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PUC-MINAS

CEFAP – CURSO DE APROFUNDAMENTO BÍBLICO-TEOLÓGICO


2º Semestre de 2017
Assessor: Pe. Luiz Eustáquio dos Santos Nogueira

A P AR Ó Q U I A E S EU FUT UR O :
NO V AS PER S P E C T IV AS PAS T O R A IS

AGOSTO
01. Um olhar específico sobre a Igreja hoje (Joel Portella Amado)
08. [Continuação do anterior]
15. Feriado
22. [Continuação do anterior]
29. Pós-modernidade e Proclamação

SETEMBRO
05. A paróquia na mudança de época: uma rede de comunidades na era da informação (Emerson
Marcelo Ruiz)
12. [Continuação do anterior]
19. O Documento 104 da CNBB de junho de 2014 sobre a renovação paroquial
26. [Continuação do anterior]

OUTUBRO
03. Vinte e quatro “puxões de orelha” de Amoris Laetitia aos pastores da Igreja
10. Recesso
17. Paróquia e iniciação cristã catecumenal: a interdependência entre renovação paroquial e
mistagogia catecumenal (João Fernandes Reinert)
24. [Continuação do anterior]
31. [Continuação do anterior]

NOVEMBRO
07. Por uma Igreja dinâmica e orgânica, toda sacerdotal (Roberto Bottrel) / As células: uma
metodologia para ajudar na evangelização (Dom Edson Oriolo)
14. Células paroquiais de evangelização
21. Iniciação à vida cristã: itinerário para formar discípulos missionários (Doc. 107 da CNBB)
28. Conclusão
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Um olhar específico sobre a Igreja hoje


Pe. Joel Portella Amado

1. Uma proposta entre outras

A reflexão que agora vamos partilhar tem um caráter predominantemente pastoral. Numa
Assembléia que vai refletir sobre a Palavra de Deus e o rumo das comunidades eclesiais de base,
penso ser mais útil recordar alguns aspectos que, embora todos conheçam, na prática, ainda não
se resolveram como gostaríamos, apesar de tantas vezes abordados. Não trago, portanto,
novidades nem soluções definitivas. Trago alguns destaques para a ação evangelizadora hoje.
Assumo e sistematizo algumas das ideias que vêm norteando as conversas pastorais dos últimos
anos. Baseio-me, em maior escala, no Documento de Aparecida, repetindo aspectos constantes
das atuais Diretrizes. Todos os temas aqui abordados se encontram nos textos referidos. A
questão maior é sua efetiva passagem para o cotidiano evangelizador. São as urgências pastorais
que o atual momento nos impõe. Podemos e devemos nos preocupar com todos os aspectos.
Devemos, no entanto, elencar algumas urgências e unir forças para sua efetiva concretização.
Neste sentido, recordo que o ponto de partida para qualquer compreensão do momento
diz respeito à não poucas vezes mencionada mudança de época pela qual nosso mundo
globalizado está passando. A Igreja do Brasil, em consonância com a Conferência de Aparecida,
já assumiu esta mudança de época em suas Diretrizes (DGAE 5-6, 13ss). Daí, a consciência
missionária, que vem crescendo e mesmo assumindo o primeiro lugar de nossos planejamentos
pastorais, como visto num breve estudo iniciado há pouco com planos de pastoral da maioria das
dioceses de nosso país.

2. Mudança de época e não época nova

Importa ressaltar que não estamos ainda numa nova época. O atual momento não é um
processo terminado. É, antes, uma realidade em andamento. Por isso, a mentalidade com a qual
lidamos não repousa sobre pressupostos fixos, ainda que distintos de épocas anteriores. Ela
repousa sobre uma perspectiva em mutação, em contínua transformação, em oscilação.
Consequentemente, o perfil evangelizador necessita assumir que está dialogando com uma
realidade em transformação.
Isto significa centralizar-se no que é essencial, acelerar atitudes, olhar o horizonte com
amplitude maior e, acima de tudo, não temer experimentos novos. Deve reconhecer que, mais do
que em épocas anteriores, as decisões pastorais tomadas hoje precisam ser sólidas o suficiente
para colocar a Igreja em diálogo com esta mentalidade emergente e mutante. Precisam, contudo,
ser igualmente flexíveis a ponto de, com rapidez, serem continuamente adaptadas ao novo que
vai surgindo. É fazer, rever e refazer continuamente. As mudanças de época, com sua exigência
de diálogo, não nos dão muito tempo para respirar e contemplar.

3. A responsabilidade da Igreja

Esta urgência, esta aceleração nos ritmos pastorais tem sua razão de ser. Acompanha a
contínua mutação da realidade e reconhece que, neste acompanhar, precisa responder ao desafio
de contribuir para a nova época que está para surgir. A nova época não dependerá
exclusivamente da Igreja. A Igreja não determinará totalmente este novo ethos, mas ela tem a
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missão de contribuir para que o novo ethos possua fortes marcas do Evangelho. Num mundo
plural, onde, mais do que em épocas anteriores, sentimos a força do diferente e a necessidade de
dialogar o tempo todo, a Igreja é uma voz em meio a tantas e uma voz em déficit sociocultural.
Os processos, já tão estudados, da crise das instituições produtoras de sentido e da transmissão
destes mesmos valores via tradição, têm relativizado os usuais caminhos de presença social da
Igreja a partir de seu caráter institucional e tradicional.

4. O idioma a ser usado

Sabemos que esta mudança de época vem marcada por algumas passagens. No mínimo
cinco passagens devem ser consideradas, se desejamos estabelecer um idioma comum com a
mentalidade que está vivendo esta mudança de época e efetivamente influenciar no surgimento
de um novo ethos. As passagens são:
1) Da primazia do uno para a supervalorização do múltiplo;
2) Do estático para o movimento;
3) Da homogeneidade para a diferença;
4) Da instituição e da tradição para o indivíduo;
5) Do predomínio da transcendência para a urgência da imanência.
Estas passagens revelam estarmos diante de uma concepção de ser, no sentido ontológico
do termo, distinta de épocas anteriores e que, por isso, nos pedem estabelecer uma plataforma
mínima de diálogo com o múltiplo, o movimento, diferença, a individualização, a imanência. Ou
assumimos, por exemplo, a liquefação (Bauman), a individualização das crenças (Hervieu-
Léger), o tribalismo e as novas formas sazonais de socialização (Mafezzolli), ou não seremos
capazes de dialogar com a emergente concepção de ser. E, quando falamos em concepção de ser,
falamos dos valores mais profundos, lá onde exatamente a evangelização deve chegar (EN 19).

5. Os novos idiomas e nossa identidade

O desafio consiste em discernir entre aquilo que é próprio de nossa identidade e aquilo
que é marca cultural de épocas anteriores. A relação entre Fé e Cultura(s) não está superada. Ao
contrário, ela nos interpela continuamente, pois a Fé não paira solta no ar. Ela se concretiza em
pessoas e povos e o faz exatamente através dos dados culturais, das imagens, das manifestações e
formulações próprias de cada cultura. Esta é uma consequência do princípio da encarnação. A Fé
só pode ser significativa se for vivenciada no horizonte da cultura.
Recordo estes aspectos para chamar a atenção para aquela que considero a pergunta
evangelizadora central de nossos dias: é possível viver a experiência cristã em contexto
multiforme, individualizante, continuamente mutante, valorizador das diferenças e
imanentizador?

6. Jesus Cristo, razão de nossa esperança e sentido para a existência de toda a criação.

A resposta nós a encontramos no princípio evangelizador relembrado pelo Papa João


Paulo II (NMI 29) e assumido por Aparecida: recomeçar a partir de Jesus Cristo (DA 12 e 41).
A dificuldade começa no momento em que damos conteúdo a este Jesus Cristo, no momento em
que destacamos, de tudo que Jesus Cristo é, um ou outro aspecto, no momento em que usamos
imagens e formulamos conteúdos. Sabemos que existe uma tensão constante entre Jesus Cristo e
as compreensões que temos dele, isto é, as cristologias. Estas não esgotam o mistério de Jesus
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Cristo, mas este mistério não se transmite sem as formulações histórico-culturais, ou seja, sem as
cristologias.
Neste sentido, uma das tarefas do atual momento evangelizador consiste em identificar de
que Jesus Cristo nós estamos falando. Todas as culturas e, portanto, também a contemporânea,
são capazes de processar e reciclar tudo, inclusive a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo. Não é
sem sentido que o nome de Jesus Cristo apresenta, nesta mudança de época, grande variedade de
significados e consequentes implicações existenciais. O tema Jesus nós o encontramos nos mais
diversos contextos, exigindo, da parte da ação evangelizadora uma espécie de ecumenismo
cristológico, no qual as diversas formas de compreender, viver e transmitir Jesus Cristo são
postas em diálogo.
Assim, penso que a questão mais urgente não seja tanto Jesus em diálogo com outras
religiões e propostas de sentido. Esta questão existe. É real. Não podemos negá-la. Penso,
contudo, que, esta seja questão segunda. A questão primeira consiste em identificar em dar
conteúdo ao que Jesus Cristo significa, nestes tempos de mobilidade, mutação e
individualização. Dito de outro modo: o que, no mistério da pessoa e da mensagem de Jesus
Cristo, é, ao mesmo tempo, pertinente à Tradição e relevante para a cultura de hoje?
Como resposta, penso que o atual momento da história nos convida a elevar aos primeiros
lugares da compreensão sobre Jesus Cristo aquele aspecto indicado pelo Papa Bento XVI em seu
Discurso Inaugural da Conferência de Aparecida e, mais tarde, incorporado ao texto das
Conclusões. Este é um tempo para que se destaque a uma cristologia kenótica, construída a partir
da contemplação do Cristo que, “sendo rico se fez pobre para a todos enriquecer” (2 Cor 8,9;
Disc.Inaug. 3, DA 31, 392).
Esta concepção de Jesus Cristo, que, saindo de si, vai ao encontro e convida os discípulos
e discípulas a fazerem o mesmo, é, ao mesmo tempo, relevante para o diálogo com a mentalidade
atual e fiel à Tradição. Há de fato, no cristianismo, uma dimensão de abertura profunda e
contínua ao futuro, ao diferente, ao movimento, à multiplicidade, à esperança, ao porvir, à
superação do hoje, em especial do hoje tão sofrido, às vezes. O cristianismo é escatológico por
natureza e escatologia significa também abertura, busca e construção do futuro.
Assim, o Jesus Cristo da kénosis remete à pastoral da kénosis, ou pastoral da alteridade.
Trata-se de uma pastoral marcada, acima de tudo, pelo mergulho em busca do outro, pela
imersão nesta realidade em contínuo e acelerado processo de mutação. Alguns dizem que se trata
de correr atrás do prejuízo. Não sei dizer se esta avaliação mais quantitativa, decorrente, por
exemplo, do contato com dados censitários e outras pesquisas que acenam para o declínio
numérico dos católicos no Brasil, deve ser nosso maior motivador. É claro que a perda sempre
incomoda. Afinal, entre qualidade e quantidade existe certa correlação. As primeiras
comunidades mostram, entre os efeitos da vida de irmãos, o aumento no número dos fiéis (At
5,14). Penso, contudo, que os motivos maiores não sejam os da concorrência pastoral. Eles estão
ligados a algo que está no cerne da identidade cristã e que outras épocas não permitiram maior
destaque.
Nosso tempo é tão cheio de perplexidades. O outro e o diferente sempre nos assustam.
Este é um fato humano. O outro assusta, porém, bem mais quando ele é plural, diversificado,
mutante e impossível de enquadramento satisfatório. Em face de tudo isso, a força interpeladora
do Evangelho estará na capacidade de vivermos e testemunharmos que o outro não é nem
ameaça nem objeto para fruição. O outro é fascínio, que atrai, convida e provoca. Sem esta
abertura kenótica à alteridade, não seremos capazes de fielmente dar as razões de nossa
esperança a um mundo que, mesmo quase uma década depois do 11 de setembro, ainda se
apavora com a possibilidade do inimigo estar dentro de casa; ou, então, um mundo que se torna
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descrente em meio a tanta desonestidade, tanta corrupção, tanto desrespeito à vida. Aliás, nem
precisamos recorrer ao 11 de setembro para compreender a perplexidade trazida pelo outro que
invade nossa existência. O que devemos dizer àquela senhora que nos procura afirmando que, na
própria família, no local de trabalho e na vizinhança, ela é a única seguidora de Jesus Cristo, pois
as pessoas com quem convive ou, na prática, são sem religião ou migraram para os empórios
neoliberais de curas e prodígios?

7. Uma identidade missionária. Uma missão atualizada.

A missão é sempre a resposta da Igreja. É uma resposta que faz parte de nossa identidade
mais profunda. Ela vale para os tempos de bonança e para os tempos de tempestade, para os
períodos de maior plausibilidade sociocultural e para os períodos de perseguição. Nesta atual
mudança de época, a passagem do institucional para o individual é, a meu ver uma das que mais
determinam o perfil missionário. Há séculos, estamos acostumados a apresentar as razões de
nossa esperança a partir dos critérios da tradição, da instituição e da verdade objetiva. A missão
se caracteriza pela inserção numa comunidade/instituição socioculturalmente reconhecida e em
vista do acolhimento de uma verdade objetiva. Estes argumentos não perderam seu valor
teológico. Eles experimentam o enfraquecimento sociocultural. Já não possuem fôlego para fazer
chegar a Boa Nova ao coração de pessoas e povos. Na atual mudança de época, vale bem mais o
que é individualizado. Lembremo-nos das bênçãos individualizadas pedidas ao final das
celebrações eucarísticas. Elas são exemplos agudos do que os estudiosos do assunto chamam de
individualização das crenças, palpabilidade intra-histórica e sensitividade da presença do divino.

8. Evangelização individualizada?

Consequentemente, a missão, sem deixar de apontar para a dimensão comunitário-social


da Fé, deve estar atenta para o caráter individualizante que permeia muitas das compreensões
atuais da vida. Deverá, por certo, questionar a excessiva individualização, na medida em que ela
se feche para a alteridade. No entanto, deverá investir com maior rapidez num perfil de ação
evangelizadora capaz de acolher, ouvir, aconselhar, ajudar na recentralização do eu, trabalhar as
crises e neuroses decorrentes da perda de raízes. Sem esta pastoral de cunho personalizador,
experimentaremos dificuldade em dialogar com a mentalidade emergente.
Como agir pastoralmente diante, por exemplo, de uma mulher já idosa, merecedora de
um pouco de paz, envolta, porém, com os bisnetos arrebanhados pelo crime organizado,
preocupada com o posto de saúde que não funciona, com o sustento da família unicamente
através do salário mínimo que ela recebe da Previdência Social e com a filha adicta que até a
espanca no auge das crises? Como não pensar num acolhimento personalizado a um jovem, cujos
pais, cooptados pela mentalidade do lucro a todo custo, se esqueceram de que paternidade é
presença e este jovem, tendo buscado afeto nas drogas, vem pedir a ajuda de Jesus?
Os empórios de curas e milagres fazem sucesso porque respondem a este perfil mais
personalizador, individualizante. Ali, Jesus atende ao meu pedido, eu dou meu testemunho. Não
quero dizer, por certo, que nossa pastoral deva também se tornar um desses armazéns de
prodígios. Quero dizer que precisaremos, com urgência, pensar bastante na questão, por
exemplo, da escuta, dos grupos de recentralização do eu dilacerado pelas dores de nosso tempo,
pela solidão, pela crise de identidade. Nossa ação evangelizadora é, portanto, chamada a assumir
um perfil mais personalizador, capilarizador até o nível do indivíduo.
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9. Um risco para o qual atentar

O problema desta atual passagem eu o vejo no grande peso que se atribui à


responsabilidade individual dos agentes evangelizadores. Na medida em que o caráter
institucional não possui tanta força para proteger e garantir a ação missionária, o peso está sobre
cada indivíduo. Assim, mais do que em outras épocas, o que cada agente evangelizador vier a
fazer afetará intensamente não apenas a ele, mas também à Igreja e, com ela, Jesus Cristo e o
anúncio do Reino de Deus.
A primeira consequência é clara. Em tempos de hipervalorização do indivíduo, emerge
concomitantemente a hipervalorização do testemunho pessoal. Se, em todos os tempos, o
testemunho sempre marcou a missão, hoje, num tempo em que o respaldo institucional é débil, a
postura individual é determinante.
Em segundo lugar, emerge aos primeiros lugares de nossa preocupação pastoral o fato de
que todos os batizados assumam claramente a consciência evangelizadora, seja no testemunho
pessoal em todos os momentos e lugares, seja no engajamento pelo anúncio e a construção do
Reino de Deus. A passividade no anúncio do Evangelho não é neutra. É anti-anúncio. Daí a
urgência em trabalhar para que cada batizado(a) seja um(a) efetivo(a) agente evangelizador(a).
A terceira consequência diz respeito às falhas pessoais. Nos contextos em que o peso
maior é colocado na instituição, quando um indivíduo falha, a tendência é a de se reconhecer a
santidade da instituição como garantidora da proposta. Quando o peso maior, ao contrário, é
colocado no indivíduo, a tendência é a de generalizar para toda a instituição o que um indivíduo
ou mesmo um conjunto de indivíduos venham a fazer. Quando o destaque é dado à instituição,
erros individuais são socioculturalmente protegidos pelo guarda-chuva institucional. Quando o
destaque é socioculturalmente dado ao indivíduo, erros individuais vão parar na mídia, no
telejornal das vinte horas e, mais recentemente, nos tribunais civis, em busca de justiça misturada
com vingança e indenização.

10. Testemunhar a força da comunidade

Na medida em que a atual sensibilidade religiosa vem migrando da adesão comunitário-


institucional para o imediato das soluções intra-históricas dos problemas, Jesus é buscado como
um grande taumaturgo, apto a suprir o que os mecanismos usuais para a solução dos problemas
não são capazes de fazer. Esta é a noção de Jesus Cristo mais aceita pela atual mentalidade. Não
a única; porém, a mais aceita.
A peculiaridade desta leitura de Jesus Cristo está no fato que ela participa do mesmo
processo que rompe o vínculo entre indivíduo a instituição-comunidade. Esta ruptura atinge a
relação entre Jesus Cristo, dado individual, e a Igreja (dado institucional). O vínculo se rompe
por duas razões principais. De um lado, é o processo relativizador das instituições produtoras de
sentido. De outro, é a incapacidade das concretizações eclesiais costumeiras manifestarem e
permitirem a efetiva experiência comunitária. Mantendo-me nas Conclusões de Aparecida e em
tudo que atuais Diretrizes indicam, recordo que o recomeçar a partir de Jesus Cristo implica
necessariamente uma Igreja kenótica, próxima da vida das pessoas, tanto no nível da
individualidade quanto no nível das pequenas comunidades em rede (DA 99e, 170ss, 309).
Pode parecer estranho que, após insistir tanto na exacerbação da individualidade como
uma das características do atual período, eu venha agora a indicar que o aspecto comunitário e,
mais ainda, afirmar que ele é o elo de ligação entre este atual momento e a experiência cristã. O
mundo da transição, do movimento, da diversidade, pede também estabilidade. Todo ser humano
precisa conviver, partilhar experiências, compreensões, linguagens, avaliações e decisões
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comuns. Todo ser humano necessita de pertença. O mundo individualizado e em constante


mutação é também gerador de solidão, em especial nas grandes cidades. É por isso que
constatamos, junto com o processo individualizador, a sede por efetivas experiências
comunitárias, nas quais acolhimento, afeto e ajuda mútua podem efetivamente ser
experimentados. As redes de comunidades não podem, deste modo, permanecer apenas como
proposta em nossos planejamentos pastorais. Elas precisam urgentemente se tornar realidade
(DA 365, DGAE 49-50, 152).
Com o passar do tempo, nossas paróquias tradicionais, sedentariamente estabelecidas,
cresceram no número de residentes, os quais, por sua vez, passaram a ter fluxos de vida num raio
bem mais amplo do que os limites jurisdicionais. Em consequência, as paróquias tendem a
possibilitar efetiva experiência comunitária a apenas alguns, em geral, os mais próximos ao
sacerdote. Para o restante, o que sobra é a participação nas missas e o atendimento burocrático
em vista da prestação de serviços imediatos (DGAE 156). Assim como em outro período da
história da Igreja, ocorreu a criação das paróquias, como forma de presença capilarizada da
Igreja lá onde as pessoas estavam, penso ser este um novo momento na história da Igreja, em que
se fazem necessárias a mesma coragem e boa dose de urgência para recapilarizar continuamente.
Sem este recapilarizar comunitário, corremos o risco de permanecer patinando na burocratização
pastoral.
É por isso que vemos crescer experiências eclesiais que, construídas ao lado ou mesmo
dentro das paróquias tradicionais, manifestam-se como mais atrativas. É por isso que, nesta
Assembleia, os senhores assumiram como destaque o tema das Comunidades Eclesiais de Base,
buscando compreendê-las nesta nova etapa da história, de modo que, não perdendo sua
identidade, sejam capazes de manifestar seu vigor num contexto sociocultural distinto daquele
em que surgiram.
De fato, esta mudança de época acena para formas diferenciadas de concretizar a
experiência comunitária, cada uma com seu jeito de ser, com seus carismas e seu modo de
interagir com o todo sociocultural. Num mundo plural, não há como afirmar uma única
concretização. Só uma Igreja com diferentes jeitos de viver a mesma Fé será capaz de dialogar
relevantemente com a mentalidade que se nos apresenta hoje. Num contexto de homogeneidade
cultural e religiosa, concretizações únicas funcionam, atraem. Num contexto de mobilidade,
mutação contínua e diversidade, a homogeneidade de formas afasta. Não se trata do abandono do
essencial, do núcleo de nossa Fé, das metas comuns, possibilitadoras da pastoral de conjunto.
Trata-se de reconhecer que a diversidade de concretizações é, ao mesmo tempo, relevante para a
mentalidade que se vai gerando nesta mudança de época e fiel à experiência cristã. Dois aspectos
são indispensáveis para todas as concretizações. Primeiro, trata-se do efetivo reconhecimento
que nenhuma concretização esgota em si a riqueza da dimensão comunitário-eclesial e que, por
isso, todas são chamadas ao caminhar comum, superando as tensões da exacerbação do próprio
carisma. Segundo, o enfrentamento testemunhal e interpelativo de uma mentalidade que,
exacerbando o individual, gera consumismo, isolamento e exclusão.
É na força da comunidade que os discípulos e discípulas de Jesus Cristo são capazes de
responder aos problemas emergentes, olhar com tranquilidade para as angústias e relativizar o
impacto das notícias, sejam quais forem. Só a força da comunidade é capaz de passar pela aporia
de um momento histórico em que, por um lado, as pessoas pedem atenção, afeto, contato, mas,
por outro, nós precisamos ser prudentes para não sermos mal compreendidos e levados na
avalanche. Só na força da comunidade e, hoje, das pequenas comunidades, é possível superar a
angústia que brota quando pensamos, por exemplo, na possibilidade de um vazio vocacional a
médio prazo, quando os que hoje vivenciam fatos desabonadores chegarem à juventude,
momento da opção. Estas e outras respostas só são encontradas na força da comunidade.
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Esta, a meu ver, é uma das razões pelas quais sentimos crescer também a sensibilidade
para os eventos de massa. Ainda que em nível diferente das comunidades, eles também fornecem
senso de pertença, identidade, certeza de que há outros comungando dos mesmos ideais e
projetos. Os eventos de massa possuem forte carga terapêutica diante do anonimato, da
liquefação das identidades, da fragilidade de referências. Importa não concentrar esforços apenas
em um destes dois polos: rede de comunidades ou eventos de massa, esquecendo-se da mútua
articulação que deve existir entre ambos, à luz de um projeto pastoral comum.

11. O amor aos pobres e a defesa da vida

O encontro com Jesus Cristo exige o encontro com a Igreja, na rede de comunidades.
Estes dois aspectos, contudo, apontam para outra urgência. Em nossos dias, Jesus Cristo sozinho,
sem vida de irmãos, gera consumismo religioso. Jesus Cristo na pequena comunidade, sem a
abertura para outro social, corre o risco de gerar individualismo comunitário, ao estilo das ilhas
de proteção. São projetos de vida, ainda que comunitários, voltados, apenas para si mesmos.
Estes dois riscos, o do consumismo religioso e do individualismo grupal se resolvem somente
quando existe a sensibilidade para o outro, em suas alegrias e, mais ainda, em suas dores.
A afirmação do recomeçar a partir de Jesus Cristo numa Igreja comunidade de
comunidades aponta para uma espiritualidade profundamente comprometida com a vida, em
todas as suas instâncias. Aponta para uma forte sensibilidade e um intenso compromisso com os
pobres, nos mais diversos e variados rostos que eles venham a ter em nossos dias (DA 65, 257 e
402). O Cristo kenoticamente assumido é o Cristo da Cruz (1 Cr 1,23, Fp 2,5ss) e o Cristo da
Cruz se concretiza hoje nos diversos e crescentes crucificados. Entre estes crucificados, não
podemos deixar de lembrar que até mesmo o próprio planeta, como um todo, está sendo
crucificado pelo egoísmo e pela ganância (Campanha da Fraternidade 2011, Fraternidade e a
Vida no Planeta).
Mesmo que o preço seja o aumento no número de pedras sobre si, a Igreja não poderá
recuar no seu compromisso histórico com a construção de mundo mais fraterno, solidário, justo e
reconciliado. Não há como calar diante da vida ameaçada e destruída. Este compromisso está no
mais íntimo do DNA da Igreja e deve se manifestar no planejamento pastoral e se manifestar
como outra urgência. É claro que a Igreja sempre enfrentará reações por causa deste
compromisso. Uma das maiores é, sem dúvida, o ataque, em especial, via desmoralização. O
caminho não pode ser o do recuo, mas o da atenção ao telhado: em lugar do vidro, telhas mais
sólidas, ainda que através de um preço interno muito sofrido.

12. Quem vai fazer tudo isso?

Uma ação evangelizadora de caráter personalizador, capilarizante, solidário, atenta às


constantes mutações na realidade e apta a interagir com rapidez diante de uma mentalidade que
se constrói a partir de outras concepções de espaço e tempo, exige sensibilidade ainda maior para
a comunhão de carismas e ministérios. Exige, de um lado, a afirmação do ministério ordenado
como o animador dos carismas e da comunhão de carismas. Exige, de outro, a sensibilidade para,
na comunhão dos carismas, serviços e ministérios, fortalecer o laicato nas diversas frentes de
atuação.
O ministério ordenado tem, diante de si, o convite do Ano Sacerdotal, com tudo o que
este ano vem significando em termos de fidelidade de Cristo e fidelidade a Cristo.
Independentemente das explicações e enfoques que se possam dar a acontecimentos recentes, o
atual momento, tão mutante, tão acelerado, traz para a categoria de urgência o que temos
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chamado de pastoral presbiteral, o cuidado com aqueles que têm a tarefa de cuidar (cf. DGAE
95).
No que diz respeito aos chamados ministérios exercidos eclesialmente pelos batizados,
não discuto aqui a importância do laicato na transformação do mundo. Chamo a atenção para os
diversos ministérios intracomunitários, em virtude dos quais Aparecida bendiz a Deus (DA 99c).
Contamos com imenso número de pessoas generosas, dedicadas, mártires cotidianas e
silenciosas da ação evangelizadora. Não fosse esta vivência concreta do batismo, no serviço
dedicado à Evangelização, serviço vivido das mais diversas formas, não teríamos conseguido
muito do que conseguimos. A novidade trazida por este tempo de forte personalização e
capilarização é que precisamos intensificar e mesmo estabelecer alguns ministérios urgentes. São
ministérios ligados ao acolhimento e à missão. No campo do acolhimento personalizador, urge
catalisar os serviços ou ministérios de escuta, intercessão, acolhida ou outro qualquer nome que
possam ter. Muitos grupos e comunidades já fazem isso. É preciso acelerar a formação,
estabelecer critérios, partilhar experiências. Numa Igreja que se preocupa em recomeçar a partir
de Jesus Cristo, como não pensar em intensificar bem mais o ministério dos introdutores, como
indicado pelo RICA, ainda que sob diversas formas?
No campo da missão, por que não estimular ainda mais o que Aparecida chama de
animadores de comunidade e assembleia, aptos a chegarem lá onde, sem esta força de trabalho,
não se consegue chegar? (cf DGAE 173)
Em todo este processo, penso ser importante o ministério da Palavra (DA 99a.c, 205,
211, 248), entendido em sentido amplo, atuando no campo específico da pregação e das
celebrações (DA 253; DGAE 72), mas também na formação bíblica, como guias para a Leitura
Orante e em tudo mais que os senhores vão refletir no tema central desta Assembleia.

13. O que fica?

Ao terminar, peço desculpas aos senhores por repetir aspectos que todos conhecemos. Fiz
isso não apenas por acreditarque não bastam discursos para que uma realidade se transforme,
mas também por considerar que, em momentos de intensa mobilidade, é preciso focar a atenção
nos pontos principais.
Em tudo isso, os senhores perceberam que não apresentei novidade, pois, de fato, não se
trata de inventar a roda. Busquei apenas chamar a atenção para aquilo que, em meio a tanta
riqueza de nossa ação evangelizadora, deve merecer destaque. Por isso, usei exageradamente a
palavra urgência.
O fato é que as mudanças de época pedem um reconfigurar geral, reconfigurar nos
fundamentos. É claro que não se trata de colocar outro fundamento que não seja Jesus Cristo.
Trata-se de pensar nas bases históricas, socioculturais de nossa ação evangelizadora, chamada,
em nossos dias, a ser cada vez mais iniciática (apresentar e reapresentar continuamente Jesus
Cristo, e o Cristo da kénosis até a cruz), personalizadora, capilarizante, solidária e ministerial. Se
estas urgências forem na prática enfrentadas, poderemos efetivamente contribuir para o novo
ethos que precisa surgir.
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P ó s - mo d er n id a d e e P r o c l a ma ç ã o
Paulo Brabo

O comunismo saiu da arena principal e o islamismo ainda não tomou o seu lugar. Entre os
cristãos evangélicos o esporte do momento é atacar o pós-modernismo e tudo que aprendemos a
associar a ele: o relativismo (ou o desprezo pela ideia de uma verdade única e irrefutável),
o misticismo (ou a busca por uma espiritualidade irresponsável e nos lugares errados) e ainda o
seu ceticismo tolerante (a desconfiança da validade de qualquer fé em particular aliado a um
estranho respeito por todas).

1. Quem é o bicho e quantas cabeças ele tem

Quem fala em pós-modernidade está dividindo a história da civilização, muito


grosseiramente, em três grandes períodos: a era pré-moderna, a era moderna e a era dos nossos
dias – esta que, na falta de um nome melhor, convencionou-se chamar de “pós”.
A primeira era, a pré-modernidade, começou com o primeiro homem e estendeu-se a até
algum momento do século XVIII. Durante todo esse período o ser humano manteve-se,
basicamente, um bicho místico. A vida estava além do controle do homem e só podia ser
explicada em termos sobrenaturais. Em geral não ocorreria a ninguém duvidar da realidade do
mundo dos espíritos ou de coisa que o valha (digamos, o imaterial mundo das idéias de Platão), e
todas as soluções aos problemas do ser humano dependiam da boa vontade de Deus ou deuses.
Perto de 1700 a modernidade fincou pé. A Renascença deu a primeira, o Iluminismo a
segunda e definitiva estocada que tiraram Deus do centro das atenções e colocaram ali o homem
e os esforços humanos – particularmente a razão. A principal característica da era moderna é a
sua suprema confiança na mente humana. Gente como Descartes gravou a ferro e fogo na
mentalidade ocidental a noção de que a razão é o único caminho para o conhecimento, e toda a
era moderna partiu do pressuposto de que a razão e a ciência (aplicadas em todas as áreas: saúde,
política, urbanismo, ética) trariam as soluções necessárias para os problemas da humanidade. O
sensato slogan da nossa bandeira brasileira, “Ordem e Progresso”, é tipicamente moderno em seu
otimismo na iniciativa humana fundamentada no triunfo da sensatez e da razão.
Foi ao redor de 1960 que a maré começou a mudar. Coisas como a crise de energia, a
teoria da relatividade, a guerra do Vietnã, a bomba de Hiroshima e os abusos do consumismo
contribuíram para que as pessoas passassem gradualmente a concluir que a razão humana talvez
não trouxesse, como prometera, respostas para os anseios mais profundos do mundo e do
homem. Trezentos anos da supremacia da razão não haviam trazido nenhuma solução unânime
para os problemas da guerra, da fome, da injustiça, do vazio existencial. A razão, concluíram
esses, fracassara, e diferentes grupos independentes começaram a tatear em todas as direções em
busca de alternativas. A revolução sexual, mística e química trazidas à luz pelos hippies dos anos
60 foram os primeiros movimentos que pressupunham essa desconfiança pós-moderna para com
as soluções otimistas e pré-fabricadas da era anterior.
A pós-modernidade que se levantou das cinzas da modernidade é tremendamente difícil de
definir – entre outras coisas, porque definição é conceito tipicamente moderno e pertence a uma
era anterior. Pode-se dizer com segurança que o homem pós-moderno é ao mesmo tempo cético,
espiritual e tolerante. Ele duvida da eficácia da razão, do pensamento linear, da lógica
convencional, da explicação racional. Ele está portanto aberto a todas as formas de misticismo e
religiosidade, mas não apostará na validade definitiva de nenhuma, porque crê que todas contém
11

a sua parcela de “verdade” e nenhuma pode ter a pretensão de se posicionar como verdade
definitiva — possibilidade que arruinaria a validade e a beleza das outras alternativas.
A indomável mentalidade desta era pode ser mais facilmente compreendida se
considerarmos a forma de arte mais tipicamente pós-moderna: o videoclipe. Os primeiros vídeos
de música eram “modernos” no seu caráter linear — contavam “historinhas” com começo, meio
e fim. Mas logo os produtores de videoclipes adotaram uma linguagem mais radical, menos
linear e mais fragmentária. Um videoclipe é um amontoado de imagens que não necessariamente
contam uma história ou têm qualquer relação entre si; não têm uma “explicação”. Seu sistema é a
ausência de um sistema. A ideia é passar uma impressão, e não deixar alguma coisa
absolutamente clara.
Filme é coisa moderna. Videoclipe é cria pós-moderna.

2. A igreja e o bonde da pós-modernidade

Uma pergunta importante: por que que a igreja cristã não estava pronta e presente para
acolher esses “filhos desiludidos” da razão e da modernidade logo que eles começaram a pipocar
na década de 1960? Por que os hippies não se voltaram para a fé cristã quando precisaram
satisfazer o seu anseio por uma espiritualidade real?
A resposta curta é que a igreja cristã havia, ela mesma, se dobrado no altar do modernismo.
O discurso da supremacia da razão havia sido tão longo e eloqüente que até mesmo os cristãos
tinham caído no logro da sua pregação. A igreja cristã havia de alguma forma adotado a noção
paradoxal de que tudo a respeito da fé pode ser explicado e exposto racionalmente, inclusive as
imponderabilidades da criação e da salvação.
A própria Bíblia havia caído vítima dessa ênfase excessiva na razão humana. Complicadas
fórmulas eram e são utilizadas para provar que a escritura cristã faz sentido racional e é espelho
fiel da realidade científica. Em 1793, Kant publicava A religião apenas dentro dos limites da
razão, e quase duzentos anos depois Josh McDowell articulava ainda uma defesa racional da
divindade de Cristo, demonstrando por A + B que a fé cristã é a escolha mais sensata na
prateleira.
O problema é que, adotando essas interpretações racionais, a igreja confessava que a
ciência e o racionalismo são os critérios pelos quais a realidade deve ser julgada.
Quando começaram a buscar onde saciar a sua terrível sede pelo espiritual e pelo místico,
as pessoas foram forçadas a concluir que a fé cristã era simplesmente racional demais para
interessá-las — e a igreja perdeu assim o bonde da pós-modernidade.

3. A que posso comparar?… A Bíblia, Jesus e o fragmentário método pós -


moderno

Chamar a Bíblia de pós-moderna seria anacronismo, mas creio que pode-se com segurança
afirmar-se que os escritores bíblicos não tinham uma mentalidade moderna; não criam na
supremacia da razão nem na superioridade da exposição linear e dos sistemas racionais.
Jesus, por exemplo. Para escândalo e perplexidade dos teólogos, Jesus não chegou nem
perto de expor a sua teologia de forma sistemática. Tudo que ele deixou a fim de transmitir a sua
mensagem foi o seu exemplo, um punhado de histórias curtas e uma longa série de frases de
efeito, sendo que cada um desses elementos não parece sustentar qualquer conexão imediata com
os outros. Para seus ouvintes e leitores tudo que o discurso de Jesus deixou foi uma série livre de
imagens sem qualquer ordem ou prioridade particular: um videoclipe do reino, por assim dizer.
12

Jesus não fez uma série de conferências, não expôs as quatro leis espirituais, não definiu
predestinação nem trindade, não pregou teses na porta do Templo, não apresentou uma vez que
fosse o plano da salvação. Ao invés de apresentar um cenário racional e ordeiro, uma visão geral
seguida por definições, demonstrações e apêndices, tudo que ele fazia era coçar a barba e dizer:
“A que posso comparar o reino?…” Isso não impedia, naturalmente, que as pessoas saíssem dali
saltitando a sua conversão.
Os escritores bíblicos também não compartilhavam do nosso horror tipicamente
moderno/racionalista à contradição. O livro de Gênesis, por exemplo, parece narrar a criação de
duas formas contraditórias, e até a ascensão do modernismo isso nunca foi motivo de escândalo
para ninguém. É racionalista até mesmo o esforço tradicional em conciliar as duas versões.
Parece absurdo à mente moderna considerar que as duas possam ser ao mesmo tempo diferentes
e verdadeiras: isso seria na nossa opinião relativizar a verdade. Os escritores bíblicos
provavelmente chamariam a mesma coisa de transmitir uma profunda verdade espiritual.
Como não estava preso aos nossos escrúpulos com a racionalidade, Jesus sentia-se livre
para dizer coisas como “Eu sou a luz do mundo” sem temer ser apanhado em contradição com a
“verdade” científica de que a Terra é iluminada pelo sol e não por Jesus. Não é como se a
realidade espiritual contradissesse ou relativizasse a realidade científica da importância do sol.
Não há relativização aqui, embora as duas coisas sejam verdade ao mesmo tempo.
Ainda mais revelador é o fato de Jesus ter afirmado ser, ele mesmo, a Verdade com letra
maiúscula — tirando dessa forma para sempre a verdade do domínio da razão. Se a verdade é
uma pessoa ela não tem como ser comprovada ou refutada pelo método científico. Uma pessoa
pode ser no máximo abraçada e experimentada, nunca explicada racionalmente.
A Bíblia traz um convite para nos relacionarmos pessoalmente com a verdade, e não um
tratado para a comprendermos racionalmente. Coisas que têm, definitivamente, um sabor pós-
moderno.

4. A proclamação no idioma da pós -modernidade

Como pregar-se com um barulho desses? Como transmitir-se a verdade para quem não
acredita numa verdade definitiva?
Em primeiro lugar pode ser útil reconhecer que, como a Verdade que temos a transmitir é
uma Pessoa e não uma série sensata de proposições racionais, o cristianismo pode encontrar no
terreno da pós-modernidade uma tremenda vantagem. Podemos resgatar tranquilamente “a
insensatez do evangelho” e o “escândalo da cruz”, porque não precisamos mais fingir que a
razão e a verdade científica são as verdadeiras medidas da realidade. Jesus é muito mais luz do
mundo do que o sol jamais chegará a ser.
Quando bate o pé afirmando que não existe uma verdade definitiva, o homem pós-moderno
está falando basicamente de uma verdade racional. Uma verdade relacional tem tudo para
chamar a sua atenção. E ele certamente vai gostar de ouvir que a letra mata e o espírito vivifica.
Mas de que forma, você pode perguntar, se transmite uma verdade-pessoa? Isso, meu caro,
é problema seu. Ninguém sabe exatamente como, mas parece seguro que teremos de acabar
abrindo mão de todas as abordagens convencionais (todas elas racionalistas e “modernas”) de
evangelização.
Robert Nash Jr. faz uma série de generalizações a respeito da proclamação do Reino no
idioma da pós-modernidade:
• o desafio requer verdadeira espiritualidade;
13

• cruzadas evangelísticas e séries de conferências, como praticadas na maior parte das


igrejas, são relíquias antiquadas de uma visão de mundo “moderna” em declínio;
• o conceito racionalista e mercantilista de “plano da salvação”, desenhado para atingir-se
o maior número de pessoas no menor tempo do possível, está definitivamente
ultrapassado;
• ser cristão tem de ser mais do que evitar-se a punição do inferno;
• a igreja deve parar de fazer declarações proposicionais a respeito de Deus enquanto
ignora a necessidade que as pessoas têm de uma experiência com ele;
• os cristãos devem parar de “convidar as pessoas para ir à igreja” e começar a convidar as
pessoas a conhecerem Cristo através delas.
Acredito que, no fim das contas, a grande questão é se fazer presente e relevante para o
mundo. As palavras de ordem são disponibilidade e relevância. A cultura evangélica
convencional exige que o cristão se disponibilize incessantemente para a instituição; esse
ascetismo nos mantém à salvo da nossa missão e do contato com o mundo. Fomos convidados
para nos disponibilizarmos, mas para o mundo, não para uma rotina circular. As rodas de samba,
grupos de teatro, salas de aula, salas de chat, blogs, escolas de natação, vestiários, cursos de
vendas e cozinhas industriais precisam de gente-cristãos que façam diferença – menos por serem
diferentes das pessoas do que por fazerem diferença para as pessoas.
Hoje em dia faz mais sentido contar histórias do que expor argumentos infalíveis. Ir com o
amigo ao cinema ou a um pesque-pague do que abrir o livrinho com as quatro leis espirituais.
Silenciar e permanecer ao lado do que falar pelos cotovelos e sumir imediatamente da vida do
sujeito depois de desincumbir-se da tarefa de vender a nossa enciclopédia salvífica. Trata-se por
certo mais de trazer o Reino para perto das pessoas do que tentar arrastá-las para onde afirmamos
que o Reino está confinado.

A paróquia na mudança de época: uma rede de comunidades


na era da informação
Emerson Marcelo Ruiz

[Dissertação de mestrado na PUC-RJ defendida em março de 2015]

1. Os primeiros passos da paróquia (Infância)


 Etimologia de paróquia = peregrina (caminhante neste mundo, em tensão com todas as
épocas, rumo ao Reino dos Céus).
 At 2,42: ícone das primeiras comunidades = arquétipo paroquial.
 Séc. IV – Edito de Milão: nascimento da paróquia. Liberdade de culto forja novo cenário:
evangelizar as periferias do Império. Situada nos campos, presidida por um presbítero, com
relativa autonomia, subordinada ao bispo. Principais desafios: os oratórios, questões
administrativas, relação com o monaquismo, papel do presbítero, local de culto etc.
 Largos horizontes rurais de crescimento nos séculos seguintes (séc. VI-XI). Diferentes
tutelas sonegam-lhe, porém, a liberdade: reinos bárbaros (séc. VI/VII) – tempo das
devoções e superstições; Império Carolíngio (séc. VIII/X) – crescente ingerência régia
14

sobre o clero; poderes laicos (X/XI) - conflito das investiduras –ministério ordenado como
cargo civil de confiança do rei.

2. Adolescência

 Com o ressurgimento das cidades nos séc. XII-XIV.


 Concordata de Worms (1122): relativa liberdade das paróquias (sem ainda a energia de
Trento) – volatidade das regras.
 Permanece conflito das investiduras; maioria dos párocos não residentes nas paróquias;
disputa pelo dízimo (povo muito lesado); concubinato do clero; Papa humilhado no exílio de
Avignon; cisma do Ocidente.
 Do povo e do clero, paulatino anseio por maturidade eclesial. Na reforma gregoriana, nas
novas ordens mendicantes, nos pregadores, em alguns bispos e nas pequenas comunidades:
clamor por uma reforma in capite et membris.

3. Juventude

 Resistência de algumas comunidades: mecanismos e projetos de reforma levam ao


Concílio de Trento. Não isento de caos e ambiguidades.
 Trento calca sua reforma, sobretudo, na autoridade dos bispos, na formação de um novo
clero, em novos seminários, na padronização paroquial, nas novas irmandades, na
regulamentação do dízimo (como bem da Igreja, e não do Estado ou de grupos
particulares), na liturgia (reforma do culto e dos sacramentos) e no catecismo. Em Trento a
paróquia encontra sua juventude e identidade eclesial (não mais uma criança tutelada
pelos poderes civis).
 Energia da paróquia formatada em Trento: ultrapassa oceanos e séculos. Presença no
Novo Mundo, especialmente na América espanhola. Força impactante das confrarias
paroquiais.
 Nos séc. XVII-XVIII: tempos extraordinários de conversão e santidade nas paróquias.
Missões populares. Ampliação das devoções, sobretudo, a piedade eucarística (adoração,
procissões, uso do ostensório) e a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, chegando até os
nossos dias. Também: viva devoção mariana e culto aos santos (instituição do processo
oficial de beatificação e canonização).

4. Adultez

 Vaticano II: a Igreja em diálogo com o mundo. Desenho de uma paróquia renovada:
identidade ministerial, comunitária e missionária.
 Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano: novos desafios às paróquias.
Medellín: converter-se aos pobres e a uma estrutura mais despojada; Puebla: tornar-se
espaço articulador de pequenas comunidades (CEBs : paradigma de comunhão e
participação eclesial); Santo Domingo: empenhar-se na nova evangelização (expressão
“rede de comunidades” surge pela primeira vez); Aparecida: na “mudança de época”, ater-
se às exigências da pastoral urbana, na superação de estruturas ultrapassadas, aberta à
missionariedade dos discípulos, em contínua conversão.
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5. A atual mudança de época: a era da informação segundo Castells

 Ciências sociais a partir do Vaticano II: ferramenta no estudo dos sinais dos tempos.
 Teoria sociológica do espanhol Manuel Castells
o Nova estrutura social = a sociedade em rede (um conjunto de nós interconectados;
principais características: dinamicidade, abertura, geometria variável, assimetria,
capacidade de adaptação, inovação e descentralização; poder fluido e não hierárquico).
o Nova economia = o capitalismo informacional (a rede planetária de fluxos de capitais o
sobreativa; economia não mais baseada em formas rígidas de produção, mas no
mercado dinâmico e veloz; a rede é o mercado voraz, sem compaixão).
o Nova cultura = a virtualidade real (amplitude oceânica trazida pela integração das
mídias; interatividade simultânea; agregadas no mesmo sistema as modalidades escrita,
oral e audiovisual da comunicação humana; comunicação de massa transforma
expectadores em sujeitos não passivos, mas exigentes, ao poderem escolher entre várias
opções; comunidades virtuais; crise nos emissores tradicionais de cultura).
o Nova experiência espacial = a cidade informacional (crescente dissociação entre
proximidade territorial e atividades humanas básicas: estudos, trabalho, compras,
serviço público e religião).
 Em contrapartida, a busca da identidade e da vida em comunidade: indivíduos sentem-se
ameaçados pelo fluxo das mudanças. Pessoas tendem a reagrupar-se em torno de
identidades primárias: religiosas, étnicas, territoriais, nacionais. A violência das
transformações gera necessidade de segurança: agarrar-se a algo sólido num mundo
fluido. Numa cultura que insiste em ser a-histórica, a tradição parece tornar-se a fiança das
certezas. Força dos fundamentalismos. Num mundo rapidamente mutante, as pessoas
sentem-se mais seguras ao saber que algumas coisas são eternas. Será este o papel da
religião na mudança de época? Outros movimentos sociais se articulam também em
comunas, mas ao redor de outros valores, tais como opção sexual, defesa do meio
ambiente, manutenção de um território. São grupos sociais que se organizam em torno à
identidade de resistência. Há algo de religioso nisso? Para Castells grupos defensores da
própria identidade frente à fluidez social: atores principais na era da informação. Mas, não
bastará resistir. Urge reconfigurar a “identidade de resistência” em “identidade de projeto”.
Três formas de construção de identidades: a) identidade legitimadora (introduzida pelas
instituições dominantes); b) identidade de resistência (grupos que se sentem
marginalizados e cavam trincheiras) e c) identidade de projeto (nova identidade que propõe
uma nova articulação).
 As redes estão na política, nos movimentos sociais e em toda parte. Empresas, terroristas,
igrejas evangélicas, artigos científicos, produção de automóveis e de conhecimento,
protestos sociais... A lista é interminável e continua a ser escrita, simultaneamente, em
várias partes do globo. As redes são o novo modo de organizar (e desorganizar) o novo
mundo. Teoria de Castells suscita várias indagações, em torno ao desenho da paróquia na
era da informação:
- Pode a paróquia configurar-se em rede?
- Quais são as oportunidades oferecidas à paróquia na sociedade em rede?
- Como propor a fé para pessoas que sentem suas identidades ameaçadas?
- Qual o papel da paróquia na rede eclesial?
16

- A paróquia pode se converter numa rede de comunidades?


- Qual o papel da paróquia em um mundo alérgico às instituições?
- Como atender às demandas plurais dos fiéis?
- Quais os impactos da nova experiência espacial sobre a territorialidade paroquial?
- Em suma, qual é a identidade da paróquia na mudança de época?

6. A paróquia na atual mudança de época: muitas perguntas, algumas pistas

 Não se pretende aqui um protótipo paroquial nos moldes castellianos, mas oferecer muitas
perguntas e algumas pistas que a era da informação, na perspectiva de Castells, faz à
instituição paróquia.
 Primeiro passo na aclimatação da paróquia a este período histórico: a sua aceitação.
Nostalgia da fuga para o passado.
 Teoria das redes aplicada aos primeiros séculos da história eclesial: teia de conexões
semelhantes àquela de hoje. Aposta nas megacidades e nas pequenas comunidades,
formação de novas lideranças, emprego dos meios da comunicação disponíveis na época:
os meios empregados pelas primeiras comunidades se confundem com os conselhos de
Castells acerca da inovação.
 Três dimensões para paróquia na sociedade em rede: a paróquia na rede global, na rede
eclesial e na “rede de comunidades”. Cada instância traz suas implicações pastorais.
 No tema comunidade e sua relação com identidade, a pergunta:: as comunidades cristãs se
agregam em torno à identidade de projeto, legitimação ou resistência? O cenário atual não
responde de maneira unívoca ou definitiva. Depende de cada comunidade. Mas, segundo
Castells, os atores privilegiados da era da informação são as comunas agregadas ao redor
da identidade de resistência. Esta é a direção.
 Interatividade e comunidades virtuais: estas palavras tão atuais albergam exigências
evangélicas de acolhimento e cidadania eclesial.
 Quanto ao tema da territorialidade, central tanto na paróquia renovada como nos estudos de
Castells. Mudança de época não cancela a territorialidade, mas a relativiza. A pertença
comunitária e eclesial na era da informação não se dá mais por proximidade geográfica,
mas através da conexão interativa com distintos nós eclesiais, alguns fisicamente distantes,
mas virtualmente próximos.

7. Alguns desdobramentos conclusivos anteà urgência de renovação paroquial

 A paróquia, em sua grandeza e complexidade, não tem condições para realmente ser uma
comunidade em que os fiéis se encontram, se conhecem e cultivam vínculos pessoais. Não
se pode negar que muitas pessoas se encontram, se conhecem e têm laços belíssimos de
amizade. Entretanto, o grupo daqueles que estão à margem é enorme. Em que a nova mídia
eletrônica pode ajudar a minimizar essa dificuldade?
 Rede e paróquia são duas palavras de difícil articulação. A paróquia é territorial, as redes
são multidimensionais. A paróquia é hierárquica, as redes são anti-hierárquicas. A paróquia
tende à estabilidade, as redes são dinâmicas. A paróquia tende a fechar-se, as redes são
abertas. Diante de tudo isto, é possível sonhar com a paróquia rede de comunidades?
17

Acreditamos que não se trata de sonho, mas de sobrevivência. Suspeitamos que entidades
que não se aclimatarem à sociedade em rede terão a sua história ameaçada.
 Outra tarefa: abertura à globalização. Em Trento, aprendemos que a paróquia adquiriu
homogeneidade e foi implantado em todos os continentes. Contudo, hoje esta padronização
não existe mais. Quando Castells lida com um tema, ele não o estuda somente a partir de
sua configuração ocidental. Aborda o mesmo tema a partir da ótica de outras culturas. Isto
não poderia ser feito também em relação à paróquia? Em um mundo marcado pela
globalização, paróquias de diferentes países e continentes não podem aprender umas com
as outras? Pesquisas poderiam descrever paróquias de diferentes grupos e culturas. Por
exemplo: pesquisar como outras Igrejas cristãs organizaram sua vida comunitária. Ainda:
como o oriente ortodoxo organizou sua vida em comunidade? Isto não seria uma rede
globalizada de comunidades?
 Outra empreitada, a mais complexa: a questão da identidade> Qual a relação entre
identidade de protesto e a dimensão peregrina do católico?
 Em períodos passados, a teologia pastoral testemunhou certo desencanto com a paróquia.
Acreditava-se que a paróquia estava com os dias contados. Não havia muitos estudos.
Mesmo o magistério dedicava-lhe acanhada atenção, se comparada com a preocupação
hodierna. O renovado interesse que atualmente a paróquia desperta não ignora suas
múltiplas fragilidades, mas também não é indiferente à grandeza da sua vocação. Esta
pesquisa mostrou isto: a paróquia teve vigor em outras épocas para aclimatar-se. Diante
deste novo horizonte não será diferente.

Síntese do Documento 104 sobre a Renovação Paroquial (junho de 2014)


CNBB
Apresentação do texto de estudo

“Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado” (Mt 28,20).


O Primeiro Capítulo deste texto de estudo afirma a urgência de enraizar a Palavra de Deus na
experiência das comunidades cristãs. O Segundo Capítulo nos ajuda a compreender como, ao
longo da história, a comunidade paroquial se consolidou, com maior ou menor êxito, como
“Igreja Doméstica”, que deveria sempre zelar tanto pelo culto quanto pela comunhão, pelo
serviço, pelo testemunho e pelo anúncio da Boa-nova. O Terceiro Capítulo nos apresenta os
desafios atuais nascidos de uma mudança de época.
O Quarto Capítulo delineia alguns traços fundamentais da identidade de uma verdadeira
comunidade cristã. Recorda a necessária integração das diversas experiências de comunidade na
comunidade paroquial e no compromisso com o planejamento conjunto da ação pastoral.
Esperançoso de que tudo isso se torne realidade, e não apenas um sonho a se realizar compartilho
convosco os por menores deste estudo.

Introdução

O documento de Aparecida (370) diz que devemos “ultrapassar uma pastoral de mera
conservação para assumir uma pastoral decididamente missionária”. Para isso é preciso
transformar a estrutura da paróquia numa comunidade de comunidades, que representa um
18

retorno à raiz evangélica bem anterior à estrutura paroquial. Para transformarmos a paróquia em
comunidade de comunidades, o modelo é o próprio Jesus e a sua maneira de organizar a vida em
comunidade em vista do Reino de Deus.

Capitulo 1 - Perspectiva bíblica

Toda a comunidade cristã encontra sua inspiração naquelas comunidades que o próprio Jesus
Cristo fundou por meio dos apóstolos, na força do Espírito Santo.
Recuperar a comunidade. No antigo Israel, a comunidade, era a base social, ambiente concreto
de encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. No tempo de Jesus devido ao sistema da
religião imperial, a vida comunitária estava se desintegrando. Muitas pessoas ficavam sem ajuda
e sem defesa, como as viúvas, os órfãos, os pobres (cf. Mt 9,36).
A nova experiência de Deus: o Abbá. Jesus dizia: “Quem me viu, tem visto o Pai” (Jo 14,9). Ele
revelava um novo rosto de Deus sendo o portador da grande Boa- Nova para todos os seres
humanos, sobretudo para os pobres.
A missão do Messias. Jesus, quando batizado no rio Jordão (cf. Mc 1,9) tem revelada a sua
missão de ser o servo enviado de Deus: “Tu és o meu filho amado; em ti está o meu agrado” (Mc
1,11; Mt 3,16- 17; Lc 3,21- 22 e Is 42,1). A partir daquele momento, Jesus passou a se identificar
com a missão do servo de Deus, anunciado por Isaías: “Pois o Filho do Homem não veio para ser
servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45), “anunciar a boa- nova
aos pobres, proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar
liberdade aos oprimidos e proclamar um ano aceito da parte do Senhor” (Lc 4,18- 19). Por ter
sido fiel a essa missão, recebida do Pai, Jesus era amado pelos pobres, mas perseguido e
caluniado pelos poderosos que, por fim, decidiram matá-lo (cf. Mc 3,6).
A novidade do reino. Ao redor de Jesus, começou a nascer uma pequena comunidade (cf. Mc
1,16- 20; 3,14) em que:
a) Todos são irmãos (Mt 23,8);
b) Há igualdade entre homem e mulher (cf. Mt 19,7- 12). As mulheres “seguem” Jesus
desde a Galileia (cf. Mc 15,41; Lc 23,49); (Jo 4,26); (Mc 16,9- 10; Jo 20,17);
c) Há partilha dos bens; (cf. Mc 10,28; Mt 8,20). Havia uma caixa comum que era
partilhada, também, com os pobres (cf. Jo 13,29). Nas viagens o discípulo deveria
confiar no povo que o acolhesse e dependeria da partilha que receberia (cf. Lc 10,7);
d) Relacionam-se como amigos e não como empregados.(Jo 15,15);
e) O poder é exercido como serviço. (Lc 22,25- 26; Mc 10,44). Jesus deu o exemplo (cf.
Jo 13,15). “Não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por
muitos” (Mt 20,28);
f) É dado o poder de perdoar e reconciliar. Esse poder foi dado a Pedro (cf. Mt 16,19), aos
apóstolos (cf. Jo 20,23) e às comunidades (cf. Mt 18,18). O perdão de Deus passa pela
comunidade, que é lugar de perdão e de reconciliação e não de mútua condenação;
g) Faz-se a oração em comum. Eles iam juntos em romaria ao Templo (cf. Jo 2,13; 7,14;
10,22- 23), rezavam antes das refeições (cf. Mc 6,41; Lc 24,30). Em grupos menores,
Jesus se retirava com eles para rezar (cf. Lc 9,28; Mt 26,36- 37); h) se vive a Alegria.
(Lc 10,20; Lc 10,23- 24; Lc 6,20; Jo 16,20- 22).
Um novo estilo de vida comunitária. Jesus deu quatro recomendações para a vida comunitária
(cf. Lc 10,1- 9):
a) Hospitalidade. (cf. Lc 9,4; 10,5- 6; Mt 10,9- 10; Lc 10,5);
b) Partilha (Lc 10,7);
19

c) Comunhão de mesa (Lc 10,8; cf. Mt 23,15);


d) Acolhida aos excluídos. (cf. Lc 10,9; Mt 10,8).
Sendo essas recomendações atendidas, os discípulos poderiam proclamar: “O Reino chegou!”
(Lc 10,1- 12; 9,1- 6; Mc 6,7- 13; Mt 10,6- 16). O Reino implica uma nova maneira de viver e de
conviver, nascida da Boa-Nova que Jesus anunciou.
O novo modo de ser pastor. Jesus como o Bom Pastor (cf. Jo 10,11) acolhia o povo, sobretudo os
pobres (cf. Mc 6,34; Mt 11,28- 29). Seu agir revela um novo jeito de cuidar das pessoas. Jesus
recupera a dimensão caseira da fé. Entrou na casa de Pedro (cf. Mt 8,14), de Mateus (cf. Mt
9,10), de Zaqueu (cf. Lc 19,5). O povo procurava Jesus na sua casa (cf. Mt 9,28; Mc 1,33).
Quando ia a Jerusalém, Jesus parava em Betânia, na casa de Marta, Maria e Lázaro (cf. Jo 11,3).
Ao enviar os discípulos, deu-lhes a missão de entrar nas casas do povo e levar a paz (cf. Mt
10,12- 14). Jesus vai ao encontro das pessoas através da prática do acolhimento (Mt 11,28). Ele
tem um cuidado especial para com os doentes (cf. Mc 1,32), considerados como quem recebe um
castigo divino e, por isso eram afastados do convívio social, vivendo de esmola. Jesus toca- os
para curá-los tanto da doença como da exclusão. (Mc 1,45). Jesus não exclui ninguém. Oferece
um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. (Mt 21,31- 32; Lc 7,2- 10; Mt 8,2- 4;
Mc 1,32; Lc 18,9- 14; Mt 5,3).
O ensinamento novo. A pregação de Jesus era muito ligada ao cotidiano das pessoas. (cf. Mc
1,14- 15; Mc 2,13). O povo gostava de ouvi-lo, ficava admirado (cf. Mc 12,37). Por isso, o povo
percebeu “um ensinamento novo com autoridade” (Mc 1,27). Sua própria vida era o testemunho
eloquente do que ensinava.
A nova páscoa. O Reino de Deus, demonstrado na pregação, nos milagres e na comunhão com os
pobres, os doentes e os pecadores, provocou resistências no caminho de Jesus: (cf. Mc 8,31; cf.
Mt 27,31; Mc 14,64). Na hora da crucificação, os discípulos abandonaram Jesus e fugiram (cf.
Mc 14,50). Naquele momento do Gólgota, a pequena comunidade estava dispersa (cf. Mt 26,56).
Na manhã de Páscoa, a comunidade dos discípulos fez a experiência do encontro com Jesus
ressuscitado (cf. Lc 24,1- 8) que confere aos discípulos o dom da paz (cf. Jo 20,21). para o
perdão dos pecados (cf. Jo 20,22- 23). Na Páscoa de Jesus, a morte foi vencida (cf. Jo 3,36).
Pentecostes: o novo povo de Deus. Após a ressurreição, Jesus Cristo transmite aos apóstolos a
promessa do Pai, o Espírito Santo, que concede diversos carismas que acompanham o verdadeiro
anúncio evangélico e guia as decisões fundamentais da Igreja para ser uma comunidade
evangelizadora (cf. At 8,29- 39; At 5,28; At 13,2- 3). Aqueles que são conduzidos pelo Espírito
(cf. Rm 8,14) são filhos de Deus que realizam no cotidiano sua dignidade divina (cf. Rm 8,4). O
comportamento filial do cristão é fruto do Espírito (cf. 1Ts 2,11- 12; At 1,8).
A nova comunidade cristã. Nos Atos dos Apóstolos, Lucas propõe a inspiração para toda a
comunidade cristã, partindo de quatro colunas básicas:
a) O ensinamento dos apóstolos: (cf. 1Ts 2,13);
b) A comunhão: (cf. At 2,44- 45; 4,32; 34- 35). O ideal da comunhão era chegar a uma
partilha não só dos bens, mas também dos sentimentos e da experiência de vida, a uma
convivência que supere as barreiras (cf. Gl 3,28; Cl 3,11; 1Cor 12,13), a ponto de todos
se tornarem um só coração e uma só alma (cf. At 4,32; 1,14; 2,46);
c) A fração do pão (eucaristia): (cf. Jo 6,11). Lembrava o gesto que abriu os olhos dos
discípulos de Emaús (cf. Lc 24,30- 35). A fração do pão era feita nas casas (cf. At 2,46;
20,7);
d) As orações: (cf. At 5,12b), que fortaleciam na hora das perseguições (cf. At 4,23- 31).
Faziam como Jesus que, pela oração, enfrentava a tentação (cf. Mc 14,32).
20

A missão. As testemunhas pascais recebem o mandato missionário do próprio Senhor (cf. Rm


5,6- 8) e eram estimados por todo povo e a cada dia o Senhor acrescentava a seu número mais
pessoas que seriam salvas (cf. At 2,47). Os discípulos de Jesus são reconhecidos por viverem em
comunhão (cf. Jo 13,34). Assim, comunhão e missão estão profundamente unidas.
A nova esperança: a comunidade eterna. Assistida pelo Espírito de Jesus Cristo, a comunidade
cristã caminha rumo à Pátria Trinitária (cf. Fl 3,20). (cf. 2Pd 3,13). O mais antigo escrito no
Novo Testamento é a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses que convoca a
comunidade cristã a perseverar vigilante na vinda de Cristo para plenificar a história (cf. 1Ts
4,13- 18).
Essa expectativa é marcada por uma tensão entre o seguimento de Jesus Cristo no cotidiano e a
certeza de sua vinda na glória. Assim, a comunidade não vive no espiritualismo
descompromissado com a realidade nem atua no mundo sem a garantia de uma promessa que
transcende o tempo. Como filhos do dia, os cristãos não devem andar nas trevas, esperando o
grande dia do Senhor Jesus (cf. 1Ts 5,4- 7).
Cada comunidade cristã é testemunha e anunciadora dessa realidade futura, atualizando através
dos séculos a mensagem e a esperança de Cristo. A Igreja, esposa de Cristo, vive da certeza de
que um dia habitará na tenda divina, na casa da Trindade, numa Aliança nova e eterna com Deus
(cf. Ap 21,2- 5). A Igreja brota da Trindade e é nesta perspectiva trinitária que ela fundamenta
sua vida comunitária (1Cor 15,28; Ef 1,10).

Capitulo 2 - Perspectiva Teológica

Na base da experiência comunitária, proposta da experiência da “comunhão”. (Mc 3,14),


inspirada na própria Santíssima Trindade, a perfeita comunidade de amor.

2.1. Várias formas de organizar a igreja


A Igreja Doméstica. O Novo Testamento permite identificar os cristãos como peregrinos e, ao
mesmo tempo, os seguidores do caminho (cf. At 16,17). Assim a Igreja, comunidade de fiéis, é
integrada por estrangeiros (cf. Ef 2,19), pelos que estão de passagem (Cf. 1Pd 1,7) ou, ainda,
pelos imigrantes (cf. 1Pd 2,11) ou peregrinos (cf. Hb 11,13). Sempre indicando que o cristão não
está em sua pátria definitiva (cf. Hb 13,14), que deve se comportar como quem se encontra fora
da pátria (cf. 1Pd 1,17). A paróquia, desse modo, é uma “estação” onde se vive de forma
provisória, pois o cristão é caminheiro.
Ele segue o caminho da salvação (cf. At 16,17). As primeiras comunidades cristãs, entretanto,
não são conhecidas como paróquias. São Paulo prefere usar a expressão Igreja Doméstica sendo
que as casas serviam de local de acolhida dos fiéis para ouvir a Palavra, repartir o pão e viver a
caridade que Jesus ensinou.
No tempo das primeiras pregações do cristianismo, a civilização urbana se expandia e as cidades
promoviam uma revolução social e cultural. Paulo apóstolo funda, então, comunidades nas
cidades mais importantes do Império. Isso implica entrar na nova organização social que emergia
e, assim, modificava o estilo predominantemente rural de ser comunidade a partir da experiência
da Palestina.
Dessa forma, cresce uma rede de comunidades cristãs urbanas. Enquanto as comunidades do
cristianismo palestinense eram profundamente itinerantes, a proposta de Paulo passa para um
cristianismo que se fixa por um tempo maior, diferente da realidade rural que obrigava as
pessoas a migrarem sempre que havia seca ou findavam as pastagens para os rebanhos.
21

O surgimento das paróquias. Quando, em Roma, o cristianismo adquiriu a forma de uma


organização central, este começou a influenciar as Igrejas Domésticas. Com o crescimento do
número de cristãos as assembleias cristãs tornam- se cada vez mais numerosas e, por isso,
anônimas, com relações frias e distantes. A antiga relação igreja- casa se enfraquece e se faz a
introdução das paróquias territoriais.
A partir do século IV aparece, de um lado, a diocese e, de outro, a paróquia. As paróquias
surgiram, portanto, da expansão missionária da Igreja nos pequenos povoados que rodeavam as
cidades. Nascem de uma preocupação pastoral e missionária. Haverá paróquias grandes e
pequenas, de acordo com o tamanho das cidades. O Concílio de Trento, no ano de 1563, insistiu
que o pároco resida na paróquia. Estabeleceu os critérios de territorialidade da paróquia, modelo
que chegou até nossos dias.

2.2. A paróquia no Concílio Vaticano II


O Concílio Vaticano II não tem um documento ou uma parte específica sobre a paróquia,
contudo, apresenta uma chave de leitura muito importante: a Igreja Particular (Diocese). A
Igreja, que prolonga a missão de Jesus, há de ser compreendida primeiramente como comunhão,
pois sua raiz última é o mistério insondável do Pai que, por Cristo e no Espírito (experiência
comunitária a partir da comunidade perfeita do amor, a Trindade), quer que todos os homens e
todas as mulheres participem de sua vida de infinita e eterna comunhão, na liberdade e no amor,
vivendo como filhos e filhas, irmãos e irmãs.
A Igreja tem sua origem na Santíssima Trindade. Na história ela se espelha na comunhão
trinitária, e seu destino é a comunhão definitiva com o Deus Uno e Trino. Para realizar sua
missão, no mundo, a Igreja precisa de uma constituição estável, que há de ter por base a
“comunhão”, característica necessária a todas as formas de organização da vida eclesial.
A renovação paroquial na América Latina e no Caribe - É urgente a renovação das estruturas
paroquiais para que sejam redes de comunidades capazes de propiciar aos seus membros uma
real experiência de comunhão com Cristo. A “renovação das paróquias no início do terceiro
milênio exige a reformulação de suas estruturas para que seja uma rede de comunidades e grupos
capazes de se articular, conseguindo que os participantes se sintam realmente discípulos e
missionários de Jesus Cristo em comunhão”. A comunidade paroquial não pode ser uma
superestrutura formal e vazia, mas um todo orgânico que envolve os diversos aspectos da vida.
Por isso, independente das inúmeras dificuldades, é urgente que a paróquia se torne, cada vez
mais, comunidade de comunidades vivas e dinâmicas de discípulos missionários de Jesus Cristo.
A paróquia como casa. Atualmente, há falta de pertença e até de deserto espiritual que reclama
uma casa de acolhida em meio às dificuldades. A paróquia pode e deve ser essa casa, local onde
se ouve a convocação feita por Deus, em Cristo, para que todos sejam um e vivam como irmãos.
a grande família de Deus, a família dos que “ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc
8,21). Paróquia compreendida como casa significa a comunidade- igreja, construída por pedras
vivas (cf. 1Pd 2,5), e serve de inspiração para viver a unidade cristã.
Casa da Palavra. A paróquia é a casa da Palavra (cf. Jo 1,14). Como “casa da Palavra”, deve-se,
antes de tudo, dar atenção à Liturgia sagrada. - Casa do pão - A Igreja se nutre com o pão do
corpo de Cristo. A Eucaristia é fonte inesgotável da vocação cristã e do seu impulso missionário.
A partir da Eucaristia, cada paróquia chegará a concretizar, em sinais solidários, o seu
compromisso social pela prática da caridade. Deus fez a sua morada entre nós (cf. Jo 1,14),
nasceu em Belém, a “casa do pão” A comunidade cristã vive da Eucaristia, que une a
comunidade pelo Espírito Santo, em Cristo, para chegar ao Pai.
22

Casa da caridade (ágape). Na Palavra e na Eucaristia, o cristão vive a dimensão do amor como
ágape. Biblicamente, o vocábulo amizade se refere ao amor. O próprio Senhor disse que
“ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). A amizade
torna-se, então, expressão do ágape, o centro da charitas cristã. Essa amizade se traduz em
compaixão pelos que sofrem; assim, nasce a missão.
A paróquia hoje. A paróquia é um instrumento importante para a construção da identidade cristã.
É verdade que a origem da paróquia é marcada por um contexto cultural muito diferente do atual.
Por isso a paróquia está desafiada a se renovar diante das mudanças de nosso tempo. Em vista da
urgência de uma nova evangelização. Sendo instância de acolhimento, a paróquia é o espaço
para receber diferentes pessoas, com suas buscas e vivências, que pretendem seguir o caminho.
Enquanto espaço da comunidade o sentido da comunhão é indispensável. De igual modo, é
preciso reafirmar que, teologicamente, o fundamento da paróquia é ser uma comunidade
eucarística, que celebra a presença de Cristo Palavra e Eucaristia, estabelecendo os vínculos de
comunhão entre os seus fiéis e remete todos à missão de testemunhar na caridade a verdade
professada.

Capitulo 3 - Novos contextos: desafios à paróquia

O discípulo missionário sabe que, para efetivamente anunciar o Evangelho, deve conhecer a
realidade à sua volta e nela mergulhar com o olhar da fé, em atitude de discernimento.
Há muitos anos, a Igreja no Brasil intensifica seus esforços para que a paróquia supere os
entraves que a impedem de ser missionária. Há paróquias que continuam a concentrar suas
atividades principais na liturgia sacramental e nas devoções. Falta-lhes um plano pastoral e a
responsabilidade da comunidade concentram-se, exclusivamente, no pároco, não permitindo que
os leigos tomem decisões nem assumam compromissos.
Não há uma preocupação missionária Por outro lado, muitas comunidades e paróquias
desenvolvem uma liturgia viva e participativa; preocupam-se e atuam com os jovens; despertam
muitos serviços e ministérios entre os leigos; têm conselho pastoral e conselho de assuntos
econômicos. Nelas, os párocos e seus colaboradores, homens e mulheres, desenvolvem uma
pastoral de comunhão e participação. Considerando os três âmbitos da ação evangelizadora, é
importante identificar os aspectos da pessoa, da comunidade e da sociedade que importam na
renovação paroquial..

3.1. Desafios no âmbito da pessoa


A pessoa vive numa sociedade consumista que afeta sua identidade pessoal e sua liberdade.
Acentua-se o egoísmo que desenraiza o indivíduo da comunidade e da sociedade. A vivência da
fé, diante do individualismo, é exercida numa religiosidade não institucional e sem comunidade,
mais ligada aos interesses de cada pessoa. Isso afeta diretamente a dimensão comunitária da
paróquia. Torna-se difícil a vivência cristã quando a pessoa se recusa a se engajar na comunidade
ou quando espera apenas resultados imediatos da religião.
a) Intimismo religioso. Não é fácil pensar e viabilizar a paróquia como comunidade de
comunidades numa sociedade fragmentada e individualista. As experiências religiosas visam
ao sentimentalismo e ao bem-estar. Muitos vivem sua religiosidade frequentando templos sem
nenhuma ligação de fraternidade, e outros se conectam apenas pelas mídias. O que conta, para
muitas pessoas, é viver o aqui e o agora.
b) Mudanças na família. Muitos casais têm dificuldade de se unirem na fidelidade e no amor,
especialmente porque alguns apregoam que o mais importante é ser feliz sem pensar nos
23

demais: amor sem compromisso. Em nossas paróquias participam pessoas unidas sem o
vínculo sacramental, outras estão numa segunda união, e há aquelas que vivem sozinhas
sustentando os filhos. Outras configurações também aparecem, como avós que criam netos ou
tios que sustentam sobrinhos. Crianças são adotadas por pessoas solteiras ou por pessoas do
mesmo sexo que vivem em união estável. A Igreja, família de Cristo, precisa acolher com
amor todos os seus filhos. Sem esquecer os ensinamentos cristãos sobre a família, é preciso
usar de misericórdia. É hora de recordar que o Senhor não abandona ninguém e que, também,
a Igreja quer ser solidária nas dificuldades da família.

3.2. Desafios na comunidade


Há diversas concepções sobre o termo comunidade na cultura atual. Especialmente os jovens
preferem as comunidades virtuais para se relacionar. Essa realidade implica a revisão da ação
pastoral da paróquia. As comunidades primitivas viviam da experiência do encontro com Jesus
Cristo que determinava o estilo de vida da comunidade e acabava atraindo novos cristãos. Por
isso, o espaço físico não era o mais importante, mas, sim, a alegria dos irmãos por estarem
unidos na mesma experiência que determina o espaço da fé.
a) A nova territorialidade: do físico ao ambiental. Hoje, o território físico não é mais importante
que o território das relações sociais. O ser humano atual vive marcado pela mobilidade e pelo
dinamismo de suas relações. Assim a paróquia, sem prescindir do território, é muito mais o
local onde a pessoa vive sua fé, compartilhando com outras pessoas a mesma experiência. O
referencial mais importante é o sentido de pertença à comunidade e não tanto o território. Por
isso, alguém pode participar de uma paróquia que não seja a do bairro onde reside. Vive-se
numa sociedade onde as relações se estabelecem por afinidades e não por territorialidade. O
fato de não depender mais do território não diminui a importância do lugar da paróquia como
referencial de vivência comunitária da fé. É na comunidade que se constrói a identidade
comum e é lá onde crescem os vínculos de convivência. É um lugar de construção
comunitária da experiência cristã. Mas é necessário ampliar o conceito para não reduzi-lo a
um espaço demarcado e estabilizado. Mesmo situada, a paróquia ultrapassa suas fronteiras em
diversos sentidos.
b) Estruturas obsoletas na pastoral. A renovação paroquial exige novas formas de evangelizar
tanto o meio urbano como o rural. É urgente pensar novas estruturas pastorais, inclusive em
meios rurais, de modo que cuidem das pessoas na atual cultura. Há excesso de burocracia e
falta de acolhida em muitas secretarias paroquiais. A administração paroquial, muitas vezes,
reduz a função dos presbíteros a administradores da paróquia. Não basta multiplicar
ministérios para administrar os sacramentos. Nossas paróquias precisam urgentemente rever
questões, como: dar atendimento aos doentes, aos solitários, aos enlutados, aos deprimidos e
dependentes químicos. Para que isso aconteça é necessário o efetivo desenvolvimento dos
serviços e dos ministérios dos leigos. A evangelização depende muito de uma conversão
profunda das pessoas e das comunidades para Cristo, o que é obra da graça, em primeiro
lugar.
c) Entre o relativismo e o fundamentalismo. Relativismo e fundamentalismo são sintomas de
desenraizamento e fechamento em relação à comunidade. Não raras vezes entende-se a
comunidade mais como uma reunião de pessoas para realizar tarefas, compromissos ou
serviços religiosos, do que uma comunidade que vive um encontro pessoal com Jesus e se une
para uma conversão contínua. Para muitos, a paróquia é vista apenas como uma prestadora de
serviços religiosos, um lugar para viver uma espiritualidade sem compromisso ético ou
simples cumprimento de preceitos religiosos. O relativismo leva as pessoas a não
distinguirem mais o certo do errado, pois tudo é relativo ao entendimento de cada pessoa. Tal
24

realidade provoca o risco de perder o sentido do pecado e da necessidade do Sacramento da


Reconciliação. Por outro lado, cresce uma postura mais fundamentalista “que impede de
perceber o outro como diferente”.

3.3. Desafios da sociedade


Os índices de pobreza e miséria continuam a desafiar qualquer consciência tranquila. O
consumismo e o utilitarismo nas relações sociais deterioram as possibilidades de fraternidade
porque geram exclusão e reduzem o ser humano ao valor de mercado. Diminui o interesse pelo
bem comum e o compromisso solidário. Não raras vezes, os pobres são considerados supérfluos
e descartáveis. Para não perder sua essência, a fé cristã precisa ocupar-se da história, porque nela
se realiza a abertura do ser humano para a transcendência. Nesse encontro entre o visível e o
invisível, o humano encontra o sentido, a cura e a salvação de toda sua existência. Ainda que a
sociedade moderna seja prisioneira do consumismo e do utilitarismo, a Igreja há de se orientar
por valores baseados numa sociedade onde a civilização do amor encontre seu espaço e novas
oportunidades.
a) A sociedade pós-cristã. Há uma forte tendência no mundo de não se buscar mais o verdadeiro,
mas o desejável. Por isso, cresce uma cultura do imediatismo. Nessa sociedade de contrastes,
a paróquia, as comunidades e os cristãos precisam rever a forma como comunicam sua fé
publicamente.
b) O pluralismo cultural. Diferentes formas de viver e pensar convivem em nossa cultura. O
pluralismo nem sempre respeita o outro, e seu exagero pode gerar o indiferentismo. Alguns
fiéis católicos frequentam outros cultos e centros religiosos, buscando conforto para suas
dificuldades. A sociedade, em tempo de mudanças, é marcada pela instabilidade e pela
mobilidade. Diante das incertezas e da carência das condições de vida, procuram soluções
imediatas para os problemas do cotidiano.

3.4. A urgência da renovação paroquial


Aumentam as estatísticas daqueles que se declaram sem religião, embora tenham sido batizados
na Igreja. Está em crise o sentimento de pertença à comunidade e o engajamento na paróquia.
Afetivamente, há pessoas mais ligadas a expressões religiosas veiculadas por mídias católicas.
Efetivamente, preferem colaborar economicamente com as campanhas televisivas do que
participar do dízimo paroquial. Embora seja indispensável o trabalho de religiosos católicos nas
mídias, entra em questão o vínculo e o pertencimento que essa nova modalidade de viver a fé
possibilita.
Os desafios, portanto, são externos e internos à comunidade. De fora, sopram os ventos
contrários do individualismo, do relativismo, do fundamentalismo, do pluralismo e das
mudanças familiares. Internamente, somos desafiados a pôr em prática a conversão pastoral,
enfrentando o problema da territorialidade paroquial e da manutenção de estruturas obsoletas à
evangelização.

Capitulo 4 - Perspectivas Pastorais

É urgente que a paróquia se torne, cada vez mais, comunidade de comunidades vivas e dinâmicas
de discípulos missionários de Jesus Cristo.
A renovação paroquial depende da atenção dada ao princípio comunitário da fé. Agora passamos
a fazer uma reflexão pastoral com alguns indicativos para a urgente renovação das comunidades
paroquiais.
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4.1. Recuperar as bases da comunidade cristã


Nos Atos dos Apóstolos, pode ser visto o retrato da primeira comunidade cristã: eram
perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e
nas orações (cf. At 2,42). Há critérios para reconhecer uma comunidade seguidora de Jesus
Cristo: Trata-se do múnus profético, sacerdotal e real.
a) Múnus Sacerdotal: Viver da Palavra. A Palavra de Deus ilumina o compromisso com a rede
de comunidades e faz pulsar a vida do Espírito nas artérias da Igreja e em meio ao mundo.
Uma excelente pedagogia, para aprofundar a relação com a Palavra de Deus, encontra-se nos
passos da Leitura Orante da Bíblia: “a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de
oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem”. Outro desafio está na
preparação aos sacramentos. A catequese “tem de ser impregnada e embebida de pensamento,
espírito e atitudes bíblicas e evangélicas, mediante um contato assíduo com os próprios textos
sagrados”. Só haverá revitalização das comunidades com uma catequese centrada na Palavra
de Deus, expressão maior da animação bíblica da pastoral.
b) Múnus Sacerdotal: Viver da Eucaristia. A celebração da Eucaristia é o ponto alto das
primeiras comunidades cristãs, que celebram a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. A
Eucaristia é escola de vida cristã. Isso se realiza também com a adoração do Santíssimo
Sacramento que é o prolongamento da celebração eucarística. É importante ainda a
valorização do Sacramento da Reconciliação, a fim de que toda comunidade se converta
sempre mais ao seu Senhor e possa servi-lo melhor, especialmente no cuidado com os pobres.
Necessário valorizar mais o domingo, como o Dia do Senhor, em que a família cristã se
encontra com o Cristo. O domingo, para o cristão, é o dia da alegria, do repouso e da
solidariedade. Não haverá renovação paroquial sem redescobrir a beleza da fé que vence o
individualismo, impulsionando a comunidade a superar a mentalidade de viver uma
religiosidade sem compromisso eclesial.
c) Múnus real: Viver na caridade. A Igreja, expressão da Trindade, é a comunidade da caridade.
O amor ao próximo é um dever de toda a comunidade eclesial. “A prática da caridade e da
solidariedade exige de todos participação política e o reconhecimento de que a vida
econômico-social deve estar a serviço da pessoa humana”. As pessoas têm sede de vida e de
felicidade em Cristo. Isso requer voltar-se para aqueles que vivem em condições de
vulnerabilidade (situação de risco), abandonados em sua miséria e em sua dor. Toda paróquia
renovada, como rede de comunidades, há de proclamar que Jesus é o Senhor da Vida e que
traz a vida em abundância para todos (cf. Jo 10,10).

4 . 2 . A comunidade de comunidades
É o desafio lançado desde a conferência episcopal de Puebla e Santo Domingo e que agora o
documento de Aparecida enfatizou com mais veemência e vemos com mais evidencia nas
Diretrizes da Ação Evangelizadora que a paróquia para se tornar uma verdadeira comunidade de
comunidades tem de encarar com muita seriedade os desafios da nova evangelização com muita
criatividade, respeito mutuo, a sensibilidade para o momento histórico e a capacidade de agir
com rapidez
a) A setorização da paróquia. A grande comunidade, praticamente impossibilitada de manter os
vínculos humanos e sociais entre todos, pode ser setorizada em grupos menores que
favoreçam uma nova forma de partilhar a vida cristã. A setorização é um meio. Não basta
uma demarcação de territórios, é preciso identificar quem vai pastorear, animar e coordenar
esses setores, pequenas comunidades. Sem essa preparação, a simples setorização não renova
a vida paroquial. Diversas experiências de setorização das paróquias já ocorrem em todo o
Brasil. Na maioria delas, a região pastoral é dividida em pequenos grupos que podem se
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conhecer e se visitar. Em cada grupo, escolhem-se lideranças que animem e façam suscitar
novos agentes da comunidade. A formação das lideranças e o apoio da paróquia a essas
comunidades são imprescindíveis. Nessa instância, podem ser desenvolvidos muitos serviços
e ministérios: o cuidado aos doentes, a visita aos migrantes, a catequese, a celebração da
Palavra, o acompanhamento dos enlutados, a devoção mariana, a preocupação com os pobres,
a preparação para Natal e a Páscoa, a preparação ao Sacramento do Batismo, a Leitura Orante
da Bíblia, a celebração dos aniversários e as confraternizações.
b) Revitalização da comunidade. A revitalização das comunidades, com a renovação paroquial,
implica muito mais do que a setorização e a integração das comunidades, dos movimentos e
dos grupos. Será preciso uma verdadeira conversão pastoral de todos. A revitalização exige,
também, que as pessoas tenham a alegria de se reunirem em torno da Palavra de Deus,
especialmente com a Leitura Orante da Bíblia, para que a Palavra determine a caminhada do
pequeno grupo. A vida das pequenas comunidades, revitalizadas pela Palavra e alimentadas
pela Eucaristia, será o primado do ser sobre o fazer.
A conversão pastoral depende de uma conversão pessoal a Cristo. Só assim será possível
ultrapassar uma pastoral de mera conservação ou manutenção, para assumir uma pastoral
decididamente missionária; Para que essa realidade aconteça, os bispos, os presbíteros e todo o
Povo de Deus precisam assumir sua responsabilidade na revitalização das comunidades.
a) Conversão dos ministros da comunidade. A renovação paroquial depende de um renovado
amor à pastoral que os padres podem e devem exercer como expressão da sua própria
existência sacerdotal. Os Bispos serão os primeiros a fomentar, em toda Diocese, essa
revitalização das comunidades que contribui para a renovação paroquial. Eles são chamados a
estimular e apoiar a revitalização das comunidades de suas Dioceses. Eles são os primeiros
responsáveis para desencadear o processo da renovação das paróquias, especialmente na
missão em direção aos afastados. Os presbíteros, sobretudo o pároco, serão os agentes da
revitalização das comunidades. A renovação paroquial requer novas atitudes dos párocos e
dos padres que atuam nas comunidades. Em primeiro lugar, o pároco precisa ser um homem
de Deus que fez e faz uma profunda experiência de encontro com Jesus Cristo. A
revitalização da comunidade supõe que o pároco estimule a participação ativa dos leigos de
sua paróquia. Caberá também ao pároco reconhecer as novas lideranças e multiplicar o
número de pessoas que realizam os diferentes ministérios nas comunidades. Não raras vezes,
quando ocorre a transferência do pároco, tudo é mudado na comunidade. A conversão
pastoral, ao permitir maior participação do leigo, há de superar esse sério problema,
respeitando o plano de pastoral paroquial em sintonia com o plano diocesano de pastoral.
b) Protagonismo dos cristãos leigos. A conversão pastoral da paróquia em comunidade de
comunidades supõe o protagonismo dos leigos. O empenho para que haja a participação de
todos nos destinos da comunidade supõe reconhecer a diversidade de carismas, de serviços e
de ministérios dos leigos.

4 . 3 . Transformar as estruturas
A conversão pastoral supõe considerar a importância dos processos participativos de todos os
membros da comunidade. Para desencadear essa participação, é preciso estimular o
funcionamento dos conselhos comunitários e paroquiais de pastoral, bem como a assembleia
paroquial. Igualmente, o conselho de assuntos econômicos da paróquia é determinante para o
bom funcionamento e planejamento financeiro da comunidade. Integrado ao conselho paroquial
de pastoral, o conselho de assuntos econômicos saberá planejar o investimento de recursos nas
urgências e não apenas nos recursos materiais da comunidade. Não pode haver dissonância entre
o conselho paroquial de pastoral e o de assuntos econômicos. Para isso, o conselho paroquial de
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pastoral será formado por discípulos missionários. O conselho de assuntos econômicos, junto
com toda a comunidade paroquial, trabalhará para obter os recursos necessários de maneira que a
missão avance e se faça realidade em todos os ambientes. Para tanto, é urgente superar a
mentalidade que prioriza construções e obras materiais e abdica de investir na formação das
pessoas. Os leigos precisam ser apoiados, em suas comunidades, seja para a realização de cursos
e encontros, seja para manter a unidade com a Diocese, seja para aprofundar o conhecimento de
seu serviço e de pastoral. A questão da manutenção também exige novas posturas. Comunidades
e paróquias sentem o peso econômico para o sustento das estruturas pastorais. Será preciso
desenvolver fundos de solidariedade entre as paróquias e as comunidades da Diocese. Paróquias
mais antigas e estáveis economicamente têm o dever missionário de partilhar seus recursos, para
que outras comunidades possam crescer e se estabelecer. Não se trata apenas de uma partilha
esporádica, mas de uma forma organizada de ajuda mútua entre as comunidades da mesma
paróquia e entre as paróquias da Diocese. .

4.4. A transmissão da fé: novas linguagens


É também importante promover uma comunicação mais direta e objetiva, principalmente, nas
homilias alicerçadas na Palavra de Deus e na vida. Isso implica cuidar do conteúdo e das técnicas
de comunicação. Comunidade missionária é comunidade acolhedora. Diante do grande número
de batizados afastados da vida comunitária, urge exercer melhor a acolhida, dialogando e
propondo caminhos para aqueles que se sentem distanciados do caminho. Muita gente procura os
sacramentos, mas vive afastada da comunidade. Essa é uma importante oportunidade de
aproximar os afastados.

4.5. Proposições
Os Bispos, em 2012, falando sobre a Nova Evangelização, alertou que os novos contextos não
implicam inventar novas estratégias para apresentar rmelhor o Evangelho, como se fosse um
novo produto. Muito mais que isso, se trata da importante tarefa de promover o encontro das
pessoas com Jesus Cristo, paraque renovem sua fé e acolham sua proposta de vida.
a) Criatividade. Usar a criatividade para atender melhor as pessoas que vivem em diferentes
ritmos da vida diária. Adaptar-se aos horários do movimento urbano: missas ao meio-dia,
atendimento do padre à noite, catequese de crianças e adultos em horários alternativos,
especialmente nas grandes cidades. Valorizar a beleza e a simplicidade dos espaços da
comunidade, pois o ser humano vive marcado pela cultura do belo. Oferecer espaços para a
meditação, a adoração ao Santíssimo, a oração pessoal. Criar clima favorável e tempos
propícios para quem procura as comunidades cristãs.
b) Pequenas comunidades. Procurar criar novas comunidades a partir de grupos que se reúnem
para viver a sua fé, alimentar sua espiritualidade e crescer na convivência. A setorização pode
ser estabelecida pela vizinhança do bairro ou pelos moradores de condomínios, mas também
por afinidades sem delimitação territorial, como jovens, universitários, idosos, casais, etc. O
importante é criar comunidades com pessoas que se integrem para melhor viver a fé cristã.
c) Ministérios leigos. Para que as comunidades possam ser bem atendidas aos leigos podem ser
confiados ministérios e responsabilidades “para prestar auxílio a toda a iniciativa apostólica e
missionária da sua comunidade eclesial”. Destaque especial deve ser dado ao ministério da
Palavra, por meio do qual homens e mulheres tornam-se autênticos animadores de
comunidades. Para cumprir sua missão, eles precisam estar bem preparados, isto é, terem
sólida formação doutrinal, pastoral e espiritual. Os melhores esforços das paróquias precisam
estar voltados à convocação e a formação dos leigos das comunidades.
28

d) Formação. A renovação da paróquia e das comunidades depende de agentes de pastoral


preparados para essa nova mentalidade. É necessário reforçar uma clara e decidida opção pela
formação de todos os membros das comunidades. Hoje, é indispensável a interação na qual a
pessoa não é apenas informada, mas aprende a formar-se junto com os outros. Métodos,
pedagogias interativas e participativas precisam ser desenvolvidos entre as lideranças cristãs,
para que promovam a participação na comunidade. Essas metodologias devem considerar
especialmente a prática das comunidades e as experiências de vida das pessoas, formando a
consciência sobre o valor da vida comunitária para a fé cristã.
e) Catequese de Iniciação à vida cristã. Para que as comunidades sejam renovadas, a catequese
deve ser uma prioridade. A catequese, como iniciação à vida cristã, ainda é desconhecida em
muitas comunidades. Trata-se de passar da catequese como instrução e adotar a metodologia
catecumenal, conforme a orientação do Ritual da iniciação cristã de adultos (RICA) e do
Diretório Nacional da Catequese. Isso implica em rever os processos de catequese das
crianças, dos adolescentes, dos jovens e dos adultos. É indispensável seguir as etapas do
RICA.
f) Jovens. A paróquia precisa ter abertura para a presença e a atuação dos jovens na vida das
comunidades. Tal atitude exige fazer uma opção afetiva e efetiva pela juventude,
considerando suas potencialidades. Para isso, é importante garantir espaços adequados para
ela nas paróquias, com atividades, metodologias e linguagens próprias, assegurando o
envolvimento e a participação dos jovens nas comunidades.
g) Liturgia. Propiciar que a celebração eucarística seja compreendida como um real encontro de
Cristo com sua comunidade reunida. Cuidar da beleza da liturgia significa ficar atento aos
cânticos, aos símbolos e aos ritos dos sacramentos. As celebrações litúrgicas favoreçam a
linguagem do Mistério, o que implica não exceder nas falas, explicações e comentários. Tal
função da liturgia haverá de se dar pela escuta da Palavra de Deus. Especial importância
adquire a homilia centrada nas leituras da Bíblia, proclamada na celebração e comprometida
com a realidade. Ela precisa ser breve e capaz de falar com a linguagem dos homens e das
mulheres da cultura atual. Pela homilia, a comunidade é levada a descobrir a presença e a
eficácia da Palavra de Deus em sua vida. Quem recebe a missão de pregar evite discursos
genéricos e abstratos, que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus, ou divagações inúteis
que ameaçam atrair a atenção mais para o pregador do que para a mensagem evangélica. Isso
implica preparar a homilia com meditação e oração, a fim de pregar com convicção e
paixão.A valorização da piedade popular nas comunidades é importante. O Papa Bento XVI
estimulou-nos a promovê-la e a protegê-la. Entretanto, é preciso aprofundar as devoções para
que conduzam à experiência do mistério pascal, na centralidade de Jesus Cristo, numa
vivência religiosa integrada na Igreja. Muitas devoções podem ficar reduzidas a
manifestações de religiosidade com pouco ou nenhum vínculo eclesial. Nas pequenas
comunidades, há muito espaço para viver criativamente a piedade popular: a devoção à
Virgem Maria, as novenas, os círculos bíblicos, as preparações para o Natal e à Páscoa e as
Vias-Sacras são exemplos da riqueza que pode ser aproveitada na vida das pequenas
comunidades; são atividades que podem ser coordenadas por leigos e leigas.
h) A caridade. A comunidade cristã há de marcar sua presença pública no serviço em favor e no
cuidado da vida. A paróquia evangeliza através do exercício da caridade. Sem dispensar as
muitas iniciativas já existentes na prática da caridade, as paróquias devem cuidar para acolher
fraternalmente a todos, especialmente aqueles que estão caídos na beira do caminho.
Dependentes químicos, migrantes, desempregados, dementes, moradores de rua, sem-terra,
doentes e idosos abandonados são alguns rostos que clamam para que a comunidade lhes
apresente, concretamente, as atitudes do Bom Samaritano. Valorizar a família, santuário da
29

vida, os grupos de casais que se apoiam mutuamente, promovendo encontros entre as


famílias, são exemplos de iniciativas para conscientizar as pessoas sobre a importância da
família na vida de cada um. Acolher, orientar e incluir nas comunidades aqueles que vivem
numa outra configuração familiar são os desafios do presente.
i) Perdão e Acolhida. A acolhida é uma atitude que toda comunidade renovada há de cultivar.
Acolher melhor é uma tarefa urgente de todas as comunidades paroquiais, especialmente nas
secretarias, superando a burocracia, a frieza, a impessoalidade e estabelecendo relações mais
personalizadas. Muitas pessoas procuram a Igreja nos momentos difíceis. A comunidade
cristã precisa acolhê-las com carinho para superar os desafios que despersonalizam o cidadão.
Disso decorre a necessidade de oferecer, com maior frequência, o Sacramento da
Reconciliação aos fiéis. Assim, as conversões e as mudanças de vida serão acompanhadas
pela graça sacramental. O atendimento individualizado oportunizará um acompanhamento
espiritual e uma orientação para a vida em comunidade. Daí a necessidade de ampliar os
espaços e tempos do padre para atender mais às pessoas que buscam a comunidade. Essa
missão depende da urgente alteração da agenda do pároco que pode delegar funções
administrativas para leigos. Igualmente, é importante cuidar da pastoral da acolhida, da escuta
e do aconselhamento. O que implicará preparar pessoas leigas e consagradas que tenham o
dom de escutar para acolher aqueles que procuram a comunidade. O aconselhamento pastoral
com pessoas habilitadas é uma urgência nas paróquias.É urgente pensar em atrair aqueles que
se afastaram da comunidade ou os que a concebem apenas como uma referência para serviços
religiosos. Ocasião especial para acolher os afastados pode ser: a iniciação à vida cristã dos
adultos; a preparação de pais e de padrinhos para o batismo de seus filhos; a preparação de
noivos para o Sacramento do Matrimônio; as exéquias; e a formação de pais de crianças e de
jovens da catequese. Há também a necessidade de dialogar com as pessoas que se interrogam
sobre Deus e sobre o sentido da vida. Isso implica abrir instâncias de diálogo com a cultura
atual.

Considerações finais

Jesus Cristo é nossa razão de ser, origem de nosso agir, motivo de nosso pensar e sentir. Nele,
com ele e a partir dele mergulhamos no mistério trinitário, construindo nossa vida pessoal e
comunitária
(236) A paróquia é a grande escola da fé, da oração, dos valores e dos costumes cristãos. Nela
vive a Igreja reunida em torno do Senhor. Ela existe para unir os cristãos ao seu Senhor e atrair
muitos outros para essa grande família de Deus, a Igreja: sacramento da salvação. Afinal, a
paróquia continua sendo uma referência importante para o povo cristão, inclusive para os não
praticantes. Ela pode se tornar um farol sempre mais luminoso, especialmente em tempos de
incertezas e inseguranças. Na paróquia, cada pessoa deveria ter a possibilidade de fazer o
encontro com Jesus Cristo e integrar-se na comunidade dos seus seguidores.
(237) A paróquia, contudo, precisa de uma renovação urgente. As mudanças da realidade
clamam por uma nova organização, especialmente articulada em pequenas comunidades, capazes
de estabelecer vínculos entre as pessoas que convivem na mesma fé. Entretanto, mesmo
setorizada, a paróquia depende de uma nova evangelização, de uma ousadia missionária capaz de
fortalecer o testemunho e estimular o anúncio. Isso implica renovar o ministério do pároco,
pastor e animador do povo que lhe foi confiado. Ele precisa promover a participação dos leigos
na vida e nas decisões da comunidade. Sugere, também, que se favoreçam os ministérios e os
serviços na comunidade.
30

(238) A paróquia como comunidade de comunidades, precisa integrar as comunidades religiosas,


as associações religiosas, as CEBs, os movimentos, as pastorais sociais, as novas comunidades
de vida e de aliança, os hospitais, as escolas e as universidades, além das comunidades
ambientais. Para que todos vivam na pluralidade da experiência de fé, na diversidade de carismas
e de dons, a unidade indispensável à vida cristã. Os dois grandes desafios que se impõem são
acolher essas múltiplas formas de vida cristã como uma riqueza de dons que o Espírito Santo
oferece à Igreja e manter unidos os diferentes grupos, para que, em tudo, a caridade de Cristo
seja testemunhada publicamente.
(239) Finalmente, é preciso olhar para o futuro da paróquia, como comunidade de comunidades,
com esperança de vencer o vazio e o deserto de muitas pessoas. A crise de valores é notável. E,
apesar de o Brasil ter muita expressão de religiosidade, também aqui se percebe o quanto a fé
não decide mais os destinos da vida social e da pessoal. Vive-se um tempo de buscas, mas com
base em decisões privadas de referências da fé.
(240) Confiando na ação do Espírito Santo, as paróquias têm condições de compreender que esse
é o tempo oportuno para uma nova evangelização. Há muita sede e, em Cristo, há a água que
sacia toda sede humana. Compete a elas, como rede de comunidades, facilitar o acesso a essa
Água Viva. Feliz a comunidade que é um poço dessa Água Viva, do qual todos podem se
aproximar para saciar sua sede.
(241) Como no tempo dos apóstolos, a Mãe da Igreja permanece unida a todos aqueles que
perseveram na comunhão fraterna, na fração do pão e na oração, suplicando que o Espírito Santo
conduza os caminhos da nova evangelização. Sob o olhar da Mãe de Deus, a Senhora Aparecida,
a Igreja no Brasil renova a sua esperança de cumprir a vontade do Pai, na fidelidade a Jesus
Cristo e na força do Espírito Santo, para que nossas paróquias sejam, de fato, comunidade de
comunidades.
(242) Acreditando que para Deus nada é impossível, é importante vencer o pessimismo da
situação. Ele mesmo renova todas as coisas. É hora de renovarmos as paróquias para que se
organizem em comunidades e favoreçam as multiformes manifestações da vida cristã. Uma nova
realidade implica um novo entusiasmo por Deus e por seu Reino, isto é, uma nova
evangelização, alinhada com a renovação espiritual e a conversão pastoral. Somos uma Igreja em
caminho que sabe onde deve aportar: a Santíssima Trindade, onde Deus será tudo em todos (cf.
1Cor 15,28).

Vinte e quatro “puxões de orelha” de Amoris Laetitia


aos pastores da Igreja
Compilação de Bruno Franguelli, sj e Bruno Torres, sj

1. Quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser
resolvidas através de intervenções magisteriais. [3]
2. Devemos ser humildes e realistas, para reconhecer que às vezes a nossa maneira de
apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar
aquilo de que hoje nos lamentamos, pelo que nos convém uma salutar reação de autocrítica.
Além disso, muitas vezes apresentamos de tal maneira o matrimônio que o seu fim unitivo, o
31

convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua ficaram ofuscados por uma ênfase quase
exclusiva no dever da procriação. Também não fizemos um bom acompanhamento dos
jovens casais nos seus primeiros anos, com propostas adaptadas aos seus horários, às suas
linguagens, às suas preocupações mais concretas. Outras vezes, apresentamos um ideal
teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da
situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva
idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, não fez com que o
matrimônio fosse mais desejável e atraente, muito pelo contrário. [36]
3. Durante muito tempo pensamos que, com a simples insistência em questões doutrinais,
bioéticas e morais, sem motivar a abertura para a graça, já apoiávamos suficientemente as
famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas
compartilhadas. Temos dificuldade em apresentar o matrimônio mais como um caminho
dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira. [37]
4. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las. [37]
5. Muitas vezes agimos na defensiva e gastamos as energias pastorais multiplicando os ataques
ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade.
[38]
6. Nas situações difíceis em que vivem as pessoas mais necessitadas, a Igreja deve ter um
cuidado especial em compreender, consolar e integrar, evitando impor-lhes um conjunto de
normas como se fossem uma pedra, tendo como resultado fazê-las sentir-se julgadas e
abandonadas precisamente por aquela Mãe que é chamada a levar-lhes a misericórdia de
Deus. Assim, em vez de oferecer a força curadora da graça e da luz do Evangelho, alguns
querem “doutrinar” o Evangelho, transformá-lo em “pedras mortas” para as jogar contra os
outros. [49]
7. São Paulo exprime-se em categorias culturais próprias daquela época (cf. Ef 5,22:
“Mulheres, sejam submissas aos seus maridos!”); nós não devemos assumir esta roupagem
cultural, mas a mensagem revelada que subjaz ao conjunto da perícope. [156]
8. 8. A fé não nos tira do mundo, mas insere-nos mais profundamente nele. [181]
9. Quem se abeira do Corpo e do Sangue de Cristo não pode ao mesmo tempo ofender aquele
mesmo Corpo, fazendo divisões e discriminações escandalosas entre os seus membros. [186]
10. Não se deve esquecer que “a mística do sacramento tem um caráter social” (Bento XVI).
Quando os comungantes se mostram relutantes em deixar-se impelir a um compromisso a
favor dos pobres e atribulados ou consentem diferentes formas de divisão, desprezo e
injustiça, recebem indignamente a Eucaristia. [186]
11. Lembro o Dia dos namorados, que, em alguns países, é melhor aproveitado pelos
comerciantes do que pela criatividade dos pastores. [208]
12. Hoje, a pastoral familiar deve ser fundamentalmente missionária, em saída, por
aproximação, em vez de reduzir a ser uma fábrica de cursos a que poucos assistem. [230]
13. [O matrimônio cristão, reflexo da união entre Cristo e a sua Igreja, realiza-se plenamente na
união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor exclusivo
e livre fidelidade, se pertencem até à morte e abrem à transmissão da vida, consagrados pelo
sacramento que lhes confere a graça para se constituírem como igreja doméstica e serem
fermento de vida nova para a sociedade. Algumas formas de união contradizem
radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e
analógica]. Os Padres sinodais afirmaram que a Igreja não deixa de valorizar os elementos
32

constitutivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua
doutrina sobre o matrimônio. [292]
14. Temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é
necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa de sua
condição. [296]
15. Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho! Não
me refiro só aos divorciados que vivem numa segunda união, mas a todos, seja qual for a
situação em que se encontrem. [297]
16. Não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada “irregular” vivem em
estado de pecado mortal, privados da graça santificante. [301]
17. Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em
situações “irregulares”, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas. É o
caso dos corações fechados, que muitas vezes se escondem até por detrás dos ensinamentos
da Igreja para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e
superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas. [305]
18. Em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos. Por isso, aos sacerdotes,
lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da
misericórdia do Senhor. E de igual modo assinalo que a Eucaristia não é um prêmio para os
perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. [Nota 351]
19. Lembremo-nos de que um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser
mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias
sem enfrentar sérias dificuldades. [305]
20. Compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar à confusão
alguma, mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o
Espírito derrama no meio da fragilidade: uma Mãe que, ao mesmo tempo que expressa
claramente a sua doutrina objetiva, não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de
sujar-se com a lama da estrada. [308]
21. Os pastores, que propõem aos fiéis o ideal pleno do Evangelho e a doutrina da Igreja, devem
ajudá-los também a assumir a lógica da compaixão pelas pessoas frágeis e evitar
perseguições ou juízos demasiado duros e impacientes. O próprio Evangelho exige que não
julguemos nem condenemos (cf. Mt 7,1; Lc 6,37). Jesus “espera que renunciemos a procurar
aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do
drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta
dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre
maravilhosamente” (Evangelii Gaudium 270). [308]
22. Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos
tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e
esta é a pior maneira de aguar o Evangelho. [311]
23. Por isso, convém sempre considerar “inadequada qualquer concepção teológica que, em
última instância, ponha em dúvida a própria onipotência de Deus e, especialmente, a sua
misericórdia” (Comissão Teológica Internacional 2007). [311]
24. Convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no
coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver
melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja. [312]
33

Paróquia e iniciação cristã catecumenal:


a interdependência entre renovação paroquial e mistagogia catecumenal
João Fernandes Reinert

Tudo indica que o presente e o futuro do catecumenato dependem de um novo rosto


estrutural paroquial. Um novo perfil paroquial é condição necessária para que o projeto de
iniciação catecumenal seja levado a cabo. Neste artigo, pretendemos dialogar e refletir sobre
duas instituições fundamentais da Igreja: a paróquia e a iniciação cristã catecumenal. Ambas
representam os maiores desafios pastorais da atualidade: a transmissão da fé às novas e futuras
gerações e as estruturas eclesiais nas quais esta fé é transmitida e vivenciada.
A Igreja vem se empenhando nos últimos anos para responder a tais desafios. Redescobriu
na mistagogia catecumenal o privilegiado caminho pastoral para iniciar na fé, e, no tocante à
renovação das estruturas eclesiais, ganhou destaque a preocupação com a paróquia. Renovação
paroquial e consolidação da iniciação cristã catecumenal são realidades que não podem ou não
deveriam ser vistas como questões isoladas uma da outra. Repensar os caminhos da iniciação
cristã obriga-nos a rever simultaneamente as estruturas eclesiais nas quais essa fé é vivida.
Consolidação/implantação da prática catecumenal e novo rosto de paróquia não podem ser
buscas e esforços paralelos, mas tarefas complementares de um único projeto evangelizador, pois
eles dependem um do outro e se iluminam mutuamente. Há entre as duas instituições uma
cumplicidade pastoral, uma responsabilidade mútua, uma interferência recíproca, em que a
vitalidade de uma depende do fortalecimento da outra.

1. A redescoberta de um caminho privilegiado de iniciação à vida cristã e a busca de um


novo rosto paroquial

Não constitui novidade a afirmação da crise da transmissão da fé em nossos dias. Estamos


longe do tempo em que a fé era transmitida de geração em geração de forma natural, por meio
dos pilares socioculturais. Diante dessa realidade, a Igreja tem se empenhado na busca de um
novo paradigma de iniciação cristã. E é no catecumenato que melhor se pode visualizar o novo
paradigma de iniciação cristã em andamento. Nascido nos primeiros séculos do cristianismo, o
catecumenato foi uma das mais bem-sucedidas instituições de iniciação à vida cristã na história
da Igreja e, hoje, resgatada pelo Concílio Vaticano II, é a grande aposta para responder, com as
devidas adaptações, aos atuais desafios da iniciação à vida cristã. No diálogo com a
modernidade, a Igreja dá-se conta do fim da cristandade, o que a faz repensar, entre muitas
questões, os caminhos da transmissão da fé.
Por outro lado, se a iniciação cristã catecumenal é uma proposta pastoral mais do que atual,
não podemos negar que, após quatro décadas de sua restauração, ela é, em não poucas realidades
eclesiais, desconhecida ou não assumida. Como entender tal fenômeno, se sua pertinência é
inquestionável? São muitas as causas desse impasse: agentes de pastoral, padres ou bispos que
desconhecem a metodologia catecumenal; execução parcial de sua metodologia; catequese de
adultos confundida com catecumenato; estruturas eclesiais que nem sempre facilitam a execução
da iniciação cristã catecumenal. Nessa perspectiva, entre as exigências que a restauração do
catecumenato traz consigo, está a necessidade de estruturas eclesiais adultas, sem o que qualquer
esforço de implantação do novo paradigma de iniciação na fé cai por terra. Referimo-nos,
particularmente, à instituição paroquial, cuja estrutura tradicional dificulta pôr em movimento a
34

novidade pastoral da iniciação catecumenal. Não é de hoje a afirmação da crise paroquial, como
também não são recentes as tentativas de renovação.
É possível um cristianismo sem paróquia? Qual o futuro desta instituição, ou qual a
paróquia do futuro? Ainda há espaço para paróquias? Para além das opiniões a favor ou contra, o
que não é justo é a acusação da falta de esforços e tentativas de renovação da instituição
paroquial ao longo da história, particularmente nas últimas décadas, ainda que as dificuldades de
uma efetiva renovação sejam proporcionais ou superiores aos resultados alcançados. Apesar da
aguda crise paroquial, tal instituição não pode, sem mais, ser descartada. Não se pode, sem mais,
descartar uma instituição de dois milênios. A paróquia ocupa, pois, apesar da crise, um lugar real
e significativo na vida da Igreja. É nela que melhor transparece a dimensão católico-universal da
Igreja, cujas portas não se fecham a nenhuma classe social, econômica, política ou racial.

2. Renovação paroquial e consolidação da prática catecumenal: uma relação dialética

O esgotamento do modelo tradicional (tridentino) de paróquia coincide com o fim de um


modelo de iniciação cristã doutrinal e conceitual, ainda que, em muitos ambientes, se insista em
mantê-lo. Nesse particular, curioso ou evidente é o fato de o nascimento paroquial, no século IV,
ser simultâneo à decadência catecumenal da Igreja primitiva. Dito de maneira diferente: o fim do
catecumenato e o início do “catecumenato social” (cristandade) são contemporâneos ao
surgimento da instituição paroquial, quando se deu também a expansão massiva do cristianismo
com a liberdade religiosa e a oficialização do cristianismo. A iniciação cristã e o próprio
cristianismo tornaram-se, então, uma realidade social, e a comunidade de fé já não era o fator
decisivo para a iniciação cristã. Isso nos autoriza a questionar se tal modelo de paróquia é
adequado para a transmissão-iniciação na fé e para sua vivência.
Tudo indica que o presente e o futuro do catecumenato dependem de um novo rosto
estrutural paroquial. Um novo perfil paroquial é condição necessária para que o projeto de
iniciação catecumenal seja levado a cabo. Onde estão, contudo, tais comunidades dinâmicas e
renovadas? Não se pode cair no círculo vicioso. A inexistência de comunidades ideais não pode
paralisar o esforço do projeto catecumenal, nem o contrário: ou seja, “porque não há
comunidades, não há catecumenato, e porque não há catecumenato, não chegamos a
comunidades” (BOROBIO, 2007, p. 549). Chegamos, assim, à fundamentação da dinâmica
dialética entre catecumenato e paróquia. A “solução” não está nem em procurar comunidades
paroquiais ideais para a implantação catecumenal nem em implantar a iniciação catecumenal
para daí esperar a conversão pastoral-estrutural da paróquia, mas em perceber a dialética do
processo ao buscar, conjuntamente, novos perfis de iniciação cristã e renovada estrutura
paroquial.
Trata-se de um círculo dialético em que o fortalecimento de um incide no outro e este, ao
mesmo tempo, requer a vitalidade do primeiro. A iniciação à vida cristã catecumenal será efetiva
à medida que houver uma reconfiguração eclesial adequada; do mesmo modo, uma iniciação
catecumenal de qualidade, na riqueza de seus elementos pedagógicos, litúrgicos e pastorais,
lançará luzes para repensar o institucional paroquial. O catecumenato implantado será promotor
de mudanças estruturais na paróquia, assim como o catecumenato não é algo já dado ou
consolidado, mas um projeto a ser conquistado.
Feitas estas observações, cabe sondar como se dá concretamente a relação entre
consolidação da prática catecumenal e renovação paroquial. É o que faremos agora, com base
nos quatro tempos do itinerário da iniciação cristã catecumenal, a saber: pré-catecumenato,
catecumenato, eleição/purificação e mistagogia.
35

3. Interpelações mútuas entre pré-catecumenato e a missionariedade paroquial: do


primeiro anúncio a uma estrutura paroquial missionária

O pré-catecumenato é o primeiro grau do itinerário da iniciação à vida cristã catecumenal,


que em nenhuma hipótese deve ser omitido (RICA 9). Entre os objetivos centrais desta etapa,
está o despertar da fé e do desejo de aderir e seguir a Cristo e à Igreja. “É o tempo da
evangelização em que, com firmeza e confiança, se anuncia o Deus vivo e Jesus Cristo” (RICA
9). Por ser o tempo da primeira evangelização (RICA 7), o objetivo maior é ajudar o iniciante
em seu primeiro sim, no intuito de fazer a passagem dos germes da fé ao desejo de seguir mais
intensamente o Deus de Jesus Cristo.
Pré-catecumenato e anúncio querigmático estão intrinsecamente interligados. A primeira
etapa da iniciação é, por excelência, o tempo do primeiro anúncio e da “primeira evangelização”,
quando “se anuncia aberta e resolutamente o Deus vivo e Jesus Cristo” (RICA 9). Proposta,
portanto, mais do que atual, quando já não se pode dar por pressuposto o primeiro anúncio,
anteriormente garantido pelo contexto cultural. O diferencial da metodologia catecumenal está
em não desconsiderar a necessidade do primeiro anúncio (Querigma), o que era prescindível em
tempos de cristandade. Aos já batizados, a primeira evangelização e o anúncio querigmático
assumem as características de reaproximação, reencantamento, redescoberta de Jesus Cristo e da
comunidade eclesial.
O pré-catecumenato remete à dimensão missionária da paróquia, em cujo diálogo, ambos,
missionariedade paroquial e pré-catecumenato, se iluminarão reciprocamente. Como dar à
paróquia um rosto mais missionário e menos institucional? E, ao mesmo tempo, como fazer da
iniciação cristã catecumenal uma prática missionária real, que, mais do que conferir sacramentos,
gere discípulos missionários?

3.1. O pré-catecumenato e a otimização do primeiro anúncio na paróquia


Dos quatro tempos do catecumenato é, sem dúvida, o primeiro o que mais interpela a
paróquia, na atual mudança cultural. O primeiro anúncio não é função tão somente do pré-
catecumenato. Se a linguagem metafórica ajuda a intuir melhor a inter-relação entre pré-
catecumenato e missionariedade paroquial, então, pode-se afirmar que o catecumenato, em sua
etapa pré-catecumenal, é como um trem que puxa consigo muitos vagões, num movimento
articulado e orgânico que caminha na mesma direção pastoral. Tão problemático quanto a não
existência do catecumenato na atualidade é, nos lugares em que ele existe, considerar a
transmissão da fé tão somente sob sua responsabilidade.
A pergunta fundamental, no processo de renovação paroquial à luz da pedagogia
catecumenal, é sobre as chances e sobre a potencialidade que a paróquia dispõe para anunciar e
reanunciar o mistério de Jesus Cristo. Otimizar as iniciativas já existentes de primeiro anúncio,
de potencialidades missionárias e querigmáticas, é o ponto de partida de uma renovada
caminhada paroquial à luz do processo catecumenal. A palavra-chave, assim, parece ser um
“novo contato” por meio do qual podem nascer verdadeiros processos de iniciação cristã. A
quais momentos e oportunidades nos referimos? Primeiramente àqueles querigmáticos já
existentes, ainda que esporádicos; via de regra, momentos-chave na vida de alguém, seja nos
pedidos de sacramentos, na celebração do batismo, da confissão, de bodas, exéquias e outros. De
modo mais exato, os vários momentos, incluindo aqueles de “prestação de serviço” de que a
paróquia dispõe, podem tornar-se momentos fortes de um anúncio e encontro mais contundente
da proposta do Evangelho. Tentativas de aproximação das pessoas com frequência paroquial
periódica não podem ser negligenciadas. Para muitos, a missa dominical ou a celebração da
Palavra são a única oportunidade de que a paróquia dispõe para o novo anúncio ou para renovada
36

reiniciação cristã e alimento na fé. Disso resulta que a liturgia, símbolos, homilia se apresentam
na atualidade como potencialidades querigmáticas.

3.2. A (re)descoberta de novos espaços de anúncio


Potencializar os caminhos já existentes para o primeiro e o segundo anúncios é necessário,
mas não o suficiente, pois é fundamental investir no anúncio em novos areópagos, criar novos
meios de anúncio que despertem e promovam o encantamento/reencantamento com a pessoa de
Jesus Cristo. Otimizar as oportunidades já existentes diz respeito ao nível mais intraparoquial,
cuja urgência é clara, haja vista o número de pessoas que “frequentam” a paróquia por ocasiões
pontuais ou os vários “níveis” de pertença eclesial de que a paróquia é composta. Mas, com a
mesma motivação querigmática, a paróquia é convocada a buscar caminhos para um movimento
centrífugo, um anúncio extraparoquial, o que exigirá a descoberta e a criação de espaços
alternativos, móveis e flexíveis, de presença da Igreja. Se, com razão, se fala de “rede de
comunidades”, não deve ser estranho o termo “redes de anúncio do Evangelho”, isto é, o esforço
ininterrupto para fazer-se presente em instâncias diversas da sociedade. Torna-se imperiosa uma
presença pública nas artérias da sociedade, no mundo da saúde, da educação, da solidariedade
social, das comunicações midiáticas, das famílias, dos jovens etc. Se, em tempos de divórcio
entre fé e cultura, “cristãos não nascem, mas se tornam”, também é verdade que eles não se
tornam automaticamente, mas à medida que a Igreja souber, com criatividade e zelo pastoral,
aproximar-se dos mais diversos ambientes onde vivem os filhos e filhas de Deus. A lamentável
realidade da “crise da chegada” ou do “sacramento do adeus” denuncia o vasto campo de atuação
em que a pastoral paroquial é chamada a atuar, sem desconsiderar a dificuldade de chegar
novamente a essas pessoas. Consequentemente, projetos pastorais que não se concentrem tão
somente em torno dos ritos sacramentais, mas também ao redor da vida cotidiana, dos problemas
reais e dos vários ambientes, são decisivos para o futuro da instituição paroquial.
Interagir com esses ambientes, reinventar a presença nesses lugares, é catecumenato em
potencial ou, mais especificamente, pré-catecumenato em potencialidade. Esperar que se
apresentem candidatos à iniciação cristã contradiz o espírito do pré-catecumenato, que tem como
princípio gerar filhos na fé, o que, por sua vez, depende de uma estrutura eclesial querigmática,
missionária.

3.3. O acompanhamento pessoal do pré-catecumenato e a acolhida paroquial


No pré-catecumenato constata-se uma mudança de compreensão da acolhida. A dinâmica
da acolhida permanente dá a tônica a toda esta primeira etapa, com destaque para os encontros
informais, que são laboratório de partilha, escuta, discernimento, testemunho, hospitalidade.
Primordialmente, quer ser tempo de abertura, de conhecimento mútuo, de escuta das
predisposições e motivações mais profundas da pessoa, de suas experiências religiosas, da
pergunta pelo sentido da vida.
A acolhida catecumenal pode ser bem assimilada no acompanhamento personalizado. São
vários os momentos em que transparece a atenção direcionada a cada indivíduo, com base em
sua particularidade. Na etapa do pré-catecumenato, é o introdutor, por meio de seu ministério,
que vem ao encontro dessa necessidade. “O candidato que solicita sua admissão entre os
catecúmenos deve ser acompanhado por um introdutor, homem ou mulher, que o conhece, ajuda
e é testemunha de seus costumes, fé e desejo” (RICA 42). São os introdutores que acompanham
os candidatos, que os apresentam à comunidade e deles dão testemunho (cf. RICA 43; 104).
A atenção personalizada ou a acolhida personalizada está igualmente contemplada na
processualidade da iniciação, isto é: os tempos do catecumenato levam em consideração a
liberdade, o ritmo e o tempo de cada pessoa. Para além da possível distância entre teoria e efetiva
37

prática pré-catecumenal, por motivos já mencionados, não se pode subestimar a pertinência da


proposta acolhedora, que, de modo imediato, nos faz questionar a burocracia e o peso da
estrutura paroquial, com pesadas cargas de horários, expedientes, agendas. A pedagogia pré-
catecumenal pode lançar luzes na busca de novas estruturas paroquiais de acolhida e de ações
mais personalizadas. Diante de uma cultura que gera o anonimato e a solidão, o material pastoral
de que dispõe o pré-catecumenato são a acolhida generosa, o estar junto, a escuta gratuita; é a
partir desse material que são fornecidos os primeiros fundamentos da fé cristã. O simpatizante
deve ser acolhido pelo introdutor a qualquer momento durante o ano, o que revela uma estrutura
de acolhida contínua e permanente.
É lamentável o fato de o ministério do introdutor ser ainda pouco conhecido e valorizado,
talvez, por ser reflexo de uma herança eclesial que apresenta dificuldades no trabalho
personalizado, no corpo a corpo, e cuja estrutura de massa acostumou a trabalhar com multidões.
Em certos lugares, o pré-catecumenato não é realizado; atropela-se essa fase e inicia-se já a etapa
catecumenal; em outros lugares, é o próprio catequista que faz as vezes de introdutor. Propomos
não somente investimento neste ministério de iniciação à vida cristã, mas também pensá-lo, com
as devidas adaptações, para além do catecumenato, em vista de ações pastorais personalizadas e
progressivas. A título de exemplo, podemos entrever o quanto a pastoral da acolhida pode ser
incrementada com base na dinâmica pré-catecumenal ou o quanto as funções atribuídas ao
introdutor podem beneficiar e inspirar o acompanhamento pastoral (por exemplo, noivos, pais e
padrinhos, primeiros anos de matrimônio, da chegada do filho, famílias que chegam ou partem,
novos moradores). Nessa perspectiva, acolhida já é, em si mesma, primeiro anúncio, e em todas
estas ações estão os germes do pré-catecumenato.

4. O segundo momento do processo catecumenal e o “catecumenato permanente”:


a formação permanente a serviço da renovação paroquial

Na continuidade do diálogo entre iniciação cristã catecumenal e instituição paroquial,


entraremos, a seguir, no jogo dialético entre a segunda etapa do itinerário catecumenal,
denominada catecumenato, e a formação permanente, por nós intitulada “catecumenato
permanente”, isto é, a contínua formação dos já iniciados na fé. Se a paróquia precisa ser lugar
da iniciação à vida cristã, necessita igualmente assumir o compromisso com o contínuo
aprofundamento da fé dos já iniciados. Caso contrário, corre-se o risco de, conforme um ditado
bastante brasileiro, “morrer na praia”. Formação inicial e formação permanente (iniciação cristã
catecumenal e “catecumenato permanente”) são, portanto, momentos distintos de um único
processo na construção de comunidades eclesiais adultas e de cristãos adultos.
Se a primeira etapa denominada pré-catecumenato prima pela pré-evangelização, pelos
“rudimentos da vida espiritual”, pela acolhida, pelos encontros espontâneos, o segundo momento
da caminhada enfatiza, além de outros aspectos, sólida formação. Uma paróquia que não investe
no “catecumenato permanente”, na formação continuada de seus agentes e de todos os batizados
não somente não conseguirá levar a sério a iniciação cristã catecumenal, como também
comprometerá a maturidade humana e cristã da paróquia.
A deficiência na formação dos agentes de pastoral compromete a missão da Igreja e,
particularmente, a iniciação cristã. Compromete substancialmente o futuro missionário da
paróquia, pois vale lembrar que os iniciantes de hoje serão os missionários de amanhã, e nada
mais desgastante à missão do que agentes (iniciados) não preparados.
Se no item anterior batíamos na tecla da necessidade do primeiro anúncio para fora dos
restritos muros dos templos da paróquia, para fazer-se presente no vasto campo da sociedade,
agora é preciso perguntar-se pela qualificação dos agentes. Se o leigo é convocado, pela graça do
38

batismo, a atuar na realidade secular, “no vasto campo da política, da realidade social e da
economia, como também da cultura, das ciências, das artes, da vida internacional, dos meios de
comunicação e de outras realidades abertas à evangelização” (DAp 283), verifica-se então que a
formação permanente não é privilégio, mas necessidade, pois o diálogo com esses novos
areópagos exige devido preparo e qualificação.
Sob a iluminação da proposta do catecumenato, há que se ressalvar que tal formação
precisa revestir-se de um novo paradigma. O tradicional paradigma nocional, de transposição de
conhecimentos, já não pode mais ser denominado formativo, pois não se trata apenas de repassar
conteúdos, mas de uma assimilação intelectual e celebrativa dos elementos da fé, isto é, de uma
formação mistagógica.

4.1. Formar-se para formar: o desafio da formação inicial e permanente dos catequistas, dos
agentes de pastoral e do clero
A restauração da iniciação catecumenal traz sérias exigências, entre as quais, e certamente
a mais urgente, a da mudança de mentalidade de todos os agentes nela envolvidos. É dos
catequistas o compromisso maior de entrar na nova lógica da iniciação cristã, no
acompanhamento catecumenal dos adultos.
O desafio, contudo, é o como desta formação, e aqui nos referimos a um renovado processo
formativo à luz do processo formativo catecumenal e em coerência com ele. Optamos pelo
termo formação inicial dos catequistas. A expressão pode soar estranha. Por que formação
inicial, quando se supõe que os catequistas já tenham sido iniciados? O resgate do catecumenato
é recente, o que significa que muitos dos atuais catequistas não conhecem e não foram formados
no novo paradigma de iniciação cristã catecumenal. Apesar de toda boa vontade e doação à
Igreja, nossos catequistas não foram formados na mentalidade catecumenal.
Já expusemos a problemática da execução do catecumenato em determinados ambientes
com mentalidade de catequese tradicional, nos quais ele, apesar de receber o nome de iniciação
cristã catecumenal, consiste somente em repasse de conteúdos. Mais do que falta de vontade dos
catequistas, vale a pena enfatizar isto: a problemática parece estar na lacuna da formação
catecumenal. Engana-se, contudo, quem pensa que basta o conhecimento teórico do Ritual de
Iniciação Cristã de Adultos (RICA). Um dos desafios que o catecumenato enfrenta é formar
catequistas, não somente para a, mas na proposta catecumenal. O catequista que durante vários
anos exerceu o ministério nos moldes da catequese tradicional terá muitas dificuldades para
entrar na nova proposta de iniciação cristã. Urge que o catequista experimente o processo
catecumenal, percorrendo ele mesmo, na condição de catequista, a experiência catecumenal,
saboreando os ritos e símbolos e trazendo para sua formação pessoal a interação conteúdo-
liturgia, fé-vida. Com outras palavras, se os tradicionais “cursinhos” preparatórios aos
sacramentos estão com os dias contados, a tradicional formação de catequistas também está
convocada a assumir novo itinerário que integre conteúdo, mística, palavra, celebração, rito,
experimento.
É no ministério sacerdotal que mais se evidencia a necessidade da formação permanente,
entendida como processo de contínua conversão, de aprofundamento e atualização nas áreas do
saber humano, teológico e bíblico, para dialogar de modo maduro com os diversos níveis de
interlocutores e com as novas linguagens da sociedade plural.
Vale lembrar que a mudança de época atinge também o clero, provocando, muitas vezes,
crise de identidade sacerdotal, o que pode facilmente conduzir aos tão comuns quadros de
carreirismo institucional, entre outras deturpações no exercício do ministério. O tornar-se adulto
na fé, tão enfatizado ao longo do artigo, e o tornar-se adulto no ministério caminham juntos.
39

Outro aspecto nem sempre frisado com a devida necessidade diz respeito à formação dos
seminaristas. Nas novas gerações dos presbíteros, verifica-se acentuada tendência ao
clericalismo, quando não ao fundamentalismo, haja vista a preocupação com o rubricismo ou a
ostentação de vestes.
Sem avançar para águas mais profundas em nossa reflexão, importa perceber que, dado
que a estrutura formativa da iniciação à vida cristã está passando pelo processo de reestruturação
sintetizado no catecumenato, também o modelo formativo dos candidatos ao sacerdócio parece
urgir uma revisão. Lamentavelmente, muitos seminaristas assimilam já desde cedo que, no futuro
ministério sacerdotal, serão responsáveis-proprietários de uma paróquia.

4.2. Da ministerialidade do catecumenato a uma paróquia toda ministerial


Abordada a relação entre iniciação cristã e formação permanente, pretendemos, agora, à
luz da ministerialidade do catecumenato, refletir sobre os ministérios na paróquia.
Para levar a cabo o objetivo a que se propõe, o catecumenato dispõe de uma estrutura de
ministérios e serviços, com base em um projeto articulado de acompanhamento pessoal e
coletivo ao longo de todo o processo da iniciação à vida cristã. Entram em cena, no itinerário
catecumenal, uma diversidade de ministérios, serviços e carismas, necessários à maturação da fé
daqueles que estão no processo de tornar-se cristãos. Para a dinâmica catecumenal, nenhum
serviço ou ministério é irrelevante ou se encontra em segundo plano. Para Borobio, o
catecumenato leva a uma “potencialização dos ministérios da Igreja”, pois neles se encontram
várias dimensões de sua missão (BOROBIO, 2007, p. 78).
Se, por um lado, é inquestionável a riqueza da variedade de serviços, carismas, ministérios
catecumenais, necessários à tarefa da iniciação à vida cristã, por outro, a questão torna-se
problemática quando confrontamos o quadro acima com a real situação ministerial paroquial em
que o catecumenato é realizado. Para problematizar ainda mais a questão, algumas perguntas são
necessárias: a comunidade paroquial, hoje, é madura o suficiente, ministerial e missionariamente,
para acompanhar o candidato à vida cristã, como idealiza a metodologia catecumenal? O RICA
supõe densa consciência ministerial e participativa da comunidade, o “ministério coletivo”,
conforme já recordado, isto é, a participação de toda a comunidade de fé nos ritos, no parecer e
na aprovação do iniciante, entre outras formas de atuação. Trata-se de uma realidade ou de uma
meta a ser alcançada?
Importa a pergunta: o que a ministerialidade catecumenal diz ao processo de renovação
paroquial, e esta àquela? Algumas afirmações, quase antecipadas tentativas de resposta a essas
questões, serão norteadoras da reflexão que segue: 1) a rede de ministérios do catecumenato e a
consciência ministerial expressa na ativa participação da comunidade nos ritos e celebrações
catecumenais constituem muito mais uma realidade a ser construída do que algo já existente na
configuração paroquial. Portanto, aquilo que o RICA concebe como modelo de comunidade
ministerial conscientiza, questiona, provoca e motiva a renovação ministerial paroquial; 2) neste
processo dialético, ainda que a nova consciência ministerial não seja algo já dado, e sim
realidade eclesial a ser conquistada, a comunidade, à medida que participa, mesmo que
timidamente, da vida e do acompanhamento dos catecúmenos, desperta para a consciência
missionária e ministerial; 3) ao perceber que a paróquia é ou está se tornando uma rede de
ministérios, o catecúmeno estará mais disposto a assumir um serviço eclesial. O modelo de
Igreja que ele encontra é o que ele vai assimilar em sua vivência cristã; 4) a qualidade da
iniciação à vida cristã é condição para o futuro ministerial da paróquia. Assim, negativamente,
quando as pessoas não são devidamente iniciadas na vida cristã ou quando são portadores de
uma fé imatura, dificilmente assumem seu batismo ou exercem ministérios e serviços eclesiais.
40

Muito poderíamos refletir sobre a urgente conversão estrutural dos ministérios pastorais na
Igreja. Em síntese, permanece sempre o desafio, tendo ciência dos avanços, de buscar a
concretização de uma configuração ministerial que tem sido denominada “comunidade-
ministérios” ou “comunidade-carismas e ministérios”. Não se trata apenas de mudança de
nomenclatura, mas das relações estabelecidas a partir dela. No paradigmacomunidade-ministério,
o acento está na comunidade e na rede de ministérios, carismas e serviços de que ela é portadora.
O centro não são os ministérios ordenados nem os não ordenados, mas o tecido comunitário, em
que todos os ministérios e serviços têm sentido de ser.

5. Etapas da iluminação/purificação e mistagogia e a conversão mistagógica paroquial

Resta ainda apontar alguns elementos da paróquia à luz dos dois últimos tempos da
caminhada catecumenal, a saber, iluminação/purificação e mistagogia. A riqueza catecumenal
consiste em garantir forte densidade orante, mistagógica e experiencial da fé durante todo o
processo formativo. Do início ao fim, o antes, o durante e o depois da recepção dos sacramentos
visam imprimir o caráter mistagógico e orante da iniciação à vida cristã. Os últimos momentos
do itinerário catecumenal, iluminação/purificação e mistagogia, remetem a essa dimensão mais
orante e experiencial da fé, sem dicotomia ou exclusivismo. Trata-se de acento, de ênfase
cronológica, e não de exclusivismo.
Iluminação/purificação, tempo para maior interiorização e conversão no processo
catecumenal, recorda à paróquia o imperativo da conversão pastoral e estrutural. Conversão
pastoral em que ou para quê? À expressão conversão pastoral podem atribuir-se inúmeros
significados, todos legítimos e necessários. O caminho percorrido até o momento, na busca de
novo perfil de paróquia, de certa forma contemplou várias dimensões relativas à expressão.
Conversão para uma paróquia toda ministerial, conversão ao novo estilo formativo, para o
impulso à missionariedade, à colegialidade, a nova mentalidade pastoral que, mais do que
sacramentalizar ou ensinar, proporcione processos pastorais que levem à descoberta e ao
aprofundamento da fé etc. Como síntese de todas as conversões a que a paróquia é convocada,
trazemos agora o termo “mistagogia”, em debate no último tempo do itinerário catecumenal.
Dito de maneira diferente, enfatizaremos, aqui, como que a síntese de todos os aspectos já
mencionados, a conversão pastoral à mistagogia. Percebe-se, portanto, que, com a
expressão conversão pastoral à mistagogia, envolvemos as duas últimas etapas catecumenais:
conversão (iluminação/purificação) e mistagogia.
A experiência ou mistagogia da fé é um direito não somente dos catecúmenos, mas de
todas as pessoas, dos frequentadores assíduos, dos casuais, dos “clientes’’ ou dos afastados da
paróquia. Contudo, bem sabemos que a dimensão experiencial da fé é, sem dúvida, a grande
lacuna na paróquia, seja pelo excesso de atividades, refém de uma infinidade de tarefas, seja pela
forte carga burocrática e institucional, sem proporcionar, na maioria das vezes, a experiência
mistagógica. A afirmação já feita de que grande parte dos já batizados não é iniciada na fé pode
ser retomada agora em perspectiva mistagógica: ou seja, considerável número de batizados
carece de experiência de Deus, de uma religiosidade mais vivencial, cuja consequência é ou o
cumprimento de preceito, ou a busca de serviço religioso, ou o afastamento definitivo da
paróquia. Daí se entende com mais facilidade o porquê de muitos viverem, hoje, uma
espiritualidade fora da instituição paroquial ou mesmo fora da religião.
Quando se alude à mistagogia no catecumenato, à experiência na paróquia ou nas pastorais
e movimentos, independentemente do termo utilizado, trata-se, fundamentalmente, de condição
para o futuro do cristianismo. Vale a pena enfatizar que todo o esforço da busca de renovação
paroquial em andamento, à luz da pedagogia catecumenal, visa favorecer uma profunda
experiência de Deus. Nova linguagem, símbolos, homilias, estrutura, pastorais, serviços e
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movimentos, enfim, qualquer realidade existente na paróquia não são fins em si mesmos, mas
sua pertinência reside na capacidade de gerar experiência mistagógica. Com base na dialética
proposta entre catecumenato e paróquia, com a mesma intensidade que se afirma o novo
paradigma de iniciação à vida cristã voltado à experiência, a estrutura paroquial quer se
reconfigurar, tendo como eixo norteador esta mesma experiência, a fim de se tornar casa da
mistagogia, ou ainda, em tom mais enfático, em estado permanente de mistagogia. Trata-se do
esforço ininterrupto para, em tudo o que a paróquia fizer, favorecer aos fiéis a mistagogia. Do
contrário, o esforço de reorganização paroquial será paliativo, sem tocar as raízes do problema.
Nessa perspectiva, vemos que o círculo dialético vai acontecendo. Do mesmo modo que
mistagogia não é apenas o último tempo do processo da iniciação cristã, mas sua espinha dorsal,
assim também todas as possíveis mudanças estruturais e pastorais na paróquia visam a uma
maior experiência mistagógica de fé. Mistagogia não é algo que a paróquia oferece aos fiéis, mas
é fundamentalmente aquilo no qual ela mesma é chamada a se converter, para, então, poder ser
experimentada como locus da experiência de Deus. Só aí, então, ela será capaz de “oferecer a
todos os nossos fiéis um encontro pessoal com Jesus Cristo, uma experiência religiosa profunda
e intensa” (DAp 226).

Conclusão
Sinteticamente, nosso trabalho esteve assim estruturado: à luz do pré-catecumenato,
refletimos sobre as dimensões missionária e querigmática da paróquia; à luz do catecumenato,
abordamos alguns elementos da formação e dos ministérios; à luz da iluminação/purificação e da
mistagogia, apontamos para as dimensões orante, contemplativa, experiencial, mistagógica na
instituição e nas pastorais paroquiais.
Afirmar que o catecumenato constitui uma pedagogia privilegiada para iniciar na fé não
significa estar nele a solução para o desafio da transmissão da fé. A implantação/consolidação do
catecumenato é algo em construção, assim como a renovação paroquial se encontra nesse mesmo
processo. A paróquia não será uma nova estrutura eclesial de um dia para o outro. Da mesma
forma que não é o decreto da restauração do catecumenato que o fará ser catecumenal, não será a
declaração de uma nova paróquia que a fará ser nova. Trata-se de um processo lento, em que
estão envolvidas diversas dimensões.

BIBLIOGRAFIA

BOROBIO, D. Catecumenato e iniciación cristiana: un desafío para la iglesia de hoy. Barcelona: Centre
de Pastoral Litúrgica, 2007.
CNBB. Ritual de iniciação cristã de adultos. São Paulo: Paulus, 1980.
CNBB. Comunidade de comunidades: uma nova paróquia. São Paulo: Paulinas, 2013 (Doc CNBB, 100).
REINERT, J. Fernandes. Paróquia e iniciação cristã: uma relação urgente. A interdependência entre
renovação paroquial e mistagogia catecumenal. Tese doutoral na PUC- RJ em outubro de 2014.
42

Por uma Igreja dinâmica e orgânica, toda sacerdotal


Pastor Roberto Bottrel

Durante os primeiros anos da era cristã, a Igreja foi um organismo vivo, flexível, informal
e crescente. A Igreja primitiva crescia em qualidade e em quantidade continuamente. Os valores
que a norteavam foram se perdendo ao longo dos anos devido às transformações sofridas. Sem
entrar em pormenores históricos, a Igreja iniciou seu processo de institucionalização com o
Imperador Romano Constantino I no século IV e se tornou totalmente imobilizada e ritualística.
Com o passar dos séculos, esses adjetivos se tornaram mais característicos do cristianismo do
que os iniciais da Igreja primitiva, que se perderam.
Séculos mais tarde, se levanta Martinho Lutero propondo um reforma no cristianismo com
o objetivo de retornar às origens da Igreja em Atos. As propostas de Lutero foram consideradas
ousadas demais, levando-o a ser excomungado e considerado um herege. Entre as suas muitas
teses, como a crença fundamental de que a Bíblia era a única fonte de Fé, destaca-se o sacerdócio
universal do crente. Com a formalização da Igreja criou-se a distinção entre o clero e o laicato,
fazendo com que o relacionamento com Deus fosse intermediado pelo ministro especialmente
preparado. A tese de Lutero devolvia o sacerdócio a todos os crentes e não mais restrito ao clero.
Mas apesar de mudanças extraordinárias, muitos dos paradigmas totalmente desvirtuados
da Igreja daquela época ainda permaneceram. Quando analisamos as Igrejas na atualidade, fruto
do movimento protestante de Lutero, vemos claros elementos dessa herança histórica que nem a
Reforma conseguiu reverter. Como a Igreja é um organismo vivo, ela está sempre em processo
de transformação. Entendemos que novas mudanças precisam ser efetivadas para que ela seja
relevante neste momento no nosso mundo.
Na tabela abaixo podemos comparar valores da Igreja primitiva com os do modelo
tradicional vigente nos nossos dias:

IGREJA PRIMITIVA IGREJA TRADICIONAL

Baseada em relacionamentos informais Baseada em rituais e cultos formais

Dispersa pelas casas Centrada no templo

Tudo é santo Separação do sagrado x secular

Todos os crentes serviam (ministravam) Ministros especializados (clero x leigos)

Crescia pela multiplicação Crescimento por adição

Comunhão de tudo Individualismo / isolamento

Flexível, ágil, dinâmica Inflexível, lenta, estática

Forma: círculo Forma: leque

Igreja movimento Igreja monumento

Organismo Organização
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Com essa comparação, fica evidente a necessidade de derrubar muitos paradigmas


existentes na Igreja tradicional e substituí-los por outros coerentes com a visão bíblica para a
Igreja. A revolução proposta pelo modelo celular é uma resposta a esses desafios. O lema
principal é:

Cada crente um ministro, cada casa uma igreja.

Assim, esse modelo tem resgatado o sacerdócio universal de todos os crentes; tem
descentralizado a Igreja pelas casas e pelos líderes e não mais centrada no templo e no pastor;
não se prende mais a prédios e rituais, antes pelo contrário, se encontra livre para crescer em
qualidade e em quantidade. Se há uma maneira de voltarmos às raízes da Igreja, talvez seja esse
o melhor caminho.

Ref. Bibliográfica:

BOTTREL, Roberto. Multiplicação: o desafio do cristão, da liderança e da Igreja.


Belo Horizonte: Editora Central, 2015. p.75-77.

As células: uma metodologia para ajudar na evangelização


Dom Edson Oriolo

Participando de um curso sobre Leader and Professional Coach, no mês de março de 2015,
com a presença de alguns líderes de diferentes denominações cristãs, escutei pela primeira vez, o
termo “evangelização através de células”. Fiquei muito interessado em saber sobre esta maneira
de evangelizar, extremamente missionária, que vem abrangendo várias denominações religiosas
especialmente algumas correntes evangélicas. Por outro lado, algumas paróquias da nossa Igreja
também vêm usando esta metodologia para evangelizar.
Foi na Coréia, com um ministro evangélico Paul Cho, ligado à Assembleia de Deus, que nasceu
uma fórmula extremamente missionária, um método de evangelização: a organização em células.
Esta estratégia de reuniões nas casas dos membros fazia com que uma Igreja crescesse bastante,
sendo um polo de crescimento, de encontro e evangelização. Um sacerdote americano, o Pe.
Michael Eiveres, de alguma maneira catolicizou o método e, com êxito, importou-o à sua
paróquia.
Assim sendo, no ano de 1987, Pe. Pigi Perini, Pároco de S. Eustórgio, em Milão, foi
conhecer a Paróquia de São Bonifácio, em Pembroke Pines, na Arquidiocese de Miami, e aderiu
radicalmente a este método de evangelização. Nós católicos entendemos que este método tem
como fonte a exortação apostólica de Paulo VI Evangelli Nuntiandi, cuja preocupação é dar uma
consciência missionária a toda a ação da Igreja e fazer com que toda comunidade paroquial seja
missionária.
44

Para solidificar esta realidade podemos avaliar as intuições do Papa Francisco, quando era
Arcebispo de Buenos Aires. Em uma entrevista, seu sucessor, o atual Arcebispo Dom Mario
Aurélio Poli, disse que o Papa Bergoglio é um homem de grande oração, amizade cordial e
sincera, que nos faz sentir muito bem ao seu lado e desempenha uma importante obra pastoral. É
um mestre pastor. Ele sempre teve uma grande preocupação e quis que em cada paróquia
houvesse dois ou três sacerdotes, para ter uma forte presença da Igreja entre as pessoas e lugares
e para guiar também a piedade popular.
O Bispo de Roma fala de “uma Igreja em saída de si mesma”. A Igreja “em saída” é uma
Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não
significa correr pelo mundo sem direção nem sentido (cf. EG, 46). Na Igreja com as portas
abertas “todos podem participar, de alguma forma, da vida eclesial, todos podem fazer parte da
comunidade, e nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão
qualquer”. (EG, 47.)
Para que tudo isso possa acontecer, o próprio Papa Francisco afirma que os agentes
pastorais estejam “em atitude de saída” (cf. EG, 27) e sejam ousados em tomar iniciativas (cf.
EG, 24) e que contraiam o “cheiro das ovelhas”. São pistas, diretrizes, abertura de horizonte para
a vida paroquial na constituição de células paroquiais.
O Papa Francisco, em setembro de 2015, apontou pistas para entender nossa ação
evangelizadora nesta perspectiva, fazendo um discurso aos membros das células paroquiais de
evangelização. Na ocasião, trouxe alguns pontos que nos ajudam a entender sua eclesiologia de
uma Igreja em Saída que, colocados em prática, levam-nos a vivenciar as Diretrizes Gerais da
Ação Pastoral da Igreja no Brasil quando falam de “paróquia, comunidade de comunidades”.
Para tanto, segundo ele, a “célula” precisa:
1. Ser missionária;
2. Ir ao encontro de todos para anunciar a beleza do Evangelho;
3. Tornar-se uma família na qual se encontra a rica e multiforme realidade da Igreja (cf.
LG, 8);
4. Realizar o encontro nas casas para compartilhar as alegrias e as expectativas que estão
presentes no coração de cada pessoa;
5. Aproximar-se de cada pessoa, pois é uma experiência genuína de evangelização que se
assemelha muito ao que já acontecia nos primeiros tempos da Igreja;
6. Conviver com as pessoas em simplicidade, acolhendo a todos;
7. Fazer da Eucaristia o âmago da missão evangelizadora, de tal forma que cada célula seja
uma comunidade eucarística, onde partir o pão equivale a reconhecer a presença real de
Jesus Cristo no meio de nós;
8. Dar sempre testemunho da ternura de Deus Pai e da sua proximidade a todos,
principalmente a quantos são mais frágeis e sós.

Assim, podemos afirmar que a estruturação da Igreja em células aproxima-a do primeiro


retrato das comunidades cristãs apresentado por Lucas em de At 2,42.44-47: “Eram
perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e
nas orações. Todos que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas.
Diariamente, frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e
simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E a cada dia o
Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação”.
45

Células paroquiais de evangelização

“V ós tendes a vocação de ser uma semente mediante a qual a comunidade paroquial se


interroga sobre o ser missionária, e por isso sentis irresistível dentro de vós o
chamamento a ir ao encontro de todos para anunciar a beleza do Evangelho. Este
desejo missionário exige, antes de tudo, a escuta da voz do Espírito Santo, que continua a falar
à sua Igreja, impelindo-a a percorrer veredas às vezes pouco conhecidas, mas determinantes
para o caminho da evangelização. Permanecer sempre aberto a esta escuta e prestar atenção a
fim de que nunca se esgote devido ao cansaço ou às dificuldades do momento, é a condição para
ser fiel à Palavra do Senhor e, ao mesmo tempo, constitui um encorajamento a superar os vários
obstáculos que se encontram no caminho da evangelização”.
(Papa Francisco às Células de Evangelização, em 5 de setembro de 2015)

“Constata-se que nos últimos anos está crescendo a espiritualidade de comunhão e que, com
diversas metodologias, não poucos esforços tem sido feitos para levar os leigos a se integrar nas
pequenas comunidades eclesiais, que vão mostrando frutos abundantes. Nas pequenas
comunidades eclesiais temos um meio privilegiado para chegar a Nova Evangelização e para
chegar a que os batizados vivam como autênticos discípulos e missionários de Cristo”
(DAp 307)

1. Conceito de célula

Célula: é a unidade biológica fundamental de um organismo capaz de vida independente e


de doar essa vida através de um processo de multiplicação. Ela contém os ingredientes básicos
do organismo a que pertence.
Célula Paroquial de Evangelização: é um grupo pequeno de leigos ligados à paróquia e a
seus pastores, e entre si por uma relação de proximidade (“oikos”), e que se reúne nas casas, que
evangeliza e que acompanha os novos discípulos de Jesus, que de evangelizados se tornam
evangelizadores. Deste modo, a célula cresce e se multiplica.

2. Célula é corpo sagrado de Cristo

Sendo a célula biológica uma conjunção ordenada, harmônica e articulada de elementos


materiais animada pela vida, com vista a sobreviver e multiplicar-se, a Células Paroquias de
Evangelização são, pois, organismos vivos do Corpo de Cristo, comprometidos com o Evangelho
e impulsionados pelo Espírito Santo, onde se pode viver o “amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34-
35) e o “onde dois ou três estiverem em meu nome, estarei lá” (Mt 18,20). Como fruto desta
comunhão no Amor de Cristo, ela gera novos membros para o Corpo e se multiplica.
Assim, as Células, como parte do Corpo de Cristo, tornam presente Jesus, o Emanuel,
Deus Conosco! Como unidades vivas do Corpo de Cristo, as Células continuam três tarefas que
Jesus realizou entre os homens e deixou à sua Igreja:

2.1. A Propiciação
Jesus a cumpriu plenamente em Seu corpo físico, pois conforme Romanos 3,24 fomos
“justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus.” Mas
cumpre à Igreja, a cada batizado, fazer Memória através do múnus sacerdotal dado a cada
cristão.
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2.2. O anúncio do Reino


Jesus a cumpriu parcialmente em seu corpo físico conforme Lc 8,1: “E aconteceu, depois
disto, que andava de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o
evangelho do reino de Deus; e os doze iam com ele.” Cumpre à Igreja, sucessora dos doze,
continuar.

2.3. O envio da Igreja


Através da Igreja, Seu corpo místico, Jesus pode então continuar a cumprir a tarefa do
anúncio do Reino, conforme Lucas 9,2: “E enviou-os a pregar o reino de Deus, e a curar os
enfermos”, e Lucas 10,8-9: “E curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós
o Reino de Deus”. A CPE anuncia e torna palpável, visível e experiencial o Reino entre nós,
como parte do novo Corpo de Cristo!
Tendo ressuscitado e ascendido aos Céus, Jesus assume agora um novo Corpo: a Igreja.
Mas como é este Corpo? Seu protótipo é a comunidade dos 12 discípulos, conforme Marcos 3,
13-14: “E subiu ao monte, e chamou para si os que ele quis; e vieram a ele. E nomeou doze para
que estivessem com ele e os mandasse a pregar”.
Com base neste modelo inicial de pequenas comunidades missionárias de Jesus, a CPE
quer continuar a Missão que Cristo deixou à sua Igreja.
Quando falamos de uma Célula Eclesial de Evangelização, estamos, pois, tratando do
Corpo de Cristo presente em pequenas comunidades (a CPE é comunidade cristã e não uma mera
reunião!) nos lares de cristãos, e que existem para cumprir grandes propósitos que Cristo deixou
a sua Igreja:
 Comunhão fraterna (Koinonia)
 Glorificação de Deus por meio de Cristo (Liturgia)
 Edificação mútua nas Escrituras Sagradas (Catequese)
 Evangelização (Martiria)
 Cuidado uns com os outros (Diakonia)
Mas deve-se salientar que o primeiro elemento – a Comunhão fraterna (Koinonia) – é que
dá base, força e condições para que se realizem os demais. O projeto CPE pressupõe a comunhão
entre seus membros – mas não uma comunhão fraterna comum, por melhor que seja! A CPE se
baseia na Comunhão baseada em Cristo, pois deve ser uma comunidade cristã discipuladora e
evangelizadora, que cumpre propósitos de Cristo! Ela, em suma, busca reproduzir a célula inicial
de comunhão de amor extremo que Cristo teve com seus Apóstolos – os quais enviou para
multiplicar sua Missão até os dias de hoje!

3. Jesus é o centro

Aspecto essencial da CPE: ela é uma comunhão centralizada em Cristo e em sua missão.
Torna-se importante esclarecer o que a CPE não é, para evitar equívocos prejudiciais:
a) Grupo de devoção ou de oração – Um dos estágios da reunião da CPE é a oração, e sem ela
tudo se tornará fraco e ineficaz; mas CPE não é apenas grupo de oração.
b) Grupo bíblico – A CPE toma como base a partilha da Palavra para se edificar; mas a CPE não
se resume a estudo da Palavra.
c) Grupo de formação ou de doutrina – Na célula acontece o Discipulado dos membros de
acordo com a doutrina católica, mas ela não é apenas isto, um grupo de Catequese.
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d) Pastoral ou Ministério – A CPE busca cumprir os propósitos de Deus e levar seus membros a
serviços e ministérios eclesisais, mas é sobretudo uma comunidade onde o “ser” vem antes do
“fazer”. A CPE não é simplesmente um grupo de trabalho ou serviço.
e) Grupo Social – CPE não é um grupo de cristãos que se gostam, talvez até alheio ao corpo
eclesial. A CPE é base vivificante deste Corpo; ela é uma pequena comunidade que tem a
multiplicação do Corpo de Cristo como objetivo.

4. Por que células de evangelização?

“Ide ao mundo inteiro, proclamai o Evangelho a todas as criaturas” (Mc 16,15\0.


“Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, então, fazei de todos os povos discípulos,
batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardarem tudo o
que vos mandei. Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,18-20).
Por que “a Igreja existe para evangelizar”, a CPE dá vida a esse mandato fundamental de
compartilhar Jesus com o outro. Mas, sendo a Evangelização, como define Santa Tereza de
Calcutá, “ter Jesus no coração e levar Jesus ao coração do irmão”, a CPE procura, no primeiro
momento, levar ao encontro pessoal com Cristo, conforme salienta o Papa Francisco e o
Documento de Aparecida: “Os esforços pastorais orientados para o encontro com Jesus Cristo
vivo deram e continuam dando frutos. Entre outros, destacamos: ‘Crescem os esforços de
renovação pastoral nas paróquias, favorecendo um encontro com Cristo vivo mediante diversos
métodos de nova evangelização que se transformam em comunidade de comunidades
evangelizadas e missionárias’”. (DAp 99e)
A CPE vem, pois, atender à intuição de uma corajosa ação renovadora das paróquias,
transformando-as em comunidade de comunidades formadoras de discípulos-missionários,
ardente desejo manifestado nos Documentos de Aparecida e na Evangelii Gaudium. Diz-nos o
Papa Francisco:
“Através de todas as suas atividades, a paróquia incentiva e forma os seus membros para
serem agentes da evangelização. É comunidade de comunidades, santuário onde os sedentos vão
beber para continuarem a caminhar, e centro de constante envio missionário. Temos, porém, de
reconhecer que o apelo à revisão e renovação das paróquias ainda não deu suficientemente
fruto, tornando-as ainda mais próximas das pessoas, sendo âmbitos de viva comunhão e
participação e orientando-as completamente para a missão” (Evangelii Gaudium, n. 28).
“A renovação das paróquias exige a reformulação de suas estruturas, para que seja uma
rede de comunidades e grupos, capazes de se articular conseguindo que seus membros se sintam
realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão” (DAp 172). Não podemos
deixar de citar o sonho da Nova Evangelização de São João Paulo II, numa de suas últimas cartas
apostólicas:
“Ao longo destes anos, muitas vezes repeti o apelo à nova evangelização; e faço-o agora
uma vez mais para inculcar sobretudo que é preciso reacender em nós o zelo das origens,
deixando-nos invadir pelo ardor da pregação apostólica que se seguiu ao Pentecostes. Devemos
reviver em nós o sentimento ardente de Paulo que o levava a exclamar: « Ai de mim se não
evangelizar! » (1 Cor 9,16).”
Esta paixão não deixará de suscitar na Igreja uma nova missionariedade, que não poderá
ser delegada a um grupo de “especialistas”, mas deverá corresponsabilizar todos os membros do
povo de Deus. Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-lo para si; tem de o
anunciar. É preciso um novo ímpeto apostólico, vivido como compromisso diário das
comunidades e grupos cristãos.
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Terminamos este tópico importante com “o sonho da Papa Francisco”, expresso na


Evangelii Gaudium:
“Uma renovação eclesial inadiável. Sonho com uma opção missionária capaz de
transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura
eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-
preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender
neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária
em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais
em atitude constante de “saída” e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem
Jesus oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceânia, “toda a
renovação na Igreja há de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de
introversão eclesial”.

5. Por que células paroquiais?

O Sistema de Células Paroquiais de Evangelização – SCPE – acontece na paróquia, que é


“a Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e de suas filhas”. Mas a paróquia precisa de
novo impulso para enfrentar a realidade atual. O Cardeal George Basil Hume disse, com ousadia,
mas eficácia: “A paróquia é um gigante adormecido”. Assim, o ambiente ideal para o
nascimento e o desenvolvimento das pequenas comunidades é a paróquia, para que seja
vivificada e renovada pela nova evangelização das CPEs. Por isso, o SCPE visa promover nos
seus destinatários um maduro sentido de pertença à paróquia, e uma profunda comunhão e
colaboração com todos membros da comunidade paroquial, visando que todos venham
desenvolver a tarefa de evangelizar.
A experiência tem mostrado que as CP se adaptam a todo ambiente, ricos ou modestos, na
Amazônia e na Europa. A Igreja Católica tem, portanto, na presença generalizada da paróquia,
um potencial universal extraordinário para a “Nova Evangelização”. Como a evangelização é
essencial para a paróquia, o pároco está no núcleo do SCPE, com a corresponsabilidade de outros
sacerdotes e dos leigos.

6. Por que pequenos grupos?

A importância do pequeno grupo como lugar de crescimento e vivência da fé é salientada


pelo Catecismo, quando dá grande valor à Igreja Doméstica, no item 1655:
“Cristo quis nascer e crescer no seio da Sagrada Família de José e de Maria. A Igreja outra coisa
não é senão a «família de Deus». Desde as suas origens, o núcleo aglutinante da Igreja era,
muitas vezes, constituído por aqueles que, «com toda a sua casa», se tinham tornado crentes».
Quando se convertiam, desejavam que também «toda a sua casa» fosse salva. Estas famílias, que
passaram a ser crentes, eram pequenas ilhas de vida cristã no meio dum mundo descrente.”
Hoje, a ideia dos pequenos grupos para renovar paróquias tem sido muito defendida na Igreja.
Trata-se das comunidades a que Paulo VI já se refere na Evangelli Nuntiandi n.58: “Essas
comunidades serão um lugar de evangelização, para benefício da comunidade maior,
especialmente as igrejas, e esperança para a Igreja universal”. Os pequenos grupos também se
inscrevem no dinamismo da renovação da paróquia descrito por São João Paulo II em
“Christifideles laici”, nos n. 26-27, e no Documento de Aparecida e na Evangelii Gaudium.
Karl Rahner disse: “A Igreja existirá somente renovando-se continuamente através da livre
decisão de fé e da formação comunitária do indivíduo no meio de uma sociedade secular não a
priori mergulhada no cristianismo”. Homens e mulheres, em comunhão e apaixonados por Jesus
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e motivados pela evangelização, podem transformar uma comunidade de batizados desmotivada


e ausente em uma “Paróquia em chamas”! Assim, a CPE pode ser um instrumento de renovação
da vitalidade da paróquia: um pequeno grupo de pessoas em relação fraterna, que procura fazer
discípulos e evangelizar, e desempenhar seu ministério através de sua relação quotidiana – e em
constante multiplicação. Nessas pequenas comunidades que se reúnem nas casas deve acontecer
um processo simples e eficaz de discipulado, despertando seus membros para uma vivência
concreta da Eucaristia e para a missão, conforme o importantíssimo protagonismo dos batizados,
assim enunciado no Catecismo, n. 900: “Porque, como todos os fiéis, são por Deus encarregados
do apostolado, em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm o dever e gozam do
direito, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina
da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra. Este dever é ainda
mais urgente quando só por eles podem os homens receber o Evangelho e conhecer Cristo. Nas
comunidades eclesiais, a sua ação é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não
pode, a maior parte das vezes, alcançar pleno efeito.”
Algumas vantagens do pequeno grupo:
 É flexível, versátil e abrangente;
 É pessoal;
 É um meio de evangelização eficiente;
 Requer menores exigências e requisitos para a liderança.

7. Por que nas casas?

A evangelização pelo SCPE reproduz a do início da Igreja, que se reunia no Templo e nas
casas, conforme o livro de Atos: “Diariamente, todos frequentavam o Templo, partiam o pão
pelas casas e, unidos, tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a
Deus e eram estimados por todo o povo. E, cada dia, o Senhor acrescentava ao seu número mais
pessoas que seriam salvas” (At 2,46-47). Outro versículo dos Atos sintetiza o estilo de vida da
Igreja primitiva: “E, todos os dias, unidos, no pátio do Templo e de casa em casa, eles
continuavam a ensinar e a anunciar a boa notícia a respeito de Jesus, o Messias” (At 5, 42).
Bento XVI comenta: “São mencionados dois lugares de vida da Igreja nascente: para a
pregação e a oração, reúnem-se na Templo, que continua a ser considerado e aceito como a casa
da Palavra de Deus e da oração; por sua vez, a fração do pão – o novo centro “cultual” da
existência dos fiéis – tem lugar nas casas como lugares da assembleia e da comunhão graças ao
Senhor ressuscitado” (Bento XVI: Jesus de Nazaré, vol II). As casas eram assim Igreja e local de
evangelização, o que possibilitou uma grande penetração no mundo e crescimento da Igreja, pois
cada cristão e cada casa era um polo evangelizador. Com as perseguições e a destruição do
Templo, foi somente nas casas que se baseou a extraordinária sobrevivência e difusão do
cristianismo, até a conversão de Constantino, no século IV. Hoje, no mundo, prática e novamente
pagão, esse retomar a estratégia inicial da Igreja “nas casas” e no Templo se mostra inspiração
do Espírito! Note-se a grande característica inicial – ela conta com o leigo assumindo
protagonismo na missão de discípulo evangelizador.
Outra grande vantagem da “Igreja que se reúne nas casas” é que ela torna palpável, visível
e real a Fé vivida pelos cristãos em sua vida. Trata-se de um testemunho vivo e visível – e é isto
o que mais evangeliza, conforme Paulo VI. Ali se poderá “ver” e “saborear” a Boa Nova de
Cristo, tornando-se também escola de discípulos que vivem a Fé, a Esperança e o Amor mútuo,
em Cristo! Não há nas Células, “nas casas”, apenas o Anúncio, mas a Fé “encarnada”, concreta,
que gera uma comunhão feliz e fecunda!
Fonte: internet

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