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POSFACIO

Erminia Maricato

ENSAIO FOTOGRÁFICO

André Cypriano

TRADUÇÃO

Beatriz Medina

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EDITORIAL

Copyright iç, Mike D.wis 2006 Copyright desta ediç.io <t'. Boitc-mpo Editorial. 2006

Título original: Pl,111ct ,,fs/11111s (Londres. Verso. 2006)

COORDENAÇÃO EDITORIAL

ASSISTÊNCIA

li!ADUÇÂ<>

f.lJl~:ÂO I>~ TEXTO

UIAGRAMAÇÂO

CAPA

FOTOS (MIOLO l

CAPA)

l'RODU~:Âo GRÁFICA

lvana Jinkings

Ana Paula Ca,tellani

Beatri, Medina

Sandra Brazil (preparação)

Letícia Braun (revisão)

Raquel Sallaherry 13rião

Antonio Kehl

Andn: Cypriano

Marcel lha

Cll'-HHASII. CATAI rn;.\ç,\r >-NA-1'< INl l

Sl!\iJ>ICATO r,,

-\CIONAL

00\ EDlfORl:~ IH- LI\.!{()~!~

D2.94P

Davis. Mike. 1,14r,- Pl.meta Favda / Mike lJ.lVis : tr.1duç;\o de llt',.ttriz Met.hna.

- São P.mlo : lloitempo. 200(, 272 p.: il.

Inclui bibliografia

ISUN 978-85-7559-087-4

1. Favdas. 2. Pobres urbanos. 3. Vida urbana. -J. Sociologia urbana. l. Título.

o<í-J5J0.

CDD 307.7ft

CDU 316.334.56

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a expressa autorização da editora.

1' edição: outubro de 2006 I' reimpressão: julho de 2007 ::!" reitnpressào: fevereiro de ~008

BOITEMPO EIJITORIAL

Jinkings Editores Associados Ltda. Rua Euclides de Andrade. 27 Perdizt's 05030-030 Sfo Paulo SP Td./Fax: (li) 3875-7250 I 3872-68<>9 editor@iboitempoeditorial.com.br W\\'w.boitempoeditnrial.com.br

para a minha querida Roisin

Favela, semifavela e superfavela a isso chegou a evolução das cidades.

Patrick Geddes·

Citado em Lewis Mumford. The City i11 His1t1ry: Irs Or(~illS, Irs Tr,111~/i1mr,11io11s, ,1111/ Its JJrc1.<pccrs

(Nova York

Harcourt.

Brace & World. 1961). p. 4(,4.

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' Sumário

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1.

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6.

7.

8.

() eli 111 a t é io

L11·ba 11o

A ge11e1·alizaçào das tàvelas

13

31

A t1·aiçà() do Est~1do

59

As ilt1sões (i~1 :1t1to-ajt1da

79

Ha uss111a1111 110s trópicos

1()~'.\

El·ologi~1 tie t:1,·e}4.1

1'17

''Desajt1st~1ndo·· o Terceiro Mundo

155

Hu111a11idade excede11te?

17 5

Epílogo: Desce11do a 1·ua Vietnã

199

Agradeci111e11tos

'>()7

Posfácio, por Er111inia Maric~1to

2( )9

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11s:i1c) t<)tograt1co, pc,r

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Créditos d~1s i111agens

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O climatério urbano

Vivemos na era d.i cidade. A cidade é tudo para nós -

ela no, con,;:,rnne. e- por est.t razão a glorific:1.1110s.

Onookome Okome 1

Em algum momento, daqui a um ou dois anos, t1111a1 mulher vai dar à luz na fi1vda de Ajegunk, em Lagos, na Nigéria; um rapai fi.1i;ir:1 da sua aldeia no oeste de Java para as luzes brilhantes de Jacarta ou um f:11endieiro partirá com a família empobrecida para um dos inumeráveis p 11 cblos jo,'Clle_,;' de Lima. O fato exato não importa e passará totalmente despercebido. ,Ainda assim, representará um divisor de águas na história humana, comparável aº Neolítico ou às revoluções industriais. Pela primeira vez, .i população urbana da Terra será mais numerosa do que a rural. Na verdade, dada a imprecisão doi recenseamentos no Terceiro Mundo, essa transição sem igual pode j;1 ter ocon·ido • A Terra urbanizou-se ainda mais depressa do qlle previra o Clube de Roma

em seu relatório de 19T!., Li111its ,:fGro,l'tli (Limites do crescimento], sabidamente malthusiano. Em 195(1, havia 86 cidades no muiHio com mais de 1 milhão de

pelo menos 550 2 . Com efrito, as

habitantes; hoje são -l(Hl, e em 2015 serão

cidades absorveram quase dois terços da explos㺠p-opulacional global desde

Onoukome Okome, "Writing the Anxious Citv: Image, of Lagos in Nigerian Home Vídeo

Films", em Okwui Emwzor et ai. (orgs.), l' 11 dcr Sí(~c: Fo 11 ,- :Yii, f.:i11sh,1s<1, L1gos (Ostfildern-R.uit, Hatje Cantz, 211112), p. 31 (,.

Neste livro há inú111eras ocorrências de tcrnios que. eill 111dior ou menor grau. de\igna111

111 Cirics- Frccr,,11•11Joh,11111cs/,111x,

realidades sociais semelhantes ou idênticas às d. 1 fawI. 1 t.11 como .1 conhecemos no Brasil.

gr.1fia original, pois julga-

1110s desnecessc.írio tentar oferecer unu tradução pelo nH:'nos aproxiinada deles, posto que o próprio de'it'n\·olvin1ento do texto enc.uregar-se-: 1 de ,cxpli1citar ,l"i p,uticularidadcs locais

()pran1o"i por rc"ipeitar a op\·ào do autor e u~ar 0 , tennci" cnn

ua

de cada termo. (N. E.)

UN Dep.ntment of l:.conomic .md Social Atfairs, i'opul.1t10,n U1,·ision, lliir/d Lºrh,111i:::,1ti,•11 l'n•spcas (r,·,·i,.10 de 211111. Nova York. 211112).

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Rural

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1960

1970

1980

1990

2000

2010

2020

2030

Nações Unidas. World Urbanization Prospects.· Thc 2001 Revision (2002) tabelas A.3 e A 4

Tabela 1.1 '' MegRc1di1des do Terceiro Mundo

(em milhões de hob1tantes)

1 5

 

1950

2004

Cidade do México

2,9

22, 1

Seul-lncheon

1,0

21,9

Nova York

12,3

21,9

São Paulo

2,4

19,9

Mumba1 (Bombaim)

2,9

19.1

Délh1

1,4

18,6

Jacarta

1,5

16,0

Daca

0,4

15,9

Kolkata (Calcutá)

4,4

15,1

Cairo

2,4

15, 1

Manila

1,5

14,3

Karach1

1,0

13,5

Lagos

0,3

13,4

Xangai

5,3

13,2

Buenos Aires

4,6

12,6

Rio de Janeiro

3,0

11,9

Tcerã

1,0

11,5

Istambul

1,1

11,1

Pequim

3,9

10,8

Krung Thep (Bangcoc)

1 ,4

9,1

Gauteng (Witwatcrstand)

1,2

9,0

KinshasalB razza v111e

0,2

8,9

Lima

0,6

8,2

Bogotil

0.7

8,0

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Planeta Favela

dia! estimada na época da Revolução Francesa. Em 2000, segundo a Divisão Populacional da Organização das Nações Unidas (ONU), somente a Tóquio metropolitana ultrapassara de forma incontestável esse patamar (embora Cidade do México, Nova York e Seul-Jncheon aparecessem em outras listas)''. A pu- blicação T-ar Eastem Eco110111ic Rc1•ic11 1 estima que em 2025 a Ásia, sozinha, poderá ter dez ou onze conurbações desse porte, como Jacarta (24, 9 milhões), Daca (25 milhões) e Karachi (26,5 milhões). Xangai, cujo crescimento foi congelado durante décadas pela política maoísta de suburbanização deliberada, poderia ter até 27 milhões de moradores em sua imensa região metropolitana estuarina. Enquanto isso, prevê-se que Mumbai (Bombaim) atinja 33 milhões de habitan- tes, embora ninguém saiba se concentrações de pobreza tão gigantescas são sustentáveis em termos biológicos e ecológicos 1 ". As cidades que explodem no mundo em desenvolvimento também entrete- cem novos e extraordinários corn:dores, redes e hierarquias. Nas Américas, os geógrafos Já mencionam um leviatã conhecido como Região Metropolitana Ampliada Rio-São Paulo (RMARSP), que inclui as cidades de tamanho mt'.·dio no eixo viário de 500 quilômetros entre as duas maiores metrópoles brasileiras, assim como a importante área industrial dominada por Campinas; com uma população atual de 37 milhões de habitantes, essa megalópole embrionária já é maior que Tóquio-Yokohama 11 Do mesmo modo, a ameba gigante da Cidade do México. que já f:.1gocitou Toluca, estende pseudópodes que acabarão incorpo- rando boa parte do centro do México, inclusive as cidades de Cuernavaca, Puebla, Cuautla, Pachuca e Querétaro, em uma única megalópole, com popula,·ão, em meados do século XXI, de aproximadamente 50 milhões de pessoas - cerca de -HJ'X, do total nacional'~- Ainda mais surpreendente é a vasta conurbação da África ocidental que coalesce rapidamente em torno do golfo da Guiné, cujo fi.1lcro é Lagos (23 milhôes de habitantes em 2015, segundo uma estimativa). Em 2020, de acordo com um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econô- mico (OCDE), essa rede de trezentas cidades com mais de 100 mil habitantes terá "uma população comparável à da costa leste dos Estados Unidos, com cinco

cidades de mais de 1 milhão de moradores [

milhôes de habitantes numa faixa de terra com 60(1 quilômetros de compri-

j [e] um total de mais de 611

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1'J')'J, p. 15-1.

O climatério urbano

7

mento, que vai de leste a oeste entre as cidades de Benim.: Acra [capital de Gana]"".Trágica e provavelmente, será também a maior reg1ao de pobreza ur- bana da face da Terra.

Tabela 1.2 14 Urbanização do golfo da Guiné

Cidades

-~ais de 100.000 habitantes

mais de 5.000 habitante:,

~-

1960

17

600

1990

2020

.-~~~---

90

300

3.500

6.000

-·~--~

No entanto, as maiores estruturas pós-urbanas estão surgindo na Ásia oóen- tal. o delta dos rios Pérola (Hong Kong-Cantão) 1 ó e Yang-tsé (Xangai), Junto com O corredor Pequim-Tianjin, estão se transformando rapidamente em megalópoles urbano-industriais comparáveis a Tóquio:-Osaka, ao baixo ~teno e a Nova York-Filadélfia. Na verdade, a China, caso umco entre os pa1ses em desenvolvimento, planeja agressivamente o desenvolvimento urbano em escala supra-regional usando como modelos Tóquio-Yo~ohama e ~ litoral, leste dos Estados Unidos. Criada em 1983, a Zona Econo1111ca de Xangai e a nu101 entidade de planejamento subnacional do mundo e engloba_ª metrópole e cm- co províncias vizinhas com uma população agregada quase tao grande quanto a

dos Estados Unidos"·. Essas novas megalópoles chinesas, segundo dois importantes pesquisadores,

nrimeiro estágio do surgimento de "um corredor urb:1110

nodem ser apenas

-

O

r-

d

J

,,,1 A

, contínuo que se estenda do Japão/Coréia do Norte ate o .oeste e ava_ - o tomar forma durante O próximo século, esse grande espraiamento de cidades, mais parecido com um dragão, constituirá a culm,inància fisica e de~nográfica da evolução urbana do milênio. A ascendência da Asia onental htoran~:1, 1-~or sua

vez, promoverá, com toda a certeza, o dipolo da "udade mundial

Toqu10-

,

1 (

1 ' Je.in-MJric Cour e Serµ;e Snrec 1

,;,,,,.

.?li.?// (P,iri,. OCDE, 1998), p. LJ-1.

)

'

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rcp,m11.~. l 1 I

·

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I<'

F11lllrc:.·l l -;_,;,,,, d lfr,r.~_fi-ic,1 i11 rhc

" ibidem, p. -18.

1~

Ver Yw:-tn,ui Yeung, "Viewpoint: lntegration

Dcl'clop111c11t Plt1111IÍ11.~ Rc,·icll'. v. ~S. n. 3. 21H 13.

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( 'rbtll;i:::llfÍlin j 11 Ln:l.!c L)l'l't'Íl1pi11,I.! Co1t11trics: Clii11i1, J11do11('SÍ11, Bn1:::il, c111d l11di11 (()xfr>rd. CL1rcndon.

I11tcn111tit)lli1I

of the

Pc.trl

R l\'er Deltc1··.

17

. Yue-nun Yeung e Fu-chcn Lo. ··(_;tob,11 Rc'ltructuring ,rnd E111ergi11g Urb,111 Corrido~·~ 111

P,iLific A\1,1"'. e;n Lo e Yeung (org'\.), E111c1gi11g l l(ir/d Cítics i11 H1c[t1t" .·lsi11 (Tóquio. Brooking,;;,

l 997), p. h2-."\.

19%),p.

.+I.

1 8

Planeta Favela

Xangai à igualdade com o eixo NovaYork-Londres no controle do fluxo global de capital e informações.

_Entretanto, o preço dessa nova ordem urbana será a desigualdade cada vez maior, tanto dentro de cidades de diferentes tamanhos e especializações econô- mICas quanto entre elas. Com efeito, os especialistas chineses vêm debatendo hoje se o antigo abismo de renda e desenvolvimento entre a cidade e O campo não está sendo agora substituído por um fosso igualmente fundamental entre as cidades pelJUenas, principalmente do interior, e as gigantescas metrópoles li- torâneas1'. No entanto, será exatamente nas pequenas cidades que em hreYe estará 111orando a maior parte da Ásia. Embora as megacidades seja111 as estrelas mais brilhantes do firmamento urbano, três quartos do fardo do crescimento populacional futuro serão suportados por cidades de segundo escalão pouco visíveis e por áreas urbanas menores; l{igares onde, como enfatizam os pesqui- sadores da ONU, "há pouco ou nenhum planejamento para acomodar essas

pessoas e prestar-lhes

servÍ<,'OS" 19 . Na China - oficialmente, 43% urbana em

1993 -, o número de "cidades" oficiais disparou de 193 para 6-40 desde 1978, mas as grandes metrópoles, apesar do crescimento extraordinário, na verdade reduziram a sua participação relativa no total da população urbana. E 111 vez disso, fóram as cidades pequenas e médias e as vilas recentemente "promovidas" a cidades que absorveram a maior parte da força de trabalho rural tornada excedente pelas reformas do mercado a partir de 1979~". Em parte, isso resulta de planejamento consciente: desde a década de 1970 o Estado chinês vem ado- tando políticas que visam promover uma hierarquia urbana mai~ equilibrada de investimento industrial e população~ 1 .

Na Índia, pelo contrário, as vilas e as cidades pequenas perderam a força de tração econômica e a participação demográfica na recente transição neoliberal:

há poucos indícios de uma urbanização de "mão dupla" à moda chinesa. Mas quando a proporção urbana disparou na década de 1990 de um quarto para um terço do total da população, cidades de tamanho médio, como Saharanpur em Uttar Pradesh, Ludhiana no Punjab, e a mais famosa,Visakhapatnam em Andhra Pradesh, floresceram. Prevê-se que Hyderabad. que cresceu quase S'¼, ao ano nos últimos 25 anos, será uma megacidade de 10.S milhões de habitantes em

1 "'

,.,

Grcgory ( ;uJd1n. 11 'litlf :,· ,, Pctl.'tlllf

Wcst\'Íe\\, 211111). p. 13.

UN-Habit.1t, Tl1t· C/wllm.~c ,,{ S/11111s: Gh>b,,I Rcp,>rr ,,,, H11111,111 di.111tc Cl,,11/mgcJ (Londres. Earthscan. 2ll11.3). p. 3.

7;) n,,? 1 ·;11,~f!t' HcCtlmi,ig Tl,1u11 i11 S1lttrhcn, (Jli11,1 (lloulder.

Sctrlc, 11 c 11 rs 20//3 [daqui c 111

c;uldin.

Jf 11111 '.,

tl

fJC,lSdllt '/ll l)l,.'

Sidney Coldstcin. '"Leveis of Urbanization in ( :lllna'". em M.,ttei Dogan e John K.is.nd., (orgs.). "/J1c ,\lcrr,>polis Erd: 1 i>/11111c 011c -.4 11 i>r/d ,,{ Gi,1111 Cirirs (Ncwhurv Park. S.1ge. 1988).

p. 2111-1.

.

O climatério urbano

201 S. Segundo o recenseamento mais recente, 35 cidades indianas estão hoje acima do patamar de 1 milh;io de habitantes e respondem por uma população total de quase 110 milhões de pessoascc_ Na África, o crescimento explosivo de algumas cidades - que lembra o de

uma supernova -. como Lagos (de 300 mil habitantes em 1950 para 13.5 mi- lhões atualmente), combinou com a transformação de v[irias dezenas de cidade- zinhas e oásis como Uagadugo, Nuakchote. 1)uala, Kampala, Tanta. Conacri. N'Djamena, Lumumbashi, Mogadíscio, Antananarivo e Bamaco em cidades desordenadas e maiores que São Francisco e Manchester. (Talvez ainda mais espetacular tenha sido a transformação de Mbuji-Mayi. árido centro do comér- cio congolês de diamantes, de cidadezinha com 2S mil pessoas em 196U em uma metrópole contemporânea de 2 milhões de habitantes, cujo crescimento ocorreu principalmente na década passadac'.) Na Am<'.'rica Latina, onde as cida- des principais monopolizaram o crescimento, cidades secundárias corno Santa Cruz, Valencia, Tijuana, Curitiba, Temuco e Bucaramanga. Maracay, Salvador e Belém estão hoje em expansão. com crescimento mais rápido nas cidades com

menos

Além disso, como enfatizou o antropólogo Gregory (;uldin, a urbanização deve ser conceituada como transformação estrutural e inteusiiicaç,'io da interação

de todos os pontos de um contínuo urbano-rural. Em seu estudo de caso sobre o ~ui da China, Guldin verificou que o campo vem se urbanizando i11 loco, além

gerar migrações jamais vistas:" As aldeias ficam mais parecidas com cidades

de feira e xi,111g to11•11s e as cidadezinhas provinciais ficam mais parecidas com

cidades grandes". Na verdade, em muitos casos a população rural não precisa mais migrar para a cidade; a cidade migra até elesc'. Isso também ocorre na Malásia, onde o jornalistajeremy Seabrook descreve o

Penang, "engolidos pela urbanização, sem migrar, suas

vidas viradas de cabeça para baixo, mesmo permanecendo no lugar onde nas- ceram". Depois que suas casas foram isoladas do mar por urna nova estrada, seus locais de pesca poluídos pelos resíduos urbanos, e as colinas vizinhas desmatadas

de SOO mil h,1bitantes·' ••

de

destino dos pescadores de

,,

Cc"-'"-' 200 I. Olt1êt' of the Rq~istr.ir Cennal and Ccnsus ( :onunissioner. Índi.1: e Alain 1)urand- Lasserw e Lmren R.oyston. "InternationalTrcnds and Countr\' Contexts",em Durand-1.asscrve e Royston (org,.). /l,1/di11.~ Fl1l'ir Cro1111d: Scmrr L111d Ti·11111f/ir rl,c l 'rl>,111 P,,,,,. i11 Dn•dopi11_~ Co1111rril's (Londres. Earthscm. 21111~). p. 211.

Mbuj1--M<ryi o n

pd.1 S<>êic:té· Minien, de llakw.mg.1. Ver Miêhda Wrung. /11 ri"· hwsrcps ,f .\Ir. J ,,,, 1/,c LJii11k ,,(Dis,1srcr irr ri"· (.',,11g,, (Londres. Fourth Est.itc. 2111111). p. 121-.1.

Miguel Vill.i

e Jorge Rodríguez. "I )emogr,1phiê Trcnd, in L.uin Americ.1 \ Metropolises. em Al.111 (;ilbnt (org.). Tl,c .\l,;~,1-Ciry i11 L1ri11 .111l'ri<.i (Túquio e NoYa York.

United N.,twns Unin-rsity. l '196). p.

·ntro

<lo "verd.1deiro e~t.1do-e111pre~a ·· d.1 re~Üo de K.1asai. ,llitnini~tr.u.lo

:111·rc::

Li1•i11g

l'J.'il 1-1 1 / 1 )11".

J.'1--l.

<_;uld1n. 1t·h,uS ,1 l'c,1.,,111t'/~ 1 /)ti?.p. 14-7.

7

19

Planeta Favela

20 para construir prédios de apartamentos, eles não tiveram escolha senão mandar as filhas para a exploração das fábricas japonesas na região. "Foi a destruição'·. enfatiza Seabrook, "nào só do meio de vida de pessoas que sempre viveram em simbiose com o mar. mas também da psique e do espírito dos pescadores"ê'•.

O resultado dessa colisào entre o rural e o urbano na China. em boa parte do

Sudeste Asiático, na Índia, no Egito e talvez na África ocidental é uma paisagem hermafrodita, um campo parcialmente urbanizado que. argumenta Guldin, pode ser"um caminho novo e importante de assentamento e desenvolvimento huma- nos f uma forma nem rural, nem urbana, mas uma fi.1sào das duas na qual uma rede densa de transações amarra grandes núclem urbanos às suas regiões circun- dantes"ê7_ O arquiteto e teórico urbano alemão Thomas Sieverts propõe que esse urbanismo difuso, que chama de Z1Fisc/1c11stadt ("a cidade intermédia"). esteja se

tornando rapidamente a paisagem qti"e define o século XXI, tanto nos países ricos quanto nos pobres, seja qual for sua história urbana pregressa. No entanto, ao contrário de Guldin, Sieverts conceitua essas novas conurbações como teias policêntricas sem núcleos tradicionais nem periferias tãceis de reconhecer.

]

Em todas as culturas do mundo inteiro, compartilham caractnísticas específicas co- muns: uma estrutura de ambientes urbanos completamente dite rentes que.,\ prilllei-

ra vista. é difusa e desorg,mizada, com ilhas indi,·iduais de padrões geometric.1mente

estruturados. uma estrutura selll centro claro mas. portanto, com muitas áreas. redes

e nós com especialização fi.mcional mais ou menos aguda.''

Essas "regiões metropolitanas ampliadas", escreve o geógrafo David Drakakis- Smith, referindo-se especificamente a Délhi,

representam uma fusão de desem·olvimento urbano e regional 11a qual a distinção

entre o que <.' urbano e o que é rural fica incerta confórme as cidades se expandem

ao longo de corredores de comunicação. contornando ou cercando cidadezinhas ou

aldeias que, em seguida. sofrem mudanças de fimçào e ocupação i11 itiw. 2 "

'''

Jerellly

Seabrook, 111 thc Citics ,,( thc S,,111/,: Scmcs _1;-,,,,, ,1

l9%J. p. 16-7.

Dc1•c/,,pi11g l l i>rld (Londres. Vnso,

Guldin. li '/,,11'., ,1 A·,1.,,1111 Ti> Do.'. p. 1-7. Ver t.11nbé111 Jing Neng Li. "Structural and Spatial Ecouomic Ch.mges and Their Effccts on Recent Urb,1nization in China". e111 Jones .rnd

Visari,1, l. ·rhc111i::.,11io11 i11 L11~i,:e J)c1 1 d<ljli11g C<11111trics. p. -4-4. Ian Ycbo.1h encontra un1 paddn de

dcs,1kot,1s ("aldeias-cidades") desern-olvendo-se e111 torno de Acra. cujo cresci111cnto desordenado (sua ,írea au111entou 188'1/., na décad.1 de l 'J91l) e 111otorizaçào recente ele atri- bui ao impacto das políticas de ajuste estrutural.Yeboah. "Delllographic aud Housing Aspects

.-.J/ric,1 1,,d,1y. v. 511.

of Structural Adjustment and Emerging Urban Form m Accra. Ghana n. l.21103,p.108, 11C,-7.

Tho111as S1e,·e-rts. Cirics 11 ·;1/i,111t Citics: A.11 lillnprct,11it111 ,f thc ZwiHhc11st,1dt (Londres. T,1ylnr

and Francis. 211113). p. 3.

Ur.1bkis-SI11ith. 'f1úrd 11 ;,,./d Citirs. p. 21.

O climatério urbano

Na Indonésia. onde lü um processo semelhante de hibridação rural/urbana bem avançado em Jabotabek (região da grande Jacarta). os pe,quisadores denomi- nam esses novos padrões de uso de terra de dcsakotas ("aldeias-cidades") e discutem se são paisagens de transição ou uma espécie nova e dramática de urbanismo'". Um debate a1ülo12;0 vem ocorrendo entre urbanistas latino-americanos con- liontados com o sur~imento de sistemas urbanos policêntricos sem fronteiras claras entre o rural e'o urbano. Os geógrafos Adrian Aguilar e Peter Ward pro- põem o conceito de "urbanização baseada em regiões" para caracterizar o desen- volvimento periurbano contemporâneo em torno da Cidade do México, de São Paulo, de Santiago e de Buenos Aires.

21

( )s níveis m.iis baixos de crescimento metropolitano coincidiram com uma circula- ção mais intensa de merc,1dorias, pesso,1s e capital entre o centro da cidade e o seu interior, com fronteiras ainda mais difusas entre o urbano e o rural e desconcentração industrial rumo à periferia metropolitana, principalmente além dos espaços periurbanm ou da penumbra que cerca as megacidades.

Aguilar e Ward ,JCreditam que neste espaço periurbano que a reprodução do trabalho tem maior probabilidade de se concentrar nas maiores cidades do mundo no século XXI'" 1 Em todo caso, o novo e o velho não se misturam com facilidade, e na desakot,1 dos arredores dL' Colombo "as comunidades estào divididas. com os de fora e os de dentro incapazes de construir relacionamentos e comunidades coesas"'ê. Mas

J!i

T. G. McGee tê.lrtH:'Le urna \'isào geral en1 "The E1ncrgcnn.· of Dcs,zkot,1 Regions in Asi.1:

Expanding a Hypothem ··. em Norton Ginsburg. Bruce Koppel e T. G. McGee (orgs.), Thc Ex1c11dcd .Hctrop,,/is: Sct1h·111C1ll T,·,111sitio11 i11 Asia (Honolulu. University of Ha,Yaii. 1991) Philip Kelly. em seu artigo sobre Mamla, concorda com McGee sobre a especificidade eh

trajetória d<1 urbanização do Sudeste Asiático, 111as argun1enu que as paisagens drs,1kM,1., sJo

instáveis. com a agricultura sendo aos poucos abandonada. Kdly. "Evervday Urbanization:

The ScKial Dvnamics of I levelopment in Manila 's Extended Metropolitan Region ··. !11t<.'n1,1tio11c1' Jo1,1n1i1l (f ( 'rh,111 1111d Rt;~itlllül Rcsc,,rch. Y. 23, n. 2, 1999. p. 28--1--ú.

Adríán Aguil.ir e Petcr Ward. "Globalization, Regional Developmcnt. and Meg.1-City

Expansi01; in Latín America:An.ilyzing Mexico C:ity's Pcri-Urban Hinterland", Citics. v. 20.

n. 1. 211113. p. ••

18. ()s autores afirmam que o desenvoh·imento do tipo dcs,1kor,1 não ocorre

E,n \'L'Z disso, o cn:\citnento cidade tende .1 -;er firn1en1cntc urbano e ba,;;e,1do

na cidade gr,111Je e está contido dentro de lin1itcs bc1n definidos. Não há desenvolvi111cnto 1 neta11rba1;0 nen1 pcriurbano ligado a processos do núcleo urbano ou c1us.1do por eles"

11.1 Áfric1:

(p. 'i). Mas. com certez,1. G,1uteng (Witwatersr.rnd). na Áfric.1 do Sul. pode ser cit.1d,1 como

exe 1 nplo de ··urb,11uz,1çào regional'' intcir,Hnente J11":1loga aos exe111plo,;; l.1tino-an1ericano\.

Ranjith D.1yar.1t1w e R.1ja Samar.1wickr,una, "Ernpowering Comrnunitics:The Peri-Urban Areas of Colombo". E1ll'ir,>11111c11r ,md L'r/,,miz,11io11. 1'i: 1, ,1br. 2111)3. p. 111~. (Ver também. no

meslllo número. 1 . nn

Agriniltur.11 .md Rur.11 Lite Dmvnstre,1111 of H.rnoi".)

dcn Berg. M. van Wijk e Pham Van Ho1. "Thc Transformation of

22

Planeta Favela

o processo, como ressalta a antropóloga Magdalena Nock no e1so do México, é

irreversível: "A globalização aumentou o movimento de pessoas, bens, serviços, informações, notícias, produtos e dinheiro e, portanto, a presença de caracterís- ticas urbanas em áreas rurais e de traços rurais em centros urbanos"-'-'.

De volta a Dickens

A dinâmica da urbanização no Terceiro Mundo recapitula e confunde os prece-

dentes da Europa e da América do Norte no século XIX e início do século XX. Na China, a maior revoluç;fo industrial da história a alavanca de Arquimedes que desloca uma população do tamanho da européia de aldeias rurais para cida- des cheias de ii.mia,;a e arranha-céus: desde as reformas de mercado do final da década de 1970, estima-se que mais de 21H I milhões de chineses mudaram-se das áreas runis para as cidades. Espera-se que mais 250 ou 300 milhões de pessoas - a próxima "enchente camponesa"- sigam-nas nas próximas décadasq. Como resultado desse fluxo estarrecedor, em 2005, 166 cidades chinesas (em

comparação com apenas nove cidades dos Estados Unidos) tinham população de mais de 1 milhão de habitantes'º. Cidades industriais em expansão, como Dongguan, Shenjen, Cidade Fushan e Chengchow são as Sheffields e Pittsburghs pós-modernas. Como destacou recentemente o Fi11a11cial Ti111es, daqui a uma década "a China deixa[rá] de ser o país predominantemente rural que foi du- rante milênios""•. Na verdade, o grande óculo do Centro Financeiro Mundial de Xangai pode, em brew, mirar um vasto mundo urbano pmais imagin,1do por Mao nem, aliás, por Le Corbusier.

cinqüenta anos conseguisse prever

que os acampamentos de invasores e as ruínas de guerra de Seul se metamor- foseariam com tamanha rapidez (espantosos 11 ,4% ao ano durante a década de 1960) em uma megalópole tão grande quanto a grande Nova York~ mas, nova- mente, que vitoriano seria capaz de prever uma cidade como Los Angeles em 1920? No entanto, tão imprevisível quanto as suas histórias locais e sl~lls mila- gres urbanos específicos, a urbanização do leste da Ásia, acompanhada da triplicação do PIB per Cc1pit,1 desde 1965, conserva uma rela,;ào quase clássica com o crescimento industrial e a migração urbana. Oitenta por cento do pro-

Tambt'. 0 m seria improvável que alguém há

Magdalen,1 Nock, '"The Mexican Peasantr) and the Eiid,, in the Nco-Liberal Period em

Dcbor.1h Bry,·eson. Cristóbal Kay e Jos Moo1j (orgs.)

i11.-ifric,1,.-isi,1,111d L1ti11A111t'li<'<1 (Londres, ITDG. 2111111), p. 17.>

Uis<1ppc,1ri11g

Pr,is,111trics' R11r,,I L,b,,111

" Fi11,111â,,/Ti111cs, !(,/12/2I11I3.27/7/2I111-t.

" 1,·c11• }i>rk Ti111es, 2817 /20l 14. W.1ng Mengkui. Diretor do Centro de Pe~qu1s.1, de Dcsenvokiinento dt) Con

tado. citado 1rn Fi11,111á,,I Ti111cs. 2h11 l /2I11I3.

,dho

de

E

,-

Tabela 1.3 3 '

Urbanização industrial da China

(percentual urbano)

População

O climatério urbano

PIB

7

23

1949

11

1978

13

2003

38

54

2020 (projetado)

63

85

letariado industrial de Marx vive hoje na China ou em algum lugar fora da Europa ocidental e dos Estados Unidos". Mas, na maior parte do mundo em desenvolvimento, falta ao crescimento das cidades o poderoso motor industrial-exportador da China, da Coréia e de Taiwan, assim como a enorme importação chinesa de capital estrangeiro (hoje, igual à metade do investimento estrangeiro total em todo o mundo em desen- volvimento). Desde meados da década de 1980, as grandes cidades industriais do hemisterio sul - Bombaim, Joanesburgo, Buenos Aires, Belo Horizonte e São Paulo - sofreram todas o fechamento maciço das fábricas e a tendência à desindustrialização. Em outros lugares, a urbanização desligou-se mais radical- mente da industrialização e até do desenvolvimento propriamente dito, e, na

África subsaariana, daquela suposta condição si11c q11,1 11011 da urbaniz;1çào, o aumento da produtividade agrícola. Em conseqüência, é comum que o tama- nho da economia de uma cidade tenha, surpreendentemente, pouca relação com

o tamanho da sua população e vice-versa. A Tabela 1.-+ ilustra essa disparidade

entre a classificação por população e pelo PIB das maiores áreas metropolitanas. Alguns argumentariam que a urbanização sem indústria é expressão de uma tendência inexorável: aquela inerente ao capitalismo do silício de desvincular

o crescimento da produção do crescimento do emprego. Mas na África, na

América Latina, no Oriente Médio e em boa parte do sul da Ásia, a urbanização sem crescimento, como veremos adiante. é mais obviamente herança de unu conjuntura política global - a crise mundial da dívida externa do final da dé- cada de 1970 e a subseqüente reestruturação das economias do Terceiro Mundo sob a liderança do FMI nos anos 198( l - do que uma lei térrea do progresso da tecnologia.

Goldstein

LeYels of Urb,mization 1ll China

T.1bela 7. l. p. 2111; valor de 1978 tirado de

Cuilhem F,1bre. '"la Chinc", cn1 Thicrry Paquot. Lcs 11/tl/UÍcs dcs uilfes: Jlt111Mt1111,1 11rbai11 de f,1

pl,111i-t,· (Bruxelas, Complexe. 1996). p. 187. É 11nport.mte notar que a série temporal do Banco Mundi.1! d itere daquela de Fabre. com uma taxa de urbanização em 1978 de 1K'X,,

 

nfo de

Ll%. (Ver Banco Mundial. 11 ;,r/d Dc1d,,p111C11t [11dir,1t,>rs.21l01, s-ersào em CD-ROM.)

"

Banco

Mundial, 11 i>rld Dc1•ci,>p111C11t l<.cport 1995: 11 ir/.:as i11 ,111 b1t(~r,1ti11l 11 ,,r/d (No,·a York.

l'J'JS). p. 1711.

í

24

Planeta Favela

Tabela 1.43'

As dez maiores cidades por população e PIB

(1) segundo a população em 2000

(2) segundo o PIB em 1996

(p_osição

segundo a pC>pulação e_m 20_()~)

1.

Tóquio

Tóquio (1) Nova York (3) Los Angeles (7) Osaka (8) Paris (25) Londres (19) Chicago (26) São Francisco (35) Düsseldorf (46) Boston (48}

2.

Cidade do México

3.

Nova York

4.

Seul

5.

São Paulo

6.

Mumbai

7.

Délhi

8.

Los Angeles

9.

Osaka Jacarta

10.

Além disso, a urbanização do Terceiro Mundo continuou em seu passo aceleradíssimo (3,8')1, ao ano entre 1960 e 1993) durante os anos dificeis da déca,h de 1980 e no início dos anos 1990, apesar da queda do saLírio real, da alta dos preços e da disparada do desemprego urbano 4 ". Essa perversa expansão urbana surpreendeu muitos especialistas e contradisse os modelos económicos ortodoxos que previam que ofecdback negativo da recessão urbana retardaria ou até reverteria a migração vinda do campo 41 "Parece", maravilhou-se o econo- mista desenvolvimentista Nigel Harris em 1990, "que nos países de b,üxa renda uma queda significativa da renda urbana talvez não produza necessariamente. a curto prazo. o declínio da migração rural-urbana" 4 ê. A situação na África foi especialmente paradoxal. Como as cidades da Costa do Marfim, da Tanzânia, do Congo-Kinshasa. do Gabão, de Angola e de outros países, cuja economia vinha encolhendo 2% a 5% ao ano, ainda conseguiram

8% 4 · 11 Como Lagos, na

manter um crescimento populacional anual de 4% a

,,,

C:lassific,\·ào populacional de Thomas Brinkhoff (disponível cm <\\'\\'\\'.citypopulation.de>):

classificação pelo PIB de Denise Pumain, "Scaling Laws and Urban Systems". S,1111,1 Fc lnstiflltc Jl,,rkillg l',1pcr 02-ti-1-0112 (Santa Fé. 21H12). p. -t.

i11 rl,c Dc1•c/,1pi11g l l inld ·

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O climatério urbano

década de 1980, pôde crescer duas vezes mais depressa que a população nigeriana,

enquanto a sua economia urbana estava em profunda recessão

como a África como um todo, hoje numa idade das trevas de estagnação do emprego urbano e paralisia da produtividade agrícola, foi capaz de manter uma taxa de urbanização anual (3,5% a 4,0%) consideravelmente maior do que a média da maioria das cidades européias (:?., 1%,) nos anos de máximo crescimen- to vitoriano 45 ? Parte do segredo, claro, reside no fato de que as políticas de desregulamentação agrícola e de disciplina financeira impostas pelo Fundo Monetário Internacio- nal (FMI) e pelo Banco Mundial continuaram a gerar o êxodo da mão-de-obra

rural excedente para as favelas urbanas, ainda que as cidades deixassem de ser máquinas de empregos. Como enfatiza Deborah Bryceson, importante africanista européia, em seu resumo de recente pesquisa agrária, as décadas de 1980 e 1990 foram uma época de convulsão nunca vista nas áreas rurais no mundo inteiro:

? Na verdade.

7

25

Um ,1 um os governos nacionais, mergulhados em dívidas, submeteram-se a planos de ,tjuste estrutural (PAEs) e à condicionalidade do FMI. Os pacotes de insumos agrícolas subsidiados e aprimorados e a construção de infra-estrutura rural fixam drasticamente reduzidos. Quando as iniciativas de "modernização" camponesa das nações latino-americanas e africanas foram abandonadas, os camponeses foram sub- metidos à estratégia econômica do "pegar ou largar" das instituições financeiras internacionais.A desregulamentação do mercado nacional empurrou os produtores agrícolas para o mercado global de c,1111111oditics. no qual os camponeses de porte médio e pobres acharam difícil competir. Os PAEs e as políticas de liberação econô- mica representaram a convergência das forças mundiais de desruralizaçào e das po- líticas nacionais que promoviam a descimpesinação. 4 "

Quando as redes locais de segurança desapareceram, os agricultores pobres ficaram cada vez mais vulneráveis a qualquer choque exógeno: seca, inflação, aumento dos juros ou queda do preço das co111111odities. (Ou doença: estima-se que <>O% dos pequenos camponeses cambojanos que vendem a sua terra e mu- dam-se para a cidade são forçados a isso por dívidas com assistência médica 47 .)

A. S. Obcr,ii. Pt1p11/,1tit1ll Crt1tl'th, Ell11il,1y111mt ,111d Pol'erty ,-,, T1úrd-ll,,rld ,Hegt1-Cities:A11,1/yriCt1l I'r 1 /iry Iss11cs (Londres, Palgrave Macmillan, 1993), p. 1(,5.

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L:r1,,111 Dc11c/tlJJlllC11t mui 1'\'n11 Ti.l11111s i11 tlzc Third Jl (lr/d: Lt>sst111s fro111 tlie 1\·c111 Bombüy Experic11(t' (Aldershot, Ashgate, 1999), p. 28.

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1 Planeta Favela

26 Ao mesmo tempo, líderes guerreiros gananciosos e guerras civis crômcas, muitas vezes estimuladas pela desorganização econômica do aJuste estrutural imposto pela dívida ou por predadores econômicos estrangeiros (como no Congo

e em Angola), desarraigaram todo o campo. As cidades, apesar do crescimento

econômico estagnado ou negativo e sem o necessário investimento em nova infra-estrutura, instalações educacionais e sistemas de saúde pública, simples-

mente colheram o produto da crise agrária mundial. Em vez do estereótipo

clássico do uso intensivo de mão-de-obra no campo e uso intensivo do capital

na metrópole industrial, o Terceiro Mundo apresenta hoje muitos exemplos de

campo com uso intensivo de capital e cidades desindustrializadas com uso in- tensivo de mão-de-obra. A "superurbanização", em outras palavras, é impulsio-

nada pela reprodução da pobreza, n.ào pda oferta de empregos. Essa é apenas uma das várias descidas inesperadas para as quais a ordem mundial neoliberal vem direcionando o futuro 4 ". De Karl Marx a Max Weber, a teoria social clássica acreditava que as grandes

cidades do futuro seguiriam os passos industrializantes de Manchester, Berlim

e Chicago - e, com efeito, Los Angeles, São Paulo, Pusan (Coréia do Sul) e,

hoje, Ciudad Juarez (México), 13angalore e Cantão aproximaram-se de certa forma dessa trajetória canônica. No entanto, a maioria das cidades do hemis- fério sul se parece mais com Dublin na época vitoriana, que, como enfatizou

o historiador Emmet Larkin, não teve igual em meio a "todos os montes

de cortiços produzidos no mundo ocidental no século XIX [

seus cortiços não foram produto da Revolução Industrial. Dublin, na verdade,

sofreu mais entre 1800 e 1850 com os problemas da desindustrializa\-·ão do que

com a industrialização ,q,,_

Do mesmo modo, Kinshasa, Cartu111 (Sudão), Dar es Salaam (Tanzânia), Guayaquil (Equador) e Lima continuam crescendo prodigiosa111ente, apesar da ruína do setor de substituição de i111portações, do encolhimento do setor públi- co e da decadência da classe média.As forças globais que "e111purram" as pessoas para fora do campo - a mecanização da agricultura em Java e na Índia, a i111por- tação de alimentos no México, no Haiti e no Quênia, a guerra civil e a seca em toda a África e, por toda parte, a consolidação de minifúndios em grandes proprie- dades e a competição do agronegócio de escala industrial - parecem manter a urbanização mes1110 quando a "atração" da cidade é drasticamente enfraquecida

] [porque) os

" Ver Josef Gugler. "Overurbanization Reconsidered"'. em p. 114-~J.

Cities i11 rhr Dc,,c/,,pi1(~ 1-fi,rfd,

Preta cio de Jacinta Prunty, D11hli11 S/11111s. 1800- 1'125: A Sr11dy i11 l 'rb,111 G,·,,grapl,y (Dublin. lrish Academic, l '198), p. IX. Larkin. n,1tur,1lmcnte, esquece a comr.1p,1rt1da mediterrânea de Dublin: Nápoles.

O climatério urbano

7

pelo endividamento e pda depressão econômica. Como resultado, o cresci- mento urbano rápido no contexto do ,~uste estrutural, da desvalorização d,1 moeda e da redu~<io do Estado foi a receita inevitável da produção em massa de favelas. Um pesquisador da Organização Internacional do Trabalho (OIT) esti- mou 4ue o mercado habitacional formal do Terceiro Mundo raramente oferece' mais de 2U')-';, do estoque de residências e assim, por necessidade. as pessoas recorrem a barracos construídos por elas mesmas, a locações informais, a loteamentos clandestinos ou às calçadas;". "O mercado imobiliário ilegal oll informal", diz a ONU, "forneceu terrenos para a maioria dos acréscimos ao estoque de residéncias na maior parte das cidades do hemisfério sul nos últimos trinta ou quarenta anos"' 1 Desde 1970, o crescimento das favelas em todo o hemisfério sul ultrapassml a urbanização propriamente dita. Assim, examinando a Cidade do México do final do século XX, a urbanista Priscilla Connolly observa que "até 60% do crescimento da cidade resulta de pessoas. principalmente 111ulheres, que cons- troem heroicamente suas próprias moradias em terrenos periféricos sem uso, enquanto o trabalho informal de subsistência sempre foi responsável por grande proporçio do total de empregos";~_ As favelas de São Paulo - meros 1,2'Y., da população em 1973, mas 19,8% em 1993 - cresceram na década de 199(1 no ritmo explosivo de 16.-VH, ao ano;_,_ Na Amazônia, uma das fronteiras urbanas que crescem com 111ais velocidade em todo o mundo, 80'¼, do cresci- mento das cidades tem-se dado nas favelas, privadas, em sua maior parte, de serviços públicos e transporte municipal, tornando assim sinônimos "urbani- zação" e "favelizaçào"i 4 _ As mesmas tendências são visíveis em toda a Ásia. As autoridades policiais de Pequim estimam que 200 mil "flutuantes" (migrantes rurais não registrados) chegam todo ano, muitos ddes amontoados em favelas ilegais na orla sul da capital". Enquanto isso, no sul da Ásia, um estudo do final da década de 1980

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Oberat. l',>p11/,,ri,>11 C1<>wrh. l:'111pi<')'llll'llt ,111d

. Univcr,ity. 19%). p. 2J<).

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27

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Dutton (org.). Strcl'th/,· Cl,i11,1 (C:.1rnbridgc. Cambridge UniHT,Ít). l 'J'JX). p. XlJ.

Planeta Favela

28 mostrou que até 90',Yr, do crescimento das L1111ílias urbanas ocorreu nas favelas''',

A população cada vez maior de katchi abadi (invasores) de Karachi dobra a cada

década, e as favelas indianas continuam a crescer 250% mais depressa do que a população em geral' 7 , O déficit habitacional anual estimado de Mumbai de 45 mil unidades no setor formal traduz-se em um aumento correspondente de moradias informais nas favelas''- Das SOU mil pessoas que migram para Délhi todo ano, estima-se que um total de 400 mil acabem nas favelas: em 2015, a capital da Índia terá uma população favelada de mais de 10 milhões de pessoas, "Se essa tendência continuar sem se abater", avisa o especialista em planeja- mento Gautam Chatterjee, "só teremos favelas sem cidades"'''_ A situação africana, naturalmente, é ainda mais extremada,As favelas da Áfri-

ca crescem com o dobro da velocidade das explosivas cidades do continente, Na verdade, incríveis 85%, do crescimento populacional do Quênia entre 1989 e

1999 foram absorvidos pelas favelas fétidas e atulhadíssimas de Nairóbi e Mombasa'·", Enquanto isso, toda esperança realista de mitigar a pobreza urbana da África desapareceu do horizonte oficial. Na reunião anual conjunta do FMI

e do Banco Mundial em outubro de 2004, Gordon Brown, chanceler do Tesou-

ro do Reino Unido e possível herdeiro de Tony Blair, observou que as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU para a África, projetadas originalmente para se cumprirem em 2015, não serão atingidas por várias gerações: "A África

subsaariana só obterá educação primária universal em 2130, uma redução de 5U'X, da pobreza em 2150 e a eliminação da mortalidade infantil evitável em 2165"" 1 , Em 2015, a África negra terá 332 milhões de favelados, número que continuará a dobrar a cada quinze anos'' 2 , Assim, as cidades do futuro, em vez de feitas de vidro e aço, como fora previsto por gerações anteriores de urbanistas, serão construídas em grande

''

Dikni Gune,nrdena

Need To Kno\\''•·, artigo apresentado na Confrrencc on l'overty Rcduction .md Social Progress. Rajendrapur. Bangladesh. abril de 1999. p, l,

Arif Hasan. "'lntroduction", em Akht,u Hameed Khan. Or,111gi Pilt>t J>roiccL Rrn1i11isff11ffs ,111d Re/1caio11s (Karachi. Oxford Uni\'t'rsity, 19%). p, XXXIV

Suketu Mehta, .\l,1xi11111111 City: R,,111h,1y L,,sr ,111d F,l1111d (Nm-a York. Knopf. 2t11J.+). p, 117,

(;~n1tan1 Chattc1~jcc. "Conscnsu, vcr-;u" Confrontation". H,1hitt1t Dd,111c. v. 8. n. 2.jun. 20D2.

p. 1 LA estatística sobre Délhi advém de Rakesh K, Sinha. "New Delhi: The World"s Sh.mtv

C,1p1tal in the Makmg". 011el!i1r/rl S,,111/, -~si,,. 26/K/21111.,,

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Urban Poverty

in South Asia: What Do We Knm,- 0 Wlut Do Wc

(;ordon Uro\Yn, citado en1 Lt1s

J.11gclcs

Times. 4/10/2(1114.

Esutístic.1 d.1 ( lNU cit.1da em John Vi,hL "Cities Are No\\' thc Frontlinc of l'm-,-rcv". TI,<'

e;11i1rdi,111. 2/2,121111:=-,_

O climatério urbano

parte de tijolo ,1parente. p,1lha. plástico reciclado. blocos de cimento e restos de madeira. Em vez das cidades de luz arrojando-se aos céus, boa parte do mundo urbano do século XXI imtal.1-sc 1u mist'.·ria, cercada de polui<;ào. excrementos e deterioraçào. Na \'erdade. o bilhão de habitantes urbanos que moram nas fayeJas pós-modernas podem mesmo olhar com inveja as ruínas das robustas casas de barro de Çatal Hüyük. na Anatólia. construídas no alvorecer da vida urbana há 9 mil anos.

7

29

r~· 2

A generalização das favelas

Ele deixou sua mente viajar enquanto fitava a cidade, meio favela, meio paraíso. Como um lugar podia ser tão frio e violento, mas bonito ao mesmo tempo?

Chris Abani 1

A generalização espantosa das favelas é o principal tema de '17,e Challe11ge cf

Sl11111s [O desafio das favelas], relatório histórico e sombrio publicado em outu- bro de 2003 pelo Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas

(UN-Habitat). Essa primeira auditoria verdadeiramente global da pobreza urba- na, que segue as famosas pegadas de Friedrich Engels, Henry Mayhew, Charles Booth e Jacob Riis, é o ponto culminante de dois séculos de reconhecimento científico da vida favelada, que teve início em 1805 com S11ruey <!_{ Pcwerty i11 D11bli11 [Estudo da pobreza em Dublin], de James Whitelaw. É também a contrapartida empírica há muito esperada das advertências do Banco Mundial

na década de 1990 de que a pobreza urbana se tornaria "o problema mais im- portante e politicamente explosivo do próximo século"~.

The Challe11ge <!_{ S/11111s, fruto da colaboração de mais de cem pesquisadores,

integra três novas fontes de análise e dados. Em primeiro lugar, baseia-se em

estudos sinópticos da pobreza, das condições de vida na favela e da política habitacional de 34 metrópoles, de Abidjã (Costa do Marfim) a Sydney; o proje-

to foi coordenado para o UN-Habitat pela Unidade de Planejamento de De-

senvolvimento do University College London 3 Em segundo lugar, utiliza um

Chri, Ah.mi, c;,.,,-c{.,,,d (Nova York, Farrar, Stram an<l Giroux, 200-1). p. 7.

Potable Water and Sewerage Connections Affects Chil<l

Mortality". Finance. Development Research Group. artigo para discussão, Banco Mundial, jan. 2000. p. 1-1.

Uniwrsity College London Development Planning Unit e UN-1-labitat, l '11derst,111di11)/ S/11111s:

Cc1.<e St11dics.fir t/1<· C/,,/,,1/ Report 011 H11111,111 Scttle111et1ts 2003,<lisponívd em <www.ud.,1c.uk/ dpu-pro.1c·cts/Clobal_Report> .A maior parte desses estudos está resumida em um apên-

Anqing Shi, "I-lo\\· A((ess to Urban

32

Planeta Favela

banco de dados comparativo inigualável de 237 cidades do mundo inteiro cria- do pelo Programa de Indicadores Urbanos do UN-Habitat para a Cúpula das Cidades Istambul + 5 de 2001 ~- E, por último, incorpora dados de pesquisas

domiciliares globais que abrem novos caminhos ao incluir a China e o antigo bloco soviético. Os autores da ONU registram o seu débito específico a Branko Milanovic, economista do Banco Mundial pioneiro na utilização dessas pesqui- sas como microscópio poderoso para estudar a desigualdade global. (Em um dos seus artigos, Milanovic explica: "Pela primeira vez na história humana, os pes- quisadores têm dados razoavelmente exatos sobre a distribuição de renda ou bem-estar (despesas ou consumo] de mais de 90% da população mundial"º.) Enquanto os relatórios da Mesa-Redonda Intergovernamental sobre Mudança Climática representam o consenso científico sem precedentes sobre os perigos do aquecimento global, Thc Ch,1/le.11ge ,f S/11111s soa como alerta igualmente con-

clusivo sobre a catástrofe mundial da pobreza urbana. Mas o que é s/11111, palavra inglesa que significa "favela"? A primeira definição de que se tem conhecimento foi publicada no Vocalmlary ,f the Flash L111g11agc [Vocabulário da linguagem vulgar], de 1812, do escritor condenado à prisão James Hardy Vaux, no qual é sinônimo de racket, "estelionato" ou "comércio criminoso"''. No entanto, nos anos da cólera das décadas de 1830 e 1840, os pobres já moravam em slt1111s em vez de praticá-los. O cardeal Wiseman, em seus textos sobre reforma urbana, recebe às vezes o crédito por ter transformado s/11111 ("cômodo onde se faziam transações vis") de gíria das ruas em palavra confortavelmente usada por escritores requintados7. Em meados do século XIX, identificavam-se s/11111s na França, na América e na Índia, geralmente reconheci- dos como fenômeno internacional. Os especialistas e diletantes debatiam onde a degradação humana era mais horrenda: Whitechapel ou La Chapelle, Gorbals ou Liberties, Pig Alley ou Mulberry Bend. Num estudo de 1895 sobre os "po- bres das grandes cidades", a Scrilmer's !vlagazi11c votou nos fo11daci de Nápoles como "as mais apavorantes moradias humanas da face da Terra", mas Gorki tinha certeza de que o famoso bairro Khitrov, em Moscou, era na verdade o

dice no final de T/,r Challmge o( .Slu111s. Falta, contudo, o brilhante trabalho de Galai Eldin Elt,1yeb ,obre C.utum. excluído, supôc-,e. devido à sua caracteriz,1çào do "regime 1Slamita totalitário".

Ver C/,,1//mg,·. p. 2-15.

1'J9J: hrst Cakul.1tion

Br.mko Milano,·ic, "Truc World lncome üistribution, 1988 and

13ased 011 Household Sur\'ey Alone", artigo para discussão, Banco Mundial, No\',l York, 1999, não pag.

l'runty, V11/,/i11 S/11111s, p. 2.

J. A. Yclling, S/11111s ,111d S/11111 Cle,m111cc i111 ·,a,,ri,111 L<'11,fo11 (Londn:s,T,1ylor .rnd h.mus, f 'J8C,), P· 5.

A generalização das favelas

"fi.111do mais fundo", enquanto Kipling ria-se e levava os seus leitores "mais fundo, mais fundo ainda'' até Colootollah, "o mais vil de todos os esgotos" na "cidade da noite assustadora'' de Calcutá'. Essas favelas clássicas eram lugare, pitorescos e sabidamente restritos. mas em geral os reformadores concordavam com Charles Booth - o Dr. Livingstone dos párias de Londres - que todas se caracterizavam por um amálga1_11a de habi- tações dilapidadas, excesso de população, doença, pobreza e vício. E claro que, para os liberais do século XIX, a dimensão moral era decisiva e a favela era \'ista, acima de tudo, como um lugar onde um "resíduo" social incorrigível e feroz apodrecia em um esplendor imoral e quase sempre turbulento; na verdade, uma vasta literatura excitava a classe média vitoriana com histórias chocantes do lado negro da cidade. "Selvagens", declamou o reverendo Chapin em H1111w11ity i11 thc City (1854), "nào em florestas soturnas, mas sob a força das lâmpadas de gás e os olhos dos guardas; com os mesmos gritos de guerra e clavas. e trajes tão fantásticos e almas tão violentas quanto quaisquer de seus parentes nos antípodas'"'. Quarenta anos depois, o novo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, na primeira pesquisa "científica" sobre a vida nos cortiços norte-americanos

('l ·t,c S/11111., o( B.1/ti111t1rc, Chic.1,~,1, ;'\·c11• ),,rk, ,111d Phil,1dclphi,1. 1894), ainda definia

s/11111 como "uma área de becos e ruelas sujas, principalmente quando habitada

por uma população miserável e

criminosa" 1 ".

7

33

Um recenseamento global das favelas

Os autores de 'Jl,c Challm}~C ,f Sh1111s descartam essas calúnias vitorianas, mas fora isso conservam a definição clássica da favela, caracterizada por excesso de população, habitações pobres ou informais, acesso inadequado a água potúvcl L' condições sanitárias e insegurança da posse da moradia. Essa definição operacional. adotada oficialmente numa reunião da ONU em Nairóbi, em outubro de 2002. está "restrita às características físicas e legais do assentamento" e evita as "di- mensões sociais", mais difíceis de medir, embora igualem-se, na maioria das circunstâncias, :1 marginalidade econômica e social 11 , Englobando tanto as áreas periurbanas pobres ~uanto o arquétipo dos cortiços das regiões decadentes do

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Robert WolH.l, l'l ai

Tlic Pl1l1r i11 Cff,lf Ciucs: Jl1f'ir i'rt1Mc111., tllJd 11 h11t is Hci11g l)<llfC ft 1 SL 1 !t·c

/111·111 (Nm·.1 York, C. Scribner's Sons, 1~'iol.

p.

.'\llj (Sai/,11cr\ .\fag,1:i11c); Bl.iir Rubk. S,·,,,11d

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Vc-r C.moll 1 >. Wri~ht. 7111· S/11111., ,,( B,i/1i111,•n·. (,'t,;,,,g,,, .,-,.,,,);,,-/.,, ,111d /'/,i/,1ddphi,1 (Washing- ton, lci'J.+J. p. 11-õ.

01,1//c11_~c. p. 12-.'>.

Planeta Favela

34 centro da cidade, essa abordagem multidimensional é, na prática, um gabarito bem conservador do que se classifica como favela; muitos leitores ficarão sur- presos com a conclusão nada empírica da ONU de que somente _19,()'%_ dos mexicanos urbanos moram em favelas (em geral os especialistas locais adnutl:'m qul:' quase dois terços dos mexicanos moram em w/011ias p,1p11/arcs ou cortiços mais antigos). Mesmo utilizando essa definição restritiva, os pesquisadores da ONU estimam que havia pelo menos 921 milhões de favelados em 2001 e mais de 1 bilhão em 2005: quase a mesma população do mundo quando o jovem Engds a\"l:'nturou-sc pda primeira vez pelas ruas ignóbeis de St. Giles e da Old To;n1 de Manchester em 1844 12 Na verdade, o capitalismo neoliberal. a partir de 1970, multiplicou exponencialmente o famoso cortiço Tom-All-Alone de Charles Dickens em A ,-asa sM11ma. Os favelados, embora sejam apenas 6% da população urbana dos p:iíses desenvolvidos, constituem espantosos 78,2'% dos habitantes urbanos dos países menos desenvolvidos; isso corresponde a pelo menos um tc1\·o da população urbana global.

Tabela 2.1 ' 3 Maiores populações faveladas por país

% da pop. urbana na favela

China

37,8

Índia

55,5

Brasil

36,6

Nigéria

79,2

Paquistão

73,6

Bangladesh

84,7

Indonésia

23,1

Irã

44,2

Filipinas

44,1

Turquia

42,6

México

19,6

Coréia do Sul

37,0

Peru

68,1

Estados Unidos

5,8

Egito

39,9

Argentina

33,1

Tanzânia

92,1

Etiópia

99.4

Sudão

85,7

Vietnã

47,4

Número_(_rrlílhões)

193,8

158,4

51,7

41,6

35,6

30.4

20,9

20.4

20,1

19,1

14,7

14,2

13,0

12,8

11,8

11,0

11,0

10,2

10,1

9,2

Ann,1 Tibaijuka. diretora ewrutiYa do UN-Habit,ll. ritad,1 em ··More than Onc ilillion l\,ople e_:,111 Urban Slums Thór Hrnne··. Cit)' .\l,1y,,,s Rcport. teY. ~1111-1. Dispo111n·I e111

< ,v,v,v. citvn1avor\.co111/ rcport/"'lu1111,.ht111I >.

de estudo,· d,· -01111,~ do UN-Habit,1t e d,1 111édi,1 tir.1d,1 de

E,,a~ e,t11na· .

t 1,

1,

1·,,r·,111

obti,h,· ·

dc?t"n;l'i de fi)lltt'"i diversa,. n11111ci-o'i.1, d1

•111.1t,

p.1r.1

;crcn1

l·it,Hli,.

A generalização das favelas

De acordo com o UN-Habitat, os maiores percentuais de favelados do mun- do estfo na Etiópia (espantosos 99,4'¼, da população urbana), T chade (também 99,4%), Afrganistào (98,S'.¼,) e Nepal (92'%). Mumbai, com !O a 12 milhões de invasores de terrenos e moradores de favelas, é a capital global dos favelados, seguida por Cidade do México e Dara (<J a Ili milhões cada) e til:'pois Lagos, Cairo, Karachi, Kinshasa-I3razzaville, São Paulo, Xangai e Délhi (6 a 8 mi- lhões cada) 1 ~.

As favelas cujo crescimento é mais rápido encontram-se na Federação Russa (principalmente nas antigas "cidades de empresas socialistas", que dependiam

de uma única fabrica frchada atualmente) e nas L'X-repúblicas soviéticas, onde a decrepitude urbana vem brotando na mesma velocidade vertiginosa da desi- gualdade econômica e do desinvestimento municipal. Em 1993, o Programa de Indicadores Urbanos d,1 ONU citou taxas de pobreza de 80%, ou mais tanto

cm Uaku (Azerbaijão) quanto em Erevan (Armênia) 1 °. Do mesmo modo,

Ulaanbaatar (Mongólia), núcleo urbano de concreto e aço da época soviética,

35

está

hoje cercada por um mar de 50() mil ou mais ex-pastores empobrecidos

que

moram em tendas chamadas g11c1;,·, e poucos deles conseguem comer mais

dl:' uma vez ao dia 1

''.

No entanto, é provável que a população urbana mais pobre esteja em Luan- da, Maputo (Moçambique), Kinshasa e Cochabamba (Bolívia), onde dois tet\·os ou mais dos moradores ganham menos que o custo da nutrição mínima neces- sária por dia 1 ~. Em Luanda, onde um quarto das famílias tem um consumo per capit,1 de menos de 75 centavos de dólar por dia, a mortalidade infantil (crianças com menos de 5 anos) foi de horrendos 320 a cada 1.000 em 1993 -

a mais alta do mundo''.

"

UN-Habitat. ··slum, of the World:The bce of Urban Poverty in thl' Ncw Millennium'··.

.1rtigo p.u-.1 di'\cus,Jo. N.1irúbi. 2003. anexo .1.

•·

Chrl'ti,1an (;rootant e Jc,llline 13r,1ithwaitc

Thé Determin,1nts of!'oycrty in E.istern Europ,·

,111d th,· Fnrml'r S"'·ie.t Union

em J,•,llline llraitlmaitl'. ( :hristi.1,m c;root,1ert e 13r,111ko

Mil.1110\'lc (orgs.). l\ll'crl)' 1111d S,1á,1/ .·lssisf,111(c i11 Jl·,11,sirio11 C\•1111trit·., (No\·.1 York. P.1lgr.1n'

M.Kmillan, ~111111). p. -l'J: UNCHS Global lndic.uor, D.1t,1b,ise. l 99J.

l'rdi.·itura da cid.1de de Ul.1,rnb.1.1t,u. "Urban Poveny

dial. s/d. Di,poní,·cl cm: <http://infr>rity.org/f1F/pm·ertv/papers2/UB(Mongolia)"o21I l'os-t·rty.pdf>.

Simon. 'ºUrb,rniz,1tion. (;]ob,ilization. and Eronomic Cris" in Afr1r.i··. p.

cm R.1k0Ji. T/1<· l ·,.1,,,,, C:/,,1//c11.~c i11 -~fifr,1.

Ili.>: Jean-Luc

,10 Banco Mun-

Protikºº

1present.1do

Picrmay,

""Kinsh,1'a: A Rcprie\'t'd Meg.1-City 0 •••

p. 2J(i: t' (:.un1t'll Ledo (;areia, ( "rb1111i::11rit111 clWÍ f'{11•crty i11 thc C'itic_,; ,i{thc .·\'c1ri1.i11t1/ Eú1/1{1111i<"

C•rrid,,,- 1/1 B,,/i,,,·,1 (tese, Ddti University ofTechnolo!,'Y-111112). p. J 7=, (1,1n;, dos habitantes de

Coch.1b,1111b.1 g.111ha111 u111 dólar por dia ou m1

·110

:;)

l'odc-\e t,u11bé111 dizer que .1 1nort,1lid,Hk- infantil rle Luanda quatrorcnta,;; Vt'ze, 111.lÍor '--Jllt' ,1

dl:' Rennc,. na Fr,111\·.1. 1.:id.11

ie

con1 .1 lllt'IHH t.1xa de 1nort.1lid.1dc de rri,111,·.l\ até 5 .mo,. (Sh1.

"l lo,,· Arre,, h) Urb.111 l'ortablc W.1tcr Sc\\'t'r.1gc (_ :<>1111cctio1hAtfr·t"h ( :hild Mllrt;1hty". p. 2.)

Planeta Favela

1

36 Claro que nem todos os pobres urbanos moram em favelas e nem todos os favelados são pobres; na verdade, Thc Challmge ,:fS/11111s ressalta que, em algumas cidades, a maioria dos pobres mora, na verdade, fora da favela propriamente dita 1 ''. Embora, obviamente, as duas categorias se sobreponham, o número de pobres urbanos é consideravelmente maior: pelo menos metade da população urbana do mundo, definida pelos patamares de pobreza nacional relativa 2 ".Além disso, aproximadamente um quarto dos habitantes urbanos (conforme pesquisa de 1988) vive em pobreza "absoluta", difícil de imaginar, sobrevivendo - não se

dados da ONU são

sabe como - com um dólar ou menos por dia 21 Se os

precisos, a diferença de renda per capita entre as famílias de uma cidade rica como Seattle e de uma cidade paupérrima como Ibadan (Nigéria) chega a 739 para 1 - desigualdade inacreditáveF~. Na verdade, é difícil conseguir estatísticas exatas pois é comum a população pobre e favelada ser subcalculada, de forma deliberada t' às vezes maciça, pelos órgãos públicos. No final dos anos 1980, por exemplo, Bangcoc tinha uma taxa oficial de pobreza de apenas 5'¾1, mas as pesquisas verificaram que quase um quarto da população (1, 16 milhão) mora em mil favelas e acampamentos de invasores"·'. Do mesmo modo, o governo do México afirmou na década de 1990 que somente um em cada dez habitantes urbanos era verdadeiramente pobre, apesar de dados incontestes da ONU mostrarem que quase 40% deles

viviam com 2 dólares ou menos por dia 2 ã. As estatísticas indonésias e maLuas também são famosas por encobrir a pobreza urbana. O dado oficial de Jacarta, onde a maioria dos pesquisadores estima que um quarto da população compõe- se de moradores pobres de kamp,mJ!s, é simplesmente absurdo: menos de 5% 2 ;. Na Malásia, o geógrafo Jonathan Rigg queixa-se de que a linha oficial de po- breza "não leva em conta o custo mais alto da vida urbana" e subestima delibera-

,,,

C/1<1/lc11gc. p. 2K

Kavit,1 1),Hta e Gareth A. Jone~. "Preface··, e111 l)atta e Jones (org,;;.). H()llsi11,~ 1llld Fi11t111ff i11

Dc1•,·lopi11g C.>11111,ic, (Londres. Routledge. l l/<J<J). p. XVI. Em Kolbta. por exemplo. a linha ,k pobreza é definida como o equivalente monetário de 2. 11111 c.1lonas de alimentação por dia. Assim, 0 homem mais pobre da Europa muito provavelmente sena nco em Kolkata e

vice-versa.

Relatório do 13anco Mundial, citado em Ahrned

Solim.m.

.-l J'.,,siblc 11;,y 0111: For111,,/i.zi11g

Honsi 11g /nfir111<1/iry i11 E~yp1i,111 Citin (Lanham. University l'ress of America. 2111)4). p. 12:i.

Sbi. "l low Access to Urban Potable Water ,111d Sewerage Connectiom Affects Child Mortalitv", apêndice 3. derivado de UNCHS Clohal Urban Indicators D.1tabase, 1993. A ,·írgub ,-Íecimal pode estar posicionada no lugar errado no valor relanvo a Ih,1d,rn.

',

Jon,1th.rn Rigg. So11the,1,t .·hi,i:.-1 R,;~i,,11i111i·,111siti,,11 (Londres. Unwin Hyman. 1'1') 1). p. 143.

~--1

J 1 np.uato e llu'.-!ler. S/11111 Cpg1adi11g tllHÍ Pt1rticip11fÍtl/J. p. S2.

Paul McCarthy, "Jakarta. lndonesi,1". UN-1-labitat Case Study, Londres, 2003, p. 7-K.

A generalização das favelas

damente os pobres chineses'''.Já o sociólogo urbano Erhard Berner acredita que as estimativas da pobreza de Manila são obscuras propositalmente e que pelo menos um oitavo da popular,·ào favelada não é levada cm conta 27 .

7

37

Uma classificação das favelas

Existem provavelmente mais de 200 mil favelas, cuja população varia de algu- mas centenas a mais de 1 milhão de pessoas em cada uma delas. Sozinhas, as cinco grandes metrópoles do sul da Ásia (Karachi, Mumbai, Délhi, Kolkata [Calcutá] e Daca) contêm cerca ele 15 mil comunidades faveladas distintas, cuja população total excede os 21) milhões de habitantes. As "megafavelas" surgem quando bair- ros pobres e comunidades invasoras fundem-se em cinturões contínuos de mo- radias informais e pobreza, em geral na periferia urbana.A Cidade do México, por exemplo, tinha, em 1992, estimados 6,6 milhões de pessoas vivendo aglo- meradas em 348 quilômetros quadrados de moradias informais"". Do mesmo modo, a maioria dos pobres de Lima mora em três grandes {(111os periféricos que se irradiam da cidade central; essas imensas concentrações espaciais de pobreza urbana também são comuns na África e no Oriente Médio. No sul da Ásia, pelo contrário, os pobres urbanos tendem a viver em um número muito maior de favelas distintas, dispersas com mais amplitude por todo o tecido urbano, com padrões quase fractais de complexidade. Em Kolkata, por exemplo, milhares de thika hustccs - nove aglomerados de cinco cabanas cada, com cómodos de -+5 metros quadrados compartilhados, na média, por incríveis 13,4 pessoas - mistu- ram-se a uma variedade de outras condições residenciais e tipos de uso da terra 2 ''. Em 1)aca, ~ provável que faça mais sentido considerar as áreas que não são favelas como enclaves numa matriz dominante de extrema pobreza. Embora algumas favelas tenham uma longa história - a primeira favela do Rio de Janeiro, no morro da Providência, surgiu na década de 1880 -, a maioria das megafavelas cresceu a partir da década de 1960. Ciudad Nezahualcóyotl, por exemplo, mal tinha 10 mil moradores cm 1957; hoje, esse subúrbio pobre da Cidade do México tem 3 milhões de habitantes. A cada vez maior Manshiet Nast,junto do Cairo. surgiu na década de 1960 como acampamento dos operá- rios que construíam o subúrbio de Cidade Nasr, enquanto a imensa favela de Orangi/Baldia, nos morros de Karachi, com sua população mista de refugiados muçulmanos ela Índia e patanes provindos da fronteira afegã, foi criada em

Rigg. So111/,c,HT .·ls1,1, p. 11 ').

Erhard Berner, Dcf,-11di11g ,1 l'foa- i11 1/,c Ci1y: Loc,1/itics ,rnd thc Stn,.~~lcjir Urba11 L111d i11 Jfrrro .\l,111i/,1 (Cid.ide (~uezon. Ateneo de Manib. 1997). p. 21. 25. 2h.

:")- Keith Pezzolt, 1--111111,111 Scttle111c11ts cllld Pl,11111i11,~jilr Ewlo,~ic,1/ S11st,Ú1Ml1ility: Thc C,1sc tf .\fexito

'"

Ci11• (C:.1rnbridge. MIT. 1<J<J8). p. 13.

Nitai Kundu, "Kulk.ita. lndia"'. UN-1-í.ibitat Case Studv, I.ondrcs. ~111'3. p. 7.

Planeta Favela

38

Tabela 2.2 As trinta maiores megafavelas (2005) 3 º

----~--~

(milti_ões de_habitan!es) _

1. Neza/Chalco/lzta (Cidade do México)"

4,0

2. Libertador (Caracas)

2,2

3. EI Sur/Ciudad Bolivar (Bogotá)

2,0

4. San Juan

de Lurigancho (Lima) 32

1,5

5. Cono Sur

(Lima) 33

1,5

6. Ajegunle (Lagos)

1,5

7. Cidade Sadr (Bagdá)

1,5

8. Soweto (Gauteng)

1,5

9. Gaza (Palestina)

1,3

10. Comunidade Orangi (Karachi)

1,2

11. Cape Fiais (Cidade do Cabo) 34

1,2

12. Pikine (Dacar)

1,2

13. lmbaba (Cairo)

1,0

14. Ezbet EI-Haggana (Cairo)

1,0

15. Cazenga (Luanda)

0,8

16. Dharavi (Mumbai)

0,8

17. Kibera (Nairóbi)

0,8

18. EI Alto (La Paz)

0,8

19. Cidade dos Mortos (Cairo)

0,8

20. Sucre (Caracas)

0,6

21. lslamshahr (Teerã) 35

0,6

22. Tlalpan (Cidade do México)

0,6

23. lnanda INK (Durban)

0,5

24. Manshiet Nasr (Cairo)

0,5

25. Altindag (Ancara)

0,5

26. Mathare (Nairóbi)

0,5

27. Aguas Biancas (Cali)

0,5

28. Agege (Lagos)

0,5

29. Cité-Soleil (Porto Príncipe)

0,5

30. Masina (Kinsh,1_sa)

0,5

----

1965. Villa El Salvador. uma das maiores /,,1rri,1d,1s de Lima. surgiu em 1971 sob o patrocínio do governo militar do Peru e, em poucos anos, tinha uma popula- ção de mais de 300 mil habitantes.

·•

Dezenas de fontes foran1 consult.1das l' selecionados o,; valores 111édiu:-i e1J1 n:·z do, extre1nos.

Inclui Nl'Z,1hu.1koyotl (1.3

Chimalhuac.1n (2511 mil) e catorze outra< ddega,·õe, e· municípios c·ontíguos do qu.1dr.1nte

sudeste da metrópole.

Inclui S.J. de l

Cono Sur ~ Villa EI Salvador (3511 mil). San Juan de Miratlores (1111 mil) e Villa Mari.1 de Triunfo (.Jllll mil).

<:.1pe H.1t,. Kh.1ydit,ha (.Jflll mil). Mitchell\ l'lain (2511 mil). Crm,rn.,d, ( l 811 mil) e ,,Hm1-

milh;io de hahit,Hite,). Chako (31111 mil), lzt.1palapa ( 1,5 millüo).

(7511 mil). Comas (51111 mil),. lndependencia (2011 mil).

11idade\ 1nenorcs {"iegu11<.i<, o recensea111cnto dt· 19 1 Jh).

1,1.Hmluhr {.>511 mil habitante,) m.ii, Ch.1h,1r 1>angeh (2311 mil).

A generalização das favelas

Em toda parte do Terceiro Mundo a escolha da moradia {_· um cálculo com- plicado de considerações ambíguas. Como a frase fiunosa do arquiteto anar- quista John Turner, "Moradia é um verbo". Os pobres urbanos têm de resolver uma equação complexa ao tentar otimizar o custo habitacional, a garantia da posse. a qualidade do abrigo, a distância do trabalho e, por vezes, a própria segurança. Para alguns. como muitos moradores de rua, a localização próxima do trabalho - digamos, em uma leira livre ou estação de trem - {., ainda mais importante do que o teto. Para outros, o terreno gratuito, ou quase isso, com- pensa viagens épicas da periferia para o trabalho no centro. E para todos a pior situação é um local ruim e caro sem serviços públicos nem garantia de posse. No famoso modelo de Turner, que teve como base seu trabalho no Peru da década de 1960, os migrantes rurais primeiro mudam-se da província p:ira um local no centro da cidade a qualquer preço. para encontrar emprego; depois, com a segurança do emprego, mudam-se para a periferia, onde podem obter a propriedade. É claro que esse progresso (em sua terminologia) da "cabeça-de- ponte" à •·consolidação" é uma idealização que só pode refletir uma sittw;ào historicamente transitória num único continente ou país·'". Em unu análise mais sofisticada, o especialista em habitação Ahmed Soliman discute quatro estratégias básicas de abrigo dos pobres do Cairo. Primeiro, se o acesso ao mercado central de trabalho é fimdamental. a família pode pensar na possibilidade de alugar um apartamento; os prédios para locação oferecem centralidade e garantia de ocupação, mas são caros e não trazem a esperança de propriedade posterior. A segunda opção fica no centro, mas é um abrigo infor- mal; situação descrita por Soliman como

3 9

um cômodo ou ,ótão pequeníssimo. localizado num ambient,· de 111,í qualidade com aluguel barato, ou sem aluguel. com bom acesso a oportunidades de trabalho mas sem esperança de garantia de proprie,bde. Esses moradores ilegais ac.1barào fórçados .1 se mudar para terrenos invadidos ou habitações semi-informais."

A terceira solução de moradia, a mais barata delas. é ocupar terra pública, em geral nos arredores desertos do Cairo e quase sempre a favor do vento que sopra de áreas poluídas; as considera<;ões negatiYas dessa possibilidade incluem o custo altíssimo do transporte até o trabalho e a negligência governamental com rela- ção à infra-estrutura. "Por exemplo, a áre,1 invadida no distrito de El Dekhila L' um assentamento lü quarenta anos, sem que haja nenhuma ação ou intervenção

Ver John Turner. "Hommg l'rioritie,. Settle111e11t P,,ttl'rm and Urh,111 Ikwlopment in

Modernizing: Countrie'-l".J,111r11,1/ (f tht' .-l111afr,111

/11stit11tl' tf Pl,11111crs. 3--l. 19(18. p

l54-ú3:

e

"Hou,ing .1, a Verh", cm John Turnn e Rohl'rt Fidun (org,.). Prc,·d,,111 r,, ll11ild: D!l'cllcr

C,\1111n 1 / ,f thc H,1wi11.I! f>rti(css

Solim,111 •. ·! l'.,ssi/,/c 11 ;,y ()11(.

(Nov.1 York. M,1nntll.111. 1 1 )72).

p. 1 1'J-211.

Planeta Favela

40 pública da autoridade local." A quarta solução, que acaba sendo a preferida pela maioria dos cJirotas pobres, é comprar um terreno em um dos enormes loteamentos semi-informais (muitas vezes em terras compradas de beduínos ou em aldeias de camponeses) com ocupação legal, mas sem autorização oficial para construções. Embora distantes do emprego, essas áreas são seguras e, depois de considerável mobilização das comunidades e negociações políticas, costu- mam ser atendidas por serviços públicos básicos". Podem-se especificar modelos semelhantes de escolha racional para todas as cidades, gerando uma série enorme de tipos específicos de ocupação e assenta- mento local. A classificação apresentada no Quadro 2. 1 é uma simplificação analítica que ignora características locais importantes em prol da possibilidade de comparação global. Outros analistas podem dar prioridade à situação legal da habitação (fim11al ou i1!fim11al), mas acho que a primeira decisão da maioria dos recém-chegados na cidade é se podem ou não pagar aluguel perto das princi- pais concentrações de empregos (míclco ou pcrifáia). No Primeiro Mundo, é claro, há uma distinção arquetípica entre as cidades norte-a111ericanas e111 fonna de "anel", con1 os pobres concentrados no centro, em núcleos dilapidados e subúrbios mais pobres, e as ciclades-"pires" européias, com a população de imigrantes e desempregados aquilombada em prédios de muitos andares na orla externa da cidade. Os pobres norte-americanos, por assim dizer, moram em Mercúrio: os europeus, em Netuno ou Plutão. Como ilustra a Tabela 2.3, os favelados do Terceiro Mundo ocupam várias órbitas ur- banas, com a maior concentração nas constrll(;ões baixas das periferias.Ao con- trário da Europa, no hemisfério sul as moradias públicas para os pobres são exceção - Hong Kong, Cingapura, China - cm vez de regra. Entre um quinto

e um terço dos pobres urbanos moram dentro ou perto cio núcleo urbano, principalmente em moradias multifamiliares alugadas, mais antigas.

1. A pobreza dentro da cidade

Nas cidades norte-americanas e européias, há uma distinção básica entre a mo-

radia em antigos casarões, como as bro11,11sto11cs do I larlem e asgn>1gi<111s de Dublin,

e os prédios construídos para os pobres. como os ,\lictskascmc de Berlim e os

famosos d11111/,bclls do Lower East Side de Nova York. Embora rara nas 110\'as

cidades da África, a reutilização de cas,1rões antigos, como as mansões coloniais

e vilas vitorianas convertidas, é bastante comum na América Latina e em algu-

mas cidades asiáticas. Fosse qual fosse o seu antigo esplendor, a maior parte dos pa/,,111,1/'cs da Cidade da Guatemala, das ,11,miclcis e J1i!,1s do Rio de Janeiro, os

<'<'lll'Cllfillos de Buenos Aires e Santiago, as q11i111,1s de Quito e as rnc1rrcri,1s de

lhidelll.

Quadro 2. 1 Classificação das favelas

A. Núcleo metropolitano

A generalização das favelas

7

41

1.

Formal

 

(a)

cortiços

 
 

(a.1)

casarões antigos construídos para os pobres

(a.2)

 

(b)

moradias públicas para aluguel

(c)

pensões, hospedarias, abrigos etc.

2.

Informal

 

(a)

invasores

 
 

(a.1)

com autorização

(a.2)

sem autorização

 

(b)

moradores de rua

 
 

B.

Periferia

1.

Formal

 

(a)

aluguel particular

 

(b)

moradias públicas para aluguel

2.

Informal

 

(a)

loteamentos clandestinos

 

(a.1)

ocupado pelo proprietário

(a.2)

sublocação

 

(b)

invasores

 
 

(b. 1)

com autorização (inclusive lotes urbanizados)

(b.2)

sem autorização

3

Camp.ci~(j_e

refugiados

 

,.,

Tabela 2.3 Onde moram os pobres 39 (percentual da população pobre)

F_a_v_e_las

dentro d_a_c_i_d_a_d_e

F_a_ve_l_as

peri~r~cas

Karachi Cartum Lusaka (Zâmbia) Cidade do México Mumbai Rio de Janeiro

34

66

17

83

34

66

27

73

20

80

23

77

----

_

Keith l'ezrnli. "Ml'xico\ Urb,rn Housing Environlllent,", em !Jri.111 Aldrich l' Ranvinder

Sand.hu (or~s.). Ht111si11,1? 1/,c [ ·rh1111 f>ot1r: Pt1liq 1 ,111d /Jr11aicc i11 Dc1'dt1pi11,1t! C( 1 1t11trícs (Londres.

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l 'r/,,11, D,·1·,·fi,p111m1 ,111d .'\·c11· 1i•11•11s ;,, tl,c 'f'f,ird 11 í•rld. p. X'J.

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