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Pós-graduação Direito Imobiliário

Fesp Faculdades - Prof.ª Luciana de Albuquerque Cavalcanti Brito

DA ASSUNÇÃO DE DÍVIDA

1. CONCEITO (art. 299, CC):


A assunção de dívida ou cessão de débito constitui novidade introduzida pelo
CC de 2002. Trata-se de negócio jurídico pelo qual o devedor transfere a outrem sua
posição na relação jurídica. É um negócio jurídico bilateral, pelo qual o devedor, com
anuência expressa do credor, transfere a um terceiro, que o substitui, os encargos
obrigacionais, de modo que este assume posição na relação obrigacional,
responsabilizando-se pela dívida, que subsiste com os seus acessórios.
A idéia da transferência de débito se encontra integrada na dinâmica da vida
jurídica, como acontece na transferência da dívida do de cujus aos seus herdeiros. Ocorre
freqüentemente na venda de fundo de comércio, em que o adquirente declara assumir o
passivo.
A assunção de dívida é a operação pela qual um terceiro (ASSUNTOR) se
obriga em face do credor a efetuar a prestação devida por outrem. Determina ela uma
alteração no pólo passivo da obrigação, mas sem que a modificação subjetiva envolva uma
perda do conteúdo da obrigação.

2. CARACTERÍSTICAS E PRESSUPOSTOS:
 O que caracteriza a assunção de dívida é, precipuamente, o fato de
uma pessoa, física ou jurídica, se obrigar perante o credor a efetuar
a prestação devida por outra.
 Outra característica é a exigência quanto a concordância do credor
para a efetivação do negócio. A pessoa do devedor é de suma
importância para o credor, não só em relação às suas qualidades e
exação no cumprimento dos deveres, como também no que diz
respeito à idoneidade patrimonial, podendo não lhe convir a
substituição de devedor solvente por outra pessoa com menos
possibilidade de cumprir a prestação. Por tal razão o
consentimento do credor deve ser expresso.

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 A assunção de dívida pode resultar de ajuste entre terceiro


(assuntor) e o credor ou entre aquele e o devedor, com a anuência

do credor. Em um e em outro caso a sucessão no débito tem


caráter contratual. A sua validade depende da observância dos
requisitos concernentes aos contratos, tais como capacidade das
partes, objeto lícito, possível, determinado ou determinável,
forma prescrita ou não defesa em lei.
 Podem ser objeto da cessão todas as dívidas, presentes e futuras,
salvo as que devem ser pessoalmente cumpridas pelo devedor.

3. ASSUNÇÃO DE DÍVIDA E INSTITUTOS AFINS:

a) Assunção de Dívida e Promessa de Liberação do Devedor:


A maior semelhança observada é com a promessa de liberação do devedor ou
assunção de cumprimento, que se configura quando uma pessoa (promitente) se obriga
perante o devedor a desonera-lo da obrigação, efetuando a prestação em lugar dele. É o que
sucede, por exemplo, quando o donatário se obriga perante o doador a pagar certas dívidas
deste, ou o locatário se compromete a pagar certos tributos que a lei impõe ao locador.
A semelhança entre a assunção de dívida e a promessa de liberação está no
ponto em que, em ambas as situações, uma pessoa se compromete a efetuar uma prestação
devida por outrem. A diferença entre elas resulta, todavia, da circunstância de a promessa
de liberação ser efetuada perante o devedor, não tendo o credor nenhum direito de exigir o
seu cumprimento, enquanto na assunção de dívida a obrigação é contraída perante o credor,
que adquire o direito de exigir do assuntor a realização da prestação devida.

b) Assunção de Dívida e Promessa de Liberação do Devedor:

Em ambas as hipóteses ocorre a substituição do devedor por outra pessoa no


dever de cumprir a prestação a que o credor tem direito. A diferença é que a novação
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acarreta a criação de obrigação nova e a extinção da anterior, e não simples cessão de


débito. Todavia, esta pode ocorrer sem novação, ou seja, com a mudança do devedor sem
alteração na substância da relação obrigacional.
Para Sílvio Rodrigues, consiste a novação na extinção da dívida anterior, para
ser substituída pela subseqüente; enquanto que na cessão de débito é a mesma obrigação
que subsiste, havendo mera alteração na pessoa do devedor.

c) Assunção de Dívida e Fiança:


Tanto o fiador como o assuntor se obrigam perante o credor a realizar uma
prestação devida por outrem. Todavia, distinguem-se pelo fato de a fiança constituir, em
regra, uma obrigação subsidiária; o fiador goza do benefício da excussão, só respondendo
se o devedor não puder cumprir a prestação prometida.
O assuntor, ao contrário, não é um obrigado subsidiário. Em regra é o único
obrigado, respondendo por dívida própria, que assumiu ao fazer sua a dívida que antes era
alheia. Ademais, o fiador que paga integralmente a dívida, fica sub-rogado nos direitos do
credor. O assunto que paga a dívida, porém, porque cumpre obrigação própria, não desfruta
desse benefício.

4. ESPÉCIES DE ASSUNÇÃO DE DÍVIDA


A assunção de dívida pode efetivar-se por 02 modos:
a) EXPROMISSÃO: quando o contrato é celebrado entre terceiro e o credor, sem a
participação ou anuência do devedor. É a forma mais típica de cessão de débito; o
negócio jurídico pelo qual uma pessoa assume espontaneamente a dívida de outra.
São partes desse contrato: a pessoa que se compromete a pagar, chamada de
expromitente, e o credor. O devedor originário não participa dessa estipulação
contratual. É o caso do pai que assume a dívida do filho, independentemente da
anuência deste. Distingue-se da delegação por esse aspecto: dispensa a intervenção
do devedor originário.

Tal como a delegação, a expromissão pode ser liberatória ou cumulativa.


Expromissão Liberatória: se houver integral sucessão no débito, pela substituição do
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devedor na relação obrigacional pelo expromitente, ficando exonerado o devedor primitivo,


exceto se o terceiro que assumiu sua dívida era insolvente e o credor o ignorava (art. 299,
segunda parte).
Com efeito, ocorrendo a insolvência do novo devedor, fica sem efeito a
exoneração do antigo. Nada obsta, todavia, que as partes, no exercício da liberdade de
contratar, aceitem correr o risco e exonerem o primitivo devedor, mesmo se o novo for
insolvente à época da celebração do contrato.

Expromissão Cumulativa: quando o expromitente ingressa na obrigação como novo


devedor, ao lado do devedor primitivo, passando a ser devedor solidário, mediante
declaração expressa nesse sentido (art. 265, CC), podendo o credor, nesses caso, reclamar o
pagamento de qualquer deles.

b) DELEGAÇÃO: mediante acordo entre terceiro e o devedor, com a concordância do


credor. Ocorre quando o devedor transfere a terceiro, com o consentimento do
credor, o débito com este contraído. A delegação também pode ser liberatória ou
cumulativa, conforme o devedor originário permaneça ou não vinculado.

O art. 299, CC não dispôs sobre as espécies de assunção. A sua redação parece
revelar a intenção do legislador de disciplinar somente a delegação, na qual o
consentimento expresso do credor constitui requisito de eficácia do ato.

5. EFEITOS DA ASSUNÇÃO DE DÍVIDA

 O principal efeito da assunção de dívida é a substituição do


devedor na relação obrigacional, que permanece a mesma. Há
modificação apenas no pólo passivo, com liberação, em regra, do
devedor originário. Essa liberação pode não ocorrer, se houver
opção pela forma cumulativa;
 O novo devedor não pode opor ao credor as exceções pessoais que
competiam ao devedor primitivo (art. 302, CC). Pode argüir
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vícios concernentes ao vínculo obrigacional existente entre credor


e primitivo devedor, não podendo, todavia, alegar, v.g., o direito de
compensação que este possuía em face do credor.
 Extinção das garantias especiais originariamente dadas pelo
devedor primitivo ao credor, salvo assentimento expresso do
devedor (art. 300,CC). Ex. Fiança, aval e hipoteca, que não são da
essência da dívida, só subsistirão se houver concordância expressa
do devedor primitivo e dos terceiros.
 Anulada a avenca que estipulou a substituição, renasce a obrigação
para o devedor originário, com todas as suas garantias, salvo as
prestadas por terceiros. Não podem estas ser restauradas em
prejuízo do terceiro que as prestou, salvo se este tinha
conhecimento da eiva que maculava a estipulação (art. 301, CC).

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