Você está na página 1de 177

MOVIMENTO MODERNO DE LÍNGUAS

[Clique na palavra SUMÁRIO]

ROBERT GLENN GROMACKI, Th. D.

Tradução de A. B. Oliver
Original em inglês:
THE MODERN TONGUE MOVEMENT
Edição da Junta de Educação Religiosa e Publicações
da Convenção Batista Brasileira
CASA PUBLICADORA BATISTA
Caixa Postal 320 - ZC00
Rio de Janeiro - GB – 1972

APRESENTAÇÃO PELO TRADUTOR

Já por muito tempo tenho me interessado no estudo exegético do Novo


Testamento e, nos meus trinta e dois anos de atividades missionárias no Brasil
(1935-1967), percebi que muitos crentes desejavam poder refutar os erros dos
Pentecostais, porém pouca literatura boa, forte e recomendável havia
disponível. Voltando aos Estados Unidos em 1968, descobri por acaso o livro
aqui traduzido. Combinando com a Casa Publicadora Batista, no Rio de
Janeiro, a sua tradução, só pude, devido a outras atividades anteriormente
encetadas, começar a tradução em 1970. Acho que o livro merece todos os
louvores que tem recebido, pois o Dr. Gromacki pesquisou, como erudito que
é, e soube apresentar lógica e claramente o ensino do Novo Testamento sobre
"línguas".
O povo evangélico brasileiro, a quem dedico esta tradução, lucrará muito
pelo estudo deste volume. Entrego-o, portanto, com a esperança de que ajude
muitos a discernir o erro do Pentecostismo, e muitos mais a não cair nas
decepções geradas por "guias cegos", que, diante do mundo incrédulo, já por
demais tempo têm servido de causa para os descrentes zombarem e
ridicularizarem o verdadeiro Evangelho.
Movimento Moderno de Línguas 2
Infelizmente, tive que inventar alguns "neologismos", porém, creio que o
público leitor saberá perdoar.
As citações bíblicas são todas da revisão feita pela Imprensa Bíblica
Brasileira, porque tive a honra de cooperar nessa obra e acho que é a melhor e
mais fiel apresentação da Palavra de Deus ao povo que fala português.

A. BEN OLIVER
Th. M., Ph.D., Litt.D., D.D.
Waco, Texas 16708

RECONHECIMENTO

O autor deseja expressar sincera gratidão ao Dr. Herman A. Hoyt, ao Dr.


Homer A. Kent Jr. e ao Dr. John C. Whitcomb Jr. por suas sugestões
construtivas. Deve-se dar graças especiais à administração de Cedarville
College, que me concedeu um tempo sabático e auxílio financeiro para que
este livro fosse escrito.
O autor deseja também expressar publicamente sua gratidão à querida
esposa, que gastou muitas horas datilografando e redatilografando os vários
projetos do manuscrito. Deve muito também ao sábio conselho e direção de
Mr. Charles H. Craig, diretor da Presbyterian and Reformed Publishing
Company, no preparo final desta obra.
Finalmente, porém, não menor louvor ao nosso Deus, que providenciou a
salvação mediante seu Filho, Jesus Cristo (João 3:16), e santificação através
de sua Palavra (João 17:17). Que este volume seja usado para Sua honra e
glória.
ROBERT G. GROMACKI
Diretor da Divisão de Educação Bíblica
Cedarville College,
Cedarville, Ohio, U.S.A.
Movimento Moderno de Línguas 3
SUMÁRIO

Introdução...............................................................................4
1. Um Exame Histórico do Falar em Línguas Estranhas........7
2. A Natureza do Movimento Moderno de Glossolalia ........38
3. O Idioma da Glossolalia....................................................64
4. “Línguas” no Evangelho de Marcos..................................83
5. As Línguas no Livro de Atos.............................................96
6. Línguas na 1ª Epístola aos Coríntios..............................129
Conclusão...........................................................................166
Apêndice I ..........................................................................172
Apêndice II..........................................................................176
Movimento Moderno de Línguas 4
INTRODUÇÃO

PRATICAMENTE, cada geração da cristandade tem testemunhado


o desenvolvimento de algum novo movimento (bom ou ruim) dentro de
suas fileiras. Os apóstolos tinham que guardar a verdade contra os
judaizantes e o progredir do gnosticismo incipiente. A era pós-apostólica
estava cheia da controvérsia e do desenvolvimento de novos "ismos" –
Docetismo, Cerintianismo, Eutiquianismo, Nestorianismo, Sabelianismo,
Arianismo etc. Agostinho lutou contra o Pelagianismo. Mesmo o período
da Idade Média viu a atividade dos anabatistas e a instituição das várias
ordens católicas romanas (Agostinianos Dominicanos, Franciscanos,
Jesuítas etc.).
No século XVI eclodiu a poderosa Reforma Protestante, com os
desenvolvimentos subsequentes dos maiores grupos eclesiásticos
(Luteranos, Reformados, Anglicanos, Presbiterianos) e dos menores
dissidentes. Mais tarde, a cristandade americana contribuiu com muitos
grupos distintos – Mórmons, Campbellitas, Testemunhas de Jeová
Adventistas do Sétimo Dia etc. O século vinte também tem
testemunhado sua parte de novos desenvolvimentos. Um movimento-
chave tem sido o Pentecostismo, com sua ênfase sobre o Espírito Santo e
dons espirituais. O próprio Protestantismo Americano ficou dividido em
grupos liberais e fundamentalistas, que resultaram na formação de novas
denominações. O velho liberalismo logo cedeu lugar ao surgimento da
neo-ortodoxia e do neo-liberalismo. Também ele promoveu o
movimento ecumênico, com seu alvo final: a união com a Igreja Católica
Romana. Até o Protestantismo conservador não permaneceu estagnado.
Hoje em dia, ele está dividido em fundamentalismo e o novo
evangelismo.
Agora, o movimento mais recente no cenário cristão americano é o
reavivamento carismático ou o novo Pentecostismo, dando ênfase
especial à cura milagrosa e ao falar línguas estranhas. Em menos de dez
anos de existência, ele tem produzido um impacto profundo sobre a vida
Movimento Moderno de Línguas 5
eclesiástica de todas as denominações. Visto ser um movimento
contemporâneo, compete a cada cristão conhecê-lo quanto a sua natureza
básica e examiná-lo à luz das Escrituras.

A Importância Deste Estudo

O simples fato de o fenômeno de falar línguas estranhas ou


glossolalia (proveniente do grego glossa, língua e laleo, falar) se achar
na Bíblia deve ser causa suficiente para merecer uma plena investigação.
O fenômeno é mencionado em três livros: Marcos, Atos e I Coríntios.
Como uma parte mui expressiva da vida da igreja primitiva, está sempre
relacionado com o ministério do Espírito Santo. Foi uma evidência da
descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes (At. 2:1-4) e da recepção
inicial do Espírito em pelo menos dois casos (At. 10:44-48; 19:1-7). O
falar em línguas estranhas foi também um dom espiritual exercido pela
igreja em Corinto (I Cor. 12-14). Uma compreensão da natureza e dos
propósitos de tais fenômenos nos tempos bíblicos é, portanto,
imprescindível para cada crente.
O crescimento rápido do Pentecostismo no século vinte também
contribuiu para a importância deste estudo. A revista Time o classificou
como a "igreja que mais cresce no hemisfério". (1) Life a considerou
como "a terceira força", igual, em significação, ao Catolicismo Romano
e ao Protestantismo histórico. (2) O Dr. Henry P. Van Dusen, ex-reitor do
Union Theological Seminary (New York), pensava que o movimento
Pentecostal, com sua ênfase sobre o Espírito Santo, fosse "uma
revolução comparável, em importância, ao estabelecimento da Igreja
Apostólica original e com a Reforma Protestante". (3) Tais declarações
assumem ainda maior significação quando se reconhece que o falar em

(1)
Time, LXXX (2-11-1962), p. 56.
(2)
Life, XLIV (9-6-1958), p. 113.
(3)
Citado por John L. Sherrill, They Speak With Other Tongues (New York, McGraw Hill Book
Company, (1964), p. 27.
Movimento Moderno de Línguas 6
línguas estranhas é a "doutrina mais saliente e talvez a característica
mais espetacular do Movimento Pentecostal". (4) Este ponto importante
do Protestantismo não pode ser desprezado; pelo contrário, deve ser
inteiramente compreendido.
Menos de vinte anos atrás, Brumback confessou: "Vamos encarar
os fatos: o falar em línguas estranhas não é aceito em parte alguma,
senão no Movimento Pentecostal." (5) Hoje em dia não se pode dizer isso,
porque o falar em línguas estranhas está sendo admitido agora como uma
parte da vida normal, tanto pessoal como na igreja, entre batistas,
episcopais, luteranos, metodistas, presbiterianos e até católicos. Essa
erupção de línguas entre as denominações históricas tem sido chamada a
Nova Penetração, o Novo Pentecostismo, a Renovação (ou
Reavivamento) carismática e o movimento moderno de línguas. Tanto
igrejas, escolas, juntas de missões liberais e conservadoras como
publicações têm sentido o impacto desse novo movimento, que tem sido
tão largamente difundido que até os meios seculares de comunicação
(rádio, televisão, jornais e revistas) têm-lhe dispensado atenção. Assim,
torna-se importante para cada crente compreender a natureza dessa nova
manifestação de glossalália.
A pesquisa para esta obra centralizou-se no estudo pessoal da
Bíblia, em teologia e comentários padrões e em publicações
contemporâneas (revistas e jornais). São raros os livros que tratam desse
fenômeno contemporâneo. Todas as citações das Escrituras (nesta
tradução do inglês) são da Revisão da Imprensa Bíblica Brasileira e as
palavras gregas, do Greek New Testament (Novum Testamentum
Graece), de Nestle.

(4)
Carl Brumback, What Meaneth This? (Springfield, Mo.: The Gospel Publishing House, 1947), pp.
99, 147.
(5)
Ibid., pp. 175 e 176.
Movimento Moderno de Línguas 7
UM EXAME HISTÓRICO DO FALAR EM LÍNGUAS
ESTRANHAS

PARA SE COMPREENDER plenamente o movimento


contemporâneo de línguas, é imprescindível um conhecimento prático da
história do fenômeno. Advogados da glossolalia dizem que o fenômeno
não cessou na era apostólica, porém tem persistido através das várias
gerações da cristandade, em indivíduos isolados ou em reavivamentos de
grupos. Os antecedentes diretos do presente movimento podem ser vistos
nos reavivamentos dos séculos dezenove e começo do vinte. Tais
pretensões de sucessão apostólica ou de redescobrimento
necessariamente terão que ser investigadas. Naturalmente, a mera
demonstração da realidade do fenômeno em períodos diferentes não
pode em si provar a realidade ou a genuinidade bíblica do fenômeno hoje
em dia. Nem tampouco a ausência de ocorrências hoje.
A história só pode relatar o que aconteceu ou o que não aconteceu. Ela
não pode providenciar um teste absoluto da realidade ou da genuinidade
nem tampouco providenciar uma norma para a fé e a prática. Em todas as
experiências espirituais, somente as Sagradas Escrituras providenciam a
base para a doutrina e a vida. A Bíblia tem de julgar a História, não vice-
versa. Todavia, tendo em mente essa perspectiva, um conhecimento
histórico do movimento de línguas deve ser útil.

Nas Religiões Não-Cristãs

A glossolalia não é coisa particular da religião cristã. Relatos de sua


ocorrência acham-se nas religiões e filosofias não-cristãs, tanto do
passado como do presente. Tais relatos podem ser completa ou
parcialmente verdadeiros, ou totalmente falsos. É impossível fazer um
julgamento histórico a respeito. Tem que se aceitar a evidência tal qual
se apresenta. Mesmo que o fenômeno e seu relato sejam verdadeiros,
isso não demonstra identidade absoluta nem com a glossolalia bíblica
Movimento Moderno de Línguas 8
nem com o presente movimento de línguas. A glossolalia não-cristã, se é
verdadeira, teve sua fonte em Satanás. O propósito principal desta seção
é demonstrar que o fenômeno de falar línguas estranhas pode ser feito ou
simulado, por atividade humana ou satânica. Se foi possível fazê-lo no
passado, também se pode fazer hoje em dia da mesma forma. A
experiência, por si, não pode ser o teste de sua fonte.

O Relato de Wenamon

O "Relato de Wenamon" dá a mais antiga descrição da fala religiosa


frenética. Foi escrito cerca de 1100 a.C., de Byblos, na costa siro-
palestiniana. Nesse relato, um jovem adorador de Amon ficou possesso
pelo deus e falou numa linguagem extática. O texto diz: "Ora, quando ele
sacrificou aos seus deuses... o deus pegou num dos seus jovens nobres,
tornando-o frenético, de modo que ele disse: Traze para cá o deus! Traze
o mensageiro de Amon que o tem. Envia-o e deixa-o ir." (1) Esse estado
frenético durou a noite inteira.
Aqui se deve fazer algumas observações. Primeiro, diz-se que o
homem usou de uma fala frenética, que pode ter sido ou não uma outra
língua. Segundo, esse foi um fenômeno religioso, porque o homem
estava ocupado em cultuar o seu deus. Terceiro, seu deus o considerou
digno de proteção e respeito. Finalmente, sua fala frenética foi o
resultado direto de sua possessão ou controle por um deus.

Diálogos de Platão

Nos seus diálogos, o grande filósofo grego Platão (429-347 a.C.)


revelou um conhecimento da fala religiosa extática. No Phaedrus, (2) ele

(1)
George A Barton. Archaeology and the Bible (Philadelphia: American Sunday Scholl Union, 1946,
p. 235.
(2)
Plato, "Dialogues of Plato", trans. Benjamin Jowett, Vol. VII de Great Books of the Western World,
ed. R. M. Dutchins (Chicago: Encyclopaedia Britannica, Inc., 1952) sec. 244.
Movimento Moderno de Línguas 9
escreveu a respeito de certas famílias que estavam participando de santas
orações, ritos e pronunciamentos inspirados. Os participantes eram
indivíduos possessos e perderam o juízo (perda de controle das
faculdades mentais, porém não enlouquecimento). A participação nesses
exercícios religiosos até produzia a cura física ao adorador. Platão
chamou de "loucura" a profecia e identificou a loucura como uma dádiva
divina. Disse ele que a profetisa de Delphi e a sacerdotisa em Dodona,
quando fora de si, podiam exercer grande influência benéfica sobre
certos indivíduos, porém, quando em pleno controle de suas mentes, bem
pouca ou nenhuma.
No Ion (3) Platão declarou que os bons poetas compõem seus
poemas não pela arte, mas por estarem inspirados ou possessos. Não
estão em pleno poder das faculdades mentais naqueles momentos,
porque Deus "retira" suas mentes e os usa como seus servos. Deus fala
através dos adivinhadores e santos profetas ao estarem num estado
inconsciente. Na fala inspirada, Deus é quem fala, não o homem. Platão
também comparou os poetas aos foliões coribantianos, que se tornaram
extáticos tanto na fala como na ação, e às moças baquianas do culto
Dionisiano.
No Timueus, (4) Platão declarou que, quando um homem recebe a
palavra inspirada, ou sua inteligência é dominada no sono ou ele é
desnorteado por alguma doença ou possessão. Essa pessoa (adivinhador)
não pode lembrar-se do que tenha falado. Esses pronunciamentos são
acompanhados de visões que ela também não pode julgar, Assim,
necessita-se de intérpretes ou profetas para exporem as declarações
obscuras do adivinhador.
Certos fatos devemos salientar a respeito das observações de Platão.
Primeiro, quem fazia as declarações inspiradas não tinha controle sobre
suas faculdades mentais. Segundo, a própria pessoa não entendia o que

(3)
Ibid., sec. 533-534.
(4)
Ibid., sec. 71-72.
Movimento Moderno de Línguas 10
dizia. Terceiro, havia necessidade de interpretação por outrem. Quarto,
visões e curas acompanhavam as palavras. Finalmente, a pessoa que
falava estava sob a possessão divina.

Vergílio

Na sua "Eneida", (5) Vergílio (70.19 a.C.) descreveu a sacerdotisa


Sibelina na ilha de Delfos. Ela conseguiu seu estado e fala extáticos
numa caverna freqüentada onde ventos encanados produziam sons
esquisitos e até música. Quando ela se uniu em espírito ao deus Apolo,
começou a falar em línguas, às vezes compreendidas e às vezes
incoerentes.

A Pitonisa de Delfos

Crisóstomo, o grande Pai da Igreja, descreveu a Pitonisa desta


maneira:
"... diz-se então que essa mesma Pitonisa, sendo uma fêmea, às vezes
senta-se escarranchada na trípode de Apolo, e, por conseguinte, o espírito
mau, subindo de baixo e entrando na parte baixa do seu corpo, enche de
loucura a mulher, e ela, com o cabelo desgrenhado, começa a tocar o
bacanal e a espumar pela boca, e assim, estando num frenesi, fala as
palavras de sua loucura" (6)
Por causa de sua capacidade de produzir a fala extática sob a
inspiração e possessão divinas, freqüentemente era adorada e consultada
para conselhos e predições. Martin acrescentou: "Sacerdotes,
aparentemente, a assistiam sempre, para apanharem cada expressão e

(5)
Virgil, "Aeneid", trad. de James Rhoades, Vol. XIII de Great Books of the Western World, ed. R.
M. Hutchins (Chicago: Encyclopaedia Britannica, Inc. 1952) livro VI.
(6)
Chrystom, "Homilies on First Corinthians", trad. de T, W. Chambers, Vol. XII de The Nicene and
Post-Nicene Fathers, ed. Philip Schaff (Primeiras Séries; New York: The Christian Literature Co.,
1889), Hom. 29.2.
Movimento Moderno de Línguas 11
para interpretarem seus gritos e parolagens, quando esses não mais eram
coerentes." (7)

Religiões de Mistério

No mundo greco-romano, havia muitas religiões ou cultos


misteriosos. Entre estes, havia o culto de Osíris, que se originou no
Egito, o culto de Mitra, que começou na Pérsia, o Eleusiniano, o
Dionisiano e os cultos Órficos, que começaram na Trácia, Macedônia e
Grécia. Ainda que haja pouca evidência de glossolalia nos registos
desses cultos, Martin crê que havia boas razões de pensar que tal fala
extática prevalecia entre eles. (8) Primeiro, o sistema inteiro de crenças,
ritos iniciatórios e práticas religiosas estava centralizado no conceito de
possessão pelos espíritos ou identificação com eles. Segundo, os termos
cristãos significando glossolalia (pneuma e lalein glossais) vieram do
grego vernáculo, que existia muito antes de ser escrito o Novo
Testamento. Terceiro, no registro De Dea Syria, Luciano de Samosata
(120-198 d.C.) descreveu um caso nítido de glossolalia falada por alguns
devotos itinerantes da deusa siríaca Juno, localizada em Bambice ou
Hierópolis, na Síria.
Kittel acrescentou que fenômenos comparáveis podiam ser achados
no manticismo divinatório da Délfica Frígia, dos Bacides e das Sibilas. (9)
Concernente à adoração do culto ou da mágica, ele escreveu:
As listas ininteligíveis de nomes mágicos e cartas na fala mágica
(voces mystical) que são empregados em invocar e conjurar os deuses e
espíritos também podem ser análogos a esse falar obscuro de línguas e
sem significação. A esses místicos nomes divinos etc., nos quais há ecos

(7)
Ira J. Martin, III, Glossolalia in the Apostolic Church (Berea, Ky.: Boroa College Press, 1960), p.
80.
(8)
) Ibid., p. 79-80.
(9)
Gerhard Kittell, Theological Dictionary of the New Testament, trad. de Geoffrey W, Bromiley
(Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Pub. Co., 1964) I, p. 722.
Movimento Moderno de Línguas 12
de várias línguas orientais, podemos certamente juntar o ponto de vista
de que derivam de línguas supra-terrestres, usadas pelos deuses e
espíritos nos céus, cada classe com sua peculiar phone ou dialektos. (10)

Ocorrências Presentes

Stolee relatou que a fala extática acha-se entre os maometanos. (11)


Os dervixes da Pérsia constantemente murmuram o nome de Alá com o
sacudir violento do corpo e êxtases que terminam com o espumar da
boca. Esses movimentos violentos conduzem para a exaustão e
inconsciência parcial. Durante esse período de êxtase, eles pregam
sermões de moral.
Os esquimós da Groenlândia, conta-se, já participaram da
glossolalia. (12) Seus cultos religiosos são dirigidos pelo angakok, seu
feiticeiro ou sacerdote. Nesses cultos há uma tentativa definida de entrar
em contacto com o mundo dos espíritos. Caracterizam-se os cultos pelo
tocar do tambor, pelo cântico, pela dança e pela nudez, tanto da parte dos
homens como das mulheres. Peter Freuchen, no seu livro Arctic
Adventure, assim caracterizou a glossolalia:
De repente um dos homens, Krisuk, ficou fora de si. Não mais podendo
controlar-se conforme o ritmo regular do culto, ele pulava e gritava, ora como
corvo, ora uivando como lobo. Em êxtase ele e a moça, Ivaloo, começaram a
gritar numa língua que eu não podia entender... certamente não era a língua
comum dos esquimós... e se realmente há tal coisa como falar línguas
estranhas, então eu a ouvi. (13)
V. Raymond Edman, reitor do Wheaton College, fez os seguintes
relatos sobre a glossolalia pagã contemporânea no Tibet e na China:
Um dos nossos formandos de Wheaton, que nascera e se criara na
fronteira tibetana, conta haver ouvido certos monges tibetanos, nas suas

(10)
Ibid., I, p. 723.
(11)
If. I. Stolee, Speaking in Tongues (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1963), p. 19.
(12)
Ibid.. pp. 85-87.
(13)
Citado por Stolee, Ibid., pp. 86 e 87.
Movimento Moderno de Línguas 13
danças rituais, falarem inglês, com citações de Shakespeare, com palavras
chulas, como as de marinheiros embriagados, ou em alemão ou francês, ou
em línguas desconhecidas. Bem recentemente, um missionário aposentado
da Missão Interior da china contou a mesma experiência. (14)

Resumo

Ocorrências de glossolalia entre os não-cristãos têm sido relatadas


tanto por escritores pagãos como por escritores cristãos. As semelhanças
que essas ocorrências têm com as da glossolalia bíblica são bem
marcantes. A pessoa estava ocupada no culto religioso; estava controlada
por um ser considerado divino; perdeu o controle de suas faculdades
mentais; falou numa língua diferente e havia necessidade de intérprete.
Todavia, não se deve concluir que a glossolalia cristã seja apenas um
refinamento da pagã. As fontes são inteiramente opostas – Deus e
Satanás, ou a própria pessoa. Apesar de tudo, tem que se admitir que
Satanás pode operar esse fenômeno. Ele o tem feito no passado: poderá
estar fazendo isto hoje em dia.

O Antigo Testamento

Martin tem identificado alguns casos de fala profética no Velho


Testamento com o fenômeno de glossolalia. (15)
O Espírito do Senhor repousou sobre Eldade e Medade e eles
profetizaram (Núm. 11:26-30). O Espírito Santo veio também sobre
Balaão, e ele falou. Também teve visões de Deus e caiu em êxtase,
porém com os olhos abertos (Núm. 23:7-10, 18-24; 24:3-9, 15-24). Os
filhos dos profetas profetizaram acompanhados de música. Saul se juntou a
eles, profetizou e foi transformado em outro homem (I Sam. 10:1-13). Mais
tarde Saul despiu as suas vestes, profetizou, e esteve nu por terra todo

(14)
V. Raymond Edman, Divine or Devilish?, Christian Herald (maio, 1964), p. 16.
(15)
Martin, op. cit., pp. 74-76.
Movimento Moderno de Línguas 14
aquele dia e toda aquela noite (I Sam. 19:18-24). No monte Carmelo, os
profetas de Baal, ao contender com Elias, invocavam continuamente o
nome de Baal. Eles saltavam, clamavam em altas vozes e se retalhavam
com facas e com lancetas e profetizavam (I Reis 18:26-29).
Ainda que as ações desses vários profetas se aproximem das de
quem fale em línguas estranhas, não se pode demonstrar que eles de fato
falaram em línguas. Não se diz explicitamente que o fizeram. Afirmar
isso seria impor um conceito do Novo Testamento sobre uma ação do
Velho Testamento.

O Novo Testamento

As primeiras referências claras ao fenômeno bíblico de falar em línguas


diferentes acham-se no Novo Testamento, Os discípulos falaram em outras
línguas quando desceu sobre eles o Espírito Santo no dia de Pentecostes (At.
2:1-13). Cornélio e os de sua casa falaram em línguas quando creram no
evangelho pregado por Pedro (At. 10:44-48). Os doze discípulos de João, o
Batista, falaram em línguas depois de receberem a revelação da verdade cristã
pregada por Paulo (At. 19:1-7). O dom de línguas é discutido por Paulo na sua
primeira carta à igreja em Corinto (I Cor. 12-14).
Línguas são mencionadas na grande comissão registada por Marcos
(16:17), porém essa passagem é muito insegura textualmente e é
contestável. (16) Ainda que não haja referência explícita a línguas nos
registos do avivamento samaritano (At. 8:5-25) e da conversão de Paulo
(At. 9:1-17), alguns dos que advogam a glossolalia estão convencidos de
que o fenômeno ocorreu em cada um dos casos. (17)

(16)
Tanto a evidência externa dos manuscritos como o conteúdo interno dessa passagem argumentam
contra sua genuinidade como uma parte integral do Evangelho de Marcos. Sendo tão fracamente
alicerçada, eis não pode ser usada como prova de qualquer doutrina. Este assunto será discutido
num capítulo posterior.
(17)
O que Simão "viu" (At. 8:18) supõe-se ser a glossolalia por parte dos samaritanos convertidos.
Alega-se também que o testemunho de falar línguas por parte de Paulo (I Cor. 14:18) tenha
começado em Atos 9.
Movimento Moderno de Línguas 15
Esses vêem o fenômeno também em certas frases distintas: "e
anunciavam com intrepidez a palavra de Deus" (At. 4:31); "o Espírito
mesmo intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Rom. 8:26);
"cânticos espirituais" (Ef. 5:19; Cf. I Cor. 14:15) ; "orando... no Espírito"
(Ef. 6:18; cf. I Cor. 14:15); "Não extingais o Espírito; não desprezeis as
profecias" (I Tess. 5:19, 20); "Se alguém fala, fale como entregando
oráculos de Deus" (I Ped. 4:11).
Nos capítulos posteriores haverá exposição das passagens em
Marcos, Atos e I Coríntios. O propósito desta seção é justamente expor
aquelas partes bíblicas que mencionam o fenômeno.

O Período Ante-Niceno (100 – 325 d.C.)

Esse período da história eclesiástica foi um tempo caracterizado


pela perseguição, pela defesa apologética da fé e pela formulação
doutrinária. Muitos santos preeminentes viveram, ministraram e foram
martirizados no decorrer desse período. Se o falar em línguas não cessou
na era apostólica devia haver alguma evidência do fenômeno na vida e
nos escritos desses grandes Pais da Igreja. Donald Gee, escritor inglês
pentecostal, crê que existe tal evidência. Concernente aos dons
espirituais, ele escreveu: "Irineu, Tertuliano, Agostinho, todos se referem
a esses dons como ainda existindo nos seus próprios tempos." (18) Cleon
Rogers deu o ponto de vista oposto, na sua declaração: "... é significativo
que o dom (de línguas) em parte nenhuma é referido, sugerido, ou
achado nos escritos dos Pais Apostólicos." (19). Quem tem razão?
Examinemos a evidência.

(18)
Donald Gee, Concerning Spiritual Gifts (Springfield, Mo.: The Gospel Publishing House, n. d.), p. 10.
(19)
Cleon L. Rogers, Jr., The Gift of Tongues in the Post-Apostolic Church, Bibliotheca Sacra, CXXII
(abril-junho, 1965), p. 134.
Movimento Moderno de Línguas 16
Justino Mártir (110-165 d.C.)

Justino Mártir foi o mais eminente dos apologistas gregos no


segundo século. É chamado o primeiro filósofo cristão ou o primeiro
teólogo filosófico. Dedicou sua vida inteira à defesa do cristianismo, e
foi martirizado. Em Éfeso esforçou-se para ganhar o judeu Trifo e seus
amigos para a fé cristã. No seu famoso Dialogue with Trypho, escreveu:
"Pois os dons proféticos permanecem conosco, mesmo até o tempo
presente. E daí deves compreender que (os dons) anteriormente entre sua
nação foram transferidos a nós." (20) Mais tarde, ele confessou: "Agora é
possível ver entre nós homens e mulheres que possuem dons do Espírito
de Deus. . . " (21) À primeira vista, pareceria que os dons espirituais,
inclusive o dom de línguas, existiam no tempo de Justino. Todavia, os
dons existentes eram aqueles uma vez possuídos por Israel, e em nenhum
lugar se diz, no Velho Testamento, que o falar línguas era atividade
normal ou mesmo rara dos israelitas. O próprio Justino definiu a
natureza dos dons então existentes. Ele relatou os dons proféticos de
Salomão (o espírito de sabedoria), de Daniel (o espírito de entendimento
e conselho), de Moisés (o espírito de poder e de piedade), de Elias (o
espírito de temor) e de Isaías (o espírito de conhecimento). (22) Esses
dons não podem ser identificados com os dons espirituais mencionados
em I Coríntios 12.

Irineu (120-202 d.C.)

Irineu é chamado "o primeiro" e o "mais ortodoxo" dos Pais da


Igreja. Ele estudou sob a tutela de Policarpo, de Esmirna, que fora aluno
do apóstolo João. Depois de algum serviço missionário, ele se tornou

(20)
Justin Martyr, Dialogue With Trypho, Vol. I de The Ante-Nicene Fathers, eds. Alexander Roberts
and James Donaldson (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1950), sec. 82, p. 240.
(21)
Ibid. sec. 88, p. 243.
(22)
Ibid,, sec. 87, p. 242.
Movimento Moderno de Línguas 17
Bispo de Lion, na França. Sua refutação do gnosticismo, Against
Heresies, é considerada sua obra mais importante. Nesse livro, ele
escreveu o seguinte comentário sobre I Coríntios 2:6:
... chamando perfeitos aquelas pessoas que têm recebido o Espírito de
Deus e as quais através do Espírito de Deus falam todas as línguas, como
Ele próprio falava. Semelhantemente, nós também ouvimos muitos irmãos
na igreja que Possuem dons proféticos e que, através do Espírito, falam
todas as qualidades de línguas e trazem à luz, para o proveito geral, as
coisas escondidas de homens e declaram os mistérios de Deus... (23)
Devemos notar várias coisas acerca desta citação. Primeiro, ele não
diz que ele falava línguas. Segundo, seu emprego de "nós ouvimos"
indica mais um conhecimento de segunda mão desse fenômeno que de
testemunha ocular. Terceiro, na sua descrição daqueles que tinham os
dons proféticos e falavam línguas, provavelmente se referia aos
montanistas, cuja influência naquele tempo era bastante forte.

Montano (126-180 d.C.)

Montano provavelmente foi a figura mais controvertida do segundo


século. Basicamente era ortodoxo. Impugnava o batismo infantil e o
gnosticismo e defendia a doutrina da Trindade, o sacerdócio universal
dos crentes, o milenarismo e o ascetismo. Identificou a revelação do
Parácleto (João 14:16) com a religião espiritual dos montanistas, que se
chamavam a si mesmos de "pneumatics" ou igreja espiritual, em
contraste com a igreja física ou Católica. Considerava a si próprio como
o órgão inspirado do Espírito Santo. O emprego da primeira pessoa fez
com que muitos pensassem que se fazia de si mesmo o próprio Espírito
Santo. Eusébio o caracterizou assim:
... um neófito, Montano por nome, pelo desejo de ser um líder, deu
ao adversário vantagem sobre ele. E perdeu o controle próprio, e

(23)
Irineu, Against Heresies, Vol. I de The Ante-Nicene Fathers, eds. Alexander Roberts and James
Donaldson (Grand Rapids: Wm. B. Eerdman's Publishing Co., 1950), V. 6, 1, p. 531.
Movimento Moderno de Línguas 18
subitamente, estando como num frenesi e êxtase, delirou e começou a
balbuciar e dizer coisas esquisitas, profetizando de uma maneira
contrária ao costume consoante da Igreja, entregue pela tradição desde o
começo. Alguns daqueles que ouviram as suas palavras espúrias se
tomaram indignados, e o repreenderam, como se ele estivesse possesso e
sob o controle dum demônio e fosse conduzido por um espírito
enganador, perturbando a multidão... E, além disso, ele excitou duas
mulheres e as encheu do espírito falso, de modo que falavam louca,
irrazoável e estranhamente, como a pessoa já mencionada. (24)
Que se pode aprender de Montano? Primeiro, ele era tido por
herético e possesso do demônio. Talvez não fosse, porém foi esse o juízo
feito pelos cristãos daquela época. Segundo, suas profecias e o falar
línguas eram contrários ao procedimento daqueles dias. Terceiro, sua
pretensão de ser o único autorizado a falar pelo Espírito Santo e suas
ações físicas deixam muito a desejar para condizer com a norma da
Bíblia.

Tertuliano (160-220 d.C.)

Esse "pai da igreja" do norte da África é considerado o pai da


teologia latina. Convertido quando já bem adulto, mais tarde uniu-se aos
montanistas. Trabalhou em Cartago como presbítero e autor montanista.
Sua crença na contínua existência dos dons espirituais vê-se nesta
declaração: "Pois, vendo que nós admitimos as charismata espirituais,
ou dons, nós também temos merecido o recebimento do dom
profético..."(25) Então ele descreve uma mulher que tinha dons de
revelação, visões extáticas e falava com os anjos e com Deus, dons de

(24)
Irineu, Against Heresies, Vol. I de The Ante-Nicene Fathers, eds. Alexander Roberts and James
Donaldson (Grand Rapids: Wm. B. Eerdman's Publishing Co., 1950), V. 6, 1, p. 531.
(25)
Tertuliano, A Treatise on The Sou1, trad. de Peter Holms, Vo1. III do The Ante-Nicene Fathers,
eds. Alexander Roberts and James Donaldson, Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co.,
1951), sec. 9, p.188.
Movimento Moderno de Línguas 19
curar e discernimento do coração de alguns homens. Na sua disputa com
Marcion, ele escreveu:
Permita-se, então, que Marcion exiba, como dom de seu deus, alguns
profetas que não tenham falado pelo sentido humano, porém com o Espírito
de Deus, que tanto predisseram coisas a vir como tornaram manifestos os
segredos do coração; que ele produza um salmo, uma visão, uma prece – só
que seja pelo Espírito, num êxtase, isto é, num arrebatamento, quando lhe
tenha ocorrido uma interpretação de línguas... Ora, todos esses sinais (de
dons espirituais) provêm do meu lado, sem qualquer dificuldade, e eles
concordam também com as regras, e as dispensações, e as instruções do
Criador; portanto, sem dúvida, o Cristo, o Espírito e o apóstolo pertencem
cada um de per si ao meu Deus. (26)
Como montanista, é de se esperar que Tertuliano abraçasse os dons
espirituais, inclusive o de falar línguas. No lado técnico, deve-se dizer
que Tertuliano não afirma ter ele próprio falado línguas. Que o tenha
feito é bem provável, porém nos falta uma declaração explícita. Agostinho
declara que mais tarde Tertuliano abandonou os montanistas e fundou uma
nova seita, que posteriormente se reconciliou com a congregação católica
em Cartago. (27) Se é verdade isso, pode ser que Tertuliano tenha ficado
desencantado com os excessos "pneumáticos" dos montanistas.

Orígenes (185-254 d.C.)

Orígenes foi, indubitavelmente, o maior erudito cristão da sua


época. Foi o mais dotado, o mais industrioso e o mais culto de todos os
pais ante-nicenos. Tornou-se diretor da escola catequética em
Alexandria. Na sua refutação dos ataques de Celso contra o cristianismo,
deu ele, ao mundo cristão, uma das mais valiosas peças de literatura
apologética. Freqüentemente se citam estas palavras de Celso para
indicar a existência de glossolalia naquele tempo: "A essas promessas

(26)
Ibid., Against Marcion, V. 8, p. 477.
(27)
Citado por Philip Staff, History of the Christian Church (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's
Publishing Co., 1952), II, pp. 420 e 421.
Movimento Moderno de Línguas 20
são acrescentadas palavras estranhas, fanáticas e bem ininteligíveis, das
quais nenhuma pessoa racional pode achar o significado: pois tão
obscuras são elas como se nenhum significado tivessem. . . " (28) (28)
Todavia, essas "palavras ininteligíveis" não se referem à glossolalia
extática, porém às profecias difíceis no Velho Testamento. Na sua
refutação, Orígenes escreveu: "... mas nós, de acordo com nossa
capacidade, em nossos comentários sobre Isaías, Ezequiel e alguns dos
doze profetas menores, temos explicado literalmente e em pormenor o que
ele denomina 'aquelas passagens fanáticas e totalmente ininteligíveis'." (29)
Em outro lugar, ele escreveu acerca da continuação de alguns sinais
do Novo Testamento:
Ademais, o Espírito Santo deu sinais de sua presença no começo do
ministério de Cristo, e depois da ascensão de Cristo, o Espírito Santo deu
ainda mais; porém desde aquele tempo diminuíram-se esses sinais, ainda
que haja traços de Sua presença nos poucos que tiveram sua alma
purificada pelo evangelho e suas ações reguladas por sua influência. (30)
Esses sinais não poderiam incluir a glossolalia, porque nem Cristo
nem seus apóstolos falaram em línguas estranhas enquanto Ele estava no
mundo. Forçosamente, têm de se referir aos casos de cura divina, que
definitivamente estavam diminuindo.

Os Períodos Niceno e Pós-Niceno (311 – 600 d.C.)

Esse foi um período de consolidação e de corrupção eclesiástica,


porque a religião cristã foi aceita pelo Imperador Constantino e assim
ganhou a proteção do Estado Romano. Três testemunhas significativas
da glossolalia surgem desse período: Pacômio, Crisóstomo e Agostinho.

(28)
Orígenes, Against Celous, trad. de Frederick Crombie, Vol. IV de The Ante-Nicene Fathers, eds.
Alexander Roberts and James Donaldson. (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing co.,
1951), sec. 7.9.
(29)
Ibid., sec. 7. 11.
(30)
Ibid., sec. 7. 8.
Movimento Moderno de Línguas 21
Pacômio (292-348 d.C.)

Pacômio foi o fundador de uma sociedade de monges na Ilha


Tabennae, no rio Nilo, no Egito superior. A lenda declara que um anjo
lhe comunicou seu modo estrito de viver, no qual ele nunca tomou uma
refeição completa depois de sua conversão e dormiu durante quinze anos
sentado sobre uma pedra. Seus monges sempre comiam em silêncio e
comunicavam-se entre si por meio de sinais. A respeito de seus milagres,
Schaff escreveu: "A tradição lhe atribui todas as qualidades de milagres,
até o dom de línguas e o domínio perfeito sobre a natureza, de modo que
ele pisava, sem sofrer danos, sobre cobras e escorpiões, e atravessava o
Nilo nas costas de crocodilos." (31) Nesse contexto seria difícil dizer se
Pacômio alguma vez falou línguas. Andar sobre cobras e escorpiões sem
sofrer dano e usar crocodilos para se transportar sobre o rio Nilo
certamente é incompatível com os milagres bíblicos.

Crisóstomo (345-407 d.C.)

João Crisóstomo foi o maior expositor e pregador da Igreja Grega,


É citado pelos comentadores modernos mais do que qualquer outro "Pai
da Igreja". Começando como monge, tornou-se diácono e presbítero em
Antioquia e mais tarde o patriarca de Constantinopla. No seu comentário
sobre "dons espirituais" (I Cor. 12:1-2), ele escreveu: "Esta passagem
toda é muito obscura; porém a obscuridade é produzida por nossa
ignorância concernente aos fatos aqui referidos e pela sua cessação,
sendo tais como então aconteciam, porém que agora não mais
ocorrem."(32) Aqui está uma declaração categórica. Pelo menos, até o
tempo de Crisóstomo a glossolalia havia desaparecido da Igreja.

(31)
Schaff, op. cit., III, 197.
(32)
Crisóstomo, op. cit., Hom. 29.1.
Movimento Moderno de Línguas 22
Agostinho (354-430 d.C.)

Agostinho foi a cabeça intelectual das igrejas do Norte da África e


das igrejas Ocidentais de seu tempo. Sua doutrina influenciou a Igreja
Católica Romana até o tempo de Tomás de Aquino. Defendeu
galhardamente a ortodoxia contra o maniqueísmo, o donatismo e o
pelagianismo. No seu debate com os donatistas, ele afirmou que o
Espírito Santo era recebido sem o falar línguas, e, sim, com a
implantação do amor divino.(33) O significado temporário da glossolalia
vê-se mais claramente no seu comentário sobre I João:
No tempo mais primitivo, "o Espírito Santo caiu sobre os que
creram, e eles falaram em línguas" que não haviam aprendido, "como o
Espírito lhes concedia que falassem". Esses eram sinais adaptados àquele
tempo. Pois convinha tal sinal do Espírito Santo em todas as línguas,
para mostrar que o Evangelho de Deus deveria passar por todas as
línguas no mundo inteiro. Isso foi feito como um sinal, e depois
desapareceu.(34) Definitivamente, Agostinho considerava a glossolalia
como um fenômeno temporário, limitado à era apostólica. O "falar
línguas" não existia nos seus dias, e ele não esperava a sua recorrência.

Resumo

Nos três séculos seguintes à era apostólica, há apenas duas


referências à glossolalia (Montano e Tertuliano, que era montanista). O
fato de que o montanismo refletia um ponto de vista falso, egoísta, da
pneumatologia mal pode argumentar a favor da genuinidade da
glossolalia bíblica naquele período. Portanto, não há nenhum caso

(33)
Augustine, On Baptism, Against the Donatists, trad. de J. R. King, Vol. IV de The Nicene and
Post-Nicene Fathers, ed. Philip Schaff (Primeiras séries Buffalo: The Christian Literature Co.,
1887), III, 16-21.
(34)
Augustine, Ten Homilies on the First Epistle of John, trad. de H. Browne Vol. VII of The Nicene
and Post-Nicene Fathers, ed. Philip Schaff (New York: The Christian Literature Co., 1888), VI, 10.
Movimento Moderno de Línguas 23
genuíno de glossolalia na era pós-apostólica. O falar línguas havia
cessado definitivamente. Os testemunhos de Justino Mártir, Irineu,
Orígenes, Crisóstomo e Agostinho confirmam esta conclusão.
Rogers chegou a formular certas conclusões de grande significação,
baseando-se no silêncio dos pais apostólicos quanto ao falar línguas.(35)
Primeiro, alguns dos "pais" escreveram "de" e "para" igrejas onde o dom
fora praticado no tempo do Novo Testamento. Todavia, não há menção da
existência de glossolalia no seu tempo. Nada se acha na carta de Clemente
de Roma à igreja em Corinto nem na carta de Ignácio à igreja em Éfeso.
Segundo, os "pais" viveram em cidades e escreveram a cidades em toda a
área significativa do Império Romano. Se existisse a glossolalia e
largamente espalhada, de qualquer maneira eles a teriam mencionado.
Terceiro, os "pais" escreveram sobre cada doutrina principal do Novo
Testamento, todavia, não há menção de "línguas". Quarto, em muitos dos
seus escritos, os "pais" procuraram demonstrar a superioridade do
cristianismo ou o caráter normal do cristianismo; todavia, a glossolalia não
é citada como um exemplo. O silêncio dos "pais apostólicos" deve ser
considerado como muito significativo.

A Idade Média (590 – 1517)

Foi esse o período da dominação católica romana e da perversão


doutrinária. Corretamente tem sido chamado de "Idade Escura", porque a
luz das Escrituras aparentemente se apagara. No entanto, mesmo desse
período vêm-nos alguns ecos de glossolalia.

Hildegard (1098-l179)

Hildegard foi chamada a maior visionária e profetisa, a Sibila do


Reno. A maior parte de sua vida, ela passou doente. Teve muitas visões,
especialmente nos períodos de sua enfermidade. Foram-lhe atribuídos

(35)
Rogers, op. cit., pp. 134-136.
Movimento Moderno de Línguas 24
milagres e glossolalia. Uma evidência desta pode se ver no seu escrito
Língua Ignota: ". . . o manuscrito, de onze folhas, que inclui uma lista de
900 palavras de um idioma desconhecido, na maior parte substantivos e
apenas alguns adjetivos, uma explicação em Latim e, em alguns casos, uma
em Alemão, juntamente com um alfabeto de vinte e três letras, impresso em
Pitra." (36)

Vincent Ferrer (1350-1419)

Vincent Ferrer, um monge dominicano, reportou-se ter visto uma


aparição de Cristo acompanhado por São Domingos e São Francisco.
Essa experiência o levou à cura milagrosa de uma doença mortal. Teve
um ministério extensivo, caracterizado pela operação de milagres e pela
pregação no oeste da Europa. Concernente a sua pregação, a
Enciclopédia Católica declara: "Seria difícil compreender como ele
podia se fazer entender pelas muitas nacionalidades que ele evangelizou,
visto que sabia falar apenas a língua de Limousin, o idioma de Valência,
Muitos daqueles que escreveram sua biografia sustentam que ele possuía
o 'dom de línguas', opinião defendida por Nicolau Clemangis, doutor da
universidade de Paris, que o ouviu pregar." (37)

A Reforma (1517 – 1648)

Esse, naturalmente, foi o período de reavivamento doutrinário,


Através do ministério de Lutero, Calvino, Zuínglio e Knox, a verdade da
"justificação pela fé" foi redescoberta e apresentada. Havia uma
mudança do ritualismo para o estudo da Bíblia e o culto simples, todavia,
não houve tentativa de recobrar a glossolalia. Entretanto, há referência a
alguns que de fato falaram línguas.

(36)
"Hildegard", The Catholic Encyclopedia (New York: The Encyclopedia Press, Inc., 1913), VII, 352.
(37)
"Vincent Ferrer", The Catholic Encyclopedia (New York: The Encyclopedia Press Inc. 1913) XV, 438.
Movimento Moderno de Línguas 25
Martinho Lutero (1483-1546)

Martinho Lutero foi o grande reformador. Sua defesa da fé, contra


as ameaças do papado e do império é admirada e estimada por todos.
Tomás Zimmerman, superintendente geral das Assembléias de Deus,
sustentava que Lutero também falava línguas. Esta a declaração da
History of the Christian Church, por Erick Sauer: "O Dr. Martinho
Lutero foi profeta, evangelista, falador de línguas e intérprete numa só
pessoa, dotado de todos os dons do Espírito Santo." (38) Todavia, não se
cita como prova dessa pretensão nenhuma declaração dos próprios
escritos de Lutero. Sauer talvez estivesse fazendo referência à
capacidade de Lutero de ler e falar alemão, latim, grego e hebraico.
Brumback, que advoga a glossolalia, reconheceu esta possibilidade,
quando escreveu: "Não temos podido determinar o conceito do autor
sobre a natureza de línguas e, portanto, hesitaríamos em admitir esta
citação como evidência conclusiva." (39) (39)

Francisco Xavier (1506-1552)

Embora não fosse reformador, Xavier foi uma figura significativa


do período da Reforma. Pretende-se que ele tenha operado milagres e
falado em outras línguas. Todavia, como missionário católico romano ao
Oriente, ele dedicou o primeiro ano inteiro ao estudo da língua japonesa.
Logo que pôde expressar-se, começou a pregar.

Resumo

Poderiam ser juntados às pessoas mencionadas sob o título "Idade


Média" e "A Reforma" os nomes de Luís Bertrand (1526-1581) e muitos

(38)
Thomas F. Zimmerman, "Plea for the Pentecostalists", Christianity Today, VII (4.1-1963), 12.
(39)
Carl Brumback, "What Meaneth This" (Springfield, Mo.: The Gospel Publishing House, 1047), p. 92.
Movimento Moderno de Línguas 26
outros santos católicos. Todavia, isto é desnecessário porque suas
experiências são semelhantes em caráter àquelas mencionadas. Pode-se
discutir conclusivamente se o fenômeno de glossolalia teria ocorrido
nesses períodos. As pretensões também podem ser falsas. Schaff,
eminente historiador eclesiástico, concluiu:
O que São Bernardo, São Vicente Ferrer e São Francisco Xavier
podem ter pretendido não é uma heteroglossolalia milagrosa, porém uma
eloqüência tão ardente, sincera e intensa, que as nações rudes que os
ouviam em latim ou espanhol imaginavam que os ouviam em sua própria
língua... Nenhum daqueles santos pretendia o dom de línguas ou de outros
poderes milagrosos, mas somente seus discípulos ou escritores
posteriores.(40)
A tendência do catolicismo romano de elevar e venerar os seus
santos sempre se tem fundamentado em qualquer avaliação das suas
pretensões de milagres, sejam elas de curas ou de glossolalia. Por essa
razão, qualquer pretensão de glossolalia proveniente de fontes católicas
deve ser considerada como suspeita.

O Período Pós-Reforma (1648 – 1900)

Esse é o período do avanço Protestante, da Reforma, até o século


vinte. No decorrer desse tempo, o "cristianismo" espalhou-se pelo
mundo, inclusive na América. Esse período foi marcado também pelo
desenvolvimento de cultos e seitas que surgiram espontaneamente ou
foram o resultado de divisões de igrejas ou de descontentamento. Em
muitos grupos, a glossolalia tornou-se parte integral dos cultos de louvor.

Os Profetas de Cevennes

Na última parte do século dezessete e na primeira parte do século


dezoito, irrompeu uma grande perseguição contra os huguenotes

(40)
Schaff, op. cit., I, pp. 240-241. Acha-se ai também a prova da conclusão de Schaff.
Movimento Moderno de Línguas 27
franceses na parte suleste da França. No meio dessa tribulação,
experiências extáticas, inclusive a profecia e a glossolalia, surgiram entre
o povo. Kelsey assim descreve o fenômeno:
A primeira ocorrência de "línguas" proveio de um pronunciamento
profético de uma criança de dez anos, Isabeau Vincent, que havia fugido do
maltrato por parte de seu pai e testemunhado os soldados do rei matando à
baioneta tanto mulheres como crianças que cultuavam a Deus juntas na sua
própria igreja. Numa experiência extática ela pedia o arrependimento...
Logo crianças por toda parte de Cevennes eram apanhadas pelo
espírito e profetizavam. Crianças de apenas três anos de idade, diz-se,
exortaram o povo em discursos religiosos. Adultos também eram apanhados
pelo espírito e se acharam falando certas palavras francesas que eles
mesmos não entendiam. (41)
Suas ações físicas eram bem exageradas. (42) Eles caíam para trás,
com o corpo plenamente estendido sobre o chão, Seus corpos se
contorciam, havendo arquejamento e inflação do estômago. Quando
cessavam as ações físicas, começavam a profetizar, exortando o povo a
se arrepender e denunciando a Igreja Católica Romana.

Os Jansenistas

Os jansenistas, fundados por Cornélio Jansen, eram um elemento de


reforma dentro da Igreja Católica Romana no século dezessete. A
experiência, e não a razão ou o raciocínio, era seu guia. Eles se opuseram
ao ensino da justificação pela fé. Criam que a relação da pessoa com
Deus era possível somente na Igreja Católica e através dela. A
glossolalia atribuiu-se a esse grupo, que posteriormente foi condenado
por Roma.

(41)
Morton T. Keisey, Tongues Speaking (Garden City, N. Y.: Doubleday and Company, Inc., 1964),
pp. 52 e 53.
(42)
Robert Chandler Dalton, Tongues Like as of Fire (Springfield, Mo.: The Gospel Publishing House,
1945), p. 19.
Movimento Moderno de Línguas 28
Os Quacres

Os quacres começaram na Inglaterra no século dezessete com Jorge


Fox (1624-1691). Seu alvo foi promover o reavivamento do cristianismo
primitivo. Ele declarou que a "Luz Interior" estava dentro de cada
homem. Não havia necessidade do ministério ordenado. Seus seguidores
se sentavam em silêncio nos seus cultos até que Deus se revelasse
diretamente a alguém, A Bíblia era considerada como inspirada por
Deus, porém adotada somente como regra secundária, subordinada ao
Espírito Santo e à "Luz Interior". A experiência julgava, pois, a Bíblia, e
não o contrário. Notifica-se que a glossolalia ocorreu entre os quacres.

Os Irvingitas

Eduardo Irving (1792-1834) era presbiteriano escocês que muito se


interessou pela escatologia. Esse interesse foi causado, em parte, pela
Revolução Francesa, que provocara na Inglaterra um grande interesse no
pensamento apocalíptico, e aumentou através de estudos bíblicos no lar
de Henry Drummond. Irving se tornou notável também por causa da sua
crença herética na substância pecaminosa no corpo de Cristo.
A glossolalia rompeu entre seus párocos nos seus lares e mais tarde
nos cultos da igreja, Os irvingitas distinguiam entre a glossolalia de
Pentecostes, em idiomas estrangeiros, e a glossolalia corintiana, em
línguas extáticas e desconhecidas. (43) Praticaram somente esta última.
Um escritor testamentário pré-milenial até atribuiu a origem do ponto de
vista do arrebatamento antes da tribulação a um pronunciamento
glossolálico dentro da Igreja Irvingita. (44)

(43)
Schaff, op. cit., I, p. 237. Schaff observou esse fenômeno posterior numa congregação dos
irvingitas em Nova Iorque. As palavras eram desconhecidas; os que falavam eram inconscientes e
sem controle sobre a língua.
(44)
J. Badon Payne, The Imminent Appearing of Christ (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing
Co., 1962), p. 32.
Movimento Moderno de Línguas 29
Um desenvolvimento posterior dos irvingitas foi a Igreja Católica
Apostólica. Ela restaurou a posição dos Doze Apóstolos e degenerou
num catolicismo distorcido, abraçando ritos como a transubstanciação, a
extrema unção, velas, incenso e água benta.

Os Shakers (Tremedores)

Os shakers, uma seita americana celibata e comunista, começaram


durante o reavivamento quacre de 1747. Sua líder principal foi "Mãe"
Ann Lee (1736-1784). Seus ensinos falsos incluíam: (1) Deus, os anjos e
os espíritos eram tanto machos como fêmeas; (2) Jesus Cristo não foi o
encarnado Deus-Homem; (3) a segunda vinda cumpriu-se em "Mãe"
Ann; e (4) o reino de Cristo sobre a terra começou com a Igreja Shaker.
Ann Lee pretendia falar setenta e dois idiomas. Dollar descreveu um tal
pronunciamento: "O dom de línguas era também acompanhado por
tempos de alegria inefável e de danças, durante as quais muitos dos seus
hinos foram compostos, ainda que feitos de palavras ininteligíveis e
nunca ouvidas antes." (45) (45)

Os Mórmons

O mormonismo, estabelecido por Joseph Smith (1805-1844), nega a


salvação pela graça de Deus, a Trindade, a autoridade absoluta das
Escrituras e a realidade do inferno. Todavia, o sétimo artigo de fé da
Igreja dos Santos dos Últimos Dias declara que eles "crêem no dom de
línguas, e em profecia, revelação, visões, curas, interpretação de línguas
etc." (46)

(45)
George W. Dollar, "Church History and The Tongues Movement", Bibliotheca Sacra, CXX
outubro-novembro, 1963), p. 320.
(46)
Citado por Klaude Kendrick, The Promise Fulfilled (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House,
1961), p. 24.
Movimento Moderno de Línguas 30
Vários Avivamentos

O fenômeno de falar línguas tem sido relatado como tendo ocorrido


entre os "Leitores" na Suécia (1841-1843), durante os reavivamentos na
Irlanda (1859) e entre os primitivos metodistas. (47) O século dezenove
tem produzido testemunhos isolados daqueles que falaram línguas sem
reconhecer o significado do evento. (48) Alguns têm dito que tanto Moody
como Finney, os grande evangelistas, falaram línguas quando receberam
o batismo do Espírito Santo. (49) Todavia, essa pretensão se baseia sobre
evidência mui fraca. (50) Não há nenhum registro de Finney ou de Moody
ter participado da glossolalia. É possível que, como resultado de suas
reuniões, tenha havido alguns casos de glossolalia, porém isso de modo
nenhum prova que eles tivessem parte ativa em promover o fenômeno.

Resumo

O período Pós-Reforma foi um tempo de confusão. Apareceu a


glossolalia até nos lugares mais estranhos. Alega-se que crianças de
apenas três anos de idade falavam línguas. As convulsões físicas
dificilmente se podem harmonizar com a regra bíblica de controle
próprio. A glossolalia não tinha absolutamente relação com as crenças
ortodoxas. Católicos romanos, mórmons e seitas falsas (quakers,
irvingitas, shakers), todos relataram a glossolalia como uma parte de sua
vida eclesiástica. Também seria difícil provar que esses casos do
fenômeno constituíssem um reavivamento do falar línguas conforme o
registro na Bíblia. Há muitas discrepâncias.

(47)
Schaff, op. cit., I, p. 237.
(48)
Stanley Howard Frodsham, Whit Sions Following (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1946),
pp. 7-17. Esse livro é dedicado à descrição histórica do avivamento Pentecostal através do mundo.
(49)
Ibid., pp. 9 e 10. Também Jerry Jensen, Baptists and The Baptism of the Holy Spirit (Los Angeles:
Full Gospel Businessmen's Fellowship International, 1963), p. 2.
(50)
Brumback, loc. cit. Este escritor pentecostalista nega o valor evidencial de tais pretensões.
Movimento Moderno de Línguas 31
O Período Moderno (1900 . . .)

O movimento contemporâneo de glossolalia entre as igrejas


históricas denominacionais tem seu alicerce e sua herança nas
denominações pentecostais. Essas denominações são primariamente um
desenvolvimento do século vinte. Esse é um período do nascimento,
crescimento e expansão pentecostais.

Causas do Pentecostalismo

Que é que causou o surgimento da glossolalia e o estabelecimento


subseqüente de igrejas pentecostais? Várias respostas têm sido dadas.
Primeiro, houve um colapso da forte ortodoxia depois da Guerra Civil
nos Estados Unidos. Como resultado, a evolução e a filosofia de Horácio
Bushnell, expressa na sua Christian Nurture,(51) invadiram e
conquistaram as igrejas estabelecidas. Segundo, a revolução industrial
produziu a corrupção moral e problemas entre os trabalhadores e os
diretores das fábricas. Terceiro, a reação a esse colapso espiritual, moral
e econômico foi o surgimento do Movimento Pentecostal ou de
Santidade. O metodismo e avivamentos em acampamentos enfatizavam a
santidade cristã e a perfeição (a segunda bênção). Essa doutrina achou
uma pronta aceitação nas áreas rurais e da fronteira nos Estados Unidos.
Quarto, os principais líderes pentecostalistas (Spurling, Tomlinson,
Parham) começaram a promover ativamente sua posição distintiva.
Quinto, uma atitude simpática e tolerante para com o movimento
pentecostal desenvolveu-se entre os líderes da ortodoxia americana. A
clássica declaração de A. B. Simpson, um líder da Aliança Missionária
Cristã, servirá como um exemplo:

(51)
"Não há necessidade de uma conversão espontânea. As pessoas gradualmente se tornam cristãs
através da educação, não por meio de um evento instantâneo da regeneração. São, por essência,
boas, não más."
Movimento Moderno de Línguas 32
Cremos ser o ensino das Escrituras que o dom de línguas é um dos
dons do Espírito, e que pode estar presente na assembléia cristã normal
como uma dádiva soberana do Espírito Santo sobre aqueles que Ele quiser.
Não cremos que haja qualquer evidência nas Escrituras para o ensino de
que a glossolalia seja o sinal de haver recebido alguém a plenitude do
Espírito Santo, nem tampouco cremos que seja o plano de Deus que todos
os cristãos possuam o dom de línguas. Esse dom é um só dentre muitos
dons e é dado a alguns para o benefício de todos. A atitude para com o dom
de línguas por parte do pastor e do povo deve ser "Não o busqueis; não o
proibais." Isto sustentamos ser a parte de sabedoria na presente hora. (52)
O próprio Simpson e seu movimento não se caracterizaram pela
glossolalia; todavia, certos indivíduos dentro da denominação tentaram
recobrar os dons espirituais. Os pentecostalistas se aproveitaram dessa
atitude tolerante e enfatizaram o "não o proibais", negligenciando a
ordem de "não o busqueis". Aceitaram a tese de que o dom de línguas é
soberanamente dado, porém rejeitaram o ponto de vista de que não é o
sinal do batismo ou da plenitude do Espírito Santo.

Fundadores do Pentecostalismo

Os movimentos são humanos. Os começos do pentecostalismo


moderno são marcados por homens-chaves, que deram direção e ímpeto
a sua posição distintiva. Havia muitos; aqui podemos mencionar apenas
uns poucos.
Ricardo G. Spurling, um ministro licenciado e pastor da Igreja
Batista perto da comunidade de Cokercreek, na comarca de Monroe, no
Estado de Tennessee, U.S.A., ficou insatisfeito com as igrejas
estabelecidas, e formou seu próprio grupo em 1886. Mais tarde, na
Comarca de Cherokee, no Estado de Carolina do Norte, ele dirigiu umas
conferências avivalistas, que se distinguiram por uma extensiva
glossolalia (1896). Seus ensinos e seus cultos avivalistas contribuíram

(52)
Citado por Kelsey, op. cit., p. 75. Simpson dissera o mesmo em 1907. Foi reafirmado na Alliance
Witness, órgão oficial da CMA, em 1963 (1 de maio 1963, Vol. 98, n.º 9, p. 19).
Movimento Moderno de Línguas 33
para o estabelecimento da Igreja de Deus, dirigida pela família
Tomlinson. (53)
Charles F. Parham (1873-1929) tem sido chamado "o pai do
movimento moderno pentecostal". (54) Ele estabeleceu o Lar de Curas
Betel (1898) e o Colégio Bíblico Betel (1900), em Topeka, Estado de
Kansas. O corpo discente recebeu o pedido de pesquisar a questão: "Qual
é a evidência bíblica do batismo do Espírito Santo?" Houve acordo
unânime de que a glossolalia constituía essa evidência. Daquele tempo
(outono de 1900) em diante houve um esforço convencionado de receber
o batismo do Espírito Santo com sua evidência de glossolalia. Uma de
suas alunas, Agnes Ozman, falou em línguas estranhas no 1° dia de
janeiro de 1901. O significado desse evento foi apontado por Kendrick:
"Embora Agnes Ozman não tenha sido a primeira pessoa nos tempos
modernos a falar 'línguas', foi ela a primeira pessoa que teve tal
experiência como um resultado de ter buscado especificamente o
batismo no Espírito Santo com a expectação de falar 'línguas'." (55) Daí
em diante, os pentecostalistas iriam ensinar que o batismo do Espírito
Santo era uma experiência a ser procurada e a ser verificada em
glossolalia. Por essa razão, a experiência de Agnes Ozman tem sido
chamada o princípio do avivamento pentecostal.
Em 1905, Parham estabeleceu a Escola Bíblica de Houston, em
Houston, Texas, U.S.A. Um dos seus alunos convencidos foi W. J.
Seymour, pregador negro da seita Santidade (Holiness). Seymour foi
convidado a pregar numa igreja dos nazarenos em Los Angeles,
Califórnia. Mais tarde essa igreja fechou-lhe as portas por ele dar
excessiva ênfase à santidade nos seus sermões. Então ele manteve
reuniões numa casa particular, de n.° 214, na rua Bonnie Brae do Norte.
No dia 6 de abril de 1906, sete pessoas "receberam o batismo do Espírito

(53)
Para informação adicional, ver Charles W. Conn, Like a Mighty Army Moves the Church of God,
1886-1955 (Cleveland, Tenn.: Church of God Publishing House, 1955, 300 páginas.
(54)
Kendrick, op. cit., p. 37.
(55)
Ibid., p. 53.
Movimento Moderno de Línguas 34
Santo e falaram línguas". Muita gente, então, atraída pelos gritos de
louvor procedentes do edifício, ia às reuniões. Estas foram transferidas
para o n.° 312 da rua Azusa, mais tarde conhecida corro a famosa Missão
da rua Azusa. De dia e de noite, essas reuniões se estenderam por três
anos. Desse lugar, o ensino dos pentecostais se espalhou rapidamente
através da terra.
Que caracterizou esses cultos? Foram dirigidos por pregadores de
ambos os sexos. O Espírito de Deus foi visto cair sobre pessoas. (56)
Gaebelein copiou esta citação do boletim da Missão da rua Azusa: "O
poder de Deus manifestou-se e todos foram apanhados no Espírito e
viram visões de Deus. Várias pessoas tiveram uma visão do Salvador.
Ele tinha na mão um livro. Elas viram os sinais dos cravos nas suas
mãos, de onde o sangue escorria, enquanto Ele escrevia seus nomes no
livro com seus dedos e com o sangue que escorria de sua mão
traspassada." (57) Perguntar-se-ia se isso foi alucinação, em vez de visão.
Pode-se ver a Deus e a Cristo hoje em dia? Presentemente Cristo está
sangrando no céu?

Crescimento do Pentecostismo

Certas passagens no Velho Testamento se referem à chuva que cai


na Palestina em duas estações: a chuva temporã e a serôdia (Os. 6:3; Joel
2:23). Os pentecostais crêem que essas passagens têm um caráter
profético. A chuva temporã representava o Pentecostes com seus sinais e
bênçãos (At. 2). A chuva serôdia começou no fim do século passado e
continua a cair dentro do avivamento e crescimento pentecostais. Tal
convicção (ainda que edificada sobre uma interpretação errada e
aplicação errônea das Escrituras), sem dúvida, tem dado ímpeto a seu
crescimento.

(56)
Frodsham, op. cit., p. 37.
(57)
Arno C. Gaebelein, The So-Called Gift of Tongues, Our Hope, XIV, (julho, 1907), p. 15.
Movimento Moderno de Línguas 35
No começo, as assembléias pentecostais permaneceram isoladas
umas das outras, mas logo viram a necessidade de se associarem. Mais
de uma dúzia de denominações pentecostais se desenvolveram.
"Conquanto exista alguma divergência de doutrina, uma posição básica
une os pentecostais – sua crença comum de que 'o batismo no Espírito
Santo' seja uma experiência distinta que todos os crentes podem e devem
ter depois de seu batismo " (58)
O desenvolvimento das congregações pentecostais levou-as para a
convenção em Hot Springs, Estado de Arkansas, de 2 a 12 de abril de
1914. Isso, então, levou para a formação das Assembléias de Deus, o
maior dos grupos pentecostais. Seu crescimento tem sido marcado por
Kendrick: (59)

Ano Igrejas Membros


1920 1612 91.981
1939 3496 184.022
1949 5950 275.000
1959 8094 505.552

Hoje (1967) há mais de 8.409 igrejas com 543.003 membros. As


igrejas se localizam em cada estado e em setenta e três países. Apenas
este exemplo esclarece bem por que TIME chamou o pentecostismo "a
igreja que mais cresce no hemisfério". (60) É muito atraente aos católicos
romanos da América Latina. É provável que os pentecostais excedem os
protestantes tradicionais na proporção de quatro a um na América Latina.
Em 1948, dez denominações se uniram para formar a Pentecostal
Fellowship da América do Norte. Há também uma "Pentecostal

(58)
Thomas F. Zimmerman, The Pentecostal Position, The Pentecostal Evangel (Springfield, Mo.), 10-
2.1963, p. 2.
(59)
Kendrick, op. cit., p. 95. Esse livro dá uma história do movimento moderno pentecostal
especialmente o das Assembléias de Deus.
(60)
"Fastest – Growing Church in The Hemisphere" op. cit., p. 56.
Movimento Moderno de Línguas 36
Fellowship" mundial com uma publicação internacional, Pentecost,
editada por Donald Gee. Seu crescimento é bem sensível.

Ênfase Corrente

No passado, os distintivos do pentecostismo eram limitados a seus


próprios grupos. Todavia, nos anos recentes, a mensagem pentecostal tem
sido aceita por membros das históricas igrejas protestantes estabelecidas.
Quando começou tudo isso? A maioria dos observadores data o começo da
ênfase corrente como tendo ocorrido nos anos 1955-1960. O evento que
provou ser o elemento catalisador do movimento moderno de glossolalia
ocorreu em Van Nuys, Califórnia, no dia 3 de abril de 1960. O reitor da
Igreja Episcopal de São Marcos, Rev. Dennis Bennett, anunciou, do seu
púlpito, que ele havia falado "línguas estranhas". Essa declaração não
somente sacudiu a sua congregação, mas recebeu publicidade e se tornou
notória na nação inteira. O evento tem sido aclamado como o início da
renovação carismática nas igrejas históricas, com sua ênfase sobre os dons
do Espírito Santo e o dom de línguas em particular. A natureza desse
movimento será mais amplamente discutida no capítulo a seguir.

Resumo

O fenômeno de falar "línguas" não se acha somente na religião cristã.


Ocorrências entre os pagãos foram também registradas no Relatório de
Wenamon, nos Diálogos de Platão e na Eneida de Vergílio. A pitonisa de
Delfo e os aderentes das religiões de mistério teriam falado "línguas". No
século vinte, isto ocorreu entre os maometanos, os esquimós e os pagãos do
Tibete e da China. Visto que Deus não é a fonte dessa glossolalia, essas
instâncias demonstram que o fenômeno pode ser duplicado por esforço
satânico, ou humano.
No Velho Testamento, há casos de fala profética acompanhada por
ações físicas estranhas, porém não há indicação definida de que
ocorresse a glossolalia.
Movimento Moderno de Línguas 37
As primeiras ocorrências de glossolalia bíblica acham-se registradas
no Novo Testamento. Foi predita por Jesus (Mar. 16:17; mas esta
referência é contestável), experimentada pelos discípulos em Jerusalém
(At. 2), por Cornélio em Cesaréia (At. 10), pelos discípulos de João, o
Batista, em Éfeso (At. 19) e pela igreja em Corinto (I Cor. 12-14). Estas
passagens serão discutidas mais tarde.
Na era pós-apostólica (100-600 d.C.) cessou a glossolalia como
atividade normal dos crentes. Justino Mártir, Irineu, Orígenes,
Crisóstomo e Agostinho, todos testificaram esse fato. As únicas
ocorrências do fenômeno se deram entre os montanistas (Montano e
possivelmente Tertuliano) e num monge ascético, Pacômio. As posições
heréticas desses homens argumentariam contra a genuinidade da
glossolalia bíblica entre eles.
Durante a Idade Média e o período da Reforma (590-1648), alega-
se que certos "santos" católicos romanos tenham falado "línguas".
Também, por causa da fraca base doutrinária da Igreja Católica Romana
e a tendência de exagerar os "feitos" de seus santos, essas pretensões têm
de ser rejeitados. O intenso avivamento espiritual e doutrinário na
Europa (a Reforma) não produziu nenhum caso de glossolalia. A
referência a Martinho Lutero é espúria.
O período Pós-Reforma (1648-1900) produziu um grande número
de casos de glossolalia. O fenômeno apareceu entre os profetas de
Cevennes, jansenitas (um grupo de católicos romanos), quacres,
irvingitas, shakers, mórmons e no meio de vários avivamentos no século
dezenove. Nenhum desses grupos pode ser considerado como ortodoxo,
quer na doutrina quer na vida. A natureza de sua glossolalia não está em
harmonia com as experiências e os regulamentos bíblicos.
O século vinte testemunhou o nascimento, o crescimento e a
influência do pentecostismo moderno. Esse movimento, com sua ênfase
sobre a glossolalia, é uma força a ser considerada. No próximo capítulo
será discutida a sua natureza.
Movimento Moderno de Línguas 38
A NATUREZA DO MOVIMENTO MODERNO DE
GLOSSOLALIA

A EXPRESSÃO contemporânea do movimento de "línguas" tem


uma existência de apenas cinco para dez anos, no entanto, tem causado
grande debate e pavor, tanto nos círculos pentecostais como nos não-
pentecostais, incluindo tanto os campos liberais como os conservadores.
Uma compreensão da natureza básica desse fenômeno contemporâneo é,
portanto, imperativo para cada estudante sério da Bíblia. Um estudo do
pentecostismo moderno como tal não será tentado, mas somente no que
ele afeta as igrejas estabelecidas do protestantismo. Uma vez apresentada
essa natureza básica, o movimento contemporâneo poderá, então, ser
avaliado à luz da verdade bíblica, para descobrir se é de Deus ou não. O
propósito deste capítulo, portanto, é apresentar os advogados do
movimento contemporâneo de "línguas", seu alcance, suas
características, suas causas e as avaliações subseqüentes desse novo
fenômeno.

Advogados do Movimento Moderno

Muitos grupos, publicações religiosas e personalidades principais


estão promovendo ativamente a renovação carismática entre as igrejas
históricas protestantes. Quando o assunto da glossolalia moderna for
discutido, esses nomes serão mencionados. O "Full Gospel Business
Men's Fellowship International"(1) (A Comunhão do Pleno Evangelho de
Homens de Negócio) é uma organização de homens de negócio que
compromete totalmente a mensagem plena do evangelho, com sua ênfase
sobre dons espirituais e o fenômeno de falar "1ínguas" como evidência
do batismo do Espírito Santo.

(1)
Sua sede se localiza em 836 South Figueroa Street, Los Angeles, Califórnia. USA. A organização
daqui em diante será referida como FGBMFI.
Movimento Moderno de Línguas 39
A Organização foi concebida e fundada por Demos Shakarian, (2)
rico negociante da Califórnia, que foi encorajado na idéia por Irvine J,
Harrison e Oral Roberts. Shakarian presentemente serve como presidente
dessa organização internacional. Uma organização relacionada é a World
Missionary Assistance Plan (World MAP) (Plano de Assistência
Missionária Mundial), uma comunhão não-denominacional, patrocinada
pela Full Gospel Missionary Fellowship e composta de missionários
"cheios do Espírito", que trabalham no hemisfério ocidental, no Oriente,
no suleste da Ásia, na Índia e na África.
Quais são os propósitos da FGBMI? Mahoney declarou : "Eu creio
que um dos propósitos específicos para a FGBMFI é o de sobrepor o
abismo que tem dificultado o alcance das igrejas tradicionais pela
mensagem pentecostal."(3) Essa é a verdade. A FGBMFI, mais do que
qualquer outra organização, tem alcançado e ganho pessoas dentro das
igrejas históricas. Como foi feito isso? Primeiro, a FGBMFI tem
patrocinado banquetes e convenções através do país inteiro e do mundo.
Há banquetes locais cada mês (4) e convenções regionais, nacionais e
internacionais, convocadas em centros convencionais e hotéis modernos.
Nessas reuniões, oradores destacados são líderes pentecostais
proeminentes e tanto leigos como ministros das tradicionais igrejas
Protestantes que tenham recebido "o batismo no Espírito Santo
acompanhado pela evidência da glossolalia". Muitos visitantes das
igrejas históricas são convidados a essas reuniões e, como resultado,
aceitam a mensagem pentecostal. Estes, então, voltam a suas respectivas
igrejas e testemunham das suas novas experiências. Em conseqüência,

(2)
A família Shakarian é muito reverenciada em círculos pentecostais. Por mais de cem anos, tem sido
marcada por pretensões de revelações proféticas diretas, milagres de cura, visões e glossolalia.
Depois de emigrar da Armênia, a família teve contato com a Missão da rua Azusa, e uma das
primeiras igrejas pentecostais na América foi estabelecida no seu lar em 1905. Para mais
informações, ver Thomas R. Mickel, The Shakarian Story, Los Angeles: FGBMFI, 1964, p. 32.
(3)
Ralph Mahoney, "Pentecost in Perspective", Full Gospel Business Men's Voice, XIII (maio de
1965), p. 4.
(4)
O autor assistiu a um deles. Ver sua descrição no Apêndice 1.
Movimento Moderno de Línguas 40
muitas igrejas têm aceito integralmente esse ensino pentecostal de uma
renovação dos dons espirituais, mas outras igrejas têm sido divididas por
ele. Concernente à semelhança da FGBMFI com os não-pentecostais,
Hitt, redator da revista Eternity, candidamente observou:
"A técnica mais polida das relações públicas tem sido aproveitada para
levar avante o movimento. Conquanto não haja, certamente, nada errado em
utilizar as técnicas modernas, o neo-pentecostismo não pode pretender
espontaneidade completa." (5)
O surgimento de glossolalia deve ser visto como o resultado de uma
tentativa determinada por parte dos pentecostais para ganhar membros
das igrejas históricas que tenham ficado insatisfeitos com sua
experiência espiritual pessoal (nenhuma, em alguns casos) e com o
formalismo oco de suas igrejas locais. Um segundo método de promover
a mensagem do "pleno evangelho" tem sido através da imprensa. Há três
publicações impressas pela FGBMFI. Sua revista mais popular é Voice,
publicação mensal, que contém testemunhos daqueles que têm sido
"batizados no Espírito Santo" e anúncios de convenções futuras. Vision é
uma revista que apela especialmente à juventude. View é um jornal
trimestral que trata da renovação carismática.
Outro grupo-chave é a Blessed Trinity Society (Sociedade da Trindade
Bendita), que patrocina reuniões pelo país todo. Um ministro da Igreja
Reformada Holandesa, Harold Bredesen, de Mt. Vernon, Estado de Nova
York, é o presidente da Junta e seu orador principal, especialmente nos
campos colegiais. David J. du Plessis, um dos diretores, é pentecostalista do
sul da África "que crê ter recebido a chamada de levar a mensagem aos
líderes ecumênicos. Na sua opinião, a 'renovação pentecostal' dentro do
movimento ecumênico talvez se torne maior do que a de fora.
Suas atividades ecumênicas levaram as Assembléias de Deus a cortar
as suas relações ministeriais com ele." (6) Jean Stone, esposa de um
executivo da Lockheed Aircraft Cia., é membro da Junta e redatora da

(5)
Russell T. Hitt, "The New Pentecostalism: An Appraisal", Eternity, XV (julho, 1963), p. 16.
(6)
Frank Farrell, "Outburst of Tongues: The New Penetration", Christianity Today, VII (13-9-1963), p. 6
Movimento Moderno de Línguas 41
atraente revista Trinity, publicada pela sociedade, e que recebe uma
orientação episcopal, sendo produzida em Van Nays, Califórnia. Ela
expressa o propósito da sociedade nestas palavras: "Muitas pessoas têm
almejado ver Deus derramando o Seu Espírito nas igrejas históricas... Foi para
que isso acontecesse que a Blessed Trinity Society chegou a existir." (7)
Publicações pentecostais (Abundant Life, The Pentecostal Herald,
The Pentecostal Evangel, Miracle Magazine, Pentecostal Holiness
Advocate, The Voice of Healing, Pentecost) natural, mente procuram
levar avante o movimento. Uma revista bem conhecida, mensal,
Christian Life, editada por Robert Walker, está promovendo ativamente
o reavivamento carismático.
Colégios pentecostais estão melhorando as suas normas acadêmicas
e procurando melhorar a apresentação de seu apelo e seu "status". De
fato, a Universidade Oral Roberts, com sua Escola Graduada de Teologia
(aberta em1965), foi estabelecida com o propósito expresso de oferecer o
"melhor" na educação cristã e de promover a renovação carismática.
Localiza-se em Tulsa, Estado de Oklahoma, U.S.A.

Alcance do Movimento Moderno

Até que ponto tem tocado o moderno movimento de "línguas" o


mundo secular e sacro? Sua extensão apontará o significado de um
estudo como este.

O Mundo Secular

Publicações de destaque nacional têm publicado artigos sobre o


novo pentecostismo (Life, Saturday Evening Post, Time, Newsweek, The
National Observer etc.). Também tem havido cobertura por parte do
rádio e da televisão. De fato, houve, em 21 de abril de 1965, uma
(7)
Jean Stone, "Would You Like a Christian Advance?" Trinity, II (Christmastide, 1962-1963), p. 51.
A sede da sociedade localiza-se em P. O., Box 2422 Van Nuys, Califórnia, USA.
Movimento Moderno de Línguas 42
reportagem especial no noticiário da tarde da CBS, pelo jornalista Walter
Kronkite, salientando a glossolalia com Harold Bredesen.

Escolas e Grupos

David J. du Plessis tem apresentado a mensagem carismática ao


Concílio Missionário Internacional do Concílio Mundial de Igrejas, à
Aliança Presbiteriana Mundial, à Escola de Divindade de Yale, ao
Seminário Teológico União (New York) e ao Seminário de Princeton.(8)
Homer A. Tomlinson, bispo e superintendente geral da Igreja de Deus
em Queens Village, Nova York, tem lecionado sobre "línguas" em mais
de vinte e dois seminários, inclusive de Yale e de Harvard e em mais
alguns seminários católicos e entre grupos muçulmanos.(9) Reportagens
de glossolalia têm chegado também de Dartmouth, Seminário Fuller,
Colégio Westmont e Colégio Wheaton.(10)
A glossolalia aparentemente tem ocorrido dentro de grupos
conservadores como os Navigators (navegadores), os Tradutores Wycliff
da Bíblia e a Inter-Varsity Christian Fellowship (Comunhão Cristã entre
Alunos Universitários).

Denominações

Praticamente, todas as maiores denominações históricas têm sido


penetradas e influenciadas pelo novo avivamento carismático. A

(8)
James W. L. Hills, "The New Pentecostalism: Its Pioneers and Promoters", Eternity, XIV (julho
de 1963), p. 18.
(9)
Contido numa carta de Tomlinson a Ricardo Ruble. Citado por Richard Lee Ruble, "A Scriptural
Evaluation of Tongues in Contemporary Theology" (tese inédita Th. D., Dallas Theological
Seminary, 1964), p. 66.
(10)
Farrell, op. cit., pp. 3 e 4. Entretanto, V. R. Edman, do Colégio Wheaton, negou que tivesse
havido um avivamento de glossolalia em Wheaton, porém afirmou que uns poucos alunos
haviam "falado em línguas" sob influências externas. Ver V. R. Edman, carta ao redator de
Christianity Today, VIII (25-10-1963), p. 23.
Movimento Moderno de Línguas 43
penetração na Igreja Holandesa Reformada pode se ver em Harold
Bredesen, pastor da Primeira Igreja Reformada de Mount Vernon, New
York. Ele gasta a maior parte do seu tempo promovendo a renovação
carismática, tanto dentro como fora de sua denominação.
O impacto dentro da denominação episcopal (11) tem sido tão forte
que oficiais da Igreja Episcopal Protestante e das Assembléias de Deus
tiveram uma conferência em conjunto para discutir o ministério do
Espírito Santo hoje em dia. Um dos eminentes oradores é Dennis
Bennett, o reitor episcopal cuja confissão de glossolalia na Igreja de São
Marcos, em Van Nuys, Califórnia, deu início à renovação carismática.
Depois de ser obrigado a se demitir, tornou-se reitor da Igreja Episcopal
de São Lucas em Seattle, no Estado de Washington. Freqüentemente, ele
fala em banquetes e convenções da FGBMFI e contribui com muitos
artigos para as publicações principais.
Muitos ministros e leigos batistas têm falado "línguas". (12) Isto
ocorreu entre membros de igrejas associadas com a Convenção do Sul, a
Convenção Batista Americana e a Comunhão Bíblica Batista. Francis
Whiting, um líder dentro da ABC, tem falado a favor do fenômeno de
glossolalia perante o Seminário Batista do Norte. Haward Ervin, pastor da
Igreja Batista Emanuel, Atlantic Highlands, New Jersey, na sua glossolalia,
tem falado, supostamente, a nacionais e estrangeiros (japoneses, russos,
espanhóis), nas suas próprias línguas ou idiomas. Tem servido também
como consulente teológico na Oral Roberts Graduate School of Theology.
Igrejas presbiterianas também foram afetadas. (13)A elegante Igreja
Presbiteriana de Bel Air, em Los Angeles, pastoreada por Louis Evans,
Jr., evidenciou esse fenômeno. (14) Um orador eminente tem sido James

(11)
Jerry Jensen (ed.), Episcopalians and the Baptism in the Holy Spirit (Los Angeles: FGBMFI,
1964). Esse livrete contém testemunhos de eminentes episcopais que têm falado em "línguas".
(12)
Jerry Jensen (ed.), Baptists and the Baptism of the Holly Spirit (Los Angeles: FGBMFI, 1963).
Esse livrete contém testemunhos de batistas que têm falado em "línguas".
(13)
Jerry Jensen (ed.), Presbyterians and the Baptism of the Holy Spirit (Los Angeles: FGBMFI,
1963). Contém testemunhos de presbiterianos que têm "falado línguas".
(14)
Robert Walker, "Church in the Mountaintop", Christian Life, XXV (julho, 1963), pp. 27-31.
Movimento Moderno de Línguas 44
Brown, ministro da Igreja Presbiteriana Unida de Upper Octorara, em
Parkesburg, Estado de Pensilvânia. Brown tem pregado muito nos
banquetes e convenções da FGBMFI.
A revista TIME relatou que pelo menos 260 das 5.239 Igrejas
Luteranas Americanas têm células de glossolalia. (15) Larry Christenson,
eminente ministro luterano e entusiasta da glossolalia, tem descrito a
existência do fenômeno na Evangelical Mary Sisterhood, em Darmstadt,
Alemanha Oriental. (16) Essa congregação de religiosas pratica os dons
do Espírito e confissão particular ou privada. Também se ocupa com
evangelismo, ensino, drama religioso, obras de caridade e de
misericórdia e publicação dos escritos da Mãe Basiléia. A Mãe Basiléia,
fundadora e teóloga da comunidade, possui o doutorado em filosofia e
em psicologia. Suas maiores influências teológicas foram Dietrich
Bonhoeffer e Karl Barth. Muito se tem interessado também nos místicos
Madame Guyon, Benedito de Núrsia e Francisco de Assis.
O metodismo também tem sentido o impacto da glossolalia. (17) A
Igreja Cristã de Hillorest (Discípulos de Cristo), em Toronto, Canadá,
tem informado que quase todos os nove dons espirituais estão em
evidência dentro da igreja. Pretende-se que Deus se tem revelado a
vários membros e que tem feito conhecer a Sua vontade mediante sonhos
e visões. (18) Um sacerdote da Igreja Russa Ortodoxa diz que sua igreja
tem tido alguns que "falam línguas", mas estes se acham nos
monastérios, não no nível da paróquia. (19)
O fenômeno se acha até na Igreja Católica Romana. Alguns do
clero católico afirmaram a Bennett que o dom de línguas (e outros) têm

(15)
"Taming the Tongues", Time, LXXXIV (10 de julho de 1964), p. 66.
(16)
Larry Christenson, "Miracles Are Not Commonplace Here", Christian Life, XXVII (junho, 1965),
pp. 36 e 37, 52-54.
(17)
Jerry Jensen (ed.) Methodists and the Baptism of the Holy Spirit, (Los Angeles: FGBMFI, 1963).
Contém testemunhos de metodistas que têm "falado línguas".
(18)
Don W. Basham, "I Saw My Church Come Alive", Christian Life, XXVI (março de 1965), pp. 37-39.
(19)
Dennis Bennett, "The Charismatic Renewal and Liturgy", View, II, (n.º 1, 1965), p. 1.
Movimento Moderno de Línguas 45
(20)
estado na Igreja Católica Romana através da sua história. Também,
um católico recentemente admitiu: "A glossolalia está muito mais
espalhada do que reconhece a maioria dos cristãos. Sou católico romano
já por muitos anos, e tenho achado o 'falar línguas' ser parte integral das
minhas devoções particulares." (21)
A erupção de glossolalia não se limita à América do Norte.
Reportagens de avivamento pentecostal vêm das Filipinas, do Japão, da
ilha Formosa, da Suécia, da Holanda, do Sul da África e da América
Latina (nota do tradutor). Relata que setenta por cento dos evangélicos
da Polônia têm recebido o Espírito Santo e "falado línguas" como
evidência. (22)

Personalidades

Além das pessoas já mencionadas, há outras, bem conhecidas, tanto


ao mundo secular como ao religioso, que, segundo se afirma, têm "falado
línguas". A autora Catherine Marshall Le-Sourd viúva do recém-falecido
Peter Marshall, é uma. Outra é Colleen Tawnsend Evans, esposa do
ministro presbiteriano Louis Evans e ex-atriz de Hollywood, que tomou
parte principal em vários filmes cristãos. Chandler Sterliny, bispo
episcopal do Estado de Montana, tem experimentado o fenômeno.
Também o tem McCandlish Phillips, repórter do New York Times, e
John Sherrill, do corpo de escritores da revista Guideposts. (23)
O largo escopo da glossolalia dentro das igrejas históricas tem
criado um pequeno dilema para seus aderentes. Ao presente, esses

(20)
Ibid.
(21)
Michael Callaghan, Letter to the Editor, Time, LXXXVI (5 de Setembro de 1960), p. 2.
(22)
Wesley R. Hurst, Jr., "Upon All Flesh", The Pentecostal Evangel (2-5-1965), p. 11.
(23)
Citada por Lee E. Dirks, "Tongues and The Historic Churches", The National Observer, (26-10-
1964). Também John L. Sherrill, They Speak with Other Tongues (New York: McGraw-Hill Book
Company, 1964). Este é um registro autobiográfico do seu avanço desde a curiosidade e a dúvida
quanto às línguas até o tempo em que ele mesmo chegou a falar "línguas". Está recebendo larga
publicidade e circulação por parte da FGBMFI.
Movimento Moderno de Línguas 46
"glossolalistas" têm ficado como membros leais nas suas igrejas.
Entretanto, seu zelo pela experiência recentemente descoberta tem
causado lutas e divisão dentro de suas igrejas locais. Há várias
alternativas para a solução desse problema. Poderão eles ficar nas suas
igrejas locais, pôr em prática suas experiências e arriscar uma divisão da
igreja ou uma possível excomunhão. Poderão ficar e calar-se a respeito
das suas experiências. Ou, então, poderão sair das suas respectivas
igrejas e identificar-se com assembléias pentecostais. Somente o passar
do tempo revelará o curso que eles seguirão.

Características do Movimento Moderno

Para que se compreenda a natureza do "movimento de línguas",


precisa-se de uma visão acurada de suas características. Quem fala?
Onde ocorre a "fala"? Quais as outras coisas que acompanham a "fala"?
Quais os resultados de tais experiências? Como se chega ao ponto de
poder "falar línguas"?

Participantes

No passado, certas generalizações se empregavam para atacar e


refutar a posição pentecostal. Hoje em dia, essas declarações categóricas
têm de ser consideradas como falsas ou, pelo menos, somente como
verdadeiras em parte. Uma observação clássica foi feita por Stegall, um
ávido estudioso do pentecostismo:
O apelo do pentecostismo limita-se bem claramente aos ingênuos e de
mente crédula, que aceitam coisas sem investigá-las. A grande maioria dos
seguidores desses curadores é constituída de velhos, de estouvados – de
pessoas postas de lado, à margem, pela sociedade e esquecidas por parte
das orgulhosas 'igrejas estabelecidas', para nosso descrédito eterno. (24)

(24)
Carroll Stegall, Jr., The Modern Tongues and Healing Movement (Atlanta, Ga.: pelo autor, n.d.), p. 53.
Movimento Moderno de Línguas 47
Martin acrescentou que somente os de baixo intelecto e os de
grupos de baixo padrão econômico participam do fenômeno. (25) Tais
declarações simplesmente não podem ser feitas hoje em dia. O novo
pentecostismo tem sido abraçado pelos ricos e pelas pessoas cultas e
educadas, inclusive professores, escritores, ministros, médicos e
advogados.(26) Está representada numa grande proporção de fundamentos
pessoais e denominacionais.
Em toda parte se vê essa glossolalia moderna: nos lares, em grupos
de oração privados e públicos, nos cultos públicos e nas salas de
banquetes e de convenções. É muito parecido com o velho
pentecostismo, e ainda assim um tanto diferente. A Sra. Stone expressou
algumas dessas diferenças:
... menos emoção em receber o dom de línguas, após o que se fala à
vontade – seu uso privado é mais importante do que o público, está mais
orientado para o clero e as classes profissionais, mais centralizado na Bíblia
como contra-experiência, não é separatista, suas reuniões são mais
ordeiras, com uma aderência estrita às diretivas Paulinas, há menos ênfase
a línguas. (27)
O velho pentecostismo, todavia, ainda persiste e é uma parte
integrante do novo movimento. Dalton, um ministro na Assembléia de
Deus, uma vez classificou três grupos dentro do pentecostismo: o grupo
ordeiro, que faz tudo com decência e ordem; o grupo que derivou do
grupo ordeiro, que tenta produzir por meios carnais o que os outros têm
no Espírito; e o grupo que é somente carnal e sempre o foi. (28) Sem
dúvida, esses grupos ainda existem hoje em dia.

(25)
Martin, op. cit., pp, 17, 25. Todavia, Jean Stone notificou que Martin se retratou desta posição e
aceitou a genuinidade do fenômeno moderno. Ver Jean Stone e Harold Bredesen, The Charismatic
Renewal in the Historic Churches (Van Nuys, Calif.: Blessed Trinity Society, n.d.) Reimpresso de
Trinity, Tnnitytide, 1963.
(26)
Jerry Jensen (ed.), Attorney's Evidence on the Baptism in The Holy Spirit (Los Angeles: FGBMFI,
1965). Contém testemunhos impressionantes de advogados que têm "falado línguas".
(27)
Citado por Farrell, op. cit., p. 6.
(28)
Dalton, op. cit., p. 116.
Movimento Moderno de Línguas 48
Concomitantes

Muitas vezes, certas coisas fora do comum acontecem antes e


depois de a pessoa ter "falado línguas". Um médico relatou: "Quando me
deitei, logo ao me cobrir, o quarto se encheu de um ruído como que de
um vento impetuoso, e, dentro de alguns momentos, vi línguas como que
de fogo." (29) Quatro meses mais tarde, esse homem recebeu o batismo e
falou "línguas", depois de certas pessoas lhe haverem "imposto as mãos
conforme o padrão bíblico". (30)
Aqui está em ordem uma observação baseada nas Escrituras. O
som, como que de um vento impetuoso e línguas como que de fogo
estavam presentes no Pentecostes (At. 2:2,3), porém não houve
imposição de mãos. No Pentecostes, ao ocorrer o som de vento e o fogo,
os discípulos se encheram do Espírito e começaram a falar em outras
línguas (At. 2:4). Esse homem, conforme seu próprio testemunho, não
recebeu o Espírito e não falou "línguas" até quatro meses mais tarde! O
som no Pentecostes atraiu uma grande multidão, porém esse som que ele
diz ter ouvido não atraiu ninguém.
Mais alguém escreveu: "Recentemente, em uma das nossas
reuniões, pelo menos vinte pessoas sentiram o cheiro de perfume e
incenso." (31) Daí concluiu que isso foi o resultado de os crentes serem "o
cheiro de vida para a vida" (II Cor. 2:16). Essa interpretação daquela
experiência e daquele verso é certamente esquisita. Certamente não há
nenhum incidente registrado na Bíblia em que os crentes sentissem o
cheiro da fragrância celestial e, muito menos, uns dos outros.
O tremer e as convulsões físicas ainda se acham associados com a
glossolalia. (32) Todavia, esse concomitante é deplorado por muitos.

(29)
R. O. McCorkle, "Witness to the World", Full Gospel Business Men's Voice, XIII (fevereiro
de1965), p. 23.
(30)
Ibid., p. 28.
(31)
John Topping, "Hearts Aflame", Full Gospel Business Men's Voice, XIII (fevereiro de 1965), p. 6.
(32)
O autor assistiu a um culto numa igreja pentecostal onde isto se deu. Ver o Apêndice II.
Movimento Moderno de Línguas 49
David du Plessis, anteriormente Secretário Geral da Conferência
Mundial Pentecostal, escreveu:
Considero que é heresia falar em sacudir, tremer, cair, dançar, bater
palmas, gritar e coisas semelhantes como "manifestações" do Espírito
Santo. Tais reações são puramente humanas diante do poder do Espírito
Santo e freqüentemente dificultam, mais do que ajudam as manifestações
genuínas. (33)
Visões e choques elétricos passarem pelo corpo também têm sido
experimentados. João Osteen, ministro batista, pretendeu ter visto a
Jesus e o ter ouvido falar. Quando estendeu a mão para tocar em Jesus,
um milhão de volts de eletricidade, como duas faíscas de relâmpagos,
atingiu-lhe as mãos. Mais tarde, ele declara ter visto uma bola de luz,
que continha "um homem" com as mãos estendidas, aproximando-se
dele. Quando deu um salto e se retirava em pânico, a bola de luz
explodiu e deixou em escuridão o quarto. Numa outra ocasião, ele diz ter
tido a visão de uma mão saindo da eternidade, segurando uma garrafa
oriental, contendo azeite. Quando o azeite foi derramado, uma voz
proclamou: "Ungi o teu coração para falares ao povo amanhã."(34)
Cho Yonggi, budista convertido e co-pastor do centro evangelístico
das Assembléias de Deus em Seoul (Coréia), deu o seguinte relato de sua
cura da tuberculose:
Eu vi o Senhor.., e Lhe disse: "Sim, Jesus, pregarei o Teu Evangelho."
Tentei tocar-Lhe os pés. Logo que toquei as suas vestes, o que me parecia
ser mil volts de eletricidade entrou no meu corpo, e comecei a tremer. Então
palavras estranhas vieram a minha boca e comecei a falar em outras
línguas. Quando acordei dessa visão, já era homem mudado. Logo fui ao
hospital e tirei uma radiografia. Não havia mais sinal nenhum da
tuberculose.(35)

(33)
Citado por Tod W. Ewald, "Aspects of Tongues", View, II (N.º 1, 1965), p. 9. Estas mesmas coisas
foram testemunhadas pelo autor. Ver Apêndice II.
(34)
John H. Osteen, "He Heard God Speak", Baptists and the Baptism of the Holy Spirit (Los Angeles:
FGBMFI, 1963), pp. 8 e 9.
(35)
Hurst, op. cit., pp. 11 e12.
Movimento Moderno de Línguas 50
Frodsham, historiador pentecostal, relata que meninos e jovens
chilenos haviam experimentado visões. (36) Dançaram com anjos,
andaram a pé na nova Jerusalém e no terceiro céu, brincaram à beira dos
rios, no Éden celestial, com animais domesticados, saborearam os frutos,
deleitaram-se com as flores e os passarinhos, no paraíso restaurado,
visitaram o inferno, testemunharam os eventos narrados no Velho
Testamento, nos Evangelhos e no Apocalipse, viram os seus entes
queridos já mortos e viram a Cristo.
Vento, perfume, tremor, convulsões físicas, choques elétricos,
luzes, transpiração (devido ao calor do Espírito Santo), visões, curas, ver
e ouvir a Cristo e tocar nele – essas coisas são concomitantes da
glossolalia. Procura-se em vão no Novo Testamento tais
acompanhamentos no ministério do Espírito Santo na vida dos crentes ao
tempo em que alguns deles "falaram línguas".

Resultados

Os que têm "falado línguas" testemunharam do fato de que agora


têm uma vida mudada ou transformada. Pecados pessoais são
enfrentados, confessados e abandonados. Time relatou que, para os
participantes, a glossolalia "ajuda a vencer o alcoolismo, a reparar
casamentos em dissolução e a adiantar a obra de Cristo". (37) Há um novo
interesse na igreja, envolvendo a assistência regular, o dízimo, o dar
conselhos e testemunhar a favor de Cristo. Há um novo desejo de ler e
estudar a Bíblia. Têm eles um novo senso do amor divino e da alegria,
que se manifesta no calor pessoal e no cântico entusiasmado. A
experiência de "falar línguas" tem feito com que alguns adorem a Deus
mais livre e profundamente, ainda que não compreendam as palavras que
proferem. Alguns têm experimentado curas tanto físicas como mentais.

(36)
Frodsham, op. cit., pp. 131-138.
(37)
"Against Glossolalia", Time, LXXXI (17-5-1963), p. 84.
Movimento Moderno de Línguas 51
"Mas a coisa mais maravilhosa é a convicção quanto à realidade de Deus
e à obra da redenção por Cristo que começa a aparecer na sua vida. Essas
pessoas sabem que são herdeiras do Reino, pois dele têm o antegozo
nessa comunhão dinâmica no Espírito Santo." (38)
Todos esses resultados são recomendáveis, porém deve-se lembrar
de que os resultados de uma experiência espiritual não constituem o teste
da genuinidade divina da experiência. Sua interpretação quanto à causa e
o significado da experiência talvez estejam errados. Todas as
experiências têm de ser julgadas pela Palavra de Deus. O fim não
justifica nem revela os meios.

Instruções

Como é que se chega a "falar línguas"? Será que uma pessoa de


repente começa a falar, sem ter tido qualquer conhecimento prévio ou
desejo de experimentar o fenômeno? Ou recebe ela ajuda em forma de
instruções? Quanto ao moderno movimento de "línguas", esse último é o
caso. Christensen, ministro luterano e "glosso1alista", disse:
"Para se falar 'línguas', tem que se deixar de orar em inglês (ou
português)... Simplesmente se tem de ficar quieto e resolver não falar
nenhuma sílaba de qualquer idioma que se tenha aprendido. Os
pensamentos são focalizados sobre Cristo, e então se levanta simplesmente
a voz e se fala confiadamente, na fé plena de que o Senhor tomará o som
que se lhe dê, e o transformará num idioma. Não se pensa no que se esteja
dizendo: no que lhe seja concernente, é apenas uma série de sons. Os
primeiros sons hão de lhe parecer estranhos e não naturais ao ouvido, e
talvez sejam vacilantes e inarticulados (já ouviu uma criancinha aprendendo
a falar?).(39)

(38)
Dennis J. Bennett, "When Episcopalians Start Speaking in Tongues" (Medford, Oregon: Christian
Retreat Center, n.d.).
(39)
Citado por John Miles, "Tongues", Voice, XLIV (fevereiro de 1965), p. 6. Esta é publicação da
IFCA, não da FGBMFI.
Movimento Moderno de Línguas 52
Há várias discrepâncias entre essas instruções e os registros bíblicos
de glossolalia (At. 2:10,19; I Cor. 12-14). Primeiro, se de fato houve uma
reunião de oração no dia de Pentecostes (At. 2:1), não há nenhuma
indicação de que os discípulos tenham deixado de orar no seu idioma
nativo. Segundo, não há nenhuma indicação, em nenhum dos casos
citados, de que os crentes tenham caído no silêncio e resolvido falar
outras línguas. Terceiro, Paulo mandou que se orasse com o
entendimento (I Cor. 14:15). Isto está em conflito direto com o não
pensar no que se esteja dizendo. Quarto, o balbuciar inarticulado da
criancinha é contrário à admoestação de Paulo de acabarmos "com as
coisas de menino" (I Cor. 13:11) e de nos tomarmos "adultos no
entendimento" (I Cor. 14:20).
Harold Bradesen deu as seguintes instruções aos que, na
Universidade de Yale, buscavam o "dom de línguas" :
(1) Pensar visual e concretamente, em vez de abstratamente: por
exemplo, tentar visualizar a Jesus como pessoa; (2) conscientemente
entregar a voz e os órgãos vocais ao Espírito Santo; (3) repetir certos sons
elementares que ele pronunciava para eles, tais como "bah-bah-bah" ou algo
semelhante. A seguir, ele impôs as mãos sobre a cabeça de cada candidato,
orou por ele e então o "buscador" realmente falou línguas. (40)
As instruções de repetir certos sons elementares foram ouvidas por
este autor. (41) Às vezes essas instruções de repetir certas palavras têm
vindo através de visões.(42) Certa pessoa teve uma visão de um rolo de
papel do tipo que se usa numa máquina de somar, com palavras
desusuais impressas nele. Sua repetição oral das palavras fez com que
ele falasse "línguas". Mais outra pessoa viu uma visão de luzes brilhantes
na forma de letras.
Outra vez, há discrepâncias entre essas instruções e ilustrações e o
registro bíblico. Primeiro, não há nenhumas indicações nos registros

(40)
Citado por Stanley D, Walters, "Speaking in Tongues", Youth in Action (maio de 1964), p. 11.
(41)
Ver Apêndice I.
(42)
McCandlish Phillips, "And There Appeared to Them Tongues of Fire", Saturday Evening Post
(16-5-1964), p. 31.
Movimento Moderno de Línguas 53
bíblicos de que pessoas fossem prevenidas ou instruídas a repetir certos
sons para facilitar a experiência. O Espírito Santo lhes concedia que
falassem (At. 2:4), e não alguns instrutores de sons ou de visões.
Segundo, em pelo menos dois casos (At. caps. 2 e 10), não houve
imposição de mãos na ocasião de eles falarem línguas. Terceiro, em
todos os três registros bíblicos (At. 2, 10 e19) não há evidência de que
uma pessoa tenha orado para que as outras "falassem línguas".
Em conclusão, o princípio de se dar instruções para a glossolalia é
completamente estranho ao registro bíblico. Os homens falaram línguas
espontaneamente como o Espírito Santo lhes concedia. Parece que antes
que a pessoa falasse, não se lhe fizera referência ao fenômeno (apesar de
Marcos 16:17). Em um caso (At. 10:45), o acontecimento do fenômeno
surpreendeu a todos os presentes.

OCASIÃO DO MOVIMENTO MODERNO

A despeito da promoção agressiva por parte do movimento


pentecostal nos últimos cinqüenta anos, houve pouco interesse no
fenômeno da glossolalia. Por quê? Porque o movimento estava fora das
principais denominações. Agora, todavia, está dentro delas. Que teria
ocasionado essa nova ênfase e a aceitação do fenômeno? As respostas
provêm de ambos os lados, tanto daqueles que estão a favor como
daqueles que se opõem ao movimento.
Os advogados (43) consideram o movimento como a obra soberana
do Espírito Santo em oposição à largamente espalhada maldade e à
promoção de ensinos ateus, tanto comunistas como humanistas.
Segundo, muitos cristãos se acham frustrados por causa de falta de poder
espiritual e de capacidade de servir efetivamente ao Senhor. A
glossolalia lhes supre esse poder e essa capacidade. Terceiro, a forte
proclamação do pleno evangelho (curas, batismo do Espírito Santo e a

(43)
"The Neo-Pentecostal Movement", The Pentecostal Evangel (2-5-1965), p. 4.
Movimento Moderno de Línguas 54
volta iminente de Cristo), pelos ministros pentecostais, tem estimulado a
sede, em muitos corações, por uma expressão mais fervorosa de algumas
dessas verdades dinâmicas. Quarto, o aumento das comunicações
públicas e as técnicas da publicidade têm projetado o "pleno evangelho"
em novas áreas denominacionais.
Um observador interessado, Frederick Schiotz, presidente da Igreja
Luterana Americana, especulou: "Talvez seja uma reação contra a
tendência de intelectualizar demais a fé cristã. O falar parece suprir uma
necessidade espiritual da simplicidade e conexão emocional." (44)
João Miles, um oponente, alistou cinco razões para o surgimento do
movimento moderno de "línguas". (45)
Primeiro, houve um afastamento do estudo bíblico sistemático e
particularmente a Bíblia interpretada conforme as dispensações. Isto se
pode ver na rejeição veemente do ensino dispensacional quanto ao
ministério do Espírito Santo em épocas diferentes e a natureza transicional
do Livro dos Atos. O dispensacionalismo muitas vezes tem sido mal
representado e mal entendido, tanto por essas pessoas como por outras.
Segundo, igrejas liberais estão famintas pela Palavra de Deus;
todavia, desejam o sobrenatural. Muitos dos que "falam línguas" são
membros de igrejas que têm sido imersas no liberalismo e na neo-
ortodoxia. Suas igrejas enfatizam a ecumenicidade do Concílio Mundial
de Igrejas e negligenciam a mensagem da cruz.
Terceiro, muitas vezes as igrejas fundamentalistas estão realmente
mortas. Quarto, muita gente está buscando um caminho fácil, uma
experiência espiritual que resolva imediatamente todos os seus
problemas e frustrações.
Quinto, muitas pessoas desejam uma experiência sensual do
sobrenatural. Desejam andar por vista, antes que pela fé e pela mera
aderência à Palavra de Deus.

(44)
"Taming the Tongues", loc. cit.
(45)
John Miles, "Spiritual Gifts and Christian Victory", Voice, XLIV (maio de 1965), p. 9.
Movimento Moderno de Línguas 55
Harry Ironside, que se livrou do Movimento Pentecostal, chamou
de "desgostosa" a glossolalia dos seus dias com "todas as suas ilusões
concomitantes e loucuras". Ele concluiu: "Um desejo ardente e doentio
de novas sensações religiosas e excitantes e reuniões emocionais dum
caráter excitante prontamente explicam essas coisas." (46)

AVALIAÇÕES DO MOVIMENTO MODERNO

Divino? Satânico? Psicológico? Artificial? Todas essas alternativas


foram sugeridas como uma avaliação própria da fonte ou da origem do
moderno fenômeno de "glossolalia". As opiniões não se limitam
necessariamente a apenas uma alternativa; alguns crêem que a
glossolalia pode ser atribuída a duas ou mais dessas fontes.
Edman, chanceler de Wheaton College e que nunca "falou línguas",
concluiu que a glossolalia moderna poderia ser divina, demoníaca ou
psicológica, dependendo de sua fonte.(47)
Jack Hayford, representante nacional da juventude da igreja
internacional do evangelho "Four Square" (Quadrado) e que tem
exercido a glossolalia, admitiu que em alguns casos era satânica, que em
outros era produzida psicologicamente, mas que em alguns era a obra
genuína de Deus.(48)
O fato de que o fenômeno de glossolalia tem acontecido não é
negado por ninguém. O que se contesta é a fonte da experiência. Visto
que ambos os lados admitem que o fenômeno pode provir de uma ou
mais fontes, cria-se um problema bastante grande. Quem poderá
identificar a fonte de cada caso particular de glossolalia? Qual a norma a
ser empregada ou aplicada para determinar a fonte da experiência? Não
se pode referir à própria experiência como o fator determinante, porque
se admite que a experiência pode ser causada de várias maneiras. Tem
(46)
H. A. Ironside, Holiness, the False and the True (New York; Loizeaux Brothers, 1947), p. 38.
(47)
Edman, op. cit., p, 17.
(48)
Jack Hayford, Letter to the Editor, Christianity Today, VIII (25-10-1963), p. 22.
Movimento Moderno de Línguas 56
que haver uma norma objetiva e autoritária e há – a Palavra de Deus.
Esta tem de ser a única e final autoridade em se determinar a fonte atual
de qualquer experiência.

Divina

Bredesen viu no movimento moderno de "línguas" uma obra


definida do Espírito Santo:
Durante a primeira metade do século XX vimos o Espírito Santo
derrubando as paredes entre as igrejas, e o denominamos o "movimento
ecumênico". Vimo-lo trabalhando ao lado das igrejas históricas, e o
chamamos "a terceira força". Agora, na segunda metade do século, estamos
vendo-O movimentar-se dentro das igrejas. Isto denominamos "a
revivificação carismática".(49)
Pode-se contestar a identificação do movimento ecumênico por
parte de Bredesen, como sendo a obra do Espírito Santo, e não mera
atividade humana de certos líderes eclesiásticos liberais ou neo-
ortodoxos. Se essa declaração serve para medir sua percepção espiritual
e seu conhecimento bíblico, ter-se-á o inteiro direito de questionar sua
avaliação do reavivamento carismático. Todavia, Bredesen não está só
na sua avaliação. Há "glossolalistas", tanto nas igrejas pentecostais como
nas denominacionais e históricas, que concordarão com ele.
Muitos outros avisaram e admoestaram quanto à possível origem
divina desse movimento. Sentem eles que os conservadores não devem
proibir o falar línguas (I Cor. 14:39) e que devem seguir o conselho de
Gamaliel: "Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque este conselho
ou esta obra, caso seja dos homens, se desfará; mas, se é de Deus, não
podereis derrotá-los; para que não sejais, porventura, achados até
combatendo contra Deus" (At. 5:38,39). Parece ser esta a opinião que
prevalece entre muitos líderes conservadores hoje em dia, eles mesmos
não tendo falado línguas estranhas.

(49)
"Return to the Charismata" (Van Nuys, Calif.: Blessed Trinity Society, n.d.), tract.
Movimento Moderno de Línguas 57
Um exemplo típico é Philip Hughes, um dos editores contribuintes
de Christianity Today, que disse:
Ousaremos negar que esse movimento seja do Espírito soberano de
Deus? Não deveremos antes esperar e até orar que seja a início de um
grande avivamento espiritual dentro da Igreja em nosso tempo, e nos
regozijar por causa do zelo e da alegria em Cristo por parte daqueles que
testificam dessa experiência? (50)
Como resposta a esta pergunta, "Qual a sua opinião sobre falar
línguas?" o Dr. Billy Graham disse que ele não havia tido a experiência,
mas que deveria ser uma experiência maravilhosa para aqueles que a
tiveram. (51) Aparentemente o Dr. Graham aceita a origem divina de
alguns dos fenômenos no mundo hodierno.

Satânica

Muitos conservadores crêem que a glossolalia cessou na era


apostólica e que qualquer manifestação do fenômeno desde aquele tempo
tem que ser considerada não somente como uma simulada contrafação,
porém como sendo realmente de origem satânica.(52) Sob influência
satânica, os mágicos do Egito puderam duplicar os milagres divinos
operados por Moisés (Êx. 7:10 – 8:7). Na grande Tribulação, o anticristo
poderá duplicar os milagres de Jesus Cristo por meio de poder satânico
(II Tess. 2:9). O Cristo até predisse que milagres e profecias serão feitos
em Seu nome, sem Sua sanção ou Seu poder (Mat. 7:21-23).
Aparentemente, crentes professos podem realizar grandes coisas,
inclusive trazer glória a Cristo, e, no entanto, fazê-lo no poder de
Satanás. Eis por que uma experiência ou um milagre, não importa quão
grande seja, não poderá servir como o único juiz da fonte do evento. Por

(50)
Philip Edgcumbe Hughes, "Review of Christian Religions Thought", Christianity Today, VI (11-5-
1962), p. 63.
(51)
Ouvido no programa radiofônico, "Conversation Piece", WHIO, Dayton Ohio (16-11-1964).
(52)
Herman A. Hoyt, "Speaking in Tongues", Brethren Missionary Herald, XXV (20-4-1963), p. 206.
Também, I. M. Haldeman, Holy Ghost Baptism and Speaking with Tongues.
Movimento Moderno de Línguas 58
essa razão, muitos sentem ou crêem que a glossolalia pode ser
experimentada por crentes professos, numa atmosfera cristã e visando a
glória de Cristo, e, todavia, ainda ter a sua origem em Satanás.
Stegall cria que há uma conexão definida entre as fontes de
comportamento dos que "falam línguas" e dos médiuns espiritistas.(53) Os
efeitos visíveis e físicos (o sacudir dos braços e do corpo) causados pelo
controle sobrenatural eram iguais ou idênticos. A respiração e a posição do
corpo da pessoa foram afetados também. A descrição do que se sente ao estar
sob o poder (e.g, uma comente elétrica passando pelo corpo) era a mesma.
Tanto os advogados como os oponentes da glossolalia admitem que
a possessão demoníaca e/ou sua influência podem ser a causa de
proclamações sobrenaturais na vida dos crentes. Edman escreveu: "Para
o crente não instruído, que insiste em ter algum dom particular do
Espírito e que desconhece a soberania do Espírito Santo, pode haver a
realidade terrível do dom de línguas pelo poder demoníaco. Na minha
experiência, tenho conhecido tais."(54)
Raymond Frame, anteriormente missionário na China, teve essa
experiência e concordou:
Espíritos maus facilmente podem achar oportunidade de operar na vida
emocional do crente – especialmente quando o crente é persuadido a
suspender toda a atividade intelectual e a entregar a sua vontade a uma
inteligência invisível (a qual o crente, naturalmente, é persuadido a
considerar como sendo o próprio Espírito Santo). Por essa razão, o filho de
Deus que se preocupa com aquele mínimo de todos os dons, a glossolalia,
coloca-se numa posição particularmente vulnerável em relação ao perigo da
depressão demoníaca, da obsessão, ou até da possessão. (55)
Assim, o poder satânico tem que ser considerado como uma opção
viva quanto à fonte ou origem do moderno fenômeno da glossolalia.

(53)
Stegall, op. cit., pp. 48 e 49, Comparações realizadas por meio de declarações feitas por ambos os
grupos.
(54)
Edman, op. cit., p. 16.
(55)
Raymond Frame, "Something Unusual", His, XXIV (dezembro de 1963), p. 26. Frame se expôs a
si mesmo a essa situação. Ver sua descrição dessa experiência no Apêndice III.
Movimento Moderno de Línguas 59
Psicológica

O mundo humanista, secularista, que nega a existência do


sobrenatural, seja divino ou demoníaco, classificaria toda a glossolalia
como psicológica ou fisiológica de caráter e de origem.
Alguns cristãos conservadores também descrevem o caráter da
glossolalia moderna genuína como psicológico. Bergsma, psiquiatra
cristão, relacionou o fenômeno à ciência de cibernética, que trata da
guarda e da recordação da memória. Ele escreveu:
É óbvio que nada poderá sair de cada cérebro individual que não tenha
sido previamente depositado ali. Materiais depositados podem ser alterados,
fragmentados, confundidos, distorcidos, porém não podem ser
humanamente criados. Também é óbvio que um idioma ... que sai como
linguagem na glossolalia deve ter sido introduzido de alguma maneira na
vida daquela pessoa. Ainda que essa pessoa não estivesse cônscia de
haver ouvido aquelas palavras ou de que uma mensagem estivesse sendo
registrada, mesmo assim estas foram previamente depositadas ali. Isto
explicará os pouquíssimos casos da moderna glossolalia, se de fato os
houver. (56) (grifo de Gromacki).
A avaliação parece plausível, porém não está sem problemas. Essa
posição presume forçosamente que a moderna glossolalia genuína não é
promovida por Deus e não é do mesmo caráter da glossolalia bíblica. Se
assim fosse, então poderiam ser explicados os registros bíblicos de
glossolalia pela ciência cibernética. Ou será que o Espírito Santo fez com
que os discípulos falassem idiomas que nunca haviam aprendido nem
ouvido? Por causa da falta de informação, não se pode provar nem
desprovar isso. Os advogados da glossolalia argumentam que Bergsma
admitiu a sua conclusão antes de tê-la provado.
Martin, professor da Bíblia em Berea College, também cria que o
moderno fenômeno não era evidência da possessão verdadeira do
Espírito Santo, porém, antes, "um tipo extremo de exibicionismo como
'choro de alegria' ou gargalhada histérica no meio de luto. É
(56)
Stuart Bergsma, "Speaking With Tongues", Torch and Trumpet, XIV (novembro de 1964), p. 10.
Movimento Moderno de Línguas 60
(57)
simplesmente o rompimento emocional e preconceitual de alegria."
Ele a atribuiu a uma catalepsia parcialmente desenvolvida, à histeria,
hipnose, êxtase e catarse psíquica.
Morton Kelsey, reitor episcopal e estudante da Psicologia Jungiana
(o contato com o reino da realidade psíquica e com as entidades nele
contidas é possível), chamou de "válida experiência religiosa" a
glossolalia. Ele declarou: "É uma entrada para o reino espiritual; em se
dando acesso ao inconsciente, é um contato com a realidade não física,
que permite que Deus fale diretamente ao homem." (58)
Aparece aqui uma objeção à opinião de Kelsey. Será que Deus fala
diretamente aos homens à parte da Bíblia? Isto parece muito com uma
declaração da neo-ortodoxia. Contudo, a avaliação psicológica talvez
explique algo do fenômeno.

Artificial

Outra explicação possível, de uma parte do moderno fenômeno de


glossolalia, é que este tem sido artificialmente produzido pela própria
pessoa. A pessoa talvez tenha desejado ter uma genuína experiência
espiritual com o Senhor, porém na realidade não a teve. Na intensa
atmosfera emocional do culto e do convite, ela poderá tentar fazer o que
os outros estão fazendo ou o que lhe é mandado fazer ou o que deve
fazer. Talvez vá à frente, caia de joelhos, levante as mãos e pronuncie
sons estranhos. Os observadores talvez fiquem satisfeitos em que ele
tenha manifestado a evidência do batismo do Espírito Santo e
provavelmente lho digam.(59) Visto que desejava essa experiência, ele
poderá aceitar a opinião deles de que a teve. Em outros casos, uma
pessoa poderá ter tido uma experiência genuína com o Senhor (confissão
de pecados, dedicação da vida etc.), porém o clímax ou a evidência física
(57)
Martin, op. cit., p. 60.
(58)
Kelsey, op. cit., p. 231.
(59)
O autor observou isso. Ver apêndice I.
Movimento Moderno de Línguas 61
da experiência pode ter sido artificial. Aceitando as instruções
autoritárias do pastor ou do conselheiro como a vontade diretora de
Deus, ela poderá fazer exatamente como fora instruída e fazer os
movimentos. Afinal de contas, a pessoa não quer que eles pensem que
ela não deseja a melhor das bênçãos do Senhor para a sua vida.
Talvez repita os sons elementares (que lhe sejam sugeridos) e outros,
crendo que é assim que se consegue falar línguas estranhas. Há, além disso,
pessoas que sabem que a glossolalia é um "status symbol" (símbolo de
destaque), de alcance espiritual nas suas assembléias e, portanto, fingem ou
simulam a experiência, para ganhar a estrutura religiosa e o louvor dos
outros. Tal simulação artificial de experiências religiosas não é peculiar aos
cultos pentecostais. Em muitas reuniões, nas igrejas conservadoras ou
tradicionais, pessoas têm ido à frente, atendendo ao convite só porque seus
amigos foram ou porque ficariam sozinhos no banco e, assim, por demais
em evidência. Visto que a fala atabalhoada ou extática é aceita como uma
forma de glossolalia (diferente de idiomas estrangeiros), seria mui fácil
simular esses sons repetidos quando necessário. Walters achou tal exemplo
na chamada "explosão de línguas" em Yale:
Dos alunos envolvidos, alguns mais tarde ficaram incertos quanto ao
ser a explosão uma obra genuína do Espírito. Eu falei com um que havia
"falado em línguas" quando o Sr. Bredesen visitou pela vez primeira o
"campus", que podia repetir a experiência depois quando quisesse, e por
iniciativa própria o fez na minha presença, todavia, ele duvidou que fosse a
obra do Espírito. Sendo ele um cristão devoto, ficou bastante perplexo. (60)
Assim, a simulação artificial do fenômeno de "falar línguas" tem
que ser considerado como uma possibilidade definida em muitos dos casos.

Resumo

Foram apresentadas quatro possíveis opiniões quanto à fonte ou


origem da glossolalia moderna. Ambos os lados admitem que o

(60)
Walters, op. cit., p. 10.
Movimento Moderno de Línguas 62
fenômeno pode ser produzido satânica, psicológica e artificialmente.
Todavia, os advogados crêem que muita glossolalia tem sido produzida
por Deus. O autor crê que a origem da moderna glossolalia não pode ser
limitada a apenas uma fonte, mas que toda a moderna glossolalia pode
ser explicada pelas primeiras três origens mencionadas. Que a moderna
glossolalia não é, de maneira alguma, divinamente produzida, será
demonstrado nos capítulos que seguem. Ela simplesmente não está de
acordo com a Palavra de Deus, escrita, a única e final autoridade tanto de
fé como de prática.

Conclusão

A natureza do moderna movimento de "línguas" é bastante


complexa. Compõe-se tanto de salvos como de não salvos, de calvinistas
como de arminianos, de membros de igrejas e de denominações
pentecostais e não-pentecostais. A "Full Gospel Business Men's
Fellowship International" e a "Blessed Trinity Society" estão servindo ao
movimento como cabeça de ponte. Essas organizações estão tentando
alcançar os seus alvos por meio de grupos privados de oração, banquetes,
convenções e publicações.
Os periódicos principais que estão ativamente promovendo o
movimento são Voice, View, Vision, Trinity e Christian Life. As
personalidades principais são Demos Shakarian, Oral Roberts, David du
Plessis, Harold Bredesen, Jean Stone e Dennis Bennett.
O moderno movimento de "línguas" tem tido uma vasta propagação .
O mundo secular tem manifestado seu interesse no fenômeno através do
rádio, da televisão e de artigos na imprensa. Escolas e agências
missionárias, tanto liberais como conservadoras, têm sido alcançadas.
Praticamente todas as maiores denominações históricas têm agora
"glossolalistas" dentro de suas fileiras, assim o clero como o laicado.
Bem conhecidas personalidades seculares e religiosas têm testemunhado
da presença do fenômeno na sua vida.
Movimento Moderno de Línguas 63
As características do moderno movimento de línguas diferem
daquelas do antigo pentecostismo; todavia, são semelhantes de muitas
maneiras. Os adeptos de "línguas" acham-se tanto nas classes
profissionais como entre as classes trabalhadoras e em todas as escolas
culturais e econômicas. O "falar em línguas" não se manifesta
isoladamente. É precedido, acompanhado e seguido por fenômenos tais
como o som de vento, fogo, fragrância de perfume, convulsões físicas,
choques elétricos, luzes, transpiração, curas e visões, inclusive de ver,
ouvir e tocar o próprio Cristo.
Alguns "faladores de línguas" têm testificado suas vidas terem daí
em diante mudado, como resultado de suas experiências. O fenômeno
moderno não ocorre espontaneamente, com muita freqüência; instruções
são dadas quanto ao "mecanismo" de "falar línguas". O fenômeno é
estimulado e ajudado por homens.
A ocasião do movimento moderno é controversível, dependendo da
perspectiva do observador. Seus advogados sentem que é uma reação
divina e uma resposta à maldade do mundo, à fraqueza dos cristãos e à
frieza das igrejas tradicionais. Seus oponentes crêem que é o resultado de
uma carência do estudo da Bíblia e de uma experiência genuinamente
cristã; portanto, muitos estão procurando um substituto aceitável e um
antídoto para sua letargia espiritual.
As avaliações do moderno movimento de "línguas" são muitas. Ele
tem sido classificado como produção divina, contrafação de Satanás,
tendo causa psicológica ou como sendo artificial simulação. Seus
advogados admitem todas as quatro possibilidades, mas enfatizam a
primeira. Seus oponentes limitariam as fontes do moderno fenômeno às
últimas três apresentadas.
Movimento Moderno de Línguas 64
O IDIOMA DA GLOSSOLALIA

As "LÍNGUAS" no tempo do Novo Testamento eram idiomas


estrangeiros, uma fala extática desconhecida, ou as duas coisas? Os
modernos "glossolalistas" (faladores de línguas) falam idiomas
estrangeiros conhecidos, a fala extática desconhecida, ou as duas coisas?
Há correspondência entre os dois grupos?
Uma investigação da natureza da linguagem ou fala torna-se
necessária para uma compreensão do próprio fenômeno e para uma
avaliação própria do moderno movimento de "línguas".

Vários Pontos de Vista

Comentário Expositivo

Um escritor liberal contemporâneo cria que idiomas estrangeiros ou


"fala extática" não eram envolvidos na frase bíblica "falando em
línguas". Ele a relacionou com a decisiva pregação expositiva. Traduziu
Glossal (línguas ou idiomas) como "perícopes", passagens escolhidas
das Escrituras, com ou sem comentários, que formavam a parte regular
do culto público. Essas Escrituras e os comentários expositivos
tornaram-se fixos pela tradição e eram lidas ou recitadas em certos dias
santos. Por que, então, se maravilharam as multidões ao ouvirem o que
os discípulos diziam (At. 2:6)? Sirks respondeu: "Mas não são as
perícopes esperadas nesse dia santo; são diferentes daquelas prescritas
por tradição... porém a mudança radical é que os discípulos ou
escolheram perícopes diferentes das bem conhecidas ou as interpretaram
de uma maneira diferente... as perícopes eram expostas de tal maneira
que apontavam a Jesus."(1)

(1)
G. J. Sirks, "The Cinderella of Theology: The Doctrine of the Holy Spirit", Harvard Theological
Review L (abril de 1957), p. 86.
Movimento Moderno de Línguas 65
Conforme Sirks, as multidões não estranharam o veículo da
linguagem, porém antes o conteúdo da fala. Nunca haviam ouvido essas
Escrituras recitadas durante a festa de Pentecostes nem tampouco as
ouviram aplicadas exegeticamente a Jesus. Sirks citou também a
experiência de Jesus na sinagoga em Nazaré (Luc. 4:16-30) como uma
ilustração dum desvio deliberado das perícopes prescritas para o culto de
louvor.
Esse ponto de vista é extremo e seria rejeitado por quase todos os
liberais e por todos os conservadores. Tem de ser considerado como uma
tentativa naturalista de modificar por meio de explicação um fenômeno
sobrenatural. Sem dúvida, as multidões se maravilharam diante do
conteúdo do fenômeno de glossolalia e do subseqüente sermão de Pedro,
mas isso não deve detrair da sua confusão causada por discípulos
estarem falando em outros idiomas ou dialetos que não haviam
aprendido (At. 2:4, 6-8). Também o equiparar "línguas" com "perícopes"
não pode explicar os demais casos do fenômeno bíblico, que nem sempre
ocorreram durante festas judaicas ou cultos de louvor.

Fala Extática

Há uns poucos escritores que acreditam que cada caso do fenômeno


bíblico de glossolalia estava na forma de fala extática. Gilmour, um
teólogo liberal da Escola teológica Andover Newton, disse que "a
primitiva glossolalia cristã era a pronúncia de sons desconexos, sob a
compulsão de uma emoção extática e descontrolada – uma cacofonia
ininteligível a todos, senão uns poucos que estavam carismaticamente
preparados para sua interpretação".(2)
Mais uma vez, essa é uma tentativa liberal de modificar, por meio
de explicações, a origem sobrenatural de um fenômeno bíblico em

(2)
S. MacLean Gilmour. "Easter and Pentecost", Journal of Biblical Literature, LXXXI (março de
1962), p. 64.
Movimento Moderno de Línguas 66
termos de emoção humana, extática, descontrolada. Seu conceito
evolucionário do desenvolvimento da religião faria com que ele
concluísse que o cristianismo tem avançado muito além dessa primitiva e
tosca expressão de culto.
Outros crêem que toda a glossolalia bíblica teve a forma de fala
extática, porém por razões diferentes. Como é, então, que eles explicam
o fato aparente de que as multidões ouviram idiomas estrangeiros sendo
falados (At. 2:6, 8, 11)? Barclay disse que Lucas havia confundido a
glossolalia (o falar línguas) com línguas ou idiomas estrangeiros.(3) Essa
conclusão vem dos conceitos da alta crítica no tocante à negação da
inspiração da Bíblia e da crença na tendência humana de errar na
ortografia. Como tal, ela tem que ser rejeitada.
Alguns conservadores acreditam que os discípulos ou falaram a sua
língua nativa ou em fala extática.(4) Declaram, ainda, que o Espírito
Santo fez com que os ouvintes estrangeiros ouvissem o discurso nas suas
línguas estrangeiras, nativas. Se os discípulos falaram na sua língua
nativa, então o fenômeno foi apenas um milagre de ouvir. Se eles
falaram em línguas extáticas, então o milagre foi duplo – tanto de falar
como de ouvir. Todavia, é difícil harmonizar essas asserções com a clara
declaração de que os discípulos "começaram a falar noutras línguas"
antes que a multidão se congregasse (At. 2:4) e com a equação de
"línguas" e "dialetos" (At. 2:4; cf. 2:6).

Línguas Estrangeiras

A opinião que prevalece é que todos os casos de glossolalia bíblica


foram na forma de idiomas ou línguas estrangeiras. Essa posição é
mantida pelos não-glossolalistas (Barnes, Henry, Ironside, Lange,
Lenski, Rice e outros) e, possivelmente, por uns poucos que falam

(3)
William Barclay, The Acts of the Apostles (Philadelphia: The Westminster Press, 1955), p, 16.
(4)
Richard Belward Rackham, The Acts of the Apostles (London: Methuen Co. Ltd., 1953), pp. 159 e 160.
Movimento Moderno de Línguas 67
línguas. A seguinte declaração por Horton, um advogado da glossolalia,
é um tanto ambígua quanto à natureza das línguas faladas, mas pode se
referir apenas a línguas estrangeiras:
Então se espalha a idéia de que "línguas" são uma espécie de
"palavras sem sentido", incoerentes e ininteligíveis, uma série de sons
glossais ininterpretáveis. Não! "línguas" eram e são idiomas. Na maior parte
são desconhecidas aos ouvintes, e sempre aos que as falam. Mas às vezes
poderiam ser conhecidas aos ouvintes, como no Pentecostes, onde as
línguas eram desconhecidas, ao serem faladas, e conhecidas, ao serem
ouvidas.(5)
Mesmo que essa declaração se refira a línguas desconhecidas,
idiomas estrangeiros, ela demonstra que alguns pentecostais se opõem
aos "sons sem sentido" ou à mera repetição de certos sons como a
natureza básica da glossolalia (e esta forma de falar observa-se hoje em dia).
As provas sustentadoras em favor de "idiomas estrangeiros" serão
apresentadas num capítulo posterior.

Fala Extática e Idiomas Estrangeiros

A opinião predominante entre os que "falam línguas" e os "que não


falam" é que o fenômeno bíblico de glossolalia poderia ser ou "fala
extática" ou "idiomas estrangeiros". Geralmente, idiomas estrangeiros
são identificados com o fenômeno em Atos, e a "fala extática", com o
fenômeno em I Coríntios.
Charles Ryrie, deão da Graduate School do Dallas Theological
Seminary, é típico dos que "não falam línguas" na sua definição do dom
de línguas: "Essa foi uma capacidade ofertada por Deus de falar em outra
língua, ou num idioma humano estrangeiro, ou numa fala extática
desconhecida."(6)

(5)
Harold Horton, The Gifts of the Spirit (Bedfordshire, England: Redemption Tidings Bookroom,
1946), pp. 159 e 160.
(6)
Charles Caldwell Ryrie, Biblical Theology of the New Testament (Chicago Moody Press, 1959), p. 194.
Movimento Moderno de Línguas 68
Harold Bredesen, um diretor da Blessed Trinity Society (Bendita
Sociedade da Trindade) e que "fala línguas", pretendeu ter testemunhado
estrangeiros nas próprias línguas deles, porém desconhecidas para ele
(como o idioma Polonês e o cóptico do Egito); contudo, declarou que a
maior parte da glossolalia corrente está na forma de "línguas
desconhecidas".(7)
Uma discussão dos argumentos pro e contra essa posição será
apresentada mais adiante, neste capítulo.

O Significado no Novo Testamento

Um estudo das palavras com seus significados e usos é básico a


qualquer disciplina. Isto é especialmente importante em se tratando do
fenômeno de glossolalia. A palavra-chave desse fenômeno é glossa,
traduzida consistentemente como "língua" na tradução da Imprensa
Bíblica Brasileira. Quando o significado e o uso deste termo houver sido
determinado, uma avaliação própria do movimento moderno de
"línguas" será proposta.

Ocorrências

A palavra grega Glossa acha-se cinqüenta vezes no Novo


Testamento, com usos vários. É usada quinze vezes referindo-se ao
órgão físico do corpo usado para se falar (Mar. 7 :33,35; Luc. 1:64; At.
2:26; Rom. 3:13; 14:11; 1 Cor. 14:9; Fil. 2:11; Tiago 1:26; 3:5, 6 (duas
vezes), 8; 1 Ped. 3:10; Apoc, 16:10). É usada uma vez com referência à
língua do corpo intermediário (Luc. 16:24). É empregada uma vez
figurativamente: "umas línguas como de fogo, que se distribuíam" (At.
2:3). Uma vez é usada para se referir ao conteúdo das palavras, em se
falando, em contraste com as obras de uma ação (I João 3:18; ou talvez

(7)
Citado por Farrell, op. cit., p. 6.
Movimento Moderno de Línguas 69
seja esta mais uma referência ao órgão físico). No Apocalipse, é usada
sete vezes em conexão com "tribo, e língua, e povo, e nação", e
multidões para descrever grupos étnicos que se caracterizam por falar
certas línguas estrangeiras (5:9; 7:9; 10:11; 11:9; 13:7; 14:6; 17:5).
Emprega-se a palavra vinte e cinco vezes para o fenômeno atual de
glossolalia (Mar. 16:17; At. 2:4-11; 10:46; 19:6; 1 Cor. 12:10 (duas vezes),
28, 30; 13:1, 8; 14:2, 4, 5 (duas vezes), 6, 13, 14, 18, 19, 22, 23, 26, 27, 29) .
Assim os escritores bíblicos usaram essa palavra para denotar pelo
menos cinco ou seis idéias; no entanto, esses usos são todos inter-
relacionados, com, possivelmente, uma exceção (o uso figurativo de
Atos 2). Todos eles tratam da entidade básica de falar, do órgão da fala
ou do ato, do conteúdo, da linguagem e dos resultados de falar.

Frases

Não há padrão estabelecido pelo qual glossa se emprega para


descrever o fenômeno de "falar línguas". Ela aparece em nove
construções diferentes. Uma vez descreve-se como "novas línguas"
(glossais kainais; Marcos 16:17). Também se diz "outras línguas"
(heterais glossais; Atos 2:4). Aparece uma vez como substantivo plural
com o artigo definido (hai glossai; I Cor. 14:22) e duas vezes como o
substantivo plural sem o artigo definido (I Cor. 12:10; 13:8). É usada
com gene para indicar "qualidades de línguas" (gene glosson; I Cor. 12:10)
ou "diversidades de línguas" (I Cor. 12:28). Mais freqüentemente se
emprega no dativo plural com o verbo laleo, "falar" (Mar. 16:17; At. 2:4,
11; 10:46; 19:6; I Cor. 12:30; 13:1; 14:5 (duas vezes), 6, 18, 23, 39).
Também se emprega no dativo singular, com o verbo laleo (I Cor. 14:2,
4, 13, 19, 27). Uma vez se usa com o verbo "orar" (proseuchomai
glossei; I Cor. 14:14) e uma vez com o verbo "ter" (echei glossan; I Cor.
14:26).
Movimento Moderno de Línguas 70
Significados Léxicos

Abbott-Smith define glossa como o órgão da fala, uma linguagem,


e como "sons ininteligíveis proferidos em êxtase espiritual".(8)
Thayer denota glossa como um membro do corpo, o órgão da fala, e
como uma linguagem usada por um povo particular, em distinção da de
outras nações. Ele acrescenta ainda que era "o dom de homens que,
caídos em êxtase e não mais inteiramente donos de sua própria razão e
consciência, derramavam suas ardentes emoções espirituais em
linguagem estranha, rude, escurecida, desconexa, completamente
imprópria para instruir ou influenciar a mente dos outros."(9)
Arndt e Gingrich classificaram glossa de três maneiras. Primeiro,
pode ser usada literalmente como o órgão da fala ou figurativamente de
chamas divididas. Segundo, foi usada para se referir a línguas
estrangeiras e como sinônimo de tribo, povo ou nação. Terceiro, referiu-
se à "fala quebrada" ou interrompida de pessoas em êxtase religiosa.
Essa poderia ser antiquada, estrangeira, ininteligível, pronunciamentos
misteriosos ou maravilhosos, ou línguas celestiais.(10)
Kittel também seguiu os outros lexicógrafos e definiu glossa como
o órgão da fala, linguagem ou glossolalia, que é um pronunciamento
ininteligível e extático. Ele insistiu em que uma de suas formas de
expressão é a murmuração de palavras ou de sons sem conexão entre si
ou sem significado. Ele identificou essa fala extática com a linguagem
que se usa nos céus entre Deus e os anjos e a qual homens podem atingir
em oração quando apanhados pelo Espírito e arrebatados aos céus.(11)

(8)
G. Abbott-Smith, A Manual Greek Lexicon of the New Testament (Edinburgh: T. & T. Clark,
1954), p. 93.
(9)
Joseph Henry Thayer, A Greek-English Lexicon of the New Testament (Edinburgh: T. & T. Clark,
1953), p. 118.
(10)
William F. Andt e F. Wilbur Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament (Chicago:
The University of Chicago Press, 1957), p. 161.
(11)
Kittel, op. cit., pp. 721-26.
Movimento Moderno de Línguas 71
Moulton e Milligan, baseando-se num estudo feito dos papiros
gregos, acrescentaram que a palavra se emprega não somente para
referir-se à linguagem, mas também para peculiaridades locais de fala ou
de linguagem.(12)
Esse exame de significados léxicos tem demonstrado que eruditos
lingüísticos consideram o fenômeno de glossolalia como sendo tanto
línguas estrangeiras como uma pronúncia extática, com ênfase primária e
aplicação neste último sentido.

O Uso no Novo Testamento

Os significados dos termos bíblicos têm que ser determinados, em


última análise, pelo emprego desses termos. Por maior que seja o valor
dos significados léxicos e das derivações de palavras, sempre têm que
ser subordinados ao emprego que lhes deram os escritores bíblicos. Um
estudo do uso novotestamentário de glossa há de revelar o fato de que,
quando empregado a respeito do fenômeno de glossolalia, sempre se
refere a línguas estrangeiras. Não é possível que se refira tanto a línguas
estrangeiras como a pronúncias extáticas desconhecidas, conforme
pretendem os advogados do moderno "movimento de línguas". As
seguintes provas das relevantes passagens bíblicas devem sustentar esta
conclusão.
A própria escolha de glossa para descrever o fenômeno é
significativo. Na seção sobre "ocorrências", foi demonstrado que a
palavra fora usada com referência ao órgão físico que produz sons
audíveis e conhecidos, como os sons de várias línguas humanas. Até o
órgão do corpo intermediário (Luc. 16:24) falou uma linguagem
inteligível, conhecida aos ouvintes. Poderia ser usada para denotar um
grupo étnico (Apoc. 5:9; 7:9) porque nações ou povos são distinguidos

(12)
James Hope e Moulton George Milligan, The Vocabulary of the Greek New Testament (Grand
Rapids: Wm. B. Eardman's Pub. Co., 1963), p.128.
Movimento Moderno de Línguas 72
pela linguagem que falam. Esses são russos porque falam somente russo;
aqueles são japoneses porque falam somente japonês.
Em várias ocorrências de "falar línguas" (At. 2:4, 6, 8, 11; 10:46; 19:6),
somente línguas estrangeiras foram faladas. Os significados de palavras
obscuras têm sempre de ser determinados pelo significado nas passagens
claras. O mero fato de que glossa se usa, muitas vezes, para designar o
órgão de, o conteúdo de e os grupos denotados por línguas conhecidas
deve ser um fator determinante em fixar o significado do termo, quando
usado quanto ao fenômeno de glossolalia.
Na passagem textualmente discutível de Marcos (Mar. 16:9-20), é
predito que os crentes "falarão novas línguas" (glossais lalessousin
kainais; 16:17). Presumindo que a passagem seja genuína, o emprego do
adjetivo kainos e não o sinônimo neos é digno de nota. Conforme
Abbott-Smith, kainos se refere ao "novo primariamente em referência à
qualidade, ao novo não usado, enquanto neos se refere ao recente". (13) É
admitido por todos que o fenômeno de "falar línguas" não ocorreu no
Velho Testamento nem no período dos Evangelhos e que aconteceu pela
primeira vez no dia de Pentecostes (At. 2). Portanto, se o "falar línguas"
tivesse envolvido línguas desconhecidas, nunca antes faladas, então
Cristo teria usado neos (novo em referência a tempo). Mas, visto que Ele
empregou kainos, tem que se referir a línguas estrangeiras, que eram
novas àquele que as falasse, porém que já existiam antes. Argumentos
baseados em palavras sinônimas às vezes são difíceis de manter, mas
deve haver uma boa razão por se ter usado kainos, não neos. O fato de
que os discípulos realmente falaram línguas conhecidas no dia de
Pentecostes (At. 2:4, 6, 8, 11) sustenta esta distinção e conclusão.
Quando o Espírito Santo encheu os discípulos de poder no dia de
Pentecostes, eles "começaram a falar noutras línguas (lalein heterais
glossais), conforme o Espírito lhes concedia que falassem" (At. 2:4).
Quais foram essas "outras línguas"? Eram elas línguas desconhecidas ou

(13)
Abbott-Smith, op. cit., p. 226.
Movimento Moderno de Línguas 73
estrangeiras? Lucas as definiu nas próprias palavras dos ouvintes. A
multidão ficou confusa "porque cada um os ouvia falar na sua própria
língua" (tei idia dialekto; At. 2:6). A multidão perguntava: "Como é,
pois, que os ouvimos falar cada um na própria língua em que nascemos?
(tei idia dialekto; At. 2:8 ). Mais tarde, diziam: ". . . ouvimo-los em
nossas línguas (tais hemeterais glossais), falar das grandezas de Deus"
(At. 2:11). A multidão podia compreender o conteúdo do fenômeno
porque os discípulos falavam nos seus dialetos e línguas. Eram, pois,
definitivamente línguas estrangeiras que se estavam falando.
Quais línguas? Lucas as classifica como "partos, medos e elamitas;
e os que habitamos a Mesopotâmia, a Judéia e a Capadócia, o Ponto e a
Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egito e as partes da Líbia próximas a
Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e
árabes" (At. 2:9-11). Não somente falaram os discípulos línguas
diferentes, mas também falaram vários dialetos da mesma língua. "Os
frígios e os de Panfília, por exemplo, ambos falavam grego, porém em
dialetos diferentes; os partos, medos e elamitas, todos falavam idioma
perso, porém em formas provinciais diferentes." (14)
Por que incluiu Lucas uma lista tão longa de países e povos? Ele
desejava tornar bem claro que os discípulos falavam em línguas
estrangeiras e dialetos, não em sons desconhecidos. Essa primeira
ocorrência do fenômeno de glossolalia estabelece a norma bíblica e o
padrão para toda a glossolalia subseqüente. Tem de ser em línguas
estrangeiras daqueles que estão presentes, quando não se exerce o dom
da interpretação.
A segunda ocorrência clara de glossolalia teve lugar na experiência de
Cornélio e de sua casa (At. 10:44-48). A evidência de que eles haviam
crido em Cristo e recebido o Espírito Santo foi o fenômeno de falar em
línguas: "porque os ouviam falar línguas (lalounton glossais) e magnificar a
Deus" (10:46). Que essa glossolalia foi em idiomas estrangeiros é bem
(14)
Marvin R. Vincent, "World Studies in the New Testament" (New York: Charles, Scribner's Sons"
1908), I, p. 450.
Movimento Moderno de Línguas 74
patente. Primeiro, Lucas empregou aqui as mesmas palavras para
descrever o fenômeno que usara no primeiro registro (2:4,11). A
impressão natural deixada no leitor é que o mesmo fenômeno ocorreu de
novo. Idiomas estrangeiros e/ou dialetos foram falados. Segundo, como
poderiam os ouvintes saber que Cornélio e sua casa estavam glorificando
a Deus se não os compreendessem? Este argumento naturalmente
assume que o "magnificar a Deus" fosse parte ou toda a substância desse
fenômeno. Terceiro, no relatório subseqüente que Pedro fez à igreja em
Jerusalém, ele disse que os gentios haviam recebido "o mesmo dom"
(11:17) e que "desceu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre
nós no princípio" (11:15). Indubitavelmente, isto faz referência ao
Pentecostes. Essa semelhança de experiência estende-se não somente ao
fato de receber o Espírito, mas à natureza da glossolalia em idiomas
estrangeiros.
A terceira e final ocorrência de glossolalia em Atos acha-se na
experiência dos doze discípulos de João, o Batista, em Éfeso (19:1-7).
Quando desceu o Espírito Santo sobre eles, "falavam línguas (elaloun te
glossais) e profetizavam" (At. 19:6). Já que Lucas emprega as mesmas
palavras básicas para descrever o fenômeno como nos dois casos
anteriores, é lógico inferir que aconteceu a mesma experiência e que essa
glossolalia também foi em idiomas estrangeiros. Além disso, se a
profecia foi parte desse fenômeno de falar em línguas, então Paulo devia
ter compreendido o que eles estavam dizendo nas línguas.
Muitos que defendem a moderna glossolalia admitem que o falar
em línguas estrangeiras constituía o fenômeno nos Atos, mas eles
argumentarão que o "dom de línguas" (I Cor. 12-14) permite falar tanto
em idiomas desconhecidos como em estrangeiros. Todavia, um estudo
dessa epístola paulina há de revelar que a natureza do fenômeno nos dois
livros é a mesma (falando em idiomas estrangeiros), ainda que os
propósitos sejam diferentes.
Quando Paulo introduziu o assunto de dons espirituais, ele declarou
que "ninguém, falando pelo Espírito de Deus, diz: Jesus é anátema! e
Movimento Moderno de Línguas 75
pode dizer: Jesus é o Senhor! senão pelo Espírito Santo" (I Co., 12:3),
Poderia ser que algum coríntio, num esforço humano de reproduzir o
dom de falar línguas, tivesse feito outro arranjo e pronunciasse certas
sílabas com o efeito total de realmente dizer que Jesus era maldito ou
anátema? Há uma notável semelhança entre "maldito" (anathema) e
"nosso Senhor vem" (marana tha) em certos sons (I Cor. 16:22).
Alguém, falando grego, talvez tenha tentado simular essa última frase
aramaica com um arranjo faltoso, e dito a-na-tha-mar. Assim, ele teria
estado chamando a Jesus de maldito ou anátema, em vez de declarar a
Sua vinda. Outra possibilidade é que a pessoa tenha dito "Jesus é
maldito" (anathema) em vez de dizer "Jesus é uma oferta votiva"
(anatheima) ou que tenha substituído "anátema" por "uma maldição"
(katara: cf, Gal. 3:13). Qualquer que tenha sido o caso, a pessoa estava
tentando simular sílabas de um idioma conhecido, não de uma língua
desconhecida. Qualquer coisa que tenha dito também estava no
vocabulário de uma língua conhecida. Essa interpretação tem de ser
considerada como plausível, porque esse verso se acha dentro do
contexto de dons espirituais.
Paulo designou o dom de línguas como gene glosson, traduzida
como "a variedade de línguas" (I Cor. 12:10) e "diversidade de línguas"
(I Cor. 12:28). Esse termo genos faz referência a uma família, raça,
descendência, nação, qualidade, sorte e classe no uso novotestamentário.
Há muitas "espécies" de peixes (Mat. 13:47), porém todos são peixes. Há
muitas "castas" de demônios no mundo (Mat. 17:21), porém são todos
eles demônios. Há muitas espécies de vozes (I Cor. 14:10), mas todas
elas são vozes. Daí se pode concluir que há muitas "qualidades" de
línguas, mas todas elas são línguas. Há várias famílias de línguas no
mundo – semita, eslava, latina etc. Todas essas são inter-relacionadas,
em que elas têm um vocabulário definido e a construção gramatical.
Paulo de maneira nenhuma poderia ter combinado línguas estrangeiras
conhecidas com sons desconhecidos extáticos sob a mesma classificação.
Simplesmente não se relacionam.
Movimento Moderno de Línguas 76
Sempre ligado com o dom de línguas está o dom de interpretação de
línguas (hermeneia glosson; I Cor. 12:10; 14:26, 28). Que significa
"interpretar"? Em passagens não-carismáticas, refere-se a uma exposição
das escrituras do Velho Testamento (Luc. 24:27) ou a uma tradução de
uma língua estrangeira conhecida para outra (João 1:39,43; 9:7; Heb. 7:2).
Em ambos os casos, é uma tentativa de tornar claro, através de uma
explicação ou tradução, o que é dito num idioma conhecido. Esses usos
têm que governar o significado do dom de interpretação. A interpretação
da glossolalia (idiomas estrangeiros) foi necessária para tornar claro o
que fora dito aos ouvintes. Isto se fez por meio de tradução para a língua
ou idioma comum e/ou pela exposição.
A declaração "ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos
anjos" (ean tais glossais ton anthropon lalo kai ton angelon; I Cor. 13:1)
tem feito com que alguns dividam o fenômeno de glossolalia em
"línguas conhecidas" (de homens) e "línguas desconhecidas" (de anjos).
Entretanto, isto não é necessariamente verdadeiro.
Primeiro, Paulo estava descrevendo um caso hipotético (ean; se).
Isto não quer dizer que ele havia falado em línguas angelicais, mesmo
que mais tarde ele admitisse que falara "línguas" (I Cor. 14:18).
Segundo, o mero fato de que a palavra "línguas" é usada apenas
uma vez com "homens" e "anjos" demonstra que línguas humanas e
angelicais podem ser juntadas. Têm elas algo em comum. São ambas
línguas conhecidas e compreendidas pelos ouvintes.
Terceiro, quando homens e anjos conversaram em tempos bíblicos,
podiam conversar inteligentemente em línguas conhecidas, sem
dificuldade e sem interpretação. Antes de dividir línguas entre
conhecidas e desconhecidas, Paulo está afirmando que todos os
fenômenos de "línguas" eram na forma de idiomas definidos, não de
"línguas extáticas".
A inserção do adjetivo "estranhas" (I Cor. 14:2, 4, 13, 14, 19, 27),
na versão Almeida, pelos tradutores, foi muito infeliz. Nota-se que a
palavra é grifada, que, neste caso, significa que ela não se acha no texto
Movimento Moderno de Línguas 77
grego. Os tradutores acrescentaram essa palavra explicativa porque
pensavam que o fenômeno de glossolalia em Corinto consistia em falar
uma língua extática, desconhecida. A presença de "estranha" transmite
uma impressão errada, e não deve ser usada como argumento em favor
de línguas extáticas ou "estranhas" ou desconhecidas.
Alguns crêem que a frase "pois ninguém o entende" é uma
declaração categórica. Isto quer dizer que, se um representante de cada
grupo conhecido de línguas estivesse presente numa reunião de
glossolalia, ninguém poderia reconhecer ou compreender o que estava
sendo falado por parte da pessoa que "falasse línguas". Todavia, a bem
da coerência, os que estão a favor de "falar línguas" teriam que dizer que
cada ocorrência de glossolalia forçosamente tem de ser na forma de
"línguas estranhas" ou desconhecidas. Entretanto, eles admitem que
muitos do seu grupo têm falado idiomas estrangeiros conhecidos. Assim,
isso constituiria um argumento contra sua posição de que tanto línguas
conhecidas como estranhas ou desconhecidas podem ser faladas.
Realmente, esse verso só quer dizer que ninguém presente no culto
compreendia àquele que falava. Visto que Deus era a fonte ou causa da
glossolalia genuína, Ele sabia quais os grupos de idiomas presentes e
fazia com que a pessoa falasse numa língua estrangeira não representada.
Assim se tornava sempre necessária a interpretação.
Como ilustração da própria glossolalia, Paulo escreveu: "Ora, até as
coisas inanimadas, que emitam som, seja flauta, seja cítara, se não
formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca na flauta ou na
cítara?" (I Cor. 14:7). Como se distinguem os sons musicais por várias
notas da escala e da oitava, também a fala é distinguida por vocabulário
e construção gramatical. Paulo se opunha à mera repetição de certos sons
ou "palavras" (como fazem também muitos glossolalistas modernos),
como a própria expressão do fenômeno de glossolalia. Palavras "bem
inteligíveis" (I Cor. 14:9) devem ser faladas. Uma pessoa deve poder
compreender ou reconhecer a fala como um idioma conhecido, portanto,
capaz de tradução e explicação (I Cor. 14:11).
Movimento Moderno de Línguas 78
Em se tratando do propósito de línguas, Paulo citou uma profecia de
Isaías (28:11, 12): "Está escrito na lei: Por homens de outras línguas e
por lábios de estrangeiros falarei a este povo; e nem assim me ouvirão,
diz o Senhor" (I Cor. 14:21). Essa profecia tratou do tempo quando Israel
e Judá foram invadidos pelos assírios (cf. II Reis 17-18). A frase "este
povo" refere-se aos judeus e a frase "homens de outras línguas e outros
lábios" refere-se aos assírios. As ameaças dos assírios, que falavam tanto
o idioma dos assírios como o dos hebreus, não modificaram a
pecaminosidade e a incredulidade dos judeus. Esse falar em línguas
estrangeiras devia ser um sinal para os judeus, porém eles não o
receberam. Paulo, então, aplicou essa verdade à situação dos coríntios.
"De modo que as línguas são um sinal, não para os crentes, mas para os
incrédulos... " (I Cor. 14 :22).
Visto que as línguas ou os idiomas estrangeiros são definidamente
referidos no verso 21 (heteroglossais; cf. Atos 2:4, onde "outras línguas"
também são definidamente idiomas e dialetos estrangeiros), o uso de
"línguas" (hai glossai) no versículo 22 também deve referir-se a línguas
estrangeiras. Isto também se confirma ainda pelo uso do artigo de
referência prévia (hai) e a função da conjunção inferencial "de modo
que" (hoste). Se Paulo tivesse considerado o "falar em línguas" ser numa
murmuração extática ou desconhecida, ele não teria empregado a mesma
palavra duas vezes nesses dois versículos, especialmente porque o
significado de glossa fora estabelecido no primeiro uso.
Lucas, companheiro de Paulo, escreveu Atos (A.D. 60) depois de
Paulo escrever I Coríntios em (A.D. 55). Indubitavelmente, Lucas
conhecia o conteúdo de I Coríntios, ou por ter lido a carta ou por ter
escutado os ensinos de Paulo. Estes fatos são significativos, porque
Lucas empregou os mesmos termos (glossa e laleo), para descrever o
fenômeno da glossolalia em Jerusalém, Cesaréia e Éfeso (At. 2, 10, 19),
que Paulo empregara ao escrever aos coríntios. Já que línguas
estrangeiras definitivamente constituem o fenômeno em Atos, segue-se
que línguas estrangeiras devem ter sido faladas em Corinto. Se não é
Movimento Moderno de Línguas 79
assim, então por que não empregou Lucas uma fraseologia diferente ou
pelo menos palavras qualificadoras para indicar a diferença?
Lenski escreveu: "... Lucas é quem descreve plenamente o que são
línguas, enquanto Paulo presume que seus leitores saibam o que são e,
portanto, não oferece nenhuma descrição."(15) Isso é mui plausível.
Teófilo, a quem foi dedicado o livro de Atos, precisaria duma explicação
desse fenômeno, porém os coríntios não. Hodge acrescentou: "Se o
significado da frase (glossais) é assim histórica e filologicamente
determinado para Atos e Marcos, tem de ser determinado também para a
Epístola aos Coríntios."(16) Quando e onde quer que o fenômeno tenha
acontecido, esperar-se-ia que sua natureza básica (falar línguas conhecidas)
seria a mesma.
O falar em idiomas estrangeiros que não foram aprendidos
certamente constituiria um milagre divino; todavia, o falar em sons
ininteligíveis e desconexos ou em sons desconhecidos facilmente poderia
ser feito tanto por um cristão como por um descrente. Não há norma
objetiva pela qual essa fala poderia ser avaliada. Portanto, é lógico
aceitar que Deus instituiria um milagre que os homens não poderiam
duplicar através da simulação humana.
Também, em todos os casos de conversão e revelação entre seres
naturais (homens) e seres sobrenaturais (Deus, anjos, Satanás, demônios),
a comunicação foi numa língua compreensível. Tomando por base esse
precedente e ilustração, mais uma vez seria lógico aceitar que o falar
línguas se manifestaria através de idiomas compreensíveis.
Antes do Pentecostes, houve mais um milagre que envolveu a
linguagem e a fala. Deus mudou a fala única e o único idioma do mundo
em muitos idiomas, grupos de línguas, em Babel (Gên. 11:1-9). Essa
mudança foi para línguas estrangeiras, não para sons desconhecidos. Já

(15)
R.C.H. Lenski, Interpretation of St. Paul's First and Second Epistle to the Corinthians (Columbus,
Ohio: Warburg Press, 1957), p. 505.
(16)
Charles Hodge, An Exposition of the First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Wm. B.
Eardman's Publishing Co., 1950) p. 248.
Movimento Moderno de Línguas 80
que Deus fizera esse tipo de milagre antes, seria razoável crer que Ele o
repetisse na sua natureza básica em Pentecostes.
Argumentos, tanto escriturísticos como lógicos, têm sido apresentados
para demonstrar que o fenômeno de glossolalia foi realizado somente em
idiomas estrangeiros conhecidos. Os modernos "glossolalistas" têm o dever
de provar que a glossolalia bíblica incluía também sons extáticos.

Avaliações Lingüísticas

Para que haja uma renovação ou um reavivamento dos dons


espirituais bíblicos, o "moderno movimento de línguas" deve demonstrar
que toda glossolalia realiza-se em idiomas conhecidos do mundo.
Todavia, o caso não é assim. Bredesen admitiu que "a maior parte da
glossolalia corrente é em línguas desconhecidas".(17)
Os muitos testemunhos de outros "faladores de línguas" tendem a
confirmar a convicção de Bredesen, embora alguns poucos pretendam ter
falado em línguas conhecidas.
As conclusões de eruditos lingüísticos também demonstraram que a
moderna glossolalia consiste em sons desconhecidos e que algumas das
pretensões de falar em línguas conhecidas são falsas. A verdadeira
glossolalia (o falar uma língua não previamente falada) é raríssima,
"Mosiman estudou muitos dos casos supostos e achou que nem um
sequer era autêntico. Robert L. Dean, um psicólogo contemporâneo,
chega à mesma conclusão."(18)
William Welmes, professor de línguas africanas na UCLA, chamou
o moderno fenômeno uma fraude e uma monstruosidade. Ele deu o
seguinte relatório sobre sua investigação:
E tenho que relatar sem reserva que a amostra que tenho de maneira
alguma parece estruturalmente com um idioma. Não pode haver mais que
dois sons contrastantes de vogais e um jogo de sons de consoantes

(17)
Farrell, op. cit., p. 6.
(18)
Bergsma, op. cit., p. 9.
Movimento Moderno de Línguas 81
peculiarmente restritos; esses combinam em pouquíssimos grupos de
sílabas, que recorrem muitas vezes em várias ordens. As consoantes e
vogais nem todas parecem com o inglês (a 1illgua nativa -do "glossolalista"),
porém as regras da entonação são o inglês americano tão completamente
que o efeito total é bem ridículo. (19)
Welmes também criticou a pretensão de Bredesen de ter falado na
língua Cóptica do Egito. Ele disse: "O Sr. Bredesen devia ter estado
numa sessão espírita, porque já por muitos anos não existem mais
pessoas que falam a língua Cóptica do Egito. Temo que isto seja típico
das pretensões erradas, da parte dos modernos glossolalistas, ainda que
provavelmente sinceras." (20)
Eugene Nida, famoso lingüista da Sociedade Bíblica Americana,
chegou à seguinte conclusão, depois de sua investigação:
Os tipos de inventário e distribuições indicariam claramente que
essa gravação não tem nenhuma semelhança com nenhuma língua atual
já tratada por lingüistas... Se não é idioma humano, então que é? Pode se
dizer apenas que é uma forma de "fala extática". ... Sobre a base do que
tenho aprendido acerca deste tipo de fenômeno de "línguas" em outras
partes do mundo, aparentemente há a mesma tendência de se empregar o
próprio inventário de sons, em combinações absurdas, porém com feições
simuladas estrangeiras. Pelo menos no Oeste da África e na América
Latina, os tipos de glossolalia empregados pareciam caber dentro desta
descrição. (21)
As conclusões dos lingüistas indicam que a moderna glossolalia é
composta de sons desconhecidos, sem vocabulário e feições gramaticais
que a distingam, com simuladas feições estrangeiras e com uma ausência
total de características de idioma. O caráter essencial desse novo
movimento é, portanto, contradição com o fenômeno bíblico de falar em
línguas conhecidas.

(19)
William Welmes, "Letter to the Editor", Christianity Today, VII (8-11-1963), pp. 19 e 20.
(20)
Ibid.
(21)
Citado por Edman, op. cit., p. 16.
Movimento Moderno de Línguas 82
Sumário

Têm-se várias opiniões quanto a natureza básica do fenômeno


bíblico de falar línguas. Alguns liberais têm negado o milagre e
redefinido o fenômeno como a apresentação de comentários expositivos
sobre textos do Velho Testamento. Alguns poucos têm sustentado o
ponto de vista de que toda glossolalia estava na forma de fala extática ou
de sons desconhecidos. Muitos crêem que o fenômeno consistia em falar
idiomas conhecidos ou desconhecidos. Realmente, a grande maioria das
glossolalias modernas está na forma de sons desconhecidos.
Somente pelo Novo Testamento se pode determinar a natureza
exata do fenômeno bíblico. O termo grego glossa emprega-se de várias
maneiras: para indicar o órgão da fala, um sinônimo de raça ou povo,
idiomas estrangeiros e como parte da descrição da fala de línguas. O
termo se emprega de nove maneiras diferentes para descrever o
fenômeno. Os lexicógrafos crêem que o fenômeno poderia envolver
tanto idiomas conhecidos como fala extática. Todavia, o emprego de
glossa e a descrição do fenômeno do Novo Testamento revela que estava
envolvida somente a fala de idiomas conhecidos. Pelo menos dezoito
argumentos baseados nas Escrituras e na lógica foram apresentados para
sustentar esta conclusão.
Eruditos lingüísticos têm afirmado o fato de que o "moderno
movimento de línguas" é caracterizado pela fala em sons desconhecidos,
sem qualquer base de linguagem. Portanto, o caráter essencial do novo
movimento não está de acordo com a norma bíblica. Por conseguinte,
não pode ser de Deus.
Movimento Moderno de Línguas 83
“LÍNGUAS” NO EVANGELHO DE MARCOS

A ÚNICA MENÇÃO do fenômeno de glossolalia nos quatro


Evangelhos acha-se na grande comissão, conforme o registro de Marcos
(16:17). Isto torna-se significativo quando se reconhece que o Espírito
Santo exerceu uma parte proeminente na era do evangelho.

A Ausência de "Línguas" em Outros Lugares

O Espírito Santo foi o agente da conceição do Cristo encarnado


(Luc. 1:35). Pelo menos cinco pessoas são apresentadas como "cheias do
Espírito Santo": Jesus Cristo (Mat. 3:16; Luc. 4:1), João, o Batista (Luc.
1:15), Isabel (Luc. 1:41), Zacarias (Luc. 1:67) e Simeão (Luc. 2:25).
Todavia, não se diz que qualquer uma dessas pessoas tenha falado
línguas, quer contemporâneas, quer subseqüentes da experiência de ficar
cheia do Espírito Santo. João, o Batista, predisse que Jesus batizaria com
o Espírito Santo e com fogo (Mat. 3:11), porém nem mencionou que a
glossolalia seria a evidência física da experiência. Jesus também predisse
o advento do Espírito Santo no mundo e na vida dos crentes (João 7:37-
39; 14:16; 16:7), porém em nenhuma parte ele declarou que isso seria
acompanhado pelo fenômeno de falar em línguas.
Jean Stone declarou que os crentes devem pedir a Deus o Espírito
Santo (cf. Luc. 11:13), e que a glossolalia será a evidência de sua
recepção.(1) Sua pretensão peca por não reconhecer os distintivos
transitórios da era do evangelho. Mais tarde, Cristo disse: "rogarei ao
Pai, e Ele vos dará outro Consolador" (João 14:16). Depois desta
declaração, não foi ordenado aos discípulos pedirem o Espírito Santo.
Hoje em dia, há apenas duas classes de pessoas no mundo – crentes, que
têm o Espírito Santo (Rom, 8:9) e incrédulos, que não têm o Espírito

(1)
Jean Stone e Harold Bredesen, The Charismatic Renewal in the Historic Churches (Van Nuys,
Calif.: Blessed Trinity n.d.), p. 6.
Movimento Moderno de Línguas 84
Santo (Jud. 19). Não existe um terceiro grupo de cristãos que não têm o
Espírito.
Os Evangelhos estão repletos de tais declarações transitórias que
nunca tiveram o propósito de se tornar um padrão ou norma para a era
presente. Num tempo, Cristo mandou que seus discípulos limitassem seu
ministério a Israel (Mat. 10:5, 6), porém, depois de ressuscitado, Ele
ordenou que fossem pelo mundo e pregassem o evangelho a toda criatura
(Mat. 28:18-20). A doutrina nunca devia ser baseada nessas declarações
anteriores, transitórias. Também Cristo esboçou as relações futuras do
Espírito Santo para com o crente e o mundo (João 14-16) sem fazer
qualquer referência à fala de línguas.
Num dos seus aparecimentos aos seus discípulos após a
ressurreição, Cristo "assoprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito
Santo" (João 20:22.) Esse evento climático também não provocou a
glossolalia. Ao enfatizar os eventos do Pentecostes (At. 2), os modernos
"faladores de línguas" (ou "glossolalistas") têm deixado de dar um
significado próprio dessa recepção inicial do Espírito Santo pelos
discípulos.
Na era do evangelho, há uma aproximação ao "falar línguas" na
possessão demoníaca, com uma diferença básica. O demônio falou
diretamente, antes de fazer o homem possesso falar (cf. Mar. 5:1-20);
todavia, o verdadeiro "falar línguas" foi realizado pelos lábios e pela
língua da pessoa sob o controle do Espírito Santo (At. 2:4). A
semelhança baseia-se nos fatos de que o pronunciamento sobrenatural
estava sendo processado e que a pessoa estava sob a influência dum ser
sobrenatural.
Talvez haja uma condenação da repetição de certas palavras ou
sílabas desconhecidas (nas quais se realiza a maior parte da glossolalia
moderna), no ensino de Cristo sobre a oração, no Sermão do Monte: "E,
orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que
pelo seu muito falar serão ouvidos (Mat. 6:7). Beare declarou que a frase
"não useis de vãs repetições" (battalogesete) dizia respeito a uma
Movimento Moderno de Línguas 85
(2)
deprecação de qualquer qualidade de fala ininteligível em oração. O
verbo consiste em batta, que não é uma palavra de significação, porém
uma sugestão onomatopaica do som produzido, e logeo, "falar". Outras
palavras relacionadas são "gago" (battalos) e "gaguejar" (battaridzo).
Nesse contexto, no entanto, Cristo não se refere ao mero defeito de falar,
porém à repetição de sons ininteligíveis.
Não é isso o que Paulo condenou na igreja em Corinto (I Cor. 14:9,
11, 19)? Já que o "falar línguas" é uma forma de oração (I Cor. 14:2,14),
será que o Espírito Santo faria com que um crente pronunciasse sílabas
desconhecidas muitas vezes (como fazem muitos) quando o próprio
Senhor Jesus condenou essa prática? Jamais Deus se contradiz. Sempre
Ele age de acordo com a Sua Palavra. Essa passagem, então, cresce de
significação quando é relacionada com o moderno fenômeno de
glossolalia. Torna-se outro argumento em favor do ponto de vista de que
toda a glossolalia bíblica foi na forma de palavras e línguas conhecidas e
significativas.

A Presença de "Línguas" em Marcos

Como foi anteriormente declarado, a única menção clara do


fenômeno de glossolalia acha-se no registro de Marcos, da Grande
Comissão (16:15-18):
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda
criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será
condenado. E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome
expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se
beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos
sobre os enfermos, e estes serão curados.

(2)
Frank W. Beare, "Speaking with Tongues", Journal of Biblical Literature, LXXXIII (setembro de
1964), p. 229.
Movimento Moderno de Línguas 86
Contensão dos Que Advogam a Glossolalia

Conforme os modernos advogados da "fala de línguas", todos os


cinco sinais devem caracterizar cada crente. Brumback argumentou que,
"se a expressão 'aquele que crer e for batizado' é verdadeira em toda e
qualquer época da dispensação cristã, a afirmação 'estes sinais os
seguirão' também deve ser verdadeira em cada geração e período da
história da igreja". (3) Brumback acrescentou que a frase "os que crêem"
não faz referência somente aos novos convertidos, porém a todos os que
crêem em Cristo. Então ele definiu a natureza da fé e o caráter
condicional dos sinais: "Enquanto os apóstolos e outros discípulos
continuaram crendo no senhorio de Jesus sobre cada reino, 'estes sinais'
continuaram a segui-los." (4)
Este, então, é o ponto de vista do moderno movimento de "línguas".
Se um cristão apenas cresse no que Jesus aqui disse e se submetesse
completamente ao senhorio de Cristo, então veria estes sinais operando
na sua vida. Isso poderia acontecer em qualquer geração, inclusive na de
hoje. De fato, o moderno movimento de "línguas" e o ministério do "pleno
evangelho" (conforme eles) são o cumprimento da profecia de Cristo .
Tem havido, e ainda há, muitos homens piedosos que não falaram
línguas: Calvino, Knox, Wesley, Carey, Judson, Moody, Spurgeon,
Torrey, Sunday e Bill Graham. Brumback declarou que este argumento
"se baseia em homens, antes que nas Escrituras". (5) Isso lá é verdade;
todavia, causaria espécie se esses grandes líderes cristãos e outros
fossem classificados como homens que não tenham reconhecido o
senhorio de Cristo na sua vida. Certamente, eles têm manifestado mais
santidade e têm testemunhado mais efetivamente em prol de Cristo do
que muitos que pretendem ter falado línguas. Todavia, a resposta real a

(3)
Brumback, op. cit., p. 54.
(4)
Ibid.
(5)
Ibid., p. 275.
Movimento Moderno de Línguas 87
essa pretensão do moderno movimento de "línguas" acha-se na
autenticidade textual e na doutrina da própria passagem.

Autenticidade da Passagem

Muitos cristãos reconhecem que a declaração textual da conclusão


de Marcos (16:9-20) é fraca. Os dois melhores manuscritos iniciais – o
Sinaíticus e o Vaticanus – não a têm. Da mesma forma, algumas
traduções latinas do quarto e do quinto séculos a Versão Siríaca Sinaítica
e alguns códices armenianos – não a contêm. Clemente de Alexandria,
Orígenes e Euzébio, todos a omitiram. De fato, Euzébio disse que as
cópias mais acuradas por ele conhecidas e quase todas as cópias
disponíveis terminavam com as palavras "porque temiam" (16:3). (6)
Nenhum manuscrito grego anterior ao quinto século a tem. Essa
evidência externa de Manuscritos favorece definitivamente a omissão da
passagem, ainda que não seja bastante em si.
A omissão realmente cria um problema, como diz Cole: "Terminar
o Evangelho com o v. 8 é não somente abrupto no sentido lingüístico,
mas também abrupto teologicamente." (7) Esse término desconexo tem de
ser reconhecido, e, todavia, aceito. Everett Harrison, professor de grego
do Novo Testamento no Seminário Teológico Fuller, concluiu: "A
probabilidade transcripcional favorece o término abrupto. Se o término
longo fosse original, seria difícil explicar a perda desses versículos em
nossos principais MSS. Por outro lado, aceito o término abrupto como o
original, é fácil ver que havia uma sentida necessidade para
suplementação." (8)

(6)
Citado por Everett F. Harrison, Introduction to the New Testament (Grand Rapids: Wm. B.
Eardman's Pub. Co., 1964), pp. 87 e 88.
(7)
R. A. Cole, The Gospel According to St. Mark (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co.,
1961), p. 258.
(8)
Harrison, op. cit., p. 88.
Movimento Moderno de Línguas 88
E houve suplementação. Há pelo menos quatro términos possíveis,
que se acham em vários manuscritos gregos. Os melhores manuscritos
terminam com o versículo 8. Outros contêm uma curta conclusão de
cerca de trinta palavras. A maioria dos manuscritos posteriores inclui os
versos 9 a 20. Há ainda outros que têm os vv. 9-20, com uma
interpolação entre os vv. 14 e 15.
Qual a conclusão para essa evidência externa dos MSS? Tem que se
concordar com o Dr. A. T. Robertson, o grande erudito em Grego e
gramático da geração passada: "Assim, os fatos são mui complicados,
porém eles argumentam fortemente contra a genuinidade dos vv. 9 a 20
de Marcos 16." (9) Sobre a base deste sustentáculo fraco de MSS,
nenhuma doutrina deve ser edificada a respeito desta passagem.
A evidência interna sustenta a conclusão da evidência externa.
Harrison citou algumas das incongruidades da passagem:
A palavra traduzida "semana" no v. 9 não é a mesma que no v. 2. A
afirmação sobre Maria Madalena, no v. 9, não tem lógica de ali constar,
especialmente por ser feita depois do aparecimento dela na história, através
do v. 1, em que não há qualquer descrição semelhante. O leitor espera em
vão que se diga algo nos versos da conclusão que explique bem o que se
diz a respeito de Pedro no v. 7, mas tudo quanto se encontra é uma série de
generalidades. Finalmente, ainda que a matéria no v. 18, concebivelmente,
poderia ser congruente com o lugar dado ao elemento milagroso no
Evangelho, talvez seja mais acurado ver o tema taumatúrgico aqui tal como
se encontra nos Evangelhos apócrifos. (10)
Gould apontou certas diferenças lingüísticas quando escreveu: "Há
109 palavras diferentes, e, dessas, 11 palavras e 2 frases não ocorrem em
outra parte nesse Evangelho."(11) São: ekeinos, poreuomai, tais met'autou
genomenois, theaomai, apisteo, meta tauta, husteron, blapto,
sunergountos, bebaioun e epakolouthein.
(9)
Archibald Thomas Robertson, World Pictures in the New Testament (Nashville, Tenn.: Broadman
Pres., 1930), I, p. 402.
(10)
Harrison, op. cit., p. 88.
(11)
Ezra P. Gould, A Critical and Exegetical Commentary on lhe Gospel According to St. Mark (New
York: Charles Scribners Sons, 1913), p. 303.
Movimento Moderno de Línguas 89
Diante dessa evidência externa e interna tão forte contra o conceito
de que os vv. 9 a 20 seriam da autoria de Marcos, é difícil compreender
Brumback, que concordou com a conclusão do antigo Pulpit
Commentary: "No todo, a evidência quanto à genuinidade e
autenticidade desta passagem parece ser irresistível."(12)
Nenhum erudito moderno no Grego diria que a evidência em favor
da inclusão dos versículos 9 a 20 é "irresistível". Por que Brumback faria
uma declaração tão corajosa? Primeiro, ele cria que a Versão Autorizada
(de 1611 A.D.) era "a mais digna de confiança de todas as versões e a
que mais se aproxima do original que qualquer coisa que temos hoje em
dia". (13) Essa posição é digna de elogio, porém ele a mantinha à custa de
desprezar o texto grego e as descobertas dos eruditos gregos. (14)
Finalmente, este autor recebeu a impressão de que Brumback teve
que sustentar tenazmente a integridade do término de Marcos para
justificar seu ponto de vista de que a glossolalia faz parte integral da
Grande Comissão e de que o fenômeno devia ser parte permanente da
igreja e da vida pessoal. Sua posição doutrinária determinou
definidamente sua aceitação dessa passagem. Isto é ser tendencioso, mas
não é erudição. A atitude correta para com essa passagem, tanto por
parte dos advogados da glossolalia como por parte dos seus oponentes,
devia ser a de Robertson: "Diante da grande dúvida quanto à
genuinidade desses versículos (quase prova conclusiva contra eles, na
minha opinião), é pouco sábio tomar esses versículos como base de
doutrina ou de prática, a não ser que seja sustentada tal doutrina por
outras partes genuínas do N.T." (15)
Portanto, é insustentável edificar uma doutrina sobre essa
passagem. A passagem pode ser parte genuína do Evangelho de Marcos,

(12)
Harrison, op. cit., p. 66.
(13)
Ibid., p. 57.
(14)
Ibid., pp. 55-57.
(15)
Robertson. op. cit.. p. 262.
Movimento Moderno de Línguas 90
porém enquanto não se tiver maior evidência a respeito, ela não deve ser
usada para sustentar qualquer posição doutrinária.

Doutrina da Passagem

De duas maneiras a doutrina da passagem não favorecerá nem


mesmo a posição Pentecostal. Primeiro, pode-se demonstrar que o ensino
da passagem é inconsistente com o de outras passagens das Escrituras.
Este fato ainda confirma mais o fraco sustentáculo textual da passagem;
portanto, não deve ser usada pelo movimento de "línguas" para provar
sua pretensão da existência permanente da glossolalia na igreja.
Segundo, mesmo admitindo a passagem como genuína, pode-se mostrar
que o movimento neo-pentecostal não está cumprindo todos os sinais
mencionados.
O primeiro problema doutrinário da passagem centraliza-se na
natureza da fé expressa na frase: "E estes sinais acompanharão aos que
crerem.. ." (16:17). Os que advogam a causa de "línguas" têm declarado
que a crença completa no senhorio de Cristo fará com que a pessoa
crente experimente esses sinais. Mas, será verdade? Será que "crença no
senhorio de Cristo" é o que Jesus queria dizer? No contexto maior desta
passagem, a palavra é empregada com referência àqueles discípulos que
não criam que Jesus fora ressuscitado dentre os mortos, e que fora visto
por Maria Madalena (16:11) e pelos dois no caminho de Emaús (16:13).
Mais tarde, o próprio Cristo, num aparecimento após a ressurreição,
repreendeu-os por causa de sua descrença quanto aos seus aparecimentos
(16:14). Todavia, nem a crença nem a descrença na ressurreição física de
Cristo está envolvida em 16:17.
O contexto imediato é a Grande Comissão de Cristo a seus
discípulos (16:15). Ele mandou que fossem e pregassem o evangelho a
toda criatura. E disse ainda: "Quem crer e for batizado será salvo; mas
quem não crer será condenado. E estes sinais acompanharão aos que
crerem..." (16:16,17). A crença na mensagem do evangelho trará
Movimento Moderno de Línguas 91
salvação, e a falta de fé trará juízo individual. Os sinais, então, eram para
acompanhar aqueles que crerem para a salvação, e não aqueles que
aceitam o senhorio de Cristo na sua vida (apenas alguns cristãos).
Que a crença para a salvação é o significado pretendido vê-se ainda
pelo uso do tempo aoristo em ambos os versículos (ho pisteusas e ho
apisteusas, 16:17, cf. tois pisteusasin, 16:18). A aceitação individual e a
responsabilidade pessoal (na pessoa singular) são enfatizadas em 16:17,
conquanto esses sinais fossem para acompanhar todos os crentes como
um grupo (no plural). Que os sinais deveriam acompanhar os que
cressem e fossem batizados, é uma declaração categórica. Cada pessoa
que cresse no evangelho deveria realizar esses cinco sinais; porém o fato
claro da História e da experiência é que nenhum cristão jamais fez isso.
Os próprios advogados da glossolalia não testificam que todos os cinco
sinais têm estado operando nas suas vidas. Todos esses sinais deveriam
acompanhar todos os crentes. Note-se o artigo e o particípio no plural
(16:17). Também o antecedente de "eles" (16:17-18) é "os que crerem"
(16:17) para a salvação. Não se refere aos pregadores nem aos apóstolos
(a eles a referência é feita na segunda pessoa do plural "vós" – 16:15).
O segundo problema doutrinário da passagem centraliza-se na
natureza dos sinais que deveriam acompanhar os crentes. O primeiro foi:
"em meu nome expulsarão demônios". Espíritos maus foram expulsos
por Pedro (At. 5:15,16), por Filipe em Samaria (At. 8:5-7) e por Paulo
em Filipos (At. 16:16-18) e em Éfeso (At. 19:12). Todavia, não há
nenhuma indicação nos Atos nem nas epístolas de que todos os crentes
praticassem isso. Esses três líderes (apóstolos e/ou evangelistas) foram
os únicos a expulsar demônios.
O segundo sinal foi: "... falarão novas línguas." O falar línguas foi
manifestado pelos discípulos (At. 2:1-4), por Cornélio e sua casa (At.
10:44-48), pelos discípulos de João, o Batista (At. 19:1-7), pela igreja em
Corinto (I Cor. 12-14) e possivelmente por Paulo (I Cor. 14:18) e pelos
samaritanos (At. 8:12-18). Fora dessas ocorrências, não há nenhuma
indicação duma prática geral de glossolalia pelos crentes. Também já foi
Movimento Moderno de Línguas 92
demonstrado que o emprego de kainos antes que neos indicava que a fala
deveria ser em idiomas conhecidos, não em "línguas desconhecidas". (16)
Isto não tem sido praticado pelo moderno movimento de "línguas".
O terceiro sinal foi: "... pegarão em serpentes." Não há nenhuma
ilustração no resto do Novo Testamento de que qualquer crente fizesse
isto. Ainda que Paulo tenha sido citado como um exemplo (At. 28:1-6), é
bom lembrar que ele não pegou na serpente, mas que a cobra o mordeu.
Oral Roberts dá uma explicação esquisita desse versículo:
O pegar em serpentes não se refere a pôr as mãos em cobras. Essa
era uma expressão do Oriente que se referia a inimigos. Significa o que
Jesus explicou em Lucas 10:19: "Eis que vos dei autoridade para pisar
serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada vos fará
dano algum." Isto foi poder que faria com que eles vencessem os seus
inimigos que tentassem impedir seu progresso espiritual ou procurassem
proibir que testemunhassem o Senhor Jesus Cristo. (17)
Essa interpretação figurada ou alegórica do sinal é incongruente
com a literalidade dos outros quatro. O contexto exige uma interpretação
literal.
O quarto sinal foi : "... e, se beberem alguma coisa mortífera, não
lhes fará dano algum." Não há limitações quanto ao tipo de líquido
consumido (notai: "alguma" = "qualquer"; ti). Também a frase "não lhes
fará dano algum" (enfático negativo duplo ou me) é uma declaração
categórica. Os que cressem em Cristo para a salvação poderiam beber
qualquer coisa sem sofrer nenhum dano. De novo, a História, tanto
bíblica como histórica, mantém completo silêncio a respeito dessa
prática. De fato, Timóteo talvez tenha sofrido dano por haver ingerido
água poluída (I Tim. 5:23).
O quinto sinal foi : ". . . e porão as mãos sobre os enfermos, e eles
serão curados." Há muitos casos de cura sem a imposição de mãos (At.
3:1-11; 9 :32-35; 19:11). Todavia, há casos onde a imposição de mãos
(16)
Ver Capítulo IV (clique aqui).
(17)
Oral Roberts, The Baptism with the Holy Spirit and the Value of Speaking in Tongues Today
(Tulsa, Okla.: Pelo autor, 1964), p. 16.
Movimento Moderno de Línguas 93
resultou em cura física (At. 9:17,18; 28:8,9; cf. Tiago 5:14,15). No
entanto, essa não era a prática geral. De fato, por que foi que o carcereiro
em Filipos não curou Paulo e Silas antes de "lavar-lhes as feridas" (At.
16:33)? Essa também é uma declaração categórica. Havendo imposição
de mãos, haveria cura; porém o caso não é assim, como hão de concordar
os Pentecostais e os "curandeiros por fé".
Assim ficou demonstrado que todos os cinco sinais devem ser
manifestados por todos que cressem em Cristo para salvação. Todavia,
isso não se deu nem nas vidas das pessoas bíblicas nem na do moderno
movimento de "línguas". A palavra "sinais" (semeia) emprega-se
extensivamente na Bíblia, com referências múltiplas, porém esses cinco
sinais nunca se aplicam a todos os crentes. A palavra foi usada quanto à
circuncisão (Rom. 4:11), um requisito para os judeus (I Cor. 1:22), a
línguas (I Cor. 14:22) e à assinatura de Paulo (II Tess. 3:17). Sinais eram
operados por Deus (At. 7:36), por Cristo (At. 2:22), pelos apóstolos (At.
2:43; 4:16 ,22, 30; 5:12; 14:3; 15:12; Rom. 15:17-19; II Cor. 12:12; Heb.
2:3, 4). Por Estêvão (At. 6:8) e por Filipe (At. 8:6,13). Sinais serão
operados no futuro por Deus (At. 2:19), pelo anticristo (II Tess. 2:9),
pelo falso profeta (Apoc. 13:13, 14; 19:20) e pelos espíritos de demônios
(Apoc. 16:14). Há forte indicação de que esses sinais divinos eram
temporários e limitados às primeiras décadas da história eclesiástica.
Alguém escreveu:
Como escaparemos nós, se descuidarmos de tão grande salvação? A
qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois
confirmada pelos que a ouviram; testificando Deus juntamente com eles por
sinais e prodígios, e por múltiplos milagres e dons do Espírito Santo,
distribuídos segundo a sua vontade (Heb. 2:3, 4).
Ainda que o pronome "eles" (2 :4) não esteja no texto grego, a
compreensão dos tradutores foi correta quando o inseriram. É digno de
nota que Deus lhes testificou, isto é, àqueles que haviam ouvido o
Senhor diretamente (os apóstolos), e não à segunda geração de crentes
(note-se: "foi.. . confirmada", não "está sendo confirmada"). O escritor
de Hebreus em parte nenhuma testificou da existência de sinais e
Movimento Moderno de Línguas 94
milagres como prova da superioridade do cristianismo em relação ao
judaísmo ritualista. Ainda que os judeus pedissem um sinal, Paulo não
lhos deu, mas pregou o Cristo crucificado (I Cor. 1:22, 23).
Concernente a esses sinais, a honestidade terá que concordar com a
conclusão de Cole:
Se manifestações evidenciais foram ou não pretendidas para serem
contínuas na vida da igreja, ou se foram restritas a esse período, ou
esporádicas – terá que ser considerado à luz da restante do Novo
Testamento; em vista da evidência incerta quanto à conclusão mais
seguida, não se deve fazer nenhuma suposição dogmática apenas nela
baseada. (18)
Esses sinais não se acham nos demais registros referentes à Grande
Comissão (Mateus 28:18-20; Luc. 24:46-49; João 20:2123; At. 1:8).
Visto que não são todos eles achados na experiência da igreja primitiva,
essa passagem não deve ser apresentada como o padrão pretendido para
esta época. Também não é justo que o moderno movimento de "línguas"
selecione um desses sinais e o enfatize como o sinal de uma vida cheia
do Espírito, afastada dos outros quatro sinais. Tem que ser todos os cinco
sinais ou nenhum deles.

Resumo

A ausência da existência ou da predição do fenômeno de "falar


línguas" no período do Evangelho é fato mui significativo. Várias
pessoas foram cheias do Espírito Santo sem falar línguas. O batismo no
Espírito Santo foi predito à parte de qualquer menção desse fenômeno.
Jesus esboçou a relação do Espírito Santo com os discípulos sem
mencionar o fenômeno. De fato, Jesus deprecou a oração a Deus que
envolvesse sons desconhecidos e sem significação. Isso negaria a

(18)
Cole, op. cit., p. 262.
Movimento Moderno de Línguas 95
pretensão de que o falar em sons desconhecidos é a duplicação da
ocorrência bíblica.
Advogados da glossolalia pretendem que a crença completa e a
submissão ao senhorio de Cristo produziria esses sinais na vida dos
crentes. Entretanto, isso é inconsistente com as experiências de muitas
pessoas dedicadas, consagradas e com a correta interpretação da própria
passagem, Esses cinco sinais (Mar. 16:17,18) devem ser achados na vida
daqueles que iriam crer em Jesus para salvação. O fato de que eles não
têm sido achados é evidente do registro bíblico, do curso da história
eclesiástica e do próprio movimento moderno de glossolalia.
Também, visto que a conclusão de Marcos (16:9-20) tem tão fraca
evidência externa de manuscritos e seu sustento interno é tão inseguro
quanto a sua genuinidade, não deve e não pode ser baseada sobre essa
passagem nenhuma doutrina. Já que não há nenhuma outra passagem
bíblica que ensine a existência permanente desses sinais na vida da
Igreja, tem de ser rejeitada essa tese básica do moderno movimento de
"línguas". Para todos os propósitos práticos, a doutrina bíblica de
glossolalia tem necessariamente de ser limitada ao tempo de Atos e I
Coríntios.
Movimento Moderno de Línguas 96
AS LÍNGUAS NO LIVRO DE ATOS

O LIVRO DE ATOS fornece um registro histórico da vida primitiva


da Igreja. Relata o avanço da mensagem do evangelho de Jerusalém a
Roma, primariamente através dos ministérios de Pedro e Paulo. Registra
o primeiro sermão apostólico (2:14-40), o primeiro milagre apostólico de
cura (3:1-11), a primeira perseguição (4:1-3), a primeira defesa do
evangelho (4:5-12), o primeiro castigo (5:1-11), a escolha dos primeiros
diáconos (6:1-7), o primeiro martírio (7:54-60), a primeira viagem
missionária (13:1–14:28) e o primeiro concílio da Igreja (15:1-35). O
livro, pois, tem um caráter progressivo e transicional, no que o programa
de Deus deixa a antiga dispensação da lei, passa para a vida primitiva da
nova dispensação eclesiástica e avança para um estágio posterior e mais
amadurecido. Dentro deste registro histórico se acham quatro
recebimentos singulares do Espírito Santo, acompanhados pelo
fenômeno de glossolalia em pelo menos três ocorrências. Esses quatro
registros históricos serão agora apresentados e estudados, e, mais
adiante, será exposto o seu significado.

O Registro de Línguas

O Livro de Atos contém três registros claros de glossolalia (2:1-


13;10:44-48; 19:1-7). Por causa de certas semelhanças, mais duas
passagens têm sido sugeridas (4:31; 8:5.19), a última sendo mais
plausível. Certas perguntas formarão as diretivas no estudo desses
registros históricos. Onde aconteceu o fenômeno? Quem falou línguas?
Quando eles falaram ou qual era a sua condição espiritual no tempo em
que falaram? Que estavam fazendo na ocasião em que começaram a falar
línguas? Quais os sinais que acompanharam o seu recebimento do
Espírito Santo? Foram-lhes impostas mãos a fim de que recebessem essa
experiência?
Movimento Moderno de Línguas 97
Atos 2:1-13

O primeiro relato sobre glossolalia é o referente a ocorrida no dia de


Pentecostes (2:1). O dia era assim denominado porque era celebrado no
qüinquagésimo dia (a nossa palavra é a transliteração do termo grego
pentekostes) depois da apresentação do primeiro molho da ceifa de
cevada. Era o qüinquagésimo dia depois do primeiro domingo após a
Páscoa (cf. Lev. 23:1ss). Também era conhecido como a Festa das
Semanas (Êx. 34:22; Deut. 16:10) e como o Dia das Primícias (Êx.
23:16; cf. Núm. 28:26), porque era o dia em que os primeiros frutos da
ceifa de trigo eram apresentados a Deus. No judaísmo posterior, esse dia
era considerado como o aniversário da entrega da Lei no Monte Sinai. (1)
O dia particular de Pentecostes era mui significativo, porque era o
qüinquagésimo dia após a ressurreição de Jesus Cristo e dez dias após a
sua ascensão aos céus (At. 1:2,3), Esse grande evento ocorreu na cidade
de Jerusalém. Os discípulos receberam ordem de Jesus de ficarem em
Jerusalém para a descida do Espírito Santo (Luc. 24:49). Isto eles
fizeram (Luc. 24:52; At. 1:12). Aqueles que testemunharam o fenômeno
de falar línguas e aos quais Pedro pregou seu sermão habitavam em
Jerusalém nesse tempo (At. 2:5,14).
O som da presença do Espírito Santo "encheu toda a casa" (holon
ton oikon) onde os discípulos "estavam sentados". Que casa era essa?
Morgan, seguindo Josefo, equacionou "casa" com o templo ou uma das
salas do templo. (2) O templo era chamado "casa" no Velho Testamento
(Is. 6:4) e mais tarde é assim descrito por Estêvão (At. 7 :47). Depois da
ascensão de Cristo, Lucas diz que os discípulos "estavam continuamente
no templo, bendizendo a Deus" (Luc. 24:53). Nesse dia de festa, poder-
se-ia esperar achá-los ali. Uma multidão de mais de três mil pessoas (At.
2:41) mais provavelmente se acharia no átrio do templo e não num
(1)
F. F. Bruce. Commentary on the Book of Acts (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co.),
pp. 53 e 54.
(2)
G. Campbell Morgan, The Acts of the Apostles (New York: Fleming H. Revell Commentary, 1924), p. 24.
Movimento Moderno de Línguas 98
cenáculo ou na rua, fora de uma casa particular. Todavia, há indicações
definidas de que os discípulos estavam simplesmente numa casa
particular quando lhes sobreveio o Espírito Santo. O contexto imediato
de fato menciona um cenáculo numa casa particular (At. 1:13-26). É
mais provável que estivessem sentados (At. 2:2) numa casa particular do
que no templo. Mais tarde, Lucas distingue entre "casa" e "templo" (At.
2 :46; 3:1). É difícil dizer com absoluta certeza justamente onde estavam
os discípulos, entretanto, é certo que estavam juntos em algum lugar em
Jerusalém.
Quem "falou línguas"? Lucas apenas diz "eles" (2:1-4). Quem são
"eles"? Alford disse que "eles" não se refere somente aos apóstolos, nem
somente aos 120, mas a "todos os crentes em Cristo então congregados
no templo na festa em Jerusalém". (3) A maioria dos comentaristas crê
que o antecedente desse pronome é o grupo de 120 discípulos, inclusive
os doze apóstolos (4) ou os 120 mais os doze apóstolos, (5) Visto que esse
grupo é mencionado nos versículos precedentes (1:12-16), esse ponto de
vista parece bem plausível. Todavia, há problemas definidos relativo a
esses pontos de vista. A melhor posição é que somente os doze apóstolos
falaram línguas quando lhes sobreveio o Espírito Santo dessa maneira
incomum.
Primeiro, o antecedente mais próximo de "eles" (2:1) é o grupo de
apóstolos (1:26).
Segundo, não é preciso pensar que os apóstolos gastassem todo o
seu tempo com os 120, nem que a seleção de Matias precedesse
imediatamente à descida do Espírito Santo.
Terceiro, Cristo havia dado somente aos apóstolos a promessa dessa
vinda do Espírito. Ele dissera: "... E eis que sobre vós envio a promessa
de meu Pai; ficai, porém, na cidade, até que do alto sejais revestidos de

(3)
Henry Alford, The Greek Testament (London: Longmans, Green, and Co., 1894), II, p. 13.
(4)
Ibid.
(5)
R. J. Knowling, "The Acts of the Apostles", The Expositor's Greek Testament, editado por W.
Robertson Nicoll (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1951), p. 72.
Movimento Moderno de Línguas 99
poder" (Luc. 24:49; cf. At. 1:2-4). Falando somente aos apóstolos, Ele
predissera: "... mas vós sereis batizados no Espírito Santo dentro de
poucos dias... Mas vós recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito
Santo, e ser-me-eis testemunhas..." (At. 1:5,8). Não há nenhuma
indicação de que todos os crentes iam receber o Espírito Santo nesta
maneira incomum.
Quarto, os que observaram o fenômeno "... se admiravam, dizendo
uns aos outros: Pois que! não são galileus todos esses que estão falando?"
(At. 2:7). Poderá ser provado que todos os 120 eram galileus? Os
apóstolos eram chamados "varões galileus" pelos anjos (At. 1:11). Pedro
falava com um sotaque galileu bem definido (cf. Mar. 14:70).
Quinto, será que uma acusação de embriaguez teria sido lançada a
mulheres (At. 2:1-3; cf. 1:14)?
Sexto, não há nenhuma menção dos 120 em Atos 2, porém há
referências aos apóstolos (2:14, 37).
Sétimo, a menção de "filhas" na profecia de Joel (At. 2 :17) não
quer significar que mulheres receberam a experiência no Pentecostes.
Para ser consistente, teríamos que dizer que filhos, filhas, mancebos,
velhos, servos e servas tiveram que estar presentes. Será possível provar
que todas essas seis classes estariam incluídas nos 120? Assim,
provavelmente, foram os apóstolos que falaram em línguas naquele dia.
Os apóstolos eram definitivamente homens salvos. Já haviam
professado a sua fé em Cristo e experimentado a iluminação divina (Mat.
16:16,17; João 1:41, 45, 49; 6:68, 69). Foram pronunciados
espiritualmente limpos pelo próprio Cristo e eram considerados
diferentes de Judas Iscariotes (João 13:10; 15:3), Cristo os considerava
como pertencendo a Ele e ao Pai (João 17:10). Antes do Dia de
Pentecostes, esses apóstolos já haviam recebido o Espírito Santo (João
20:22) e foram comissionados a pregar (At. 1:8). Portanto, essa
experiência no Dia de Pentecostes foi um acontecimento subseqüente a
sua conversão. O significado desse fato será exposto mais tarde.
Movimento Moderno de Línguas 100
(Nota do Tradutor: Teologicamente, teremos que dizer que
ninguém pode ser salvo, nascer de novo, aceitar a Cristo como Salvador
sem, ao mesmo tempo, ter o Pai e o Espírito Santo, pois DEUS NÃO SE
DIVIDE e não há três deuses, mas UM SÓ. Ninguém pode ter um terço
ou dois terços de Deus! Ou O tem, ou não O tem. Isto é tão simples!)
Que estavam fazendo os apóstolos na ocasião em que começaram a
falar línguas? Os advogados modernos da glossolalia, que vêem um padrão
permanente e universal na sua experiência, teriam que dizer que os
apóstolos estavam buscando e orando pela experiência. Este conceito
baseia-se nas frases: "Todos estes perseveraram unanimemente em oração"
e "estavam todos reunidos no mesmo lugar" (At. 1:14; 2:1). Todavia, não se
diz que estavam orando; isso é apenas inferencial. De fato, estavam
sentados quando desceu o Espírito Santo (2:2). A posição normal para orar
era de joelhos ou em pé; "sentados sugere que a assembléia de discípulos
estava ouvindo um discurso..." (6)
É difícil dizer se os apóstolos estavam mesmo esperando o Espírito
Santo naquele dia. Jesus dissera "dentro de poucos dias" (1:5), porém não
designara o dia exato nem sugerira que seria no dia de Pentecostes. Eles
estavam simplesmente esperando o cumprimento da promessa de Cristo.
Unger escreveu:
Não se deve supor, como freqüentemente se faz, que o Espírito Santo
veio no Pentecostes porque os 120 discípulos esperavam e oravam que Ele
viesse. Nada do que fizeram ou disseram poderia afetar, no mínimo que
fosse, a questão da vinda do Espírito. Não foram ordenados a orar, mas
apenas a "sentar-se" e "esperar" (Luc. 24:49), o que queria dizer que não
tentassem qualquer obra de "testemunhar" (At. 1:8) até que o Espírito Santo
viesse dar-lhes poder. Naturalmente, eles oraram (At. 1:14), e tiveram uma
comunhão maravilhosa, mas tudo isso nada tinha com a vinda do Espírito
Santo, que veio por "promessa" divina (Luc. 24:49), num tempo divinamente
determinado (At. 2:1), num lugar divinamente escolhido (Joel 2:32), de
acordo com o Velho Testamento (Lev. 23 :15-22). (7)

(6)
R. C. H. Lenski, The Interpretation of the Acts of the Apostles (Columbus, Ohio: The Wartburg
Press, 1957), p. 57.
(7)
Merrill F. Unger, The Baptizing Work of the Holy Spirit (Chicago: Scripture Press, 1953), p. 57.
Movimento Moderno de Línguas 101
Esses apóstolos não oraram no sentido de receberem a experiência.
Não oraram uns pelos outros. Não impuseram as mãos sobre ninguém.
Simplesmente esperaram que Jesus fizesse aquilo que prometera fazer. A
descida do Espírito Santo viria, não em resposta à oração, porém quando
Cristo o quisesse.
A descida do Espírito Santo foi evidenciada por três sinais físicos: o
som de vento, línguas como que de fogo e o falar outras línguas. Ramm
disse que os sinais apelavam respectivamente ao ouvido, à vista e à
mente e tinham a intenção de invalidar qualquer acusação de logro ou
engano. (8) Unger argumentou: "Se o Sinai foi envolvido em fumaça e
chama de fogo quando a Lei foi dada a uma certa nação (Êx. 19), poderia
ser considerado estranho que o fenômeno de vento, fogo e línguas de
vários povos acompanhasse o dom glorioso do próprio Espírito Santo
para anunciar a sublime mensagem da graça insondável para com todas
as nações e cada criatura?" (9)
O som vindo do céu (não o vento) "encheu toda a casa onde
estavam sentados" (2:2), de modo que foram completamente cobertos,
imersos ou nele batizados. Visto que o som indicou a presença do
Espírito Santo, verdadeiramente foram batizados no Espírito Santo (cf.
1:5). Esse som foi ouvido por toda parte e fez com que as multidões se
congregassem (1:6). Alguns crêem que a glossolalia atrai as
multidões,(10) porém é mais provável que um som do céu, como que de
um vento impetuoso, fosse ouvido do que a fala humana dentro de uma
casa particular. O emprego que Lucas faz de phones (2:6) se relaciona
melhor com o único som do céu do que com os múltiplos sons dos
apóstolos (cf. Luc. 23:23, onde as vozes humanas estão no plural).
Também o emprego do tempo aoristo (genomenes; 2:6) cabe melhor ao
único som do que à fala contínua dos apóstolos.

(8)
Bernard Ramm, The Witness of the Spirit (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1960), p. 77.
(9)
Unger, op. cit., p. 62.
(10)
Bruce, op. cit., p. 59.
Movimento Moderno de Línguas 102
As "línguas como que de fogo que se distribuíam" (2:3) não eram o
cumprimento do "batismo de fogo" (Mat. 3:11). Esse batismo é um
batismo de juízo sobre os incrédulos, não um meio de purificação para o
crente (Mat. 3:12; cf. II Ped. 3 :4-13; Apoc. 20:11-15). Jesus não disse
aos discípulos que Ele os batizaria com fogo (At. 1:5). Antes, as "línguas
distribuídas" eram um preliminar da real glossolalia. Sua única voz ia ser
dividida para que cada um pudesse falar em outra língua.
Schaff chamou o terceiro sinal, a glossolalia, "a parte mais difícil do
milagre Pentecostal". (11) Será que todos os apóstolos falaram ao mesmo
tempo línguas diferentes? Ou falaram todos ao mesmo tempo na mesma
língua, passando de uma língua para outra? Ou falaram eles cada um por
sua vez? Por causa destas dificuldades, Kuyper declarou que os
discípulos falaram uma língua pura, que todos os crentes um dia hão de
falar, o que levou os observadores a pensar que os ouviam falar nas suas
respectivas línguas nativas. (12)
Vincent disse que "o Espírito interpretou as palavras dos apóstolos
a cada ouvinte na sua própria língua". (13) Esta posição faz do evento um
milagre tanto de falar como de ouvir bem. Todavia, essa posição cria
mais problemas do que resolve. Não se indica na linguagem literal do
texto nenhum milagre de audição. Os discípulos começaram a falar em
outras línguas (ou idiomas) muito antes de chegar a multidão. Essa
glossolalia estava na forma de idiomas conhecidos ou de dialetos que
eram compreensíveis sem interpretação para os observadores descrentes
(At. 2:4; cf. 2:6, 8, 11; também Ver Capítulo IV (clique aqui)).
Os apóstolos falaram idiomas que nunca haviam aprendido, porém
o fizeram aparentemente com um sotaque galileu (2:7; cf. Mat. 26:73;
Mar. 14:70). Bruce disse que o dialeto da Galiléia era notável pela sua
confusão de vários sons guturais. (14) Esse fato contribuiu para a

(11)
Schaff, op. cit., I, p. 234.
(12)
Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit (New York: Funk & Wagnalls Co, 1900), pp. 133-138.
(13)
Vincent, op. cit., III, p. 257.
(14)
Bruce, op. cit., p. 59.
Movimento Moderno de Línguas 103
admiração da multidão (2:7). A multidão podia reconhecer suas línguas
e/ou dialetos e compreender o que estava sendo falado pelos apóstolos.
A maneira pela qual o fizeram não é tão importante como o fato de que o
fizeram.
O catálogo de grupos de línguas (2:9-11) revelou uma ampla
variedade de línguas e dialetos. Essa fala múltipla pelos apóstolos
também os pasmava. O conteúdo dessa glossolalia foi "as grandezas de
Deus" (2:11). O que isso envolvia não está claro. Não era um substituto
da pregação do evangelho, porque posteriormente Pedro apresentou
aquela mensagem (2 :14-40) . A glossolalia não resultou na convicção de
seus pecados; isso veio mais tarde (2:37). Aparentemente, esses homens
eram bilíngües, porque puderam compreender o sermão de Pedro sem
interpretação ou sem a repetição do fenômeno. Assim, o falar línguas foi
uma parte integral dos eventos de Pentecostes. Vários pontos de vista
sobre o significado dessa experiência desusual serão expostos mais tarde.

Atos 4:31

Depois da primeira perseguição, os crentes tiveram uma reunião de


oração. "E, tendo eles orado, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e
todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com intrepidez a
Palavra de Deus" (elaloun ton logon tou Theou meta parresias; 4:31).
Vários escritores crêem que essa frase posterior é uma expressão
equivalente de "falarem línguas". (15) Contudo, se essa frase de fato se
refere à glossolalia, é o único lugar na Bíblia onde o faz. Fora do Livro
de Atos, a palavra "intrepidez" (parresia), com suas cognatas, sempre se
refere a liberdade, franqueza, clareza de linguagem, confiança e
coragem. Em Atos, a palavra se emprega várias vezes (2:29; 4:13, 29,
31; 28:31) da mesma maneira. O mesmo se pode dizer a respeito do
verbo parresiadzomai (9:27,29; 13:46; 14:3; 18:26; 19:8; 26:26).

(15)
Beare, op. cit., p. 238 e Martin, op. cit., p, 12.
Movimento Moderno de Línguas 104
Nesse mesmo contexto, "falar a Palavra com intrepidez" relaciona-
se com o ministério público de curar, realizar sinais e maravilhas
(4:29,30). Também o moderno movimento de "línguas" pretende que
uma pessoa pode falar, orar ou cantar em línguas em qualquer tempo
após sua experiência inicial de glossolalia, que ocorreu quando foi
batizada no Espírito Santo. Se assim é, então por que os cristãos tiveram
de orar para que Deus lhes desse novamente essa experiência (4:29)? A
única interpretação correta dessa passagem é que os discípulos oraram a
Deus, pedindo que lhes desse coragem para levar avante o ministério
público diante das ameaças e a perseguição por parte dos líderes
judaicos. O fenômeno de falar línguas não pode ser achado aqui.

Atos 8:5-25

A segunda recepção desusual do Espírito Santo ocorreu durante o


avivamento samaritano. Depois do martírio de Estêvão, houve uma grande
perseguição contra a igreja em Jerusalém, fazendo com que os crentes
fossem "dispersos pelas regiões da Judéia e de Samaria" (At. 8:1). Filipe
foi "à cidade de Samaria e pregava-lhes a Cristo" (8:5). Seu ministério
oral foi acompanhado de milagres e sinais – expulsão de demônios e
curas físicas (8:6,7,13). Seu ministério atraía a atenção dos samaritanos,
causando-lhes grande alegria e neles produzindo fé salvadora (8:6,8,12).
Os samaritanos eram uma raça mista, com índole pagã (II Reis
17:14; Esd. 4:2). Quando os assírios venceram Israel, o Reino do Norte
(722 a.C.), tiraram da terra os israelitas proeminentes e repovoaram a
região com gentios pagãos (II Reis 17:24). Essa integração produziu
como resultado o casamento recíproco dos gentios com a raça
samaritana, que se tornou, assim, meio-judia e meio-gentia. Os
samaritanos também tinham uma religião diferente da dos judeus na
Judéia (II Reis 17:27; cf. João 4:20-22). Esses dois fatos de mistura
racial e religião rival causaram uma grande separação e um ódio intenso
entre os judeus e os samaritanos (Esd. 4; cf. Luc. 9:52,53; João 4:9).
Movimento Moderno de Línguas 105
Esses eram o povo do qual se diz que: "quando creram em Filipe, que
lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus, batizavam-se
homens e mulheres" (8:12).
Então Lucas deu este registro da sua recepção do Espírito Santo:
Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, tendo ouvido que os
de Samaria haviam recebido a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e
João, os quais, tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o
Espírito Santo. (Porque sobre nenhum deles havia ele descido ainda; mas
somente tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus.) Então lhes
impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo (8:14-17).
Várias observações devem ser feitas acerca dessa passagem única.
Primeiro, havia um lapso definido de tempo entre a conversão e batismo
dos samaritanos e sua recepção do Espírito Santo. Unger tentou
argumentar que os samaritanos não foram salvos antes que descessem
Pedro e João, (16) porém isto é contrário ao sentido claro e literal do
relato de Lucas (8:12,14; cf. 2:41). Também, se os samaritanos não
foram salvos até que chegassem Pedro e João, por que, então, Filipe os
batizou? Ademais, por que não foram batizados os samaritanos depois de
sua experiência de salvação com Pedro e João? O batismo depois da
salvação é a norma bíblica (2:41; 8:36-38).
Segundo, os samaritanos receberam o Espírito Santo através da
oração e da imposição de mãos de Pedro e João (8:15-17). Como
representativos do grupo inteiro dos apóstolos, Pedro e João oraram
pelos samaritanos para que estes recebessem o Espírito Santo. Não há
nenhuma indicação de que os samaritanos pediram em oração essa
experiência ou que estivessem orando no tempo dessa experiência. Não
há indicação de que Filipe orasse a favor deles. Também, os apóstolos
lhes impuseram as mãos (8:17). Não há indicação nenhuma de que
Filipe, o evangelista, lhes impusesse as mãos. O significado destes fatos
"faz com que o batismo dos samaritanos sem a recepção do Espírito apareça
como algo extraordinário: o avanço de acordo com a época do cristianismo

(16)
Unger, op. cit., p. 66.
Movimento Moderno de Línguas 106
para além das fronteiras da Judéia, para dentro de Samaria, não ia ser
efetivado sem a intervenção do ministério direto dos apóstolos." (17)
A ausência dos sinais que acompanharam a descida do Espírito
Santo no dia de Pentecostes é importante. Não há menção do som como
que de um vento impetuoso nem das línguas distribuídas como que de
fogo (2:2,3). Ainda que a glossolalia não seja explicitamente mencionada
na passagem, muitos comentaristas crêem que o fenômeno ocorreu
então. (18) Esta posição se baseia no emprego de "viram" (idon) na frase:
"Quando Simão viu que pela imposição das mãos dos apóstolos se dava
o Espírito, ofereceu-lhes dinheiro" (8:18). Que viu Simão que fez com
que oferecesse dinheiro aos apóstolos? A resposta comum é que Simão
os viu falando línguas.
Brumback admitiu que essa é evidência circunstancial, porém ele
cria que a presença da glossolalia em outros registros sustentaria a sua
suposição. Ele declarou: "O peso da prova parece mais certamente caber
àqueles que asseveram que a glossolalia não estava presente nessa
ocasião." (19) Será que podemos achar provas de que não houve
glossolalia então? Sim, há algumas.
Primeiro, o fenômeno não é mencionado na passagem. Este fato
torna-se importante quando se reconhece que línguas são mencionadas
mais tarde por Lucas (At. 10:44-48; 19:1-7). Se Lucas quisesse
apresentar um padrão para se receber o Espírito Santo acompanhado pela
glossolalia, será que teria omitido essa segunda referência ao fenômeno?
Teria sido mais lógico e mais natural omitir-lhe a referência mais tarde,
uma vez estabelecido o padrão.
Segundo, o emprego de "viu" (idon) não é conclusivo. O falar
línguas apelaria mais ao sentido da audição que ao da visão (cf. 10:46).

(17)
Heirich August Wilhelm Meyer, Critical and Exegetical Handbook of the Acts of the Apostles
(New York: Funk & Wagnalls, 1889), p. 70.
(18)
Bruce, op. cit., p, 181. Também Merrill C. Tenney, The Zondervan Pictorial Bible Dictionary
(Grand Rapids: Zondervan Pub. House, 1963), pp. 859-60.
(19)
Brumback, op. cit., p. 214.
Movimento Moderno de Línguas 107
Os fenômenos de Pentecostes foram tanto ouvidos como vistos pelos
observadores (cf. 2:33). Seu argumento seria conclusivo, caso o registro
declarasse que Simão tanto "viu" como "ouviu".
Terceiro, Simão simplesmente viu que os apóstolos lhes impuseram
as mãos. Ele queria esse poder, que se realizava (conforme ele pensava)
através da imposição de mãos (8:19). De fato, o peso da prova cai sobre
aqueles que inserem no texto esse fenômeno quando não é
especificamente mencionado. Nesta base, poder-se-ia afirmar que o som
do vento e as "como línguas de fogo" também estiveram presentes. Isso é
"eisegese" subjetiva, não exegese objetiva.

Atos 10:1-11:18

A terceira recepção desusual do Espírito Santo ocorreu em


Cesaréia, uma cidade na costa da Palestina, na grande estrada que liga
Tiro ao Egito (10:1,24; 11:11,12). Cornélio, centurião romano e gentio,
recebeu a ordem de um anjo, numa visão, para que chamasse a Pedro,
que estava em Jope. Fato notável também foi que o próprio Pedro
recebeu uma visão de Deus, na qual lhe foi ensinado não considerar
impuros ou inferiores os gentios. Depois de ouvir o relatório dos
enviados de Cornélio, Pedro foi com eles até Cesaréia.
Após Cornélio reiterar a sua visão, Pedro lhe pregou o evangelho,
como também a sua casa. Lucas, então, apresenta este clímax:
Enquanto Pedro ainda dizia estas coisas, desceu o Espírito Santo
sobre todos os que ouviam a palavra. Os crentes que eram da
circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de
que também sobre os gentios se derramasse o dom do Espírito Santo;
porque os ouviam falar línguas e magnificar a Deus.
Respondeu então Pedro: Pode alguém porventura recusar a água para
que não sejam batizados estes que também, como nós receberam o Espírito
Santo? Mandou, pois, que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.
Então lhe rogam que ficasse com eles por alguns dias (At. 10:44-48).
Movimento Moderno de Línguas 108
Desta passagem pode-se tirar várias conclusões.
Primeiro, Cornélio recebeu o Espírito Santo no momento exato em
que creu em Cristo para a salvação. Antes desta experiência, Cornélio
não estava salvo. Apesar de que era "homem piedoso e temente a Deus,
com toda a sua casa, e fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava
a Deus" (10:2), o anjo disse-lhe que enviasse a Jope para chamar a
Pedro, "o qual te dirá palavras pelas quais serás salvo" (11:14), Lucas
escreveu que "enquanto Pedro ainda dizia estas coisas, desceu o Espírito
Santo sobre todos os que ouviam a palavra" (10 :45).
Qual é o antecedente de "estas coisas"? No v. 43, Pedro acabara de
chegar, na sua mensagem, ao âmago essencial do evangelho: "A ele
todos os profetas dão testemunho de que todo o que nele crê receberá a
remissão dos pecados pelo seu nome" (10:43). Quando Pedro mencionou
a crença em Cristo, os corações espiritualmente preparados de Cornélio e
de sua casa responderam em fé salvadora, e foi nesse momento que o
Espírito Santo desceu sobre eles. Essa experiência é contrária à tese
básica do moderno movimento de "línguas".
Thomas Zimmerman, superintendente geral das "Assembléias de
Deus", declarou: "Há um número de passagens bíblicas (João 14:17; At.
2, 8, 19; Ef. 1:3) que poderiam indicar que os crentes não recebem o
enchimento ou plenitude ou batismo do Espírito Santo no tempo de sua
conversão." (20) Todavia, Zimmerman nunca se referiu a essa experiência
de Cornélio, a qual contradiz em si a sua tese.
Segundo, no momento em que Cornélio recebeu o Espírito Santo,
ele estava ouvindo e Pedro estava pregando (10:33, 34; 11:15). Pedro
não orou para que as pessoas presentes recebessem o Espírito nem lhes
impôs as mãos. Não há nenhuma indicação de que o próprio Cornélio
tivesse orado para ganhar essa experiência. Na verdade, é provável que
ele nada soubesse acerca do fenômeno de "falar línguas" (notar seu
silêncio anterior e também o de Pedro sobre esse assunto).

(20)
Zimmerman, "The Pentecostal Position", op. cit., pp. 3-7.
Movimento Moderno de Línguas 109
Terceiro, a evidência de sua recepção do Espírito foi a sua
glossolalia (10:45-46), mas nota-se também o som como que de um
vento impetuoso e a ausência das línguas distribuídas como que de fogo.
Enfatizando a descida "uma vez por todas" do Espírito Santo ao mundo
no Pentecostes, manifestada por esses sinais e a falta de dois deles aqui,
Kuyper escreveu: "Isto confirma a nossa teoria; pois não foi uma vinda
para a casa de Cornélio, porém uma condução do Espírito Santo para -
outra parte do corpo de Cristo." (21)
Esta glossolalia foi em idiomas conhecidos, reconhecidos e
compreendidos pelos observadores, Como poderiam os cristãos judaicos
saber que Cornélio e sua casa estavam magnificando a Deus, a não ser
que entendessem o idioma (10:46)? Também se empregam as mesmas
palavras aqui para descrever o fenômeno como no Pentecostes (10:46;
2:4; cf. Cap. IV). O conteúdo das línguas foi também o mesmo das de
Pentecostes – magnificando a Deus (megalunonton ton Theon; 10:46) ou
declarando as obras maravilhosas de Deus (ta megaleia tou Theou; 2:11).
Esse fenômeno pasmou os cristãos judaicos, porque eles ainda não
compreendiam que Deus queria que os gentios também fossem salvos
(10:45, 46; 11:1-3, 18). Pedro relatou à igreja em Jerusalém que o
Espírito Santo caiu sobre os mesmos gentios assim "como também sobre
nós no princípio" (11:15). Sem dúvida, esta é uma referência à
experiência do Pentecostes, mas, por que Pedro sentiu a necessidade de
comparar esses dois eventos? O do Pentecostes ocorreu cerca de sete
anos antes desse. Dar-se-ia o caso de não haver ocorrido o fenômeno de
falar línguas nesse intervalo? Certamente ele poderia ter se referido aos
eventos de Atos 3-9, se esses eventos realmente incluíram o falar línguas.
Isto pode formar outro argumento, pela ausência do fenômeno em Samaria.
Uma quarta observação é que Cornélio foi batizado em água depois
de ter recebido o Espírito Santo e de ter falado línguas. Isso difere tanto
da experiência dos apóstolos (Atos 2) como da dos samaritanos (At. 8).

(21)
Kuyper, op. cit., p. 132.
Movimento Moderno de Línguas 110
Assim, o "falar línguas" ocupou uma grande parte nessa introdução
da mensagem do evangelho aos gentios.

Atos 19:1-7

A quarta e final recepção desusual do Espírito Santo aconteceu em


Éfeso sob o ministério de Paulo (19:1). Ela envolveu doze discípulos de
João, o Batista (19:1,37), que não sabiam que Cristo viera ao mundo,
morrera, fora ressuscitado e ascendera aos céus (19:4) e que o Espírito
Santo viera ao mundo (19:2). (22) É possível que eles tenham sido
convertidos sob o ministério do Batista na Palestina. Depois de voltarem
a Éfeso, podiam não ter ouvido falar da vinda de Cristo. Ainda
esperavam o Messias. Ou podiam ter recebido seu conhecimento
espiritual de Apolo (At. 18:24-19:1) ou da mesma fonte de que Apolo
aprendera. Em qualquer caso, esses discípulos tem de ser considerados
como crentes do tipo do Velho Testamento.
Sua designação por Lucas como "certos discípulos" (19:1) é método
por ele usado para denotar crentes verdadeiros (cf. 6:1; 9:10; 11:25).
Também a pergunta de Paulo inferiu a fé por parte deles, porém com a
falta de graças espirituais e de poder (19:2). (23)
Nota do Tradutor: O célebre erudito Dr. A. T. Robertson diz: "O
particípio, primeiro aoristo, pisteusantes é simultâneo com o segundo
aoristo, ativo, indicativo elabete e se refere ao mesmo evento" – Word
Pictures in the New Testament, III, p. 311.
(22)
Sua resposta à pergunta de Paulo sugere ignorância da existência do Espírito Santo. Todavia, não é
assim o caso. Este uso de estin envolve o sentido de "dado" ou "vindo" para completar o sentido
(cf. a mesma construção em João 7:39). João, o Batista, ensinara claramente aos seus discípulos
acerca da existência do Espírito Santo e seu futuro ministério (Mat. 3:11). Como discípulos dele,
esses doze teriam conhecido isso.
(23)
Essa pergunta, ainda que importante, não é essencial ao problema da glossolalia. O particípio
aoristo é traduzido literalmente, "tendo crido". Em sintaxe, pode ser usado acerca de ação
antecedente ("desde que crentes") ou de ação simultânea ("quando crentes"). Se é simultânea,
Paulo estava se referindo à recepção normal do Espírito hoje em dia (cf. Rom. 8:9). Se é
antecedente, estava se referindo à maneira desusual, transicional de receber o Espírito (cf. At. 8).
Movimento Moderno de Línguas 111
Paulo explicou a posição esquisita deles de serem santos do Velho
Testamento na dispensação do Novo Testamento:
Mas Paulo respondeu: João administrou o batismo do arrependimento,
dizendo ao povo que cresse naquele que após ele havia de vir, isto é, em
Jesus. Quando ouviram isso, foram batizados em nome do Senhor Jesus.
Havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e
falavam línguas e profetizavam (At. 19:4-6).
Esses doze discípulos sabiam que deveriam crer em um que viria
após João. Quando Paulo lhes explicou que aquele era o Cristo, creram
nele e manifestaram a sua crença no batismo cristão. Tornaram-se
crentes do Novo Testamento e membros da verdadeira igreja. Caso eles
tivessem morrido depois do Calvário e antes dessa explicação, teriam
sido classificados como santos velhotestamentários. O batismo cristão
era necessário porque o batismo de João estivera orientado para Israel e
para a esperança judaica do reino messiânico (M.at. 3:2; 10:5-7; João 1:31).
Depois de Paulo lhes impor as mãos, eles receberam o Espírito
Santo e falaram línguas. Não há nenhuma indicação de que Paulo orasse
por eles nem de que orassem por si mesmos para que ganhassem essa
experiência. Essa glossolalia mais uma vez foi em idiomas conhecidos
(cf. Cap. IV). Se a profecia formou uma parte ou todo o conteúdo da
fala, então Paulo a devia ter compreendido. Visto que Lucas empregou
os termos comuns para descrever o fenômeno (cf. At. 2:4; 10:46), esta
conclusão é lógica. Também não há menção do som como que de um
vento impetuoso nem das línguas como que de fogo. (24)

Conclusão

Acham-se no Livro de Atos quatro recepções desusuais. Ocorreram


em quatro áreas diferentes (Jerusalém, Samaria, Cesaréia e Éfeso) e
envolveram quatro classes diferentes de pessoas (judeus, samaritanos,
gentios e os discípulos de João Batista).

(24)
Roy L. Laurin, Acts: Life in Action (Findlay, Ohio: Dunham Publishing Co., 1962), p. 157.
Movimento Moderno de Línguas 112
A seguinte carta há de revelar que nem duas recepções eram
completamente idênticas.

Caps. 2 – 8 – 10 – 19

1. Som como que de um vento x


2. Línguas como que de fogo x
3. Glossolalia x x x
4. Imposição de mãos x x
5. O Espírito recebido após a salvação x x x
6. O Espírito recebido no momento da salvação x

Também, os discípulos ou estavam orando ou ouvindo um discurso


quando lhes sobreveio o Espírito (2). Pedro e João oraram a favor dos
samaritanos (8). Cornélio estava ouvindo e Pedro estava pregando (10).
Paulo havia apenas terminado a sua explicação (19). Visto que há tantas
diferenças nos acontecimentos, quais as conclusões que se pode tirar
desta fase do estudo?
Primeiro, não se pode formular, hoje em dia, nenhum padrão ou
modelo para a recepção do Espírito Santo. Buscando-se um padrão, qual
o capítulo que o fornecerá? Se for Atos 2, então a imposição das mãos é
desnecessária. Também o som como que de vento e as línguas como que
de fogo devem estar presentes. E os cristãos devem esperar em
Jerusalém. Se for Atos 8, então devem ser chamados os apóstolos, para
orarem e imporem suas mãos (Filipe e os samaritanos sozinhos não o
puderam fazer). Isto é impossível hoje em dia, porque os apóstolos não
mais estão vivos. Se for Atos10, então o Espírito é recebido no momento
da salvação, antes de serem os novos crentes batizados, e sem oração e
imposição de mãos. Se for Atos 19, a oração não é necessária. Que
significa tudo isso?
Movimento Moderno de Línguas 113
Como escreveu Laurin: "Não devemos cometer o trágico erro
espiritual de 'ensinar a experiência dos apóstolos', porém antes
experimentar o 'ensino dos apóstolos'." (24) A experiência dos apóstolos
acha-se em Atos, livro transicional, conquanto o ensino dos apóstolos
seja claramente exposto nas epístolas. Hoje em dia, um cristão é
assinalado como um que tem o Espírito (Rom. 8:9), e o homem
descrente é aquele que não tem o Espírito (Judas 19). Não há nenhum
período entre a conversão e a recepção do Espírito Santo.
Segundo, o caráter transicional do Livro de Atos tem que ser
reconhecido. Certas coisas aconteceram na igreja primitiva que eram só
temporárias na sua natureza. Nunca pretenderam tomar-se padrões
permanentes. Hoje em dia os cristãos não louvam a Deus num templo
judaico (2:46; 3:1). Os crentes não precisam vender tudo quanto têm
para sustentar os pobres (4:32-37). Hoje em dia os crentes não caem
mortos instantaneamente, abatidos, por haverem mentido (5:1-11). As
portas das prisões não se abrem sobrenaturalmente (5:19). Não há mais
conversões a Cristo hoje em dia mediante uma revelação direta e um
aparecimento de Cristo (9:1-19).
Esses exemplos devem ser suficientes para demonstrar a natureza
transicional de Atos. Visto que Deus estava introduzindo uma nova
dispensação, Ele fez certas coisas na época primitiva da Igreja que não
eram necessárias nas etapas posteriores da Era Apostólica ou na vida
permanente da Igreja. Essas recepções desusuais do Espírito Santo,
assistidas por fenômenos vários, inclusive a glossolalia, caem nesta
categoria.

O Significado das Línguas

O significado do fenômeno de falar línguas tem que ser apurado dos


registros bíblicos. Uma vez que se tenha feito isto, os pontos de vista

(24)
Roy L. Laurin, Acts: Life in Action (Findlay, Ohio: Dunham Publishing Co., 1962), p. 157.
Movimento Moderno de Línguas 114
contemporâneos quanto ao significado podem ser examinados. A nenhum
sistema teológico deve ser permitido impor-se sobre o registro bíblico.

O Significado Bíblico

O Espírito Santo não podia assumir a sua tarefa enquanto não fosse
glorificado o Cristo (João 7:37-39). Jesus orou para que o Pai desse a
presença eterna do Espírito Santo a seus discípulos (João 14:16). Jesus
disse que o Espírito não poderia vir, a não ser depois de sua ascensão
(João 16:7). Quando o Espírito Santo desceu no dia de Pentecostes (At. 2) ,
foi em resposta à oração e à promessa de Cristo (Luc. 24:49; At. 2:33).
Os vários fenômenos, inclusive línguas, anunciaram objetivamente a
certeza do Seu Advento, tanto aos apóstolos como aos judeus incrédulos.
Foi um sinal aos judeus de que Jesus era verdadeiramente o Messias, de
que Ele morrera e ressuscitara corporalmente e de que Ele havia enviado
o Espírito Santo de Sua elevada posição no céu como prometera (At.
2:22-36). Desde que o Espírito Santo veio ao mundo, para assumir o Seu
Ministério até a volta de Cristo (II Tess. 2:6-7), a experiência do
Pentecostes nunca mais pôde ser repetida. Cristo enviou o Espírito uma
vez para o mundo. Essa vinda do Espírito não pode ser repetida mais do
que a vinda de Cristo ao mundo, na sua encarnação.
Assim, o falar línguas não foi o sinal evidente de uma experiência
que os apóstolos buscavam, porém antes um sinal do "nunca-a-ser-
repetido" advento do Espírito Santo ao mundo. Esse começo de uma
nova dispensação pode ser comparado com o da Lei. Quando a Lei foi
dada primeiramente por Deus, o evento foi acompanhado por trovões,
relâmpagos, fogo, fumaça e um terremoto (Êx. 19:16-18). Entretanto,
quando Deus deu a Moisés as segundas tábuas da Lei, depois de
quebradas as primeiras, os fenômenos não foram repetidos (cf. Êx. 34).
Essa primeira experiência de Israel com Deus e com a Lei não se tornou
um padrão normal. Nem tampouco deve a primeira experiência da Igreja
com o Espírito Santo esperar tornar-se um padrão normal.
Movimento Moderno de Línguas 115
Se o falar línguas realmente ocorreu em Samaria (At. 8), então o
fenômeno foi um sinal aos meio-judeus de sua necessária dependência e
sujeição à autoridade dos apóstolos judaicos. Caso recebessem o Espírito
Santo instantaneamente na ocasião de serem salvos ou através da
instrumentalidade de um judeu da Grécia (Filipe), eles talvez estabelecessem
um ramo rival de cristianismo, em oposição ao de Jerusalém. Seu fundamento
racial e religioso tornava isso uma possibilidade definida. A glossolalia, por
conseguinte, foi a evidência objetiva de que eles haviam de fato recebido o
Espírito Santo através dos apóstolos judaicos.
No começo, o evangelho não foi pregado aos gentios, embora Jesus
o tivesse ordenado (At. 2-9; 11:19; cf. Mat. 28:18-20). Os judeus,
inclusive os cristãos judaicos, consideravam os gentios como sendo
indignos da salvação, comuns e impuros (At. 10:9-16, 28, 34-35;
22:21,22). Deus teve que ensinar a Pedro o valor e a "salvabilidade" dos
gentios antes de ele ir à casa de Cornélio (At. 10:9-35). Depois que
foram salvos Cornélio e sua casa, os cristãos judaicos em Jerusalém
protestaram contra os fatos de Pedro ter visitado a casa de Cornélio e ter
comido com eles (At. 11:1-3).
Assim, para mostrar aos cristãos judaicos que os gentios também
podiam ser salvos e que diante de Deus eles eram iguais aos judeus, o
Espírito Santo foi dado no momento da salvação deles sem a oração
apostólica ou a imposição de mãos. A glossolalia foi o sinal objetivo aos
judeus de que os gentios de fato foram salvos e receberam o Espírito
Santo. Esse fenômeno convenceu tanto os observadores (10:45-46) como
os críticos judaicos (11:18) desses fatos.
A ocorrência e o significado do fenômeno em Éfeso (At. 19:1-7)
foram únicos. Wuest disse que "Atos 19:6 tem a ver com o caso especial
onde judeus haviam vindo à salvação sob a dispensação da Lei do Velho
Testamento e agora estavam recebendo os benefícios adicionais da Era
da Graça, um caso que não pode ocorrer hoje em dia" (25) (o grifo é

(25)
Kenneth S. Wuest, Untranslatable Riches from the Greek New Testament (Grand Rapids: Wm.
Eardman's Pub. Co., 1943), p. 109.
Movimento Moderno de Línguas 116
meu). Visto que esses discípulos de João, o Batista, demonstraram
ignorância quanto ao advento do Espírito Santo ao mundo, um sinal
objetivo era necessário para convencê-los de que seu novo passo de fé
era correto. Justamente como as línguas anunciaram o advento do
Espírito no Pentecostes, essa glossolalia convenceu-os de que o Espírito
Santo fora dado.
Essas quatro recepções desusuais do Espírito Santo, evidenciadas
pela glossolalia em pelo menos três casos, ocorreram quando o
evangelho e o Espírito Santo estavam sendo introduzidos a quatro
diferentes classes de pessoas que existiam depois da ascensão de Cristo –
judeus, tanto cristãos como descrentes; samaritanos (meio-gentios);
gentios; e os discípulos de João, o Batista. Quando o evangelho foi dado,
mais tarde, a membros destes quatro grupos, não há nenhum registro de
que o Espírito Santo fosse recebido de maneira desusual, acompanhada
pela glossolalia.

Evidência do Batismo no Espírito Santo

Segundo o moderno "movimento de línguas", a glossolalia é a


evidência do batismo do (com o, no ou pelo) Espírito Santo. Eles
equacionam o batismo do Espírito Santo com a plenitude do Espírito Santo
e aceitam a definição que Torreg deu acerca dele: "O batismo com o
Espírito Santo é a vinda do Espírito de Deus sobre o crente, tomando
possessão de suas faculdades, transmitindo-lhe dons que não lhe eram
inatos, mas que o qualificam para o serviço para o qual Deus o tenha
chamado." (26) Essa experiência, diferente da regeneração, geralmente
ocorre depois da salvação. Não envolve a erradicação da natureza
pecaminosa, porém dá o poder e a capacidade para o serviço cristão.
Expressões ou termos como "cheios do Espírito Santo" (At. 2:4), "receber"
(At.1:8), "vir sobre" (At. 19:6), "promessa" (At. 1:4), "revestido de poder"
(Luc. 24 :49) e "dom" (At. 2:38) se referem todos à mesma experiência. Os
(26)
R. Torrey, The Baptism with the Holy Spirit (New York: Fleming H. Revell Company, 1897), p. 24.
Movimento Moderno de Línguas 117
pentecostais crêem que o Espírito Santo habita no crente no momento da
salvação, porém que Ele o "enche" ou "batiza" mais tarde. Essa última
experiência, crêem eles, é evidenciada pela glossolalia.
Embora, Torrey não tenha dito que a glossolalia era sinal dessa
experiência, os pentecostais têm afirmado que é. Brumback disse que é
"uma experiência carismática, isto é, de caráter transcendente e
milagroso, produzindo efeitos extraordinários que são visíveis ao
observador, a sua vinda inicial sendo assinalada pela glossolalia". (27)
As Assembléias de Deus não consideram a glossolalia como um
sinal, porém como o sinal do batismo do Espírito. Essa denominação
aprovou a seguinte resolução: "Fica estabelecido que este concílio
considere como um desacordo sério com os Fundamentais se qualquer
ministro entre nós ensinar contrário ao nosso testemunho distintivo de
que o batismo no Espírito Santo seja acompanhado pelo sinal físico,
essencial, de falar em outras línguas." (28)
Ainda que esta seja a opinião da maioria do "moderno movimento
de línguas", alguns do Full Gospel (Pleno Evangelho) não aceitam a
glossolalia como o único ou necessário sinal. (29)
O padrão bíblico permanente, de todos os batismos com o Espírito
Santo, baseia-se em Atos 2:4: "E todos ficaram cheios do Espírito Santo,
e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia
que falassem." Se alguém perguntasse acerca do som e das línguas como
que de fogo, esta seria sua resposta: "Todavia, apesar do fato de que
houve muitos aspectos do Pentecostes que eram peculiares só àquele dia,
para nunca mais serem repetidos, havia algumas coisas acerca do dia que
se estabeleceram como um padrão para os futuros crentes." (30)

(27)
Brumback, op. cit., p. 184.
(28)
Citado por Carl Brumback, Suddenly from Heaven (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House,
1961), p. 223.
(29)
J. E. Stiles, Jr. "Letter to the Editor", Christianity Today, VIII (8-11-1963), p. 11.
(30)
Brumback, What Meanth This?, op. cit., pp. 196-97.
Movimento Moderno de Línguas 118
Isto, todavia, é muito subjetivo. Quem é que determina quais os
fenômenos que deveriam ser permanentes ou temporários? Também,
visto que a imposição de mãos não é mencionada aqui, por que, então,
ela se tem tornado uma parte do seu padrão? Dalton argumentou: "Toda
a lógica exige que haja uma evidência distinta, inicial, de que a
experiência do batismo com o Espírito Santo tenha vindo ao crente." (31)
Não é baseado este argumento na lógica ou sobre o raciocínio, em
vez de nas Escrituras? Não há evidência física da experiência da
regeneração quando a pessoa recebe a presença do Espírito Santo, que
possa habitar nela. A certeza da salvação decorre simplesmente de se
crer na Palavra de Deus (João 1:12; 3:16), do testemunho interior do
Espírito Santo (Rom. 8:16) e da vida modificada resultante (Tiago 2:24;
I João 3:14). Assim, à segurança de uma vida cheia do Espírito provém
de uma vida de testemunho (At. 1:8) e da frutificação do caráter cristão
(João 15 :1-8; Gál. 5:22, 23). Exigir evidência física é andar pela vista,
em vez de pela fé.
Como se pode receber o batismo do Espírito Santo? A declaração
de fé das Assembléias de Deus reza assim: "Nós cremos que o batismo
do Espírito Santo, conforme Atos 2:4, é dado a crentes que o pedem." (32)
Hurst mencionou seis requisitos espirituais: ter sede e buscar (João
7:37,38; Mat. 5:6; João 4:14; Is. 55:1; Jer. 29:13), ter fé (Heb. 11:6),
pedir em oração (Luc. 11:13), receber (João 20:22), render-se (Joel 2:28-
29) e beber. (33)
Um exame dessas ordens e das passagens dadas para sustentá-las há
de revelar que elas têm sido tiradas do seu contexto, sendo mal aplicadas.
Jesus falou de uma sede de salvação (João 5:14; 7:37,38) e pela
santidade na vida e no mundo (Mat. 5:6). O mandamento de "receber"
foi dado aos discípulos na tarde da ressurreição (João 20:22). A ordem-

(31)
Dalton, op. cit., pp. 75 e 76.
(32)
"Interesting Facts about the Assemblies of God", The Pentecostal Evangel (16-9-1962) p. 12.
(33)
D. V. Hurst, "How to Receive the Baptism with Holy Ghost", The Pentecostal Evangel (26-4-
1964), pp. 7-9.
Movimento Moderno de Línguas 119
chave dessa posição é "pedir", porém não há registro ou menção de que
os discípulos, os samaritanos e Cornélio e os discípulos de João, o
Batista, tenham pedido a experiência. Muitas instruções de auto-
sugestões são também dadas para tornar mais fácil a experiência:
1. Ajudar o candidato a ver que o dom já é dado e tudo quanto ele tem de fazer
é recebê-lo.
2. Levá-lo a reconhecer que qualquer pessoa salva pelo batismo está preparada
para receber o batismo do Espírito.
3. Dizer-lhe que, quando se lhe impuserem as mãos, ele receberá o Espírito.
4. Dizer ao candidato que ele deve esperar que o Espírito atue sobre suas
cordas vocais, mas que ele terá que cooperar com a experiência também.
5. Dizer-lhe que lance fora todo o medo de que seja falsa essa experiência.
6. Dizer-lhe que abra bem a boca e respire tão profundamente quanto lhe seja
possível, dizendo a si mesmo que ele está recebendo o Espírito naquele
momento.
7. Não o ficar perturbando e dando-lhe toda sorte de instruções.
Guardar uma atmosfera de unidade e devoção e de silêncio.

Essas instruções preparatórias e auxílios são inteiramente estranhos


aos registros bíblicos. São contrários à espontaneidade e à soberania do
ministério do Espírito. Tais instruções só poderiam conduzir à um
esforço humano para reproduzir um fenômeno bíblico. Levariam
inevitavelmente a uma experiência auto-imposta e a uma auto-desilução
(por exemplo, "dizendo-se a si mesmo (n° 6) que se está naquele
momento recebendo o Espírito).
Há várias outras razões por que esse ponto de vista do "Moderno
movimento de línguas" está errado.
A primeira é que eles confundiram o batismo do Espírito Santo com
o enchimento ou plenitude do Espírito Santo. Unger dá seis razões por
que esses dois ministérios do Espírito Santo devem ser guardados
distintos um do outro. (34) Primeiro, o batismo do Espírito é uma obra
realizada uma vez por todas, conquanto o "enchimento" ou o "ficar

(34)
Unger, op. cit., pp. 15-20.
Movimento Moderno de Línguas 120
cheio" seja um processo contínuo. A ordem "enchei-vos do Espírito"
(plerousthe, Ef. 5:18) está no tempo presente, indicando uma experiência
repetida. Os discípulos ficaram cheios repetidamente (At. 2:4; 4:8,31).
Mas o batismo é um evento único (Ef. 4:5) e (Rom. 6:3,4; 1 Cor. 12:13;
Gál. 3:27; Col. 2:12).
Segundo, o "batismo do Espírito Santo" é não-experimental (não
experimentado), enquanto que o enchimento é experimental. O batismo é
algo que Deus faz pela pessoa sem que ela o saiba. O enchimento é uma
experiência a ser desejada e atingida.
Terceiro, não há nenhuma ordem para que alguém seja batizado
com o Espírito, porém há um mandamento de ficar cheio (Ef. 5:18).
Quarto, o batismo do Espírito Santo é universal entre os cristãos,
mas "ficar cheio" não é. Paulo escreveu : "Pois em um só Espírito fomos
todos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer
escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito" (I
Cor. 12:13). A ordem de ficar cheio do Espírito (Ef. 5:18) implica em
que alguns não estavam cheios.
Quinto, o batismo do Espírito é totalmente diferente do "encher"
quanto aos resultados. O batismo nos une a Cristo e nos faz membro do
Corpo de Cristo (Rom. 6:3,4; I Cor. 12:13). O "encher" produz alegria,
gratidão, submissão, serviço e o caráter cristão (Ef. 5:19-21; Gál. 5:22,23).
Sexto, o batismo do Espírito é totalmente diferente do "encher" nas
condições sob as quais é recebido. Quando uma pessoa crê em Cristo
para a salvação, naquele mesmo momento ela é batizada no Espírito
Santo. Quando um crente é separado de pecado pessoal conhecido e
totalmente submisso ao Espírito, será enchido ou controlado pelo
Espírito. Assim, quando uma pessoa é batizada no Espírito Santo, está
vitalmente unida a Cristo na sua morte, sepultamento e ressurreição
(Rom. 6:3,4; Gál. 3:27; Col. 2:12). Esse ato de Deus dá ao crente uma
posição exaltada e forma a base de sua santificação e do seu viver cristão
vitorioso (Rom. 6:1-13). Por ser unido a Jesus Cristo, o crente também se
Movimento Moderno de Línguas 121
torna membro do corpo de Cristo, a igreja verdadeira, da qual o cabeça é
Cristo (I Cor. 12:13; Ef 1:22,23).
Uma segunda razão por que sua posição está errada é porque eles
têm enfatizado a experiência pessoal acima da doutrina das Escrituras.
Mahoney escreveu: "Não é a doutrina do Pentecostes, porém a
experiência que tem abençoado a milhões. Não precisamos da teologia
do batismo do Espírito Santo. Precisamos do poder daquele batismo.
Então a doutrina cuidará de si mesma." (35) Essa declaração está contrária
às Escrituras. Ela torna a experiência a base da fé e da prática em lugar
da Bíblia. A experiência não deve formular a sua doutrina, porém a
doutrina deve formular ou determinar a experiência. De fato, muitos
testemunhos do "moderno movimento de línguas" acerca da experiência
do batismo são muito parecidos com a posição neo-ortodoxa do encontro
de crise. Alguém escreveu:
"Vós me perguntastes por que o batismo do Espírito Santo é profético,
antes que místico. O misticismo implica na busca de Deus por parte do
homem, através de meditações prolongadas etc, enquanto a profecia se
refere ao ato de Deus "impulsionar-se não somente para achar o homem,
mas para abençoá-lo e para falar-lhe e através dele."(36)
Uma terceira razão é que suas experiências são contrárias às
experiências nos registros bíblicos. Todos os casos de glossolalia nos
Atos foram em idiomas estrangeiros, conhecidos aos observadores. Qual
é a situação hoje em dia? Bach confessou: "Raramente o experimentador
fala numa das línguas conhecidas do mundo." (37)
Para que seja a mesma experiência como a das personagens
bíblicas, a natureza do fenômeno deve ser também a mesma.
Paul L. Morris, pastor da Igreja Presbiteriana Hillside, em Jamaica,
Nova York (uma igreja que anteriormente financiava bazares, bailes,
jantares, festas de cozinha e bancadas para a venda de verduras), relatou
(35)
Mahoney, op. cit., p. 6.
(36)
Letter from an Anglican Priest to a Spiritual Child (Van Nuys, Calif.: Blessed Trinity Society), tract.
(37)
Marcus Bach, "Whether There Be "Tongues," Christian Herald (maio de 1964), p. 10. Ver
também o Apêndice I.
Movimento Moderno de Línguas 122
que o Espírito Santo entrou e tomou conta durante uma reunião de
oração. Mais tarde, quando ele se deitou na cama, começou a falar numa
língua desconhecida. (38) Essa experiência pessoal é contrária àquela dos
apóstolos, que começaram a falar em línguas conhecidas no mesmo
momento em que o Espírito chegou e tomou posse deles.
Assim, a posição de que a glossolalia é a evidência do batismo do
Espírito Santo tem de ser considerada como sendo anti-escriturística
quanto a sua origem e também na sua prática.

Cumprimento da Profecia de Joel

Os que defendem a pretensão do "moderno movimento de línguas"


dizem que suas experiências e as dos apóstolos (At. 2) são o
cumprimento da "chuva temporã" e da "serôdia" predita por Joel (Joel
2:23, 28-32; cf. At. 2:16-21). Baseiam eles seus argumentos na citação
de Joel feita por Pedro e sua declaração: "Mas isto é o que foi dito pelo
profeta Joel" (alla touto estin to eiremenon dia tou prophetou Joel; At.
2:16). Dizem eles que a chuva temporã ali referida é o derramamento
original do Espírito Santo evidenciado pela glossolalia e a "chuva
serôdia" é o avivamento carismático no século vinte, também evidenciado
pelo falar línguas.
Todavia, será que a expressão "isto é o que" poderá sustentar tal
pretensão? Gaebelein argumentou negativamente:
Há uma grande diferença entre estas palavras e uma declaração total
do cumprimento da passagem. As palavras de Pedro chamam a atenção
para o fato de que algo parecido com o que aconteceu no dia do Pentecostes
fora predito por Joel, porém suas palavras não pretendem que a profecia de
Joel fosse ali e então cumprida. Nem tampouco insinua um cumprimento
contínuo ou um cumprimento futuro durante a época presente. (39)

(38)
Harold Bredesen, "Discovery at Hillside", Christian Life, XX (janeiro de 1959), pp. 16 e 17.
(39)
Arno C. Gaebelein, The Annotated Bible (New York: Our Hope, 1916), V, p. 108.
Movimento Moderno de Línguas 123
Esta conclusão pode ser verificada no próprio conteúdo da mesma
citação. Ainda que houvesse glossolalia no Pentecostes, não há nenhuma
indicação de que "filhos e filhas, servos e servas" profetizassem na
ocasião (At. 2:17,18). Não há evidência de que os mancebos tivessem
visões nem que os anciãos sonhassem sonhos (2:17). Não houve
"prodígios em cima no céu" nem "sinais embaixo na terra" (sangue,
fogo, vapor de fumaça, o sol convertido em trevas e a lua em sangue;
2:19,20). Essa profecia realmente se refere ao futuro "dia do Senhor"
(2:20) e aos últimos dias da história de Israel (2:17; cf. Joel 2:23,32).

Símbolo do Evangelho Universal

Philip Schaff, o grande historiador da igreja, disse que a glossolalia


no dia do Pentecostes "era uma antecipação simbólica e um
pronunciamento profético da universalidade da religião cristã, a qual
devia ser proclamada em todos os idiomas do mundo e unir todas as
nações em um só reino de Cristo". (40)
Um escritor recente concordou em que a mensagem das "outras
línguas" ou significado do Pentecostes era pregar o evangelho de Cristo em
todas as nações. (41) Ainda que isto talvez tenha sido uma parte do propósito
de Deus, por detrás do fenômeno das "línguas como que de fogo" e da
glossolalia, não pode ser demonstrado pelas Escrituras que este seja o
significado do Pentecostes. Ainda mais, esta explicação das línguas não
pode explicar adequadamente as ocorrências subseqüentes da glossolalia
(At. 10:44-48; 19:1-7).

Meio de Evangelização

Alguns têm considerado a glossolalia como um meio de se pregar o


evangelho àqueles cujos idiomas não se conhecia. Laurin escreveu: "A
(40)
Schaff, op. cit., I, pp. 232 e 233.
(41)
Harry R. Boer, "The Spirit: Tongues and Message", Christianity Today, VII (4-1-1963), p. 7.
Movimento Moderno de Línguas 124
primeira geração de cristãos precisava receber por milagre o que não
podia adquirir através do desenvolvimento, a saber, a capacidade de
testemunhar de Cristo em múltiplos idiomas, de maneira que se pudesse
multiplicar em número e avançar do ponto de partida onde se encontrava
e estabelecer-se plenamente no mundo hostil." (42) Ryrie confessou que
esta foi "uma das razões do fenômeno de glossolalia em Atos". (43)
Mesmo asseverando que a glossolalia é essencialmente a evidência física
inicial do batismo do Espírito Santo, o "moderno movimento de línguas" não
crê que o conteúdo das línguas tenha uma mensagem evangelística para os
descrentes. (44) Todavia, pode-se declarar dogmaticamente que "as obras
maravilhosas de Deus" (At. 2:11) continham uma mensagem evangelística. A
glossolalia apostólica de fato começou antes de se reunirem os incrédulos.
Quando os descrentes ouviram a glossolalia, aparentemente ela não
apresentava o evangelho nem trazia convicção de pecado (cf. At. 2:14.39;
especialmente 2:37). O "convite" não foi feito após o fenômeno de falar
línguas, mas somente depois do sermão que Pedro pregou. Também quando
Cornélio e os discípulos de João, o Batista, falaram línguas (At. 10:44-48;
19:1-7), não estavam presentes outros descrentes; portanto, o conteúdo das
línguas podia não ter sido evangelístico. Os registros bíblicos testificam o fato
de que, quando o evangelho foi pregado aos incrédulos, foi inteiramente à
parte da glossolalia (cf. as viagens missionárias de Paulo; Atos 13-20).

Um Sinal a Israel

W. H. Griffith Thomas pensava que a glossolalia era um sinal


específico e somente para Israel. (45) Foi uma demonstração de poder
para vindicar as pretensões de Jesus de ser o Messias. Não teve como
propósito ser um exercício permanente depois da rejeição final por parte
(42)
Laurin, op. cit., p. 48.
(43)
Ryrie, op. cit., p. 113.
(44)
Frodsham, op. cit., pp. 38, 39, 229-52. Isto também se pode observar em muitos testemunhos
contemporâneos.
(45)
W. H. Griffith Thomas, The Holy Spirit of God (Chicago: The Bible Institute Colportage Ass'n
1913), pp. 48 e 49.
Movimento Moderno de Línguas 125
de Israel (At. 28:17-31). Ryrie acrescentou que o falar línguas era sinal
de confirmação para o povo judaico da verdade da mensagem cristã. (46)
Foi uma confirmação tanto aos que observaram como aos que receberam
a dádiva.
Esta posição tem algum mérito, porém tem de ser cuidadosamente
expressa. Havia judeus presentes quando se falaram línguas (At. 2:5; 10:45;
19:6). No passado, línguas ou idiomas eram um sinal para Israel (I Cor.
14:21) e o dom de línguas, em parte, tinha esse significado em Corinto (I
Cor. 14:21, 22). Entretanto, Lightner sobrepujou este propósito quando
declarou que línguas eram "um sinal ao Israel descrente e incrédulo e uma
autenticação do mensageiro e da mensagem". (47) Isso talvez fosse verdade
no Pentecostes (At. 2) e em Corinto (I Cor. 14 :21-25), porém não era
possível que o fosse na casa de Cornélio (At. 10) e em Éfeso (At. 19).
Quando se deu o fenômeno, nesses dois últimos casos, somente judeus
salvos estavam presentes.
Nessa conexão, alguns têm contemplado a glossolalia como um sinal de
juízo sobre os incrédulos, por causa de sua incredulidade, com referência
primária aos judeus, mas também incluindo os gentios. (48) Isso se baseia no
fundo histórico da ilustração de Paulo e sua aplicação à situação em Corinto (I
Cor. 14:21, 22). A idéia é que, ainda que se falem línguas, os observadores
hão de permanecer na sua incredulidade. Mesmo que seja verdade que alguns
duvidaram e mofaram da experiência do Pentecostes (At. 2:12,13), todavia,
três mil pessoas foram atraídas pelo fenômeno e foram salvas através do
sermão de Pedro (At. 2:41; cf. 2:33). Também quando falaram línguas mais
tarde (At. 10,19), somente os salvos estavam presentes.
Indubitavelmente, o falar línguas tinha alguma significação para a
mente judaica, porém cada caso de glossolalia tem de ser estudado em
particular, para determinar o grau de seu significado. Os propósitos
variam com os registros.

(47)
Robert P. Lightner, Speaking in Tongues and Divine Healing (Des Plaines, III: Regular Baptist
Press, 1965), p. 20.
(48)
Lenski, First Corinthians, op. cit., p. 600.
Movimento Moderno de Línguas 126
Autenticação da Mensagem e do Mensageiro

Johnson escreveu: "O dom de línguas é o dom de falar um idioma


conhecido com o propósito de confirmar a autenticidade da mensagem
para a igreja apostólica." (49) Warfield cria que os dons espirituais eram
os sinais do apostolado (cf. I Cor. 12:12).(50) Os apóstolos tanto possuíam
os dons como a capacidade de os transmitir. Esses dons cessaram
gradualmente ao morrerem os apóstolos e os seus demais recipientes. É
verdade que Deus autenticou os apóstolos com sinais (Heb. 2:3,4; cf. At.
2:43; 4:16, 22, 30; 5:12; 14:3, 15, 12; Rom. 5:17-19).
Num sentido, as línguas autenticaram a mensagem apostólica no
Pentecostes (At. 2:32-36). Teriam vindicado a autoridade apostólica em
Samaria se de fato houvessem ocorrido ali (At. 8:14-17). Teriam
confirmado a explicação do evangelho que Paulo deu aos discípulos de
João (At. 19:1-7). Um problema, no sentido de se fazer com que a
vindicação seja o propósito exclusivo da glossolalia, acha-se na casa de
Cornélio (Atos10) e na igreja em Corinto. Cornélio fora preparado antes
para aceitar a autoridade e a mensagem de Pedro. A igreja em Corinto
praticava a glossolalia, não estando presente nenhum apóstolo, e em
reunião privada dos seus membros. Também se acham nessa posição
alguns elementos da verdade, todavia, ela só pode ser usada a respeito de
certos registros.

Sumário

No livro de Atos, há três casos claros de glossolalia (2:1-13; 10:44-


48; 19:1-7). Possivelmente, haja ainda um quarto (8:5-25), porém um
quinto caso alegado tem de ser rejeitado (4:31).

(49)
S. Lewis Johnson, Jr., "The Gift of Tongues and the Book of Acts", Bibliotheca Sacra, CXX
(Outubro-dezembro, 1963), p. 309.
(50)
Citado por Farrell, op. cit., pp. 4 e 5.
Movimento Moderno de Línguas 127
No dia do Pentecostes em Jerusalém, os apóstolos falaram línguas
quando o Espírito Santo desceu do céu (2:1-13). O seu falar línguas
conhecidas foi uma evidência objetiva de que o Espírito Santo de fato
viera, em cumprimento da promessa de Cristo, e foi um sinal aos judeus
de que Jesus era verdadeiramente o Messias e de que a mensagem
apostólica era verdadeira. Outros fenômenos, tais como o som como que
de vento e as línguas como que de fogo, confirmaram isso. O Espírito de
Deus não veio como uma resposta à oração apostólica ou da imposição
de mãos, porém no tempo soberanamente apontado pelo Pai. Assim, o
evento foi único e nunca pode ser repetido.
Em Samaria, os crentes samaritanos receberam o Espírito Santo
através da oração apostólica e da imposição de mãos (8:5-25). Essa
experiência ocorreu subseqüentemente à da sua salvação. Se eles de fato
falaram línguas, isso autenticou a autoridade dos apóstolos judaicos e
revelou aos judeus mestiços que dependiam deles e lhes eram submissos.
Em Cesaréia, Cornélio e sua casa, todos gentios, receberam o
Espírito Santo e falaram línguas no mesmo momento de crerem para a
salvação. Estavam simplesmente ouvindo o sermão de Pedro, quando
lhes sobreveio o Espírito. Não houve oração pessoal nem dos apóstolos e
nenhuma imposição de mãos. Subseqüentemente, foram batizados em
água. Esse fenômeno foi um sinal aos crentes judaicos, tanto aos
presentes como aos ausentes, de que os gentios podiam ser salvos e de
que eram iguais aos judeus diante de Deus.
Em Éfeso, os discípulos de João, o Batista, santos
velhotestamentários, creram na revelação adicional de Deus em Cristo
conforme explicada por Paulo. Depois de eles serem batizados em água e
depois de lhes terem sido impostas as mãos, receberam o Espírito Santo
e falaram línguas. Esse fenômeno autenticou tanto o mensageiro, Paulo,
como a mensagem a esses discípulos. Foi uma evidência objetiva de que
o Espírito Santo de fato fora dado como Paulo lhes dissera. Visto que
hoje em dia não mais estão vivos nenhuns santos do Velho Testamento,
essa experiência não pode ser repetida.
Movimento Moderno de Línguas 128
Esses quatro registros serviram para introduzir o Espírito Santo a
quatro classes diferentes de pessoas. Eram únicas. Nunca pretenderam
tornar-se um padrão permanente para uma experiência a ser procurada
pelos cristãos. Isso se demonstra pelos fatos de que nem dois desses
quatro registros são completamente idênticos e de que o livro de Atos é
basicamente transicional em seu caráter.
Pontos de vista contemporâneos, quanto ao significado de línguas,
foram apresentados. Vários desses são completamente errôneos. As
línguas (ou a glossolalia) não se podem aceitar como evidência do
Batismo do Espírito Santo, como pretende o moderno movimento de
"línguas". Tanto seu conceito acerca dessa doutrina como suas
experiências pessoais são estranhos ao registro bíblico. Sua interpretação
errada e sua aplicação errada da profecia de Joel têm de ser rejeitadas.
Os pontos de vista de que a glossolalia foi um meio de
evangelização ou o símbolo do evangelho universal também devem ser
renunciados, por causa da falta de sustento escriturístico. Que a
glossolalia foi um sinal para Israel e uma autenticação da mensagem e
autoridade apostólica pode ser aceito, porém somente em certas
passagens onde as Escrituras permitam esses propósitos.
O fenômeno, então, tinha significados múltiplos. Cada ocorrência
deve explicar seu próprio significado.
Movimento Moderno de Línguas 129
LÍNGUAS NA 1.ª EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS

A IGREJA EM CORINTO foi estabelecida por Paulo no decorrer de


sua segunda viagem missionária (At. 18:1-18). Durante os dezoito meses
que ele passou ali, encontrou muita oposição por parte dos judeus,
porém, a despeito de tudo, o trabalho cresceu, composto, na sua maior
parte, de gentios. Depois de Paulo sair de Corinto, muitos problemas
espirituais e morais ocorreram dentro da igreja. Paulo tomou
conhecimento desses problemas por meio da casa de Cloé (I Cor. 1:11),
de uma carta de inquirição que lhe foi enviada (7:1) e por meio de visitas
pessoais de alguns dos crentes de Corinto (16:17).
De Éfeso, no decorrer de sua terceira viagem, Paulo escreveu sua
Primeira Epístola aos Coríntios para corrigir a situação. Quais foram os
problemas da igreja? Havia divisões (1:11), carnalidade (3:3), conceitos
errados quanto ao ministério do evangelho (3:5-4:21), fornicação
grosseira (5:1), processos legais entre cristãos (6:1), abusos morais dos
corpos de crentes (6:15), ignorância quanto às relações do casamento (7:1)
e a propósito da virgindade (7:25), violações da liberdade cristã (8:1),
insubordinação das mulheres (11:2), abusos da Ceia do Senhor (11:17),
ignorância quanto à natureza de dons espirituais (12:1) e negação da
ressurreição física dos corpos dos crentes (15:1).
Stagg crê que a igreja em Corinto era caracterizada pela sabedoria
deste mundo (1:20), não pela sabedoria de Deus. (1) Isto se manifestou na
centralização do egoísmo, no amor próprio, na autoconfiança e na auto-
asserção. Um exame dos vários problemas discutidos por Paulo há de
revelar que os coríntios eram, por índole, orgulhosos e insistiam em que
se fizesse a sua vontade. Era essa a igreja que estava rica na possessão de
dons espirituais (1:5-7), porém ignorante quanto a sua natureza e uso
adequado (12:1), especialmente em relação ao dom de línguas.

(1)
Frank Stagg, "The Motif of First Corinthians", Southwesters Journal of Theology, III (Outubro de
1960), p. 15.
Movimento Moderno de Línguas 130
Schweizer resumiu bem essa situação:
Em Corinto havia um conceito acerca do Espírito de Deus que era
predominante e confundiu o Espírito Santo com o entusiasmo. Para os
coríntios, uma fala parecia tanto mais divina quanto mais milagrosa fosse.
Assim, a glossolalia alcançou o mais alto grau de maturidade espiritual
justamente porque se mostrou dependente de um poder misterioso que não
se podia identificar com nenhuma faculdade natural do homem. (2)
Esse conceito carnal, sem dúvida, foi um resíduo dos dias de sua
incredulidade, dias idólatras, quando a fala extática, feita por um
sacerdote pagão ou sacerdotisa pagã sob o controle de um deus falso, era
considerada o páramo da experiência religiosa. Na sua primeira carta,
portanto, Paulo deu muita atenção à natureza verdadeira dos dons
espirituais, com grande ênfase ao dom de línguas (I Cor. 12-14).

Línguas e Dons Espirituais

No cap. 12, Paulo tratou da natureza geral dos dons espirituais.


Desta discussão, pode-se tirar informação valorosa acerca da verdadeira
natureza do dom de línguas.

Listas de Dons

Ainda que dons espirituais sejam discutidos em outras cartas (Rom.


12:3-8; Ef. 4:7-11), a 1ª Epístola aos Coríntios é a única que menciona o
dom de línguas. Uma comparação das várias listas de dons há de
demonstrar que "esses dons não eram um catálogo fixo e imutável nem
apenas umas tantas funções específicas na igreja". (3)

(2)
Edward Schweizer, "The Service of Worship", Interpretation, XIII (outubro de 1959), p 403.
(3)
James L. Boyer, "The Office of the Prophet in New Testament Times", Grace Journal, I, (Spring,
1960), p. 17.
Movimento Moderno de Línguas 131
1 Cor. 12:8-10 I Cor.12:28-30 Rom. 12:3-8 Ef. 4:7-11
1. Sabedoria 1. Apóstolos 1. Profecia 1. Apóstolos
2. Conhecimento 2. Profetas 2. Ministério 2. Profetas
3. Fé 3. Mestres 3. Mestres 3. Evangelistas
4. Curas 4. Milagres 4. Exortação 4. Pastores-Mestres
5. Milagres 5. Curas 5. Repartir
6. Profecia 6. Socorros 6. Presidir
7. Discernir espíritos 7. Governos 7. Misericórdia
8. Línguas 8. Línguas
9. Interpretação 9. Interpretação
Dezesseis dons diferentes no todo têm sido identificados, com a
admissão de que haja outros. (4) A primeira lista (I Cor. 12:8-10) enfatiza
somente os dons; a segunda (I Cor. 12 :28-30) salienta tanto os homens
possuidores dos dons como os ofícios e os dons; a terceira (Rom. 12:3-8)
menciona os dons e o mister do dom; e a quarta (Ef. 4:7-11) aponta os
homens possuidores dos dons ou ofícios. A ordem das listas, ainda que
importante, não deve receber demasiada ênfase.
Nas duas listas onde aparece o dom de línguas, este e a sua
interpretação ocupam os últimos lugares. Isto revelaria o fato de que eles
são considerados por Paulo como sendo os menores dos dons, mas, a
despeito de tudo, ainda são dons e importantes para a função do corpo de
Cristo. Numa lista (I Cor. 12:8-10), a profecia aparece logo depois de
curas e milagres, porém em outras (I Cor. 12:28-30) aparece antes
destas. Curas e milagres também são invertidos nessas duas listas.

Definição de Dons

Uma vez enumerados os dons espirituais, que vem a ser eles? Paulo
os chamou de ton pneumatikon (12:1). Essa palavra, gramaticalmente,

(4)
René Pache, The Person and Work of the Holy Spirit (Chicago: Moody Press, 1954), pp. 180-81.
Também John F. Walvoord, The Holy Spirit (Wheaton III.: Van Kampen Press, 1954), p. 168.
Movimento Moderno de Línguas 132
pode ser ou neutra ("as coisas espirituais") ou masculina ("os homens
espirituais"). Se é neutra, faria referência aos dons e ao seu exercício (cf.
I Cor. 14:1). Se é masculina, faria referência aos homens possuidores dos
dons e a sua experimentação (cf. I Cor. 14:37). Para todos os fins
práticos, é difícil distinguir entre o dom e a pessoa que o possua.
Também Paulo chamou os dons de charismaton ("dons de graça");
12:4; cf. Rom, 12:6). Esse termo indica que os dons têm sua fonte ou
origem na graça de Deus, conquanto o termo anterior, pneumatikos,
revele que os dons são basicamente espirituais, não naturais, em
essência, e que são dados através do Espírito de Deus e controlados por
ele (cf, 12 :4,7,11). Um dom espiritual, portanto, é a capacidade dada ao
cristão, procedente da graça de Deus, através do Espírito Santo, e
controlada pelo Espírito no serviço e crescimento cristãos.
Quais são as definições desses nove dons (I Cor. 12:8-10)? (5)
Horton, um pentecostal, definiu a "palavra de sabedoria" assim: "A
Palavra de Sabedoria é, portanto, a revelação sobrenatural, por parte do
Espírito, de Propósito Divino; a declaração sobrenatural da Mente e da
Vontade de Deus; o desenvolvimento sobrenatural dos Seus Planos e
Propósitos concernentes a coisas, lugares, povos, indivíduos,
comunidades e nações." (6)
A "palavra de conhecimento", em contraste com a "palavra de
sabedoria", talvez se refira ao conhecimento transmitido da vontade de
Deus para o presente, enquanto a última talvez se refira ao futuro. O dom
de fé era a capacidade de crer o que Deus tem revelado e de agir de
acordo com isso. O dom de curar referia-se à capacidade de curar os
doentes (cegueira, lepra etc.). O dom de milagres era a capacidade de
operar milagres na natureza, em contraste com as curas físicas. Essas
curas e os milagres autenticaram a pessoa com o dom profético. O
profeta recebeu a revelação direta de Deus (envolvendo isto tanto a
(5)
Definições e discussões excelentes de todos os dons espirituais podem ser encontrados em
Walvoord, op. cit., pp. 168-188.
(6)
Horton, "The Gifts of the Spirit", op. cit., p. 63.
Movimento Moderno de Línguas 133
sabedoria como o conhecimento) e proclamou-a'ao povo, apoiado por
toda a autoridade de Deus. O dom de discernir os espíritos era a
capacidade de "discernir entre as fontes verdadeiras e as falsas da
revelação sobrenatural, dada em forma oral". (7)
Todos esses dons são relacionados com a revelação sobrenatural, na
recepção mental dela, ou na avaliação crítica.
Que foi o dom de línguas (12:10, 28,30)?
Um dos advogados do "moderno movimento de línguas" escreveu:
"O dom de línguas é obviamente um meio sobrenatural da comunicação
de Deus com Seu povo." (8) Esta definição, portanto, coincidiria com os
demais dons como estando relacionados com a revelação divina. A fala
de línguas é Deus falando ao homem, e a interpretação a traduz para o
conhecimento comum da igreja.
Todavia, alguns advogados do movimento discordam dos seus
companheiros quanto a essa definição. Oral Roberts disse: "O dom de
línguas tem falado a Deus em prol de outros crentes, procurando
descobrir as fraquezas interiores e as necessidades, juntando-as à
vontade de Deus e à mente do Espírito por elas. O dom de interpretação
dá a resposta de Deus à intercessão do Espírito." (9) As línguas, portanto,
são o homem falando a Deus, não o contrário. Entretanto, o elemento da
revelação sobrenatural não está faltando inteiramente. A uma pessoa
revelam-se, por Deus, os segredos interiores da congregação, e estes são
falados a Deus em "línguas". A interpretação não é uma tradução da fala,
mas é a resposta de Deus à oração; essa é a revelação direta (Deus
revelando a verdade diretamente a homens).
Uma pergunta importante acerca dessas definições propostas pelo
"moderno movimento de línguas" tem de ser respondida. Está Deus se
revelando ou a verdade divina diretamente aos homens hoje em dia? Ou

(7)
Walvoord, op. cit., p. 188.
(8)
What Next? (Van Nuys, Calif.: Blessed Trinity Society), tract.
(9)
Oral Roberts, The Baptism with the Holy Spirit and the Value of Speaking in Tongues Today
(Tulsa, Okla.: By the author, 1964), p. 78.
Movimento Moderno de Línguas 134
Deus se revela e a sua verdade através da sua Palavra escrita quando o
crente é iluminado pelo Espírito Santo? Estas perguntas terão resposta na
próxima seção principal.
Outros advogados do movimento de "línguas" caracterizaram o
dom desta maneira:
É um pronunciamento sobrenatural, por parte do Espírito Santo, em
idiomas nunca aprendidos por aqueles que falam e não compreendidos pela
mente do ouvinte. Não tem absolutamente nada a ver com capacidade
lingüística, nem com a mente ou o intelecto do homem. É uma manifestação
da mente do Espírito de Deus, empregando os órgãos de fala humanos.
Quando o homem estiver falando línguas, sua mente, seu intelecto e sua
compreensão permanecem quiescentes. (10)
Todavia, Jesus dissera que o homem deve amar a Deus "de todo o
seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu
entendimento" (Lucas 10:27). Isto envolve o homem todo – suas
faculdades emocionais, espirituais, físicas e mentais. Será que Jesus
contradiria a si próprio levando uma pessoa a ter uma experiência
espiritual com a mente "quiescente"? De maneira alguma, e Paulo
reconheceu esse fato na sua repreensão da manifestação corintiana (cf. I
Cor. 14:14-16).
Outros têm definido o dom de línguas como a capacidade de pregar
o evangelho em idiomas nunca aprendidos. (11) De fato, a falta de
informação impede a formação de uma definição dogmática. Leon
Morris sabiamente escreveu: ". . . não podemos ter a certeza sobre a forma
exata que o dom de línguas tomou nos dias do Novo Testamento." (12)
Todavia, aqui se tem uma definição experimental, baseada na
informação disponível. O dom de línguas era a capacidade, doada por
Deus, de falar em idiomas estranhos (não conhecidos àquele que falasse)
no culto público da igreja local. O conteúdo da fala consistia em

(10)
Citado por Brumback. What Meaneth This?, op. cit., p. 129.
(11)
H. A. Ironside, Addresses on the First Epistle to the Corinthians (New York: Loizeaux Brothers,
1955), p. 385.
(12)
Leon Morris, "Gifts of the Spirit's Free Bounty", The Sunday School Times, CVI (12-12-1964), p. 6.
Movimento Moderno de Línguas 135
magnificar a Deus, o que envolvia a revelação do caráter de Deus e de
suas obras. A interpretação envolvia a tradução e fez com que o povo
fosse edificado e glorificasse e louvasse a Deus.
O dom que acompanhava o dom de línguas é o dom de
interpretação (hermeneia glosson; 12:10). Este tem sido definido de
várias maneiras. Roberts disse que o intérprete dava a resposta à oração
pronunciada num idioma desconhecido, mesmo na possibilidade de uma
tradução simples: "Às vezes o intérprete explica o que se diz a Deus em
línguas, para que o grupo entre na intercessão do Espírito em seu
favor."(13) Gee cria que a interpretação geralmente devia se assemelhar à
fala de línguas e que "facilmente poderia ser testada por qualquer pessoa
que tivesse adquirido um conhecimento acerca do 'idioma' falado." (14)
Horton disse que o intérprete deve declarar o significado ou dar uma
tradução literal da fala. (15)
O moderno movimento de "línguas" considera, a revelação, a
interpretação e a tradução, todas como propósitos corretos do dom de
interpretação. Somente a terceira possibilidade poderá ser comprovada
por meio de um estudo da palavra mesma. (16)
O dom de interpretação, portanto, é a capacidade divinamente dada
de traduzir para o idioma da congregação o conteúdo da fala em línguas.
Isto não se faz pelo moderno movimento de "línguas", porque a grande
maioria de sua fala em línguas é constituída de sons desconhecidos, que
não podem ser traduzidos. Também, tentativas de traduzir uma língua
conhecida ou tenha falhado ou não tiveram confirmação objetiva. (17)

(13)
Roberts, op. cit., p. 92.
(14)
Gee, op. cit., p. 96.
(15)
Horton, "The Gifts of the Spirit", op. cit., pp. 164-65.
(16)
Ver capítulo IV.
(17)
"Walvoord conta de um jovem seminarista que decorou um dos Salmos em hebraico. Numa
reunião de 'línguas', ele ficou de pé e fingiu estar falando em línguas, quando apenas recitava o
Salmo em hebraico. Depois de ele terminar, o 'intérprete' falhou redondamente em traduzir o que
fora falado." Citado por Ruble, op. cit., p. 154.
Movimento Moderno de Línguas 136
Origem dos Dons

Não resta dúvida quanto à origem dos dons espirituais: é o Deus


triúno (Espírito, Senhor, Deus; I Cor. 12:4-6). Um dom é a
"manifestação do Espírito" (12:7). Especificamente, Paulo escreveu:
Porque a um, pelo Espírito, é dada a Palavra de sabedoria; a outro,
pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; a outro, pelo mesmo Espírito, a
fé; a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar (I Cor. 12:8, 9).
Em resumo, ele disse: "Mas um só e o mesmo Espírito opera todas
estas coisas, distribuindo particularmente a cada um como quer" (12:11)
Esses dons, portanto, são dádivas soberanas ("como ele quer") de
capacidade espiritual a crentes. Eles não podem ser conquistados através
de iniciativa humana, seja por origem, seja por desenvolvimento. Não
dependem de oração humana ou de fidelidade. São dados como Ele
deseja dar, não como o homem deseja receber. Ainda que o Espírito
Santo seja enfatizado como o meio pessoal ou a origem dos dons, isso
não exclui necessariamente o Pai e o Filho (I Cor. 12:4-6; cf. 12:18, Ef. 4:11).
É Deus o Pai quem "colocou os membros no corpo, cada um deles como
quis" (I Cor. 12 :18). É Ele quem "assim formou o corpo" (I Cor. 12 :24),
e quem "repartiu a cada um" a medida da fé (Rom. 12:3). É o Cristo
ascenso quem "deu dons aos homens" (Ef. 4:8) e quem deu à Igreja
líderes dedicados (Ef. 4:11).
A concessão de dons espirituais é muito parecida com muitas das
obras de Deus em que as Pessoas da Deidade colaboraram. Se alguma
distinção pode ser feita, talvez seja que o Espírito Santo dá aos crentes as
capacidades e que Deus o Pai, através do Filho, dá os homens dotados de
dons à igreja.
Visto que Deus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, o moderno
movimento de "línguas" pretende que esses dons são possíveis hoje e de
fato estão sendo dados. Dizem eles que a opinião de que o dom de
línguas cessou na era apostólica se opõe à soberana vontade de Deus,
que pode fazer hoje em dia o que fazia então ("como ele quer" e "como
Movimento Moderno de Línguas 137
ele quis"; 12:11-18). Lightner deu uma resposta clara e ousada a essa
asserção:
Será que isso significa que o Espírito de Deus não pode fazer hoje em
dia o que Ele fez nos dias da igreja primitiva? De maneira nenhuma, isso
não limita o Espírito de Deus; na verdade, exalta a Sua soberania, pois
significa que Ele não quer fazer hoje em dia o que Ele fez na igreja
primitiva.(18) (o grifo é meu).
Dizer-se que Deus tem de fazer hoje em dia o que Ele fez ontem ou
na era apostólica é impor uma limitação a Deus. Isto é contrário ao
caráter de Deus, bem como aos eventos da história bíblica e pós-bíblica.
Ainda que Deus não mude na sua Pessoa ou natureza (Mal. 3:10), Seu
proceder para com os homens muda. Seu testemunho ao mundo deixou
de estar centralizado em Israel, para ter o seu centro na Igreja. Ele tratará
do pecado no futuro como nunca tratou no passado (cf. Apoc. 6-20).
Deus é imutável, porém não imóvel.
A questão não é se Deus pode dar o dom de línguas hodiernamente,
pois Ele ainda tem o poder. A questão é que Deus tem por propósito
continuar os mesmos fenômenos que a igreja apostólica experimentou. A
pretensão de que Deus tem de fazer hoje o que Ele fez no passado em
resposta às orações de cristãos é incorrer em petição de princípio. O
crente assim se colocaria na posição de estar dizendo a Deus o que Ele
deve fazer.

Os Recipientes dos Dons

Aqui está a descrição que Paulo faz dos recipientes:


A cada um, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum;
porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra de sabedoria; a outro, pelo
mesmo Espírito, a palavra da ciência; a outro pelo mesmo Espírito, a fé; a
outro pelo mesmo Espírito, os dons de curar; a outro a operação de
milagres; a outro, a profecia; a outro o dom de discernir Espíritos; a outro a
variedade de línguas; e a outro a interpretação de línguas. Mas um só e o

(18)
Lightner, op. cit., p. 14.
Movimento Moderno de Línguas 138
mesmo Espírito opera todas estas coisas, distribuindo particularmente a
cada um como quer (I Cor. 12:7-11).
A ênfase coloca-se sobre o indivíduo, e sobre cada indivíduo. Isto
se vê também em Rom, 12:3 (". . . conforme a medida de fé que Deus
repartiu a cada um") e em Ef. 4:7 ("Mas a cada um de nós foi dada a
graça conforme a medida do dom de Cristo").
A quem se refere "cada"? Horton disse: "Não a cada homem que
nasce. Não a cada homem que nasce de novo, pois duas vezes temos de
limitar o círculo; porém a cada homem que recebe a plenitude do
Espírito, como esses coríntios." (19)
A declaração de Horton é verdadeira em parte. Homens não salvos
não são recipientes desses dons espirituais; porém cada pessoa salva é.
Não se pode limitá-lo a uma certa classe de homens salvos – aqueles que
têm recebido a plenitude têm sido batizados no Espírito Santo, sendo isto
evidenciado pela glossolalia. Paulo simplesmente não diz tal coisa. Ele
considera "todo homem" como membro do corpo de Cristo (I Cor. 12:12,
14, 27; Rom. 12:4, 5). Naquele mesmíssimo momento em que Deus
colocou os membros no corpo" (I Cor. 12:18), Ele deu àquela pessoa um
dom, para capacitá-la a funcionar no corpo. No momento da salvação,
através do batismo no Espírito Santo, cada crente se coloca no corpo de
Cristo. Não depende de sua espiritualidade ou de seu "enchimento"
subseqüente. Os crentes de Corinto eram membros do corpo (I Cor. 12:27) ,
e eram orgulhosos, carnais, ignorantes e pecaminosos.
Cada crente possui cada um dos aspectos da unidade do Espírito:
um corpo (o Corpo de Cristo ou a igreja verdadeira), um Espírito (o
ministério que habita), "uma esperança da vossa vocação", "um só
Senhor, uma só fé, um só batismo (batismo no Espírito Santo), um só
Deus e Pai de todos" (Ef. 4:3-6). Não há crente que tenha apenas uns
poucos desses dons. Se ele creu no Senhor Jesus, também foi batizado
no Espírito no corpo de Cristo.

(19)
Horton, "The Gifts of the Spirit", op. cit., p. 29.
Movimento Moderno de Línguas 139
Quantos dons possui o crente? Um advogado de "línguas" escreveu:
"Não te alarmes, se não vires imediatamente todos os dons operando na
tua vida. Deus há de desenvolver em ti todas essas capacidades logo que
estiveres pronto e logo que surgir a necessidade deles. (20)
Será que Paulo queria dizer que cada crente deveria ter cada um dos
dons? Esta conclusão não se pode tirar do seu uso de "cada" e "outro"
(ekasto, ho, allo, hetero; 12:7-11). Sua ilustração do corpo e de membros
argumenta contra tal interpretação. Cada membro realiza sua própria
função e não se deve esperar que faça a de outro. Uma mão não pode
fazer o trabalho dum pé. Numa série de perguntas que exigem uma
resposta negativa, (21) Paulo revelou que os crentes não possuem, nem
podem possuir, os mesmos dons (I Cor. 12:29, 30):
Porventura, são todos apóstolos? Ou, todos profetas? São todos
mestres? Ou, operadores de milagres? Têm todos dons de curar? Falam
todos em outras línguas? Interpretam-nas todos?
Não se deve esperar que cada crente fale línguas mais do que os
apóstolos. O corpo de Cristo deve estar em perfeito equilíbrio, todavia, o
moderno movimento de "línguas" admite uma abundância de dons
menores (línguas, interpretação, profecia e curas) e apresenta uma falta
dos maiores dom. (22) Visto que Deus regula o corpo todo (I Cor. 12:24) e
lhe dá perfeita simetria, por que tem esse grupo uma proporção infinita
de dons? Se Deus realmente fosse a origem dessas manifestações hoje
em dia, não haveria um balanço entre eles e uma maior presença dos
melhores dons?
Será que todos falam línguas? Naturalmente que não. Muitos têm
empregado esta pergunta para refutar a posição Pentecostal de que a
glossolalia é a evidência do batismo no Espírito Santo. Paulo declarou
que todos foram batizados em um Espírito, formando um só corpo (I
(20)
What Next?, loc. cit.
(21)
H. E. Dana e Julius R. Mantey, A Manual Grammar of the Greek New Testament (New York: The
Macmillan Company, 1953), p. 265.
(22)
Dalton, op. cit., pp. 82, 118. Também Albert L. Hoy, "Flame in the Sanctuary", The Pentecostal
Herald (26-4-1964), p. 14.
Movimento Moderno de Línguas 140
Cor. 12:13), mas que nem todos falam "línguas" (I Cor. 12:30). O
pentecostal há de replicar que todo aquele que tenha sido batizado no
Espírito Santo há de falar línguas. Ele diz mais que, no v. 30, Paulo se
refere ao dom de línguas, que é exercido na igreja local. Nem todos têm
esse dom. O pentecostal faz distinção definida entre o sinal evidente de
glossolalia e o dom de línguas.
Todavia, o conceito que ele faz da doutrina do batismo no Espírito
Santo foi provado ser falso (ver Cap. VI, clique aqui). O que resta é seu
conceito quanto aos dons, e Paulo disse que nem todos falam línguas,
Entretanto, os pentecostais dizem que esse dom é possível para todos e,
portanto, deve ser buscado. Isto é contrário à clara declaração de Paulo. "E,
se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?" (I Cor. 12:19).

O Propósito e a Permanência dos Dons

A explicação mais simples é que os dons foram dados para que os


membros do corpo de Cristo, a igreja verdadeira, pudessem funcionar
própria e harmoniosamente (I Cor. 12:12-27; Rom. 12:3-8). Ademais,
alguns líderes dotados tinham a responsabilidade de preparar
devidamente outros santos para a obra do ministério (Ef. 4:11, 12). De
fato, a igreja fora "edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos
profetas", isto é, sobre certos líderes dotados (Ef. 2:20). Mais,
especificamente, Laurin escreveu: "o propósito dos dons do Espírito
Santo foi o de encher o vácuo que haveria de ocorrer entre o
estabelecimento da igreja e a maturidade final da igreja. . . " (23) Visto
que o Novo Testamento ainda não havia sido escrito e que havia poucos
apóstolos e profetas disponíveis, Deus se revelou a si mesmo e revelou a
Sua verdade através desses dons. Uma vez completado e publicado o Novo
Testamento, a necessidade e o propósito desses dons foram removidos.

(23)
Laurin, op. cit., p, 148. Também Boyer, op. cit., p. 18. Boyer acrescenta a idéia da confirmação da
palavra pregada antes de ser completado o Cânon.
Movimento Moderno de Línguas 141
Assim, alguns dons espirituais têm de ser considerados como
temporários, limitados à era apostólica, enquanto outros deveriam ser uma
parte permanente da vida da igreja. Hodges esclarece bem esse fato:
Conseqüentemente, já que a teologia protestante de um modo geral
tem reconhecido claramente a cessação do dom apostólico no primeiro
século, ao mesmo tempo que ela corretamente nega qualquer forma de
sucessão apostólica, toda a tal teologia protestante torna-se basicamente
cometida ao princípio de dom temporário. Pois claramente o próprio
apostolado foi temporário, e, se for estabelecido o princípio, é
perfeitamente lícito perguntar se não houve outros dons do primeiro século
que também eram temporários. (24) O princípio do dom temporário tem que
ser reconhecido, o dom do apostolado cessou com a morte do último
apóstolo. Isto não prova que o dom de línguas tenha sido temporário, porém
apresenta a hipótese de que o dom de línguas cessasse quando morreu o
último glossolalista. Esta possibilidade também tem que ser reconhecida.
Como podem ser classificados os dons como permanentes ou
temporários? Depois de ser definido o dom, deve ser verificado se seu
divino propósito ainda se faz mister. Se é necessário, então o dom tem de
ser permanente e deve apresentar-se através da história da igreja, porque a
verdadeira igreja não poderia ter funcionado sem ele. Se o propósito não
mais for necessário, então o dom será temporário e não se apresentará mais
através da história da igreja. Se o dom de línguas envolvia a revelação da
verdade de Deus para o homem ou acerca do homem, então seu propósito
não é mais necessário porque Deus já completou a sua revelação (Apoc.
22:18, 19). A necessidade de hoje é compreender o que Ele já revelou, não
de ter uma nova revelação. O silêncio da história eclesiástica há de
confirmar o fato de que o dom de línguas nunca teve o propósito de se
tornar parte permanente da vida da igreja. De outra feita, como poderia a
igreja de Jesus Cristo ter funcionado durante aqueles séculos de silêncio?(25)

(24)
Zane C. Hodges, "The Purpose of Tongues", Bibliotheca Sacra, CXX (julho-setembro, 1963), p. 227.
(25)
Maior discussão da natureza temporária de línguas poderá ser achada em I Cor. 13:8 ("A
Permanência do amor").
Movimento Moderno de Línguas 142
A Importância Relativa dos Dons

Paulo disse aos crentes corintianos que procurassem "os melhores


dons" (kreittona; 12:31) ou "os maiores dons" (meidzona; que se
encontra nos melhores manuscritos). Quais são os maiores ou melhores
dons? Oral Roberts escreveu: "Não será este o dom necessário neste
tempo? .. . Se se processasse a edificação, não seria o melhor dom o de
línguas e o de interpretação?" (26) Talvez a "necessidade" seja a norma de
grandeza, mas pode-se duvidar que o dom de línguas seja necessário
hoje em dia ou que seja o melhor dom para a edificação (cf. I Cor. 14:3).
A ênfase de Paulo está sobre a edificação dos crentes irmãos (I Cor.
12:7; 14:3, 4, 5, 6, 12, 19, 26, 31). Aqueles dons que trazem a maior
edificação aos irmãos crentes têm que ser considerados como os
melhores dons. Em Corinto, proclamar (profecia) e ensinar eram mais
necessários para a edificação dos crentes carnais e ignorantes. As
línguas, por si sós, eram consideradas como um dom menor do que o
dom de profecia. Tinha valor somente quando acompanhado por uma
interpretação (I Cor. 14:5). Portanto, se precisava de dois dons para
completar um. Nesse contexto de importância, Paulo escreveu: "E a uns
pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas,
em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de
curar, socorros, governos, variedades de línguas" (I Cor. 12 :28). Aqui, o
dom de línguas é colocado por último e considerado como o menor dos
dons, ainda que tenha que ser reconhecido como um dom e como uma
parte essencial do corpo de Cristo naquele tempo.
O mesmo fato de que os coríntios buscavam o dom de línguas
revela que seu desejo era motivado pelas suas naturezas carnais, não pelo
Espírito de Deus. Semelhantemente, a ênfase corrente sobre o dom de
línguas a custa dos melhores dons revela que o Espírito Santo não criou
esse desejo. O Espírito Santo não enfatizaria aquilo a que Paulo não deu

(26)
Roberts, op. cit., p. 55.
Movimento Moderno de Línguas 143
ênfase. Será que Ele daria ao moderno movimento de "línguas" uma
abundância dos menores dons a custa das melhores dádivas?

Línguas e Amor

O capítulo 13 não deve ser considerado como um discurso


parentético sobre amor. Antes, ele forma uma parte do tratado de Paulo
sobre os dons espirituais e contribui muito para a questão de "línguas".

A Necessidade de Amor entre os Dons

Por que Paulo introduziu o assunto do amor? Qual a sua conexão


com o problema de dons espirituais? Qual é o "caminho sobremodo
excelente" (12:31)? Lightner escreveu:
Paulo não está tentando mostrar aos coríntios como se devem exercer
os dons espirituais, mas está lhes mostrando, neste capítulo, o contraste
entre uma vida "que busca os dons" e uma vida que "gera o amor". Ele lhes
está indicando uma divisão da estrada – há o caminho dos dons e há o
caminho do amor... (27)
Lightner cria que os coríntios tinham que escolher. Ou poderiam
buscar os dons, ou prosseguir no amor. O moderno movimento de
"línguas" opõe-se a esse ponto de vista. Brumback declarou: "Não há
contraste entre os dons e o amor, a não ser quanto à permanência... o
contraste está entre os dons com amor e a operação dos dons sem amor ."(28)
A maneira inadequada é exercer os dons espirituais sem amor; o
caminho mais excelente é exercer os dons na atitude própria de amor a
Deus e ao irmão crente. Serão irreconciliáveis esses dois pontos de vista,
ou podem eles ser harmonizados? De fato, Paulo deu uma dupla ordem:
buscar o amor e desejar os dons espirituais (14:1). Ele disse: "Ainda que

(27)
Lightner, op. cit., p. 55. Também Leon Morris, The First Epistle of Paul to the Corinthians (Grand
Rapids: Wm. B. Eerdman's Publishing Co., 19581, p. 180.
(28)
Brumback, What Meaneth This?, op. cit., p. 158. Também Roberts, op. cit., p. 69.
Movimento Moderno de Línguas 144
eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse o amor, seria
como o metal que soa ou como o címbalo que retine" (13:1). Se a
glossolalia não se faz com amor, é inútil, de nenhum proveito (12:7), e
não produz edificação (14:26).
Todavia, será que o Espírito de Deus faria com que uma pessoa
falasse línguas sem também produzir amor naquela pessoa? Não! Deus
não precisaria dar uma fala sobrenatural mediante uma pessoa que não
tivesse amor. Se assim o fizesse, estaria esforçando-se em vão e
enganando o povo, porque a fala não seria aproveitável. Portanto,
qualquer glossolalia sem amor tem de ser repudiada como falsa. Nesta
base, John R. Rice insistiu que os coríntios não possuíram de maneira
alguma o dom de línguas. (29)
Por outro lado, este não pode ser um simples contraste entre dons
com amor e dons sem amor. Isto não explicaria como o amor por si só
poderia continuar depois de cessarem os dons. Mesmo os que advogam
as línguas insistiriam em que os crentes que têm o Espírito habitando
neles desenvolvem o fruto do Espírito (inclusive o amor; Gál. 5:22,23)
até antes de receberem o batismo no Espírito Santo. Este capítulo dá uma
descrição do tipo de amor que deveria estar presente na vida do crente
em todo o mundo, não apenas quando ele está exercendo um dom
espiritual. Portanto, as duas posições podem ser parcialmente
harmonizadas.

A Natureza do Amor nos Dons

A natureza do amor divinamente dado é exposta nos versículos 4 a 6 .


É uma expressão perfeita do fruto inteiro do Espírito (Gál. 5:22,23).
Quando uma pessoa é controlada pelo Espírito, que está habitando no
seu coração, este amor será produzido na vida do crente e será
manifestado em tudo quanto o crente fizer. Cada uma das expressões

(29)
John R. Rice, "Should Talk in Tongues to Edify Self?" The Sword of the Lord (19-9-1952).
Movimento Moderno de Línguas 145
descritivas pode ser aplicada ao exercício dos dons espirituais. Se uma
pessoa não manifestar cada uma das características, é um sinal seguro de
que está tentando reproduzir o dom espiritual pela sua própria energia.
"O amor é sofredor." Aquele que fala línguas deve esperar a sua vez de
falar e não romper a falar em qualquer tempo (cf. 14:27,28). "O amor
não é invejoso." Os crentes devem desejar que os melhores dom
espirituais sejam exercidos entre eles (12:31; 14:1), porém a pessoa não
deve invejar um dom que Deus não se agradou a dar-lhe (12:7, 11, 18).
O pé não deve ter a ambição de ser a língua. "O amor não se vangloria,
não se ensoberbece."
Alguém que fale línguas não deve orgulhar-se nem pensar que seja
algo especial. "O amor não se conduz inconvenientemente." A
glossolalia deve ser praticada "decentemente e com ordem" (14:40; cf.
14:23). O sacudir do corpo e as convulsões físicas são inconvenientes.
"O amor não busca os seus próprios interesses." O moderno movimento
de "línguas" crê que a glossolalia pode ser praticada em particular, para
auto-edificação. Todavia, será que os dons foram dados somente para
que os possuidores colhessem os benefícios? Isso não seria egoísmo?
Antes, não foram eles dados para a edificação e proveito do corpo inteiro
de Cristo? A auto-edificação pode ser um produto acessório do dom,
porém, nunca deve ser o alvo (14:4, 12).
Portanto, a genuína glossolalia hodierna deve manifestar todas essas
qualidades. Todavia, hoje em dia não se observam essas qualidades. Isto
é mais uma evidência de que a glossolalia hoje é simulada, e não
divinamente motivada.

Permanência do Amor e dos Dons Temporais

Nos últimos seis versículos do capítulo, Paulo contrastou a


permanência do amor com a natureza temporal dos dons espirituais:
O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão;
havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte,
Movimento Moderno de Línguas 146
conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é
perfeito, então, o que é em parte será aniquilado. ... Agora, pois,
permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é
o amor. (13:8-10, 13).
É declarado claramente que as línguas cessarão, mas o problema é:
Quando? Vários pontos de vista são expostos.
Visto que o contexto imediato trata do amor, alguns pensam que os
dons espirituais cessarão quando o amor estiver plenamente desenvolvido
na vida da pessoa. "Completação ('aquilo que é perfeito', to teleion) aqui
é Ágape (amor), e o Apóstolo está falando acerca de algo que já se está
realizando no tempo." (30) A palavra teleion de fato se refere ao fim de
um processo ou dum desenvolvimento. Neste livro, Paulo usou a palavra
acerca de crentes amadurecidos (2:6) e ele encorajou os coríntios carnais,
imaturos, a se tornarem homens (maduros ou perfeitos, teleioi, 12:20).
Sua alusão pessoal ao desenvolvimento físico e mental (13:11) ilustraria
o desenvolvimento cristão desde a infância até a maturidade. As "coisas
de menino" seriam os dons espirituais que deveriam ser suplantados pela
compreensão amadurecida (13:11; cf. 14:20).
Laurin disse que o versículo 12 "talvez se refira ao céu quando estará
presente a face de Deus e a minha face. Nós cremos que será agora, quando
o amor há de refletir a imagem perfeita e revelar o conhecimento
perfeito."(31) Ainda que esta posição tenha algum mérito, seria difícil provar
que nenhum crente maduro na era apostólica possuía um dom espiritual. (32)
A posição do moderno movimento de "línguas" é que os dons
espirituais, inclusive o de línguas, cessarão na segunda vinda de Jesus
Cristo; portanto, devem ser experimentados e o estão sendo hoje em dia. (33)
Argumentam eles que a frase "o que é perfeito" faz referência à época ou

(30)
Nils Johansson, "I Cor. XIII and I Cor. XIV", New Testament Studies, X (abril, 1964), p. 389.
(31)
Roy L. Laurin, I Corinthians: Where Life Matures (Findlay, Ohio: Dunham Publishing Company
1957), p. 246.
(32)
B. F. Cate, The Nine Gifts of the Spirit Are Not in the Church Today (Chicago: Regular Baptist
Press, 1957), p. 8.
(33) )
Brumback, What Meaneth This?, op. cit., pp. 59-87.
Movimento Moderno de Línguas 147
idade perfeita que será introduzida pela segunda vinda. Todavia, a
palavra teleion nunca se emprega no Novo Testamento para descrever
nem a segunda vinda, nem o milênio, nem o estado eterno. Também,
visto que teleion é colocado em contraste com "o que é em parte" (ek
merous), tem de se referir à culminação do processo. A segunda vinda
não é um processo; é um evento instantâneo.
Um segundo argumento baseia-se em I Cor. 1:7 : "De maneira que
nenhum dom vos falta, enquanto aguardais a manifestação de nosso
Senhor Jesus Cristo." Declaram eles que estes dons durarão tanto quanto
estiverem os crentes esperando a Cristo. Todavia, Paulo não disse
explicitamente que os dons durariam até o segundo advento de Cristo.
Simplesmente declarou a condição momentânea dos crentes em Corinto.
Eles possuíam todos os dons e estavam esperando o Senhor.
Um terceiro argumento é que à igreja foram dadas línguas e visto
que eles são a igreja, podem ter o dom de línguas ainda hoje. Todavia,
este argumento se baseia em lógica falha e é contrário ao ensino das
Escrituras. Foram dados também à igreja, porém não a apóstolos
atualmente.
A continuação do sinal de línguas como parte integrante da Grande
Comissão (Mar. 16:15-20) é seu quarto argumento. Todavia, o "moderno
movimento de línguas" nem chega a cumprir o ensino dessa passagem;
ademais, o fraco sustento textual deve proibir o uso dessa passagem
como texto de prova (ver Capítulo 4, clique aqui).
Um quinto argumento deles é que o propósito dos dons ou sinais era
para a confirmação, não a substituição, da Palavra diante do mundo
pagão. Visto que hoje em dia prevalecem as mesmas condições nos
campos missionários, esses dons-sinais são precisos ali. De fato, este
argumento milita contra a presença dos dons-sinais na América do Norte
porque as mesmas condições não prevalecem ali. Também este
argumento pressupõe o reaparecimento de eventos que eram únicos e
transicionais em Atos (mentirosos foram punidos com a morte,
incrédulos ficaram cegos, terremotos abriram portas de prisões etc.).
Movimento Moderno de Línguas 148
Sexto, eles dizem que a incredulidade causou o retrocesso de
milagres e de dons. Todavia, esses dons não eram dados em resposta à
fé, mas soberanamente, como Deus quis (I Cor. 12:11). Grandes
avivamentos na história da igreja (v,g. a Reforma) têm testemunhado a
manifestação de grande fé, porém não de dons e milagres. Seu
argumento mais forte baseia-se na ilustração de Paulo de um encontro
face a face (I Cor. 13:12), os dons hão de cessar quando os crentes virem
Cristo. Este versículo será discutido mais a miúdo posteriormente, porém
no presente, basta apontar que somente o conhecimento de si próprio é
mencionado aqui, não o dom de línguas.
Gee concluiu: "Não há nada nas Escrituras, no raciocínio, nem na
experiência que nos faça crer que os dons não são para hoje – cada um
deles. (34) Sua conclusão baseou-se na sua interpretação de certas
passagens (Mar. 16:20; cf. Mat. 28:20; Rom. 11:29; Heb. 13:8). A
passagem em Marcos já discutimos. É verdade que os "dons e vocação
de Deus são irretratáveis" (Rom. 11:29), porém esta passagem se refere à
vocação que Deus estava simplesmente assegurando aos cristãos de
Roma que Deus cumpriria todas as suas promessas a Israel (cf. Rom.
11:26). A passagem não se refere à permanência de dons espirituais; isto
Gee levantou do seu contexto. O caráter e a natureza de Jesus Cristo são
os mesmos ontem, hoje e eternamente (Heb. 13:8), porém isto não quer
dizer que seu programa não mude. Uma vez Ele disse aos seus discípulos
que não pregassem aos gentios (Mat. 10:5, 6); mais tarde, mandou que
pregassem aos gentios (Mat. 28:18-20). Jesus não mudou; foi seu
programa que mudou. Esta passagem não pode ser usada para sustentar a
posição de que a glossolalia é válida ainda hoje somente porque o era
nos dias apostólicos. Para responder a Gee, pode-se dizer que não há
nada nas Escrituras, nem no raciocínio, nem na experiência que prove
que a glossolalia é para hoje.

(34)
Gee, op. cit., p. 9.
Movimento Moderno de Línguas 149
Deve ser dito, todavia, que várias pessoas que não advogam a
glossolalia crêem que os dons são permanentes e possíveis hoje. (35)
Lindsell e Woodbridge, anteriormente professores no Fuller Seminary,
escreveram:
A glossolalia, a operação de "sinais", e as curas milagrosas dos crentes
– estas coisas são possíveis hoje, porém não são nem necessárias nem
normais na vida da igreja, São antes a exceção do que a regra, e devem ser
assim consideradas. Os cristãos não devem exaltar aqueles que tenham
esses dons. E nem devem eles se tomar objetos de adulação pública. (36)
Depois de negar a existência de dom de línguas genuíno
hodiernamente, Miles admitiu: "Deus pode fazer com que alguém fale
línguas também numa emergência, para comunicar com uma pessoa de
outro idioma. Nosso Deus tudo pode." (37)
Muitos não-glossolalistas hesitam dizer que línguas não podem
ocorrer hoje em dia, embora eles próprios não desejem o dom e o
julguem desnecessário. Indubitavelmente, há várias razões para isso.
Visto que não há nenhum versículo nas Escrituras que diz explicitamente
que línguas cessariam com a era apostólica, deixam aberta a
possibilidade de sua ocorrência hoje. Na sua aceitação da soberania de
Deus, eles não querem impor nenhuma limitação ao poder de Deus hoje.
Isto é recomendável, e, no entanto, não vai de encontro ao problema do
propósito de Deus para com a época presente. Deus poderia destruir o
mundo hoje (Ele tem o poder), porém não o fará porque seria contrário
ao seu propósito revelado para com a igreja, para com Israel e para com
o sistema mundial presente. Outra razão desta posição pode ser a
conveniência. Membros ou líderes de várias organizações (o movimento
ecumênico, a Associação Nacional de Evangélicos, escolas inter-

(35)
Edman, op. cit., p. 15. Laurin, 1 Corinthians, op. cit., p. 204. Também Norman Grubb, God
Unlimited (Fort Washington, Penna: Christian Literature Crusade, n.d.), p. 69. Grubb é líder do
movimento a favor duma vida espiritual mais profunda.
(36)
Harold Lindsell e Charles J. Woodbridge, A Handbook of Christian Truth (Westwood, N. J.:
Fleming H. Revell Company, 1953), p. 322.
(37)
Miles, op. cit., p. 9.
Movimento Moderno de Línguas 150
denominacionais e agências missionárias) têm de tolerar seus membros-
irmãos que sejam glossolalistas.
O terceiro ponto de vista é que a maioria dos dons espirituais,
inclusive o de línguas, acabou quando o Cânon do Novo Testamento foi
completado ou quando a igreja de Jesus Cristo alcançou a maturidade no
fim da era apostólica. Seja como for, a glossolalia genuína cessou lá pelo
ano 100 a.D. Os dons que diziam respeito à autoridade, à doação e
discernimento da revelação (apostolado, profecia, milagres, curas,
línguas, interpretação de línguas) eram temporários, conquanto os
demais dons fossem permanentes. (38) Há vários argumentos que
fortalecem esta posição.
Primeiro, há a declaração geral de que "línguas cessarão" (glossai
pausontai; I Cor. 13:8). A glossolalia cessou quando Deus deixou de dar
o dom. Que o dom cessou na era apostólica pode ser demonstrado pelo
fato de que no segundo século e nos séculos subseqüentes ele não
ocorreu (ver Capítulo II, clicar aqui). Seria preciso apenas uma geração
sem a existência de línguas para identificar definitivamente o tempo
exato da sua cessação. Se o dom fosse supostamente permanente, então
ele teria ocorrido em cada geração de cada século até o momento
presente. Argumentar que o dom era ativo na era apostólica, depois foi
silencioso por séculos e agora novamente está ativo é contrariar a clara
declaração das Escrituras. Quando os dons cessam, cessam mesmo! Esta
declaração é de natureza geral – não tem repetição. Culpar a
incredulidade pela sua ausência é também contrariar o ensino
escriturístico da comunicação soberana.
O segundo argumento é de que a expressão "o que é perfeito" se
refere ao Cânon completo, que formou o clímax do processo de
amadurecimento da igreja. Weaver candidamente observou:
Logicamente, to teleion tem que se referir à completação ou perfeição
no mesmo sentido do referido em to ek merous. Visto que to ek merous se
refere à transmissão da verdade divina através da revelação, o outro termo

(38)
Walvoord, op. cit., pp. 168-188.
Movimento Moderno de Línguas 151
to teleion tem que se referir à completa revelação da verdade de Deus, o
Novo Testamento em sua inteireza (naturalmente incluindo-se seu livro
fundamental, o Velho Testamento).(39)
A profecia envolvia a recepção e a proclamação da verdade
divinamente revelada. O conhecimento envolvia uma revelação da mente
e da vontade de Deus. Pessoa alguma recebia a revelação toda. Deus se
revelava a homens diferentes em tempos diferentes, comunicando a
verdade progressiva acerca de si próprio e de seu programa (Heb. 1:1).
Cada livro da Bíblia escrito formava apenas uma parte do todo. Até ser
escrito o Apocalipse, não se podia dizer que a revelação de Deus estava
completa (teleion). Esta palavra teleion significa que alguma coisa agora
está parcialmente aqui, está se desenvolvendo presentemente e um dia há
de se tornar completa. A palavra cabe bem no conceito da revelação
progressiva do Novo Testamento, da qual Paulo tinha conhecimento
(João 14:25, 26; 16:12, 13; cf. Col. 1:25). Esses dons da revelação hão
de cessar ou tornar-se inoperantes quando a revelação for completada.
O dom ou o ato de falar línguas ou de profetizar terminaria, não o
conteúdo ou a mensagem falada. O conteúdo, isto é, a revelação divina,
era verdadeiro, e, sem dúvida, foi incorporado na revelação escrita, a
Palavra de Deus. Horton, advogado de glossolalia, confessou que alguns
usos dos dons contribuíram para o Cânon. (40) Ainda que a palavra teleios
geralmente se refira à perfeição ou maturidade do crente, uma vez é
empregada a respeito das Escrituras (Tiago 1:25). Emprega-se de
maneira interessante com referência à igreja madura (Ef. 4:13; cf. 2:15),
a quem Cristo deu líderes capacitados, com o propósito expresso de
desenvolver a igreja na direção da maturidade (apóstolos, profetas,
evangelistas, pastores-mestres).
Até o tempo em que morreram os apóstolos, profetas e evangelistas,
a igreja estava amadurecida, com as Escrituras completas em mão e sob

(39)
Gilbert B. Weaver, "Tongues Shall Cease: 1 Corinthians 13:8", Unpublished research paper (Grace
Theological Seminary, Winona Lake, Indiana, 1964), p. 12.
(40)
Horton, op. cit., p. 72.
Movimento Moderno de Línguas 152
a liderança de pastores-mestres locais, prontos a enfrentar o mundo não-
cristão sem o auxílio apostólico. Se alguns dos dons ainda existiam no
segundo século (não está provado), podem eles ser explicados pelo fato
de que a compilação, circulação e reconhecimento dos livros canônicos
levou tempo. Ainda que estivesse fechado o Cânon, algumas igrejas
possuíam um Cânon incompleto por muitos anos.
As duas ilustrações de Paulo (13:11, 12) servem como um terceiro
argumento. O desenvolvimento progressivo desde a infância até a
maturidade na vida pessoal de Paulo serviria melhor para ilustrar o
desenvolvimento do corpo de Cristo (cf. I Cor. 12). Talvez haja aqui uma
inferência sutil aos dons de línguas ("falava"), de conhecimento
("sentia") e de profecia ("pensava") que "acabei com" ou "tornei
inoperantes" pela maturidade (a mesma palavra é empregada:
katargethesetai, 13:8; cf, katergeka, 13:11). Será esta a razão por que
Paulo ultrapassou as línguas e só queria ensinar na igreja (cf. 14:18, 19)?
A segunda ilustração é um pouco mais difícil de ser compreendida,
Weaver argumentou que ela não faz referência à segunda vinda de
Cristo: Se o espelho é coisa metafórica para alguma coisa, então a
expressão "face a face" como experiência é metafórica também... " (41)
Isto está de acordo com o contexto de "em parte" e "perfeito". Ao olhar
para a Palavra parcialmente revelada, o homem recebe uma visão parcial
de si mesmo; todavia, quando a Palavra for completa, então o homem
poderá ver a si mesmo exatamente como Deus o viu. Por quê? Porque
Deus revelara completamente o propósito do homem e da igreja na Sua
Palavra.
Quarto, se o dom de línguas era também um sinal aos judeus
curiosos (14:21-22), então este significado terminou com a destruição de
Jerusalém (A.D. 70).
Quinto, em livros escritos depois de I Coríntios, para tratar de
problemas eclesiásticos e do viver Cristão normal, não há nenhuma

(41)
Weaver, op. cit., p. 14.
Movimento Moderno de Línguas 153
menção do dom de línguas. As qualificações dos pastores (anciãos) e dos
diáconos não incluem quaisquer dons específicos (I Tim. 3:1-13; Tito 1:5-9).
Cristo criticou as sete igrejas (Apoc. 2-3) por causa de seus muitos erros
na vida e na doutrina, porém não há menção de línguas. Aparentemente,
esses dons haviam cessado já naquele tempo. Sinais, maravilhas,
milagres e dons espirituais (Heb. 2:4), abundantes na vida primitiva da
igreja, já haviam passado, como o propósito de Deus para com eles fora
retirado.
Sexto, Morris considerou a ignorância contemporânea quanto à
natureza básica dos dons como um argumento contra sua permanência.
Ele escreveu: "Mas, à vista do fato de que eles desapareceram tão
depressa e tão completamente que nem sabemos por certo o que eram,
temos que considerá-los como o dom de Deus para o tempo da infância
da igreja." (42) Até os pentecostais têm um problema em definir a
natureza exata do dom de línguas e da interpretação.
Toussaint resumiu um pouco seu terceiro ponto de vista. (43) Ele
considerou a diferença entre os verbos de 13:8 ser muitíssimo
significativo: "O amor jamais acaba (piptei): mas havendo profecia,
serão aniquiladas (katargethesontai); havendo línguas, cessarão
(pausontai); havendo ciência, desaparecerá (katargethesetai)." "Mas
quando vier o que é perfeito, 'o que é em parte será aniquilado"'
(katargethesetai). A profecia e a ciência tornar-se-iam inoperantes pela
volta de Cristo (to teleion), mas as línguas cessariam antes desse evento.
Somente a história poderia verificar o ponto exato em que cessaram. Isto
se baseia na mudança de verbos (pauo para as línguas e katargeo para
profecia e ciência).
Nota-se também a mudança da voz. Pausontai é do futuro, voz
média, conquanto katargethesetai é do futuro, voz passiva. Duas coisas
tornar-se-ão inoperantes por algo, enquanto as línguas simplesmente
(42)
Morris, "Gifts", op. cit., p. 5.
(43)
Stanley D. Toussaint, "First Corinthians Thirteen and the Tongues Question", Bibliotheca Sacra,
CXX (outubro-dezembro, 1963), pp. 311-16.
Movimento Moderno de Línguas 154
cessarão por si. A omissão de línguas, o assunto-chave do contexto, nos
versículos 9 e 12, confirmam esta conclusão.
Erva distinção, contextual e gramaticalmente válida, destruiria a
tese de que "línguas" são permanentes. Não poderia ser o caso de que
esta distinção fosse mantida com esta única exceção? Os dons de
profecia e de ciência tornar-se-iam inoperantes pelo acabamento do
Cânon, enquanto as línguas cessariam antes de se escrever o último livro
do Novo Testamento, o que seria mais de acordo com o uso de teleios.
O dom de línguas, então, tem de ser contemplado como um dom
menor, necessário à infância da igreja, porém que cessou dentro do
propósito de Deus quando a revelação de Deus foi completa.

Línguas e Regulamentos

Nesta sua comparação dos dons da profecia e de línguas (Cap. 14),


Paulo apresenta diversos regulamentos para a expressão dom de línguas.
A violação destes regulamentos revelaria que o fenômeno não era divino
em sua origem.

Edificação

A ênfase principal de Paulo nesse capítulo é que todos os crentes na


igreja fossem edificados pelo exercício de dons espirituais (14:3, 4, 5, 6,
12, 17, 19, 26, 31). Especificamente, ele os admoestou: "Assim também
vós, já que estais desejosos de dons espirituais, procurai abundar neles
para a edificação da igreja" (14:12) e "Faça-se tudo para edificação"
(14:26). Exercer o dom de línguas trazia edificação àquele que falasse
(14:4). Em si, isto é bom, porém não cumpre o pleno propósito dos dons.
Um membro do corpo de Cristo deveria funcionar para que (ou de modo
que) o corpo inteiro recebesse proveito, o amor verdadeiro para com os
crentes irmãos não busca sua própria edificação (13:5) à custa da maior
edificação da igreja. Aparentemente, no seu orgulho egoísta e na sua
Movimento Moderno de Línguas 155
carnalidade, os coríntios desejavam esse dom mais que os outros por
causa de seus benefícios inerentes a eles, porém estava errada essa
atitude. Paulo, para corrigir o pensar deles, usou sua própria atitude
(14:18-19):
Dou graças a Deus, que falo mais línguas do que vós todos. Todavia,
na igreja eu antes quero falar cinco palavras com o meu entendimento, para
que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em outras
línguas.
Hoyt comentou: "Esta é uma declaração categórica que não admite
exceções, e que quase equivale a dizer que o falar línguas é praticamente
sem valor algum numa reunião pública." (44)
O Moderno Movimento responderia que Paulo está condenando
somente línguas, não interpretações, e que línguas mais a interpretação
realmente trazem edificação à igreja (cf. 14:5). Visto que é possível que
não fosse dada nenhuma interpretação (14:28), Paulo vê pouco valor no
dom de línguas em si. Para ser válido, precisava de ser interpretado. Mas
não estando presente quem a interpretasse, então a pessoa que tinha o
dom de línguas teria que ficar quieta. Assim, não poderia funcionar
como membro do corpo de Cristo para a educação de outros crentes.
Paulo desejava que exercessem um dom que em todo tempo pudesse
ministrar para edificação (12:31; 14:12,39). Até Roberts confessou que
"como um instrumento de ensino e de pregação, línguas são virtualmente
sem valor". (45)

Interpretação

O regulamento da interpretação é claro (14:27, 28): "Se alguém


falar em outra língua, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e cada
um por sua vez, e haja um que interprete. Mas, se não houver intérprete,
esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo e com Deus."

(44)
Herman A. Hoyt, "Speaking in Tongues", Brethren Missionary Herald, XXV (23-3-1963), p. 157.
(45)
Roberts, op. cit., p. 94.
Movimento Moderno de Línguas 156
Não deve haver glossolalia sem interpretação na igreja local. O
moderno movimento de "línguas" tem violado consistentemente esse
regulamento. (46) Esta passagem ensina também que apenas uma pessoa
(heis, não tis) deve interpretar, sem levar em conta o número de pessoas
(uma, duas ou três) que falem em outras línguas. Não deveria haver
interpretação por parte de dois ou três homens, mas cada um por sua vez.
Horton erradamente disse que "um" não era número, e, sim,
pronome. Nessa base, ele permitiu a idéia de que dois ou três intérpretes
poderiam falar. (47) Violam, portanto, também esse regulamento.
Essa passagem, além disso, demonstra que a presença dum
intérprete podia ser verificada antes de ocorrer a glossolalia. Os crentes
sabiam quando tinham o dom de interpretar e esse fato era reconhecido
pelos outros. Todavia, é ensinado que se uma pessoa falar em línguas e
não houver interpretação, então aquele que tiver falado deve pedir em
oração uma interpretação e ele mesmo deve dá-la. Esse conceito baseia-
se em 14:13: "Por isso, o que fala em outra língua, ore para que possa
interpretar. " Entretanto, o contexto imediato (14:1,2) revela que todos
estavam falando em outras línguas e ninguém estava interpretando. Isso
era sem proveito e não edificava. Portanto, Paulo admoestou que aquele
que falasse orasse para que recebesse o dom de interpretar, a fim de que
pudesse interpretar o que os demais estavam falando, para a edificação
da igreja. Também, se uma pessoa pudesse falar em línguas e então orar
pelo dom de interpretar, qual o sentido oculto sob o regulamento de
Paulo (14:27,28)? Sempre estaria presente um intérprete potencial, se o
caso fosse assim.
Ainda que fosse possível uma só pessoa ter ambos os dons, de
línguas e de interpretação, é improvável que usasse de ambos os dons na
mesma ocasião. Visto que os profetas seriam julgados pelos outros (hoi
alloi diakrinetosan; 14:29), o mesmo procedimento se aplicaria à
(46)
Ver os Apêndices I e II. O autor tem observado isso pessoalmente várias vezes. Ocorre
constantemente – a procura do batismo, de línguas devocionais e do dom de línguas.
(47)
) Horton, "Gifts", op. cit., pp. 168-69.
Movimento Moderno de Línguas 157
glossolalia (14:27). Isto se vê também em 14:26: "Que fazer, pois,
irmãos? Quando vos congregais, cada um de vós tem salmo, tem
doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para
edificação."
Aqui se faz uma distinção entre aquele que fale em outras línguas e
aquele que interprete. A maioria das interpretações do mo.derno
movimento de "línguas" é dada ou por aquele que fala ou pelo pastor ou
líder da congregação. (48)

Linguagem

Antes foi salientado (Capítulo III, clique aqui) que toda glossolalia,
quer seja sinal da recepção do Espírito Santo (At. 2,10,19) ou o dom de
línguas (I Cor. 12-14), era na forma de idiomas conhecidos do mundo,
que poderiam ser traduzidos para a língua da congregação. O fator
ininteligível ou em sons desconhecidos (sons que não manifestam os
componentes da estrutura conhecida de linguagem) é completamente
estranho aos registros bíblicos do fenômeno. O moderno movimento de
"línguas" é culpado das violações freqüentes e universais desse
importante regulamento.

Número e Ordem

Não deve haver mais que três casos individuais de glossolalia em um


culto, e deve ocorrer cada um por sua vez, não simultaneamente (14:27) . A
glossolalia simultânea, por parte de muitas pessoas, conduz unicamente à
confusão em massa e se torna ridícula aos descrentes (14:23). Todavia,
isto se faz pelo moderno movimento de "línguas" com aprovação. Com
referência ao cantar em outras línguas ("cantarei com o espírito", 14:15)
é sinônimo conforme a esse movimento, observou Brumback: "Temos

(48)
Ver os Apêndices I e II, quanto às ilustrações.
Movimento Moderno de Línguas 158
ouvido esse cantar em línguas freqüentemente por uma congregação
inteira, ocasionalmente (ou vez por outra ) por um grupo menor e até por
um crente sozinho... " (49)
Ocorrências simultâneas do dom de línguas, quer na forma de falar,
de orar ou de cantar, são condenadas por Paulo. Os pentecostais admitem
uma distinção entre línguas em Atos (evidenciais) e línguas em Corinto
(dons); portanto, não se pode servir-se das ocorrências simultâneas em
Atos para sustentar seu uso das ocorrências simultâneas do dom.
Em todo tempo, os que falam em público, quer sejam faladores em
outras línguas ou profetas, devem manifestar restrição e controle próprio
no exercício dos seus dons (14:28, 30, 32; Gál. 5:22, 23: "O Fruto do
Espírito é... domínio-próprio.") "Deus não é Deus de confusão, mas, sim,
de paz" (14:33). Ele faz tudo decentemente e com ordem (14:40).
Portanto, qualquer glossolalia na atmosfera de confusão não é de Deus . (50)
A glossolalia genuína seguirá os regulamentos expostos na Palavra de Deus.

Sexo

As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido


falar; mas estejam submissas, como também ordena a lei. E, se querem
aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque
é indecoroso para a mulher falar na igreja (I Cor. 14:34, 35).
Em que sentido é que se não permite à mulher falar no culto de uma
igreja local? Horton, um pentecostal, disse que as mulheres não devem
falar para julgar os profetas (14:29) ou para fazer perguntas para
aprenderem (14:35). (51) Conforme Horton e o "moderno movimento de
línguas", essa proibição às mulheres não se refere à glossolalia ou à
profetização. Ele admitiu que todos os movimentos que têm mulheres
como chefes ou líderes estão ensinando erros, porém que muitas
(49)
Brumback, What Meaneth This?, op. cit., p. 294. Ver no Apêndice I, uma ilustração de dois
falando ao mesmo tempo.
(50)
Ver Apêndice I e II, quanto às ilustrações sobre confusão
(51)
Horton, Gifts, op. cit., p. 207.
Movimento Moderno de Línguas 159
denominações e igrejas pentecostais têm tido mulheres como líderes ou
"pastoras" (e.g. Aimee Semple McPherson) e o moderno movimento não
é uma exceção (e.g. Jean Stone). Brumback chamou de "regra geral" esta
passagem e I Timóteo 2:11,12, de preferência a "regra absoluta", que não
admite exceções. (52) Entretanto, visto que Paulo não permite exceções,
por que deveríamos nós permiti-las?
À parte da questão de profecia, muitos crêem que esta é uma
proibição da glossolalia por parte das mulheres. (53) A proibição de falar
emprega a mesma palavra (laleo) como foi usada na glossolalia
(14:34,35; cf. 14:27,28). A passagem ainda está no contexto de falar em
outras línguas (cf. 14:37, pneumatikos, um sinônimo de glossolalia, e 14:39);
portanto, não precisa ser limitada a julgamentos ou a perguntas. Se Paulo
estivesse se referindo apenas ao julgar ou a fazer perguntas, ele poderia
ter usado, e de fato teria usado, aquelas palavras (diakrino; 14:29, e
eperotao; 14:35) para designar seu significado exato.
Alguns têm incluído a profecia nessa proibição. Grosheide disse
que as mulheres poderiam profetizar, porém não quando a congregação
estivesse oficialmente reunida. (54) Para excluir a profecia, onde quer que
acontecesse. (55) Ainda que Paulo mencionasse a profecia e as mulheres
antes (I Cor. 11:2-16), basicamente ele estava tratando do caso de as
mulheres usarem o véu e da sua insubordinação. Neste capítulo (cap. 14) ,
Paulo até proibiu que as mulheres profetizassem. Essa palavra laleo
também se emprega em relação à fala profética (14:29), de modo que a
profecia pode ser incluída na proibição. Se não, certamente a glossolalia
por parte das mulheres é o que ele proibia. Esse regulamento sozinho
basta para mostrar que o "moderno movimento de línguas" não é bíblico.

(52)
Brumback, What Meaneth This?, op, cit., p. 314.
(53)
M. R. DeHaan, Holy Spirit Baptism (Grand Rapids: Radio Bible Class, 1964), pp. 31 e 32.
(54)
F. W. Grosheide, Commentary on the First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Wm. B.
Eardman's Publishing Co., 1953), p. 341.
(55)
R. St. John Parry (ed.), The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians (Cambridge
University Press, 1916), pp. 210-11.
Movimento Moderno de Línguas 160
Um Sinal para os Descrentes

Está escrito na lei: Por homens de outras línguas e por lábios de estrangeiros
falarei a este povo; e nem me ouvirão, diz o Senhor. De modo que as línguas são
um sinal, não para os crentes, mas para os incrédulos; a profecia, porém, não é
sinal para os incrédulos, mas para os crentes (I Cor. 14:21, 22).
À parte da edificação da igreja por meio da interpretação, o dom de
línguas seria como um sinal aos descrentes, especialmente e talvez
exclusivamente aos incrédulos judaicos. Por causa da referência a "este
povo" (Israel) e do emprego da conjunção inferencial "de modo que"
(hoste), Hodge cria que o intento verdadeiro de línguas poder-se-ia ver
na citação do Velho Testamento (14:21; cf. Is. 28:11,12). Ele escreveu:
"Línguas foram dadas como um sinal ao povo judaico somente, e daí se
segue que em geral o visitante pagão na assembléia cristã (muito mais
provavelmente seria um gentio do que um judeu) seria exposto a um
fenômeno que, antes de tudo, jamais lhe dizia respeito." (56)
O contexto (14:21,22; cf. 1:22: "Os judeus pedem um sinal") e a
primeira ocorrência de línguas (At. 2:1-13) sustentam esta conclusão.
Entretanto, talvez Paulo esteja usando essa passagem para mostrar que as
línguas são um sinal para os incrédulos que permanecerem não
convencidos e firmes na sua incredulidade. O dom de línguas não foi
usado para proclamar o evangelho aos salvos. Tais pretensões por parte
do "moderno movimento de línguas" (há muitas), quanto a este propósito,
têm que ser consideradas como contrárias ao significado bíblico.

Recepção

Horton escreveu: "Foi o desejo expresso do Senhor que todos


falassem em línguas (I Cor. 14:5)... Se você, pois, nunca falou, procure o
Espírito até que o consiga." (57) Será verdade isso? De maneira alguma!

(56)
Hodge, op. cit., p. 231.
(57)
Horton, Gifts, op. cit., p. 156.
Movimento Moderno de Línguas 161
O desejo de Paulo (14:5) não teria maior cumprimento do que seu desejo
de ser anátema por amor a Israel (Rom. 9:3). Este último era impossível
por causa do propósito eletivo de Deus (Rom. 8:28-39 ), e o desejo
anterior era impossível por causa da natureza do corpo de Cristo. Nem
todos os membros têm o mesmo dom. Isto Paulo apontou claramente:
"Todos falam em outras línguas?" (12:30). A resposta esperada é
negativa. Será que o Espírito Santo faria com que um crente desejasse o
menor dos dons (línguas), quando Paulo disse aos coríntios que
desejassem os maiores dons (12:31; 14:1,39)? De maneira nenhuma!
Deve-se lembrar que não importa o quanto uma pessoa ore ou
deseje um dom, ainda é um dom e é dado soberanamente (como Ele
quer). O apelo de Paulo é feito também à igreja como um todo. Eles
deveriam desejar que os melhores dons fossem manifestos entre eles, e
não que cada cristão que possuísse um dom desejasse outros.

Proibição

Em conclusão, Paulo escreveu: "Portanto, irmãos, procurai com


zelo o profetizar, e não proibais o falar em línguas" (14:39). O "moderno
movimento de línguas" tem-se agarrado a esse versículo como um aviso
contra a supressão das manifestações de dons espirituais. Brumback
declarou: "Por que o Espírito Santo o inspirou a expressar negativamente
essa ordem? Porque ele sabia que haveria necessidade de uma força
poderosa para deter os muitos e variados esforços de excluir 'línguas',
não somente em Corinto, mas também através de toda a história da
igreja." (58)
Todavia, jamais Paulo mandou que os coríntios desejassem línguas.
Visto que o dom de línguas estava então em existência, nem Paulo nem
os coríntios proibiriam o seu uso. Entretanto, eles poderiam regulamentar
a sua manifestação. Não se pode usar esse versículo para provar que

(58)
Brumback, What Meaneth This?, op. cit., p. 172.
Movimento Moderno de Línguas 162
línguas devem ser permitidas hoje em dia. Somente o propósito de Deus
para hoje poderá revelar se acontecerá hoje em dia ou não.
Os regulamentos para línguas são muitos. Este mesmo fato mostra
que o fenômeno ou era mal usado ou simulado freqüente e facilmente.
Isto talvez sirva como outra razão por que línguas eram destinadas a ser
temporárias. Quanto aos regulamentos e ao movimento presente, Hoyt
concluiu: "É muito possível que uma aplicação rígida eliminaria por
completo o seu emprego. (59) O estudo pessoal e a observação pelo autor
confirmam essa conclusão.

Atos vs. I Coríntios

Será que as línguas mencionadas em Atos e as em I Coríntios sejam


do mesmo caráter e tenham o mesmo propósito? Ou, elas terão o mesmo
caráter, porém um propósito diferente?
Ruble cria que as várias ocorrências tinham o mesmo caráter e o
mesmo propósito. Ele escreveu:
A explicação das diferenças entre as línguas em Atos e as de I
Coríntios centraliza-se nos conceitos de revelação progressiva e de
distintivos dispensacionais. A glossolalia em Atos ocorreu alguns anos antes
da de I Coríntios. Seria de esperar que com o passar dos anos seriam
estabelecidos nas igrejas regulamentos para governar o uso dos dons
espirituais. (60)
Todavia, a última ocorrência de línguas em Atos (19:1-7) verificou-
se durante a terceira viagem missionária de Paulo, em Éfeso. Naquele
tempo Paulo escreveu I Coríntios, da cidade de Éfeso; portanto, seria
mais lógico concluir que a manifestação corintiana de línguas precedeu a
dos discípulos de João, o Batista, ainda que a Carta aos Coríntios fosse
escrita logo depois da ocorrência em Éfeso. Assim, se regulamentos
foram impostos, o foram subitamente, não progressivamente. Até Gee,

(59)
Hoyt, op. cit., (20-4-1963), p. 206.
(60)
Ruble, op. cit., pp. 131 e 132.
Movimento Moderno de Línguas 163
um autor pentecostal, admitiu a continuidade e a regulamentação
progressiva da experiência de Atos para I Coríntios. (61) Entretanto, o
estudo desses dois livros tem demonstrado que o fenômeno de línguas
em ambos era o mesmo em caráter, porém diferente em propósito.
MacDonald admitiu isso. (62)
Ambas as ocorrências consistiam em falar línguas ou idiomas
conhecidos e em magnificar a Deus. Ambas eram faladas por homens
sob o domínio do Espírito Santo e ambas tinham significado como sinais .
Aqui termina a semelhança. Em Atos, a glossolalia era um sinal de
transição da recepção singular do Espírito Santo por quatro classes
diferentes de pessoas. Em I Coríntios, as línguas eram um dom espiritual
dado a alguns crentes para a edificação da igreja. A regulamentação do
dom de línguas (o número, em ordem, necessidade de um intérprete etc. )
não se vê nas ocorrências em Atos. Por causa desta diferença de
propósito, Brumback argumentou:
Se há uma distinção clara entre o fenômeno de línguas em Atos e o de
I Coríntios, então o argumento pentecostal em prol do dom de línguas como
a evidência inicial e física torna-se quase irrefutável. Se não, então a
teologia pentecostal sobre o ensino da evidência sofre uma derrota. Isto é,
talvez, o ponto decisivo de toda a controvérsia. (63)
Há uma diferença de propósito, porém a definição pentecostal do
termo "propósito" está errada. Em Atos, as línguas não eram o sinal
inicial e físico do batismo no Espírito Santo (o qual eles definiram
erradamente). A admissão de uma diferença de propósito não significa
que a posição pentecostal seja irrefutável. O estudo do fenômeno e de
seus propósitos distintivos em Atos e em I Coríntios tem demonstrado
que esses propósitos não mais existem; portanto, não ocorre hoje o
fenômeno de genuína glossolalia.

(61)
Gee, op. cit., p. 57.
(62)
William G. MacDonald, "Glossolalia in the New Testament" Bulletin of the Evangelical
Theological Society, VII (Spring, 1964), p. 65. Reimpresso em forma de livrete pela Gospel
Publishing House, Springfield, Mo.
(63)
Brumback, What Meaneth This?, op. cit., p. 261-62.
Movimento Moderno de Línguas 164
Muitas tentativas para refutar o pentecostismo têm sido feitas
baseadas na proposição de que os fenômenos eram os mesmos em
caráter e em propósitos. Esses homens apontariam o fato de que nem
todos falam línguas (I Cor. 12:30), mas que todos têm sido batizados no
Espírito Santo (I Cor. 12:13); portanto, a glossolalia não é evidência do
batismo no Espírito Santo. Entretanto, não é necessário manter a
identidade em caráter e em propósito para refutar a base doutrinária do
moderno movimento de línguas. A base doutrinária e as experiências
pessoais daqueles que defendem o movimento não se harmonizam com
as características dos dois diferentes propósitos.
O moderno movimento de1illguas admite três tipos diferentes de
línguas.
Primeiro – Uma pessoa fala em outras línguas como a evidência
inicial, física, do batismo no Espírito Santo (At. 2, 8, 10, 19).
Segundo – Uma pessoa que tenha tido essa experiência poderá
continuar a falar em outras línguas simplesmente para suas devoções
particulares (sem ter a necessidade de interpretá-las), para sua auto-
edificação.
Terceiro – A alguns Deus dá o dom de línguas que tem de ser
exercido na igreja local, acompanhado pelo dom de interpretação. Já
provamos que o primeiro tipo é falso. A distinção entre o segundo e o
terceiro tipos foi feita arbitrariamente, deduzida de I Coríntios.
MacDonald classificou os versículos que denotam uso pessoal
(14:6,9,16,18,23,26,28), uso na igreja (12:10, 28,30; 14:5b,13,27,39) e
ambos os usos (13:1,8; 14:2,4,5a,14,15, 22). (64) Esta distinção foi
imposta a esta passagem, que trata estritamente de dons espirituais a
serem exercidos na igreja local, para a edificação de todos. Tem sido
exposta como uma justificação de línguas não interpretadas em particular
e em público. (65)

(64)
MacDonald, op. cit., pp. 63-65.
(65)
Ver Apêndice I, quanto às ilustrações.
Movimento Moderno de Línguas 165
O dom de línguas foi um uso válido no período da igreja infante,
porém sua manifestação não é mais necessária hoje em dia.
Assim, a glossolalia em Atos e em I Coríntios era de dois tipos.
Eram o mesmo quanto ao caráter essencial, porém diferentes quanto ao
propósito.
Movimento Moderno de Línguas 166
CONCLUSÃO

"ATRAVÉS DA HISTÓRIA da igreja, nenhum dom espiritual tem


ocasionado tanta controvérsia contínua como o dom de línguas." (1)
Temos demonstrado a verdade dessa observação. O "movimento
moderno de 'línguas"' tem aumentado essa controvérsia e tem estimulado
muita pesquisa quanto ao fenômeno de línguas. Temos tentado avaliar
esse movimento à luz das Escrituras Sagradas.
Notou-se primeiro que o fenômeno de fala extática ou de glossolalia
não foi particular ao cristianismo bíblico, mas que também foi achado
nas religiões pagãs. Isso demonstrou que a fala extática poderia ser
produzida ou satânica ou artificialmente. No Velho Testamento não se
achou nenhum caso de "línguas". Na era apostólica, o fenômeno bíblico
ocorreu pela primeira vez (At. 2, 10, 19; I Cor. 12-14). Nenhuma
manifestação genuína de línguas se viu no período pós-apostólico até o
fim da Reforma Protestante.
Nos primeiros três séculos após a Reforma, manifestações
pervertidas de línguas ocorreram entre grupos heréticos de persuasão
doutrinária diferente. O pentecostismo moderno é um movimento do
século vinte com sua base na teologia arminiana de santidade. É esse
movimento que tem pretendido para si a recuperação do fenômeno de
línguas e que tem penetrado as denominações históricas na última
década. Portanto, não há nenhuma continuidade histórica do fenômeno
de línguas desde a era bíblica até a situação presente. De fato, as línguas
cessaram!
O movimento corrente de glossolalia está sendo impulsionado
principalmente pela Full Gospel Business Men's Fellowship
International (Comunhão Internacional dos Homens de Negócio pró
Pleno Evangelho ) e outros grupos, como a Bendita Sociedade Trinitária.
Todas as principais denominações têm sido penetradas e influenciadas

(1)
Walvoord, op. cit., p. 180.
Movimento Moderno de Línguas 167
por essa nova ênfase. Caracteriza-se o movimento por todos os tipos de
fenômenos – línguas, curas, visões, sonhos, revelação direta etc. Essas
experiências são contrárias ao padrão bíblico de verdadeiras experiências
espirituais. Ainda que o movimento pretenda ser de origem divina, seus
fenômenos são explicados melhor pela origem satânica, produzidos
psicologicamente ou artificialmente simulados. Na maioria dos casos,
parece ser um esforço humano de restabelecer ou de simular um
fenômeno bíblico transicional.
A natureza verdadeira da glossolalia bíblica consistia de idiomas
(ou línguas) conhecidos, estrangeiros, falados por um crente que nunca
os havia conhecido ou aprendido e que era controlado pelo Espírito Santo .
O movimento moderno de línguas defende a idéia de que a glossolalia
pode ser em línguas conhecidas ou em sons desconhecidos, sendo que
esta forma se emprega muito mais freqüentemente que aquela. Visto que
a glossolalia em sons desconhecidos não tem base nas Escrituras
Sagradas, o "moderno movimento de 'línguas"' não tem redescoberto o
fenômeno bíblico.
O moderno movimento de línguas defende a idéia de que por tanto
tempo quanto for efetivada a Grande Comissão, haverá glossolalia (Mar.
16:15-20). A fé verdadeira em Deus, dizem eles, fará com que o
fenômeno apareça na vida do indivíduo. Todavia, a fé mencionada nessa
passagem é a fé que leva à salvação, não a fé para receber um dom.
Realmente, a passagem ensina que cada pessoa que crer em Cristo
haverá de falar línguas. Isto é contrário às experiências das gerações
passadas de crentes e do próprio movimento moderno. Visto que a
passagem tem pouca autenticidade textual, ela não deve ser usada para
tentar provar posição nenhuma.
O moderno movimento também defende a idéia de que a glossolalia
foi a evidência inicial e física do batismo do Espírito Santo (At. 2, 8, 10,
19). Entretanto, interpreta mal a doutrina bíblica do batismo do Espírito
Santo e a natureza transicional do Livro de Atos. A fala de línguas era o
sinal da introdução inicial do ministério do Espírito Santo para quatro
Movimento Moderno de Línguas 168
classes diferentes de pessoas – judeus, samaritanos (?), gentios,
discípulos de João, o Batista. Ocorreu naquele tempo, e somente então,
para aquele propósito particular. Essas ocorrências nunca pretenderam
tornar-se padrão para a recepção do Espírito Santo por crentes
subseqüentes. Não puderam, porque nem dois dos quatro casos são
idênticos. De fato, as experiências de muitos pentecostais são contrárias
ao seu próprio padrão formulado.
O moderno movimento de línguas acha que os dons espirituais,
inclusive o de línguas, foram dados de propósito por Deus para tornar-se
uma parte permanente da vida e da história da igreja. Todavia, muitos
desses dons (inclusive o de línguas) eram temporários, para serem
usados pela novel (ou infante) igreja até que fossem completados o
Cânon do N.T, e a revelação e até que a igreja estivesse amadurecida,
como o resultado do ministério profético dos apóstolos, Foi claramente
declarado que o dom de línguas haveria de cessar, e a história eclesiástica
revela que de fato cessou no primeiro século. Os regulamentos interiores
(amor) e exteriores do dom de línguas não são praticados pelo moderno
movimento de línguas. Este acha que a proibição da glossolalia hoje em
dia contraria as Escrituras (I Cor. 14:39), e é uma limitação da vontade
soberana de Deus. Todavia, a questão não é se Deus pode dar o dom hoje
em dia; antes é se Deus teve o propósito de dá-lo. Como escreveu
Walvoord:
É, naturalmente, impossível provar experimentalmente que a
glossolalia não pode ocorrer hodiernamente. Pode ser demonstrado, todavia,
que a glossolalia não é essencial ao propósito de Deus agora, e que há
razões boas e suficientes para crermos que a maior parte, se não todos os
fenômenos que se nos apresentam como prova da moderna glossolalia, ou é
atividade psicológica ou demoníaca. (2)
Que é, então, o "moderno movimento de línguas"?
Primeiro: É a penetração e a presença do Velho Pentecostismo
dentro das igrejas do protestantismo histórico. Ainda que pretendam ser

(2)
Ibid., pp. 185 e 186.
Movimento Moderno de Línguas 169
presbiterianos ou batistas com uma experiência pentecostal, na realidade
nada mais são que pentecostais que se mantêm como membros em
igrejas presbiterianas ou batistas. Sustentam eles, os pregadores
pentecostais (v.g. Oral Roberts), publicações e escalas (v.g. A Universidade
Oral Roberts) e encontram sua melhor comunhão dentro do programa da
Full Gospel Business Men's Fellowship. O movimento carismático
dentro das igrejas históricas não é um movimento espontâneo do lado de
dentro, porém antes um recrutamento ativo que vem de fora.
Segundo: O moderno movimento de 1ínguas é uma parte essencial
da atmosfera ecumênica. Um dos principais líderes, Harold Bredesen,
afirmou: "Hoje em dia esse Espírito vivo e incontrolável está trabalhando
soberanamente na Igreja Católica Romana e entre as igrejas protestantes,
sejam elas liberais ou conservadoras." (3) Um ministro luterano e "falador
de línguas" escreveu:
Tenho tido diálogos com católicos e com pentecostais e isso se
tornou em bênção maravilhosa. Em Brooklyn (subúrbio de Nova York)
agora temos dois grupos em diálogo, compostos de ministros luteranos
de todos os gostos e de jovens sacerdotes católicos romanos. Reunimo-
nos e estudamos juntos as Escrituras, oramos juntos, conversamos acerca
dos problemas comunitários e discutimos os empenhos mútuos das
nossas Paróquias.
Recentemente Participei de um retiro espiritual para católicos romanos,
episcopais e luteranos. O Espírito Santo está operando na Igreja Católica
Romana. Estou convencido de que o significado básico da Renovação
Carismática é a reunião das igrejas. Não uma reunião comprometida, como
a criação de uma "super-igreja", porém uma renovação quanto ao significado
da unidade do Espírito (4) (o grifo é do autor deste livro).
Que nem todos os líderes pentecostais sustentam essas pretensões
está fora de consideração. É um fato que essa significação do moderno
movimento de línguas é assim declarada por alguns dos seus próprios

(3)
Harold Bredesen, "Return to the Charismata", Trinity, II (Whitsuntide, 1962), p. 22.
(4)
Erwin Prange, "New Ministry", Full Gospel Business Men's Voice, XIII (abril, 1965), p. 7.
Movimento Moderno de Línguas 170
líderes. Liberais, conservadores, protestantes e católicos estão sendo
atraídos e reunidos pelo fenômeno de glossolalia. Isto talvez supra a
unidade interior que o movimento ecumênico não podia suprir por meio
de sua organização. Mas será uma unidade interior baseada na
experiência, não na doutrina.
Terceiro: O moderno movimento de línguas reflete a confusão e a
ignorância quanto à doutrina bíblica. Tem sua base no arminianismo e na
imaturidade espiritual. Muitas das suas experiências simulam o
"encontro-crise" da neo-ortodoxia barthiana. Todas as espécies de
fundamentos doutrinários são aceitas por eles, conquanto a pessoa tenha
tido a experiência especificada.
Notai os testemunhos publicados, dados pelos católicos romanos
(sacramentalismo), pela Igreja de Cristo (regeneração batismal), pelos
arminianos e pelos liberais. Sua ênfase da revelação extrabíblica e dos
fenômenos (visões, sonhos, curas, línguas) não é sadia e é contrária ao
testemunho do Espírito Santo através da Palavra. Seus conceitos
doutrinários quanto ao batismo do Espírito Santo e ao cumprimento da
"chuva serôdia" têm de ser rejeitados.
Quarto: O movimento moderno de línguas é baseado na experiência
do indivíduo, não na doutrina. Alguém escreveu algures esta máxima:
"Quem tem uma experiência nunca estará à mercê de quem tem um
argumento." Até certo ponto, isto é verdade, porém uma experiência
religiosa em si nunca pode ser o teste final de sua genuinidade. A Bíblia
sempre terá que ser a base da fé e da prática. Ela sempre terá que julgar
as experiências para determinar sua validez. Walvoord apontou os erros
de doutrina baseada na experiência:
A experiência sempre possui duas bases fatais para o erro: (1) um
equívoco da própria experiência quanto ao seu conteúdo e origem divina;
(2) uma conclusão falha quanto ao significado doutrinário da experiência.
Daí, num lado, uma experiência supostamente de origem divina poderá ser
puramente psicológica, ou pior, um instrumento enganador do próprio
Satanás. Por outro lado, uma experiência genuína pode ser mal entendida e
Movimento Moderno de Línguas 171
mal rotulada, como a denominação comum da obra de enchimento do
Espírito como o batismo do Espírito. (5)(5)

O moderno movimento de línguas é culpado de ambos esses erros.


Concluímos com uma citação de Paulo, que disse: "As línguas
cessarão" (I Cor. 13:8). E já cessaram!

(5)
Walvoord, op. cit., p. 174.
Movimento Moderno de Línguas 172
APÊNDICE I

O AUTOR assistiu a um banquete da Full Gospel Business Men's


Fellowship International (FGBMFI) em Dayton, Ohio, no Stratford
House no dia 21 de maio de 1965. Desse banquete participaram umas
sessenta pessoas, entre homens e mulheres. Pelo menos quatro
denominações (Batista, Metodista, Presbiteriana e Pentecostal) estavam
representadas.
O banquete começou com cântico pelo grupo e música especial.
Depois do jantar, foram feitos alguns anúncios quanto às reuniões no
futuro. Seguiram-se testemunhos de curas realizadas. Uma mulher
afirmou ter sido curada de uma doença dolorosa no pé. Um dia ela
acordara com essa dor no pé, não podendo calçar o sapato, começando a
mancar. Ela orou e conseguiu que outros orassem por ela, porém a dor
continuou. Então, durante cada dia quando ela sentia a dor no pé, dizia
no seu íntimo: "Graças te dou, ó Senhor, por teres tirado a dor." A dor
persistiu durante o dia, mas afinal, ao anoitecer, desapareceu e desde
aquele tempo não voltou mais.
Esse tipo de curas é típico de muitas pretensões pentecostais de
curas. Se um tipo progressivo, mui diferente do tipo instantâneo
mencionado na Bíblia. Em caráter não é diferente daquele que tem sido
experimentado por cristãos não pentecostais que crêem que Deus pode
curar e de fato o faz, porém que também crêem que os curandeiros e o
dom de curar não são para os tempos atuais. Esse testemunho tinha o
cheiro da técnica do "domínio da mente sobre a matéria".
O orador da noite foi o Rev. Robert P. Durand, ministro da Igreja
Presbiteriana Dilworthtown, em West Chester, Pensilvânia. Disse ele que
fora salvo, recebera o batismo do Espírito Santo, falara línguas e fora
curado de um gaguejar constante pelo ministério de James Brown, um
glossolalista presbiteriano. Ainda que sua fala estivesse boa, sinais de
gaguejo ainda estavam presentes. Muitas vezes, o começo de uma palavra
ou frase foi repetida duas ou três vezes antes de ser finalmente falada com
Movimento Moderno de Línguas 173
clareza. Na sua mensagem, Durand pretendeu que o cumprimento da visão
de ossos secos (Ez. 37) podia ser observado no avivamento carismático
entre as igrejas denominacionais históricas. Entretanto, essa profecia se
refere somente "à casa toda de Israel" (Ez. 37:11) e ao tempo quando Deus
restaurará a Israel à terra da Palestina.
Depois da mensagem, o povo ficou de pé e começou a orar e a
louvar a Deus com as mãos levantadas. Uma mulher (uns três metros
distante de mim e me encarando) começou a produzir sons estranhos, em
voz baixa, porém audivelmente. Os sons eram dentais e me pareceram
como "Tica, Tica, Tica", rapidamente repetidos. Assim ela procedeu por
um pouco de tempo, em seguida subitamente falou os mesmos sons mui
altamente. Caiu um silêncio sobre o grupo, enquanto ela repetia os sons
por cerca de um minuto. Quando ela parou, Durand pediu uma
interpretação.
Houve silêncio por um momento, então Durand mesmo começou a
dar uma interpretação. Citou uma profecia messiânica que Jesus, ao ler
na sinagoga em Nazaré, aplicou a si mesmo (Is. 61:1; cf. Luc. 4:16-21).
Durand passou a aplicar essa profecia a cada pessoa presente ao
banquete. Quando ele parou, os outros romperam em confusão. Gritos de
louvor ecoaram pelo salão porque Deus lhes havia falado diretamente. A
referida mulher de novo começou a repetir audivelmente os
mesmíssimos sons. Um jovem (distante de mim dois assentos) começou
a pronunciar três ou quatro sílabas repetidas vezes. Não houve tentativa
de conseguir uma interpretação do que ele falou.
Quando o povo ficou quieto, Durand pediu que se formassem duas
filas – uma para receber o batismo do Espírito Santo e a outra para
receber curas. Então Durand veio para onde eu estava de pé, falou a um
jovem ao meu lado (Jay Thatcher), e o levou para a área do púlpito. Eu o
segui, para observar o que iria acontecer. Então Durand fez com que o
moço se assentasse e levantasse os braços. Um amigo de Jay Thatcher (o
menino) que antes pronunciara as três ou quatro sílabas) pegou-o pela
mão. Durand fez o sinal da cruz na testa de Thatcher, pôs uma mão na
Movimento Moderno de Línguas 174
cabeça de Thatcher e com a outra agarrou o ombro do moço. E disse ao
jovem Thatcher que ele poderia receber o batismo do Espírito Santo se
tão somente cresse. Disse mais a Thatcher que repetisse a frase "monee-
monee-monee" repetidas vezes até que começasse a falar outra língua.
Enquanto Thatcher fazia isso, Durand falou uma frase de sílabas
desconhecidas, as quais aparentemente foram repetidas por Thatcher (era
difícil saber com certeza). Durand então pegou-lhe pelos ombros e
bradou que Thatcher havia recebido o batismo. Depois ele instruiu o
moço no sentido de que já recebera a experiência e que não deveria
permitir que pessoa alguma lhe dissesse que não a tivera. Enquanto
Durand estava tratando de Thatcher, muitas pessoas estavam
encorajando este com brados de exortação.
Também, a mesma mulher, que estava na fila para procurar curas,
persistia em pronunciar a frase já conhecida "Tica-Tica-Tica" muitas
vezes, novamente sem interpretação. O menino que anteriormente falava
em outras línguas disse a Durand que queria mais alguma coisa, a saber,
o dom de profecia. Todavia, Durand aconselhou-lhe que buscasse o
amor, não certos dons. Depois impôs as mãos sobre uma velha mulher
que queria ficar livre de uma dor de cabeça.
No fundo da sala, um menino estava deitado de bruços, gemendo e
soluçando. Descobri, através do pai dele, que o menino estava
terrivelmente desviado e sentia, pesaroso, a culpa do seu pecado.
Durante esse culto posterior, as pessoas estavam apenas vagueando –
falavam, tomavam café, entravam e saíam da sala. Quando, afinal, parti,
a reunião ainda estava em progresso (tendo já três horas de duração).
Cabem aqui algumas observações. Houve interpretações falsas tanto
na mensagem como na interpretação da glossolalia por Durand. Sua
pretensão de ter sido curado da gagueira não foi inteiramente
autenticada, a julgar pela sua fala. Alguma glossolalia foi deixada sem
interpretação, o que é contrário às diretrizes de Paulo (I Cor. 14:28). As
instruções fornecidas para ajudar alguém a falar em outras línguas eram
contrárias aos exemplos bíblicos. Tive a impressão de que a maioria
Movimento Moderno de Línguas 175
dessas pessoas era sincera nos seus esforços de restabelecer os eventos
bíblicos, mas que sua imaturidade fez com que errasse e que
identificasse o erro como a verdade. Isto era de se esperar, visto que se
tratava de um esforço humano para reconstruir aquilo que fora realizado
pelo Espírito Santo.
Movimento Moderno de Línguas 176
APÊNDICE II

O AUTOR assistiu a um culto dominical noturno na Primeira Igreja


Pentecostal, na Cidade de Xênia, Estado de Ohio, em 30 de maio de
1965. Numa conversa pessoal, essa igreja havia sido caracterizada como
"demasiado emocional" por um ministro das Assembléias de Deus. Estas
observações pessoais hão de confirmar essa avaliação.
Houve vários convites para chegar à frente, mesmo antes de ser
entregue a mensagem. Durante um desses convites, foram impostas as
mãos sobre uma mulher que buscava cura. Havia muita gritaria e bater
de pés, porém não houve nenhuma proclamação nem evidência exterior
de que houvesse uma cura.
Durante os preliminares do culto (cântico, orações, breves
exortações), mulheres se levantavam e começavam a tremer ou sacudir o
corpo. Suas cabeças caíam para a frente e para trás, aumentando e depois
diminuindo em velocidade. Muitas inclinavam os seus corpos para trás,
com os braços levantados. Cheguei a pensar que algumas delas cairiam
ao chão, tão inclinados ficavam seus corpos, porém nenhuma o fez.
Uma mulher foi à frente do salão e fazia esses movimentos do
corpo ao passear de um lado para o outro do salão. Outra deixou o seu
assento e começou a dançar, sapateando no corredor. Dançou até o fundo
do templo, jogando seus braços para a frente e para trás. Perto do fundo
do templo, uma de suas mãos tocou no seu marido, que então foi para a
frente, quando o pastor o exortou a indireitar-se com o Senhor.
Algumas dessas mulheres falaram palavras, mas, por estarem elas
distantes de mim, não pude perceber ou discernir o seu significado. Se
elas estavam falando em outras línguas, não houve tentativa de obter
uma interpretação.
A certa altura do culto três homens saíram do coro e começaram a
correr pelos corredores, da frente para o fundo do templo. Um jovem,
que estava sentado num banco, deixou o seu lugar e correu atrás deles.
Fizeram cerca de três voltas no salão e voltaram a seus respectivos
Movimento Moderno de Línguas 177
lugares. Sua conduta não foi explicada. Antes do sermão, um desses
homens ficou de pé no banco, no coro, e falou outras línguas por vários
minutos. Sem demora alguma ou hesitação, ele mesmo seguiu com uma
interpretação, principalmente exortando ao povo a viver pelo Senhor e a
escutar as palavras do pregador.
As ações físicas do pastor durante sua mensagem eram tão
descontroladas como as que acabo de descrever. Ele andou e correu pela
plataforma toda, pregou nos corredores e ficou de pé nos bancos. Sua
mensagem era desconexa. Tive a impressão de que ele dizia qualquer
coisa que lhe entrasse na cabeça, e de que já havia dito muitas vezes
antes tudo quanto dizia. O culto certamente não foi conduzido
"decentemente e com ordem" (I Cor. 14:40).