Literatura na escola - 8º ano: conto de Clarice Lispector

Bloco de Conteúdo Língua escrita Conteúdo Leitura Mais sobre Literatura Literatura na escola - 6º ano • • • • • • • • • Critérios para a escolha dos livros 1 - Contos de Drummond 2 - Narrativas de Graciliano Ramos 3 - Contos de José J. Veiga 4 - Poemas de Paulo Leminski 1 - Crônicas de Luís Fernando Veríssimo 2 - Contos de Edgar Allan Poe 3 - Poemas de Manuel Bandeira 4 - Romance de José J. Veiga

Literatura na escola - 7º ano

Literatura na escola - 8º ano • 1 - Conto de Clarice Lispector Especial • TUDO SOBRE LEITURA Introdução Esta é a nona de uma série de 16 sequências didáticas que formam um programa de leitura literária para o Ensino Fundamental II. As sequências são publicadas semanalmente. Veja, ao lado, o conteúdo disponível para 6º, 7º e 8ºano. Confira, no final desta página, quais serão as demais aulas e quando serão publicadas. Objetivos Estimular o gosto pela leitura; Desenvolver a competência leitora; Desenvolver a sensibilidade estética, a imaginação, a criatividade e o senso crítico; Estabelecer relações entre o lido, o vivido ou o conhecido (conhecimento de mundo); Explorar a diferença entre o ponto de vista de um narrador em 3ª pessoa e o ponto de vista das personagens da trama narrativa; Perceber a importância da Forma literária. Conteúdos Sentido literal e sentido figurado; Paráfrase, hipótese, análise e interpretação; Ponto de vista (ou foco) narrativo; Forma literária.

Clarice Lispector morreu de câncer.Biografia Quando seus pais viajavam para o Brasil. Desenvolvimento 1ª aula: sondagem oral Pergunte aos alunos se eles já ouviram falar da escritora Clarice Lispector e se conhecem alguma obra por ela publicada. Três anos depois. Aos oito anos.jhtm 2ª aula: leitura compartilhada do conto “Uma galinha” .". Chegou a Maceió com dois meses de idade. um computador conectado à internet.br/biografias/ult1789u592. "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" e "Felicidade Clandestina". Fonte: http://educacao.Tempo estimado Cinco aulas Ano 8º ano Material necessário Livro Laços de família. Em 1960 publicou seu primeiro livro de contos. Em 1967 Clarice Lispector feriu-se gravemente num incêndio em sua casa. em 1976 recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal. radicou-se no Rio de Janeiro. da Academia Brasileira de Letras. e Clarice passou a frequentar o grupo escolar João Barbalho. Se possível. Conte a eles sua interessante biografia. Clarice Lispector nasceu a bordo de um navio. formando-se em 1943. considerado um marco na literatura brasileira. Rio de Janeiro. publicando contos. Trabalhou como redatora para a Agência Nacional e como jornalista no jornal "A Noite". Clarice Lispector escreveu o romance "A Maçã no Escuro" e começou a colaborar com a Revista Senhor. Dois anos depois. Francisco Alves. seu ultimo romance. Reconhecida pelo público e pela crítica. este último afilhado do escritor Érico Veríssimo. Nos anos 1970 Clarice Lispector ainda publicou "Água Viva". "Perto do Coração Selvagem". perdeu a mãe. 1990. Clarice Lispector ingressou na faculdade de Direito. transferiu-se com seu pai e suas irmãs para o Rio de Janeiro.uol. na véspera de seu aniversário de 57 anos. publicou "O Lustre". Em 1924 a família mudou-se para Recife. provocado por um cigarro. No ano seguinte. a escritora ganhou o Prêmio Graça Aranha. que foi adaptado para o cinema. O casal teve dois filhos. com quem viveria muitos anos fora do Brasil. com seus pais e duas irmãs. Sua carreira literária prosseguiu com os contos infantis de "A Mulher que matou os Peixes". com capa ilustrada por Henri Matisse.com. Pedro e Paulo. Separada de seu marido. H. "Laços de Família". como imigrantes vindos da Ucrânia. Casou-se em 1943 com o diplomata Maury Gurgel Valente. pelo conjunto de sua obra. seguido de "A Legião Estrangeira" e de "A Paixão Segundo G. Em 1956. Clarice Lispector . Clarice Lispector. "Via Crucis do Corpo" e "Onde Estivestes de Noite?". em 1985. Em 1939. No ano seguinte publicou "A Hora da Estrela". Em 1954 saiu a primeira edição francesa de "Perto do Coração Selvagem". Seu primeiro romance foi publicado em 1944. "A Imitação da Rosa".

Ao mesmo tempo. por isso deve ser curta e objetiva. Deixe que o próprio texto confirme ou desminta as hipóteses de seus alunos. afinal.Leia com a turma o conto “Uma galinha” e em seguida recolha as impressões gerais. equivocadas ou não. Não sabe nem por onde começar? Então vamos por partes: Em primeiro lugar. 2) Questão norteadora / Hipótese interpretativa Quando começamos a analisar um texto de ficção. Exemplos de questões norteadoras Por que. mas só são pertinentes as perguntas que nos ajudem a entender a obra em sua totalidade. Peça aos alunos que formulem hipóteses: Por que. como veremos a seguir. É um resumo do enredo. tempos depois. afinal. temos em mente uma idéia do que o conto significa. 3ª e 4ª aulas: análise literária Em aula expositiva dialogada. estamos buscando elementos para interpretá-lo. Exemplo O conto “Uma galinha” conta a história de uma família que escolhe uma galinha para o almoço de domingo. perguntar por que o pai colocou um calção de banho para subir no telhado de pouco serviria para entendermos o conto. As questões norteadoras fundamentais para a compreensão da narrativa de Clarice Lispector foram lançadas na aula anterior. lendo a sua questão. As hipóteses. tempos depois. investigue elementos do conto que sirvam para responder à sua questão norteadora. lhes tivesse pedido um resumo. servem como ponto de partida para uma análise minuciosa. . um “contar história com as suas próprias palavras”. o leitor dissesse “também não entendi” ou “não acho esta questão pertinente”. Inesperadamente. professor. uma hipótese interpretativa ou um elemento que nos deixou intrigados. a família desistiu de comer a galinha? E por que. É como se. Você vai analisar o conto. Quer dizer. a família desistiu de comer a galinha? E por que. que não leu. bota um ovo e a família desiste de comê-la. eles decidem comê-la? Em discussão coletiva. Depois de capturada. É importante formular questões para a obra literária. desde o início. perceba que as hipóteses escolhidas pela turma são frágeis. Análise do conto “Uma galinha” 1) Paráfrase A paráfrase é a primeira parte da análise. a galinha foge e tem de ser perseguida pelos telhados da vizinhança. e devolvidas em forma de hipóteses interpretativas. Passado um tempo. deve resumir-se apenas ao essencial. Ela corresponde à questão “o que fala o texto?”. analise o conto “Uma galinha” seguindo os procedimentos descritos abaixo. Ela conduz o leitor por meio de seu raciocínio. 3) Análise Agora chegamos ao corpo do trabalho. a galinha acaba por virar almoço. Depois eles decidem comê-la porque ela não está mais chocando ovo nenhum. Peça aos seus alunos que contem a história do conto como se um colega. não tente direcionar a discussão. eles decidem comê-la? Exemplo de hipóteses interpretativas: A família desistiu de comer a galinha porque percebeu que ela era agora necessária para dar vida ao ovo que ela chocava. Sua análise é o caminho para convencê-lo. A análise constrói argumentos que sustentem a interpretação. ATENÇÃO: Ainda que você. escolha com a turma as duas hipóteses que lhes parecerem mais pertinentes.

O que são “aspectos formais”? São elementos que se referem menos diretamente ao que está sendo dito e mais ao como está sendo dito.Em uma análise assim. é mais uma galinha entre todas as galinhas. exausta. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. abotoando e desabotoando os olhos.” Diante de tal fato. Com alguma dificuldade. que a narrativa oscila entre a humanização e a animalização da galinha. o espaço e o tipo de discurso são alguns dos elementos formais que podem ser fundamentais ao desvendar o mistério. Nem ela própria contava consigo. Parecia calma. nem triste.Mas não podemos nos esquecer também de que. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. é preciso ressaltar a contribuição que alguns aspectos formais possam vir a ter na economia do conto. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. às vezes tem seus anseios. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando. a caracterização de algum personagem. Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. mas também é uma jovem parturiente. nascida que fora para a maternidade. ninguém olhava para ela. na fuga. parecia uma velha mãe habituada. Releia com a turma os seguintes trechos para que fique clara tal ambivalência: Era uma galinha de domingo. não souberam dizer se era gorda ou magra. em sua forma. ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!” Note o uso de citações de trechos do conto. Exemplo resumido de análise O conto começa apresentando a galinha já como almoço: “Era uma galinha de domingo. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. E então parecia tão livre. que na verdade foram separados artificialmente. Surpreendida. É preciso reunir forma e conteúdo. é um nada. ora ela é estúpida. ela corria. Não olhava para ninguém. surpreendentemente ela foge para o telhado. Mas logo depois. O tipo de narrador. O dono da casa começa então a persegui-la como quem persegue o próprio almoço. para podermos responder às questões norteadoras e chegar a uma interpretação. apalpando sua intimidade com indiferença. Sozinha no mundo. o rapaz a alcança e a despeja no chão da cozinha. Esquentando seu filho. não é difícil perceber o que. Quanto mais a análise der voz ao texto. era uma galinha. tão próxima da paráfrase. Por exemplo. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. melhor. como o galo crê na sua crista. Às vezes ela é uma galinha de domingo. forma é conteúdo. mas é também um ser. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. esta não era nem suave nem arisca. Mas. não mate mais a galinha. no domingo. ora tímida e livre. mamãe. pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. fazendo com que o narrador da história reconheça nela um anseio pela vida. . Isso não só é possível como geralmente traz um bom resultado.” Como animal irracional que era. De pura afobação a galinha pôs um ovo. concentrada. Estúpida. Mesmo quando a escolheram. em arte. Por isso. arfava. a menina pede à mãe: “ – Mamãe. muda. Se conseguirmos ter uma boa questão (que se refere mais ao conteúdo do conto) e ainda um olhar atento no que se refere à forma. tímida e livre. pouco ainda se pode interpretar. nem alegre. Nunca se adivinharia nela um anseio. a galinha passava despercebida pelos habitantes da casa desde sábado. Às vezes. sem pai nem mãe. o tempo. Se você observar bem o conto escolhido. Talvez fosse prematuro. então já é possível traçar um caminho seguro pelo qual nossa análise pode seguir. lhe chama mais atenção. não era nada. “Foi então que aconteceu. Existem inúmeros elementos passíveis de análise em um bom conto.

Uma vez ou outra. Se na análise desmontamos o texto em partes. a galinha/mãe/mulher gostaria muito de não ter o sentido de sua vida reduzido à maternidade. ela volta a ser vazia de sentido. sempre mais raramente. estúpida. o olhar do narrador e o da família confluem: todos personificam o animal. queremos saber o que está dito pelos silêncios. resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho. . que cada aluno escolha o conto de sua preferência e formule. Enquanto o narrador percebe nela “um anseio”. enchia-se de uma pequena coragem. no descanso. lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado. prestes a anunciar. se ela deseja a vida ou a liberdade. Para a família.4) Interpretação A interpretação corresponde à questão “do que fala o texto”. pausado como num campo. Não quer (ou não ousa) cantar como o galo (ou cantar de galo).” Se observarmos bem o conto. ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. o narrador sonda a intimidade da galinha tentando descobrir se há algo nela que lhe confira o estatuto de ser. ela é coisa: almoço. No entanto. mas ficaria feliz em saber que pode. o que se origina da relação íntima entre forma e conteúdo.youtube. Ela é a exposição do sentido profundo do conto. um todo que reúne forma e conteúdo. podemos notar que. o corpo avançando atrás da cabeça. Se possível. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e. para ele. É a maternidade que confere à galinha o estatuto de ser. com o velho susto de sua espécie já mecanizado. Finalmente. quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha. e longe de qualquer reflexão igualitária sobre a condição feminina. há uma diferença entre o olhar do narrador e o olhar da família sobre a galinha. volta a se confundir com os objetos da casa. desde o início. a galinha é menos que um bicho. na interpretação temos de reorganizá-lo como um todo. vendo nela “uma velha mãe habituada”. peça. a ter sentimentos humanos a ela atribuídos.com/watch?v=OFguEGJ5bww Avaliação Depois de lidos os outros contos do livro. nas entrelinhas. “Até que um dia mataram-na. o narrador projeta nela os dilemas da condição feminina. se fosse dado às fêmeas cantar. E é ele que estamos buscando desde o início. Enquanto a última vê o animal apenas como almoço. alheios à personificação da galinha promovida pelo narrador. A galinha. Quando analisamos. os membros da família. comeram-na e passaram-se anos. o pai vê “o almoço” subir no telhado. Quando a galinha bota um ovo. Todos os da casa desistem de comê-la e a galinha passa a morar junto com a família. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. como lição de casa. até então vista pelos personagens apenas como um almoço. assista com a turma a animação de Rafael Aflalo: http://www. Enquanto isso. uma questão norteadora e uma hipótese interpretativa. “Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido. “mataram-na. embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil. a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.” 5ª aula: releituras Há no site YouTube inúmeras releituras deste conto. Já o narrador procura saber se ela pode ser mais do que bicho ou coisa.” Na projeção do narrador (narradora?). passa a ser personificada. comeram-na e passaram-se anos. Na fuga. que ser é esse? Fora da função reprodutiva.

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