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CORAG – Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas

Diretor-presidente:
Homero Alves Paim

Diretor Administrativo-financeiro:
Dorvalino Santana Alvarez

Diretor Industrial:
Antônio Alexis Trescastro da Silva

DIREITOS RESERVADOS DESTA EDIÇÃO:


Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore
1ª edição: Porto Alegre

Revisão:
Greice Zenker Peixoto

Diagramação:
Lilian Lopes Martins - Corag

Dados Técnicos:
Maria Helena Bueno Gargioni

Impressão:
CORAG - Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas
Tiragem: 1000 exemplares
2011

R362 Releituras da História do Rio Grande do Sul. Fundação


Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore. Organizadores: Sandra da Silva Careli,
Luiz Claudio Knierim. Porto Alegre, CORAG, 2011.

282p. ISBN: 978-85-7770-149-0 (Corag)

1.História. 2. Rio Grande do Sul. I. Sandra da Silva Careli. II. Cláu-


dio Knierim.
III. Título. Releituras da História do Rio Grande do Sul.

CDU 94(816.5)
Releituras da História do Rio Grande do Sul

OS NATIVOS CHARRUA/MINUANO, GUARANI E representavam os interesses das famílias dos nativos.1 Nos as-
KAINGANG: O PROTAGONISMO INDÍGENA pectos relacionados a situações envolvendo distintos grupos
E AS RELAÇÕES INTERCULTURAIS étnicos, bem como alianças, guerra e reatualizações culturais,
EM TERRITÓRIOS DE PLANÍCIE, SERRA E tem-se os estudos de Barth ([1969] 2000), Clastres (1987),
Sahlins (1990) Vainfas (1995) e Viveiros de Castro (2002).
PLANALTO DO RIO GRANDE DO SUL O presente capítulo procura considerar as categorias ter-
ritoriais que faziam parte da historicidade geográfica dos Char-
* Luís Fernando da Silva Laroque
rua/Minuano, Guarani e Kaingang, os quais respectivamente
Os indígenas Charrua/Minuano, Guarani e Kaingang envolvem territórios mesopotâmios, guarás e bacias hidrográfi-
são populações que também fazem parte do território que pas- cas. Fundamentação para isto são os trabalhos de Seeger e Cas-
sou a chamar-se Rio Grande do Sul. O objetivo deste capítulo tro (1979) e Ramos (1988). Este autor enfatiza que a concepção
de limite territorial não é estranha às sociedades nativas, mas
é promover uma breve reflexão sobre algumas historicidades
sim “o sentido de exclusividade e de policiamento de um ter-
indígenas, considerando estes povos também como protago-
ritório” nos moldes concebidos pela Sociedade Colonial e Na-
nistas de eventos ocorridos no período que se estende desde o
cional brasileira (RAMOS, 1988, p.14). Frente a isso, situações
século XVI até as três primeiras décadas do século XX. envolvendo territorialidades das populações indígenas, por um
A historiografia tradicional costuma priorizar a versão lado, extrapolam ao longe a geografia do Rio Grande do Sul e,
dos conquistadores e governantes representados por militares, por outro, suas concepções de fronteiras eram bastante fluidas,
viajantes, religiosos, engenheiros, diretores de aldeamentos, porque, embora guerreando entre si, esses grupos conviveram
entre outros, os quais são encontrados nos documentos e re- em um mesmo território antes mesmo da chegada dos ibéricos.
lembrados na literatura. As vozes indígenas, na maior parte
das vezes, estão demasiadamente silenciadas nas fontes, me- 1 Os Charrua/Minuano em territórios mesopotâ-
recendo um exercício hermenêutico e uma abordagem in- mios dos rios Salado, Prata, Uruguai, Negro e Ibicuí
terdisciplinar entre arqueologia, história e antropologia, por
exemplo, para captar os sentidos e a interpretação de histo- Os Charrua e Minuano são duas populações que apresen-
ricidades. Tendo em vista tais limitações, a opção condutora tam características diferentes no plano físico e no social, embo-
para as reflexões é considerar a atuação de algumas lideranças ra os colonizadores, muitas vezes, as juntassem e confundissem
Charrua/Minuano, Guarani e Kaingang. como uma só (LAROQUE, 2002). Em decorrência disto, serão
Recorrendo a trabalhos como de Sahlins (1970) e Service tratados em conjunto os aspectos abordados as ambas etnias.
(1984), é importante ressaltar que, nas sociedades tradicionais, No Rio Grande do Sul, Charrua/Minuano ocupavam
o poder não está separado do corpo social, conforme ocorre áreas de campos do sudoeste, até aproximadamente a altura
com sociedades com a presença do Estado, portanto, as lide- dos rios Ibicuí e Camaquã, mas também se estendiam para o
ranças em questão somente mantinham-se na função quando pampa uruguaio e as pequenas porções do território argentino.
1
O termo “nativo” refere-se a povos em seu ambiente tradicional. Procura-se evitar sempre que possível a
* Doutor em História. Professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e designação “índio”, pois, conforme Caleffi (1997), trata-se de uma identidade atribuída pela historiografia
Desenvolvimento do Centro Universitário UNIVATES, em Lajeado/RS. brasileira e que nunca deu conta da diversidade destas populações.

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

Ilustração 1 – Mapa de áreas indígenas no Rio Grande do Sul (séc. XVIII) Tradição Arqueológica Vieira, construtora dos “cerritos”. Per-
tenciam a um mesmo tronco linguístico, mas não está claro se
falavam a mesma língua ou dialetos diferentes.
Nas primeiras décadas do século XVI, as expedições
sobre os territórios Charrua/Minuano foram esporádicas.
Entretanto, a partir de meados deste mesmo século e primei-
ras décadas do século XVII, os interesses das Coroas Ibéricas
crescem na região e alianças com lideranças Charrua, como
Zapicán, Miní, Guaytán, e lideranças Minuanas, como Cloyan
e Lumillan, passam a ser efetivadas. Possivelmente pela lógica
nativa, essas alianças possibilitaram vantagens das parcialida-
des lideradas por estes caciques para lutarem contra os grupos
indígenas inimigos que também ocupavam o território.
No que se refere à utilização da aliança e à guerra nas
sociedades nativas, Pierre Clastres, no trabalho Investigaciones
em antropología política, enfatiza:
Ya hemos indicado que, por la voluntad de indepen-
dencia política y el dominio exclusivo de su territorio
manifestado por cada comunidad, la posibilidad de la
guerra está inmediatamente inscrito en el funciona-
miento de estas sociedades: la sociedad primitiva es el
lugar del estado de guerra permanente. Vemos aho-
ra que la búsqueda de alianzas depende de la guerra
efectiva, que hay una prioridad sociológica de la guer-
Fonte: Riograndino Silva (1968). ra sobre la alianza. Aquí se anuda la verdadera relaci-
ón entre el intercambio y la guerra. (...) Precisamente
Cada uma delas, entretanto, ocupava áreas bem-definidas. a los grupos implicados en las redes de alianza, los so-
Os Charrua “moravam mais para o oeste, ocupando ambas cios del intercambio son los aliados, la esfera del inter-
cambio recubre exactamente la de la alianza. Esto no
as margens do Rio Uruguai e tiveram maior contato com o significa, claro está, que de no haber alianza no habría
colonizador espanhol”, enquanto que os Minuano “se loca- intercambio: éste se encontraría circunscrito al espa-
lizavam mais para leste, nas áreas irrigadas pelas lagoas dos cio de la comunidad en el seno de la cual no deja de
Patos, Mirim e Mangueira, com extensão até as proximidades operar nunca, sería estrictamente intra-comunitario.
de Montevidéu; tiveram maior contato com os portugueses” (CLASTRES, 1987, p.207, grifos do autor)
(BECKER, 1991, p. 145). Segundo Reichel e Gutfreind (1996), na porção Oeste,
Os Charrua/Minuano praticavam a caça, a pesca e a cole- começa a fundação das primeiras cidades espanholas (1527-
ta. Alguns arqueólogos cogitam a possibilidade da cultural ma- 1577); na parte Leste, as portuguesas (1680-1737), as quais
téria produzida pelos antepassados destes indígenas pertencer à foram acompanhadas de grandes batalhas, em que uma boa

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

parte dos Charrua/Minuano foram atingidos. Isso, gradativa- As cidades multiplicaram-se e a exploração econômica,
mente, haveria de produzir uma mudança fundamental em produzindo carne e couro para o mercado interno e europeu,
todo o território indígena, pois essas populações neste primei- aumentou significativamente.
ro momento não se submeteram à “encomienda”,2 à “mita”3 e Neste contexto, é possível apontar o protagonismo Char-
às “reduções/missões”,4 sendo que esta última fora utilizada rua/Minuano a partir das lógicas nativas, como é o exemplo da
principalmente com os indígenas Guarani. atuação de lideranças Naigualvé, Gleubilbé e Doimalnaejé, lu-
Nos séculos XVII e XVIII, as frentes expansionistas nos tando ao lado de Don Francisco de Vera Mujica em territórios
tradicionais territórios Charrua e Minuano continuavam de próximos a Santa Fé contra indígenas inimigos (BECKER, 1991).
forma lenta e cada vez mais efetiva. No final do século XVIII e Por outro lado, quando os interesses nativos não mais estavam
nas primeiras décadas do século XIX, os tradicionais territórios sendo atendidos, rompiam as alianças e recorriam à guerra, con-
Charrua/Minuano da bacia hidrográfica do Rio da Prata são efe- forme ilustra a situação envolvendo o cacique Campusano.
tivamente ocupados pelos colonizadores português e espanhol.
Este cacique Charrua entrerriano, pasado el pri-
Ilustração 2 – Mapa de areas indígenas no Sul do Brasil mer Tércio del siglo XVIII tênia sus tolderías em lãs
márgenes del arroyo Feliciciano. Presume A. y Lara
que es el mismo Campusano que, a fines de abril
de 1749, com um grupo de índios hurtó caballadas
de lãs estâncias del Pueblo Reducción de Santo Do-
mingo Soriano. Habiendo salido en su persecución
el Teniente de Dragones Francisco Bruno de Zava-
la con un escuadrón en un potrero del Queguay.
(BARRIOS PINTOS, 1981, p.87-88)

Gradativamente, as populações indígenas são empurra-


das para o interior, local onde suas possibilidades de sobrevi-
vência são cada vez mais difíceis, principalmente pela dispu-
ta com grupos inimigos, como Araucanos, Tehuelches, entre
outros, que também estavam em movimentação pelo territó-
rio, devido às frentes expansionistas (SARASOLA, 1996). Em
decorrência de não terem desenvolvido sua sustentabilidade
nos moldes do capitalismo, bem como insistiam em continuar
com seus padrões culturais um capítulo da história Charrua/
Minuano no século XIX, resume-se pelos dois combates feitos
Fonte: Curt Nimuendajú, 1987.
à traição – o de Salsipuedes (1831) e o de Mataojos (1832)
– nos quais os indígenas destas duas etnias foram extermina-
2
A “encomienda” consistia na concessão de nativos que a Coroa espanhola dava ao colonizador para tra-
balharem em serviços forçados das minas e/ou agricultura. Em troca dessa concessão, o colonizador tinha
dos em grande maioria ou retirados de seu tradicional terri-
o compromisso de cristianizá-los (MAHN-LOT, 1990, p. 69,83). tório, como, por exemplo, Vaimaca-Peru, Senaqué, Tacuabé e
3
“Mita” era uma forma de trabalho desenvolvido pelos índios nas minas de prata e ouro. Como pagamento,
recebiam uma remuneração insuficiente para sua sobrevivência (MAHN-LOT, 1990, p. 76). Guyunusa, que foram levados pelo comerciante François de
4
As “reduções” foram também conhecidas como Missões. Consistiam em aldeamentos, nos quais os índios
eram reunidos para receberem ensinamentos sobre a religião católica e para trabalharem sob a direção dos
Curel para Paris, lugar de onde não mais retornaram (HIL-
padres (CAMPOS; MOHLNNIKOFF, 1993, p. 16). BERT, 2009). A partir desses dois conflitos, equivocadamente

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

propagou-se um discurso que os poucos Charrua/Minuano O guará, segundo a definição de Montoya, significa
sobreviventes teriam forçadamente se integrado na sociedade tudo aquilo que está contido dentro de uma região qualquer.
da Banda Oriental do Uruguai. Francisco Noelli (1983), utilizando-se de estudos de Branis-
lava Susnik, informa que, para esta autora, o guará é enten-
2 Os Guarani em territórios de Guará dido como um conceito sociopolítico que determinava o do-
mínio exclusivo de uma região pelos seus habitantes, onde
Os Guarani, pertencentes à Família Linguística Tupi-
lhes era assegurado o pleno direito da roça, caça e pesca para
-Guarani e Tradição Ceramista Tupiguarani, eram também
sua subsistência.
chamados de Carijós, Arachanes, Tapes, Patos, entre outras
De acordo com informes de vários jesuítas do Guairá,
nominações. Informações produzidas por cronistas, expedi-
cionários, viajantes e padres jesuítas indicam que os Guarani Itatim, Tape e Uruguai, o guará estaria sob a liderança de uma
representavam, no período colonial, a maior parte da popula- pessoa de grande prestígio político e espiritual, ressaltando
ção indígena no Rio Grande do Sul. Eram horticultores, óti- também que “alguns guará seriam compostos por até 40 al-
mos ceramistas e, além de dedicarem-se à caça e à pesca, pra- deias unidas por laços de parentesco e reciprocidade, com vida
ticavam a antropofagia. Segundo Laroque (2002), ocupavam material e simbólica comum” (NOELLI, 1993, p.248-249).
territórios localizados em várzeas de rios como o Uruguai, o O guará, por sua vez, seria subdividido em unidades ter-
Jacuí, a Laguna dos Patos e o Lago Guaíba, mas estendiam-se ritoriais socioeconômicas denominadas de tekohá, onde esta-
também para outras áreas da América do Sul localizadas entre riam os sítios arqueológicos e as aldeias históricas. O tekohá
Rio Paraguai e o Oceano Atlântico (ver Ilustração 2, p. 19). dividia-se em três níveis integrados: físico-geográfico, econô-
É importante enfatizar que, pela lógica Guarani, a re- mico e simbólico. Sua área estava geralmente bem-definida
lação com o espaço, bem como as categorias que atribuem a por colinas, arroios ou rios, onde estranhos só poderiam en-
estes são totalmente distintas da forma como os ibéricos se trar com permissão.
relacionavam com estes espaços. Francisco Noelli (1993), fun-
damentado em registros dos cronistas, etnógrafos e, muitas Era o espaço onde se produziam as relações econô-
vezes, testadas em modelos etnoecológicos e arqueológicos, micas, sociais e político-religiosas essenciais a vida
Guarani [...]. Por fim, como dizem os Guarani, se
apresentou, como se vê na Ilustração 3, três categorias espa-
tekó era o modo de ser, o sistema, a cultura, a lei
ciais da geografia Guarani: guará, tekohá e teiî.
e os costumes, o tekohá era o lugar, o meio em que
Ilustração 3 – Categorias espaciais Guarani se davam as condições que possibilitavam a subsis-
tência e o modo de ser dos Guarani. (MELIÁ apud
NOELLI, 1993, p.249-250)

O tekohá, por sua vez, era formado por teiî isolados


ou agrupados em função das condições locais e políticas.
Teiî, na linguagem antropológica, significa “família extensa”,
onde vivia a linhagem que poderia contar com até 60 famí-
Fonte: Noelli, 1993, p.250. lias nucleares.

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

A seguir, na Ilustração 4, será apresentado um mode- cercam a época dos ritos de passagem, da menstruação, da
lo hierárquico hipotético da construção territorial (NOELLI, gravidez, dos jejuns ligados à prática religiosa individual ou
1993, p. 250), o qual mostra, aproximadamente, uma sequên- coletiva e os gostos pessoais, os Guarani comiam todos os se-
cia desde a família nuclear até o guará. res vertebrados e muitos invertebrados.
As frentes de expansão ibéricas, no decorrer do sécu-
Ilustração 4 – Modelo hierárquico hipotético da construção territorial lo XVI, a fundação de cidades espanholas e, posteriormente,
lusitanas, nos tradicionais territórios Guarani, e a exploração
econômica, serão responsáveis por um violento decréscimo
populacional desses nativos e um acirramento de conflitos bé-
licos entre os Guarani e os não índios pela América do Sul.
No início do século XVII, os administradores espanhóis
resolveram chamar primeiramente os franciscanos e depois os
padres da Companhia de Jesus para que, por meio do aten-
dimento religioso, pudessem acalmar os indígenas encomen-
Fonte: Noelli, 1993, p.250. dados ou não. Os jesuítas, em um primeiro momento, opuse-
A captação de recursos pelos Guarani, de uma forma ge- ram-se, mas acabaram por obedecer as orientações da Coroa
ral, foi setorizada por Noelli em horticultura (roças), coleta, espanhola. Inicialmente trabalharam junto ao Guarambaré,
Ipané e Guayrá, onde perceberam a inadequação do modelo
caça e pesca. Suas roças, nas quais geralmente cultivavam o
missionário até então empregado.
milho, a mandioca, o amendoim, o feijão, entre outros, pro-
Em contraposição, os padres jesuítas propuseram o sis-
vavelmente instalavam-se em zonas de transição entre a Pla-
tema de Missão/Redução, no qual os índios a serem catequi-
nície Costeira e a Depressão Central, ou, então, em lugares de
zados deveriam ser organizados em povoações concentradas,
vegetação similar. É importante ressaltar que a roça, entre os livres dos fazendeiros espanhóis, e que só dependessem do
muitos outros domínios da aldeia, era apenas um dos espaços Rei. Nasciam, assim, as cinco Frentes Missionárias da Anti-
de inserção de alimentos. ga Província Jesuítica do Paraguai, denominadas de Guayrá
A região do tekohá está caracterizada por zonas de vege- (Paraná), Paraguay (Paraguai), Itatim (Mato Grosso do Sul),
tação campestre (tapete de gramíneas), vegetação silvática (ma- Uruguay (Brasil-Uruguai) e Tape (Rio Grande do Sul), sob a
tas de galeria, matas arbustivas, capões) e vegetação palustre responsabilidade geral do Padre Juan Ruiz de Montoya.
(áreas inundáveis), onde aparece concentrada uma variedade Como o recorte espacial deste capítulo se atém princi-
muito grande de espécies das quais destacam-se os butiás, ara- palmente a territórios do Rio Grande do Sul, serão tratados
çás, ananás, ingás e também os pinhões, recursos de coleta. Es- aqui, especificamente, alguns aspectos da Frente Missionária
sas atividades de coleta, muitas vezes, também eram realizadas do Tape, mas que não se diferenciou muito das outras quatro.
em áreas de plantas cultivadas nas antigas roças abandonadas. A Frente Missionária do Tape localizava-se na região
Quanto à caça, a partir das informações de Becker Centro-oeste do Rio Grande do Sul. Iniciou em 1626, quan-
(1992), é possível constatar que, excluindo os períodos que do o Pe. Roque González, em decorrência de alianças que o

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

Cacique Ñeenguirú, liderança geral possivelmente de um dos orquestravam os eventos por sua própria lógica, bem como
guará localizado na Província do Uruguai e do Tape, conse- a obra de Viveiro de Castro, A incostância da alma selvagem
guiu atravessar o rio Uruguai na altura da confluência com (2002), é possível constatar que os indígenas, frente aos pro-
o rio Ibicuí. Inicialmente, chegou à aldeia do cacique Taba- pósitos das missões, comportavam-se como estátuas de murta
cá, com o qual também contraiu aliança, o que possibilitou a e não de pedra. Ou seja, reatualizavam algumas ações, mas
fundação da Redução Nossa Senhora de Candelária. Entre- os significados continuavam sendo nativos, portanto quando
tanto, os Guarani contrários ao estabelecimento de alianças não mais era de seu interesse, o que provavelmente também
com os jesuítas e utilizando-se da guerra atacavam os padres deve ter ocorrido com os teiî (famílias), que o cacique Arazay
e os Guarani que com eles se encontravam, como foi o caso representava, tanto em termos de alianças como de prática de
do Pe. Cristóbal de Mendoza, morto pelo cacique Tayubay e batismo ou adoção ao Cristianismo.
seus seguidores (BECKER, 1992). Neste contexto, onde os espanhóis avançavam com sua
As outras missões/reduções, ao que parece, somente fo- frente expansionista missionária, os portugueses, em contra-
ram fundadas devido às lideranças Guarani, como Guaymi- partida, faziam o mesmo, mas com a frente expansionista ban-
ca, Cuniambí, Arazay, Guiracurú, Tayaobá, Ayerobiá, Aruyá, deirante e passavam a invadir as missões localizadas mais a
Cuñambó, Carayuchuré, entre tantas outras, terem avaliado Leste do território em busca de mão de obra indígena Guarani
positivamente e em termos de alianças indígenas a presença para o trabalho escravo nas lavouras de cana-de-açúcar. No
dos padres em seu território, decisão posteriormente reforça- período compreendido entre 1612 e 1638, foram capturados
da pelas notícias que passaram a ter dos ataques bandeirantes aproximadamente 300.000 índios, dos quais mais da metade
em territórios Guarani do Norte. Assim é que, em 1626, foram morreram no caminho para o cativeiro, por doenças ou re-
fundadas as Missões de São Nicolau e São Francisco Xavier; pressão às fugas.
em 1627, Candelária do Ibicuy; em 1628, Candelária do Pira- Especificamente no Tape, os ataques mais intensos ocor-
tini, Assunção do Ijuí e Caaró; em 1631, São Carlos e Apósto- reram entre 1635 e 1639, quando os bandeirantes Antônio Ra-
los; em 1632, São Tomás, São José, São Miguel, São Cosme e poso Tavares e Fernão Dias Paes destruíram várias das redu-
Damião, Santa Teresa, Jesus Maria, Santa Ana e Natividad; em ções. Os milhares de índios que restaram tiveram, mesmo com
1634, São Joaquim e São Cristóvão (PORTO, 1954). relutância, de abandonar suas terras e migrar para a margem
A título de ilustração destas alianças pode-se apontar direita do Rio Uruguai. Em consequência disso, o gado trazido
Arazay (chamado também de Roque, Quiraque e Caguiraí), pelos jesuítas ficou solto, passando a viver e a procriar-se livre-
que, segundo a Carta Ânua de 1633, tratava-se de um grande mente pelos campos da Depressão Central e da Campanha.
cacique que teria se batizado e aceitado o Cristianismo. Em Desta forma, os povoados missioneiros, denominados
decorrência do cargo que representava entre os Guarani, in- muitas vezes de Trinta Povos Jesuítico-Guarani, tiveram uma
terviu em termos nativos para os padres fundarem a Missão controvertida experiência histórica, na Bacia do Rio da Prata
de São Tomás e São Miguel. Não são encontradas na docu- e na fronteira móvel existente entre os impérios português e
mentação maiores informações sobre essa liderança, mas uti- espanhol. Quando os jesuítas voltaram à região, meio século
lizando-se o estudo de Ronaldo Vainfas, A heresia dos índios depois, encontraram grande quantidade de animais vivendo
(1995), sobre a Santidade do Jaguaribe com os Tupi, os quais de modo selvagem na Vacaria del Mar.

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

A partir de 1682, foram reerguidas as reduções de São neiro do romance, O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo”. É
Nicolau e São Miguel, assim como foram criadas cinco outras: possível, ainda, mesmo que não se tenha conhecimento sobre
São Francisco de Borja (1682), São Luiz Gonzaga (1687), São fontes documentais, que os Guarani tenham continuado a cir-
Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e Santo Ânge- cular pelo território. Neste sentido, somente a partir de mea-
lo Custódio (1707), as quais constituíram o que ficou conhe- dos do século XX as fontes passam novamente a dar visibili-
cido como os Sete Povos das Missões (ver Ilustração 1, p. 17). dade à presença Guarani no Rio Grande do Sul denominados
Os Sete Povos, contando também com o protagonismo então de Mbyá Guarani, os quais retornaram para seus tradi-
Guarani, prestavam serviços à Coroa espanhola e à Roma, e cionais territórios em busca do Yrovaigua (Terra sem Males).
adquiriam autonomia política e econômica. Essa autonomia,
por sua vez, em termos de relações internacionais europeias, 3 Os Kaingang em territórios de Bacias Hidrográfi-
acarretou-lhes antipatias e animosidades; motivos que escla- cas dos rios Uruguai e Jacuí
recem porque, em 1750, com a assinatura do Tratado de Ma-
drid, a Espanha pretendeu entregá-los aos portugueses, em Os nativos Kaingang, no Rio Grande do Sul, quando
troca da Colônia do Sacramento. iniciou a conquista europeia, ocupavam o território localiza-
Os indígenas Guarani, mesmo com a aliança com os do entre o Rio Piratini (afluente da margem esquerda do Rio
espanhóis em curso avaliando a situação, decidiram que não Uruguai) e as cabeceiras do Rio Pelotas, tendo como limite
deixariam o território. Isto automaticamente significava o meridional os últimos contrafortes do Planalto junto à mar-
rompimento da aliança e a deflagração de guerra aos espa- gem esquerda da bacia hidrográfica do Rio Jacuí (ver Ilustra-
nhóis e portugueses. O conflito passou a ser conhecido como ção 1, p. 17). Entretanto, é importante ressaltar que o “gran-
“Guerra Guaranítica” (1753-1756), mas, apesar do protagonis- de território Kaingang” estendia-se também pelos estados de
mo Guarani, como bem ilustra a conhecida frase “esta terra já Santa Catarina, Paraná, São Paulo e em Missiones, na Argen-
tem dono”, do cacique Sepé Tiaraju, os indígenas, pela desvan- tina (LAROQUE, 2007).
tagem bélica, perderam a guerra e a maior parte dos que não No entender de alguns estudiosos, os antepassados dos
morreram precisaram abandonar seus territórios. Kaingang foram os prováveis responsáveis pela cultural mate-
Uma boa parte dos Guarani que ainda não havia aban- rial denominada de Tradição Arqueológica Taquara e teriam
donado o território, aproximadamente 700 famílias, foi distri- ocupado territórios de planalto conhecidos como “buracos de
buída pelo General Gomes Freire de Andrade, para o interior bugre”. Os Kaingang dedicavam-se também à caça, à pesca,
da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, constituindo à pequena horticultura e, principalmente, à coleta do pinhão
a Aldeia de São Nicolau (Rio Pardo), a Aldeia de São Nicolau (SCHMITZ; BECKER, 1991).
(Cachoeira do Sul) e a Aldeia Nossa Senhora dos Anjos (Gra- O nome Kaingang,5 na verdade, foi introduzido na li-
vataí). Muitos descentes dessas famílias deram origem à matriz teratura etnográfica por Telêmaco Borba, em 1882, para de-
genética indígena de muitas pessoas do Rio Grande do Sul.
Outros, porém, conforme Schmitz (1994, p.112), disper-
saram-se pelas fazendas da Bacia do Prata, “servindo de peão, 5
Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, estes nativos tinham a denominação geral de “Guayná”. Na maior
parte do século XIX, foram conhecidos pelo nome de “coroado”. Entretanto, no século XX, convencionou-se
tipicamente sem família e sem chão, como o Pedro Missio- chamá-los de “Kaingang” (SCHMITZ apud BECKER, 1976, p. 7).

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signar os indígenas não Guarani que ocupavam territórios de Frente a essa situação, os alemães, para chegarem e/ou
planalto no sul do Brasil. Pertencem ao grande tronco linguís- ocuparem muitos dos lotes distribuídos, precisavam enfrentar
tico Jê e aparecem na documentação e na bibliografia com as a reação nativa, o que gerava, consequentemente, uma situação
nominações de Ibiraiáras, Caáguas, Guananáses, Coroado, bastante tensa entre ambas as etnias “porque enquanto os colo-
Guayaná, Bugre, Gualacho, Botocudo, Xokleng, Bate, Chova, nos tentavam se estabelecer nas terras que lhes cabiam por de-
Pinaré, Cabelludo, Kaigua, Kaaguá, Aweikoma, entre outros terminação imperial, o Kaingang via a penetração efetiva nas
(LAROQUE, 2000). terras onde havia nascido” (BECKER, 1991, p.138).
As informações iniciais sobre os Kaingang são poucas A título de ilustração destas reações Kaingang, que,
e retrocedem ao século XVI, quando ocorreram os primeiros possivelmente, foram realizadas sob o comando de lideran-
contatos com o colonizador. No século XVII, o Pe. Luiz de ças como Braga, Yotoahê (Doble), Nicué, Condurá, entre ou-
Montoya e Dias Taño tentaram reduzi-los, mas não tiveram tras, tem-se os ataques à localidade de Dois Irmãos, em 26 de
sucesso. Segundo eles, estes índios eram totalmente diferen- fevereiro de 1829, nos quais foram assassinados dois colonos
tes dos Guarani, com os quais tinham tido experiência. Única alemães e um foi ferido, e, em 08 de abril de 1831, o ataque
exceção a salientar foi o Pe. Cristovão de Mendonça, que, em à família Harras, quando foram vitimados três colonos, dos
1630, teria fundado a Redução da Conceição (no território quais dois ficaram feridos e uma criança foi raptada (F.W.,
de Guandaná - alto curso do Rio Uruguai), na qual, segun- 1913, p.87-88; PETRY, 1931, p.3; BECKER, 1976a, p.67,70).
do os cronistas, teria aldeado aproximadamente 3.000 índios O governo provincial, aproveitando-se da passagem dos
(SCHADEN, 1963). jesuítas espanhóis pelo Sul do Brasil,6 recorreu, a partir de
1845, ao Projeto de Catequese Kaingang. Entretanto, para a
Do contato inicial até o século XVIII, apesar do bandei-
mentalidade da época, a “catequese” e a “civilização” dos nati-
rismo paulista rumo ao Sul, a procura de terras, ouro e mão
vos significavam a sua redução em aldeamentos. O Pe. Antônio
de obra escrava, os Kaingang continuavam a manter sua cul-
de Almeida Leite Penteado é quem, inicialmente, se ofereceu
tura original. Na primeira década do século XIX, as fazendas
para levar as primeiras luzes do Cristianismo aos Kaingang nas
de colonização luso-brasileira somente ocupavam as áreas de
imediações de Passo Fundo. Posteriormente, sob o comando
campo, deixando, com isso, a maior parte do planalto e da
do superior distrital Pe. Bernardo Parés, estabeleceram-se em
mata aos Kaingang (ver Ilustração 2, p. 19). Guarita os jesuítas Aloysio Cots e Ignacio Gurri; em Nonoai,
Entretanto, a partir de 1824, teve início a primeira fase da Luís Santiago Villarrubia e Juliano Solanellas; e no Campo do
imigração alemã, que se estendeu até 1889 (ROCHE, 1969). O Meio, os Pes. Pedro Saderra e Miguel Cabeza. Essa ação mis-
governo imperial, aproveitando-se dessa situação, distribuiu a sionária, por sua vez, não conseguiu reduzir os Kaingang nos
esses colonos, segundo Ítala Basile Becker (1991), muitos dos moldes feitos com os Guarani. Neste sentido, o Pe. Villarrubia
territórios Kaingang, que se estendiam desde o Rio dos Sinos
até a borda do planalto, propiciando, com isso, o aparecimen-
to de colônias como São Leopoldo, Feliz, Mundo Novo, Bom 6
Os jesuítas, depois da expulsão pombalina de 1759, tiveram uma passagem pelo Brasil durante o período
Princípio, São Pedro de Alcântara de Torres, Três Forquilhas, de 1842 a 1867. O contexto desta nova fase em que atuaram principalmente nas Províncias de São Pedro do
Rio Grande do Sul e de Santa Catarina ocorreu em decorrência de sua expulsão da Argentina pelo ditador
entre outras. Rosas (AZEVEDO, 1984).

29 30
Releituras da História do Rio Grande do Sul

destacou, entre as dificuldades para o ensino da doutrina Cris- S. Leopoldo, levando para as matas a família do
tã, a indiferença religiosa que acreditavam que os Kaingang mesmo colono, composta de mulher e filhos. (RE-
LATÓRIO de 13/04/1868, p.30)
tinham, a falta de meios para os padres aprenderem a língua
Kaingang, o mau exemplo de outros cristãos, a falta de respei- Durante a primeira metade da década de 1870, na Pro-
to humano e a preguiça dos índios (AZEVEDO, 1984). víncia de São Pedro do Rio Grande do Sul, alguns registros
De concreto, o governo, por coação e/ou medida pre- sobre os aldeamentos de Nonoai e Campo do Meio mostram
ventiva, reduziu o espaço vital Kaingang e, para tirá-los dos claramente que a legislação respaldada pela Lei de 1850 pos-
seus territórios, iniciou, a partir de 1846, a Política Oficial sibilitava a tomada das terras indígenas, isto é, inicialmente
dos Aldeamentos em áreas como Guarita, Nonoai e Campo demarcavam-se as áreas e depois passava-se a reduzi-las, re-
do Meio, nas quais se encontram, muitas vezes, caciques prin- correndo ao discurso de que estavam improdutivas (RELA-
cipais e chefes subordinados, como, por exemplo, Fongue, TÓRIO de 14/03/1871, p.31; FALLA de 1872, p.33-34; FALLA
Votouro, Nonohay, Condá, Nicafim, Braga, Yotoahê (Doble), de 1874, p.41-42).
Nicué (João Grande), entre muitos outros que, de acordo com As lideranças, por sua vez, continuavam a atuar inten-
os seus interesses, negociavam ou não a estadia de suas hordas samente frente a toda esta trama, como bem demonstra a fala
nessas áreas (LAROQUE, 2009). do Presidente Conselheiro, Jeronimo Martiniano Figueira de
A política governamental para aumentar o povoamento Mello, dirigida, em 1872, à Assembleia Legislativa da Provín-
e propiciar melhores formas para o escoamento da produção cia, ao informar que os nativos, sob a direção dos caciques e
econômica parte, entre 1848 e 1850, para a abertura de mais chefes, saíam do Aldeamento de Nonoai e se espalhavam pelos
estradas, como, por exemplo, a de Mundo Novo-São Leopoldo municípios de Passo Fundo e Cruz Alta.
e Pontão-Caí-Porto Alegre. Conforme Ítala Becker (1976a), Tratando-se da segunda metade da década em questão,
boa parte dessa segunda estrada já havia sido delineada pelo é importante ressaltar que, a partir de 1875, os italianos co-
engenheiro agrimensor das colônias Alphonse Mabilde des- meçaram a chegar na Província e estabelecerem-se em áreas
de 1835, quando percorreu a região. Seu traçado tinha como como Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi, entre outras,
ponto de partida o Passo do Pontão no Rio Uruguai (mais mas que, segundo Basile Becker (1991, p.138), estes não tive-
precisamente na confluência do Rio Pelotas com o Canoas), e ram maiores problemas com os Kaingang, porque, nesta épo-
terminava na Picada Feliz, que se localizava no Caí. ca, eles já haviam migrado para outras regiões.
Reagindo a esta situação, ao longo da década de 1850, Também na última década do século XIX, os ataques às
as correrias Kaingang continuaram tanto em algumas áreas de fazendas, as desavenças entre as facções e as estratégias utiliza-
colonização alemã quanto em regiões luso-brasileiras, como das pelos diretores para reduzir as terras indígenas ainda con-
Cruz Alta, Passo Fundo, Vacaria, entre outras. tinuavam. Relativo à primeira situação, um relatório do Presi-
Apesar dos aldeamentos, os ataques e estragos con- dente Carlos Thompson Flores discorre que, constantemente,
tinuavam, como bem mostra um relatório de Homem de os fazendeiros estabelecidos nas vizinhanças dos aldeamentos
Mello ao passar a administração da Província, em 1868, ao de Guarita, Nonoai e Campo do Meio reclamavam das correrias
Vice-presidente, Sr. Joaquim Vieira da Cunha. e ameaças Kaingang às suas propriedades. Quanto às desaven-
No dia 14 daquele mês assaltaram os bugres a casa ças entre as parcialidades, nesse mesmo relatório, referindo-se
do colono Lambertus Werteg, da colonia de santa possivelmente a guerreiros do grupo do Cacique Nhancuiá,
Maria da Soledade, sita no 5º distrito do termo de ocupantes de território da margem direita do Rio Uruguai,

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

[...] havendo aparecido à margem direita do Rio Nas florestas do Norte do Estado existem ainda
Uruguai, nas proximidades de Nonoai, uma tribu algumas tribos dos grupos que ocupavam o Brasil
de indios bravos, fôra batida pelos indigenas do al- quando de sua descoberta. Um dos nossos missio-
deamento daquela denominação, que lhes sairam ao nários, Frei Alfredo de Saint Jean-d’Arves, numa
de suas inúmeras excursões apostólicas, havia
encontro e em poder de quem ficaram 4 mulheres e
conseguido chegar até esses infelizes. Em vista do
7 crianças. (RELATÓRIO de 15/04/1880, p.39-40) relatório que me apresentou, resolvi visitá-los eu
mesmo com o objetivo de verificar se haveria pos-
No decorrer da década de 1880 até a Proclamação da sibilidade de empreender algo para lhes proporcio-
República, percebe-se que as coisas não foram diferentes, ou nar os benefícios da civilização. [...]. Para chegar a
seja, os Kaingang e suas lideranças, agindo de acordo com os seus toldos é preciso viajar vários dias pela flores-
seus próprios termos, mantiveram, até onde lhes interessava, ta, transpor árvores arrancadas, atravessar a vau
cursos d’água, que se tornam instransponíveis à
alianças com os não índios e, consequentemente, a permanên- menor chuva; cavalgar por atalhos obstruídos, por
cia ou não dos integrantes de suas parcialidades nos aldea- banhados, barrancos, etc. Conversei com os chefes,
mentos. O presidente Carlos Thompson Flores, por exemplo, falei com as autoridades civis e ficou estabelecido
descreve, no relatório de 15 de abril de 1880 (p.39-40), que os que se tentaria junto ao Governo do Rio Grande do
fazendeiros estabelecidos nas vizinhanças dos aldeamentos de Sul obter uma área de terreno, no município de La-
goa Vermelha, às margens do Rio Forquilha, para
Guarita, Nonoai e Campo do Meio frequentemente reclama- aí reunir os diversos toldos e que, em seguida, um
vam das correrias e ameaças Kaingang em suas propriedades. missionário, ou dois, ocupar-se-iam de sua instru-
Tratando sobre continuidade da identidade dos grupos ção religiosa e civil. (GILLONNAY apud COSTA E
étnicos em contato, Fredrick Barth destaca: DE BONI, 1996, p. 355-357)

Se um grupo mantém sua identidade quando seus Paralelo à catequese capuchinha com os indígenas, o
membros interagem com outros, disso decorre a engenheiro Carlos Torres Gonçalves, confrade de Rondon na
existência de critérios para a determinação do per- Igreja Positivista brasileira, foi cogitado e aceitou, a partir de
tencimento, assim como as maneiras de assimilar 1908, a Diretoria de Terras e Colonização do estado. No desem-
este pertencimento ou exclusão [...] Além disso, a penho dessa função, antecipou-se ao Governo Federal no enca-
fronteira étnica canaliza a vida social. Ela implica minhamento de uma política indigenista para o Rio Grande do
uma organização, na maior parte das vezes bas- Sul que estivesse em sintonia com os pressupostos positivistas.
tante complexa, do comportamento e das relações No Rio Grande, o trabalho de demarcação de terras foi
sociais. A identificação de uma outra pessoa como
realizado basicamente pela Diretoria de Terras e Colonização.
membro de um mesmo grupo étnico implica um
compartilhamento de critérios de avaliação e de
No período de 1911 até 1920, conforme o relatório do Dire-
julgamento. (BARTH, 2000, p.34) tor Torres Gonçalves, são encontradas, no estado, 12 áreas
de aldeamento Kaingang denominadas de Inhacorá, Guarita,
Nos primeiros anos do século XX, a situação Kaingang é Nonoai (duas aldeias), Fachinal, Caseros, Ligeiro, Carretei-
praticamente a mesma do período anterior, pois a penetração ro, Ventarra, Erechim, Votouro e Lagoão (RELATÓRIO de
e a cobiça em suas terras continuaram. A partir de 1903, no 09/06/1910 in: LAYTANO, 1957). Os caciques e chefes que
entanto, na região de Lagoa Vermelha, tem-se a presença da apareciam nesses aldeamentos são Candinho, Faustino, For-
catequese dos capuchinhos: tunato, Santos, Vito Supriano, Titi Fongue e muitos outros.

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

No decorrer da década de 1930, avançando inclusive A título de ilustração dessa questão, tem-se o caso da
para os anos de 1940, além da frente colonizadora da Socie- Área Indígena de Serrinha, que, pelo Decreto nº 658, de 10 de
dade Nacional efetivada principalmente pelas fazendas e pela março de 1949, Walter Jobim reduziu o território Kaingang
exploração de riquezas vegetais que retrocedem ao início do para criação de uma reserva florestal. O argumento utiliza-
século, tem-se, também, uma segunda frente que se caracteri- do, segundo José Antônio Nascimento (2001, p.56), era o de
za pela criação de reservas florestais em territórios indígenas.
Neste sentido, então, grande parte das áreas indígenas foram evitar que os funcionários do Serviço de Proteção aos Índios
ocupadas por posse ou arrendamento, seja de colonos imigran- devastassem a área. Entretanto, o governo não fez nada “para
tes (principalmente descendentes de alemães e italianos) ou de criar áreas de preservação ambiental em áreas não indígenas,
caboclos, resultando, muitas vezes, na perda de controle dos como, por exemplo, em propriedades particulares com vasta
Kaingang sobre seus tradicionais territórios (ver Ilustração 3). extensão devoluta, expondo, com isso, o caráter protetor das
elites, que o Estado brasileiro sempre teve”.
Ilustração 3 – Mapa de áreas indígenas no Sul do Brasil na República Velha
4 Conclusão

Nessas primeiras décadas do século XXI, observou-se


Legenda que os povos indígenas no Rio Grande do Sul, semelhante-
1. Mangueirinha
mente ao passado, continuam a viver seu protagonismo, a lu-
2. Palma tar por seus tradicionais territórios e a vivenciar sua história
3. Chapecó
4. Inhacorá
e cultura.
5. Guarita Ilustra a questão a situação Charrua, que a historiogra-
6. Pary fia considerou que, enquanto grupo, desapareceu. Porém, na
7. Nonoai
8. Serrinha primeira metade do século XIX, passado pouco mais que o
9. Votouro período de um século, em plena capital gaúcha, um grupo de
10. Erechim
11. Ventarra Charrua, liderado pela cacique Acuab, rompeu a invisibidade
12. Ligeiro imposta e testemunhou que sempre esteve presente, percor-
13. Carreteiro
14. Faxinal
rendo os territórios no Rio Grande do Sul.
15. Cacique Doble Para os Mbyá Guarani no Rio Grande do Sul, que oficial-
16. Caseiros
17. Lagoão
mente retornaram para o estado a partir da década de 1960,
totalizam, aproximadamente, 3.000 indivíduos, as questões
não são diferentes. Falam a língua guarani, além do espanhol
e do português. Elementos culturais, como, por exemplo, a
cestaria, o artesanato, os cantos, o parentesco, o deslocamento
pelo território e, principalmente, o universo religioso, conti-
Fonte: Luís Fernando Laroque (2011).
nuam sendo vivenciados e mantidos no seu dia a dia.

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

Os Kaingang, com um contingente atual em torno de 10 BARRIOS PINTOS, Aníbal. Caciques charruas en Territorio Oriental. Alma-
mil indivíduos no Rio Grande do Sul, também continuam a naque de Seguros del Estado: 86 a 89. Montevideo, Uruguai. 1981. p.87-88.
vivenciar seu protagonismo. Ressalta-se ser o grupo que, mes-
BARTH, Fredrik. O guru, o iniciador e outras variações antropológi-
mo tendo o território bruscamente reduzido após a década de cas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000. (Tradução John Cunha
1930, esteve oficialmente presente como etnia, embora as esti- Comerford).
mativas governamentais e demográfica insistissem em prever
seu desaparecimento ou sua “aculturação”. Dentre os vários BECKER, Ítala Irene Basile. O índio Kaingáng no Rio Grande do Sul. Pes-
elementos culturais desses nativos, são apontadas as pinturas quisas, Antropologia 29. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesqui-
corporais, o respeito ao universo simbólico das duas metades sas, 1976. 264 p.
que se encontram divididas, os cantos, as danças, o apego aos
______. O índio Kaingáng e a colonização alemã. In: Simpósio de Histó-
seus territórios tradicionais, a continuação da língua e, prin- ria da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul, 2, 1976. São
cipalmente, sua natureza guerreira manifestada recentemente Leopoldo. Anais... São Leopoldo: Rotermund, 1976a, p. 45-71.
quando bloquearam várias rodovias gaúchas como forma de
reivindicar melhorias na área da saúde. ______. Os índios Charrua e Minuano na antiga banda oriental do
Para finalizar, chama-se a atenção para o fato de que as Uruguai. Porto Alegre: PUCRS. 1982. 314 p. Dissertação (Mestrado em
populações indígenas, durante o contato com a Sociedade Co- História Íbero-Americana) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,
lonial e Nacional brasileira, não deixaram de ter sua própria Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 1982.
ordenação histórica dos eventos que vivenciaram, uma vez ______. O que sobrou dos índios pré-históricos do Rio Grande do Sul.
que a história é ordenada culturalmente, mas a recíproca tam- Pré-história do Rio Grande do Sul, Documentos 05. São Leopoldo: Ins-
bém acontece (SALHINS, 1990). Neste sentido, ainda é preci- tituto Anchietano de Pesquisas, 1991. p. 133-159.
so romper com a concepção estática de cultura fundamentada
no paradigma estrutural-funcionalista e difundida pelo Evo- ______. Lideranças Indígenas no Começo das Reduções Jesuíticas da Pro-
lucionismo e Positivismo, as quais concebem que as socieda- víncia do Paraguay. Pesquisas, Antropologia 47. São Leopoldo: Instituto
des passam por estágios de “evolução” ou de “perda cultural”. Anchietano de Pesquisas, 1992. 197 p.
Infelizmente, esta visão ainda continua presente na atualidade CALEFFI, Paula. A identidade atribuída: um estudo historiográfico sobre
e a dificultar relações interculturais entre a sociedade Ociden- o índio. Estudos Leopoldenses. Série História. São Leopoldo, v. 1, p.49-
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Releituras da História do Rio Grande do Sul

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

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