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Parte 01

ASPECTOS
FILOSÓFICOS,
IDEOLÓGICOS E
EDUCACIONAIS
Tema

03
01
A ERA DO
CONHECIMENTO
Neste tema, vamos abrir uma perspectiva
ampla do mundo em que vivemos como a era do
conhecimento. A busca incessante do conhecimen-
to se apresenta como um caminho que viabiliza a
realização individual e coletiva. Portanto, é preciso
lançar-se com muita força e esperança na aquisição
do que temos como meio de conquistar o espaço que
nos cabe em um mundo de imensas contradições e
também de infinitas possibilidades.
É preciso fazer com que, através do co-
nhecimento, sejam ampliadas as facilidades e di-
minuidas as dificuldades da existência humana. A
grande meta deste novo milênio é a construção de
um mundo em que haja lugar para todos os habi-
tantes do planeta.

Objetivos da Aprendizagem
Ao terminar a leitura e as atividades do Tema 1,
você deverá ser capaz de:
 compreender o conceito, o significado
e a importância do conhecimento filo-
sófico no conjunto dos conhecimentos
construídos pela humanidade;
 identificar o que leva o ser humano
a construir o conhecimento em sua
relação com o mundo circundante;
 identificar as características e os de-
safios de uma sociedade aprendente;
 compreender a condição humana
atual a partir de suas contradições e
possibilidades.
1.1 O conhecimento filosófico

O processo de evolução do conhecimento acontece e exige dos seres


humanos um incessante esforço de superação das dificuldades e ampliação das
facilidades para existir em um mundo onde precisa haver lugar para todos os
habitantes do planeta.
O ser humano se hominizará e se humanizará1 quanto mais cons-
truir dentro de si e fora de si condições materiais, sociais, intelectuais e espirituais
de melhor qualidade. Portanto, a humanização será um permanente processo de
construção de sua própria vida. Para isso, é preciso conhecer cada vez mais o seu
mundo para transformá-lo e nele se inserir de forma plenamente realizadora.
As hipóteses com as quais os cientistas atualmente trabalham a respei-
to da origem do universo remetem a sua datação para quinze bilhões de anos.
A vida sobre o planeta terra teria surgido a aproximadamente cinco bilhões de
anos e os vestígios mais antigos de hominídeos remontam a sete milhões de
anos. Portanto, embora sempre se trate de hipóteses, é considerável o tempo em
que seres pensantes transitam sobre a terra.
A ação humana sobre o planeta se deu de forma lenta e temerosa ao
longo de todo esse tempo. A vertiginosa velocidade que o processo de transfor-
mações foi tomando, data de um período muito recente. Ocorre que, enquanto
todos os demais seres do universo receberam um projeto de existência pronto
e pré-determinado pela natureza, o ser humano recebeu uma mera possibilida-
de de existir. Cabe a ele ajustar o meio para poder nele subsistir e sobreviver.
Paradoxalmente, esse ser diferente de todos os demais – os seres inanimados,
os vegetais e os animais – é o mais frágil e indefeso. Sua infância, até se tornar
adulto e poder sobreviver por si mesmo, é a mais demorada de todas.
Todavia, com essa fragilidade, o ser humano recebe uma potencialidade
infinita. Trata-se de uma dimensão que se revelará de múltiplas formas, através
de suas capacidades intelectuais, emocionais e espirituais. Mesmo com o inexorá-
vel processo de envelhecimento físico ao qual ele está submetido, inevitavelmente
sucumbindo ao tempo, suas capacidades mentais poderão evoluir de forma ascen-
dente e ilimitada. Existe, portanto, neste ser finito uma dimensão infinita que o
projeta para uma transcendência sob todos os aspectos de sua condição humana.

1 Hominizar diz respeito à geração de um ser humano do ponto de vista biológico, enquanto hu-
manizar se refere à construção de um ser humano em seus múltiplos aspectos a serem desenvolvidos.

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Tema | 01
A discussão em torno da origem do universo e do homem é uma temá-

A era do conhecimento
tica que se manifesta em múltiplias posições e de forma inesgotável. Há quem
entenda que tudo teria surgido por obra de um processo evolutivo. De formas
mais simples da matéria, uma complexificação cada vez mais elaborada teria
resultado no surgimento da vida sobre a terra e em níveis de consciência nos
seres humanos. Todos os seres que compõem o universo seriam, portanto, re-
sultantes de um processo evolutivo ascendente, de seres inferiores para seres
mais complexos e, portanto, superiores na escala evolutiva. Na contrapartida,
há quem defenda o creacionismo, isto é, a explicação de que o universo e tudo
quanto nele existe, especialmente o ser humano, teriam sido criados por Deus
em um tempo determinado.
O processo de hominização e de humanização acontece e exige dos se-
res humanos um incessante esforço de superação das dificuldades que se im-
põem a sua existência. O ser humano em parte coincide com a natureza e, em
outra parte, dela se diferencia. Sua existência, assim, se constitui num somató-
rio de dificuldades e de facilidades. Hominizar-se e humanizar-se são as tarefas
que o desafiam permanentemente. Para isso, o ser humano haverá de buscar
contínua e indefinidamente os múltiplos saberes necessários para se inserir em
um mundo que parte coincide com ele e, em outra parte, diferencia-se dele e
que precisa ser compreendido e ajustado. Portanto, todo o conhecimento será
resultado dessa relação do homem com o seu mundo, que precisa se arrumado
de acordo com sua condição de nele existir. Atualmente, a ação humana sobre
o mundo se intensifica e se acelera, sob alguns aspectos, de forma assustadora,
enquanto se pensa em um mundo bom para todos.

Mais do que as respostas, são as perguntas que movem a história. As trans-


formações que ocorreram no mundo foram resultado do pensamento
humano. A consciência de que o existir se apresenta como um problema a
ser resolvido é que pode produzir os grandes avanços e as soluções ne-
cessárias para a humanização do próprio homem e do ambiente circundan-
te. Aqui se coloca a Filosofia como uma forma de conhecimento importante

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e necessária, desde o seu conceito mais simples do senso comum até o seu
significado mais amplo e profundo.

Pode-se conceituar filosofia como sendo o simples modo de pensar de


qualquer ser humano. A sua filosofia de vida é constituída por suas ideias, seus
ideais e seus valores. Será de acordo com esse seu arcabouço mental que
esse indivíduo conduzirá a sua vida. Muitas vezes, quando não consegue vi-
ver coerentemente com sua forma de pensar, ele acabará modificando os seus
pensamentos, adequando-os ao seu jeito de viver. Trata-se de uma questão de
coerência com a forma de construir a sua vida.
Esse conceito simples acima exposto faz parte do senso comum e é per-
feitamente válido. Todavia, essa é uma primeira forma de se conceituar filosofia.
Ao longo da história, em suas origens, a filosofia surge com os pensadores gregos.
Os filósofos - assim eram conhecidos e denominados esses pensadores - eram
aqueles mestres que detinham a totalidade dos conhecimentos auferidos pela hu-
manidade até então. Essa é a razão pela qual eles passaram a ser considerados
amigos da sabedoria (filos=amigo e sofia=sabedoria) e assim eram chamados de
filósofos. Eram os mestres, os educadores, os orientadores políticos, por vezes
até mesmo orientadores religiosos e assim eram respeitados, ouvidos e seguidos
pelos seus contemporâneos. Eram os sábios que sabiam tudo de tudo.
Diferentemente do senso comum, que é difuso e acrítico, e também
avançando em relação à mitologia, uma linguagem ainda extremamente mar-
cada por metáforas, pela oralidade e pelo conteúdo fideísta, a filosofia se apre-
sentava como um grande esforço racional de entendimento e explicação de todas
as realidades humanas. O resultado desse esforço foi o surgimento de renoma-
dos pensadores, que produziram obras que passaram a inspirar toda a constru-
ção do conhecimento humano até os dias de hoje.
A história da filosofia se constitui assim num capítulo importante da
cultura humana. Foi através dos filósofos que a interpretação sobre o mundo se
aprofundou e foram lançadas as sementes do que resultou modernamente na ci-
ência contemporânea. O mundo não teria evoluído não tivesse havido o esforço de
grandes pensadores que sobre ele se debruçaram em busca de seu entendimento.
Desde a Antiguidade até a Idade Média, portanto, há pouco mais de
quinhentos anos, havia somente a filosofia a englobar a totalidade dos conhe-

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Tema | 01
cimentos. Além da Filosofia, é preciso distinguir e destacar a Teologia, como a

A era do conhecimento
busca do conhecimento das coisas que remetem a humanidade para as ques-
tões transcendentais. Alguns grandes filósofos foram também grandes teólogos
como Santo Agostinho (354-430 d.C) e São Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.).
Eram os filósofos que cuidavam da matemática, das ciências naturais,
da busca do entendimento dos fenômenos humanos, das práticas educativas e
tudo o que poderia dizer respeito às realidades do mundo e do homem. Com o
advento da Idade Moderna e a substituição da cosmovisão teocêntrica2 pela
perspectiva antropocêntrica, em que a fé passava a ser substituída pela razão
humana, os conhecimentos passam a se fragmentar cada vez mais, originando-
se o conhecimento científico, produto da razão humana.
Cada área do saber começa a apresentar as suas especificidades e seus
expoentes e pesquisadores. Os avanços da ciência e da técnica começam a se
apresentar cada vez mais rapidamente e o que a humanidade não progrediu ao
longo de milhares de anos, agora vai conhecer avanços cada vez mais acelera-
dos. A idade contemporânea chega e se afirma cada vez mais com a convicção
de que ciência e técnica finalmente resolveriam todos os problemas humanos.
A fragmentação dos saberes resultou em infindáveis listas de novas e
específicas áreas do conhecimento, de sorte que, no caminho da máxima espe-
cialização, o espaço dos generalistas3 foi perdendo o seu status e sua impor-
tância. Impôs-se o mundo dos especialistas. E diante da infinidade das novas
áreas do conhecimento e diante do volume imenso de novos conhecimentos a
aumentar cada vez mais rapidamente, resta a pergunta:

Qual é o significado e a importância da Filosofia no conjunto dos conheci-


mentos construídos pela humanidade, quais as questões que ainda restam
para o filósofo e qual é o seu espaço e sua tarefa?

2 Cosmovisão teocêntrica é uma visão segundo a qual tudo era percebido e explicado como
sendo obra de deuses ou de Deus... isso quando não se atribuí a seres da natureza a condição de
divindade. Por exemplo, uma trovoada era compreendida como se fosse a presença de um deus
embravecido.... e que teria que ser apaziguado para que não viesse a punir os homens...

3 Generalista é aquele que procura saber tudo de tudo, enquanto o especialista é aquele que
procura saber tudo de um campo cada vez mais centrado e reduzido da realidade.

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O filósofo não é mais aquele que detém todo o conhecimento, até porque,
diante da infinidade sem conta de novas áreas de conhecimento, seria absoluta-
mente impossível alguém ter a pretensão de ser um especialista em todos os conhe-
cimentos. Porém, a importância da Filosofia está na sua tarefa de pensar o mundo
e refletir sobre seu significado. Assim, um pensador se dobrará sobre o seu mundo
para percebê-lo com mais clareza a respeito de suas razões últimas.
A postura do filósofo se revela pela capacidade de perguntar. É o afã
de construir permanentemente o que ainda não somos que nos leva ao questio-
namento a respeito de tudo o que nos cerca. Nenhum outro ser conhecido faz
uma pergunta. Repetindo o programa pré-determinado pela natureza, todos os
demais seres do universo simplesmente realizam o que para eles já foi progra-
mado pela natureza. Portanto, nenhuma nova indagação os inquietará.
O ser humano, desde que abre os seus olhos, pela primeira vez, já ma-
nifesta a sua inquietação que o fará buscar respostas enquanto viver. A crian-
ça pergunta insistentemente a respeito de tudo. Infelizmente, essas perguntas,
muitas vezes, são ridicularizadas, sufocadas e silenciadas. Muitos professores,
na escola, não gostam do aluno que faz muitas perguntas, enquanto os pais, na
família, sem saberem o que dizer, silenciam e também fazem calar.

Diante de tantos mecanismos que buscam silenciar desde uma criança até
adultos de todas as idades – um ser humano quieto não incomoda! – é preci-
so verificar se ainda somos capazes de nos indignar com tudo o que acontece
ao nosso redor. O filósofo ainda não morreu dentro da gente se ainda não nos
acostumamos com o inaceitável diante de nossos olhos.

Com que facilidade nos acostumamos com tudo e nada mais nos in-
comoda. É melhor ficar quieto. É melhor não reagir. É melhor não se envolver
em confusão. Uma encrenca sempre dá trabalho. E assim vamos morrendo por
dentro e vivendo no limite do inaceitável e intolerável. Porém, viver acostuma-
dos com os absurdos que nos rodeiam é abrir mão da própria dignidade que nos
faz sentir vivos, mais atores do que meros reatores diante dos acontecimentos.

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Tema | 01
Assim, o mundo dominante nos quer passivos e acomodados. Na antiguidade

A era do conhecimento
greco-romana, oferecia-se pão e circo para as massas populares manterem-se
passivas. Atualmente, basta oferecer o circo (futebol, novelas, etc.) e o povo se
diverte, inconsciente e manipulado. A reação à essa passividade é um desafio à
dignificação humana. Diante disso, a inquietação filosófica se coloca como um
meio de humanização e de preservação da cidadania.
O filósofo é alguém que busca viver e conviver com as diferenças. O dife-
rente é que nos instiga e encanta para além da acomodação. Já não existe mais um
filósofo dentro de alguém que não sabe conviver com um pensamento diferente,
com uma cultura diferente da nossa, de um credo, de uma cor, de um sabor ou de
um jeito diferente de ser. As diferenças sempre serão um desafio para aprender e
crescer. Jamais a atitude de nivelamento e de achatamento produzirá algo de sig-
nificativo e interessante para mover a realidade. A convivência com o diferente só
será possível se nos despojarmos de qualquer atitude preconceituosa e dogmática.
A postura filosófica brotará da saudável inquietude que nos leva a
questionar o mundo que nos cerca. Não se trata de uma inquietação neurótica e
de uma ansiedade patológica, mas de uma sensibilidade que se manifesta num
profundo sentido de alteridade. O filósofo é alguém que se ocupa e se preocupa
com o outro. Sua sensibilidade o faz perceber a alegria, a tristeza, o encanta-
mento, o desapontamento, o medo, a raiva, o desânimo, a força e tudo o mais de
que se compõe a personalidade humana. O filósofo se importa com o outro e tudo
que diz respeito ao seu mundo. Ele está atento a tudo que se passa ao seu redor
e buscará expressar essa percepção de alguma forma.
Naturalmente que a postura do filósofo não permanecerá somente ao
nível do senso comum, dos sentimentos e de uma mera sensibilidade inicial e
ainda descomprometida. O filósofo também se exercita e se constrói. Sua in-
quietação o levará a sair de sua zona de conforto e exercer uma prática liberta-
dora corajosa e transformadora.

O estudo da Filosofia, em nossa sociedade, acabou se transformando em um


pesadelo para a maioria de nossos estudantes, restando uma experiência pou-
co positiva. Dois aspectos explicam o fato: o primeiro é histórico e o segundo

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é pedagógico. Historicamente, precisamos lembrar que as últimas décadas da
história brasileira foram marcadas por um obscurantismo cultural. Por oca-
sião da revolução militar de 1964, atendendo aos objetivos desenvolvimentis-
tas do capitalismo internacional, ajustou-se a educação aos modelos político
autoritário e econômico associado e excludente aqui implantados. Para isso,
excluiu-se das grades curriculares de todos os cursos médios e superiores
todo e qualquer espaço reflexivo. Concomitantemente, submeteu-se à cen-
sura tudo o que fizesse esse povo pensar, ou seja, os meios de comunicação
e toda expressão cultural. Resultou em um verdadeiro atraso cultural. Um
povo que não pensasse, não ouvisse e nada falasse, isso é, silencioso e passivo,
estaria facilmente subjugado e dominado. Por outro lado, nos espaços reflexi-
vos que ainda persistiram, ocupou-se o tempo em ler e decorar o pensamento
dos clássicos da Filosofia, da Sociologia, da História etc., de tal forma que os
estudantes passassem a rejeitar qualquer atividade cujo objetivo fosse des-
pertar as consciências e toda e qualquer sensibilidade criativa. Restou uma
educação a serviço de um modelo econômico determinado pela racionalidade
tecnológica e economicista. Por essas razões, é preciso recuperar os espaços
perdidos e fazer acontecer o despertar de um povo para a sua condição de
cidadãos, donos e senhores de sua própria história. Filosofia e Cidadania se
insere nesta busca e se constitui no espaço educativo cujo objetivo é aprender
a pensar para fazer acontecer a história individual e coletiva da melhor forma
possível. (Acesse a internet – no Google/You Tube – e escreva a pergunta O
que é Filosofia? Você encontrará uma sequência de vídeos sobre o tema).

O que é preciso para formar um filósofo?

Muito estudo. Estudar é ler o mundo e também ler o texto. Isso quer
dizer que, para se exercitar o filósofo, é preciso leitura. Ler é algo árido e muitas
vezes cansativo. Porém, somente quem lê muito, pensa bem, escreve bem e fala
bem. Os neurônios se exercitam e as habilidades intelectuais não são resultado
apenas de uma mera característica individual. É bem verdade que existem di-
ferentes inteligências. Alguns serão naturalmente mais reflexivos. Outros terão
uma habilidade especial para expressar seus pensamentos de forma verbal ou
de forma escrita. Outros serão ainda mais práticos e operativos. Todavia, nada

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substitui a transpiração de quem se exercita em qualquer atividade humana. As-

A era do conhecimento
sim como uma habilidade física resulta de muito treinamento, também as habi-
lidades intelectuais e mentais são fruto e produto de muito esforço e empenho.
Fazer silêncio. Para refletir é preciso criar espaços de silêncio. É co-
mum que nossos estudantes tentem estudar com os fones de ouvido e o som
nos últimos decibéis suportáveis aos ouvidos humanos. Mesmo que haja quem
afirme que é assim mesmo que ele gosta de estudar, a super estimulação sonora
é incompatível com o funcionamento das células nervosas do cérebro no que
diz respeito à assimilação de conteúdos e da aprendizagem. Portanto, é preciso
criar espaços interiores para que possa desabrochar a criatividade, a sensibili-
dade e florescer o mundo das ideias.

Para produzir algo intelectualmente, é preciso desligar os aparelhos


eletrônicos, buscar uma condição razoavelmente confortável e se concentrar.
Sobretudo a reflexão filosófica, assim como a meditação e a oração, exige um
mínimo de silêncio para que possa florescer na mente e no coração. É preciso
começar já! Perguntou-se, certa vez, a um grande campeão de natação sobre
qual era o momento mais difícil de sua vida esportiva. Ele respondeu que era
o momento de saltar na água. Assim, uma longa jornada sempre se fará com o
primeiro passo. Não será diferente com a construção intelectual. É preciso dar a
partida e, por fim, acaba-se tomando gosto e atingindo profundidade no saber.
O produto do pensamento filosófico poderá se manifestar das mais di-
versas formas: há quem escreva textos de grande qualidade; há quem expresse
seus pensamentos e sentimentos em poemas; há os que se manifestam em letras
de música; outros escreverão peças de teatro; outros ainda disseminarão ideias
geniais na forma de humor e, de forma jocosa, elegante e inteligente, farão o
público rir gostosamente, levando-o a pensar nas verdades que foram ditas; há
também quem expresse um mundo de pensamentos em simples traços em uma
folha em branco.
Assim, a filosofia adquire seu espaço que, de fato, ela nunca perdeu, mas
apenas se modificou. O que tem feito morrer o sentido reflexivo, sobretudo em
nossos jovens, é uma maneira árida e cansativa de fazer decorar o pensamento
de pensadores do passado. Esses tiveram o seu tempo, a sua importância e
sua originalidade. É muito importante conhecermos o acervo que eles nos le-
garam. Todavia, é preciso fazê-lo de forma prazerosa e, por certo, nunca será

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necessário decorar o que disse esse ou aquele pensador. Para beber na fonte
dos grandes pensadores, bastará ir ao encontro deles nos livros e textos que
deixaram.

Portanto, na sequência da reflexão que se desenvolverá, em busca de


uma aproximação da filosofia com a cidadania, trataremos de questões que
apontem para a possibilidade de construirmos um novo homem e uma nova
sociedade. Isto quer dizer que, somente se compreendermos as contradições
em que se movimenta o homem contemporâneo, poderemos desencadear um
processo de transformação.
Superar o nível de consciência que mantém a massa humana na con-
dição de mero objeto de controle e manipulação e fazer com que ela evolua
para a condição de poder vivenciar a sua cidadania, é o desafio que terá, sobre-
tudo, a educação como força mobilizadora. É no ato educacional que se realiza
a construção do conhecimento e a formação de seres humanos. Sua tarefa não
poderá se reduzir a uma mera transmissão dos saberes auferidos pela humani-
dade, mas também é preciso que sua tarefa se amplie maximamente para que
dela surjam cidadãos para uma nova realidade, em que o mundo seja um bom
lugar para todos.

Você encontrará todo o conteúdo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na


forma de vídeos, podcast, objetos de aprendizagem e na participação do fó-
rum de discussão.

SOUZA SANTOS, Boaventura de. Um discurso sobre as ciências. 13. ed.


Porto: Afrontamento, 2002.

A sociólogo português Boaventura de Souza Santos faz uma reflexão sobre o

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Tema | 01
conhecimento desde o senso comum até a ciência. Mostra como as questões

A era do conhecimento
que brotam da simplicidade de um conhecimento ingênuo, difuso, acrítico,
dogmático e simples, dá origem aos questionamentos que levam a um conhe-
cimento altamente fundamentado e que precisa retornar à sua origem como
um senso comum esclarecido.

GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das Letras,


2011.

O filósofo norueguês Jostein Gaarder elaborou uma síntese de toda a histó-


ria da Filosofia, desde a Antiguidade até os dias atuais, de forma sedutora e
envolvente: uma adolescente recebe cartas anônimas em sua caixa postal e
é desafiada a responder a instigantes perguntas para descobrir quem é seu
correspondente anônimo. Assim, de desafio em desafio, vai revisando toda
a evolução do pensamento filosófico, em um texto que arrasta para a leitura
até o seu final.

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1.2 As relações homem-mundo

A existência humana constituir-se-á num permanente desafio de su-


peração de problemas. Todavia, é preciso compreender a problematização4
da vida como uma grande possibilidade de crescimento. Ter que modificar algo
que é inadequado e que, portanto, não serve, é o que faz com que tudo evolua no
entorno e com que todas as coisas possam ser mudadas para melhor. Entretan-
to, essa melhoria só poderá acontecer na medida em que se ampliar o nível de
consciência das condições circunstanciais. Essa afirmação equivale a dizer que é
preciso conhecer o mundo para nele se inserir de uma forma mais satisfatória e
realizadora. Quanto mais o homem conhece e penetra nos segredos da natureza
e descobre os princípios que a regem, tanto mais ele terá possibilidade de se
ajustar a um mundo de forma realizadora e satisfatória.

São as ideias que movem o mundo. Durante muito tempo, a humanidade se


manteve num processo lento de desenvolvimento por perceber o mundo pela
ótica do sagrado, intocável e imutável. A postura diante desta realidade era
de temor e submissão. Como seu deu a passagem de uma perspectiva fideista
e teocêntrica para uma cosmovisão racionalista, dando origem às grandes e
rápidas transformações históricas da idade moderna e, por fim, ao mundo
tecnológico da idade contemporânea?

Ao longo da história, as relações entre os seres humanos e o seu mundo


sempre foram marcadas pela maneira como estes conseguiam percebê-lo. Atuar
ou não sobre a realidade vai depender de como ela é compreendida. No mundo
primitivo, nossos ancestrais ainda não tinham condições de explicar o mundo

4 Problematizar é a capacidade de identificar o que precisa ser mudado... às vezes é difícil


e doloroso mudar, mas é a única possibilidade que temos de crescer e se desenvolver... é assim que
as pessoas crescem e o mundo evolui… Observe-se que essa questão da problematização também
é a questão mais fundamental para o desenvolvimento da ciência. Levantar uma grande questão
para ser resolvida é um desafio que produz conhecimento. Portanto, problematizar é a base de
desenvolvimento da pesquisa científica.

22 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
circundante. Sua interpretação acabava sendo pela ótica do sagrado. A natureza

A era do conhecimento
e tudo o que ela continha era explicada através de uma perspectiva teocêntrica e
fideista. Todos os fenômenos eram fruto e produto da ação de Deus ou de deuses. O
que fundava esse conhecimento era um fideísmo, ou seja, a crença na presença e ação
de divindades.
Augusto Comte (1798-1857), filósofo positivista, afirma ter a humanida-
de atravessado três estágios no que diz respeito à explicação do mundo: o estágio
teocêntrico, o racional e o positivo. O teocentrismo caracterizou todo o período
pré-histórico, a Antiguidade e toda a Idade Média. Os povos primitivos e antigos
eram politeístas. Para eles, os deuses é que comandavam a vida e a morte de todos
os seres. A natureza era sagrada e imutável. Não se poderia tocar em algo que fos-
se determinado por uma divindade ou que até mesmo fosse identificando como
sendo a própria divindade. O Cristianismo trouxe a crença em um Deus único. O
monoteísmo cristão passou a determinar de vez a fé como explicação de toda a
condição humana: as relações sociais, políticas e econômicas. Tudo se justificava
em nome de Deus. A cultura estava circunscrita aos mosteiros e catedrais. Somen-
te tinham acesso ao conhecimento mais elaborado os monges e alguns nobres.
Esta visão teocêntrica e fideísta de mundo não combinava com o desen-
volvimento de uma ação mais efetiva sobre a natureza. Ao contrário, a crença no
sagrado infundia um sentimento de temor e um comportamento de submissão.
Quem ousasse pensar diferentemente do estabelecido pela ortodoxia vigente
era taxado de herege e punido severamente. Todavia, houve homens e mulheres
que tiveram a coragem de começar a questionar as verdades impostas e a du-
vidar de tudo o que não era explicado pela razão humana. A idade moderna, a
partir do século dezesseis, surge com a ação crítica de homens e mulheres que
tiveram a coragem de afirmar suas novas perspectivas. Um exemplo paradigmá-
tico se revela no pensamento de René Descartes (1596-1650). Um filósofo que
inaugura um método da dúvida. Nada mais será aceito sem que passe pelo crivo
da razão humana. Tudo precisava ser interpretado e compreendido através da
razão. Assim, a dúvida metódica se coloca como um marco de um tempo em que
a racionalidade humana vai conquistar e ocupar, cada vez mais, seu espaço na
construção do conhecimento, dando início a era moderna. Junto de Descartes,
outros pensadores vão concorrer para solidificar a revolução do pensamento
humano, como Leonardo Da Vinci (1452-1519), Galileu Galilei (1564-1642),
Francis Bacon (1561-1626), Giordano Bruno (1548-1600), etc.

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Com uma nova compreensão de mundo, as transformações vão ocor-
rer em todos os setores da vida humana. A partir do momento em que se afir-
ma o heliocentrismo5, percebeu-se que daria para navegar sempre para a
frente e que não se cairia nas garras de monstros, habitantes de abismos pro-
fundos. Afirma-se o sistema planetário em substituição a uma compreensão
de uma terra plana como uma mesa. Empreendem-se as grandes navegações
e descobrem-se novas terras em todos os quadrantes do planeta. Afronta-se
o poder da igreja romana com os questionamentos dos reformadores protes-
tantes. Buscam-se inspirações na antiguidade greco-romana e a cultura dá
saltos de excelência, constituindo-se num verdadeiro renascimento nas artes,
na pintura, na escultura, na arquitetura, na música, na pedagogia etc. O de-
senvolvimento da ciência e da técnica produz uma revolução que afetará as re-
lações humanas sob todos os pontos de vista. O modo de produção se desloca
do setor primário para o setor secundário e, a partir de meados do século XIX,
a industrialização vai se constituir no mecanismo de produção de bens econô-
micos. Os pensadores iluministas disseminaram ideias de liberdade, de igual-
dade e de fraternidade. Por fim, os três séculos da idade moderna produzem
a derrocada do feudalismo, cuja estrutura garantiu os privilégios da nobreza e
do clero durante mil e trezentos anos. Com a revolução burguesa, surge a nova
ordem econômica e social do capitalismo e sua contrapartida socialista.
A princípio, a natureza era tida como um obstáculo intransponível, já
que era dominada por divindades que não permitiam que sobre ela se atuasse e
se modificasse o que era prerrogativa exclusivamente sua. Pela ótica do Cristia-
nismo medieval, sob a hegemonia da igreja romana, o conhecimento não pode-
ria chegar ao alcance do povo para que interpretações errôneas não induzissem
a heresias. Quem ousasse pensar diferente do que era estabelecido pela Igreja e
pela sociedade dominante de então, poderia ser levado para a fogueira inquisi-
torial. Muitos homens e mulheres, de fato, foram queimados, como a francesa
Joana D’Arc (1412-1431) e o monge italiano Giordano Bruno (1548-1600). Ela,
uma mulher guerreira, é queimada viva com a acusação de bruxaria, e ele, um
cientista, é queimado, em Roma, sob a acusação de que seus estudos científicos
eram contra a doutrina cristã. Na verdade, o que não se queria era correr o risco
da perda de privilégios e de poder.

5 Heliocentrismo é a descoberta de que o centro do sistema planetário é o sol e não a terra...


tudo gira em torno do sol e não da terra...

24 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
Com o advento das idades moderna e contemporânea, a natureza passa

A era do conhecimento
a ser investigada em suas entranhas e seus princípios passam a ser dissecados.
Surgem a ciência e a técnica. Os seres humanos não se submetem mais à na-
tureza, mas aprendem com ela e a tornam coadjuvante em seu desenvol-
vimento. Por fim, chega-se a um mundo em que a natureza é dominada.
Desenvolvem-se imensas possibilidades de se criar um verdadeiro céu neste
planeta. As ciências vão dissecando os mistérios mais profundos de todos os
fenômenos e a técnica instrumentaliza os seres humanos, conferindo-lhes um
extraordinário poder de transformação. As dificuldades são minimizadas sob
todos os pontos de vista. As facilidades para se viver cada vez mais e em condi-
ções cada vez melhores aumentam significativamente.

Na contrapartida, surge um paradoxo assustador: jamais houve tanto poder


para se resolverem todos os problemas humanos, jamais se construíram tan-
tas riquezas, jamais foi tão possível fazer deste planeta um lugar tão bom para
se viver e, contudo, nunca houve tanta violência, nunca tantos seres humanos
passaram tanta fome, nunca houve tanta destruição e morte e jamais houve
tantas diferenças quanto ao longo do século vinte e vinte e um.

Diante disso, é preciso fazer-se algumas considerações que exigirão


uma reflexão profunda:

• a grande maioria das pessoas se relaciona com o seu mundo de forma


simples, ingênua, acrítica, imediata, difusa e dogmática. Isto quer dizer
que sua interpretação da realidade é marcada por um nível bem redu-
zido de consciência sobre as verdadeiras razões que movem os acon-
tecimentos ao seu redor. Resulta que elas acabam sendo submetidas e
manipuladas pelo contexto que as cerca, tornando-se muito pouco su-
jeitos de sua própria história. Elas percebem os fatos acontecendo, mas
sequer se questionam sobre os porquês e tampouco se darão conta dos
mecanismos de manipulação dos quais acabam sendo vítimas;

25
• o grande fascínio da humanidade foi e continua sendo o fantásti-
co desenvolvimento tecnológico. O seu resultado se transformou
numa parafernália que encanta homens e mulheres em todas as
idades. Ficou muito mais fácil se viver no que diz respeito ao trans-
porte, às comunicações, à manutenção da saúde e à cura de do-
enças, à alimentação mais saudável, ao lazer com o aumento do
tempo liberado de tarefas antes braçais e opressivas, o acesso ao
conhecimento e à educação etc. Atingiu-se a culminância da enge-
nhosidade humana com o desenvolvimento de uma tecnologia que
substitui não somente a mão humana, mas o próprio pensamento
humano. A rapidez com que tudo acontece, o ritmo alucinante das
mudanças e inovações, criam um admirável mundo novo, na ex-
pressão do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963);

• entretanto, como explicar os descaminhos pelos quais se embre-


nha a humanidade na razão geométrica em que avança em suas
conquistas? O fenômeno da massificação asfixia multidões em todo
o planeta, num processo de despersonalização embrutecedora. O
consumismo leva as pessoas à perda da própria identidade, em que
ter coisas há muito passou a ser mais importante do que ser gente.
Tem-se a impressão de que as massas correm desenfreadamente
para o vazio do sem sentido, que se manifesta em neuroses, an-
siedades, estresses e doenças psicossomáticas de todo tipo. As exi-
gências de consumo de bens supérfluos impostos pela sedução da
propaganda produzem um ativismo enlouquecedor. É preciso tra-
balhar cada vez mais para pagar o que se gastou com o que não era
necessário. A ansiedade, que resulta da pressão por sempre se gastar
mais do que se pode, vai gerando conflitos internos e externos e uma
pressão desmedida.

O processo filogenético6 é reproduzido, em pequena escala, pelo proces-


so ontogenético. Isso quer dizer que, assim como a humanidade se desenvolveu
ao longo de milhões de anos, tendo um longo período de infância – pré-história,

6 Filogenia diz respeito à origem e evolução da humanidade, enquanto ontogenia diz res-
peito à origem e evolução do ser humano individual.

26 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
antiguidade, idade média, de adolescência – idade moderna, e de adultez, idade

A era do conhecimento
contemporânea, também um ser humano individual passa pelas mesmas fases. As-
sim como a evolução de toda a humanidade foi determinada pela forma como foi
compreendendo e atuando sobre o mundo, também o crescimento individual se
dará pela maneira como ele se relaciona com o seu mundo. Assim, cada indivíduo
vai até onde acredita que pode ir e terá o tamanho de seu pensamento. O que deter-
mina grandemente o crescimento ou a estagnação pessoal são as crenças que cada
um fixa em sua mente a respeito de seu mundo. Muitos indivíduos acreditam que
nasceram para sofrer e que é vontade de Deus a sua condição de miséria e sofrimen-
to. Todavia, quando alguém desperta e compreende que ninguém nasce para sofrer
e que a miséria não é vontade de Deus, ele assume a tarefa histórica da transfor-
mação pessoal e coletiva. Passa a estabelecer horizontes ilimitados e vai à busca da
realização de seus projetos e propósitos. Portanto, desmistificar e desfazer crenças
limitadoras para o próprio crescimento é um desafio que se impõe a todo ser hu-
mano para romper com as amarras internas e externas. Assim como a humanidade
foi avançando em seu processo de desenvolvimento, cada ser humano individual
precisa compreender que, dentro do contexto em que ele se insere, é preciso que
cada um seja o sujeito, dono e senhor de sua própria história.

O ser humano é o único ser que tem a tarefa de arrumar7 o mundo


para nele se inserir. Esta é a razão pela qual ele busca o conhecimen-
to. Vai depender da forma como ele percebe o seu mundo o tanto que
ele vai avançar no seu desenvolvimento pessoal e coletivo. O conheci-
mento sempre resulta da relação do homem com o mundo. Portanto,
é preciso assumir uma postura de enfrentamento e de realização, de
forma positiva e esperançosa, para que a sua travessia por este planeta
seja marcada por realizações e conquistas e realizadoras. Você terá o
tamanho do alcance de seu pensamento e irá até aonde você acredita
que poderá ir. Pense alto e olhe para o infinito. Não haverá limites para
sua possibilidade de crescimento.

7 Poderia utilizar outro termo?

27
Assim se apresenta a realidade paradoxal de nosso mundo: um uni-
verso de infinitas possibilidades e de aspectos assustadores e ameaçadores da
própria condição de sustentabilidade da sobrevivência do próprio planeta. To-
davia, é preciso encarar tudo o que se apresenta de forma realista: esse é o nosso
mundo. Ele não é melhor e nem pior do que já foi ou que poderá vir a ser. Tudo
vai depender de como haveremos de nos posicionar diante do que está posto.
Assumir uma postura positiva e decisória frente ao mundo é uma necessidade
fundamental. Isso quer dizer que precisamos encarar a realidade em sua verda-
deira dimensão de fragilidade e de potencialidades. Novamente se nos impõe
o desafio histórico de minimizar as dificuldades e ampliar as facilidades. Tudo
isso resultará da postura e do engajamento de homens e mulheres conscientes,
dinâmicos, e que acreditam na utopia de um mundo melhor para todos. Isso é
que representa a postura de cidadãos a exercer a sua cidadania como um com-
promisso ético fundamental. Toda a posição que prenuncia uma terra arrasada
precisa ser abandonada e substituída pela esperança construída de que o mun-
do é transformável, de que ainda há tempo e que a utopia de um mundo em que
caibam todos pode ser transformada em realidade.

No próximo assunto trataremos das características da sociedade em


que vivemos. É preciso compreender o tipo de sociedade que se apresenta para
podermos pensar nos meios para nos inserir nela e nos realizar como seres hu-
manos individuais e construir um mundo bom para todos. Verificaremos que
se trata de uma sociedade do conhecimento e que o caminho será a busca inces-
sante dos saberes como possibilidade de concretização da utopia de um novo
homem e de uma nova sociedade.

Você encontrará todo o conteúdo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na


forma de vídeos, podcast, objetos de aprendizagem e participação do fórum
de discussão do tema.

28 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
A era do conhecimento
ORTEGA Y GASSET, José. Meditação da técnica. Rio de Janeiro: Livro
Ibero-Americano, 1963.

O filósofo espanhol José Ortega Y Gasset faz uma análise de todo o processo
de desenvolvimento da ciência e da técnica, desde a afirmação inicial de que o
ser humano é o único que não recebeu a vida pronta e acabada e que, portan-
to, terá que se fazer permanentemente, já que ele é o que ainda não é.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura


emergente. São Paulo: Cultrix, 2001.

Os cientistas de vanguarda da atualidade, como Fritjof Capra, nascido na


Áustria e radicado nos Estados Unidos, reconhecido como um físico proemi-
nente, tornam-se filósofos na medida em que realizam importantes reflexões
sobre sua atividade científica. O Ponto de Mutação é uma obra que demons-
tra o profundo significado da mudança de paradigma científico que se estabe-
leceu com o advento da física quântica e da teoria da relatividade.

29
1.3 A sociedade aprendente

Um dos mais frágeis e dependentes seres que habitam o planeta é


o ser humano. Este, porém, que leva muitos anos para crescer e se autono-
mizar, recebeu uma potencialidade em desenvolvimento para se preparar e
transformar o seu mundo. Mesmo com o declínio de suas forças físicas, por
força do tempo, seu potencial mental não conhece limites para sua amplia-
ção e crescimento. O ser humano é o único que precisa ajustar o seu mundo
para nele se alojar. Para isso, ele precisa conhecer a realidade circundante. O
conhecimento, como fruto e produto da racionalidade humana, está na base
do processo de hominização e de humanização. O conhecimento assume um
significado e uma importância especiais para a construção do homem e do
mundo. Assim, é preciso destacar as razões que o colocam como pilar de
sustentação de um mundo melhor para todos.
O primeiro significado que o conhecimento assume no processo de
construção humana está na revelação do desconhecido. Para se inserir no mun-
do, é preciso conhecê-lo. O desconhecido, a princípio, sempre provoca temor
e submissão. Na medida em que as luzes se acendem sobre uma realidade, a
transformação se torna possível e o usufruto dos bens da terra se colocam à
sua disposição. Portanto, quanto mais se conhecem os segredos do universo
infinitamente pequeno, médio e infinitamente grande, tanto mais cresce a pos-
sibilidade de se imprimir o jeito humano de ser e de viver em todos os espaços
que nos rodeiam.
O conhecimento se constitui num direito fundamental de todo ser hu-
mano. Aquele que não tem acesso ao saber, mantido em sua condição de cego de
espírito, sempre será reduzido a um mero objeto de controle e de manipulação.
Portanto, o conhecimento se transforma num instrumento de libertação huma-
na. Quanto mais alguém cresce na dimensão do conhecimento, mais se instru-
mentaliza para ser dono e senhor de sua própria história individual e também
construtor da história coletiva.
Conhecer a realidade em que vivemos, confere a cada habitante des-
te planeta condições de segurança e de firmeza diante da vida e na execução
de seus projetos de transformação. O ser humano só se sente seguro quando
conhece. Daí ser a superação da ignorância uma das exigências fundamentais
no processo de desenvolvimento humano. O ser humano precisa assumir o seu

30 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
papel transformador. Já que o mundo não lhe é dado pronto, cabe-lhe modificá-

A era do conhecimento
-lo na perspectiva de sua realização plena. Isso significa que a condição humana
exige a busca do conhecimento para superar suas adversidades e assim desabro-
char todas as suas potencialidades.

Desta forma, a sociedade aprendente8 elegeu algumas palavras chave


como expressão das exigências da realidade atual: conhecer, fazer, conviver e
ser. A inserção no contexto sócio-econômico sem o conhecimento se tornou
algo impossível. O desafio de aprender se tornou uma exigência para toda
a vida. Os saberes são substituídos por avanços científicos e técnicos numa
exiguidade de tempo cada vez menor. A premência pela atualização se tornou
uma constante com aspectos avassaladores. É preciso estar sempre apren-
dendo, sem jamais parar de buscar novos conhecimentos. Cada qual com a
sua capacidade de ler o mundo e sua forma de inteligência, terá que assumir
uma postura de busca permanente de iluminação de sua realidade. Não há
mais lugar para amadores e a desculpa de que não se sabia não serve mais de
álibi para resultados negativos.

As formas de ler o mundo são múltiplas: do senso comum ao conheci-


mento científico. O senso comum se constitui dos saberes simples do cotidiano,
acríticos, difusos, orais, frutos da experiência do cotidiano. O senso comum é a
compreensão simples e ingênua com que as pessoas enfrentam o seu dia a dia.
Existe muita sabedoria também nesta forma de conhecer e viver a realidade
cotidiana. É desta forma de conhecimento que surgem as grandes questões que
desafiam a busca do conhecimento científico. Ciência não é outra coisa do que
senso comum esclarecido. Portanto, o senso comum se constitui num grande
começo para a ciência. Por fim, quando elevado à condição de conhecimento
válido pela pesquisas, aprofundamento e comprovação, é preciso que os saberes

8 Sociedade aprendente é aquela em que o conhecimento assume uma importância funda-


mental para a inserção de qualquer ser humano em suas relações. Aprender é uma tarefa para toda
a vida...

31
retornem para o cotidiano da vida das pessoas, na forma de uma disseminação
das conquistas científicas.
Os mitos se constituíram no grande esforço de explicação do mundo
exercido pelas comunidades primitivas. Esse legado nos vem até hoje numa lin-
guagem metafórica, simbólica e que contem, em germe, a semente dos conheci-
mentos que foram evoluindo ao longo dos tempos. O fenômeno da mitificação
ainda se apresenta nos dias atuais na forma de manipulação e mascaramento
da realidade. Criam-se mitos – pessoas, lugares, ideias etc. – para apresentar
uma realidade fantasiosa que preenche as necessidades das massas carentes de
tudo e que transferem para a magia do pensamento a satisfação não atingida na
realidade. O risco disso tudo está no fato de que essas carências tornam as pes-
soas presas fáceis de entendimentos equivocados da realidade e a manipulação
do consumismo e da exploração de povos inteiros. Portanto, enquanto os mitos
do passado se constituíram em semente do conhecimento moderno, o mundo
da ciência e da técnica deslocou o seu significado e os instrumentalizou como
ferramentas de manipulação e de controle. Portanto, é preciso aproveitar o que
os mitos nos ensinam e desmascarar o que através deles nos é transmitido sub-
liminarmente.
O conhecimento religioso, resultante da revelação divina, de acordo
com a crença das diferentes religiões, projeta o sentido de transcendência para
todos os seres humanos. Apresenta-se uma contradição aparente na medida em
que a construção humana resulta do conhecimento científico e este é fruto da
razão. Todavia, é preciso compreender que a visão religiosa não projeta o mes-
mo objeto da perspectiva científica. A primeira confere um significa de infinito
ou transcendente e a segunda busca a significação e o controle do finito ou ima-
nente. Portanto, o que ambas busca não se contradiz, até porque são conheci-
mentos diferentes. Bem colocados em suas tarefas, os conhecimentos religioso e
científico não coincidem e não são excludentes, mas podem e devem se conciliar
tanto na explicação de todas as realidades existentes, quanto na vida concreta de
todos os seus habitantes. À religião cabe a tarefa de conferir o significado à vida
humana e à ciência cabe explicar o mundo material que nos cerca. Portanto, são
objetos diferentes que concorrem para a construção e realização da condição
humana em sua pluridimensionalidade bio-psico-social-espiritual-material.
Assim, a construção da utopia de um mundo bom para se viver, um
mundo sustentável, ou um mundo onde caibam todos os seres existentes, resul-

32 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
tará da simbiosinergia de toda a teia da vida em que se constitui nosso planeta e

A era do conhecimento
todo o universo. Será através da evolução de todos os saberes e de sua colocação
a serviço da realização da utopia de um mundo melhor que uma nova realidade
poderá emergir.

Há algum tempo, conseguir um lugar em nossa sociedade, sem o estudo,


era algo difícil. Hoje, conseguir sucesso pessoal e profissional, sem o estu-
do, é quase impossível. Vivemos em uma era do conhecimento e a sociedade
é aprendente. Portanto, uma das poucas chances que tem aqueles que não
estão incluídos nesta sociedade por herança é através da busca do saber. La-
mentavelmente, nosso mundo ainda é um lugar em que não há lugar para
todos. Sendo assim, precisamos buscar conquistar esse lugar. A maneira que
está ao nosso alcance, por mais difícil que possa ser, é através da educação.
Cada vez mais, a seleção se fará pela competência. É na escola que havere-
mos de buscar aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e
aprender a ser.

A Organização das Nações Unidas (ONU), através da UNESCO, seu


braço que cuida da educação, ciência e cultura no mundo, ao tentar vislumbrar
as prospectivas para o novo milênio, identificou quatro pilares para o século
XXI: conhecer, fazer, conviver e ser, anteriormente já mencionados.
Sempre o conhecimento foi o grande instrumento de transformação
do mundo. Desde a realidade primitiva, os seres humanos se hominizaram e
se humanizaram através do conhecimento. Se já era importante e necessário
conhecer o mundo para nele se inserir de forma mais hominizado e humani-
zadora, atualmente é muito difícil avançar, seja do ponto de vista individual,
quanto do ponto de vista coletivo, sem a ampliação do conhecimento de si e
de seu mundo. Estamos na era do conhecimento, por excelência. Tanto para
os indivíduos, quanto para os povos, o mais importante caminho de desen-
volvimento está na busca do conhecimento. É preciso que se invista, cada
vez mais, na produção do conhecimento através da educação e da pesquisa.

33
Para muitos, a única possibilidade de se furar o bloqueio dos mecanismos de
exclusão social é através do conhecimento. Portanto, temos que despertar
para o esforço individual e coletivo para que todos tenham acesso à educação
e ao conhecimento. Ao se conseguir acessar os meios formais e informais de
crescimento intelectual, é preciso que sejam aproveitadas todas as oportuni-
dades que se apresentem para que se consiga avançar e conquistar espaços
pessoais e profissionais.
O segundo pilar sobre o qual haverá de se estruturar o desenvolvimento
do novo milênio será o aprender a fazer. Serão as habilidades exigidas por um
mundo complexo que precisam ser treinadas. A multiplicidade de áreas técnicas
que surgem em um mundo cada vez mais sofisticado exige empenho para a aqui-
sição de suas especificidades. Um conhecimento sólido precisa vir acompanhado
da capacidade de aplicar o que se aprendeu teoricamente. Tanto as escolas quanto
o esforço individual precisam concorrer para que cada indivíduo possa ser um
profissional competente e capaz de responder à demanda de um mundo cada vez
mais tecnificado e exigente em suas diversidades e complexidades.
O mundo dos generalistas foi substituído pelo mundo dos especialis-
tas. Isso representou grandes ganhos e também algumas limitações. Ainda ne-
cessitamos de uma massa imensa que se dedicará aos serviços gerais. Porém, é
preciso que haja uma evolução no que diz respeito à valorização dessas ativida-
des que não exigem maior preparo técnico. Como veremos à frente, o labor é tão
necessário e importante quanto as atividades da alta especialização. Todavia, o
mundo precisa aprender a valorizar as atividades que se restringem a esses afa-
zeres. A possibilidade maior de avanço em um mundo tecnológico está na espe-
cialização para responder às demandas e exigências atuais. Aprender a fazer é a
chave maior para a inclusão no universo do trabalho cada vez mais exigente em
suas especificidades. Todavia, o saber especializado não pode perder de vista o
saber holístico, ou seja, a percepção do todo. Por exemplo, um especialista da
área da saúde não pode esquecer que estará tratando um ser humano e não ape-
nas uma doença. Precisa lembrar que uma doença não é apenas uma limitação
de um único órgão do corpo, mas resultado da disfunção da totalidade do or-
ganismo que se manifesta em seu ponto mais fraco. A reunificação dos saberes
se coloca como uma busca de reintegração do que se fragmentou em demasia.
Dentre os quatro pilares de sustentação do desenvolvimento para o
mundo de um novo milênio, o terceiro a ser apontado é o aprender a conviver.

34 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
Verifica-se um avanço tecnológico que possibilita um mundo de infinitas possi-

A era do conhecimento
bilidades ao lado de dificuldades primárias no que diz respeito às relações entre
os seres humanos. Tanto nas relações interpessoais de nossos espaços cotidia-
nos quanto as relações entre os povos, o que se verifica são dificuldades imensas
e que as remete à condições rigorosamente primárias e, por vezes, até mesmo
a uma verdadeira barbárie humana. Vivemos em um mundo de entredevora-
mentos primitivos e incompreensíveis diante do maravilhoso potencial humano
que se desenvolve na atualidade. Para fazer acontecer o avanço para um mundo
onde haja lugar para todos e em que todos possam viver em paz, faz-se neces-
sário o aprender a conviver. Especialmente a educação precisa se constituir no
principal espaço e instrumento de convivência humana. Iniciando-se na família
e formando-se na escola, a sociedade necessita de homens e mulheres que sai-
bam conviver em harmonia, fazendo de todas as diferenças possibilidades de
enriquecimento individual e coletivo, com vistas a um mundo bom para se viver
para todos os habitantes do planeta.
O quarto pilar a ser erigido pela sociedade atual é o do ser. O mundo redu-
ziu o ser humano somente ao ter. Os direitos fundamentais do ser humano acaba-
ram por serem suplantados unicamente pela necessidade de produzir e consumir.
O ser humano precisa se desenvolver em seus múltiplas dimensões. Enquanto não
houver a possibilidade de um indivíduo crescer sob todos os pontos de vista – bio-
lógico, material, intelectual, social, espiritual, emocional, ético, estético etc. – não
existirá um ser humano inteiro e feliz. Essa perspectiva da integralidade do ser hu-
mano se constituirá na grande meta para a qual deverão concorrer todas as forças
de que se compõe a realidade de nossa existência nesse planeta.

Há uma afirmação corrente a respeito do mundo em que vivemos no que diz


respeito à busca de um bom lugar: com o conhecimento já está difícil con-
seguir-se um bom lugar, sem o conhecimento é impossível! O que significa
essa afirmação e em que medida a sociedade atual a está compreendendo e
criando condições para que todos tenha acesso a uma formação humana e
profissional de qualidade?

35
Esse processo de desenvolvimento integral, caracterizando-se uma so-
ciedade aprendente, haverá de acontecer ao longo de toda a vida. O mundo que
se apresenta, em um ritmo vertiginoso de desenvolvimento, exige que as buscas
do conhecimento, das habilidades do fazer, do aprender a conviver e da cons-
trução do ser, façam-se ao longo de toda a vida. Não existe mais a possibilidade
de alguém pensar que, uma vez formado em algum curso, estará pronto para
sempre e que não precisará mais nada fazer para responder às exigências que se
apresentarem. Essas exigências se modificam a cada instante e respondê-las é
um desafio permanente de atualização e de renovação. Portanto, os cidadãos de
um novo mundo são e serão cada vez mais homens e mulheres atentos a tudo de
novo que, a cada dia, está a se apresentar e a exigir respostas inovadoras. So-
mente assim será possível inserir-se em uma realidade paradoxal e desafiadora
de uma sociedade aprendente.

Faremos agora, na sequência do quarto assunto, uma observação aten-


ta da condição em que se apresenta a vida cotidiana dos seres humanos. É pre-
ciso verificar em que e como os seres humanos ocupam predominantemente
os seus dias e se encontram ou não a realização de seus anseios e necessidades
mais primordiais.

Você encontrará todo o conteúdo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na


forma de vídeos, podcast, objetos de aprendizagem e na participação do fó-
rum de discussão sobre o tema.

36 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
A era do conhecimento
DELORS, Jacques et al. Educação: um tesouro a descobrir. 5. ed. São Paulo:
Cortez, 2001.

A UNESCO, órgão da ONU que cuida da educação, ciência e cultura no mun-


do, organizou uma comissão de proeminentes da cultura mundial para dis-
cutirem as perspectivas de desenvolvimento para o século XXI. Coordenada
por um ex-ministro das finanças da França – Jacques Delors – prenuncia
o conhecimento como a grande força que fará girar a roda da história neste
novo tempo em que vivemos.

CAPRA, Fritjof. Sabedoria incomum. São Paulo: Cultrix, 2002.

O renomado físico austríaco Fritjof Capra, radicado nos Estados Unidos, es-
tabelece uma relação entre os diferentes paradigmas científicos e os rumos
do desenvolvimento de uma perspectiva holística para os saberes do mundo
contemporâneo.

37
1.4 A condição humana

O ser humano é o único que tem que construir a sua vida e ela só avança
na medida em que se perseguem metas consideradas, por vezes e de imediato,
impossíveis e irrealizáveis. Nossa utopia é a de um mundo bom para se viver.
É preciso construir uma realidade cada vez melhor para todos. Nossa reflexão
filosófica vai percorrer os caminhos na busca da iluminação da utopia de um
novo homem e de uma nova sociedade. Haveremos de nos questionar sobre
quais aspectos e por quais razões partimos do pressuposto de que o mundo
que temos carece urgentemente de mudanças profundas. Buscaremos com-
preender que somente uma postura de uma autêntica cidadania poderá levar
à realização de um mundo mais justo e mais equitativo.

O ponto de partida de nossa reflexão vai abordar a condição humana, to-


mando o pensamento da filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) como
fio condutor. A grande novidade da existência humana se faz pelo fato de
alguém vir a este mundo e ter que fazer uma travessia realizadora. Sua pas-
sagem vai se constituir em uma permanente atividade de transformação de
si e de seu mundo, através do labor, do trabalho e da ação9. Transitando
entre as três formas de atuação sobre o mundo ou se fixando em uma única
maneira de fazê-lo, é assim que a condição humana haverá de se caracterizar.
Sua passagem poderá ser realizadora ou, então, sucumbir em emaranhados
de descaminhos desumanizadores e de frustrações.

Labor

Arendt (2007, p.90) inicia a reflexão sobre as atividades humanas dis-


tinguindo-as em labor, trabalho e ação. Ao falar do labor, refere-se ao desprezo
enraizado já na cultura da antiguidade grega a tudo que exigia esforço físico.

9 Destaca-se a importância de se definirem os termos, mesmo quando poderiam ser usados


como sinônimos, para conferir um significado especial a um e outro.

38 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
Desde então, para suprir as necessidades básicas da sobrevivência, executando

A era do conhecimento
tarefas servis, era preciso designar indivíduos como escravos, reduzindo-os à
condição de animais domésticos. Estes, por força do que realizavam, não pode-
riam ser considerados seres humanos. Esta era a condição do labor. “Laborar
significava ser escravizado pela necessidade, escravidão esta inerente às condi-
ções da vida humana” (ARENDT, 2007, p. 94). Para conquistar a liberdade era
preciso escravizar outros indivíduos para executar as tarefas braçais e que eram
consideradas indignas de um ser humano. Diferentemente dos tempos moder-
nos, em que a escravidão tinha como finalidade a busca de mão de obra barata e
de lucro, na antiguidade a escravização significava “a tentativa de excluir o labor
das condições da vida humana. Tudo o que os homens tinham em comum com
as outras formas de vida animal era considerado inumano” (ARENDT, 2007, p.
95). O escravo era conhecido como o animal laborans 1510.
Mais tarde, na conceituação moderna, as atividades humanas serão
divididas – segundo Arendt (2007, p. 96 e 98), de forma não menos preconcei-
tuosa – em trabalho manual e intelectual e trabalho produtivo e improdutivo.
O labor é movido pelas necessidades imediatas de sobrevivência. Desta forma,
tão logo ele é realizado, desaparece tão depressa quanto o esforço despendido e
consumido para executá-lo. Um bom exemplo é a atividade do cozinhar. Pron-
ta a comida, todos se alimentam e nada mais resta da demorada e cansativa
atividade de quem ocupa o espaço da cozinha. Incluem-se aqui a gama imensa
de atividades conhecidas como de serviços gerais, que não exigem maior espe-
cialização, que são pouco consideradas e muito pouco valorizadas. Aqueles que
as executam, raramente por escolha e satisfação pessoal, mas por necessidade
e obrigação, sentem-se envergonhados do que fazem, sua autoestima é baixa e
sua autoimagem é minúscula. Nesta condição, questiona-se sobre a possibilida-
de de recuperar a cidadania de quem se sente menos e é visto como um indiví-
duo de segunda categoria.
Arendt (2007) destaca, com o advento da teoria marxista, o processo de
mudança desta mentalidade que colocava a atividade humana de sobrevivência
(labor) da forma pejorativa como foi caracterizada. De acordo com a visão mar-
xista, todo o trabalho é resultado da força humana, produzindo um excedente,
isto é, além do necessário para a sobrevivência. Enquanto o sentido da vida hu-

10 Homo laborans é o homem cuja atividade é o labor cotidiano, simples, repetitivo, cansa-
tivo e pouco valorizado em nossa sociedade.

39
mana se reduz à produção de bens para construir o próprio corpo, desaparecem
todas as concepções diferenciadas das atividades humanas. Tudo será trabalho,
independente de sua qualificação e, portanto, precisará ser valorizado equitati-
vamente. “Se o labor não deixa atrás de si vestígios permanentes, o processo de
pensar não deixa coisa alguma tangível” (ARENDT, 2007, p. 101). Mesmo o re-
sultado da produção intelectual necessitará das mãos para se evidenciar, tanto
no que diz respeito ao pensamento em si mesmo, quanto na sua concretização
em uma realidade material. De sorte que, de acordo com a perspectiva marxista,
nada justifica a divisão e a hierarquização das diferentes tarefas humanas em
trabalhos mais ou menos nobres.
A condição humana individual se dará sempre a partir de um contex-
to de mundo pré e pós-existente à sua chegada e à sua partida. A sua vida se
constituirá no “intervalo de tempo entre o nascimento e a morte” (ARENDT,
2007, p. 108). A vida biológica se dará em um movimento que repete os ciclos
predeterminados pela natureza para todos os seres vivos. Dentro deste tempo,
o ser humano fará acontecer a sua história. O processo biológico da vida humana
e o crescimento e declínio do mundo se constituem no eterno ciclo da natureza
que se repete. É neste movimento que se dá a atividade do labor, encerrando-se
somente com a morte desse organismo. Esta é a permanente tarefa denominada
labor, prover a subsistência dos processos vitais, num movimento incessante, can-
sativo e repetitivo. É o labor humano que busca preservar as condições dos seres
vivos mediante o interminável movimento de crescimento e declínio de tudo o que
existe. Manter limpo o mundo e evitar o seu declínio é a implacável tarefa humana.
Eis aí o seu significado e sua importância. Portanto, o labor sempre poderá ser e
será impregnado do exercício da cidadania. Por mais simples que seja a atividade
humana, ela é importante e necessária e quem a executa precisa ser valorizado e
dignificado como um cidadão.
Para se recuperar o significado e a importância das atividades laboriosas,
é preciso que se faça acontecer uma profunda mudança de mentalidade. A força de
uma herança histórica e cultural é poderosa. O preconceito com relação ao trabalho
manual vem da moral dos senhores e dos escravos de Aristóteles, na antiguidade
grega. Somos herdeiros de uma cultura greco-romana. Até hoje, temos profunda-
mente enraizada em nossas mentes e corações a imediata distinção valorativa em
relação às diferentes atividades humanas. Basta alguém se apresentar como exe-
cutor de serviços gerais e sua apreciação social já se faz espontaneamente depre-

40 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
ciativa. Quando, porém, em nossa perspectiva funcionalista, que avalia as pessoas

A era do conhecimento
por aquilo que tem e fazem, alguém se apresenta como um trabalhador de alta
especialização, logo assume um status orgulhoso e, não raras vezes, de arrogância e
prepotência em relação à todas as atividades mais simples e aqueles que as execu-
tam. Portanto, estamos diante de um desafio ético que remonta a tempos pretéritos
e, por isso, de difícil modificação em seus aspectos negativos e preconceituosos.

Trabalho

A durabilidade do mundo é produzida pelo trabalho. Enquanto o la-


bor é marcado pela fugacidade das coisas que produz e que duram somente o
tempo necessário para a sua produção e seu consumo, o trabalho “fabrica a in-
finita variedade de coisas cuja soma total constitui o artifício humano” (AREN-
DT, 2007, p. 149). O produto do trabalho são objetos duráveis, embora não de
forma absoluta. Também estes envelhecem e, na medida do tempo, haverão de
sofrer o desgaste, serão substituídos e acabarão desaparecendo. Sua durabilidade
é relativa tanto pelo seu uso quanto pelo seu desuso. Se não forem utilizados,
sofrerão a ação do próprio tempo e, aos poucos, perderão sua consistência, até
sucumbirem e retornarem ao ciclo vital da natureza.
O que diferencia o desgaste de um produto do trabalho é que a sua
finalidade não é desaparecer como algo produzido pelo labor, cujo sentido é
ser consumido imediatamente. Esta condição o torna independente de quem
o produz e de quem o utiliza. Será um objeto em si mesmo, sempre disponível
para sua utilização por quem quer que seja, conferindo assim certa estabilidade
à vida humana.
Diz Arendt (2007, p. 150), “contra a subjetividade dos homens, er-
gue-se a objetividade do mundo feito pelos homens”. É o ser humano arru-
mando a casa para nela se instalar. O mundo lhe oferece facilidades e dificul-
dades. É preciso minimizar as dificuldades e aumentar as facilidades de toda
ordem. A natureza precisa ser domada para se ajustar às condições da exis-
tência humana. Assim, ele cria meios para se proteger das intempéries, para
vencer as distâncias, para preservar alimentos, para se vestir, para curar as
doenças etc. O mundo natural precisa da artificialidade para se tornar habi-
tável. Isto quer dizer que os produtos do labor são de consumo e os produtos
do trabalho são de uso.

41
Todavia, existe certa similaridade entre o labor e o trabalho no que diz
respeito aos seus produtos. Ambos serão consumidos. Uns de forma imediata
e outros mais lentamente. Este último, porém, é provido de certa reificação,
ou seja, mantém a sua durabilidade enquanto é cuidado através de constante
manutenção, podendo ser usado por muito tempo. A universalização consiste
em fabricar algo a partir da matéria prima e colocá-lo a serviço, como instru-
mento, para suprir necessidades humanas específicas. Enquanto o homo labo-
rans está submetido à natureza, o homo faber aprende com ela, descobre os seus
princípios, atua sobre ela e a domina, tornando-se seu senhor. Neste processo
de humanização, ou seja, de impressão das marcas humanas sobre a natureza,
sempre haverá certa ação destruidora. O homem se serve da natureza para so-
breviver e, para isso, acaba exaurindo-a com certa violência. Trata-se, porém,
da força engenhosa de seus instrumentos, criados para submetê-la e colocá-la
sob seu domínio. Já não se nutre mais com o suor de seu rosto, mas com a soli-
dez das ferramentas por ele fabricadas.
Outro aspecto da fabricação, apontado por Arendt (2007), refere-se ao
modo como se dá a criação de instrumentos. O que precede a criação de um
instrumento é sua concepção mental. Esta, por sua vez, depois que se efetivou a
sua realização, permanece como modelo teórico para futuras aplicações e multi-
plicações. Isto quer dizer que antes de qualquer coisa ser fabricada, ela já existe
na forma de uma imagem e permanece depois como um modelo mental para
futuras fabricações. Assim, a característica da fabricação e que a distingue das
demais atividades humanas, está no fato de ter um começo e um fim bem de-
finido. Além disso, outra característica é a reversibilidade do processo de produ-
ção. Alguma coisa que venha a ser fabricada pode perfeitamente ser destruída e,
portanto, deixar de existir, de acordo com a vontade do homo faber.11
Assim como o labor, o universo do trabalho também se constitui em
uma das mais importantes questões a desafiar o mundo contemporâneo: de um
lado penoso à instrumentalização tecnológica altamente desenvolvida e sofisti-
ca facilitou-se enormemente a condição humana. Todavia, paradoxalmente, na
medida em que aumenta a afluência incomensurável, em todo o mundo, de uma
massa trabalhadora em busca de um bom trabalho, na contrapartida, a tecno-
logia libera um contingente proporcionalmente da mesma medida. Resultam,

11 Homo faber é o homem que fabrica instrumentos mais duráveis e os dissemina para uso
de todos e em todos os lugares.

42 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
como espaço de trabalho ocioso, ou as tarefas simples e desgastantes do labor

A era do conhecimento
ou, então, os espaços da mais alta e seletiva especialização. Restam as questões
de ordem econômica, política, social e ética: o que haverá de fazer profissional-
mente essa massa humana, especialmente de jovens, no presente e no futuro
que se vislumbra? Enquanto um número cada vez maior procura trabalho, a
quantidade que é liberada ou que sequer tem acesso ao trabalho cresce nas mes-
mas proporções.

Ação

A construção da cidadania pode ser identificada com a ação humana.


O processo de humanização se faz através da temporalidade e da criticidade
do homem, isto é, quando ele pensa, olha, escuta e age. A atividade humana
que Arendt (2007) expressa como sendo a ação é aquela que se realiza sempre
no universo das relações, resultando da característica humana fundamental da
pluralidade. A ação humana perderia o seu sentido e, sequer existiria, se to-
dos os homens fossem iguais. É na diferença que surgem as necessidades que
produzem os desafios e que levam os indivíduos a agir, ou seja, não haveria o
discurso e a ação sem a diversidade dos seres humanos. Todos os demais seres
que habitam o universo são providos de diferenças mínimas entre os elementos
de sua própria espécie e a comunicação entre eles é elementar, resultantes me-
ramente de estruturas instintivas e respondendo a condicionamentos. Portanto,
as diferenças precisam ser compreendidas e aproveitadas como infinitas possi-
bilidades humanas.

Um dos maiores desafios do séc. XXI é encontrar um bom lugar para todos os
seres humanos afluentes no mundo do trabalho, especialmente jovens e adul-
tos excluídos. O que haverão de fazer essas multidões, tanto as que não tem
acesso à educação, quanto aqueles que chegam ao nível educacional superior,
em uma realidade onde os espaços de trabalho diminuem e a afluência é cada
vez maior? É preciso pensar que não se trata de não haver o que fazer. O
mundo está para ser construído e melhorado. O que importa é que tudo o que

43
precisa ser feito tem que ser valorizado de forma justa e equitativa. Portanto,
jamais deixe que entre em sua mente a ideia de que você não vai conseguir
ser bem sucedido porque o mercado está saturado. Ele está saturado para
uma realidade de exclusão e de injustiça social. Todavia, precisamos pensar
em um mundo de inclusão e onde todos os espaços não sejam produto de um
mercado, mas um direito garantido a cada cidadão habitante deste planeta.

Esta pluralidade humana se manifesta em um profundo sentido de


alteridade. Isto quer dizer que o ser humano só existe, de maneira singular,
na relação com os outros, expressando-se no discurso e na ação. Um indivíduo
poderia, em sua existência, até mesmo decidir não fazê-los. Seria uma vida me-
díocre e pobre. Se ele abrisse mão da comunicação e da ação, estaria colocando
em risco a própria condição humana. Isto equivale a dizer que a sua vida “está
literalmente morta para o mundo; deixa de ser uma vida humana, uma vez que
já não é vivida entre os homens” (ARENDT, 2007, p. 189). Proferir a palavra e
agir corresponde a nascer para a vida e para o mundo. O ser humano como cida-
dão se define como tal pela sua palavra e pela sua ação. O primeiro nascimento
se dá por um fato biológico, ainda restrito a uma condição física. O verdadeiro
nascimento se dará na medida em que este indivíduo cresce e passa a se comu-
nicar e a agir, isto quer dizer, apresentar a singular novidade de sua existência
entre os demais seres humanos. Esta será a expressão maior de sua cidadania.
O nascimento se constitui no absolutamente novo e expressa a possi-
bilidade do surgimento do imprevisível e surpreendente, resultando da plura-
lidade humana manifestada pelo discurso. O indivíduo assume a sua condição
humana através da ação e do discurso. É preciso agir e revelar a ação através
da palavra. Somente a palavra identifica o autor da ação e este anuncia o que e
para quem age. A passividade e o silêncio escondem o ser humano. Tanto suas
qualidades e seus dons, quanto seus defeitos e limitações, permanecem ocultos.
“O próprio ato do homem que abandona seu esconderijo para mostrar quem
é, para revelar e exibir sua individualidade, já denota coragem e até mesmo
ousadia” (ARENDT, 2007, p. 199).

44 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
A era do conhecimento
Como fazer acontecer esta utopia de uma nova condição humana, ou seja, de
homens e mulheres que agem e se comunicam na intensidade de fazedores
da história individual e coletiva, ou seja, como cidadãos em pleno exercício
de sua cidadania?

A expressão maior da cidadania se dará pela ação consciente e livre.


O ser humano se fará através de suas escolhas que se configuram num proje-
to realizador e criativo. Essa condição possibilitará a expressão de todo o seu
potencial e a concretização máxima de suas buscas ao longo de sua travessia
humana. Somente assim ele se constituirá em fazedor de sua história e sujeito
solidário com a realização da utopia de um mundo bom para todos os habitantes
do planeta.
Portanto, labor e trabalho assumirão a verdadeira expressão humana
na medida em que forem assumidos com consciência e liberdade. Todas as ati-
vidades humanas poderão revelar a condição humana de dignidade e de reali-
zação plena quando forem executadas por homens e mulheres sujeitos de sua
história individual e coletiva. Isso quer dizer que, a ação humana brotará do
dinamismo consciente e livre de quem faz as suas escolhas, percebe o sentido do
que realiza e, assim, se torna participante ativo da construção da utopia de uma
realidade melhor para todos.

Você encontrará todo o conteúdo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na


forma de vídeos, podcast, objetos de aprendizagem e na participação do fó-
rum de discussão do tema, na resolução de problemas com ajuda do profes-
sor e dos colegas através do chat e e-mails.

45
ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2007.

A filósofa alemã Hannah Arendt, de origem judia, transfere-se para os Es-


tados Unidos, onde será reconhecida como uma das grandes pensadoras do
século XX. Tendo vivenciado a experiência de regimes totalitários, constrói
uma filosofia política, refletindo sobre a condição humana em tempos de
violência e incertezas.

______. Entre o passado e o futuro. 5. ed. São Paulo: Perspectiva,


2003.

Hannah Arendt reflete sobre a possibilidade de recuperar a condição huma-


na, a partir do fato mais importante de toda a existência que é o nascimento.
A natalidade se apresenta como o que há de mais inovador e que funda a
infinita possibilidade de realização humana.

O século XXI é e será cada vez mais uma era marcada pelo conhecimento. É
preciso que sejam atingidas e ultrapassadas todas as fronteiras entre o que
conhecemos e o que ainda não se conhece. É um desafio individual e coletivo
para que se possa ajustar o mundo à condição humana plena. As abordagens
na leitura do mundo se multiplicaram ao infinito através do desenvolvimento
das mais diferentes áreas dos saberes. À filosofia cabe o papel de se dobrar
sobre todo o mundo vivido e refletir sobre todas as realidades em busca de
sua significação mais profunda. Todo o conhecimento se dará numa relação
intensa entre o ser humano e seu mundo. Essa relação que, ao longo dos tem-
pos, transitou entre uma atitude de submissão diante da natureza até uma
ação predatória e destruidora, precisa voltar a ser uma relação de respeito e
de colaboração. O ser humano não poderá mais transitar pelo planeta como

46 Filoso ia e Cidadania
Tema | 01
se fosse o primeiro, o único e o último habitante. Muitas gerações já nos an-

A era do conhecimento
tecederam e outras tantas ainda haverão de chegar. Todos precisam herdar
um mundo melhor para se viver e, sobretudo, um mundo onde caibam todos.
Assim, a condição humana terá que se constituir na utopia de uma realidade
equitativa, justa e solidária, o que equivale a dizer que precisamos construir
um novo homem e uma nova sociedade. Todos os habitantes do planeta pre-
cisam ocupar os dias de sua travessia de forma realizadora e feliz, seja onde e
como desenvolverem sua ação, desde as formas mais simples e laboriosas ao
universo dos trabalhos mais sofisticados e altamente especializados. Todos os
seres humanos haverão de se constituir em donos e senhores de sua própria
história individual e também fazedores da história coletiva.

47
01 O que é preciso para que permaneça vivo o filósofo que temos dentro de
nós?
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________

02 Como o ser humano primitivo percebia e interpretava sua realidade cir-


cundante e que tipo de relação se estabelecia entre ele e seu mundo?
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__________________________________________________
__________________________________________________

03 Vivemos em um mundo em que a construção e a conquista do conheci-


mento se apresentam como condição sem a qual não haverá inserção nem
individual e tampouco coletiva. Trata-se da era do conhecimento e de uma
sociedade aprendente. Precisamos aprender ao longo de toda a vida. Essa
afirmação se refere exclusivamente à educação formal, realizada em esco-
las, ou também se compreende a busca de conhecimento como uma prá-
tica cotidiana através de todos os meios que ampliam nossa capacidade
de ver o mundo e atuar sobre ele? Interprete as primeiras afirmações e
responda a pergunta subsequente.
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________

04 Seriam os que executam o labor menos felizes do que aqueles que, tendo
suprido suas necessidades básicas, se abrem para um leque imenso de
outras necessidades artificiais e de uma sofisticação exuberante?
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__________________________________________________
__________________________________________________

Verifique no AVA as respostas do exercício.

48 Filoso ia e Cidadania
05 De acordo com a UNESCO, os quatro pilares da Educação para o século
XXI, são: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e
aprender a ser. Como relacionar esta perspectiva educacional com a disci-
plina de Filosofia e Cidadania? Marque a resposta correta:
a A disciplina de Filosofia e Cidadania se justificam pela lucidez da pers-
pectiva da UNESCO com relação à educação para o século XXI, pois
somente uma reflexão crítica séria e um engajamento de cidadãos re-
sultará na utopia de um novo homem e uma nova sociedade.
b As perspectivas educacionais da UNESCO são utópicas demais para se-
rem levadas a sério e serem concretizadas.
c Uma sociedade aprendente prioriza o conhecimento. Portanto, não é pre-
ciso relacionar outros valores nessa construção que não seja conhecer.
d A disciplina de Filosofia e Cidadania tem objetivos que não se relacio-
nam com as perspectivas da UNESCO para a educação no novo milênio.
e A Filosofia e a Cidadania tratam de temas que não se aproximam das
perspectivas da UNESCO, preconizadas para o séc. XXI, mas somente
de conteúdos que se referem à história, à política é à economia.

06 Na Antiguidade e até o final da Idade Média, a única forma de conheci-


mento que englobava todos os saberes humanos era a Filosofia. Identifi-
que e marque, nas respostas a seguir, qual delas explica o significado e a
importância da Filosofia no conjunto dos conhecimentos construídos pela
humanidade no mundo atual.
a Com o advento da ciência moderna, a filosofia perdeu completamente
o seu espaço e seu significado. Tanto é verdade que, nos dias de hoje,
praticamente, desapareceram os cursos de filosofia e quase não há
mais universidades que os ofereçam.
b O espaço da Filosofia no conjunto dos conhecimentos construídos
pela humanidade é o de refletir sobre todas as realidades humanas.
Seu papel não é mais de ser a detentora de todos os conhecimentos,
mas de refletir sobre seu significado. O cientista se pergunta como e
o filósofo se pergunta por quê. Isto quer dizer que a filosofia se dobra
Verifique no AVA as respostas do exercício.

49
na busca da significação mais profunda de todas as construções hu-
manas da atualidade.
c A Filosofia continua sendo o campo de conhecimento que contém to-
dos os saberes humanos. O filósofo é assim chamado por ser o amigo
da sabedoria. Portanto, sua tarefa é ser um especialista que emite juí-
zos a respeito do todas as áreas do conhecimento humano construído
pela humanidade no mundo contemporâneo.
d Definitivamente, a Filosofia desapareceu diante dos avanços tecnoló-
gicos do mundo contemporâneo. A realidade atual exige a objetividade
do mundo científico e técnico e, sobretudo, ninguém mais sobrevive só
do pensar. É preciso agir, ser prático, produzir e consumir.
e A Filosofia, diante do enorme desenvolvimento da racionalidade tec-
nológica, perdeu por completo o seu significado e sua importância. O
mundo atual exige que os seres humanos sejam eminentemente práti-
cos e se constitui em algo anacrônico pretender ser reflexivo.

07 A transformação do mundo depende da maneira como o ser humano in-


terpreta a sua realidade circundante. Ao longo dos milhões de anos da
existência de seres pensantes sobre o planeta, a leitura que foi feita sobre
o entorno a ser transformado se fez sob diferentes óticas e perspectivas. O
que vem a ser a forma de conhecimento chamada de senso comum?
a O senso comum é uma interpretação científica a respeito da realidade,
resultado de profundas investigações dos estudiosos.
b O senso comum é uma verdade religiosa que, como doutrina, é pregada
para todos os crentes de uma determinada agremiação de fé.
c O senso comum é um conhecimento simples, acrítico, difuso, dogmáti-
co e transmitido oralmente entre as pessoas, sem nenhum aprofunda-
mento e busca de fundamentação. Portanto, senso comum, é a maneira
simples com que as pessoas resolvem seus problemas do cotidiano.
d O senso comum é o sentido atribuído pelos pesquisadores às questões
que surgem do universo popular.
e O senso comum é uma forma de conhecimento que se caracteriza pela
Verifique no AVA as respostas do exercício.

50 Filoso ia e Cidadania
sua base científica, resultado de um aprofundamento crítico atento e
meticuloso.

08 O contexto da sociedade atual se apresenta como um mundo paradoxal,


isto é, de um lado, uma realidade maravilhosa e cheia de possibilidades,
e de outro, um panorama de misérias, violências, injustiças e explorações
de toda ordem. A ideologia que legitima esse estado de coisas pode ser
chamada de paradigma tecnológico. É o modelo que vigora em nossa socie-
dade globalizada e neoliberal. Tudo isso quer dizer que:
a Os valores predominantes em nossa sociedade são os da solidariedade,
da justiça, da liberdade e da aceitação das diferenças.
b O modelo tecnológico, excludente e injusto, está a serviço da preserva-
ção da cidadania e do desenvolvimento da utopia de um novo homem
e de uma nova sociedade.
c O potencial tecnológico que poderia resolver virtualmente todos os
problemas humanos está a serviço de um desenvolvimento sustentável
em todos os quadrantes do planeta.
d O modelo socioeconômico que vigora é o modelo em que se apregoa a
liberdade como valor máximo e a máquina social funciona para excluir
multidões em todo o mundo, resultando uma realidade de fome e de
misérias por todos os cantos do planeta, junto de riquezas imensas nas
mãos de poucos.
e O modelo socioeconômico baseado na racionalidade tecnológica que
vigora em todo o mundo atual é a única forma que existe para se pro-
mover o desenvolvimento e a justiça social, isto é, construir-se uma
sociedade profundamente humanizada.

09 O que leva o ser humano, o único ser que não recebeu a vida pronta e acaba-
da, a produzir conhecimento é... (completar com a sentença correta).
a somente a necessidade de concorrer com os adversários para vencer na
competição da existência de que se compõe a sua travessia.
b apenas a vaidade que lhe é inerente como ser competitivo e consumista.
Verifique no AVA as respostas do exercício.

51
c o princípio da acomodação a um mundo que já se lhe apresenta prati-
camente completo e no qual há pouco a modificar.
d a necessidade de ajustar o mundo à sua condição humana, dimi-
nuindo as dificuldades e aumentando as facilidades e, com isso,
criando condições nas quais ele possa viver e se realizar cada vez
mais plenamente.
e por ele ser movida pelo simples diletantismo de alguns indivíduos mais
curiosos e mais afeitos a uma busca de novos saberes, na satisfação de
seus prazeres individuais.

10 A produção do conhecimento é sempre resultado das relações homem-


mundo. Isto se explica por que... (complete com a afirmação correta).
a ela não necessita obrigatoriamente que se estabeleçam relações entre o
ser humano e o mundo que o rodeia. Também pode surgir desvincula-
da da realidade do mundo.
b não existe conhecimento válido que não resulte do enfrentamento de
problemas que se apresentam na relação com o mundo circundante.
Todo conhecimento não é outra coisa do que a busca constante de re-
solver os desafios de minimizar dificuldades e maximizar facilidades
para a existência humana.
c o ser humano já recebeu o mundo pronto e acabado. Portanto, nada há
que se fazer para que a existência humana se realize. De sorte que, mesmo
que o indivíduo se isole de seu mundo, poderá evoluir intelectualmente.
d é preciso que o cientista se isole de seu mundo e, de forma alienada,
procure em seu próprio pensamento construir saberes e assim se de-
senvolver intelectualmente.
e é uma tarefa que se restringe exclusivamente a um exercício intelectual
e que em nada carece de uma relação com o mundo circundante.

11 Uma sociedade movida por uma máquina de exclusão tem como conse-
quência as mais graves situações enfrentadas por uma massa excluída da
participação de tudo, como... (completar a sentença).
Verifique no AVA as respostas do exercício.

52 Filoso ia e Cidadania
a desemprego em massa, salários aviltados e aumento da pobreza extrema.
b oportunidades sociais democratizadas.
c distribuição de renda equitativa e justa.
d oportunidades para todos que queiram participar dos bens da terra.
e a possibilidade de enriquecimento de todo aquele que se empenha, que
é inteligente e dedicado: enriquecer, nesta sociedade, é só uma questão
de esforço pessoal.

12 É preciso lembrar sempre que nossa grande meta é a construção da uto-


pia de um novo homem e de uma nova sociedade. A Filosofia é que leva
à grande reflexão e formação de uma consciência crítica que, por sua vez,
fundamentam o exercício da cidadania transformadora. Todavia, de onde
virão os instrumentos que darão origem a essa grande utopia? Pensamos
que, inevitavelmente, a educação terá que assumir o seu espaço político
nessa construção por que:
a Serão os educadores os profissionais que atuam num espaço ambíguo
e que, historicamente, sempre se prestou para reproduzir situações de
controle e de dominação e assim haverão de continuar atuando.
b A educação se constitui num espaço neutro e que nada tem a ver com
a construção da cidadania de um povo. Sua tarefa é a de transmitir
conhecimentos e, cumprindo com essa tarefa de forma excelente, o seu
papel já estará perfeito de acordo com as necessidades de uma socieda-
de mecanicista, individualista e excludente.
c A educação sempre reproduziu e garantiu os interesses dos grupos pri-
vilegiados. Como espelho a refletir e instrumento a reproduzir, é im-
possível esperar que ela se contraponha àqueles que a mantém e ope-
racionalizam.
d É a educação o espaço, por excelência, que forma as novas gerações.
Portanto, é preciso que ela e os profissionais que nela atuam, deem-se
conta da ambiguidade do papel que exercem, e optem por transformá-
lo em instrumento de construção de um novo homem e de uma nova
sociedade.
Verifique no AVA as respostas do exercício.

53
e Acreditar que a educação poderá ser a grande força social de mudança
e de construção de um novo homem e de uma nova sociedade é uma
ilusão. As mudanças sociais não passam pela educação, mas apenas
pelos aspectos econômicos e políticos.

Verifique no AVA as respostas do exercício.

54 Filoso ia e Cidadania
Use a sua criatividade e registre aqui as ideias principais presentes no
conteúdo estudado, buscando construir uma síntese pessoal sobre o tema.

55