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~O LIVRO
iIiII __111__-
DE OURO DA~
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PSICanaLISe
o pensamenTO DeFreUD,JunG,MeLalne KLeln,
Lacan,WlnnICOTTe OUTros
. ...,:".~~:. --- -

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J!'/"
WILHELM REICH:
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A CLINICA DO HOMEM ENCOURAÇADO

LEITOR DE MARX. REICH FOI UM HERDEIRO DA PSICANÁLISE QUE CRIOU


UMA TÉCNICA POLÍTICO-SEXUAL BUSCANDO O FLUXO UNITÁRIO

ENTRE O PSÍQUICO E O SOMÁTICO

por Ruoens Kigne1

W ilhelm Reich uma vez disse: "Sempre tive um conflito entre o desejo de parti-
cipar da batalha social e o meu trabalho científico. Na luta social, você tem de
estar aqui, lá e em todo lugar; no trabalho cientí-
fico você fica com seus estudos, livros, pacientes e '"~
instrumentos." ~<
,..,
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Isso posto, fica difícil definir Reich como um ;;;
'"
o
psicoterapeuta e pesquisador se não levarmos em
conta suas dimensões clínica e política. Para ele,
"' ~.<.
'"E
estes dois aspectos não se separaram jamais - o @

individual e o social, o público e o privado -, por-


tanto, no transcorrer de sua vida foi sendo incluí-
do, expulso ou afastou-se de várias organizações,
pois estas eram instituições em que ação e pensa-
mento não fluíam juntos e paralisavam diante da , \
necessidade de aliar-se ao poder, nunca desafian-
do-o, como ocorreu por volta de 1933 com a Asso- WILRELM REICR. FOTO DE 1946. As COURAÇAS
PSÍQUICAS E MUSCULARES SÃO OBJETOS DE IN-
ciação Internacional de Psicanálise, em Viena, e o TERVENÇÃO DA TÉCNICA DE REICR, EM FAVOR DA
movimento comunista. FLUIDEZ ENERGÉTICA
.....

466 ~O LIvro De ouro Da pSIcanáLise

Seu encontro com o mestre Freud havia ocorrido em 1919e apenas um ano depois,.
aos 23 anos de idade, Reich começou a participar das reuniões da Sociedade Psicanalí-
tica de Viena como membro efetivo. Era então um estudante de medicina e nesse mes-
mo período conheceu Otto Fenichel, com quem passou a compartilhar opiniões políti-
cas. Em 1921 deu-se o início de sua prática psicanalítica, quando, mesmo sem ter sidc
analisado, passou a atender pacientes encaminhados pelo próprio Freud, que muito
admirava o jovem doutor Reich.
Em muito pouco tempo, menos de um ano depois, Reich já atuava no local que veic
a exercer a maior influência em seu trabalho: a Clínica Psicanalítica de Viena, da qU;h
mais tarde foi eleito diretor. A clínica era destinada a pacientes que não podiam pagar
tratamento particular; portanto, a demanda tornou-se enorme. Na percepção de Reich
isso demonstrava que a neurose era uma "doença da massa", uma "epidemia" que pre-
cisaria ser tratada além dos limites da psicanálise ou, como ele mesmo dizia, que reque-
ria "uma terapia para aplicação em massa".
Nessa época, dirigiu com muito êxito o seminário sobre sexologia que resultou na ela-
boração de sua teoria da economia sexual. Durante o período de 1920 a 1934, permaneceu
vinculado oficialmente à IPA (Associação Psicanalítica Internacional), desenvolvendo o
que chamava de profilaxia das neuroses e estudando a origem social das doenças men-
tais. Seus cursos e palestras eram direcionados tanto para médicos como para trabalha-
dores, e a natureza dos conceitos por ele utilizados nesses eventos acabou culminando no
movimento denominado Sexpol. O objetivo desse movimento era orientar pessoas com
problemas sexuais e, ao mesmo tempo, prepará-Ias politicamente, tendo por base os en-
sinamentos aprendidos nos livros O capital, de Marx, e A origem da família, de Engels.
() '2>expC/\
e1'aum cC/mp\exC/~iOTÇOteÓTico-prátko paTa, primeiro, ajudar as massas
em suas dificuldades sexuais e, segundo, para articular as necessidades sexuais com os
aspectos políticos relevantes dentro do movimento revolucionário dos trabalhadores.
Questões da vida sexual e da educação das crianças, por exemplo, interessavam demm
ao público.
Reich antecipou a ênfase dada à sexualidade lidando diretamente com essa ques-
tão. Ele também se adiantou no tempo, antecipando o movimento de ir ao encontro das
pessoas em vez de ficar esperando-as na clínica; e esta constitui uma prática utilizada
hoje em dia por diversos projetos terapêuticos sociais. Em 1931, durante um congressc
em Dusseldorf, ele apresentou um programa com a seguinte proposta:
. Distribuição livre de preservativos a todos que não pudessem obtê-Ios através dr
caminhos normais e uma massiva propaganda para o controle de natalidade.
.
Abolição das leis contra o aborto. Providências para liberá-Io em clínicas públicas;-
salvaguardas financeiras e médicas para mulheres grávidas e novas mães.
um FUTuro PLuraL) 467

. Abolição de qualquer distinção entre casados e não casados. Liberdade ~ara o di-
vórcio; eliminação da prostituição através de mudanças econômicas e sexo-econômi-
cas para erradicar suas causas.
.Eliminação de doenças venéreas através de um abran~ente ~ro~rama de educa-
ção sexual.
. Prevenção de neuroses e problemas sexuais por meio de educação aftrrna~iva da vi-

da; estudo de princípios pedagógicos sexuais; estabelecimento de clínicas terapêuticas.


. Treinamento de médicos, professores e trabalhadores sociais em todos aspectos
relevantes para higiene sexual.
. Tratamento em substituição à punição em casos de abuso ou crime sexual; prote-
ção das crianças e dos adolescentes contra sedução de adultos.
Representantes de várias organizações no congresso aliaram-se a Reich na defesa
desses objetivos, e um relevante número de pessoas de outras organizações entusias-
maram-se com seus esforços. Chegou-se a contabilizar 40 mil simpatizantes de suas
idéias por toda a Alemanha. E é verdade que suas atividades ganhavam ainda mais im-
portância quanto mais avultava a ameaça do nazismo. Por isso mesmo, crescia seu inte-
resse pela propaganda de Hitler, que se valia da psicologia de massa. Passou pelo menos
três anos, entre l~,\) e l~'j, àebruçaào no e~i.uào àa propaganàa TIa'Z1r.i.a.
'i:.\t:pl1)('''O.lã~a
compreender por que o povo alemão em geral era tão receptivo àqueles apelos. Tal es-
tudo deu origem à produção de sua obra tida como a mais impactante, depois tornada
um clássico, A psicologia de massas do fascismo.
A respeito desse livro, Roudinesco e Michel Plon concluem, no Dicionário de psica-
nálise: "Longe de olhar o fascismo como produto de uma política ou de uma situação
econômica, de uma nação ou de um grupo, Reich o viu como expressão de uma estru-
tura inconsciente e estendeu sua definição à coletividade para sublinhar que, em de-
finitivo, o fascismo se explica por uma insatisfação sexual das massas. De fato, Reich
retomava um tema que já tinha sido tratado de outro modo por Freud em Psicologia das
massas e análise do ego, mas lhe dava um conteúdo radicalmente novo no momento
mesmo em que o nazismo se espalhava pela Alemanha. A obra teve repercussão mun-
dial, e a doutrina reichiana foi retomada por todos os teóricos do freudo-marxismo e
depois, por volta de 1970, pelos movimentos libertários."
Myron Sharaf, por sua vez, escreveu que as explicações dadas pela esquerda à as-
censão do nazismo eram extremamente superficiais e pasmaram Reich, pois negavam
a significância do sucesso de Hitler ao reivindicar de modo simples e ingênuo que as
coisas em breve estariam melhores. Myron defende também a tese de uma similarida-
de entre a crítica de Reich à psicanálise e aos partidos marxistas. Como afirma Myron,
cada um dos casos seria iniciado por uma "descoberta negativa". No caso da psicanáli-
468 ~ o LIvro De ouro Da pSIcanáLIse

se, a descoberta negativa era de que os pacientes nem sempre melhoravam depois de:
"inconsciente se tornar consciente", e no caso do marxismo, os trabalhadores não nr-
cessariamente abraçariam causas revolucionárias em face da miséria econômica.
A psicologia social era necessária para explicar as contradições existentes, as frus-
trações econômicas sofridas pela classe trabalhadora e sua falta de ação afirmat:::-:
contra as condições sociais. A partir do conhecimento dessa contradição, Reich comP-
çou a desenvolver a idéia de que a "estrutura de caráter" do trabalhador, além de refle2
sua posição socioeconômica, refletia também sua experiência social, principalmellE
na família de origem. Argüia que a autoridade familiar sobre o trabalhador durante SGiõ
infância o "treinava" para obedecer não somente aos pais, mas a todas as figuras autoli-
tárias em geral, ao mesmo tempo suprimindo seus impulsos sexuais. Como conseqüên-
cia, o medo de revoltar-se e o medo da sexualidade estariam "ancorados" na estrutuD.
de caráter das massas.
Ele então aplicou em sua análise social as descobertas clínicas sobre couraça de
caráter. Esta impediria o paciente de entrar em contato, ou de aprofundar tal contatn
e de tomar posição mais agressiva em relação aos problemas sociais. Segundo Myro::
Sharaf em Fury on Earth: "A supressão da sexualidade natural da criança, particular-
mente da sexualidade genital, leva a criança a ficar apreensiva, tímida, obediente, com
medo da autoridade, boa e acomodada, paralisando as forças rebeldes e fazendo com
que qualquer rebelião seja carregada de ansiedade.
produzindo, através da inibição da curiosidade e de
pensamento sexual da criança, uma inibição geral da
pensamento e das faculdades críticas. Resumindo. ::
obietivo da supressão sexual é produzir um indivídu:
ajustado e submetido à ordem autoritária a despe=:
de toda miséria e degradação. Primeiramente a cri~
ça se submete à estrutura autoritária familiar, prepz-
rando o caminho para o sistema autoritário geral L.
formação da estrutura autoritária acontece durante ~
através do processo de inibição e ansiedade sexual-
Reich lançou mão dessas mesmas idéias d~
te..Q aqar.e.cimf'J1tQdQ na7Jsmo. qar;uf>J1taT-p.xrpic.aL=-..
que levou as pessoas a votar de modo submisso m=.
o CAPITAL, DE KARL MARX, FRONTISPÍCIO governo autoritário. Mas, segundo pôde concluil:,...
DA EDIÇÃO ALEMÃ, 1872. A PARTIR DE LEI-
TURAS FREUDO-MARXISTAS, REICH CRIOU
média do povo alemão naquela época não era sn.
O MOVIMENTO SEXPOL PARA ORIENTARAS plesmente "encouraçada". A miséria econômica «F
PESSOAS SEXUAL E POLITICAMENTE
mobilizava os trabalhadores estava impregnada ~
.
um FUTuro PLuraL ~ 469

desejos e emoções que apareciam de forma distorcida. Desejo de liberdade e medo da


liberdade permeavam a população. A propaganda nazista pregava "uma vida mais ex-
citante" ao mesmo tempo que propunha "lei e ordem", o que ressoava profundamente
com o desejo e o medo daquelas pessoas. Isso revelava a genialidade de Hitler em lidar
com a psicologia de massa e suas contradições.
Na opinião de Reich, Hitler, ao mesmo tempo que apoiava a família tradicional, endos-
sava muitas das demandas dos jovens contra os adultos. Ele instigava muitos deles a sair
de casa para participar do movimento coletivo. Eles eram encorajados a ter filhos, dentro
ou fora do casamento, para melhorar a raça ariana, e os nazistas enfatizavam a visão da
"Mãe Alemanha" e do "Pai Hitler", criando a possibilidade de muitos alemães simplesmen-
te transferirem seus sentimentos familiares à supernação "Terra do Pai" (Fatherland).
Hitler subiu ao poder em 1933, ano em que foram publicados Análise do caráter e
Psicologia de ,massas do fascismo. O primeiro deveria ter sido publicado pela editora
Psicanalítica Internacional, mas, frente a problemas "políticos", o diretor alegou o can-
celamento do contrato e comunicou a Reich o fato de que ele deveria então publicá-Io
por conta própria, pois havia ficado muito conhecido como antifascista. Nesse mesmo
período Freud adotava com seus discípulos uma estratégia que consistia - por receio de
represálias do governo - em excluir os militantes de extrema esquerda. Foi esse mesmo
Freud que se viu questionado no livro de Reich, que punha em questão conceitos fun-
dantes da psicanálise, como por exemplo o "impulso de morte", numa análise profunda
-
sobre o problema do masoquismo. Já em artigo publicado no ano de 1929 e mais tarde
incorporado ao livro Análise do caráter-, Reich fazia uma distinção entre as diferentes
estruturas de caráter baseados na presença ou ausência de "potência orgástica". Em
1924, no Congresso Psicanalítico em Salzburgo, ele apresentou o artigo "Aimportância
terapêutica da libido genital", no qual introduzira formalmente tal conceito. Reich de-
finiu a potência orgástica como a capacidade para entregar-se ao fluxo de energia bio-
lógica sem inibição, a capacidade para a descarga de toda a excitação sexual reprimida
através de contrações involuntárias do corpo, relatando-a em mais detalhes no seu li-
vro A função do orgasmo. Esse livro foi com freqüência mal interpretado, caricaturado e
ridicularizado por críticos ignorantes ou incapazes de acompanhar as distinções qua-
litativas meticulosas feitas pelo autor. Potência orgástica diz respeito a qualidade e não
a quantidade, fluxo da presença entre a falta e o excesso.
Ele correlacionava ali seu trabalho analítico com a genitalidade, isto é, a expressão
desimpedida da sexualidade passava a ser o objetivo da análise do caráter. Reich des-
crevia psicanaliticamente o caráter genital como aquele estágio no qual a pessoa pas-
sou pela fase ambivalente do desenvolvimento genital, ou seja, está findo o desejo de
incesto ou de eliminar o genitor do mesmo sexo.
...

470~ O LIvro De ouro Da pSIcanáLIse

Em relação a essa questão, Paulo Albertini afirma no seu livro Reich em diálogo com
Freud, estudos sobre psicoterapia, educação e cultura:
"O caráter genital e o caráter neurótico são organizados por Reich em dois extre-
mos. De um lado, no pólo da saúde, ele supõe a possibilidade da existência de uma es-
trutura em que haveria alto grau de harmonia intrapsíquica, o chamado caráter genital;
de outro lado, no pólo da doença, ele descreve a estrutura em que um intenso conflito
interno se faz presente, o caráter neurótico. Deve-se registrar que o autor tem o cuida-
do de esclarecer que essa classificação refere-se a tipos ideais e que, na verdade, os ca-
racteres reais são estruturas mistas, que se aproximam mais de um ou outro extremo.
Apesar desse cuidado reichiano, tomando a proposta do trabalho como um todo, já de
início é necessário observar que não faz parte da orientação freudiana qualquer ten-
tativa de suposição de um estado de saúde, uma vez que, para ele, a neurose seria um
acompanhante constante da vida civilizada."
Albertini cita o aspecto reichiano clínico de forma sempre conectada ao aspecto
social, e lembra a afirmativa de que a satisfação sexual genital gera melhores condi-
ções para a ocorrência de sublimações, isto é, uma pessoa livre de maiores urgências
sexuais torna-se conseqüentemente mais liberada para o trabalho. E a sublimação
gera cultura no seu sentido mais desenvolvido. A esse propósito, Reich afirmava em
Análise do caráter: "Se a primazia do intelecto é a finalidade do desenvolvimento so-
cial, ela é inconcebível sem a primazia genital. A hegemonia do intelecto não só põe
fim a uma sexualidade irracional como tem como condição prévia uma economia da
libido regulada."
Quanto ao caráter neurótico segundo a descrição reichiana, afirma Albertini, existe
um forte mecanismo de defesa reativo no lugar da sublimação, e na esfera do trabalhe
haverá sofrimento e redução da criatividade, acompanhados de reação compulsiva e
repetitiva constante, em decorrência da formação recalcada.
Vemos assim que a instância recalcadora diminui a vitalidade orgânica geral, ins-
tância comum nos neuróticos, conforme observa Ricardo Rego. Há aqui uma diferença
clínica fundamental marcada por Reich em relação à psicanálise freudiana. Enquama
Freud estimulava a livre associação para a liberação de conteúdos, Reich estimulava;.
respiração como veículo de desinibição do inconsciente motor, emocional e percepã-
vo, indo de encontro à tese de Freud em O ego e o id, quando este diz que o reprimidc2'
funde com o id e é simplesmente uma parte dele.
Isso significa que não apenas de recalque vive o inconsciente, mas também das R-
pressões contidas no organismo como um todo. Reich, amparando-se nessas descoba:'
tas, amplia sua técnica ativa de acesso ao inconsciente por meio da observação, açÊ.
e interpretação das expressões não-verbais, com o uso do toque, por exemplo, pam ::
um FUTuro PLuraL t 411

..esbloqueios musculares, liberando emoções, imagens, fantasias e movimentos conti-


dos na expressão somática do caráter. Conseqüentemente, durante o processo terapêu-
tico, o psiquismo e suas fixações passam a ser acessados de diferentes maneiras, e não
só através das livres associações verbais.
Também em seu livro Análise do caráter, fundamentado a partir da teoria do recal-
que, Reich passa a dar importância ao "como" o paciente diz, à maneira "como" o corpo
fala, liberando defesas caracteriológicas para serem analisadas. Assim, além de se cons-
cientizar, a pessoa entra em contato com sua vitalidade orgânica, aceitando a natureza
existente dentro de si. A técnica reichiana trabalha então com as couraças musculares
e com a couraça psíquica, buscando um fluxo unitário entre as funções psíquicas e so-
máticas, um estado fluido suficientemente bom que impeça a formação desnecessária
de estase. Reich afirma que a satisfação sexual suficientemente boa é a melhor forma de
manter o equilíbrio e descarregar a maior quantidade de libido.
A postura ativa e positiva reichiana fica bem clara em seu artigo sobre o masoquis-
mo, no qual finalmente contrapõe a tese do instinto de morte freudiano. Freud entendia
o masoquismo como a expressão dos impulsos destrutivos em direção ao mundo, que
se voltam contra si mesmo devido à frustração e ao medo de punição. Atormentar-se se-
ria menos perigoso e menos doloroso do que perder o amor dos mais próximos. A partir
disso, Freud explicava que o "instinto de morte" levava ao masoquismo primário.
Reich, evitando qualquer confronto direto com a autoridade de Freud, escreveu en-
tão um brilhante artigo, estudo de caso de um paciente masoquista, no qual desafiava
diretamente o conceito de "instinto de morte". Trabalhando com profundas interven-
ções somáticas e psíquicas, o psicoterapeuta chega finalmente a analisar as queixas re-
petitivas e auto-agressivas do paciente como profundas demandas de amor. Por meio
de sua miserabilidade, ele forçaria o psicoterapeuta a amá-lo. A excessiva demanda de
amor estaria conectada ao intenso medo do paciente de ser deixado só, algo vivenciado
por ele na primeira infância. Tal dor estaria somaticamente ligada, e de modo direto, à
pele, local de primeiro contato, fazendo, por exemplo, com que o paciente tivesse fanta-
sias de ser queimado, beliscado ou de ter sangramentos na pele. No entanto, esses dese-
jos não representam necessariamente um desejo de dor. O paciente quer "sentir o calor
da pele", e a dor é tomada como pechincha ou elemento de troca.
Enquanto desenvolvia seus conceitos sobre masoquismo, seu trabalho político-se-
xual o levava a pesquisar quantas filosofias religiosas se encaixavam no padrão maso-
quista por meio da figura onipotente de dominação, que promovia um alívio da sina
interna (tensão sexual), o qual o indivíduo por si só não poderia atingir e que, portanto,
alguém deveria fazer por ele, mas em forma de punição, como absolvição e libertação.
A educação das crianças como prevenção às neuroses sempre esteve presente nos
1
472 ~O LIvro De ouro Da pSIcanáLIse

~
<
>
projetos e pesquisas de Reich, que chegoG
i a defender a criação de uma nova forma
~ pedagógica. Muito aprendeu e desenvol-
~ veu com a psicanalista russa VeraSchmi-
~~ dt (1889-1937),na tentativa de criar novos
~~. ~
@J
enfoques para a teoria da sexualidade in-
fantil. Depois cultivou uma profunda e
duradoura amizade com o pedagogo es-
cocês Alexander Sutherland Neill (1883-
1973), fundador da famosa escola SUIn-
merhill, que revolucionou o sistema de
ensino na Inglaterra, depois de ter passa-
PREOCUPADO COM A PREVENÇÃO DAS NEUROSES. REICH DEDICA- do pela Alemanha e Áustria, instalando-
SE ÀS CRIANÇAS E CRIA UMA PEDAGOGIA LIBERTÁRIA. QUE TEM
NA PAMOSA ESCOLA SUMMERHILL SUA MAIOR REPRESENTANTE.
se definitivamente no País de Gales. Sum-
NA POTO. ALUNO DA INSTITUIÇÃO merhill admite uma intensa participação
RETRATADO EM 1969

das crianças, sempre numa postura de


parceria, abolindo toda e qualquer punição externa. Reich exerceu influência sobre Neill
pessoalmente, mas não sobre a forma como ele dirigia a escola. Ao passo que esta o in-
fluenciou no tocante ao seu interesse e confiança no investimento em educação infantil,
como a melhor forma de contribuição para desenvolvimento da civilização. Foi com esse
pensamento que Reich escreveu o artigo "Crianças do futuro".
David Boadella escreveu em um de seus livros, Nos caminhos de Reich: "Reich disse
que por todo seu trabalho havia uma linha condutora simples: o tema da excitabilidade
bioenergética e da mobilidade da substância viva. Estudou primeiramente essa energia
como libido, à qual seríamos capazes de nos render em sensações agradáveis, expansi-
vas e que faziam contatos com o que chamava de 'potência orgástica'. Quando o fluxo é
bloqueado, instala-se uma estase que seria a fonte energética da neurose. Em sua teoria
da análise do caráter, seguiu a antítese entre os impulsos primários da pessoa auto-re-
gulada e os impulsos secundários destrutivos que estavam presos na rígida couraça do
caráter neurótico. Desenvolveu o conceito de democracia do trabalho que implicava a
expressão criativa de energias produtivas, diagnosticando que quando a produtividade
é frustrada, há uma devastação social. Desenvolveu o termo 'praga emocional' durante
análise do fascismo e da instalação da couraça de caráter na sociedade."
Reich pôde desenvolver um profundo trabalho no organismo quando se afastou da
psicanálise, estudando as funções da energia vital e seu processo no sistema nervoso
autônomo, que provocava contrações rígidas as quais formavam a couraça muscular no
caso das neuroses. A descarga dessas contrações provocava correntes vegetativas invo-
- --
um FUTuroPLuraLt 473

luntárias que ele conseguia medir com seu osciloscópio, acreditando serem elétricas.
Seu trabalho abrangia também o contato energético entre mãe e bebê, reconhecida co-
mo saúde emocional posterior. Tal trabalho teve continuidade com o empenho de sua.
filha, a pediatra e psicoterapeuta Eva Reich.
Ele mergulhou também no estudo da atmosfera, descobrindo a energia pulsante
que promovia a vida e a hidratação dos tecidos corporais. Na presença de poluentes
nocivos de diversos tipos, a energia atmosférica estagna-se e torna-se fonte de doença.
Mais tarde desenvolveu o acumulador de energia, que acabou por levá-Io à prisão em
decorrência de uma ação movida pelo órgão responsável pelo controle de medicamen-
tos dos Estados Unidos.
Wilhelm Reich, que nasceu em 1897,na Áustria, veio a falecer em 1957,numa prisão.
americana, vítima de ataque cardíaco. Todas as cópias de seus livros e revistas nos EUA
foram incineradas antes de seu julgamento. Seu corpo recebeu sepultura simples em
Orgonon, seu local de trabalho e moradia. Mesmo após a morte, seu desejo testamentá-
rio continuou a refletir suas idéias: ele deixou todos os bens para o Fundo para Crianças
Wilhelm Reich, que deveria se dedicar principalmente ao cuidado e assistência a crian-
ças e adolescentes em dificuldade e também ao custeio de pesquisas orgonômicas.