Francisco Venâncio Filho, “ A evolução da educação no Brasil” , Formação, ano 3,
n.° 23, R io de Janeiro, 1940; Ernesto de Sousa Campos, Educação superior no Brasil, R io de
Janeiro, M. E. S., 1940; A. Carneiro Leão, “T h e E volution of Education in Brazil” , in Brazil,
P ortrait of H a lf a C ontinent, Nova York, 1951, 313-333; R au l B ittencourt, “A educação, brasileira
no Im pério e na R epública” , in Aspectos da formação e evolução do Brasil, R io de Janeiro,
Jo rn al do Comércio, 1953, 113-139, reprod. in Rev. Bras. de Est. Ped., xix, n.° 49, jan.-m arço
1953, 41-76.
(215) Vide José H onório Rodrigues, “O ensino na época colonial”, O Jornal (R io de J a ­
neiro), 13 de novem bro de 1952.
(216) Vide obra de J. R . P ire s de Alm eida e os estudos de Prim itivo Moacvr, in M BEB.
(217) Vide M BEB.
(218) Vide M BEB.

197
tas disciplinas (219), os estudos biográficos de educadores (22°), as pesquisas
históricas (221), os artigos de revistas e de im prensa e os dados estatísticos
(222), e se teriam as bases docum entais para contar a historia da educação
no Brasil.

14. H istoria da imprensa

O jornal, como um a das principais fontes de inform ação histórica,


merece do historiador consideração toda especial. Mas nem sempre a in­
dependência e exatidão dom inam o com entário editorial. Ele é quase
sempre um a m istura do im parcial e do tendencioso, do certo e do falso.
O problem a da autoridade, fidedignidade e autenticidade do jornal como
fonte histórica é tão discutido que, em 1908, um a sessão in teira do Con­
gresso A nual da Associação Histórica Am ericana foi dedicada a esse assun­
to. É claro que o jornal pode dar-nos a cor e a vivacidade de um a época,
pode guiar-nos ñas m anobras externas da vida política, pode fornecer-nos
várias e curiosas noticias de historia social e económica.
A discussão de problem as desta natureza pouco tem preocupado os
historiadores da Im prensa no Brasil. Eles se lim itaram sempre à exata ou
inexata narração dos periódicos e jornalistas que desde os tempos da In ­
dependência form aram ou expressaram a opinião pública.

BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA DA IMPRENSA

Vide C E H B . A lfredo do Vale C abral, A n a is da im p re n sa n a c io n a l d o R io de


J a n e iro , d e 1808 a 1822, R io de Jan eiro , T ip . N acional, 1881: Supl. (1823-1831), A B N ,
vol. 73, 1954; Francisco de Sousa M artins, “ Progresso do jornalism o no B rasil”, R I H G B ,
t. 8, 2-a ed., 1867, 262-275; M. D u a rte M oreira d a Fonseca, “O rigem d a im prensa no
R io de Ja n e iro ”, R I H G B , vol. 31, 1865, 169; Sessenta anos d e jo rn a lis m o . A im p re n sa no
M a ra n h ã o , 1820-1880, R io de Jan eiro , 1883, p o r Ign o tu s (pseudônim o de Jo aq u im
M aria Sena Sobrinho, cf. T an c red o de B arros Paiva, A c h e g a s a u m d ic io n á rio de

(219) Vide M BEB e ainda: A. Morales de los Rios, O ensino artístico. Subsídios para sua
história (1816-1886), s/ed., s/d; Carlos H onório de Figueiredo, “Faculdade de Direito, no
Brasil, 1859” , R IH G B , vol. 22, 507 e segs.; J. C. Sampaio de Lacerda, Esboço histórico sobre a
organização dos cursos jurídicos no Brasil, R io de Janeiro, 1939; Haroldo Valadão, “A fu n ­
dação dos cursos de ciências juridicas e sociais, base do desenvolvimento cultural do Brasil” ,
in Aspetos da formação e evolução do Brasil, R io de Janeiro, Jo rn al do Comércio, 1953, 289-
298, reprod. in R B E P , xix, n.° 49, ja n .-março 1953, 28-40; A rtu r César Ferreira Reis, Erem ildo
L. Viana, Hélio Viana, Virgílio Correa Filho, O ensino da história no Brasil, Instituto Pan-am eri-
cano de Geografia e H istória, México, 1953; L. A. Costa P into, A s ciências sociais no Brasil
(C am panha nacional de aperfeiçoam ento do pessoal de nível superior, série Estudos e Ensaios,
n.° 6 ), Rio de Janeiro, 1955; L. G. de Escragnolle D ória, M em ória histórica comemorativa do 1.°
centenário do Colégio Pedro II, R io de Janeiro, M. E. S., 1937; O tacílio Pereira, O Colégio
Pedro I I nos últim os dez anos, R io de Janeiro, s. d.; H aroldo Valadão, O ensino do direito,
especialmente do direito internacional privado, São Paulo, 1940.
(220) Vide M BE B, e ainda: Anísio T eixeira, Um educador. A bílio César Borges, RBEP,
vol. 18, n.° 47, julho-set. 1952, 150-155. Vide Biografia, in CEHB.
(221) Vide M BEB, e ainda: Sólon Borges dos Reis, “Desenvolvimento do ensino secundário
em São P aulo” , R B E P , xn, n.° 53, jan .-março 1954, 192-99.
(222) Vide M BEB.

198
p s e u d ô n im o s, R io de Jan eiro , 1929, 76); J. J. Cezar, “N otas sobre a im prensa no R io
G rande do Sul”, in A n u a r io G raciano A z a m b u ja p a ra 1885, 188-200; L afaiete d e T oledo,
"M em ória histórica (R egistro com entado de 1.536 jo rn ais e revistas do E stado de São
P aulo)”, R IH G S P , ni, 1897, 303; A ntonio da C u n h a Barbosa, "O rigem e desenvolvi­
m ento da im prensa colonial b ra sile ira ”, R I H G B , vol. 63, 2.a p a rte , 1900, 239; A lfredo
Ferreira R odrigues, “N otas p a ra a historia da im prensa no R io G rande do Sul”, in
A lm a n a q u e L ite r a r io e E sta tístic o do R io G ra n d e d o S u l, 1900, 231-257; “A Im prensa
em Belo H orizonte”, R A P M , vol. 8, 1903, 585; T a n c red o Fernandes de Melo, “Os p rin ­
cipais jornais do R io G rande do S ul”, in A lm a n a q u e P o p u la r B ra sileiro de E chenique
& Cia., 1905, 1906; A lfredo de Carvalho, “Gênese e progresso da im prensa periódica
no B rasil”, 1.° C e n te n á rio da im p re n sa p e rió d ic a n o B ra sil, 1908, 1.° vol., 1.a p arte,
tom o especial da R I H G B ; A lfredo de Carvalho, “C atálogo dos jornais, revistas e outras
publicações periódicas do Estado de Pernam buco desde 1821 a 1908”, 1.° C e n te n a rio
da im p re n sa p e rió d ic a n o B ra sil, 1908, 1.° vol., 2.a p a rte ; A lfredo d e C arvalho, D ia rio
d e P e r n a m b u c o . N o tic ia h istó rica e b ib lio g rá fica , R ecife, D iário de Pernam buco, 1908.
No p rim e iro Congresso de Im prensa Periódica no Brasil, efn 1908, afora o “C a­
tálogo” de A lfredo de Carvalho, vide: R em igio de Belido, C atálogo dos jo rn a is p a ­
raenses, 1922-1908, P ará, Im prensa O ficial, 1908; J. B. de F aria e Sousa, A. M onteiro
de Sousa, Alcides B ahia, A im p re n sa n o A m a zo n a s , 1851-1908, M anaus, Im prensa O ficial,
1908; João B atista de F aria e Sousa, “Catálogo dos jornais, revistas e o u tras publicações
periódicas do E stado do Amazonas de 1851 a 1908”, R I H G B , t. esp. do 1.° C e n te n á rio
da im p re n sa p e rió d ic a n o B ra sil, vol. 1, p a rte 2.a, 1908; M anuel de M elo Cardoso B arata,
“C atálogo dos jornais, revistas e o u tras publicações periódicas do E stado do P ará de
1882 a 1908”, id . id., 91-159; A ugusto O lím pio Viveiros de Castro, “C a tá lo g o ... do
Estado do M aran h ão de 1821 a 1908”, id . id ., 161-217; B arão de S tu d art, “C atálogo do
E stado do C eará, de 1824 a 1908”, id . id ., 219-319; L uís Fernandes, “C a tá lo g o ... do
E stado do R io G rande do N o rte de 1832 a 1908”, id. id., 321-368, e ditado tam bém
separadam ente, N atal, T ip . A R epública, 1908; Diógenes Caldas, “Catálogo. .. do Es­
tad o da P a ra íb a d e 1826 a 1908”, id. id ., 369-387; Jo a q u im T om az P ereira Diegues,
" C a tá lo g o .. . do Estado de Alagoas de 1831 a 1908”, id . id ., 683-773; M anuel A rm indo
C ordeiro G u aran á, “C a tá lo g o ... do E stado de Sergipe, de 1832 a 1908”, id. id ., 775-
813; R om ário M artins, C atálogo dos jo rn a is p u b lic a d o s n o P a ra n á de 1834 a 1907,
C u ritib a, Im prensa P aranaense, 1908; A ntônio E gídio M artins, “Jo rn a is e jornalistas
(Do Farol P a ulistano — 7 de fevereiro de 1827 ao Com ércio de São Paulo, 17 de janeiro
de 1893)”, R IH G S P , 1911, vol. 17, 113; Afonso A. de Freitas, "A im prensa periódica de
São P a u lo (R egistro com entado de 1.496 jo rn ais e revistas da cap ital de São P aulo a
p a r tir de 1823)”, R I H G S P , xix , 1913, 321-1.136; B asilio de M agalhães, “Jo rn alistas da
In d e p en d ê n cia ”, R I H G B , 1917, vol. 82, 2 a p a rte , 771; Afonso A. de Freitas, “N otas à
m argem do estudo da im prensa periódica de São P a u lo ”, R IH G S P , xxv, 1919, 445;
Afonso A. d e Freitas, “O p rim e iro centenário da fundação da im prensa p a u lista ” ,
R IH G S P , xxv, 1919, 5; M ax Fleiuss, “ A im prensa no B rasil”, D H G E B , 1922, vol. 1.°,
1550-1565; Jo ão Pio de A lm eida, “ Gênese da im prensa do R io G rande do S ul”, in
C o m e m o ra çõ es e m h o n ra d o c e n te n á r io da In d e p e n d ê n c ia do B ra sil, P o rto Alegre, A
Federação, 1923, 121; Félix G uisard Filho, “A im prensa ta u b a te a n a ”, R IH G S P , xxvm ,
1922, 153; B arào de S tu d art, P ara a h istó ria d o jo rn a lis m o cearense, 1824-1924, Ceará,
1924; 1.° centenário d o J o r n a l d o C o m é rcio , 1827-1927, R io de Ja n e iro , 1928; “ O p r i­
m eiro D iário de A lagoas”, R I H A , 1927, vol. 12, 192; A lfredo V arela, H is tó r ia da
g ra n d e re vo lu çã o , 1933, vol. 1, 308; E usébio de Sousa, “A im prensa do Ceará dos seus
prim eiros dias aos a tu a is”, R I C , x lv ii, 1933, 7-45; B arão de S tu d art, "P ara a história
do jornalism o cearense”, continuação, R I C , x lv h , 1933, 143-159; G etú lio Schilling, E v o ­
lu çã o h istó rica d a im p re n sa sa n ta m a r ie n se , 1934; B arbosa L im a Sob., A ação da im ­
p re n sa e m to rn o d a c o n s titu in te , R io de Jan eiro , 1934; Basilio de M agalhães, “A im ­
prensa rep u b lica n a em M inas G erais”, in E s tu d o s d e h istó ria d o B ra sil, São Paulo,
C.1» E d ito ra N acional, 1939; G ondim d a Fonseca, B io g ra fia d o jo rn a lis m o carioca
(1808-1908), R io de Ja n e iro , L.ivr. Q uaresm a, 1941; N estor Ericksen, A im p re n sa do
R io G ra n d e d o S u l , P o rto Alegre, L ivraria do Globo, 1941; H élio V iana, C o n trib u iç õ e s
à h istó ria d a im p re n sa brasileira, 1812-1863, R io de Jan eiro , Im prensa N acional, 1945;
C arlos Rizzini, O liv ro , o jo r n a l e a tip o g ra fia n o B ra sil, 1500-1822, C om u m breve
e s tu d o g era l so b re a in fo rm a ç ã o , R io de Jan eiro , L iv raria Kosmos, 1946; C orreio da
M a n h ã , " T ra je tó ria ”, 15 de ju n h o de 1951; José T eix eira Neves, “Fastos d a im prensa

199
n o Brasil. Q u al a p rim e ira folha re p u b lica n a d e M inas G erais J o r n a l d o B ra sil,
I.° de ju n h o de 1952; B ru n o Basseches, "In tro d u ção da im prensa n o B rasil”, D iá rio
C arioca, 22 de novem bro de 1953; L uís do N ascim ento, “H istó ria ou bib lio g rafia da
im prensa de P ern am b u co ”, D iá rio d e P e rn a m b u c o , 23 de agosto de 1953; ‘‘H om enagem
a Jú lio M esquita. O Jo rn a lista ”, C o rreio d a M a n h ã , 30 d e ja n e iro de 1955; M iguel
Costa Filho, A im p re n sa m in e ir a n o p r im e ir o R e in a d o , R io de Jan eiro , 1955; N elson
W erneck Sodré, A h istó ria da im p re n sa n o B ra sil, R io de Jan eiro , ■1966. A Secção
de Mss. d a B iblioteca N acional possui inéditos a “R elação dos jo rn ais brasileiros de
1808 a 1889”, de R afael A rcanjo Galvão, e o “Catálogo d e espécimes de jo rn ais e
m ais periódicos brasileiros”, 1908; “ Catálogo de jo rn ais e revistas d o R io de Ja n e iro
(1808-1889) existentes na B iblioteca N acional”, A B N , vol. 85, 1965.

B IB L IO G R A F IA D E H IS T Ó R IA D A T IP O G R A F IA

M elo M oraes, “A tip o g rafia no B rasil”, in H is tó r ia d a trasladação da C orte P o r­


tu g u e s a p a ra o B ra sil e m 1807-1808, R io de Jan eiro , E. D u p o n t, 1872, 114-132; A urélio
P orto, “T ip o g ra fia rio-grandense”, in P ublicações do A rquivo N acional, xxx, 1934, 326-
367; Estêvão L eão B orroul, “A tipografia e a lito g rafia no B rasil”, R I H G S P , x m , 3.

15. H istória regional e da formação territorial

Resta, finalm ente, apontar os ensaios de historiografia territorial e


regional, esta últim a hoje preferida à estadual. A historiografia regional
encontra sua preferência n a justificativa, talvez razoável, de que h á grupos
de Estados que constituem quase um a unidade regional, um a área cultu­
ral ou um a seção econômica. Eles estão quase unificados geográfica, social
e economicamente por um a consciência de si próprios, por idéias e cos­
tumes e possuem o sentim ento da distinção de suas aspirações em face de
outras partes do país.
A história regional é, afinal, o estudo das condições geográficas espe­
ciais, das tradições históricas particulares, das peculiaridades étnicas e ra­
ciais ou religiosas e de determ inados interesses econômicos, difíceis, na sua
variedade, de sentir, perceber e compreender, sem o íntim o conhecimento
geográfico, a consulta aos livros dos arquivos estaduais e municipais, das
paróquias e instituições religiosas. Esta a história regional que ainda não
foi tentada e que a historiografia brasileira reclam a como um a das suas
mais urgentes tarefas, desde a famosa sugestão feita pelo sábio M artius,
a que já nos referimos.
A história territorial abrange toda a evolução do povoamento, a di­
reção das linhas de penetração, a conquista do sertão, a exploração das
minas, os limites dos Estados, o patrim ônio territorial dos mesmos, as fron­
teiras estrangeiras. M uito tem sido feito neste particular, especialmente
sobre a conquista do sertão, o povoam ento interior, as minas, as bandeiras.
N ão é pelo título que a obra de Felisbelo Freire, H istória territorial do
Brasil (22B), seria a única que se enquadraria neste tipo de história especial.

(223) R io de Janeiro, T ip . do Jornal do Comércio, 1906.

200
O títu lo foi realm ente pouco usado, mas a atual bibliografía das minas,
das bandeiras, das fronteiras reduziu a originalidade daquele estudo.
Ela relem bra os prim eiros cronistas das Minas Gerais, como A ntonil,
Bento Fernandes F urtado de M endonça, C láudio M anuel da Costa, Diogo
Pereira R ibeiro de Vasconcelos, José Joaquim da Rocha; de M ato Grosso,
como M anuel Cardoso de Abreu, João A ntônio C abral Camelo, José Gon­
çalves da Fonseca, R icardo Franco de Alm eida Serra; de Goiás, como Dio­
go Soares, Luís A ntônio da Silva e Sousa; os do M aranhão e Amazonas,
como João Pereira Caldas (possível autor do R oteiro do M aranhão a
Goiás), M. da Gama Lobo dA lm ada; os anônimos do R io G rande do
Sul, que todos nos deram a certidão das estórias contando as novidades
da vitória e conquista territorial.
U m longo cam inho deveria percorrer a historiografia até que a figura
de C apistrano de Abreu, a p a rtir de 1899, com seus ensaios sobre os Ca­
m inhos antigos e o povoam ento do Brasil, alterasse profundam ente o es­
crito histórico no Brasil. Até então a história brasileira centralizava seu
interesse especialmente nas comunidades do litoral. A p artir daí, as m i­
nas, as bandeiras, os caminhos, como processos de incorporação e dilatação
da fronteira ocidental, passam a ser um campo novo, um m étodo de pes­
quisa e um a análise original da formação colonial do Brasil.
Os Caminhos antigos e o povoam ento do Brasil são, para a nossa
historiografia, o que foi, para a norte-am ericana, o ensaio de F. T u rn er,
T h e Frontier in Am erican H istory, de 1893; com um só estudo renovava-se
todo o espírito de nossa historiografia e se estim ulava a investigação e o
esclarecimento de um a zona nova, desconhecida, abandonada ou deslei­
xada. A investigação das bandeiras sofreu desde esse m om ento capital um
novo im pulso decisivo e o nosso saber histórico alargou-se profundam ente.
Poucos capítulos de nossa história terão sofrido um tão grande e ra­
dical alargam ento de perspectivas e de conhecim ento como o da história
las bandeiras,' a p a rtir dos inícios do século xx. A inda em 1907, Capis­
trano de A breu escrevia, nos Capítulos de história) c o lo n ia lque faltavam
documentos para redigir-se a história das bandeiras. O estudo dos cami­
nhos, da penetração e expansão articula-se diretam ente com o das ban­
deiras e infelizm ente não teve, como este, um resultado em profundidade
igual ao oferecido por Afonso d ’E. T au n ay n a sua História geral das
bandeiras (11 vols., 1924-1950) (224), obra m onum ental, extrem am ente rica
pela vastidão da pesquisa e da inform ação histórica. O utro — o dos ca­
minhos — inspirado como o das bandeiras n a obra de C apistrano, conti­
n u a a ser um tem a monográfico, de contribuições parciais, que só fu tu ra­
m ente poderão ser somadas, comparadas e apresentadas como um resul­
tado analítico geral.
As pesquisas sobre bandeirism o e história territorial encontraram em
Jaim e Cortesão um dos maiores estudiosos. O exame dos m anuscritos da
Coleção de Angelis (225) perm itiu-lhe não só apresentar um a das maiores
(224) Vide tam bém edição resum ida, H istória das bandeiras paulistas, São P aulo, C .u
M elhoram entos, s. d., 2 tomos.
(225) Vide nota 156.

201
i t .. ...............

João C apistrano de A breu,


se g u n d o r e tr a to o fere cid o p o r R o d o lfo G a rc ia à B ib lio teca N a c io n a l.

20 2
contribuições docum entais para a história do bandeirism o e da expansão
e formação do atual território nacional, como lecionar, no Instituto Rio
Branco, em 1948, um curso renovador de história da formação territorial
do Brasil (22G) e escrever um a interpretação das mais inteligentes e agu­
das sobre os bandeirantes (227), em bora de suas teorias e hipóteses — e
Jaim e Cortesão era cheio delas — se pudesse m uitas vezes discordar.
Um dos subsídios mais valiosos pela riqueza docum ental, pela novi­
dade histórica e pela interpretação crítica foi a de Sérgio B uarque de H o­
landa, com suas M onções (22íl), ao estudar os caminhos do sertão, o trans­
porte fluvial, os sertanistas e m areantes e as estradas móveis.
A bibliografia do bandeirism o, altam ente enriquecida nestes últimos
anos (229), especialmente com os trabalhos escritos e publicados em São
Paulo, recebeu de Afonso T aunay, Jaim e Cortesão, Sérgio B uarque de
H olanda e Cassiano Ricardo (Marcha para Oeste, l.a ed., 1942, 3.a ed.,
am pliada, Liv. José Olympio, 1959) a nutrição mais suculenta, quer do­
cum entalm ente, q u er teoricamente.
Ao lado do bandeirismo, a expansão territorial encontrou bom trata­
m ento nos estudos de Aurélio Porto, Souza Docca e Borges Fortes sobre o
R io G rande do Sul (230); na de Oswaldo Cabral sobre Santa C atarina (231);
e nas de Barbosa Lim a Sobrinho e A rtu r César Ferreira Reis sobre o
norte e o extrem o-norte (2S2); o estudo das fronteiras realizado por R aja
Gabaglia (233), o do território nacional por Lyra Tavares (234) e especial­
m ente o dos limites, já indicado na parte diplom ática, definem, com os
ensaios como o de M ário M onteiro de Alm eida (235), o qu ad ro e a história
da expansão territorial.

16. A biografia

A palavra biografia foi, pela prim eira vez, usada pelo poeta laureado
e historiógrafo real Jo h n Dryden (1631-1700), na introdução à tradução
inglesa de Plutarco, feita em 1683. Os alemães conheceram-na desde 1709
e os franceses só a viram reconhecida pela Academia em 1762 (23e).
(226) As apostilas foram mimeografadas.
(227) Introdução à história das bandeiras, série de 62 artigos in A M anhã, R io de
Janeiro, 1947-1949, e em O Estado de S. Paulo, 1947-1949. A série foi resum ida nos volumes
Introdução à história das bandeiras, 2 vols., Lisboa, Portugalia, 1964, das suas Obras completas.
(228) R io de Janeiro, Casa do E studante do Brasil, 1945.
(229) A m elhor bibliografia é a de Alice Canabrava, in M anual de estudos brasileiros,
R io de Janeiro, 1949, 492-526. Vide tam bém Francisco de Assis Carvalho Franco, Dicionário de
bandeirantes e sertanistas de São Paulo, São Paulo, 1954 (Comissão do iv C entenário da
Fundação da Cidade de São Paulo).
(230) Vide José H onório Rodrigues, Brasil, México, Instituto Pan-am ericano de Geografia e
H istória, 1953; id., O continente do R io Grande, R io de Janeiro, E ditora São José, 1954.
(231) Santa Catarina, história e evolução, São Paulo, 1937; L a g u n a .e R io Grànde do Sul,
3.° Congresso Sul-Riograndense de H istória e Geografia, Porto Alegre, 1940.
(232) Barbosa Lim a Sobrinho, O devassamento do P iaui, São Paulo, 1946, Brasiliana, vol.
255; A. C. F erreira Reis, vide nota 82.
(233) As fronteiras do Brasil, R io de Janeiro, 1916.
(234) A. de Lyra Tavares, T erritório Nacional. Soberania e dom inio do Estado, Biblioteca
do Exército, 1956.
(235) Episódios históricos da formação geográfica do Brasil. Fixação das raias com o
Uruguai e o P a r a g u a i Rio de Janeiro, Pongetti, 1951.
(236) J. Rom ein, Dé Biografié. Een inleiding, Amsterdã, 1948, 14.

203
À consciência m oderna, diz Reed S tu a rt(237), pode parecer paradoxal
que o cuidado zeloso pela fama póstum a não tivesse conduzido os povos
clássicos ao recurso da form a biográfica. N o entanto, até que tivesse pas­
sado o sol do gênio criador grego, a biografia não surgiu, no seu aspecto
norm al, como gênero separado da prosa. Em nenhum período de sua
civilização os habitantes do m undo helénico m anifestaram aquela paixão
pela perpetuação própria, baseada n a crença religiosa, que moveu os reis
egípcios a recorrer, n o terceiro m ilênio antes de Cristo, aos grandiosos
registos biográficos, pictóricos e m onum entais. O tem peram ento rom ano,
a esse respeito substancialm ente em contraste com o grego, acostumou-se
à composição de crônicas dos estados e familiares, destinadas a conservar
na m em ória dos vivos as gerações passadas.
O espírito comemorativo grego era outro, bem diferente, mais idealista,
menos realista ou m aterial. A reverência pelos grandes indivíduos e heróis
era parte do prim itivo conceito religioso dos povos helénicos e se m ani­
festou inicialm ente não nos márm ores e bronzes, que não constituem os
únicos registos, mas n a poesia dos menestréis e especialmente na Iliada.
e n a Odisséia, formas prim itivas da biografia heróica.
Por isso, para escrever a história da evolução biográfica entre os an ti­
gos deve-se p ropor um a definição suficientem ente am pla de m odo a com­
preender os vários registos artísticos e verbais dos fastos e personalidades,
não .incluídos n a m oderna biografia. A Iliada e a Odisséia estão repletas
de histórias das vidas dos heróis gregos. O poder de caracterização dos
poemas homéricos sobrepassa os rom anos n a exatidão e versatilidade,
como p roduto de um apurado artesanato. Os incidentes de um a simples
carreira ou a m archa de um espírito heróico são tratados simplesmente ou
n a pluralidade de várias pessoas.
A própria tragédia foi inicialm ente definida como a representação da
vida e dos discursos dos heróis. A m aioria dos dram as gregos forma um
corpo de narração das experiências da vida de personagens heróicas, cuja
historicidade nenhum grego questionava. H á, assim, um a relação espiritual
entre as principais formas de poesia grega comemorativa da personalidade
e a biografia. O elogio fúnebre, a trenodia, o epitáfio têm todos um
denom inador comum, que é o louvor à personalidade m orta, cantada pelos
seus feitos heróicos. As obséquias serviram sempre para as prim itivas
manifestações biográficas. A veia comemorativa grega manifestou-se a
princípio n a poesia e só mais tarde, com o M em orabilia de Sócrates, o
Agesilaus e .o 1.° e 2.° livros da Anabasis de Xenofonte, e o Encom ium
de Evágoras, se iniciam os tratados exclusivamente devotados à transmissão
de vidas históricas e de personalidades.
O Prof. R eed Stuart sustenta que a biografia, como gênero literário,
é contem porânea do fim do desenvolvimento grego. A poesia comemora­
tiva exerceu o mesmo papel que mais tarde tiveram a composição de di­
versos retratos dos feitos e sofrimentos dos Santos, os Acta sanctorum, as
Passiones e os Martyria. Assim como a historia da vida de Cristo e outros

(237) D. Reed Stuart, Epochs of Greek and R om an Biography, U niversity of California


Press, 1928. A p arte inicial deste capítulo foi baseada no estudo introdutório de Reed Stuart-

204
anais dos Evangelhos forneceram o m aterial p ara o dram a litúrgico da
Idade M édia, assim tam bém os auditórios gregos assistiam biografia sa­
grada expressa em form a dram ática.
O im pulso comemorativo, o estím ulo que im peliu à biografia formal
literária e histórica, cresceu e se espalhou desde a Renascença.
N a história da literatu ra portuguesa, o tesouro literário colecionado
po r Barbosa M achado regista os inum eráveis elogios fúnebres, e mais
tarde genetlíacos dos reis, rainhas e príncipes, os aplausos de anos, dos
mesmos, os epitalâm ios, os aplausos oratórios e poéticos pela saúde dos
reis, os simples elogios (2S8). O elogio fúnebre, exercitado nas associações
acadêmicas e especialmente no Brasil nos Institutos Históricos, foi sempre
a prim eira forma comemorativa biográfica. Nela alguns se distinguiram
pelo desempenho contínuo e devotado, como Joaquim M anuel de Macedo,
cujos elogios se converteram no A no biográfico brasileiro(239), e B. F. de
Ramiz Galvão cuja obra permanece recolhida nas páginas da Revista do
Instituto H istórico e Geográfico B rasileiro (240). Os elogios destes oradores
imitavam, bem ou mal, a esquematologia sancionada pela teoria retórica
grega.
O dilúvio de biografias é um fenôm eno m oderno e Carlyle asseverava
que havia m uito mais pessoas cujas histórias deveriam ser escritas, que
biografias. T odos se achavam com direito à sua biografia, mais os proe­
m inentes que os eminentes, os notórios e medalhões que os beneméritos
e dignos. A iniqüidade do esquecim ento futuro atemorizava-os e estimu-
lava-os a pleitear, sugerir ou rem unerar a distinção ao m érito de um a possí­
vel perpetuidade. Por tudo isso acentuou Sidney Lee (241) que a biografia
existe para satisfazer um instinto n atu ra l no hom em — o instinto come­
morativo.
J á n o tara H enri H auser (242), refletindo sobre a história do Brasil,
que ainda havia m uitas biografias e estudos concebidos no estilo de elo­
gios acadêmicos e se abusava das comemorações e hom enagens aos nossos
grandes heróis.
N a verdade, os historiadores sempre foram m uito conscientes dos
perigos inerentes à biografia, especialmente à biografia política em larga
escala, que provoca um a distorção da história geral de um período para
adaptá-la às necessidades do estudo do caráter e da personalidade bio­
grafada.
Políbio afirmava essa verdade ao dizer que um a visão compreensiva
da história política não podia ser obtida pelo estudo isolado de aconte­
cimentos e épocas (243). M uito mais sujeito a crítica seria o m étodo “A

(238) Cf. B. F. de Ram iz Galvão, “Diogo Barbosa M achado” , A B N , i, 1876, 31.


(239) Rio de Janeiro, 1876, 3 vols.
(240) O rador do In stitu to H istórico c Geográfico Brasileiro desde 1872, com intervalos,
e desde 1912 a 1938.
(241) Principies o f Biography, Cam bridge, 1911, 7.
(242) “ Notes et réflexions sur le travail historique au Brésil” , R evue historique, x l x x x i ,
fase. 1, ja n .-março 1937, 93.
(243) Histoires, i, 4, trad. de P. W altz, G arnier, i, 5-6.

205
Vida e a Época”, adotado por vários biógrafos ingleses, o qual tende a
exagerar a parte representada pela personalidade.
O interesse pela biografia sofreu, nesses últim os anos, acentuado de­
clínio (244), especialmente na Grã-Bretanha, onde exercia um encanto par­
ticular e era, talvez, mais praticada que em qualquer outra parte. M u­
danças sensíveis dos objetivos da historia, novos desenvolvimentos da psi­
cologia e alterações do m étodo biográfico provocaram o declínio atual, tão
notado pelos ingleses. Não se trata de sustentar a desvalia da biografia
política, como' elemento de esclarecimento do processo histórico geral. A
natureza e o exercício do poder político são assunto vital na compreensão
de q u alquer período da história hum ana, m uito particularm ente quando
a política assume caráter pessoal, como se deu n a Inglaterra do século
xvin, e continua a se dar entre nós.
N o Brasil houve sempre um predom ínio da biografia de personalida­
des sobre a própria historia política. Afirmam alguns estudiosos que um
dos traços do caráter luso-brasileiro, de sua personalidade básica está na
ênfase que no m undo luso-brasileiro se coloca nas relações pessoais e sim­
páticas, e não nas impessoais, categóricas e secundárias (245). O ra esse per­
sonalismo havia de conduzir à biografia, ao estudo da personalidade e
dos heróis, tidos como os condutores e elaboradores da história. Em 1955,
no Congresso Internacional de Ciências Históricas, Pierre R enouvin su­
blinhava o gosto da historiografia sul-americana, como da finlandesa, pe­
los estudos biográficos (24°). A personalidade histórica, expressão do per­
sonalismo de nossa vida política, é um grande centro de interesse da his­
toriografia do Brasil arcaico.
Não significa isso que se não deva estudar as personalidades históricas
e escrever-lhes a biografia, mas tão-somente que escrever a história política
através de biografias políticas é um sinal de im aturidade. Grandes livros
nacionais sobre o Brasil Reino, o Brasil Im pério e o Brasil R epública se
escreveram em torno de figuras consideradas centrais: D. João, D. Pedro I,
D. Pedro n, Nabuco de Araújo, Joaquim Nabuco, R ui Barbosa e A frânio
de Melo Franco. Os heróis aparecem nas atividades domésticas ou supe-
restruturais d a política, sem que esta últim a se coordene com as bases eco­
nômicas da vida nacional. É um a história sem economia e sem povo, qua­
se diríamos, sem querer, de exemplares de m inorias dirigentes, nem sem­
pre criadoras. São evidentes as vulnerabilidades desta espécie de histo­
riografia, altam ente valiosa pelo estudo da contribuição individual, mas
pouco esclarecedora das respostas positivas dadas aos desafios que nossa
civilização vem enfrentando. O milagre da criação e da “mimesis” depen­
deu, em grande parte, não de indivíduos, mas das m inorias criadoras, e
no Brasil para usar da expressão de Toynbee, as nossas m inorias não fo­

(244) J. H. Plum b, ‘‘T h e Interaction of History and Biography” , T L S, 6 de janeiro de


1956, xxi.
(245) E m ílio W illems, “ Luso-Brazilian C haracter” , in Portuguese Cultures in Brazil,
Atas do coloquio internacional de estudos luso-brasileiros, V anderbilt University Press, 1953,
77-78.
(246) “ L ’orientation actuelle des travaux d ’histoire contem poraine” , Relazioni, etc..
ob. cit., Florença, 1955, 333.

206
ram criadoras, mas dom inantes. A vulgarização e barbarização da m inoria
dom inante no Brasil pode ser notada desde cedo, pois já em 1640 Vieira
orava, no Sermão da Visitação de Nossa Senhora, que a enferm idade do
Brasil é como a do m enino Batista — pecado original. “Perde-se o Brasil,
Senhor, digamo-lo em um a palavra, porque alguns M inistros de S. M. não
vêm cá buscar o nosso bem, vêm cá buscar nossos bens.”
A geração atual de historiadores, diz Plum b, ocasionalmente se aven­
tura no campo da biografia e, quando o faz, limita-se à forma de ensaio.
Isto porque, mais interessados na história social e econômica e nas inter-
relações destas com a política e a biografia, desenvolveram um m étodo bio­
gráfico que m elhor atende a esses objetivos (247). O método consiste em
estudar não uma, mas centenas de biografias, de modo a criar um a espé­
cie de dicionário biográfico de uma questão histórica definitiva. O mais
formidável expoente desta técnica foi Lewis Namier, que a usou para
descobrir os liberais conservadores e independentes dos prim eiros anos
do reinado de Jorge m. Nesta análise microscópica, o sistema de dois
partidos, tão amado pelos ingleses, apagou-se, deixando atrás de si uma
m ultidão de facções e interesses (24íi). Im portantes decisões eram ado­
tadas freqüentem ente de acordo com as ambições pessoais. O estudo das
figuras do Parlam ento revelava a com plexidade dos motivos da conduta
política que o mais am plo estudo da história política tende a obliterar.
O m étodo oferecia, como oferece, seus perigos, acrescenta Plum b. Em­
bora a realidade im ediata possa ser confusa, os próprios acontecimentos
e decisões criam um a coerente dicotom ía da política. A inda os fatores
pessoais da vida política se explicam m elhor que a concentração num a fi­
gura, mesmo que se pretenda — e raram ente se consegue, evitar o trata­
m ento de figura central e revelar suas íntim as conexões com a vida, os
problem as e as outras figuras de seu tempo.
A descrição de várias vidas de um a época tem sido confinada à his­
tória política, em bora raram ente se procure ligá-la à história econômica e
social. N am ier ligou-as à história parlam entar, dissecando a vida de cada
político loquaz, ativo, silencioso, acomodaticio ou fiel aos seus princípios.
Para conhecer a vida social e econômica, para penetrar na intim idade de
um a época ou de um episódio, o largo e abundante exercício biográfico
é indispensável. T ão ou mais im portante que o conhecim ento da vida de
Nabuco de Araújo seria fornecer ao estudioso da vida social e econômica
um a série de m aterial biográfico que descrevesse a vida e mostrasse a par­
ticipação de senhores de terras, dos barões do café, nas suas relações de
classe, com lavradores e escravos. Im portantes questões seriam ou pode­
riam ser então resolvidas. O conhecim ento da vida dos senhores do vale
do Paraíba representaria um a contribuição im portantíssim a à reconstru­
ção histórica do século xix e seria m uito menos pessoal a visão, embora
pudesse ser tam bém evocativa e sentim ental.
(247) P lum b, art. cit.
(248) Vide Lewis N am ier, T h e Structure of Politics at the Accession of George m , Londres,
1929. Sobre N am ier, vide “T h e N am ier View of H istory” , T L S, 28 de agosto de 1953, e
Catherine Stratem an Sims, “ L. B.N am ier” , in Some M odem Historians of Britain, Nova York,
1951, 341-347.

207
A dim inuição do interesse pela biografia política, “the aüthoritative
lives in two or even three volumes” (249), a que se referem os ingleses e
q u e se tornou um modelo clássico hoje tão im itado no Brasil, resultou
tam bém da falta de aplicação dos progressos da psicologia n a caracteri­
zação dos tipos. A m oderna psicologia ofereceu aos historiadores novas
técnicas de interpretação. Com poucas exceções, a atual geração evita os
problem as difíceis do caráter hum ano, da personalidade, os caprichos da
conduta hum ana. A teoria de Freud, em qualquer de suas variedades,
representa um a nova dimensão para o conhecim ento hum ano, seja a es­
cola ortodoxa, seja a inglesa ou kleiniana (M elanie Klein), seja a cultural
de origem americana, representada por Erich Fromm, Karen H orney e
A braham K ardiner, influenciada pelos antropólogos culturalistas Marga-
reth M ead e R u th Benedict (250).
Esta escola notou especialmente que as generalizações de Freud sobre
a natureza hum ana, os complexos, eram simplesmente característicos da
sociedade burguesa e da classe m édia e superior da Europa Ocidental.
A escola culturalista, ao acrescentar essa dimensão histórica na visão bio­
lógica e individualista de Freud, insistia na im portância da aprendizagem
e do treino cultural. Os instintos, de cuja frustração resultavam os com­
plexos, não eram necessidades biológicas básicas, mas atitudes desenvolvi­
das na natureza hum ana por um a cultura específica.
A novidade estaria m uito mais nas imposições empíricas da historio­
grafia que n o desenvolvimento do m étodo exposto pelos seus teóricos.
Dizer, como R om ein o faz, que as características da m oderna biografia
são três: veracidade, faculdade de penetração psicológica e a realização
do retrato psicológico, não é acrescentar m uito ao que nasceu do seu pró­
prio desenvolvimento, como acabamos de ver nessa exposição. D iscutir
os problemas teóricos da boa biografia, estudando o que deve revelar in­
teresse, a capacidade do objeto, as relações do biógrafo com o objeto, e
afirm ar finalm ente que a biografia não é ética, não é história nem é
psicologia, serviu m uito como introdução, metodológica ao iniciante, mas
não representa um passo, senão didático, no progresso da realização bio­
gráfica. Os problem as da interpretação das fontes, da significação das
cartas, do papel da grafologia, do valor dos diários, da autobiografia,
da im portância da análise do estilo e do inquérito e da aplicação d a
periodização na vida hum ana, de que trata no capítulo “A técnica da
biografia”, são princípios mais metodológicos, gerais, históricos, que p u ­
ram ente biográficos (251).
Tecnicam ente, as biografias se dividem em duas classes: a biografia
oficial, escrita logo depois da m orte de um a pessoa, com a sanção da famí­
lia e dos amigos, e baseada no arquivo fam iliar, e a biografia retrospectiva,
escrita por um historiador de um a geração posterior. A segunda é freqüeii-
temente, em bora nem sempre, mais crítica; goza das vantagens de ver sua

(249) Vide J. H. Plum b, artigo cit.; G. M. Trevelyan (A Reader’s Guide Biography, N ational
Book League, 1947, 4) fala na “ two volum ed official biography” .
(250) Vide “Psychological Approaches” , T L S, de agosto de 1952; e José H onório Rodrigues,
Aspirações nacionais, São Paulo, Fulgor, l . a ed., 1963, 2.a e 3.a ed., 1965.
(251) Vide J. Rom ein, De Biographie, ob. cit., 177 e seguintes.

208
personagem afastada p o r longos anos e pode apreciar com m elhor perspec­
tiva os efeitos ulteriores de sua vida e de seus trabalhos (252). A o u tra é
um piedoso tributo, que m uitas vezes se liberta da indulgência e se torna
um subsídio de valiosa significação.
Foi devido à influência de Lytton Strachey que o público se tornou
im paciente em face da biografia oficial em dois volumes (às vezes 3) e
preferiu um simples volume com liberdade retrospectiva. A biografia pode
tam bém ser dividida, segundo Trevelyan, em vida de literatos e de ho­
mens de ação. A vantagem da prim eira sobre a segunda está especial­
m ente em que um a da* fontes prim ordiais, a correspondência, é quase
sempre m elhor redigida pelos literatos que pelos políticos. A superiori­
d ade compensadora da vida dos homens de ação está na m aior anim ação e
n a p ró p ria im portância d e suas atividades (253).
A biografia clássica com preendia a reprodução das conversas, mas o
dom de reconstruí-las é extrem am ente raro.
A biografía é um a das m ais difíceis tarefas do historiador. Estabele­
cer a relação entre a personalidade e o m undo que o rodeia, dizer o que
aquela deve a este e este àquela, sem atenuar, sem m aliciar, como queria
Shakespeare (254), pressupõe grandes qualidades. T alvez se possa dizer que
n a biografia, mais que em qualquer o u tro campo da historiografia, o conhe­
cim ento histórico se aproxim a m uito da arte (255). E talvez em razão dos
elementos artísticos ®u estéticos q u e contém, porque apela para a imagi­
nação e torna o passado mais concreto, mais real e mais vivido, a biografia
é m ais lida que a própria história (256). P orque ela hum aniza o passado e
enriquece a experiência do presente, sua popularidade cresce de tal modo
q u e as vidas romanceadas têm-se to m ad o um dos piores instrum entos de
adulteração da história (257).
È necessário, portanto, ter um a rápida idéia do desenvolvimento da
biografia n o Brasil. Ela nasceu com Simão de Vasconcelos, que escreveu
as vidas dos padres João de Alm eida e José de Anchieta. Exprimindo-se
em linguagem dura e difícil, coligiu e atestou fábulas e crendices q u e a
ignorância popular havia propagado. N ão se pode atenuar a insuficiência
o u. o desmerecimento de sua obra apelando para a época. A biografia de
Simão de Vasconcelos foi obra de pouco interesse e nenhum a salvação.
Passaram-se séculos sem n ad a digno de menção. Nos meados do
século xix, o Conselheiro Pereira da Silva andou escrevendo biografias vul­

(252) G. M . T revelyan, ob. cit., 3.


(253) G. M. T revelyan, ob. cii., 4-5.
(254) W illiam Shakespeare, Othelo, ato v, cena tí, T h e 'Complete W orks of Shakespeare,
N ova York, Oxford University Press, s. d., 340.
(255) W ilhelm Bauer, Introducción al estudio de la historia, Barcelona, Bosch, 1944,
132 e 178.
(256) Alian Nevins (T h e 'Gateway to H istory, Boston, H eafh and Co., 1938, 319)afirm a
«}ue para cada pessoa que lê um a h istó ria da guerra civil há dez que lêem biografías de
Lincoln, G rant ou Lee.
(257) J. H uizinga, IEÍ concepto de la historia y otros ensayos, México, Fondo de C ultura
Económ ica, 1946, 48„ e AUan Nevins, ob. cit., 334 e segs. Nevins m ostra como a fórm ula oferecida
em 1918 p o r Strachey foi im itada pelo estudo superficial do assunto, pela anedota fácil,
p elo enigm a divertido, de tal modo que a biografia se tornou um a fórm ula que nada custava
ao au to r e .ao leifcar, para & espantosa difusão dos M aurois, OLudwig, Zweig, etc.

209
gares de pouco ou quase nenhum valor. Varnhagem , que estava, então,
em preendendo a obra de secularização da nossa história, deu os prim eiros
passos na história verdadeira da nossa biografia. Seus pequenos estudos
biográficos, publicados n a Revista do Institu to H istórico e Geográfico
Brasileiro (258), ainda merecem ser lidos. N a verdade, porém, só a p artir
dos fins do século xix é que, sofrendo o influxo europeu, começamos a
aprender os métodos inaugurados naquele século.
Daí em diante o espírito comemorativo e o personalism o do caráter
brasileiro — a que já nos-referim os — acentuaram -se desm edidam ente e
a história política quase passou a ser a biografia política. Talvez se possa
dizer — com raras exceções — que se conhece o Brasil R eino pelo livro de
Oliveira Lim a sobre D. João vi, o Brasil do Prim eiro R einado pela vida
de D. Pedro i, e a Regência pelas biografias de B ernardo Pereira de Vas­
concelos, Diogo A ntônio Feijó, Evaristo da Veiga e José Bonifácio, de
Otávio T arq u in io de Sousa, o Segundo R einado pelo D. Pedro n de
H eito r Lyra, a vida do Visconde do U ruguai de José A ntônio Soares de
Souza, a vida de N abuco de Araújo, de Joaquim Nabuco, e a vida de
Justiniano José da Rocha, de Elm ano C ardim ; a R epública pela vida de
B enjam im Constant, de M iguel Lemos, as biografias de R u i Barbosa, a
de Joaquim N abuco p o r C arolina N abuco e Luís Viana, a de A frânio
de M elo Franco por Afonso Arinos de Melo Franco, a de A ntônio Prado
p or N azareth Prado, a de D eodoro da Fonseca por R aim undo Magalhães
Jr., a de A lberto T orres por Barbosa Lim a Sobrinho e a de E duardo
P rado por C ândido M otta Filho. O dom ínio do em preendim ento bio­
gráfico revela bem a debilidade de um a historiografia que reflete a na­
tureza pessoal do p artido político, o papel das m inorias dissociadas da
realidade econômica nacional e, no fundo, a profunda estrutura psi­
cológica da personalidade básica do povo brasileiro, que se deixa e se
tem deixado dom inar p o r fórmulas individualistas.
N a realidade, a visão de um a história política num quadro geral de
várias personalidades históricas da mesma época, como oferece de certo
m odo o conjunto da obra de Otávio T arq u in io de Sousa, excetuada a
p arte econômica e social nem sempre bem salientada, é um a rara exceção,
que só encontra paralelo na série, que é um dicionário biográfico de um
episódio, desenvolvida recentem ente por José A ntônio Gonçalves de Melo
Neto (259).
(258) O In stitu to Histórico e Geográfico Brasileiro tem, ultim am ente, prom ovido a análise
conjunta de um a figura por várias pessoas. É um m étodo m uito eficiente. Vide in R IH G B :
Cursos Joaquim N abuco, vol. 204; R u i Barbosa, vol. 205; C apistrano de A breu, vol. 221;
T eodoro Sampaio, vol. 239; Clóvis Bevilaqua, vol. 247; João R ibeiro, vol. 248; Afonso d ’E.
T aunay, vol. 248; Epitácio Pessoa, vol. 268; Euclides da C unha, vol. 271 e F. A. V arnhagen,
vol. 275; e conferências sobre Pinheiro Machado, vol. 211; T avares de Lyra, vol. 228; H onório
Herm eto Carneiro Leão, M arquês de P araná, vol. 236; cônego Fernandes Pinheiro, vol. 240;
E duardo Prado, vol. 249; José Bonifácio, vol. 260, feitas por dois ou m ais conferencistas.
(259) A ntônio Dias Cardoso, sargento m or do terço de infantaria de Pernambuco,
Universidade do Recife, 1954; D. A ntonio Filipe Camarão, capitão rfior das Índias da costa
do nordeste do Brasil, Universidade do Recife, 1954; F ilipe Bandeira de M elo, tenente de mes­
tre de campo general do Estado do Brasil, Universidade do Recife, 1954; H enrique Dias, go­
vernador dos pretos, crioulos e m ulatos do Estado do Brasil, Univ. do Recife, 1954; Francisco
de Figueiroa, mestre de campo do terço das ilhas em Pernambuco, Univ. do Recife, 1954;
Frei M anuel Calado do Salvador, Univ. do Recife, 1954; João Fernandes Vieira, id., 1956,
2 vols.

210
Não possuímos um dicionário biográfico; os de Blake e Velho So­
brinho, biobibliográficos, estão repletos de erros e incorreções. Q ualquer
tentativa de organização de um dicionário biográfico brasileiro deve co­
meçar pelo exam e dos 45.000 docum entos biográficos da Biblioteca N a­
cional, vindos da Secretaria do Im pério.

B IB L IO G R A F IA D A B IO G R A F IA

Dicionários biográficos estrangeiros:


D ic tio n a ry o f N a tio n a l B io g r a p h y , ed. by Leslie Stephen a n d Sidney Ree, rcim p.,
L ondres, Sm ith, E ider, 1908-1909, O xford U niversity Press, 1901-1940, com suplem entos;
D ic tio n a ry o f A m e r ic a n B io g r a p h y . U n d e r th e auspices of the A m erican C ouncil of
L earn ed Societies, ed. by A lien Jo h n so n a n d D um as M alone, N ova York, S cribner’s, L o n ­
dres, M ilford, 1928-35, 15 vols.; A llg e m e in e D e u ts c h e B io g r a p h ie , Leipzig, 1875-1912,
56 vols.; B io g r a p h ie u n iv e r se lle a n c ie n n e e t m o d e r n e , N ouv. ed. p u b lié e sous la d irection
de M. M ichaud, rev. corr. et considérablem ent augm . d ’articles om is ou nouveaux;
ouvrage rédigé p a r u n e Société de G ens de L ettres e t de Savants, Paris, M.me c . D es­
places, 1843-65, 45 vols.; N o u v e lle b io g ra p h ie g é n é ra le d e p u is les te m p s les p lu s recules
j u s q u ’a n o s jo u r s a vec les re n se ig n e n ts b ilio g ra p h iq u e s e t l ’in d ic a tio n d es sources à
c o n su lte r; p u b lié e p a r M M . F irm in D id o t frère, sous la d irectio n de M. le D r.
H oefer, Paris, F irm in D idot, 1853-66, vols.; D ic tio n n a ir e d e b io g ra p h ie fra n ç a ise , sous
la d irectio n d e J. B alteau, M. Borrouse, M. Prevost, Paris, Letouzey, 1933-35, 2 vols.,
só a té a p alavra A nduza; A. J. van d e r Aa, B io g r a p h isc h w o o r d e n b o e k .d c r N e d e r la n d e n ,
b e v a tte n d e leven s b e sc h rijv in g e n v a n zo o d a n ig e p e r so n e m , d ie zich o p e e n ig e rle i w ijze
in s o ns v a d e r la n d h e b b e n v e r m a a rd g e m a a k t, voortgezet d.K .J.R . van H a rd erw ijk end
D. J. Shotel, M. Suppl., H a rlem , 1851-79, 21 tom os em 27 vols.; N i e u v N e d e rla n d s c h b io ­
g ra p h isc h w o o r d e n b o e k , on d e r red, van P. C. M olhuysen e n P. J. Blok, en Fr. K. H .
Kossm ann, L eiden, 1911-33, 9 vols. D ic tio n n a ir e b io g ra p h iq u e fra n ç a is c o n te m p o r a in ,
2.a ed., Paris, 1954.

Dicionários e trabalhos bibliográficos brasileiros e portugueses:


A p rin cip al bib lio g rafía encontra-se no C E H B , o b . cit., n , 1300-1349 e Suplem ento,
1702-1705; D iogo B arbosa M achado, B ib lio te c a lu sita n a , h istó ric a , critica e cro nológica,
Lisboa, 1741-59, 4 vols.; B ib lio te c a lu sita n a esco lh id a , Lisboa, Ofic. de A ntonio Gomes
1785, q u e segundo Inocencio contém inúm eros erros, faltas e equívocos; Inocêncio F ra n ­
cisco d a Silva, D ic io n á rio b ib lio g rá fic o p o r tu g u é s , Lisboa, 1858-1923, 22 vols., sendo
q u e os vols. 10 a 21 foram continuados e am pliados p o r B rito A ranha; M a rtin h o Fonseca,
A d ita m e n to s ao d ic io n á rio b ib lio g rá fic o p o r tu g u é s d e In o c é n c io da Silva, C oim bra,
1927; A ugusto V itorino Alves Sacram ento Blake, D ic io n á rio b ib lio g rá fic o bra sileiro , R io
de Ja n e iro , T ip . N acional, 1883-1902, 7 vols.; G u ilh erm e S tu d art, D ic io n á rio b i b l i o ­
g rá fico cearense, Fortaleza, 1910-15, 3 vols.; A rm indo G uaraná, D ic io n á r io bio b lio g rá -
fic o se rg ip a n o , R io de Ja n e iro , 1925; A ntônio Jo a q u im de M elo, B io g ra fia s de a lg u n s
p o e ta s e h o m e n s da p ro v in c ia d e P e r n a m b u c o , R ecife, J856-59, 3 vols.; Francisco A u ­
gusto P ereira da Costa, D ic io n á rio b io g rá fico d e brasileiros célebres, Recife, 1882; S. A.
Sisson, G alería dos brasileiros ilu stre s, R io de Ja n e iro , 1859-61, 2 vols., 2.a ed., São Paulo,
Liv. M artins, 1948. A n to n io H e n riq u es Leal, P a n th e o n M a ra n h e n s e , M aranhão, 1873-75,
4 vols.; Jo a q u im M anuel d e M acedo, A n o b io g rá fico b ra sileiro , R io d e Ja n e iro , 1876,
3 vols.; M úcio T eix eira, O s g a úchos, 2.a ed., R io de Jan eiro , 1920-21, 2 vols.; J. F. V elho
'S o b rin h o , D ic io n á r io b io b ib lio g rá fic o b ra sileiro , R io de Janeiro, 1937-1940, 2 vols.; R am iz
Galvão, "B iografias”, D H G E B , i, 1674-1682; A. T av ares de Lyra, “A Presidência e os
Presidentes do C onselho de M inistros”, R I H G B , t. 94, 567-609, “O Senado do Im p ério ”,
id ., t. 99, 229-280, “S uprem o T rib u n a l d e Ju stiç a ”, id., t. 104, 1.035-1.058, “C onselho de
E stado”, id ., “B oletim ”, 1934, “O Senado d a R ep ú b lica de 1890 a 1930", id ., t. 210, 3-102,

211
“O s M inistros de E stado d a In d ep en d ên cia à R e p ú b lic a ”, id ., vol. 193, 3-104; Francisco
de Assis C arvalho Franco, D ic io n á rio d e b a n d e ir a n te s e se rta n ista s d o B ra sil, São Paulo,
1954; José M arcelo M oreira, I n d ic e a lfa b é tic o e re m issiv o d o A no B iográfico B rasileiro
d e J o a q u im M a n u e l d e M a c e d o , A rquivo N acional, 1965. — D icionário biobibliográfico
a tu a l é o R o n a ld H ilto n , W h o ’s W h o in L a t í n A m e ric a . P a rt vi. B ra zil, S tanford
U niversity Press, 1948. T h ir d edition, rev. a n d enlarged. A m aio r riqueza biográfica
se encontra n a b ib lio tec a N acional, n a coleção D ocum entos Biográficos.

17. Historia social

A história política tem sido vista como soma de atividades de políticos,


de personalidades influentes, como expressão de classes superiores e de
m inorias dirigentes. Nesse conjunto de biografias, o povo não aparece, o
povo não tem historia, senão a de sua eterna dependencia e servidão.
Ora, não é preciso adotar o ponto de vista m arxista, nem o dos modernos
historiadores soviéticos, como Sidorov (26°), para observar que essa história
é form al e descrer da fidelidade de q u alq u er quadro imposto pelas pró­
prias classes superiores, que “insensivelmente encorajam um a interpretação
convencional da historia, que aparenta um ar de respeitável antigüidade
p ara com os arranjos legais e econômicos que as favorecem ou que elas
favorecem .. . ” (261).
A tentativa de N am ier de to rn ar a biografia coletiva, visando um a
fase, ou acontecim ento histórico, e suas conexões psico-econômico-sociais,
não era evidentem ente senão um meio de rem ediar os males e perigos
das estruturas políticas m anifestadas n a heroicidade pessoal.
A grande historiadora inglesa Eileen Power promovia, na mesma épo­
ca, um a análise similar, ao ilustrar a vida social da Idade M édia por meio
de seis personalidades apresentadas como tipos de figuras comuns e não-
brilhantes (262).
A história social, dizia no prefácio, sofre tam bém d a censura de ser
vaga e geral e, deste modo, incapaz de com petir com a história política por
causa da falta de personalidades notáveis. Acreditava na possibilidade de
dar à história social um tratam ento pessoal, fazendo com que o passado
revivesse pela personalização. Daí a biografia da gente hum ilde, que cons­
tru iu a vida agrária, que trabalhou efetivam ente n a construção do desen­
volvimento industrial. A teoria do m edalhão da história política seria
substituída pela teoria do povo: estudar a conduta do povo, substituir as
personagens pelos grupos, estruturados em formas sociais e econômicas. A
Associação H istórica da América sugeriu desde 1939 a necessidade de exa­
m inar a vida de grupos que têm sido negligenciados pelos historiadores —
os analfabetos, os obscuros socialmente, os lavradores e trabalhadores, os
imigrantes, etc. A penetração nessa nova área, m uito facilitada pelos
(260) A. L. Sidorov, (Les pro b lèm es jo n d a m e n ta u x de la Science h isto riq u e soviétique et
certains résu lta ts de son d é ve lo p p e m e n t, Moscou, 1955, 73-74) sustenta que. “as leis sociais se
m anifestam graças à atividade dos homens, das classes, das massas populares, que são os ver­
dadeiros criadores da história” , e que “a força realm ente decisiva e criadora da história é o
povo, são as massas populares” .
(261) R. H . Tawney, T h e Agrarian Problem in the Sixteenth Century, Londres 1912, 177.
(262) M edieval People, Pelican Book, Harm onsdsw orth, 1989.

212
estudos antropológicos, significaria contribuir para o esclarecimento da
cultura popular, do quadro geral da estrutura psico-sócioeconômica onde
se m anifestam as imposições das m inorias dirigentes e seus líderes.
T endências novas, de certo modo virgens na historiografia brasileira,
seriam os estudos sobre a formação da consciência rural e burguesa no
Brasil, esta últim a talvez criada antes do aparecim ento de um a classe b u r­
guesa, e a rural, dom inante em toda a história brasileira, ainda hoje consti­
tuindo 54,92% de nossa população. Nem se estudou, também, o papel da
classe média e das classes rurais das zonas pioneiras, tão decisivas na evolu­
ção histórica destes últimos trin ta anos. A única exceção seria a obra de
Pierre M onbeig (203), assim mesmo mais atenta à análise da estrutura agrá­
ria da zona pioneira.
Um modelo a seguir, no caso da formação da consciência, seria o de
B ernard Groethuysen (284), que se baseou em fontes de tanto interesse
social, só lidas pelo valor estético ou religioso: os sermões.
O utra área inexplorada pelos historiadores é a d a personalidade e
cultura e correntem ente conhecida como a do caráter nacional (265). Estes
estudos têm pouca relação com os métodos antigos de esboçar o caráter
nacional em base racial ou climatológica; ao contrário, são meios de rela­
cionar estudos antropológicos de cultura com os históricos de consistência
e durabilidade, num mesmo grupo, com a técnica freudiana da formação
do caráter individual, e os trabalhos modernos sobre o desenvolvimento
e a aprendizagem das crianças (2G6).
O estudo histórico cultural apresentaria um esboço da evolução e das
m udanças culturais, não como somatório de diferentes qualidades e vir­
tudes, defeitos e vícios expressos em adjetivos e substantivos, mas como
o resultado da integração desses traços na configuração cultural, regional
e nacional. O que é ser m ineiro, paulista, gaúcho, ou nordestino ? Suas
características e seus com portamentos históricos como m udaram no de­
senvolvimento da cultura nacional ? A enorm e literatura sóbre esse as­
sunto representa um esforço de análise impressionista, da qual se libertam
apenas os estudos de Sérgio B uarque de H olanda, G ilberto Freyre, Luís
M artins e Viana M oog(287).
A aproxim ação da história, especialmente a social contem porânea,
com a antropologia nos daria imensos resultados novos para o conjunto
do conhecim ento histórico.
A sugestão de M argaret M ead pode e deve ser adotada, de m odo a
que não falte o caráter histórico a estudos como os de Charles Wagley e
(263) Pionniers et planteurs de São Paulo, Paris, 1952.
(264) La formación de la consciencia burguesa en Francia durante el siglo xvni, México,
Fondo de C u ltu ra Económica, 1943, 1.a ed., 1927.
(265) Vide José H onório Rodrigues, Aspirações nacionais, São Paulo, Fulgor, 1963; 2.a
ed. rev., 1965; trad. inglesa T h e Brazilians, T h eir Character and Aspirations, Austin e Londres,
U niversity of T exas Press, 1967.
(266) M argaret M ead, "A ntropologist and H istorian”, American Quarterly, m , n.° 1,
verão de 1951, 8.
(267) Vide especialm ente Raizes do Brasil, l.a ed., 1936. T oda a obra de Gilberto Freyre,
desde Casa-grande e senzala, l.a ed., 1934, até Um brasileiro em terras portuguesas, 1953.
L uís M artins, O Patriarca e o bacharel, 1953. Viana Moog, B andeirantes e pioneiros, 1954.

213
seus com panheiros sobre as relações sociais em com unidades rurais (26S)
e sobre um a cidade fictícia amazônica (269).
A colaboração entre antropólogos e historiadores, tão necessária ao
desenvolvimento da história social no Brasil, poder-se-ia fazer prom ovendo
a realização de um trabalho comum que tomasse como exemplo investigar
uma pequena cidade brasileira entre 1900-1914, estudando seu desenvolvi­
m ento econômico e social, com particular interesse nas m udanças das opor­
tunidades de emprego, da propriedade, n a tom ada de decisões e, final­
m ente, no meio pelo qual a pequena cidade se integra na vida econômica
e social da região, da nação e do m undo. Esta espécie de pesquisa pode­
ria utilizar não só a inform ação docum ental própria de historiadores, co­
mo a oral, no sistema de entrevista, de velhos habitantes, histórica e an­
tropológica (270).
N um a aventura dessa natureza, os antropólogos perceberiam por que
os historiadores consideram indispensável ir buscar a seqüência anterior, ou
ainda mais anterior, e por que designam essa fase como nova, ou come­
çando em certo ano (2T1). A duração de um a época varia de acordo com
os aspectos que considerarmos. Elá não é a mjesma na política nacional ou
internacional, na história econômica e social. Nesta últim a, a dificuldade
se extrem a, pois um costume, um a atitude espiritual ou um a visão da
vida dificilm ente podem ser datados.
A função da história social, o mais hum ilde gênero de história, não
consiste, como dizia Tawney, no alistam ento de mais um recruta no ba­
talhão dos atuais especialistas. Sua m atéria não consiste m eram ente ou
principalm ente na superfície irradiante das maneiras, costumes, modas,
costumes e relações sociais, mas nos fundam entos invisíveis, que são con­
siderados pela m aioria dos homens, na m aioria das gerações, como indis­
cutíveis, até que m udem ou desmoronem (272).
Acentuava ainda T aw ney a im portância da literatura, dos romances,
contos, novelas e da poesia, como fontes da história social. “O prazer da
literatu ra é um fim em si mesmo e não um meio: e somente um bárbaro
degradaria a verdade perene da lite ratu ra à condição de m aterial para
um a disciplina mais hum ilde”. A literatu ra abre janelas à realidade ainda
desconhecida e preenche deficiências de fontes estritam ente históricas (273).
O jogo m útuo entre as atividades práticas de um a sociedade e os im pon­
deráveis da emoção, do sentim ento m oral e do gosto revelados n a arte é
um a feição peculiar a um a época. É um ciolismo pretender generalizar
sobre as relações entre o hom em e sua sociedade, seu comércio com seus
(268) Race and Class in R ural Brazil, Paris, u n e s o o , 1952.
(269) Amazon Town. A Study o f M an in the Tropics, Nova York, 1953. Os extraordinários
estudos do Prof. T hales de Azevedo, especialm ente A s elites de cot (vol. 282 da Brasiliana, 1955)
sofrem da mesma limitação. Pensando em sua correção disse-nos em conversa o Prof. Charles
Wagley que o rem édio seria a convocação de historiadores para tarefas dessa natureza.
(270) A sugestão aparece em M argaret M ead, ob. cit., 11.
(271) M argaret Mead, ob. cit., 12. Ela não com preende os critérios de periodização que
nos levam a considerar seqüencial ou diacrônica tal ou q u al fase.
(272) R. H . Tawney, Social History and L iterature, Cambridge, N ational Book League,
1950, 8-9.
(273) Tawney, ob. cit., 11-12.

214
companheiros, suas convicções, aspirações e emoções, elementos capitais da
história social. Nós não sabemos nada até hoje das relações entre a obra
artístico-literária e o caráter da vida econômica, afirm a T aw n ey (274).
A história não é só o fato, mas tam bém o espírito do fato. Queremos
conhecer o pensam ento íntim o de Rio Branco ou de seus contemporâneos,
as aspirações de uns, o civismo de outros, as paixões e os ideais, o caráter
do hom em influente e comum, de cuja decisão ou conformismo dependeu
o curso da história. Mas para isso é preciso viver a história, é preciso,
como dizia Ulisses a D ante e Virgílio, num a passagem do “Inferno”: ga­
n h ar experiência do m undo do vício e da dignidade hum ana.
G. M. Trevelyan, o grande historiador inglês, no prefácio de sua H is­
tória Social da Inglaterra (275), afirm a que a história social não fornece
m eram ente o laço entre a história econômica e política. T em tam bém
seu valor positivo, e seu objeto peculiar. Seu fim pode ser definido como
o estudo da vida diária dos habitantes nas idades passadas; inclui as rela­
ções hum anas e econômicas de diferentes classes, o caráter da vida fam iliar
e doméstica, as condições do trabalho e do lazer, a atitude do hom em
para com a natureza, a cultura de cada idade, como surge das condições
gerais da vida e se m anifesta em formas m utáveis n a religião, literatu ra e
música; arquitetura, conhecim ento e pensamento.
As relações entre a história social e econômica são tão íntim as, que
m uitos querem que a história social inclua a econômica. É um a tendência
generalizada e quase universal, pois se manifesta na H olanda, na Alema­
nha, na França e na Inglaterra (276).
A história social vem sendo estim ulada e im pulsionada por institui­
ções novas criadas para seu cultivo, como o Instituto de H istória Social
de Am sterdã (Internacional Institute of Social H istory) (277), o Instituto
de H istória Social de Paris, a Hoover Library on W ar, R evolution and
Peace, da Universidade de Stanford, dedicada especialmente à história
dos movimentos sociais (27S).
A história social pode com preender tam bém a demográfica, imigra­
tória, rural e urbana.
No Brasil, tomando-se a Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro como modelo, observa-se que no período de 1890 a 1914 a his­
tória social ocupa 44% da m atéria, e no período de 1915 a 1938, 55% (279).
(274) Ob. cit., 34.
(275) English Social History. A Survey o f Six Centuries, Chaucer to Queen Victoria,
Londres, Longmans Green 8c Co., l . a ed., 1942, 3.a ed., 1947, v i i i - i x .
(276) Vide opinião de P. J. Blok e J. G. van Dillen, in G. J. R enier, History. Its Purpose
and M eth o d , Londres, 1950; de alemães, franceses e ingleses, em P. Renouvin, “ L ’O rientation des
travaux d ’histoire contem poraine” , Relazioni, vol. 6, x Congres. Int. di Scienze Storiche, San-
soni, 1955, 345, e M. Postan, “ Economic Social H istory” , T im es Literary Supplem ent, 6 de
Janeiro de 1956.
(277) Vide José H onório Rodrigues, A s fontes da história* do Brasil na Europa, R io de
Janeiro, 1950.
(278) Carlos Ram a, de M ontevidéu, apresentou ao x Congresso Internacional de H istória,
realizado em Rom a, de 4 a 11 de setem bro de 1955, um a dissertação sobre movimentos sociais.
O prof. Renouvin, ob. cit., 345-351, apresentou um relatório das últim as atividades m undiais
no campo da história social.
(279) Rollie E. Poppino, A Century of the Revista do In stitu to Histórico e Geográfico
Brasileiro, s e p a r a t a d a T h e H ispanic American Historical Review , vol. 1, x x x i i i , n.° 2, m aio 1953.

215
Desde o princípio deste século, nossos historiadores começaram, a vol­
ta r sua atenção para a história social e C apistrano de Abreu, no Descobri­
m ento do Brasil, nos Capítulos de histária colonial, nos Ensaios e estu­
dos e nos prefácios às Denunciações e Confissões da Primeira Visitação cio
Santo Ofício, introduziu o povo n a história,, deu significação à vida fami­
liar e doméstica, às profissões, às relações sociais. Seu prefácio e o de R o­
dolfo Garcia nas Denunciações. e Confissões representam o mais autêntico
retrato da' vida social e fam iliar do Brasil colonial: “pai soturno, m ulher
submissa, filhos aterrados”, foi a frase com que C apistrano esboçou a fa­
m ília brasileira de então. As órfãs d e R odolfo G arcia são outra im portante
contribuição à história social, como o são tam bém N o tempo dos flam en­
gos, de José A ntônio Gonçalves de Melo Neto, a Vida e morte dos ban­
deirantes, de A lcântara M achado, as Raízes do Brasil, de Sérgio B uarque
de H olanda, A primeira revolução social brasileira (1798), de Afonso Ruy,
os estudos de Amaro Q uintas e B arbosa,Lim a Sobrinho sobre a Revolução
Praieira, de W anderley P inho sobre Salões e damas do Segundo R einado
e, acima de tudo, Casa-grande e senzala e Sobrados e mocambos, de G il­
berto Freyre (280).

18. H istória da arte

A história da arte como disciplina acadêmica é um p ro d u to germâ­


nico. Foi na Alem anha q u e ela prim eiro se libertou da própria história e,
conseqüentem ente, foi lá que encontrou seus métodos. D urante a gera­
ção de B urckhardt ela ainda se conservava ligada à Kulturgeschichte. N o
fim do século xix, nas mãos de W õlfflin e Schmarsow, estabeleceu cómo seu
objetivo p róprio a história das qualidades estéticas dos trabalhos de arte
e arq u itetu ra; tornou-se a história da form a e do estilo. O esteticismo
teve sua voga e deu lugar à história da arte como um a Geistesgeschichte.
As obras de arte foram ligadas, por Dvorak, aos movimentos religiosos e
filosóficos. M odernam ente, surgiu tam bém um a Kunstsoziologie, que en­
contra um exemplo n a obra de A rnold H auser (2S1). A história social da
arte estuda a relação do artista com seu público, a história do gosto e da
crítica, a da edição artística, a da coleção artística, seu tratam ento e pre­
servação. Estabelecida como um a disciplina acadêmica nos centros u n i­
versitários europeus e norte-americanos, a história da arte desenvolveu-se
enorm em ente e logo se reconheceu que-o historiador da arte trazia um a
nova dimensão, não só ao estudo da história como ao ensino da própria
arte.
A história da arte deve revelar as sucessivas fases do gosto e da apre­
ciação artística oferecidos ao povo; deve descrever e in terp retar as formas
e composições apresentadas às várias sociedades hum anas para sua adm i­
ração e gozo; distinguir as obras de arte dos meros artefatos e objetos de

(280) Im p o rtante estudo interpretativo da história social e política brasileira é o de


Jacques L am bert, L e Brésil. Structure sociale e t institutions politiques, Paris, C olin, 1953. Vide
nota 64.
(281) T h e Social H istory o f A rt, R outledge and Regara P aul, 1951, Z vols.

216
curiosidade; descobrir corno as várias composições foram recebidas pelas
comunidades; quais as que se im puseram apenas durante algumas gerações
ou perm anentem ente; as que deram prazer aos círculos elevados ou hum il­
des da sociedade e as que mais contribuíram para enriquecer nosso tesouro
de imagens, à m edida que se tornaram clássicas. Deve ten tar ver a corres­
pondência entre as representações visuais e outras expressões da vida de
um período, como a literatura, a música (282), o teatro (283) e o pensamento.
Finalm ente, o estudo das formas artísticas pode ser usado como um dos
mais valiosos docum entos da história da hum anidade (284).
A história da arte deve com preender o estudo da decoração e ilustra­
ção, dos m ateriais e técnicas, dos valores e movimentos, da cor e proporção,
da composição, do estilo, das influências, da originalidade e personali­
dade. Infelizm ente, como acentuou Lucien Febvre, a história da arte é
um a disciplina que freqüentem ente se n u tre de monografias individuais
— artistas e movimentos (285)
N a história da arte em suas várias manifestações é necessário distin­
guir o valor artístico do histórico e do docum entário. O prim eiro não
apresenta interesse para o historiador; o segundo absorve-se na história da
arte, e o terceiro é fundam ental para qualquer aspecto histórico. È ne­
cessário fazer aqui esta distinção entre os diversos valores de um a obra his­
tórica. H annah Levy m ostrou que nem sempre coincidem estes vários
valores. U m quadro representando o instante de um ato histórico pode
possuir valor docum entário, histórico e artístico. O próprio valor do­
cum entário — o único im portante para a história em geral — pode ser
nulo, caso o p in to r não tenha sido contem porâneo, ou não se tenha baseado
em fontes autênticas e fidedignas. O valor histórico e artístico pode ser
tam bém n ulo e, então, o quadro não terá nenhum a significação na própria
história da arte. Mas se possuir grandes qualidades artísticas nem por isso
terá valor histórico, porque “a história da arte dem onstra nitidam ente que
não é o valor artístico de um quadro, de um a escultura, de um a arqui­
tetu ra que determ ina sua im portância histórica. Se o quadro em questão
não exerceu nenhum a influência direta ou indireta, seja sobre outros
artistas, seja sobre o público (formação do gosto), o valor histórico do
quadro fica inexistente para o historiador da arte.” Esse mesmo quadro
pode constituir um a obra-prim a da p in tu ra nacional e, pelo seu valor

(282) A m elhor bibliografia da história da música no Brasil é de L uís H eitor Correia de


Azevedo, in M anual bibliográfico de estudos brasileiros, R io de Janeiro, 1949, 741-777; o m aior
estudo é tam bém de L uís Correia, M úsica e músicos do Brasil, R io de Janeiro, Casa do E stu­
dante do Brasil, 1950; vide tam bém G errit de Jong J r., “Brazilian Music and A rt” , in Brazil,
Portrait of H a lf a C ontinent, Nova York, 1951, 423-448; Ann Livermore, “Music” , in Portugal
and Brazil, an Iniroduction, Oxford, 1953, 394-403.
(283) A m elhor bibliografia sobre teatro é de Leo K irchenbaum , in M anual bibliográfico
de estudos brasileiros, ob. cit., 727-739. T rabalhos recentes são os de Afonso R uv, O primeiro
teatro do Brasil, Publicação n.° 2, do Centro de Estudos Baianos, Salvador, Bahia, 1951; Athos
Damasceno, “O teatro em Porto Alegre no século x ix '', in Fundam entos da cultura rio-gran-
dense, l.a série, Faculdade de Filosofia, P orto Alegre, 1954, 85-113. A Academia Brasileira de
Letras prom oveu, em 1954, um Curso de T eatro do qual foi publicada a au la de José Carlos
de M acedo Soares, O teatro jesuítico, São Paulo, 1954.
(284) B ernard Berenson, Aesthetics and History in the Visual A rts, Pantheon, 1948, 218.
(285) “ H istoire de 1'art, histoire de Ia civilization” , in Combats pour 1’histoire, Paris,
Colin, 1953. 295.

217
artístico, ter direito a um lugar em inente n a história da p intura. Veri­
fica-se tam bém o contrário, ou seja, o de um quadro de deplorável qua­
lidade artística possuir indiscutível valor histórico, pela influência que a
seu tem po exerceu (28e).
Cabe, portanto, distinguir num a representação plástica ou pictórica
um a pluralidade de valores, dos quais o docum entário é o que mais nos
interessa. Como as fontes escritas, as plásticas estão sujeitas às mesmas
regras críticas. Os problem as da época, o lugar de origem, a autoria, au­
tenticidade, falsidade e veracidade devem ser criticam ente examinados.
Foi deste m odo que H. Tietze form ulou sua m etodologia, inteiram ente
baseada na de B ernheim (287).
A história da arte no Brasil possui hoje extensa bibliografia, é um
dos grandes campos de pesquisas (288) e desde 1943 um grande movimento
de criação de museus de arte im pulsionou seu estudo (289), havendo inclu­
sive revistas especializadas para sua divulgação (29°).

Iconografia

As obras iconográficas ou artísticas só nos interessam pelo seu valor


docum entário, quer se trate de peças relativas aos acontecimentos histó­
ricos, qu er aos costumes, folclore, assuntos m ilitares, paisagens, m onum en­
tos, decoração, sátira e sobretudo retratos. Em 1931, o Comitê Internacional
de Ciências Históricas abriu um inquérito sobre os recursos essenciais dos
museus e bibliotecas públicas (2Õ1).
As mais antigas documentações iconográficas são a p in tu ra e a gra­
vura. Se é exato que m uito poucas estampas têm valor estético, é certo
tam bém que desde o início as gravuras tiveram caráter popular. Elas se

(286) Cf. H annah Levy, “Valor artístico e valor histórico. Im portante problem a da história
da arte” , R SP H A N , n.° 4, R io de Janeiro, 1940, 182-192.
(287) Die M ethode der Kunstegeschichte, Leipzig, 1913. A obra de H einrich W õlflin,
Kunstgeschichtliche G rundbegriffe (M unique, 1915, trad. ingl., Principies o f A rt H istory. T he
P roblem of the D evelopm ent of Style in L ater A rt, l .a ed. 1932) é fundam ental.
(288) A principal bibliografia está relacionada in CEHB, 1881, 2.° vol. e suplemento. E
Castro e A lm eida, Catálogo de mapas, plantas, desenhos, gravuras e aquarelas, Coim bra, Im ­
prensa da U niversidade, 1908; R obert C. Sm ith, “A rte” , in M anual de estudos brasileiros, R io,
de Janeiro, 1949, 7-100; R oberto C. Smith e Elizabeth W ilder (orgs.), G uide to the A rt in
L atin Am erica, W ashington, 1948; José Valadares, A arte brasileira (1943-1953), Publicação
n.° 30 do Centro de Estudos Baianos, Bahia, 1955. Vide tam bém “ Fine A rts” , in A tas do
Coloquio Internacional de E studos luso-brasileiros, T h e V anderbilt Univ. Press, 1953. Os
últim os estudos im portantes não registrados nas bibliografias acimas são: Serafim Leite, Pintores
jesuítas do Brasil (1549-1760), Archivum H istoricum Societatis Iesu, extractum e vol. 20, 1951;
id., A rtes e oficios dos jesuítas no Brasil (1549-1770) , Lisboa, 1953; id., Novos documentos
sobre Francisco Dias, mestre de obras de S. R oque em Lisboa, arquiteto da Companhia de
Jesús no Brasil, Archivum H istoricum Societatis Iesu, extractum e vol. 22, 1953; G uilherm e
A uler, “ O im perador e os artistas” , T ribuna de P etrópolis, 1955; M ário B arata, Azulejos no
Brasil, R io de Janeiro, 1955; J. W. Rodrigues, Fardas do R eino Unido e do Im pério (separata
do Anuário do M useu Im perial, 1950), R io de Janeiro, 1953; R. C. Sm ith, A s artes na Bahia,
1.a parte, A rquitetura colonial, Salvador, Bahia, 1954; G ilberto Ferrez, Iconografia de Petrópolis,
Petrópolis, 1956; G errit de Jong J r., “Brazilian Music and A rt”, in Brazil, P ortrait o f H a lf a
Continent, Nova York, 1951, 423-448.
(289) José Valadares, A rte brasileira, ob. cit., iv.
(290) Especialmente R S P H A N (R io de Janeiro), H abitat (São Paulo), e Brasil: arquitetura
contemporânea (R io de Janeiro).
(291) André Blum , “Des répertoires iconographiques” , R ésum és des Communications pré-
sentées au Congrés, Varsóvia, 1933, 138-139.

218
dirigiam às multidões, não p ara lhes dar satisfações artísticas, mas para
servir às suas crenças, paixões e ódios. Inteligíveis aos iletrados, acessíveis
p or suas dimensões e preço foram e perm aneceram p o r m uito tempo um
instrum ento adm irável de ação social. Por isso fornecem um a contribui­
ção essencial à história religiosa, política, econômica. Com pletam ente po­
pular, a gravura é um testem unho das necessidades e dos problem as sociais,
e um a representação de costumes, tipos, trajes e formas. A princípio foi
inteligentem ente aproveitada pela religião, pois fornecia edificantes im a­
gens de piedade (292).
O estudo da iconografia brasileira envolve, portanto, o conhecim ento
das prim eiras gravuras e gravadores do Brasil e dos prim eiros estabeleci­
mentos litográficos. As prim eiras manifestações, esporádicas até o esta­
belecimento da Impressão Régia em 1808, têm pouco ou nenhum valor
docum entário (293).
F undado o R eal Arquivo M ilitar, em 1808, com um a secção de gra­
vura sobre chapas de cobre ou talho doce, a fim de reproduzir cartas e
mapas, em 1824 adquiria-se um a litografia a fim de substituir a gravura.
O prim eiro estabelecim ento ljtográfico dirigido p o r João Steinm ann fazia
parte do próprio Arquivo M ilitar (294).
A Steinm ann seguem-se A rm and Ju lien Palière e Luís Aleixo Bou-
langer (295). Os desenhos, quadros e litografias por eles apresentados têm
um caráter docum entário de grande im portância p ara a história.
Q uem realm ente com preendeu e encareceu o valor da iconografia e
das fontes artísticas em geral foi M anuel de A raújo P orto Alegre, Barão
de Santo Ângelo. Em 1856, ele mostrava a necessidade de um a coleção
de imagens e retratos dos grandes homens (296). P retendia escrever uma
obra que servisse de com plem ento ao Plutarco brasileiro; seria um a cole­
ção de imagens, às quais aju n taria algumas notícias biográficas.
A mais rica coleção iconográfica brasileira é a da Biblioteca Nacio­
nal. Até 1874 não se conhecia o adm irável acervo possuído pela B iblio­
teca N acional e por isso Ramiz Galvão podia escrever, no R elatório de
1875, que a descoberta de 1874, da riquíssim a e num erosa coleção de es­
tam pas de todas as escolas e dos mais afamados mestres que em todos os
tempos ilustraram a arte da gravura, era um acontecim ento de extraordi­
n ária im portância histórico-artística. Esta vasta, rara e preciosa coleção,
que inclui 81 gravuras de A. D ürer e várias outras das escolas flamenga,
francesa e italiana, tinha e tem enorme valor artístico e histórico e ne­
n h u m valor docum entário para a história do Brasil. D ata dessa época a

(292) Léon R osenthal, La gravure, Paris, 1909, n.


(293) Sobre os inícios da gravura no Brasil, vide Floriano Bicudo T eixeira, “A gravura
no Brasil” , in A biblioteca, vol. 3, n .OB 1 e 2, jan.-fev. 1940, 24-41, e depois impresso in
Política e Letras, R io de Janeiro, 22 de julho de 1948; e Francisco M arques dos Santos, “José
Jo aq u im Viegas de Menezes” , R S P H A N , n.° 2, 229.
(294) Cf. M arques dos Santos, “L itografia no Rio de Janeiro” , R S P H A N , n.° 1, 45-49.
Melo M orais julgou este èstabelecim ento p articular, cf. “A litografia no Brasil” , in H istória da
trasladação da corte portuguesa para o Brasil, em 1807-1808, R io de Janeiro, 1872, 132-135.
(295) Cf. Francisco M arques dos Santos, “Dois artistas franceses no R io de Jan eiro ” ,
R S P H A N , n.° 3, 123-148.
(296) “ Iconografia brasileira” , R IH G B , t. 19, 1856, 349-54.

219
criação, pelo regulam ento de 1875, do G abinete de Estampas da Biblio­
teca Nacional. A coleção foi crescendo e, em 1884, compunha-se de de­
senhos originais e mais de 30.000 estampas (297), gravuras, litografias, de­
senhos, fotografias, reproduzindo episódios, homens, costumes, tipos, for­
mas e trajos de indiscutível valor docum entário (298).
A grande coleção da Biblioteca N acional contém as principais fontes
iconográficas, como paisagens, vistas, m arinhas, desenhadas, gravadas e
fotografadas, costumes, usos, indum entárias. Albuns de vistas de caráter
social e econômico sobre estradas de ferro, colônias de im igrantes, concre­
tizam a imaginação, tornam real o que antes era apenas alusivo. Nos li­
vros pitorescos e de viagens se encontram m uitas gravuras dé interesse do­
cum entário (299).
A docum entação iconográfia inédita é ainda m u ito vasta. Plantas,,
cartas e outros documentos manuscritos se encontram em vários arquivos,
e bibliotecas.
Documentos de im portância não somente para a história d a arte, da
arquitetura, da p in tu ra, etc., mas para a história geral do Brasil, como re­
presentação dos acontecimentos ou do am biente e personagens se encon­
tram nos arquivos portugueses. As litografias, gravuras e pinturas reve­
lam, pelas imagens que evocam, novos aspectos da vida brasileira.
Percebendo a im portância destas fontes organizou-se, em 1930, a Sub­
comissão Brasileira de Iconografia criada pelo Instituto H istórico e Geo­
gráfico Brasileiro, em 1929. A proposta dos trabalhos foi organizada por
Ramiz Galvão (30°).
Documentos de im portância indiscutível são tam bém os desenhos sa­
tíricos, as caricaturas com sua capacidade discrim inatória. O grande exem­
plo da caricatura como crítica social encontra-se em H onoré D aum ier
(1808-1879), que pôs a serviço de sua tarefa toda sua personalidade e toda
a graça de seu gênio artístico. Ele retratou sua época e a crítica ao go­
verno e mostrou o bas-fond de Paris em contraste com a abastança da1
classe dom inante. A principal força de sua expressão artística é contra
o burguês. A caricatura no Brasil apresenta hoje rica bibliografia e a
obra de J. A. Soares de Souza e especialm ente a de H erm án Lim a repre­
sentam o ponto alto da história da caricatura no Brasil (301).
A litografia, inventada em 1805 por Aloys Senefelder, foi suplantada
m odernam ente pela fotografia, que se tornou um a das mais im portantes
(297) Cf. Catálogo da Exposição Permanente de Cimélios, Rio de Janeiro, 1885.
(298) Sobre a im portância da seção em 1897,vide R. Villa Lobos, “ Iconografia”
A B N , R io de Janeiro, vol. 18, 1897, 414-444.
(299) O CEHB, classe xv, regista m uitas gravuras de livros de viagens. Exem
são os dos livros de D ebret, Rugendas, E nder, C ham berlain, M aria G raham , Guillobel e
Landseer. Sobre este últim o, cf. Alferto Rangel. “ O álbum de Híghclifffe, T h e Landseer
Sketchbook” , R S P H A N , n.° 6, 87-116. Dois exemplares de álbuns históricos são: Ram iz Galvão,.
Galeria de história brasileira, 1500-1900, G arnier, 1899, e J. M. Paranhos dá Silva, A lbum '
des vues d u Brésil, Paris, 1889.
(300) R IH G B , vol. 165, 1933, iv.
(301) Vide J. A. Soares de Sousa, “ Um caricaturista brasileiro no R io dá P ra ta” , R IH G B ,
vol. 227, abril-junho 1955, 3-84. H erm án Lim a, H istória da caricatura no Brasil, Livj José
Olympio, Rio de Janeiro, 1963. Com -910 ilustrações, 4 vols.

220
fontes plásticas. Os retratos a óleo, em m iniatura e em gravura (302) foram
substituídos pelo retrato fotográfico. Este tem, para a biografia, a mesma
im portância que um auto-retrato p ara um a m em ória ou a representação
plástica de um sucesso para um a exposição histórica. Nem sempre a foto­
grafia foi considerada um a arte ou um a im parcial representação da ver­
dade. N enhum aparelho fotográfico seria capaz de representar um a
fisionomia que se surpreende ao prim eiro golpe de vista num a pintura.
"A lente, esse pretenso olho im parcial perm ite tam bém todas as deform a­
ções possíveis da realidade, pois o caráter da imagem está determ inado
pela m aneira de ser do operador” (803).
N o Brasil, as prim eiras fotografias datam de 1840, e já entre 1857 e
1870 se observa um enorm e desenvolvimento.
O CEHB regista várias fotografias e álbuns fotográficos de extraor­
d in ário "valor docum entário. A obra principal é hoje a de G ilberto
Ferrez (304).

(302) As principais fontes são: Coleção de retratos de todos os hom ens que adquiriram
viome pelo gênio, talentos, virtudes, etc., desde o princípio do m undo até nossos dias. Com
resumo histórico de suas vidas, Im prensa Régia, 1816. Retratos e elogios de varões e damas
q u e ilustraram a história de Portugal, Oficina de Simões T ad eu , 1817. A coleção de retratos
eoligidos p o r Diogo Barbosa Machado foi estudada e descrita po r José Zeferino de Menezes
.Brum, in A B N , vols. 16-26, 1893-1905. Vide tam bém Uma coleção de retratos e biografia^ das
personagens ilustres de Portugal, Lisboa, Im prensa N acional, 1840. Sobre retratos a óleo, cf.
H . Levy, “A p in tu ra colonial no R io de Janeiro” , R S P H A N , vol. 6, 1942, 7-77.
(303) Cf. Gisèle F reund, La fotografia y las clases medias, Losada, B. Aires 1946, 12.
((304) A ,fotografia no Brasil, separata da R SP H A N , n.° 10, 1953.

221
C a p ít u l o 7

A m etodologia histórica

c i e n t í f i c o é o processo pelo qual se conquistam


étodo

M conhecimentos próprios de um a ciência. Sob o nome de


m etodologia, diz Bernheim , compreendemos a exposição geral d
e da natureza do m étodo de um a ciência, enquanto que designamos como
metódica os princípios e artifícios metódicos pelos quais chegamos àquele
resultado(1). Poder-se-ia dizer, também, que a m etodologia histórica é
o conjunto de princípios que presidem o trabalho histórico em suas várias
fases, ou sejam, a pesquisa, o exame crítico, a interpretação e a exposição.
Ela consiste no estudo das fontes — heurística, da autenticidade e integri­
dade dessas fontes, n a crítica de sua autoridade. C olhido o docum ento
por interm édio da heurística, verificada sua autenticidade e integridade
pelo apelo às disciplinas auxiliares e criticada sua autoridade e fidedig-
nidade p or interm édio das críticas externa e interna, inicia-se o trabalho
de comparação das fontes e de sua interpretação, a fim de que se possa
redescobrir a realidade tal qual sucedeu.
Assim, o estudo da m etodologia histórica facilita a descoberta das
fontes históricas, a análise de sua integridade e a crítica de sua autoridade.
Como o historiador não se lim ita a transcrever os documentos, mas deve
interpretá-los, a m etodologia histórica aponta-lhe a necessidade de conhe­
cer as teorias históricas, com as quais ele vai com parar e interpretar as
fontes já criticadas. - É por essa razão que devemos estudar as várias dis­
ciplinas auxiliares, a crítica histórica e as relações da história com as
ciências sociais, pois é das vizinhanças destaS que nascem as teorias inter­
pretativas. É lógico que já se form ou um conjunto de regras e princípios
que n ão podem continuar como tesouros escondidos de uns poucos que se
entregam a esses estudos.
A história, em bora presa aos fatos, não se lim ita a eles, e procura
compreendê-los. Usa, assim, dos métodos históricos, mas não consiste ne­
les. Ortega y Gasset disse que a física e as ciências naturais consistem
nos seus métodos, o que não acontece com a história. Ela não renuncia
nunca à compreensão dos fatos (2). O m étodo define, portanto, o compor­
(1 ) E rnst Berheim , L ehrbuch der historischen A íethode und der Geschilchtsphilosophie¿
Leipzig, 1908, 179. — O m étodo é a força absoluta, única, suprem a, infinita, à qual nenhum
objeto resistiria; é a tendência da razão a reçonhecer-se a si mesma em todas as coisas. (Hegel,
Logique, t. 3, apud K arl M arx, Misère de la philosophie, Paris, 1922, 121.)
(2 ) O rtega y Gasset, “H istoriologia” , Goethe desde dentro, Buenos Aires, Espasa-Calpe,
1940, 208.

222
tam ento do historiador em face do objeto histórico. Mas cum pre evitar
que o m étodo se substitua ao objeto e se torne independente dele ou o
seu próxim o fim. E duard Meyer assinalou que a prática do historiador
deve seguir os seus próprios m andam entos, que lhe são impostos pela con­
formação mesma do m aterial (3).
A verdade é que à m edida que o historiador teve de trata r da m elhor
forma possível os casos singulares, de conduzir a pesquisa e trabalhar os
seus resultados, a experiência lhe foi ensinando certo núm ero de regras e
maneiras que hoje englobamos sob o nom e de m étodo histórico e que po­
dem ser form uladas teoricam ente. Mas cairia em erro grosseiro, como diz
Meyer, aquele que imaginasse, pelo fato de tê-las guardado, que já era um
historiador e que o tratam ento científico da história pudesse ser encerrado
nos parágrafos de um a metódica. A exterioridade da técnica pode ser
exercitada metodicam ente. E ntretanto, o principal, a compreensão inte­
rio r do m aterial, o conhecim ento dos problem as históricos, a descoberta
de suas ligações não podem nascer senão do íntim o do pesquisador (4).
É por isso que as teorias históricas representam um papel tão im por­
tante na compreensão do m aterial histórico. E é por isso tam bém que n a
evolução da m etodologia histórica se procurou dar tanta im portância aos
problem as da filosofia da história e das teorias históricas. Espírito sem mé­
todo não prejudica menos a ciência do que m étodo sem espírito, como
di