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INTRODUÇÃO: UM RÁPIDO PREÂMBULO

Assim que entrei na faculdade de Astronomia, já no primeiro período, quando foi


solicitado que se apresentasse um trabalho de tema livre no final do curso de Introdução à
Astronomia Moderna, não pensei duas vezes: escolhi “A História da Astronomia”. Não escrevi
sobre algo específico, mas sim bem abrangente, o que fez com que o nível do meu trabalho
ficasse bastante aquém do que eu gostaria, apesar de ter recebido a nota máxima do bondoso e
saudoso professor da disciplina. Todo esse rigor em minha auto-análise tem um motivo: qualquer
texto que procure falar da História da Astronomia como um todo acaba ficando incompleto, pois
como uma das ciências mais antigas (se não a mais antiga), seria necessário um espaço (ou um
tempo) do tamanho de sua história para contá-la.
Desta forma, fica evidente que esse não é um tema simples de se abordar. Muito pelo
contrário, qualquer pessoa que se aventure nesta jornada está fadada a críticas, ora por não
conseguir mencionar tudo relativo ao tema (por opção ou desconhecimento), ora por exprimir
opiniões pessoais que acabam por distorcer o conteúdo imutável da história, propagando tal
deturpação de forma que, mais à frente, aquilo se torne uma “verdade” para os menos
familiarizados com o assunto. E aqui não me refiro mais apenas às pesquisas abrangentes. As
específicas, às vezes, também sofrem com esses problemas, o que acarreta um certo preciosismo
(exacerbado ou não) dos leitores mais entendidos. Devo confessar que eu mesmo tenho uma leve
tendência de ser rigoroso com alguns autores quando identifico algum deslize histórico, ou uma
opinião descabida que possa gerar alguma confusão com a realidade.
Curiosamente, tudo isso acaba servindo de estímulo para os historiadores da ciência, que
cada vez mais se aprofundam no material original produzido pelos cientistas antigos (as
chamadas fontes primárias), disponibilizado pelas grandes universidades e bibliotecas do mundo,
às vezes até digitalmente. A intenção é analisar os dados obtidos de acordo com a época em que
foram produzidos. Assim, é possível mostrar o contexto em que determinadas descobertas foram
feitas, conferir os créditos àqueles que realmente merecem, mas, principalmente, apresentar os
fatos exatamente como eles ocorreram.
Atualmente nos defrontamos com belos trabalhos publicados na forma de livros e artigos
de revistas, ambos direcionados ao público leigo, que esclarecem questões que por décadas,
séculos, ou até mesmo milênios, confundiram e atormentaram os pesquisadores.
Bem, levando em consideração tudo o que escrevi até agora, posso afirmar
categoricamente que meu papel é bastante ingrato, visto que esse curso é deveras limitado,
diferentemente da maior parte das histórias que serão abordadas. Portanto, tenho que sintetizar as
informações, tentando trazer sempre fatos relevantes e novos (na medida do possível, já que o
tema é história). Porém, vez ou outra, estarei fadado ao lugar comum das informações que
muitos já conhecem, mas que não podem faltar, pois comprometeriam a coerência do texto como
um todo.
Assim, aproveito essa introdução para deixar clara a premissa desta apostila para todos
aqueles que apreciam a História da Astronomia. O texto aqui presente dificilmente será auto-
suficiente, principalmente para aqueles que buscam riquezas de detalhes (e falo com
conhecimento de causa, pois, no papel de leitor, eu sou um desses). Por isso, sugiro aos mais
interessados a tomá-lo como ponto de partida para um estudo mais profundo, e ao final da
apostila está disponível uma relação de referências bibliográficas, a fim de tentar facilitar sua
pesquisa. Espero que este texto inspire a todos a se enveredar ainda mais pelos belos e sinuosos
caminhos da História da Astronomia.
CAPÍTULO 1: PRÉ-HISTÓRIA E ANTIGUIDADE

PRIMEIRAS OBSERVAÇÕES ASTRÔNOMICAS REGISTRADAS


Algumas pessoas costumam afirmar que a astronomia é a mais antiga das ciências. Sem entrar
neste mérito, até porque essa discussão pode render mas é inconclusiva, é possível dizer que a
observação dos astros foi de extrema importância para nossos antepassados. Obviamente, não
bastava apenas observar os astros. A relação descoberta entre ciclos celestes e ocorrências
sazonais ligadas à natureza permitiram um avanço impressionante para os povos antigos, como
veremos mais à frente.
Registros que remetem a este tipo de observação são encontrados em algumas condições
bastante peculiares, como no osso de animal descoberto em Abri Blanchard, ou em pinturas
rupestres encontradas numa caverna em Lascaux, sendo ambas as localidades na França. Muitos
estudiosos acreditam que tratam-se de calendários lunares primitivos, o primeiro com cerca de
30 mil anos, e o segundo com aproximadamente 20 mil anos. Estes registros são de grande
importância, pois mostram o quanto o conhecimento acerca das fases lunares já era relevante
naqueles tempos remotos.

Figura 1 – (a) Osso de Abri Blanchard com registros que parecem indicar uma sequência de fases lunares
referentes ao intervalo de duas ou mais lunações; (b) Pintura rupestre que remete aos primeiros 14 dias de
fases lunares com o subsequente “desaparecimento” da Lua (quadrado à esquerda) na fase Nova.

Ainda mais importante que esses registros, foi o sítio montado para ser um misto de
observatório e calendário, conhecido como Stonehenge (que significa “pedra pendurada”). Esta
construção fica no sul da Inglaterra e a partir de algumas posições específicas que se ocupasse
em relação às pedras lá dispostas, era possível se obter informações a respeito de determinadas
épocas do ano como, por exemplo, os dias de equinócios e solstícios.
Segundo estudos arqueológicos, esse monumento levou aproximadamente 1500 anos para
ser construído, num processo que teve várias fases distintas. Seu início teria sido por volta de
3100 AEC1, e sua construção parece ter sido abandonada em 1600 AEC, aproximadamente. Já
foram descobertos mais de 100 alinhamentos astronômicos entre as pedras lá dispostas, e
especula-se que era possível até prever eclipses utilizando-os. Essas informações indicam que tal
construção megalítica funcionava como uma espécie de efeméride astronômica. Atualmente,
Stonehenge apresenta-se diferente do que se imagina que foi um dia, mas mesmo assim seu
“conteúdo astronômico” permanece riquíssimo.

Figura 2 – Stonehenge com o que pode ser um alinhamento significativo do Sol.

IMPULSO À CIVILIZAÇÃO
Afirmar que a Astronomia desempenhou um papel fundamental no nascimento das primeiras
cidades causa um certo estranhamento inicial. Porém, sua contribuição foi inestimável para que
tal fato ocorresse. Foi o conhecimento astronômico adquirido até então que permitiu aos povos
antigos exercerem outras atividades que não fossem relacionadas à agricultura. E esse foi um
grande passo para o surgimento das cidades, principalmente se levarmos em conta a declaração
do arqueólogo Mark Patton, em um artigo publicado na revista Science (novembro de 1998):
1
AEC é a abreviação de “Antes da Era Comum”, notação que vem substituindo o mais usual a.C., antes de Cristo. O
marco zero da Era Comum é o mesmo da Era Cristã. Como hoje sabemos que a data do nascimento de Jesus Cristo
foi calculada com erro pelos primeiros cronologistas, se continuássemos usando as expressões “antes de Cristo” e
“depois de Cristo”, acabaríamos escrevendo frases aparentemente absurdas, como, por exemplo, “Jesus Cristo
nasceu no ano 7 antes de Cristo”. Nesta apostila, quando as datas não forem seguidas pelas letras AEC, isso
significa que elas já pertencem à Era Comum.
“uma característica imprescindível para definirmos uma cidade é que não há fazendeiros vivendo
nela”. Alguns de seus colegas discordam desta visão (algo que não surpreende já que até hoje
não existe uma definição amplamente usada de cidade), mas, ainda assim, vamos tomar essa
ideia como ponto de partida e tentar interpretar o comportamento dessas primeiras civilizações.
No princípio, os homens antigos agiam basicamente por instinto: eram caçadores e
coletores nômades. Com o tempo, seu comportamento foi evoluindo até que passaram à prática
agrícola. A partir desse momento, eles começaram a criar assentamentos ao redor de suas
plantações, de forma a proteger sua produção de saqueadores. Assim surgiram os primeiros
vilarejos (ou vilas), com base, principalmente, na agricultura. Alguns exemplos desses
assentamentos permanentes são Jericó, na Palestina, possivelmente o mais antigo de todos com
cerca de 10 mil anos, e Çatalhöyük (pronuncia-se chah-tahl-HU-yook), na Turquia, com
aproximadamente nove mil anos de existência.2
Entretanto, foi quando esses povos começaram a notar a regularidade entre os períodos
cíclicos apresentados por alguns astros, que o rumo das coisas mudou. Monitorando seus
movimentos e suas posições, foram capazes de associar a eles alguns fenômenos sazonais que
ocorriam na natureza ao seu redor. Foi este princípio que deu origem ao calendário. E foi assim
que nossos antepassados passaram a ter um controle maior sobre a atividade agrícola. Tentem
imaginar o salto sofrido por essa produção quando os agricultores começaram a interpretar
corretamente qual era a melhor época para plantar, o período ideal para cultivar determinado
alimento, e também qual seria o melhor momento de colhê-los.
Desta forma, os produtores que anteriormente trabalhavam para manter uma quantidade
mínima necessária para a sua subsistência e, eventualmente, de sua família, começaram a
produzir além da sua cota. Esse excedente passou a ser comercializado, o que possibilitou o
êxodo rural, ou seja, algumas pessoas deixaram de trabalhar no campo, já que podiam obter
alimentos sem a necessidade de produzi-lo, e formaram as primeiras cidades (pela definição de
Patton). A partir daquele momento, elas puderam se dedicar a outros ofícios mais voltados para a
arte ou para a religião, por exemplo. E foi assim que essas e outras áreas começaram a ganhar
espaço entre as primeiras civilizações, sendo uma delas a própria astronomia.
É provável que a primeira cidade tenha surgido na Mesopotâmia há cerca de cinco mil
anos. A maioria dos que defendem esta tese afirma que Uruk foi o primeiro centro urbano da
história, isto é, livre de áreas agrícolas. Um grupo menor acredita ter sido Ur a primeira cidade.
Independentemente de qual delas tenha essa prioridade, vale ressaltar mais uma vez a

2
Em relação a este último, ainda é cedo para se afirmar muitas coisas, pois trata-se de um sítio arqueológico
encontrado em 1958 e muito pouco explorado até então, embora alguns estudiosos relatem que este é o maior
povoado neolítico conhecido.
contribuição da astronomia para os povos antigos poderem caminhar rumo à Civilização, visto
que, por definição, civilizações são os povos que habitam as cidades.
Como eu mencionei antes, mesmo atualmente, não existe uma forma padronizada para se
definir o que é cidade. Em alguns países depende da quantidade de habitantes, em outros, como o
Brasil, depende da existência de uma sede municipal. Contudo, o que vale destacar é que sem a
astronomia a evolução da sociedade poderia ter sido retardada por um bom tempo.

A ASTRONOMIA NA MESOPOTÂMIA
Por cerca de três mil anos a região conhecida como Mesopotâmia, palavra de origem grega
(meso + potos) que quer dizer “entre rios”, posto que se situava entre os rios Tigre e Eufrates, foi
ocupada por vários povos que tornaram aquela área o berço da astronomia moderna. Sumérios,
acadianos, amoritas (do primeiro Império Babilônio), assírios e caldeus (do segundo Império
Babilônio), há cinco mil anos, aproximadamente, foram os principais habitantes dessa região que
se localizava onde hoje é o Iraque.
Essas civilizações foram responsáveis por avanços nas mais diversas áreas do
conhecimento, como, por exemplo, a matemática, a arquitetura, a agricultura, o direito, além da
astronomia, obviamente. Eles desenvolveram ainda o método de escrita cuneiforme, cujos
caracteres eram impressos em tabletes de argila mole com estiletes. Ao final deste processo, tais
registros eram guardados e os que resistiram ao tempo fazem parte do acervo que permitiu o
estudo dessas tábuas, a fim de desvendar os saberes daqueles povos.
No que diz respeito ao seu conhecimento matemático, eles tinham um grande talento
aritmético, e foram capazes de aplicá-lo aos seus estudos celestes, algo que lhes proporcionou
uma precisão muito boa para a época em suas previsões. Utilizavam o sistema numérico
sexagesimal, que é, inclusive, um de seus legados, pois em nossas principais medições de tempo
ainda usamos essa base (a hora dividida em 60 minutos, bem como a divisão desses minutos).
Sua contribuição na astronomia veio da motivação em se conhecer bem o que acontecia
no céu. E esta estava associada a uma necessidade de medir com boa precisão o tempo de uma
forma geral, e também construir presságios para o futuro. Para isso, aproveitavam sua habilidade
em identificar padrões, já que existem diversos deles nos movimentos dos astros.
O primeiro registro escrito com o nome de um objeto celeste data de cerca de 2500 AEC:
Mul-Mul (“estrela”, para os sumérios), e acredita-se que foi feito em alusão ao aglomerado
estelar atualmente conhecido como Plêiades, localizado na constelação do Touro. Já o primeiro
registro observacional conhecido do planeta Vênus realizado por este povo data do século XVII
AEC. Com os dados que eles obtiveram foi possível calcular o período sinódico do planeta como
sendo de 587 dias (valor extremamente próximo ao atual que é de 583,92 dias).
Figura 3 – Tábua com informações bastante precisas sobre o planeta Vênus (séc. XVII AEC).

Entre os séculos XVII e XI AEC, houve um salto significativo na quantidade de registros


feitos em tábuas de argila ou ainda em selos cilíndricos. Um dos textos mais famosos é o Enuma
Anu Enlil (que significa “No tempo de Anu e Enlil”, uma referência a dois dos três deuses mais
importantes dos sumérios). Alguns historiadores acreditam que o rei Babilônio Nabucodonosor I
foi quem redigiu as informações ali contidas, e que posteriormente teriam sido copiadas para
outras tábuas. Mais de sete mil observações foram registradas sobre fenômenos celestes (nascer
de estrelas, conjunção de planetas etc.).
Uma prática relativamente comum neste mesmo período, e que merece destaque por ter
ajudado os estudiosos a reconhecer as imagens de algumas constelações clássicas, era a
representação desses agrupamentos em pedras chamadas kudurru (“fronteira, território”, em
acadiano). Esses marcos eram uma espécie de escritura que transferia o direito de posse sobre
uma propriedade para uma pessoa ou um grupo de pessoas, e que recebia as figuras das
constelações como forma de garantia de autenticidade.

Figura 4 – Kudurru. É possível identificar na pedra a imagem do Sol, da Lua, e de algumas constelações.
Durante o período em que os assírios dominaram a Mesopotâmia, grande parte do
conhecimento acumulado até então foi reunido na biblioteca de Assurbanipal, localizada na
cidade de Nínive, no século VII AEC. Uma das principais peças desse acervo eram as tábuas
Mul Apin (o prefixo, como já vimos, quer dizer “estrela”, e acompanhava todos os nomes de
constelação, e a segunda palavra significa “o arado”, e se refere ao asterismo formado pelas sete
estrelas mais brilhantes da constelação boreal hoje chamada de Ursa Maior). Esse registro
histórico era uma espécie de almanaque astronômico que foi bastante reproduzido naquela época,
e trazia um resumo da astronomia mesopotâmica do primeiro milênio AEC (alguns autores
especulam que, pela posição dos astros no céu ali descrito, os dados presentes nessa tábua são de
1100 AEC, aproximadamente). Muitas constelações que usamos ainda hoje estão presentes nas
Mul Apin, dentre elas, várias zodiacais. Como o calendário utilizado por aqueles povos era
lunissolar, baseado nas posições do Sol e na trajetória da Lua, 16 constelações ocupavam a faixa
da eclíptica.

Figura 5 – Mul Apin.

Posteriormente, no século VI AEC, sob o reinado de Nabucodonosor II, esse número foi
reduzido para 12, visto que essa era a quantidade de lunações (intervalo que deu origem à
definição de “mês”) que ocorria em um ano solar. Algumas dessas constelações permanecem
com o mesmo nome até hoje: O Agricultor (Carneiro), Touro Celeste (Touro), Pastor Celeste e
Os Gêmeos (Órion + Gêmeos), O Caranguejo (Caranguejo), O Leão (Leão), A Espiga (Virgem),
A Balança (Balança), O Escorpião (Escorpião), O Arqueiro (Sagitário), A Cabra-Peixe
(Capricórnio), O Grande (Aquário), As Caudas de Peixes (Peixes).
Como se pode notar, as civilizações que habitaram a Mesopotâmia na Antiguidade nos
deixaram um imenso legado, do qual muitas coisas foram aproveitadas integralmente. Veremos
mais adiante que esse conhecimento foi bastante difundido entre os povos gregos, egípcios e
romanos que adotaram diversas maneiras de enriquecer ainda mais esse acervo, sem alterar suas
bases.

ASTRONOMIA EGÍPCIA
A astronomia no Egito não se desenvolveu tanto, mas alguns pontos merecem ser destacados,
tendo em vista que eles usaram esta ciência como ferramenta de forma bastante interessante.
Uma estrela tinha particular importância para os egípcios: Sirius (a estrela mais brilhante do céu
noturno, localizada na constelação do Cão Maior). Esta estrela, chamada por eles de Sothis,
quando fazia sua primeira aparição no céu junto ao Sol, fenômeno este conhecido como “nascer
helíaco”, marcava o início do ano para os egípcios, e indicava o início da época de cheia do Rio
Nilo. Este período era de suma importância para este povo, pois a cheia tornava os vales do Nilo
férteis e ideais para a atividade agrícola, ou seja, mais uma vez a relação entre ciclos celestes e
fenômenos naturais sazonais foram bem identificados e utilizados em favor de uma civilização.
Uma outra forma de se perceber o quanto os egípcios estavam familiarizados com a
astronomia é notando o quanto as bases das três principais pirâmides construídas em Giza são
bem orientadas. Cada vértice das bases aponta para um ponto cardeal de maneira bastante
precisa. A maior das três, conhecida como pirâmide de Quéops (batizada em homenagem ao
faraó egípcio de mesmo nome), ou simplesmente chamada de Grande Pirâmide, é a mais antiga
das sete maravilhas do mundo antigo (e a única que permanece ainda de pé), e levou cerca de 20
anos para ser construída, em meados do século XXV AEC. De acordo com alguns egiptólogos,
eventos importantes como o solstício de junho (início do verão para eles) ou os equinócios
poderiam ser indicados de alguma forma na pirâmide, provavelmente através de projeções de
raios solares nestes dias especiais numa câmara interna.
Além disso, alguns desses estudiosos acreditam que todas aquelas maravilhas
arquitetônicas da região (as três pirâmides e a esfinge) foram inspiradas pelo céu. Segundo eles,
as três pirâmides de Giza corresponderiam ao Cinturão de Órion (conhecido popularmente como
“Três Marias”), e a esfinge representaria a constelação do Leão. A faixa esbranquiçada no céu
conhecida como Via Láctea seria o Rio Nilo naquilo que parecia ser um reflexo na Terra desses
agrupamentos estelares.
Figura 6 – Esfinge com duas das três pirâmides de Giza ao fundo.

Outra evidência do interesse dos egípcios pela astronomia foi encontrada no teto de um
templo em Dendera, próximo a cidade de Luxor, conhecido como “Zodíaco de Dendera”. Trata-
se de uma espécie de carta celeste que deve ter sido produzida aproximadamente em 50 AEC.
Nela podem ser identificadas as constelações zodiacais, os cinco planetas visíveis a olho nu,
constelações boreais, e até mesmo registros eclipses (provavelmente um lunar e um solar). As
quatro deusas que sustentam de pé o círculo representam os pontos cardeais. Muitas das
constelações registradas no Zodíaco de Dendera estão representadas na forma que conhecemos
atualmente, mostrando que a herança assíria foi aproveitada em parte (cabe destacar que a esta
altura houve também influência dos gregos).

Figura 7 – Zodíaco de Dendera.


Os egípcios se destacaram ainda pela construção de um calendário bastante elaborado,
tendo em vista que se baseava na posição de uma estrela (Sírius, conforme já foi dito). Tal fato
tornava a precisão deste calendário muito boa, a ponto de ter servido de base para o Calendário
Juliano, que é o antecessor do atualmente vigente, o Gregoriano.

A ERA DE OURO DA ASTRONOMIA


Enfim, chegamos à Grécia, palco do ápice da astronomia na Antiguidade. Entre os séculos VII
AEC e III da Era Comum, uma grande safra de astrônomos gregos elevou o nível do
conhecimento humano acerca desta ciência de forma somente superada no Renascimento. Foi,
sem dúvida alguma, um momento singular da História, no qual muitas ideias hoje sedimentadas
tiveram origem e puderam ser desenvolvidas.
No início, os gregos faziam o mesmo uso da astronomia que seus antecessores e
contemporâneos: basicamente, medir o tempo a fim de conhecer bem a relação entre a posição
de alguns objetos celestes e constelações com determinados fenômenos sazonais. Os primeiros
registros escritos desse povo evidenciam esta característica, como os grandes épicos dos poetas
Homero (A Ilíada e A Odisséia, produzidos por volta do século VIII AEC) e Hesíodo (Os
Trabalhos e os Dias, escrito provavelmente no século VII AEC). Nestas obras, podem-se
encontrar facilmente várias destas relações identificando os principais astros e agrupamentos, e
os períodos do ano que eles marcavam, por exemplo, a época do plantio ou o melhor momento
para navegar. As referências astronômicas mais comuns nesses livros eram as constelações do
Órion e da Ursa Maior, os aglomerados estelares Plêiades e Híades (ambos na constelação do
Touro), e as estrelas Sirius e Arturus (da constelação do Boieiro).
Boa parte das constelações adotadas pelos gregos foi herdada dos mesopotâmicos, bem
como alguns de seus mitos. Obviamente, neste processo de intercâmbio cultural, algumas
adaptações foram feitas para adequar certos grupos com a mitologia grega, esta talvez,
juntamente com a romana, a mais famosa dentre todas. Os planetas foram batizados com nomes
de deuses do panteão grego, sendo posteriormente substituídos por seus correspondentes na
mitologia romana, permanecendo assim até hoje. Além disso, muitas histórias de sua cultura
foram reproduzidas em outros agrupamentos, como é o caso da lenda de Andrômeda e Perseu,
que envolve diversas constelações boreais.
Para enfatizar ainda mais a importância que a astronomia teve durante a hegemonia
grega, vale destacar a criação de uma “musa” para esta ciência, visto que as principais atividades
desenvolvidas na época tinham musas que as representavam. Totalizando nove, eram elas:
Calíope, a de bela voz (musa da poesia épica); Clio, a proclamadora (musa da história); Érato, a
amável (musa da poesia romântica); Melpômene, a poetisa (musa da tragédia); Euterpe, a
doadora de prazeres (musa da música); Terpsícore, a rodopiante (musa da dança); Polímnia, a de
muitos hinos (musa da poesia sacra); Tália, a que faz brotar flores (musa da comédia); e Urânia,
a celestial (musa da astronomia).
Mas os gregos estavam longe de estabelecer apenas uma relação mítica e religiosa com os
astros. Foi a partir deles que análises sistemáticas e quantitativas começaram a ser realizadas e
aplicadas em astronomia. O avanço matemático empreendido por eles foi essencial para o
desenvolvimento astronômico como veremos adiante.

OS PRÉ-SOCRÁTICOS
Algo que deve ser discutido antes de começarmos as apresentações formais dos personagens
gregos é como devemos nos referir a eles. Todos aqueles que forem citados aqui, de alguma
forma deram sua contribuição para a Astronomia, portanto podemos considerá-los astrônomos,
sem problemas. Naquele tempo, ser astrônomo era exercer uma função técnica, pois estes se
limitavam a realizar observações e elaborar teorias cosmogônicas. Alguns autores costumam
chamá-los mais genericamente de cientistas, pois geralmente consideram que foi na Grécia
Antiga que a prática científica teve origem (uma discussão aberta ainda nos dias de hoje, pois
existe uma outra vertente que defende que a ciência só “surge” com o método científico).
Porém, é muito mais comum encontrarmos referências que os rotulam de filósofos (ou
filósofos naturais, posto que estes seriam verdadeiras autoridades no estudo da natureza).
Filósofo é uma palavra de origem grega que quer dizer “amante da sabedoria”, e acredita-se que
foi utilizada pela primeira vez por Pitágoras para se referir a si mesmo. Antes desta definição,
estudiosos com este perfil eram chamados de sofistas, que em grego quer dizer “sábio”, e
posteriormente passou a ter um sentido pejorativo, sendo usado principalmente para se referir a
impostores.3
Podemos concluir, então, que naquele tempo todo astrônomo, de certa forma, era filósofo,
embora o inverso não valha diretamente. De qualquer maneira, para o nosso caso, tanto
“astrônomo” como “filósofo” serão os adjetivos utilizados a partir de agora.
Diz-se que a filosofia ocidental foi inaugurada por Tales de Mileto (c.624 – c.546 AEC).
Não se sabe ao certo se ele foi o autor de todas as façanhas das quais recebeu o mérito, pois uma
prática relativamente comum entre os discípulos pré-socráticos era a de dar o crédito de sua obra
ao seu mestre, isto é, seus alunos podem ter assinado trabalhos com seu nome.
De qualquer maneira, seu papel de destaque é inegável, principalmente pelo seu
pioneirismo. Muitos autores afirmam que Tales é o responsável por introduzir a geometria na
3
O filósofo alemão Georg Hegel definiu de forma magistral a diferença entre filósofos e sofistas. Segundo ele, o
filósofo seria o expert em vinhos, enquanto o sofista seria o beberrão.
Grécia Antiga, trazida do Egito. Alguns acreditam também que, em suas viagens, ele teria
adquirido dos babilônios o conhecimento necessário para prever eclipses. Em 585 AEC, Tales
teria anunciado a ocorrência de um eclipse solar, fato que o tornou célebre, e até hoje remete a
lendas de que uma guerra teria sido impedida após este fenômeno. É difícil saber, porém, se ele
realmente conhecia o método de obtenção deste tipo de informação, ou se ele apenas teria se
aproveitado de dados já existentes dos babilônios.
Outra história que contam a seu respeito é que, certa vez, ao prever uma supersafra de
azeitonas para o ano seguinte, Tales teria alugado diversas prensas acreditando que a procura por
esse equipamento aumentaria. Na época prevista, tudo aconteceu conforme ele havia imaginado,
e quem quisesse fazer uso das prensas teria que negociar com Tales. Esta passagem permite
identificar como a figura do filósofo era emblemática aos olhos do povo. Eles eram vistos quase
como pessoas capazes de “manipular” a natureza, devido ao seu conhecimento sobre fenômenos
astronômicos, e até mesmo meteorológicos baseados nos ciclos dos astros.
É de Tales também a autoria de algumas ideias bastante ousadas para o seu tempo. Ele foi
o primeiro a propor que tudo que existia teria se originado de uma única substância: a água. Para
muitos, este é considerado o primeiro princípio físico, o de um elemento primordial no Universo,
a água. Ainda segundo Tales, a Terra seria um disco plano que flutuaria num imenso oceano.
Esta concepção de mundo já havia sido proposta na obra do poeta grego Homero e, apesar de
passar longe da realidade, indica o início de uma nova fase da tentativa de se compreender o
Universo, só que desta vez sem recorrer à mitologia. Além disso, Tales foi o primeiro grego a
calcular a duração do ano astronômico a partir da medição do intervalo entre dois solstícios
iguais. Ele também transmitiu aos seus conterrâneos o conhecimento adquirido, provavelmente
com os fenícios, de navegar se orientando pelas estrelas.
Depois de Tales, o filósofo que se consagrou graças às suas ideias cosmológicas foi
Anaximandro (c.610 – c.545 AEC), também de Mileto, e discípulo do próprio Tales.
Anaximandro certamente se inspirou na ideia de seu mestre para propor que tudo teria se
originado de uma massa primordial que ele chamou de infinito (apeíron, em grego).
Anaximandro é conhecido ainda por ter confeccionado aquele que se acredita ser o primeiro
mapa do mundo antigo.
Entretanto, sua contribuição de maior destaque na astronomia foi o modelo de Universo
concebido por ele, importantíssimo pela sua característica mecânica. Era a primeira vez que se
idealizava algo assim. Segundo Anaximandro, a Terra teria a forma de um cilindro cuja parte
superior seria a região habitada. Ela estaria suspensa no centro de tudo e na camada superior
estaria o ar e as nuvens. Muito além dessa região haveria fogo e vários anéis que circundavam a
Terra, com orifícios que permitiam que a luz deste fogo chegasse até ela. Um destes furos seria o
Sol, outro deles a Lua, e cada estrela seria um furo menor no anel inferior. O curioso deste
sistema é que esses anéis se movimentariam, fazendo com que os astros se deslocassem no céu.

Figura 8 – Modelo de Anaximandro com uma Terra cilíndrica no centro. Na superfície superior do cilindro
está representado o mapa do mundo como ele imaginava.

PITÁGORAS
Anaximandro foi professor de alguns filósofos importantes para a astronomia, como Anaxímenes
(c.585 – c.525 AEC), outro nascido em Mileto, e Pitágoras de Samos (c.570 – c.497 AEC). O
primeiro, além de sugerir que a substância fundamental do Universo seria o ar, contribuiu com
um conceito que se tornou essencial para os “cosmólogos” gregos que o sucederam: as esferas
cristalinas concêntricas. De acordo com Anaxímenes, que alguns autores afirmam ter sido o
primeiro grego a diferenciar formalmente os planetas das estrelas no céu, cada planeta estaria
preso a uma dessas esferas invisíveis, cujos tamanhos diferentes fariam com que cada um deles
ficasse a uma distância específica da Terra. O movimento dessas estruturas causaria o
deslocamento do objeto celeste vinculado a sua respectiva esfera, fazendo com que os planetas
mudassem de posição em relação ao fundo de estrelas fixas.
Cabe destacar aqui que a própria origem da palavra “planeta” é grega, e quer dizer
“errante”. Naquele tempo, havia sete planetas: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e
Saturno. Anaxímenes defendia erroneamente que esses corpos celestes eram planos e flutuavam
no ar infinito (a Terra inclusive), uma espécie de modelo adaptado com ideias de Tales e seu
mestre Anaximandro, além de outras próprias que davam maior relevância ao seu elemento
primordial.
Pitágoras, por sua vez, é considerado até hoje o maior filósofo entre os pré-socráticos.
Nascido na ilha grega de Samos, localizada no mar Egeu, ele é famoso pelo teorema que leva seu
nome: o Teorema de Pitágoras. Segundo ele, num triângulo retângulo, a soma dos quadrados dos
catetos é igual à hipotenusa ao quadrado (a² = b² + c²). Atualmente, sabemos que este
conhecimento é anterior à época de Pitágoras. Seu grande feito foi ter demonstrado
matematicamente este teorema, inaugurando assim a era das provas dedutivas.
A matemática talvez tenha sido a área que Pitágoras deixou seu maior legado. Até mesmo
a palavra “matemática” (mathematike, em grego) foi introduzida por ele. Historiadores acreditam
que Pitágoras viajou por cerca de 30 anos visitando diversas regiões importantíssimas daquele
tempo, como o Egito, a Babilônia, a Síria, a Fenícia, entre outras. Nesses locais, teria adquirido
conhecimentos nas mais diversas áreas, tanto na ciência, quanto no misticismo.
Por volta do ano 530 AEC, Pitágoras se estabeleceu em Crotona, colônia grega localizada
no Sul da Itália, onde fundou a Escola Pitagórica, algo como uma seita místico-científica.
Juntamente com seus seguidores, Pitágoras pretendia explicar o mundo através da matemática.
Segundo seu ponto de vista, a essência do Universo seriam os números, da mesma forma que
para Tales era a água.
Entre os astrônomos gregos, acredita-se que ele tenha sido o primeiro a perceber que os
astros brilhantes conhecidos como phosphorus (estrela da manhã) e hesperus (estrela vespertina)
tratavam-se do mesmo objeto celeste: o planeta Vênus.
Observar o céu permitiu a Pitágoras vislumbrar a existência de uma ordem no Universo.
Com base nesta premissa, ele cunhou o termo cosmos, que até hoje é utilizado como sinônimo de
Universo, e em grego significa exatamente o objeto de sua busca: ordem. Num contexto mais
amplo, o Cosmos seria o mais belo dos corpos, harmonioso e perfeito. A perfeição foi um
atributo bastante aplicado por Pitágoras. Ele qualificou formas como a esfera e o círculo desta
maneira, e até o número 10 mereceu esta denominação muitos séculos antes de Pelé brilhar nos
gramados.
Pitágoras propôs que a Terra seria esférica, mas por razões místicas e não científicas, pois
ele defendia que a esfera era uma forma perfeita e que por isso nosso planeta teria esse formato e
não qualquer outro. Além disso, como os demais astrônomos antes dele haviam proposto, ela
estaria no centro do Universo. Neste Cosmos, os sete planetas também seriam esféricos e suas
órbitas ao redor da Terra seriam circulares, ou seja, a ordem e a beleza reinariam no céu
pitagórico.
E Pitágoras desenvolveu o primeiro estudo complexo a respeito da música. Ele descobriu
que havia uma relação entre o comprimento das cordas de um instrumento e a harmonia
produzida, criando, assim, a escala musical. Pitágoras associava com esta descoberta a música e
a matemática. Mas ele não parou aí, e resolveu aplicar este conhecimento no campo da
astronomia, afirmando que haveria uma harmonia nas esferas celestes, de forma que a distância
entre os planetas seria proporcional aos intervalos da escala musical. Alguns historiadores
registram que em sua cosmovisão haveria entre a Terra e a Lua um intervalo musical de um tom.
Já entre a Lua e Mercúrio a distância corresponderia a um semitom, assim como entre Mercúrio
e Vênus. De Vênus ao Sol o intervalo seria de uma terça menor. Esta sequência de intervalos se
repete entre os próximos planetas, isto é, do Sol a Marte, um tom; de Marte a Júpiter, um
semitom; de Júpiter a Saturno, um semitom; e de Saturno até a esfera onde as estrelas fixas se
encontram, uma terça menor.
Este modelo contém a ordem que Pitágoras acreditava que os planetas estavam dispostos
no Universo. Conforme podemos notar, tomando como ponto de partida a Terra, a sequência
seria: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Ao final, haveria uma esfera com
todas as estrelas fixas. Este Cosmos pitagórico, após sofrer algumas alterações, foi bastante
adotado ao longo dos séculos, como poderemos constatar a seguir.

Figura 9 – Modelo de Pitágoras com a Terra esférica no centro e os planetas em suas órbitas respeitando a
ordem de afastamento por ele proposta.
UM MODELO CURIOSO
Agora veremos um pouco mais sobre um dos discípulos de Pitágoras mais conhecidos, que criou
um modelo bastante curioso, mas que não ganhou notoriedade nem em sua época, nem nos dias
atuais, tornando-se mais conhecido apenas para aqueles que se interessam por esmiuçar o
passado. Seu nome é Filolau (c.480 – c.405 AEC), e sua cidade, Crotona, a mesma onde
Pitágoras fundou sua Escola.
Como já foi dito antes, a autoria dos trabalhos de alguns discípulos gregos era
costumeiramente creditada a seus mestres. Portanto, não é raro encontrarmos na bibliografia as
ideias de Filolau sendo atribuídas a Pitágoras. Perceberemos que o aluno por diversas vezes se
baseia na obra do professor, porém, veremos também que existirão algumas diferenças notáveis
no modelo de Filolau. Alguns historiadores acreditam que ele tenha sido o primeiro a imaginar
que a Terra estava em movimento, e não estática no centro do Universo.
O sistema proposto por Filolau foi lançado em sua obra intitulada O Tratado do Céu e, de
acordo com ele, no centro do Cosmos estaria o que chamou de “fogo central”, chamado também
de fogo d’Héstia, em homenagem a deusa Héstia, que abençoava o fogo e trazia conforto aos
homens nas noites frias do inverno. Ao redor deste fogo central haveria nove astros, dispostos
em ordem de afastamento da seguinte maneira: Antiterra, Terra, Lua, Sol, Mercúrio, Vênus,
Marte, Júpiter e Saturno. Isso mesmo, Filolau inseriu um planeta inexistente no Universo. E,
curiosamente, não seguiu a mesma sequência proposta por seu mestre Pitágoras, mudando o Sol
de posição. Na esfera mais externa estaria o que ele chamou de “fogo periférico”, onde se
encontrariam as estrelas fixas.

Figura 10 – Modelo proposto por Filolau com o fogo central, a Antiterra e os demais planetas.
Vamos agora tentar entender um pouco do que pode ter passado pela cabeça de Filolau
para construir este modelo. A primeira constatação (e mais óbvia) é a tentativa de montar um
sistema onde houvesse 10 astros, pois como todo bom pitagórico, o número perfeito tinha que
estar presente em seu trabalho.
Um dos motivos usados por alguns estudiosos para explicar a existência do fogo central
diz respeito a um confronto intelectual entre escolas da época. Segundo contam, um grupo de
“concorrentes” dos pitagóricos teria afirmado que a luz da Lua era, na verdade, a luz do Sol
refletida em sua superfície, algo que sabemos estar certo. Para não ficarem atrás, alguns dos
seguidores de Pitágoras, entre eles Filolau, propuseram a existência deste fogo central. A partir
de então, eles passaram a dizer que a luz do Sol era proveniente do reflexo da luz do fogo
central, algo totalmente irreal, como sabemos hoje.
Entretanto, neste modelo insólito de Filolau, uma ideia já citada anteriormente merece
destaque: a de uma Terra móvel. Embora não tenha sido concebida da maneira correta, neste
sistema nosso planeta já executava seus principais movimentos: a revolução (só que ao redor do
fogo central) e a rotação em torno de seu eixo. Neste caso, no entanto, ambos os movimentos
teriam a mesma duração, fato este que faria com que um observador na Grécia (localizada no
hemisfério terrestre voltado para a parte externa do Universo) não tivesse acesso visual à parte
interna, onde estariam a Antiterra e o fogo central.
A presença da Antiterra também é explicada. Além de fazer número para que a contagem
chegasse a 10, este astro exerceria a importante função de proteger os antípodas, que seriam os
habitantes do hemisfério oposto àquele no qual a Grécia estava situada, de serem queimados pelo
fogo central. Como a Terra levava 24 horas para completar uma volta ao redor do seu eixo, e
executava uma volta em torno do fogo central no mesmo intervalo de tempo, a Antiterra também
levaria 24 horas em seu movimento orbital, de forma que o hemisfério “inferior” terrestre
estivesse sempre protegido. Este comportamento explica porque tanto a Antiterra, quanto o fogo
central seriam invisíveis para os gregos. Particularmente, o fogo central seria invisível mesmo
para os antípodas.
Figura 11 – Ilustração de como era a parte mais interna do modelo proposto por Filolau com o fogo central, a
Terra e a Antiterra.

PLATÃO, O SOCRÁTICO
No século V AEC, o conhecimento dos pré-socráticos estava bem disseminado na Grécia,
levando diversos filósofos a refletir sobre a natureza das coisas. Vários deles defendiam que
havia um elemento primordial do qual tudo que existe teria se originado. Para Tales, como
vimos, esta substância era a água. Anaxímenes acreditava que era o ar. O fogo e a terra também
foram considerados elementos fundamentais por outros filósofos daquele período. Entretanto, é
de Empédocles de Agrigento (c.490 – c.430 AEC) a ideia de reunir todas essas substâncias no
que ficou conhecido como princípio quaternário, que afirmava que tudo teria surgido de uma
combinação desses quatro elementos. Esta premissa agradou a vários filósofos gregos que a
adotaram e a aperfeiçoaram. Empédocles considerava o “amor” a força atrativa que daria origem
a tudo que existe, a partir da união desses quatro elementos.4
Nesta mesma época viveu um dos maiores filósofos da história: Sócrates de Atenas
(c.470 – 399 AEC). Este momento representa uma importante mudança de fase, pois deixamos o
período inaugural pré-socrático para entrarmos no socrático. Nele, o centro intelectual grego se
estabeleceu em Atenas, onde floresceu um personagem importantíssimo para a história da
astronomia. Seu nome era Arístocles (427 – 347 AEC), mas ele se tornou mais conhecido como
Platão, devido ao seu porte atlético (em grego, plato quer dizer “largo”).
Discípulo de Sócrates e grande admirador do trabalho de Pitágoras, que conheceu através
da obra de Filolau, foi graças a Platão que o modelo geocêntrico ganhou força. Ele adotou a
proposta de Pitágoras com a ordem de Filolau, ou seja, após a Terra central imóvel viria a Lua,
depois o Sol, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e, ao final, a esfera das estrelas fixas.
Segundo ele, esses astros estariam em movimento circular uniforme ao redor da Terra, algo que

4
Outros que se destacaram pela busca do elemento primordial foram Demócrito de Abdera (c.470 – c.380 AEC) e
Leucipo de Mileto (c.460 – c.370 AEC), fundadores da Escola Atomista. Ambos tornaram-se célebres por postular a
existência de corpúsculos microscópicos que seriam os constituintes da matéria, denominados por eles de atomos
(do grego “indivisíveis”). Vale destacar, contudo, que o conceito de átomo criado por Demócrito e Leucipo é
bastante diferente do da ciência moderna.
não condizia com as observações planetárias, mas estava em harmonia com a “perfeição”
herdada dos pitagóricos.
Ainda sobre esta herança, Platão relacionou os cinco poliedros regulares descobertos por
Pitágoras (sólidos com faces iguais: tetraedro, hexaedro ou cubo, octaedro, icosaedro e
dodecaedro), com os quatro elementos do princípio quaternário e o Universo. Atualmente,
sabemos que estes sólidos platônicos (como são mais conhecidos) não têm qualquer relação com
estes cinco elementos, apesar de alguns anos atrás um grupo de cosmólogos ter afirmado que o
Universo poderia ter uma forma bastante semelhante à de um dodecaedro inserido em um espaço
quadridimensional. Como esta é uma discussão bastante complexa e polêmica, basta deixar
registrado que nada foi confirmado a respeito de uma possível forma para o Universo.
De acordo com Platão, em seu diálogo Timeu, à terra estaria associado o cubo, visto que é
o poliedro com base mais estável, isto é, mais imóvel. O tetraedro, por ser o menor dos sólidos, e
o icosaedro por ser o maior, representariam, respectivamente, o fogo e a água (esta relação de
tamanho está associada a razão entre volume e área superficial). Já o ar, por estar numa situação
intermediária, estaria vinculado ao octaedro, com tamanho intermediário entre o tetraedro e o
icosaedro. E como não havia um quinto elemento para ser associado ao dodecaedro, ele declarou
que seria o próprio Universo, que ainda assim Platão considerava ter a forma esférica.

Figura 12 – cinco sólidos de Platão e os elementos aos quais eles foram relacionados como textura.

Uma outra grande contribuição de Platão veio por volta de 386 AEC. Ao adquirir um lote
de terra na localidade conhecida como Jardins de Akademos, batizada em homenagem ao herói
mitológico de mesmo nome, ele fundou sua escola que foi chamada por isso de Academia, e é
considerada por muitos historiadores como a primeira universidade. Até o ano 529 da Era
Comum, quando foi fechada a mando do Imperador Romano Justiniano I por ser considerada
uma ameaça à propagação do Cristianismo, a Academia de Atenas reuniu um grande número de
cientistas famosos. Seu papel na história é tão significativo que muitos estudiosos afirmam que a
data de seu fechamento marca o início do que hoje chamamos de Idade das Trevas da Ciência.

O UNIVERSO-CEBOLA
O principal problema que o modelo geocêntrico trazia era que as órbitas circulares e os
movimentos uniformes propostos por Platão, devido a sua “perfeição”, não explicavam o
comportamento dos planetas no céu. Platão se esquivou dessa questão, mas outro discípulo seu,
Eudoxo de Cnido (408 – 355 AEC), propôs uma solução a partir do que ficou conhecido como
“esferas homocêntricas”.
De acordo com Eudoxo, Sol e Lua estariam presos cada um a três esferas concêntricas
interligadas, de forma que o movimento combinado dessas estruturas ao redor de eixos com
diferentes inclinações teria como resultado final o movimento observado no céu.
Já os outros cinco planetas estariam conectados a quatro esferas cada um, a fim de
explicar suas trajetórias erráticas (principalmente o movimento conhecido como “retrogradação”,
uma espécie de laçada que os planetas realizam no céu). Finalmente, a esfera onde estavam
dispostas as estrelas fixas seria mesmo apenas uma, que se moveria de oeste para leste. No total,
Eudoxo montou um sistema com 27 esferas, uma dentro da outra.

Figura 13 – Exemplo de quatro esferas homocêntricas cujos movimentos combinados ao redor de diferentes
eixos resultariam na trajetória observada de um planeta, segundo a proposta de Eudoxo.
Um aluno de Eudoxo, Calipo de Cízico (c.370 – c.300 AEC), na tentativa de aprimorar o
modelo do mestre, acrescentou mais sete esferas (duas para o Sol, duas para a Lua e uma para
cada um dos seguintes Mercúrio, Vênus e Marte), totalizando 34.
Mas foi um outro personagem, fundamental para a astronomia, que complementou o
modelo de Eudoxo-Calipo. Seu nome é Aristóteles (384 – 322 AEC), sua cidade natal Estagira, e
suas contribuições em diversos ramos da ciência o colocaram num patamar de destaque na
História. Aristóteles trabalhou nesse modelo de Universo com o intuito de aperfeiçoá-lo ainda
mais, já que mesmo depois dos ajustes ainda eram notadas imprecisões ao confrontá-lo com as
observações. E como em sua cosmovisão não havia espaço vazio — ele tinha aversão ao vácuo
—, todas as esferas homocêntricas estariam em contato direto umas com as outras, o que lhe fez
postular a existência de “esferas compensadoras”, que anulariam o movimento imposto por
outras esferas que não fossem as dos próprios astros.
O geocentrismo pitagórico com nuances platônicas foi adotado por Aristóteles, que
considerava a Terra imóvel como centro do Universo finito e esférico. Nosso planeta seria então
circundado por esferas nas quais se encontrariam, em ordem de afastamento da Terra: Lua,
Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno e, finalmente, as estrelas fixas. Após esta última
esfera, Aristóteles proclamou a existência do que chamou de “motor primordial”, responsável
pelo movimento harmonioso dessas esferas.
Além disso, Aristóteles dividiu o Universo em duas regiões distintas: o domínio sublunar
e o domínio supralunar. Essa divisão significava que, abaixo da esfera onde se encontrava a Lua,
prevalecia a física dos quatro elementos.

Figura 14 – Ilustração que identifica os quatro elementos primordiais em seus lugares naturais conforme
Aristóteles definiu, ou seja, o elemento mais próximo ao centro da Terra seria a terra, em seguida viria a
água permeando a terra, depois o ar e, finalizando o mundo sublunar, o fogo.
Já a partir da esfera da Lua em diante, no mundo supralunar, era o reinado da astronomia,
onde os movimentos eram circulares e uniformes. Segundo o próprio Aristóteles, a substância do
céu era chamada de “éter”. Também conhecido como “quinto elemento” ou “quintessência”, o
éter seria o elemento puro, diferente dos outros quatro, do qual teria se originado tudo que se
encontra na região supralunar.

Figura 15 – Ilustração famosa do humanista alemão Peter Apian, publicada em seu Cosmographia, de 1540,
em que o modelo aristotélico é apresentado de forma bastante simplificada.

Não há dúvida de que havia diversas lacunas nesse modelo, que ficou com 56 esferas no
total. Contudo, Aristóteles chegava mais próximo de explicar o comportamento real dos astros
mantendo os movimentos circulares e uniformes, isto é, como mandavam os ensinamentos de
seu mestre Platão, “salvando os fenômenos” (princípio metodológico dos astrônomos antigos,
que consiste em propor explicações que deem conta do que acontece, tentando conciliar os
sentidos com a teoria, moldada pela divindade).
Podemos notar em sua vasta obra que Aristóteles foi um profundo curioso no que diz
respeito às coisas da natureza, e baseou muitas de suas hipóteses principalmente na percepção
que tinha desse “laboratório” que o cercava. Ele teve a oportunidade de estudar com Platão por
aproximadamente 20 anos, na Academia de Atenas. Ambos tinham uma visão bastante diferente
sobre a natureza do mundo, sendo Aristóteles considerado mais próximo do perfil do cientista
moderno, visto que sua filosofia foi construída com base nas observações (apesar de não ter
testado muitas de suas hipóteses).
TERRA ESFÉRICA E O SOL NO CENTRO
Aristóteles considerava a Terra redonda. Mas não com base na visão mística de Pitágoras. Ele
sustentava sua teoria argumentando que a forma da sombra projetada pelo nosso planeta na
superfície da Lua durante um eclipse lunar era circular em toda e qualquer circunstância.
Cerca de um século depois, Eratóstenes de Cirene (273 – 192 AEC) provou que, de fato,
a Terra era esférica. O método utilizado por ele foi assustadoramente simples. Eratóstenes notou
que no dia do solstício de verão, o Sol, ao passar pelo ponto mais alto do céu em seu movimento
diário, não fazia sombra em Siena (hoje Assuã, no Egito). Estranhamente, nesse dia o Sol não
apresentava a mesma característica sob as mesmas condições na cidade de Alexandria. Tal fato
denotava que a superfície terrestre deveria ser curva. Mas, para provar seu argumento,
Eratóstenes deveria medir o ângulo da sombra em Alexandria, e conhecer bem a distância entre
as duas cidades.
Obtidos esses dados, ele foi capaz não só de demonstrar que a Terra era mesmo esférica,
como também calculou com uma margem de erro muito pequena para a época a circunferência
de nosso planeta. Por endossar as afirmações de outros célebres filósofos, essa prova foi
facilmente aceita pelos estudiosos que o sucederam.

Figura 16 – Mapa indicando o afastamento entre as cidades que estão praticamente no mesmo meridiano, e
um esboço de como foi realizada a demonstração da curvatura terrestre. Conhecendo-se a distância entre A,
Alexandria, e S, Assuã, e o ângulo α (que sai da medição da sombra), basta resolver uma regra de três para se
obter o valor da circunferência da Terra.
Ainda no século III AEC, foi proposto um modelo de Universo bem diferente daquele
geocêntrico que vinha sendo aperfeiçoado ao longo das décadas por diversos filósofos gregos,
culminando em Aristóteles. Nesse sistema, não mais a Terra estaria no centro, mas o Sol. Seu
idealizador foi Aristarco de Samos (310 – c.230 AEC), que antes de chegar ao seu modelo
heliocêntrico realizou um trabalho no qual, muito provavelmente, baseou sua teoria intitulado
Sobre os tamanhos e distâncias do Sol e da Lua. Nesta obra, Aristarco mede o ângulo entre o Sol
e a Lua durante uma quadratura (momento de um quarto crescente ou minguante) e encontra o
valor de 87°. Como esse é um caso particular em que o ângulo na Lua vale 90°, basta resolver o
triângulo retângulo para obter uma relação de quantas vezes o Sol estaria mais afastado da Terra
que a Lua, tendo em vista que ambos os astros apresentam no céu praticamente o mesmo
diâmetro angular. Aristarco calculou que o Sol estava entre 18 e 20 vezes mais afastado da Terra
que a Lua, o que permite concluir que seu tamanho também teria a mesma relação com o de
nosso satélite dada a peculiaridade dos diâmetros.5

Figura 17 – Aristarco encontrou o valor de 87° para o ângulo na Terra, concluindo assim que o do Sol seria
de 3° (a soma dos ângulos internos é igual a 180°). Considerando a distância entre Terra e Lua como unitária,
a distância Terra-Sol, nesse caso, seria aproximadamente 19 vezes maior.

Além disso, Aristarco prestou particular atenção a um eclipse lunar… Como a Lua
passaria através da sombra da Terra projetada no espaço, que segundo Aristarco teria
praticamente o mesmo diâmetro do planeta, restaria então observar quantos diâmetros da Lua
“caberiam” na sombra da Terra para obter a relação entre seus tamanhos. Sua medida durante um
eclipse foi que aproximadamente duas Luas haviam cruzado a sombra terrestre e, portanto, a Lua
teria a metade do tamanho da Terra.

5
O valor preciso, medido em dias atuais, do ângulo entre o Sol e a Lua é 89°51’, o que permite calcular que Sol é
cerca de 400 vezes maior que a Lua. Mas o valor de 87° é bastante razoável, visto que a qualidade dos instrumentos
para se medir distâncias angulares naquele tempo não permitia a obtenção de dados acurados.
Para seu azar, no eclipse observado a Lua não passou por toda a extensão da sombra, mas
um pouco fora do seu diâmetro. Se tivesse atravessado todo o diâmetro, seria possível medir
cerca de quatro Luas dentro da sombra da Terra, que é a relação correta entre os diâmetros
desses astros.

Figura 18 – A trajetória 1 representa o que foi observado por Aristarco durante o eclipse lunar, e a trajetória
2 indica a real relação de tamanho entre a Terra e a Lua, que só pode ser percebida quando o satélite
atravessa diametralmente a sombra do planeta.

Resumindo: Aristarco acreditava que a Terra era duas vezes maior que a Lua. Juntando-
se a isso a conclusão anterior, que relacionava a Lua e o Sol, Aristarco se viu confortável em
afirmar que a estrela seria pouco menos de dez vezes maior que nosso planeta, que por sua vez
seria duas vezes maior que o satélite.
Assim, mesmo sem qualquer noção de uma força que atuasse à distância em favor dos
corpos de maior massa (a gravidade), era absolutamente viável, de posse dessas informações,
formular um modelo em que o maior dos corpos (tamanho aqui tem uma conotação de volume,
que por sua vez remeteria à massa) fosse o centro ao redor do qual todos os outros astros
girariam. Na dúvida, tente girar um objeto dez vezes mais leve e outro dez vezes mais pesado
que você ao seu redor, e talvez você entenda melhor a possível visão de Aristarco.
A obra na qual o modelo heliocêntrico de Aristarco foi descrito se perdeu. Porém, é
possível encontrar uma referência a ela no trabalho de Arquimedes de Siracusa (c.287 – c.212
AEC) intitulado O contador de areia, no qual ele cria uma nomenclatura para representar
números muito grandes, como uma espécie de ordem de grandeza, para em seguida fornecer a
quantidade de grãos de areia necessária para preencher todo o Universo.
É importante ressaltar que o modelo de Aristarco aumentava significativamente o
tamanho do Universo, pois com a Terra girando ao redor do Sol e nenhuma mudança perceptível
no comportamento das estrelas, pode-se concluir que elas estão muito distantes de nós, a ponto
de não se aproximarem mais ou se afastarem conforme a Terra varia sua posição orbital.

GRANDES MUDANÇAS NA ASTRONOMIA


Um dos maiores astrônomos gregos foi Hiparco de Nicéia (c.190 – c.120 AEC) que contribuiu
enormemente com esta ciência. Assim como Eratóstenes, ele é um dos mais proeminentes
representantes da Escola Alexandrina, pois viveu muitos anos naquela cidade. Uma importante
ferramenta astronômica foi muito bem desenvolvida por ele: a trigonometria. De posse deste
conhecimento, Hiparco conseguiu realizar cálculos bastante precisos para sua época, e com o
acervo de registros observacionais deixado por seus antecessores, foi capaz de avançar ainda
mais com a astronomia.
Uma de suas grandes descobertas foi o “movimento de precessão dos equinócios”. Com
base em observações antigas e seus próprios registros, Hiparco percebeu que o ponto imaginário
no céu onde se encontra uma das intercessões entre órbita aparente do Sol ao redor da Terra, com
o equador celeste (projeção do equador terrestre na esfera celeste), chamada de “ponto vernal”,
se antecipava (ie, acontecia antes, espacialmente falando) com o passar do tempo. Esta
constatação é difícil de ser feita em poucos anos com instrumentos rudimentares, mas num
intervalo de tempo de mais de 100 anos já seria possível notar alguma defasagem, não
especificamente do ponto vernal, mas pelo deslocamento sutil de algumas estrelas. E foi o que
ocorreu! Hiparco descobriu que o que hoje sabemos ser um movimento da Terra, se completa
num intervalo de aproximadamente 26 mil anos.
Naquele tempo, já se sabia que os intervalos entre solstícios e equinócios (instantes que
marcam o início das estações do ano) eram diferentes entre si, ou seja, as estações tinham
durações diferentes. Por exemplo, a primavera do hemisfério Norte durava 94,5 dias, segundo
seus cálculos. Já o verão um pouco menos, 92,5 dias. Mas como explicar isso se o “movimento
solar” em torno da Terra deveria ser circular e uniforme como os demais? Hiparco resolveu esta
questão retirando a Terra do centro do Universo e mantendo as características do movimento.6

6
Curiosamente, esse modelo não defende a ideia de que a Terra está no centro. Por isso mesmo algumas pessoas
mais rigorosas preferem chamá-lo de “geostático”, visto que nosso planeta permanece imóvel. Insistirei na
denominação mais comum (geocêntrico) neste e em outros casos, mesmo reconhecendo que estou cometendo um
certo abuso de linguagem…
Figura 19 – Figura que mostra a explicação para as diferentes durações das estações do ano dada por
Hiparco. Segundo ele, o ponto de maior afastamento entre Terra e Sol ocorre a 65,5° do ponto vernal, que
indica o início da primavera no hemisfério Norte.

Hiparco calculou também com uma precisão muito boa a duração do ano trópico
(365,2458 dias, ou seja, com uma defasagem de cerca de 6 minutos), e a distância entre a Terra e
a Lua em função do raio terrestre. Além disso, ele implementou o que chamamos atualmente de
“escala de magnitudes”, catalogando e classificando pelo menos 850 estrelas por seu brilho
observado. Assim, depois de definir seis grupos, onde o de magnitude 1 comportaria as estrelas
mais brilhantes, e o de magnitude 6 as menos brilhantes, Hiparco passou a classificá-las por um
processo puramente empírico e que, após sofrer aperfeiçoamentos, permanece vigente até os dias
de hoje.

NOVAS ENGRENAGENS
O paradigma aristotélico dizia que a Terra era redonda e permanecia imóvel no centro do
Universo (apesar de haver um modelo dissonante, proposto por Aristarco, que usava o Sol como
cerne). E Hiparco não foi o único a propor modificações ao modelo idealizado por Aristóteles.
Apolônio de Perga (c.261 – c.196 AEC), por exemplo, inventou os deferentes e os epiciclos. Seu
intuito permanecia sendo o de explicar o movimento errático dos planetas ao longo do ano sem
que o movimento circular abandonasse o mundo supralunar. Dessa maneira, ele descartou as
várias esferas que Aristóteles havia introduzido, e chamou de “deferente” o círculo que
representava a órbita do planeta ao redor da Terra.
Curiosamente, o astro não vagaria sobre o deferente, mas sim sobre o “epiciclo”, um
círculo menor que teria seu centro sobre o deferente. Mais uma vez os fenômenos estavam
salvos, pois os movimentos básicos permaneciam circulares e uniformes. Porém, o modelo de
Apolônio ainda não era suficiente para dar conta de tudo que era observado no céu.

Figura 20 – O círculo cuja Terra é o centro é o deferente, e o círculo cujo centro está sobre o deferente é o
epiciclo. Na imagem, vemos o exemplo de como seria a trajetória de um planeta durante o seu movimento
segundo a proposta de Apolônio.

Quem criou o modelo geocêntrico derradeiro foi o astrônomo alexandrino Cláudio


Ptolomeu (90 – 168), que compilou todo o conhecimento acumulado até então em sua obra-
prima mais conhecida pelo nome de Almagesto — do árabe, “grande tratado”. Aproveitando
algumas ideias aristotélicas, de Hiparco, Apolônio, entre outros, Ptolomeu moldou um Universo
que teve uma boa aceitação. Segundo ele, a Terra permaneceria imóvel, mas agora deslocada do
centro de tudo, e os planetas continuariam em seus epiciclos e deferentes, só que agora o centro
do epiciclo giraria com velocidade uniforme ao redor de um ponto imaginário (ou seja, sem
massa) batizado de “equante”, ou como o próprio Ptolomeu chamou “centro do equalizador de
movimento”. Esse ponto estaria deslocado do centro do Universo a uma distância igual a da
Terra. Logo, durante sua órbita, ora o astro estaria mais próximo da Terra, ora mais afastado,
como é possível observar no céu, no mínimo, através da variação do seu brilho.

Figura 21 – Representação do modelo com epiciclo, deferente e equante. Na figura, C é o centro do deferente;
e E representa o equante. Além disso, CE é o centro do epiciclo planetário.
Todo esse aparato permite concluir que eles estavam mais próximos do que poderiam
supor das órbitas elípticas. No entanto, o paradigma dos movimentos circulares ainda demoraria
a ser quebrado. Foi esse o sistema utilizado por algumas culturas, como a árabe, mas que
também foi dispensado em detrimento do aristotélico por outros povos, como os europeus em
meados da Idade Média, como veremos a seguir.
CAPÍTULO 2: IDADE MÉDIA

A IDADE DAS TREVAS?


A Idade Média começou por volta do ano 500, e é padrão vincular seu início à queda do Império
Romano do Ocidente. Alguns historiadores, porém, costumam atribuir seu início ao fechamento
da Academia de Atenas, em 529, a mando do imperador romano do Oriente, Justiniano I, que
considerava tal instituição uma ameaça à propagação do cristianismo, adotado como religião
oficial em Roma no século IV. Roma não se notabilizou pela produção científica, mas sim pela
busca exacerbada de seu povo pelo desenvolvimento espiritual, a fim de se prepararem para o
Paraíso pós-vida. Questões materiais vinham constantemente perdendo a importância para os
seguidores dos dogmas cristãos.
Ainda assim, podemos citar como legado romano para a astronomia o Calendário Juliano,
introduzido em 46 AEC pelo imperador Julio César (100 – 44 AEC) e, por isso, batizado em sua
homenagem. Este calendário após passar por uma reforma séculos depois tornou-se o
Gregoriano, que foi proposto em 1582 e é o atualmente vigente.
Outra herança dos romanos é o nome que utilizamos para os planetas do Sistema Solar.
Era comum entre as culturas antigas (e não foi diferente com a romana) batizar os planetas de
acordo com suas características visuais e associá-los a divindades de sua mitologia. Assim,
Mercúrio recebeu este nome em homenagem a um deus veloz, devido à velocidade do seu
movimento. Vênus, que apresenta um belíssimo brilho no céu foi batizado com o nome da deusa
da beleza. Marte foi associado ao deus da guerra por conta de sua cor avermelhada. Júpiter, que
era o deus dos deuses, emprestou seu nome para o planeta com brilho intenso e constante. E
Saturno recebeu o nome do deus do tempo e da agricultura, visto que seu movimento, ao
contrário do de Mercúrio, era extremamente lento.7
Entretanto, independente de qualquer contribuição romana ou de outros povos esse
período da história é chamado por diversos autores de “Era das Trevas”, pois, segundo eles,
questões religiosas teriam acarretado uma estagnação científica. A Igreja Cristã dificultou ainda
mais as coisas impondo que todos se baseassem literalmente na Bíblia, e qualquer busca por
informações diferentes daquelas poderia representar uma afronta à Igreja, passível até mesmo de
morte em casos extremos.
Atualmente, contudo, vários historiadores consideram injusta esta denominação referente
ao período medieval, e atestam que as trevas não reinaram absolutas naquele tempo. De acordo

7
Os nomes dos outros dois planetas, Urano e Netuno, também têm origem romana. Porém, como estes astros só
foram descobertos depois do advento do telescópio, o batismo seguiu a tradição, mas não foi feito pelos romanos.
com eles, mesmo diante daquele obscurantismo, vários pensadores desenvolveram trabalhos
significantes nas mais diversas áreas.

A ASTRONOMIA NO ORIENTE
Enquanto na Europa do início da Idade Média o cenário não era dos mais favoráveis para a
ciência, o mesmo não se pode falar da Índia, onde as condições permaneciam ideais para aqueles
que buscavam desbravar tanto a ciência mundana quanto a celestial. O matemático e astrônomo
Aryabhata (c.476 – 550), segundo alguns estudiosos, teria proposto um sistema heliocêntrico, e
defendido ainda que a Terra girava ao redor de seu eixo. Sua obra, porém, parece ser
contraditória em certos pontos, pois alguns autores afirmam que ideias diferentes dessas também
foram defendidas por ele em outras publicações, prevalecendo as propostas da Antiguidade.
Brahmagupta (598 – 668) foi outro astrônomo hindu importante. Ele escreveu a doutrina
Brahmagupta siddhanta, onde tratava de temas básicos de astronomia e abordava também
algumas questões anteriormente exploradas por Aryabhata. Esta obra foi bastante utilizada em
escolas árabes para ensinar astronomia aos seus estudantes.
E não podemos deixar de destacar a importantíssima participação dos filósofos árabes na
história da ciência, em geral, e da astronomia em particular. Além de aprimorar os trabalhos de
diversos pensadores da Antiguidade, eles também lançaram ideias originais sobre vários temas
relevantes. Com base nos preceitos do Corão, que estimulava a “prática do taffakur, o estudo da
natureza, e do taskheer, o domínio da natureza pela tecnologia”, os muçulmanos eram
religiosamente incentivados a desenvolver a prática científica. Por meio de observações
sistemáticas e do aperfeiçoamento de instrumentos astronômicos os estudiosos árabes foram
capazes de expandir os conhecimentos acerca da astronomia. Geralmente as obras gregas eram
revisitadas e discutidas, às vezes sendo contestadas, outras endossadas e até incrementadas.
Havia ainda alguns casos em que se partia de uma premissa totalmente original.
Um dos primeiros astrônomos árabes a se destacar foi Abu Abdallah Muhammad al-
Batani (858 – 929), que aperfeiçoou significativamente o modelo ptolomaico, construindo
posteriormente suas próprias efemérides astronômicas ainda mais precisas. Uma versão traduzida
destas tabelas chegou até Nicolau Copérnico, que cita diversas vezes este trabalho em sua obra-
prima que ainda será explorada mais à frente. Al-Batani foi um destes alunos árabes que se
beneficiou do conhecimento hindu e utilizou a matemática desenvolvida por eles para elaborar
suas efemérides.
Outro muçulmano que contribui de forma relevante com a astronomia foi Abd al-Rahman
Al Sufi (903 – 986). Em sua obra intitulada Livro das estrelas fixas publicada de 964, ele
atualizou o catálogo estelar de Ptolomeu (que se baseou no de Hiparco), e divulgou diversas
ilustrações das constelações mais famosas com suas principais estrelas. Todavia, um detalhe se
destaca em um de seus desenhos, aquilo que acredita-se ser o primeiro registro observacional de
um objeto celeste que hoje sabemos estar além da nossa galáxia: a Galáxia de Andrômeda,
chamada por ele de “uma pequena nuvem”.

Figura 22 – Ilustração de Al Sufi da constelação de Andrômeda com a representação do que seria a galáxia
homônima próxima à boca do peixe, à direita.

Mas quem mais se destacou entre os pensadores árabes foi Abu Rayhan al-Biruni
(973-1048), que contribuiu imensamente com a física dos mundos sub e supralunar. Considerado
um dos maiores cientistas muçulmanos, esse polímata persa conhecia bem as teorias propostas
por gregos e hindus. Ao se defrontar com a questão da rotação terrestre e do sistema
heliocêntrico defendidos por Aryabhata, ele teria afirmado que essas ideias não poderiam ser
refutadas matematicamente, e que esse debate era de cunho filosófico. E isso condiz com a
realidade, pois, se bem construídos, os modelos geocêntrico e heliocêntrico serão diferentes um
do outro apenas por uma questão de referencial, na qual o geocêntrico acaba levando vantagem,
devido ao fato de o observador estar na superfície da Terra. Logo, tudo parece se mover em
relação a esse referencial “estático”.
Talvez al-Biruni tenha sido o primeiro a cogitar a existência de outro mundo além do
nosso, mas de natureza diferente, o que colocaria em xeque a imutabilidade no céu. Neste caso,
percebe-se que ele já devia supor que a física do mundo sublunar poderia se estender ao domínio
supralunar, apesar de não haver nada explícito a esse respeito. Além disso, al-Biruni também
declarou uma espécie de “perseguição aos arredondados”. Primeiramente, ele questionou o
motivo pelo qual o movimento circular seria uma propriedade inata dos astros e, em seguida, o
porquê da forma esférica do céu. Para esta última colocação, al-Biruni supôs um formato
elíptico, descartado pelos aristotélicos, segundo eles por gerar um vácuo, algo que ainda os
assombrava.
Um fato curioso é que ele calculou a circunferência da Terra e se dedicou a fixar
especificamente a direção de Meca para qualquer lugar do globo, visto que este dado é de suma
importância para a religião islâmica. Esta necessidade de se calcular corretamente a direção para
a cidade sagrada dos muçulmanos contribuiu ainda mais para o aprimoramento das técnicas
matemáticas, particularmente uma área chamada “trigonometria esférica”, que nada mais é do
que a solução de triângulos em superfícies esféricas como nosso planeta, ou a própria esfera
celeste.
Mas o que deve ser destacado mesmo é a enorme contribuição árabe que não diz respeito
à obra de um filósofo em particular, mas ao trabalho conjunto e despretensioso que eles tiveram
ao traduzir e manter viva a chama do conhecimento grego. Membros da Igreja Cristã do início da
Idade Média não titubeavam em destruir os tratados gregos sob a acusação de sacrilégio contra
as Sagradas Escrituras. Não fosse pelos eruditos muçulmanos, muito provavelmente boa parte de
todo o conhecimento acumulado teria se perdido para sempre. Sem dizer que aos poucos, com a
abrangência que os trabalhos desenvolvidos sobre a história da astronomia vêm ganhando, mais
descobrimos que os árabes foram muito além de simplesmente copiar e seguir à risca aquilo que
já existia antes deles.
Uma outra cultura oriental que desenvolveu a astronomia, mas de forma praticamente
autônoma foi a chinesa. Como outros povos, eles utilizavam as estrelas para navegar e se orientar
de uma forma geral, o que é indicado pelas cartas celestes que produziram. Em 1054, quando
uma supernova8 pôde ser observada a olho nu na constelação do Touro, enquanto se proibia o
registro de alterações na região supralunar na Europa, os chineses relataram a observação deste
evento. Estudiosos garantem inclusive que eles já sabiam da existência de manchas solares.
Empregavam até um método bastante curioso de registrá-las e classificá-las em relação aos seus
tamanhos, comparando-as com ameixas, tâmaras, pêssegos, pêras, nozes ou ovos de galinha,
tendo como referência para o disco solar uma bacia de cerca de um metro de diâmetro. Desta

8
Fenômeno que ocorre sempre que uma estrela de grande massa (muitas vezes maior que a do Sol) chega ao estágio
final de sua vida. Neste momento, acontece uma explosão e seu brilho pode aumentar milhares de vezes.
Dependendo das circunstâncias, tal evento pode ser visto até mesmo durante o dia, tamanho o seu brilho. Numa
linha de raciocínio infame, alguns poderiam achar mais adequada a denominação “supervelha”, tendo em vista o real
motivo do fenômeno.
forma, era possível se ter uma noção razoável das proporções das manchas observadas em
relação ao Sol.

Figura 23 – Historiadores garantem que neste documento existe o registro da observação da Supernova de
1054 feita por chineses.

AS PRIMEIRAS UNIVERSIDADES
No início do século VIII, o Império Muçulmano começou a se estabelecer na Península Ibérica, e
os árabes passaram a atuar como intermediários entre o legado grego e os europeus medievais.
Apesar de toda resistência devido às questões religiosas, com o passar do tempo vários filósofos
da Europa Medieval, mesmo aqueles ligados à Igreja, começaram a tomar conhecimento do
avanço científico empreendido pelos gregos e árabes. Como a língua mais usada nessa região era
o latim, passaram a traduzir para esse idioma os mais diversos tratados que encontravam,
principalmente em árabe.
As primeiras universidades europeias começaram a surgir a partir do século XI e se
utilizaram dessas obras traduzidas para disseminar o conhecimento existente até então. No século
XIII, vários membros da Igreja Cristã que tiveram a oportunidade de estudar nessas
universidades medievais contribuíram significativamente com a astronomia.
Um deles foi o frade dominicano São Tomás de Aquino (1225 – 1274), chamado de “o
mais sábio dos santos”, que estudou e, posteriormente, lecionou na Universidade de Paris. Como
admirador do pensamento de Aristóteles, propôs um amálgama do cristianismo com a
cosmovisão aristotélica, a qual difundiu intensamente como clérigo e mestre. Seu acréscimo a
essa ideia foi a substituição do que ficou conhecido como “motor primordial” pelo próprio Deus,
que passou a ser o responsável pelo movimento das esferas celestes. Defendeu também uma
relação entre fé e razão, sustentando que filosofia e teologia não se opõem, e sim,
diferentemente, complementam-se. Em sua Suma teológica, Tomás de Aquino afirmou que “os
movimentos dos corpos aqui abaixo, que são variados e multiformes, devem ser referidos aos
corpos celestes”. Ele, porém, acreditava ser “impossível que os corpos celestes sejam a causa dos
atos humanos”, por achar que esta influência eliminaria o livre-arbítrio, já que submeteria as
pessoas à vontade dos astros. A fim de exemplificar esse efeito que os objetos celestes
exerceriam sobre as coisas, o santo comentou que “os marinheiros evitam navegar no plenilúnio
[lua cheia] ou na lua defeituosa [lua nova, muito provavelmente]”, em uma alusão clara às
marés, que se intensificam nestes períodos.
Uma amostra do alcance do arcabouço científico-religioso lançado por São Tomás de
Aquino pode ser encontrada na obra máxima do célebre poeta florentino Dante Alighieri (1265 –
1321). Considerado por alguns autores como o homem-síntese da Idade Média, Dante é o autor
da Comédia, posteriormente elevada ao grau de Divina. Foi utilizando-se do pensamento tomista,
provavelmente conhecido por ele durante o período em que estudou na Universidade de
Bolonha, que construiu o mundo imaterial deste seu poema épico.
Esta obra é dividida em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, e é neste último estágio
de sua viagem insólita, que Dante apresenta ao leitor a influência sofrida pela cosmologia
medieval tomista, onde Deus foi descrito como “o amor que move o Sol e as outras estrelas”. Tal
referência evidencia o quanto se tornou popular o modelo de Universo proposto por Aristóteles e
“aprimorado” por Tomás de Aquino. Afinal de contas, a Comédia de Dante é uma das obras
literárias mais lidas de todos os tempos.
Mas apesar da grande aceitação deste modelo, Tomás de Aquino, em seu comentário da
obra aristotélica Sobre o céu, observou que “as suposições dos astrônomos não são
necessariamente verdadeiras”, e que seria possível “conceber que o movimento dos planetas
venha a ser explicado de uma outra maneira, que até agora não foi descoberta”. Convenhamos,
trata-se de uma afirmativa, no mínimo, curiosa para ser feita por um membro tão célebre da
Igreja, e sem dúvida, uma previsão acertada do futuro, como veremos em breve.

WILLIAM DE OCKHAM E SEUS DISCÍPULOS


Alguns membros do clero vinculados a universidades começaram a trabalhar em outras ideias
bastante interessantes também. O inglês membro da ordem franciscana William de Ockham
(c.1288 – c.1347), criador da “navalha de Ockham”9, foi um deles. Ele vislumbrou a
possibilidade de existência de outros mundos como a Terra nas esferas celestes. Porém, foi além
9
Princípio que diz que qualquer premissa supérflua usada para explicar um fenômeno deve ser descartada em
detrimento de uma mais simples.
daquela proposta de al-Biruni discutida anteriormente. Sua hipótese foi importante, porque
Ockham presumia assim que a física do mundo sublunar deveria valer para este mundo também.
Usemos um exemplo para melhor visualizar esta questão, utilizando a própria Lua como
este outro mundo. Segundo o modelo aristotélico, todo corpo pesado cai em direção ao centro da
Terra (a ciência por trás desta explicação é geralmente chamada de “física do lugar natural”).
Imaginemos, por exemplo, um astronauta na superfície da Lua deixando um objeto deste cair de
sua mão. Segundo Aristóteles, esse objeto viria na direção do centro da Terra, em vez de cair em
direção ao centro da Lua, visto que o centro da Terra era o centro do próprio Universo, para o
qual todo corpo grave era conduzido naturalmente! Com esse argumento ele refutava a existência
de outros mundos, pois caso contrário, teoricamente, choveria objetos em nossas cabeças. Já para
Ockham, um objeto pesado largado na superfície de outro mundo tenderia a cair em direção ao
seu centro, e não em direção ao centro terrestre. Aqui já se pode notar que a física do mundo
sublunar poderia existir em outros locais além da esfera da Lua, de acordo com a visão de
Ockham.
O filósofo e padre francês Jean Buridan (c.1300 – 1358) foi discípulo de William de
Ockham na Universidade de Paris. Na primeira metade do século XIV, Buridan tornou-se reitor
dessa instituição, na qual teve a oportunidade de atuar num campo próximo, mas diferente do de
seu mestre. Seu trabalho é considerado por alguns historiadores como o início da retomada
científica, que culminaria na obra dos gigantes renascentistas.
Buridan estudou o movimento dos corpos e afirmou que um agente externo, ao exercer
uma força em um objeto, imprime um ímpeto nele. E este movimento deveria de propagar
indefinidamente se não houvesse resistência, fato este que não ocorre comumente ao nosso redor
devido a diversas forças deste tipo. Resumidamente, era assim que ele explicava o
comportamento dos corpos em movimento no domínio sublunar. Porém, Buridan se diferencia
dos demais quando aborda a questão do movimento para o mundo supralunar. Sua hipótese se
estenderia a esta região, ao afirmar que Deus teria fornecido o ímpeto inicial que impôs
movimento aos astros. Como não existia resistência nas esferas celestes, a continuidade desse
deslocamento não estaria comprometida. De qualquer maneira, fica claro que a mesma física se
aplicaria tanto na Terra quanto no céu, mudando apenas o fato de que no mundo supralunar não
haveria a resistência ao movimento existente no sublunar. Esta proposta em conjunto com a de
seu mestre sugeria de maneira implícita uma unificação dos dois mundos, algo que só se
consumaria de fato no final do século XVII.
Outro aluno de Ockham que deixou sua marca na história da astronomia foi o bispo de
Lisieux Nicole d’Oresme (c.1320 – 1382), que lecionou na Universidade de Paris. Em seu Livro
do céu e do mundo, ele descartou a teoria do ímpeto nas esferas celestes defendida por Buridan,
mas concordou com ele numa outra ideia que foi amplamente discutida por ambos: a rotação
terrestre. A proposta experimental dos dois na abordagem deste problema era semelhante, mas a
conclusão foi deveras diferente. Eles buscaram analisar o lançamento de uma flecha na vertical e
sua queda ao final do movimento.
Segundo Buridan, como ela voltava para a mão do lançador isso seria um indicativo de
que não existiria movimento de rotação, visto que se a Terra estivesse girando a flecha não
retornaria à posição de lançamento, que deveria ter se deslocado devido ao movimento diurno.
Por outro lado, Oresme concluiu que este resultado era obtido por que a flecha atirada
verticalmente compartilharia do movimento de rotação da Terra. Desta maneira, quando
arremessada para cima, além deste movimento imposto pelo lançador, teria ainda o movimento
de rotação impregnado nela, e por isso retornaria a posição inicial. Ele defendia que o fato de a
Terra girar ao redor do seu eixo simplificaria as coisas. Todavia, alguns historiadores narram que
ao final de sua vida, Oresme teria descartado esta hipótese.
Além disso, de acordo com alguns estudiosos do período medieval, Oresme vislumbrou a
possibilidade de um sistema cujo centro não seria a Terra, mas sim o Sol. Essa visão herética
poderia ter lhe causado problemas junto à Igreja, da qual era membro, mas é difícil saber ao certo
se seus integrantes tomaram conhecimento dessa ideia enquanto o monge era vivo.
Sobre a proposta de seu mentor acerca da existência de outros mundos, Oresme a aceitou,
visto que, para ele, com seu poder infinito, Deus poderia facilmente criar quantos mundos
quisesse. Ao escrever sobre o tema, confessou que tinha o hábito de exercitar sua mente com
uma ideia interessantíssima: a de mundos dentro de outros, similares, porém menores. Se
considerarmos a hierarquia cosmológica do Universo atual, veremos que não estava tão distante
assim da realidade.
Sua obra serviu de influência para grandes pensadores que vieram depois dele. De
Leonardo da Vinci a Descartes, passando por Copérnico e Giordano Bruno, Oresme pode ser
considerado coautor informal de ideias fantásticas que revolucionaram a história da ciência.

TRANSIÇÃO IDEAL
Retomando um tema de vital importância para a história da astronomia, falemos agora sobre a
utilização do modelo ptolomaico durante a Idade Média, particularmente, em seu fim. Essa obra
foi de certa forma ofuscada pela adoção da cosmovisão aristotélica por parte da Igreja. O que não
quer dizer que ninguém optou por deferentes, epiciclos e equante. Boa parte dos filósofos árabes,
por exemplo, não só usou o sistema de Ptolomeu, como aperfeiçoou sua construção a ponto de
torná-lo mais preciso. Porém, coincidentemente ou não, dos personagens que vimos até agora, a
maioria adotou o Universo de Aristóteles.
Mas é interessante registrar aqui alguns dos defensores europeus do modelo ptolomaico.
Acredita-se que o inglês João de Sacrobosco (1195 – c.1256) foi o primeiro astrônomo a publicar
na Europa Medieval um tratado no qual baseava suas demonstrações no sistema de Ptolomeu.
Intitulado Sobre a esfera do mundo, esse trabalho veio à luz aproximadamente em 1220.
Outros que se destacaram por adotar a obra ptolomaica foram o astrônomo austríaco
Georg von Peurbach (1423 – 1461) e seu aluno alemão Johannes Muller (1436 – 1476), mais
conhecido por seu nome latino Regiomontanus. Ambos aplicaram e expandiram o conhecimento
acerca deste modelo às portas do Renascimento, fazendo com que a comunidade astronômica da
época ficasse mais atenta às opções fornecidas por aquele sistema. O tratado de Regiomontanus
intitulado Epítome do Almagesto de Ptolomeu, no qual deu continuidade ao trabalho de seu
mestre, serviu como referência para que Nicolau Copérnico pudesse dar início a uma revolução
astronômica.
Estas obras também foram de fundamental importância para uma atividade que se
desenvolveu bastante principalmente em Portugal e na Espanha nos séculos XV e XVI: as
navegações de longo curso. O risco inerente à atividade, associado à possibilidade de grande
retorno financeiro fez com que se trabalhasse com afinco para melhorar ainda mais a qualidade
das tabelas e instrumentos astronômicos, de forma que os prejuízos fossem minimizados. Assim,
com base em tratados como os de Regiomontanus, um acervo com dados e materiais bastante
precisos puderam ser produzidos e postos à disposição dos comandantes das caravelas.
O desenvolvimento astronômico empreendido até então atinge um ponto crucial neste
momento da História, que permitirá uma transição extremamente favorável para que se chegue à
grande revolução astronômica que estaria por vir.
CAPÍTULO 3: RENASCIMENTO

A RENASCENÇA E SEU ÍCONE


Para a maioria dos historiadores, a tomada da capital do Império Bizantino, Constantinopla, no
ano de 1453, representa o marco inicial de um período extremamente importante para a ciência e
a humanidade como um todo: o Renascimento. A chegada na Europa Ocidental de intelectuais
saídos da cidade turca teria servido como estímulo para essa revolução cultural que teve início na
Itália, e se propagou por várias cidades europeias.
Obviamente, o status quo não mudou da noite para o dia. Outros diversos fatores
contribuíram para que esse movimento de redescoberta artística e científica, gradualmente, se
estabelecesse. Certamente, a invenção da prensa tipográfica por Johannes Gutenberg (c.1400 –
1468), em meados do século XV, foi mais um desses fatores.
Com esse advento, a quantidade de livros disponíveis passou a crescer exponencialmente,
o que permitiu uma redução no custo das publicações, tornando-as mais acessíveis. Os clássicos
greco-romanos, que estavam em alta no período renascentista, passaram a ser amplamente
divulgados e estudados.
E se Dante anteriormente foi considerado o homem-síntese da Idade Média, permita-me
transferir esse título para o polímata italiano Leonardo da Vinci (1452 – 1519) no Renascimento.
Personagem emblemático dessa era, além do legado sempre mostrado nos mais diversos livros,
exposições e programas de televisão, Da Vinci contribuiu também, de forma não tão significativa
(verdade seja dita), com a astronomia. Todavia, como sua obra apresenta um trecho deveras
interessante nessa área, destacaremos a seguir essa passagem.
Da Vinci, como ainda era comum naquele tempo, foi bastante influenciado pela física
aristotélica em seus argumentos. Mas também vislumbrou novas possibilidades em relação à
questão do movimento dos corpos. Ele defendia que o calor e o frio causariam o movimento dos
elementos, e como acreditava que todo calor do Universo era produzido pelo Sol, tal movimento
seria, portanto, derivado deste astro. Como podemos perceber, uma hipótese bastante fraca, e
talvez por isso mesmo muito pouco citada.
Mas o trecho curioso da obra de Da Vinci é quando ele questiona a natureza da Lua,
chegando a perguntar “como ela não cai?”, pergunta essa extremamente interessante, tendo em
vista o conhecimento acerca da gravidade que temos hoje. Além disso, a impressão que fica é
que ele havia notado as irregularidades na superfície lunar antes mesmo da invenção do
telescópio. No livro Anotações de Da Vinci por ele mesmo há uma seção intitulada “Construir
vidros para ver a Lua ampliada”, mas é difícil comprovar se a eficiência do método proposto é
suficiente para que ele tenha conseguido observar tais irregularidades, a partir da forma como
está descrito na seção.
Por essa razão, podemos entender por que suas ideias na astronomia não se tornaram
célebres como outras tantas que ele teve. Porém, esse é apenas o começo de um período bastante
fértil astronomicamente falando.

O INÍCIO DE UMA REVOLUÇÃO


Alguns historiadores consideram essa denominação exagerada no que diz respeito à contribuição
de Nicolau Copérnico (1473 – 1543), que será nosso personagem em foco a partir de agora.
Outros acham que ele sequer se aproximou de revolucionar alguma coisa. Particularmente,
acredito que este seja um dos pontos mais controversos da história da astronomia, pois é difícil
encontrar concordâncias entre os especialistas. De qualquer forma, veremos o quanto esse
astrônomo e cônego polonês acrescentou à história da astronomia, passando pelas questões
polêmicas que o cercam.
Copérnico estudou na Universidade de Cracóvia antes de ir para a Itália se formar na
Universidade de Bolonha, onde, provavelmente, foi apresentado ao tratado de Regiomontanus
com um resumo aprimorado da obra ptolomaica. Mas, obviamente, ele não se limitou a ela. Sua
sede pelo conhecimento astronômico aumentava cada vez mais, e Copérnico estudou vários
trabalhos importantes sobre esta ciência.
Por volta de 1503, Copérnico voltou à Polônia, e aproximadamente dez anos depois
divulgou seu opúsculo manuscrito conhecido como Pequeno comentário, cuja circulação ficou
restrita somente às pessoas de sua confiança. Nesse trabalho, ele já anunciava aquilo que
caracterizaria sua obra máxima: a busca pela perfeição (aquela mesma dos gregos Pitágoras e
Platão). Segundo ele, apesar de consistente com os dados numéricos, o modelo ptolomaico não
transmitia uniformidade. Assim, coube a Copérnico buscar um arranjo mais razoável de círculos,
a fim de tornar o Universo mais simples.
Suas ideias nesse protótipo de tratado foram expostas sem muita elaboração e de forma
qualitativa. Ele reuniu em sete axiomas tudo aquilo que considerava indispensável para
harmonizar o mundo, sem deixar de salvar os fenômenos. No primeiro deles, Copérnico postulou
que “todos os orbes ou esferas celestes não têm um centro único”, para em seguida afirmar, no
segundo axioma, que “o centro da Terra não é o centro do mundo, mas apenas o de gravidade e
de orbe lunar”. Porém, é no terceiro que vem a mudança crucial, que é mais elaborada do que
parece: “Todos os orbes giram ao redor do Sol, como se ele estivesse no meio de tudo, portanto o
Sol está perto do centro do mundo.”
Pois reparemos como era o original desse terceiro axioma em latim. Nele, destacarei a
palavra que informa um detalhe que pode passar despercebido, mas é fulcral: diferentemente do
que se pensa habitualmente sobre o modelo copernicano, o Sol não está no centro: “omnes orbes
ambire Solem, tanquam in medio omnium existentem, ideoque circa Solem esse centrum mundi”
(grifo meu). Assim, o que se vê nestes três primeiros princípios é que mesmo sem amadurecer
muito seu modelo, Copérnico já admitia que a Terra não ocupava a posição central,
permanecendo apenas com a Lua ao seu redor. A física do lugar natural também sofria
modificações, pois os corpos graves não caíam mais em direção ao centro do Universo (que
antes coincidia com o terrestre). Mas curioso mesmo é justamente o fato de o Sol jamais ter
ocupado o centro deste sistema (ou seja, se quisermos ser extremamente rigorosos, deveríamos
chamar este sistema de “heliostático” e não “heliocêntrico”…).
Ao que tudo indica, os planetas girariam uniformemente ao redor do centro do Universo,
e o Sol se encontraria na verdade não no centro, mas próximo a este ponto imaginário. Tal
artifício serviria, muito provavelmente, para explicar a variação do diâmetro solar, e talvez até a
variação de velocidade que os planetas apresentam durante seu movimento orbital.
Nos outros quatro axiomas, Copérnico explica alguns movimentos definidos por ele,
como a rotação da Terra, por exemplo, e passa uma noção da dimensão deste novo Cosmos, que
assim como aquele proposto por Aristarco, aumentou consideravelmente de tamanho.
Outro dado importante fornecido por Copérnico nesse texto é a ordem correta da
disposição dos planetas em relação ao Sol. Para ele, o mais próximo seria Mercúrio, seguido por
Vênus, Terra (com a Lua girando ao seu redor), Marte, Júpiter e Saturno. Este último seria
sucedido pela esfera das estrelas, que neste sistema permanece imóvel, visto que seu movimento
foi “transferido” para a Terra.
É neste momento da história da astronomia que ocorre uma quebra de paradigma no
conceito de planeta. Até aqui, planetas eram todos os astros errantes, que se deslocavam em
relação ao fundo de estrelas, como já foi comentado anteriormente. Com o modelo de Copérnico
temos uma alteração brusca no Universo conhecido naquele momento, que hoje chamamos de
Sistema Solar. Já a Lua parece ter ficado em um limbo conceitual até o termo “satélite” ser
criado. Segundo Timothy Ferris em seu livro O despertar na Via Láctea, a autoria desse termo
pertence a Kepler. Nas duas traduções em português da obra máxima de Copérnico, a Lua é
referida como “satélite”, apesar de não existir qualquer palavra no original em latim que remeta a
esta terminologia.
Copérnico determinou ainda os períodos orbitais de cada um dos planetas com uma
precisão razoável.
Mas não pense que este modelo era extremamente elegante. Mesmo abolindo o equante,
Copérnico inseriu diversos círculos auxiliares (como os epiciclos), que agora não serviam mais
para explicar a retrogradação dos planetas — fenômeno este compreendido diretamente pela
combinação dos movimentos da Terra e dos outros planetas —, mas sim as velocidades variáveis
que estes apresentavam ao longo de suas órbitas. Assim, apesar de manter os movimentos
circulares e uniformes, como mandavam os preceitos perfeccionistas de Platão, o modelo
copernicano não apresentava toda aquela simplicidade anunciada. E sequer sua precisão foi
muito diferente da do ptolomaico.

Figura 24 – Visualização do movimento retrógrado a partir do modelo de Copérnico. Nele, esse movimento
ocorre naturalmente, como se pode ver pela variação da posição do planeta Marte (usado como exemplo) em
relação ao fundo de estrelas. (Figura fora de escala)

SOBRE AS REVOLUÇÕES DOS ORBES CELESTES


Em 1543, ano da morte de Copérnico, veio à luz a primeira edição de sua obra-prima, Sobre as
revoluções dos orbes celestes.10 Como foi dito antes, algumas polêmicas cercam essa publicação,
e elas já começam no prefácio apócrifo inserido sem o consentimento do autor, posteriormente
atribuído ao teólogo luterano Andreas Osiander (1498 – 1552), que acompanhou a impressão do
tratado. Nele, Osiander procura desacreditar as novas hipóteses “admiráveis e fáceis” ali
contidas, tendo em vista que somente Deus poderia revelar a verdade. De acordo com ele, “não é
necessário que essas hipóteses sejam verdadeiras, e nem sequer verossímeis, mas basta que
forneçam um cálculo que concorde com as observações”.

10
Sobre este título, cabe um comentário pertinente: foi a partir deste tratado que evoluiu o modelo de Sistema Solar
vigente hoje, apesar de sabermos que esta não foi a primeira vez que um sistema heliocêntrico foi proposto.
Portanto, por que o nome do movimento que a Terra executa ao redor do Sol não se originou do título da obra na
qual, pela “primeira vez”, se cogitou este movimento batizado de “revolução” (por sinal, um nome até mais correto
do que “translação”, fisicamente falando)? Por que não respeitamos o nome historicamente proposto por Copérnico
desde a publicação original em latim e, como bonificação, ainda utilizaremos uma denominação mais acertada?
Outra controvérsia comumente encontrada na literatura costuma relatar que esse trabalho
somente teria sido publicado no ano da morte de Copérnico, porque o autor temia a reação da
Igreja. Porém, é sabido que diversos membros dessa instituição insistiram veementemente para
que ele divulgasse sua teoria. Entre eles, podemos citar o cardeal de Cápua, o bispo de Chelmno
e o bispo de Fossombrone que, conforme contam, era um especialista em astronomia. Além
disso, um dos motivos que o impeliram nessa empreitada foi a necessidade por parte da Igreja de
corrigir problemas relativos ao calendário, posto que havia uma certa discordância entre os
estudiosos da época sobre os movimentos do Sol e da Lua.11
Copérnico, mesmo com algum receio, se viu persuadido a lançar suas ideias, ainda que,
segundo ele, alguém pudesse exigir a sua condenação.
Sua obra completa foi dividida em seis livros. No primeiro, Copérnico, basicamente,
introduz os principais conceitos, e nos demais parte para os cálculos. Podemos considerar esse
trabalho como uma expansão do seu Pequeno comentário no qual tabelas, diagramas, ilustrações
e argumentos seguros foram oferecidos para deleite de seus sucessores.
Analisando mais a fundo o livro um encontramos, nos primeiros capítulos, a informação
de que o Universo e a Terra são esféricos, seguida de uma breve explanação a esse respeito. Já
no capítulo quatro, Copérnico postula que “o movimento dos corpos celestes é uniforme, circular
e perpétuo, ou composto de movimentos circulares”. Tal complementação expõe as
irregularidades de seu sistema, que ele ainda considera harmonioso por essas irregularidades
terem um perfil periódico.
Nos capítulos que se seguem, Copérnico explora mais diretamente a questão da
gravidade, a fim de fortificar ainda mais os alicerces de sua hipótese. No modelo copernicano,
com a Terra fora do centro do Universo, o movimento dos corpos associados ao nosso planeta
seria duplo: retilíneo, que corresponde ao movimento radial, e circular, devido à rotação
terrestre. Ambos têm esses perfis (retilíneo e circular) quando consideramos o centro da Terra
como referência. Como se pode notar o centro de gravidade terrestre permanece sendo o centro
do planeta, embora agora cada um dos astros desse sistema tenha o seu próprio centro de
gravidade também.
O trecho no qual Copérnico introduz esta definição encontra-se citado a seguir: “Quanto a
mim, penso que a gravidade não passa de uma certa apetência natural implantada nas partes pela
providência divina do Arquiteto universal, para que elas restaurassem sua unidade e integridade
reunindo-se na forma de um globo. E pode-se crer que esta afeição também está no Sol, na Lua,

11
A duração dos anos e dos meses depende diretamente do conhecimento acerca desses movimentos, que ainda não
estavam convenientemente medidos. Somente em 1582 esse problema foi resolvido com a criação do calendário
gregoriano, vigente até hoje.
e nos outros corpos errantes brilhantes, e que, graças à sua eficácia, eles permanecem esféricos
como se apresentam”.
Este ponto de sua obra também gera uma certa polêmica, pois alguns autores acreditam
que Copérnico se inspirou em razões metafísicas para propor o principal pilar de seu modelo, o
Sol como centro (isto é, quase centro) do Universo. Ao declarar que o astro deveria ocupar a
posição central, perguntando “quem colocaria esta lâmpada de um belo templo em outro lugar
melhor do que esse, de onde ele pode iluminar tudo ao mesmo tempo?”, Copérnico aguça o leitor
menos atento a pensar que o motivo seria assim tão simples. Mas, ao longo de todo seu tratado,
ele mesmo se esforça para demonstrar que baseou sua teoria na matemática, ou seja, mesmo que
houvesse alguma motivação mística, no final foi a ciência que validou sua proposição.

Figura 25 – Esboço original contido em Sobre as revoluções dos orbes celestes, com o modelo heliocêntrico
exposto de forma simplificada pelo próprio Copérnico.

Historiadores contam que nos primeiros 50 anos após o lançamento do Sobre as


revoluções dos orbes celestes, a Igreja conviveu naturalmente com a obra. O fato de ter sido
escrito por um cônego e dedicado ao papa Paulo III ajudou bastante para que o tratado não
chamasse a atenção da Santa Inquisição. Quanto aos astrônomos e matemáticos da época, neste
mesmo intervalo de tempo, talvez uma dúzia deles tenha sido capaz de acompanhar o raciocínio
de Copérnico ali contido. Somente nas primeiras décadas do século XVII é que os holofotes, ou
melhor, os candelabros, se voltariam totalmente para aquele sistema heliocêntrico.
OS PRIMEIROS COPERNICANOS
Um dos primeiros seguidores de Copérnico foi o astrônomo e matemático inglês Thomas Digges
(1546 – 1595). Em 1576, ele publicou um almanaque intitulado Prognóstico eterno, no qual
introduziu trechos do Sobre as revoluções dos orbes celestes pela primeira vez traduzidos para o
inglês. Nesta obra, Digges propôs que o Universo seria infinito e preenchido por uma infinidade
de estrelas espalhadas aleatoriamente por esse espaço sem fim, abrindo mão, portanto, da esfera
das estrelas fixas.

Figura 26 – Ilustração contida na obra de Digges que representaria o Universo infinito proposto por ele.

O filósofo italiano Giordano Bruno (1548 – 1600) também foi um entusiasta do


copernicanismo, que adaptou o modelo heliocêntrico a suas crenças e o defendeu com ardor.
Uma noção interessante defendida por Bruno era de que “a mesma força espiritual, que move os
planetas em torno de seus sóis, deve, por analogia, mover também o sangue por meio do corpo”.
Apesar da analogia, que sabemos hoje ser inadequada, o interessante a respeito desta comparação
é a introdução de uma força como razão do movimento dos planetas ao redor do Sol. O problema
dessa força era justamente seu perfil metafísico, carente de uma análise quantitativa coerente, o
que a afastava demais da força gravitacional.
Em 1584, Bruno publicou o diálogo Acerca do Universo infinito e dos mundos, no qual
afirmava que o Universo seria preenchido por uma substância que dispensaria a existência das
esferas planetárias, e que não ofereceria qualquer tipo de resistência aos movimentos celestes.
Ele adotou a proposta medieval de que estes movimentos teriam sido impostos pelo próprio Deus
aos astros. Ainda de acordo com Bruno, o Universo seria infinito, as estrelas seriam outros sóis,
e ao redor delas haveria planetas, que poderiam ser habitados como a Terra.
Por ser membro da Igreja e ter defendido estas e outras ideias consideradas hereges como
a rotação terrestre e que Deus e o Universo seriam a mesma coisa uma vez que ambos são
infinitos, Bruno foi excomungado e condenado a morte, sendo queimado vivo em praça pública
pela Santa Inquisição.
Outro que seguiu alguns dos passos de Copérnico foi o médico e físico inglês William
Gilbert (1544 – 1603). Em sua obra-prima, intitulada Sobre o ímã, de 1600, ele discute
intensamente questões referentes ao magnetismo, e inova ao considerar a Terra como um imenso
magneto. Gilbert, assim como outros adeptos do modelo copernicano, se preocupava com as
lacunas que este sistema apresentava, como a falta de uma explicação para os movimentos de
nosso planeta. No entanto, ele se ateve basicamente a tentar explicar o movimento de rotação da
Terra, o qual associou ao magnetismo, visto que em seu tratado discutiu amplamente fenômenos
de tal natureza. Nesse trabalho, Gilbert ainda apresenta uma noção bastante interessante ao citar
que se o ferro ou um outro corpo magnético caísse sob o que ele chamou de “esfera de
influência” da terrela (um ímã de formato esférico), esse corpo seria atraído por ela. 12 Isto
permitiu a ele afirmar que o ímã e a Terra estavam em conformidade com os movimentos
magnéticos que os regiam.

UM OBSERVADOR GENIAL
Quem não aderiu plenamente à proposta de Copérnico foi o astrônomo dinamarquês Tycho
Brahe (1546 – 1601). Seu interesse por astronomia vinha desde a juventude, quando, ao observar
alguns fenômenos celestes, notou a grande defasagem entre eles e as tabelas que previam esses
eventos. Ele tomou para si a responsabilidade de aperfeiçoar aqueles dados o máximo possível, e
se pode dizer que seu objetivo foi plenamente atingido. Tycho foi certamente o maior observador
do período pré-telescópio. Com o passar dos anos, adquiriu e confeccionou os melhores
instrumentos astronômicos de seu tempo. Em novembro de 1572, ele observou uma estrela
jamais vista anteriormente na constelação boreal de Cassiopeia, cujo brilho era mais intenso que
o do planeta Vênus. Fazendo uso de seus equipamentos extremamente precisos, o astrônomo
dedicou muitas noites à observação do que ele chamou de nova stella (“estrela nova”, em latim),
e que sabemos hoje tratar-se de outra observação histórica de uma supernova.
No ano seguinte ao avistamento dessa “estrela nova”, Tycho publicou o tratado Sobre a
nova estrela, no qual apresentava uma informação importantíssima: aquele astro, enquanto

12
Esta ideia se assemelha bastante ao conceito de “campo” introduzido por Michael Faraday no século XIX.
esteve visível por alguns meses, não mudou sua posição em relação ao fundo de estrelas (que
exibem o mesmo comportamento). Essa constatação lhe permitiu concluir que essa nova estrela
era um objeto celeste, ou seja, um fenômeno ocorrido acima da esfera da Lua, no mundo
supralunar. Na verdade, segundo ele, a “nova” — como esse tipo de astro ficou sendo chamado
por algum tempo — encontrava-se na esfera das estrelas fixas. Como aquela região deveria ser
imutável, estava dado o primeiro golpe de Tycho Brahe na cosmovisão aristotélica.
O segundo golpe não tardou. Em 1577, um cometa surgiu no céu da Europa renascentista.
Vários astrônomos observaram e estudaram o fenômeno, que Aristóteles considerava como
sendo atmosférico. Tycho, por sua vez, analisou-o da mesma forma que havia feito com a estrela
nova, e chegou à seguinte conclusão: “Descobri por cuidadosas observações e demonstrações do
presente cometa que ele está localizado e caminha acima da Lua, nos céus.” Ele ainda foi capaz
de afirmar, com base nas pequenas variações na posição do cometa ao longo das noites, que tal
corpo se encontrava entre as esferas da Lua e de Vênus. Posteriormente, o novo astro se
aproximou do Sol, para em seguida se afastar até deixar de ser visível.
Ora, mas se esse objeto celeste se deslocava dessa maneira, como ele ultrapassava as
esferas cristalinas dos planetas? Tycho não fez qualquer esforço para salvar os fenômenos;
simplesmente argumentou que as esferas cristalinas não existiam. Para comprovar sua hipótese,
outros cometas foram observados por ele entre 1580 e 1596, e apresentaram comportamento
bastante semelhante ao de 1577. Dessa forma, se suas medições estivessem corretas, as esferas
cristalinas se fragmentariam sempre que um cometa passasse por elas. Tycho ainda foi capaz de
especular a respeito do formato da trajetória desses astros que, de acordo com ele, pareciam
ovais bastante alongadas.
Porém, um problema surgia com sua teoria: se não existiam esferas cristalinas para girar
os planetas, como se davam estes movimentos, então? Por seu perfil mais prático, mais voltado
para as observações, ele não se preocupou em responder essa questão, que requeria uma
abordagem mais teórica e matemática.
Ainda assim, mesmo sem muito jeito para teoria, em 1588, na obra Sobre os recentes
fenômenos do mundo etéreo, Tycho Brahe divulgou sua ideia para um novo modelo de Universo.
Estabelecido, desde 1580, em seu castelo-observatório Uraniborg (do sueco, “castelo de Urânia”,
em homenagem à musa grega da astronomia), localizado na ilha de Hven, próxima a
Copenhague, ele teve a possibilidade de confabular a respeito de suas descobertas e suas crenças,
e a partir daí moldar seu Cosmos, que era um híbrido do ptolomaico com o copernicano. Isso
porque, por razões físicas (novamente a questão do desvio não sofrido por corpos em queda) e
teológicas, ele não aceitava que a Terra se movesse. Dessa forma, em seu sistema, a Terra
retornaria ao centro do Universo, e teria dois astros girando ao seu redor, a Lua e o Sol. Já os
cinco planetas — Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno — girariam em torno do Sol,
conforme Copérnico havia previsto. E como o movimento de rotação foi extinto, a esfera das
estrelas voltaria a girar em cerca de 24 horas, como era anteriormente.13

Figura 27 – Esboço do modelo proposto por Tycho Brahe com a ilustre presença de um cometa a orbitar o
Sol, sem levar em conta, entretanto, a variação de sua posição em relação a esse astro.

A contribuição de Tycho Brahe à astronomia é inquestionável. Com seus instrumentos,


ele praticamente dobrou a precisão das medidas existentes até aquele momento, além das demais
descobertas já comentadas. Embora estivesse extremamente ciente de suas realizações, ele sabia
que com os novos dados obtidos (mais precisos), o salto poderia ser ainda maior, mas
reconheceu que estava aquém desta missão. Através de seu contato com Michael Maestlin (1550
– 1631), professor de astronomia da Universidade de Tübingen, ele conseguiu um colaborador a
altura de seus dados: Johannes Kepler (1571 – 1630).

13
Alguns autores acreditam que Tycho Brahe foi influenciado, direta ou indiretamente, por um modelo proposto na
Antiguidade por Heráclides de Ponto (390 – 333 AEC). Nesse sistema, a Terra, central, teria o movimento de
rotação, e Mercúrio e Vênus girariam ao redor do Sol, que orbitaria a Terra assim como os demais planetas.
Heráclides é chamado algumas vezes de “Tycho Brahe da Antiguidade”, mas considero mais próprio nos referirmos
a Tycho Brahe como o “Heráclides do Renascimento”…
GIGANTES CONTEMPORÂNEOS
Maestlin foi o grande responsável por apresentar seu aluno, o jovem Kepler, ao modelo
heliocêntrico de Copérnico. O rapaz estudava teologia e filosofia na Universidade de Tübingen.
Entretanto, acabou se fascinando pela matemática e pela astronomia, áreas da ciência nas quais
seus trabalhos tornaram-se referências dignas de reconhecimento até os dias de hoje.
Embora cada vez mais estudada, a teoria copernicana ainda apresentava lacunas, não
respondendo às diversas questões que se originavam a partir da noção de um Sol central com
planetas girando ao seu redor. E uma das principais perguntas sem resposta era sobre a divisão
aristotélica do Universo em mundos sub e supralunar. Como avaliar se aquela ideia antiga ainda
fazia sentido, ou se uma nova concepção deveria surgir em seu lugar? Ao dar continuidade ao
trabalho de Copérnico, Kepler não respondeu definitivamente a essa questão, mas preparou o
terreno para os sábios que o sucederiam.
Até porque, em sua abordagem, ele se concentrou na física celeste, negligenciando de
certa forma a terrestre. Quem teria complementado seu trabalho foi outro cientista famoso,
Galileu Galilei (1564 – 1642), que se dedicou amplamente a estudar o comportamento de corpos
em movimento na Terra, sob as mais diversas circunstâncias.
Esses dois gênios da ciência, apesar de terem vivido na mesma época, interagiram muito
pouco e, infelizmente, quase não se veem influências que um tenha sofrido devido ao trabalho do
outro. Mas suas obras podem, de fato, ser consideradas complementares e foram muito bem
aproveitadas para dar origem a uma teoria que unificaria as físicas do céu e da Terra.
Antes, porém, de chegar a essa unificação, uma abordagem mais profunda na vasta
galeria de publicação deixada por esses dois gigantes de perfil tão diferente se faz necessária.
Serão os desdobramentos destes trabalhos que culminarão, entre outras coisas, na solução
newtoniana batizada de lei da gravitação universal.

O INÍCIO DAS CARREIRAS


Galileu era o mais velho dos dois. Em 1581, quando Kepler ainda tinha dez anos, ele foi estudar
medicina na Universidade de Pisa, mas abandonou o curso devido à paixão que desenvolveu pela
matemática. Sua relação com essa ciência foi tão forte que certa vez Galileu declarou que “o
grandíssimo livro [da natureza] está escrito em língua matemática”, evidenciando que, para ele,
tudo estava atrelado a ela.
Não tardou até que ele fosse convidado a lecionar tal disciplina. Inicialmente, o jovem
Galileu ensinava as ideias aristotélicas e ptolomaicas, chegando inclusive a compor tratados
baseados nessas premissas, embora sua influência mais forte tenha sido mesmo a obra de
Arquimedes.
No período em que passou como professor em Pisa, ele começou a dedicar parte do seu
tempo ao estudo do movimento dos corpos. Nessa ocasião, a física encontrava-se em um estágio
de interpretação bastante intuitiva. Por meio da experimentação, já se sabia que para um corpo se
mover era necessário que se aplicasse uma “força”, e sua intensidade, associada a algumas
características do objeto (como peso, volume, entre outras), faria com que o movimento durasse
mais ou menos tempo. Este e outros conhecimentos também experimentais permitiram que
Galileu e alguns de seus contemporâneos pudessem avançar ainda mais com novas teorias acerca
do movimento dos corpos.
Assim como Galileu, que trocou a medicina pelas ciências exatas, Kepler mudou o rumo
de sua vida ao aceitar um convite para lecionar matemática e astronomia em uma escola
protestante de Graz, na Áustria. Apesar de extremamente religioso, ele deixou de lado a
possibilidade de seguir carreira como teólogo, para se dedicar a uma ciência que desde os seis
anos já o fascinava. Foi com essa idade que observou com sua mãe a passagem do cometa de
1577, o mesmo que havia sido registrado e estudado por Tycho Brahe.
Em 1594, aos 23 anos, começou a dar aulas e, no ano seguinte, teve uma epifania que lhe
rendeu seu primeiro grande tratado astronômico, finalizado em 1596, o Mistério cosmográfico.
Sua proposta relacionava a estrutura do Universo com a geometria, baseada nos preceitos
pitagóricos e platônicos.
A parte inicial dessa obra tem um perfil muito mais metafísico e medieval, e nela Kepler
alude à harmonia pitagórica das esferas, procurando correlação entre os sólidos perfeitos e os
intervalos harmônicos na música. A intenção de encontrar uma estrutura harmônica no Universo
é uma marca registrada de sua carreira astronômica. E dentro dessa ideia, ele vislumbrou um
modelo no qual os sólidos platônicos desempenhavam um papel de destaque na configuração do
Cosmos.
Segundo Kepler, esses poliedros, por serem simétricos, estavam simultaneamente
inscritos e circunscritos nas esferas planetárias. A disposição do Universo ficaria então da
seguinte maneira: o Sol no centro; seguido pela esfera de Mercúrio, um octaedro; a esfera de
Vênus, um icosaedro; a esfera da Terra, um dodecaedro; a esfera de Marte, um tetraedro; a esfera
de Júpiter, um cubo; e a esfera de Saturno; seguida, finalmente, da esfera das estrelas fixas. Isso
não significava, no entanto, que essas estruturas realmente existiam no espaço, mas sim que a
relação entre as distâncias dos planetas respeitaria esta distribuição.
Figura 28 – Ilustrações que permitem uma melhor visualização do modelo vislumbrado por Kepler para
explicar as distâncias entre os planetas.

Além de satisfazer imensamente a ambição de Kepler de mostrar que o Cosmos


apresentava uma natureza geométrica, essa estrutura ainda respondia uma pergunta primordial
formulada por ele: por que existiam seis planetas, e não outro número? De acordo com esse
modelo, essa quantidade está relacionada ao número de sólidos regulares, que são apenas cinco,
o que denotaria que não era por acaso que se tratavam de seis planetas.
Contudo, essa não foi a única pergunta que Kepler tentou responder no Mistério. Outras
questões importantíssimas levantadas por ele estavam relacionadas à razão pela qual haveria uma
proporcionalidade entre a diminuição da velocidade conforme a distância do planeta ao Sol
aumenta, e também à causa dos movimentos planetários.
A fim de responder a essas perguntas, Kepler propõe inicialmente que os planetas se
movem devido a uma “alma motriz” ou “potência motriz” (do latim, motrice anima, motrice
virtute) que emanaria do centro do sistema, isto é, do Sol. Já para explicar a atenuação das
velocidades planetárias refletida nos períodos de revolução dos planetas muito bem conhecidos
naquela época, ele afirmou que quanto mais afastado da região central, menor seria a intensidade
da alma ou potência motriz. Para chegar a essa conclusão, Kepler traçou um paralelo entre essa
faculdade motriz e a luz, que naquele tempo ele acreditava sofrer uma atenuação linear conforme
se afastava da fonte, isto é, conforme a distância aumentasse, a alma, ou potência motriz,
diminuía.
Como ele considerava os planetas como “corpos materiais dotados com algo como peso
[pondere]”, a explicação para a diminuição da velocidade estaria associada também a uma
espécie de resistência interna, determinada pela densidade de sua matéria. Com isso, mais uma
vez os corpos celestes recebiam características de corpos terrestres. Mas o grande mérito do
Mistério, como poderá ser notado ao longo de toda a obra kepleriana, foi plantar sementes que
dariam grandes frutos nos trabalhos seguintes de Kepler.

Figura 29 - Tabela originalmente contida no Mistério cosmográfico, indicando o período de revolução dos
planetas visíveis a olho nu (expressado em dias). Na diagonal, o tempo que o planeta leva para completar uma
volta ao redor do Sol; e, abaixo, os valores representam quanto tempo o planeta levaria para completar uma
volta na velocidade daquele mais afastado. A tabela evidencia que os planetas mais externos percorrem suas
órbitas mais lentamente do que os mais internos. Os símbolos na primeira coluna de cima para baixo
representam, respectivamente: Saturno, Júpiter, Marte, Terra, Vênus e Mercúrio.

PREPARANDO O TERRENO
Cópias do Mistério cosmográfico foram enviadas para Tycho Brahe e Galileu Galilei. O primeiro
ficou tão impressionado que convidou Kepler para ser seu assistente em um novo castelo, para o
qual havia se mudado em agosto de 1599. Em fevereiro do ano seguinte, Kepler se mudou para o
castelo de Benatky, nos arredores de Praga, onde teve início uma relação de trabalho bastante
conturbada. Mas não se pode negar que a influência de Tycho foi importantíssima para Kepler se
tornar o homem considerado por diversos autores como o fundador da astronomia moderna.
Certa vez, Kepler admitiu que seu chefe tinha os melhores dados, mas faltava-lhe um
arquiteto para construir, a partir deles, toda a estrutura para que a revolução científica iniciada
por Copérnico tivesse continuidade. O problema é que como ambos tinham metas diferentes, a
divergência entre eles era intensa. E como Tycho Brahe era o detentor dos preciosos dados
observacionais, Kepler acabou sendo prejudicado, pois teve acesso restrito a essas informações.
Mas não demorou muito até que o mestre disponibilizasse alguns dados para Kepler
trabalhar. O planeta escolhido para ser passado para ele foi Marte, o mais problemático de todos.
Ao receber as informações, Kepler teria afirmado que resolveria o problema em oito dias,
subestimando sua complexidade. Na verdade, ele levou cerca de cinco anos para obter a
conclusão definitiva acerca da órbita do planeta, e, infelizmente, Tycho Brahe não viveu para ver
o triunfo de seu auxiliar, pois morreu em 1601.
Já Galileu não deu muito crédito para a obra que recebeu de Kepler. Sua defesa ao
copernicanismo ainda era feita de forma reservada naquela época, apenas por meio de
correspondências. Ele também não se aventurou muito pela física celeste. No início do século
XVII, passou a se dedicar intensamente ao estudo do movimento dos corpos. Em 1602, Galileu
trocou algumas cartas cujos conteúdos traziam informações sobre um potencial objeto de estudo:
o pêndulo. É provável que desse estudo tenha surgido a ideia de voltar suas atenções para o
movimento dos corpos em queda livre, visto que os pêndulos apresentavam uma peculiaridade
que poderia mostrar uma falha na física aristotélica: seu movimento independe da massa.
Assim como acontece com Galileu, muitas informações sobre os avanços empreendidos
por Kepler são conhecidas devido às correspondências que trocava com seu ex-professor
Maestlin, e um amigo chamado David Fabricius (1564 – 1617). Foi por meio de cartas trocadas
com esses dois correspondentes entre 1604 e 1605 que podemos encontrar, pela primeira vez, a
quebra do paradigma dos movimentos celestes circulares e uniformes.
Na verdade, foi no início de 1602 que esta ideia começou a ganhar forma, quando Kepler
passou a acreditar que a órbita de Marte seria um “círculo oval” (circulis ovalis, em latim). Foi
também mais ou menos nessa época que ele cunhou os termos “afélio” e “periélio”, para
identificar, respectivamente, os pontos de máximo afastamento e máxima aproximação dos
planetas em relação ao Sol. Isso porque os dados de Tycho Brahe deixavam claro que os planetas
apresentavam esse comportamento, o que tornava inviável o ajuste de suas observações com o
axioma platônico. Kepler argumentou que tal “inconstância do movimento [planetário] sem
dúvida é causada pelo Sol”, e que haveria uma relação entre ela e a distância do planeta a esse
astro. No caso da Terra, por exemplo, em janeiro ela está mais próxima do Sol, no periélio, e,
portanto, se move mais rapidamente. Já em julho, quando está no afélio, ou seja, mais afastada
do Sol, seu movimento é mais lento. Kepler, com esta constatação, já esboçava as suas leis dos
movimentos planetários. Foi com base nessas descobertas que sua obra-prima foi escrita. Os
dados de Marte renderam uma verdadeira revolução no que tange os movimentos planetários,
conforme veremos a seguir.

UMA NOVA ASTRONOMIA


A obra máxima de Kepler, intitulada Astronomia nova, foi produzida entre os anos de 1600 e
1606, mas publicada apenas em 1609. Dividida em cinco partes, podemos encontrar em suas
páginas toda a trajetória descrita pelo autor para chegar às soluções que mudariam para sempre a
visão sobre esse sistema em que o Sol desempenharia o papel principal. Trata-se de um trabalho
completo, no qual até mesmo os erros foram registrados a fim de mostrar todos os percalços
encontrados no caminho.
Segundo o próprio Kepler, sua intenção era “reformular a teoria astronômica
(especialmente para o movimento de Marte) em todas as suas três formas de hipóteses [de
Ptolomeu, de Copérnico e de Tycho Brahe]”. Ao longo de sua exposição, fica claro que todas as
hipóteses foram realmente testadas empiricamente, e com base nas causas físicas e naturais, ele
concluiu que o sistema copernicano, após sofrer algumas alterações, seria o verdadeiro, com os
demais podendo ser descartados.
Além dos dados de Tycho Brahe, Kepler também recorreu ao conteúdo da obra Sobre o
ímã, de Gilbert, lançada poucos anos antes, para explicar algumas das informações contidas em
sua Astronomia nova. Logo na introdução, ele modifica o conceito de gravidade sugerindo que
esta seja uma força atrativa. Esse foi um passo importante, pois remete a uma atração mútua
entre os corpos graves, semelhante ao que acontecia entre os corpos magnéticos, de acordo com
Gilbert, e alguns de seus antecessores.
Na segunda parte da Astronomia nova, Kepler demonstrou que todos os planos definidos
pelas órbitas dos planetas contêm o Sol, e forneceu uma série de tabelas com dados cruciais para
investigar as causas por trás dos movimentos planetários e suas características. Com isso, na
terceira etapa, Kepler propôs a solução para o problema da causa dos movimentos dos planetas,
postulando a existência de uma “força” (vis ou virtus, em latim) que emanaria do Sol. Segundo
ele, a natureza dessa força seria magnética, ou quase magnética. Assim, a noção de “alma
motriz” foi substituída pelo conceito de “força motriz solar”, cuja natureza foi explanada.
Já na quarta parte, descobrimos como essa força solar magnética atua sobre os planetas,
como ela se propaga pelo espaço, e, principalmente, como, a partir desse conhecimento,
podemos obter as duas primeiras leis dos movimentos planetários. Segundo Kepler, a força
motriz solar seria transmitida para os planetas por meio da rotação do Sol (que, é bom frisarmos,
ainda não havia sido observada à época que Kepler fez esta afirmação!), e, se dependessem só
desta emissão, os movimentos planetários seriam circulares. Entretanto, quando essa força
atingia os planetas, que também eram corpos magnéticos, a interação acarretava um movimento
que ele chamou de “libração” (libratione, do latim), que produzia uma espécie de oscilação na
distância que separava o planeta do Sol. Assim, ora o planeta ficava mais próximo do Sol, ora
mais afastado. Ao analisar toda a base de dados que tinha em mãos, Kepler concluiu que a forma
das órbitas planetárias é elíptica, e que o Sol ocuparia um dos focos desta elipse. Esta é a
primeira lei dos movimentos planetários.
Quanto à propagação da força motriz solar, esta se daria de forma linear, sem que
houvesse perda durante o processo. Contudo, ocorreria uma atenuação da força conforme a
distância do Sol aumentasse, isto é, ela se tornaria cada vez mais rarefeita devido ao seu
afastamento da fonte. Esta concepção associada à inércia (do latim, inertia) proposta por Kepler,
que seria a tendência natural dos corpos materiais de resistir ao movimento (e os planetas se
incluem nesta categoria), faria com que esses corpos celestes se movessem com velocidades
diferentes dependendo da distância que estivessem do Sol.
É a partir dessa noção que a segunda lei dos movimentos planetários se estabelece, pois
novamente com base nas observações se sabia que arcos iguais descritos pelos planetas no céu
não eram percorridos necessariamente no mesmo intervalo de tempo. Kepler enunciou então que
uma linha imaginária que ligasse o Sol a um planeta qualquer descreveria áreas iguais em um
mesmo intervalo de tempo. Como as órbitas são elípticas, as variações se justificavam devido à
mudança de velocidade de acordo com a distância do planeta ao Sol. Esta lei de Kepler também
é conhecida como “lei das áreas”.
E foi assim que Kepler começou a empreender uma verdadeira reforma na física celeste.
É perceptível que suas conclusões foram baseadas prioritariamente nas observações de Tycho, ou
seja, suas explicações (corretas ou não) serviam para justificar o que foi registrado. Por conta de
suas inestimáveis contribuições, ele é considerado o pai da área da astronomia hoje conhecida
como “mecânica celeste”, expressão esta cunhada por Laplace séculos depois. Ainda falta a
terceira lei dos movimentos planetários, mas essa será apresentada apenas no seu devido
momento.

CORRUPÇÃO E HARMONIA CELESTES


Assim como fez com seu primeiro tratado astronômico, Kepler enviou uma cópia da Astronomia
nova a Galileu. Este, por sua vez, não se importou com as implicações trazidas pelo trabalho de
Kepler, e morreria acreditando que as órbitas planetárias eram circulares.
Galileu, no mesmo ano da publicação da obra-prima kepleriana, também esteve bastante
ocupado com um instrumento astronômico que revolucionaria a astronomia. Ele tomou
conhecimento de que “um belga havia produzido um perspicillum [nome original do que mais
tarde ficou popularmente conhecido como telescópio], com o qual os objetos visíveis, ainda que
muito longe do olho do observador, se discerniam claramente como se estivessem próximos”. Na
verdade, um holandês é considerado extraoficialmente o pai do invento, pois foi dele o pedido de
patente registrado em 2 de outubro de 1608 (patente esta negada pelas autoridades holandesas).
Seu nome era Hans Lipperhey (1570 – 1619). Até onde se sabe, porém, ele não usou esse
instrumento para observar o céu.
É provável que a primeira pessoa a realizar tal façanha tenha sido o matemático inglês
Thomas Harriot (1560 – 1621). O mapa lunar mais antigo que se tem notícia foi confeccionado
por ele em agosto de 1609, quando, segundo os historiadores, Galileu havia terminado de montar
o seu telescópio. De acordo com José Bassalo, no primeiro volume de Nascimentos da física,
Harriot teria também observado o célebre cometa Halley, que, aliás, é uma peça fundamental na
história da gravidade.
Embora Galileu não tenha sido o inventor do telescópio, nem sequer o primeiro a
direcionar tal aparato para os astros, podemos afirmar categoricamente que as primeiras grandes
descobertas astronômicas com o telescópio foram realizadas por ele. Essas descobertas tiveram
um impacto avassalador no ano seguinte, quando foram anunciadas na forma de um livro
intitulado A mensagem das estrelas. Entre elas, destacam-se as imperfeições (crateras) na
superfície da Lua, as fases de Vênus e os quatro principais satélites de Júpiter.14 Essas
observações corroboravam principalmente o modelo de Copérnico, e mostravam que o mundo
supralunar de Aristóteles não era perfeito e imutável como foi considerado por seu idealizador.
Saturno também foi alvo de Galileu. Em julho de 1610, o planeta foi observado pela
primeira vez através de um telescópio, na esperança de se encontrar novas luas ao seu redor
como ocorreu com Júpiter. Mas Galileu se surpreendeu ao ver o planeta, o qual foi descrito da
seguinte forma para o grão-duque: “Saturno não é um astro único, mas uma combinação de 3, os
quais quase se tocam, nunca se movendo ou mudando”.
Seus colegas cientistas, porém, não tiveram a mesma sorte. Para anunciar sua descoberta
no meio científico, Galileu recorreu a um anagrama (tal criptografia era uma prática difundida na
época para assegurar a precedência de uma descoberta sem revelar sua natureza):
SMAISMRMILMEPOETALEUMIBVNENUGTTAVIRAS. Proveniente de Galileu, este
anagrama causou sensação entre os cientistas da época. Kepler chegou a resolver o anagrama de
Galileu, mas de forma equivocada. Interpretou-o como sendo referente ao planeta Marte:
SALVE UMBISTINEUM GEMINATUM MARTIA PROLES15 (“Saudações, companheiros
gêmeos, filhos de Marte”).16
Depois de reiterados pedidos de decodificação, Galileu finalmente veio a público com a
seguinte solução, três meses depois: “As letras então, combinadas em seu significado correto,
dizem assim: Altissimum planetam tergeminum observavi”. Traduzindo: “eu observei o mais alto
planeta como sendo um corpo triplo”. Na verdade, como sabemos hoje, esses supostos

14
As quatro luas de Júpiter foram chamadas por Galileu de “estrelas de Médici” (Sidera Medicea, em latim) em
homenagem ao quarto grão-duque de Toscana, Cosimo II de Médici. Essa atitude lhe rendeu o título de matemático
e filósofo-mor do grão-duque. Porém, os nomes atualmente utilizados são Io, Europa, Ganimedes e Calisto, que
foram dados por Simon Marius (1573 – 1624), em 1614. Marius competiu com Galileu pela prioridade na
descoberta destes satélites. Sem entrar nessa discussão, os nomes propostos por ele são de divindades mitológicas
que teriam sido amantes de Zeus (Júpiter).
15
Convém ressaltar que, em latim, a grafia das letras “V” e “U” se equivalem.
16
Curiosamente, o planeta Marte tem de fato dois satélites que, entretanto, só foram descobertos em 1877 pelo
astrônomo norte-americano Asaph Hall (1829 – 1907). Seus nomes são Fobos e Deimos.
companheiros do globo de Saturno são seus anéis, que não puderam ser resolvidos por conta da
qualidade ótica do telescópio de Galileu.

Figura 30 - Esboço de Galileu do corpo triplo de Saturno.

Com seu telescópio, Galileu observou também manchas no Sol, e o monitoramento delas
permitiu que ele constatasse a rotação solar. Kepler, ao tomar conhecimento dessas descobertas,
fez questão de reverenciar o trabalho de seu colega, ainda mais pelo fato de comprovar uma
afirmação que ele mesmo já havia feito a priori.
Suas observações o tornaram um copernicano convicto, algo que até então só havia
mostrado de forma reservada através de cartas. E Galileu não se satisfez apenas com o que via
nos céus. Buscou na Terra provas de que o modelo de Copérnico seria o vigente. Em 1616, ele
escreveu um tratado que somente circulou por correspondência intitulado “Sobre o fluxo e
refluxo do mar”, no qual abordava a questão das marés. Segundo Galileu, esse fenômeno
ocorreria devido à combinação dos movimentos da Terra, em torno do seu eixo e ao redor do
Sol, sendo, portanto, a prova definitiva de que Copérnico estava com a razão.
Por conta de sua defesa ardorosa da obra de Copérnico, em 1616 a obra Sobre as
revoluções dos orbes celestes foi incluída no índex de livros proibidos da Igreja, nele
permanecendo até 1758.
Independentemente da proibição, Kepler continuou sua busca pela harmonia celeste
iniciada no Mistério cosmográfico e completamente associada à obra copernicana e às doutrinas
de Pitágoras e Platão. Ele vislumbrava uma relação perfeita entre os fenômenos físicos e as
formas geométricas, e em sua obra de 1619, a Harmonia do mundo, juntou todos os esforços a
fim de demonstrá-la. É neste trabalho que Kepler fornece a terceira lei dos movimentos
planetários, conhecida como “lei harmônica”, e que pode ser definida como “a razão entre o
cubo da distância média dos planetas ao Sol, e o quadrado do período que estes planetas levam
para completar uma revolução é constante”. Esta última lei de Kepler, que foi concebida,
segundo o próprio, em 8 de março de 1618, foi o pilar principal para a teoria da gravitação de
Newton. Podemos considerar que a harmonia almejada por Kepler serviu de esboço para que
Newton desse cabo de um problema que persistia por séculos.
DIÁLOGO GALILEANO
Mais de uma década depois da publicação da Harmonia do mundo, foi a vez de Galileu,
novamente, brindar as ciências exatas com outro trabalho profundamente inovador, seu Diálogo
sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano, de 1632. Esse tratado
tornou-se um divisor de águas em sua carreira, pois foi a partir dele que Galileu divulgou seus
grandes trabalhos, mas também começou a sofrer fortes pressões religiosas. O Diálogo foi
proibido pela Igreja no mesmo ano de sua publicação, e no ano seguinte, 1633, Galileu foi
condenado pela Inquisição a abjurar de suas crenças defendidas nesta obra. Entre os principais
motivos da condenação estão a rotação da Terra e sua revolução em torno do Sol, mas é
importante destacar que outros fatores, alheios ao seu tratado, levaram Galileu a este processo.
O título do livro não foi em vão, pois, de fato, ele traz um diálogo entre três personagens:
Salviati, Sagredo e Simplício. Cada um deles apresenta personalidades diferentes, sendo o
primeiro um sábio visionário, o segundo um leigo de mente aberta, e o último, um pensador
antiquado. Galileu não criou nenhuma relação explícita entre o seu modo de pensar com o de
qualquer personagem, apesar de sabermos hoje que o defensor de seus preceitos era Salviati. Ao
ler suas palavras, descobrimos como pensava Galilei. Já as ideias defendidas pela Igreja podem
ser encontradas no pensamento de Simplício, o que complicava ainda mais a situação do cientista
perante os cristãos.
O Diálogo foi dividido em quatro partes, identificadas como “jornadas”. Na primeira
jornada, dá-se uma espécie de revisão de diversos conceitos vigentes, principalmente no que diz
respeito aos movimentos naturais tanto terrestres como celestes. Na segunda jornada, Galileu
começa a buscar justificativas plausíveis a fim de comprovar sua visão do mundo. Para isso, ele
teve que refutar certas objeções referentes aos movimentos terrestres. Uma delas dizia respeito à
possibilidade de extrusão dos corpos, caso houvesse o movimento de rotação da Terra. Alguns
estudiosos da época acreditavam que se a Terra executasse um movimento ao redor do seu eixo,
os objetos em sua superfície deveriam ser expelidos devido à força centrífuga que atuaria sobre
eles.
Utilizando-se das palavras de Salviati, Galileu pergunta: “Quando, portanto, a Terra se
movesse com tamanha velocidade, qual seria a gravidade, qual a resistência das argamassas …,
para que não fossem atiradas para o céu por uma rotação tão violenta?” Ele conclui, porém, que
esse “ímpeto” (um dos termos usados para se referir a essa força centrífuga), apesar de existir, só
não projeta os corpos para o espaço porque a tendência que este corpo tem de permanecer na
superfície da Terra é muito superior, o que, de fato, está correto, visto que a atração gravitacional
é mais intensa que a força gerada pela rotação terrestre.
É na segunda jornada também que Galileu expõe o que se conhece atualmente como
“princípio da relatividade”. Não existe uma definição específica para este princípio, mas uma
frase que o identificaria bem é “o movimento comum não produz efeitos”. A principal utilidade
desse recurso era explicar o comportamento dos corpos em queda, que não sofriam qualquer
deslocamento notável devido à rotação do planeta. Galileu faz uso de excelentes exemplos para
uma melhor visualização desse princípio, geralmente recorrendo a movimentos em um navio ora
parado, ora se deslocando com movimento uniforme, mostrando que existe uma equivalência
entre os dois casos.17
Na terceira jornada, Galileu analisa a questão do movimento anual da Terra, e aproveita
para exaltar a “perspicácia de Copérnico”, pois enquanto alguns consideraram absurdo o
deslocamento conjunto do sistema Terra-Lua, ele apostou justamente nisso. Com as observações
realizadas por Galileu, foi possível constatar que tal comportamento se repetia no sistema de
Júpiter, que tinha quatro satélites ao seu redor, corroborando assim a proposta copernicana.
Finalmente, na quarta jornada é apresentada formalmente a teoria do “fluxo e refluxo do
mar”. Galileu continuava a acreditar que a ocorrência das marés mostrava empiricamente que a
Terra executava os movimentos de rotação e revolução, o que, de certa forma, contradiz seu
princípio da relatividade. Ainda assim, ele foi fundo na argumentação com o intuito de provar
que estava correto, apesar de boa parte dos pensadores contemporâneos e antigos, como já
vimos, defender que aquele fenômeno estava relacionado à Lua.
Pela interpretação equivocada de Galileu, o fenômeno das marés deveria ocorrer em um
intervalo de 24 horas. No entanto, o ciclo apresentado na natureza era de 12 horas, com duas
marés cheias e duas vazias por dia, de uma forma geral. Mesmo com a natureza contrária a sua
opinião, Galileu não abriu mão de suas convicções.
Nas últimas páginas de sua obra, o pensador aproveitou para repreender o já falecido
Kepler, pois, de acordo com ele, “de todos os grandes homens que filosofaram sobre este efeito
admirável da natureza, Kepler é o que me causa maior espanto, por ter ele, que é de engenho
livre e agudo, e que tinha em mãos os movimentos atribuídos à Terra, dado ouvido e
assentimento ao predomínio da Lua sobre a água, a propriedades ocultas e a semelhantes
infantilidades”. Por essa e outras, é possível notar o quanto a postura de Galileu prejudicou sua
relação com outros sábios de seu tempo. Sua arrogância não permitia admitir que seus
argumentos pudessem estar errados, e assim, ele enxergava outras propostas como metafísica
pura.

17
Vale destacar que há, sim, uma força que atua em corpos em movimentos em sistemas em rotação, chamada de
“força de Coriolis”, formulada no século XIX. Porém, sua componente no experimento da queda livre pode ser
considerada desprezível, de forma que até o próprio ar poderia causar um deslocamento mais significativo que esta
força…
Com as obras apresentadas por Kepler e Galileu é possível constatar que suas
contribuições são inestimáveis para a história da astronomia (e, obviamente, da ciência como um
todo). Os conceitos desenvolvidos por ambos foram importantíssimos e serviriam de base para
que Newton pudesse chegar onde chegou. Novas teorias sobre o movimento, tanto terrestre
quanto celeste, estavam praticamente prontas, faltando apenas uma mente capaz de unificá-las.
Em uma carta escrita em 1634, Galileu escreveu que sempre estimou o engenho do
colega, porém, “o meu filosofar é diferentíssimo do seu; e pode ocorrer que, escrevendo sobre as
mesmas matérias, e particularmente acerca dos movimentos celestes, tenhamos por vezes
chegado a algum conceito similar, se bem que poucos, de modo que tenhamos atribuído a algum
efeito verdadeiro a mesma razão verdadeira; mas isso não se verificará em um por cento de meus
pensamentos”. Esse trecho resume bem como foi a relação desses dois gênios. Hoje, podemos
apenas imaginar o quanto poderia ter sido ainda mais revolucionário o trabalho de ambos, se eles
tivessem interagido mais intensamente.

O ANEL DE SATURNO18
Segundo William Herschel, o astrônomo holandês Christiaan Huygens (1629 – 1695) foi uma
das figuras mais notáveis do século XVII. Herschel definiu seu predecessor como um hábil
observador, um teórico brilhante, um artesão habilidoso e, sobretudo um grande inventor. Não
por acaso, Huygens resolveu o problema das aparências de Saturno aos 26 anos de idade, em
1656, embora só tenha publicado esta solução em 1659, em sua obra intitulada Sistema
saturniano.
Antes disso, porém, ele já fazia observações telescópicas. Em 1655, construiu,
juntamente com seu irmão mais velho Constantijn, seu primeiro telescópio. Em uma carta
enviada a um amigo datada de 8 de março de 1656, ele dizia: “Somente no ano passado eu
aprendi a arte de construir telescópios”. Este instrumento construído pelos dois irmãos possuía
uma ocular simples desenvolvida com um novo método descoberto por Huygens para dar uma
curvatura bastante precisa à lente. Com este equipamento, ele observou Saturno e realizou sua
grande descoberta acerca deste planeta.

18
O fato de Saturno ser envolto não por um, mas por vários anéis veio a partir da descoberta da divisão de Cassini,
em 1675, que ainda será abordada. Assim, para evitar confusão, a partir de agora e até a chegada deste momento,
estes anéis serão referidos como sendo apenas um sempre que tratarmos da visão de Huygens.
Figura 31 – Primeira observação de Saturno registrada por Huygens, em 1655.

Ao notar um pequeno astro aproximadamente na mesma linha do que hoje sabemos ser os
anéis de Saturno, Huygens suspeitou que aquilo fosse uma lua do planeta. Após algumas noites
de observação, ele confirmou sua expectativa sobre a existência de um satélite orbitando ao seu
redor. Contudo, Huygens não anunciou sua descoberta imediatamente. Primeiro, ele determinou
o período deste satélite, e então, em junho de 1655, divulgou um anagrama no qual esta
descoberta foi escondida.19
Apesar de os dois irmãos terem dedicado seus esforços durante o inverno de 1655/56 para
fazer um telescópio ainda melhor e mais poderoso, antes que este instrumento fosse concluído
Huygens já havia escrito para um de seus correspondentes a respeito do “Sistema de Saturno”.
Isto mostra que ele resolveu o problema da aparência de Saturno não só pelo fato de ter um bom
telescópio, pois vários observadores da época também tinham, mas principalmente pelo fato de
ter utilizado conceitos, argumentos e até mesmo informações deixadas por seus antecessores que
colaboraram com isso. Ou seja, ele chegou a sua teoria sem ter visto realmente algo que pudesse
ser considerado de fato um anel.
Em meados de março de 1656, Huygens lançou sua obra intitulada Sobre a observação
da nova lua de Saturno, a qual continha um relato completo sobre o novo satélite 20 e um novo
anagrama: AAAAACCCCCDEEEEEGHIIIIIIILLLLMMNNNNNNNNNOOOOPPQRRSTTTT
TUUUUU. Este anagrama continha informações sobre a aparência de Saturno e, segundo
Huygens, foi registrado “de modo que, se alguém pensa que talvez tenha encontrado a mesma
coisa, ele terá tempo para tornar isto conhecido”. Neste trabalho, Huygens convidava qualquer
um que pensasse ter solucionado seu desafio a lhe enviar tal solução.

19
O anagrama era: ADMOVERE OCULIS DISTANTIA SIDERA NOSTRIS VVVVVVVCCCRRHNBQX, e sua
solução, somente anunciada no outono daquele ano, era: Saturno luna sua circunducitur diebus sexdecim horis
quartor (“Lua de Saturno gira em dezesseis dias e quatro horas”).
20
Quase dois séculos depois, em 1847, o astrônomo inglês Sir John Herschel, filho único de William Herschel,
sugeriu para este satélite o nome Titã. Na mitologia, os deuses primitivos da geração de Cronos (Saturno) eram
chamados de titãs. Este termo, porém, não é usado somente para se referir a esta legião de deuses, pois relaciona-se
também com algo gigantesco, visto que imaginavam os titãs como seres gigantes.
Entre a publicação de seu Sobre a observação da nova lua de Saturno e seu Sistema
saturniano mais de três anos se passaram, e neste intervalo Huygens lançou um outro trabalho
também bastante importante e que gerou uma grande polêmica. No final de 1656, ele
desenvolveu seu primeiro relógio de pêndulo e, em setembro de 1658, terminou um livro sobre o
assunto, intitulado Relógio.
Na época do lançamento desta obra, Huygens não fez nenhum progresso na preparação
do Sistema saturniano, apesar de ter continuado as observações do planeta e seu satélite.
Contudo, ele começou a traçar uma estratégia a fim de fomentar especulações a respeito de seu
próximo trabalho. Fazendo isso, ele manteria este assunto em questão em toda a comunidade
científica, e teria tempo de aprimorar e concluir de vez sua obra.
Sua tática foi espalhar seus resultados para amigos cientistas e influentes, e deixar que
eles divulgassem aquelas informações para outros estudiosos. Desta forma, Huygens atingiu seu
objetivo, que era criar uma grande expectativa em toda a comunidade científica da época. E para
sua satisfação, quando sua obra finalmente foi lançada, não decepcionou e fez jus ao título
escolhido, pois aquele era, sem dúvida, um tratado completo sobre o sistema de Saturno.
No prefácio, ele declarou que este sistema de Saturno dava suporte ao modelo
copernicano, assim como o sistema de Júpiter com suas quatro luas. Após este prefácio, Huygens
passou a narrar sua opinião sobre as observações anteriores as dele, dizendo que quando o
telescópio foi usado por Galileu para inspecionar os corpos celestes, suas observações mais
surpreendentes foram as de Saturno. Ele chamou atenção para o fato de nenhum astrônomo ter
conseguido explicar a causa da aparência diferente do planeta, apesar das várias ilustrações
apresentadas por seus antecessores.
Depois deste preâmbulo, Huygens finalmente partiu para a apresentação de sua teoria.
Ele começou declarando as bases de sua hipótese, sendo a primeira delas uma analogia feita por
ele entre o sistema Terra-Lua e o sistema de Saturno com seu satélite. Como a Terra completa
uma volta em torno do seu eixo em um dia, e a Lua gira em torno da Terra em aproximadamente
29 dias, isso significava que o período que Saturno levaria para girar uma vez em torno do seu
eixo deveria ser algo em torno de meio dia (cerca de 12 horas — o que é uma boa aproximação
para quem aplicou apenas uma regra de três simples), pois como Huygens já havia obtido, o
período de revolução de sua lua era de aproximadamente 16 dias.
Além disso, baseado na mesma analogia (sistema Terra-Lua), o eixo de rotação de
Saturno deveria ser perpendicular ao plano orbital de sua lua, que também era o plano no qual os
“braços”21 permaneciam. Ainda, segundo Huygens, toda a matéria entre Saturno e sua lua
provavelmente giraria em torno do mesmo eixo, com períodos intermediários entre meio dia e 16
21
Huygens, neste trabalho, refere-se ao anel de Saturno chamando-o de “braços” (do latim, brachi), por isso a
utilização deste termo.
dias. Se os “braços” giravam em torno deste eixo em menos de 16 dias e ainda assim não
mostravam nenhuma mudança em sua aparência a curto prazo, então eles deveriam ter uma
simetria rotacional em relação ao eixo de Saturno.
Embora Huygens não mencione explicitamente, é muito provável que ele tenha se
inspirado numa ideia proposta em 1644 pelo filósofo natural e matemático francês René
Descartes (1596 – 1650). Descartes foi mestre e amigo de Huygens, e postulou a existência de
“vórtices de matéria” a fim de explicar os movimentos planetários, defendendo que cada planeta
era o centro de seu próprio vórtice. Segundo Descartes, o Universo era, todo ele, preenchido por
uma espécie de fluido, visto que espaço e matéria eram idênticos (curiosamente reforçando o
ideal aristotélico de que a natureza tem horror ao vácuo). E esse fluido possuía um movimento
próprio, surgido na criação do Cosmos.
Os astros, imersos nessa estranha substância, ficavam à mercê dessas “correntes” e, por
conta disto, possuíam movimentos. A revolução ao redor do Sol e a rotação de cada planeta eram
explicadas através do movimento primordial do fluido. Para a rotação em especial, Descartes
defendeu a existência de vórtices, pequenos redemoinhos muito semelhantes àqueles que se
formam no escoamento da água através do ralo da pia… Presos aos vórtices cartesianos, os
planetas e seus satélites não tinham opção a não ser girar!
Outro fato que Huygens levou em consideração foi que até mesmo quando os “braços”
estavam muito estreitos (sabemos hoje que os anéis ficam de perfil de tempos em tempos, isto é,
praticamente invisíveis) seu comprimento era o mesmo de quando eles estavam mais abertos, ou
seja, não era o comprimento dos “braços” que estava diminuindo, mas sim a sua largura. Neste
momento, ele percebeu que um anel satisfaria todas estas condições e também explicaria as
mudanças na aparência de Saturno.
Então, Huygens apresentou a solução do anagrama que tinha publicado três anos antes:
Annulo Cingitur, tenui, plano, nusquam cohaerente, ad eclipticam inclinato, que quer dizer, “Ele
é circundado por um anel fino e plano, que não o toca em lugar algum, e é inclinado em relação à
eclíptica”.

Figura 32 - Desenho de Huygens extraído do Sistema saturniano, que mostra claramente Saturno circundado
por um anel.
Em seguida, Huygens se propôs a responder antecipadamente a duas possíveis objeções
que poderiam surgir a partir do que ficou conhecido como “hipótese anelar”. Uma seria a
afirmação da existência de um corpo celeste cuja forma jamais havia sido encontrada antes no
céu (desde a Grécia Antiga havia um axioma no qual os corpos celestes seriam esféricos). A
outra era a colocação deste corpo ao redor de Saturno sem que ele estivesse preso ao globo, mas
sim girando rapidamente com ele, permanecendo sempre à mesma distância do corpo central. Ele
declarou ainda que sua teoria não era devido à sua imaginação como os epiciclos dos astrônomos
antigos que nunca foram vistos no céu, mas que foi claramente percebida por seus olhos.
Segundo Huygens, um corpo na forma de anel poderia girar tão facilmente quanto um esférico
em torno de seu centro, e tenderia a se aproximar deste centro sofrendo uma força igual de todos
os lados, como um corpo que permanece em equilíbrio devido ao fato de sua distância ao centro
ser a mesma em qualquer ponto.
Outra questão que merecia uma explicação mais elaborada era a que definiria as várias
fases de Saturno. Para isso, Huygens fez um outro diagrama a fim de esclarecer o ciclo do anel,
no qual começou assumindo que as órbitas da Terra e de Saturno eram coplanares. Os pontos A,
B, C e D (entre outros) representavam a órbita de Saturno, F e E a da Terra e G representava o
Sol, sendo os pontos A e C aqueles nos quais o anel se apresentava em sua posição mais aberta
em relação ao Sol e a Terra, e os pontos B e D aqueles nos quais o anel se tornava invisível para
os observadores, pois era visto de perfil por um observador na Terra. Com esta explicação,
Huygens mostrou que a mesma fase se repetiria sempre que Saturno chegasse novamente ao
mesmo ponto de sua órbita.

Figura 33 – Diagrama que ilustra bem as diferentes formas em que Saturno pode ser observado.
Este foi um trabalho revolucionário não só pelo seu conteúdo, mas também pela
dimensão que ele deu a uma solução totalmente nova, a qual tornou-se amplamente conhecida.
Mais ainda, cabe ressaltar a coragem ímpar de Huygens ao sugerir a existência de um anel no
céu, algo que até aquele momento não se poderia imaginar.

SURGE A LENDA
Isaac Newton (1642 – 1727) nasceu em um dia de Natal, em uma Inglaterra que ainda seguia o
calendário juliano (sob o nosso calendário, o gregoriano, a data de nascimento de Newton seria 4
de janeiro de 1643). Ele teve a capacidade intelectual de revolucionar as ciências exatas e ser
reconhecido por isso ainda em vida.22
Em 1661, aos 18 anos, Newton foi admitido no prestigioso Trinity College, em
Cambridge. Na universidade, estudou o mundo aristotélico, mas também travou contato com as
ideias revolucionárias vindas do continente europeu.
Em 1665, por conta da peste, ele deixou para trás o Trinity College com um diploma
debaixo do braço e nada que o distinguisse de seus colegas de turma, retornando para a casa de
sua família em Woolsthorpe. Mas a atenção dedicada às novidades pensadas por Copérnico,
Kepler e Galileu não seria em vão, e assim que se viu livre para ter suas próprias ideias, Newton
desabrochou como o grande gênio que era.
Em seu exílio acadêmico, criou um novo ramo da matemática (o cálculo infinitesimal,
conhecido popularmente hoje como “cálculo integral e diferencial”), fez importantes descobertas
no ramo da ótica e da mecânica (suas três leis de movimento) e, sobretudo, começou a entender o
mecanismo que mantinha os planetas em suas órbitas: a gravidade.
Após dois anos de muitas ideias, Newton voltou a universidade, onde conseguiu uma
vaga como professor, e pouco tempo depois obteve o grau de mestre. Aos 27 anos, tornou-se
professor lucasiano, uma cátedra criada e patrocinada por Henry Lucas (c.1610 – 1663), e
ocupada inicialmente por Isaac Barrow (1630 – 1677), orientador de Newton.23 Extremamente

22
Certa vez, o poeta neoclássico Alexander Pope (1688 – 1744), contemporâneo e conterrâneo de Newton escreveu
os seguintes versos:
A Natureza e suas leis se escondiam na noite;
Deus disse “Faça-se Newton”! E tudo ficou claro.
23
Lucas foi membro do parlamento britânico, e sugeriu à Universidade de Cambridge a criação de uma cátedra a ser
preenchida por um eminente matemático que se dedicasse não só a ensinar seus conhecimentos, mas também a
avançar os conhecimentos da humanidade como um todo. Assim, em 1663, surgia no Trinity College o cargo de
professor lucasiano. A título de curiosidade, eis os professores lucasianos que se seguiram a Newton, e o ano em que
assumiram a cátedra: William Whiston (1667 – 1752), 1702; Nicolas Saunderson (1682 – 1739), 1711; John Colson
(1680 – 1760), 1739; Edward Waring (1736 – 1798), 1760; Isaac Milner (1750 – 1820), 1798; Robert Woodhouse
(1773 – 1827), 1820; Thomas Turton (1780 – 1864), 1822; George Airy (1801 – 1892), 1826; Charles Babbage
(1792 – 1871), 1828; Joshua King (1798 – 1857), 1839; George Stokes (1819 – 1903), 1849; Joseph Larmor (1857 –
1942), 1903; Paul Dirac (1902 – 1984), 1932; James Lighthill (1924 – 1998), 1969; Stephen Hawking (1942 – ),
1979; e, por fim, o atual professor lucasiano de Cambridge, Michael Green (1946 – ), 2009.
impressionado com as novas ideias que seu discípulo havia desenvolvido durante o exílio
forçado, Barrow sugeriu o nome de seu orientando para substituí-lo na vaga, em 1669.
Newton optou por iniciar sua carreira de catedrático com um curso sobre ótica,
assombrando a todos com suas novas descobertas a respeito das cores e, também, demonstrando
um grande senso prático ao propor um novo tipo de telescópio, não inventado por ele, mas
definitivamente aperfeiçoado: o telescópio refletor.
Sobre o estudo das cores, durante seu exílio em Woolsthorpe, Newton dedicou, entre
outros temas, à ótica. Ele começou suas experiências sobre as cores em um quarto escuro,
deixando um facho de luz solar atravessar um prisma, obtendo um arco-íris. Porém, sua inovação
foi acrescentar um segundo prisma ao experimento, que recebia os fachos coloridos de luz
provenientes do primeiro. Para seu espanto, quando o segundo prisma era posto de cabeça para
baixo, as cores que nele entravam saíam todas sob a forma de um único raio de luz branca. Além
disso, Newton mostrou também, em seu célebre “experimento crucial” (experimentum crucis),
que as diferentes cores são refratadas em diferentes ângulos por um mesmo prisma.
Após juntar as duas experiências (dois prismas, mas com um único raio de uma
determinada cor) e não conseguindo reproduzir o feixe branco, Newton chegou a conclusão que
a luz branca é, na verdade, uma combinação de todas as cores do arco-íris. E para mostrar que o
vidro (prisma) não tinha qualquer influência na formação das cores e na recomposição da luz
branca, ele construiu um disco colorido, que quando girado em alta velocidade aparecia branco
aos observadores. Newton provava assim que de fato a luz branca era uma composição das
diferentes cores.
Seus trabalhos nesta área lhe abriram algumas portas importantes e, em 1671, Newton foi
eleito membro da mais prestigiosa agremiação científica da Europa, dedicada à ciência e à
filosofia natural, a Royal Society. A doação de seu telescópio refletor àquela instituição ajudou
bastante em sua eleição. Em 1672, Newton estava no auge da sua fama. E, naturalmente,
começou a atrair a atenção de outros luminares de sua época. Para o bem e para o mal…

NEWTON E A ASTRONOMIA
A teoria newtoniana a respeito das cores levou Newton a buscar uma solução a respeito dos
telescópios. Para ele, era claro que enquanto a luz fosse obrigada a atravessar vidros (lentes,
como no caso dos instrumentos existentes naquela época), a refração transformaria raios brancos
em pequenos arco-íris, prejudicando o resultado final da observação.
Embora não desacreditasse por completo no telescópio refrator — que usava lentes para
concentrar os raios de luz —, Newton projetou um telescópio refletor, que coletava a luz por
meio de um espelho côncavo no interior de um tubo. Em 1668, construiu seu primeiro telescópio
refletor com o qual maravilhou a comunidade científica de Cambridge. Foi graças ao seu
telescópio que ele começou a ficar famoso.24
A grande vantagem do telescópio newtoniano, além de eliminar a aberração cromática
produzida pelas lentes, era encurtar o tamanho do tubo. O telescópio original de Newton tinha
cerca de 15cm de comprimento, mas tinha um poder de aumento maior do que o de um
telescópio refrator de 1,80m de comprimento: cerca de 40 vezes.

Figura 34 – Esboço do telescópio newtoniano.

Neste ponto da história surge o maior rival científico de Newton, Robert Hooke (1635 –
1703). Quando Newton divulgou sua teoria sobre a luz, em 1672, Hooke deixou bem claro que
as partes corretas haviam sido plagiadas de trabalhos seus e as partes originais estavam todas
erradas. Newton não sabia lidar com esse tipo de acusação e simplesmente abandonou o ramo da
ótica. Ou, pelo menos, deixou de publicar sobre o assunto. Continuou estudando a luz e seu livro
sobre o assunto, intitulado Ótica, só foi publicado em 1704, um ano depois da morte de Hooke!
Ainda em 1672, Hooke fez uma tentativa de provar a primeira lei de Kepler, ou seja, que
a Terra realmente se movia em uma elipse ao redor do Sol. Seis anos depois, propôs que a
gravidade era uma força que agia de acordo com o “inverso do quadrado da distância”, isto é, se
dobrássemos a distância entre os corpos, a força cairia a um quarto da original.
Hooke, porém, não conseguiu produzir provas matemáticas convincentes. E em 1679, ele
envia uma carta para Newton afirmando que “a atração [gravitacional] sempre é em proporção
24
Antes de Newton, porém, o astrônomo escocês James Gregory (1638 – 1675) já havia sugerido a construção de
um telescópio refletor, em seu O avanço da ótica, de 1663. Diferentemente de Newton, Gregory não teve a
habilidade para construir seu protótipo. A maior diferença entre o telescópio gregoriano e o newtoniano é o fato de o
espelho secundário ser plano e disposto de forma a refletir os raios de luz num ângulo de aproximadamente 90º,
permitindo maior conforto e praticidade ao observador.
duplicada à distância ao centro…”. Fortuitamente, essa era uma ideia que Newton já havia tido
em seus anos de exílio!
Ciente de que Hooke ainda não produzira provas do que afirmava, Newton entregou-se
ao trabalho. Ele conseguiu ligar matematicamente as duas primeiras leis de Kepler ao conceito
de aceleração centrípeta — aquela aceleração que todos sentimos ao fazermos uma curva…
E provou ainda que se a órbita tem forma elíptica, e esta forma é única e exclusivamente
moldada por uma força central (isto é, que aponta para o centro), então não há outra solução para
essa força que não seja ser proporcional ao inverso do quadrado da distância!
Mas nada disso fora publicado, e o problema permanecia em aberto…
Em 1684, Edmond Halley (1656 – 1742) — o astrônomo que ficaria mundialmente
famoso por ter previsto o retorno de um certo cometa… — entrou na discussão.25 Membro da
Royal Society e amigo de Hooke, Halley não se satisfez com as afirmações sem provas que
Hooke distribuía à vontade. E de maneira completamente diferente de Hooke, Halley não tinha
nenhuma reserva em perguntar a Newton o que ele achava do problema…
Em agosto daquele ano Halley foi a Cambridge e perguntou-lhe que tipo de curva fariam
os planetas se estivessem sujeitos a uma força do tipo 1/r2. Newton respondeu que a curva seria
uma elipse, e confessou a Halley que já havia feito esse cálculo, apesar de ter alegado não os ter
disponíveis. De qualquer forma, ele se comprometeu a enviá-los a Halley posteriormente.
Newton cumpriu o acordado e três meses depois, em novembro de 1684, chegou a Halley
um curto artigo chamado “Sobre o movimento dos corpos em órbita” (popularmente conhecido
como “De motu” — as duas primeiras palavras de seu nome em latim). Halley ficou extasiado
com o que viu. Mas não completamente satisfeito…
No “De motu”, Newton mostrava que se a órbita era uma elipse, a força deveria ser
inversamente proporcional ao quadrado da distância. A pergunta original de Halley se referia à
afirmação inversa: uma força inversamente proporcional ao quadrado da distância sempre
produziria uma órbita elíptica?
Seduzido pela humildade de Halley, Newton concordou em trabalhar na afirmação
inversa. O que ele achou que seria simples acabou tomando três anos de sua vida. O “De motu”,
com apenas nove páginas, evoluiu para um compêndio de três livros agrupados em um único
volume batizado de Princípios matemáticos da filosofia natural (ou, simplesmente, Principia).
Halley foi o patrocinador desta obra-prima, publicada pela primeira vez em 1687.

25
Halley contribuiu enormemente para o estudo dos movimentos cometários. Usando seus conhecimentos
astronômicos e matemáticos, ele foi capaz de relacionar três aparições de cometas como sendo, na realidade, o
mesmo cometa que visitava as vizinhanças da Terra com certa peridiocidade. Em 1705, Halley afirmou que os
cometas observados em 1531, 1607 e 1682 eram na verdade um só. Ele previu ainda que este astro retornaria em
1758 (passagem essa que não viu, pois faleceu 16 anos antes). O cometa de fato retornou, e tem feito isso a cada 76
anos aproximadamente. Tal cometa foi batizado em sua homenagem e é, provavelmente, o mais famoso se todos.
A LEI DA GRAVITAÇÃO UNIVERSAL
O Principia26 é indubitavelmente a obra científica mais importante de todos os tempos.
Sua estrutura é bastante complexa até mesmo para o leitor especializado em ciências exatas. E é
no livro três deste compêndio, intitulado “O sistema do mundo”, que Newton se dedica a
responder questões acerca da gravidade. Nele encontramos constatações a respeito dos planetas,
da Lua e, também, das luas de Júpiter (chamadas de “planetas circunjovianos”) e das luas de
Saturno (“planetas circunsaturnianos”). Todas essas constatações remetem a duas das três leis de
Kepler.
Em seguida, Newton aborda os seguintes temas: “O movimento dos planetas e seus
satélites”; “Explicação para as marés”; “Movimento da Lua”; e “Movimento dos cometas”.
Todos, de uma forma ou de outra, ligadas à força da gravidade…
Em uma de suas proposições lemos: “As forças que obrigam os planetas circunjovianos a
continuamente se desviarem de um movimento retilíneo e que os mantêm em suas respectivas
órbitas são direcionadas para o centro de Júpiter e são inversamente proporcionais aos quadrados
de suas distâncias entre suas posições e aquele centro”. Existem outras praticamente idênticas
fazendo alusão aos “planetas primários” (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno) ao redor do
Sol, e à Lua ao redor da Terra. Todos esses movimentos orbitais seriam causados por forças
direcionadas ao centro e inversamente proporcionais ao quadrado da distância.
Mas é quando Newton afirma que “a Lua gravita em direção à Terra e pela força da
gravidade é sempre desviada de seu movimento retilíneo e mantida em sua órbita”, que
realmente começa uma revolução no conhecimento humano. Essa é a primeira vez na história
que o movimento orbital da Lua é explicado através da força da gravidade exercida pela Terra!
Quando Newton fez seus cálculos sobre o movimento da Lua, certamente tinha um bom
entendimento de dinâmica orbital. Ele sabia, como sabemos hoje, que a órbita nada mais é do
que uma queda muito bem controlada. A Lua de fato cai, e Newton calculou numericamente o
valor desse deslocamento para o intervalo de um minuto no Principia.
Mas se a Lua cai realmente, porque ela nunca atinge a superfície da Terra?
Ora, devido ao seu movimento tangencial, sua velocidade lateral, ela compensa essa
queda. Sua velocidade é tal que ela andará para o lado praticamente a mesma distância de sua
queda e, como a superfície terrestre é curva, ao final deste minuto, a distância entre a Lua e a
superfície da Terra permanece praticamente inalterada.
Um excelente exemplo didático foi dado pelo próprio Newton, e apareceu postumamente
em seu tratado Sobre o sistema do mundo, de 1728.
26
A palavra Principia, em latim, quer dizer “princípios”. É, portanto, plural. Mas aqui, quando escrevermos
Principia, estamos fazendo alusão a um livro e a usaremos como se fosse um termo no singular.
Newton sugeria que se posicionasse um canhão no alto de uma montanha. O cano da
arma de fogo deveria ser direcionado na horizontal. A bala, após o disparo, descreveria um arco
e atingiria o solo a uma certa distância da base da montanha. Até aí, nada de mais…
Mas e se aumentássemos a quantidade de pólvora? A bala atingiria um ponto mais
distante da base da montanha. Newton argumentou, corretamente, que se déssemos um empurrão
forte o suficiente, o arco descrito pela bala de canhão passaria a acompanhar a curvatura da Terra
e, portanto, a bala jamais atingiria o solo. A bala teria entrado em órbita!

Figura 35 – O “canhão de Newton”. Dependendo da quantidade de pólvora, a bala atingirá o solo em pontos
cada vez mais distantes. Na figura, vemos a possibilidade de o projétil jamais chegar ao chão, mostrando que
uma órbita nada mais é do que uma queda controlada.

Então, a órbita da Lua nada mais é do que uma queda controlada. E Newton calculou
exatamente o quanto a Lua cai, para que se mantenha sempre onde está. O cientista, então, aplica
sua regra do inverso do quadrado da distância e conclui que um objeto que esteja na superfície
terrestre deveria cair, em um minuto, 3.600 vezes essa distância. O resultado concorda com as
extrapolações feitas a partir de medições da queda de corpos ao nível do mar. De fato, podemos
afirmar que a mesma força que faz uma maçã cair na Terra mantém a Lua em órbita!27
Newton declarou ainda que “a gravidade existe em todos os corpos universalmente e é
proporcional à quantidade de matéria em cada um deles”. Esta proposição em conjunto com a
afirmação anterior de que a força é inversamente proporcional ao quadrado da distância, é

27
Aproveito esta comparação propositalmente inserida por mim para comentar a famosa lenda da maçã. Muitos
livros contam que Newton, durante um cochilo embaixo de uma macieira, foi atingido na cabeça por uma maçã, e
com isso teve a brilhante ideia que culminou em sua Lei da Gravitação Universal. Tal fato jamais ocorreu e, muito
provavelmente, esse mito teve origem na sobrinha de Newton, Catharine Barton. Catharine casou-se com John
Conduitt, membro do Parlamento britânico, e por meio dele conheceu o filósofo francês François Marie Arouet, o
Voltaire. E foi Voltaire que imortalizou a história da maçã em seu livro Lettres sur les anglais, de 1734. É provável
que Newton tenha usado a maçã como exemplo de algo que cai na Terra, apenas para ilustrar que a força que a faz
cair é a mesma que mantém a Lua em órbita do planeta.
praticamente a forma final da força da gravidade que aprendemos com tanto sacrifício através da
fórmula28

Além disso, ele acrescentou que “o vai e vem dos mares é causado pelas ações do Sol e
da Lua”. Apesar de parecer uma afirmação menor se comparada à natureza das forças celestes e
às órbitas planetárias, essa informação pode ser considerada um dos grandes triunfos da
gravitação newtoniana, pois trouxe um novo entendimento ao ciclo das marés, bastante
importante para a navegação costeira.
Finalmente, Newton faz uma análise bastante complexa sobre a Lua, onde esmiúça de
forma detalhada nosso satélite. Esse estudo é considerado por especialistas o mais revolucionário
de toda a obra. E a última parte do Principia é dedicada aos cometas.
Neste momento da História, precisamos fazer uma rápida reflexão. Aristóteles é sem
dúvida um dos grandes nomes da ciência. Por isso mesmo é tão doloroso apontar seus erros. Não
só porque estamos revelando falhas de uma figura lendária, um ídolo até, mas porque só então
percebemos o quanto um conceito errado pode atrasar o desenvolvimento do conhecimento.
Talvez o maior erro de Aristóteles tenha sido dividir o Universo em dois domínios
distintos. Aquém da Lua era o mundo sublunar, onde as coisas quebram e não dão certo, os
movimentos cessam e as coisas caem. Na Lua e além dela, outras regras valeriam. Ali era o
mundo supralunar. Tudo era perfeito, constante e imutável.
Copérnico nos disse que a Terra não estava no centro do Universo. Ou seja, a divisão
aristotélica era mais arbitrária do que parecia, pois sem a Terra imóvel no centro de todo o
sistema, ela perde o sentido. Tycho Brahe observou uma supernova e um cometa, deixando claro
que o mundo supralunar não era perfeito e imutável. Johannes Kepler descreveu órbitas elípticas,
distantes da idealização circular típica das coisas divinas. Galileu viu satélites de Júpiter,
manchas solares e crateras na Lua. Definitivamente havia algo errado com a perfeição supralunar
propagada por Aristóteles…
E, enfim, Newton deu o golpe de misericórdia. Ao levar a força da gravidade para o
espaço distante, usando-a não só para explicar o movimento da Lua, mas também o dos satélites
de outros planetas, Newton deixou bem claro que a divisão sugerida por Aristóteles
simplesmente não existia. Com sua obra, Newton quebrou um paradigma científico que já durava
cerca de 2 mil anos!

28
Cabe destacar que essa fórmula matemática jamais foi escrita por Newton durante toda sua vida.
CAPÍTULO 4: A ASTRONOMIA DEPOIS DE NEWTON

SATURNO VOLTA AO FOCO


O legado de Newton é indiscutível, e seus sucessores foram privilegiados por ter em mãos todo
aquele arcabouço científico para poder desenvolver ainda mais a ciência como um todo, e a
astronomia, em particular.
Mas antes mesmo de Newton publicar o Principia, o astrônomo ítalo-francês Giovanni
Domenico Cassini (1625 – 1712) deixou sua contribuição para a astronomia. Nascido na Itália,
Cassini foi convidado pelo Rei Louis XIV, em 1669, para dirigir o Observatório de Paris. Cassini
se tornou diretor deste observatório em 1671 (cargo que só abandonou no ano de sua morte), e
dois anos mais tarde naturalizou-se cidadão francês.
Ele teve à sua disposição no Observatório de Paris telescópios de ótima qualidade para a
época, e com esses instrumentos foi capaz de fazer grandes descobertas acerca de Saturno. As
primeiras foram dois novos satélites orbitando o planeta. Estas luas foram observadas durante o
período em que o anel estava de perfil, que durou do final de 1671 até meados de 1672.29
Em 1675, Cassini identificou no anel de Saturno uma faixa escura, que dividia aquela
estrutura em duas partes. Posteriormente, aquela “falha” dos anéis ficaria conhecida como
“divisão de Cassini”, em homenagem ao seu descobridor.
Já em agosto de 1676, Cassini escreveu uma carta na qual descrevia tal descoberta: “…a
amplitude do anel era dividida em duas partes por uma linha escura, aparentemente elíptica mas
na verdade circular, como se nos dois anéis concêntricos, o interno fosse mais brilhante que o
externo. Este aspecto eu vi imediatamente (…) durante todo o ano…”. Ainda nesta carta, ele
enviou também uma ilustração que havia feito, a qual mostrava claramente a divisão no anel.
Neste esboço pode-se notar que Cassini não pensava que os anéis tinham o mesmo tamanho. Ele
desenhou o interno um pouco maior que o externo, apesar de alguns autores erradamente
afirmarem que ele havia declarado que os anéis tinham a mesma dimensão.

Figura 36 – Esboço de G.D. Cassini feito em 1676, no qual ele mostrou pela primeira vez a divisão no anel.

29
Em 1847, John Herschel batizou estes satélites (assim como fez com Titã) usando novamente a mitologia como
fonte de inspiração. Os nomes sugeridos foram: Iapeto (grafado por alguns autores como Jápeto) e Réia, que foram
descobertos em 1671 e 1672, respectivamente. Na mitologia, ambos eram irmãos de Cronos (Saturno), ou seja, eram
titãs, sendo que Réia (correspondente grega da deusa romana Cibele) foi também esposa de Cronos.
Alguns anos depois, em março de 1684, Cassini descobriu mais dois satélites de Saturno.
Agora, já somavam quatro novas luas descobertas por ele ao redor de Saturno, que teve a ideia
de homenagear seu patrão, o rei Louis XIV, chamando-as de “estrelas de Louis” (Sidera
Lodoicea, em latim).30
Ainda sobre os anéis, Giovanni Cassini e seu filho Jean Jacques Cassini (1677-1756),
também astrônomo como o pai, declararam que esta estrutura não seria um corpo rígido
conforme Huygens havia defendido. Cassini, o pai, afirmou em 1705 que “este anel pode ser
formado de um enxame de pequenos satélites… a aparência do anel é causada por uma
concentração de vários pequenos satélites de diferentes movimentos, que não podem ser vistos
separadamente”.
E Giovanni Cassini deu outras contribuições para a astronomia. Ainda na Itália, em 1665,
ele observou a grande mancha de Júpiter, que pode ser vista na atmosfera do planeta até hoje. É
provável que ele tenha sido o primeiro a identificar esta tormenta em Júpiter. Além disso, em
1672, calculou a distância Terra-Sol (chamada atualmente de unidade astronômica) como sendo
139,9 milhões de quilômetros, após ter obtido a distância até Marte usando um método
conhecido como “paralaxe” (alteração aparente de um objeto contra um fundo devido ao
deslocamento do observador).31
O astrônomo dinamarquês Ole Roemer (1644 – 1710) foi assistente de Cassini no
Observatório de Paris a partir de 1672, e o trabalho que ambos haviam realizado antes de
trabalharem juntos culminou na primeira proposta de que a velocidade da luz seria finita. Este
resultado foi obtido astronomicamente, através de observações de eclipses do primeiro satélite de
Júpiter (Io). Eles notaram discrepâncias nas previsões sobre a ocorrência desses eclipses, e
atribuíram tal diferença à velocidade da luz. Assim, os intervalos de tempo entre os eclipses eram
mais curtos quando a Terra se aproximava do sistema joviano, e mais longos quando ela se
afastava. Em 1676, Cassini comunicou à Academia Francesa de Ciências sua suspeita, e no final
do mesmo ano Roemer anunciou a ordem de grandeza da velocidade da luz. Ele jamais forneceu
um valor para essa velocidade, mas a partir das informações deixadas por Roemer chegamos ao
valor de 220.000km/s, isto é, cerca de 26% menor que o vigente.
Já em 1680, confeccionou um belíssimo mapa lunar extremamente rico em detalhes. Seu
trabalho cartográfico surpreende bastante por remeter a fotografias atuais de nosso satélite.

30
Os nomes atuais foram sugeridos também por John Herschel, em 1847. Ele batizou um destes satélites com o
nome da ninfa Dione, e usou o nome da titã Tétis para se referir à outra lua.
31
Um fenômeno de grande importância para uma determinação mais precisa desta medida foi o “trânsito de Vênus”,
quando este planeta passa pelo disco solar. Sua ocorrência é rara, mas os registros realizados em locais diferentes na
superfície da Terra permitiram que o valor da unidade astronômica ficasse mais acurado nos séculos seguintes.
AS NEBULOSAS
No século seguinte, o Universo ganharia uma nova dimensão (no sentido de tamanho, por favor)
na concepção dos astrônomos. O deslocamento do Sol para a região central do que se entendia
por Universo na época, como já foi dito, representou um aumento significativo em seu tamanho.
A proposta de que as estrelas estariam distribuídas em um Universo infinito, onde cada uma
delas seria um outro Sol, inclusive com planetas ao redor, apesar de pura especulação, foi
importante para ajudar ainda mais na descentralização da Terra (ou seria do Homem?).
Contudo, em 1750, o filósofo inglês Thomas Wright (1711 – 1786) publicou o livro Uma
teoria original ou nova hipótese do Universo, onde apresentava uma ideia inovadora, apesar de
impregnada por sua visão religiosa. De acordo com ele, o Universo seria composto por várias
esferas, cujos centros seriam ocupados pelo trono de Deus. Na casca esférica que envolvia cada
um desses centros estariam as estrelas (essas esferas não seriam preenchidas), e numa delas
teríamos o Sol com os planetas ao seu redor. E como essa esfera seria muito grande, ao olharmos
na direção tangencial da esfera, veríamos uma maior concentração de estrelas, e ao observarmos
na direção radial, praticamente não veríamos estrelas.

Figura 37 – (a) Diversas esferas no Universo proposto por Wright; (b) Um corte numa dessas esferas
mostrando o centro ocupado por Deus, uma região vazia, e as estrelas distribuídas pela casca; (c) Uma visão
mais próxima da casca esférica na qual encontram-se o Sol e outras estrelas. A partir da imagem acima,
conclui-se que na direção horizontal quase não se vê estrelas (existe a indicação da posição do Sol na figura),
mas na direção vertical, diversas estrelas podem ser observadas.

O mais curioso a respeito da hipótese de Wright foi a interpretação dada a ela pelo grande
filósofo alemão Immanuel Kant (1724 – 1804), que ainda jovem escreveu sua obra intitulada
História natural universal e teoria dos céus, de 1755, onde lançou suas ideias cosmológicas. Se
não fosse uma conclusão equivocada de Kant sobre o Universo de Wright, talvez esta hipótese
jamais saísse das sombras. Assim, a interpretação errada de Kant o fez chegar a uma proposta de
que as estrelas estariam dispostas em discos planos, e não em esferas. Estes discos, entretanto,
seriam totalmente preenchidos por estrelas, isto é, sem o hiato do modelo de Wright. Kant usou
como analogia a distribuição discoidal dos planetas em torno do Sol, e extrapolou para uma
escala maior. Logo, da mesma maneira que vemos os planetas dispostos sempre numa mesma
faixa do céu, vemos a região esbranquiçada que chamamos de Via Láctea, que é o conjunto de
bilhões de estrelas.32
Como Kant já havia lido a respeito das observações feitas pelo matemático e filósofo
francês Pierre-Louis de Maupertuis (1698 –1759), as quais registravam a presença de objetos
nebulosos no céu, concluiu que a Via Láctea seria apenas mais um desses corpos celestes
espalhados pelo Universo. Em suas palavras, as nebulosas (como foram comumente chamadas
pro terem aparência de nuvens) seriam “sistemas de muitas estrelas”, situadas a “distâncias
imensas”. Cada uma dessas nebulosas seria um corpo celeste singular na vastidão definida por
Kant como “universos ilhas”.
Outro astrônomo que também realizou diversas observações de nebulosas foi o francês
Charles Messier (1730 – 1817). Seu trabalho foi tão importante, que atualmente empresta seu
nome ao catálogo de objetos que foram observados e registrados por ele. A versão final de seu
catálogo foi publicada em 1781 com 103 objetos. Todavia, historiadores do século XX
concluíram que outros sete astros de características semelhantes também observados por Messier
deveriam integrar esse seleto grupo, que fechou com 110 objetos celestes difusos. 33 Ele teria
começado a catalogar essas nebulosas para evitar confusões com cometas, tendo em vista que era
um grande observador destes astros também.34 Ele descobriu 13 cometas, e observou dezenas.

UMA “LEI” EMPÍRICA


No século XVIII o Sistema Solar também passou por uma mudança significativa, que foi
fomentada por uma “lei” um tanto quanto curiosa. Ao traduzir do francês para o alemão a obra
Contemplação da natureza, do filósofo Charles Bonnet (1720 – 1793), o astrônomo alemão
Johann Dietz (1729 – 1796), mais conhecido por seu nome latinizado, Titius, fez uma inserção
por sua própria conta, sem destacar que se tratava de uma nota do tradutor. Esse acréscimo

32
Via lactea, em latim, quer dizer “caminho de leite”. Essa denominação foi adotada com base na forma como os
gregos se referiam àquela região (galaxias kyklos, que quer dizer “círculo de leite”). Atualmente, usamos o mesmo
nome (Via Láctea) para nos referirmos a duas coisas distintas: a já mencionada faixa esbranquiçada no céu, e à
nossa galáxia, visto que este é seu nome próprio.
33
Todos os objetos celestes desse catálogo são referidos como M (de Messier) e um número de 1 a 110, por
exemplo, M1 é a nebulosa do Caranguejo, M51 a galáxia do Rodamoinho, e muitos outros…
34
O critério usado por Messier para catalogar esses astros nebulosos era exclusivamente visual. Alguns desses
objetos mantiveram a denominação de nebulosa, que hoje é oficial (como M42, a nebulosa de Órion), mas outros
receberam outra nomenclatura, como galáxias e aglomerados, por exemplo. A galáxia de Andrômeda (M31) naquela
época era referida como nebulosa de Andrômeda.
poderia ter passado sem que ninguém percebesse, não fosse seu conteúdo. Em um pequeno texto
estava o que se conhece hoje como “lei de Titius-Bode”.
A proposta remete à busca pela ordenação que encontramos desde a Grécia Antiga até
Kepler (entre outros tantos). Titius havia identificado que existia uma regularidade na
distribuição dos planetas. No trecho adicionado por ele, a distância do Sol até Saturno foi
dividida em 100 partes, e os demais planetas foram dispostos nessa “régua de 100 unidades” da
seguinte maneira: Mercúrio, 4 + 0 = 4; Vênus, 4 + 3 = 7; Terra, 4 + 6 = 10; Marte, 4 + 12 = 16;
Júpiter, 4 + 48 = 52; e Saturno, 4 + 96 = 100. Dessa suposta série, Titius indica que falta um
termo, que corresponderia a um planeta entre as órbitas de Marte e Júpiter, cujos valores seriam:
4 + 24 = 28. Ele questiona: “Será que o Senhor Arquiteto teria deixado este espaço vazio? De
forma alguma”. Titius acreditava que naquele espaço haveria algum astro ainda não descoberto.
Com a inclusão deste corpo restante, sua ideia poderia explicar a distribuição dos planetas em
ordem de afastamento do Sol pela seguinte equação:

onde, n = -∞, 0, 1, 2, 3, 4 e 5, visto que esta sequência atenderia a quantidade de planetas


existentes até então.35 Cabe ressaltar que a equação acima já foi adatada para que a distância
Terra-Sol (uma unidade astronômica) seja unitária, bastando para isso dividir todos os termos
usados por Titius por 10. Mas o que mais se destaca nesta hipótese é que todos os valores
estavam muito próximos da realidade.

Planeta n Distância real (UA) dn Erro percentual


Mercúrio -∞ 0,39 0,4 2,56%
Vênus 0 0,72 0,7 2,78%
Terra 1 1,00 1,0 0,00%
Marte 2 1,52 1,6 5,26%
? 3 ? 2,8 ?
Júpiter 4 5,20 5,2 0,00%
Saturno 5 9,54 10,0 4,82%

Entretanto, por se tratar de um adendo despretensioso numa obra sem qualquer apelo
astronômico, essas ideias acabaram ganhando notoriedade através da obra Guia para o
conhecimento do céu das estrelas, de outro astrônomo alemão, Johann Bode (1747 – 1826),
35
O famoso matemático Carl F. Gauss implicou com o fato de não haver um padrão coerente para os possíveis
valores de n, uma vez que existe uma infinidade de números inteiros entre -∞ e 0. Por que apenas os números
inteiros positivos foram computados? A resposta é simples, mas pouco científica: os valores escolhidos foram
aqueles que atendiam o que se sabia a respeito do Sistema Solar. É bom lembrar que quando Gauss faz seus
comentários, outros dois astros já haviam sido descobertos, e ambos corroboravam a “lei” de Titius-Bode, como
veremos adiante.
publicada em 1772. Na primeira edição, Bode não informou que estava citando Titius, e apesar
de ter creditado posteriormente a ele, ainda é comum encontrarmos fontes que chamam essa
regra de “lei de Bode” apenas. Convenhamos, se tivéssemos que usar apenas um nome, o mais
justo seria usar somente o de Titius. Porém, um outro ponto controverso é a denominação de
“lei”. Muitos autores optam por “série”, “progressão”, ou “sequência de Titius-Bode”, tendo em
vista que não se trata de uma lei física, de forma que não pode ser deduzida. Trata-se de uma
proposta empírica que se adequou bem ao Sistema Solar naquele momento.

NOVOS PLANETAS
Um dos maiores astrônomos da virada do século XVIII para o XIX foi um inglês de origem
alemã chamado William (originariamente Friedrich Wilhelm) Herschel (1738 – 1822). Ele
começou sua carreira como músico. A música o levou à matemática, a matemática o conduziu à
astronomia. Em 1773, Herschel passou a dedicar-se à astronomia prática utilizando telescópios
que ele mesmo havia construído após passar alguns anos desenvolvendo a técnica.
O dia 13 de março de 1781 é um marco na história da astronomia, pois após séculos de
observação dos planetas conhecidos, um novo foi descoberto no céu! Curiosamente, este astro já
tinha sido observado várias vezes por outros astrônomos antes de Herschel,36 mas como sua
mente era provavelmente o melhor atlas celeste da época (ele observou tanto o céu que o
conhecia como pouco), ao bater os olhos naquele objeto, Herschel desconfiou que tratava-se de
um cometa, num primeiro momento.
Herschel notificou a descoberta ao astrônomo real Nevil Maskelyne (1732 – 1811), que
ao analisar as informações passadas por ele declarou que achava que o astro estava mais para um
planeta regular girando ao redor do Sol, do que para um cometa, pois não havia identificado
nenhuma cauda. Mas foi o astrônomo russo Anders Lexell (1740 – 1784) que computou pela
primeira vez sua órbita, mostrando que o novo planeta estava duas vezes mais afastado do Sol
que Saturno.
O nome dado por Herschel ao planeta foi “estrela de George” (Georgium Sidus, em
latim), em homenagem ao rei da Inglaterra George III. Posteriormente, Bode sugeriu “Urano”,
nome do deus romano dos céus, e pai de Saturno (como Júpiter era sucedido por Saturno, seu
pai, o mesmo deveria ocorrer com este último, segundo Bode). Em 1850, este planeta passou a se
chamar oficialmente Urano.
Ao aplicar a sequência de Titius-Bode a Urano, os astrônomos da época se depararam
com uma grata surpresa: o planeta se enquadra com um erro mínimo à série, partindo do valor

36
A mais antiga observação registrada deste planeta foi realizada pelo primeiro astrônomo real britânico, John
Flamsteed (1646 – 1719), em 1690. Na ocasião não o reconheceu como planeta, classificando-o como uma estrela
da constelação de Touro.
seguinte ao de Saturno, ou seja, para n = 6. A comunidade astronômica ficou em polvorosa e a
ideia de Titius começou a ganhar cada vez mais seguidores.

Planeta n Distância real (UA) dn Erro percentual


Urano 6 19,2 19,6 2,08%

Por conta de sua grande descoberta, Herschel recebeu uma verba do rei para construir
aquele que seria o maior telescópio do mundo. Com este instrumento, ele foi capaz de descobrir
dois satélites de Urano (Oberon e Titânia), em 1787, e dois anos depois, encontrou mais duas
luas novas ao redor de Saturno (Encélado e Mimas).37
Herschel dedicou-se ainda mais as suas “varreduras” celestes (como ele mesmo se referia
a sua técnica observacional) com esse novo e imenso telescópio. Ele havia recebido o novo
catálogo de Messier, e se pôs a observar aquelas nebulosas. Sobre a nebulosa de Órion, Herschel
declarou que seria uma nuvem de “material caótico de futuros sóis”. Já a nebulosa de
Andrômeda brilharia, de acordo com ele, com “a luz combinada de milhões de estrelas”. É
surpreendente ler essas informações no trabalho de Herschel, pois ele foi extremamente feliz em
suas previsões, apesar de não ter nenhuma base teórica para suas afirmações.
Além disso, Herschel empreendeu um projeto científico de mapeamento de toda extensão
da Via Láctea (a faixa esbranquiçada), e concluiu que o Sol pertencia a um enorme grupo de
estrelas. Foi ele ainda o primeiro a demonstrar que nossa estrela está em movimento através do
espaço, em direção ao que ficou definido como “apex solar” (o ponto no céu para o qual o Sol
caminha devido ao seu movimento ao redor do centro da Via Láctea — a galáxia).
William Herschel contou com a ajuda de sua irmã Caroline durante seus expedientes
como astrônomo, e mais para o final da vida, com seu filho John. John Herschel (1792 – 1871)
publicou em 1864 o Catálogo geral de nebulosas e aglomerados, que continha mais de 5000
objetos observados por ele e por seu pai. Esta obra serviu como base para que o astrônomo
dinamarquês John Dreyer (1852 – 1926), em 1880, compilasse um dos mais famosos catálogos
de objetos não estelares até hoje, o NGC (Novo Catálogo Geral, da sigla em inglês).
Mas, retornando à repercussão pela descoberta de Urano, e sua adequação natural a
sequência de Titius-Bode, o fato de esta “lei” ter se encaixado tão bem na previsão da posição do
planeta fez com que aumentasse a busca pelo planeta que deveria estar entre as órbitas de Marte
e Júpiter (referente a n = 3).
Em 1800, um grupo reunido pelo astrônomo alemão Franz Xaver von Zach (1754 –
1832), que ficou conhecido como “polícia celeste”, iniciou uma campanha para encontrar este
37
Esses nomes também foram dados por seu filho John Herschel. Em 1852, ele fez uso de nomes de personagens de
obras de William Shakespeare, para batizar as duas luas de Urano. Já os nomes dos dois satélites de Saturno foram
novamente inspirados pela mitologia grega. Encélado e Mimas eram gigantes, filhos de Gaia, deusa da Terra.
astro. Como eles eram 24 astrônomos, a faixa do zodíaco (por onde passam os planetas) foi
dividida em 24 zonas de 15° cada. Entre os membros desse seleto grupo estavam Charles
Messier e Nevil Maskelyne. Curiosamente, quem descobriu este “planeta perdido” não foi um
membro do grupo.
No dia 1º de janeiro de 1801, o astrônomo, matemático e monge italiano Guiseppe Piazzi
(1746 – 1826) observou um astro que chamou inicialmente de “uma nova estrela”, e depois
pensou ser um cometa. Como não notou nenhuma nebulosidade ao seu redor nas observações
seguintes, e percebeu que seu movimento era lento e uniforme, Piazzi desistiu dessa ideia
também. Foi o matemático Carl F. Gauss (1777 – 1855) quem calculou sua órbita e determinou
que sua distância corroborava a sequência de Titius-Bode. Mais uma vez um resultado
surpreendente!

Planeta n Distância real (UA) dn Erro percentual


Ceres 3 2,77 2,8 1,08%

Piazzi batizou este astro de Ceres Ferdinandea, numa dupla homenagem: o primeiro
nome homenageava a deusa romana da agricultura, e o segundo nome em honra do rei
Ferdinando I, das Duas Sicílias. Somente o primeiro prevaleceu. Curiosamente, até 1851 Ceres
foi considerado um planeta. Quando outros astros foram encontrados na mesma região que ele,
uma nova categoria de objetos celestes foi criada: os “asteroides”.38 Este termo foi cunhado por
William Herchel, e quer dizer “com forma de estrela” (asteroeides, em grego).

PLANETAS PERTURBADOS
O Sistema Solar estava num grau de ordenação ideal na primeira metade do século XIX.
Pitágoras, Platão, ou mesmo Kepler, provavelmente estariam delirando se tivessem vivido
naquele tempo. E um tema que já havia sido visitado no século anterior voltava à tona para tentar
explicar a origem do nosso sistema planetário, desta vez desenvolvida pelo renomado astrônomo
francês Pierre Simon, Marquês de Laplace (1749 – 1827).
Chamada de “hipótese nebular”, esta teoria foi publicada em 1796 no livro Exposição do
sistema do mundo. Nela Laplace propõe que o Sol e os planetas teriam sido formados a partir de
uma massa nebulosa primordial de gás incandescente em rotação, que ia se resfriando e
contraindo. Esse material mais frio se separava em anéis começando pela região mais externa da
nuvem para se condensar e formar os planetas (por conta disso os planetas mais afastados seriam

38
A região onde estes astros estão se chama “cinturão de asteroides” e os que foram descobertos após Ceres foram:
Pallas (1802), Juno (1804) e Vesta (1807). Milhares de asteroides foram encontrados posteriormente. É importante
lembrar ainda que Ceres não é mais classificado como asteroide. Em 2006, passou a integrar uma nova categoria
chamada de “planetas anões”.
os mais antigos, segundo Laplace). O mesmo processo ocorreria, numa escala menor, para dar
origem aos satélites. Laplace incorporou os anéis de Saturno à sua hipótese, sendo este o único
caso de anéis de material nebular se solidificando ao redor de um planeta. Por se mostrar incapaz
de explicar muitas questões acerca do Sistema Solar, tal proposta foi abandonada no início do
século XX.
Contudo, a obra em que Laplace fornece uma discussão analítica e cientificamente
relevante sobre o Sistema Solar foi publicada em cinco volumes e recebeu o título de Mecânica
Celeste. Sua publicação se deu ao longo de 26 anos, com os dois primeiros volumes sendo
lançados em 1799, o terceiro em 1802, o quarto em 1805 e o último em 1825. Nesta obra ele
calcula os movimentos dos planetas, determina suas formas, fornece tabelas astronômicas, enfim,
trata-se de um receptáculo de conhecimento inestimável.
Agora, coloque-se por um momento no contexto da época: a teoria gravitacional de
Newton estava mais do que estabelecida. Laplace desenvolve a mecânica celeste. A “lei” de
Titius-Bode estava funcionando perfeitamente. Novos planetas descobertos e prontos para serem
“dissecados”. Teorias ideais para “dissecá-los”. Era ou não era um bom momento para ser
astrônomo? Não precisa responder…
Urano, em particular, se tornou uma febre entre os astrônomos. Muitos queriam
comprovar aquelas leis na prática com um objeto ainda pouco estudado. E, graças a isso, dados
de sua posição no céu — que se altera muito lentamente, pois hoje sabemos que Urano demora
cerca de 84 anos para dar uma volta completa ao redor do Sol — começaram a se acumular.
Por volta de 1820, já havia dados suficientes para chamar a atenção dos mais cuidadosos:
os dados observacionais não concordavam com as posições previstas pela lei da gravidade! Isso
levou a alguns matemáticos, notadamente John C. Adams (1819 – 1892) e Urbain Le Verrier
(1811 – 1877) — independentemente —, a proporem uma solução inusitada para essa
discrepância: havia um outro planeta, além da órbita de Urano, que, com sua gravidade, estava
perturbando o sistema Sol-Urano.
Cálculos foram realizados e algumas cartas incisivas foram postadas, pedindo para
diversos astrônomos em diferentes observatórios procurarem este novo corpo celeste, em uma
região específica, predeterminada pela matemática. Quem primeiro o encontrou foi o astrônomo
alemão Johann Galle (1812 – 1910), em 23 de setembro de 1846, usando basicamente os dados
fornecidos por Le Verrier. Galle recebeu estes dados no mesmo dia da descoberta e levou menos
de uma hora para encontrar o planeta a menos de um grau da posição fornecida!39
39
Estudos recentes de manuscritos de Galileu mostram que ele, entre outros depois dele, observou este planeta pelo
menos duas vezes, enquanto realizava seus estudos sobre o sistema de Júpiter, no final de 1612 e no início de 1613.
Porém, acredita-se que Galileu o confundiu com uma estrela, apesar de isso não ser absolutamente conclusivo, tendo
em vista que ele parece ter feito um terceiro registro com tinta de cor diferente do planeta um pouco deslocado. Mas
este tema ainda pode render ou ser, de fato, inconclusivo.
Foi Le Verrier que sugeriu o nome atualmente usado, Netuno, para o planeta depois de
algumas controvérsias.40 Analisando as informações referentes a Netuno, percebemos que foi
desferido o primeiro golpe na sequência de Titius-Bode, pois o valor previsto para n = 7 não
batia com a distância real do Sol a Netuno. O erro chegava quase a 30%!41

Planeta n Distância real (UA) dn Erro percentual


Netuno 7 30,06 38,8 29,08%

Curiosamente, um outro planeta parecia sofrer uma perturbação: Mercúrio. O mesmo Le


Verrier que previu matematicamente a existência de Netuno, propôs também a existência de um
planeta entre o Sol e Mercúrio. Tal planeta, batizado (antes mesmo de ser descoberto!) de
Vulcano, seria o responsável por algumas discrepâncias apresentadas por Mercúrio em sua
órbita. Hoje sabemos que Vulcano não existe — senão na cabeça do produtor Gene
Roddenberry, criador da série de TV Jornada nas estrelas (afinal, é de lá que vem o Sr. Spock!)
— e que o problema da órbita de Mercúrio é facilmente explicado pela atual teoria de gravitação
proposta por Albert Einstein (1879 – 1955), a relatividade geral.
Uma órbita ao redor do Sol, em forma de uma elipse, tem dois pontos de interesse
especial: o afélio (ponto mais distante do Sol) e o periélio (ponto mais próximo). Assim, cada um
dos planetas do Sistema Solar tem muito bem definidos os seus respectivos periélios e afélios.
De nosso particular interesse é o periélio, pois sendo este o ponto de maior proximidade
com o Sol, é lá que o planeta sofre mais intensamente os efeitos gravitacionais.
Em um mundo ideal, onde só existisse o Sol e um planeta, o periélio deste planeta seria
um ponto fixo no espaço. Seria, assim, um excelente “ponto de partida” para a contagem orbital
e poderíamos dizer que a cada nova passagem pelo periélio uma nova órbita seria iniciada.
Mas em um sistema como o nosso, em que há outros corpos exercendo gravidade (os
próprios planetas, muitas luas, incontáveis asteroides), as órbitas dos planetas não são curvas
fechadas (Sim, isso mesmo!) e o “ponto inicial” de cada órbita, ou seja, o periélio, se desloca
pelo espaço. Esse movimento chamamos de precessão do periélio.
A precessão do periélio dos planetas em geral pode ser bem explicada pela gravitação
universal de Newton. Toma-se o planeta em questão (por exemplo, a Terra) e se calcula a
interação gravitacional com o Sol; em seguida, acrescentam-se termos perturbativos, que

40
Netuno, na mitologia romana, é o nome do deus dos mares, irmão de Júpiter. Tendo em vista que Urano é um deus
primordial, não foi possível continuar a sequência dando o nome de seu pai.
41
É relativamente comum encontrar na literatura a informação de que Adams e Le Verrier dividem os méritos da
descoberta de Netuno. Porém, artigos recentes de história da astronomia indicam que Le Verrier merece dividir
apenas com Galle (o observador) esse crédito, pois o trabalho de Adams não teria dados suficientes para fazer com
que se chegasse ao planeta. Curiosamente Adams fez uso da “lei” de Titius-Bode para obter seus resultados, mas
seria leviano dizer que foi isso que prejudicou sua solução.
representam os demais corpos do Sistema Solar. Dessa maneira, é possível calcular, de forma
newtoniana, a precessão do periélio.
Mas esse método não funciona para Mercúrio. Antes da relatividade geral (1915),
explicava-se isso apelando para a existência de Vulcano, aquele planeta entre Mercúrio e o Sol.
Este planeta, com sua gravidade, alteraria a precessão do periélio do outro, explicando porque as
observações não concordavam com os cálculos newtonianos. Além disso, e muito comodamente,
Vulcano estaria tão próximo do Sol que seria virtualmente impossível observá-lo a partir da
Terra! Ainda assim, muitos astrônomos tentaram encontrá-lo no céu…
Com a nova teoria da gravidade, Einstein mostrou que a precessão do periélio de
Mercúrio era exatamente o que deveria ser. Por ser o planeta mais próximo do Sol, Mercúrio
sente sua gravidade de forma mais intensa. Assim, a aproximação newtoniana perde a validade e
precisamos da relatividade geral para explicar a interação gravitacional entre o Sol e Mercúrio.

DESENHO VERSUS FOTOGRAFIA


Em 1837, o químico francês Louis-Jacques Daguerre (1789 – 1851) inventou a
daguerreotipia  uma técnica fotográfica primitiva. Os físicos Léon Foucault (1819 – 1868) e
seu amigo Hippolyte Fizeau (1819 – 1896) estudaram o processo descoberto por Daguerre e,
juntos, aperfeiçoaram seu método. Já em 1845, os avanços conquistados por Foucault e Fizeau
na área da fotografia levaram o influente cientista e político François Arago (1786 – 1853) a
propor algo que já estava sendo pensado por Foucault: a aplicação da daguerreotipia aos
telescópios, com o intuito de fazer imagens astronômicas. Através desse trabalho eles obtiveram
a primeira fotografia astronômica da História, uma imagem do Sol.
No mesmo ano em que essa fotografia histórica foi feita, inaugurava na Irlanda aquele
que seria o maior telescópio do mundo até 1917. Conhecido como “Leviatã de Parsonstown”,
este instrumento foi construído por William Parsons (1800 – 1867), 3º Conde de Parsonstown,
Lorde Rosse. O mais interessante a respeito das observações que Rosse realizou com este
telescópio é que seus registros (esboços feitos à mão) são de qualidade tão impressionante, que
remetem a fotografias, guardadas às devidas proporções.
Figura 38 – Primeira fotografia astronômica feita por Léon Foucault e Hippolyte Fizeau em 1845.

Rosse observou e desenhou diversos objetos nebulosos e identificou estruturas espirais,


segundo ele descreveu, em 14 deles. O formato desses astros fortaleceu a hipótese nebular de
Laplace, e mostrava que a qualidade dos telescópios estava aumentando consideravelmente.
Quando comparamos uma ilustração de Rosse com uma imagem atual da mesma nebulosa,
podemos constatar o quanto seu instrumento era bom.

Figura 39 – Comparação entre o esboço de Rosse e uma fotografia atual da galáxia do Rodamoinho (M51).

E PUR SI MUOVE42
Léon Foucault, personagem importante na história da fotografia astronômica, foi um dos
cientistas experimentais mais brilhantes do século XIX. Foi ele o idealizador da primeira prova
física do movimento de rotação da Terra: o pêndulo de Foucault. Em 1851, realizou um
experimento que consistia em um pêndulo simples posto a oscilar em um plano vertical, o qual

42
Citação da lendária frase que Galileu Galilei teria sussurrado imediatamente após ter negado diante da cúpula da
Santa Inquisição sua ideia de que a Terra se movia. A tradução da frase seria “e, no entanto, ela [a Terra] se move”,
e muito provavelmente ela jamais foi proferida de fato, sendo apenas mais um mito associado à história de Galileu.
gira lentamente com o passar do tempo no sentido contrário ao do movimento de rotação da
Terra.43
Talvez a questão mais complexa desse intrigante experimento seja a compreensão do que
vem a ser esse plano de oscilação do pêndulo. Para visualizar claramente esse conceito, vale
recorrer a um recurso utilizado pelo próprio Foucault quando realizou essa experiência no
Panthéon de Paris, em março de 1851. Na parte inferior da bola do pêndulo foi anexada uma
espécie de estilete, que deixava um rastro linear na areia molhada espalhada exatamente abaixo
de todo o aparato. Ao cumprir a trajetória em sua primeira oscilação, a linha traçada pelo
pêndulo na areia define o plano em questão, e se uma parede imaginária fosse suspensa a partir
desse risco, ela representaria esse plano oscilatório. Com o passar do tempo, a agulha começa a
mudar a direção das marcações na areia, o que indica, indubitavelmente, que a Terra gira.
E porque isso acontece? A explicação matemática definitiva para esse fenômeno não é
muito simples, e não foi dada por Foucault. Sua solução foi totalmente empírica, apesar de
naquela época já existir a base matemática necessária para explicá-la. Ela foi desenvolvida pelo
engenheiro francês Gaspard-Gustave Coriolis (1792 – 1843), em 1835. Curiosamente, ainda em
1851 ela não era conhecida pelos cientistas franceses, o que retardou a dedução do que hoje é
chamada de “lei do seno” (por relacionar o período que o plano do pêndulo leva para dar uma
volta completa com o seno da latitude em que o experimento é realizado).
A grande contribuição de Coriolis foi enunciar o que atualmente se conhece como “força
de Coriolis”. Essa força age em corpos que se movem em sistemas em rotação (que é o caso de
um pêndulo oscilando na Terra). Sua principal característica no caso do pêndulo de Foucault é
ser a responsável direta pelo movimento do plano de oscilação. E é graças a ela que no
hemisfério sul o desvio sofrido é no sentido anti-horário, e horário no hemisfério norte.44

PLANETA X
Apesar da descoberta de Netuno em 1846, algumas pequenas discrepâncias no movimento de
Urano ainda eram percebidas, o que fez o astrônomo estadunidense Percival Lowell (1855 –
1916) sugerir a existência de um outro planeta desconhecido responsável por essa perturbação.
Ele inaugurou o observatório que leva seu nome em 1894, e começou com sua equipe um projeto
de busca a este novo membro do Sistema Solar, o qual chamava de “planeta X”.

43
É importantíssimo destacar que apesar da simplicidade dessa experiência, são necessários alguns cuidados
especiais para que ela seja bem sucedida. A forma como o fio é preso, ou até mesmo como o peso é solto
inicialmente são detalhes fundamentais para que a demonstração transcorra perfeitamente.
44
Para uma melhor visualização de como essa força atua, um bom exemplo prático pode ser usado: uma pessoa se
movendo em um carrossel. Supondo-se que ela parta do centro para a borda, e que o carrossel esteja girando no
sentido horário, essa pessoa sentirá uma força impelindo-a para a direita. Obviamente, essa força está relacionada ao
sentido do movimento da pessoa (se vai do centro para borda, ou vice-versa), e também com o sentido em que o
carrossel gira.
Infelizmente, Lowell não viveu para ver tal descoberta, apesar de imagens deste astro
terem sido obtidas no Observatório Lowell em 1915, sem que os responsáveis por sua aquisição
identificassem o novo planeta.
Somente em 1930, o jovem astrônomo estadunidense Clyde Tombaugh (1906 – 1997),
recém chegado ao Observatório Lowell, realizou a descoberta daquele que veio a ser o nono
planeta do Sistema Solar. A técnica usada foi simples: Tombaugh fotografava a mesma região do
céu em um intervalo de uma semana. Com uma máquina especial, ele alternava rapidamente
entre uma imagem e outra, e caso notasse o deslocamento de algum ponto luminoso, aquele seria
um forte candidato a planeta.45 Em duas placas fotográficas, uma de 23 e outra de 29 de janeiro
de 1930, um astro se deslocou em relação aos demais, e no dia 13 de março daquele mesmo ano
este astro foi declarado como sendo um novo planeta do Sistema Solar.
O nome usado para batizar o planeta foi sugerido por uma menina inglesa de 11 anos de
idade: Plutão. A inspiração foi novamente mitológica, pois ela se interessava bastante por
mitologia e pensou no nome do deus das profundezas (das terras longínquas), por se tratar de um
planeta tão distante.
E por falar em distância, foi com Plutão que a sequência de Titius-Bode sofreu o golpe
fatal, pois falhou clamorosamente! O erro, que já havia aumentado significativamente com
Netuno, chegou quase a 100% com Plutão. Aquela “lei” empírica não se adequava aos planetas
mais afastados do Sistema Solar.

Planeta n Distância real (UA) dn Erro percentual


Plutão 8 39,44 77,2 95,75%

Outra informação importante diz respeito às discrepâncias notadas no movimento de


Urano, que foram atribuídas ao planeta ora descoberto. Plutão, por questões relativas à sua massa
e à distância que se encontra dos demais planetas, certamente não seria capaz de causar qualquer
perturbação gravitacional. Sua interação neste sentido é absolutamente desprezível.

FIM?
Recentemente, vimos uma nova página da história da astronomia ser escrita e, resumidamente,
falarei um pouco sobre este tema a seguir.
Na segunda quinzena de agosto de 2006, numa conferência da União Astronômica
Internacional (IAU, da sigla em inglês) realizada em Praga, capital da República Tcheca,
começou a ser decidido o destino de Plutão, e outros astros menores do Sistema Solar (a maioria,

45
Ou asteroide, ou cometa… Uma vez identificado este deslocamento, um estudo mais minucioso seria realizado
para obter mais informações a respeito deste astro, a fim de definir a categoria na qual ele será enquadrado.
recém-descobertos). Este debate providencial baseou-se na seguinte questão: quais devem ser os
critérios para se definir um astro como planeta? O que muitos não sabem é que este tema foi
levantado diversas vezes nos últimos tempos, e a condição de Plutão como planeta era
normalmente ameaçada durante esses embates intelectuais. Porém, estas discussões mostraram-
se sempre infrutíferas.
No Sistema Solar vigente até então (com nove planetas) existia uma regra, e a exceção
que a confirmava. O padrão era: os quatro planetas mais próximos do Sol eram pequenos e
rochosos, e os quatro mais afastados, gigantes e gasosos. Plutão era a exceção da regra! Apesar
de não termos muitas informações a seu respeito, sabemos que tem cerca de 2300 quilômetros de
diâmetro, fato que o tornava o menor planeta. Além disso, também apresenta uma formação
rochosa que, associada ao fato de se encontrar nos confins do Sistema Solar, contraria a aparente
lógica supracitada. Sua órbita bastante inclinada e excêntrica contribuiu ainda mais para que,
juntamente com os demais fatores, seu título de planeta fosse contestado.
Mesmo assim, até agosto de 2006, Plutão teve seu posto mantido com base,
principalmente, em razões históricas. Contudo, as descobertas de novos astros além de sua
órbita, ocorridas desde o final do século XX, começaram a abalar seu status quo de maneira
irreversível. Enquanto esses objetos apresentavam tamanhos inferiores ao seu, Plutão conseguiu
se manter, mas quando Éris (que anteriormente era chamado de 2003 UB 313) foi descoberto, com
aproximadamente 2400 quilômetros de diâmetro, o caso mereceu uma atenção maior da
comunidade astronômica. Começávamos a sentir falta de uma definição científica de planeta…
Foi então que as discussões nos bastidores tornaram-se acaloradas. De um lado, puristas e
alguns estadunidenses corporativistas (para quem ainda não se deu conta, Plutão era o único
planeta descoberto por um astrônomo dos EUA). Do outro lado, um grupo de cientistas que
buscava uma solução definitiva e imparcial, mas sem abrir mão do bom senso, pois pensem:
como seria a situação se o modelo contrário ao “rebaixamento” de Plutão fosse o mais votado?
Além dos três novos planetas (Ceres, Caronte — principal satélite de Plutão — e Éris) que o
Sistema Solar ganharia de imediato, muito provavelmente outros seriam acrescentados, pois a
probabilidade de objetos celestes com as mesmas características deles serem encontrados além
da órbita de Plutão é razoavelmente grande.46
Mas, afinal de contas, o que levou Plutão a perder seu título de planeta? A comunidade
astronômica aguardava ansiosa a plenária que decidiria, definitivamente, o que é um planeta. No
dia 24 de agosto de 2006, através do exercício democrático do voto, a maioria esmagadora dos
astrônomos presentes na 26ª reunião da IAU decidiu que “um planeta é um corpo celeste que (a)

46
Para aqueles que reclamaram das alterações que os livros didáticos sofreram com o intuito de corrigir o status de
Plutão, imaginem se a cada cinco ou dez anos um novo planeta tivesse que ser adicionado ao Sistema Solar?
Teríamos mudanças muito mais frequentes nos livros de uma forma geral há médio e longo prazo.
está em órbita ao redor do Sol, (b) tem massa suficiente para que sua própria gravidade se
sobreponha às forças de corpo rígido de maneira a assumir uma forma em equilíbrio hidrostático
(aproximadamente redonda), e (c) tem a vizinhança de sua órbita livre”. Plutão não preenche o
terceiro requisito e, por isso, passou a integrar, juntamente com Ceres e Éris, uma nova classe de
corpos celestes do Sistema Solar: os “planetas anões”.
Futuramente, a comissão da IAU responsável por essa categoria decidirá que outros
astros deverão fazer parte deste grupo. Por enquanto, existe apenas uma lista de candidatos pré-
selecionados, entre eles Sedna, Quaoar e outros menos famosos.
Como comumente se encontra em textos de auto-ajuda que é importante rever seus
conceitos de tempos em tempos, nada mais justo que uma ciência milenar também reveja os
seus. E foi assim que a Astronomia finalmente ganhou uma definição científica de planeta!
Este curto relato mostra o quanto estamos suscetíveis a mudanças na prática científica,
independente da época. Ciência é algo mutável, a astronomia, que levou milênios para evoluir,
pode precisar apenas de alguns segundos para mudar radicalmente. Vimos aqui um pouco dessas
revoluções sofridas pela astronomia ao longo de sua vasta história (e deixamos, infelizmente, de
discutir outras tantas como já era previsto…). O que posso dizer para finalizar? Simples: estejam
preparados, pois a qualquer momento algo de novo pode acontecer e virar história. A História
nos mostra isso claramente.