Quilombos no Brasil e a singularidade de Palmares

Maria de Lourdes Siqueira

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O processo de colonização e escravidão no Brasil durou mais de 300 anos. sob a inspiração. 1980) . denominadas Comunidades Remanescentes de Quilombos. proclamando a queda do sistema escravocrata. apontar para o significado dessa memória de nossos antepassados e sua continuidade afro-brasileira. Os quilombos existiram em múltiplos pontos do país em decorrência das lutas ocorridas em diferentes lugares onde houvesse negação de liberdade.Maria de Lourdes Siqueira QUILOMBOS NO BRASIL E A SINGULARIDADE DE PA L M A R E S O objetivo deste texto é oferecer a profissionais da Educação formal e não-formal subsídios a respeito da contribuição dos Quilombos articulados a outros diferentes núcleos de resistência ao colonialismo. Essas organizações. dominação. Quilombo é um movimento amplo e permanente que se caracteriza pelas seguintes dimensões: vivência de povos africanos que se recusavam à submissão. na sociedade contemporânea. levantes. e estrutura da produção agrícola organizada nos lugares onde se eram estruturados. tamanho das terras ocupadas. sustentação da continuidade africana através de genuínos grupos de resistência política e cultural. os africanos escravizados se engajaram num combate firme contra a condição de escravizados em núcleos de resistência diversos.32) . do ponto de vista da organização. em resistência ao sistema colonial-escravista.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. de valores. acrescidas de preconceitos. ao mesmo tempo. Os Quilombos continuam sendo sociedades livres. formas associativas que se criavam em florestas de difícil acesso. revoltas armadas. dos princípios. atuando sobre questões estruturais. continuam numa luta por uma liberdade que sempre lhes foi negada (NASCIMENTO. desrespeito a direitos. com defesa e organização sócio-econômicopolítica própria. desigualdades e racismo. justas/soberanas em busca de felicidade. (NASCIMENTO. igualitárias. entre os quais destaca-se a República de Palmares. 3 . de práticas de socialização. Balaiada. à exploração. à dominação ocidental-européia e. Os quilombos eram sociedades avançadas. p. “O Quilombo é liberdade. em diferentes momentos histórico-culturais do país. à escravidão. Revolta dos Malês. Os Quilombos representam uma das maiores expressões de luta organizada no Brasil. são hoje. que nasceram de movimentos de insurreições. fica quem vier por amor à liberdade”. através de uma lei que atirou os ex-escravizados numa sociedade na qual estes não tinham condições mínimas de sobrevivência. 1980. de regime de propriedade. Eram sociedades político-militares. à violência do sistema colonial e do escravismo. a Revolta dos Alfaiates. Os quilombos. Freqüentemente aqueles movimentos tomavam a forma de quilombos à semelhança de Palmares. entre tantos outros núcleos que continuam no pós-abolição em oposição às conseqüências da escravidão. A dimensão dos quilombos variava de acordo com a proporção de habitantes. Desde o princípio da colonização no século XVI. liderança e orientação políticoideológica de africanos escravizados e de seus descendentes de africanos nascidos no Brasil.

o escravo negociava espaços de autonomia.. Mesmo sob ameaça de chicote. nem nos primórdios da escravização dos. rituais. 1996. com as suas contradições inerentes aos conflitos de grupos. provavelmente significado de uma sociedade iniciativa de jovens africanos guerreiras Mbundu – dos Imbangala. Africanos de diferentes grupos étnicos mesclam-se nos quilombos. Quilombos e Mocambos e seus memei bros: Quilombolas. ao mesmo tempo. formas organizativas. as vigiava. grand Marronage e p t t Marronage [. costumes. 4 . nascidos no interior da própria estrutura. Ao contrário. tradições. E de vários tipos. ganha proporções de uma orientação para a EDUCAÇÃO. na francesa. tecnologias.. para formação de pessoas.47). houve resistência. nas matas. É a partir desses indicadores que o conceito de Quilombo transcende. o que alguns autores denominam de comunalismo africano. na reinvenção de políticas e estratégias de luta pela liberdade. de ideologias. experiência de socialização.Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . ciências. mitologias. religiões. Calhambolas ou Mocambeiros. Os quilombos viviam nas florestas.. na dinâmica do combate à escravidão.] essa fuga aconteceu nas Américas e tinha nomes diferentes: na América espanhola: Palenques. Esses núcleos de resistência têm continuidade e interagem com os quilombos através de suas quilombolas tradições..Maria de Lourdes Siqueira A ARTICULAÇÃO DOS QUILOMBOS COM OUTROS NÚCLEOS DE RESISTÊNCIA NEGRA Nessa perspectiva de articulação entre a luta dos quilombos e a densidade da resistência negra em outras iniciativas. africanos no século XV. no Brasil. Nascimento (1980) nos relembra que a memória dos afro-brasileiros não se inicia com o tráfico de africanos escravizados. DIFERENTES DENOMINAÇÕES DE QUILOMBOS Quilombo – Kilombo vem de Mbundu. controlava e perseguia. línguas. na inglesa. quebrava ferramentas. rebelevase individual e coletivamente. nas montanhas e. para fortalecer a crença na riqueza das diferenças étnicas e culturais que constituem a sociedade brasileira entre indígenas originários da terra. como forma de resistir a uma determinação política anterior de separá-los de tudo o que significasse expressão identitárias de um povo: línguas. religiões. Nesses contatos construíam-se novos processos dentro da própria guerra. famílias.. Onde houve escravidão. Cumbes. valores. Maroons. costumes.]. de interesses. Houve um tipo de resistência que poderíamos considerar a mais típica da escravidão [. agredia senhores e feitores.] trata-se das fugas e formação de grupos de escravos fugidos [. artes. em contato com a sociedade envolvente que as rodeava. origem africana. Tudo isso é retomado em todos os momentos da resistência quilombola. sempre com postura crítica. p. os africanos trouxeram consigo saberes a respeito das mais diversas áreas do conhecimento: culturas. ao escravocrata. face ao colonizador. fazia corpo mole no trabalho. africanos e colonizadores europeus. incendiava plantações. organização familiar.. ao imperialista. (REIS.

até que a comunidade foi exterminada pelo autoritarismo colonial. Uma das Comunidades Remanescentes é a de Rio das Rãs em Rio de Contas (ILÊ AIYÊ. com o objetivo de lutar contra a escravidão. antropólogos. Os quilombos do Baixo Amazonas são relevantes. pelo nível de desenvolvimento que alcançaram. O Quilombo de Trombetas chegou a reunir mais de dois mil quilombolas nas proximidades da região de Óbidos. com suas companheiras. situado nas proximidades de Salvador. No decurso de vários embates. Por exemplo. Os chefes desses quilombos eram Antonio de Sousa. Os debates em torno destas designações ganham sentido. o quilombo Rio Trombetas esteve situado nas proximidades das Cidades de Santarém e Óbidos. no Brasil. não só do ponto de vista político. O Quilombo Buraco do Tatu durou 20 anos. estudos realizados por diferentes profissionais educadores. à moradia. hoje Comunidades Remanescentes de Quilombos compreendendo: descendentes dos primeiros habitantes da terra. políticos para os quilombolas e seus descendentes. que teve como principal líder uma mulher chamada Zeferina. 2002) . direito à legalização da terra. em Itapuã. historiadores e juristas buscam determinados critérios para denominar a luta quilombola: comunidades negras rurais. muitos adeptos deste combate organizam-se para criar o Quilombo do Urubu. à educação. A Bahia conta hoje com Quilombos Contemporâneos na categoria denominada Comunidades Remanescentes de Quilombos. ao realizar intercâmbios.Maria de Lourdes Siqueira Hoje. incluindo os quilombos urbanos engajados na luta pelo direito à terra e condições dignas de sobrevivência com auto-estima e cidadania. à saúde. e Teodoro. Durante o século XIX. sobretudo. A EXISTÊNCIA DE QUILOMBOS NO BRASIL NO ESTADO DO A M A Z O N A S Os quilombos mais representativos da Região do Amazonas são os da Bacia do Rio Trombetas e do Baixo Rio Amazonas. econômicos. para efeito de medidas legais. 2000). 5 . remanescentes de comunidades de quilombos. o que lhes conferiu uma consideração especial entre os quilombos da Amazônia e em relação aos do Nordeste. no ano de 1826. que tinham o título de rainhas. Outros quilombos da Região são Inferno e Cipotena nas cabeceiras do Rio Curuá. 2002) . jurídicas ou definição de direitos sociais. entre avanços e repressões. ao lazer (LINHARES. trabalhadores rurais que ali mantém sua residência habitual ou permaneçam emocionalmente vinculados (LINHARES. sociólogos. um capitão de guerra.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . mas também do econômico e social. ESTADO DA BAHIA No período de 1807 a 1809 diferentes grupos de africanos escravizados organizaram uma sociedade secreta denominada Og Boni. terras de pretos. Outros quilombos de igual significação na Bahia foram: O Quilombo Buraco do Ta u t.

2001) .Maria de Lourdes Siqueira ESTADO DE GOIÁS . (BRASIL. A revolta dos pretos de Viana . Assim nasceu o fenômeno que hoje existe na região da Chapada dos Veadeiros.era a guerra da Balaiada. Assim iam se formando as terras de pretos. p. a principal cidade da província . As terras eram dos próprios negros que acabavam sendo donos delas de várias maneiras. Kaiapó. O povo Kalunga foi se estendendo pelas terras. Fugir. Vicente. Kalunga era uma palavra ligada às suas crenças religiosas. contadas pelo pai de seu avô. Karajá entre outros. A partir de outra inferência.. Eles ocuparam um grande território que abrange três municípios do Estado de Goiás: Cavalcante. Severino e Feliciano Costa Mato [. onde vive o povo Kalunga.a força dos seus antepassados.15) . Ali os escravos trabalhavam de sol a sol.Os quilombos. Kalunga quer dizer Camundongo ou pessoa ilustre. 1994.23) . Tratavam-se por tapivas ou compadres. O Quilombo dos Kalunga começa com a aliança entre os indígenas que já viviam no lugar há centenas de anos. XIX.] é provável que a formação do Quilombo tenha se iniciado na década de 50 do século. Turiaçu e Maracassumé. o trabalho era difícil e a vida era dura. A vida do povo Kalunga incorpora no seu cotidiano a consciência da liberdade e o respeito sagrado pela continuidade da vida. Monte Alegre e Teresina de Goiás (BRASIL. ESTADO DO MARANHÃO No Maranhão. importante. cujos núcleos de resistência tinham os mesmos objetivos dos quilombos. de diversas nações: Acroá. Capepuxi. Pericumã. (ARAÚJO. Para os povos chamado Congo ou Angola. No quilombo também chegavam brancos pobres.O QUILOMBO DOS KALUNGA São histórias daqueles primeiros tempos. foram aprisionados alguns quilombolas: Benedito.] A população de São Benedito variava entre 600 e 700 pessoas aproximadamente [. na Cidade de Caxias. Martiniano. e antes dele. os escravizados Negro Cosme e Manuel Balaio enfrentaram o exército do Duque de Caxias. Dizem que ali naquelas serras havia uma mina chamada Boa Vista. entre os insurretos e a força legal. mas ir para onde? [. Durante o jogo travado na fazenda Santa Bárbara. p. Outros Quilombos do Maranhão • • • 6 Mocambo Frechal – Mirinzal.. 2001. . Muitos pretos retornaram aos quilombos já existentes e outros formaram novas povoações (ARAÚJO. espalhavam-se pelas matas: grupos mais ou menos numerosos percorriam armados as estradas.. pelo avô de seu bisavô. E isso era o que faltava nas terras de Goiás. 1994) .. Kalunga poderia ser o ato de incorporar àqueles que passam à uma outra dimensão da vida .Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . Xavante. por sua vez.] Para o lugar mais distante onde ninguém pudesse alcançar...

abarcam expressões ritualísticas. invadiram outras propriedades rurais e fugiram imediatamente para o seio das florestas. a partir da “chegada” dos povos africanos ao Brasil. Iaranjal em São Bento. não necessariamente religiosas. CARDOSO. foi aclamado Rei. O mais importante é o de Campo Grande. descobriram-se em Minas Gerais as jazidas de ouro e diamante. o escravo Manuel Congo. seres inferiores que têm a obrigação de aprender a língua. o do Ambrósio. (CENTRO DE CULTURA NEGRA DO MARANHÃO. Minas. Fulas. existiu um celeiro de quilombos.na qual os escravizados se levantaram em armas. 2002). Fala-se da existência de 160 quilombos na área de Minas Gerais. o de Inficionado. danças. uma ostensiva e explícita tentativa de aniquilamento das identidades culturais daqueles diferentes grupos étnicos. o do Paraibuna. Os colonizadores europeus começam. ESTADO DO RIO DE JANEIRO No interior da província fluminense. o de Misericórdia e o de Campo Grande. há referências a 92 povoados e concernem a práticas religiosas. situado na região montanhosa de Santos. 7 . (SIQUEIRA. Cassanges. o do Sapucaí. festas de santo. Seu líder. a região das Minas constituiu-se a base geográfica e econômica do escravismo colonial brasileiro. bumba-meu-boi e tambor-de-crioula. Macuas. Nagôs. 1995. havia certo latifúndio chamado Fazenda Freguesia. com uma população de 20 mil quilombolas apresentando uma organização parecida com a de Palmares.Maria de Lourdes Siqueira • • Itapecuru. ESTADO DE MINAS GERAIS Há uma tradição significativa de experiências de Quilombo no Estado de Minas Gerais. Dentre os mais importantes destacam-se o Quilombo dos Garimpeiros. o de Jabuticatubas. p. Desde então. Em Minas Gerais. são reduzidos culturalmente à condição de “NEGROS”. No fim do século XVII. no momento em que o Quilombo de Palmares estava sendo destruído. a cultura e a religião de seus dominantes. que se tornou a fortaleza onde se concentrava elevado número de escravizados que abandonaram em massa as plantações de café no interior da província paulista (NASCIMENTO. Cabindas.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . 1980) .45). No seu conjunto. ESTADO DE SÃO PAULO O Quilombo Jabaquara. Em seguida. Benquelas. até o fim do século XVII. Haussas. Não obstante tratarem-se de dados que carecem de investigações adicionais. que concorrem para reforçar a identidade e a coesão social nos povoados das chamadas Terras de Preto.

que delas se faz vinho. Foram as árvores. para os esteios da cobertura da casa. ESPAÇO. RIO GRANDE DO SUL No Rio Grande do Sul. ao Leste. o de Aquatirene. Palmares é entrecortada por outras matas de diversas árvores.. já nas fronteiras da Paraíba (BENJAMIN. Não se conhece. tendo na figura de Zumbi dos Palmares a personalidade mais emblemática da história do negro. as folhas servem para cobrir casa. Aqualtune.Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . (FREITAS. atual Serra da Barriga. Palmares nasceu com o perfil africano e com gentes brasis: índios.]. nenhuma fonte produzida pelos próprios palmarinos. por exemplo. A riqueza da obra está mais no projeto social que ela nos oferece e menos na capacidade bélica e militar de Palmares e seus líderes. que deram ao terreno o nome de Palmares. situado nas matas de Catucá. os quilombos mais reconhecidos são: • • • Serra Geral Serra dos Tapes Camizão A REPÚBLICA DE PA L M A R E S A história da República de Palmares mostra-se especialmente peculiar. 2004) . os ramos. terra onde os organizadores e lideranças palmarinas. os mocambos chamados das Tobocas. um quilombo preocupa as autoridades. SITUAÇÃO FÍSICA E GEOGRÁFICA DE PALMARES. 2004) . negros. estão entre os Bairros de Dois irmãos e Beberibe. do mesmo modo que corre a costa do mar. ESTRUTURA O Quilombo de Palmares: estende-se pela parte superior do Rio São Francisco uma corda de mata brava. os frutos servem de sustento. (ARAÚJO. que vem a fazer termo sobre o sertão do Cabo de Santo Agostinho correndo quase norte a sul.Maria de Lourdes Siqueira ESTADO DE PERNAMBUCO No final da década de 1820. roupas. Zumbi e outros fixaram a Capital Cacus. ao Norte. na vizinhança de Recife – O Quilombo de Catucá. sal. Na área Noroeste está o Mucambo de Zumbi a dezesseis léguas de Porto Calvo. desde os anos oitenta se presta homenagem a Zumbi e celebram as conquistas de todos os quilombolas que foram assassinados pelo comandante do exército português Bernardo Vieira de Melo e Domingos Jorge Velho [. a mãe do Rei. Ganga-Zumba. hoje. além de todos os gêneros de ligaduras e amarras.. liderado por Malunguinho. no Município de Goiana. Ganga-Zumba e Zumbi. 2004) . principais palmeiras agrestes. brancos e mestiços. nas áreas que. Em Alagoas. a cinco léguas de distância. Para Zumbi o ideal de liberdade e a capacidade de organização eram os princípios fundamentais para uma convivência com respeito às diferenças. 8 . azeite. Estas palmeiras são tão fecundas para todos os usos da vida humana.

a cerca real chamada o macaco. cercada de pau-a-pique. Desse encontro levaram prisioneiro o Sangamuisa. e as outras cidades ficavam a cargo de potentados e casos. batizados. muitos precipícios. em documentos dos arquivos analisados por Freitas (2004). dominada pelo Rei. Logo Palmares era a cidade principal. carne e rede para dormir. principalmente os conflitos que determinaram as contradições essenciais entre escravizados e senhores de escravos. O Macaco. pólvora. capote. negros para o seu serviço e honra para a sua estimação. grande corsário. Dentre as levas de ataques a Palmares registram-se o de Acaiene (Acotirene). 9 . peixe. mataram grande número e feriram outros tantos. um chamado Zumbi. tudo concorria para que os soldados. porém sem a forma determinada pela Igreja. e genro do Rei.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . o Pacasã e o Daubi. GANGA-ZUMBA O significado da importância de Ganga-Zumba está relacionado à necessidade de compreensão da sociedade que se empenhava em destruir Palmares. e uma filha chamada Tavianena. farinha. Mestre de Campo da gente de Angola. é a metrópole entre outras cidades e povoações. A cidade tinha sua capela. a cerca chamada Subupiraé. balas.Maria de Lourdes Siqueira quatorze léguas ao noroeste o de Dambrabanga. com imagens de Menino Jesus. matas espessas. com mais de mil casas. onde corre o rio Cachingi. Entre os habitantes há Ministros da Justiça que cuidavam da República. Esses eventos abalaram Palmares. água. Cativaram mais o Anaguba com dois filhos do Rei. A segunda cidade chamava-se Subupira. realizavam-se casamentos. A cidade real. que levavam às costas a arma. onde vivia o irmão do Rei. Consta. a mãe do Rei. pois assim teriam terras para a sua cultura. toda fortificada. onde foi descoberto que se encontrava o Rei. que largou uma pistola dourada e a espada que usava “estes negros que se aglomeravam com o Amaro uma parte se salvou. Algumas das razões por que as Entradas ao Quilombo de Palmares não conseguiam facilmente destruí-lo eram os caminhos. O Lona. o desconforto dos soldados. a nove léguas de Serinhaem. Pereceu também o Tuculo. O Rei era Ganga-Zumba que quer dizer Senhor Grande – Rei e Senhor de todos os que são de Palmares. O Rei conseguiu escapar “tão arrojadamente. Aí travaram grande cerco para fechar a saída do sítio. O grande objetivo do poder oficial era que se destruíssem os Palmares. Notório também foi o Mucambo de Amaro. o desmantelamento de uma comunidade onde prenderam de uma só vez cinqüenta e seis negros juntos. enfrentavam dificuldades. elevadas serras. muitos espinhos. poderosos senhores da luta quilombola”. O Rei habita o Palácio com sua família e é assistido por guardas e oficiais que também têm suas casas reais. com mais de mil e quinhentas casas habitadas. além dos rigores do frio entre as montanhas. ao norte deste oito léguas. Nossa Senhora da Conceição e São Brás. filho do Rei. a falta d´água. e dos que chegam. a maioria mulheres. que a região Palmarina tinha maior circunferência que todo o reino de Portugal. Isso tornava quase impossível o acesso ao local do quilombo. e ao norte desta seis léguas.

ZUMBI DOS PA L M A R E S Zumbi. e inimigo capital da dominação dos brancos. porque a sua “indústria”. exercícios de destreza militar. e sua herança político-civilizatória.Maria de Lourdes Siqueira São múltiplas as interpretações da capitulação de Ganga-Zumba. conseguiu escapar com vida. o mais destemido. destruindo o último reduto de Palmares. Após várias expedições para destruição de Palmares o Governo de Pernambuco propõe um acordo que Ganga-Zumba assina em Recife. as autoridades. Dada a recusa de Zumbi. Ganga-Zumba em 1678 tinha firmado um tratado de paz com as autoridades coloniais. após um período de lutas entre conflitos. O Rei de Portugal escreveu uma carta ao Comandante. o sistema colonial e a escravidão. o estorvo de nossos bons sucessos. grande ânimo. Zumbi aos 39 anos de idade. fundada em 1642. “viço” e constância. com o apoio dos Quilombolas. em aceitar negociações de paz entre Palmares e o Estado colonial. pela construção de uma nova sociedade.Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . 2004) . a nós nos serve de embaraço e aos seus de incitamento. negro de singular valor. seus companheiros. A documentação assim se refere a Zumbi: este é o mentor de todos. avanços. Na noite de 6 de fevereiro de 1694 os canhões de Domingos Jorge Velho atingiram a cerca Real de Macaco. capitão Zumbi dos Palmares. sob o comando do bandeirante Domingos Jorge Velho. Em decorrência. que vivia na fortaleza Quilombola do Macaco. sobre a intensidade do combate e da convicção de Zumbi à frente da luta. É conhecido o fato de que Zumbi rebelou-se contra o pacto celebrado entre Ganga Zumba e o Estado colonial. Zumbi dos Palmares. Zumbi assumiu o poder em Palmares e intensificou a luta contra os proprietários. o general das armas. cujo nome significa DEUS DAS ARMAS. o dia 20 de novembro é o dia Nacional da Consciência Negra em homenagem à figura emblemática do herói nacional. mas foi finalmente capturado. No período de 1670 a 1687 Palmares foi governada por Ganga-Zumba. CARDOSO. Zumbi foi aclamado Rei e conduziu com firmeza a luta mais embelmática dos Quilombos da América (PRICE. O corpo de Zumbi foi levado para a Cidade de Porto Calvo. Hoje. 1996) . depois de reorganizar o seu povo no Quilombo Real. Este fato ocorreu no dia 20 de novembro de 1695. O acordo não foi cumprido o que foi considerado um equívoco político gravíssimo pelo qual Palmares pagou com a destruição do Quilombo oficial em CACAU e das estruturas da luta. constância admirável. 1995) . o exercito colonial. 10 . diz a literatura colonial (FREITAS. no Brasil. combatente há 25. onde as diferenças tenham suas liberdades respeitadas e sua dignidade reconhecida (SIQUEIRA. circunda as áreas centrais do Quilombo de Palmares. lutando sem hesitação. recuos.

“O modo de vestir entre si é o mesmo que usam entre nós. pela continuidade dos princípios que na dinâmica da sociedade contemporânea revivem valores sociais. conforme as possibilidades”. com estrutura. celebravam-se casamentos e batizados. o Maioral principal é escolhido só pelos Maiorais. 8) A maneira de vestir-se em Palmares. Os homens habitam juntos a casa da mesma esposa. O Maioral principal (assim era chamado à época pela linguagem dos documentos.Maria de Lourdes Siqueira A ORGANIZAÇÃO SOCIAL E POLÍTICA DE PALMARES A organização social e política de Palmares refletia os princípios. que era portuguesa) resolve os negócios da guerra por vontade absoluta. Mas fala-se também de “línguas”. de interpretes.25) . ele ordena as estratégias e táticas da guerra. 1) O coletivismo econômico dos palmarinos – tudo é de todos. mas eram guardadas as culturas e expressões religiosas africanas e/ou indígenas próprias. hierarquia e socialização. O núcleo familiar era a unidade básica da organização social e formação individual e coletiva. onde tudo é compartilhado. nada é de ninguém-. hoje. costumes. tradições e religiões de um Estado africano. mais ou menos “enroupados. 7) Conselho de Maiorais. 5) A organização familiar – há existência do direito ao sistema matrilinear. 9 A língua falada em Palmares: em inúmeros documentos dá-se a entender que os ) negros palmarinos falavam português. Todos os Maiorais são escolhidos em reunião pelos negros que vivem nos Mocambos. Todos têm direito ao uso das terras e os frutos do que plantam e colhem é depositado nas mãos do Conselho de Maiorais. 4) A prática religiosa: nos quilombos havia capela. Mas. culturais e políticos das civilizações africanas que fundamentalmente constituem a sociedade brasileira e a cultura nacional. p. 11 . imagens. tudo que plantam e colhem é depositado em mãos do Conselho. 10) As Comunidades Remanescentes de Quilombos .Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . (FREITAS. inclusive o que fabricam em suas tendas. e se o governador enviou “línguas” a Palmares.Lutam. O Conselho reparte com cada um segundo as necessidades de sua sobrevivência. valores. 3) O Conselho de Justiça – recebe as queixas familiares e da Repúblicas que são analisadas “sem recurso”. 2) A existência de instituições políticas. significa que os palmarinos falavam suas próprias línguas e eram das mais diferentes procedências. 2004. 6) A divisão e uso da terra. organização.

1. CARDOSO. O Quilombismo. Luiz Fernando. 2000.Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . Palmares como poderia ter sido. Roberto A África está entre nós. Projeto vida de negro. CENTRO DE CULTURA NEGRA DO MARANHÃO (CCN/MA). Uma história da liberdade. 1996. Brasília.). República de Palmares: pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. São Paulo: Companhia das Letras. Flávio dos Santos (Orgs. BRASIL. João José. Ministério da Educação. FREITAS. Richard. Caderno de educação terra de Quilombo. v. v. Salvador. v. João José. Belo Horizonte: Mazza Edições. 2004. Insurreição de escravos em Viana. 2001.Maria de Lourdes Siqueira REFERÊNCIAS ARAÚJO. Liberdade por um fio: história do quilombo no Brasil. São Luís: SIOGE. IDEÁRIO. São Luís. Petrópolis: Vozes. Maceió: EDUFAL. Uma história do povo Kalunga.). GOMES. ILÊ AIYÊ. Liberdade por um fio: história do quilombo no Brasil. REIS. Zumbi dos Palmares Belo Horizonte. 2002. ARAÚJO. LINHARES. Secretaria de Educação Fundamental. Terras de preto no Maranhão: quebrando o mito do isolamento. Revista Palmares em Ação. 1996. 2004. n. Maria de Lourdes. João José. 1980. SIQUEIRA. (Coleção Negro Cosme). 1. IDEÁRIO. NASCIMENTO.8. Abdias. uma nova discussão. Maceió: EDUFAL. Zezito. In: REIS. 12 . GOMES. In: FREITAS. República de Palmares: pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. Mundinha. Contribuição da obra de Décio Freitas ao entendimento da epopéia palmarina e sua importância na formação da sociedade brasileira. Décio. Flávio dos Santos (Orgs. Marcos. Comunidade negra rural: um velho tema. São Paulo: Grafiset. BENJAMIN. PRICE. Décio. 2004. São Paulo: Companhia das Letras. 2002. In: REIS. 1994.3. 1995.

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