Você está na página 1de 391

GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,

territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina


GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Angela Fagna Gomes de Souza


Roseane Cristina Santos Gomes
(Organizadoras)

GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA:


diálogos sobre território, territorialidades,
sociedade e natureza no Brasil e na
América Latina

1ª Edição
2016

Florianópolis/SC
Bookess Editora
Bookess Editora
Florianópolis – Brasil
Rua Lauro Linhares, 1281.
88036-003 – Trindade, Florianópolis – SC

Contato
Angela Fagna Gomes de Souza
Curso de Geografia Licenciatura
Universidade Federal de Alagoas
angelafagna@hotmail.com

Roseane Cristina Santos Gomes


Curso de Geografia Licenciatura
roseane.ufs@gmail.com
Universidade Federal de Sergipe

Capa: Angela Fagna Gomes de Souza

SOUZA, Angela Fagna Gomes de; GOMES, Rosenae Cristina Santos. (Org.).
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território, territorialidades,
sociedade e natureza no Brasil e na América Latina. Florianópolis: Bookess Editora, 2016.
390 p.

ISBN: 9788544803066

Licença: Creative Commons - Atribuição + Não comercial

Qualquer pessoa pode ler este livro.

O conteúdo deste e-book tem como objetivo divulgar as experiências de pesquisadores


socializadas durante o IV Congreso Internacional del Conocimiento realizado de 09 a 12 de
outubro de 2015 na Universidad de Santiago de Chile.
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A tod@s os autores que compartilharam suas


experiências de pesquisa durante o IV Congreso
Internacional del Conocimiento realizado de 09 a 12
de outubro de 2015 na Universidad de Santiago de
Chile.

A Universidade Federal de Alagoas e Universidade


Federal de Sergipe que viabilizaram a nossa
participação como coordenadoras do Simpósio
Geografia, Turismo e Cultura.
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ....................................................................................................... 18

AS POLÍTICAS CULTURAIS DO INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMÔNIO


CULTURAL (INEPAC- RJ) E A VALORIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO
NATURAL NA REGIÃO NORTE FLUMINENSE

Jéssica de Oliveira Monteiro; Simonne Teixeira ....................................................... 10

LA TEMATIZACIÓN DEL PATRIMONIO CULTURAL DEL CENTRO


HISTÓRICO DE LA CIUDAD DE MÉXICO: UN FACTOR DE ATRACCIÓN
PARA EL TURISMO CULTURAL

César Mauricio Salas Benítez..................................................................................... 31

O TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NO LITORAL SUL SERGIPANO E O


ORDENAMENTO TERRITORIAL SOBRE O VIÉS DA COMPLEXIDADE

Lillian Mª de Mesquita Alexandre .............................................................................. 51

TURISMO DE BASE COMUNITARIA COMO FACTOR EN LA RE-


SIGNIFICACIÓN Y APROPIACIÓN DEL TERRITORIO: ESTUDIO DE
CASOS SOBRE EXPERIENCIAS DE MUJERES MAPUCHE EN LA FERIA
GASTRONÓMICA Y ARTESANAL DE LA LOCALIDAD DE POCURA,
COMUNA DE PANGUIPULLI – REGIÓN DE LOS RÍOS, CHILE

Gabriela Patricia Catalán Verdugo ........................................................................... 67

A GOVERNANÇA NA GESTÃO URBANA SOB A PERSPECTIVA DA


ECOSSOCIOECONOMIA: UM ESTUDO NO TERRITÓRIO DO CABULA,
SALVADOR - BA - BRASIL

Luciane Cristina Ribeiro dos Santos; Carlos Alberto Cioce Sampaio ....................... 94

TERRITÓRIOS TURÍSTICOS E RESILIÊNCIA CULTURAL: ESTRATÉGIAS


LOCAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO EM ÁREAS
PROTEGIDAS

Marina Mujica de Paiva ........................................................................................... 123

SENTIDOS DA PAISAGEM DO POVOADO CRASTO/SE NA PERSPECTIVA


DOS SUJEITOS DO LUGAR

César Augusto França Ribeiro; Heberty Ruan da Conceição Silva ........................ 147

OS TERRITÓRIOS DA ENERGIA EÓLICA NA REGIÃO NORDESTE DO


BRASIL
Vanessa Santos Costa; Maria Augusta Mundim Vargas .......................................... 174

LA POLÍTICA DE LA TRADICIÓN: EL MUSEO GAUCHESCO “RICARDO


GÜIRALDES” Y EL ESCENARIO RURAL COMO RESERVORIO DE LA
NACIONALIDAD ARGENTINA (1936-1938)

Matías Emiliano Casa .............................................................................................. 199

REVITALIZACIÓN Y AUTO SUSTENTABILIDAD TERRITORIAL:


CARTOGRAFÍAS SOCIO-TERRITORIALES Y TURISMO COMUNITARIO
COMO HERRAMIENTAS DE EMPODERAMIENTO, GESTIÓN Y MANEJO
LOCAL. UNA APROXIMACIÓN DESDE LA PLANIFICACIÓN-ACCIÓN
COLECTIVA REVITALIZAÇÃO E AUTO-SUSTENTABILIDADE
CARTOGRAFIAS SÓCIO-TERRITORIAIS E TURISMO COMUNITÁRIO
COMO FERRAMENTA DE EMPODERAMENTO, GESTÃO E USO LOCAL.
UMA APROXIMAÇÃO DESDE O PLANEJAMENTO-AÇÃO COLETIVA

Rodrigo Cuevas Vargas; Christian Henríquez Zuñiga............................................. 219

DA CASA AO MANGUE: O USO E APROPRIAÇÃO DO ESPAÇO EM


COMUNIDADES TRADICIONAIS NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL

Rodrigo Herles dos Santos; Angela Fagna Gomes de Souza ................................... 255

TEMPOS E OS TERRITÓRIOS DA PESCA NO POVOADO PEDREIRAS - SÃO


CRISTÓVÃO/SE

Ronilse Pereira de Aquino Torres; Rodrigo Santos de Lima ................................... 289

FACES DO PARAÍSO: A LUTA PELA GARANTIA DO TERRITÓRIO


TRADICIONAL PESQUEIRO FRENTE AO PROCESSO DE
TURISTIFICAÇÃO EM SÃO MIGUEL DOS MILAGRES E PORTO DE
PEDRAS, ALAGOAS, BRASIL

Manuela Grace de Almeida Rocha Kaspary ............................................................ 320

VÍNCULOS TERRITORIAIS E IDENTIDADE(S) NO ASSENTAMENTO


CRUIRI, MUNICÍPIO DE PACATUBA, ESTADO DE SERGIPE

Auceia Matos Dourado ............................................................................................. 343

ESPAÇOS DE DIÁLOGO NA FEIRA VOCACIONAL DA JORNADA


MUNDIAL DA JUVENTUDE

Eliéte Furtado Cecílio e Silva; Maria Augusta Mundim Vargas ............................. 366
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

APRESENTAÇÃO
Quando se relaciona Geografia, Turismo e Cultura, três questões se colocam: a primeira
refere-se à produção dos espaços turísticos no que se refere às dinâmicas econômicas,
sociais e culturais; a segunda refere-se ao território vivido das populações locais e sua
apropriação para o turismo; e em terceiro lugar vem a questão da natureza apropriada
pela atividade turística e tomada como uma exclusividade.

Neste sentido, este e-book tem como objetivo agregar as experiências socializadas
durante o Simpósio 64 - Geografia, Turismo e Cultura: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina como parte da
programação do IV Congreso Internacional del Conocimiento. Ciencias, Tecnologías y
Culturas, realizado de 09 a 12 de outubro de 2015 na Universidad de Santiago de Chile,
cujo tema foi ―Diálogo entre las disciplinas del conocimiento. Mirando al futuro de
América Latina y el Caribe‖.

Estiveram reunidos professores, pesquisadores e estudantes de várias instituições e


países tais como: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro/Rio de
Janeiro/Brasil, Universidad Nacional Autónoma de México/Ciudad del México-México,
Universidad Austral de Chile/Valdivia-Chile, Universidade Federal de Sergipe/Sergipe-
Brasil, Universidade Federal de Alagoas/Alagoas-Brasil, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul/Rio Grande do Sul-Brasil, Pontifícia Universidade Católica do
Paraná/Paraná-Brasil, Universidad Nacional de Tres de Febrero/Buenos Aires-
Argentina, Universidad Intercultural del Estado de Tabasco/Tabasco-México, Centro
Universitário Augusto Motta/Rio de Janeiro-Brasil.

Na oportunidade debatemos sobre temas ligados a Geografia, o Turismo e a Cultura na


América Latina, na intenção de estreitar o diálogo entre as disciplinas do conhecimento,
atualizar e aprofundar as discussões de forma multidisciplinar e, ao mesmo tempo,
ampliar as análises no que se refere à apropriação/produção do tempo-espaço.

Buscamos uma integração das reflexões sobre as questões que perpassam as seguintes
temáticas: Patrimônio Cultural, Turismo de Base Comunitária, Sociodiversidade,
Comunidades Tradicionais, Paisagem, Território, Identidade, Cultura, Sustentabilidade,
Movimentos Sociais.

Nesta perspectiva, o leitor encontrará conecções que nos faz refletir sobre os
paradigmas da atualidade, bem como, proposições e caminhos teóricos-metodológicos
relevantes a comunidade acadêmica.

Esperamos que esta contribuição fortaleça ainda mais os debates e discussões que
integram a Geografia, o Turismo e a Cultura, além de aproximar pesquisadores e
instituições do Brasil e da América Latina.

Profª. Drª. Angela Fagna Gomes de Souza


Universidade Federal de Alagoas

Profª. Drª Roseane Cristina Santos Gomes


Universidade Federal de Sergipe
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

AS POLÍTICAS CULTURAIS DO INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMÔNIO


CULTURAL (INEPAC- RJ) E A VALORIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO
NATURAL NA REGIÃO NORTE FLUMINENSE

LAS POLÍTICAS CULTURALES DEL INSTITUTO ESTADUAL DEL


PATRIMÓNIO CULTURAL (INEPAC- RJ) Y LA VALORACIÓN DEL
PATRIMÓNIO NATURAL EN LA REGIÓN NORTE FLUMINENSE

Jéssica de Oliveira Monteiro


Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais/UENF
Graduada em Turismo. E-mail: jessica.o.monteiro@hotmail.com

Simonne Teixeira
Professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro
E-mail: simonnetex@gmail.com

RESUMO: A discussão sobre patrimônio cultural adquiriu, nos últimos anos, novos
olhares sob a ótica de sua valorização e priorização de políticas públicas voltadas para
sua salvaguarda. Neste trabalho pretende-se analisar algumas das políticas culturais
vinculadas ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), no Rio de Janeiro, e
seus processos de tombamento, com o enfoque de análise nos patrimônios naturais da
Mesorregião do Norte Fluminense. Para isto, serão realizadas consultas a fontes
bibliográficas, eletrônicas e documentais, analisando alguns autores que embasam a
proposta do estudo, bem como os processos de tombamento realizados pelo órgão
estadual de preservação referentes ao Litoral Fluminense e à Serra do Mar/Mata
Atlântica e a relação desse patrimônio natural com o turismo na região delimitada,
como forma de incremento às medidas de preservação. Observa-se que há poucos
estudos sobre as políticas culturais relacionadas aos órgãos estaduais, e menos ainda
aqueles relacionados ao patrimônio natural, valorizando-se, prioritariamente, os
elementos estéticos e artísticos de um legado cultural. Com este trabalho, pretende-se
ampliar o conhecimento sobre as políticas culturais referentes ao órgão de preservação
do estado do Rio de Janeiro e suas motivações para o tombamento do patrimônio natural
na região do Norte Fluminense.

Palavras-chave: Políticas públicas. Patrimônio cultural e natural. INEPAC. Turismo.

RESÚMEN: En los últimos años, la discusión respecto al património cultural asumió


nuevas perspectivas en relación con su valoración y con las políticas culturales propias
con su protección. Este trabajo pretende analizar algunas políticas culturales
desarrolladas por el Instituto Estadual do Patrimonio Cultural (INEPAC), en el Estado
de Río de Janeiro, incluyéndose los procesos del registro patrimonial, sobretodo con
aquellos bienes relacionados a los patrimónios naturales de la región del Norte
Fluminense. Observamos que son muy pocos los estudios sobre las políticas culturales
relacionadas con los institutos estaduales brasileños, y menos aún con los relacionados
al património natural, donde se valoran principalmente los elementos estéticos y
artísticos del legado cultural. Desde esta perspectiva, buscamos igualmente averiguar,

10
de que modo ocurre la apropiación de este património natural por el turismo. La
investigación se base en el análisis de fuentes bibliográficas, electrónicas y
documentales con los procesos de registro sobre el litoral fluminense y la Serra do
Mar/Mata Atlântica. Con este trabajo, pretendemos ampliar el conocimiento sobre las
políticas culturales referentes al INEPAC y sus motivaciones para el desarrollo de
políticas de protección para el património natural del Norte Fluminense.

Palabras-clave: Políticas públicas. Património cultural y natural. INEPAC. Turismo.

INTRODUÇÃO

A
valorização do patrimônio, em seus aspectos históricos, naturais ou
culturais, vem adquirindo relevância nos últimos anos em diversos países do
ocidente. A intensificação das ações, voltadas para a valorização do
patrimônio cultural como um todo, podem ser atribuídas, em parte, à superação da
perspectiva cartesiana, que refutou as relações entre homem e natureza, tornando-a
objetificada, assumindo nos dias de hoje uma visão mais holística e integrada. Assim, o
patrimônio visto em suas múltiplas formas adquire novos olhares, seja pelo aspecto
subjetivo do homem, na sua imaterialidade, sejam nas relações de sua produção com o
seu meio.

A inclusão da natureza como elemento relacionado ao patrimônio cultural nos debates


internacionais tem início em 1962, com a Recomendação de Paris sobre Paisagens e
Sítios da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura
(UNESCO). Segundo Buxó (2006), neste momento o interesse pela natureza recai
principalmente sobre as paisagens, assumindo uma perspectiva que vai além da ideia de
paisagem como mera experiência estética, mas sim como um dado concreto: o lugar em
que vivemos. Em outras palavras, a paisagem deixa de ser um dado da natureza e passa
a ser entendido como uma construção humana. De acordo com a Recomendação de
Paris1, em 1962, é neste sentido que se incluem não apenas as paisagens, mas também
as reservas naturais e os parques nacionais como passíveis de salvaguarda no âmbito da
cultura.

1
http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Recomendacao%20de%20Paris%201962.pdf

11
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A partir desse novo viés de preservação é que surgem os órgãos estaduais, como o
Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), no estado do Rio de Janeiro 2, o
Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico
(CONDEPHAAT), no estado de São Paulo, e outros em diferentes estados como, por
exemplo, Bahia, Ceará e Paraíba, que fazem uso como instrumento legal para a
conservação desses bens, a exemplo do órgão nacional, o tombamento. Estes órgãos são
criados sob a forte influência destes documentos internacionais onde a linha divisória
entre natureza e cultura já se apresenta mais tênue.

Neste estudo pretende-se analisar as políticas culturais vinculadas ao órgão de


preservação do patrimônio (INEPAC), no Rio de Janeiro, através da análise de seus
processos de tombamento, com o enfoque de análise nos patrimônios naturais da
Mesorregião do Norte Fluminense. Interessa nesta análise, compreender a inserção de
determinadas áreas e/ou elementos da natureza, vistos sob a perspectiva da cultura por
este órgão e as alternativas de preservação pela atividade turística nesses espaços. A
metodologia do estudo tem por base as consultas a fontes bibliográficas e eletrônicas
referentes aos autores pertinentes ao tema, das cartas patrimoniais redigidas nas décadas
de 60 e 70, a fim de compreender melhor como o conceito de natureza se agrega ao de
cultura, e ainda, a análise documental, por meio dos processos de tombamento de dois
patrimônios naturais: Litoral Fluminense e Serra do Mar/Mata Atlântica, nos municípios
atrelados à região Norte Fluminense.

Dessa forma, pretende-se ampliar o conhecimento sobre as políticas culturais referentes


ao órgão de preservação do estado do Rio de Janeiro e suas motivações para o
tombamento do patrimônio natural na região do Norte Fluminense, bem como suas
interfaces de apropriação pelo turismo.

2
Primeiramente vinculado ao estado da Guanabara, foi criado a Divisão do Patrimônio Histórico e
Artístico (DPHA), em 1965. Com a fusão do estado da Guanabara com o do Rio de Janeiro em 1975, o
órgão passou a ser Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, como é chamado até os dias de hoje.

12
PATRIMÔNIO: ABORDAGEM CONCEITUAL E POLÍTICAS DE
PRESERVAÇÃO NO BRASIL

A noção de patrimônio inicialmente esteve ligada a um contexto de herança familiar, na


transferência de propriedade aos descendentes, seja numa perspectiva de um simples
repasse de bens, seja pelo status de propriedade, o que implicava na continuidade de um
grupo social. A partir do entendimento do conceito de patrimônio surge a noção de
monumento, pautada na rememoração de algo que se quer perpetuar. De acordo com
Choay (2001, p.31), "o monumento acrescido de adjetivo histórico nasce em Roma, em
1420, configurando-se como obras arquitetônicas remanescentes de épocas passadas".

Segundo a autora, o monumento é marcado pela simbologia de algo edificado atribuída


por uma comunidade de indivíduos, fazendo com que outras gerações rememorem o seu
passado com suas crenças, sacrifícios e acontecimentos. Além dos elementos simbólicos
que permeiam este conceito, a sua prática de rememoração passa a contribuir para a
preservação desse bem, na valorização de uma identidade de um grupo social, étnico,
religioso, nacional, tribal ou familiar.

Essas práticas de atribuição de valor e significados a bens materiais


tomaram novas proporções no século XIX, quando a construção de
um patrimônio foi articulada à formação dos Estados nacionais. Desse
modo, constituiu-se, em diferentes países, um sentimento de
pertencimento ao grupo-nação, no qual todos se identificariam a partir
de referências, ícones ou marcas aos quais eram atribuídos valores
(CHUVA, 2005, s/p).

A partir disso, diversos intelectuais em âmbito nacional e internacional influenciaram na


formação dos valores patrimoniais que se almejavam tornar como referências culturais
de caráter excepcional para uma nação recém-criada, sob os padrões modernistas e
tradicionalistas com seus conjuntos arquitetônicos e monumentais, como afirma Chuva
(2012, p.72) "para a configuração do ser nacional".

No Brasil, as primeiras políticas públicas voltadas ao patrimônio sob a égide de nação e


de uma identidade nacional foram implementadas de fato no Estado Novo, juntamente
com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em

13
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

1937. A formação do SPHAN foi marcada pela participação de diversos intelectuais


atuantes no cenário cultural desse período, formando o grupo técnico dessa academia.

O SPHAN como instituição torna-se verdadeiramente uma


"academia", ou seja, é a institucionalização de um lugar da fala, que
permite a emergência de uma formação discursiva específica, cuja
dinâmica simbólica é dada pela permanente tematização do
significado das categorias de histórico, de passado, de estético, de
nacional, de exemplar, tendo como eixo articulador a ideia de
patrimônio (SANTOS, 1996, p.77).

A partir da criação do SPHAN assegura-se uma prática de preservação e restauro dos


bens imóveis e móveis, sob a ótica de uma metodologia vigente e de seu inventário
respaldado por um grupo de especialistas no assunto que atuavam de forma a validar e
determinar o que se considerava ou não como patrimônio nacional. O anteprojeto de
Mário de Andrade para a criação desse órgão tinha como primazia traços europeus,
incluindo a arte, a arquitetura, a arqueologia e os museus, mas também incentivava a
valorização das "vozes populares" com os monumentos da arte popular. Entretanto, o
decreto lei nº 25, de 1937, não ressaltou essa vertente popular e decidiu quais os
aspectos a serem valorizados e rememorados naquele momento de governo vigente. O
decreto legitimava uma cultura elitista e classista por uma arquitetura militar e religiosa
do Brasil, firmada no catolicismo.

Desde os anos 70, ao se apropriar do conceito antropológico de


cultura, a preservação do patrimônio voltou-se para uma abordagem
das práticas culturais – a própria cultura material torna-se significativa
não pelo produto que gera, mas pelas práticas que possibilitam a sua
produção, os modos de vida e organização social que a criam.
(CHUVA, 2005, s/p).

Nessa ampliação de conceito sobre o patrimônio cultural, o SPHAN, em dezembro de


1994, após diversas mudanças de nomenclaturas e divisões internas em departamentos,
passa a ser chamado efetivamente por Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN). As ações desse instituto, além de permanecer com as atividades de
identificação dos bens, documentação, fiscalização e de salvaguarda, atuava também na
proteção e valorização dos saberes locais, que foram legitimados de fato pelo Decreto
de nº 3551, de 2000, em que se registram os bens de natureza imaterial. Assim, pode-se
inferir que o anteprojeto de Mário de Andrade ganha legitimidade após 64 anos de sua

14
idealização e reforça a assertiva de um país de avanços e retrocessos ao longo dos anos
no cenário político.

Na esfera estadual, o atual órgão de preservação do Estado do Rio de Janeiro, nomeado


Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), surge em 1975, sendo o pioneiro
nesse nível em todo o país, inicialmente sob a nomenclatura de Divisão do Patrimônio
Histórico e Artístico do Estado da Guanabara (DPHA), fundado em 1965. Com a fusão
dos antigos Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, na década de 70, torna-se
efetivamente, INEPAC, considerando o elemento cultural em seu discurso, como
conceito mais abrangente, o que se diferenciava do IPHAN, pelos aspectos "histórico e
artístico" em seu nome. No histórico de tombamento desse instituto, é curioso analisar o
seu caráter de prioridade de conservação, em que opta, primeiramente, por tombar o
Parque Henrique Lage. De acordo com Peixoto (1990, p.8) "ao mesmo tempo que se
preservava a construção, protegia-se também o amplo parque, importante área de lazer
e área verde para a Cidade".

O capítulo I, do Decreto de nº 346, de 31 de dezembro de 1964, no seu artigo 1º afirma


que o patrimônio histórico e artístico da Guanabara é constituído por:

bens móveis e imóveis, públicos e particulares, existentes no Estado,


inclusive os monumentos naturais, os sítios e as paisagens, cuja
conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos
históricos memoráveis, quer por seu excepcional valor folclórico,
documental, artístico ou bibliográfico, quer pela feição notável com
que tenham sido dotados pela natureza ou agenciados pela indústria
humana (BRASIL, 1964, s.p).

Sob esse viés de preservação do patrimônio natural, os tombamentos realizados foram


os mais diversos, neles continham árvores, parques, ilhas, reservas, pedras e morros. O
INEPAC preocupava-se com os bens naturais pelo valor ecológico e ambiental, e por
suas referências culturais, na perspectiva do todo integrado à paisagem e não dissociada
a ela, atendendo aos princípios da Carta de Veneza, em 1964, quando o monumento
passa a ser visto não somente pela sua arquitetura, mas também por sua "moldura",
segundo Peixoto (1990). Com isso, diversos outros documentos foram redigidos e
debatidos nesse viés de preservação patrimonial, "considerando como verdadeiro bem
cultural a cidade, ou o centro histórico, palco e testemunho maior das ações culturais e
retrato da superposição de camadas históricas que se sucedem" (Ibidem, p.8).

15
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Com a perspectiva de um conceito de bem cultural mais abrangente, o INEPAC se


dividiu atendendo a outras áreas de interesse, como a Divisão do Folclore, a Divisão de
Pesquisa e Manifestação Cultural e a própria Divisão do Patrimônio e Artístico
Nacional, nome dado ao instituto anteriormente à fusão dos estados. Ao longo dos anos,
o instituto primou pelo tombamento de bens que atendiam a interesses locais, de
prefeituras e de associações de bairros, privilegiando a valorização da diversidade
cultural, como por exemplo, os bondes de Santa Teresa, a Casa da Flor, em São Pedro
da Aldeia, a Confeitaria Cavé, dentre muitos outros tombamentos.

O INEPAC, a partir de então, desloca sua atenção, antes concentrada na cidade do Rio
de Janeiro e na necessidade de estabelecer os novos parâmetros na constituição do
patrimônio cultural do estado. Seu olhar volta-se, sobretudo, para o interior,
reconhecendo que a cidade do Rio de janeiro já se encontra plenamente assistida pelos
órgãos municipal e federal.

A atuação do INEPAC passa então buscar o eixo que possa, ao mesmo


tempo, gerar a idéia de uma identidade comum, diferenciar-se do resto
da nação, não enquanto lugar do nacional, mas como lugar de si
mesmo. Se observarmos a relação dos primeiros bens tombados após a
Fusão (1978), observamos que 17 municípios são contemplados com o
tombamento de pelo menos um bem. Na nossa região incluem-se São
João da Barra, Macaé, Casemiro de Abreu, Cabo Frio e Quissamã
(TEIXEIRA, 2008, p. 8).

Seguindo esta inspiração, as práticas deste novo Instituto se revelam, como já foi dito,
não apenas no diferencial dos bens tombados, mas principalmente nas propostas de
tombamento de grandes áreas naturais, como são os relativos às Dunas 3 (processo E-
07/201.717/1984), Litoral Fluminense 4 (processo E-18/300.459/1985) e Serra do
Mar/Mata Atlântica5 (processo E-18/000.172/1991). A consolidação destas ações se dão

3 As formações de dunas se estendem pela orla oceânica desde a praia do Forte em Cabo Frio até a praia
do Pontal, junto do morro do Forno, em Arraial do Cabo.
Fonte: http://www.inepac.rj.gov.br/index.php/bens_tombados/detalhar/54.
4
Refere-se aos trechos Paraty (1), Canto sul da praia de Itaipu (2), Foz do Paraíba do Sul (3 e 4). Com
relação a este último correspondem aos trechos de divisa dos município de São Joao da Barra (3) e São
Francisco de Itabapoana (4). Fonte:
http://www.inepac.rj.gov.br/index.php/bens_tombados/realizabusca?municipios=&BemCultural=litoral+f
luminense&PalavraChave=.
5
A área tombada se estende por 36 municípios fluminenses, sendo que 04 deles estão situados na
mesorregião do Norte Fluminense: Campos dos Goytacazes, São Fidelis, Conceição de Macabu e Macaé
Fonte:

16
já na década de 80, período em que Darcy Ribeiro acumulava os cargos de vice-
governador e Secretário de Ciência e Cultura do estado do Rio de Janeiro. Para ele,
além do orgulho de desenvolver no estado um conceito de cultura onde a política
cultural não deve ser mais do que um estímulo generoso para a criatividade popular e
erudita, o gozo mais importante advém da promoção no estado do ―tombamento de cem
quilômetros de praias ou de encostas, do Estado do Rio, tão-só porque são belas‖
(RIBEIRO, 1984: 3).

Na década de 70 assiste-se ao surgimento de uma consciência preservacionista,


inegavelmente relacionada à crescente preocupação com o desenvolvimento industrial e
ao crescimento das cidades que se acentua a partir dos anos 1960 em todo o mundo e
particularmente em países ditos em desenvolvimento. As consequências deste processo
sobre a natureza se conforma como preocupação para comunidade científica, que ao
difundir suas preocupações e prognósticos para o futuro, dá margem ao estabelecimento
de uma consciência ambiental. Como política de estado no Brasil, sua consolidação se
dá nos anos 1980, com a criação do Conselho Nacional de Meio Ambiente, o
(CONAMA), a partir do qual serão estabelecidas as políticas nacionais relacionadas aos
recursos naturais.

Estes tombamentos realizados pelo INEPAC, visam à interação entre o órgão de cultura
e a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente/FEEMA (CAMPOFIORITO,
1984: 08), expressando uma visão mais orgânica na articulação de ações
governamentais.

O PATRIMÔNIO NATURAL E SUAS INTERFACES COM A POLÍTICA DE


PRESERVAÇÃO CULTURAL

As práticas de tombamento do patrimônio natural no Brasil, que dizem respeito a uma


configuração paisagística, ainda podem ser consideradas em proporções menores se
comparadas aos bens de valor estético, histórico, arqueológico e etnográfico,
principalmente em âmbito nacional. Segundo dados do Instituto do Patrimônio

http://www.inepac.rj.gov.br/index.php/bens_tombados/realizabusca?municipios=&BemCultural=serra+d
o+mar&PalavraChave=.

17
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2013, foram contabilizadas como paisagens


culturais tombadas cerca de dezessete e na categorização de paisagens culturais
chanceladas apenas uma. A grande maioria dos tombamentos que contemplam o Livro
do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico refere-se à valorização de todo o
contexto histórico e natural do entorno, como é o caso das cidades do Piauí,
testemunhas da ocupação do interior do Brasil durante o século XVIII - Conjunto
Histórico e Paisagístico da Parnaíba - PI. Assim, verifica-se um número pormenorizado
de paisagens salvaguardadas por uma legislação cultural, principalmente se forem
tombadas isoladamente.

Na década de 30 surgem as primeiras legislações, na esfera federal, sobre o patrimônio


cultural e também sobre o patrimônio natural com a criação de diversos códigos como o
florestal, o da água e o correspondente à proteção aos animais. Entretanto, somente na
Constituição Federativa do Brasil, em 1988, vislumbra-se de fato, uma descrição mais
categorizada sobre a salvaguarda desses patrimônios de forma integrada, embora
destinando capítulos separados sobre Meio Ambiente e Cultura. No entanto, o capítulo
referente aos elementos culturais conceitua como patrimônio cultural brasileiro os
elementos naturais como imanentes à produção humana. Segundo a Constituição, os
bens culturais elencados são de natureza material e imaterial, constituindo a identidade e
a memória de diferentes grupos sociais que incluem:

as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver; as criações


científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos e documentos,
edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-
culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico,
artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico
(DELPHIM, 2004, p.2).

Importante observar que anteriormente à elaboração da Constituição, surge a Política


Nacional do Meio Ambiente que incita a criação de novas leis, códigos e decretos,
dispositivos legais determinantes na política de proteção ao meio ambiente, cujo
importante marco, como já foi dito, foi a criação do CONAMA.

Em âmbito internacional, a relação entre cultura e natureza ganha uma perspectiva mais
holística, a partir da década de 50, quando a UNESCO estimula a realização de diversos
eventos para discussão sobre o tema. Dentre eles, pode-se citar, a Conferência de
Washington, a criação da Fundação do Patrimônio Mundial e da União Internacional

18
para a Conservação da Natureza e de seus Recursos e a Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972.

Nessa mesma década, em sua décima sétima edição, ocorre também a Convenção sobre
a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, em Paris, que apregoa novas
preocupações sobre a proteção desses patrimônios e elenca diversas ações que devem
ser realizadas pelos Estados. Esta convenção consistia em uma continuidade das
proposições e ensejos do último evento na Suécia. As considerações para a realização
desta Convenção pautavam-se nas assertivas de que o patrimônio como legado seja
natural ou cultural, se degradado ou em risco de desaparecer, ocasionará o
empobrecimento do patrimônio dos povos.

Essa Convenção (1972, p.2) define algumas características sobre o patrimônio natural e
cultural, e no seu artigo 1º reforça que o elemento cultural é subdivido em monumentos,
conjuntos e lugares notáveis, sendo este constituído por "obras do homem ou obras
conjugadas do homem e da natureza, bem como as zonas, inclusive os lugares
arqueológicos, que tenham valor universal excepcional do ponto de vista histórico,
estético, etnológico ou antropológico".

No artigo 2º deste documento, ressaltam-se as características do patrimônio natural com


três categorias, sendo a primeira considerada por "monumentos naturais por formações
físicas e biológicas ou por grupos de tais formações, que tenham valor universal
excepcional do ponto de vista estético ou científico". Na segunda categoria, considera o
patrimônio natural como "formações geológicas e fisiográficas e as áreas nitidamente
delimitadas que constituam o habitát de espécies animais e vegetais ameaçadas e que
tenham valor universal excepcional do ponto de vista estético e científico. E, por último,
a terceira categoria incita que o legado natural abarca também "os lugares notáveis
naturais ou as zonas naturais estritamente delimitadas, que tenham valor universal
excepcional do ponto de vista da ciência, da conservação ou da beleza natural" (Ibidem,
1972, p.2-3).

Interessante ressaltar que nesta última categoria do patrimônio natural, além do ponto de
vista estético e científico, insere-se também o caráter mais subjetivo verificado pela
expressão "beleza natural", e que, segundo Ortega Cantero (2008), não devemos
negligenciar o aspecto subjetivo na construção do paisagismo moderno, que se move em

19
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

um terreno delimitado em seus extremos pela ciência e o sentimento, oriundos do


romantismo.

Por fim, a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural ainda
incentiva que os Estados difundam os ideais de preservação do patrimônio por meio de
medidas educativas de forma a fortalecer a apreciação, bem como o respeito por esse
legado.

Como se pode depreender, a Convenção acabou por incluir no rol de


bens patrimoniais as criações da cultura e da natureza. Essa definição
foi resultante da compreensão de que a identidade cultural de um povo
é forjada no meio em este vive, e de que as obras humanas mais
significativas obtêm parte de sua beleza do lugar onde se encontram
instaladas. O patrimônio considerado no duplo aspecto cultural e
natural remetia à compreensão de que o homem interage com a
natureza e se faz necessário preservar o equilíbrio entre eles
(ZANIRATO; RIBEIRO, 2006, p. 258).

A partir da Convenção em Estocolmo, os conceitos de natureza e cultura passam a ser


vistos como elementos integrados, abandonando-se em grande medida, a perspectiva em
que se encontravam dissociados pelo utilitarismo e cartesianismo. Desde então,
fortalece a ideia de que o homem e natureza se entrelaçam, sendo que esta não é mais
identificada como um objeto de manipulação sem uma relação direta com o homem, em
que se pode explorá-la a todo custo sem consequências a curto ou longo prazo, fruto das
raízes antropocêntricas. Consolida-se o entendimento de que a intensidade das ações
antrópicas no meio implicam na qualidade de vida na Terra.

Na esteira destes novos paradigmas os debates tornam-se mais instigantes e, todavia


permanecem na tentativa de reduzir as consequências do atrelamento ao capital e à
exploração dos recursos naturais sem o estabelecimento de políticas e de uma gestão
responsável. Dessa forma, é possível implementar ações voltadas para uma possível
"exploração" desses recursos, como por exemplo, as áreas naturais vinculadas à
atividade turística. Nessas áreas pode-se permitir o seu uso responsável, respeitando a
sua capacidade de carga, a fim de propiciar a sua preservação e o contato mais próximo
do visitante com a natureza.

20
O TURISMO COMO ALTERNATIVA DE DESENVOLVIMENTO
SOCIOCULTURAL E DE VALORIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO

O turismo consiste em uma das atividades econômicas mais promissoras e com grandes
possibilidades de crescimento, transformando-se nas últimas décadas em estratégia de
desenvolvimento para diversos países.

Após a Segunda Guerra Mundial, essa atividade ganhou um novo impulso, pela maior
disponibilidade de tempo livre para o lazer e melhor distribuição de renda da população,
ou seja, mudanças decorrentes da melhoria das condições trabalhistas e dos avanços
tecnológicos que contribuíram para a redução da jornada de trabalho.

Nas últimas décadas diversos municípios vêm investindo no turismo, como alternativa
de desenvolvimento econômico, sendo considerado um gerador de divisas, contribuindo
para a melhoria no nível de emprego e para a distribuição regional de renda a diversas
camadas da população.

A atividade turística gera desenvolvimento econômico intersetorial devido ao seu efeito


multiplicador que promove a todos os envolvidos direta e indiretamente no turismo.
Como caracteriza Beni (2001) em sua assertiva, o turismo é uma excelente opção para
se atingir melhores resultados no desenvolvimento e planejamento regional ou territorial
e que, com o aumento dos serviços turísticos, tende a elevar a geração de empregos nas
localidades envolvidas nesse processo, diminuindo os níveis de desemprego e mão-de-
obra subutilizada.

Além dos impactos econômicos do turismo, vale ressaltar que esse fenômeno abarca
também outras relações ambientais referentes ao social, cultural e ecológico. Dessa
forma, para se começar a investir nessa atividade, deve-se levar em conta todos esses
fatores, seus impactos no meio ambiente, na cultura e nos modos de vida das
comunidades, na melhoria da qualidade de vida dos moradores, nas relações entre
visitante e morador, dentre outros aspectos.

Pensar em turismo é planejar possíveis resultados em longo prazo, lucro a longo prazo
(no que concerne às empresas), ações contínuas do setor público em viabilizar e

21
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

estruturar os espaços turísticos de forma sinérgica com o setor privado, além de


constante verificação e controle das ações operacionais.

O planejamento turístico, visando à integração de seus fatores de


desenvolvimento, surgiu como consequência e reação aos planos
excessivamente voltados para os aspectos específicos como o
econômico e o físico. O reconhecimento da amplitude do fenômeno e
a abrangência dos fatores tornaram imprescindível o planejamento
integrado nas localidades receptoras. (RUSCHMANN, 2004, p.100).

No desenvolvimento das atividades turísticas, faz-se necessária a realização do


planejamento em uma perspectiva holística, evitando-se transformá-lo em uma panaceia
para todas as mazelas sociais, mas ao contrário, tornando-o um elemento capaz de
minimizar impactos negativos e maximizar retornos econômicos nos municípios que
promovam o turismo de forma responsável. ―Assim sendo, o planejamento deve ser
considerado um elemento crítico para se garantir o desenvolvimento sustentável de
longo prazo dos destinos turísticos‖ (HALL, 2004, p.29).

O turismo sob a ótica do patrimônio pode estabelecer um vínculo entre a localidade e o


visitante, sendo este repleto de significados e de símbolos, representado pela memória
coletiva de um lugar e sua relevância histórico-cultural. O turismo é entendido como um
fenômeno e uma atividade econômica que se apropria de bens patrimoniais históricos e
culturais como sítios históricos, festas típicas, e outros (CARDOSO, 2006).

Essa relação patrimônio-turismo implica também no uso do espaço de forma consciente


e com respeito às comunidades receptoras. O ato de preservar estaria presente seja no
aspecto físico desses bens, na valorização de bens intangíveis e em um contexto mais
amplo, que envolve o ambiente em que estão inseridos. Uma utilização sustentável
desses espaços não só se faz necessária para a contribuição à cidadania cultural da
população, sendo um bem pertencente a uma localidade com sua herança histórica e
cultural, mas uma forma de viabilizar a prática da atividade turística.

Sendo assim, a atividade turística necessita ser gerida de forma responsável e


sustentável, a fim de promover a valorização dos espaços e contribuir para práticas de
conservação pelos visitantes. O turismo, nesse espectro, pode ser visto como uma
alternativa econômica para a geração de trabalho e renda às comunidades do entorno e
um aliado às ações de preservação do patrimônio.

22
O TOMBAMENTO DO PATRIMÔNIO NATURAL REALIZADO PELO
INEPAC E AS ALTERNATIVAS DE PRESERVAÇÃO PELO USO TURÍSTICO
NA MESORREGIÃO DO NORTE FLUMINENSE

Os municípios pertencentes à mesorregião do Norte Fluminense estão classificados em


distintas regiões turísticas, compreendendo a região Costa Doce, os municípios de
Campos dos Goytacazes, São Fidélis, São Francisco de Itabapoana e São João da Barra;
a região Costa do Sol, abrangendo as cidades de Macaé, Carapebus e Quissamã; e a
região Serra Norte com o município de Conceição de Macabu.

A proposta de considerar os municípios em regiões turísticas integra o Programa de


Regionalização do Turismo - Roteiros do Brasil, lançado em 2004. A finalidade do
programa baseia-se na dinamização do desenvolvimento da atividade turística e no
apoio a uma gestão regionalizada e descentralizada.

Atualmente, o estado do Rio de Janeiro se divide em onze regiões turísticas. As escolhas


dos municípios pertencentes às regiões delimitadas mercadologicamente consistem nas
similaridades de vocações e nas diversas especificidades regionais pertencentes ao
grupo das cidades.

Os tombamentos analisados neste estudo referem-se ao Litoral Fluminense e à Serra do


Mar, compreendendo três regiões turísticas citadas anteriormente. Com relação ao
primeiro (Litoral Fluminense), destaca-se a Foz do Paraíba do Sul, que corresponde aos
trechos de divisa dos municípios de São João da Barra e de São Francisco de
Itabapoana. Na página do órgão estadual encontramos a seguinte descrição do bem
tombado:

O tombamento de diversos trechos do litoral fluminense representa


um marco na história da atuação do INEPAC, sob a égide da política
cultural do então secretário de Estado Darcy Ribeiro. Buscava-se,
através do olhar da cultura, reconhecer o valor simbólico e documental
dos diferentes ecossistemas naturais e sua íntima relação com a
construção da identidade fluminense. Desde o manguezal e a Ilha da
Convivência, na foz do Paraíba do Sul, até a Ilha de Trindade e a praia
do Sono, em Paraty – o tombamento visa impedir a devastação de
praias, costões rochosos, restingas, manguezais, ilhas – muitos deles,

23
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

paisagens que respaldam implantações históricas da pesca artesanal


ameaçadas pela especulação imobiliária e pelo turismo predatório. Na
divisa dos municípios de São Francisco de Itabapoana e São João da
Barra compreende a foz do rio Paraíba do Sul, incluindo todo o
manguezal, bem como a Ilha da Convivência e as outras vizinhas‖6
(LITORAL FLUMINENSE, 2015, s.p)

Este tombamento de praias, ilhas e pontões do litoral fluminense, buscou ir muito além
da simples preservação da paisagem litorânea, como bem ressalta o texto acima, que
desde uma perspectiva da cultura (tomando os pescadores e suas práticas pesqueiras) se
propôs a entender o ecossistema como um documento essencial à construção da
identidade fluminense. O tombamento realizado nos anos 1980, possuía ainda um
caráter limitador à grande expansão imobiliária que ocorria então em nosso Estado.

O elemento ―pescador‖, no entanto, é o foco principal do tombamento, que para além


das implantações históricas de seus povoados ―convivem simbioticamente com os
ecossistemas, na naturalidade de suas vidas simplíssimas‖ (CAMPOFIORITO, 1986,
p.08). No processo de tombamento chama a atenção a exacerbação da beleza do litoral
formado ―por alguns dos mais deslumbrantes trechos da costa brasileira‖, onde ―as
paisagens de magnífica beleza natural‖ abrigam os ―pescadores que vivem em suas
pequeninas casas de construção rústica‖ (processo E-18/300.459/1985). É
principalmente este cenário, hoje duramente modificado pela ocupação urbana e
especulação imobiliária, que se buscava preservar neste momento.

A acuidade do tombamento exigiu um estudo detalhado das práticas pesqueiras em


todos os pontos do litoral, selecionados no processo. Para os dois levantamentos sobre
as comunidades pesqueiras e suas atividades, foram realizados no ano de 1984, como
parte do processo de tombamento. Elencamos a seguir os tópicos que seguiram um e
outro levantamento, que constituem uma ampla tabela anexada ao processo.

1º - Colônia de Pescadores do Estado do Rio de Janeiro


a. Colônias
b. Número de pescadores (existentes, associados, atuantes)
c. Infraestrutura de apoio
- trapiche
- infraestrutura de frio (fábrica, silo, câmaras, caixas, freezer)

6
Disponível em: http://www.inepac.rj.gov.br/index.php/bens_tombados/detalhar/417.

24
- salga
- mercado para comercializar
- local para beneficiamento
- oficina de reparo de barcos

d. Embarcações (motorizada, remo, vela/motor)


e. Tipo de pescado
2º - Alguns aspectos das Colônias de Pescadores do Estado do Rio de Janeiro
a. Discriminação (local)
b. Número de pescadores (existentes, associados, atuantes)
c. Situação Institucional (possui personalidade jurídica, diretoria, dirige a colônia há)
d. Área de abrangência
e. Infraestrutura física e básica (sede, área construída, terreno próprio, área do terreno)
f. Infraestrutura da sede da Colônia (ambulatório médico, ambulatório dentário, sala de
aula, sala de reunião, escritório, sanitário, farmácia, outros)
g. Sede ou terreno servido por (água potável, energia elétrica, estrada-transporte)

Este levantamento que serviu para estabelecer as bases culturais e socioeconômicas dos
pescadores, ainda hoje se constitui em um importante referencial para o conhecimento
das comunidades pesqueiras, e evidencia como os aspectos culturais estavam, ao fim,
por sobre os aspectos estéticos relacionados à paisagem. Além do mais, verifica-se que
o aspecto ambiental (a natureza) não se justifica por si mesma, o importante é o
significado cultural que ela assume nas práticas dos pescadores e de sua reprodução
social.

Embora o conjunto do litoral tombado neste processo diga respeito a uma das mais
importantes áreas de exploração turística nacional e internacional no estado, o local que
nos diz respeito, a Foz do rio Paraíba do Sul, na divisa dos municípios de São João da
Barra e de São Francisco de Itabapoana, onde também se encontra a Ilha da
Convivência, no encontro do rio com o mar, o turismo é mais regional e de menor
impacto. Além da mencionada ilha da Convivência, inclui-se uma outra ilha pertencente
à faixa de tombamento - Ilha da Menina– e os manguezais da região.

Existem alguns roteiros turísticos pelo rio Paraíba do Sul informados no site da
Prefeitura Municipal de São João da Barra. De acordo com o representante da empresa
Pousada Rio Sol, os passeios são realizados todos os dias, se agendados, com saída no

25
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Cais do Imperador com duração aproximada de 40 min. Nesse período, o passeio é feito
às 10h, já que o leito do rio Paraíba do Sul encontra-se assoreado, dificultando a sua
realização. O visitante paga uma taxa de R$ 10,00 e a embarcação tem capacidade para
40 pessoas. O passeio abrange algumas ilhas da região como a do Pessanha e a da
Convivência.

O segundo tombamento analisado refere-se à Serra do Mar/Mata Atlântica. Verifica-se,


no marco introdutório do processo de tombamento, que as primeiras ações de
acautelamento estadual referentes às áreas notáveis e de grande diversidade de flora e
fauna teve sua origem na década de 80, em São Paulo.

A preocupação do Estado de São Paulo baseava-se na poluição e degradação das


encostas da Serra do Mar provenientes das atividades industriais na região. Estudos
foram realizados, a fim de se evitar práticas de devastação no meio e propiciar a
preservação dos remanescentes de Mata Atlântica. Com isso, em 1985, o estado
efetivou o tombamento da Serra do Mar/Mata Atlântica, com abrangência nas áreas
litorâneas desde as fronteiras com o Paraná até o limite com o Rio de Janeiro.

As iniciativas preservacionistas do estado de São Paulo influenciaram o estado do


Paraná, que por sua vez, tomba sua área de Mata Atlântica, um ano após ao tombamento
daquele estado.

O governo federal, por meio da Secretaria Especial do Meio Ambiente, com o IBAMA
e os Estados do Espírito Santo, Santa Catarina e Rio de Janeiro juntaram-se aos estados
do Paraná e São Paulo para formarem o Consórcio Mata Atlântica, a fim de promover
estudos e projetos de cunho preservacionista do patrimônio natural.

O Estado do Espírito Santo, em 1990, tomba a área de Mata Atlântica pertencente aos
limites do estado, induzindo assim, o tombamento pelo Rio de Janeiro, em 1991, e
formando um "continuum" que abrange o estado do Paraná ao do Espírito Santo.

Dentre os principais fundamentos que embasam o processo de tombamento da Serra do


Mar/Mata Atlântica destacam-se alguns como a degradação e a ameaça ao extermínio
dos patrimônios florísticos, faunístico, espeleológico e cênico do país; a importância da
Mata Atlântica como parte da floresta tropical e a sua localização que favoreceu a
intensa exploração pela costa.

26
O relatório final do processo de tombamento ainda ressalta que a preservação da
cobertura vegetal é de extrema relevância para as interações bióticas, sistemas
hidrológicos e manutenção dos solos no entorno das principais cidades do Rio de
Janeiro.

As áreas delimitadas para o tombamento constituem a maior parte das unidades de


conservação do Estado, sendo as federais referentes aos Parques Nacionais da Serra da
Bocaina, Serra dos Órgãos e da Tijuca, algumas Áreas de Proteção Ambiental (APA)
como a Estação Ecológica de Piraí, de Tamoios, Reserva Biológica de Tinguá, dentre
outras. Em nível estadual, abrange o Parque Estadual da Pedra Branca, do Desengano,
APA de Mangaratiba, Jacarandá, dentre outras.

O tombamento Serra do Mar/Mata Atlântica abrange trinta e seis municípios, sendo que
os estudados neste trabalho compreendem Macaé (Baixadas Litorâneas), São Fidélis
(Noroeste), Campos e Conceição de Macabu (Norte).

O Parque Estadual do Desengano compreende os municípios de Santa Maria Madalena,


Campos e São Fidélis. O Parque foi criado, em 1970, com inúmeros picos rochosos e de
grande beleza cênica. O Plano de Manejo teve sua aprovação, em 2005, de forma a
minimizar os impactos nas Unidades de Conservação e estabelecendo normas e
restrições para seu uso. O turismo no Parque é permitido, por meio de passeios,
escaladas e caminhadas.

A região de Conceição de Macabu, como citado anteriormente, pertence à região


turística Serra Norte. O município apresenta como atrativos naturais as Serras do
Deitado, Santa Catarina e de São Tomé e ainda algumas cachoeiras como a Amorosa e
Santo Agostinho.

No município de Macaé, verifica-se como integrante a essa região de Mata Atlântica, o


Parque Municipal Atalaia, que teve sua criação, em 1995, consistindo em uma opção de
lazer e contemplação da natureza, a menos de trinta quilômetros do centro da cidade. A
visitação é gratuita e os grupos de visitantes podem contar com serviços de guiamento
do próprio parque para a realização de trilhas e caminhadas.

27
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A sucinta descrição dos patrimônios elencados nas áreas de tombamento pelo órgão de
preservação do estado do Rio de Janeiro denotam a relevância do patrimônio natural da
região fluminense e as suas possibilidades de uso turístico de forma sustentável.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo propiciou a discussão sobre a evolução do conceito de natureza e as novas


perspectivas de integração do ambiente humano, além das possibilidades de uso
turístico dos patrimônios. Essa perspectiva de integração se renova, no apelo pela
preservação dos recursos naturais e pelos novos hábitos de consumo, gerando uma
demanda mais diversificada, que anela pelas belezas cênicas e pelos modos de vida das
comunidades que participam desse cenário.

A atividade turística, nesse viés de apropriação, surge como alternativa para viabilizar o
contato do visitante com o patrimônio, de forma a promover o conhecimento e, ao
mesmo tempo, incentivar sua preservação, se gerido de forma responsável.

Os patrimônios elencados no estudo necessitam de ações sinérgicas constantes pelos


poderes público e privado, a fim de otimizar as práticas de preservação e de buscar
novas alternativas de sustentabilidade econômica, ambiental e social. Verifica-se que o
tombamento exige essa sinergia, pois a mera prática de tutela do estado do bem
protegido não é capaz de preservá-lo continuamente.

Sendo assim, esta análise propôs algumas reflexões e discussões sobre o patrimônio
natural tombado pelo INEPAC na Mesorregião do Norte Fluminense, bem como
analisar as práticas de preservação às indicações das cartas patrimoniais ao longo das
últimas décadas.

28
REFERÊNCIAS

BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo. 4ª Ed. São Paulo: Editora Senac,
2001.

BRASIL. Decreto nº 346, de 31 de dezembro de 1964. Proteção ao patrimônio histórico


e artístico da Guanabara. Portal Inepac. Disponível em:
http://www.inepac.rj.gov.br/index.php/home/historico. Acesso em: 3 fev. 2015.

BUXÓ, R. (2006): Paisajes culturales y reconstrucción histórica de la vegetación.


Ecosistemas 15(1). Revista científica y técnica de ecología y medio ambiente, v. 15.
n. 2. Ano 2006. Disponível em:
http://www.revistaecosistemas.net/index_frame.asp?pagina=http%3A/www.revistaecosi
stemas.net/articulo.asp. Acesso em 25 jun. 2015.

CAMPOFIORITO, Ítalo. Patrimônio cultural: onde a cultura existe, dar voz a ela.
Revista do Brasil. Rio de Janeiro: Governo do Estado do Rio de Janeiro/Secretaria de
Ciência e Cultura, 1986, p. 6-17.

CARDOSO, Gleudson Passos. História social, patrimônio cultural e turismo: interfaces


entre campos do saber e práticas sociais. In: MARTINS, Clerton. Patrimônio cultural:
da memória ao sentido do lugar. São Paulo: Roca, 2006.

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Tradução de Luciano Vieira Machado.


São Paulo: Estação Liberdade/Ed.UNESP, 2001.

CHUVA, Márcia. Patrimônio material e memória da nação. Jornal UNESP. Ano XIX.
n. 204, Set. 2005.

______. Preservação do patrimônio cultural no Brasil: uma perspectiva histórica, ética e


política. In: CHUVA, Márcia; NOGUEIRA, Antônio Gilberto Ramos et al. Patrimônio
cultural: políticas e perspectivas de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: FAPERJ,
2012.

CONVENÇÃO. Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural.


Portal UNESCO. Disponível em: http://whc.unesco.org/archive/convention-pt.pdf.
Acesso em: 3 jun. 2015.

DELPHIM, Carlos Fernando de Moura. O patrimônio natural no Brasil. Portal Iphan,


2004. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/baixaFcdAnexo.do?id=418. Acesso em:
5 fev. 2015.

HALL, Colin Michael. Planejamento turístico: políticas, processos e relacionamentos.


2 ed. São Paulo: Contexto, 2004.

LITORAL FLUMIINENSE. Litoral Fluminense: foz do rio Paraíba do Sul 4. Portal


Inepac. Disponível em:

29
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

http://www.inepac.rj.gov.br/index.php/bens_tombados/detalhar/417. Acesso em 3 jun.


2015.

ORTEGA CANTERO, Nicolás. Visiones históricas del paisaje: entre la ciencia y el


sentimiento. In MARTINÉZ DE PISÓN, E; ORTEGA CANTERO, Nicolás (orgs.): La
recuperación del paisaje. Soria: UAM Eds. Y Fundación Duques de Soria.

PEIXOTO, Gustavo Rocha. ―INEPAC: um perfil dos 25 anos de preservação do


patrimônio cultural no Estado do Rio de Janeiro‖. Arquitetura Revista FAU/UFRJ,
1990.

PINHEIRO, Maria Lúcia Bressan. Origens da Noção de Preservação do Patrimônio


Cultural no Brasil. Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo. Ano 2006.

RIBEIRO, Darcy. Política Cultural Rio [editorial]. Revista do Brasil. Rio de Janeiro:
Governo do Estado do Rio de Janeiro/Secretaria de Ciência e Cultura, 1986, p. 2-5.

RUSCHMANN, Doris Van de Meene. Turismo e planejamento sustentável: a


proteção do meio ambiente. 11 Ed. Campinas, SP: Papirus, 2004.

SANTOS, Mariza Veloso Motta Santos. Nasce a academia SPHAN. Revista do


Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasília, n. 24, 1996.

TEIXEIRA, Simonne. ―Um olhar sobre o papel do Instituto Estadual do Patrimônio


Cultural/INEPAC na construção da identidade do Rio de Janeiro‖. In: Anais IV
Simpósio Nacional de História Cultural – Sensibilidades e Sociabilidades [recurso
eletrônico]. Goiânia: Ed. UCG, 2008.

ZANIRATO, Silvia Helena; RIBEIRO, Wagner Costa. Patrimônio Cultural: a


percepção da natureza como um bem não renovável. Revista Brasileira de História. v.
26, n. 51, São Paulo, 2006.

30
LA TEMATIZACIÓN DEL PATRIMONIO CULTURAL DEL CENTRO
HISTÓRICO DE LA CIUDAD DE MÉXICO: UN FACTOR DE ATRACCIÓN
PARA EL TURISMO CULTURAL

A TEMATIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO DO CENTRO HISTÓRICO DA


CIDADE DO MÉXICO: UM FATOR DE ATRAÇÃO PARA O TURISMO
CULTURAL

César Mauricio Salas Benítez


Universidad Nacional Autónoma de México
Doctorado en Geografía, Facultad de Filosofía y Letras-Instituto de Geografía.
E-mail: cesalbe@hotmail.com

RESUMEN: Este trabajo presenta los avances derivados de la investigación doctoral


intitulada ―Efectos socioespaciales de los procesos de Rehabilitación del Centro
Histórico de la Ciudad de México‖. Se hace un breve análisis de los efectos, en
particular de la tematización cultural, que derivada de los procesos de rehabilitación del
Patrimonio Cultural del Centro Histórico de la Ciudad de México (CHCM), con el fin
de captar un mayor número de visitantes e inversores, ha reorientado la economía del
lugar hacia el turismo y el consumo cultural, a través de la promoción de este espacio en
los medios de comunicación como la ―Capital de la Cultura‖, lo que consecuentemente
ha originado una serie de procesos de cambio de uso de suelo, cambio del uso
tradicional del espacio público, abandono del lugar por parte de la población de escasos
recursos y la consecuente llegada de las clases medias y negocios orientados a la
satisfacción de sus demandas, amén de una proliferación de establecimientos para el
ocio, la recreación y el turismo. En este sentido, se presenta una aproximación teórico-
conceptual de la construcción del espacio, en el seno del patrimonio cultural y de las
actividades relacionadas con el ocio y la recreación, en el marco de una sociedad
capitalista de consumo. El CHCM, representa un espacio con un potencial importante
para el turismo y el consumo cultural, debido a que alberga una gran cantidad de
edificaciones con valor histórico y a que cuenta con una oferta cultural diversa, lo que
ha sido aprovechado por determinados empresarios y gobiernos locales, que lo han
revalorado, refuncionalizado y promocionado en el mercado mundial.

Palabras clave: Ciudad de México, patrimonio cultural, turismo cultural, tematización


cultural

31
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

INTRODUCCIÓN

E
l espacio, de acuerdo con Lefebvre (1978), es una construcción social. La
edificación de monumentos, la construcción de inmuebles o la traza urbana,
son morfologías con una presencia tangible en el territorio, son el espacio
mismo, producido por la sociedad y que a su vez, es resultado de las relaciones sociales
y de las actividades que ella desarrolla, por lo tanto la sociedad se materializa en
estructuras o formas espaciales. De este modo, como se pueden producir objetos o
mercancías, también se pueden producir espacios.

Asimismo, el turismo y las actividades económicas asociadas con la recreación y el ocio


son una construcción social, en donde los lugares son elegidos a partir de una
representación creada en el seno de determinadas sociedades y difundida por diversos
mecanismos, entre los cuales, los medios de comunicación, son de los más importantes
en este rubro. Así, en los últimos años la cultura se ha transformado en un elemento de
importancia en las estrategias de marketing urbano y, de forma especial, en las políticas
turísticas que la han tomado como un factor de diferenciación espacial para la
generación de nuevos ―productos‖ orientados al ocio y a la recreación.

De este modo, el patrimonio cultural ha sido revalorado por parte de los gobiernos y las
empresas, y se ha transformado en un recurso proclive a ser capitalizado. Como
respuesta, se han desarrollado proyectos de restauración y rehabilitación de
edificaciones que se enmarcan dentro de alguna categoría patrimonial de la UNESCO.
Asimismo, se han refuncionalizado estos espacios hacia una economía terciarizada, en
la que se han insertado cadenas nacionales y transnacionales orientadas principalmente
a los servicios y al hospedaje. Esto ha dado lugar a una relativa estandarización y
tematización de los destinos, amén de una supuesta exaltación de su originalidad.
Paralelamente, se han rehabilitado determinados inmuebles para el uso habitacional,
orientados a sectores de nivel medio, lo que puede interpretarse como un tendiente
proceso de gentrificación en estos espacios.

En este sentido, la Ciudad de México, destino turístico preferencial del país, y dentro de
ella, el Centro Histórico como sitio emblemático de la ciudad, se ha presentado como un
escenario proclive para una creciente gentrificación, que ha creado territorios

32
diferenciados y reconocibles por su estética y tematización, en el marco de una sociedad
globalizada de consumo, que demanda determinados servicios y satisfactores.

LA CONSTRUCCIÓN DEL ESPACIO PARA EL OCIO EN EL ÁMBITO DE


UNA SOCIEDAD DE CONSUMO

El espacio, como toda entidad que posee materialidad y que puede ser transformado a
partir de la planificación, la arquitectura, o de las actividades que lo modelan para
conseguir determinados fines, es susceptible de entrar en el circuito de intercambios
como una mercancía (LEFEBVRE, 1978). Es así, como el espacio pasa de un carácter
pasivo, de contenedor o paisaje a su condición de factor en el proceso productivo; sin
embargo, posee una característica que lo diferencia de las demás mercancías: su
posición absoluta e inamovible, pues el espacio posee cierto anclaje en su posición
física (HARVEY, 2007). De este modo, si un objeto puede transportarse de un espacio a
otro, el espacio posee la característica de ser fijo y relativamente ―único‖. Sin embargo,
esta característica que a simple vista le otorgaría al espacio una condición pasiva, le
convierte en un objeto dinámico, transformable y transformante.

La construcción física o morfología a su vez es contenido, pues permite la reproducción


de la sociedad y por ende del capital, así, desde un orden superior, la ideología
dominante se difunde de manera inconsciente en la sociedad, en la manera de manejar,
ordenar, homogeneizar y fragmentar el espacio, imponiendo ritmos, tiempos y rutinas.
Así, el espacio desempeña un papel activo, instrumental y operacional en el
conocimiento y la acción del modo de producción capitalista y sirve a la hegemonía de
quien hace uso de él en el establecimiento, las bases y la lógica del sistema
(LEFEBVRE, 1991). Por tanto, la producción de un nuevo espacio va a obedecer al
interés o intereses económicos o de explotación de determinados recursos. En este punto
es importante resaltar que la planificación urbana, los usos y la manera de organizar el
espacio no es una actividad inocente o fortuita, sino que obedece a una lógica y a
determinadas ideas. Sin caer en un determinismo económico, éstas están influidas por
los procesos de producción en función de la existencia de recursos.

33
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

En este orden interpretativo, las ideas dominantes de determinado periodo histórico


corresponden con las ideas de los sectores dominantes de la sociedad (GRAMSCI,
citado por ERREGUERENA, op. cit.). Tales valores se deprenden de un sistema de
idearios (que tienen como base una ideología), los cuales pueden ser definidos como
sistemas de valorización particular, que tienden a priorizar como útiles y buenos, ciertos
ideales societarios que orientan las acciones de la sociedad (HIERNAUX, 2002). Cabe
resaltar, que los idearios de la actual sociedad capitalista son construcciones típicamente
occidentales, por lo que entonces las ideas dominantes, en el contexto de la
organización espacial y la asignación de contenidos y significados, emanan básicamente
de la forma de pensamiento occidental.

De este modo, los idearios societales influyen y configuran en un nivel superior el


imaginario social (Ibídem). El imaginario social representa la concepción de
figuras/formas/imágenes de aquello que llamamos ―realidad‖, sentido común y
racionalidad en una sociedad (CASTORIADIS,1993). El imaginario está formado de
imágenes e idearios, mismos que son los que definen la valoración subjetiva de las
imágenes.

En esta sociedad materialista basada en las apariencias, el contenido se subordina a la


forma o, en muchos casos, a partir de la forma se asignan contenidos. De este modo se
valora el status, el poder, el dinero, como elementos que pueden ostentarse y exhibirse;
como menciona Castells (2011) la riqueza, poder, imágenes, la búsqueda de identidad,
atribuida o construida se convierten en fuente de significado social. La cultura erudita,
las galerías de arte, los cafés, restaurantes y hoteles de lujo, son objetos valorados en
esta sociedad y concurridos por sectores con recursos económicos y tiempo libre. El
embellecimiento de fachadas, la remodelación de inmuebles y la preocupación por la
estética de determinados lugares son parte de este proceso.

Así, monumentos, edificaciones y tradiciones entre otras cosas, han recibido


importancia especial, pues han sido consideradas como un recurso de creciente interés,
en la medida en que este es promocionado y ofertado como un bien de consumo y que
se presenta como una fuente de ingresos, sobre todo en economías terciarizadas o donde
el turismo funge o puede fungir como elemento de captación de divisas. Costas (sf)
arguye que los mecanismos comerciales están configurando una amplia gama de

34
espacios para el consumo entre los que destacan los centros históricos y los sitios
patrimoniales, en este sentido, se puede considerar la arquitectura o el patrimonio
material como contenedor de actividades comerciales y al mismo tiempo como
contenido para ser incorporado en las dinámicas de consumo.

De este modo, los espacios se vuelven marco del consumo a la vez que son, per se,
considerados como una mercancía. Este proceso tiene que ver con la construcción de
imágenes, promovida en el seno de una cultura que enaltece la apariencia y la forma,
fenómeno que Debord (1965) denomina como cultura visual contemporánea. Es así
como la producción de un espacio atractivo para el turismo, para el ocio o para el
consumo, no solo consta de su construcción física, sino de una serie de representaciones
e imágenes bajo determinadas cualidades estéticas que en determinados contextos
resulten rentables en la lógica de consumo (GASTAL, 2005).

Estos procesos, para el caso de los centros históricos, vistos espacialmente como un
concepto relativo en la medida en que un conjunto de relaciones lo configuran como eje
dentro de la ciudad y de su historia, definido en torno a dos ámbitos: lo urbano y lo
histórico, esto ultimo entendido como el lugar de encuentro o eslabón que, a través de
su presencia, integra el pasado con el futuro, como un proceso social que contiene las
distintas fases históricas por las que atraviesa una parte especial de la ciudad
(CARRIÓN, 2000), se ha configurado como un escenario proclive para actividades de
consumo, por lo que se ha incentivado la tendencia hacia la gentrificación, tematización
y consecuentemente una fragmentación espacial.

CONTEXTO GEOGRÁFICO E HISTÓRICO DEL CHCM

El CHCM, en términos administrativos y jurisdiccionales, se encuentra en la delegación


Cuauhtémoc, que pertenece a la entidad federativa correspondiente al Distrito Federal,
en la porción centro de México. Se ubica fisiográficamente en la Cuenca de México,
que está delimitada al sur y al poniente por las estribaciones de la Sierra del Ajusco, al
norte por la Sierra de Guadalupe y al oriente por la Sierra Nevada (donde destacan los
volcanes Popocatépetl e Iztaccíhuatl), todos dentro del Eje Volcánico Transversal. Esta
región lacustre, se caracteriza por un clima templado y recursos naturales relativamente

35
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

diversos. Esta condición, de acuerdo con algunos historiadores (LÓPEZ-AUSTIN,


citado por GUTIÉRREZ, 2005), favoreció el desarrollo de la ocupación humana del
territorio desde hace varios siglos. De este modo, el contenido simbólico y el peso
demográfico de esta región ha de situarse en un periodo de la historia anterior al de la
fundación de la ahora llamada Ciudad de México, ya que, la importancia que ha cobrado
la urbe, no solo por ser la capital y la ciudad más poblada del país, no es de reciente
data, por lo que se hace necesario indagar temporalmente en los aspectos relativos a la
ocupación humana de este espacio.

El origen de los primeros habitantes de la cuenca es incierto. Martínez del Río (1952,
citado por GUTIÉRREZ, 2005) señala que su antigüedad se remonta a la época
prehistórica y que se trata de cazadores y recolectores que migraron del norte.

En la época prehispánica existieron asentamientos importantes en la cuenca,


desarrollados en tres horizontes cronológicos: Preclasico, de 1200 a. C. – 200 d. C.,
Cásico de 200 – 600/800 d.C., y Posclásico de 800 – 1519 d.C. En el periodo
Preclásico, empezarían a florecer en las riberas del Lago de Texcoco varias villas y
pequeñas aldeas dedicadas en un principio a la agricultura pero que con el tiempo verían
surgir en ellas otras actividades como la cerámica y el comercio. El modelo de
chinampa estimuló la consolidación de sociedades teocráticas de entre las cuales
destacan la de Cuicuilco al sur de la cuenca y la de Teotihuacan, ya en el horizonte
Clásico (GUTIÉRREZ, op. cit.).

En el Posclásico, la cuenca de México empezó a recibir grupos de pobladores


pertenecientes a tribus provenientes del norte, que tenían como lenguaje común el
náhuatl. entre estas ciudades destaca México – Tenochtitlan, que creció hasta tener más
de 700 000 habitantes, y contaba con servicios como agua potable, drenaje, entre otros.
(DDF, 1997).

A principios del siglo XVI, la llegada de Cortés a territorios de la actual República


Mexicana cambió la situación de Tenochtitlan. Así, en 1519, un pequeño ejército de
españoles aliado con una milicia conformada por pueblos indígenas enemigos de
Tenochtitlan, tras una serie de enfrentamientos, sitiaron la ciudad en mayo de 1521 y
derrotaron al imperio mexica el 13 de agosto de 1521. Tras finalizar la conquista de
Tenochtitlan se nombró a México (La Antigua México – Tenochtitlan) como sede de la

36
Audiencia de México y ocho años más tarde, capital del Virreinato de la Nueva España,
y se edificó la ciudad española sobre los restos de la ciudad indígena (GUTIÉRREZ,
op. cit.).

En ese contexto, durante los tres siglos de gobierno virreinal, la Ciudad de México fue
un punto político de primer nivel que a pesar del control por parte del imperio, logró
conservar una relativa autonomía respecto de éste, sobre todo en los aspectos de
administración virreinal y comercio, así como en un centro cultural que fue sede de la
primera imprenta y universidad de las Américas. Como sede del arzobispado de
México, la ciudad atestiguó la construcción de una inmensa cantidad de conventos y
templos, la mayoría de ellos realizados en estilo barroco. De este modo, durante la
última etapa de la época virreinal, la Ciudad de México era considerada una de las
ciudades más impresionantes construidas por los europeos, una ―Ciudad de Palacios‖
como la definiera Humboldt a finales del siglo XVIII. De esta época datan la mayor
parte de las construcciones del Centro Histórico, y un sinnúmero de construcciones
religiosas dispersas por toda la zona metropolitana.

En el siglo XIX, la independencia trajo consigo varias décadas de inestabilidad política


y económica, primero como sede de un primer imperio mexicano gobernado por
Agustín de Iturbide trascendencia para el desarrollo de la Ciudad de México, ya que en
este periodo llegan nuevas ideas urbanistas provenientes de Europa, lo que le confiere,
sobre todo, un carácter arquitectónico afrancesado. Tras la caída del imperio,
la Ciudad de México vivió un periodo de desarrollo económico, promovido por el
establecimiento de vías de ferrocarril, fábricas y comercio de gran escala, del cual son
muestras los grandes almacenes abiertos en el Centro Histórico como El Palacio de
Hierro que permitían a los sectores más acomodados de la sociedad acceder a las
novedades del mobiliario y moda europea. También se inició una serie de trabajos para
conmemorar el centenario de la independencia en 1910 que incluyó la construcción de
edificios públicos como el Palacio de Comunicaciones, el Palacio Postal y el Palacio de
Bellas Artes, así como el Ángel de la Independencia en Paseo de la Reforma (Ibídem).

Para fines del siglo XIX y principios del XX, el Porfiriato continuó con tradición
arquitectónica francesa, lo cual se imprimió en la imagen urbana de este espacio.

37
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Posteriormente, la Revolución y el periodo posrevolucionario, resignificaron la urbe


(DDF, 1997).

Al estabilizarse la política tras el periodo revolucionario, comenzó a recobrarse el


ambiente para la inversión en la estructura urbana, con lo que surgieron nuevas
valoraciones y transformaciones. El Departamento del Distrito Federal construyó
edificios con un estilo neocolonial y destruyó antiguos para homogeneizar calles como
20 de noviembre, San Juan de Letrán entre otras. Las transformaciones también
influyeron en el desalojo del comercio ambulante, pues se consideraba que dañaba la
imagen urbana. Esta nueva visión también influyó en la vivienda, las vecindades,
símbolo de la vivienda popular se concentraron mayormente en la periferia norte,
oriente y suroriente del centro, áreas caracterizadas por altos índices de pobreza. Este
proceso comienza a principios de siglo, con la degradación del espacio construido y el
abandono de inmuebles por parte de la burguesía que pasaran a utilizarse como
vecindades para clases populares (ZENTENO, 2013). En los años 40, la decisión de
congelar las rentas de la vivienda, más que asegurar la vivienda popular, abonaría en el
deterioro futuros de miles de propiedades. Todo lo anterior sería el principio de un
sostenido proceso de despoblamiento y de pérdida de habitabilidad cuya consecuencias
serían después el vacío y el deterioro físico y social que redundó en la ampliación de la
desigualdad. Posteriormente, los sismos de 1985 contribuirían al deterioro de las
edificaciones y al vaciamiento de la población de este espacio (DDF, op. cit.).

Este evento daría lugar a un empeoramiento de las condiciones de las estructuras


edilicias, y llevó a la proliferación de solares y edificios en ruina, en riesgo de derrumbe
y predios vacíos (TOMAS, 1991; HIERNAUX, 1999, citados por DÍAZ, 2014).
Asimismo, se dio una irrupción del fenómeno de la invasión de edificios de viviendas,
con notorio protagonismo de grupos indígenas y un fuerte movimiento vecinal que se
mantiene en parte en la actualidad, y que motivó una importante inversión pública en
materia de vivienda sobre las áreas centrales. Si bien esto estabilizó a una parte
importante de la población, el área central presentaba una proporción de alquileres y de
viviendas colectivas superior a otras zonas de la ciudad (DÍAZ, op. cit.).

Tras el desastre, algunas autoridades contemplaron la refuncionalización del centro, al


acelerar los cambios de uso de suelo habitacional a comercial, lo que implicaba el

38
desalojo de los inquilinos que ocupaban inmuebles, sin embargo, el movimiento de los
damnificados se presentó como una oportunidad para el descongelamiento de las rentas
y el ingreso del mercado inmobiliario (COULMB, 1991; MORENO, 1988;
GONZALEZ y KUNZ, 2005; citados por GONZALEz, op. cit.).

De esta forma, la ciudad se mantuvo en constante crecimiento hacia las periferias, en


parte por los migrantes de las áreas rurales, y en parte por la población expulsada de las
areas centrales (CRUZ, 2004). Posteriormente, este espacio experimentaría importantes
transformaciones derivadas de los programas de refuncionalización y rehabilitación del
casco histórico.

LA CONSERVACIÓN DEL PATRIMONIO CULTURAL DEL CMCH EN EL


CONTEXTO DEL TURISMO TEMÁTICO

En los últimos decenios, el concepto y función del patrimonio cultural en su relación


con el resto de esferas que componen la vida civil ha cambiado. Frente a las posturas
que acuñaron el concepto de patrimonio histórico como factor de identidad colectiva,
expresión de la riqueza cultural de la nación, o como testimonio de la contribución a la
civilización de una cultura determinada, en la última década se ha acendrado el debate
en torno a su definición (CORTÉS, op. cit.), sin embargo, para fines de este trabajo, se
presentará el patrimonio histórico a partir de los cambios espaciales y arquitectónicos, y
consecuentemente con los usos y valoraciones que a lo largo de la historia reciente se le
ha atribuido en el CHCM.

La producción de un espacio para el turismo y la recreación se basa en un primer


momento, tal como Chadefaud (1987) menciona, en la construcción a partir de una serie
de mitos (representaciones mentales, imagenes, discursos, etc.), los cuales alimentan la
demanda social y se nutren de la alteridad espacial. De este modo, diferenciar un
espacio de otro por sus atributos, en el contexto de una sociedad que busca una supuesta
autenticidad y originalidad, representa una estrategia por parte de gobiernos y empresas
para la atracción de determinado tipo de consumidores. En este caso, el arte, la cultura y
la historia se orientan sobre todo hacia las clases cultas que demandan ciertos
equipamientos culturales, y para extranjeros que en su busqueda de esa supesta

39
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

alteridad, del encuentro con lo otro, buscan destinos que ofrezcan escenarios suigeneris
dentro del mercado turistico global. De este modo, para el estado y determinados
actores del sector privado, el casco historico de la Ciudad de México representa un
espacio con un potencial de gran importancia para la implantación de las actividades
turisticas y recreativas, por lo que las estratetegias y acciones han sido encaminadas a la
habilitación de este lugar para cumplir dicho objetivo.

Como parte de este proceso, la construcción de la imagen de ciudad se presenta como


un factor de vital importancia en el desarrollo del Centro Histórico, ya sea como para la
atraccion de inversores y capital extranjero, como para la consolidacion en el mercado
turistico. De acuerdo con la Procuraduría Ambiental del Ordenamiento Territorial del
DF (PAOT, 2003), la imagen turística se refiere al conjunto de los elementos naturales y
construidos que forman parte del marco visual de los habitantes y visitantes de la ciudad
vinculados con las costumbres y usos del lugar, asi como por las actividades
economicas que realizan.

El Distrito Federal, al ser un lugar histórico, su imagen es favorecida por el proceso


fundacional y por el patrimonio cultural con el que cuenta. La planeación se ha
orientado primordialmente a organizar la ciudad y abordar su imagen desde un punto de
vista estético a través de la conservación de espacios en los que se presentan
edificaciones con valor histórico y cultural, como en el CHCM. La imagen urbana
también engloba la concepción, disfrute e identificación de la población con la ciudad,
con los espacios de su vida cotidiana vinculados al resto de la comunidad y en donde se
manifiestan sus tradiciones.

La PAOT menciona que entre los principales problemas en términos de imagen urbana
destacan la apropiación de espacios públicos por parte de corporaciones, que
reorganizan los espacios de la ciudad, lo cual da como resultado una forma diferente de
vivirla, de relacionarse y de pensarla; el deterioro social producto de la invasión del
espacio público por el comercio informal así como la falta de limpieza en las calles.
Asimismo, la inseguridad, la inestabilidad política, las marchas y plantones, el tráfico y
la polución han dañado la imagen de la ciudad tanto a nivel nacional como internacional
(PAOT, 2003).

40
De ahí, que desde finales de la decada de los noventa, diversos programas y proyectos
han puntualizado en la necesidad de promover una nueva imagen, contraria a aquella en
la que el CHCM se veía como espacio con altos niveles de delincuencia, comercio
informal, contaminación y degradación urbana. Por tal motivo, las campañas mediaticas
han actudo en la construcción de la imagen urbana del centro, en la cual la cultura y la
historia desempeñan un papel trascendental. De esto, se ha derivado una creciente
tematización de los espacios que han recibido mayor atención y presupuesto para su
rehabilitación, pues el proceso de remodelación ha ido acompañado de una campaña en
los medios de comunicación que realza los valores historicos y culturales y promueve la
proliferación de este tipo de actividades en la zona. Algunas guías turisticas destacan
este hecho como un factor de atracción de visitantes, se menciona que la rehabilitación
del CHCM ha actuado con el fin de embellecer y mostrar un escenario para las
actividades recreativas y para el turismo: ―Desde el 2000 se han invertido grandes
sumas de dinero para renovar la imagen y la infraestructura del Centro Historico, […]
Las estructuras renovadas acogen ahora nuevos museos, restaurantes y clubes, y en sus
plazas se celebran festivales y acontecimientos culturales, todo un verdadero
renacimiento.‖ (LONELY PLANET, Mexico, 2011). De esto, se ha derivado que dichos
espacios experimenten continuamente el crecimiento de negocios orientados hacia las
actividades de consumo recreativo y turistico.

En este sentido, un paso critico en la construcción de la imagen del CHCM lo


constituyen los procesos de rehabilitacion del patrimonio cultural, que si bien
comenzaron desde la decada de los treinta del siglo pasado, se comenzaron a hacer
notorios desde finales de los noventa, a raiz de la importancia que se le ha dado al
turismo como una actividad para la generación de ingresos, desde los niveles nacionales
hasta lo local. En este sentido, se hace una breve descripción de los planes y programas
que hen tenido lugar en este espacio desde los albores del siglo XX.

En 1934, el Instituto Nacional de Antropología e Historia, INAH, había catalogado


dentro del área correspondiente al Centro Histórico 768 monumentos; pero treinta años
después ya se habían perdido 422. Para 1980, 196 monumentos contaban con
declaratoria individual, 542 eran protegidos por la Ley Federal de Monumentos y Zonas
Arqueológicas, Históricas y Artísticas (1972), y otros 743 habían sido incorporados por
el INAH a la lista de inmuebles con valor histórico y arquitectónico. A raíz del

41
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

descubrimiento de la piedra escultórica que representa a la diosa azteca Coyolxauhqui


en 1978, y de las posteriores exploraciones del Templo Mayor, la antigua Ciudad de
México fue declarada, por decreto del presidente López Portillo el 11 de abril de 1980
Zona de Monumentos Históricos y se crea al mismo tiempo el Consejo del Centro
Histórico con el fin de coordinar las acciones requeridas para su recuperación,
protección y conservación (CRUZ, op. cit.; ZENTENO, op.cit.). Estas acciones
institucionales de protección del patrimonio no lograron suplir la ausencia de un
proyecto integral para el Centro Histórico que permitiera su regeneración y desarrollo.
Esta carencia se reflejó en la escasez de inversiones públicas significativas, con las
excepciones de las obras del Metro y de la reconstrucción después de los sismos de
1985 (CRUZ, op. cit).

La segunda acción gubernamental de envergadura se dio con la acción de Renovación


Habitacional Popular que restauró o reconstruyó 13,212 viviendas en 796 predios de los
perímetros ―A‖ y ―B‖ del Centro Histórico (sobre un total de 1,219 predios inicialmente
expropiados). Solamente 109 inmuebles de valor patrimonial fueron restaurados y/o
rehabilitados (Ibídem).

De acuerdo a los lineamientos establecidos en la Ley Federal sobre Monumentos y


Zonas Arqueológicos, Artísticos e Históricos, en 1980, en un decreto, se delimitó un
polígono de 9.1 kilómetros cuadrados constituido por 668 manzanas y se enlistaron
1436 edificios como monumentos históricos (construidos entre los siglos XVI y XIX)
para ser protegidos por el Instituto Nacional de Antropología e Historia.

En 1990, se creó el Patronato del Centro Histórico y el Fideicomiso del Centro


Histórico (FCH), éste último con el objetivo de ―promover, gestionar y coordinar ante
los particulares y las autoridades competentes la ejecución de acciones, obras y
servicios que propicien la recuperación, protección y conservación del Centro
Histórico‖. A partir de 1991, el gobierno de la ciudad expide cada año un ―Acuerdo‖ en
el que se establecen estímulos fiscales, en apoyo a las obras de rehabilitación
emprendidas por propietarios, inversionistas y algunas instituciones públicas como la
Universidad Nacional Autonoma de México, Banco de México, entre otras (CRUz, op.
cit). El programa ¡Échame una manita!, (1991 - 1994) revalorizó el Distrito de

42
Negocios, promovía la incorporación del sector privado e incluyó la reubicación del
comercio ambulante en 28 plazas comerciales (DELGADILLO, 2005).

El resultado es que las inversiones se han concentraron en el llamado ―corredor


financiero‖ del Centro Histórico y que, por otra parte, están privilegiando los usos
comerciales o de servicios, como también la creación de importantes recintos culturales.
En efecto, fueron las leyes de la rentabilidad que determinaron, tanto la localización
como el uso de los inmuebles rehabilitados. El proceso está dejando fuera el 90% del
área urbana del Centro Histórico, así como el uso habitacional (CRUZ, op. cit).El uso de
suelo ha cambiado en los últimos años en el CHCM. La población ha decrecido; de
1970 a 2005 el CHCM perdió 143 mil habitantes. El parque habitacional representaba
en 1970 el 4.7% de la ciudad y en 2005 el 1.9% (DELGADILLO, 2009).

El Programa de Rescate del Centro Histórico 2002-2006 volvió a recuperar el mismo


territorio ―rescatado‖ y a reubicar en plazas comerciales a vendedores ambulantes que
ocupaban las calles remozadas (DELGADILLO, 2005). Se creó un Consejo Consultivo
para el Rescate del Centro Histórico integrado por 125 personas: intelectuales, artistas,
sociedad civil, un Comité Ejecutivo integrado por 10 personas: tres ministros del
gobierno federal (dependencias de Cultura, Turismo y Hacienda), tres secretarías del
GDF (Desarrollo Urbano, Economía y Turismo) y cuatro representantes de la ―sociedad
civil‖: un periodista, un historiador, el arzobispo de la iglesia católica y Carlos Slim,
que adquirió más de 60 inmuebles para destinarlos a distintas actividades (Ibídem).

Un elemento importante en la elaboración de estos programas ha sido el turismo. En


este sentido, desde determinados actores, entre ellos el Instituto de Promoción Turística,
la CANIRAC y la CANACO, se ha puesto especial atención en la promoción turística
con el fin de ubicar a la ciudad, y dentro de ella el CHCM, como un destino turístico
competitivo a nivel mundial en materia de infraestructura de congresos, convenciones,
ferias y exposiciones. Así, los programas buscan posicionar la ciudad como un destino
cultural, recreativo y de placer en el mercado global.

Dentro de los proyectos para mejorar la imagen turística del CHCM, se han llevado a
cabo acciones para mejorar la calidad del aire, combatir y disminuir el crimen,
remodelar y embellecer los edificios históricos con el objetivo de atraer la inversión
privada y dar valor a la ciudad. Este embellecimiento de fachadas, aunado a la

43
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

rehabilitación de calles y del espacio publico, ha sido la herramienta más importante


dentro del proceso de tematización,

Se han desarrollado programas turísticos con el fin de fomentar los recursos culturales
como ―Vive tu ciudad‖, ―Vive Cuauhtemoc‖, ―Vive el Centro Histórico‖ y ―DFiesta en
el Distrito Federal‖ el cual surgió para darle un nombre comercial, al programa ―La
Ciudad de México: Capital de los espectáculos, la cultura y el deporte‖ y asi
promocionarla como un destino diferente y reconocible de los demás. (SECTUR GDF,
2004).

El Programa de Recuperación del Centro Histórico 2007- 2010 , con el tema de la


celebración del Bicentenario de la Independencia y del Centenario de la Revolución
mexicana. Se creó una Autoridad del Centro Histórico y se reactivó el Fideicomiso
Centro Histórico, así como también se formó una Intendencia del Centro Histórico.
Asimismo, se reinició el programa de rehabilitación en la zona A que concentra el
mayor número de monumentos e incluye: el remozamiento de calles y fachadas; la
iluminación de edificios; la renovación de redes de telefonía; la sustitución de
mobiliario urbano, alumbrado público, y la introducción de medidas de seguridad y de
más policías.

Aunado a la remodelación monumental, un paso estratégico para el gobierno del


Distrito Federal ha sido la creación de corredores y la peatonalización de algunas calles.
Así, dentro de estos proyectos se han intervenido calles como Madero (el caso más
exitoso de peatonalización en el CHCM) en el año de 2010, la cual forma parte del
corredor Zocalo - Plaza de la Republica, y parte desde la Plaza de la Constitución o
Zocalo hacia el poniente, pasa por la ya mencionada Madero, Juarez, hasta llegar a la
Plaza de la Republica también conocida como Monumento a la Revolución.

La fisonomía de algunas calles, sobre todo aquellas que han sido peatonalizadas, ha
reorientado el uso del suelo de calles como Madero, Regina y Gante principalmente,
hacia los negocios relacionados con el consumo recreativo y turístico, como bares,
restaurantes, cafes y galerías por mencionar algunos. Antiguamente en esas calles los
negocios consistían en talleres y tiendas especializadas al mayoreo, los cuales, al subir
el precio del suelo abandonaron el lugar para dar paso a negocios más rentables, o

44
dentro del giro de servicios y turismo, actividades contempladas dentro de los
programas gubernamentales para estos lugares.

En este sentido, conviene repensar la incorporación estas zonas como espacios de


consumo en el marco de la globalización, ya que los programas de rehabilitación y
refuncionalización del centro histórico pueden ir orientados hacia la estandarización de
los servicios con la lógica de la instalación de comercios de tipo cadena, emblemáticos
de la globalización como McDonald‘s, Starbucks, sólo por mencionar algunos en todo
el perímetro 1, o bien, con miras hacia un desarrollo local y dotar de la infraestructura
necesaria para que se desarrolle de manera eficiente el comercio tradicional, los oficios
y los talleres que se encuentran en estas zonas.

Lo anterior está directamente ligado a las políticas públicas, que influyen directamente
en las actividades económicas de estas zonas y en la población (Delgadillo, 2005;
2009). La incorporación de la población que labora en estas zonas a actividades como el
turismo, de ser propietaria o asociada, artesano o practicante de un oficio, pasa a formar
parte de la fuerza de trabajo asalariada, que laborara en diferentes condiciones y
realizando labores de limpieza, atendiendo un mostrador, haciendo comida rápida etc.,
Sin embargo, de permanecer este espacio en sus actividades tradicionales también
representa un dilema, pues se dan relaciones de explotación laboral y al margen de la
seguridad social; problemas de prostitución de menores, entre otros fenómenos
relacionados con la marginación social.

De este modo, se puede observar que lo patrimonial se manifiesta como una


representación que se exterioriza en la nueva estética para el consumo (espectáculos de
luces, embellecimiento de calles), pues se ha fabricado un contenido dentro de este
espacio donde actores externos como empresas transnacionales y otras de tipo cadena
han adquirido un papel protagónico en este lugar, y se evidencia una tematización, ya
que el contenido se funda sobre una narrativa histórica colonial y prehispánica, sobre
vestigios de un pasado que otorga una supuesta identidad a la población mexicana.

Así, el CHCM en los últimos años se ha consolidado como un centro de primer orden
para ciertas actividades económicas, culturales, de ocio y turismo, además que se
presenta como un potencial espacio de importancia para el negocio inmobiliario y
comercial en México. Esto, entre otros factores, derivado de la historia y significación

45
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

que posee este espacio en el ámbito de la construcción de la identidad nacional, visto


desde el ámbito institucional principalmente. De este modo, el CHCM se presenta como
un estandarte que enarbola los sentimientos y aspiraciones comunes de la sociedad
mexicana, por lo cual, es necesario conservarlo y rehabilitarlo para su consecuente uso y
disfrute. Es importante analizar, que dicho discurso se cimenta en la raíz prehispánica,
en aquello que le da un contenido sui generis y excepcional, en aquello que lo convierte
en el legado de los primeros habitantes de la cuenca, exaltando lo autentico, lo
primigenio, lo nativo, lo original, y que une e integra a toda la población a pesar de las
diferencias en un pasado y un destino común. Ahí es, entonces, donde como espacio
simbólico, depositario de una historia y significados, tiene su relevancia para el Estado
y la sociedad mexicana, pues funge como elemento de integración e identidad
socioespacial.

De este modo, el Centro Histórico de la Ciudad de México en su nueva fase de


remodelación patrimonial y destinado al consumo y a los servicios puede verse como
una construcción gestada en el seno del Estado, las empresas y de la economía global.
Esta producción responde a una serie de supuestos que descansan en una lógica
capitalista y le confieren cualidades de espacio homogéneo, donde empresas
transnacionales y de tipo cadena se han asentado permitiendo a los visitantes acceder a
servicios y productos de carácter global que se pueden encontrar en las grandes
ciudades del globo (DELGADILLO, op. cit.). Fragmentan el espacio, pues se
desvincula de la región contigua y de las necesidades de la población que en las zonas
norte y oriente presenta carencias y problemáticas importantes y por último lo
convierten en un lugar diferenciado para ser comercializado y ofertado como una
mercancía sui generis y con contenido temático histórico y cultural. Todo esto basado
también en una serie de imaginarios que emanan de las ideologías dominantes y le dan
determinadas categorías de valor económico y estético a este lugar.

CONSIDERACIONES FINALES

Una parte trascendental de la producción del espacio y consecuentemente de su uso


turístico o para el consumo recreativo, es la fabricación de los imaginarios, influida
directamente por las tendencias dominantes de la sociedad y consecuentemente del

46
mercado. Es así, como en su seno surgen determinadas valoraciones y apreciaciones, lo
que da lugar a la capitalización de determinados recursos, mediados por ciertas
circunstancias espacio-temporales. En este sentido, la construcción del espacio, y dentro
de él el urbano, obedecen a una lógica basada en el mantenimiento de las relaciones de
producción en la que influye la ideología, las valoraciones de uso del espacio y los
recursos así como la utilización diaria del espacio como reproducción de la vida dentro
este sistema. De este modo, la sociedad capitalista en su lógica de acumulación,
presenta morfologías espaciales relativas al uso funcional y económico del territorio
bajo un contexto histórico determinado.

En este sentido, el patrimonio cultural se ha convertido en un recurso proclive a ser


usufructuado, por lo que algunos gobiernos, instituciones y empresas han habilitado (o
rehabilitado) estos espacios. Sin embargo, en algunas ocasiones ha respondido a
demandas externas, o a demandas de determinadas clases sociales, lo que implica una
determinada valoración, materializada en una especifica forma de organización espacial
ligada con los procesos de globalización, donde se insertan cadenas de empresas de
capital nacional y transnacional, lo que ha favorecido procesos de tematización o
tergiversación de los destinos, en donde la artificialización y el consumo de productos
globales. Aunado a esto, los gobiernos y capitales eligen selectivamente los lugares
provocando diferencias que fragmentan los espacios y los desconectan de su entorno
local. Asimismo, tales acciones presuponen desigualdades a nivel social, pues se
evidencian espacios con una degradación física manifiesta y con problemas
relacionados con la marginación social en comparación con los que sí han sido
habilitados.

De este modo, el CMCH en su fase de remodelación patrimonial y destinado al


consumo y a los servicios puede verse como una construcción gestada en el seno del
Estado, las empresas y de la economía global. Esta producción responde a una serie de
supuestos que descansan en una lógica capitalista y le confieren cualidades de espacio
homogéneo. De igual forma, fragmentan el espacio, ya que se desvincula de la región
contigua y de las necesidades de la población local que en las zonas norte y oriente
presenta carencias y problemáticas importantes ligadas con la habitabilidad del territorio
y con los altos índices de pobreza y marginación. Todo esto basado también en una serie

47
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

de imaginarios que emanan de las ideologías dominantes y le dan determinadas


categorías de valor económico y estético a este lugar.

REFERENCIAS

Anton, S. (1999) ―El desarrollo de parques temáticos en un contexto de globalización‖,


en: Boletín de la A.G.E. No. 28. España.

Bellet, C. (2007) ―Los espacios residenciales de tipo privativo y la construcción de la


nueva ciudad: visiones de privatopía‖, en: Scripta Nova. Vol. XI, no. 245. Universidad
de Barcelona, España.

Bourdieu, P. (1999) Contrafuegos. Barcelona, Anagrama.

Carrión, F. (2000) Lugares o flujos centrales: los centros históricos urbanos. CEPAL-
ECLAC. Chile.

Castells, M. (1995) La Ciudad Informacional. Alianza Editorial, Madrid.


_____. (2011) La era de la información. Siglo XXI. México.

Castoriadis, C. (1993) ―La institución imaginaria de la sociedad‖, en el Imaginario


Social. Altamira y Nordan Comunidad, Montevideo.

Chassé, S. (1993), ―Les parcs thématiques et le tourisme‖ Téoros. No. 12.

Ciordia, S. (2012) Influencia de la tematización en los espacios públicos. XVII


Congreso de Estudios Vascos: Gizarte aurrerapen iraunkorrerako berrikuntza
Innovación para el progreso social sostenible. Donostia : Eusko Ikaskuntza, 2012.
ISBN: 978-84-8419-232-9

Cordero, A. (2006) Nuevos ejes de acumulación y naturaleza. CLACSO, Argentina.

Cortes, T. (2002) Recuperación del patrimonio cultural urbano como recurso turístico.
Tesis doctoral. Universidad Complutense de Madrid. España.

Costa, X. (sf) ―Spaces of consumption‖, en: Habitares.


http://www.mmasa.net/habitares/pdf/textoXavierCosta.pdf

Cruz Martínez, Ángel Bernardo (2004), ―Proyecto de sustentabilidad integral del centro
histórico de la ciudad de México‖, Grupo Ciudad y Patrimonio, a.c.
imaginarios.com.mx/redmcs/syp/iv/centros_historicos/mesa5/angel_bernardo_cruz_mar
tinez.pdf

Departamento del Distrito Federal (1997) Delegación política Cuauhtémoc. Porrua.


México.

48
Débord, G. (2002), La Sociedad del Espectáculo, Pre-Textos, 2ª. ed. [original francés
(1967), La Société du spectacle, Gallimard, Paris], Valencia.

Delgadillo, V. (2005), Centros históricos de América Latina, riqueza patrimonial y


pobreza social: la rehabilitación de vivienda en Buenos Aires, Ciudad de México y
Quito. Tesis doctoral en Urbanismo. Universidad Nacional Autónoma de México.
México.
_____. (2009) ―Patrimonio urbano y turismo cultural en la Ciudad de México: las
chinampas de Xochimilco y el Centro Histórico‖, en Andamios, vol. 6, no. 12. UACM,
México.

Díaz, I. (2004) Gentrificación y clase social. La Producción del gentrificador.


Departamento de Geografía Humana. Universidad de Sevilla.
(http://lagenterula.files.wordpress.com/2011/03/gentrificacic3b3n-y-clase-social-la-
produccic3b3n-del-gentrificador.pdf)

Erreguerena, M. (2001) ―El concepto de imaginario social‖, en: Anuario de


investigación 2000, Vol.II Universidad Autónoma Metropolitana, Xochimilco, CSH.
México.

García, L. (2001). ―Elitización: propuesta de un término en español para la


gentrification‖, en Biblio 3W. Revista Bibliográfica de Geografia y Ciencias Sociales.
Vol. VI, no. 332 Universidad de Barcelona. España.

Gutiérrez de MacGregor, M. (2005) La Cuenca de México y sus cambios demográfico-


espaciales. Universidad Nacional Autonoma de México, México.

Harvey, D. (1977): Urbanismo y desigualdad social, México, Siglo XXI S.A.


_____. (1990) The condition of posmodernity. Basil Blackwell. UK.
_____. (2003) Espacios de esperanza. Akal. España.
_____. (2007): Espacios del Capital. Hacia una geografía crítica,Ediciones Akal, S.A,
Madrid.

Hiernaux, D. (1989) ―El espacio reticular del turismo en México‖ Geografía y


Desarrollo. Año 2. Vol. 2. No. 3. México.
_____. (2002) Imaginarios sociales y turismo sostenible. FLACSO. Costa Rica.
ISOCARP (International Society of City and Regional Planners) (1992) Cultural
Identities in Unity -Towards Planning for Sustainable Development at a Supra-National
Level. 1-6 October, Córdoba-Spain.

Lefebvre, H. (1978) El derecho a la ciudad. Península, cuarta edición. Barcelona.


_____. (1991) The production of space, Londres, Blackwell.

Lonely planet. (2011) México. Editorial Planeta. España.


Organización Mundial del Turismo (1993) Tourism and World Heritage Cultural Sites.
The Site Manager‘s Handbook. Madrid.

Smith, N (1996). The new urban frontier: gentrification and the revanchist city.
Routledge. Nueva York, USA.

49
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

_____. (1999). ―The Lost Geography of the American Century‖. Scottish Geographical
Journal. UK.

Tresserras, J. (2004) La tematización cultural de las ciudades como estrategia de


desarrollo a través del turismo. Portal Iberoamericano de Gestión Cultural.
http://www.gestioncultural.org/

Valdés, E (2001): ―Los guetos urbanos residenciales. El caso del Country Las Delicias‖.
Anuario de la Escuela de Historia. Año 1 Nº 1. Ed. Ferreira. Córdoba.

Zenteno Martínez, C. (2013) ―Nuevos escenarios. El factor teórico, social y económico


en el Centro Histórico de la Ciudad de México‖. Tesis de licenciatura en Estudios
Latinoamericanos, México, Facultad de Filosofía y Letras, Universidad Nacional
Autonoma de México, México.

Sitios en internet:
http://www.ciudadmexico.com.mx/historia.htm

50
O TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NO LITORAL SUL SERGIPANO E O
ORDENAMENTO TERRITORIAL SOBRE O VIÉS DA COMPLEXIDADE

TURISMO COMUNITARIO EN BASE ACOSTA SUR SERGIPE Y El SESGO


DE COMPLEJIDAD TERRITORIAL.

Lillian Mª de Mesquita Alexandre


Doutoranda em Geografia – PPGEO/UFS, Universidade Federal de Sergipe
Professora do Núcleo de Turismo. E-mail: profa.lillian@gmail.com

RESUMO: O estudo se propôs Identificar o potencial do Litoral Sul Sergipano para o


Turismo de Base Comunitária, pontualmente nos municípios de Itaporanga D‘Ajuda,
Estância, Santa Luzia do Itanhy e Indiaroba, aonde este vem passando por um processo
de reestruturação, ocasionado por intervenções públicas e privadas, o que torna
necessário analisar suas potencialidades, vulnerabilidades e limites e os reflexos deste
para as ações de ordenamento territorial. Foi utilizado como base de pesquisa a
descritiva, partindo da análise de documentos de fonte primária e secundária e pesquisa
de campo, utilizando-se do método fenomenológico para análise da realidade local
encontrada. Considerando que o turismo, em qualquer de suas formas de expressão e
intervenção, interfere na dinâmica socioambiental de qualquer destino, o turismo de
base comunitária só poderá ser desenvolvido se os protagonistas deste destino forem
sujeitos e não objetos do processo. Neste caso, o sentido de comunitário transcende a
perspectiva clássica das ―comunidades de baixa renda‖ ou ―comunidades tradicionais‖
para alcançar o sentido de comum, de coletivo.

Palavras-chave: Litoral Sul Sergipano, Turismo de Base Comunitária, Ordenamento


Territorial e Dinâmica Socioambiental.

RESUMEN: El estudio se propone a identificar el potencial de la costa sur sergupana


para el Turismo Comunitario Basado puntualmente en los municipios de Itaporanga
D'Ayuda, Estancia, Santa Luzia hacer Itanhy y Indiaroba, donde este ha estado pasando
por un proceso de reestructuración, causado por intervenciones públicas y provadas por
las intervenciones público y privado, lo que hace necesario analizar sus capacidades,
vulnerabilidades y limitaciones y las consecuencias de esto para acciones de ordenación
del territorio. Fue utilizado como base la investigación descriptiva, basada en el análisis
de los documentos de fuente primaria y secundaria y estudio de campo, utilizando el
método fenomenológico para el análisis de la situación local encontrada. Considerando
que el turismo en cualquiera de sus formas de expresión y de palabra, interfiere con las
dinámicas sociales y ambientales de cualquier destino, el turismo comunitario sólo
puede desarrollarse si los protagonistas en estos destinos son sujetos y no objetos del
proceso. En este caso, el sentido comunitario trasciende la perspectiva clásica de las
"comunidades de bajos ingresos" o "comunidades tradicionales" para lograr el sentido
de común, colectivo.

Palabras clave: Costa Sur de Sergipe, turismo basado en la comunidad, gestión del suelo
y dinámica ambiental.

51
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

INTRODUÇÃO

O
turismo deve ter o seu desenvolvimento racionalmente pré-determinado,
para que as necessidades e potencialidades sejam gerenciadas e se
transformem em estratégias que conduzam à inserção do patrimônio natural,
histórico e cultural no circuito econômico, evidentemente através do uso não predatório
dos mesmos.

Considerando que o turismo, em qualquer de suas formas de expressão e intervenção,


interfere na dinâmica sócio ambiental de qualquer destino, o turismo de base
comunitária (TBC) só poderá ser desenvolvido se os protagonistas deste destino forem
sujeitos e não objetos do processo. Neste caso, o sentido de comunitário transcende a
perspectiva clássica das ―comunidades de baixa renda‖ ou ―comunidades tradicionais‖
para alcançar o sentido de comum, de coletivo. O turismo de base comunitária, portanto,
tende a ser aquele tipo de turismo que, em tese, favorece a coesão e o laço social e o
sentido coletivo de vida em sociedade, e que por esta via, promove a qualidade de vida,
o sentido de inclusão, a valorização da cultura local e o sentimento de pertencimento.
(BARTHOLO, 2009, p. 65)

Assim, entendendo a importância do ator ―comunidade‖ no processo de fomento do


turismo nas localidades, é que, a partir do olhar sugerido pela Teoria da Complexidade,
em que o conjunto das partes é de suma importância para a construção do todo, ao
analisar o papel da comunidade nessa construção do TBC, percebe-se ainda mais a
importância da compreensão de que o sistema do turismo não é feito apenas dos atores
públicos ou privados, mas que a interação dos três atores é que fará a diferença na
mudança que se faz necessária para esse novo formato de turismo e para a localidade
em análise.

Diante disso, é que o estudo se propôs identificar o potencial do Litoral Sul Sergipano
para o Turismo de Base Comunitária, pontualmente nos municípios de Itaporanga
D‘Ajuda, Estância, Santa Luzia do Itanhy e Indiaroba, sendo utilizado como base de
pesquisa a descritiva, partindo da análise de documentos de fonte primária e secundária
e pesquisa de campo (utilizou-se do roteiro de observação direta para a coleta de dados

52
e do registro fotográfico), utilizando-se do método fenomenológico para análise da
realidade local encontrada.
Por esta razão, destacamos algumas abordagens conceituais próprias do turismo, como o
Turismo de Base Comunitária – TBC (CORIOLANO, 2005; BARTHOLO, 2009) ou
utilizadas na Geografia, como Lugar (MORIN, 2001; CASTRO, 2012), Espaço
(BOURDIEU, 1998; LEFEBRE, 1991) e Território de Poder (RAFFESTIN, 1993)
embasando e corroborando com as leituras e análises, ainda, as Políticas Públicas
(CRUZ, 2000) e Planejamento Territorial (SANTOS e VILAR, 2012), passando por
estes conceitos à construção teórica necessária para embasar a pesquisa aqui proposta.

O artigo se dividiu em 3 momentos, trazendo uma apresentação na introdução, pensando


ordenamento territorial no turismo a partir da complexidade, o litoral sul sergipano:
região de análise e possibilidades para o turismo de base comunitária e por último as
considerações finais. Da abordagem teórica aos apontamentos em cada município da
área de estudo, podemos perceber que o artigo se propõe a trazer uma reflexão sobre o
objetivo, pautado nos principais autores supracitados, além de promover a reflexão de
que é necessário analisar, sob o viés do sistema, proposto pela teoria da complexidade
(TC), o turismo e suas interfaces.

A mudança no entendimento sobre o desenvolvimento e a relação do homem com a


natureza, mostra o quanto é importante o encadeamento destes até chegarmos ao
fomento do turismo nas localidades e é a partir dessa compreensão que o TBC poderá
ser uma nova proposta de turismo sustentável.

PENSANDO ORDENAMENTO TERRITORIAL NO TURISMO A PARTIR DA


COMPLEXIDADE

O turismo, afirma Beni (2001, p. 45) ―é a manifestação de contínua atividade produtiva,


geradora de renda, que se acha submetida a todas as leis econômicas que atuam nos
demais ramos e setores industriais ou de produção‖. Por outro lado, provoca
indiretamente acentuadas repercussões econômicas em outras atividades produtivas
através do efeito multiplicador.

53
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Neste processo apresentado por Beni (2001, p. 45), o turismo ―interage com uma série
de elementos que o envolvem, como num processo industrial, onde há um início, que
seria a extração da matéria-prima, ou seja, a localidade com seu potencial‖.

Num segundo momento, a preparação da embalagem, da adequação deste novo


―produto‖ para o consumo. Entra neste momento, a questão da adequação da localidade
para a chegada do turista, do consumidor.

E por último, a distribuição desse produto, com o consumo deste turista. O processo
passa a ser o da comercialização do destino, promovendo a distribuição e circulação da
renda e a geração de empregos para a comunidade local (que se insere diretamente
agora no processo). Surge também os reflexos desta atividade nas localidades em
questão, pois no momento em que essas partes não são compreendidas como um todo,
os impactos são inevitáveis e, muitas vezes, irrevogáveis.

No que diz respeito ao turismo, Cunha (2001, p. 63) descreve que:

contrariamente à evolução verificada nos setores restantes, a


intervenção do Estado limitou-se durante muitos anos à promoção
internacional e à criação de estímulos ao seu desenvolvimento por se
reconhecer que sendo um importante meio de obtenção de divisas,
ajudava a vencer as dificuldades econômicas e a financiar o processo
de desenvolvimento.

Entretanto, alguns setores formuladores de política econômica não reconheciam o


turismo como atividade econômica e sua modesta dimensão não justificavam
intervenções significativas, fazendo com que o grau de exigência em termos de gestão,
não merecesse cuidado especial. Isso acarretou na percepção segmentada do papel dos
atores envolvidos, ou seja, cada um deveria fazer a sua função, sem nunca pensar nas
relações entre eles e que são mais do que necessárias para a harmonização do turismo na
localidade.

Rubies (2001, p. 87), menciona que ―ao se imaginar as metas principais


implementadoras de uma estratégia de desenvolvimento de destino turístico, um dos
principais objetivos é melhorar a qualidade de vida da população e o território onde a
experiência ocorre‖, o que demonstra que tal processo de melhoria só poderá ocorrer,
quando os atores estiverem com o mesmo foco no planejamento territorial.

54
Assim, essas relações acabam ocorrendo dentro do território, onde a concepção mais
tradicional está vinculada à noção de Estado que, pelo fato de ser regulador das
relações, acaba por nortear as políticas voltadas ao turismo e isso representa a
concepção de poder, em que o território está relacionado, segundo Raffestin (1993, p.
97). Para ele, o território é uma ―reordenação do espaço no qual a ordem está em busca
dos sistemas informacionais dos quais dispõe o homem, enquanto pertencente a uma
cultura‖. Raffestin (1993, p. 97). Atentar para as reflexões de Raffestin sobre Estado
aonde este é fundamentado na relação de poder, território era entendido como expressão
legal e moral do Estado, refletido na conjunção do solo e do povo. Suas territorialidades
estariam associadas a identidades (nacionais) específicas. Essa posição do conceito
remete a uma concepção de poder unidimensional, o Estado é o único detentor do
poder; sendo assim, presume-se que não haveria conflitos ou tensões dentro do
território, pois não existiriam outras relações de poder possíveis. (GALVÃO, et al,
2009, p. 87)

O território, aqui delineado, é fundamentalmente um espaço definido e delimitado por e


a partir de relações de poder. A questão primordial, aqui, não é, na realidade, quais são
as características geoecológicas e os recursos naturais de uma certa área, o que reproduz
ou quem produz em um dado espaço, ou ainda, quais as ligações afetivas e de
identidade entre um grupo social e seu espaço. (SOUZA, 2012, p. 78).

Abordar T.C. em vistas a transformação espacial vertical que vem ocorrendo no litoral
nordestino, em prol do turismo de praia e sol é a base da discussão para este trabalho,
uma vez que os modelos propostos de desenvolvimento nos territórios de poder gerados
chocam-se com o discurso da sustentabilidade prevista no modelo do Turismo de Base
Comunitária, por exemplo.

Assim, a T.C. corresponde à diversidade ao entrelaçamento e a continua interação da


intimidade de sistemas e fenômenos que constituem o mundo natural. Deve ser
entendida também, por um sistema de pensamento aberto, amplo e flexível – o
pensamento complexo. Tal pensamento configura uma nova perspectiva de
compreensão do mundo, que aceita e tenta entender as mudanças contínuas da realidade

55
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

e não pretende negar a multiplicidade, a aleatoriedade e a incerteza, e sim conviver com


elas. Torres7

Dessa forma, à medida que a noção de complexidade conduz à noção de totalidade e


conjunto, pode-se dizer que uma das chaves para a sua compreensão é a de considerar as
relações com o todo e vice-versa. (RODRIGUES, 2013 et al apud MARTINS, 1998).

Utilizando-se dessa abordagem, é possível entender as inter-relações entre o todo e as


partes para a formação dos diferentes níveis de totalidades, pois existem diversas
totalidades a partir das diversas formas de organização, de estruturação e de
funcionamento, que, ao interagir, formam uma arquitetura sistêmica e é exatamente
neste aspecto que a pesquisa se encontra com a Teoria da Complexidade. Nesse ponto a
compreensão do TC para o fomento do Turismo de Base Comunitária é essencial, pois
não se faz a implementação de um modelo de gestão participativa, em que o ator
social/comunidade, não faça parte de todas as etapas do processo.

Portanto, analisar o papel do ordenamento territorial a partir do entendimento que se faz


necessário a partir da TC, ou seja, dos vários sistemas interacionados para que o turismo
possa ser fomentado de forma sustentável e que um novo modelo possa ser pensado, é
de suma importância para essa nova percepção e prática.

O LITORAL SUL SERGIPANO: REGIÃO DE ANÁLISE E POSSIBILIDADES


PARA O TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA

O litoral sul de Sergipe (Figura 01) tem no turismo uma alternativa econômica cuja
prática se viabiliza há mais de trinta anos, com influências na organização do espaço a
partir da instalação de equipamentos de usos turísticos e com a geração de novos fluxos
de pessoas com finalidade turística, embora permaneça viciado na exploração do
segmento de sol e praia, com um público que busca o diferente, o novo, não apenas em
termos de paisagens, mas essencialmente em busca de novas experiências.

7
Texto Complexidade e Liberdade, texto de José JÚLIO Martins TÔRRES, disponível em Web
Site:www.juliotorres.ws – Blog: blogjuliotorres.blogspot.com – E-mail: juliotorres@juliotorres.ws

56
Figura 01 - Litoral sul sergipano e municípios de análise

Fonte: SOUZA, A. 2015.

O planejamento regional do turismo era gerido pela Secretaria Estadual de Turismo


(SETUR) e Empresa Sergipana de Turismo (EMSETUR) com eventual participação do
setor privado e terceiro setor por meio do Fórum Estadual de Turismo (FORTUR), as
regiões/polos de desenvolvimento turístico são representadas no Fórum quem está
organizado num modelo tripartite na expectativa de reunir o poder público, setor
privado e terceiro setor, ligando os municípios ao estado para discutir e deliberar sobre
o desenvolvimento integrado e sustentável da atividade. (SERGIPE, 2009)

Este planejamento atende diretrizes do Programa de Regionalização do Turismo criado


pelo Ministério do Turismo (Mtur) em 2004, surtindo efeito em Sergipe no ano 2005
com uma divisão que contemplou cinco regiões/polos de desenvolvimento turismo:
Costa dos Coqueirais, Velho Chico, Serras Sergipanas, Tabuleiros e Sertão das Águas
conforme. Do Polo Costa dos Coqueirais é extraída a região objeto deste estudo, litoral
sul de Sergipe, abrangendo os municípios de Estância, Itaporanga D‘Ajuda, Santa Luzia
do Itanhy e Indiaroba, indicada pela seta, conforme Figura 02.

57
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 2 – Polos de desenvolvimento integrado do turismo em sergipe

Fonte: Adaptado pela autora de SETUR, 2007.

De maneira geral, ordenar o território significa conjugar a ocupação do solo e o uso dos
recursos ambientais de acordo com a capacidade que a base territorial pode suportar,
sendo necessário analisar o ambiente em suas potencialidades, vulnerabilidades e
limites. (VILAR e ARAÚJO, 2010, p. 56).

O litoral sergipano apresenta um cenário territorial diversificado, apresentando ao


mesmo tempo características urbanizadas, rurais e espaços naturais protegidos.
Entretanto, não é difícil identificar nos municípios costeiros de Sergipe intervenções
antrópicas sem o devido respeito às legislações pertinentes e sem o devido
planejamento, colocando em risco o desejado equilíbrio ambiental, agravando assim, os
conflitos e contradições presentes na estrutura territorial. (FONSECA, VILAR e
SANTOS, 2010).

58
No litoral sul belezas como o estuário dos Rios Vaza Barris, Piauí e Real são pontos de
destaque. No município de Estância destacam-se a Lagoa dos Tambaquis (Figura 03),
um clube privativo onde os peixes costumam se alimentar na beira da lagoa, servindo de
atrativo para os frequentadores do lugar que disponibiliza estrutura de bar e restaurante
para os visitantes. A Praia do Saco (Figura 04) foi considerada pela Revista Forbs, em
2009, entre as 100 praias mais belas do mundo, recebe grande fluxo de pessoas, mas a
frequência tem caído nos últimos anos pela incipiente oferta de serviços e infraestrutura
de apoio ao visitante, associado ao avanço do mar que causou destruição da maioria das
casas que beiram a praia, especialmente no trecho conhecido como ponta do Saco.
(SILVA e ALEXANDRE, 2013, p. 06).

Figura 3 – Turismo na Lagoa dos Tambaquis

Fonte: ALEXANDRE, L.M.M, 2015

59
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 4 – Praia Do Saco

Fonte: ALEXANDRE, L.M.M, 2014.

O município de Santa Luzia do Itanhy (Figura 05) é pouco explorado pelo turismo,
embora tenha elaborado seu Plano de Gestão Local do Turismo com apoio do Instituto
de Pesquisa Tecnologia e Inovação (IPTI) que também incentiva a produção associada
ao turismo como pesca e artesanato por meio de vários projetos. Ao município de
Indiaroba (Figura 06) cabe a função de principal portão de entrada do fluxo rodoviário
do litoral sul, notadamente turistas baianos, maior polo emissivo de turistas para
Sergipe. (SILVA e ALEXANDRE, 2013, p.09).

Figura 5 - Engenho São Félix

Fonte: SILVA, N.P., 2015.

60
Figura 06 – Orla do Povoado Crasto, Santa Luzia Do Itanhy

Fonte: ALEXANDRE, L.M.M, 2014.

Outra importante referência da organização do turismo na região do litoral sul sergipano


(Figura 07) é o Programa de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR), desde 1994
com intervenções e investimentos na região que vão desde a recuperação de rodovias
até a instalação de atracadouros de usos de pesca e turismo, tendo investido na área nos
últimos 10 anos cerca de R$ 40 milhões. Isso deve ser associado aos investimentos do
Ministério do Turismo nos últimos cinco anos com cerca de R$ 350 milhões,
notadamente pelos investimentos das pontes Jornalista Joel Silveira sobre o Rio Vaza
Barris, ligando a Capital Aracaju a Itaporanga D´Ájuda e, a Ponte Gilberto Amado
sobre o Rio Piauí, ligando Estância a Indiaroba, servindo para reduzir o acesso entre as
capitais de Sergipe e Bahia em cerca de 50 km viabilizando a chamada linha verde mais
próxima da costa marítima, tendo como resultado para o turismo o aumento do fluxo de
pessoas. (SILVA e ALEXANDRE, 2014, p. 10).

61
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 07 - Espacialização dos invetimentos do Prodetur

Fonte: SERGIPE, PRODETUR, 2012.

Na região analisada foi observada a existência de territórios de exploração turística que


usam como principais atrativos as travessias e passeios fluviais sobre o rio Piauí, seja
saindo de Indiaroba pelos Povoados de Terrra Caída e Pontal, normalmente com um
fluxo de turistas que utiliza como cesso a BR-101 da Bahia para Sergipe, ou pelo
município de Estância para fluxo de quem utiliza o acesso BR – 101 e ponte Jornalista
Joel Silveira (Figura 08) com origem do litoral norte no sentido ligação do Estado de
Alagoas com Sergipe, e em menor proporção pelo município de Santa Luzia para quem
utiliza o acesso da BR – 101 no sentido Sergipe – Bahia, embarcando no município de
Santa Luzia, povoado Crasto. Estes três principais acessos são responsáveis pelo
território de exploração do litoral sul que leva todo o fluxo para Mangue Seco onde foi
gravada a novela ―Tieta do Agreste‖ da rede globo de TV aberta brasileira, baseada no
romance do escritor Jorge Amado. (SILVA e ALEXANDRE, 2014, p. 10).

62
Figura 08 - Ponte Jornalista Joel Silveira

Fonte: ALEXANDRE, L. M. M., 2014.

Neste cenário aparentemente incoerente de concentração do fluxo em Sergipe para


explorar um atrativo da Bahia, porque Mangue Seco integra o município de Jandaíra –
BA, foi observado que a maioria dos prestadores de serviços do destino e proprietários
dos equipamentos de hospedagem, alimentação e lazer são sergipanos, mas não é
pretensão deste estudo tratar do assunto. (SILVA e ALEXANDRE, 2014, p. 11).

Assim, observando a dinâmica turística na região da pesquisa, pode-se observar que


para essa modalidade de turismo, o Turismo de Base Comunitária, este converge com a
proposta de Zaoual (2009, p. 54) de um ―desenvolvimento situado, que enfatiza a
dimensão simbólica dos padrões relacionais e afirma a pluralidade aonde a cultura e os
modos de vida locais são a principal motivação da visita, onde há o intercâmbio cultural
entre turismo e a comunidade‖. Dar sentido à coordenação e à atuação dos atores da
sociedade civil requer afirmar seus vínculos com espaços vividos, onde a racionalidade
se constrói in situ, tendo por horizonte a constituição de novos saberes e formas de ação
que considerem as contingências qualitativas de cada meio.

O TBC, enraizado num processo situado de desenvolvimento, é uma modalidade do


turismo sustentável cujo foco principal é o bem-estar e a geração de benefícios para a
comunidade receptora, além de ser uma atividade complementar às atividades
tradicionais já desenvolvidas e que pode ser viável na região de estudo, desde que, a

63
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

partir da instrumentalização dos atores envolvidos da comunidade e o entendimento do


sistema de turismo como um todo, se faça necessário para a inserção do mesmo como
estratégia de gestão e de um novo modelo de prática turística.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, o planejamento faz-se necessário, baseado no desenvolvimento de ações


estratégicas eficientes, a fim de amenizar, ou mesmo eliminar, se possível, a ocorrência
de impactos provocados pelo turismo de praia e sol e repensar no modelo de
desenvolvimento, partindo o TBC como modelo sustentável.

Com o objetivo de produzir os efeitos positivos esperados, como: diversificação da


economia regional, pelo estabelecimento de micro e pequenos negócios de gestão
familiar; geração de novas oportunidades de trabalho; melhoramento da infraestrutura
de transporte, comunicação, saneamento; criação de alternativas de receitas que
valorizam as atividades das comunidades locais; diminuição do impacto sobre o
patrimônio natural e cultural; redução do impacto no plano estético paisagístico;
melhoria dos equipamentos e dos bens imóveis; integração do campo com a cidade;
agregação de valor ao produto primário por meio da verticalização da produção;
redução de custos por técnicas de manejo integrado; promoção da imagem e
revigoramento do interior; e melhoria da qualidade de vida das comunidades locais e
resgate da autoestima dessas comunidades, é que acreditamos que o TBC possa ser
viabilizado estrategicamente na região em questão.

64
REFERÊNCIAS

BARTHOLO, Roberto. Sobre o sentido da proximidade: implicações para o turismo


situado de base comunitária. In BARTHOLO, Roberto; SANSOLO, Davis Gruber e
BURSZTYN, Ivan. Org. Turismo de Base Comunitária: diversidade de olhares e
experiências brasileiras. BRASIL, 2009.

BARTHOLO, R; SANSOLO, D. G; BURSZTYN, I. (Orgs.); Turismo de base


comunitária: Diversidades de Olhares e Experiências Brasileiras. Rio de Janeiro:
UFRJ, Letra e Imagem. 2009, p. 277-288.

BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo: SENAC, 2001.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo Cesar da Costa e CORRÊA, Roberto
Lobato.(org) Geografia: conceitos e temas. 15ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2012.

CUNHA, Licínio. Introdução ao Turismo. São Paulo: Verbo, 2001.

CORIOLANO, L. N. T.; Os Limites do Desenvolvimento e do Turismo. In:


CORIOLANO, L.N.T. (Org.). O Turismo de Inclusão e o Desenvolvimento Local.
Fortaleza: FUNECE. 2005 p. 13-28.

CORIOLANO, L. N. T.; O Turismo Comunitário no Nordeste Brasileiro. In: CRUZ,


Rita de Cássia. Política de Turismo e Território. São Paulo: Contexto, 2000. Coleção
Turismo Contexto.

FONSECA, Vânia; VILAR, José Wellington Carvalho; SANTOS, Max Alberto


Nascimento. Reestruturação territorial do litoral de Sergipe. In: VILAR, José
Wellington Carvalho; ARAÚJO, Hélio Mário de (Org.). Turismo, meio ambiente e
turismo no litoral sergipano. São Cristóvão: Editora UFS, 2010, 40-61.

GALVÃO, A. R. G. et al. O Território e a Territorialidade: contribuições de Claude


Ratestin In: SAQUET, M. A.; SOUZA, E. B. C. de. (Orgs.). Leituras do conceito
de território e de processos espaciais São Paulo: Expressão Popular, 2009, p.33-46.

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Moraes, 1991.

MORIN, Edgard. O problema epistemológico da complexidade. Lisboa-Portugal:


Publicações Europa, América. Biblioteca Universitária, 2001.

RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Ática, 1993.

RODRIGUES, José Manuel M. e SILVA, Edson Vicente da. Planejamento e gestão


ambiental: subsídios da geoecologia das paisagens e da teoria geosistêmica. Fortaleza:
Edições: UFC, 2013.

65
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

RUBIES, Bordas Eulogio. Improving public-private sectors cooperation in tourism: A


new paradigm for destinations. Tourism Review, 2001, v. 56, n.34.

SANSOLO, D. G.; I. BURSZTYN. Turismo de base comunitária: potencialidade no


espaço rural brasileiro In: BARTHOLO, R; SANSOLO, D. G. e BURSZTYN (Orgs.).
Turismo de Base Comunitária: Diversidade de Olhares e Experiências Brasileiras. Rio
de Janeiro: UFRJ, Letra e Imagem.2009, p. 142-161.

SERGIPE, Secretaria de Estado do Turismo – SETUR. Plano Estratégico Estadual de


Turismo 2009 – 2014. Aracaju: SETUR, 2009.

SERGIPE, Secretaria de Estado do Turismo - SETUR. Programa de Qualificação


Empresarial e Profissional para o Polo Costa dos Coqueirais. Aracaju: SETUR, 2013.
SOUZA, Acássia (2015). Mapa do Litoral Sul Sergipano. PPGEO/UFS.

SILVA, Joab A. e ALEXANDRE, Lillian M.M. Organização do Turismo Rural no


Litoral Sul de Sergipe In: ANAIS DO IX CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE
TURISMO RURAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – CITURDES:
turismo rural comunitário, estratégia de desenvolvimento. São Paulo, 2013. ECA/USP,
p. 1-17.

SOUZA, Rosemeire M. (org). Território, planejamento e sustentabilidade: conceitos


e práticas. São Cristóvão: editora UFS, 2009.

TÔRRES, José Júlio Martins. Complexidade e Liberdade. Disponível em:


http://teoriadacomplexidade.com.br/textos/teoriadacomplexidade/Complexidad
e-e-Liberdade.pdf Blog: blogjuliotorres.blogspot.com. Acessado em: 19 de junho de
2014.

VILAR, José Wellington Carvalho; ARAÚJO, Hélio Mário de. Iniciativas de


ordenamento territorial no litoral sul de Sergipe. In: VILAR, José Wellington Carvalho;
ARAÚJO, Hélio Mário de (Org.). Território, meio ambiente e turismo no litoral
sergipano. São Cristóvão: Editora UFS, 2010, p. 21-39.

ZAOUAL, Hassan. Do turismo de massa ao turismo sutado: quais as transformações?


In: BARTHOLO, Roberto; SANSOLO, Davis Gruber; BURSZTYN, Ivan. Org.
Turismo de Base Comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras.
BRASIL, 2009.

66
TURISMO DE BASE COMUNITARIA COMO FACTOR EN LA RE-
SIGNIFICACIÓN Y APROPIACIÓN DEL TERRITORIO: ESTUDIO DE
CASOS SOBRE EXPERIENCIAS DE MUJERES MAPUCHE EN LA FERIA
GASTRONÓMICA Y ARTESANAL DE LA LOCALIDAD DE POCURA,
COMUNA DE PANGUIPULLI – REGIÓN DE LOS RÍOS, CHILE

TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA COMO FATOR NA


RESSIGNIFICAÇÃO E APROPRIAÇÃO DO TERRITÓRIO: ESTUDO DE
CASO SOBRE EXPERIÊNCIAS DE MULHERES MAPUCHE NA FEIRA
GASTRONÓMICA E ARTESANAL DA LOCALIDADE DE POCURA,
COMUNA DE PANGUIPULLI – REGIÃO DOS RIOS, CHILE

Gabriela Patricia Catalán Verdugo


Licenciada en Antropología en la Universidad Austral de Chile (UACh)
Miembro del Núcleo de Investigación Acción Participante del Centro Transdisciplinario
de Estudios Ambientales y Desarrollo Humano Sostenible (CEAM-UACh)
E-mail: catalan.gabriela369@gmail.com

Resumen: El turismo y los procesos que se desencadenan de su desarrollo se ven


reflejados en la manera en que las/os habitantes de un determinado lugar perciben y
representan su territorio, entendiéndolo como un espacio apropiado desde la
transubjetividad entre los procesos históricos y las experiencias individuales. Es por esta
razón que la siguiente ponencia presenta los resultados de una investigación de tipo
cualitativa basada en el método de estudio de casos desde la perspectiva etnográfica,
con el objetivo de visibilizar experiencias de mujeres mapuche y campesinas en la Feria
Gastronómica y Artesanal de Pocura, iniciativa potencial al turismo de base comunitaria
(TBC), que a lo largo de sus ocho años de historia ha incidido en la configuración
política del territorio a través de la rearticulación organizacional de las comunidades
mapuche ancestrales y la reapropiación de espacios comunitarios. Potenciando los
sentimientos de pertenencia a la localidad e incentivando el empoderamiento
organizacional, haciendo participes a las autoridades ancestrales políticas y espirituales,
logrando que las voces sabias canten su mapuzungun 8 . Reconociendo así, las
implicancias en temas de género de la actividad turística, el carácter de resistencia del
TBC al promover el desarrollo local y develando su incidencia en la apropiación y re-
significación de territorios.

Palabras claves: Turismo de base comunitaria, re-significación, mujeres mapuche y


territorio.

Resumo: O turismo e os processos desencadeados em seu desenvolvimento são


refletidos na forma em que as/os habitantes de um determinado lugar percebem e
representam seu território, entendendo este como um espaço apropriado desde a
transubjetividade dos processos históricos e as experiências individuais. Por esta razão,
o seguinte artigo apresenta os resultados da pesquisa de tipo qualitativo baseado no
método de estudo de caso desde uma perspectiva etnográfica, que tem por objetivo fazer
visíveis experiências de mulheres mapuche e camponesas da Feria Gastronômica e

8
Lengua mapuche, mapu: tierra / zungun: forma de decirse o hablar.

67
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Artesanato de Pocura, inicativa potencial ao Turismo de Base Comunitária (TBC), que


em seus oitos anos de história tem incidido na configuração política do território por
meio da rearticulação orgânica das comunidades mapuche ancestrais e a reapropriação
dos espaços comunitários. São potenciados os sentimentos de pertença ao local e
incentivando o empoderamento da organização, fazendo participar as autoridades
ancestrais, políticas e espirituais, conseguindo que as sábias vozes cantem seu
mapuzungun. Reconhecendo assim, as implicâncias em temas de gênero da atividade
turísticas, o carater da resistência do TBC ao promover o desenvolvimento local e
revelando a incidência na apropriação e ressignificaçao dos territórios.

Palavras-chave: Turismo de base comunitária, ressignificação, mulheres mapuche e


território.

INTRODUCCIÓN

E
s una realidad reconocida por muchas/os investigadoras/es, que el turismo ha
incidido y sigue incidiendo en la manera en que los territorios son vividos,
sentidos y significados. En cómo sus habitantes se posicionan en un espacio
geográfico, de la mano de los mismo procesos histórico sociales que van transformando
las representaciones que construyen en el habitar, entendiendo el territorio como el
espacio apropiado transubjetivamente. En donde, las experiencias colectivas e
individuales se entrelazan a un contexto social más amplio, que va determinando el
acontecer de un espacio social.

El desarrollo de la actividad turística, que se reconoce como un factor que incide en la


construcción de sentido de los territorios, involucra aspecto muchas veces negativos
desencadenantes de conflictos económicos, políticos, sociales y ambientales para las
comunidades receptoras del llamado turismo de masas, el cual incentiva la exotización
de la misma cultura, relativizando la realidad local y desarrollándose en base a intereses
y necesidades ajenas, generando problemáticas en temas de contaminación,
sobrepoblación y dependencia, entre muchos otros, privatizando lucros a corto plazo y
socializando perjuicios a mediano y largo plazo (SAMPAIO en POZAS y HENRÍQUEZ,
2013). Por lo que es importante que el turismo comience a ser apropiado por las
comunidades locales y sus habitantes, transformándolo en una actividad que responda a
sus necesidades y sea acorde a la realidad local, convirtiéndolo en una herramienta para
la visibilización de actores y conflictos locales, propiciando así la defensa de los
territorios.

68
Es por eso, que esta ponencia presentada al simposio Geografía, Turismo y Cultura:
Diálogos entre territorios, territorialidades, sociedad y naturaleza en Brasil y América
Latina, tiene como propuesta visibilizar experiencias de mujeres mapuche y campesinas
en una iniciativa potencial al turismo de base comunitaria, considerando por un lado las
implicancias en temas de género de la actividad turística y por otro, su incidencia en la
apropiación y re-significación de territorios. En base a la presentación de los resultados
de una investigación de tesis para la obtención del grado de licenciatura en
antropología9. Cuya metodología fue de tipo cualitativa, basada en el método de estudio
de casos, que a través de la perspectiva etnográfica en el trabajo de campo tuvo como
objetivo principal analizar las significaciones – a nivel individual, organizacional y
territorial – de un grupo de mujeres mapuche y campesinas sobre su experiencia en la
Feria Gastronómica y Artesanal de Pocura, organizada por la Asociación de Pequeños
Agricultores y Artesanos de la misma localidad, ubicada a orillas del lago Calafquén, en
la Comuna de Panguipulli – Región de Los Ríos. Realizando para ello entrevistas semi-
estructuradas a informantes claves y dinámicas grupales, participando también de las
actividades que la iniciativa realizaba, para así conocer de primera fuente sus
experiencias y significaciones.

Teóricamente la investigación estuvo centrada en la comprensión del turismo de base


comunitaria (POZAS y HENRÍQUEZ, 2013), desde la perspectiva de género para
aproximarnos a la manera en que mujeres y hombres viven individual y colectivamente
el turismo, considerando que este no es neutral en términos de género (MORENO,
2013). Relacionado también a la construcción de identidad de mujeres mapuche y
campesinas, a través del análisis de sus roles e identidad de género femenina, étnica y
territorial, tanto desde su posicionalidad, propuesta por Alcoff (1989) y experiencia,
desde lo planteado por Lauretis (1984). Sumando las definiciones de asociatividad
(CHAGUACEDA, 2008) y desarrollo local – territorial rural (TALLERA y SANZ,
2010), para referirnos a las nociones de territorio que proponen Giménez (1996), Bello
(2010) y Vergara (2012). Lo que será planteado en el apartado sobre el marco teórico.

9
La investigación se enmarca en el proyecto INNOVA CORFO 13 PDTR-23946. Programa de
Transferencia Tecnológica, Turismo de Intereses Especiales y Desarrollo de Base Local en el Destino
Siete Lagos.

69
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

De acuerdo a los resultados del trabajo investigativo se reconocieron aspectos que


caracterizan a la Feria Gastronómica y Artesanal de Pocura como un espacio potencial
al turismo de base comunitaria, organizado inicialmente por las comunidades de la
localidad, para la comercialización de productos locales, en donde trabajan
principalmente mujeres que se identifican como mapuche y campesinas, convirtiéndose
en un espacio de re-encuentro para ellas. Quienes tienen como historia en común, el
haber migrado cuando niñas a otras ciudades y regresar una vez adultas a la localidad de
origen, antecedente relacionado a su construcción identitaria y a su vinculación con las
comunidades mapuche ancestrales y funcionales del territorio, quienes tienen una activa
participación en los quehaceres de la organización. Es en este contexto en el que la Feria
se define como un espacio asociativo y de trawün10, donde confluyen y median diversos
actores del territorio –familias, comunidades mapuche, organizaciones locales e
instituciones públicas y privadas–, que han ido nutriendo las experiencias y
significaciones de quienes son parte de la organización, producto de diversos procesos
que han tenido a la Feria de Pocura como escenario, destacándose la revitalización y re-
articulación organizacional de las comunidades mapuche del territorio.

De igual manera, la investigación estuvo centrada en la significación de la propia


experiencia, que va más allá de las vivencias individuales, abarcando también la
relación con la colectividad y al territorio habitado. Tres niveles que se entrelazan en lo
transubjetivo de la historia de vida y el acontecer histórico - social. Además, al
preguntarnos por las significaciones, el interés de la investigación está centrado en las
experiencias y en el sentido que se les dan a las mismas, como parte de un proceso de
significación constructivo y dinámico de un grupo de mujeres que participan
activamente en el quehacer organizacional y territorial de la localidad. Donde el turismo
y proyectos e intervenciones de equipos académicos y técnicos, organizaciones locales,
instituciones públicas y privadas, son reconocidos como factores constructivos y
dinamizadores del quehacer social dentro de localidades rurales como Pocura, la cual se
encuentra fuertemente influenciada por la actividad turística, siendo esta la principal
fuente de ingresos económicos. Por lo que una aproximación interdisciplinaria con un
enfoque etnográfico se hacen una herramienta necesaria para la comprensión de las

10
Término en mapuzungun que hace alusión a los espacios – lugares de encuentro.

70
realidades locales muchas veces ignoradas, develando también actores invisibilizados
que cumplen roles de suma importancia para el desarrollo local y territorial.

Presentando entonces a continuación un artículo estructurado en base a la exposición de


los antecedentes para aproximar al lector/a a la realidad estudiada, considerando el
marco teórico que fundamenta la investigación y posteriormente los resultados de la
misma, haciendo énfasis en los niveles de significación anteriormente planteados,
cruzando cada uno de los aspectos a analizar con citas de informantes claves, indicando
las iniciales de su nombre y la fecha de realización de la entrevista, para así dar énfasis a
la veracidad y rigor del análisis de los resultados.

ANTECEDENTES

La localidad de Pocura se ubica en la ribera noreste del Lago Calafquén y pertenece al


distrito de Coñaripe, sector precordillerano de la comuna de Panguipulli en la Región de
Los Ríos.

Como se observa en la figura 1, la localidad se encuentra próxima al Parque Nacional


Villarrica, núcleo de conservación de importante interés turístico, siendo el volcán uno
de los ejes centrales para la configuración del territorio, tanto geográfica como
culturalmente.

71
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Punto del cual nacen los ríos y esteros que alimentan las tierras de Pocura, llegando su
mayoría al Lago Calafquén. También se observan los límites políticos de la localidad,
colindando por el sur con la localidad de Traitraico y por el norte con la región de la
Araucanía.

Pocura tiene una población de 1.134 habitantes según el censo del 2002, contando con
una alta población mapuche (cuadro 1.), existiendo en el territorio dos comunidades
ancestrales y cinco comunidades indígenas de carácter funcional11.

Cuadro 1. Antecedentes demográficos


Total Total Total Total
Localidad Población Población hombres mujeres
Pocura Mapuche
1.134 66,4% 51,9% 48%

Fuente: Censo de Población y Vivienda 2002. Versión Redatam. Elaboración propia.

La localidad de Pocura, cuyo nombre original es Epu Huanlen Kurra o Epukura: dos
piedras, se compone por dos comunidades ancestrales, la comunidad Juan Chañapi y la
comunidad Ramón Chincolef. Ambas comunidades han logrado establecer y respetar
sus límites territoriales, mediante la localización de hitos naturales, como por ejemplo
los esteros Ñilfe y Komenahue. Además, colindando con el Volcán Villarrica y el
Parque Nacional del mismo nombre por el Noreste y con el Lago Calafquén por el
Suroeste, tal como se aprecia en la figura 2. Por su parte, la comunidad Juan Chañapi
colinda por el Este con la localidad de Traitraico y el cerro Milimili, mientras que la
comunidad Ramón Chincolef colinda por el norte con el flujo lávico o muro de lava del
sector Challupen, siendo este un límite político administrativo entre la región de Los
Ríos y la Araucanía.

A lo largo de los años, se han ido conformando una serie de comunidades jurídicas y/o
funcionales: Manuel Marifilo, Lluncura, Nepu, Emilio Epuñanco y Clemente
Cheuquepan.

11
Catastro CONADI de Comunidades Comuna de Panguipulli.

72
El territorio que abarca la localidad de Pocura se compone por una serie de espacios e
hitos naturales de gran significación cultural; cursos de agua como ríos, lagos y esteros,
cerros como el Rucañanco, Malancura y el Mili Mili, asociados a la mitología de Kai
Kai y Treng Treng, que cuenta la historia del momento en que la serpiente Kai Kai
provocó enormes lluvias y tormentas, diluvio que inundaría toda la tierra, momento en
el cual los mapuche abrían subido a la cima de los grandes cerros auxiliados por la

73
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

serpiente Treng Treng, comenzando una feroz batalla entre ambos seres, tal como nos
relata la presidenta de la Asociación de Pequeños Agricultores y Artesanos de Pocura.

“Mira, el cerro es el Malancura que está en la comunidad Juan


Chañapi,… dicen que fue como el arca de los mapuches cuando fue el
diluvio, ese cerro se erguía para que los mapuches se salvaran”
(M.E.P, 31/3/14).

En relación a espacios ceremoniales en Pocura se reconocen en la actualidad lugares de


juego de Palín12, cementerios y pampa de nguillatún13. Este último, perteneciente a la
comunidad Juan Chañapi, ha intentado mantenerse resguardado de la intervención de
personas ajenas al territorio, cuya ubicación en el espacio no es nunca azarosa, al estar
vinculada a la sacralidad y ancestralidad de determinados lugares. Además, la pampa
del nguillatún se asocia, tal como sucede en otros territorios, a cuerpos de agua o a hitos
geográficos relacionados a cerros. Como menciona una de las socia de la Feria de
Pocura.
“El campo de nguillatún está arriba del estero “el Claro” que le
dicen Coicoico, como le llaman en mapuche, acá el estero y arriba el
cerro Rucañanco. Ahí se hace la ceremonia… en ese lugar van a
entregar algunas ofrendas y van a hacer rogativas ´nguillatucar`, una
vez al año” (P.L, 4/4/14).

La ceremonia de Nguillatún se realiza todos los años, siendo organizado cada año por
una familia distinta, con un significado asociado a las necesidades del momento, como
por ejemplo, pedir por un ser querido fallecido, pedir por las siembras, por la salud, etc.
La ceremonia dura entre dos y tres días, procediendo a sacrificar a un vacuno,
generalmente donado por la familia convocante de cada año, el cual es quemado y
entregado como ofrenda.
“Todos los años acá en Pucura, todavía se hacen nguillatun y se
sacrifica un animal. Un vacuno, animales colorados siempre, no
puede ser cualquier animal, porque es una tradición contra todos los
males, entonces se supone que se quema todo lo malo, rojo que
representa el fuego” (P.L, 4/4/14).

Estos relatos y descripciones de los componentes socioculturales de la localidad de


Pocura, hacen evidente la vinculación que actualmente tienen con ancestralidad
mapuche. Reconociendo otras tradiciones que se han ido perdiendo producto de

12
El Palín o chueca (nombre que le designaron los españoles) es un juego ritual, realizado en contexto de
festividades o guerra como entrenamiento.
13
El Nguillatún es una ceremonia de rogación realizada en la pampa o campo de nguillatún de una
comunidad o lof, donde se instala el rehue, realizando rituales, rogativas y purrun (danza) a su alrededor.

74
procesos de trasculturación, tal como la celebración del wetripantu o año nuevo
mapuche, que marca el solsticio de invierno y el inicio de los tiempos de siembra,
celebrando los ciclos de la tierra que permiten las nuevas cosechas en primavera y por
ende su auto-subsistencia. Tradición mapuche que se ha comenzado a potenciar dentro
de las mismas actividades desarrolladas por la Feria Gastronómica y Artesanal de
Pocura.

Esta iniciativa y organización se emplaza a orillas del Lago Calafquén, funcionando


hace ocho años gracias al trabajo colaborativo de las/os integrantes de la Asociación de
Artesanos y Agricultores de Pucura, conformado por 12 socias, principalmente por
mujeres de origen mapuche, de edades entre los 25 a 70 años. Quienes cada verano
comercializan diversos productos, tales como artesanía en lana y madera, gastronomía
típica campesina, cosmetología natural, plantas ornamentales y medicinales. Siendo una
organización de carácter funcional, cuya finalidad es articular diversas familias
mapuches de la localidad de Pucura en la búsqueda de nuevas estrategias de desarrollo
económico que permitan mejorar su calidad de vida.

Desde el año 2011 en un acuerdo con el Ministerios de Bienes Nacionales se les entrega
en comodato una superficie de terreno a orillas de la playa, en donde el año 2008 por
decisión de las comunidades ancestrales y funcionales de la localidad se construyen
puestos para comenzar a dar forma a un espacio dirigido a la comercialización de
productos locales. Inicios que estuvieron marcados por las precarias condiciones en las
que trabajaban, careciendo de luz y agua por aproximadamente tres años. Así con
mucho trabajo y esfuerzo han dado vida a la Feria de Pocura, que año a año ha logrado
una mayor valoración por parte de los visitantes y habitantes de la zona, principalmente
por las comunidades mapuches y sus autoridades políticas ancestrales.

75
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Durante el año 2013, se organizaron actividades que tenían la finalidad de potenciar el


trabajo mucho más allá de la temporada de verano. Tales como la celebración de
Wetripantu, siendo la primera vez en que la feria se organiza en torno al año nuevo
mapuche, como una instancia importante para el refuerzo de su identidad cultural y el
rescate de tradiciones, que producto de procesos de transculturización se han ido
perdiendo. También, se han embarcado en la idea de realzar aquellos elementos
tradicionales de su territorio a través de la primera Fonda del Digüeñe14, recuperando
conocimientos propios de la zona. Reconociendo en la Feria de Pucura un espacio de
encuentro no sólo para las y los participantes de la Asociación, sino también para las y
los habitantes de la localidad, que aprovechan instancias como la celebración del
Wetripantu para reconocerse como mapuches, recordar prácticas y costumbres
ancestrales. A lo que se suma, al ser también una iniciativa dirigida al turismo, la
posibilidad de dar a conocer a las y los visitantes la realidad de familias mapuche y
campesinas del sur de Chile.

Por otro lado, en la localidad se está desencadenando actualmente un proceso de


recuperación territorial y articulación organizacional de las comunidades mapuches
ancestrales y funcionales presentes en el territorio y la conformación de una mesa
coordinadora. Destacando que el terreno en el que se emplaza la Feria de Pocura es un
territorio en recuperación, perteneciente por titulo de merced a la comunidad ancestral

14
El digüeñe (nombre científico: Cyttaria espinosae), un hongo ascomicete naranja
blancuzco comestible endémico del centro-sur de Chile.

76
Juan Chañapi. En donde se generaron una serie de conflictos con el club deportivo La
Joya, la municipalidad de Panguipulli y Bienes Nacionales. Situación que en definitiva
generó el reconocimiento de la Feria como un espacio de las propias comunidades
mapuche.

De esta manera, la Asociación de Agricultores y Artesanos de Pocura se caracteriza por


presentar elementos de cooperación, solidaridad, producción y comercialización de
productos locales entre otros, realizando actualmente actividades que son potenciales
para iniciar una iniciativa de turismo de base comunitaria, a la mano de un organización
que tiene como objetivos; la comercialización de productos locales, rescatar su
identidad (lengua, tradiciones, prácticas, cosmovisión etc.) y ser un espacio de
encuentro para la localidad y sus habitantes. Aspirando a ser un espacio de encuentro
también para las futuras generaciones, posibilitando una fuente de trabajo evitando que
se vean en la obligación de dejar su localidad. Destacándose además, la oportunidad que
tienen las mujeres participantes de la Feria Gastronómica y Artesanal, de generar
ingresos propios y ser consideradas como legitimas representantes de las comunidades
mapuches y su territorio.

MARCO TEÓRICO

El enfoque teórico de la investigación se enmarca en la antropología del turismo


entendiendo este como un fenómeno de transformación social y cultural (LÓPEZ,
2007). Disciplina que se ha centrado en responder cuestiones relacionadas con la
dinámica e impactos del contacto intercultural entre turistas y sujetos locales, la
representación de la cultura en los escenarios turísticos, los estereotipos étnicos
construidos y manipulados por el turismo, el cambio de los valores culturales una vez
mercantilizados y las relaciones de poder en el contexto del turismo internacional,
abarcando desde los procesos concretos de cambio cultural hasta las dimensiones
simbólicas de la experiencia turística (SALAZAR, 2006). Considerando también, el
turismo de base comunitaria como una estrategia de sobrevivencia y comunicación
social, de conservación de modos de vida, preservación de la bio-diversidad y de
defensa para los territorios, organizada asociativamente en un territorio, desarrollándose
de manera integrada con las demás actividades productivas, como la agricultura y la

77
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

artesanía, priorizando la generación de trabajo para moradores locales y fortaleciendo la


dinamización del capital local, asegurando la participación comunitaria mediante la
planificación descentralizada y asociativa (COROLIANO 2006 EN POZAS y
HENRÍQUEZ, 2013).

A lo anterior, es importante incluir la perspectiva de género, que analiza cómo mujeres


y hombres contribuyen, experimentan y se ven afectados o beneficiados, de forma
individual y/o colectiva por el desarrollo del turismo, considerando que este no es
neutral en términos de género (MORENO, 2013). Constituyéndose como un
herramienta esencial para su gestión y desarrollo, pues hace que las preocupaciones y
las experiencias – de mujeres y hombres– sean parte integral del diseño, la
implementación, el control y la evaluación de todas las políticas y los programas en
todos los ámbitos del turismo (OMT-ONU Mujeres, 2010). Abarcando el tema de la
construcción de identidad de mujeres mapuche y campesinas desde lo planteado en
relación a los roles e identidad de género femenina, étnica y territorial, proponiendo el
concepto de posicionalidad de Alcoff, (1989) y a la experiencia de Lauretis, (1984)
como sus elementos constitutivos (RIQUER, 1992). Sumado a la noción de
empoderamiento definido por Gita Sen (1998) en Senso (2009) como el cambio en las
relaciones de poder y la habilidad para tomar decisiones en cuestiones que afectan la
vida de una persona, en base a tres nociones: lo personal, el desarrollar el sentido del yo
y la confianza.

Incluyendo lo relacionado a la asociatividad para definir a la Feria de Pocura como un


espacio asociativo y de trawün, entendido como las formas –relativamente– autónomas
de agrupamiento y acción colectiva, ajenas a la institucionalidad política y económica,
que canalizan la actividad voluntaria de los ciudadanos en distintas esferas de interés
particular, caracterizadas por lógicas de reciprocidad, solidaridad, cooperación,
autogestión, cohesión social y defensa de identidades comunes (CHAGUACEDA,
2008). Proponiéndolo así como una herramienta para el desarrollo local y territorial
rural, a través del cual se reconoce al territorio como escenario para el desarrollo, el que
debe ser pensado desde lo local, vinculando y haciendo participes al conjunto de
actores, enfatizando su impacto social por sobre el aumento de producción o el
crecimiento económico. Que además propicia la generación de actividades económicas-
productivas que contribuyen a mejorar principalmente la calidad de vida de los

78
habitantes de los territorios rurales. Desde una visión crítica del modelo actual de
desarrollo, que actúa bajo una racionalidad instrumental y paternalista, de-construyendo
la verticalidad de las relaciones de poder (SALAZAR, 2006) para así promover una real
inclusión, participación y acción de las sociedades locales (TALLERA y SANZ, 2010).

Por otro lado, como propone Nelson Vergara (2012) el territorio es entendido como
espacio apropiado, hecho propio, un espacio de identidad y de historia, cuya
consistencia fundamental es ser un sistema de significaciones y como tal un sistema de
interpretación. Para Álvaro Bello (2010) el territorio no es una realidad ajena a la
historia y a las prácticas de los sujetos, sino que se trata de una realidad creada
transubjetivamente a partir de la apropiación y representación que las personas hacen
del espacio. Otros autores como Castoriadis (2005), citado por Vergara (2012) plantea
que el territorio es una realidad histórico-social, que emerge creativamente desde la
subjetividad de la experiencia colectiva, experiencia en que sociedades y comunidades
se reconocen en una relación que podemos llamar condición de territorialidad, que les
permite representarse unos respecto de otros y de sí mismos, es decir identificarse y
diferenciarse a la vez. A lo que es importante agregar que el territorio está lejos de ser
un espacio ―virgen‖ indiferenciado, armónico y "neutral" que solo sirve de escenario
para la acción social o de "contenedor" de la vida social y cultural, sino que se trata de
un espacio valorizado sea instrumentalmente o culturalmente, dinámico y conflictivo
(GIMÉNEZ, 1996).

En este sentido, la aproximación a los territorios se fundamenta en las concepciones y


valoraciones que hacen de ellos sus propios habitantes, pero también los territorios son
el resultado de la construcción de conocimientos. Por lo que podemos decir, según
Claval (2002), que "en cierta manera el espacio se asemeja a un texto, puesto que está
cargado de mensajes que le confieren un sentido y significado. Quienes lo modelan,
intentan plasmar en su realidad sus perspectivas, sus sueños y esperanzas" (THER,
2012).

Es así, que la identidad territorial es entendida como el reconocimiento colectivo


implícito y explícito de una trama de significados y sentidos propios de un tejido social
especifico (BENEDETTO, 2006 en RANABOLDO, 2007), adquiridos por la mediación
de la condición de habitantes de un lugar en una unidad espacial condicionada por

79
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

recursos particulares y factores ambientales, políticos, económicos, sociales, etc.


Involucrando, las formas de valorar, pensar, organizar y apropiarse del entorno, que
conforman una ―ordenación cultural del territorio‖ cuyas tramas de referencia están
limitadas geográficamente. Construidas en el tiempo y espacio habitado y son el
resultado de una temporalidad concebida históricamente (MORAGA, 2009).

PRESENTACIÓN DE RESULTADOS

En el transcurso del trabajo investigativo se reconocieron aspectos que caracterizan a la


Feria Gastronómica y Artesanal de Pocura tanto desde las experiencias individuales y
colectivas como territoriales, en base a las significaciones que mujeres mapuche y
campesinas le otorgan a la organización e iniciativa. Considerando como importante los
tres niveles de análisis: individual, organización y territorial, ya que para hacer
referencia a cómo las/los habitantes de la localidad construyen los sentidos que le dan a
su territorio, se deben considerar desde las vivencias más personales hasta el acontecer
social más amplio, ya que se autodeterminan mutuamente y se entrelazan a lo que la
actividad turística va desencadenando en las personas, organizaciones y territorios que
se ven involucrados. Presentando a continuación los resultados de la investigación,
ahondando en aquellos aspectos que involucra esta ponencia.

SIGNIFICACIONES A NIVEL INDIVIDUAL

De las experiencias analizadas, es posible determinar que la Feria de Pocura ha


significado un espacio de trabajo, empoderamiento y re-significación de roles de género
para las mujeres de la localidad. Lo que se manifiesta en la adquisición de herramientas
y capacidades personales que les han permitido gestionar la iniciativa, lo que incide en
la apreciación que tienen de sí mismas y en el cómo son vistas por sus pares,
aumentando su autoestima y confianza. Así, el empoderamiento retrata la manera en que
ellas mismas se significan, ampliando sus capacidades y otorgando realce a su quehacer.
Reflejado en la posibilidad de tener un trabajo remunerado que les proporciona los
recursos económicos necesarios para mantener a sus familias, otorgándoles
independencia económica. También se refleja en la capacidad de tomar decisiones sobre

80
los ingresos que adquieren, ampliando las posibilidades de acción que antes habían sido
limitadas.

Además, se reconoce a la Feria de Pocura como un espacio en donde se manifiesta un


tripe rol de género: reproductivo, productivo y de gestión. Los que son re-significados
en relación a aquellas conductas construidas culturalmente. En donde las actividades
públicas y políticas se ven contrapuestas a nociones estereotipadas de lo que una mujer
debe ser y hacer. Roles que se entrelazan unos a otros, manifestándose en torno a una
actividad común para muchas mujeres de la localidad de Pocura, ampliando así las
posibilidades de acción, otorgando realce a actividades antes invisibilizadas.

Considerado a la Feria un espacio en donde, por un lado se extienden actividades que


son propias del ámbito doméstico, convirtiendo el cocinar, tejer y ―huertiar‖ 15 en
posibles productos dirigidos a la comercialización. Por otro, estos son dispuestos a la
venta como gastronomía y artesanía, en una feria que tiene como fin la generación de
ingresos económicos en base a la venta de diversos productos gastronómicos y
artesanales a las/los turistas que visitan su iniciativa, remunerando así el trabajo
reproductivo. A lo que se suma, las labores desempeñadas en la organización, que están
dirigidas a la gestión y desarrollo de la misma, trabajo público que ha adquirido un
carácter político, por el rol como gestoras y dirigentas de una iniciativa que va más allá
de comercialización, que está fuertemente vinculada a las comunidades mapuche, a las
autoridades ancestrales y al territorio en general.

De muy similar manera, la Feria ha significado un espacio de aprendizaje y una razón


para quedarse en el territorio, para mujeres que tienen en común procesos migratorios
de muy jóvenes a centro urbanos como Santiago o Concepción, producto tanto de las
erupciones del volcán Villarrica el año 1971 y 1984, como por razones familiares y la
búsqueda de una fuente laboral, entre otro motivos. Fenómeno que marca al mundo
rural y la vida de muchas mujeres, quienes luego de haber formado familia y haber
criado a sus hijos/as, regresan a sus lugares de origen. Reconociéndolas en la dinámica
de ―ida y venida‖ entre el mundo rural y urbano (ARAYA, 2004), lo que genera un
distanciamiento con el contexto rural sin perder del todo el arraigo con sus
comunidades y territorio. Para quienes, la actividad turística ha significado la

15
Termino coloquial relacionado al trabajo en la huerta.

81
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

posibilidad de encontrar una fuente laborar, al llegar al espacio rural del que se han
mantenido distanciadas por bastante tiempo, permitiéndoles reincorporarse a la vida en
el campo, restablecer su vinculo con sus familias y comunidades a las que pertenecen,
reencontrándose con su propia historial. Generando un sentido de pertenecía al
territorio, construyendo su identidad en base a la posicionalidad (Alcoff en Riquer,
1992) y a su experiencia (Lauretis, 1984), que determinan la manera en que cada
vivencia es sentida e interpretada por ellas.

SIGNIFICACIONES A NIVEL ORGANIZACIONAL

Sumado a lo anterior, la Feria de Pocura también es entendida como un espacio


asociativo y de trawün, un punto de encuentro para ellas mismas, en donde se reconocen
unas a otras como compañeras de una iniciativa en la que a través del trabajo
mancomunado les permite generar ingresos económicos indispensables para ellas y sus
familias. Fin en común, que las hace reunirse y conocerse. Re-encontrarse con
amistades de infancia, con sus vecinas o familiares, con quienes se comparte un
territorio, para pasar a entablar lazos afectivos, convertirse en amigas y compañeras.
Apoyarse en los momentos difíciles y aprender en conjunto, adquiriendo herramientas
vitales para el desarrollo personal de cada una. Colaborar en el trabajo de la otra,
ayudándola a comercializar sus productos, cuidando a sus hijos/as de forma colectiva.
Creciendo como organización, sintiéndose parte de la misma y construyendo sentido de
pertenencia, elemento que revitaliza identidades, con sus congéneres, sus raíces, su
historia y su territorio.

Siendo así, un espacio vital para la construcción de identidades, de género, étnica y


territorial. Pasando a ser mujeres, que al ser parte de la Asociación de Agricultores y
Artesanos y de la Feria de Gastronómica y Artesanal de Pocura, comienzan a ser
reconocidas y valoras por las comunidades a las que pertenecen, adquiriendo y
potenciando su rol como gestoras políticas en el territorio.

82
SIGNIFICACIONES A NIVEL TERRITORIAL

En base a todo lo mencionado, la Feria de Pocura también es reconocida como un


espacio económico, social y político, en donde diversidad de actores – tales como las/os
socias/os de la Asociación de Agricultores y Artesanos de Pocura, familias y vecinos/as
de la localidad, las comunidades mapuche ancestrales y funcionales, organizaciones
locales, instituciones públicas, como la Municipalidad de Panguipulli, Bienes
Nacionales, INDAP, FOSIS, SERNATUR y universidades – han sido participes de los
procesos que han hecho que quienes son parte de la organización, dentro de todo,
signifiquen su experiencia también territorialmente. Reconociendo una vinculación
directa entre la Asociación, las comunidades mapuches ancestrales/funcionales y el
territorio, en donde la actividad turística potencial de base comunitaria juega un
importante rol.

Como se menciona en uno de los apartados anteriores, la Feria es reconocida como un


espacio asociativo y de trawun, para quienes la asociatividad es una herramienta para el
trabajo mancomunado dirigido a todos los aspectos que involucra la gestión y el
desarrollo de la iniciativa. Como un espacio en el cual ellas se comprometen a rescatar
su historia e identidad local y promover trabajo que posibilite a las futuras generaciones
tener una fuente laboral, impulsando y fortaleciendo las economías locales y
promoviendo el resguardo de prácticas organizativas tradicionales, conformando y
realzando identidades colectivas, donde las mujeres mapuche construyen su identidad
en base a experiencias organizacionales que las hacen re-significar lo que es ser mujer
mapuche y campesina.

Además, la Feria Gastronómica y Artesanal como espacios asociativos/ espacio de


trawün, propicia el re-encuentro no sólo de quienes participan de la iniciativa y sus
familias, sino que para la localidad en su conjunto. Donde se construye sentido de
pertenencia tanto a una organización como al territorio, comenzando a ser significada
por las/os habitantes de Pocura como espacio comunitario de recreación y
esparcimiento. En una localidad donde casi el único lugar de libre acceso a la playa del
Lago Calafquén es la feria, convirtiéndose así ―es un espacio de encuentro para las
familias y las amistades…un espacio de recreación para la comunidad” (M.H,
28/7/14).

83
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

La reapropiación de espacios comunitario es de suma importancia si se quiere conservar


el derecho al acceso y al uso de lugares de recreación, como es en este caso la playa del
Lago Calafquén, en localidades que han sido prácticamente invadidas por casas de
segunda residencia y centro vacacionales, que han prohibido el libre acceso de las/os
propios lugareños. Lo que viene ocurriendo desde los procesos de mensura y división de
tierra, con la construcción de la carretera que une Coñaripe y Licanray en los años 80. A
lo que se suma, las expropiaciones de orillas de lago acontecidas durante la dictadura
militar y los arriendos a noventainueve años como compras irregulares e ilegales de
grandes hectáreas de terreno, fragmentando así el territorio de los Lof y formando las
actuales comunidades como reducciones impuestas por el Estado. Lo que los ha
relegando a zonas más aisladas y reduciendo notablemente aquellos espacios de
encuentro y esparcimiento, manteniéndose resguardada hoy en día la pampa de
Nguillatún de la Comunidad Juan Chañapi.

Todo esto influye en que la Feria sea significada como un espacio de re-encuentro para
todo el territorio, potenciando los sentimientos de pertenencia a la localidad habitada y
facilitando que vecinos/as puedan re-encontrarse, conocerse y compartir, en un
ambiente familiar y comunitario.

“Si tú te encuentras con tu vecina con tu familiar, con tu hermana, y


pasas para allá para el lago y después te pasas a tomar unos mates a
comer unas sopaipillas, te vas a sentir distinto, no vas a sentir que eso
es ajeno a ti” (S.M, 24/7/14).

En relación a lo mismo, el hecho de que el terreno en el que se emplaza la Feria de


Pocura sea casi el único acceso libre a la orillas de lago – a excepción de la costanera de
la localidad que en veranos se ve repleta de turistas – lo hace un lugar apetecible
económicamente. Surgiendo intereses por vender o arrendar dicho espacio, esto
percibido por las socias/os tras el actuar del Club Deportivo ―La Joya‖ y la
Municipalidad de Panguipulli, durante los conflictos acontecidos en el transcurso del
año 2013, producto de la adjudicación de un comodato que no respetaba lo entregado a
la Asociación de Agricultores y Artesanos el año 2011. Sumado a la supuesta promesa
de arreglo de los antiguos puestos de la Feria, quedando esto en nada y a la posterior
destrucción de lo que las socias habían construido para realizar la Fonda de los
Digüeñes en septiembre del año antepasado.

84
Es en este contexto de conflicto en el que las comunidades de la localidad empiezan a
tomar un rol protagónico en la defensa de la Feria de Pocura, acordándose la restitución
del comodato a la Asociación y el futuro traspaso del terreno a la comunidad Juan
Chañapi, a quienes pertenece por titulo de merced. Acompañado del proceso de
restablecimiento de las buenas relaciones, que se comienza a desencadenar desde
inicios del 2012, realzando el histórico vinculo que la organización ha tenido con las
comunidades, recordando que en sus orígenes parte como una iniciativa propuesta y
organizada por las mismas.

“Mira este espacio es un espacio que fue una conquista de las


comunidades, en principio de la comunidad Juan Chañapi que
reivindicaron este espacio y se plantearon el proyecto de
comercialización de productos… cada comunidad coloco a su gente
ahí y eso es lo yo creo que es la Feria en el fondo, un punto de
comercialización en la que casi todas son mujeres de las comunidades
aledañas al lago y al volcán sienten que no son ajenas al territorio”
(M.L, 3/8/14).

Es así, como la Feria de Pocura comienza a ser reconocida como un espacio físico,
social político-territorial de las propias comunidades, siendo estas las que comienzan a
guiar el desarrollo y gestión de la organización, dando luces y direccionando sus
objetivos y aspiraciones hacia una visión de desarrollo local y territorial rural.
Comenzando así un proceso de re-articulación y revitalización territorial de las
comunidades ancestrales y funcionales de la localidad.

“Todo lo malo que nos sucedió repercutió en algo bueno para las
comunidades, porque las comunidades tomaron fuerza, se levantaron,
se organizaron y se unieron. Porque las comunidades nos dejaron
estar ahí” (M.E.P, 28/7/14).

Situación conflictiva que desencadenó un fortalecimiento organizacional y territorial de


la localidad, pasando a ser una Feria Gastronómica y Artesanal Mapuche, aspecto que
va más allá de los productos que se comercializan y la procedencia de los mismo, ya
que no es un espacio ajeno al territorio, sino un espacio de re-encuentro territorial,
asociativo y de trawun.

Estas características que se destacan hoy en día, están relacionadas a los orígenes
mismos de la Feria, ya que como se ha mencionado, esta iniciativa surge de una
decisión tomada por las propias comunidades, considerando también a las autoridades

85
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

políticas y ancestrales, quienes vieron en la feria una posibilidad para mejorar la calidad
de vida de sus habitantes. Aspecto que incentiva un proceso de pertenencia y arraigo de
las mujeres mapuche y campesinas participantes de la organización, como
representantes legítimas de las comunidades, siendo para ellas un factor de
empoderamiento personal y organizacional.

TURISMO DE BASE COMUNITARIA: HERRAMIENTA PARA EL


DESARROLLO LOCAL Y TERRITORIAL RURAL

El turismo de base comunitaria, como se planteó en el marco teórico, parte de la


necesidad de incorporar el respeto, la pertinencia y las dinámicas de las identidades
territoriales en su discusión y acción. Partiendo de la idea de que el turismo, en la
medida en que se haga de él una actividad socialmente solidaria, ambientalmente
responsable, culturalmente enriquecedora y económicamente viable, puede contribuir a
mejorar las condiciones de vida y de trabajo de las comunidades locales y sus
miembros. Donde el turismo comunitario se presenta como una estrategia de
sobrevivencia y comunicación social, de conservación de modos de vida y preservación
de la bio-diversidad, desarrollándose de manera integrada con las demás actividades
productivas, como la agricultura y la artesanía, priorizando la generación de trabajo para
moradores locales y fortaleciendo la dinamización del capital local, asegurando la
participación comunitaria mediante la planificación descentralizada y asociativa
(CORIOLANO en POZAS y HENRÍQUEZ, 2013).

Así, la Feria de Pocura al ser una iniciativa potencial de turismo de base comunitaria, ha
pasado a ser una fuente de empleo para que las/os habitantes de la localidad, en especial
las generaciones más jóvenes, no se vean obligados a dejar la localidad, impulsando y
fortaleciendo la economía local y promoviendo el resguardo de prácticas organizativas
tradicionales, así como realzando identidades colectivas e individuales, donde las socias
construyen su identidad en base a experiencias organizacionales que las hacen re-
significar lo que para ellas es ser mujeres mapuche y campesina, pasando a ser
representantes legitimas de las comunidades, visibilizando su voz, acción y
participación.

86
Además, se ha convertido en un espacio asociativo y de trawün articulador del proceso
de revitalización de las comunidades mapuches ancestrales/funcionales, incidiendo
políticamente en el territorio. Promoviendo y colaborando en actividades que congregan
a toda la localidad en temáticas como, la salud intercultural, defensa del agua y prácticas
tradicionales en áreas silvestres protegidas (SNASPE). Pasando a ser un espacio
dinámico de relaciones humanas donde se re-encuentran personas que se involucran en
el quehacer de las comunidades y actúan colectivamente en la discusión y reflexión de
problemáticas locales.

“La feria ha empezado a tener una incidencia política en el territorio,


ya no es solamente un espacio de venta, sino que un espacio dinámico
de relaciones humanas donde se empiezan a encontrar personas que
se involucran en el quehacer de la comunidades y actúan
colectivamente y eso es lo bueno en la feria hoy día, que ellas actúan
colectivamente, se involucran colectivamente en los temas” (S.M,
24/7/14).

Ejemplo de lo anterior es el Seminario Mapuche de Salud Intercultural, Soberanía


Alimentaria y Territorio, organizado por la Asociación de Agricultores y Artesanos de
Pocura, las comunidades ancestrales y funcionales, la Mesa Coordinadora de
Comunidades de la localidad - en la que participan socias/os de la asociación- y la
Seremia del Ministerio de Salud, el sábado 19 de julio del año 2014, al que fueron
invitados autoridades políticas espirituales tradicionales; los Lonkos16 de la Comunidad
Juan Chañapi y Machis17 y Lawentuchefe18 de Nueva Imperial y Puerto Saavedra, entre
otros. El objetivo de ese Seminario fue reunir al territorio en torno a la planificación y
realización de un centro de salud intercultural mapuche en la localidad. Siendo una
actividad auto-gestionada, en la cual las socias de la Feria de Pocura tuvieron un rol
fundamental.

16
En lengua mapuche lonko significa ―cabeza‖ o ―jefe‖ de los lof o comunidades.
17
La/el machi es la persona elegida dentro del orden social, espiritual y familiar del pueblo mapuche,
quien interviene entre lo mapuche y lo espiritual, por lo tanto, es capaz de generar la energía vital, salud y
bienestar (BACIGALUPO, 2001).
18
El o la lawentuchefe es un o una especialista parecido al médico de atención primaria, quien ha recibido
un püllü, o espíritu, con conocimiento etno-botánico o lawen; medicamentos o remedios mapuche.
Trabaja con las hierbas e infusiones para el tratamiento de ciertas enfermedades (DOUGLASS, 2010)

87
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

De esta manera, es posible plantear al turismo de base comunitaria como un turismo de


resistencia que promueve el desarrollo local y territorial rural, que genera las
posibilidades de trabajo para que mujeres y jóvenes no tengan la necesidad de migrar a
grandes ciudades, en donde suelen trabajar muchas veces en malas condiciones labores,
quedándose así en los territorios, potenciando las actividades económicas y productivas
locales.

“Yo creo que tiene característica de un turismo de resistencia al


modelo, porque aquí llegan todos los día gente a comprar terreno y
resulta que nosotros aquí el hecho de vender una tortilla, de vender
un plato de comida, también es una resistencia para no irse a la
ciudad” (M.L, 3/8/14).

Así se evita que se abandonen las localidades rurales, que son altamente codiciadas por
personas ajenas al territorio, que buscan por ejemplo hacer negocios e instalar sus casas
de veraneo, principalmente a orillas de lago. A lo que se suma, los intereses de
empresas forestales e hidroeléctricas por usufructuar con los recursos naturales de los
territorios, ejemplificándose con los que ocurre en otras localidades como Lago
Neltume, en donde la amenaza de proyectos hidroeléctricos sobre sitios de significación
cultural, canchas de nguillatún, cementerios y humedales, ha conducido a integrantes
de las comunidades aledañas a resistir a esa amenaza utilizando diversas estrategias,
como es la actividad de bajada de kayak por el río Cua-cua, instancia en la que se busca
difundir su problemática social, política y ambiental, realzando el valor cultural de

88
determinados lugares, además otorgándoles importancia turística como valor intrínseco,
destacando su belleza natural y promoviéndolos como atractivos turísticos.

Tal como en Pocura, la Feria de Gastronómica y Artesanal a orillas del Lago Calafquén
se ha convertido en uno de los pocos accesos que los lugareños tienen a la playas,
estando gran parte de la orilla de lago privatizadas producto de la venta de terrenos para
la construcción de segundas residencias, despojando a los habitantes de las localidades
a sitios cada vez más reducidos de esparcimiento. Además, en relación a la celebración
del Wetripantu, año nuevo mapuche, podemos decir, a pesar de que no cuenta con las
prácticas rituales que caracterizan dicha instancia 19 , permite que los habitantes de
Pocura se reconozcan como mapuches, dignifiquen su identidad y resguarden su
patrimonio, ya sea tanto a un nivel de significaciones individuales como también, parte
de su lucha por la defensa del territorio y la cultura ancestral.

Esta iniciativa potencial de turismo de base comunitario se ha convertido en núcleo de


comercialización local, que aparte de ser una fuente de trabajo para mujeres y futuras
generaciones, evitando que migren a las ciudades, a través del aprovechamiento y
control de los recursos que existen en el propio territorio, realzan las raíces locales y lo
que en los territorios tradicionalmente se produce, considerando la vida mapuche como
elemento que debe resguardar y potenciar.

“Se quiere generar cierto control de los recursos del territorio a


través de la visión del turismo como proceso de generar resistencia en
el territorio, en las personas, resistencia en el término de que tú no te
vayas, porque uno de los grandes problemas que tenemos los
mapuches es la migración y cómo logramos resistir en el territorio es
parando nodos económicos internos que permitan que la juventud se
quede y la retroalimentación de la unidad económica que es la
familia. Y eso es lo que está pasando aquí en la feria” (S.M, 24/7/14).

Por último, es importante dar énfasis en lo que ya hemos mencionado sobre el proceso
de fortalecimiento de las organizaciones territoriales y prácticas organizativas
tradiciones, pasando de una relación de comunidades aisladas, a la noción de territorio
mucho más amplios que las comunidades en sí mismas. Incentivando el
empoderamiento territorial y organizacional, haciendo participes a las autoridades

19
Por ejemplo, ir al río antes de aclarar o amanecer, la ceremonia y rogativa que se
realiza en la espera de la salida del nuevo sol y el purrun alrededor de rehüe, entre otras.

89
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

ancestrales políticas y espirituales, sumando todos/as quienes son parte de la localidad,


haciendo que las voces sabias canten su mapuzungun.

CONCLUSIONES

Este trabajo titulado, ―Turismo de base comunitaria como factor para la re-significación
y apropiación del territorio: Estudio de casos sobre experiencias de mujeres mapuche en
la Feria Gastronómica y Artesanal de la localidad de Pocura, Comuna de Panguipulli –
Región de Los Ríos‖, fue escrito en un intento de plantear la relación entre el turismo,
específicamente de base comunitaria y los significados, sentidos que las/os habitantes-
actores le otorgan al territorio. Basándonos en esta ocasión, en un estudio de casos que
debeló precisamente los aspectos de aquella relación, en base a la experiencias de
mujeres que se reconocen hoy en día como mapuche y campesinas, hacedoras de
turismo. Quienes comienzan a entablar fuertes lazos con las comunidades mapuches
ancestrales y el territorio en su conjunto.

Dicha relación, va más allá de incidir en la experiencia de sujetos individuales, ya que


es considerada una herramienta que hace protagonistas a las comunidades locales,
buscando fortalecer sus tradiciones no con el afán de exponerlas al sujeto turista, sino
revitalizar aquellos conocimientos, prácticas y significados como parte de las defensas
de sus modos de vida, proponiendo un desarrollo que se contraponga a la racionalidad
instrumental y paternalista que ve a las sociedades locales como entes pasivos. Mucho
menos en un afán de plantear al turismo como la panacea que viene a salvar a las
localidades rurales de las garras del capitalismo, ya que inclusive también ha sido un
factor de pérdida de identidad o de exotización de las comunidades locales. Por lo que
es muy importante que el turismo, en este caso de base comunitaria, sea una estrategia
real de sobrevivencia y comunicación social, de conservación de modos de vida y
defensa del territorio.

Es por eso, que se ha considerado al turismo de base comunitaria como una herramienta
para el desarrollo local y territorial rural, porque hace visibles y participes a todas/os
las/los actores de las comunidades locales, incorporando el respeto, la pertinencia y las
dinámicas de las identidades territoriales en su discusión y acción. Siempre en la medida

90
que se haga de él una actividad social, ambiental y culturalmente responsable.
Permitiendo además, el ampliar y re-significar los roles de género atribuidos a las
mujeres, especialmente en contextos rurales, desnaturalizando nociones estereotipadas
de los que deber hacer y ser una mujer. Siendo la Feria de Pocura una iniciativa en
donde se presentan el triple rol de género, como un espacio de crianza comunitaria, en
la que las/los hijas/os de las socias pueden crecer y desarrollarse en un ambiente
familiar y seguro, facilitando así el trabajo en la feria, posibilitando también su accionar
en labores productivas y de gestión. Este último vinculado a sus quehaceres como
dirigentas de una organización que ha ido adquiriendo un fuerte rol político para las
comunidades y el territorio.

Así, la investigación estuvo dirigida a analizar sus significaciones, entendiéndolas como


la manera en que ellas interpretan y dan sentido a su trabajo en la Feria de Pocura, en
base a la posicionalidad de su experiencia personal y colectiva-, estos a nivel individual,
organizacional y territorial, para de esa manera comprender además cómo una actividad
de carácter económico – turístico, incide en sus vidas, en la visión que tienen de sí
mismas, en su historia y en la manera en que ellas construyen sus identidades de género
femenina, étnica y territorial. Aspectos que son importantes de considerar a la hora de
trabajar e investigar sobre turismo. Porque la visibilización de sus actores y los procesos
que se desencadenan, es lo que pueden dar luces a su más pertinente desarrollo y
gestión.

Por lo tanto, el turismo sí desencadena diversidad de procesos, lo que va caracterizando


cada lugar en el que sea ejecutado, en donde su incidencia transita transubjetivamente
en el quehacer de las/os sujetos que habitan un territorio y el acontecer social macro.
Debelándose en el momento en que el turismo y territorio se interrelacionan,
influenciándose mutuamente, siendo en la localidad de Pocura, un factor que re-
significa y le otorga un sentido de pertenencia, entendiéndolo como espacio apropiado y
que es defendido a través de la re-significación del mismo turismo, pasando a ser una
herramienta para la resistencia de los modos de vida de las comunidades mapuche,
fortaleciéndolas políticamente y de esta manera, re-significando y apropiando su
territorio.

91
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

REFERENCIAS

ARAYA, María José. Un Acercamiento a la Construcción Identitaria de las


Mujeres Mapuche Rurales en el Actual Contexto de Modernización: Estudio de
caso acerca de la Identidad de las Mujeres Mapuche en la Comunidad Lafkenche
―Rucatraro‖- Lago Budi, Comuna de Puerto Saavedra, Novena Región de la Araucanía.
Año 2004. Tesis para optar al Título Profesional de Sociólogo. Facultad de Ciencias
Sociales Universidad de Chile, Santiago.

BACIGALUPO, Ana María. La voz del kultrun en la modernidad. (2° Ed.). Chile:
Ediciones Universidad Católica de Chile, 2001.

BELLO, Álvaro. Espacio y Territorio en perspectiva Antropológica. El caso de los


purhépechas de Nurío y Michoacán en México. Revista CUHSO Universidad
Católica de Temuco.volumen 21 Nº 1, 2011.

CHAGUACEDA, Armando. Participación ciudadana y espacio asociativo: Algunas


reflexiones desde Cuba. En Innovación democrática en el Sur: participación y
representación en Asia, África y América Latina Ed. Buenos Aires: Consejo
Latinoamericano de Ciencias Sociales – CLACSO, 2008.

DOUGLASS, Krista. Percepciones de género en la medicina mapuche: machi,


matriarca, y colonización. SIT World Learning, Arica, Chile: Salud Pública, Medicina
Tradicional, y Empoderamiento Comunitario. 2010.
http://digitalcollections.sit.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1947&context=isp_collectio
n

GIMÉNEZ, Gilberto. Territorio y Cultura. Estudio sobre las Culturas


Contemporáneas de la Universidad de Colima de México, vol. II, nº 004, pp. 9-30,
1996.

LAURETIS, Teresa. Semiótica y Experiencia En Alicia ya no feminismos, semiótica,


cine. Madrid: Ediciones Cátedra, 1992.

LÓPEZ, Juan. Turismo y antropología. En Contribuciones a la Economía, 2007.


Página web: http://www.eumed.net/ce/2007-a.htm

MORAGA, Geannina. Geografía cultural e identidad territorial: caso de la


comunidad de Cabuya, distrito de Cóbano, Puntarenas. Proyecto de tesis para optar al
título de Licenciatura en Geografía con énfasis en Ordenamiento del Territorio. Año
2009. Universidad Nacional ―Campus Omar Dengo‖ Facultad de Ciencias de Tierra y
Mar, Escuela de Ciencias Geográficas.

MORENO, Daniela. Hacia la igualdad de género en el desarrollo del turismo.


Artículo de opinión sobre Turismo Sustentable. Alba Sud Investigación y
Comunicación para el Desarrollo, 2013. Página Web:
http://www.albasud.org/noticia/es/455/hacia-la-igualdad-de-g-nero-en-el-desarrollo-del-
turismo

92
OMT-ONU Mujeres. Informe Mundial sobre las Mujeres en Turismo. Organización
Mundial de Turismo (OMT) y La Entidad de la ONU para la Equidad de Género y
Empoderamiento de las Mujeres (ONU Mujeres). Madrid-España, 2010.

POZAS, Alex., HENRÍQUEZ, Christian. C.VCLAIT. Turismo Comunitario o de base


local y Productos Forestales no Madereros (PFNM) en el Territorio de Liquiñe. El
Periplo Sustentable. Universidad Autónoma del Estado de México. Enero/junio, núm.
24, 2013.

RANABOLDO, Claudia. Identidad Cultural y Desarrollo Territorial Rural. En


Estado, Desarrollo Rural y Culturas. Fundación ACLO. Primera edición, Sucreo-
Bolivia, 2007.

RIQUER, Florinda. La identidad femenina en la frontera entre la conciencia y la


interacción social. En La Voluntad de Ser: Mujer en los noventa. Programa
Interdisciplinario de Estudios de la Mujer, México, 1992.

SALAZAR, Noel. Antropología del Turismo en Países en Desarrollo: Análisis


Crítico de las Culturas, Poderes e Identidades generados por el Turismo. Tabula
Rasa Universidad Colegio Mayor de Cundinamarca de Colombia., núm. 5, julio-
diciembre, pp. 99-128, 2006.

SENSO, Esther. El empoderamiento en el contexto de la cooperación para el


desarrollo. Trabajo final Master en Cooperación Internacional y Ayuda Humanitaria
CIAH, 2009.

TAPELLA, Esteban., SANZ, Cristina. Desarrollo Territorial Rural: Una experiencia


con comunidades Kollas en Argentina, 2010.
http://www.cepalforja.org/sistem/documentos/Desarrollo_Territorial_Rural_Arg.pdf

THER, Francisco. Antropología del Territorio. En Polis Revista de la Universidad


Bolivariana, Volumen 11, Nº 32, p. 493-510, 2012.

VERGARA, Nelson. Significación social y Territorio: Aproximaciones


Metodológicas. Revista Tierr@ Plural, Ponta Grossa, v. 5, n.2, p. 169 -178, 2012.

93
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A GOVERNANÇA NA GESTÃO URBANA SOB A PERSPECTIVA DA


ECOSSOCIOECONOMIA: UM ESTUDO NO TERRITÓRIO DO CABULA,
SALVADOR - BA - BRASIL

GOVERNANCE IN URBAN MANAGEMENT UNDER THE PERSPECTIVE OF


ECOSOCIOECONOMICS: A STUDY IN TERRITORIES CABULA,
SALVADOR - BA - BRAZIL

Luciane Cristina Ribeiro dos Santos


Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU)
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)
E-mail: lu.ribeirocrs@hotmail.com

Carlos Alberto Cioce Sampaio


Docente dos Programas de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU)/
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em Desenvolvimento
Regional/Universidade Regional de Blumenau e em Meio Ambiente e
Desenvolvimento (PPGMade)/ Universidade Federal do Paraná (UFPR)
E-mail: carlos.cioce@gmail.com

RESUMO: A governança compreende a maneira pela qual o governo se organiza na


prestação de serviços à sociedade; na gestão dos recursos públicos; na divulgação de
suas informações; no relacionamento com a sociedade civil; e na construção de arranjos
institucionais necessários à implementação de políticas públicas. A gestão urbana, por
sua vez, envolve um conjunto de diferentes atores que participam da organização
público-privada da cidade de forma associativa. Baseando-se nesses dois alicerces
teóricos, este trabalho analisa a configuração da governança da gestão urbana sob a
perspectiva da Ecossocioeconomia, no Território do Cabula, em Salvador-BA-Brasil.
Empregam-se instrumentos metodológicos de ordem qualitativa por meio de pesquisas
de campo, levantamentos bibliográficos, documentais e de entrevistas com a utilização
do ferramental denominado formulário qualitativo de coleta de dados. Os resultados
apontam que o Cabula apresenta um espaço de governança promovedor de iniciativas
socioempreendedoras que geram aprendizados que podem servir de parâmetro para que
outras comunidades empreendem seu próprio modelo de desenvolvimento pensado
através da organização comunitária.

Palavras-chave: Governança. Economia Solidária. Turismo de Base Comunitária.


Ecossocioeconomia.

ABSTRACT: Governance comprises the way the government is organized in providing


services to society; the management of public resources; in the disclosure of
information; in the relationship with civil society; and building institutional
arrangements necessary for the implementation of public policies. Urban management,
in turn, involves a number of different actors involved in public-private organization of
the city associatively. Based on these two theoretical foundations, this study aimed to
analyze the configuration of governance of urban management from the perspective of
Ecosocioeconomics in the Cabula Territory, Salvador-BA-Brazil. They are used
methodological tools of qualitative through field research, bibliographical, documentary

94
surveys and interviews with the use of tooling called qualitative form of data collection.
Partial results show that the Cabula presents a governance space, which promotes social
entrepeneur initiatives which generated lessons that can serve as a parameter for other
communities undertake their own development model, designed by the community
organization.

Keywords: Governance. Solidarity Economy. Community-based Tourism.


Ecosocioeconomics.

INTRODUÇÃO

N
o Brasil, as crises socioeconômicas, socioambientais e sociopolíticas,
somadas aos impactos negativos da globalização, podem ser consideradas
fatores que contribuem para a exclusão social, segmentação e degradação
ambiental, elementos esses que, somados ao sistema de produção, consumo e
distribuição, promovem também a degradação da natureza em diversos aspectos que se
mostram cada vez mais explícitos, gerando riscos à vida humana, tais como: pressão do
aumento populacional sobre os recursos naturais; aquecimento global; ameaças
nucleares; erosão dos solos; desertificação; conflitos políticos e étnicos; mudanças
climáticas; falta de planejamento e gestão no processo de urbanização; ausência de
políticas públicas que contemplem problemas sociais, ambientais e econômicos; entre
outros.

Ressalta-se que, com a ausência de políticas públicas estruturadas, em especial em


territórios economicamente vulneráveis, onde o Estado, geralmente, se faz ausente,
normalmente ocorre uma deficiência no ordenamento territorial, ocasionando uma
urbanização precária, característica de espaços denominados por periferia ou
comunidade carente, com falta de infraestrutura (saneamento básico, transporte coletivo,
segurança pública, educação e etc.).

Dessa forma, o conceito de território, sob uma perspectiva regional e local, refere-se a
um modo de tratar fenômenos, processos e situações que ocorrem em determinados
contextos e espaços onde se produz e se transforma. Cabe ressaltar que este trabalho
concebe espaço sob o prisma do território, em que o espaço econômico é construído em
sociedade, dotado não apenas de recursos naturais da geografia física, mas também da
história construída pelos homens que nele habitam, por meio de valores e regras, bem

95
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

como de arranjos institucionais que dão expressão e formas sociais de organização da


produção coletiva.

Assim, sendo a cidade um espaço coletivo da vida humana com necessidade de gestão, é
constituída de espaços com relações políticas, produtivas, sociais, econômicas,
ambientais, entre outras, e necessitam de certa governança.

A governança compreende a maneira pela qual as instituições se organizam na prestação


de serviços à sociedade, na gestão dos recursos públicos, na divulgação de suas
informações, no relacionamento com a sociedade civil e na construção de arranjos
institucionais necessários à implementação de políticas públicas. A gestão urbana, por
sua vez, envolve um conjunto de diferentes atores que participam da organização
público-privada da cidade de forma associativa (REZENDE, 2012).

Parte-se do pressuposto de que a governança favorece os arranjos quando a


compreendemos como um mecanismo de articulação entre atores. Observar a
governança é também observar a capacidade de coordenação e articulação entre atores
que compõem um arranjo.

Dessa forma, objetiva-se analisar a configuração da governança da gestão urbana sob a


perspectiva da Ecossocioeconomia, no Território do Cabula, em Salvador-BA-Brasil.
Escolheu-se o Território do Cabula — conjunto de 17 bairros, localizados no município
de Salvador, Bahia, onde é destaque o projeto demonstrativo denominado ―Turismo de
Base Comunitária (TBC) Cabula e entorno‖, que se apresenta como um potencial,
devido à sua capacidade que abrange os bairros com o intuito da mobilização e criação
de Roteiros Turísticos Urbanos Alternativos, Responsáveis e Solidários (RTUARSS), os
quais almejam a formação de uma Cooperativa de Receptivos Populares especializada
nesta forma de turismo.

PLANEJAMENTO E GESTÃO URBANA

A sociedade urbana, também chamada de urbano, tem sua definição relacionada à


realidade atual, como horizonte, como virtualidade iluminadora como um fenômeno que
produz e é produzido pela sociedade urbana (LEFEBVRE, 1999). O urbano está

96
configurado na dimensão social - a cidade é caracterizada, devido aos aspectos
materiais, que são frutos e produtos das relações sociais.

Não se pode pensar o urbano e a cidade sem planejamento. O planejamento na


concepção contemporânea estabelece um processo complexo que remete ao futuro,
sendo que ―planejar significa tentar prever a evolução de um fenômeno [...], com o
objetivo de melhor se precaver contra prováveis problemas ou com finalidade de
aproveitar possíveis benefícios‖ (SOUZA, 2006, p. 149).

Todavia, este é uma importante ferramenta administrativa, que possibilita compreender


a realidade, avaliar os caminhos e construir parâmetros para o futuro, estruturando um
processo compatível com os trâmites avaliativos de todo o método destinado ao
planejamento, sendo este a ação racional (OLIVEIRA JUNIOR, 2012). O autor
complementa que o planejamento é um método prático, cíclico e contínuo devido à
realimentação de propostas, resultados e soluções. Assim, o planejamento é um
processo dinâmico com base na multidisciplinaridade e interatividade no processo de
tomada de decisão.

Pensando o planejamento na perspectiva do urbano, ressalta-se que a forma urbana


apresenta aspectos passíveis de observação e avaliação pelos usuários por meio de
processos cognitivos. Contudo, a dita forma urbana é constituída por um conjunto dos
elementos, a saber: ―planejamento urbano e desenho urbano na participação do processo
de produção social da cidade‖ (TEIXEIRA, 2013, p. 36).

O planejamento urbano é, então, complemento da gestão urbana, sendo ambos


complementares e codependentes. Nesse sentido, o planejamento seria a previsão de
fenômenos futuros, caracterizado pela preocupação da gestão futura. A administração,
por sua vez, lida com situações presentes, com recursos disponíveis, contemplando os
problemas presentes (SOUZA, 2006).

Para melhor elucidação, o termo gestão significa administrar ou gerenciar algo na


organização. Em linhas gerais, a gestão urbana possui diversas denominações — entre
elas, administração e governança —, de forma a colocar em prática a ação do
planejamento na ciência administrativa, que se vincula ao conjunto de instrumentos
destinados ao ato de gerir (OLIVEIRA JUNIOR, 2012).

97
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Por sua vez, Rezende (2012) discute gestão urbana como aplicação da ciência da
administração ampliando-se como a gestão do município, prefeitura e de seus órgãos,
institutos, autarquias e secretarias, e está relacionada com o conjunto de recursos e
instrumentos da administração aplicada na gestão local por meio de seus servidores
municipais. Contudo, enquanto a gestão urbana trata apenas do urbano, a gestão
municipal engloba o urbano e o rural.

A diferença entre gestão municipal e gestão urbana, portanto, é que a última gere a
cidade com a aplicação de um conjunto de recursos e ferramentas como instrumentos da
administração objetivando aplicá-las à dinâmica urbana, no intuito de promover
serviços que priorizem a qualidade da infraestrutura e dos serviços urbanos, incluindo a
participação popular nas decisões e ações da governança pública municipal
(REZENDE; CASTOR, 2006).

Rezende (2012) complementa que, na perspectiva do planejamento municipal, a gestão


urbana prioriza o Plano Diretor Municipal. Por outro lado, o planejamento municipal
prioriza a gestão municipal, evidenciando o planejamento estratégico do município
urbano e rural. O plano diretor municipal é um instrumento capaz de um adequado
processo de ocupação do solo de maneira a garantir uma melhor qualidade de vida a
seus habitantes (REZENDE, 2012, CIDADES, 2001). A função urbana pode ter
assuntos municipais como legislação urbanística, paisagismo, parques e praças,
saneamento, sistemas viários, entre outros (REZENDE, 2012). Dessa forma, ―o plano
diretor municipal, tem foco no controle, desenvolvimento e expansão territorial urbanos
e está direcionando para as questões fiscais e territoriais do município‖ (REZENDE,
2012, p. 21).

Nessa perspectiva, o Estatuto da Cidade possui instrumentos para que o município


consiga intervir em questões como planejamento e gestão urbana e territorial,
garantindo a realização do direito à cidade (REZENDE, 2012).

De acordo com Maricato (2001), o Estatuto da Cidade é uma lei conquistada pela
sociedade, cuja luta se estendeu por décadas, sendo, portanto, um exemplo de forças
setoriais de diversos extratos sociais a exemplo de movimentos populares, entidades
profissionais, sindicais e acadêmicas, pesquisadores, ONGs, parlamentares e prefeitos
progressistas. Essa lei reúne, por meio de um aspecto holístico, em um mesmo texto,

98
diversas expressões relativas ao governo democrático da cidade, à justiça urbana e ao
equilíbrio ambiental. A autora complementa que o Estatuto da Cidade tem seu foco na
questão urbana e a insere na agenda política nacional em um país, até pouco tempo,
marcado pela cultura rural.

Em síntese, para os autores Rezende, Klaus e Betini (2006, p. 2), a gestão urbana é um
somatório de elementos e atores diversificados, que experimentam ―transformações
fundamentais que exigem um debate controvertido em torno dos possíveis caminhos da
gestão pública das cidades na sociedade da informação que crescentemente vem se
consolidando‖.

Para fortalecer as políticas, a sociedade civil se organiza em redes. De acordo com


Börzel (1998), "rede" é um termo da moda em diversos campos das ciências políticas e
em diversas disciplinas científicas. Nas ciências sociais contemporâneas, as redes são
estudadas como novas formas de organização social no campo da Sociologia da Ciência
e Tecnologia, na Economia das redes industriais e redes tecnológicas, na Administração
de Negócios e nas políticas públicas.

Também denominadas como arranjos, as redes são consideradas complexos


organizacionais que são conectados uns aos outros devido à dependência de recursos
que cada membro possui (CABAN, 2008). Possuem várias características: cooperação
que se sustenta mediante os acordos entre os atores; aprendizado e disseminação da
informação — transformando ideia em ações; abertura (open-ended) utilizada em
ambientes com recursos escassos; e utilização e fortalecimento de ativos intangíveis,
relacionado com o conhecimento tácito e inovação tecnológica (POWELL, 1990;
RHODES; MARSH, 1990, 1992). Reforça Mayntz (2005) que ―como as redes
normalmente emergem onde o poder está disperso [...] no domínio da política, [...] é
necessária a cooperação para alcançar a eficácia‖ (p.88).

As redes de políticas públicas têm origem alemã e surgiram como alternativa de


governança em relação à hierarquia e ao mercado. Tal concepção tem sido
desconsiderada pela literatura anglo-saxã, que entende que as redes de políticas são
consideradas como modelo de relacionamento entre estado e sociedade em determinada
área de estudo (BÖRZEL, 1998).

99
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Redes de políticas é a tradução da termologia utilizada em inglês para Policy Network,


cujas relações se referem ao envolvimento de diferentes instituições e grupos do poder
executivo, legislativo e da sociedade civil desde o nascimento até a implementação da
política, ou seja, ―policy networks de redes de relações sociais que se repetem
periodicamente, mas que se mostram menos formais e delineadas do que relações
sociais institucionalizadas, nas quais é prevista uma distribuição concreta de papéis
organizacionais‖ (MILLER, 1994, p. 379).

Sobre a natureza das redes de políticas, Börzel (1998) afirma que essas envolvem vários
atores e os resultados do processo político parecem confirmar o juízo de que redes de
políticas podem ser consideradas como uma caixa de ferramentas úteis para analisar as
políticas públicas. Por outro lado, existe um número crescente de trabalhos empíricos,
especialmente no campo de políticas europeias, que demonstram a proliferação de redes
de políticas, em que os diferentes atores envolvidos na formulação e implementação de
políticas coordenam os seus interesses — são exemplos os estudos de Peterson, (1992);
Marcas, (1992, 1993); Mcaleavey, (1993); Grande, (1994); Heritier, Knill e Mingers,
(1996); Bressers, O'toole e Richardson (Eds.), (1994); Schneider, Dang-Nguyen e
Werle, (1994); Rhodes, (1997); Smyrl, (1995).

Börzel (1998) complementa que tais redes, além de fornecerem uma ferramenta
analítica que permita identificar e descrever mudanças para uma governança não
hierárquica, podem oferecer explicação para a proliferação de coordenação não
hierárquica em redes de políticas. Assim como apontado por Max-Planck e outros,
coordenação hierárquica e desregulamentação do mercado sofrem com problemas de
eficiência e legitimidade em um contexto complexo e dinâmico de formulação de
políticas públicas. Contudo, a abordagem de rede de política, teoricamente, enfrenta
dois grandes desafios: primeiro, as redes de políticas estão presentes e são relevantes
para o processo de política e seus resultados, por exemplo, no aumento ou na redução da
eficiência e da legitimidade das decisões políticas; segundo, empiricamente, as redes de
políticas fazem a diferença, porém as suas incertezas precisam ser enfrentadas, pois são
condições especificas em redes que podem reforçar a eficiência e a legitimidade das
decisões políticas (BÖRZEL, 1998).

100
A ECOSSOCIOECONOMIA COM ALTERNATIVA INCLUSIVA PARA A
GOVERNANÇA POR MEIO DO TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA

Na atualidade, em decorrência de mudanças econômicas, tecnológicas e sociais, tem


sido favorecida a formação e articulação de arranjos organizacionais em rede. Diante
dos enlaces e relações das competências administrativas, somados a um diálogo voltado
para a ação, com a inclusão da participação popular, identifica-se as características da
governança em rede.

A estruturação de sistemas de governo em rede ganhou visibilidade para formação de


redes de governança que, em diferentes contextos, constituem em arcabouço
interpretativo no qual os atores envolvidos são localizados e ligados na sua interação em
um domínio de política (PROCOPIUCK, 2013).

A temática ―governança‖ (governance) tem sido abordada com ênfase nas novas
tendências de administração pública e de gestão de políticas públicas, especialmente
com a ―necessidade de mobilizar todo o conhecimento disponível na sociedade em
benefício da melhoria da performance administrativa e da democratização dos processos
decisórios locais‖ (FREY, 2007, p.138).

De acordo com Procopiuk (2013), governança significava governar sistemas políticos


que tenham identidade concreta, um limite claro e uma aparência definida e fundada em
direitos e deveres específicos formalmente instituídos e que, atualmente, pode significar
um novo modo de governar de forma mais cooperativa.

Assim, busca-se uma governança de forma descentralizada, transparente e


compartilhada entre os diversos atores — Estado, empresas e sociedade civil — para as
demandas coletivas, tornando assim o Estado moderno mais cooperativo (MARTINS;
CKAGNAZAROFF; LAGE, 2012); (MAYNTZ, 2005). De acordo com Sáenz (2012), a
governança democrática confia nas suas capacidades de intermediar conflitos sociais
que possam existir no interior de suas redes em resposta a questões que possam surgir
como a articulação em rede, o fortalecimento de sua intermediação e a distribuição de
poder, em consonância aos valores e percepção dos próprios atores.

101
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

De acordo com Rhodes (2006), é importante compreender os aspectos da governança de


acordo com os movimentos, interações e mudanças que ali ocorrem, pois esta pode ser a
forma mais coerente para entender os procedimentos diferenciados das lógicas
hierárquicas e de mercado, ou seja, uma governança participativa e democrática.

Rodhes e Kooiman, citados por Sáenz (2012), respectivamente referem-se à governança


como redes interorganizacionais autogovernadas, que complementam a hierarquia e as
estruturas de governo e como o padrão ou estrutura que emerge em um sistema
sociopolítico como resultado comum das intervenções interativas de todos os atores
envolvidos.

Pode-se dizer, assim, que a rede de governança segue em direção ao desenvolvimento


sustentável. Para os autores Paulista, Varvakis e Montibeller (2008, p.187), encontram-
se em concordância os conceitos de desenvolvimento sustentável, em relação ao
crescimento equânime das condições de bem-estar da espécie humana, garantindo a
preservação de recursos naturais necessários para oferecer as mesmas condições às
gerações futuras.

A discussão sobre desenvolvimento sustentável, somada aos fatores apontados em todo


o contexto da fundamentação teórica deste trabalho de pesquisa — como a escassez de
serviços públicos, desigualdades sociais evidenciadas nas condições de moradia,
segregação espacial, iniquidade, pobreza, desemprego, vulnerabilidade econômica,
deterioração ambiental — acentuam a complexidade das estruturas da administração
pública responsável pelo fornecimento de serviços urbanos ambientais.

Nesta perspectiva, aponta-se a ecossocioeconomia como conjunto de experiências que


contem elementos transversais as dimensões de sustentabilidade do desenvolvimento,
tendo como principal característica a concepção de arranjos políticos e socioprodutivos
(SAMPAIO, et. al., 2008), na qual:

empresas mercantis, cooperativas, consumidores organizados,


diferentes instâncias de governo e organizações ou quase organizações
(movimentos) da sociedade civil convivem na dialética de interesses
da economia, isto é, nas convergências e divergências entre os
partidários do livre mercado, ambientalistas e economistas solidários
(variando, claro, nos mais diversos graus entre oportunistas e
idealistas), subentendendo que, tanto modos de produção quanto de
distribuição - e por que não de consumo? - mais solidários tenham

102
chance de ocorrer no nível comunitário. Parte-se do pressuposto que a
comunidade é um tema transversal à própria questão da
territorialidade, entretanto, evidencia-se a importância da ação
territorial.

Assim, a ecossocioeconomia compreende uma força de governança em rede que


pretende dar visibilidade à experiência demonstrativa, oriunda do cotidiano, com
preocupação em buscar aprendizagens socioeconômicas e ambientais em contexto
sistêmico, interinstitucional, coevolutivo e interdisciplinar por meio de uma dinâmica
posta em dado território e no qual se deseja promover a sustentabilidade de seu
desenvolvimento (SAMPAIO et al., 2008). De maneira sistematizada, aponta
alternativas de planejamento e gestão para pensarem o bem-viver territorial,
parametrizados nos postulados de um desenvolvimento sustentável, sustentado e
includente.

A ecossocioeconomia se interessa pela complexidade do cotidiano em sua faceta


interorganizacional, representada por arranjos institucionais e socioprodutivos no
território, reproduzindo lógicas instrumentais de caráter mais coletivo, criando opção ao
modelo economicista, utilitarista, materialista e individualista. A ideia não é se criar
outro modelo hegemônico, de maneira a substituir por um decadente, mas criar
alternativas de desenvolvimento que sejam ao mesmo tempo criadas no território e que
estabeleça seu próprio padrão de bem-viver (SAMPAIO et al., 2014).

A ecossocioeconomia pode ser traduzida por formas distintas de se pensar e agir as


relações socioeconômicas e ambientais. Normalmente, são experiências que surgem
pela ausência do Estado, constituindo grupos participativos bem organizados que
conseguem dar respostas sistêmicas a problemas por eles próprios apontados,
conservando padrões de economia territorial. Quando estas experiências se destacam
nas suas diferentes modalidades, agenda local ou objetivos do milênio, turismo
comunitário, economia solidária, movimento slow, ecovilas, gestão de unidades de
conservação, responsabilidade social empresarial, entre outras, governos municipais e
agências do Estado aproximam-se, apoiando-as ou transformando-as em políticas
públicas com capacidade de replicação (SAMPAIO, 2010).

A ecossocioeconomia foi preconizada pelo economista Karl W. Kapp e difundida por


Ignacy Sachs (2007), que possui o desafio de superar a crítica para uma ação possível.

103
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Sobretudo, a ecossocioeconomia caracteriza-se por três modalidades de agir. A primeira


é o agir extraorganizacional, aquele que releva na ação organizacional o impacto da
decisão sobre o entorno territorial. A segunda é o agir interorganizacional, que
espacializa e temporaliza a organização dentro de um arranjo sociopolítico e
socioeconômico. O último é o agir extrarracional, que valoriza a dimensão tácita do
conhecimento dos atores sociais envolvidos no dado território (SAMPAIO, 2009).

A economia solidária é uma alternativa apontada por Boaventura Sousa Santos (2011),
cujos postulados baseiam-se no humanismo, solidariedade e cooperação materializadas
na propriedade coletiva dos meios de produção e autogestão, preservando ainda o
direito à liberdade individual (SINGER, 2002).

A economia solidária, como uma manifestação da ecossocioeconomia, privilegia o


território local, onde as pessoas nascem, crescem, vivem — se conhecem, dialogam,
amam e trabalham — e morrem. O lugar possui histórias e estórias próprias. O trabalho
possui significados, seja reprodutivo, produtivo ou redistributivo, e não é
necessariamente sinônimo no seu conjunto de atividades repetitivas e alienantes
(SAMPAIO; SANTOS; RIBEIRO, 2014).

De acordo com Razeto (2011, p. 5):

(...) a economia de solidariedade constitui-se pondo solidariedade na


economia, manifestar-se-á em diversas formas, graus e níveis segundo
a forma, o grau e o nível em que a solidariedade se faça presente nas
atividades, unidades e processos econômicos. Destarte, podemos
diferenciar nela e no processo do seu desenvolvimento, duas grandes
dimensões. De um lado, haverá economia de solidariedade na medida
em que, nas diversas estruturas e organizações da economia global,
cresça a solidariedade pela ação dos sujeitos que a organizam. Do
outro, identificaremos economia de solidariedade numa parte ou setor
especial da economia: naquelas atividades, empresas ou circuitos
econômicos em que a solidariedade tenha-se feito presente de modo
intensivo, e onde esta opere como elemento articulador dos processos
de produção, distribuição, consumo e acumulação.

A economia solidária em formato de redes tem o objetivo de gerar trabalho e renda para
os envolvidos, além de formar outras relações de produção e aperfeiçoar o modelo de
consumo de todos que dela participam, preservando o meio ambiente e desenvolvendo
outro modelo social sem a exploração dos indivíduos ou a degradação do equilíbrio
ecológico (MANCE, 2003).

104
A economia solidária se organiza de duas formas: a primeira é as atividades econômicas
— produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, comércio justo,
consumo solidário, a segunda é as organizações solidárias — cooperativas, associações,
empresas autogestoras, grupos solidários, redes solidárias, clubes de troca etc.
(MARINHO, 2007).

Nesse conjunto de atividades e formas de organização, destacam-se quatro importantes


características: cooperação, autogestão, viabilidade econômica e solidariedade. Tais
características apresentam-se como complementares e sem funcionamento isolado,
contudo, sempre presentes na Economia Solidária (MARINHO, 2007).

Reconhecendo que a cooperação é a melhor estratégia para atingir objetivos comuns de


uma sociedade, são utilizadas as palavras de Börzel (1998, p. 220), que enfatiza redes de
políticas públicas sociais para a governança definindo as redes de políticas como:

um conjunto de relacionamentos relativamente estáveis, de natureza


não hierárquica e interdependentes, conectando uma variedade de
atores que compartilham interesses relativos à política e que trocam
recursos com o objetivo de atingir esses interesses.

Dessa forma, a ecossocioeconomia se viabiliza como alternativa para institucionalizar


relações objetivas, práticas e flexíveis que contemplem ―os direitos dos cidadãos; assim
como de reforçar laços de solidariedade num contexto de pressão social e polarização
política na direção de uma cidadania ativa que disponha dos instrumentos para o
questionamento permanente da ordem estabelecida‖ (JACOBI, 1999. p. 31; 2000).

Portanto, existe a necessidade de se avançar na concepção e implantação de


mecanismos democráticos de participação da sociedade civil, por meio de modelos de
gestão, montagem e aplicação de arranjos institucionais de cooperação vertical e
horizontal (ALVES, 2013). Desta forma, complementa Procopiuk (2013), o
aprofundamento e refinamento da compreensão das relações entre diferentes níveis de
poder pautam-se por projetos construídos bidimensionalmente, sendo que a dimensão
vertical diz respeito às conexões entre os diferentes níveis de governo, focando na
capacidade de construir e estimular a eficácia dos níveis subnacionais de governança, e
a dimensão horizontal abrange as relações entre arranjos cooperativos de regiões ou
municipalidades, juntamente a atores extra-estatais.

105
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Essas formas organizacionais abrangidas por pesquisas empíricas têm sido recorrentes
em estudos que contemplam redes de governança, com intermédio de políticas públicas
conectando o Estado e a sociedade; estruturas e organizações de atores-chave da
economia, a compreender os papéis que exercem e como se ajustam frente a políticas
socioeconômicas; e a formação, funcionamento e comportamento de grupo de interesse
e sua relação com instituições públicas (PROCOPIUCK, 2013).

METODOLOGIA

Adota-se o estudo de caso que, segundo Severino (2007, p.121), é uma ―pesquisa que se
encontra em um caso particular, considerado representativo de um conjunto de casos
análogos, por ele significativamente representativo‖.

Será utilizada como técnica de pesquisa neste estudo a abordagem qualitativa. A


abordagem de pesquisa qualitativa faz uso de referências bibliográficas, que ocorrem
devido à necessidade de embasamento teórico.

As principais técnicas de pesquisa para coleta de dados são documento, observação,


entrevista, questionário, formulário, medidas de opiniões e de atitudes, técnicas
mercadológicas, testes, análise de conteúdo e história de vida. A coleta de dados é a
etapa da pesquisa em que se inicia a aplicação dos instrumentos elaborados e das
técnicas selecionadas, a fim de se efetuar a coleta dos dados previstos (MARCONI;
LAKATOS, 2003).

A unidade de observação para a presente pesquisa é composta por uma parcela da


população do Território do Cabula – Salvador – Bahia, que abrange 17 bairros. A
observação e entrevista serão realizadas com os atores sociais que compõe o projeto
denominado Turismo de Base Comunitária Cabula e entorno que atua de acordo com os
postulados da economia solidária.

De maneira a aprofundar o conhecimento sobre o projeto em questão, foram realizadas


entrevistas com a coordenadora do Projeto Turismo de Base Comunitária (TBC) Cabula
e entorno do município de Salvador, Bahia – Brasil. A coordenadora forneceu
informações relevantes para o entendimento da dinâmica da experiência. Também

106
foram realizadas entrevistas com 10 (dez) atores sociais vinculados ao projeto, bem
como com alguns que não participam, para a construção de conhecimento conforme
proposto no objetivo deste trabalho de pesquisa.

O instrumento de coleta de dados utilizado foi o formulário qualitativo de coleta de


dados, que abrange informações pertinentes ao desenvolvimento da pesquisa, como
gênese, problemática e objetivos da experiência; território (sede e arredores) e suas
respectivas características naturais, culturais, sociais e econômicas além de outras
características. Destaca-se a descrição do Arranjo Socioprodutivo de Base Territorial
Sustentável (SANTOS; GRAGNANI; SAMPAIO, 2015).

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO CABULA E SUA URBANIZAÇÃO:


UM ESTUDO SOBRE A GOVERNANÇA DO PROJETO TURISMO DE BASE
COMUNITÁRIA CABULA E ENTORNO

O Cabula e entorno, encontra-se em um contexto que se assemelham aos encontrados


em diversos locais urbanos, em que há ausência de políticas públicas e intervenção do
governo local, nas quais decorrem falta de serviços públicos, desemprego, insegurança,
violência, falta de espaços educativos, culturais, recreativos, meio ambiente, esportivos,
além da especulação imobiliária, superpopulação e vulnerabilidades econômicas e
sociais.

Neste cenário surge o Projeto Turismo de Base Comunitário (TBC), Cabula e entorno.

O bairro do Cabula, geograficamente, é denominado o miolo do município de Salvador,


de acordo com a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia
(CONDER). Situa-se entre a Avenida Luiz Viana Filho (Paralela) e a BR-324, ao norte,
até os limites da cidade com o município de Simões Filho. No entanto, apesar de sua
posição geográfica, o território é considerado periferia social. A história deste bairro foi
marcada por conflitos sociais, culturais, econômicos e políticos, por meio de lutas e
resistência de escravos africanos que buscavam a liberdade e a paz.

Segundo Castro (2008), a palavra Cabula tem sua origem na língua quicongo de
Angola. Cabula é conhecido pela comunidade como um antigo quilombo que, por sua
vez, é definido por alguns autores como espaços de acolhimento de escravos e negros

107
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

fugidos em busca de liberdade, que sempre procuravam localidades distantes do centro


social para esconder-se. Ao longo dos tempos, essas localidades, que antes eram
habitadas por comunidades indígenas, passam a ser habitadas por negros fugidos, que se
estabelecem com seus costumes sociais, culturais e religiosos, remontando daí a criação
de vários terreiros de Candomblé.

No Cabula, então povoado por negros, principalmente originários de Congo e Angola,


eram encontrados terreiros e sacerdotes quicongos famosos do Candomblé, conhecidos
como ―zeladores de nkisi‖, que significa: força, magia e divindade (NICOLIN;
MENEZES, 2014). Estes povos tocavam e dançava o kabula, ritmo religioso quicongo,
que deu origem ao nome do bairro (NICOLIN; MENEZES, 2014; NICOLIN, 2015).

A urbanização do Cabula ocorreu devido à interferência do Estado, do ponto de vista


habitacional, a partir da década de 60, com as políticas de ocupação do Miolo de
Salvador (GOUVEIA, 2010). A cidade de Salvador, entre os séculos XVI e XIX,
―esteve dividida em freguesias, ou paróquias, as quais eram delimitadas pela Igreja
Católica, instituição de forte presença na colonização brasileira. Neste cenário o Cabula
pertencia ao segundo distrito da Freguesia do Passo‖ (GOUVEIA, 2010, p.58).

De acordo com o Plano de Ocupação para a área do miolo de Salvador, do ano de 1985,
foram definidos quatro polos de ocupação: Região do Cabula, Região de Pau da Lima
/EVA, Área de Cajazeira e Área de Mussurunga/São Cristóvão (NUNES; SOUZA,
2007). Mais tarde, no ano de 1987, em virtude de estudos do Plano de Desenvolvimento
Urbano para Salvador (PLANDURB), a cidade passa a ser divida em 17 Regiões
Administrativas, de acordo com a retificação da Lei Municipal nº 6.586/2004
(PDDU/2004), que vigora desde então.

Nesse contexto, nos anos 70, de forma mais intensa, ocorre uma série de ocupações
desordenadas e autoconstruções, quando a população carente migra de outras áreas de
Salvador ou provenientes do meio rural como forma de resolver o problema da moradia
(NUNES; SOUZA, 2007). Da mesma forma, alguns dos bairros associados já se
apresentavam entre os assentamentos mais significativos.

A partir da expansão urbana do Cabula, impulsionada pela expansão dos transportes,


foram implementadas vias para a mobilidade urbana de pedestres e cargas que mudaram

108
a dinâmica de ocupação da área, conferindo ao bairro uma posição estratégica do ponto
de vista habitacional e da expansão de serviços no seu entorno, a saber: em 1965/1966,
a criação da Avenida Silveira Martins e, em 1970, da Avenida Luíz Viana Filho —
conhecida como Avenida Paralela (FERNANDES, 1992).

Ao longo de sua história, o Cabula, que já foi espaço de acolhida de escravos fugidos,
foi dividido em fazendas, algumas produtoras de laranjas. Neste período, devido a
presença de chácaras, as áreas verdes ainda era o aspecto marcante no local
(FERNANDES, 2003).

Atualmente encontra-se na configuração de bairros o que se denominam de Cabula e


entorno: Arenoso, São Gonçalo do Retiro, Pernambués, Resgate, Fazenda Grande do
Retiro, Cabula, Arraial do Retiro, Sussuarana, Saboeiro, Doron, Engomadeira,
Narandiba, Cabula VI, Estrada das Barreiras, Saramandaia, Mata Escura e Beiru-
Tancredo Neves — conjunto de 17 bairros, contemplados na figura 1.

Figura 1 – Demarcação espacial dos 17 bairros do Cabula e entorno

Fonte: Santos et.al., 2013.

109
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Dentro dos aspectos ambientais, ressalta-se que na região encontra-se localizado o


Bioma de Mata Atlântica, ou o que resta dele, situado na área territorial do 19° Batalhão
de Caçadores, conhecida também como ―Mata do Cascão‖. Tal área protegida pelo
Exército Brasileiro foi alvo de desmatamento ―autorizado‖ para a ampliação de vias que
compunha o projeto de mobilidade urbana da cidade do Salvador.

O Território conta com a Bacia Hidrográfica dos rios das Pedras e Pituaçu e a Represa
do Prata, antigo manancial d‘água que abastecia a cidade do Salvador. Há algum tempo,
este manancial encontra-se poluído, devido à sua escassez e a poluição provocada pelo
lançamento de esgoto sanitário e resíduos sólidos. Tal dano ao meio ambiente vem
gerando transtornos à população, a exemplo dos cortes constantes no abastecimento de
água. De acordo com Maricato (2001, p. 9), os rios, riachos, lagos, mangues e praias
tornaram-se canais ou destino dos esgotos domésticos:

No Brasil, 34,5 milhões de pessoas não são atendidos pelas redes de


esgotos nas cidades. Somando-se a estes os domicílios que contam
com apenas fossa séptica, teremos 50% do total da população
brasileira. Além do mais, 80% do esgoto coletado não são tratados,
sendo despejado nos cursos de água. Mais do que efluentes industriais
atualmente, o esgoto doméstico é o poluidor, por excelência, dos
recursos hídricos.

O fator poluidor dos rios urbanos, especificamente no território do Cabula, é ocasionado


também pelo descontrole das ocupações irregulares de suas margens, acabando com as
faixas de proteção e suas matas ciliares, o que muitas vezes ocasiona ligações
irregulares de esgoto, contribuindo assim para a insalubridade dos ambientes urbanos
(GARCIAS; AFONSO, 2013).

Esse aspecto impacta também os inúmeros terreiros de Candomblé existentes na região


até hoje, pois estes utilizam as plantas e folhas de árvores consideradas sagradas por
essa cultura religiosa para rituais. Contudo, devido ao atual cenário — desmatamento,
degradação ambiental, ocupações irregulares e poluição de rios — encontram
dificuldades de preservar e conservar essa biodiversidade para dar continuidade às suas
práticas religiosas.

O crescimento acelerado e desigual do Cabula se dá, entre outras, à expansão da cidade


de Salvador, que cresceu muito rápido, se modernizou e, atualmente, não dispõe de
espaço para tamanha demanda da população. Nesse contexto, essa localidade, que

110
sempre foi uma periferia social, vem sendo visada como espaço de especulação
imobiliária. Dessa forma, Cabula e entorno compreende uma área urbana heterogênea e
desigual, marcada pela presença de inúmeros conjuntos habitacionais, condomínios de
luxo, comércio local, grandes redes de hipermercados e shoppings centers, causando o
contraste de hábitos, costumes e paisagem. Esse panorama faz com que Cabula, uma
comunidade rica em cultura indígena local e grupos culturais formais e informais, não
seja valorizada.

De acordo com o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano do Município do Salvador,


a Região Administrativa (RA) XI Cabula – 2000/2015 – área calculada a partir da base
cartográfica digital do Município do Salvador (HA): 1.012, Distribuição populacional
(HAB) realizada com base no Censo Demográfico 2000 – IBGE: 137.764, cenário
proposto para o ano horizonte do PDDU com base em projeções demográficas,
ponderadas com as diretrizes e proposições deste Plano Diretor: 172.113, enquanto a
densidade populacional bruta (HAB/HA): IBGE em 2000 era de:136 e cenário para
2015 é de: 170. A RA XII-Beiru-Tancredo Neves – 2000/2015 – área (HA): 1.536,
distribuição populacional realizada com base no Censo Demográfico 2000 –
IBGE:189.028, cenário para 2015 é de: 253.493, enquanto a densidade populacional
bruta (HAB/HA): IBGE em 2000 era de:123 e cenário para 2015 é de: 165.

Neste contexto encontra-se imerso projeto TBC Cabula e entorno. De acordo com
entrevista realizada em agosto do ano de 2015 com a coordenadora do projeto, o mesmo
surge devido às angustias provocadas por constatações da ausência de diálogo entre
universidade, comunidade e professores de diversas áreas do conhecimento, somados a
questionamentos feitos pela coordenadora, pertinentes ao modelo do turismo tradicional
que possui seu foco na questão econômica com atividades que não levam em conta as
questões do meio ambiente e a sustentabilidade tanto em âmbito rural quanto urbano, a
falta de articulação e envolvimento da comunidade nas questões do planejamento do
turismo, além da identificação das mazelas ocasionadas pela atividade turística, entre
outros. Esse contexto fez com que se elaborasse um projeto denominado Turismo de
Base Comunitária (TBC) na região do Cabula e entorno, aprovado pelo edital 021/2010
da fundação de Amparo à pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) e vinculado à
Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Universidade do Estado
da Bahia (UNEB), sob o título: ―Turismo de base comunitária na região do Cabula e

111
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

entorno: processo de incubação de operadora de receptivos populares especializada em


roteiros turísticos alternativos‖ (SILVA, 2013, 2015).

Por se tratar de um projeto demonstrativo ativo por quase cinco anos, outros
financiamentos foram aprovados, entre eles: edital 028/2012 FAPESB, exercício 204-
2016, sendo executado sem a liberação da verba, cujo título é ―Turismo de base
comunitária no antigo quilombo Cabula: construindo conhecimento com as escolas‖;
Edital: 43/2013, exercício: 2013-2014 (em execução) da MCTI/CNPq/MEC/CAPES;
Edital: 037/2012, exercício: 2013 (em execução) - Programa de Estudos do Trabalho
(PROET)-SUPROF-SEC/BA – Título: ―Museu virtual do quilombo Cabula: uma
contribuição para a mobilização do turismo de base comunitária no bairro‖; e Edital:
029/2012, exercício: 2012 – FAPESB, sendo executado sem a liberação do recurso, cujo
título é ―Meio ambiente, saúde e turismo de base comunitária: configuração de uma rede
de articulações pela qualidade de vida no distrito sanitário do Cabula/Beiru, Salvador-
Bahia‖.

A proposta visa à articulação de atividades de pesquisa e extensão em bairros populares


do entorno da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). A delimitação da área foi feita
pela proximidade da UNEB; pelo favorecimento da interação entre a universidade e as
comunidades; pela relevância histórica das antigas aldeias indígenas e dos quilombos do
Cabula e do Urubu; pelos patrimônios cultural, social, ambiental e tecnológico; pelo
potencial para a economia solidária e criativa; entre outras justificativas (SILVA, 2013).

O projeto Cabula e entorno tem por objetivo a mobilização das comunidades para a
criação de Roteiros Turísticos Urbanos Alternativos Responsáveis e Solidários
(RTUARSS), resultando na criação de uma cooperativa de Receptivos Populares, com
especialização neste tipo de roteiro turístico (SILVA, 2015; SILVA, SÁ, 2012).

A composição da equipe para a realização das ações nas comunidades destes bairros é
multidisciplinar da área de educação, saúde, meio ambiente, história, cultura, lazer,
urbanismo, turismo, comunicação, economia solidária, tecnologia social, tecnologia da
informação e outras (SILVA; SÁ, 2012).

As autoras complementam que, devido à diversidade cultural e ambiental existente


nessas comunidades urbanas, é entendido que a atuação por meio de ações com este

112
foco favorece a diversificação da oferta turística de Salvador e o desenvolvimento social
e econômico das localidades em questão. O favorecimento se dá por meio do turismo,
da produção associada, cooperativismo e outras ações que fortalecem as relações entre
as pessoas e as comunidades.

De acordo com Silva e Sá (2012), o turismo de base comunitária dá espaço para o


diálogo sobre o cotidiano das comunidades e caminhos de interação entre as
comunidades e a universidade.

O TBC tem, em seu planejamento e organização, a autogestão e controle participativo,


colaborativo, cooperativo e solidário da atividade turística por parte das comunidades,
cuja articulação e diálogo devem ocorrer com os setores públicos pelo benefício social,
cultural, ambiental, econômico e político das próprias comunidades (SILVA; SÁ, 2012;
SILVA, 2015).

O projeto acontece em espaços rural e urbano, onde os visitantes se interessam pela


forma comunitária de se viver, pela história local, cultura, o modo de ser, de se
organizar, pelo cuidado que a comunidade tem com a natureza, entre outras questões
que tangem a vivência das pessoas no seu habitat natural.

De acordo com Silva e Sá (2012, p.13):

O principal atrativo para o TBC no espaço urbano é o modo de vida


local, ou seja, a sua memória social, cultural e histórica enriquecida
pelos saberes, sabores e fazeres comunitários como a história oral,
legado histórico, heranças culturais, origens do bairro, conhecimentos
popular, grupos culturais recreativos, festivais, memoriais,
arquiteturas, feiras livres, projetos sociais, atividades econômicas, os
aspectos naturais estudo mais que seja autêntico e capaz de fornecer
experiências significativas aos visitantes.

As autoras complementam que a contribuição para as comunidades pode ser por meio
do fortalecimento das comunidades, unificando seus potenciais por meio de atividades
em rede ou em cooperativa, representando o que existe em seu bairro e o que possui de
potencial turístico em seu entorno.

Entre os desafios para a construção e desenvolvimento de atividades participativas, é


possível citar a qualidade da articulação entre comunidades — ―aumentar a participação
popular nas questões do bairro, fomentar o coletivismo, desertar para a valorização e

113
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

conhecimento da dimensão sociocultural do turismo, da história local, compreender o


diferente e a diversidade de gênero, etnia e geração‖ (SILVA; SÁ, p. 27). É reforçado
pelas autoras que a superação de tais desafios está no trabalho
participativo, fortalecimento e autoestima da comunidade, no diálogo e coerção social e
o sentimento de pertencimento ao seu bairro. Assim, a equipe que compõe o projeto
TBC Cabula e entorno vem apoiando a comunidade nesses diferentes aspectos.

A equipe do projeto é dividida em 14 eixos temáticos: meio ambiente, ecologia social e


ecoturismo; políticas públicas, desenvolvimento regional e local, educação, formação e
cidadania; Comunicação comunitária; inclusão sociodigital; cooperativismo, economia
solidária, tecnologia social e inovação; turismo de base comunitária; e território e
espaço urbano.

Algumas das atividades desenvolvidas pela equipe do projeto, encontram-se estudo e


pesquisa de gabinete e de campo, em fontes primárias e secundárias; reuniões;
encontros e visitas e oficinas nos bairros do entorno da UNEB; amostras culturais; feiras
de meio ambiente e saúde; apresentação de trabalhos em eventos científico local,
regional, nacional e internacional (servem como apoio para os artistas e artesãos e para
os empreendimentos populares divulgarem e comercializarem seus produtos artesanais
(SILVA, 2012b)); publicação da cartilha (in)formativa sobre turismo de base
comunitária ―O ABC do TBC‖; publicação do livro ―Turismo de Base Comunitária e
Cooperativismo: articulando pesquisa, ensino e extensão no Cabula e entorno‖;
publicações de artigos em anais, revistas e capítulos de livros; roteiro turístico –
realizado pela comunidade de Pernambués, contou com a visita de 25 pessoas; e a
promoção do evento ―Encontro de Turismo de Base Comunitária e Economia Solidária‖
(ETBCES), cuja primeira edição ocorreu em 6 de Julho do ano de 2011 e a quinta
edição aconteceu de 12 a 16 de agosto de 2015.

A ITCP, a qual se encontra vinculada à Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da UNEB,


promoveu entre os dias 3 e 8 de julho do ano de 2012 o II ETBCES. O evento ocorreu
no Teatro da UNEB, localizado na rua: Silveira Martins, Cabula - no Campus I da
universidade – participaram cerca de 600 pessoas, entre representantes de órgãos
oficiais, entidades de classe, associações, cooperativas e lideranças comunitárias, bem
como estudantes dos ensinos fundamental, médio e superior. O evento teve início às 18h

114
do dia 3, com a apresentação da temática de Turismo de base comunitária na América
Latina, nas palavras do professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), Ernesto
Barrera. O evento contou com apresentação de grupos culturais e de visitações aos
bairros da Mata Escura, Uruguai, Plataforma e Retiro, I Mostra de Cultura e Produção
Associada ao Turismo e à Economia Solidária e da IV Mostra Cultural Arte no
Cotidiano, além das mesas-redondas e oficinas, pertinentes aos temas: economia
solidária, incubação e cooperativismo, turismo comunitário, turismo rural e produção
associada. O encerramento contou com a participação de pesquisador chileno que tratou
sobre o tema Turismo de base comunitária e economia solidária (SILVA, 2012b).

Da mesma forma, o IV ETBCES ocorreu de 12 a 16 de novembro de 2014, sediado pelo


Colégio Estadual Aliomar Baleeiro, no bairro de Pernambués, em Salvador, cujo tema
era Educação, Sociedade, Solidária e Meio Ambiente. Ocorreu juntamente com o evento
a III Mostra de Cultura e Produção Associada ao Turismo e a Economia Solidária, bem
como a II Feira de Meio Ambiente e Saúde; apresentações culturais, oficinas e relatos
de experiências (ABDON, 2014). Contou com a participação de mais de mil pessoas.

O V ETBCES foi sediado pelo Colégio Estadual Zumbi dos Palmares, organizado
totalmente pela comunidade com o apoio dos técnicos do projeto TBC Cabula e
entorno. Contou também com a IV Mostra de Cultura e Produção Associada ao Turismo
e à Economia Solidária; III Feira de Meio Ambiente e Saúde, bem como o I Circuito
Gastronômico. A temática do evento foi: Sociedade em transição, cultura de paz e
sustentabilidade. O evento contou com mesas-redondas sobre as temáticas: cultura da
paz e sustentabilidade; oficinas: compostagem; arte e reciclagem; produção de pão e
vivência de terapia comunitária; rodas de conversas sobre sustentabilidade e
comunicação não-violenta; e cursos de respiração, água e som (RAS), além de roteiros
turísticos no Beiru. Participaram do evento representantes da associações de bairros e
culturais, cooperativas de produção, lideranças comunitárias, gestores, pesquisadores e
artistas.

Todas as atividades desenvolvidas pela equipe do projeto TBC Cabula e entorno,


acontecem por meio de uma metodologia que não desenvolve um trabalho ―para‖, e sim
―com‖ o envolvimento efetivo da comunidade, ou seja, a construção ocorre em
conjunto. Com o diálogo constante com as comunidades e as demandas trazidas por

115
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

elas, são realizadas ações em conjunto, a exemplo das atividades desenvolvidas


conforme mencionadas anteriormente. Entre as diversas atividades realizadas pelo
projeto, a oficina de produção de textos foi uma demanda apontada pela comunidade.
Como resultado dessa ação, atualmente, a comunidade tem produzido textos por meio
de práticas de coautorias (mestrandos e doutorandos com atores da comunidade), em
produção acadêmica, aprovados em evento.

O grupo de pesquisa envolto do projeto TBC produz também, o conhecimento sobre


histórias do local, da origem dos nomes dos bairros, a exemplo do Beiru e do antigo
quilombo Cabula, por meio de dissertação e tese. Sem o acesso a tais informações,
torna-se difícil que esses atores sociais se orgulhem de pertencer a essa localidade pelo
fato de não conhecerem-na.

A comunidade local conhecendo a sua história e a sua cultura se fortalece, e na medida


em que o empoderamento acontece, se organizam e participam de forma democrática e
cooperativa de diversas ações dentro da comunidade, a exemplo da consolidação de
roteiro turísticos de base comunitária, sendo tal ação um elemento chave de
organização, caracterizando assim, a governança local. Dessa forma, pelo foco da
organização da governança das articulações da rede que fortalecem o território do
Cabula, o TBC aparece como um projeto demonstrativos das ações identificadas.

Contudo, o grupo de pesquisa do projeto TBC, encontram alguns desafios, entre eles:
fragmentação das comunidades; falta de articulação; conflitos entre os moradores da
comunidade e; problemas com líderes comunitários que, em alguns casos, defendem
interesses próprios e não do coletivo. Porém, a partir da conscientização e da
mobilização social em redes de governança, por meio de um modelo conforme proposto
pelo TBC poderá ser superada.

116
CONSIDERAÇÕES FINAIS

O TBC no Cabula surge como alternativa não só de geração de trabalho e renda, mas,
sobretudo, para valorizar os modos de vida, produção e conhecimento comunitário.
Diante da desarticulação da ordem social, característica de aglomerado populacional
espacialmente estabelecido em área que possui infra-estrutura precária, o que
caracteriza ausência histórica do Estado, cria-se um projeto coordenado pela
Universidade Estadual da Bahia para enaltecer o dinamismo social existente,
alavancado por uma proposta de economia inclusiva, pensada pela e para comunidade.

O projeto TBC Cabula e entorno, apresenta-se como um projeto demonstrativo em


curso, sendo entendido como modelo epistemológico para conceber a governança da
organização e de seu espaço, tecida pela própria comunidade, conforme apontado por
Max-Neef (2005, p.3), na qual se refere que o propósito fundamental para se ter em
mente ―não é o turismo, mas a preservação de outros modos de vida, reforçando a
preservação da diversidade e das identidades locais e regionais. O turismo não é a meta,
o turismo é o meio. A meta é defender o espírito que está na diversidade e nas
identidades‖ que a rede de comunidades possui.

Assim, diante das atividades desenvolvidas pela equipe do projeto TBC Cabula e
entorno, por meio da metodologia de trabalho ―com‖ o envolvimento efetivo da
comunidade, foi observado, portanto, por meio de diversas práticas, maior engajamento
da comunidade, pelo fato da mesma não se sentir instrumentalizada, mas pelo contrário,
ter protagonismo quando se pensa o seu desenvolvimento. O qual inverte a relação da
universidade com a comunidade, na qual esta deixe de ser o objeto de estudo e passe a
ser o sujeito colaborativo, assim sendo realizadas parcerias entre atores da comunidade
com atores acadêmicos.

Assim o projeto se enquadra nos parâmetros da ecossocioeconomia, sendo entendida


como um modo de se repensar e agir diante das fraturas do que se concebe como
desenvolvimento, diante das desigualdades socioeconômicas e descaso socioambiental.

117
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

REFERÊNCIAS

ALVES, A. M. Construções de visões compartilhadas governança, diálogo federativo e


participação social. In: I Conferência Nacional de Desenvolvimento Regional. Brasília,
2013.

OLIVEIRA, D. (Ascom). UNEB realiza 4ª encontro de turismo de base comunitária e


economia solidária.Tags: economia, ETBCES, Proex, turismo. Cabula – Salvador,
Bahia – 06 de Novembro de 2014. Entrevista concedida a Luiz Ramon Abson do
Núcleo de Jornalismo – Assessoria de Comunicação. Disponível em: <
http://www.uneb.br/2014/11/06/uneb-realiza-4-encontro-de-turismo-de-base-
comunitaria-e-economia-solidaria/> Acessado em 09 Set. de 2015.

BÖRZEL, T. J. Organizing Babylon: on the different conceptions of policy networks,


Public Administration, v. 76, n.2, p. 253-273, summer 1998.

CABAN, L. C. Análise comparativa das instituições e organizações agroindustriais


citrícolas dos estados da Flórida (EUA) e São Paulo (Brasil). Dissertação apresentada ao
programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de
São Carlos. 2008.

CASTRO, Yeda Pessoa. Falares africanos na Bahia. Rio de Janeiro: Topbooks, 2008.

FERNANDES, R. B. Periferização Sócio-espacial em Salvador: análise do Cabula, uma


área representativa. Salvador, 1992. Dissertação apresentada ao programa de Mestrado
da FAU-UFBA. 1992.

FREY, K. Governança urbana e participação pública. RAC-eletrônica. LOCAL DA


EDIÇÃO, v.1, n.1. p.136-150. 2007.

GOUVEIA, Anneza Tourinho. Um olhar sobre o bairro: aspectos do Cabula e suas


relações com a Cidade de Salvador. Dissertação de mestrado apresentada ao Curso de
Mestrado em Geografia - Universidade Federal da Bahia (UNEB). Salvador – BA.
2010.

GARCIAS, C. M.; AFONSO, J. A. C. Revitalização de rios urbanos. Gesta. LOCAL


DA EDIÇÃO. v. 1, n. 1 – p. 124–137, 2013. Disponível em:
<http://www.portalseer.ufba.br/index.php/gesta/article/view/7111>. Acesso em: 5 abr.
2014. 14p.

JACOBI, Pedro – Poder local, políticas sociais e sustentabilidade, rev. Saúde e


Sociedade. v.8, n. 1; 31-48, 1999.

LEFEBVRE, H. A revolução urbana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999.

LEFEBVRE, Henri. The urban revolution. Minneapolis; London: University of


Minnesota Press, 2003. cap. 6, p. 115-134.

118
MANCE, E. A.. Como organizar redes solidárias. Rio de Janeiro: DP&A, Fase, IFIiL,
2003.

MARTINS, S.; CKAGNAZAROFF, I. B. LAGE, M. L. da C. Análise dos Conselhos


Gestores de Políticas Públicas à Luz dos Relatórios de Fiscalização da Controladoria
Geral da União. Administração Pública e Gestão Social – APGS, Viçosa, v.4, pp.221-
245, abr/jun, 2012.

MARINHO, L. Apresentação do atlas da economia solidária no Brasil. In: Senaes/MTE.


Atlas da economia solidária no Brasil 2005-2007. Brasília: MTE, Senaes, 2007.

MARICATO, Ermínia. As idéias fora do lugar e o lugar fora das idéias: planejamento
urbano no Brasil. In: ARANTES, Otília; VAINER, Carlos; MARICATO, Ermínia. A
cidade do pensamento único: desmanchando consensos. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
p. 121-191.

MARCONI, M. de A. LAKATOS, E. M. Fundamentos de metodologia científica. 5 ed.


São Paulo: Atlas, 2003.

MAYNTZ, R. Governance Theory als fortentwickelte Steuerungstheorie? IN: Schupper,


G. F. Governance Forschung. Vergewisserung uber Stand und Entwicklungslinien,
Baden-Baden, Nomos, 11f. 2005.

MAX-NEEF, M. Prefácio. IN: SAMPAIO, C. A. C. Turismo como fenômeno humano.


Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2005.

MILLER, H. T. Post-Progressive Public Administration: lessons from policy networks.


In: Public Administration Review, v.54, n. 4, p.378-386, 1994.

NICOLIN, J. de S. Conhecimento: História e Cultura da África Reterritorializada no


Cabula-Tema: A Sociabilidade Cabuleira. In: Associação artista e Cultura Odeart.
Disponível em: <http://artebagacodeart.art.br/page_3.html> Acesso em: 18 maio 2015.

NICOLIN J. de S. MENEZES J. M. F. Cabuleiros: memória e pluralidade africano-


brasileira. In: Seminário Internacional acolhendo as Línguas Africanas: línguas e
culturas afro-brasileiras e as novas tecnologias. Universidade do Estado da Bahia –
UNEB, 2014.

NUNES, E. J. F. SOUZA, D. M. Educação e território: estratégias de desenvolvimento


local na periferia de Salvador. IX Colóquios Internacional de Geocrítica. Porto Alegre,
2007.

PAULISTA, G; VARVAKIS, G; MONTIBELLER-FILHO, G. Espaço emocional e


indicadores de sustentabilidade. Ambiente & Sociedade, Campinas, v. XI, n. 1, p. 185-
200, 2008.

PDDU. Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano 2009. 2009. Disponível


em:<http://www.sedham.salvador.ba.gov.br/lei7400_pddu/>. Acesso em: 12 out 2009.

119
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

POWELL, W. Neither market nor hierarchy: network forms of organization. Ressearch


in organization Behavior, v.12, p. 295-336, 1990.

PROCOPIUCK, M. Políticas Públicas e Fundamentos da Administração Pública:


Análise e Avaliação: governança e redes de políticas, administração judiciária. São
Paulo: Atlas, 2013. 383p. p.6.

RAZETO, L. M. O que é a economia de solidariedade. Disponível em


http://www.luisrazeto.net/content/i-o-que-%C3%A9-economia-de-solidariedade Acesso
em: 11 mar de 2011.

REZENDE, D. A.; CASTOR, B. V. J. Planejamento estratégico municipal:


empreendedorismo participativo nas cidades, prefeituras e organizações públicas. 2 ed.
Rio de Janeiro: Brasport, 2006.

REZENDE, D. A. Planejamento de estratégias e informações municipais para a cidade


digital. São Paulo: Atlas, 2012.

REZENDE, D. A. KLAUS F. BETINI, R. C. Governança e democracia eletrônica na


gestão urbana. 2006. Disponível em:
<http://egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/29555-29571-1-PB.pdf.> Acesso
em: 02 abr 2015.

RHODES, R. A. W. Policy Network Analysis. In M. Moran, M. Rein and R. E. Goodin


(Eds.) The Oxford Handbook of Public Policy. Oxford: Oxford University Press), p.
423-45.

RHODES, R. A. W. MARSH, D. Policy networks in british politics:a critique of


existing approaches. In: RHODES, R. A. W. MARSH, D. Policy networks in british
politics. Oxford: Clarendon Press, 1990, p.1-26.

SACHS, I. Rumo à Ecossocioeconomia: Teoria e prática do desenvolvimento. São


Paulo: Cortez Editora, 2007. 472p.

SÁENZ, R. C. Gobernanza y democracia: de vuelta al río turbio de la política, rev.


Gestión y Política Pública, vol. XXI . n. 2 . II semestre, p. 333-374, 2012.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da


experiência: para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição
paradigmática. São Paulo: Cortez, 2011.

SANTOS, A. L. CHONG, A. B. R. ARAUJO, D. M. S. ARAGÃO, I. SANTOS, L. G.


S. ARUJO, R. S. Os bairros delimitados pela comunidades como área do antigo
quilombo Cabula. Produzido por bolsistas e voluntários do eixo Espaço Urbano do
Projeto TBC Cabula e entorno. 2013.

SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 23. ed., rev. e atual. São Paulo:
Cortez, 2007. 304 p.

120
SOUZA, M. L. de. A prisão e a ágora: reflexões em torno da democratização do
planejamento e da gestão das cidades. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. 632 p.

SAMPAIO, C. A. C. Gestão Organizacional Estratégica para o Desenvolvimento


Sustentável. Itajaí: UNIVALI, 2000.
_____. (Org.) Gestão que privilegia uma outra economia: ecossocioeconomia das
organizações. Blumenau: EDIFURB. 2010.

SAMPAIO, C.A.C. SANTOS, L.C.R. RIBEIRO, L. S. A ecossocioeconomia e a


economia solidária, uma aproximação teórica. in: I Seminário Nacional de economia
solidária. Ponta Grossa, Paraná. 2014

SAMPAIO, C. A. C., CECCATO, M. W., MENDONCA, C. V., REHME, G. Q.


Slow city: como proposta de desenvolvimento territorial sustentável In: Seminário
Internacional Culturas e Desenvolvimento, Chapecó (SC), 2014.

SAMPAIO, C. A. C. SANTOS, L. C. R.; GRIGNANI, J. D. N. da C.


Desenvolvimento territorial sustentável: um estudo de caso de experiência
ecossocioeconômica na cidade do México- México/DF. Não divulgado. 2015, 15p.

SAMPAIO, C. A. C. Gestão que privilegia uma outra economia: ecossocioeconomia das


organizações. Blumenau: Edifurb, 2009.

SAMPAIO, C. A. C. LEÓN, C. DALLABRIDA, I. S.; PELLIN, V. Arranjo


socioprodutivo de base comunitária: o aprendizado a partir das cooperativas de
Mondragón. Organizações & Sociedade, v. 15, n. 46, 2008 p. 77-98.

SILVA, F. P. S. Projeto Turismo de Base Comunitária TBC Cabula e entorno:


Cargo: Coordenadora do projeto Turismo de Base Comunitária TBC Cabula e entorno.
Cabula – Salvador, Bahia - Brasil, 2015. Entrevista concedida a Luciane Cristina
Ribeiro dos Santos.

SILVA, F. P. S. Pesquisadores internacionais participando de encontro sobre turismo


comunitário. In: VASCONCELOS, Toni (Ascom). Tags: Cabula, economia solidária,
ITCP, Proex, turismo. Cabula – Salvador, Bahia – 28 de junho de 2012. Entrevista
concedida a Vicente Andrade do Núcleo de Jornalismo – Assessoria de Comunicação.
Disponível em: < http://www.uneb.br/2012/06/28/pesquisadores-internacionais-
participam-de-segunda-edicao-de-encontro-sobre-turismo-comunitario/> Acessado em
09 Set. de 2015.

SILVA, F.P. S. SÁ, N.S.C. (Org.). Cartilha (in)formativa sobre Turismo de Base
Comunitária ―O Abc do TBC‖. Salvador: EDUNEB, 2012. 32p.

SILVA, F.P. S. (Org.). Turismo de Base Comunitária e Cooperativismo: articulando


pesquisa, ensino e extensão no Cabula e entorno. Salvador: EDUNEB, 2013. 313p.

SINGER, Paul. Introdução à economia solidária. São Paulo: Editora Fundação Perseu
Abramo, 2002.

121
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

TEIXEIRA, M. F. I. M. Planejamento urbano e desenho urbano: um estudo sobre suas


relações múltiplas e mutantes. 2013. Dissertação (Mestrado em Gestão Urbana) para o
Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana – PPGTU. Pontifícia Universidade
Católica do Paraná, Curitiba, 2013.

OLIVEIRA JUNIOR, S. Q.. Pela vida sustentável: diferença entre ―planejamento


urbano e gestão urbana‖. 2012. Disponível em:
http://pelavidasustentavel.blogspot.com.br/2012/04/diferenca-entre-planejamento-
urbano-e.html. Acesso em: 26 maio 2015.

122
TERRITÓRIOS TURÍSTICOS E RESILIÊNCIA CULTURAL: ESTRATÉGIAS
LOCAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO EM ÁREAS
PROTEGIDAS

TERRITORIOS TURÍSTICOS Y RESILIENCIA CULTURAL: ESTRATEGIAS


LOCALES PARA EL DESARROLLO DEL TURISMO EM ÁREAS
PROTEGIDAS

Marina Mujica de Paiva


Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas –
PPGICH; Universidade Federal de Santa Catarina.
E-mail: marinamujica@gmail.com

RESUMO: O desenvolvimento do turismo em áreas protegidas vem crescendo nas


últimas décadas tanto no Brasil como no mundo. Um dos grandes desafios que se
apresentam em relação às áreas protegidas é a preocupação em preservar os processos
que geram e mantém a diversidade biológica existente no lugar. A adoção de uma
perspectiva sócio ecológica para conservação de espaços naturais nos remete a questão
da sociobiodiversidade. Lugares onde existe uma valorização cultural por parte dos
próprios moradores, em relação ao seu estilo de vida, suas tradições, seus costumes,
suas identidades, são lugares onde os moradores apresentam uma maior resiliência
frente às mudanças sociais provocadas pelo turismo. O objetivo desse estudo é
compreender os meios utilizados e utilizáveis pelas comunidades tradicionais para
desenvolver mecanismos de proteção e manejo de sua área natural contra as invasões e a
desorganização das economias locais pela atividade turística. Esta pesquisa encontra-se
em sua fase inicial e trata-se de um estudo de caso de caráter exploratório e descritivo.
Será realizada uma etnografia sobre o modo de vida do lugar e sua relação com o
turismo e as áreas naturais protegidas. O foco será um grupo de pescadores artesanais
do município de Bombinhas/SC.

Palavras chave: Turismo; Áreas Protegidas; Resiliência Cultural.

RESUMEN: El desarrollo del turismo en áreas protegidas ha venido creciendo en las


últimas décadas, tanto en Brasil como en el mundo. Uno de los grandes desafíos que se
presentan en relación a las áreas protegidas es la preocupación por preservar los
procesos que generan y mantienen la diversidad biológica existente en el lugar. La
adopción de una perspectiva socio-ecológica para la conservación de los espacios
naturales nos remite a la cuestión de la sociobiodiversidad. Lugares donde existe una
valorización cultural por parte de los residentes, respecto a su estilo de vida, sus
tradiciones, sus costumbres, sus identidades, son lugares donde los residentes presentan
una mayor resiliencia frente a los cambios sociales provocados por el turismo. El
objetivo de ese estudio es comprender los medios utilizados y utilizables por las
comunidades tradicionales para desarrollar mecanismos de protección y manejo de su
área natural contra las invasiones y la desorganización de las economías locales por la
actividad turística. Esta investigación está en su fase inicial y se trata de un estudio de
caso de carácter exploratorio y descriptivo. Será realizada una etnografía sobre el modo
de vida del lugar y su relación con el turismo y las áreas naturales protegidas. El foco

123
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

será un grupo de pescadores artesanales del municipio de Bombinhas (Santa


Catarina/Brasil).

Palabra-clave: Turismo; Áreas Protegidas; Resiliencia Cultural.

INTRODUÇÃO

O
turismo é uma das atividades econômicas que mais se expande no mundo.
Nas últimas décadas o turismo foi um dos setores da economia que
movimentou e gerou mais recursos. Esse fato pode ser ilustrado por alguns
países que, nos últimos anos, viram seu Produto Interno Bruto (PIB) aumentar como
consequência do desenvolvimento turístico interno (ARCHER; COOPER, 2001).
Alguns desses países são considerados subdesenvolvidos e apresentam uma economia
predominantemente baseada no setor primário, onde a maioria da população vive em
áreas rurais. Apesar dos baixos índices sociais e de uma economia deprimida, são países
que apresentam áreas naturais com grande biodiversidade, ou seja, ricas em recursos
naturais e paisagísticos que são muito atrativos para o turismo. A procura por lugares
turísticos paradisíacos se mostra intensa na contemporaneidade devido a um ritmo de
vida estressante nas grandes cidades. A ideia do mito da natureza intocada de Diegues
está posta na sociedade ocidental quando mostra o desejo humano de uma volta ao seu
estado natural. Segundo Diegues,

As áreas naturais protegidas são representadas, como indica Thoreau,


por símbolos que remetem aos espaços mais profundos da psique
humana, tais como refúgio de contemplação, ilhas onde a mente
humana pode proteger-se da devastação da sociedade urbano-
industrial (DIEGUES, 1998, p. 60).

O desenvolvimento do turismo em áreas protegidas vem crescendo nas últimas décadas


tanto no Brasil como no mundo. O Brasil, particularmente, apresenta enorme
biodiversidade, marcada por regiões com diferentes biomas e formas de organização
social tradicional de rica cultura. As áreas naturais que fazem parte das unidades de
conservação 20 são lugares de beleza cênica, que se tornam alvo de fluxos turísticos

20
Espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características
naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites
definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção.

124
internacionais, principalmente aqueles do segmento de sol e praia. São povoados, vilas,
aldeias, que, embora localmente isolados se tornam conhecidos numa dimensão global
devido aos meios de comunicação e a facilidade de mobilidade e acesso.

As comunidades tradicionais que residem em áreas naturais protegidas com grande


biodiversidade são caracterizadas como povos que vivem há gerações nesses lugares e
estabelecem uma relação de simbiose com o seu meio. Seu modo de vida está
intrinsecamente ligado à atividade produtiva que exercem, seja a pesca, a agricultura, o
extrativismo, etc. Além dos recursos naturais, existe todo um conhecimento tradicional
acumulado por gerações, em estreita relação com a natureza, incluindo sistemas de
classificação, de zoneamento e de manejo. Esse conhecimento não deve ser considerado
apenas por sua antiguidade, mas pela maneira como é usado e foi adquirido. Portanto,
entende-se por povos ou comunidades tradicionais aqueles que, têm cultura própria e se
reconhecem; possuem organização social própria; ocupam e utilizam recursos naturais
como parte de sua identidade; vivem baseados em conhecimentos, inovações e práticas
tradicionais; o sistema de exploração dos recursos naturais é sustentável e adaptado às
condições ecológicas locais e desempenham papel fundamental na proteção da natureza
e na manutenção da diversidade biológica (DIEGUES; et al., 1999).

Um dos grandes desafios que se apresentam em relação às áreas protegidas é a


preocupação em preservar os processos que geram e mantém a diversidade biológica
existente no lugar. Surge, dessa forma, a questão em relação à gestão e a pressão de uso
sobre os recursos naturais dessas áreas. Segundo Bensusan (2002),

Apesar das diversas modalidades de áreas protegidas que existem hoje


no Brasil, não será possível conservar todos os processos geradores e
mantenedores de biodiversidade utilizando apenas esse instrumento. É
necessário conciliar o uso e a presença humana com a proteção da
biodiversidade (BENSUSAN, 2002, p. 1).

É de suma importância reconhecer o valor do conhecimento tradicional das


comunidades locais, pois, muitas vezes, essas comunidades conhecem a dinâmica dos
ecossistemas e das espécies presentes na região. Portanto, o apossamento tradicional das
diversas populações como, seringueiros, remanescentes de quilombo, castanheiros,

125
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

ribeirinhos, caiçaras, pescadores, deve ser respeitado e integrado às políticas de


conservação e desenvolvimento dentro de áreas protegidas.

Dessa forma, o presente trabalho parte do pressuposto que a inter-relação entre os povos
ditos tradicionais e o ambiente em que habitam ocorre de uma maneira particular, pois
está fundamentada em uma relação de dependência direta com os recursos naturais que
garantem sua subsistência. Nesse sentido, o artigo trata da relação entre território e
construção da identidade. O território é entendido através de uma perspectiva
interdisciplinar, com ênfase em uma lógica culturalista que reforça sua dimensão
enquanto representação e valor simbólico. O território como lugar vivido e significado
nos remete a um dos aspectos que nos permite compreender o conceito de resiliência
cultural. Este conceito será apresentado no decorrer do texto.

O objetivo desse estudo é compreender os meios utilizados e utilizáveis pelas


comunidades tradicionais para desenvolver mecanismos de proteção e manejo de sua
área natural contra as invasões e a desorganização das economias locais pela atividade
turística. Além disso, o trabalho procura analisar de que forma a resiliência cultural
pode contribuir para o desenvolvimento turístico sustentável em áreas protegidas.

O presente estudo encontra-se em sua fase inicial. Trata-se de um estudo de caso sobre o
município de Bombinhas, localizado no litoral centro-norte do estado de Santa Catarina,
Brasil. A escolha desse local deve-se ao fato de que Bombinhas, nas últimas duas
décadas, vêm passando por um processo de modificações socioespaciais ocasionada por
uma crescente demanda turística. Outro fator que motivou a escolha desse município foi
a presença de áreas naturais protegidas de uso turístico que ainda não possuem plano de
manejo21 definido.

Em relação à metodologia, será realizada uma etnografia sobre o lugar, a fim de


compreender como o modo de vida dos moradores locais está sendo afetado pelo

21
A Lei Nº 9.985/2000 que estabelece o Sistema Nacional de Unidades de Conservação define o Plano de
Manejo como um documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma
Unidade de Conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e
o manejo dos recursos naturais.

126
processo de turistificação 22 do espaço. Além disso, a pesquisa busca identificar as
estratégias desenvolvidas localmente pra lidar com situações adversas geradas pelo
turismo.

Nas Ciências Sociais, sobretudo na antropologia, destaca-se a análise relativa às


mudanças sociais em comunidades litorâneas brasileiras com um olhar voltado para
suas práticas socioculturais. Aspectos de resiliência e sustentabilidade nos sistemas
socioecológicos para adaptação aos momentos de crise vêm sendo amplamente
discutidos na comunidade científica. A partir de uma perspectiva interdisciplinar e
sistêmica, a resiliência poderia fornecer um foco de análise estratégica para o fenômeno
do crescimento turístico, uma vez que enfatiza os aspectos críticos do funcionamento de
todo o sistema: a continuidade, apesar das mudanças. Segundo Ballesteros,

[…] The nature of tourist development that aims to be


socioecologically sustainable makes resilience a central element to
consider. The inclusion of socio-ecological resilience as a dimension
in tourist studies and evaluations could add a more solid meaning to
the analysis of sustainability in tourism. Tourism cannot be treated
purely as a productive activity since its effects are much farther
reaching (BALLESTEROS, 2011, p. 665).

Compreender a capacidade menor ou maior de resiliência nas comunidades forneceria


um quadro para análise e discussão, tanto para as comunidades quanto para as
organizações de cooperação e órgãos estaduais interessados no desenvolvimento do
turismo em comunidades tradicionais e as formas que estas devem adotar para atingir a
sustentabilidade socioecológica.

IMPACTOS SOCIOCULTURAIS DO TURISMO NAS COMUNIDADES


RECEPTORAS

Diversos estudos têm demonstrado os impactos negativos gerados pelo


desenvolvimento do turismo de forma espontânea e desordenada, ou seja, sem nenhum
tipo de planejamento prévio. Segundo Araujo e Moura (2007, p. 99), ―as transformações
ocorrem de forma rápida, sem controle local, devido à ausência de políticas de
planejamento e gestão, ou como resultado da inobservância dos existentes‖.
22
O termo ―turistificação‖ refere-se à agregação de infraestrutura e equipamentos turísticos ao espaço
geográfico, visando à realização da função turística.

127
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Outro fator, de cunho mais simbólico, é que ―a imposição de costumes e valores


culturais exógenos às comunidades litorâneas tem frequentemente causado a
desagregação dos laços comunitários locais historicamente estabelecidos, muitas vezes
causando sofrimento psicossocial a parte da população residente‖ (ARAUJO; MOURA,
2007, p.103). Pode-se dizer que esse tipo de consequência do turismo nas comunidades
tradicionais corrobora o modelo de ‗desenvolvimento‘ capitalista que vem sendo
duramente criticado na literatura, caracterizado pela geração de impactos inaceitáveis e
pela exclusão da população local do processo de crescimento.

A dimensão social e cultural da atividade turística, antes negligenciada, atualmente vem


recebendo uma atenção maior por parte dos estudiosos, pois o turismo em sua essência
promove o contato e compartilhamento de culturas diferentes.

O fato da dimensão sociocultural ser relegada ao plano econômico é descrita por Pádua
(2004) ao analisar o modelo histórico de ocupação do território brasileiro e suas
implicações ecológicas. Segundo o autor,

A natureza e as populações tradicionais das diferentes regiões


brasileiras são recorrentemente agredidas pela introdução de
atividades econômicas de conteúdo homogeneizador. As sociedades
locais são desprezadas em favor do lucro de agentes econômicos
externos, que maquiam seu auto interesse com o discurso abstrato do
progresso e do desenvolvimento (PÁDUA, 2004, p. 17).

Em grande número de países, o turismo tem sido um dos eixos desencadeadores de


mudanças espaciais, sociais, culturais e paisagísticas, com uma predominância de áreas
localizadas próximas a corpos d‘água – como é o caso das orlas marítimas. Em tais
ambientes, o turismo age desterritorializando atividades e populações locais
preexistentes, produzindo novas configurações geográficas e socioculturais. Portanto, o

[...] turismo é na atualidade um dos desencadeadores dessa


espacialização, age desterritorializando/reterritorializando e
produzindo novas configurações geográficas. Assim, regiões
litorâneas, originalmente ocupadas por indígenas, pescadores,
comunidades tradicionais – os chamados ―povos do mar‖ – são
expropriadas para dar lugar às segundas residências, aos grandes
resorts, às cadeias hoteleiras, aos restaurantes e demais equipamentos
turísticos, como parques temáticos, por exemplo (CORIOLANO;
SILVA, 2007, p. 46).

128
Assim, juntamente com a capacidade de gerar crescimento econômico, de aumentar a
renda nas destinações turísticas e de contribuir para a balança de pagamentos, o turismo
tem também a capacidade de causar profundos impactos negativos nas áreas que se
tornam objeto dos fluxos turísticos, quando o modelo empregado para a turistificação do
espaço obedece a uma lógica de planejamento que diz mais respeito a interesses
exógenos do que aos interesses de desenvolvimento das comunidades em questão.

Em relação a isso, Colchester afirma que,

[...] na verdade, muitas comunidades tradicionais estão conscientes do


fato que, quanto mais as pressões externas aumentam e suas
economias e organizações sociais se transformam para acomodar um
envolvimento cada vez maior com a economia de mercado, elas
precisam elaborar novos mecanismos para controlar e usar os recursos
naturais (COLCHESTER, 2000, p. 244).

Nesse sentido, o turismo, além de ter como uma de suas características mais marcantes a
capacidade de transformação e de consumo do espaço, traz também consequências em
relação à dimensão sociocultural de comunidades tradicionais que habitam essas áreas.
Ou seja, ameaçam a própria organização dos sistemas políticos de posse da terra e da
distribuição dos recursos naturais. Portanto, a constatação de como esses aspectos,
advindos do turismo, interferem tanto na vida social como no ambiente físico de
determinada comunidade tradicional, é a premissa para se desenvolver meios, junto à
população local, de decidir a melhor forma de se estabelecer o turismo nessa área.

Um dos aspectos que mais sofrem com a influência do turismo, são os traços culturais
característicos de determinada comunidade. Ao entrar em contato com o ―Outro‖, com
costumes, valores e comportamento diferentes do seu, o nativo consciente ou
inconscientemente passa a incorporar essas influências com menos ou mais intensidade.

As culturas não são estáticas, elas estão sempre em mutação, agrupando ou


reconfigurando novos elementos. Porém, na maioria das vezes os moradores locais
passam a querer incorporar o estilo de vida dos turistas, e passam a se sentir inferiores
por não compartilhar inteiramente da predominante sociedade de consumo. Esse
processo tem sido denominado de ―efeito demonstração‖ e é desencadeado a partir do

129
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

choque ou contraste produzido pelo contato regular entre grupos sociais


socioeconômicos e culturalmente distintos.

Nesse sentido, Souza (1997) argumenta que a assimetria de renda e as diferenças


culturais podem ser negativas e traumáticas, pois:

[...] um grupo de pessoas buscando o prazer, oriundas de uma


realidade que consideram ―superior‖ e dotada de grande poder de
compra, pode gerar muitas distorções entre uma população mais
pobre, seja diretamente (estimulando a prostituição e a mendicância,
levando a uma perda coletiva de autoestima), seja indiretamente (por
exemplo, pressionando para cima o nível de preços dos produtos
ofertados no mercado local e prejudicando os habitantes mais pobres).
Além disso, a cultura da população mais pobre também pode ver-se
agredida (e com isso a própria identidade coletiva), gerando
problemas sócio psicológicos. (SOUZA, 1997, p. 17).

Entretanto, não é somente o turismo que desencadeia o apelo ao consumo e a estilos de


vida diferentes. Os meios de comunicação (TV, rádio, revistas, internet...), podem ser
considerados também como alguns dos principais responsáveis pela mudança nos
padrões de consumo. O turismo aparece como potencializador dessas mudanças
causadas nas comunidades receptoras. Porém torna-se difícil mensurar os impactos
socioculturais que a atividade turística causa nas comunidades receptoras. Pois, como
explicitado acima, as comunidades receptoras ao serem submetidas à lógica do turismo,
entram em um processo intenso de modificação, que mesmo a adoção de abordagens
qualitativas de pesquisa apresenta dificuldades em captar a direção das mudanças.

Se por um lado, o encontro entre culturas diferentes através do turismo tem causado
diversos tipos de impactos negativos, existe, por outro lado, a ideia de que essa
atividade seja capaz de contribuir para a valorização social das comunidades e de seus
hábitos culturais, trazendo para os autóctones efeitos e impactos positivos. Adotando-se
uma perspectiva histórico-cultural, o turismo ―pode ser um meio de afirmação da
identidade local, conscientizando os nativos do valor da cultura autóctone e do
significado do patrimônio (material ou imaterial, natural ou cultural) e do empenho por
sua preservação‖ (SAVIOLO; DELAMARO; BARTHOLO, 2005, p. 19).

Acredita-se, nesse trabalho, que lugares onde existe uma valorização cultural por parte
dos próprios moradores, em relação ao seu estilo de vida, suas tradições, seus costumes,

130
suas identidades, são lugares onde os moradores apresentam uma maior resiliência
frente às mudanças sociais provocadas pelo turismo.

A resposta dada pela comunidade receptora, em relação ao crescimento do turismo em


sua localidade pode se expressar de diferentes formas. A comunidade pode, por um
lado, se envolver nas atividades turísticas, adotando padrões comportamentais do
visitante, negando sua identidade e tornando-se, em alguns casos, dependente da renda
gerada pelo turismo, deixando de exercer antigos ofícios. Por outro lado, pode ocorrer
uma negação e não aceitação, por parte dos moradores, do desenvolvimento turístico em
sua localidade, pois a comunidade sente-se ameaçada pela interferência dos turistas no
seu modo de vida tradicional. Existe ainda, um meio termo, em que a comunidade local,
por vontade própria, se insere nos empreendimentos turísticos e mantém, ao mesmo
tempo, as atividades econômicas exercidas antes da chegada do turismo. Nessa situação,
os moradores do lugar conseguem manter uma relação harmoniosa com o turismo, ou
seja, buscam os benefícios econômicos trazidos por essa atividade e valorizam e
preservam as características naturais e sociais de seu lugar, porque reconhecem que
estas últimas são seus maiores atrativos turísticos.

O reconhecimento e valorização, por boa parte dos moradores dos lugares turísticos, de
seu patrimônio histórico-cultural se constituem em fatores positivos para estimular a
participação desses atores nos processos decisórios de planejamento e gestão da
atividade. Essa participação seria uma forma de minimizar os possíveis impactos
negativos gerados pelo turismo.

As orientações expostas acima procuram dar ênfase à participação dos diversos atores
que fazem parte das comunidades submetidas às atividades turísticas e são impactados
por essa atividade. No entanto, essa ―equidade‖ de oportunidades não existe na prática.
Porque na realidade, a infraestrutura turística, na maioria das vezes, tem sido construída,
no caso da zona costeira, seja pela iniciativa pública ou privada, sem qualquer forma
significativa de participação nem consulta à população local, que sofrerá em última
instância as consequências do crescimento do turismo no seu lugar.

A análise dos impactos socioculturais gerados pelo turismo se apresenta como algo
complexo, pois se trata de uma questão qualitativa e relativa. Por isso, torna-se difícil

131
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

estabelecer critérios muito precisos sobre o que viria a ser positivo ou negativo para
determinada comunidade. Dentro da própria comunidade existe certo relativismo, uma
vez que o que é bom para determinada pessoa não é necessariamente bom para outra.
Porém existem casos que afetam toda a comunidade, problemas que atingem todos os
moradores, tais como a degradação ambiental, o desrespeito à cultura local, o aumento
da violência, a elevação do custo de vida local, entre outros problemas.

Uma forma de evitar ou minimizar esses acontecimentos negativos é através de uma


maior participação dos habitantes locais nos processos de planejamento e gestão
turísticos. A participação é entendida aqui com base no conceito de Arnstein, (1969,
p.216) que a define como sendo ―a distribuição de poder que permite que os cidadãos
marginalizados, presentemente excluídos do processo político e econômico, sejam
deliberadamente incluídos no futuro‖. Através da participação, os moradores dos
lugares turísticos poderiam ter alguma possibilidade de ter voz e força para defender
seus interesses e com isso poder gerir melhor os impactos (sociais, culturais, ambientais,
econômicos) produzidos pela atividade turística.

TERRITÓRIO TURÍSTICO E DESTERRITORIALIZAÇÃO

Território e territorialidade são conceitos centrais para a geografia, mas ao mesmo


tempo são conceitos que tem certa tradição em outras áreas do conhecimento, cada uma
delas dando enfoque a uma determinada perspectiva.

A geografia enfatiza a materialidade do território, incluindo a interação sociedade-


natureza; a ciência política enfatiza sua construção a partir de relações de poder; a
economia o percebe como uma das bases da produção (enquanto ―força produtiva‖); a
antropologia destaca sua dimensão simbólica, principalmente no estudo das sociedades
ditas tradicionais; a sociologia enfoca-o a partir de sua intervenção nas relações sociais,
em sentido amplo, e a psicologia o incorpora no debate sobre a construção da
subjetividade ou da identidade pessoal, ampliando-o até a escala do indivíduo
(HAESBAERT, 2007).

132
O território turístico consegue abranger os diferentes enfoques das diversas áreas de
conhecimento, ou seja, ele pode ser visto e entendido a partir das várias perspectivas
citadas acima. Isto se deve ao fato de o turismo ser uma atividade cuja constituição
envolve aspectos da realidade que são objeto de estudo de várias ciências ao mesmo
tempo.

A atividade turística, por ter um caráter interdisciplinar, tem o poder de interferir, como
já foi dito anteriormente, em diversos setores como o físico-espacial, com a mudança da
paisagem, a partir da interferência humana, por exemplo; nas relações de poder, de
caráter assimétrico, com casos de expropriação de moradores devido à valorização de
determinado espaço; de ordem econômica, ao gerar lucros e dividendos, muitas vezes de
forma desigual; de ordem subjetiva, impactando nas relações sociais nos lugares que se
tornam destinações turísticas e alterando mais ou menos traços culturais presentes em
comunidades turísticas ou pelo contrário reforçando esses mesmos traços.

De qualquer maneira é importante definir o conceito de território, que pode ser


entendido de forma ampla a partir da perspectiva etológica (ligada ao comportamento
animal) à psicológica:

Um ―território‖ no sentido etológico é entendido como o


ambiente de um grupo [...] que não pode por si mesmo ser
objetivamente localizado, mas que é constituído por padrões
de interação através dos quais o grupo ou bando assegura
uma certa estabilidade e localização. Exatamente do mesmo
modo o ambiente de uma única pessoa (seu ambiente social,
seu espaço social de vida ou seus hábitos) pode ser visto
como um ―território‖, no sentido psicológico, no qual a
pessoa age ou ao qual recorre (GUNZEL apud
HAESBAERT 2007, p. 38).

O enfoque etológico subvaloriza as bases materiais, objetivas, da constituição do


território e propõe a construção de um território a nível psicológico, indo da dimensão
física à mental.

Para Lacanau (2004), o território é o espaço geográfico adscrito a um ser, a uma


comunidade, a um ente de qualquer natureza, física ou imaterial:

O espaço de vida de um animal, a área de aparição de uma espécie


vegetal, o âmbito de difusão de uma língua ou de qualquer outra
prática social, etc. Quando se atribui a um grupo humano complexo

133
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

(um povo, uma nação, uma sociedade) se converte em um dos


integrantes fundamentais de seu projeto comum: em suporte e recurso
básico, âmbito de vida, paisagem própria e invariante na memória
pessoal e coletiva (LACANAU, 2004, p.182).

Como se pode ver, o território pode ser entendido a partir de diferentes perspectivas. Por
exemplo, pode-se partir da ideia de uma área geográfica, até a ideia de relação de
pertencimento ou compartilhamento de certos códigos e valores por grupos de pessoas
que habitam determinada porção do espaço.

Para Milton Santos a concepção de território está associada ao seu ―uso‖ (econômico,
sobretudo). O ―uso‖ é o definidor por excelência do território. O território usado
constitui-se como um todo complexo onde se tece uma trama de relações
complementares e conflitantes (SANTOS, 2000, p. 12). O que faz ele objeto de análise
social é seu uso e não o território em si mesmo.

Santos faz uma distinção entre território como recurso e território como abrigo
afirmando que enquanto ―para os atores hegemônicos o território usado é um recurso,
garantia de seus interesses particulares‖, para os ―atores hegemonizados‖ trata-se de
―um abrigo, buscando constantemente se adaptar ao meio geográfico local, ao mesmo
tempo que recriam estratégias que garantam sua sobrevivência nos lugares‖ (SANTOS,
idem, p. 12-13).

Essa diferenciação entre território como recurso e território como abrigo, pode ser
encontrado nas perspectivas diferentes que o turista e o morador desenvolvem sobre
uma mesma localidade turística. O morador entende o lugar e o território a ele associado
a partir da sua experiência vivida do lugar, ao passo que o turista o percebe com base
em uma perspectiva diferente, como um ―outsider‖ que simplesmente passa pelo lugar.

Para o turista o território se apresenta como algo a ser consumido e desfrutado. A


relação entre os dois é superficial, pois é passageira e na maioria das vezes não existe
uma ideia de identidade nem de pertencimento em relação ao lugar. Já o morador
desenvolve mapas mentais que demarcam o território em que habita, e sente-se parte
integrante daquele espaço, pois compartilha dos mesmos códigos dos outros moradores.

134
Esse sentimento de pertencer ao espaço em que se vive, de conceber o espaço como
lócus das práticas, onde se tem o enraizamento de uma complexa trama de sociabilidade
é que dá a esse espaço o caráter de território (SOUZA; PEDON, 2007).

Para Knafou, o que ocorre na verdade são conflitos de territorialidades entre os turistas
(nômades) e os anfitriões (sedentários), como fica evidente na transcrição a seguir:

Há diferentes tipos de territorialidade que se confrontam nos lugares


turísticos: a territorialidade sedentária dos que ai vivem
frequentemente, e a territorialidade nômade dos que só passam, mas
que não têm menos necessidade de se apropriar, mesmo fugidiamente,
dos territórios que frequentam (KNAFOU, 1996, p. 64).

Por isso, os processos de turistificação do espaço desencadeiam novas e diferentes


territorialidades entre turistas e residentes. A modificação do espaço material e imaterial
a partir do desenvolvimento turístico pode gerar, em muitos casos, formas de
―desprendimento‖ cultural em relação a lugares específicos, devido a não identificação
de seus moradores com o lugar habitado. Essa situação relaciona-se com os processos
de desterritorialização.

O processo de desterritorialização está relacionado ―a processos de exclusão


socioespacial, assim como também está ligado à disseminação de uma hibridização de
culturas, dissolvendo os elos entre um determinado território e uma identidade cultural
que lhe seria correspondente‖ (HAESBAERT, 2007, p. 172). Para Haesbaert, podemos
considerar como quase sinônimos de desterritorialização a desvinculação cultural de
espaços específicos e a mescla de identidades ou o hibridismo como norma cultural
dominante.

A desterritorialização culturalista, segundo Haesbaert, é percebida a partir de uma


leitura do território como fonte de identificação cultural, referência simbólica que perde
sentido e se transforma em um ―não-lugar‖. Esses ―não territórios‖ perdem o sentido, o
valor de espaços aglutinadores de identidades, ―na medida em que as pessoas não mais
se identificam simbólica e afetivamente com os lugares em que vivem, ou se identificam
com vários deles ao mesmo tempo e podem mudar de referência espacial-identitária
com relativa facilidade‖ (HAESBAERT, 2006, p. 131).

135
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A situação descrita acima se identifica com os processos de modificação do espaço


causados pela atividade turística. Muitos lugares são alterados profundamente,
guardando hoje pouca relação com suas características anteriores, que existiam no lugar
antes do início de turistificação. Muitos empreendimentos turísticos vão sendo
construídos em áreas antes habitadas pelas comunidades locais, cujo modo de vida se
voltava mais para um modelo de subsistência ou de produção de pequena escala,
normalmente em torno da pesca, agricultura e artesanato. Além de serem alijados de seu
espaço, os moradores do lugar raramente são consultados sobre a construção de alguma
infraestrutura turística, ou mesmo em relação à sua percepção da atividade turística e se
estão interessados em se envolver com uma transformação do lugar de vivência deles
em um lugar turístico. As modificações impostas ao lugar podem ser tão intensas que,
em alguns casos, levam os próprios moradores originários da comunidade local a
desenvolver certo estranhamento em relação ao ‗seu‘ lugar.

Em muitos casos, o processo de apropriação dos lugares pelo turismo obedece a uma
lógica de mercado como bem observa Haesbaert (2012), ao afirmar que parcelas cada
vez mais expressivas do espaço têm sido moldadas visando um padrão ótimo de
funcionalidade econômica. Processos de globalização e desterritorialização estão
intimamente associados. A desterritorialização extrema é denominada pelo autor como
―aglomerados de exclusão‖. Os aglomerados de exclusão são marcados por certa
fluidez, instabilidade e insegurança constantes, principalmente em termos de condições
materiais de sobrevivência, pela violência frequente e pela mobilidade destruidora de
identidades. São ―espaços sobre os quais os grupos sociais dispõem de menor controle e
segurança, material e simbólica‖ (HAESBAERT, 2012, p. 185).

Frequentemente locais turísticos litorâneos são invadidos por casarões de segunda


residência e por novos padrões de comportamento e hábitos que destoam muitas vezes
da simplicidade das casas e dos moradores do lugar. O fenômeno das segundas
residências faz desencadear novas territorialidades, ao desapropriar e deslocar os
antigos moradores dessas áreas privilegiadas. Esse processo de desterritorialização
acaba por levar alguns desses moradores a ocupar áreas periféricas ou áreas impróprias
para ocupação humana residencial, tais como encostas, manguezais e margens de rios, o
que termina causando diversos impactos ambientais nas áreas ocupadas.

136
Além da descaracterização da paisagem natural, as segundas residências construídas a
beira-mar formam verdadeiros ‗paredões‘ que impedem a chegada do visitante e
dificultam o acesso dos próprios moradores à praia. Há ainda casos nos quais essas
construções são erguidas em áreas inadequadas, o que acabam por comprometer a
estabilidade da linha de costa, ecossistemas importantes e a qualidade ambiental em
geral (ABREU; VASCONCELOS, 2007, p. 343).

As mudanças territoriais geradas pela atividade turística, como é o caso das mudanças
levadas a efeito pelas segundas residências, não só afetam o cotidiano dos moradores
locais, como são também responsáveis pela apropriação de espaços antes vivenciados e
usufruídos de forma coletiva pelos habitantes das comunidades envolvidas.

Ao falar sobre território a partir de uma dimensão cultural, podemos considera-lo


enquanto representação, como valor simbólico. Esse caráter subjetivo do território se
relaciona com a ideia de pertencimento e de construção de identidade a partir de
determinados referenciais simbólicos significativos para quem habita aquele espaço.

TURISMO E RESILIÊNCIA CULTURAL

Existe uma tendência por parte de economistas e administradores de superestimar a


atividade turística como um negócio gerador de emprego e renda. O ecoturismo, por
exemplo, é um segmento que procura conciliar os povos nativos com as áreas
protegidas. Muitas localidades são divulgadas devido ao seu potencial eco turístico,
embora a atividade praticada não seja necessariamente caracterizada como tal. Sob essa
perspectiva podemos constatar que,

[...] as comunidades não desconhecem os custos sociais potenciais da


dependência do turismo e nem todos estão preparados para deixar suas
atividades tradicionais em troca de ganho temporário... Conceder às
comunidades parte dos benefícios gerados pela conservação em troca
da extinção de seus direitos, de sua autonomia política e da
transformação de seu modo de vida, pode não ser considerado bom
negócio para muitas comunidades tradicionais. (COLCHESTER,
2000, p. 245).

Por outro lado, o desenvolvimento turístico seria compensado pelo aumento de uma
consciência ambiental de seus habitantes, de acordo com uma filosofia protecionista, e

137
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

que também implicaria um controle efetivo pela comunidade de um território que a


unidade de conservação não poderia cobrir. Além disso, o turismo, a partir de um
processo de auto-organização da comunidade, poderia contribuir com a diversificação
das atividades econômicas que já são exercidas localmente.

Lugares onde existe uma valorização cultural por parte dos próprios moradores, em
relação ao seu estilo de vida, suas tradições, seus costumes, suas identidades, são
lugares onde os moradores apresentam uma maior resiliência frente às mudanças sociais
provocadas pelo turismo.

Para a sociologia, a resiliência é definida como ―a habilidade de grupos ou comunidades


de enfrentar estresses externos e perturbações como resultado de mudanças sociais,
políticas e ambientais‖ (ADGER, apud BRAND; JAX, 2007, p.3). As mudanças sociais
causam impacto cultural que podem ser sentidos a longo e médio prazo, ou seja, as
culturas sofrem modificações a partir de sua própria dinâmica, ou como resultado de
acontecimentos específicos que têm a capacidade de acelerar esse processo de
mudanças, que são tanto positivas como negativas.

Nessa perspectiva, a resiliência se apresenta como uma capacidade para lidar com os
fatores negativos intrínsecos as mudanças culturais. Usamos como fundamento teórico
neste artigo o conceito sociológico de resiliência, adaptando-o ao conceito de resiliência
cultural, tendo como contexto a inserção turística em um determinado lugar e suas
implicações no âmbito da cultura local (PAIVA, 2010). Entendemos, de maneira geral,
que a resiliência cultural faz parte de um processo dinâmico que tem como resultado a
adaptação positiva de comunidades locais em contextos adversos.

A resiliência cultural, no que diz respeito ao fenômeno do turismo, pode ser entendida
como uma forma ao mesmo tempo de resistência e adaptação das comunidades
turísticas receptoras às mudanças trazidas pelos turistas e demais tipos de visitantes, que
apresentam outras visões de mundo e, por isso mesmo, outros signos, valores e atitudes.
A resiliência cultural está relacionada a um modo de vida peculiar, por parte dos
moradores da localidade turística, por uma identidade cultural associada ao lugar, à
coesão social e à transmissão de certas tradições passadas de geração para geração.
Assim, a resiliência cultural é definida como a capacidade que um determinado grupo

138
social tem em resistir a mudanças provocadas pelo contato com culturas diferentes,
preservando seu patrimônio cultural (op.cit. 2010).

Não se pretende aqui defender uma visão antropológica de compreensão ―fossilizada‖


de uma suposta autenticidade cultural. A intenção é saber qual o grau de interferência da
atividade turística numa dada comunidade, se ela está desagregando valores e costumes
da cultura local ou se essas mudanças estão ocorrendo devido à pressão das
circunstâncias e a partir da própria dinâmica interna da cultura ou até mesmo se o
turismo pode vir a estimular a capacidade de resiliência da comunidade em questão.

A hipótese é a de que, se existe um nível alto de capacidade resiliente por parte da


comunidade tradicional, a sustentabilidade será garantida, uma vez que esta será capaz
de manter elementos da sua base social e ambiental no futuro, apesar de quaisquer
choques que possam vir a ocorrer.

METODOLOGIA

Este estudo encontra-se em sua fase inicial, por isso as etapas do processo de pesquisa
foram descritas no tempo futuro. Em relação à abordagem teórica, apenas uma parte dos
referenciais conceituais foram apresentados neste artigo.

O presente trabalho trata-se de um estudo de caso de caráter exploratório e descritivo.


Utilizará as ferramentas das Ciências Sociais com o intuito de entender a realidade
social da comunidade tradicional estudada em suas variadas formas. O estudo dará
ênfase à observação participante a fim de examinar cuidadosamente a realidade social
circundante, tentando captar conflitos e tensões que estão presentes. Será feita uma
etnografia sobre o modo de vida do lugar e sua relação com o turismo e as áreas naturais
protegidas. O foco será o grupo de pescadores artesanais do município de
Bombinhas/SC. A pesquisadora irá conviver um tempo com a comunidade para captar
as experiências diárias e facilitar o processo de inserção, de coleta de dados, de
identificação dos problemas centrais e de diálogo.

O local pesquisado será o município de Bombinhas, localizado no litoral centro-norte do


estado de Santa Catarina, a aproximadamente 70 km de Florianópolis. A escolha do

139
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

lugar deve-se ao processo de turistificação do município de Bombinhas que gerou uma


acentuada modificação na paisagem da sua Zona Costeira, sob o efeito do crescimento
urbano, acompanhado por forte especulação imobiliária. Segundo Hillesheim,

[...] a exploração turística desordenada acompanhada de uma rápida


urbanização resultou numa diminuição, cabendo dizer uma quase
extinção, das áreas naturais próximas ao mar, principalmente nas
praias mais extensas. Nestas praias, verifica-se uma ocupação de toda
área de restinga, causando uma ―privatização‖ da orla marítima pela
construção civil (HILLESHEIM, 2006, p. 10).

Além disso, Bombinhas possui três Unidades de Conservação (UC‘s), o Parque Natural
Municipal Morro do Macaco, o Parque Natural Municipal da Galheta e a Área da
Costeira de Zimbros de relevante interesse ecológico. Essas áreas têm sido afetadas pela
ação antrópica e invasão de espécies exóticas e, apesar de serem grandes atrativos
turísticos, ainda não possuem plano de manejo e fiscalização adequada.

Para o exame do conceito de resiliência cultural este estudo adotará uma combinação de
três variáveis, a saber: a construção da identidade cultural através do território; as
atividades produtivas transmitidas pelas gerações passadas e exercidas até os dias atuais
pelos moradores do lugar; e a memória, como um dos elementos principais dos
processos de transmissão de conhecimentos práticos e simbólicos que constituem a
cultura local.

Este estudo combinará diversas estratégias de coleta de dados que possibilitem


examinar a questão de pesquisa sob diferentes ângulos, uma estratégia chamada de
triangulação (ROBSON, 1993).

Inicialmente será feito um levantamento em fontes secundárias com a finalidade de criar


um banco de dados que agregue informações sobre as características da região e da
comunidade tradicional. Serão consultados documentos oficiais, bibliografias, trabalhos
realizados, censos, sobre a localidade estudada.

Em seguida será realizada uma investigação preliminar da comunidade por meio de


conversas informais, observação participante, registro fotográfico digital e a realização
de um grupo focal. As entrevistas serão gravadas e posteriormente transcritas para se
proceder a análise. Os dados também serão registrados em um diário de campo.

140
A composição do grupo focal consistirá de pessoas integrantes da comunidade
tradicional e que tenham uma atuação relevante junto à unidade de conservação que será
o objeto do estudo de caso. A reunião de grupo focal consistirá na projeção de fotos do
local de estudo, onde o grupo participante será orientado a falar sobre as fotos a medida
que elas vão sendo projetadas, comentando suas impressões de forma livre.

Levando-se em consideração as falas e os temas que foram levantados durante a reunião


de grupo focal, nas conversas informais e na observação participante, será elaborado um
roteiro de entrevista semiestruturada para ser aplicado num segundo momento da
pesquisa, a um grupo maior de moradores e também às lideranças locais (líderes
naturais, presidentes da comunidade, guias turísticos). As entrevistas serão gravadas e
transcritas para posteriormente se proceder à análise de acordo com os interesses do
estudo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O turismo é uma atividade que transforma, de maneira sutil ou intensa, os lugares aonde
ele se desenvolve. Muitas vezes, à medida que o lugar se transforma ele se reorganiza e
recebe influências externas, podendo perder suas características de comunidade. Daí a
preocupação de vários grupos sociais que vivem em comunidades litorâneas com a
ocupação turística do lugar. Tal preocupação reflete ao mesmo tempo uma consciência
do potencial que o turismo tem de alterar os lugares nos quais se desenvolve e um receio
de que venham a perder as características que definem a sua marca identitária seus
valores comunitários.

Ao estabelecer uma relação entre a construção da identidade cultural com o território,


chamo a atenção para o aspecto do vínculo da comunidade local aos seus lugares de
origem. A constituição de um modo de vida está associada à forma como as pessoas
vivenciam um lugar. As experiências sensoriais, a memória, são fatores que contribuem
para a criação de referenciais afetivos oriundos de matérias e ideias que se
interconectam. O movimento que rege a vida social, em alguns grupos humanos,
obedece a um ritmo influenciado pelos ciclos naturais, que se assemelha a um formato

141
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

circular, que se dá por um movimento contínuo, ininterrupto, que se diferencia de um


tempo linear, predominante no pensamento da sociedade ocidental. Esse movimento
cíclico está em consonância com as atividades práticas de produção e reprodução da
vida, que por sua vez são caracterizados pela interação com o meio natural. Para
Maurice Godelier (1984, p. 115), ―as formas de propriedade de um território são ao
mesmo tempo uma relação com a natureza e uma relação entre os homens‖. Dessa
forma, o território pode ser entendido como o espaço físico e socialmente construído,
constituído por valores, crenças, símbolos e sentimentos.

Há evidências na literatura da área de que a atividade turística pode trazer benefícios


para as populações locais. Pode contribuir com o fortalecimento de atividades
econômicas existentes no lugar, como é o caso do artesanato local. Ao mesmo tempo,
através do turismo,

[...] a identidade de uma comunidade pode ser valorizada, pois a


relação com o outro evidencia as diferenças culturais fazendo com que
ambos passem a valorizar mais a sua própria identidade por meio das
diferenças percebidas nas relações entre visitantes e visitados
(TEIXEIRA; MICHELIN; DALL‘AGNOL, 2008, p.4).

As identidades, assim como a cultura, são dinâmicas, pois estão em constante processo
de reconstrução, recebendo influências externas e internas. Mas segundo Teixeira,
Michelin & Dall‘Agnol (2008, p. 4), um dos grandes desafios contemporâneos ―é
atingir uma estabilidade prudente entre a manutenção das identidades locais e o
desenvolvimento necessário para sua inserção nos processos econômicos‖. Em outras
palavras, a questão que se coloca atualmente é a de como desenvolver o turismo de
forma que este não cause impactos socioculturais negativos em uma comunidade, a
ponto de esta perder parte de sua identidade cultural.

A resiliência cultural se apresenta como uma forma de manutenção de traços culturais


locais pela comunidade receptora, mesmo após a possibilidade de intenso contato com
culturas diferentes proporcionadas pelo turismo. É uma forma encontrada pela
população nativa de reafirmar sua cultura e sua identidade local, através da
conscientização a respeito de seu patrimônio histórico, cultural e natural. Nesse sentido,
podemos interpretar a resiliência cultural relacionada ao turismo, como uma forma de
resistência à tendência de homogeneização dos lugares turísticos influenciada pelos

142
processos da globalização. Essa forma de resistência está respaldada pelo
reconhecimento e valorização da cultura local pelos moradores do lugar turístico.

Portanto, este trabalho apresenta uma proposta de investigação que propõem a relação
entre resiliência e turismo com o intuito de propiciar ferramentas de análise para
compreensão dos meios e estratégias de manejo e gestão utilizados e utilizáveis pelos
moradores locais que habitam áreas protegidas de uso turístico. Segundo Adams (1988),
a diversidade ecológica, em muitos casos, foi mantida por causa da diversidade cultural
e das técnicas existentes nas comunidades de jangadeiros, caiçaras, povos indígenas,
etc. Nesse sentido, é importante ressaltar que as comunidades tradicionais têm direitos
inalienáveis à sua terra e ao controle dos recursos naturais, por isso, é relevante
reconhecer o acesso e o manejo tradicional como uma das formas de preservar a
biodiversidade.

A adoção de uma perspectiva sócio ecológica para conservação de espaços naturais nos
remete a relação intrínseca entre a biodiversidade23 e a sociodiversidade24 (BERKES;
FOLKES, 1998). Essa relação mútua pode ser entendida a partir da visão de Diegues
(1999), que mostra que,

A biodiversidade não é simplesmente um produto da natureza, mas em


muitos casos é produto da ação das sociedades e culturas humanas, em
particular, das sociedades tradicionais não industriais [...] ela é
também uma construção cultural e social (DIEGUES, 1999, p.03).

No entanto, pelo fato da biodiversidade contemplar os recursos naturais em si, e por isso
mesmo, serem mercadorias nas sociedades modernas, acaba representando uma
valoração superior em relação à sociodiversidade, no que diz respeito à intervenção
ambiental que ainda se baseia fundamentalmente num enfoque biofísico relegando o
social ao segundo plano (ESCALERA, 2008; BALLESTEROS, 2011). Acontece que,
como foi dito anteriormente, geralmente, as áreas com maior biodiversidade são aquelas
onde há a presença da ação manejadora ligada ao modo de vida das comunidades

23
A variabilidade entre os seres vivos de todas as origens, inter alia, a terrestre, a marinha e outros
ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos dos quais fazem parte: isso inclui a diversidade no
interior das espécies, entre as espécies e entre espécies e ecossistemas‖ (Convenção sobre a Diversidade
Biológica/Artigo 2).
24
A relação entre bens e serviços gerados a partir de recursos naturais, voltados à formação de cadeias
produtivas de interesse de povos e comunidades tradicionais e de agricultores familiares.

143
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

tradicionais, que ali vivem há gerações, e que são responsáveis pela qualidade dos
hábitats transformados em áreas protegidas.

REFERÊNCIAS

ABREU, F.; VASCONCELOS, F. P. O Litoral em Questão: Caracterização e


descaracterização do território. In: CORIOLANO, L. N. M. T.; VASCONCELOS, F. P.
(Orgs.) O Turismo e a relação Sociedade-Natureza: realidades, conflitos e
resistências. Fortaleza: Eduece, 2007, p. 327-354.

ADAMS, C. As Populações Caiçaras e o Mito do Bom Selvagem. Revista De


Antropologia, São Paulo, USP, v.43 n.1, p. 145-182, 2000.
ARAUJO, L. M.; MOURA, F. de B. P. A expansão do turismo na zona costeira
nordestina: crescimento econômico, degradação ambiental e erosão cultural. In:
CORIOLANO, Luzia Neide M. T.; VASCONCELOS, F. P. (orgs.). O turismo e a
relação sociedade-natureza: realidades, conflitos e resistências. Fortaleza: Eduece,
2007, p. 94-114.

ARCHER, B.; COOPER, C. Os impactos positivos e negativos do turismo. In:


THEOBALD, W. F. (Org.) Turismo global. São Paulo: Senac, 2001, p. 95-102.

ARNSTEIN, S. Ladder of citizen participation. Jornal of the American Institute of


Planners. London, n. 35, v. 4, p. 216-224, 1969.

BALLESTEROS, E. R. Social-ecological resilience and community-based tourism


An approach from Agua Blanca, Tourism Management, Ecuador. v. 32, n.3, p. 655-
666, 2011.

BRAND, F.S.; JAX, K. (2007). Focusing the meaning(s) of resilience as a descriptive


concept and a boundary object. EcologyandSociety 12(1): 23. Disponível em:
<http://www.ecologyandsociety.org/vol12/iss1/art23/.html> Acesso em: 09 set.
2015.

BENSUSAN, N. Conservação da biodiversidade e presença humana: é possível


conciliar? Terra dos Índios - Revista Eletrônica sobre a Questão Fundiária
Indígena no Brasil). Brasília: Biblioteca da FUNAI, [s.ed], 2002, p 1-5. Disponível
em:
<http://www.funai.gov.br/ultimas/e_revista/artigos/biodiversidade_nurit.pdf>
Acesso em: 10 dez. 2014.

BERKES, F. & FOLKE, C. Linking social and ecological systemns for resilience and
sustainability. In: BERKES, F; FOLKE, C. Linking social and ecological systems.
Management practices and social mechanisms for building resilience. Cambridge:
Cambridge University Press, UK, p. 1-25, 1998.

144
COLCHESTER, M. Resgatando a natureza: comunidades tradicionais e áreas
protegidas. In: DIEGUES, A.C.D. (Org.) Etnoconservação: novos rumos para a
conservação da natureza. São Paulo: Hucitec, 2000, p. 225-257.

CORIOLANO, L. N. M.T.; SILVA, S. B.M. Turismo: Prática Social de Apropriação e


Dominação de Territórios. In: CORIOLANO, Luzia Neide M. T.; VASCONCELOS,
F.P. (orgs.). O turismo e a relação sociedade-natureza: realidades, conflitos e
resistências. Fortaleza: Eduece, 2007, p. 44-56.

DIEGUES, A. C. O mito moderno da natureza intocada. 2 ed. São Paulo: Hucitec,


1998.

DIEGUES, A. C.; et al. Os Saberes Tradicionais e a Biodiversidade no Brasil. In:


DIEGUES, A. C.(org.); et al. Biodiversidade e comunidades tradicionais no Brasil.
São Paulo: NUPAUB-USP, PROBIO-MMA, CNPQ. 1999. Disponível em:
<http://livroaberto.ibict.br/bitstream/1/750/2/Biodiversidade%20e%20comuni
dades%20tradicionais%20no%20Brasil.pdf> Acesso em 25 dez. 2014.

ESCALERA, J. Turismo, espacios naturales y resiliencia socio ecológica. Actas del II


Congreso Latinoamericano de Antropología. Costa Rica: San José. p. 757-767, 2008.

GODELIER, M. L. ’idéel et le materiel. Paris: Fayard, 1984.

HAESBAERT, R. Territórios Alternativos. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2006.


_____. O Mito da Desterritorialização. Do ―Fim dos Territórios‖ à
multiterritorialidade. 3ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
_____. Desterritorialização: entre redes e aglomerados de exclusão. In: CASTRO, Iná
Elias; GOMES, Paulo Cesar da Costa, CORRÊA, Roberto Lobato (Org.) Geografia:
conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012, 165-205.

HILLESHEIM, C.B.V. Turismo e paisagem: a influência da atividade turística na


paisagem natural do município de Bombinhas (SC) entre 1960 e 2005. Dissertação de
Mestrado. Universidade do Vale do Itajaí, Balneário Camboriu, 2006.

LACANAU, G. C. Geografía e território: el papel del geógrafo en la escala local.


Estúdios y perspectivas en turismo. Vol. 13, nº 1-2, 2004, p. 182-185.

KNAFOU, R. Turismo e Território: Por uma abordagem científica do turismo. In:


ADYR, A.B.R. (org.) Turismo e Geografia. Reflexões teóricas e enfoques regionais.
São Paulo: Hucitec, 1996, p. 62-74.

PÁDUA, J. A. A ocupação do território brasileiro e a conservação dos recursos naturais.


In: MILANO, M.S.; TAKAHASHI. L.Y.; NUNES M.L. (Orgs.). Unidades de
Conservação: atualidades e tendências. (Curitiba: Fundação O‘Boticário de Proteção à
Natureza, 2004, 208p.) p. 12-19.

PAIVA, M. M. Resposta local ao turismo: resiliência cultural e desenvolvimento local


no Pontal de Coruripe. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Meio
Ambiente e Desenvolvimento. Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2010.

145
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

ROBSON, C. Real world research: a research for social scientists and practitioner-
researchers. Oxford: Blackwell, 1993.

SANTOS, M. Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência


universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
SOUZA, M. J. L. Como o turismo pode contribuir para o desenvolvimento local? In:
RODRIGUES, A. B. (Org.) Turismo e desenvolvimento local. São Paulo: Hucitec,
1997.

SOUZA, E.A.; PEDON, N.R. Território e Identidade. Revista Eletrônica da


Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Três Lagoas – MS, vol. 1, nº 6, ano 4,
p. 126-148, 2007.

SAVIOLO, S.; DELAMARO, M. C.; BARTHOLO, R. Sustentabilidade, turismo,


diálogo. In: SAVIOLO, S.; DELAMARO, M. C.; BADIN, L. (org.) Turismo e
Sustentabilidade na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

TEXEIRA, P. R.; MICHELIN, R. L. DALL'AGNOL, S. Turismo e globalização:


análise da relação com a identidade cultural. In: Seminário da Associação Nacional de
Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (ANPTUR), V. Belo Horizonte, MG. Agosto
2008. Disponível em:
<http://hipnos.ucs.br/turismo/admin/UPLarquivos/030920081826062.pdf> Acesso em:
15 jul. 2015.

146
25
SENTIDOS DA PAISAGEM DO POVOADO CRASTO/SE
NA PERSPECTIVA DOS SUJEITOS DO LUGAR

SENTIDOS DEL PAISAJE DE LA COMUNIDAD DEL PUEBLO CRASTO/SE


EN LA PERSPECTIVA DE LOS SUJETOS LOCALES

César Augusto França Ribeiro


Licenciado em Geografia - Universidade Federal de Sergipe
E-mail: cesar.franca_ufs@hotmail.com

Heberty Ruan da Conceição Silva


Graduando em Geografia - Universidade Federal de Sergipe
E-mail: heberty-ruan.geo@hotmail.com

RESUMO: O presente artigo é destinado a uma reflexão acerca dos sentidos da


paisagem do povoado Crasto / Santa Luzia do Itanhy-SE, atribuídos pelos sujeitos
locais. Para tanto, considerar-se-á enquanto recorte geográfico as categorias lugar e
paisagem, ancoradas pelo método fenomenológico. Enquanto instrumental de pesquisa,
utilizou-se das técnicas de observação e entrevista semiestruturadas, registro fotográfico
e construção de mapas mentais. Com base no exposto, conclui-se que a paisagem que
conforma o lugar, está intimamente relacionada com o cotidiano dos sujeitos locais,
tendo o rio como um dos seus principais símbolos, uma vez que é deste que os sujeitos
constroem o seu modo de vida, caracterizado pela pesca e por laços topofílicos
envolvendo não somente o rio, como também a Restinga, a Mata Atlântica e o
Manguezal. Tais componentes da paisagem estão entrelaçados com o ato de partilhar,
trabalhar, interagir, em geral, com o ato de ser dos sujeitos da comunidade.

Palavras –chave: percepção, paisagem, Crasto, sujeitos locais

RESUMEN: Este artículo está destinado a una reflexión sobre el sentidos del paisaje de
la comunidad del pueblo Crasto / Santa Luzia do Itanhy, umbicado em el estado de
Sergipe/Brasil atribuídos por los sujetos locales. Para la concretude de la investigación,
fueran elegidas las categorías geográficas lugar y paisaje, anclado por el método
fenomenológico. Mientras que la investigación, hemos utilizado las técnicas de
observación y entrevista semiestructurada, documentación fotográfica y la construcción
de los mapas mentales. Basado en lo anterior, se concluye que el paisaje que conforma
el lugar, está estrechamente relacionado con la vida cotidiana de los sujetos locales, y el
río és un de sus principales símbolos, ya que es por medio de él que los sujetos
construyen su forma de vida, que se caracteriza por la pesca y por topofílicos lazos que
involucran no sólo el río, como también Restinga, el Bosque Atlántico y el Mangle.
Tales componentes del paisaje se entrelazan con el acto de compartir, trabajo,
interacción, por lo general con el acto de ser de los sujetos de la comunidad.

Palabras clave: percepción, paisaje, Crasto, sujetos locales

25
Este artigo é fruto do projeto de pesquisa PIBIC/PICVOL, intitulado ―turismo comunitário no povoado
Crasto/ Santa Luzia do Itanhy-SE, sob a perspectiva dos sujeitos locais‖, coordenado pela profa. Dra.
Roseane Cristina Santos Gomes, desenvolvido no período de agosto de 2014 a julho de 2015.

147
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

INTRODUÇÃO

A
construção do presente artigo tem por objetivo uma reflexão acerca dos
significados da paisagem do povoado Crasto/Santa Luzia do Itanhy/SE,
atribuídos pelos sujeitos locais, considerando a relação destes sujeitos com o
lugar em que vivem, a partir de suas percepções. Em meio a referida reflexão, foram
enfatizados, preponderantemente, três aspectos: a estrada; a Mata do Crasto, e por fim,
mas não menos importante, o Rio Piauí.

Os três elementos da paisagem não foram escolhidos aleatoriamente, e sim devido à


ênfase e sentido de vivência, pertença e experiência que os sujeitos atribuem aos
mesmos, pois é através destes elementos da paisagem em questão que há uma relação
cotidiana entre o sujeito-ambiente, denotando senso topofílico. Neste sentido, buscou-se
compreender esta relação por meio do método Fenomenológico ao analisar a essência
do processo constitutivo do cotidiano sob o viés da paisagem Marca e da paisagem
Matriz, segundo (BERQUE, 1998).

Para tanto, a vertente teórico-metodológica está ancorada na Geografia Cultural


Humanista, sendo o instrumental de pesquisa constituído de revisão de literatura,
pesquisa documental direta baseada na aplicação de roteiro de observação e entrevistas
semiestruturados, registro fotográfico e técnica de construção de mapas mentais pelos
sujeitos locais, a fim de enfatizar a essência de sua relação com a paisagem,
representando geograficamente a sua relação com o lugar.

Para tanto, entre outros autores, considera-se Berque (1998) ao que concerne a paisagem
enquanto Marca e enquanto Matriz; Kozel (2001) em relação aos mapas mentais e Tuan
(1979) para enfatizar a topofilia dos sujeitos em relação ao lugar, além de Holzer (1997)
para abordar epistemologicamente a Fenomenologia enquanto ciência das essências.

Deste modo o presente artigo está estruturado em cinco momentos onde o primeiro é o
presente com a introdução. O segundo faz referência ao elo entre a Geografia e a
Fenomenologia e seu ponto comum enquanto ciências. No terceiro momento há uma
descrição metodológica da pesquisa com ênfase à Pesquisa Qualitativa. O quarto
momento é voltado para a apresentação dos resultados, no qual é evidenciado, por meio

148
das observações, das entrevistas e os mapas mentais a relação topofílica entre os sujeitos
locais com a paisagem do povoado Crasto. Por fim, mas não menos importante, a
Conclusão com o desfecho final da temática abordada.

A GEOGRAFIA DA ESSÊNCIA, DOS SIGNIFICADOS DO LUGAR E DA


PAISAGEM TRADUZIDOS PELA FENOMENOLOGIA

O mangue vive de um jeito diferente. Entre o rio e o mar ele se ocupa


de ser um incestuoso estuário de vida que veio e da vida que passará.
Em seu manancial confuso de argila absolvente, silte brincante,
organismos em decomposição, o universo vivo de belas formas se
recria incessantemente. Ambiente mágico e dialético, oposto ao
desenho estético disciplinador, o mangue fechado sobre si mesmo,
abre-se em mistérios para receber. Quem desejar compreende-lo deve
tentar penetra-lo incansavelmente, abandonando a terra firme de
certeza e a clareza das fontes límpias. (NETO, 2008, p. 40 - 41).

A Geografia em seu curso e percurso histórico-metodológico encontra-se enquanto


ciência relativamente jovem, pois deriva do segundo momento do Iluminismo europeu
em meados do século XVIII, fundamentada principalmente em teorias vitalistas26 que se
encontravam de maneira antônima a vertente naturalista, preponderante à época.

De maneira sucinta, a Geografia passou por dois grandes ciclos. Suas bases teórico-
metodológicas encontravam-se fundamentadas sob o viés teorético quantitativo de
embasamento positivista; posteriormente, fundamentou seu caráter metodológico,
preponderantemente e que prevalece até os dias atuais, na ciência de cunho marxista sob
a face do prisma do materialismo-histórico e dialético.

Outra face teórica-metodológica do prisma geográfico, diz respeito a qual o presente


artigo encontra-se: a Geografia Humanista de base Fenomenológica. Tal concepção
considera, entre outros fatores, o percebido, o concebido e o experenciado em relação às
categorias espaço, território, região, lugar e paisagem, in foco aos sujeitos sociais de
uma determinada localidade, nesta pesquisa, denominados de sujeitos locais. Holzer
(1997, p. 77) afirma que ―Antes de tudo cabe dizer que a fenomenologia e a geografia

26
sm (vital+ismo) 1 Filos Doutrina segundo a qual os seres vivos possuem uma força particular, distinta
da alma e da físico-química, que dá origem aos fenômenos vitais; opõe-se ao mecanicismo. 2. Conjunto
das funções orgânicas; vitalidade.

149
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

têm, em planos diferentes, objetivos convergentes: o de estudar a constituição do


mundo‖.

A convergência supracitada enfatiza o sujeito e suas relações com o ambiente,


antecedendo o próprio meio natural propriamente dito, ou seja, se por um lado do
prisma geográfico um local é analisado considerando sua geomorfologia, pedologia,
hidrografia, etecetera, por outro lado enfatiza-se a maneira de se relacionar do sujeito
em relação àquela localidade, e tal não pode ser feito por nenhum especialista em
nenhuma ciência, a não ser o próprio sujeito social; a fenomenologia, basicamente é a
ciência de análise da essência.

Segundo Relph (1979), a fenomenologia é fundamentalmente um método que já teria


provado sua riqueza em outros domínios disciplinares e poderia, portanto, revelar-se
frutífero para o projeto humanista que revaloriza aspectos esquecidos na geografia
tradicional. O autor sublinha dois pontos que já dariam uma nova dimensão aos estudos
geográficos na perspectiva fenomenológica. O primeiro caracteriza o fato cultural,
sempre inscrito dentro de uma perspectiva prática, ativa, ou ainda, potencial. O segundo
ponto é o incontornável caráter antropocêntrico de todo conhecimento, em que uma
explicação só é satisfatória na medida em que é fundada sobre a compreensão das
intenções e das atitudes humanas.

Um ―problema‖ tido aqui como benéfico, ao construir ciência com o método


fenomenológico, diz respeito ao fato de que o cientista não deve se restringir às
denominações positivistas. A classificação cartesiana baseia-se em quantidades e
métodos empíricos de sistematização. A ciência das essências, por outro lado, se refere
à existência humana, a experiência e vivência dos sujeitos do/no mundo. Sobre isto,
(ALMEIDA, 2008, p.48) propõe:

Este procedimento metodológico implica, pois a ausência uma


universalidade, o geógrafo lidando com as individualidades, o
excepcional na geografia. Também com este procedimento a análise da
ordem simbólica concede uma importância ao lugar, visto como uma
combinação de elementos a serem decodificados como linguagem.

A complexidade do método fenomenológico, diz respeito a empreender a essência, a


percepção, em suma o individual de outrem. Mesmo neste contexto, não devemos
observar este outro como objeto de estudo, mas sim como um sujeito social portador de

150
uma história, de um conhecimento, de lembranças, que não se encontram em um livro
ou em alguma mídia, isto por ser algo único, por ser uma fonte diferente e inigualável a
qualquer outra, ou seja, a sua percepção de mundo.

Assim, a fonte legítima do conhecimento, no caso em questão os sujeitos, é a explicação


centrada nas experiências vividas cotidianamente, e contextualizadas a partir dos
instrumentos culturais que lhes são relativos, (GOMES, 1996). Tais experiências, são
centradas, apreendidas, efetuadas em um determinado ponto no espaço, eis neste
momento que se encontra a Geografia sob tal viés: uma relação entre a percepção e o
ambiente.

Conforme Merleau Ponty (2004), temos a percepção como expressão da experiência de


um sujeito em contato com o mundo. A percepção do outro não é um objeto ou reflexão
da coisificação das relações socioespaciais. Ela é uma totalidade viva, expressiva, onde
se percebe de imediato, não somente os olhos, mas o olhar, não somente o rubor da face,
mas a vergonha, demonstrando assim, sua chegada à interioridade do outro e na sua
expressividade corpórea. Isto denota um mergulho no subjetivo, no imaginário e nos
significados atribuídos pelo outro às coisas, ao mundo, ao semelhante dentro de uma
perspectiva de alteridade. Para ratificar:

Percepção é um substantivo que se aplica ao ato, ao processo de


perceber, assim como resultado dessas ações. Perceber, por seu turno,
vem da língua latina: percípere (per = bem, como intensidade + cápere
= apanhar, pegar, captar). Nesse sentido, perceber um fato, um
fenômeno ou uma realidade, significa captá-los bem, dar-se conta deles
com alguma profundidade (COIMBRA, 2004, p. 539).

Desta maneira, ao analisar dialogicamente a essência dos conceitos apresentados por


Merleau Ponty (2004) e Coimbra (2004), defende-se no presente artigo que a percepção
por representar e aprofundar subjetivamente uma determinada localidade socioespacial,
baseando-se no entender e no viver de determinados sujeitos, representa um fenômeno
ou uma realidade, e acrescenta-se que tal fato torna o conceito uma nova maneira de
representar certa localidade geograficamente.

A percepção está relacionada com os efeitos dos fatores sociais e culturais sobre a
estruturação cognitiva do indivíduo no seu ambiente material e imaterial, no seu
território. Para Smyth (1995), nossas percepções sobre o ambiente externo (the

151
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

landscape) são sempre transformadas pelos nossos ambientes internos (the inscape), isto
é, fazemos a leitura da natureza (mindscape) de acordo com os nossos anseios,
vontades, necessidades, memórias, experiências e vivências. As duas percepções e as
nossas respostas para elas são selecionadas e interpretadas sob as suas influências.

De acordo com Kozel (2001), é através dos processos perceptivos, a partir dos
interesses e necessidades que estruturamos e organizamos a interface entre realidade e
mundo, selecionando-as, armazenando-as, e conferindo-lhes significados. Neste sentido,
e por meio da percepção, o presente trabalho propõe compreender as tessituras que
regem as relações estabelecidas entre os sujeitos que habitam o povoado Crasto em
Santa Luzia do Itanhy – SE, dentro de um contexto histórico e a partir das
transformações socioespaciais que neste lugar e nesta paisagem ocorreram.

Isto posto, a fim de respaldar geograficamente o presente artigo, torna-se pertinente


eleger as categorias lugar e paisagem para sistematização da pesquisa, pois em meio aos
questionamentos que surgiram e aos objetivos apresentados, as soluções para tais, e por
paradoxo da própria pesquisa as novas questões, são melhores respondidas quando
analisadas fenomenologicamente dentro do contexto das categorias apresentadas.

Quando analisado o significado da palavra lugar, baseando-se apenas no dicionário


Aurélio (2010) tem-se para lugar: 1. Espaço. 2. Local, sítio onde está qualquer coisa; e
para paisagem: 1. Extensão de um lugar aberto que se abrange um lance de vista. 2.
Tipo de pintura ou desenho que retrata um cenário natural ou de cidade. Neste tocante,
por mais simplificado que esteja, há uma relação entre a paisagem e o lugar, do lugar
com o espaço e consequentemente da paisagem com o espaço.

Não ocasionalmente encontra-se esta relação. Ao se tratar de Geografia, o espaço é a


categoria macro de análise científica, e analogicamente como conjuntos e subconjuntos,
o lugar e a paisagem, assim como as demais categorias, estão inseridos e contidos no
próprio espaço. Ou seja, lugar e paisagem estão contidos no espaço, assim como o
espaço está contido no lugar e na paisagem.

O primeiro autor a fazer uma ponte entre a fenomenologia e a geografia foi Relph com o
livro Place and placelessness (1980), no qual o mesmo enfatizava, dentro desta
concepção metodológica, a importância do lugar, pois: "o lugar onde alguém está é,

152
talvez, os lugares e paisagens de que ele se lembra", ou seja, "uma profunda e imediata
experiência do mundo que é ocupado com significados e, como tal, é a própria base da
existência humana" (RELPH, 1980, p. 5).

A fenomenologia, busca desta maneira "analisar as vivências intencionais da


consciência para perceber como aí se produz o sentido dos fenômenos, o sentido do
fenômeno global que se chama mundo" Dartigues (1973, p.30). Convém ressaltar, não
obstante, que o conceito de mundo em questão, faz referência, não enquanto sinônimo
mas enquanto elemento do lugar que a Geografia de cunho fenomenológico busca
entender, pois o mundo de vivência e de experiência de um determinado sujeito tem
relação direta com a paisagem e o lugar que o comportam.

O lugar, como citado anteriormente, mas enfatizado neste momento, encontra-se no


espaço, e o espaço mesmo sendo mais abrangente, encontra-se no lugar. O espaço pode
ser representado então como a unicidade de vários lugares, únicos, unidos por uma rede
de relações que formam o ―todo espacial‖. Sobre essa questão:

[...] o lugar é uma unidade entre outras unidades ligadas pela rede de
circulação; [...] o lugar, no entanto, tem mais substância do que nos
sugere a palavra localização: ele é uma entidade única, um conjunto
'especial', que tem história e significado. O lugar encarna as
experiências e aspirações das pessoas. O lugar não é só um fato a ser
explicado na ampla estrutura do espaço, ele é a realidade a ser
esclarecida e compreendida sob a perspectiva das pessoas que lhe dão
significado. (TUAN, 1979, p. 387)

O lugar, com sua essência e dinâmica histórica, o torna único, consequentemente,


peculiar. Entretanto, enfatiza-se que a percepção e representação deste mesmo lugar
podem encontrar variantes antagônicas, e neste sentido a representação continuará
sendo única, mas com concepções totalmente distintas. Tal fato deve-se as variações
que os sujeitos locais, aqueles que se encontram intrínsecos ao lugar, o compreendem e
o essencializam. À simplificar, este mesmo lugar pode ter um caráter topofólico ou
topofóbico.

De acordo com Tuan (2012), topofilia é o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ao
ambiente físico. Difuso como conceito, vivo e concreto como experiência pessoal e
assume muitas formas e varia muito em amplitude emocional e intensidade.

153
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

O elo supracitado pode ser evidenciado quando associado ao lugar no qual as pessoas
estão, residem, vivem e percebem o seu redor, baseado no seu estar. Deste modo, ao
perceber o estar de uma determinada localidade, o sujeito adentra na descrição e
percepção sobre a paisagem intrínseca ao lugar do qual está inserido.

Ao que concerne a categoria e o conceito de paisagem, estes sofreram mudanças e


acréscimos para estar em consonância à base filosófica vigente. Essas (trans) formações
não são algo recente, datando desde o século XIX, onde a categoria em questão tornou-
se objeto de debate científico, para uma apreensão mais coerente das tessituras que
envolvem as relações socioambientais em um determinado (ou mesmo) espaço. Devido
aos vários prismas geográficos, comumente a paisagem é adjetivada, em paisagem física
ou paisagem cultural.

Sendo assim, compreende-se por paisagem (somente) uma faixa do espaço que une
dialógica e dialeticamente fatores humanos, consequentemente culturais, pois não há
homem sem cultura, e físicos como solo, vegetação, relevo, hidrografia. De acordo com
Sauer a paisagem é

Uma área composta por associação distinta de formas, ao mesmo


tempo físicas e culturais, onde sua estrutura e função são determinadas
por formas integrantes e dependentes, ou seja, a paisagem corresponde
a um organismo complexo, feito pela associação especifica de formas
e apreendido pela análise morfológica, ressaltando que se trata de uma
interdependência entre esses diversos constituintes, e não de uma
simples adição, e que se torna conveniente considerar o papel do
tempo (SAUER 1925 apud CORRÊA, 1998, p.13).

No tocante a categoria paisagem, enfatizamos os conceitos de marca e matriz de Berque


(1998), quando o mesmo enfatiza que:

É preciso compreender a paisagem de dois modos: por um lado ela é


vista por um olhar, apreendida por uma consciência, valorizada por
uma experiência, julgada (e eventualmente reproduzida) por uma
estética e moral, gerada por uma estética e uma moral, gerada por uma
política, etc. e, por outro lado ela é matriz, ou seja, determina em
contrapartida, esse olhar, essa consciência, essa experiência, essa
estética e essa moral, essa política etc. (BERQUE, 1998, p. 86).

Sob este viés, a paisagem é constituída pela marca e pela matriz. No primeiro caso a
paisagem expressa o visível no espaço, ou seja, a sua base material; já no segundo caso,

154
a paisagem matriz faz referência ao sentido, a essência, ao perceber, viver, as relações
subjetivas que se fazem intrínsecas entre os sujeitos e a própria paisagem matriz.

Quando a categoria paisagem é analisada geograficamente unida a percepção dos


sujeitos, ratifica-se a relação entre aquilo que é dito físico e aquilo que é dito subjetivo,
pois há uma aproximação entres estes. Por exemplo, uma faixa litorânea não é apenas
―representada pelos campos de dunas, matas de restinga e manguezais‖ Santos (1998),
mas também como um lugar no qual seus habitantes são pescadores, catadores e tem
uma relação de vida com o ambiente em questão. Portanto,

Meios e paisagens são formados desses objetos que todo mundo pode
ver, que alguns estudam, e que todos utilizam de diversas maneiras: as
árvores e as terras, as rochas e as colinas... Pensar os meios e as
paisagens, é empreender a reunificação ou de colocar todas as atitudes
que se pode adotar, em face destes objetos, para perceber,
compreender, sentir e se exprimir (CHATELlN, 1986, p.1).

Para não encontrar-se em ―autocrítica‖, a paisagem neste artigo será enfatizada dentro
do contexto geográfico cultural e a partir desta vertente, será embasada a sua
fundamentação teórica. Entretanto, em nenhum momento será adjetivada. Cabe salientar
que o uso deste prisma, no presente artigo, não exclui outros prismas geográficos e suas
respectivas bases, portanto a importância do tripé apresentado por Smyth (1995)
referente a the landscape, the inscape e midscape e a Berque (1998) quando referencia a
paisagem enquanto marca e matriz.

OS CAMINHOS METODOLÓGICOS EM BUSCA DOS SENTIDOS DOS


SUJEITOS

O presente artigo é um recorte do projeto do Programa Institucional de Bolsa de


Iniciação Científica (PIBIC) denominado ―Turismo Comunitário no povoado
Crasto/Santa Luzia do Itanhy sob a perspectiva dos sujeitos locais‖ com orientação da
Professora Doutora Roseane Cristina Santos Gomes. Encontra-se intrínseco aos
trabalhos do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Sergipe em
associação ao Grupo de Pesquisa Sociedade e Cultura do Programa de Pós Graduação
em Geografia (PPGEO) da mesma instituição.

155
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Para o desenvolvimento da pesquisa, um plano de metas foi traçado e para tanto, tornou-
se pertinente o levantamento bibliográfico, pesquisa documental direta e intrínseca a
esta, as observações, as entrevistas, a construção de um acervo fotográfico e a técnica de
construção de mapas mentais pelos sujeitos do Crasto. Tais procedimentos foram
realizados a fim de aproximar e relacionar teoria e práxis.

Sendo assim, o presente artigo encontra-se dentro da perspectiva da Pesquisa


Qualitativa, pois parafraseando a ideia de Silva (2009), para que seja feito uma pesquisa
geográfica deve-se buscar compreender os sujeitos, não bastando apenas que o
pesquisador saia fazendo entrevistas e as transcrevendo de maneira aleatória. Existe
neste viés metodológico uma sistematização de maneiras e trejeitos ao se fazer pesquisa
qualitativa que propiciam substância científica a própria análise em questão.

No que se refere à pesquisa documental direta, está foi realizada durante os meses de
dezembro de 2014, maio e julho de 2015. O intuito foi apreender os sentidos da
paisagem na perspectiva dos sujeitos locais.

A primeira coleta de dados junto à comunidade foi realizada em 15 de dezembro 2014.


Com o objetivo específico de observar e identificar na dinâmica cotidiana, as
disposições econômicas, físicas e socioespaciais, destacando a relação dos sujeitos com
o seu espaço vivido. Sendo assim, a técnica utilizada a priori foi a observação
semiestruturada que permitiu o contato pessoal do pesquisador com o objeto de
investigação, proporcionando acompanhamento das experiências cotidianas dos sujeitos
e apreensão do significado que atribuem à realidade e às suas ações (LÜDKE; ANDRÉ,
1986).

Desta maneira foram coletados dados visíveis para desenvolver parte do diagnóstico
socioambiental. Porém, além da observação, foi realizada a coleta de relatos informais
junto aos sujeitos, o que promoveu uma interação entre os pesquisadores - sujeitos da
comunidade. Essa técnica permitiu captar a realidade imediata do cotidiano dos sujeitos.
Foi feito também nessa primeira visita vários registros fotográficos da área de estudo.
Salienta-se que tais procedimentos foram feitos durante todas as visitas à comunidade.

156
No levantamento fotográfico, foi dada ênfase as leituras relacionadas às categorias
paisagem e lugar, ao método fenomenológico, topofilia, entre outras temáticas que a
geografia cultural abarca e que foram coerentes para a apreensão do objeto estudado.

Na segunda e terceira coleta de dados, realizadas respectivamente em 16/05/2015 e


04/07/2015, objetivou-se principalmente entrevistar sujeitos com mais de 20 anos de
vivência na comunidade e posteriormente, fazer a aplicação de mapas mentais. Optou-
se pela entrevista semiestruturada, na qual o sujeito entrevistado tem a liberdade de
relatar suas experiências, a partir do foco principal proposto pelo pesquisador, ao
mesmo tempo em que permite respostas espontâneas do entrevistado. Segundo Matos e
Pessôa (2009), as entrevistas semiestruturadas se constituem na interação entre
perguntas abertas e fechadas, em que o informante tem a possibilidade de discorrer
sobre o assunto de forma espontânea.

No tocante ao mapa mental, este é uma importante e estratégica metodologia utilizada


para deixar em evidência a percepção do sujeito, pois o indivíduo enquanto sujeito
pertencente a uma cultura passa a criar imagens mentais sobre o seu cotidiano no espaço
de vida. De acordo com Kozel (2007), as imagens que as pessoas constroem estão
impregnadas de recordações, significados e experiências. Estes foram aplicados logo
após a realização da entrevista junto aos sujeitos. A base para a solicitação se deu por
meio de um questionamento: ―Se você fosse um pintor e eu solicitasse um quadro do
seu povoado, o que você pintaria nele? O que estaria representado neste quadro?‖. Tal
metodologia foi criada por Gomes (2007). Dentro dessa perspectiva, 10 (dez) sujeitos
locais de diferentes faixas etárias, mas dentro do condicionante supracitado participaram
da pesquisa concessa venia.

Os mapas mentais têm ímpar relevância, pois atribuem uma representação artística do
povoado Crasto com base na percepção dos sujeitos locais que o vivenciam, pois:

Mapear é de uma ou outra maneira tomar a medida do mundo, porém


mais do que meramente toma-la, figurando a medida tomada em tal
maneira que possa ser comunicada entre pessoas, lugares e tempos. A
medição do mapeamento não é restrita ao matemático, ela igualmente
pode ser espiritual, política ou moral. Pelo mesmo sinal, o registro do
mapeamento não confinado ao que é para arquivar, mas também inclui
o que é lembrado, imaginado, contemplado. O mundo figurado através
do mapeamento assim pode ser material e imaterial, existente ou

157
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

desejado, inteiro ou em partes, experimentado, lembrado ou projetado


em várias maneiras (COSGROVE, 1999, p.2).

Portanto, dentro do viés da Pesquisa Qualitativa os instrumentos metodológicos


apresentados comportam e esclarecem as inquietações e as propostas a serem
trabalhadas no presente artigo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A MARCA E A MATRIZ DO POVOADO CRASTO

O povoado Crasto faz parte do município de Santa Luzia do Itanhy, distante 86 Km da


capital, Aracaju. A localidade em questão encontra-se no litoral sul de Sergipe. A única
forma de acesso terrestre entre o município e o povoado dá-se através da Rua Floriano
Peixoto, com distância aproximada de 4,5 Km.

Figura 1- Localização do Povoado Crasto

158
A respeito da estrada de acesso será feito, inicialmente uma análise das transformações
da paisagem, enfatizando-se as questões perceptivas dos sujeitos locais e as questões
físicas; a marca e a matriz da Rua Floriano Peixoto, pois, conforme roteiro de
entrevista, quando questionados sobre transformações ocorridas na paisagem nos
últimos cinco anos, a estrada em questão é a referência que mais se destaca.

Deste modo, as transformações ocorridas na estrada são, principalmente, frutos da


reivindicação dos sujeitos locais. A estrada, segundo relato dos mesmos, inclusive,
devido a tais reivindicações, esteve no palco de campanhas e promessas políticas
durante décadas. Ainda a respeito da via, esta se encontrava com pouca estrutura para o
ir e vir dos sujeitos locais e visitantes, devido as más (ou nenhuma) obra de
urbanização, seja de calçamento ou asfaltamento. Encontrava-se pavimentada apenas
pela sua litologia natural (―piçarra‖), que é uma mistura de argila e seixos, conforme
(Figura 2).

Figura 2- Pavimentação em piçarra Figura 3 - Pavimentação em asfalto

Fonte: Trabalho de campo, 2014 e maio/2015 respectivamente.


Fotos: SILVA, H. R. C.

Em comparação, a Figura 3 já apresenta significativa mudança. Além do asfalto inserido


sobre a pavimentação ―rústica‖ existente, houve também a construção de canaletas às
margens da rodovia propiciando o escoamento fluvial.

Apesar das significativas e aparentes melhorias na estrada de acesso ao povoado, os


transtornos que ela causou durante muitas décadas permanecem na memória dos
moradores, conforme relato abaixo:

159
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A estrada, todo dia atolava, a gente tinha que descer do carro pra ir,
e era aquela dificuldade. E às vezes tinha gente de Santa Luzia que
queria nem vim aqui por causa da rodagem e hoje todo mundo quer
vim, porque tem a rodagem [...] e eu achei muito bom né!Nós sofria
muito até pra muié [mulher] pari. Pra pari, era a maior dificuldade!
O carro chegava num alotero desse e hoje não. (Sujeito local F).

Conforme o relato, a estrada é percebida como o maior símbolo de transformação da


paisagem da comunidade nos últimos cinco anos. Tal afirmativa pode ser ratificada a
partir da construção do mapa mental (Figura 4) por um dos sujeitos da comunidade.
Neste é abordado a ligação entre o povoado e a sede municipal, além dos contornos
existentes na rodovia.

Figura 4 - Mapa mental construído pelo Sujeito local E

Fonte: Trabalho de Campo, 2015.

Entretanto, a partir das modificações na estrada, a facilidade de acesso diverge opiniões


entre os sujeitos, pois concomitante aos benefícios que consequentemente são gerados,
há também o lado negativo decorrente principalmente de problemas sociais como a
droga, o álcool e a poluição sonora, principalmente, nos fins de semana. O relato abaixo
ratifica a supracitada afirmativa:

160
Aí, teve gente aqui da comunidade que disse que ia prejudicar, porque
ia trazer muita gente, ia trazer muitas drogas. Essas coisas têm em
qualquer lugar. Agora, quem vai ter que excluir isso, esse povo? É a
comunidade, porque você pode se dar muito bem com quem usa
droga, com quem não usa e você vai ter que saber, você vai ter que
trabalhar esse pessoal. Aí, quiseram fazer uma caveirazinha
(atrapalhar) pra essa estrada não vim, mas eu dou um ponto muito
grande a quem torceu pra essa estrada chegar (Sujeito local I).

Não partimos do princípio que a comunidade antes do asfaltamento da estrada


encontrava-se, sem o teor radical da palavra, isolada mas é fato que a obra na estrada é
um atrativo e uma facilidade a mais para aqueles que, por diversas motivações, visitam
o povoado.

O Crasto em sua estrutura sócio espacial, podem ser identificados alguns tipos de
serviços, comércios além de monumentos que simbolizam a religião dos Sujeitos locais.
Levando em consideração os serviços públicos, a comunidade possui duas escolas que
são administradas pela esfera municipal, um posto médico com atendimentos de duas a
três vezes por semana, o transporte é realizado por duas cooperativas de transportes
identificadas como COOPETALSE (cooperativa de transporte alternativo de Sergipe) e
COOPASE (cooperativa transporte alternativo Sergipe), ambas com itinerários
diferenciados, sendo um ligando o povoado a capital estadual e outro ligando ao
município de Estância respectivamente, além dos serviços de Taxi-lotação.
Comercialmente, alguns instrumentos são bem marcantes na paisagem construída como:
bares, restaurantes, minimercados, lanchonetes dentre outros. Os templos religiosos são
diretamente relacionados ao cristianismo, onde pudemos identificar três, dois em
referência ao catolicismo e um ao protestantismo.

Dando continuidade, o povoado Crasto, está localizado em uma área de Planície


Litorânea, sendo sua altitude caracterizada pela baixa amplitude, pois varia entre o nível
do mar e 50 metros27, tendo-se como referencial a estrada de acesso, enquanto patamar
superior, e a costa margeada pelo rio Piauí, onde se localiza a orla, enquanto dégradé
inferior, ou seja, apresenta formas planas e baixas.

27
Conforme aplicativo GPS Essentials versão 4.2.25:

161
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Tais variações de altimetria são percebidas pelos sujeitos locais na sua interação
cotidiana com o lugar. Tal fato pode ser ratificado por meio do mapa mental construído
por um sujeito local (Figura 5). Entretanto, diferentemente do referencial adotado na
pesquisa, o sujeito local não considerou a estrada neste contexto, apenas as ruinas da
igreja enquanto patamar. Neste contexto, fazendo uso do mapa mental em questão, foi
fotografada a paisagem do povoado, conforme a (Figura 6).

Figuras 5 e 6 – Mapa mental construído pelo sujeito da


comunidade I e variação de altitude

Fonte: Trabalho de campo 2015/2014 respectivamente.


Foto: SILVA, H. R. C

O mapa mental apresentou uma questão reflexiva sobre os limites do povoado, na qual
poderá ser abordada na continuação da pesquisa: a estrada faz parte ou não do povoado
Crasto?
Fonte: Trabalho de campo, Jun/2015 Fonte: Trabalho de Campo
Dez/2014.
Para além, há intensa relação com o Rio PiauíAutor:
devido a proximidade
SILVA, H.R.C. do mar na
constituição litológica da localidade em questão, pois os solos datam do período
Quaternário e são decorrentes de intenso trabalho. Desta maneira, os solos do povoado
apresentam características argilosas, na estrada de acesso ao povoado e na Mata do
Crasto ao seu redor, além do solo arenoso na costa do povoado.

162
Figura 7 – Solo arenoso as margens do Rio Piauí Figura 8 – Solo Argiloso na Entrada

Fonte: Trabalho de Campo Dez/2014


Foto: SILVA, H. R. C

Em relação a hidrografia do povoado, este é banhado pelas bacias hidrográficas dos


Rios Piauí e Real. Por ser margeado pelo Rio Piauí em toda sua costa, os sujeitos do
Crasto têm uma relação íntima com o mesmo. Tal fato deve-se a pesca que é a principal
atividade econômica dos sujeitos da comunidade.

Dentre as características referentes aos biomas, foi possível identificar na localidade


dois tipos: Vegetação Litorânea e Mata Atlântica. A vegetação litorânea é caracterizada
pela forte presença de manguezais que são nichos ecológicos que se desenvolvem na foz
dos rios, e é responsável pela reprodução de uma variedade de espécies marinhas e pela
Restinga, que é um tipo de vegetação que se desenvolve na areia, de forma rasteira e/ou
arbustivas. Segundo Sene e Moreira (2012), a mata Atlântica hoje é o bioma mais
ameaçado do Brasil, possui uma vasta extensão territorial, numa faixa que liga o rio
grande do norte até o rio grande do sul, restam apenas 7% da sua área original no País.
E em Sergipe, segundo estudos do SOS Mata Atlântica realizados entre os anos de 2008
e 2010, restam apenas 9% da área original.

O Rio Piauí, em termos afetivos e simbólicos, apresenta grande relevância aos sujeitos
do Crasto, preponderantemente os sujeitos pescadores, pois além da questão econômica,
e de auto sustentação da família, o rio é simultâneo e paradoxalmente o trabalho e o
lazer, conforme relato a seguir:

Aqui é nosso lar toda vida! [...] Aqui, chamo dois, três menino e vai
tudo numa canoa. Não leva nada, só mau uma rede. Chega lá, Deus

163
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

ajuda e trás, porque coisa melhor do que isso aqui, nós não temo. Isso
aqui é o paraíso! Se não tem nada, nós temos esse rio, hoje tá ruim
como a poxa, mas se não fosse ele, era pior ainda, né!? (Sujeito local
G).

Os sujeitos locais têm o Rio Piauí como um dos símbolos principais do povoado Crasto,
pois além de representar sustento, representa, inclusive, algo bem mais íntimo. Há um
elo peculiar unindo o natural ao social. Ao que concerne, pode-se citar como exemplo o
sujeito local G, ao representar seu povoado por meio da técnica de construção de mapas
mentais (figura 7), deixou evidente tais elementos supracitados.

Figura 7– Mapa mental construído por sujeito da comunidade G

Fonte: Trabalho de Campo/junho de 2015.

No mapa anterior, podem-se identificar elementos relacionados ao rio, a exemplo do


barco, do peixe, da panela e da casa. Ou seja, é por intermédio da prática pesqueira (e
consequentemente do rio) que há uma associação por parte do sujeito local com a sua
sobrevivência e a aquisição, bem como a manutenção de sua residência, incluindo a
produção de alimentos, parafraseando o seu discurso orgulhoso.

164
Os elementos relacionados à pesca e ao rio são tão enfáticos nos sujeitos locais que
comumente há adereços nas paredes das casas enfatizando simbolicamente suas
acepções profissionais, cotidianas e inclusive de gratidão, conforme figuras 8 e 9.

Figuras 8 e 9 - Elementos simbólico na fachada das casas

Fonte: Trabalho de Campo, 2014.


Foto: SILVA, H. R. C.

Outro exemplo que ratifica este pertencer e perceber o rio enquanto elemento na
paisagem e no cotidiano do povoado Crasto, pode ser demonstrado através do Mapa
Mental, (Figura 10), neste fica notório a representação da pesca tanto com a rede quanto
com o anzol, além da realização de uma festa destinada aos pescadores que ocorre uma
vez por ano. Não obstante, é uma comunidade intimamente ligada ao rio, considerando
as atividades sociais, trabalhistas, festivas que se encontram intersubjetivamente nos
sujeitos locais e no seu modo de vida.

165
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 10 – Mapa mental construído pelo sujeito Local

Fonte: Trabalho de Campo JUL/2015.

No mapa mental acima, pode-se demostrar o modo de vida da comunidade, sendo a


pesca o símbolo significativo, expresso no seu cotidiano. O autor representa também as
variadas formas de pescar, o que demostra possuir o conhecimento de diversas técnicas
enquanto pescador. A importância do rio e da pesca também se manifesta com a
representação da festa do pescador que é realizado durante o mês de junho.

Além dos itens supracitados, a Mata do Crasto também é representada, demonstrando o


significado que desta e a relação dos sujeitos com o bioma local. Tal fato pode ser
ratificado nas falas dos moradores, a exemplo do relato abaixo:

A maré é de todo mundo! Aí dentro , aí todos manda. Cada um tira


um pouquinho, tira um caranguejo, tira uma ostra, tira um siri, o
camarão, tira o sarnambi, o sururu, tira tudo, tira um pau pra botar
uma casa. Não é pra tirar essa montuera (monte de madeira) né. Você
sai catando um pau aqui, outro acolá, porque se desmatar isso ai,
pronto! Daqui uns dias nós não tem nada (Sujeito H).

166
O sujeito deixa claro que ninguém é dono da natureza, ela é de todos; ele deixa claro
que tudo o que possui foi extraído da natureza (mata, rio). O sujeito local revela uma
consciência ambiental, quando o mesmo afirma que, sem a natureza a comunidade não
teria nada, e por este motivo há a necessidade de preservá-la.

Segundo Landin e Siqueira (2001), o povoado Crasto é o detentor da maior Reserva de


mata Atlântica de todo o estado de Sergipe, com uma área de aproximadamente 900
hectares de mata preservada. Para chegar ao povoado via terrestre, é necessário passar
por uma via que liga o Crasto à sede do município, que corta a mata do Crasto,
conforme figura 11.

Figura 11 – Mata do Crasto - Estrada de acesso ao Povoado

Fonte: Trabalho de campo, 2014.


Foto: SILVA, H. R. C.

Atrelado ao que concerne a paisagem, a mesma está em interação com os sujeitos


locais, também considerando questões imateriais, simbólicas compreendidas e
atreladas a realidade cotidiana do povoado; à paisagem marca atrelada a paisagem
matriz no vivido, percebido e experienciado dos moradores. Ao partilharem o mesmo
lugar, suas vivências cotidiana e encontram-se em uma organização na qual o simples
fato de se (re) conhecerem uns aos outros (sujeitos do Crasto), objetivando uma partilha
deste mesmo lugar no qual estão inseridos. À respeito:

167
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Foi o que Deus deixou para a nossa sobrevivência acredita? Foi o


que Deus deixou pra gente aí! Essa natureza tão grande tão imensa
que eu vou, trago um pouco; fulano vai, traz mais que eu; sicrano vai,
traz mais ainda. Então, ninguém reclama de nada, entendeu!?
(Sujeito Local B).

Entretanto, contraditoriamente a este senso de pertença e gratidão (divina, em muitos


casos devido a forte religiosidade dos sujeitos na localidade) pelas disposições naturais
no povoado, há por parte dos próprios sujeitos da comunidade como um todo ações que
propiciam a poluição do rio, além da falta de atenção governamental para solucionar a
questão da rede de esgoto, conforme figura 12.

Figura 12 – Poluição do rio Piauí

Fonte: Trabalho de campo/dezembro de 2014


Foto: SILVA, H. R. C

Neste sentido, os principais fatores que geram tal problemática, constatados na pesquisa
in loco, nas entrevistas e nos mapas mentais construídos pelos sujeitos locais é a falta de
consciência de alguns residentes que despejam seus lixos domésticos, além do despejo
do esgoto sanitário que vai diretamente para o Rio Piauí. Tais fatores (mas não somente
estes) geram, obviamente, um contraponto no ecossistema, que já é percebido pelos
sujeitos, conforme relato abaixo:

Antes, a gente pegava bastante peixe, bastante camarão. Há um ano,


eu ia naquele mangue dentro de 20 a 30 minutos, eu tirava um saco
desse de caranguejo. Ontem eu fui dentro duas horas! oia o
caranguejo que tirei! Foi, levei duas horas pra tirar uma corda de

168
caranguejo! Teve uma vez que teve uma mortalidade de caranguejo
aqui que deu urubu no mangue. Todo o mangue que a gente ia de lá
de cima até cá em baixo, onde a gente entrava, só encontrava
caranguejo morto (Sujeito Local A).

Tal problemática de poluição é uma constante no povoado, por tal motivo os sujeitos
foram enfáticos e críticos ao representarem quando abordado o tema. Um destes
exemplos exposto na figura 13, diz respeito ao de uma moradora, mulher de pescador e
mãe de 3 filhos que reside as margens do rio.

Figura 13 – Mapa mental sujeito da comunidade

Fonte: Trabalho de campo/julho de 2015

169
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

O mapa mental expressa a preocupação do sujeito local em relação a qualidade


socioambiental de seu povoado, pois, torna-se notório a representação do rio em cor
verde, apresentando uma noção de sujo, com suas margens poluídas com resíduos
sólidos, como, nas palavras da mesma, o litro, a taboa28, o copo, a panela e a cadeira. A
procedência de tais resíduos são os fatores supracitados (despejo de resíduos e do esgoto
do povoado) na correnteza do rio pelos moradores e visitantes.

No mapa mental em questão, pode-se observar também, o descontentamento da


moradora em relação a outras esferas correspondentes ao serviço público do povoado
Crasto, mas não é nosso intuito neste artigo adentrar nestas questões.

CONCLUSÃO

A partir do exposto por Neto (2008) ao início e ao término intencional, do presente


artigo, torna-se possível vislumbrar, dentro do horizonte geográfico, novas acepções e
maneiras de analisar e estudar o espaço geográfico. Independente do ângulo do olhar
que a Geografia se faça presente.

Deste modo, em relação ao povoado Crasto chega-se a conclusão de que os três


principais marcos do povoado, a Rua Floriano Peixoto (estrada), a Mata do Crasto e o
Rio Piauí, são os elementos da paisagem que os sujeitos sociais mais enfatizaram nos
seus comentários. Logo se fazem perceber que a estrada foi o elemento paisagístico que
mais sofreu modificações. A dinâmica social do povoado, em termos gerais, gira em
torno destes três elementos do meio, seja quando considerado a locomoção e interação
do povoado com outras localidades; ou no admirar e atrair visitantes das matas,
caracterizando o verde do povoado, ou no viver e estar no rio, seja em uma relação
econômica de pesca e venda ou no lazer do brincar e estar com os seus ―semelhantes‖
em suas práticas sociais.

A Fenomenologia com o seu suporte teórico-metodológico, enquanto ciência das


essências possibilitou a compreensão sobre a relação entre as pessoas e o meio em que
estão inseridas. O perceber dos moradores do Povoado Crasto, é um elo das

28
Pedaços de madeira.

170
transformações espaciais, percebidas e representadas neste artigo através da estrutura e
sistematização da Pesquisa Qualitativa, ao estar em uníssono com a Geografia.

Em suma, a paisagem do povoado Crasto, tanto como Marca quanto enquanto Matriz, é
valorizada e tem significado em decorrência das particularidades imateriais dos sujeitos
locais. O (con)viver, perceber e experienciar dos moradores retratam e revelam o
pertencer das pessoas para com a localidade. Nesta perspectiva relacional, os mapas
mentais representaram não apenas um desenho da paisagem, mas um espelho que
reflete o modo de vida, permeado de topofilia considerando o elo sociedade-natureza,
paisagem-lugar.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Geralda. Aportes teóricos e os percursos epistemológicos da geografia


cultural. Geonordeste, São Cristóvão, v. 19, n. 1, p 33-54, 2008.

ALMEIDA, Maria Geralda de. Em busca do Poético do Sertão: um estudo de


representações. In: ALMEIDA, Maria Geralda de; RATTS, Alecsandro J. P. Geografia
– Leituras Culturais. Goiânia: Alternativa, 2003

BERQUE, Augustin. Paisagem-Marca, Paisagem-Matriz: Elementos da Problemática


para uma Geografia Cultural. In: CORRÊA, Roberto Lobato; ROSENDAHL, Zeny.
(Org.). Paisagem, Tempo e Cultura. Rio de Janeiro: Ed. da UERJ, 1998. p. 84-91.

CARVALHO, M. S; FONTES A. L. Estudo ambiental da zona Costeira Sergipana


como subsídio ao Ordenamento Territorial. Geonordeste, São Cristóvão, v. 1., p. 10-40,
UFS, 2006.

CHATELlN, Yvon. "Avant-propos." In: BLANC-PAMARD; et alii (eds.). Milieux et


Paysages: essai sur diverses modalités de connaissance. Paris: Masson, 1986.

CLAVAL, P. A volta do cultural na Geografia. Revista Mercator, UFC, p 19-28, 2002.

COIMBRA, J. de Á. A. Linguagem e Percepção Ambiental. In: PHILIPPI JR, Arlindo;


RÓMERO, M. de A.; BRUNA, Gilda C. (Orgs.). Curso de Gestão Ambiental. Barueri,
São Paulo, Manole, 2004.

CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. 6. ed. São Paulo: Ática,
1998.

DARTIGUES, André. O que é a Fenomenologia. Rio de Janeiro, Eldorado, 1973.

171
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio ilustrado. CURITIBA:


Positivo, 2010.

GOBBI, Marcelo; PESSÔA, Vera. Pesquisa qualitativa em geografia: reflexões sobre


trabalho de campo. In: RAMIRES, Julio; PESSÔA, Vera. (org). Geografia e pesquisa
qualitativa: nas trilhas da investigação. Uberlândia: Ed. Assis, 2009. p. 485-507.

GOMES, Roseane. Território, paisagem, sujeitos e politicas publicas: (des) caminhos


e perspectivas do TBC em comunidades brasileiras e mexicanas. 2014. 376f (doutorado
em Geografia). Núcleo de pós-graduação em geografia, Universidade Federal de
Sergipe, São Cristóvão, 2014.

HOLZER, Werther. Geografia humanista: uma revisão. Revista espaço e cultura,


UERJ. p.137-147, 1993-2008.

HOLZER, Werther. Uma discussão Fenomenológica sobre os conceitos de paisagem e


lugar, território e meio ambiente. Revista território, ano II, n. 3, 1997.

IBGE, Cidades. Sergipe, Santa Luzia do Itanhy. Disponível em:


http://www.cidades.ibge. gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=280630. Acesso em
Janeiro / 2015.

KOZEL, Salete. Das imagens às linguagens do geográfico: Curitiba a ―capital


ecológica‖. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo – USP: São Paulo, 2001.

LANDIM, M. F.& SIQUEIRA, E. R. de. Caracterização florística e ecológica da mata


atlântica de Sergipe. In: Mata Atlântica de Sergipe. E.R. Siqueira e F.E. Ribeiro.

LÜDKE, M., ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas.


São Paulo: E.P.U., 1986.

LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo:


EPU, 1986.

MATOS, Patrícia F.; PESSÔA, Vera L. S. Observação e entrevista: construção de dados


para a pesquisa qualitativa em geografia agrária. In: RAMIRES, Julio C. de L.;
PESSÕA, Vera L. S (Org.). Geografia e pesquisa qualitativa: nas trilhas da
investigação. Uberlândia: Assis Editora, 2009.

MATOS, Patrícia; PESSÔA, Vera. Observação e entrevista: construção de dados para a


pesquisa qualitativa em geografia agrária. In: RAMIRES, Julio; PESSÔA, Vera. (org).
Geografia e pesquisa qualitativa: nas trilhas da investigação. Uberlândia: Ed. Assis,
2009. p. 279-291.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Conversas, 1948. Tradução Fabio Landa; Eva Landa.


São Paulo: Martins Fontes, 2004.

RELPH, E. As bases fenomenológicas da Geografia. Revista Geografia, v. 4, n. 7, p. 1-


25, abr., 1979.

172
RELPH, Edward (1980). Place and placelessness. London:Pion.

S O S MATA ATLANTICA, fundação. Novos dados sobre a situação da mata


Atlântica 2010-2011, Disponível em: http://www.sosma.org.br/5697/sos-mata-
atlanticae-inpe-divulgam-dados-do-atlas-dos-remanescentes-florestais-da-mata-
atlantica-noperiodo-de-2010-a-2011/. Acesso em Janeiro/ 2015.

SAUER, C. O. A morfologia da paisagem. 1925. In: ROSENDAHL, Z.; CORRÊA,


Roberto Lobato. Paisagem, tempo e cultura. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1998. p.12-74.

SILVA, Magda; RAMIRES, Julio. O diário de campo e a construção da pesquisa:


registro das emoções dos sujeitos envolvidos e a reconstrução de suas histórias de vida e
do lugar. In: RAMIRES, Julio; PESSÔA, Vera. (Org). Geografia e pesquisa
qualitativa: nas trilhas da investigação. Uberlândia: Ed. Assis, 2009. p. 317-336.

SMYTH, J.C. Environment and education: a view of a changing scene. Environmental


Education Research, v. 1, n. 1, 1995.

SOUSA NETO, Manoel Fernandes de. Aula de geografia e algumas crônicas. 2. ed.
Campina Grande: Bagagem, 2008.

TUAN, Yi-Fu. Topofilia – Um estudo de percepção, atitudes e valores do meio


ambiente (Tradução de Lívia de Oliveira). São Paulo, DIFEL, 1979.

TUAN, Yi-Fu. TopofIlia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio


ambiente.(Tradução de Lívia de Oliveira). Londrina: Eduel, 2012

173
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

OS TERRITÓRIOS DA ENERGIA EÓLICA NA REGIÃO NORDESTE DO


BRASIL

THE TERRITORIES OF WIND ENERGY IN NORTHEAST REGION OF


BRAZIL

Vanessa Santos Costa


Doutoranda em Geografia PPGEO/UFS - Universidade Federal de Sergipe
E-mail: vanygui@yahoo.com.br

Maria Augusta Mundim Vargas


Professora do Programa de Pós-Graduação em Geografia PPGEO/UFS
Universidade Federal de Sergipe
E-mail: Guta98@hotmail.com.br

RESUMO: No contexto da política energética brasileira, a região nordeste representa


um cenário de destaque. Nela foram instaladas as primeiras centrais geradoras eólicas
do país, com o intuito de aumentar a geração de energia, de diversificar a matriz
energética e contribuir para a preservação do meio ambiente. O presente estudo tem
como objetivo analisar o potencial eólico da região Nordeste do Brasil, decorrente de
fatores naturais e técnicos positivos face à complementariedade à energia hidráulica.
Além de, elucidar a maneira como o governo brasileiro conduz a implantação de
parques eólicos em nosso país. A fundamentação teórica deste estudo se sustenta nas
acepções de espaço, território e redes, sob as diferentes abordagens. A pesquisa executa-
se a partir de levantamento bibliográfico, trabalho de campo e aplicação de entrevistas.
Por se tratar de um estudo em fase inicial de doutoramento apresentaremos resultados
preliminares. É nesse propósito, de pensar e entender os arranjos espaciais através da
implantação de empreendimentos eólicos que se propõe nosso trabalho na medida em
que este possibilitará o esclarecimento e a discussão pertinente na intenção de contribuir
nos estudos geográficos sobre políticas públicas e o papel do Estado na
configuração/conformação espacial no nordeste brasileiro.

Palavra-chave: Território, Energia Eólica, Nordeste e Ambiente.

ABSTRACT: In the context of Brazilian energetic politics, the Northeast region


represents an important scenario. On this place, it was installed the very first central of
wind generator in the country aiming at enhancing the energy generation, diversifying
the energetic matrix and contributing for the environment preservation. This study aims
to analyze the wind power potential of Northeastern Brazil, from natural and technical
factors positive view of the complementarity of hydropower. Besides, elucidate how the
Brazilian government leads the deployment of wind farms in our country. The theoretic
substantiation of this study is based on the meaning of space, territory and power grid,
on different approaches. The research is made from bibliographic survey, fieldwork and
application of interviews. Being a study in initial phase of doctoral degree, it will be
shown the preliminary results. It is with this purpose of thinking and understanding the
spatial arrangements through the implantation of wind enterprises that this work is

174
proposed, since it will make possible clarification and proper discussion with intention
of contributing in geographic studies about public politics and the role of the State in the
spatial configuration/conformation in northeast of Brazil.

Key-words: Territory, Wind Energy; Northeast and Environment.

INTRODUÇÃO

A
o longo dos tempos o homem aproveitou-se dos recursos naturais para
garantir sua existência no planeta e muitas vezes, acabou utilizando-os de
maneira inadequada e predatória, colaborando para a destruição e extinção
dos mesmos.

Essas ações se intensificaram a partir da Revolução Industrial que trouxe necessidades


de reestruturações espaciais locais expressas pela urbanização crescente em nível
mundial e que estão atingindo altos índices neste século, contribuindo assim para o
aumento da crise ambiental. Essa crise é o resultado de um processo contínuo de
devastação do meio ambiente advinda de um processo histórico da produção humana,
na qual a incessante busca da transformação da matéria- prima em produtos elaborados
acabou exercendo uma relação de domínio desigual do homem sobre a natureza.

A intensidade dessa crise é ampliada pela ocorrência de conflitos no espaço geográfico,


gerados pelas formas como ocorre a produção e a (re) produção aliada à relação entre os
interesses políticos/econômicos de uma sociedade e as suas formas de apropriação da
natureza. Neste contexto, os espaços e arranjos naturais são sobrepostos pelos espaços
construídos pelas ações/aspirações antrópicas representados pela segunda natureza
(SANTOS, 1994), que interferem nas interações e dinâmicas estabelecidas
anteriormente provocando, dentre outros, problemas socioambientais em diversas
escalas.

Com a evolução dos problemas ambientais, os movimentos socioambientais entenderam


que se fazia necessário uma mudança da matriz de produção, que respeitasse o homem e
a natureza, mas sem frear o crescimento econômico. Essa discussão vem sendo
empreendida pela sociedade global através de eventos como a Conferência das Nações
Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, Suécia, em julho de 1972, que

175
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

introduziu pela primeira vez, na agenda internacional, a preocupação com o crescimento


econômico em detrimento do meio ambiente.

Neste momento, ―o consenso era que o modelo tradicional de crescimento econômico


levaria ao esgotamento completo dos recursos naturais pondo em risco a vida no
planeta‖ (BRÜSEKE, 2003, p. 31). Essa conferência chamou atenção do mundo para as
ações humanas que estavam causando degradações à natureza e criando graves riscos ao
bem-estar e à sobrevivência da humanidade. Depois dela, outros eventos ocorreram tais
como a ECO-92 (Cúpula do Planeta): a Convenção do Clima e da Biodiversidade,
realizada em 1992, na cidade do Rio de Janeiro; o Protocolo de Kyoto em 1997,
realizado em Toronto, no Canadá; a Convenção Mundial sobre o Desenvolvimento
Sustentável em 2002, também chamada de Rio + 10, em Joanesburgo, na África do Sul
e a Rio + 20 em 2012, no Rio de Janeiro.

Mas, segundo críticos o intuito dessas convenções é garantir a continuidade da


produtividade destrutiva, com discursos de sustentabilidade que camuflam a realidade.
Segundo Rodrigues:

Mudam as matrizes discursivas e após a Conferência sobre Meio


Ambiente e Desenvolvimento, em 1992, torna-se senso comum
afirmar que os recursos naturais são bens comuns da humanidade e
que a meta é utilizar os recursos naturais para garantir a vida das
gerações presentes e futuras. O que se pretende é que as riquezas
naturais sejam recursos que permitam o desenvolvimento sustentável
para o capital. (RODRIGUES, 2009, p. 193).

Os discursos preponderantes colocam uma ―cortina de fumaça‖ nos problemas


ambientais para atender as necessidades do capital, ou seja, o modismo da
sustentabilidade ambiental oculta à sustentabilidade para o capital.

Nesse contexto de críticas e de sucessão de conferências, nos últimos tempos as


matrizes energéticas vêm tendo significado bastante relevante no contexto da questão
ambiental e da busca do desenvolvimento sustentável, influenciando mudanças de
paradigma que estão ocorrendo atualmente na humanidade, principalmente por dois
motivos: o suprimento eficiente de energia em virtude da escassez do ―ouro negro‖, o
petróleo; e em função dos vários desastres ecológicos causados pelas indústrias. De
acordo com Rifkin:

176
Só nos últimos cinco anos, o hiperconsumo quadruplicou o preço do
petróleo. A globalização tornou-se insustentável do ponto de vista
econômico e ambiental. Com os recursos naturais de que dispõe, o
planeta é capaz de abrigar apenas 200 milhões de pessoas com estilo
de vida de um cidadão americano. (RIFKIN, 2008, p. 20).

Desse modo, a preocupação com o meio ambiente fez com que o homem se voltasse
para a natureza buscando nos seus elementos as alternativas energéticas capazes de
fornecer energia para sustentar o seu desenvolvimento social e tecnológico. Fez-se
assim, uma retomada das alternativas energéticas que provêm dos recursos naturais
renováveis. Segundo Reis:

As energias renováveis são aquelas cuja reposição pela natureza é bem


mais rápida do que a sua utilização energética (como no caso das
águas dos rios, marés, sol, ventos) ou cujo manejo pelo homem, pode
ser efetuado de forma compatível com as necessidades de sua
utilização energética como no caso da biomassa: cana-de-açúcar,
florestas e resíduos, animais, humanos e industriais. (REIS, 2000, p.
10).

As fontes renováveis de energia oferecem inúmeras vantagens em relação às energias


ditas sujas (nuclear, carvão mineral e petróleo), como: assegurar a sustentabilidade da
geração de energia a longo prazo; reduzir as emissões atmosféricas poluentes; criar
novas oportunidades de empregos e diminuir o desmatamento. Além disso, são
inesgotáveis, não agridem o meio ambiente e não provocam grandes impactos
socioambientais. Entre as energias renováveis pode- se destacar: solar (fotovoltaica e
térmica), biogás (de lixo, esterco ou esgoto), biomassa (restos agrícolas, serragem,
biodiesel, álcool ou óleos in natura), eólicas (vento) e pequenas centrais hidrelétricas29.

As primeiras iniciativas de retomada aos estudos e implantação de recursos energéticos


renováveis têm como pioneiro o continente europeu em países como: Alemanha,
Espanha, Dinamarca, Portugal dentre outros que, instalaram torres eólicas e solares,
buscando solucionar as suas crises energéticas. Da mesma forma, países como os EUA,
Canadá, Índia, China e Japão também vem investindo em estudos nessa área. No caso
do Brasil, apesar de já ter sido comprovado seu alto potencial eólico e solar, ainda
faltam iniciativas públicas e privadas, uma vez que essas pesquisas implicam em
significativos investimentos. Entretanto, empresas estrangeiras de capital francês,
australiano, argentino e português tais como: a BIOENERGY, AES, PACIFC HYDRO,

29
Adalbo (2002); Fadigas (2009) e Setas (2008).

177
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

CEGELEC, IMPSA, a, EDP entre outras, já estão se instalando no mercado brasileiro


atraídas pelo potencial eólico que o país apresenta30.

A região Nordeste do Brasil, por sua vez, apresenta indicadores de velocidade e direção
dos ventos muito satisfatórios em comparação às demais regiões do país. Porém, os
projetos caminham em passos lentos, sendo que foram implantados poucos parques
eólicos nos estados da Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e
Sergipe.

Ao abordar nesse estudo a sobreposição do arranjo energético eólico no espaço e os


arranjos naturais na região nordeste brasileira, surgiram indagações que, em última
instancia, norteiam a pesquisa: qual a importância dessa fonte de geração de energia
para a política do Brasil? E qual é o papel do Estado brasileiro no desenvolvimento
desta matriz energética e quais são as políticas públicas voltadas para a inserção desse
tipo de energia em nosso país?

O presente estudo tem como objetivo analisar o potencial eólico da região Nordeste do
Brasil, decorrente de fatores naturais e técnicos positivos, face à complementariedade à
energia hidráulica. Além de elucidar a maneira como o governo brasileiro conduz a
implantação de parques eólicos em nosso país. A fundamentação teórica deste estudo
sustenta-se nas acepções de espaço, território e redes, sob as diferentes abordagens.

É nesse propósito, de pensar e entender os arranjos espaciais através da implantação de


empreendimentos eólicos que se propõe nossa pesquisa na medida em que esta
possibilitará o esclarecimento e a discussão na intenção de contribuir com os estudos
geográficos sobre políticas públicas e o papel do Estado na configuração/conformação
espacial no nordeste brasileiro.

Para a Geografia entender como o território é apropriado de acordo com interesses de


ordem política em diferentes escalas, torna-se instigante para o entendimento da relação
política pública/permanência de controles políticos locais que se dão de acordo com
interesses de grupos econômicos e do Estado mediante arranjos espaciais que lhe sejam
favoráveis.

30
Setas (2008).

178
CATEGORIAS E CONCEITO

No conhecimento científico, as categorias de análise constituem caminhos pelos quais o


cientista percorre na apreensão dos fenômenos. Contudo, estas categorias também estão
relacionadas à visão de mundo de cada cientista sendo, portanto, empregadas de
diversas formas produzindo embates conceituais. A geografia é uma ciência que se
fundou no entendimento do espaço geográfico como categoria para leitura da realidade.
Assim, Santos, define o espaço geográfico, como sendo:

Um conjunto de relações realizadas através de funções e de formas


que se apresentam como testemunho de uma história escrita por
processos do passado e do presente. Isto é, o espaço se define como
um conjunto de formas repetitivas de relações sociais do passado e do
presente e por uma estrutura representada por relações sociais que
estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam
através de processos e funções. O espaço é, então, um verdadeiro
campo de forças cuja aceleração é desigual. Daí porque a evolução
espacial não se faz de forma idêntica em todos os lugares.
(SANTOS, 1978, p. 50).

Para Milton Santos, a compreensão do espaço vai além de suas formas. O espaço é um
produto social construído. Interpretar a sociedade a partir do território remete ao
reconhecimento do conflito existente entre aqueles que reproduzem e controlam o uso
do espaço através das técnicas que garantam as condições de sua reprodução, e aqueles
que buscam, através de usos variados, superar as condições dominantes impostas,
também através do espaço.

Segundo Santos, o espaço é um híbrido composto de formas-conteúdos, formas-


funções, objetos-ações, processos e resultados, sendo o fenômeno técnico uma das
principais condições históricas de transformação do espaço, juntamente com outros
processos econômicos, culturais e políticos. Há, nessa afirmativa um reconhecimento da
processualidade e da unidade da relação espaço-temporal: espaço e tempo
metamorfoseiam-se um no outro. O conteúdo do espaço é, cada vez mais, técnico, cada
vez mais artificializado no processo de acirramento da divisão territorial do trabalho:
―(...) cada divisão do trabalho cria um tempo seu próprio, diferente do tempo anterior‖
(Santos, 1996, p.109 grifos no original). Para Santos:

179
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Horizontalidades e verticalidades, tecnosfera e psicosfera, o novo e o


velho, o externo e o interno permitem reconstruir uma dinâmica
espacial como arena de antagonismos e complementaridades (...).
Razão global e razão local, espaços inteligentes e espaços opacos,
solidariedade organizacional, são fenômenos qualificados a partir de
uma oposição, que se confundem e, ao mesmo tempo, se distinguem e
se distanciam. (SANTOS, 1996, p. 57).

Milton Santos elege as categorias forma, função, estrutura, processo e totalidade como
as principais que devem ser consideradas na análise geográfica do espaço; este constitui
a categoria principal e auxilia na compreensão do território. O espaço, dessa maneira, é
construído processualmente e contém uma estrutura organizada por formas e funções
que podem mudar historicamente em consonância com cada sociedade.

De acordo com Santos (1978), a forma é o aspecto visível, exterior de um conjunto de


objetos: as formas espaciais; função é a atividade desempenhada pelo objeto criado; a
estrutura-social-natural é definida historicamente: nela, formas e funções são criadas e
instituídas. As formas e as funções variam no tempo e assumem as características de
cada grupo social. Esta é uma concepção histórica e relacional de geografia e do espaço.

O processo significa a ação que é realizada de modo contínuo, visando a um resultado


que implica tempo e mudança. Os processos ocorrem no âmbito de uma estrutura social
e econômica, resultando de suas contradições internas. Assim, ao considerarmos esses
processos em conjunto, podemos analisar os fenômenos espaciais na sua totalidade e
desta forma, podemos analisar também, as formas e conteúdos da expansão da energia
eólica no Brasil, como objetos técnicos dotados de tecnologias com uma história
própria. Mas também podemos revelar o sistema de ações que envolvem arranjos
políticos com escalas definidas e estratégias que se desdobram em discursos e em leis.

A discussão do conceito de território, no campo geográfico, tem sua raiz na chamada


geografia clássica e permaneceu, durante muito tempo, quase que exclusivamente
relacionada à ideia de território nacional, ou vinculada à natureza, elemento
fundamental do conceito de espaço vital estudado por Ratzel, que afirmava:

Ser um povo mais civilizado, quanto mais intenso era o uso do meio,
pois mais sofisticadas eram suas técnicas de produção. Os povos
considerados civilizados eram aqueles que conseguiam organizar um
Estado-Nação como expressão do grau máximo de coesão social e de

180
acúmulo de patrimônio cultural. Ao Estado cabia defender o território
e lutar por mais espaço (vital). (RATZEL, 1998, p. 15).

Neste sentido, Ratzel considera o território como um espaço concreto, apropriado por
um grupo social ou por um Estado-Nação que o administra por meio de leis, e onde
todos serão unidos por laços comuns, tais como a linguagem, a cultura, os costumes,
entre outros.

Raffestin avança pontuando que o espaço é anterior ao território, ele considera o espaço
uma matéria-prima onde se desenvolverá um trabalho que caracterizará o território, por
desencadear uma relação de poder. Para este autor:

O território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação


conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa)
em qualquer nível. Ao se apropriar de um espaço, concreta ou
abstratamente (por exemplo, pela representação), o ator ―territorializa‖
o espaço. (RAFFESTIN, 1993, p. 143).

Esta definição está diretamente ligada à ideia de poder, o que é confirmado quando
Raffestin (1993, p. 144) acrescenta que ―o território, nessa perspectiva, é um espaço
onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por consequência,
revela relações marcadas pelo poder‖.

Assim, é produzido o território que historicamente foi definido e delimitado a partir das
relações de poder, concebido através da receptividade dos sujeitos. Por isso, torna-se um
espaço de conflitos.

Já Haesbaert (2004), afirma que o termo território nasce de uma dupla conotação,
material e simbólica, pois etimologicamente aparece tão próximo de terra-territorium
quanto de terreo-territor (terror, aterrorizar), ou seja, tem a ver com dominação
(jurídico-política) da terra e com a inspiração do terror, do medo – especialmente para
aqueles que, com esta dominação, ficam alijados da terra, ou no ―territorium‖ são
impedidos de entrar. Nas palavras de Sposito, o território:

[...] compreende recursos minerais, que podem ser classificados por


sua quantidade ou sua qualidade, é suporte da infraestrurura de um
país, é por sua superfície que os indivíduos de uma nação se deslocam.
Ele tem sua verticalidade [...]. Ele vai além da superfície com terra,
estendendo-se ao mar, quando este é compreendido nas águas
territoriais de um país [...] enfim, o território [...] pode ser
compreendido [...] pelas diversas maneiras que a sociedade se utiliza

181
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

para se apropriar e transformar a natureza. (SPOSITO, 2004, p. 112-


113).

Assim, território não está separado de sua origem epistemológica - a posse de terra –
mas também traz uma bagagem cultural, ou seja, relaciona-se tanto ao poder
(dominação), quanto no sentido mais simbólico, de apropriação. Ao se apropriar do
território o grupo social passa a não poder ser mais compreendido sem o seu território,
base de sua história, cultura e sustentação.

Para Milton Santos (1994), o território é composto por variáveis, tais como a produção,
as firmas, as instituições, os fluxos, os fixos, relações de trabalho etc., interdependentes
umas das outras. Essas variáveis constituem a configuração territorial. Santos define o
território como sendo:

O território pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em


rede. São, todavia, os mesmos lugares que formam redes e que
formam o espaço banal. São os mesmos lugares, os mesmos pontos,
mas contendo simultaneamente funcionalizações diferentes, quiçá
divergentes ou opostas. (SANTOS, 1994, p 16).

Portanto, os territórios são relações sociais desenvolvidas no espaço concreto que


podem se formar e se romper, constituir e dissipar de forma rápida. De acordo com a
intenção de seus sujeitos, dentro de um espaço podem existir vários territórios que são
criados e recriados a partir das suas necessidades e que são interligados por meio de
redes.

Raffestin (1993, p.151) afirma que ―esses sistemas de tessituras, de nós e de redes [...]
permitem realizar a integração e a coesão dos territórios‖. Este autor concebe o
território, em seu sentido absoluto, não explorando o seu sentido relacional. Souza
(2001, p.97) aborda que o território imprescinde de um espaço social: ―[...] o território
não é substrato, o espaço social em si, mas sim um campo de forças, as relações de
poder espacialmente delimitadas e operando, destarte, sobre um substrato referencial‖.

Considera-se a princípio, que existe uma relação mútua entre a territorialização e o


território, ou seja, um só existe se o outro existir. E só se efetivam através da
territorialidade. Então, entende-se por territorialização o processo de construção do
território.

182
Saquet afirma que, a territorialidade se efetiva:

(...) em distintas escalas espaciais e varia no tempo através das


relações de poder, das redes de circulação e comunicação, da
dominação, das identidades, entre outras relações sociais realizadas
entre sujeitos e entre estes com seu lugar de vida, tanto econômica
como política e culturalmente. (SAQUET, 2009, p 87).

Portanto, a territorialidade seria as estratégias para criar e manter o território.


Dependendo das circunstâncias ela será passiva ou ativa. Podendo estar centrada tanto
na exclusão, no controle e coerção, ou quanto na cooperação e valorização dos recursos
do sistema, na busca por autonomia. Todavia, tanto na passiva quanto na ativa, sempre
se utilizará das relações econômicas, políticas e culturais com os sistemas naturais e
com os sistemas sociais, enfim, com o sistema de objetos e o sistema de ações, com o
espaço geográfico.

De acordo com Medeiros (2007), a desterritorialização é entendida como sendo aquela


que nega a fixação do grupo social, da população, do indivíduo a uma base física, além
de fazer com que perca ou pelo menos deixe adormecidos seus costumes, suas relações
interpessoais, seu cotidiano. Para esta autora:

Apresenta um viés econômico muito forte à medida que nega a


reprodução de um determinado grupo em uma porção específica do
território, fazendo com que ocorra seu deslocamento e a tentativa de
reterritorialização (econômica, política, social, cultural) em outro
lugar. (MEDEIROS, 2007, p. 5).

Portanto, a desterritorialização refere-se tanto a não firmação, enfraquecimento e/ou


perda do controle político e econômico (dominação), fazendo com que os sujeitos não
se fixem no território, quanto das referências simbólico-culturais (apropriação), estando
ambos interligados e condicionando-se mutuamente.

Neste sentido, a reterritorialização é aceita como a retomada do processo de


territorialização, ou seja, a reconstrução do território em novos alicerces. Concorda-se
com Saquet (2008, p.51), quando ele coloca que ―simultaneamente a desterritorialização
dá-se a reterritorialização‖. ―No primeiro há a perda do território inicialmente
apropriado e construído; no segundo há uma reprodução de elementos do território
anterior, em algumas de suas características‖ (SAQUET, 2008, p. 51).

183
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Para compreender as transformações socioespaciais a partir da implantação de centrais


geradoras eólicas faremos uma discussão breve acerca do conceito de Redes.

O conceito de Redes teve destaque na França e no mundo acadêmico anglo-saxônico


desde a década de 1980 e no Brasil nos anos 1990. Esse conceito acabou se associando
a uma verdadeira perspectiva de abordagem da realidade. Porém, já era utilizado desde
as décadas de 1960 e 1970 pelo geógrafo alemão Johan George Kohl, e também nas
reflexões de Elisée Reclus. Fora da geografia, outras ciências, tais como economia e a
sociologia, também o utilizam com destaque para o ―socialista utópico‖ Saint-Simon o
primeiro a inaugurar toda a primeira onda de desenvolvimento desse conceito, o que
denominou de ―redes técnicas‖ (redes de infraestrutura técnica: de redes de
abastecimento de energia, de esgotamento sanitário, de abastecimento de água, de
telecomunicações, entre outros).

Segundo Dias (2007), na medida em que surge uma inovação técnica parece
corresponder um revigoramento do interesse pelas redes e, a partir daí, um
rejuvenescimento teórico-conceitual.

Podemos entender como redes:

Abstratamente, um conjunto estruturado de ligações ou de fluxos, em


que os ―fios‖ entre os nós são chamados de arcos e os ―nós‖ são,
muito simplesmente, chamados também de ―nós‖, com tudo isso
compondo uma trama integrada, é uma rede. (SOUZA, 2013, p. 167).

Assim, as ligações se dão através dos nós que acabam se integrando e formando uma
rede. E o que seria afinal uma rede geográfica? Segundo Corrêa (1997), rede geográfica
é um conjunto de localizações geográficas interconectadas em si por um certo número
de ligações. Estas ligações podem se referir a:

(...) fluxos de vários tipos (bens materiais, passageiros, informação,


energia...), que articulam e ligam entre si diferentes pontos no espaço
geográfico, utilizando-se de ―vias‖ e ―canais‖ tangíveis (no sentido
mais abstrato: redes elétricas, abastecimento de água, ou de
esgotamento sanitário, estradas, hidrovias e ferrovias) ou mesmo de
fluxos dependentes de ―fixos‖, mas não de ―vias‖ tangíveis (como
fluxos de informação que servem de telefonia móvel). (SOUZA, 2013,
p. 167-168).

184
Neste sentido, o estudo das redes será relevante na compreensão da reconfiguração
territorial impulsionada pela introdução de torres geradoras de energia eólica que
certamente provocam rearranjos nas relações sociais do espaço.

ENERGIA EÓLICA: OBJETOS E AÇÕES

A energia elétrica é um dos insumos mais relevantes para o desenvolvimento econômico


e social. Contudo, um terço da população mundial não possui acesso à eletricidade. Na
busca de atender essa carência, além do rápido crescimento do consumo mundial, as
fontes energéticas renováveis apresentaram-se como a solução para esses problemas. A
consciência pela preservação ambiental chamou atenção à necessidade da geração de
energia alternativa que suprisse a demanda sem agregar poluição. O presente estudo
destaca a energia eólica por ser considerada uma das fontes renováveis menos
poluentes.

Denomina-se energia eólica aquela que tem como força motriz o vento, movimento do
ar na atmosfera terrestre. Segundo Adalbó:

Esse movimento do ar é gerado principalmente pelo aquecimento da


superfície da Terra nas regiões próximas ao Equador e pelo
resfriamento nas regiões próximas aos polos. Dessa forma, os ventos
das superfícies frias circulam dos polos em direção ao Equador para
substituir o ar quente tropical que, por sua vez, desloca-se para os
polos. (ADALBÓ, 2002, p. 13).

O movimento de rotação da Terra, assim como a topografia local também influenciaram


a ação do vento provocando variações sazonais na sua intensidade e direção. O
anemômetro é o aparelho utilizado no uso desse tipo de energia, pois ele capta de
maneira eficiente a direção e intensidade dos ventos.

A produção dos ventos advém do efeito de convecção resultante do aquecimento do


solo, que faz aquecer a massa de ar mais próxima. Esta, por ser mais leve, tende a subir
e a ser substituída por uma massa mais fria. Estima-se que 2% da energia solar
absorvida pela Terra é convertida em energia cinética dos ventos (PEREIRA, 2012, p.
93).

Sendo assim, o autor explicita que:

185
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

O ar ascendente resfria-se e volta à superfície. Este mecanismo existe


tanto em nível local como global, resultando, no último caso, nos
chamados ventos alísios, que se deslocam em baixas altitudes, dos
trópicos para o Equador, e os contra-alísios, que fazem o caminho
inverso, em altas altitudes, gerando ventos globais permanentes. Em
parte, os ventos alísios explicam o grande potencial eólico do litoral
norte do Brasil, na faixa que vai do Rio Grande do Norte até o Piauí
(IDEM, 2012, p. 93-94).

Tendo em vista que o eixo da Terra está inclinado de 23,5° em relação ao plano de sua
órbita em torno do Sol, variações sazonais na distribuição de radiação recebida na
superfície da Terra resultam em variações sazonais na intensidade e duração dos ventos,
em qualquer local da superfície terrestre. Como resultados surgem os ventos
continentais ou periódicos e compreendem as monções e as brisas. As monções são
ventos periódicos que mudam de direção a cada seis meses aproximadamente. Em geral,
as monções sopram em determinada direção em uma estação do ano e em sentido
contrário em outra estação. Fatores como variação da velocidade com a altura; a
rugosidade do terreno, que é caracterizada pela vegetação, utilização da terra e
construções; presença de obstáculos nas redondezas; relevo que pode causar efeito de
aceleração ou escoamento do ar influenciam na direção do vento e na escolha para o
local que serão instaladas torres eólicas. (CRESESB, 2013).

Os egípcios foram os pioneiros a usar a energia eólica para mover os barcos à vela. Os
primeiros moinhos utilizados para moer grãos surgiram no século VII, na Pérsia, e
devido à roda das pás (hélices) está inserida na horizontal e sustentada por um eixo
vertical, não era eficaz. Na Europa, os primeiros cata-ventos apareceram no século XII
na França e Inglaterra. (ADALBÓ, 2002).

Com o surgimento da revolução industrial no século XIX, a qual a fonte de energia era
direcionada para o vapor, a eletricidade e os combustíveis fósseis, estagnou-se o
desenvolvimento de moinhos de vento. Contudo, na segunda metade deste século
apareceu o moinho de pás múltiplas americano, um dos mais importantes avanços nesse
tipo de tecnologia. A partir daí, outras aplicações se desenvolveram e melhoramentos
foram introduzidos na aerodinâmica das pás e freios hidráulicos utilizados para deter o
movimento das hélices. No final do século passado, a Dinamarca passa a ser pioneira no
uso de turbinas eólicas para a geração de eletricidade.

186
Desde então, diversas pesquisas vem sendo realizadas nessa área e os resultados tem
sido satisfatórios. O nível tecnológico cada vez mais está sendo aperfeiçoado, o que faz
decrescer o custo da turbina. Porém, ainda continua muito caro manter essa tecnologia e
isso acaba não despertando o interesse de muitos países em adquirí-la. A figura 1
representa um moinho de vento da Holanda, bastante utilizado no século XIX.

FIGURA 1 - Moinho de vento típico da Holanda

Fonte: CRESESB - Centro de Referência para Energia Eólica e Solar, 2008.

Atualmente, a capacidade eólica mundial é de 238,4 GW (Gigawatts) o que corresponde


a apenas 1% da energia gerada no mundo proveniente desse tipo de fonte. Porém, o
potencial para exploração é grande. O quadro 1 mostra o ranking dos 10 países que mais
geram energia eólica no mundo.

187
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Quadro 1 - Países que mais geram energia eólica no mundo

POSIÇÃO PAÍS MEGAWATTS

1º China 62,7 mil megawatts


2º Estados Unidos 46,9 mil megawatts
3º Alemanha 29 mil megawatts
4º Espanha 21,6 mil megawatts
5º Índia 16 mil megawatts
6º França 6,8 mil megawatts
7º Itália 6,7 mil megawatts
8º Reino Unido 6,5 mil megawatts
9º Canadá 5,2 mil megawatts
10º Portugal 4 mil megawatts

Fonte: Relatório da Global Wind Energy capacidade eólica em 15 anos, 2011.

China e Estados Unidos juntos produzem 43% da capacidade instalada global, sendo
que o primeiro foi responsável por 50% do crescimento em 2010, além de tornar-se o
maior produtor mundial de equipamentos e componentes eólicos, passando a atender
não apenas ao mercado doméstico, mas também a competir no mercado internacional.

O Brasil ocupa a 22ª posição no ranking mundial e é líder na Iberoamérica. Sua potência
eólica instalada alcançou 926,5 MW, com 326,6MW instalados em 2010 (Gráfico 1).

Gráfico 1- Posição do Brasil com relação à potência instalada


no continente americano

Fonte: GWEC- Global Wind Energy Council, 2013.

188
Esse destaque deve-se ao Programa de Incentivo às Fontes Alternativas-PROINFA
(1.429MW) e já se instala cerca de 60% da potência atualmente existente. Apesar de ter
excelentes ventos para essa atividade, esse tipo de energia é bastante limitado, pois
considerando seu potencial eólico, há poucas torres instaladas gerando eletricidade no
país.

As figuras 02 e 03 representam os aerogeradores do tipo onshore (por terra) e offshore


(no mar). As instalações offshore representam uma nova forma da utilização da energia
eólica. Mesmo agregando maior custo de transporte, instalação e manutenção, elas têm
crescido a cada ano principalmente com o esgotamento de áreas de grande potencial
eólico em terra. Neste campo, destacam-se o Reino Unido, a Dinamarca e a Holanda. A
China e a Alemanha inauguraram seu primeiro parque offshore em 2010.

Figuras 02 e 03 - Vista parcial de uma Torre Eólica Onshore e Offshore

Fonte: Disponível em: http://www.latinevent.com.br/energias/eolica.htm. Acesso em: 14 Out. 2009.

A indústria eólica tem investido no desenvolvimento tecnológico da adaptação das


turbinas convencionais para uso no mar. Esse tipo de projeto necessita de estratégias
especiais quanto ao tipo de transporte das máquinas, sua instalação e operação. E, deve
ser coordenado de forma a utilizarem os períodos onde as condições marítimas
propiciem o deslocamento e uma instalação com segurança.

De acordo com Adalbó,

189
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A energia eólica é uma tecnologia totalmente desenvolvida e testada,


constituindo uma fonte de energia barata que pode competir em
rentabilidade com outras fontes energéticas tradicionais como as
centrais térmicas de carvão, considerado tradicionalmente como o
combustível mais barato, e as centrais nucleares, se levado em conta
os custos de reparar os danos ambientais. (ADALBÓ, 2002, p. 111).

A geração de energia sem qualquer processo de combustão ou etapa de transformação


térmica contribui positivamente para ao meio ambiente, por ser limpo e sem
contaminação. Sua utilização em larga escala torna mínimo os impactos originados
pelos combustíveis fósseis durante a sua extração, transformação, transporte e
combustão.

Como vimos o uso das energias renováveis, em especial a eólica traz vários benefícios
para o meio ambiente e para sociedade, pois são inesgotáveis à escala humana;
permitem reduzir a dependência energética da nossa sociedade face aos combustíveis
fósseis; conduzem à investigação em novas tecnologias que permitam melhor eficiência
energética; promove a inclusão social e gera emprego. Pode-se destacar como
desvantagem em sua utilização fatores como: algumas têm custos elevados na sua
implantação, devido ao fraco investimento nesse tipo de energia; podem causar
impactos visuais negativos no meio ambiente e pode gerar algum ruído, no caso da
exploração de alguns recursos energéticos renováveis.

O Brasil é um país que possui um grande potencial eólico, sobretudo na Região


Nordeste que chega a ter ventos com velocidade média de 8m/s, o que é considerado
muito bom para a geração de energia eólica. A capacidade de geração elétrica em
território brasileiro é estimada em 6.000 MW, conforme pode ser visto na figura 4, que
mostra a velocidade média dos ventos a 50 metros de altura.

Nosso país apresenta dois fatores técnicos importantes para a implantação desse tipo de
energia. O primeiro é o alto fator de capacidade dos empreendimentos eólicos, que
podem chegar a 50%, como ficou comprovado nos últimos leilões de 2011. E, o
segundo, é a complementaridade entre a energia hidrelétrica e a energia produzida pelo
vento (Figura 4).

190
Figura 4 - Mapa temático da Velocidade Média Anual do Vento a 50 m de
Altura em m/s

Fonte: Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, 2001.

Como pode- se visualizar na figura 4 e na tabela 1, a Região Nordeste apresenta cerca


de 53,0 % da potência eólica do nosso país, concentrada na região central da Bahia e
nos litorais do Rio Grande do Norte e Ceará. Em seguida aparece à região Sudeste, com
20%, com destaque para o norte de Minas Gerais; e por fim, a região Sul com 15%,
ressaltando-se o litoral do Rio Grande do Sul e o oeste de Santa Catarina. As demais
regiões, em particular, a região Norte, apresenta potenciais menos significativos.

191
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Tabela 1 - Potencial eólico brasileiro por região

POTENCIAL ENERGIA
EÓLICO ANUALEQUIVALENTE
REGIÃO
MW % (TWh/ano) %

NORDESTE 75.050 52,30 144,29 53,00


SUDESTE 29.740 20,70 54,93 20,20
SUL 22.760 15,90 41,11 15,10
NORTE 12.840 9,00 26,45 9,70
CENTRO-OESTE 3.080 2,10 5,42 2,00
TOTAL 143.470 100 272,20 100
Fonte: Revista Brasil Energia, 2009.

Há um aspecto estratégico relevante em favor da energia eólica no Nordeste. Os


períodos de seca, quando os reservatórios das barragens estão em seu nível mais baixo,
coincidem com o período de maior incidência e intensidade de ventos. Com isso, há
uma complementaridade quase perfeita entre as fontes eólica e hidrelétrica, garantindo
um suprimento de energia contínuo e confiável na região durante o ano inteiro.

Assim, a proposta de uso da energia eólica conta com a grande vantagem de ser uma
fonte alternativa à energia hidráulica produzida no Rio São Francisco, pois conta com
uma compensação entre as fontes hidráulica e eólica.

Segundo Souza, Dutra e Melo (2008) estudos do potencial eólico nacional foram
elaborados a 100 m e estima-se que a potência eólica poderá se aproximar a 500 GW.
Esse índice mostra um aumento da velocidade média das regiões acima citadas, bem
como o surgimento de novas fronteiras eólicas, como o Estado do Piauí, o oeste dos
Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, e até algum potencial no Mato Grosso
do Sul, além do nordeste de Roraima.

Adalbó (2002) enumera os pré-requisitos técnicos e econômicos para a instalação de


parques eólicos no setor elétrico brasileiro:

 Interesse declarado pelas concessionárias de energia elétrica, motivado


principalmente pela necessidade de expansão da geração de energia elétrica;

192
 Diversidade das características dos projetos quanto à localização, aspectos
topográficos e características da rede;
 Possibilidade de garantias de financiamento;
 Desenvolvimento da indústria nacional de sistemas eólicos;
 Estabelecimento de uma legislação favorável à disseminação da tecnologia
eólica para geração de eletricidade em grande escala.

No Brasil segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica - ANEEL (2013), existem


oitenta e oito usinas eólicas operando nos seguintes Estados: Ceará, Bahia, Minas
Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa
Catarina e Sergipe. O gráfico 2 destaca a participação dos estados nordestinos na
produção de energia eólica.

Gráfico 2 - Quantidade de empreendimentos de energia eólica por Estados

Fonte: ANEEL, 2013.

Esses parques eólicos tiveram a parceria de empresas locais e estrangeiras. Estas últimas
viram no Brasil a possibilidade de aumentar seus lucros através desse tipo de energia,
uma vez que esse recurso é abundante em nosso país. Também houve o apoio do
governo federal, no tocante aos incentivos fiscais para a instalação dessas usinas.
Para desenvolver mais rápido a consolidação desses e de novos projetos foi criado em
26 de abril de 2002 pela Lei nº 10.438 e revisado pela Lei 10.762 Alternativas de
Energia Elétrica, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica

193
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

(PROINFA), que é um importante instrumento para a diversificação da matriz


energética nacional, garantindo maior confiabilidade e segurança do abastecimento.
Esse programa é coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e estabelece a
contratação de 3.300 MW de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN), produzidos
por fonte eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas (PCH‘s), sendo 1.100 MW
de cada fonte. O intuito é promover a diversificação da Matriz Energética Brasileira,
buscando alternativas para aumentar a segurança no abastecimento de energia elétrica,
além de permitir a valorização das características e potencialidades regionais e locais. O
grande desafio estabelecido pelo Programa foi o índice de 60% de nacionalização dos
empreendimentos, que teve o objetivo principal de fomentar a indústria de base dessas
fontes. Se considerarmos como fator de desenvolvimento o domínio da cadeia
produtiva, o PROINFA coaduna com outras ações do governo que resultaram no
fortalecimento da indústria brasileira de geração de energia elétrica.

Apesar de ter estimulado a implantação de parques eólicos no Brasil, o sucesso do


PROINFA foi pequeno diante do que se esperava. O governo federal deveria ter uma
postura mais empreendedora na busca de soluções alternativas e as metas de médio
prazo mais ambiciosas para que esse Programa tivesse avanços, além de incentivos a
iniciativa privada para investir nesses projetos. De acordo com Setas:

O PROINFA foi o primeiro esforço do governo brasileiro para


promover o segmento de Energia Eólica no Brasil, apesar de ter tido
algumas condicionantes que limitaram a sua eficácia. Sendo
necessário que o governo brasileiro promova mais ações para que
sejam implantadas as torres eólicas e incentive a iniciativa privada
para que tenham mais abertura nesse setor, pois será benéfico tanto em
nível de auto-suficiência e quanto na questão ambiental. (SETAS,
2008, p. 4)

Além do PROINFA o governo brasileiro criou outras linhas de financiamento para


incentivar a implantação desse tipo de empreendimento, porém, ainda há muitos
desafios a serem vencidos.
Pereira (2012, p. 184) enumera alguns entraves para a consolidação e crescimento
sustentável da energia eólica no Brasil:

 A sistemática dos leilões, que tem se mostrado bem-sucedida em expandir a


capacidade instalada e atrair linhas de montagem para o país não garante que no
ano seguinte haja uma expansão significativa do mercado, sobretudo com a

194
expansão do mercado do gás natural e do pré-sal. Some-se a isso a crise
internacional, que sinaliza repercussões no mercado dos países emergentes,
fazendo reduzir o ritmo de crescimento e, por conseguinte, o mercado de energia
elétrica;

 Dificuldades de logística e de expansão, da malha de transmissão;

 Minimização do impacto ambiental para facilitar o processo de licenciamento;

 Disponibilização de mão de obra capacitada para a implantação de parques


eólicos.

Entretanto, mesmo com tantas dificuldades a energia eólica, ainda que a passos lentos
vem ganhando espaço no cenário brasileiro e contribuindo para o aumento e
diversificação da matriz energética.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A geração de energia elétrica por meio de turbinas eólicas constitui uma alternativa para
diversos níveis de demanda. As pequenas centrais podem suprir pequenas localidades
distantes da rede, contribuindo para o processo de universalização do atendimento.
Quanto às centrais de grande porte, estas têm potencial para atender uma significativa
parcela do Sistema Interligado Nacional (SIN) com importantes ganhos: contribuindo
para a redução da emissão, pelas usinas térmicas, de poluentes atmosféricos;
diminuindo a necessidade da construção de grandes reservatórios; e reduzindo o risco
gerado pela sazonalidade hidrológica, à luz da complementaridade.

Ao longo desse estudo pudemos perceber que a instalação de um parque eólico gera
impactos positivos e negativos no meio ambiente. Entre os principais impactos
socioambientais negativos das usinas eólicas destacam-se os sonoros e os visuais. Os
impactos sonoros resultam dos ruídos dos rotores e variam de acordo com as
especificações dos equipamentos (ADALBÓ, 2002). Segundo o autor, as turbinas de
múltiplas pás são menos eficientes e mais barulhentas que os aerogeradores de hélices
de alta velocidade. A fim de evitar transtornos à população vizinha, o nível de ruído das

195
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

turbinas deve atender às normas e padrões estabelecidos pela legislação vigente


(Resolução CONAMA Nº 237, de 19 de dezembro de 1997).

Os impactos visuais são decorrentes do agrupamento de torres e aerogeradores,


principalmente no caso de centrais eólicas com um número considerável de turbinas,
também conhecidas como fazendas eólicas. Os impactos visuais variam muito de acordo
com o local da instalação, o arranjo das torres e as especificações das turbinas. Apesar
de efeitos negativos, como alterações na paisagem natural, esses impactos tendem a
atrair turistas, gerando emprego e renda, fomentando assim o desenvolvimento local.

Com esse estudo pode-se observar a maneira que o governo brasileiro trata essa
temática, uma vez que os incentivos para a implantação de torres eólicas e estudos nessa
área ainda são considerados escassos, tendo apenas um órgão vinculado a esse tipo de
projeto ―O PROINFA‖ que traz propostas ainda pouco estruturadas para a temática em
questão.

O presente estudo buscou apresentar os primeiros passos da tese de doutorado em


questão. Trata-se de uma pesquisa qualitativa que tem o intuito de entender a formação
de territórios e redes gerados na implantação de parques eólicos no nordeste brasileiro.

Sabemos que temos um caminho longo e desafiador a percorrer. Neste sentido, espera-
se realizar uma pesquisa que possa contribuir para a reflexão acerca da temática, bem
como para a Geografia e áreas afins.

196
REFERÊNCIAS

ADALBÓ, Ricardo. Energia Eólica. São Paulo: Artliber, 2002.

Agencia Nacional de Energia Elétrica, 2013. Disponível em:


<http://www.aneel.com.br>. Acesso em: 10 de Maio. 2013.

BRÜSEKE F. J. O problema do desenvolvimento sustentável. In: CAVALCANTI, C.


(Org.). Desenvolvimento e Natureza: estudos para uma sociedade sustentável. Ed. São
Paulo: Cortez; Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2003, p. 29-35.
Centro de Referência para Energia Solar e Eólica, 2008. Disponível em:
<http://www.cresesb.cepel.br>. Acesso em 30 de Novembro de 2008.

CORRÊA, R. L. Origem e tendências da rede urbana brasileira: algumas notas. In:


CORRÊA, R. L. Trajetórias Geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

DIAS, L.C. Os sentidos da rede: Notas para discussão. In: DIAS, L. C; SILVEIRA, R.
L. L da (Orgs): Redes, Sociedade e Territórios. Santa Cruz do Sul, UNISC, 2007.

FADIGAS, Eliane Aparecida Faria Amaral. A energia dos ventos. Revista Alternativa.
Editora Publicidade: ROMA4, ano I. n 3, p. 10-15, abril 2009.

HAESBAERT, R. Da desterritorialização à multiterritorialidade. In: ENCONTRO DE


GEÓGRAFOS DA AMÉRICA LATINA, X. São Paulo: Universidade de São Paulo,
2005. Anais... São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007. p. 6774 -6792.

HAESBAERT. Concepções de território para entender a desterritorialização. In:


SANTOS, Milton. I. et al (Orgs). Território, Territórios: ensaio sobre ordenamento
territorial. 2. ed – Rio de Janeiro: DP&A, 2006b, p. 146-152.

MEDEIROS, R. M. V. Re-territorialização e identidade: o significado dos


assentamentos para a economia dos municípios: os casos de Hulha Negra, Aceguá e
Candiota na Campanha Gaúcha (RS). In: COLÓQUIO INTERNACIONAL DE
GEOCRÍTICA, IX, Porto Alegre, 2007. Anais... Porto Alegre: UFRGS, 2007. p. 1-17.

PEREIRA. Osvaldo Soliano. Energia Eólica: segunda fonte de energia elétrica do


Brasil. In: VEIGA, José Eli da (Org). Energia Eólica. São Paulo: Editora Senac São
Paulo, 2012.

RAFFESTIN, Claude. Por Uma Geografia do Poder. São Paulo: Editora Ática, 1993.

RODRIGUES, Arlete Moysés. Produção e consumo do e no espaço. A problemática


ambiental urbana. GeoTextos, vol. 5, n. 1, 2009, p.183-201.

RIFKIN, Jeremy. Somos viciados em petróleo. Veja, São Paulo: Abril, ano 41, nº 51,
p.17- 21, dez.2008.

REIS, Lineu Bélico dos. Geração de energia elétrica. São Paulo: Manole, 2000.

197
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-


informacional. São Paulo, Hucitec, 1994.
________. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora
da Universidade de São Paulo, 1999.
________. Por uma Geografia nova. São Paulo: Hucitec; Edusp, 1978.

SAQUET, M. A. Por uma abordagem territorial. In: SAQUET, Marcos A.; SPOSITO,
Eliseu S. (Orgs.) Territórios e territorialidades: teorias, processos e conflitos São
Paulo: Expressão Popular. UNESP. Programa de Pós-graduação em Geografia, 2009, p.
47 – 60.

SAQUET, M. A. A abordagem territorial: considerações sobre a dialética do


pensamento e do território. In: HEIDRICH, A. L. et al. (Org.). A emergência da
multiterritorialidade: a ressignificação da relação do humano com o espaço. Canoas:
Ed. ULBRA; Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2008.

SETAS, Miguel. Bons ventos reforçam investimentos lusitanos no Brasil. TN Petróleo,


Rio de Janeiro, ano X , n. 63, p. 12-16, Nov/dez 2008.

SPOSITO, Eliseu Savério. Sobre o conceito de território: um exercício metodológico


para a leitura da formação territorial do sudoeste do Paraná. In: RIBAS, A. D.;
SPOSITO, E. S.; SAQUET, M. A. Território e desenvolvimento: diferentes
abordagens sobre o território. Francisco Beltrão: UNIOESTE, 2004, p. 73-94.

SOUZA, M.L de. Os conceitos fundamentais da pesquisa sócio-espacial. Rio de


Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

SOUZA, H. M. de; DUTRA, R.; MELO, S. ―Principais parques eólicos implementados


e projeções e projeções: workshop em energia eólica‖. In: CENTRO DE
TECNOLOGIAS DO GÁS E ENERGIAS RENOVÁVEIS, Natal: CTGAS-ER, 2008.
Anais... Natal, CTGAS-ER, 2008

RATZEL. F. Géographie politique. Paris: Econômica, 1988.

198
LA POLÍTICA DE LA TRADICIÓN: EL MUSEO GAUCHESCO “RICARDO
GÜIRALDES” Y EL ESCENARIO RURAL COMO RESERVORIO DE LA
NACIONALIDAD ARGENTINA (1936-1938)

A POLÍTICA DA TRADIÇÃO: O MUSEU GAUCHESCO "RICARDO


GÜIRALDES" E O AMBIENTE RURAL COMO UM RESERVATÓRIO DE
NACIONALIDADE ARGENTINA (1936-1938)

Matías Emiliano Casas


UNTreF / CONICET
E-mail: matiasemiliano@hotmail.com

RESUMEN: Este artículo tiene como objetivo analizar la narrativa tradicionalista


puesta en marcha a partir de la intervención del gobierno de la provincia de Buenos
Aires en la fundación del primer museo gauchesco de Sudamérica. El museo Ricardo
Güiraldes se fundó en 1938 cuando el territorio bonaerense era gobernado por el
conservador Manuel Fresco. La gestión realizada por el mandatario provincial junto con
los políticos de la comuna de San Antonio de Areco resultó fundamental para la
concreción de ese espacio de memoria. A partir del archivo institucional, la consulta
sobre las publicaciones periódicas locales y nacionales, y la pesquisa en la biblioteca del
municipio, se pretende analizar aquí esa política cultural que tenía un marcado
contenido pedagógico. El proceso de gestación del nuevo museo se insertaba en un
contexto de reivindicación de lo gauchesco como representativo de la nacionalidad
argentina. De ese modo, el parque criollo Ricardo Güiraldes emergía como un espacio
―educativo‖ para resaltar los atributos del ámbito rural en detrimento del
cosmopolitismo urbano.

Palabras clave: Tradición - Museo Ricardo Güiraldes – Buenos Aires - gaucho

RESUMO: Este artigo tem por objetivo analisar a narrativa tradicionalista


implementada pela intervenção do governo na província de Buenos Aires na fundação
do primeiro museu gaúcho na América do Sul. O museu Ricardo Güiraldes foi fundado
em 1938, quando o território de Buenos Aires era governado pelo conservador Manuel
Fresco. A gestão do líder provincial, juntamente com políticos do município de San
Antonio de Areco, foi fundamental para a concretização desse espaço de memória. A
partir do arquivo institucional, da consulta de periódicos locais e nacionais, e da
pesquisa na biblioteca do município, pretende-se analisar essa política cultural que teve
um forte conteúdo pedagógico. O processo de criação do novo museu insere-se em um
contexto de reivindicação do gauchesco como representação da nacionalidade argentina.
Assim, do parque criollo Ricardo Güiraldes surgiu um espaço "educacional" para
destacar os atributos das zonas rurais em detrimento do cosmopolitismo urbano.

Palavras-chave: Tradição – Museu Ricardo Güiraldes - Buenos Aires - gaucho

199
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

INTRODUCCIÓN

E
l proceso que concluiría con el reconocimiento oficial del gaucho como
símbolo nacional incluía la creación de un espacio físico concreto para su
continua evocación. La gestación del museo gauchesco ―Ricardo Güiraldes‖
respondía a esa necesidad que implicaba la fundación de un ―templo‖ para que fuese
exaltado, de manera permanente, el gaucho que se erigía como personificación misma
de la tradición nacional. El lugar de emplazamiento fue San Antonio de Areco –
municipio ubicado en la zona norte de la provincia- que, además de ser el escenario
campero de la obra literaria Don Segundo Sombra (GÜIRALDES, 1926), era gobernada
por autoridades municipales afines a ese propósito que contaban con un marcado
respaldo a nivel provincial. Este artículo se empeña en abordar el proceso de gestación
de ese espacio cultural haciendo foco en la participación política de la obra.

En ese sentido, los resultados de la investigación aquí presentados se insertan en un


denso campo de estudios historiográficos sobre el desarrollo de museos y espacios
expositivos que se elaboraron desde distintas perspectivas (PODGORNY, 2010;
BALDASARRE, 2006). Los estudios de María Elida Blasco constituyen una referencia
ineludible para este trabajo. En su artículo ―Peregrinar del gaucho: del Museo de Luján
al Parque Criollo y Museo Gauchesco Ricardo Güiraldes‖ (BLASCO, 2013) elabora una
sugerente comparación entre las dos instituciones citadas. Allí se presentan basamentos
que se verán profundizados aquí en cuanto a la participación estatal en la construcción
del museo de San Antonio de Areco. En efecto, si bien en 1925 el Museo Histórico de
Luján había inaugurado una sala dedicada al gaucho, esa incipiente referencia se
encontraría profundizada -y exacerbada- en la concreción del museo gauchesco
analizado aquí.

Durante la década del treinta, la reivindicación del gaucho como símbolo de la


―argentinidad‖ se había materializado en diversos registros. De acuerdo con el trabajo
de Alejandro Cattaruzza y Alejandro Eujanian (2003), en los últimos años de ese
decenio el consenso en torno al gaucho como arquetipo de la ―tradición nacional‖ se
había extendido hacia sectores amplios que incluían, entre otros, a funcionarios
estatales, intelectuales, y tradicionalistas que se asociaban en centros criollos. Así, se
generaba una cierta confluencia entre la ―cultura letrada‖ y la ―cultura popular‖

200
(CATTARUZZA y EUJANIAN, 2003). Las funciones del gaucho en ese período no se
remitieron sólo al ámbito de interacción entre diversos sectores, como hemos analizado
en otros trabajos, la narrativa campera -encarnizada en la figura del gaucho- se utilizaba
con diferentes propósitos como promocionar nuevos productos de consumo o motorizar
las novedades de la industria cultural (CASAS, 2015).

El imaginario gauchesco, entonces, adquirió una visibilidad contundente en el marco del


proceso de concepción del museo Ricardo Güiraldes. Se considera que la fundación de
ese espacio en 1938 pretendía cristalizar la citada ligazón de lo gauchesco con lo
nacional. A partir del archivo institucional, la consulta sobre las publicaciones
periódicas locales y nacionales, y la pesquisa en la biblioteca del municipio, se pretende
analizar aquí esa política cultural que tenía un marcado contenido pedagógico. Para eso
se realizará una reseña del contexto político de la provincia de Buenos Aires en general
y del municipio de San Antonio de Areco en particular. Ese análisis se complementará
con el tratamiento que la prensa local le otorgaba a los preparativos en los momentos
previos a la inauguración. A través de los archivos señalados se develaran dos niveles
de participación en la composición de la obra: la intervención oficial y los voluntarios
que decidieron contribuir con donaciones para el armado de las exposiciones.
Finalmente, nos detendremos en la ceremonia y los festejos del 16 de octubre de 1838
cuando se dio por inaugurado el parque criollo más grande de Sudamérica.

LA POLÍTICA EN LA PROVINCIA DE BUENOS AIRES: GOBERNACIÓN DE


MANUEL FRESCO

El contexto político de la provincia en la coyuntura de la inauguración del Parque


Criollo y Museo Gauchesco Ricardo Güiraldes se encontraba signado por la figura del
Dr. Manuel Fresco. El médico oriundo de Navarro desarrolló su trayectoria política
como legislador provincial de 1919 a 1922 y de 1925 a 1931. Además, durante ese año
ejerció como comisionado municipal del partido de Morón, donde tenía su residencia y
una contundente influencia (REITANO, 2010). Finalmente, desde 1934 hasta los años
previos a su gobernación tuvo a su cargo la presidencia de la Cámara de Diputados de la
Nación. En las elecciones fraudulentas de 1935, cuándo los conservadores debieron
competir con los políticos radicales luego de cuatro años de abstención de estos últimos,

201
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

se proclamó gobernador de Buenos Aires. Fresco fue uno de los máximos exponentes
del conservadorismo bonaerense, y manifestó su lema de gobierno con la tríada ―Dios,
Patria y Hogar‖.

Desde los primeros meses de su función al mando del ejecutivo provincial, Fresco
manifestó en diversas oportunidades su propósito de ―regular‖ la democracia liberal:
―La mera agregación numérica de votos, el cómputo mecánico de sufragios, emitidos en
el sigilo y la oscuridad, no confieren por si mismos ni autoridad ni estabilidad […] con
el sufragio secreto estamos creando una raza débil y poco viril‖ (cf. FLORIA 2010, p.
143). Así, desde los discursos del gobernador se pretendió cuestionar la pertinencia de
la Ley Sáenz Peña que había establecido el voto secreto, universal –para los argentinos
varones, nativos o naturalizados- y obligatorio. Como explica María Dolores Béjar: ―La
atención a las necesidades básicas por parte del Estado iba unida a la exigencia de que la
sociedad adhiriese a una serie de valores e instituciones que el gobierno definía como
núcleos de toda sociedad equilibrada: la religión, el nacionalismo, y la familia.‖
(BÉJAR, 1997, p. 96) El tópico del patriotismo fue impulsado por Manuel Fresco, no
sólo desde lo discursivo sino con medidas concretas. En la lógica anticomunista de su
gobierno, el cumplimiento de obras de corte social se direccionaba a reforzar ese
objetivo. Por ejemplo, en un acto celebratorio del Instituto de la Vivienda Obrera,
instalado en La Plata a mediados de 1937, el ministro de Gobierno de la provincia, Dr.
Roberto Noble, ante la presencia del gobernador, capitalizaba la manifestación para
expresar: ―El gobierno de Buenos Aires puso fuera de la ley al comunismo […] Las
inquietudes del mundo entero se reflejan en nuestro país y saturan nuestras
preocupaciones políticas y sociales de conceptos extranjeros. Por eso el gobierno de
Buenos Aires trata de cumplir un programa de reformas netamente nacionalista.‖ (El
Día, 25.3.1938, p. 5). En ese contexto, la atmósfera que cubrió los festejos a la
―tradición‖ se insertó como un espacio para reafirmar los sentimientos por la patria y
consolidar la identidad nacional argentina.

Otra característica del gobierno de Manuel Fresco –que se ligaba en cierto punto a los
elementos exaltados en la gestación del Museo Ricardo Güiraldes- refería a su política
agraria para la campaña bonaerense. En efecto, durante su mandato se desarrolló un
novedoso proyecto de colonización: el Estado provincial creó un instituto encargado de
comprar grandes propiedades de tierras que –previo diseño de colonias agrícolas- eran

202
entregadas a los campesinos –antes condenados al arriendo- para que las trabajaran
personalmente. Según plantea Javier Balsa, ese impulso a la colonización se insertaba
en una nueva estrategia del conservadorismo argentino que pretendía legitimarse, ante la
consolidación del yrigoyenismo, interpelando el apoyo de los chacareros del campo. El
gobernador articuló esa política agraria con su discurso nacionalista, garantizando que
sus proyectos agrícolas sanearían el desequilibrio demográfico de la provincia –en
referencia a la concentración de población en las ciudades-. En la concepción de Fresco,
allí radicarían ―los hijos de la Patria‖ que habrían de servirla con ―orgullo y dignidad‖
en tanto serían ―libres de las asechanzas y de las inquietudes que provoca la vida en las
grandes ciudades.‖ (BALSA, 2010). La distinción que realizaba Fresco, sería
recuperada por los tradicionalistas a finales de la década. El posicionamiento que le
otorgó el Gobierno al campo como fuente de la riqueza nacional contribuía a la atención
que imantaba la vida rural en las construcciones sobre la figura del gaucho.

La concreción del parque gauchesco en San Antonio de Areco y sus primeros años de
funcionamiento estuvieron enmarcados en los comienzos de la Segunda Guerra
Mundial. Ese conflicto internacional fue aludido, de modo sutil y tangencial, en las
celebraciones a la tradición nacional de las que fue sede el Museo. Los discursos
circulantes allí se afanaban en ―cerrar filas‖ y cristalizar una ―identidad argentina‖ en
detrimento del cosmopolitismo y las influencias extranjeras. La dicotomía no se
fundamentaba tanto, hacia 1939, en la vitalidad de las corrientes inmigratorias. De
hecho, la inmigración a la Argentina había disminuido un 75 por ciento –en un
promedio aproximado- respecto de la década anterior. Como plantea Fernando Devoto,
desde la segunda mitad de los años treinta el ―problema migratorio‖ se planteaba desde
otras perspectivas. La cuestión de los refugiados generaba álgidos cuestionamientos en
la política internacional e interna. Las elites conservadoras que gobernaban el país
rechazaban su llegada alegando que –en tanto no eran desplazamientos voluntarios- los
refugiados mostraban serias limitaciones en sus capacidades productivas y escasa
motivación para integrarse (DEVOTO, 2005). La preocupación por las inmigraciones
no deseadas emergió con intensidad, tanto al comienzo de la guerra civil española en
1936 como en los inicios de la contienda bélica mundial. De ese modo, las prédicas
tradicionalistas se articulaban con un contexto político funcional para la exaltación de lo
―nacional‖ y la animadversión hacia lo ―foráneo‖.

203
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

EL CONTEXTO LOCAL EN SAN ANTONIO DE ARECO

La creación en 1938 de la Comisión Nacional de Museos y Monumentos Históricos da


cuenta de un impulso institucional para el desarrollo de los museos históricos que había
tenido sus primeras manifestaciones en la época del Centenario de la Revolución de
Mayo (BLASCO, 2007). La concurrida inauguración del parque criollo y museo
gauchesco ―Ricardo Güiraldes‖, el 16 de Octubre de 1938, se enmarcó así en un
contexto doblemente favorable para su concreción: por un lado la producción
museográfica recibía el estímulo estatal para su avance, y por otro lado, la extensión del
consenso acerca de la figura del gaucho como portador de las tradiciones patrias iba
camino a consolidarse. Proceso que puede reconocer su génesis en la circulación del
Martín Fierro, que desde 1872 impactaba tanto en el público letrado de la ciudad como
en los sectores populares de la campaña bonaerense a través de diversos canales de
difusión, como la lectura en voz alta alrededor del fogón (CATTARUZZA, 2007).

Lo que se erigiría como un ―templo de evocación de tradiciones esencialmente


nacionalistas‖, reunidas en una imagen del gaucho que difería en mucho de la
hegemónica en décadas anteriores, presentó su gestación en un evento organizado años
atrás por el Ejecutivo municipal. Hacia la segunda mitad de la década del treinta el
escenario político en San Antonio de Areco no distaba demasiado de lo que acontecía en
el resto de la provincia (BÉJAR, 2005). Los conflictos y pujas políticas entre
conservadores y radicales formaban parte del escenario continuo de la vida social y se
manifestaban a diario. En lo referido a una cuestión ideológica, el tópico del
nacionalismo se encontraba como eje de debates públicos generalmente desarrollados a
partir de los periódicos municipales. El clima político-social se encontraba plasmado en
la producción de la prensa gráfica de la época. El municipio contaba, entre otros, con
dos periódicos de una ideología claramente marcada: desde 1917 se editaba La Idea
―semanario defensor de los principios de la Unión Cívica Radical‖ según esbozaba su
propio slogan; y desde 1936 la política conservadora expresó sus voces en La Gaceta,
que pese a su autoproclamación de ―semanario independiente, social, deportivo,
noticioso y cultural‖ se mostró en numerosas ocasiones adherida a las políticas de la
intendencia de José Antonio Güiraldes.

204
En notoria comunión con lo que acontecía a nivel provincial, la problemática del
nacionalismo tuvo su correlato en la realidad municipal. Desde 1935 la crítica
ideológica y pragmática al Gobernador provincial Manuel fresco se hizo constante
desde los sectores radicales locales. El periódico La Idea dejó bien en claro su postura
calificando de ―Mentira Criolla‖ el augurio que el Gobernador expresaba luego de las
polémicas elecciones en Buenos Aires: ―los conservadores haremos un gobierno
democrático y legal‖ (La Idea, 16.6.1935, p.3). Pero las críticas y reacciones fueron
continuamente direccionadas más al gobierno municipal que al provincial. Las posturas
adoptadas por la intendencia en lo que concierne al desarrollo cultural y al estímulo para
la evocación de una tradición nacional, que se representaba no solo en la figura del
gaucho sino también en los símbolos y fiestas patrias, despertaron una sistemática
tensión con el partido opositor. Por ese entonces la acusación al radicalismo de
internacionalista formaba parte del discurso conservador. A nivel local, esta puja se
representó claramente en las proclamas-defensas que la Unión Cívica Radical expresaba
desde su periódico. A mediados de 1936 los dirigentes radicales respondían
abiertamente: ―La U.C.R. es un partido nacionalista‖ y se mostraban indignados por la
falta de patriotismo de los comerciantes locales que habían utilizado el 25 de Mayo para
aumentar sus cuentas, desatendiendo que ese ―no era un día para la usura‖ (La Idea,
31.5.1936).

En ese contexto político, el Intendente municipal José Antonio Güiraldes sancionó un


decreto que, sin saberlo, daría gestación a lo que se concretó años más tarde en el
parque criollo y museo gauchesco ―Ricardo Güiraldes‖. El escrito presentaba a San
Antonio de Areco como un pueblo con más de doscientos años de existencia que
siempre había sabido valorar y conservar lo suyo. ―con costumbres típicamente
`criollas´ [Areco] tiene obligación y derecho a exponer sus obras a la consideración de
sus connacionales.‖ Las visitas a estancieros y vecinos reconocidos del pueblo habían
generado en el Intendente una conciencia del material cultural que se diseminaba en el
municipio. La admiración por las colecciones de platería, sogas, mobiliario, de gran
riqueza según su consideración, motivó la preparación de una gran exposición
municipal.

―Las fuerzas inspiradoras de la educación argentina se basan en el más puro


nacionalismo hacia el cual deben dirigirse las nuevas generaciones […] el Intendente

205
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

cree un deber conservar los usos y costumbres de nuestros antepasados como guías para
las presentes generaciones y como ejemplos vivientes para las venideras.‖ Con esta
introducción, el decreto aspiraba a recolectar objetos característicos de una época para
su evocación. En búsqueda de integrar a la sociedad en el desarrollo de ese proyecto, se
apelaba a la reunión de todos los recuerdos dignos que se hallasen en los ―templos
hogareños‖. La consigna de Güiraldes representaba un llamado dirigido notoriamente a
las familias que conformaban la élite arequense, en su mayoría compuesta por
estancieros de alto poder adquisitivo y presencia tradicional en el lugar, para la
preparación de la muestra. La comisión organizadora del evento estuvo integrada por
apellidos significativos en la historia política y social del pueblo como: Colombo;
Güiraldes y Jordán (BURGUEÑO, 1936). El documento concluía especificando que la
cobertura de todos los gastos quedaba a cargo de la Municipalidad, incluyéndose al
presupuesto de ese año. Este ímpetu por el desarrollo de la exposición permite
reconocer el carácter central que tenía para la Intendencia la recuperación de una
tradición conformada por elementos vinculados al gaucho y su escenario. Como idea
subyacente de este afán municipal, se percibe una sensación de amenaza a esas
costumbres que debían revalorizarse como guía y ejemplo para las generaciones
contemporáneas. Sensación estrechamente vinculada al proceso de modernización que
se producía asociado al desarrollo de la vida en la ciudad (BALLENT y GORELIK,
2001).

En diciembre de 1936 se realizó la exposición en el edificio de la Municipalidad. Con


entrada gratuita y la organización de diferentes actividades se desarrolló un evento de
amplia concurrencia. El acceso a la muestra de textiles, sogas, platería, bronces y
mobiliario significó para gran parte del pueblo una experiencia fuera de lo habitual. El
anuncio de la creación de una escuela de telares, dirigida por Ramona Risso Patrón de
Beristayn, cuyas producciones serían expuestas en las posteriores Fiestas de la
Tradición, potenció la repercusión de la exposición en la sociedad. La visita de
numerosos ciudadanos de Buenos Aires, quienes fueron agasajados por el Intendente,
contó con la presencia destacada de José María Bustillo, Ministro de Obras Públicas de
la Provincia de Buenos Aires y amigo personal de Güiraldes. La admiración
manifestada por éste representó el inicio de una gestión que concluiría dos años más
tarde con la inauguración del museo ―Ricardo Güiraldes‖.

206
PREPARATIVOS Y REPERCUSIONES

Las gestiones realizadas por el Ministro de Obras Públicas del Gobernador Manuel
Fresco para la creación del parque criollo y museo gauchesco ―Ricardo Güiraldes‖
comenzaron a desarrollarse a principios de 1937. José María Bustillo vio cristalizadas
sus intenciones de construir ―un sagrario más de evocación de nuestro heroico pasado‖
en el impulso recibido por parte del Gobernador (La Nación, 1.1.1938). El 12 de mayo
de ese año se sancionó el decreto provincial que indicaba la adquisición de treinta y
ocho hectáreas para destinarlas a la creación del parque criollo y museo gauchesco. En
el mismo se manifestaba el Poder Ejecutivo de la provincia como ―deseoso de fomentar
y estimular la educación popular, la afición al turismo, el amor a las bellezas naturales y
los actos tendientes a rememorar el honroso pasado de nuestra evolución social.‖ Se
percibe así la presencia de dos estímulos principales para su concreción: uno de índole
cultural anteriormente analizado y otro de carácter económico que se explicita en la
referencia al turismo. Cabe destacar que desde fines del siglo XIX la difusión del
automóvil había desarrollado un turismo interno que se movilizaba de la ciudad al
campo en los fines de semana. Esto generó una intensiva explotación turística de
amplias zonas rurales que ya en la década del treinta veían surgir los primeros country-
clubs (BALLENT y GORELIK, 2001). El Ing. Bustillo refirió a este proceso explicando
que el turismo había experimentado una expansión solo en los últimos años en
Argentina. Mientras que en otros países se encontraba totalmente disciplinado y se
consideraba una fuente importante de riqueza, en la República Argentina, según su
apreciación, no se había obtenido todo el provecho que la naturaleza ofrecía. Veía
entonces, en este proyecto, la posibilidad de atraer al turista y de modo simultáneo
educarlo en la tradición nacional para evocar ―costumbres desaparecidas‖ (La Gaceta,
3.1.1938).

El decreto provincial que dio origen al museo presentó dos elementos que deben ser
mencionados en tanto confirman la continua identificación entre el gaucho y la tradición
y el protagonismo de la familia Güiraldes en la evocación de los mismos. La familia,
representada en este proyecto en la figura del Intendente José Antonio, desarrolló un rol
directivo en todo el proceso de conformación que fue posible, no solo gracias a los

207
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

cargos políticos que ejercían, sino también a una serie de relaciones sociales con la élite
bonaerense que databan de largo tiempo. Corresponde mencionar que Manuel José
Güiraldes, padre de Ricardo y José Antonio, había sido Intendente de Buenos Aires en
la época del Centenario. Se confirmó entonces que en memoria del escritor Ricardo
Güiraldes ―maestro de las letras argentinas‖ el museo llevaría su nombre. Por otro lado,
quedó conformada la comisión ejecutora integrada por José Güiraldes, los ingenieros
José Burgueño y Juan R. de la Llosa, y presidida por Enrique Udaondo. La elección de
este último para presidir la comisión se encontró fundamentada en su desempeño en la
fundación del ―Museo Colonial e Histórico de la Provincia de Buenos Aires‖ en la
ciudad de Luján, el cual ya contaba, desde 1925, con una sala dedicada al gaucho en su
interior (BLASCO, 2004; CATTARUZZA, 2007). En Areco, la tarea de Udaondo
estuvo abocada a la creación de un casco de estancia criolla ambientado con flora
autóctona; la casa de estancia con figuras de cera en su interior y animales
embalsamados, junto con una sala que guardaba los recuerdos del escritor y su
voluminosa biblioteca; el rancho de peonada, que se encontraba al final de la quinta; y
la pulpería, bautizada como ―La Blanqueada‖ ambientada con elementos de época y
figuras de cera. ―La vocación y el patriotismo‖ del director fueron reiteradamente
marcados por la prensa local y por los funcionarios provinciales.

Uno de los propósitos principales de la comisión ejecutora radicó en la difusión del


evento inaugural, pensado en un principio para el 1° de octubre y traspasado luego al 16
del mismo mes por cuestiones organizativas. El espacio dedicado al proyecto en el
semanario local La Gaceta en el trascurso del año 1938 permite advertir una serie de
cuestiones referentes a los preparativos de la inauguración. En primer lugar, como se
expuso anteriormente, el periódico manifestaba una ideología conservadora bien
marcada, de hecho solía expresar conformidad con la gestión Güiraldes al frente de la
municipalidad. Empero, se registra en el mes de febrero una editorial que critica en
cierto aspecto al Ejecutivo municipal. El artículo delata el estado precario de las
condiciones edilicias del pueblo en vísperas del marcado acontecimiento. En pos de
―mostrar la mejor impresión y adelanto‖ no vaciló en exhortar al Intendente y al
Consejo Deliberante la construcción de aceras, cercas, apertura de calles e
intensificación del barrido y riego de todo el pueblo. El testimonio que brinda el artículo
periodístico permite reconocer un estado de exaltación frente a la inminente

208
inauguración que llevaba al periódico y junto con éste a un sector considerado de la
sociedad arequense a relegar la filiación al gobierno municipal y privilegiar el cuidado
de la imagen que brindará el pueblo en el esperado evento. Ese estado de expectativa
frente al acontecimiento fue haciendo mella progresivamente en amplios sectores de la
sociedad. Un intento más por ampliar la difusión de la futura inauguración buscó
involucrar directamente al lector y movilizarlo frente a lo que estaba aconteciendo. Se
propuso así, durante fines de agosto hasta los últimos días de septiembre, un concurso
de relatos criollos en referencia a la pronta apertura del museo. Los escritores debían
respetar la única condición que se les exigía aparte de la originalidad, los relatos debían
estar ambientados en Areco para ser tenidos en cuenta. Se debe señalar que este impulso
difusor que presentaba La Gaceta no era correspondido por el otro periódico local
autoproclamado radical. El contraste de ambos permite identificar una serie de
cuestiones vinculadas al desarrollo político del lugar que serán analizadas más adelante.

Uno de los elementos que suscitó mayor polémica en los políticos opositores al
Intendente fue un decreto sancionado en septiembre. El punto saliente que provocó el
descontento en el escenario político radical fue el pedido de autorización al Consejo
Deliberante, posteriormente aceptado, para destinar hasta $ 2.500 a una comisión local
que colaboraría con la comisión ejecutora. Además se le otorgaba la facultad de destinar
ese dinero a lo que sus miembros considerasen pertinente. El documento, celebrando la
iniciativa del Gobierno Provincial de homenajear al poeta, declaró al pueblo de Areco
adherido a los festejos y le dio carácter de ―acontecimiento‖ a lo que ocurriría el 16 de
octubre. Por otro lado anticipaba que en el mismo se desarrollarían festejos y
actividades vinculadas a ―nuestra tradición‖. La detención sobre este manifiesto
municipal favorece el reconocimiento de dos aspectos. En primer lugar se caracteriza
como la complementación oficial a la tarea desarrollada por la prensa escrita en cuanto a
fomentar la participación del pueblo en el evento y en lo referido a la difusión y
jerarquización del mismo. En segundo lugar, es importante destacar que en la referencia
a los festejos se evidencia una intención por parte del Ejecutivo Provincial, en total
consonancia con el Gobierno Municipal, que va más allá del mero homenaje a la figura
de Ricardo Güiraldes. En cuanto se mencionan actividades referidas a la tradición, en
cuanto se fomenta la participación amplia de la sociedad, en cuanto se evoca en cada
artículo, discurso o decreto ―nuestro heroico pasado‖, ―la tradición nacional‖, ―el más

209
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

puro nacionalismo‖, se evidencia un intento claro por consolidar una identidad nacional
conformada en base al mundo rural, las costumbres campestres y personificada en la
figura del gaucho.

LA OBRA SE CONCRETA, DONACIONES QUE LA CONFIGURAN

El patrimonio del museo al momento de su fundación se fue conformando con el aporte


de numerosas personas, identificadas todas en mayor o menor medida con la figura de
Ricardo Güiraldes. Viejos amigos y familiares del escritor, que habían dedicado buena
parte de su tiempo a coleccionar distintos objetos, obras y mobiliarios presentaron sus
aportes para la inauguración. Numerosos vecinos del pueblo que, como se mencionó
anteriormente se hallaban explícitamente comprometidos con la tarea, realizaron
donaciones de distintos elementos campestres que servirían para dotar al parque criollo
de un escenario original. Esta participación de los lugareños presentaba un antecedente
concreto en la exposición tradicional de 1936. Por mencionar solo algunos ejemplos,
Don Gregorio de Dios, ―uno de los mejores pialadores del pago‖, ofrecía su lazo
trenzado de seis tientos que causaba admiración. La señora Elcira Ramírez de Casco
aportó un cañón de su estancia que pertenecía a la época de los fortines. La Iglesia
Parroquial también se había adherido a la muestra exponiendo objetos de culto y
casullas (LECOT, 1998). Esa tendencia de la sociedad arequense a la participación
activa se incrementó en los instantes previos a la apertura del museo.

Para establecer la procedencia de los elementos donados es preciso distinguir entre


familiares, amigos y vecinos del pago. Estos últimos estuvieron representados en las
figuras de Don Saturnino J. Enzué y Don Elías Romero quienes proveyeron al parque de
una hacienda vacuna, yegüerizos y lanares de pura cepa criolla. Los familiares de
Victorino Nogueira y Aníbal Saunders ofrecieron aperos de ensillar y prendas
artesanales. Las correcciones de Ricardo Güiraldes sobre el borrador de Don Segundo
Sombra fueron donadas por el hijo de Francisco Colombo quien había sido su impresor
original. El taxidermista Crisólogo Lucero, famoso en el lugar por sus numerosos
rescates en el río, aportó parte de su colección (La Gaceta, 30.8.1947). Para citar un
último ejemplo de la colaboración del pueblo, Doña Petrona Casco de LLamosas

210
entregó una imagen de San Antonio de Areco que había pertenecido a su fundador, José
Ruiz Arellano (LECOT, 1998).

En referencia a los aportes realizados por amigos y conocidos de Ricardo Güiraldes, se


debe puntualizar en su relación con Alfredo González Garaño. Este artista y pintor,
quien participaba asiduamente de tertulias culturales e intercambiaba reflexiones con
Pedro Figari y José Ortega y Gasset, compartió en Paris los últimos instantes de la vida
de Ricardo. Juntos habían dado origen a Caaporá, un ballet inspirado en la leyenda
guaraní Urutaú. Atendiendo al estrecho vínculo que habían gestado y creyendo serle fiel
a la voluntad del pintor fallecido años atrás, su esposa María Teresa Ayerza donó al
momento de la inauguración los bocetos originales con los dibujos proyectados de la
obra, libros que el escritor les había dedicado, documentos relacionados a su vida y una
colección de platería criolla y colonial junto a toda la biblioteca perteneciente a su
marido. Para graficar aún más el nivel de adhesión que despertó la gesta del museo entre
su círculo cultural se considera oportuno referir a las donaciones de Walter Owen, quien
ofreció los manuscritos de su traducción al inglés del Martín Fierro, Valery Larbaud
contribuyó con unas espuelas que el escritor argentino le había regalado y el compositor
Felipe Boero envió el texto original, partitura musical y manuscrito de su ópera El
Matrero.

La participación de la familia con respecto a la donación de colecciones y elementos


característicos fue la más importante. La exploración genealógica sobre los antepasados
de Ricardo Güiraldes da cuenta de una marcada presencia de coleccionistas destacados.
Manuel José Guerrico, bisabuelo del escritor, había sido confidente y hombre de
confianza de José de San Martín. Sus prolongadas estadías en Europa le permitieron
recolectar una amplia variedad de cuadros, esculturas, monedas y medallas que luego
fueron traídas al país (DE OLIVEIRA, 1988). Su nieto Manuel José Güiraldes, padre de
Ricardo, realizó una actividad similar del otro lado del Océano Atlántico. Numerosos
cuadros y objetos eran acumulados según su gusto y el de su esposa Dolores Goñi. En
Buenos Aires, durante 1921 conoció las obras del pintor uruguayo Pedro Figari, quien
estaba realizando su primera exposición en la galería Müller. Ese encuentro marcó el
comienzo de una relación de amistad y admiración que se prolongaría en el tiempo. Su
afán coleccionista se dirigió casi exclusivamente a las pinturas de Figari. Piquillo, como
era conocido, vendió parte de su colección europea para comprar obras del artista

211
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

uruguayo, muchas de las cuales fueron luego donadas al museo. Se encuentra en


Manuel Güiraldes la figura más comprometida con la organización y conformación del
homenaje a su hijo. Presente hasta en los mínimos detalles, decidió trasladar varios
objetos de su estancia ―La Porteña‖ para que sean expuestos. Focalizado en contribuir a
la continua memoria de Ricardo, concretó en variadas donaciones su colaboración
continua. Por mencionar algunas destacadas: las ilustraciones de Don Segundo Sombra,
realizadas por su sobrino Alberto Güiraldes; un poncho pampa que perteneció a Manuel
Vicente Maza; y una cabeza de bronce de Ricardo Güiraldes realizada por el escultor
Agustín Riganelli. Enumerar el mobiliario, los cuadros de Figari y la cantidad de
objetos aportados excede la mera intención de graficar, como se ha expuesto, la
participación protagónica desarrollada por familiares, amigos y vecinos del escritor en
la conformación de un espacio que se presentaba de manera exclusiva a su memoria
pero que conllevaba una motivación más profunda ligada a la recuperación simbólica de
las tradiciones rurales.

LA CEREMONIA DE INAUGURACIÓN

La inauguración del parque criollo y museo gauchesco, enmarcado en la clasificación de


histórico-etnográfico, representó un acontecimiento sin precedentes para la historia del
municipio (FERNÁNDEZ, 1999). El 16 de Octubre de 1938 contuvo un conjunto de
elementos significativos a la hora de analizar cuestiones como: la participación de la
dirigencia política bonaerense, la numerosa concurrencia del pueblo, la evocación
continua a elementos gauchescos, la presencia de la iglesia católica y la tensión local
entre funcionarios conservadores y opositores radicales.

El rol desarrollado por la prensa, no solo en los días previos, sino en los posteriores a la
inauguración permite realizar un muestreo claro del clima tenso que a nivel político se
respiraba en Areco. Desde el periódico La Idea con omisiones recurrentes al futuro
museo, el partido radical daba la pauta de considerarlo como un proyecto
exclusivamente conservador y por lo tanto no se hacia eco de lo que iba generando
expectativa en el pueblo. Durante los meses previos al evento, el vocero radical solo
realizó pequeñas menciones en la sección de publicidad, sobre los preparativos y actos a
realizarse. La jerarquía que se le otorgaba a la noticia es fácilmente percibible al

212
observar los anuncios sobre cumpleaños, farmacias, y otros avisos que la rodean. No
obstante, un apartado que se publicó a pedido de la comisión local, permite reconocer
otro factor que motivó la participación de la sociedad en la ceremonia inaugural. Se
realizó una invitación al ―desfile de jinetes gauchos, de los que quedan todavía en
nuestro pueblo un número suficiente como para hacer un homenaje digno del sentido
del parque y de su nombre‖ expresaba el artículo (La Idea, 6.10.1938). La tensión
explicitada en la prensa gráfica se hizo evidente una vez más el día de la inauguración.
En un mensaje con destinatarios bien claros, desde el periódico La Gaceta se invitaba,
frente a la envergadura del acontecimiento, a colocarse por encima de las opiniones
políticas antagónicas y hasta de los errores, atropellos y los agravios comunes.
Paralelamente, frente a la casi total omisión del diario radical, se anunciaba la edición
de un número especial en honor a la inauguración (La Idea, 16.10.1938). Para su
publicación se preparó un ejemplar de treinta páginas con estudios sobre la obra y
personalidad de Ricardo Güiraldes. Se realizó un tiraje extraordinario de diez mil
ejemplares, un número bastante importante si se tiene en cuenta las tiradas habituales de
distintos diarios provinciales (LVOVICH, 2003).

La afluencia de público proveniente de la Ciudad de Buenos Aires comenzó durante la


mañana misma. Las declaraciones durante los días previos de la comisión organizadora
hacían suponer una concurrencia importante desde la capital del país. El número de
invitados sin duda cumplió con todas las expectativas, y la jerarquía de los mismos
confirmó la importancia del acontecimiento. Ya en artículos gráficos previos a la fecha,
se describían diferentes tipos de reuniones, como la realizada en la Asociación
Prometeo de la capital por entidades culturales, para evaluar la manera de adherirse a
los festejos (La Idea, 2.10.1938). El día de la ceremonia se realizaron caravanas de
automóviles desde la capital, organizadas por el Touring Club Argentino y el Automóvil
Club Argentino, adornadas con banderas nacionales. Además al mediodía partió de la
estación Retiro del ferrocarril un tren especial con cientos de invitados, entre los que se
encontraban las principales autoridades del Gobierno Provincial. Encabezados por el
Gobernador Manuel Fresco, un convencido de que una nación fuerte y armoniosa debía
estar integrada por hombres sanos, decididamente patriotas y fieles católicos (BÉJAR,
2005). La delegación se completaba con el ministro de Gobierno Dr. Roberto Noble, el
ministro de Obras Públicas Ing. José María Bustillo, y otros representantes nacionales y

213
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

provinciales (La Gaceta, 23.10.1938). Se estaba consolidando en Areco más que un


espacio de homenaje a un escritor literario argentino, una construcción identitaria de
elementos rurales que centraban en el gaucho características esencialmente nacionales
que debían recuperarse. ―Se honró a la tradición gaucha‖ publicó La Prensa del día
después, que también reconoció la ―multitud que se trasladó desde esta capital y sus
adyacencias‖ (La Prensa, 17.10.1938 p.6).

La ceremonia comenzó por la mañana con un oficio religioso a cargo de los sacerdotes
Leonardo Castellani y Juan Duque. La misa contó con la presencia de tres mil personas
lo que revela un panorama de la gran concurrencia que tuvo la jornada, hay que tener en
cuenta que la delegación que arribó en tren lo hizo en horas de la tarde, incrementando
el número de participantes. Mucho se ha trabajado y escrito sobre la estrecha
identificación de los nacionalistas con la Iglesia, solo se remarcará aquí el carácter
católico de la tradición evocada (DEVOTO, 2006; LVOVICH, 2003; ZANATTA, 1996;
ROCK, 1993). La fuerte identificación entre la institución eclesial y los Gobiernos,
tanto el provincial como el municipal, expresan un elemento más en la lista de atributos
que debería portar el ―buen patriota‖. La presencia entre el conjunto de dirigentes
invitados, del Obispo de la Ciudad de La Plata, Mons. Serafini, y la bendición que
realizó a la totalidad de la obra, remarca esta filiación. La Iglesia local formaba parte del
impulso por recuperar las tradiciones evocadas en el festejo y se manifestó abiertamente
con su participación en el evento. Luego de un ―almuerzo criollo‖ se preparó la
recepción de la comitiva capitalina que se produjo en las primeras horas de la tarde.

La participación del pueblo en las diferentes competencias estuvo antecedida por los
discursos de dos de los principales gestores de la obra, el Ing. Bustillo y el director
Udaondo. La referencia a algunas de sus palabras corrobora algunos de los puntos aquí
tratados. En primera instancia el comienzo del Ministro de Obras Públicas refiere a que
el Gobierno provincial estaba rindiendo culto a tradiciones nacionalistas que siempre
eran evocadas con simpatía. Se advierte rápidamente un interés que excede la intención
de homenajear la figura de Ricardo Güiraldes y se cristaliza en una prédica que busca
evocar una tradición nacional. Si bien de modo seguido se hace mención al recordado
escritor se lo vincula a su descripción de costumbres del medio rústico y rural ―que
desaparece y se esfuma en el vértigo del progreso‖. La mención apocalíptica sobre las
costumbres exaltadas deja ver el carácter de urgencia que presentó está misión para sus

214
gestores. Radica allí un elemento más que jerarquizó este proyecto y motivó la
participación de los máximos funcionarios a nivel provincial. Como lo expresó el
Ministro la materialización de esas tradiciones para su difusión constituían ―el fondo
mismo del alma nacional‖. Luego de referirse al municipio, al turismo y realizar los
agradecimientos correspondientes, concluyó su discurso buscando movilizar a los
oyentes en pos de la defensa y recuperación de las tradiciones evocadas: ―se verían
satisfechos los propósitos del Gobierno de Buenos Aires si todos los amantes de
nuestras tradiciones se transformaran en guardianes‖. El discurso de Enrique Udaondo
se desarrolló en términos similares, luego de realizar una minuciosa descripción del
parque afirmó que se inauguraba un parque-museo ―único en su género en Sud
América‖ y finalizó luego agradeciendo a la familia Güiraldes por la colaboración
recibida (La Gaceta, 23.10.1938).

A MODO DE CONCLUSIÓN

El desfile de jinetes gauchos, la corrida de sortijas, los bailes y las canciones típicas
dieron fin a una ceremonia que representó un evento mucho más complejo que una mera
apertura e inauguración. La confluencia de diferentes elementos que marcaron el ritmo
de la preparación y del desarrollo de este proyecto hace inevitable la reconsideración de
su análisis. La presentación sintética de una serie de conclusiones, desarrolladas todas
anteriormente, da cuenta de la envergadura del acontecimiento estudiado. En primer
lugar, la fundación del parque criollo y museo gauchesco ―Ricardo Güiraldes‖ estuvo
signada por una intención mucho más amplia que homenajear su memoria y su obra
literaria. La comisión ejecutora y los funcionarios que la rodearon planificaron un
evento para la evocación de tradiciones ―nacionales‖ que excedían la figura del escritor.
En segundo lugar, su desarrollo presentó un carácter de reacción frente al avance de la
modernización. La jerarquía que los contemporáneos le otorgaron al evento se
encontraba estrechamente vinculada a la sensación de pérdida que tenían en torno a las
costumbres y tradiciones rurales. En tercer lugar, el desarrollo y concreción del proyecto
fue respaldado de manera explícita por las máximas autoridades provinciales. Pese a la
abstinencia de algunos sectores radicales, la amplia participación oficial anticipaba lo
que un año más tarde se convertiría en una unánime reivindicación del gaucho y la

215
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

tradición rural. En cuarto lugar, la participación protagónica de la jerarquía de la Iglesia


en la ceremonia confirmaba el carácter católico de la tradición evocada. Por último, la
consolidación del gaucho de la pampa como portador inequívoco del conjunto de
tradiciones evocadas daba un paso importante para su cristalización. Su figura fue
exaltada y colocada en el centro de la tradición nacional, sus elementos y costumbres
que habían sido objetos de exposición dos años antes a nivel local tomaron el día de la
inauguración una repercusión y adhesión social nunca vista en el lugar. Por otro lado, la
identificación de la familia Güiraldes con la exaltación de una tradición nacional
personificada en el símbolo del gaucho se manifiesta una vez más representando el
carácter significativo que tuvo la familia y el rol protagónico que ejerció en la ―cruzada‖
por la recuperación de tradiciones que parecían perdidas.

216
BIBLIOGRAFÍA

BALDASARRE, María. Los dueños del arte. Coleccionismo y consumo cultural en


Buenos Aires. Buenos Aires: Edhasa, 2006.

BALLENT, Anahí y Adrián GORELIK. País urbano o país rural: La modernización


territorial y su crisis. En: CATTARUZZA, Alejandro. Nueva Historia Argentina, tomo
VII. Buenos Aires: Sudamericana, 2001.

BÉJAR, María. El régimen fraudulento; la política en la provincia de Buenos Aires,


1930-1943. Buenos Aires: Siglo veintiuno, 2005.

BLASCO, Elida. La fundación del Museo Colonial e Histórico de la Provincia de


Buenos Aires. Cultura y política en Luján, 1918. En: Boletín del Instituto de Historia
Argentina y Americana Dr. Emilio Ravignani, N° 25, Bs. As: Facultad de Filosofía y
Letras UBA-Eudeba, 2004.

BLASCO, Elida. Los museos históricos en la argentina entre 1889 y 1943. En: XI
Jornadas Interescuelas, Tucumán: Departamentos de Historia, 2007.

BLASCO, E. El peregrinar del gaucho: del Museo de Luján al Parque Criollo y Museo
Gauchesco Ricardo Güiraldes. En: Quinto Sol, Vol. 17, Nº 1, enero-junio 2013.

BURGUEÑO, José. Contribución al estudio y de la fundación y desarrollo del pueblo


de San Antonio de Areco. Buenos Aires: Ed. Francisco Colombo, 1936.

CASAS, Matías. Representaciones y publicaciones sobre el gaucho argentino en la


década del treinta. Entre la identidad nacional, el campo literario y las estrategias
comerciales. En: Historia y Memoria, n° 11, pp. 151-176, julio-diciembre 2015.
CATTARUZZA, Alejandro. Los usos del pasado. Buenos Aires: Sudamericana, 2007.

CATTARUZZA, Alejandro. y Alejandro EUJANIAN. Héroes patricios y gauchos


rebeldes. Tradiciones en pugna. En: CATTARUZZA, Alejandro. y Alejandro
EUJANIAN (dir.) Políticas de la Historia. Argentina 1860 – 1960. Buenos Aires:
Alianza, 2003.

DEVOTO, Fernando. Nacionalismo, fascismo y tradicionalismo en la Argentina


moderna. Buenos Aires: Siglo veintiuno, 2006.

DE OLIVEIRA CEZÁR, Lucrecia. Coleccionistas argentinos ―los Guerrico‖. Buenos


Aires: Instituto Bonaerense de Numismática y Antigüedades, 1988.

FERNÁNDEZ, Luis. Museología y museografía. Barcelona: Ediciones Serbal, 1999.

GÜIRALDES, Ricardo. Don Segundo Sombra. Santiago de Chile: Nervi, 1926.

HERNANDEZ, José. Martín Fierro. Buenos Aires: Imprenta de La Pampa, 1872.

217
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

LECOT, Alberto. En ―La Porteña‖ y con sus recuerdos. Contribución al Estudio de la


Vida y Obra de Ricardo Güiraldes. Buenos Aires: Ediciones Rivolin hnos, 1998.

LVOVICH, Daniel. Nacionalismo y antisemitismo en Argentina. Buenos Aires:


Ediciones B Argentina, 2003.

PODGORNY, Irina. El sendero del tiempo y de las causas accidentales. Los espacios de
la antigüedad del hombre en el Plata, 1850-1910. Rosario: Prohistoria, 2010.

ROCK, David. La argentina autoritaria. Los nacionalistas, su historia y su influencia en


la vida pública. Buenos Aires: Ariel, 1993.

ZANATTA, Loris. Del estado liberal a la nación católica. Buenos Aires: Universidad
Nacional de Quilmes, 1996.

218
REVITALIZACIÓN Y AUTO SUSTENTABILIDAD TERRITORIAL:
CARTOGRAFÍAS SOCIO-TERRITORIALES Y TURISMO COMUNITARIO
COMO HERRAMIENTAS DE EMPODERAMIENTO, GESTIÓN Y MANEJO
LOCAL. UNA APROXIMACIÓN DESDE LA PLANIFICACIÓN-ACCIÓN
COLECTIVA

REVITALIZAÇÃO E AUTO-SUSTENTABILIDADE TERRITORIAL:


CARTOGRAFIAS SÓCIO-TERRITORIAIS E TURISMO COMUNITÁRIO
COMO FERRAMENTA DE EMPODERAMENTO, GESTÃO E USO LOCAL.
UMA APROXIMAÇÃO DESDE O PLANEJAMENTO-AÇÃO COLETIVA

Rodrigo Cuevas Vargas


Arquitecto, Universidad Austral de Chile. Núcleo de Investigación-Acción Participante,
Centro Transdisciplinario de Estudios Ambientales y desarrollo humano sostenible.
NIAP-CEAM, UACh. E-mail: rodrigo.valdiarq@gmail.com

Christian Henríquez Zuñiga


Profesor del Magister en Desarrollo a Escala Humana y Economía Ecológica.
Investigador del Centro de Transdisciplinario de Estudios Ambientales y desarrollo
humano sostenible y coordinador del núcleo de investigación Acción Participante,
Universidad Austral de Chile. NIAP-CEAM. UACh.
E-mail. christianhen@gmail.com

RESUMEN: El objetivo de este trabajo es relatar la experiencia metodológica utilizada


en el levantamiento: ―Diagnóstico Territorial Participativo, base para la implementación
del Turismo de Base Comunitaria. Instituto de Educación e investigación para la
Reforma Agraria – ITEPA: una visión del presente al futuro‖" 31 . La investigación
acción-participante, cuya metodología aplicada nos llevan desde el transecto hasta
Cartografía-social, nos ayudan a entender las dinámicas que funcionan para que pueda
existir una autonomía política y territorial, entendiendo bajo este concepto lo que señala
Bowen (2012, p 206) como una ―disputa permanente por el poder local, que si bien
reúne a un grupo de habitantes diferenciados desde el punto de vista productivo y
laboral, es capaz de conformar un movimiento que no solo ve en sus integrantes una
situación material y política común, sino cuya identidad está basada principalmente en
elementos socioculturales‖. Se habla así de una posibilidad para repensar, reinventar y
revitalizar un territorio desde el sentido de identidad y autonomía. Se hará mención a la
propuesta de revitalización del área educacional, por medio del proyecto de arquitectura
pensado desde los resultados y metas propuestas del diagnóstico.

Palabras Clave: Planificación territorial, investigación-acción participativa, cartografías


socio-territoriales.

31
Este diagnóstico fue parte del proyecto ―Economía Solidaria y Turismo en Foz do Iguaçu – Etur.‖
Financiado por el Ministerio do Turismo Brasilero a través de FINEP y ejecutado por las Incubadora
Tecnológicas de Cooperativas Populares de la Universidad Federal do Paraná, ITCP- UFPR y la
Incubadora de Derechos Institucionales y Organizaciones Solidarias, de la Universidad Estadual do Oeste
do Paraná – INDIOS- UNIOESTE. Cabe mencionar y agradecer la colaboración en la ejecución este
trabajo a Paula Beruski. Ingeniera forestal, pos-graduada en Economía y medio ambiente UFPR.

219
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

RESUMO: O objetivo desse trabalho é relatar a experiência metodológica utilizada no


levantamento: ―Diagnóstico Territorial Participativo, base para a Implantação do
Turismo de Base Comunitária no Instituto de Educação e Pesquisa para a Reforma
Agrária – ITEPA: uma visão do presente para o futuro‖. A pesquisa- ação participante,
na sua metodologia aplicada levam-nos desde o transecto até Cartografia-social,
ajudam-nos na compressão das dinâmicas para que possa existir uma autonomia política
e territorial. Entendendo este conceito o que assinala Bowen (2012, p 206) como ―uma
disputa permanente pelo poder local, que embora reúna a um grupo de habitantes
diferenciados desde o ponto de vista produtivo e trabalhista, é capaz de conformar um
movimento que não só vê em seus integrantes uma situação material e política comum,
se não cuja identidade está baseada principalmente em elementos socioculturais‖. Fala-
se assim de uma possibilidade para repensar, reinventar e revigorar um território desde o
sentido de identidade e autonomia. Vai se falar da proposta de revitalização da área
educacional, por meio do projeto de arquitetura pensado desde os resultados e metas
propostas do diagnóstico.

Palavras-Chave: Planejamento territorial, Pesquisa- ação participante, cartografias


sócio-territoriais.

INTRODUCCIÓN

L
a historia de los movimientos sociales rurales latinoamericanos es en buena
medida sino totalmente, la historia de la lucha por la tierra (BENGOA 2006,
citado por BOWEN, S. FABREGA, F. MEDEL, R. 2012. p 206). Las crisis
económicas, las políticas represivas y la adopción de ideas neoliberales ejecutadas por
los países latinoamericanos durante largo tiempo provocaron una fragmentación de la
sociedad, debilitaron el papel del Estado en relación al campo de intervención
económica, gatillaron una reducción del gasto público (educación, salud y protección
social) y acrecentaron los niveles de desigualdad en la distribución de las riquezas e
inequidad en el acceso de bienes públicos de calidad (MYORGA, A. DEL VALLE, C.
NITRIHUAL, L. 2009). Así, Latinoamerica se va configurando como un escenario
tremendamente desigual. En respuesta surgen diversos movimientos sociales, que a lo
largo de Latinoamérica se materializan en una alternativa político-social que desde la
organización y acción colectiva, buscan hacer frente a las patologías sociales, tales
como conflictos socio-ambientales, socio-espaciales, socio-políticos, socio-económicos
y socio-culturales (MAX-NEEF, 1993; SEN, 2000; SACHS, 2003, 2004; SAMPAIO,

220
MANTOVANELI Y FERNANDEZ, 2011) que han heredado producto de las malas
prácticas neoliberales.

Una respuesta es la conformación del Movimiento de los Trabajadores Rurales Sin


Tierra (MST) impulsada y organizada desde el mundo campesino brasilero y
latinoamericano. Con una base sólida de trabajo, promueve e impulsa nuevas formas de
organización social, en donde la ―Educación de Campo‖ es la base de su filosofía en la
formación de una nueva sociedad rural, la cual está vinculada a un proyecto de campo
que se construye desde los intereses de las poblaciones de agricultores familiares
contemporáneas. Por lo tanto, este movimiento está asociada a la Reforma Agraria, a la
soberanía alimentaria, soberanía hídrica y energética, a la agro biodiversidad,
agroecología, al trabajo asociado, la economía solidaria como base para la organización
de los sectores productivos, los derechos civiles, la cultura, la salud, la comunicación, el
ocio, los financiamientos publico subsidiados a la agricultura familiar campesina desde
la siembra hasta la comercialización de la producción en ferias libres, en los municipios
y capitales, en una relación alianza con el conjunto de la población brasilera32.

El territorio abordado en este trabajo corresponde al Asentamiento Antonio Compañero


Tavares (AACT) y el Instituto Técnico de Educación e Investigación de Reforma
Agraria (ITEPA), esta última es la encargada de entregar formación en enseñanza media
a las hijas e hijos de las y los asentados de la región oeste del estado de Paraná y
funciona como núcleo independiente al asentamiento, teniendo en un territorio definido
una serie de actividades que garanticen la mantención de la escuela, encontrando una
cocina comunitaria, huerta orgánica, hospedaje para estudiantes y una serie de
equipamientos físicos y personas que viven en ITEPA para garantizar su
funcionamiento permanente, así como también funciona como sede para encuentro
regionales, nacionales, congresos y actividades ligadas al MST y movimientos sociales.

El objetivo de este artículo es relatar la experiencia en la construcción participativa de


un diagnóstico participativo que sienta las bases para la planificación territorial y
espacial de ITEPA, el propósito es, en función a parámetros claros del uso del espacio
físico y social, evaluar el potencial como soporte para la incorporación del turismo de
base comunitario (TBC), así como la propuesta de fortalecimiento del área educacional.

32
Manifiesto del Foro Nacional de Educación de Campo, Agosto 2012.

221
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

La comprensión de los modos de vida locales, las dinámicas de uso de espacio y el uso
de tecnologías; nos dan como resultado una base sólida de datos, como herramienta que
es apropiada por la comunidad, para el desarrollo de propuestas de acción, la búsqueda
de auto-sustentabilidad social, ambiental, cultural, espacial y económica como ejes
fundamentales en el habitar territorial.

La metodología investigación - acción participativa (SEIXAS, 2005) encuentra en el uso


de técnicas como transecto, cartografía social, observación participante y talleres de
educación, una posibilidad de dialogo horizontal e intergeneracional, inter-cultural y
transdisciplinar entre el equipo de investigación y los habitantes del territorio.

MST Y TURISMO COMUNITARIO COMO ESPACIO DE RESISTÊNCIA

El MST como movimiento social campesino tiene en su historia una serie de formas
organizativas que desde sus inicios, se han adaptado y adaptan, a diferentes procesos
tanto internos como externos. De este modo, los procesos históricos los han llevado a
pasar desde ―la ocupación del latifundio, al asentamiento, producción de la tierra, y hoy
en día, trabajar por un fortalecimiento de los principios, valores y modos de vida‖
(Información verbal). Una búsqueda de la identidad cultural que puede ser entendida
con la definición del ―ciudadano sin tierra‖ de Pires:

[...] es algo más allá de la simple determinación de un sujeto que no


tiene tierra, territorio o casa. Es una especie de autoafirmación o auto
reconocimiento de un sujeto con cultura ideológica y política que se
auto determina como un ciudadano con postura y consciencia de su
papel de ―lucha‖ por su derecho usurpado. (PIRES, J. 2012. p. 04).

Nos hacemos parte como equipo, a poder aportar y contribuir en la lucha por romper
con la idea otorgada por los medios, que como hace notar Ademar Bogo, ―la elite busca
conservar el símbolo cultural peyorativo y prejuicioso, que es el ―Jeca Tatu‖ 33 para
hacer la lucha ideológica, omitiendo así el lado saludable de la cultura campesina, la

33
[Brasil] Designación dada a habitantes del interior do Brasil. = CABOCLO, CAIPIRA, JECA.
"jeca tatu", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-
2013, http://www.priberam.pt/dlpo/ [consultado em 30-07-2015].

222
convivencia pacífica con los vecinos, la práctica de los mutirões 34 , compartir las
herramientas, las fiestas folklóricas, la sabiduría popular sobre los movimientos de la
tierra, la música y el verdadero arte popular. Sombreros rotos, dientes podridos y botas
agujereadas – eso es basura cultural que no nos identifica.‖ (BOGO, A. 2009. p.14). En
respuesta a ello, El turismo de base comunitaria (TBC) viene siendo incorporado por
comunidades y organizaciones sociales como una estrategia de comunicación social que
muestra la riqueza de la ―comunidad‖, la conviencialidad y la cotidianeidad
(HENRÍQUEZ et al., 2010) asociadas a sus prácticas productivas, culturales que
encuentra en la defensa de territorios la continuidad de su existencia. Según Sampaio et
al., (2005)

el turismo comunitario se presenta como una estrategia de


supervivencia y comunicación social de conservación de modos de vida
y preservación de la biodiversidad, organizado asociativamente en
territorios, como acuerdos socio productivo y político de base
comunitaria, que se valen del consumo solidario de bienes y servicios‖
destacando además que: ―puede ser visto como una política afirmativa
en el sentido que privilegia poblaciones tradicionales, independiente del
grado de descaracterización (hibridismo), frente a la hegemonía de las
sociedades urbanas industriales, para que sean protagonistas de sus
modos de vida propios, haciéndose una alternativa posible al modo de
vida material-consumista‖ (SAMPAIO, C. LESAMA, M. ARAUJO, J.
MENDES, E. 2011. p. 24).

Así entonces, la incorporación del TBC surge como herramienta propicia en este
fortalecimiento, ya que es abordado como: ―un enfoque de desarrollo territorial, donde
el protagonismo es de las comunidades receptoras y no de los turistas‖ (información
verbal)35. Considerando una de las principales características del turismo comunitario,
que según Coriolano (2003 apud ZAMIGNAN, 2011, p. 34) es: ―la creación de
comunicación entre visitantes y visitados, habiendo interacción y respeto mutuo entre
turista y morador‖. Vamos al encuentro de los objetivos de la implantación del turismo
en el asentamiento, reforzado por uno de los representantes de ITEPA quien señala:

―Nuestro objetivo en cuanto al turismo no es económico, y si


ideológico. Pasar a la comunidad la visión de grupo, formar sujetos

34
[Brasil] Iniciativa colectiva para auxiliar a alguien, para ayuda mutua o para un servicio comunitario.
In "mutirão", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-
2013, http://www.priberam.pt/dlpo/ [consultado em 30-07-2015].
35
Relato de Adriana, representante del ITEPA, durante el II Colóquio Turismo e Comunidades, em 12 de
Abril de 2012.

223
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

críticos, problematizar, incentivar la organización social”.


(Información Verbal)36

El desafío de incorporar el TBC, se traduce en un ejercicio previo de gran magnitud,


que nos lleva a discutir desde las bases las estrategias ideológicas, sociales y espaciales
con las cuales se quiere rescatar y comunicar la tradición campesina de este territorio.
Ese trabajo previo, se trató de generar una visión interna de ITEPA, por medio de un
abordaje metodológico, que esperamos sean cimientos fuertes que puedan sustentar en
el largo plazo, la externalización de las ideas político-sociales del movimiento, un
espacio de resistencia campesina que se abre camino.

LUGAR: CARACTERIZACIÓN GEOGRÁFICA

El Instituto de Investigación para la Reforma Agraria (ITEPA, por sus siglas en


portugués) comprende un área de aproximadamente 103 hectáreas, siendo parte de una
dinámica territorial mayor, ITEPA es parte del Asentamiento Antonio Compañero
Tavares (AACT). Está situado en el municipio de San Miguel de Iguassu, región oeste
del estado de Paraná, en la micro región de Foz de Iguassu. (
Figura 1).

Figura 1 - Ubicación del municipio de San Miguel de Iguazú, Estado de Paraná

Fuente: Google Imagens, Octubre de 2012.

36
Relato de Jairo, representante de ITEPA, durante el II Colóquio Turismo e Comunidades, em 12 de
Abril de 2012.

224
El proceso de ocupación del área denominada Hacienda Mitakoré, con 1.098 hectáreas,
ocurrió en la segunda mitad de la década de 1990 por centenares de trabajadores rurales.
En el año 2012, 82 familias vivían en el asentamiento, teniendo la agricultura
tradicional, la pecuaria y la agroecología como actividad económica familiar de
subsistencia y renta, con un área promedio de 10 hectáreas por familia. El área de
ITEPA se encuentra en el borde de la carretera que une Foz de Iguazu con la capital del
estado Curitiba, en el extremo inferior derecho de la figura 2 muestra lo que
antiguamente era la sede de la hacienda. En el mismo espacio físico, coexiste la Escuela
José Gomes da Silva y la Cooperativa de Industrialización y comercialización
campesina (COOPERCAM). El área de estudio fue delimitado en 7,3 hectárea, tomando
como parámetro de definición y caracterización geográfica, las actividades que son
llevadas a cabo para mantener a ITEPA como núcleo autónomo en la generación de
renta y espacio de educación (fig.3)

Figura 2 - Mapa ilustrado de Cartografía Social del AACT

Fuente: Cartilha da Cartografia Social dos Trabalhadores


Rurais Sem-Terra do AACT, 2011.

225
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 3 - Delimitación área de estudio

Fuente: Google Earth, Junio de 2012.

METODOLOGÍA DE TRABAJO

La metodología llevada a cabo incorpora la convivencialidad y cotidianidad como


condición para la recolección de datos, así son realizadas una serie de actividades con la
comunidad, alineando los conocimientos científicos y técnicos del equipo, junto con los
saberes tradicionales y las percepciones de los habitantes por medio de una metodología
de investigación-acción-participante, la cual busca la sustentabilidad en el uso de
recursos, el empoderamiento de las comunidades locales y la valorización del
conocimiento local (CHAMBERS, 1991 y 1994a, en SEIXAS, 2005). La participación
debe ser entendida como un proceso continuo de democratización y construcción, así,
intentamos entender las relaciones entre ―el todo‖ y ―las partes‖ para una comprensión
compleja de las cuestiones socio-ambientales, a través de actividades realizadas, por

226
medio de un abordaje participativo, buscando reforzar la responsabilidad y el
compromiso de los actores envueltos en las problemáticas del espacio.
Las actividades son realizadas por etapas, las cuales envuelven a todos los moradores en
sus respectivas funciones, vale decir: coordinación pedagógica, estudiantes, educadores
y trabajadores. Considerando que se trata de un trabajo dinámico y flexible, las mismas
fueron realizadas en función de los tiempos de los moradores, es decir, el equipo de
trabajo no intervino las dinámicas sociales para poder realizar actividades, sino por el
contrario, estas fueron realizadas en los marcos por ellos propuestos para dichas
funciones. El desarrollo del trabajo se llevó a cabo en tres etapas, siendo la primera el
resultado de un diagnóstico previo y general de la situación actual de ITEPA, dando pie
para la segunda etapa, la cual fue el proceso de tomada de decisiones, como demandas
prioritarias a ser abordadas y finalmente, teniendo acotadas las líneas generales de
trabajo, la tercera etapa corresponde a la validación y complementación de las
informaciones ya colectadas, teniendo así un diagnostico confiable.

ACTIVIDADES REALIZADAS

PRIMERA ETAPA: REUNIÓN CON EQUIPO DE COORDINACIÓN


PEDAGÓGICA

La coordinación pedagógica de ITEPA es el organismo por el cual la ITCP generó los


primeros vínculos de trabajo, se realizaron una serie de reuniones con el equipo de
coordinación, el objetivo de estas reuniones era el de nivelar informaciones, tener un
primer panorama general del territorio, así como las primeras demandas y posibles
soluciones a priori. Estas reuniones además cumplieron la función de establecer un
orden y un cronograma de actividades y fue la plataforma para que en el transcurso de
las actividades, se fuese debatiendo el estado del proyecto, así como fortalecer los lazos
sociales.

227
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 4 - Reunión equipo de trabajo y coordinación ITEPA

Fuente: Rodrigo Cuevas.

Transecto del territorio, reconocimiento y estudio del lugar

Un transecto se basa en la recolección de informaciones durante caminatas de


reconocimiento de un área, mediante observaciones sistemáticas sobre la biodiversidad,
la actividad humana existente, el uso y la relación sociedad-naturaleza encontrada.
(SEIXAS, 2005 en FREIRE et al. 2005). Es realizada por los mismos habitantes y va
acompañada de una descripción de los espacios en la medida que se va caminando, así
como se relata la historia de los mismos, entendiendo los cambios que han sufrido en el
tiempo, en ese sentido se entiende el contexto histórico actual, el pasado y el fututo
imaginado.

Se realizó una caminata por todo el territorio de ITEPA, comprendiendo el


emplazamiento físico y la distribución de espacios (construidos, productivos y
naturales), el transecto fue realizado posterior a la primera reunión con el equipo de
coordinación, donde participó el equipo de investigación y un morador de ITEPA, quien
trabaja en la huerta y tiene un conocimiento pleno del funcionamiento e interacción
entre las distintas actividades envueltas en el territorio, los datos fueron obtenidos por
medio de la oralidad, así como fue realizado un primer levantamiento fotográfico.

228
Talleres de cartografía social

El equipo de trabajo apuesta por entender el territorio desde una reflexión crítica que
nos pueda dar un panorama general dentro del imaginario colectivo de los moradores, es
así como la cartografía social surge como herramienta metodológica en los
procedimientos de obtención de datos sobre el trazado del territorio, para su posterior
representación técnica y artística, y los mapas, como uno de los sistemas predominantes
de comunicación de ésta (HABEGGER, S. MANCILA, I.2006), la elaboración de
mapas tiene por objetivo un reconocimiento de los objetos materiales y observables,
considerados necesarios por las poblaciones en las decisiones sobre su territorio
(JOLIVEAU, T. 2008), es entonces en la elaboración participativa de los mapas, que se
legitiman gráficamente los discursos subjetivos, buscando una pertinencia local en el
producto final.

Se realizaron talleres de cartografía social con los estudiantes de enseñanza media de


ITEPA, un total de 18 estudiantes entre 16 y 19 años, con 15 hombres y 4 mujeres, con
los cuales se construyó un primer mapa general del territorio, definiendo limites e hitos
que permiten identificar y caracterizar el territorio como un espacio particular y propio,
una vez que se obtiene una base de trabajo (primer mapa), se realizaron módulos
específicos de mapas, los que posteriormente fueron presentados y debatidos en
conjunto, entre el equipo de trabajo y los estudiantes, se describen espacios, se cuenta su
historia, dinámicas de usos, observaciones, percepciones y miradas a futuro,
potencialidades y falencias

229
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 5 - Talleres de cartografía social junto a los estudiantes del curso de


agroecología

Fuente: Rodrigo Cuevas

- Mapa Geográfico, Población – naturaliza

Tuvo por objetivo, la identificación de los elementos naturales que dan identidad local,
el grado de biodiversidad, conservación y la importancia social, los tipos de uso
asociados dichos espacios, aparecen gráficamente también los asentamientos humanos y
la relación con su contexto natural, áreas verdes, espacios contaminados, infraestructura
que es utilizada e infraestructura abandonada.

- Mapa de infraestructura y usos, Económico – Administrativo

Tuvo por objetivo poder visualizar el espacio habitado, diferenciando las actividades,
sociales, y económicas, aparece la infraestructura asociada a los mismos, diversidad y
distribución programática de lo construido, equipamiento, servicios, habitación,
administración etc. áreas de producción, recursos humanos, naturales y materiales, así
como aparecen también el nivel de uso de los lugares y espacios, si es frecuente, medio
o nulo, estado de conservación, puntos fuertes y débiles.

230
- Mapa Social, Histórico-Cultural

En este mapa buscó identificar los elementos que construyen identidad local, elementos
con carga social, histórica, que en definitiva, son los espacios que particularizan, por
medio de su uso, (de los moradores y para los moradores) el territorio, pudiendo así
definir a ITEPA como un territorio particular, en este sentido se trabaja con preguntas
que apuntan a descubrir si los relatos, historias y acontecimientos tienen espacio físico,
sea natural, construido o intuitivo, surgen espacios de encuentro, convivencialidad, ocio,
alimentación, educación, juegos; espacios de uso colectivo e individual, espacios
dinámicos, jóvenes y más viejos.

Figura 6 - Confección de los mapas

Fuente: Rodrigo Cuevas.

Observación participante

Durante el periodo de recolección de informaciones, se acompañó y trabajó en las


distintas actividades desarrolladas por los moradores de ITEPA, siendo estas: la huerta,
cocina comunitaria, pecuaria, ciranda, coordinación pedagógica y en la distribución de
alimentos junto a COOPERCAM. El quipo participó en la ejecución de las tareas,
registrando las informaciones pertinentes a los procesos de las actividades
desarrolladas, sea por medio del relato, sea a través de conclusiones propias de las
dificultades o potencialidades durante la permanencia, esto permitió que se generara un
vínculo, así como un dialogo directo que busca recolectar no solo información

231
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

específica, como condiciones e infraestructura de trabajo, sino también las percepciones


y subjetividades en relación al territorio y su estado, ideas y posibles soluciones, que
son levantadas por los mismos moradores.

Figura 7 - Germano, trabajador de pecuaria

Fuente: Rodrigo Cuevas.

SEGUNDA ETAPA

Corresponde al proceso de toma de decisiones, identificando de esta forma, las


demandas prioritarias previas a la introducción del TBC, para poder garantizar la
efectividad y sustentabilidad de esta en el tiempo. Se realizó un encuentro de tres días,
en donde se reunió el equipo de investigación (ITCP-UFPR/ INDIOS-UNIOESTE),
colaboradores y los representantes de ITEPA. Las informaciones presentadas fueron
analizadas y discutidas en conjunto, siendo definidas las prioridades para la adecuación
de las instalaciones. Los criterios de definición buscaron y consideraron los problemas
existentes en lo inmediato, de esa forma se posibilitó una planificación en el tiempo que
incluye el desarrollo de acciones que apunten el mejoramiento a corto, mediano y largo
plazo, promoviendo las potencialidades del lugar según distintas variables, tales como el
tiempo, gestión de recursos, mano de obra, equipo técnico, grado de dificultad, etc.
Como resultado de esta segunda etapa, fue elaborado un cuadro de síntesis, validado
tanto por representantes de ITEPA como de la ITCP.

232
Figura 8 - Reunión equipo de ITEPA, ITCP, INDIOS

Fuente: Rodrigo Cuevas.

- Levantamiento planimétrico

Realizado ente el 25 de julio y el 7 de agosto de 2012, dentro de la segunda etapa, con el


objetivo de abastecer las informaciones necesarias en el área central de ITEPA. La
necesidad de realizar este levantamiento surgió en la primera fase de diagnóstico, con el
objetivo de posibilitar la planificación en el futuro de la readecuación de la red
hidráulica, problemas de escurrimiento, cajas de agua, distancias etc.

Figura 9 - Estudiantes de Cartografía UFPR, realizando levantamiento altimétrico de


ITEPA

Fuente: Rodrigo Cuevas.

233
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

TERCERA ETAPA

- Validación de las informaciones

La tercera etapa, consistió en la revisión, validación y complementación de las


informaciones generadas anteriormente, basándose en las demandas consideradas
prioritarias. Son incluidas en esta etapa nuevas informaciones, las cuales tuvieron
especial énfasis en la gestión de los recursos hídricos, de los residuos, el uso de las áreas
verdes, temas que fueron considerados de vital importancia, por lo cual el análisis fue
más profundo, fueron colectadas las informaciones mediante una serie de actividades
con la comunidad, vivencia en el asentamiento de uno de los miembros del equipo de
investigación, siendo parte de la rutina diaria, pudiendo de este modo, ver las
dificultades de lo cotidiano. Realizando además reuniones y actividades descritas a
seguir.

- Taller de planificación y legislación ambiental

Se realizaron discusiones con los estudiantes, sobre las principales definiciones


presentes en el código forestal y principalmente las diferencias entre área de
preservación permanente (APP) y reserva legal (RL), lo que es y no es permitido en
estas (utilidad pública, interés social, actividades de bajo impacto), y las diferencias de
manejo en pequeñas y grandes propiedades previstas en ley. Saber interpretar y elaborar
un mapa/croquis de la propiedad y así, subsidiar la planificación del espacio atendiendo
a la legislación, buscando que los bosques traigan otros beneficios directos e indirectos
además de las funciones ecológicas.
Fueron abordado los conceptos de recursos naturales, biodiversidad, diferencia entre
conservación y preservación, importancia de la conexión de fragmentos forestales a
través de corredores biológicos para la dispersión y flujo de flora y fauna, abordando
brevemente conceptos de micro cuencas hidrográfica y tipologías forestales.
Como ejercicio práctico, sobre los mapas elaborados, fueron realizadas propuestas de
recomposición de la RL y posibles usos como sendero, pomar de frutas, agro floresta,
etc. Fue propuesto un sendero que pase por el bosque, agro floresta, área de agricultura,
humedal, marcando puntos para la interpretación de los espacios, recursos naturales,

234
historia del lugar, MST.
Figura 10 - Resultado de los talleres de planificación

Fuente: Estudiantes y moradores de ITEPA.

- Taller de impactos ambientales

Se realizaron clases con los estudiantes en donde fueron abordados conceptos y


actividades en relación a impactos ambientales. Fueron discutidos conceptos de
desarrollo sustentable, las necesidades del presente y la proyección al futuro, capacidad
de carga del planeta y huella ecológica, entrando de este modo en la discusión en el
impacto ambiental humano. A través de estos conceptos, se reflexionó sobre las
actividades rutinarias, y se identificaron ejemplos de impactos acumulativos, directos,
indirectos, positivos y negativos. Así, se realizó un levantamiento de los aspectos e

235
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

impactos de las actividades desenvueltas en ITEPA. Cocina comunitaria, panadería,


alojamiento, etc.

- Taller de Residuos

Fue realizado en dos partes, la primera comprendió un abordaje teórico sobre el manejo
de los residuos y sus impactos, se realizó un recorrido por los lugares donde se
encuentra acumulada la basura y se generó un debate sobre la posibilidad de
reaprovechamiento de materiales sólidos y de un taller de reciclaje, así mismo, la
sensibilización de los estudiantes en relación a los hábitos de consumo y cambios de
actitud frente a la basura producida por ellos mismos. La segunda parte, se realizó una
actividad práctica de reaprovechamiento de los residuos en artesanía y otros artefactos
útiles, involucrando también algunos moradores que tuvieron disponibilidad de
participar.

RESULTADOS OBTENIDOS

MAPAS Y DIAGNOSTICO GENERAL

Una vez terminado el proceso de obtención de datos, el trabajo de diagnóstico concluye


con la representación gráfica, por medio de mapas elaborados por el equipo de trabajo,
seguidos de la descripción, análisis y recomendaciones de orden práctico/operacional.
Estos cuadros y mapas, tienen relación a las grandes áreas con las cuales se abordó el
estudio en las descripciones anteriores. En el presente artículo se hará una descripción
general de cada mapa elaborado

236
Figura 11 - Mapa de uso social. Identificación de espacios de uso común, semi-común,
individual y se mi-individual

Elaboración. Rodrigo Cuevas. Elaboración: Equipo de trabajo.

Figura 12 - Mapa de áreas verdes. Describe los espacios verdes que cumplen funciones
tanto ecológicas, de producción y ocio, a modo de tener un entendimiento de los
elementos que componen el paisaje. Fueron identificadas en el mapa de áreas verdes el
Bosque nativo, Bosque plantado, áreas de recuperación y bosque de producción.

Elaboración: Equipo de trabajo.

237
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 13 - Mapa infraestructura. Tiene relación con la organización de ITEPA y son


clasificados de acuerdo al su uso actual: Habitación, servicios, producción,
equipamiento, administración, multiuso e instalaciones deshabitadas. Así también, mapa
con las áreas de producción y mapa que muestra la gestión de los residuos.

Elaboración. Equipo de trabajo.

238
Figura 14 - Mapa áreas destinadas a producción. Corresponde a las superficies
consideradas en la producción de alimentos. Se divide en Uso total, uso parcial y áreas
no utilizadas. Cabe señalar que la gran cantidad de territorio no utilizado se debe a la
falta de mano de obra

Elaboración. Equipo de trabajo.

ANÁLISIS ESPACIAL Y REVITALIZACIÓN TERRITORIAL

Una vez realizado la recolección de información cualitativa y cuantitativa, el territorio


es analizado desde una perspectiva espacial, a fin de poder observar las características
que nos puedan dar una nueva perspectiva del mismo para definir una estrategia
apropiada de revitalización. Así nos encontramos con que ITEPA se constituye de dos
grandes sub-áreas, interconectadas y diferenciadas tanto en su extensión como en la
función específica que aporta a la lectura de la totalidad.

239
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Encontramos una primera gran área que se constituye como el soporte Económico-
Social, es decir, en este espacio es la fuente de producción y reproducción del trabajo, la
que genera recursos para la venta y manutención del territorio y las familias que
sustentan la escuela. Se encuentra en esta área el Pomar y producción de frutas cítricas
para consumo y venta; agrofloresta con producción también de diversas variedades de
frutas; pecuaria y producción de carne y leche; lacticinio, que si bien no estaba en
funcionamiento al momento del estudio, contaba con equipamiento e infraestructura
para la producción de derivados de la leche; huerta comunitaria, abastece de alimento a
la cocina comunitaria; gallinero; y el bosque, este último tiene un valor de área verde de
conservación.

Figura 15 - Mapa soporte economico-social

Elaboración. Rodrigo cuevas.

240
Como mencionamos anteriormente, el asentamiento campesino ACCT y la escuela
ITEPA, se sitúan en lo que antiguamente era una hacienda de producción de soya, y es
en su parte central donde antiguamente funcionaban las oficinas, galpones y viviendas
de la hacienda; que hoy, han sido re apropiadas y re significadas por los campesinos.
En esta área de carácter industrial, se encuentran la mayor parte de los programas que
dan visibilidad, o donde se vuelca la orgánica del territorio. Se encuentra el área de
educación, salas de clases e internado de los estudiantes, coordinación pedagógica, la
sede de la Cooperativa de comercialización, la administración del asentamiento; Así
mismo, suceden dentro de esta sub área, los principales espacios de sociabilización y
ocio. Es por lo tanto, el soporte Físico-Social del asentamiento.

Figura 16 - Mapa soporte Fisico-Social

Elaboración. Rodrigo cuevas.

241
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Fueron discutidas entre todos los actores envueltos en la toma de decisiones,


académicos y la organización, las posibles estrategias de abordaje de los objetivos
propuestos. El análisis concluye que hoy en día ITEPA se encuentra en una fase
prematura para poder alcanzar la meta de incorporar el TBC, debido a la precariedad y
la falta de mantención que muchos de sus recintos presentaban, necesarios para poder
ofrecer al visitante una buena permanencia durante su visita. Es por lo mismo y en
función de los resultados obtenidos, que se hace necesario generar una propuesta de
revitalización territorial, a fin de poder dinamizar en su totalidad el territorio,
envolviendo términos ambientales, sociales, económicos, culturales, productivos, que
van siendo relacionados unos con otros. Apostamos a una intervención paulatina,
aunque sólida, que pueda utilizar los pocos recursos humanos y financieros de la mejor
forma posible.

Conceptualmente, la propuesta toma forma de red, un tejido que está compuesto por
cada uno de los lugares que tiene sentido particular, y que definen la identidad propia
del habitar campesino en ITEPA. Así, proponemos por medio de acciones que serán
llevadas a cabo en áreas específicas, provocar una sinergia que vincule y envuelva su
totalidad.

242
Figura 17 - Mapa final, propuesta de revitalización territorial

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

En términos prácticos, focalizar los primeros esfuerzos en la gestión de agua, red


eléctrica, residuos, mejoramiento de equipamiento en el hospedaje y en definir una
capacidad de carga de visitantes es fundamental. Mejorar los canales de diálogo y la
toma de decisiones, así como generar un plan de labores rotativas, son algunas
propuestas que surgen para mejorar las relaciones sociales.

En términos de equipamiento e infraestructura, se hace necesario un fortalecimiento del


área educacional, puesto que es la escuela el principal motor, no sólo del asentamiento,
sino como herramienta que, a mediano plazo, la construcción de una ciranda –jardín
para niños-, mejoramientos de espacios públicos, restauración de áreas verdes,

243
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

realización de un sendero que recorra ITEPA, mejorar sistema de saneamiento,


mejoramientos de la producción, y alfabetización de campesinos son propuestas viables.

Se propone de igual forma, realizar talleres abiertos a la comunidad, de esta forma se


comienza a trabajar con el turismo, educación y vivencialidad, aprovechando mano de
obra consiente en los proyectos de mediano y largo plazo. Es propuesto comenzar a
realizar gestiones con instituciones de educación superior.

FORTALECIMIENTO DE LA EDUCACIÓN

Propuesta proyecto: ciranda, nueva escuela rural campesina.


El movimiento de los trabajadores Rurales Sin Tierra, MST, fue creado formalmente en
el primer encuentro nacional de Trabajadores Sin tierra, que aconteció desde el 21 al 24
de Enero de 1984, en Cascavel, estado de Paraná (SALETE, R. 2003. P.51). Desde su
formación, se han construido en un nuevo proyecto de sociedad campesina, en donde la
educación de campo se constituye como un pilar fundamental como herramienta
pedagógica de consolidación, pues como dice Salete (2003. P 52) ―el principio
educativo principal de esta pedagogía es el propio movimiento, movimiento que junta
diversas pedagogías, y de modo especial, junta la pedagogía de la lucha social con la
pedagogía de la tierra y la pedagogía de la historia, cada una ayudando a producir trazos
en nuestra identidad, mística, proyectos‖, y continua: ―Sin tierra es el nombre de
luchador de pueblo que tiene raíces en la tierra, tierra de conquista, de cultivo, de afecto,
y del movimiento de la historia‖.

Uno de los principales resultados obtenidos a partir de la elaboración del diagnóstico,


fue la necesidad de mejorar la infraestructura educacional. Desde esa perspectiva, se
trabajó durante el año 2013 en un proyecto de arquitectura37, que busca responder a las
diversas dimensiones que involucran el concepto de educación de campo en el MST.
Debido a que el MST es un movimiento que está en constante peregrinar en términos
geográficos, y que por abarcar todo el territorio de Brasil, se sitúa en diversos contextos
climáticos, geográficos, culturales, etc. su identidad y cohesión está determinada tanto

37
Proyecto que fue desarrollado en Chile durante el año 2013. Presentado para la obtención del título de
Arquitecto por la Universidad Austral de Chile.

244
por factores ideológicos socialmente, como por la apropiación y modificación de los
espacios ocupados en términos espaciales, así, la construcción social - educativa de
movimiento, el sentido de pertenencia, la adecuación al contexto inmediato y clima,
fueron las directrices que nos llevan a pensar en una proyecto que sea propio.

No se tiene por objetivo en el presente artículo detallar el trabajo, sino más bien dar a
conocer la estrategia utilizada y los resultados obtenidos, como muestra de la riqueza de
información que otorga la investigación-acción participante como metodología.

Asi entonces y teniendo el trabajo desarrollado con anterioridad como base, se


profundizó el estudio en términos de analisis espacial del soporte Fisico-social, asi
como el identificar los elelemntos que otorgan identidad a los habitantes y estudiantes
de ITEPA.

Figura 18 - Mapa área central de ITEPA

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

245
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

- Análisis programático

Se identifican todos los recintos que hacen parte de la orgánica del establecimiento, y se
da cuenta que no existe una relación entre los mismos. De esta forma tanto los
estudiantes como los profesores, niños, jóvenes y adultos, no se consiguen convocar y
poder encontrar en un espacio que los pueda reconocer en un conjunto con identidad
propia; esto se debe en gran medida a que ITEPA, por ser un lugar con infraestructura
industrial que fue apropiado por los campesinos, no cuenta con recintos que cumplan
estándares para poder desarrollar adecuadamente actividades educativas, tanto en
iluminación, ventilación, circulación, recreación, etc.

Figura 19 - Mapa área central de ITEPA

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

Así entonces se resumen las siguientes problemáticas identificadas utilizando la figura


20 que nos da cuenta de esta problemática.

246
Figura 20 - Problemáticas espaciales

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

Se plantea la necesidad de generar un nuevo espacio educativo dentro del Asentamiento,


que sea una alternativa a la problemática espacial identifidada. Así se presenta una
nueva posibilidad de contruir educación desde un objeto arquitectónico que represente
los conceptos tanto educativos, como los imaginarios asociados a la identidad
campesina.

Figura 21 - Estrategia y propuesta conceptual del proyecto

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

LA EDUCACIÓN EN EL MST, LAS CIRANDAS COMO CONCEPTO


DINÁMICO Y DE EDUCACIÓN EMANCIPADORA

Al buscar una forma que pueda otorgar sentido de identidad, así como la intensión que
el proyecto de arquitectura vaya más allá de cubrir la demanda de infraestructura, se
debe pensar esta última como un objeto que tenga un habitar dinámico y sea un lugar en
donde se refleje la cultura campesina.

247
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Desde la perspectiva de educación emancipadora, los niños más pequeños son la base de
toda la educación, es en ellos que se reflejan y se vuelcan las prácticas y modos de vida.
Se ve a los niños y niñas, como nos señala Edna Rosseto (2010, p 106): sujeto de
derechos con valores, imaginación, fantasía, vinculada a las vivencias de lo cotidiano,
las relaciones de género, la cooperación, la crítica y la autonomía (…)‖, así entonces, las
cirandas como concepto educativo, son definidos como ―espacios educativos
intencionalmente planificado, en los cuales los niños/as aprenden en movimiento, a
ocupar su lugar en la organización de la que son parte, y mucho más que espacios
físicos, son espacios de intercambios, aprendizajes y vivencias colectivas (Rosseto, E.
2010, p 106).

PROPUESTA DE ARQUITECTURA

El proyecto surge como la representación de la dinámica y el permanente juego circular


de los niños. En términos de emplazamiento recuperar un área verde con un volumen
que haga frente a los galpones, consolidando el borde y definiendo la plaza centrar
como punto ordenador del lugar (Fig 22).

Figura 22 - Propuesta emplazamiento proyecto. Definición del soporte físico-social

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

248
Su interior abre a los programas y genera un dialogo entre los diversos niveles
educativos, representados por diferentes volúmenes que guardan un programa
específico, a saber: Sala de clases, jardín infantil (Ciranda), sala cuna, coordinación
pedagógica, biblioteca y baños. El centro de la ronda como el espacio de formación
social que está en permanente movimiento y es lo contenido en la ronda, lo que le da el
valor y sentido de pertenencia.

Figura 23 - Esquema proyecto de arquitectura

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

Figura 24 - Esquema proyecto de arquitectura

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

249
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A continuación, las figuras presentadas corresponden a alguno de los productos


entregados a la comunidad como parte del proceso final de cierre del proyecto. Cabe
señalar que la propuesta de arquitectura tiene la intención de no sólo cumplir y acoger
funciones educativas, sino también generar un espacio de encuentro y convivencia
cotidiana para todas y todos los moradores del asentamiento. Los recintos interiores son
modulares, a modo de ser dinámicos en sus usos, fueron considerados también variables
climáticas, de costos, manos de obra, materiales locales y construcción tradicional, de
esta forma se considera que pueda ser llevado adelante desde la organización y
autogestión.

Figura 25 - Plano emplazamiento proyecto: Ciranda, centro de educación campesina.

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

250
Figura 26 - Plantas de Arquitectura

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

Figura 27 - Plantas de Arquitectura

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

251
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 28 - Imágenes 3d proyecto

Elaboración: Rodrigo Cuevas.

REFLEXIONES FINALES

El MST como movimiento social (al igual que muchos otros) ha transitado y ha
madurado en el tiempo. La lucha por la recuperación de la tierra, que es su base
medular, con el paso del tiempo ha ido cobrando mayor densidad en términos de abarcar
diversas dimensiones de lo humano, en una constante construcción de identidad
campesina, ideológica y militante; que se sustenta en la relación que construyen con un
determinado territorio y su habitar. Así, se pasa desde una recuperación de tierra, a una
disputa por el territorio, es decir, en el caso de estudio, la cultura Sin Tierra.

Esta construcción de identidad, se sustenta tanto en una serie de prácticas sociales,


rituales, como elementos materiales y espaciales que son re-significados y cobran
importancia en la construcción de un relato histórico. La metodología de acción-
participativa surge como una herramienta alternativa para el estudio cualitativo y
cuantitativo de un territorio, siendo la cartografías socio territorial y los mapas de
representación, elementos capaces de abordar y entregar una infinidad de información
en diversas escalas y dimensiones. El ejercicio de identificar elementos que otorgan
identidad junto a las mismas comunidades, dan cuenta que es una herramienta que
posibilita desde las ambas partes una nueva lectura del espacio geográfico en diversas

252
dimensiones que construyen su identidad, fortaleciendo al mismo tiempo el sentido de
pertenencia al lugar y dando pie a una mejor estrategia para el uso del mismo.

Cuando el equipo de trabajo hizo el primer abordaje junto a la coordinación pedagógica


de ITEPA el 2012, las primeras sugerencias por parte de los moradores para mejorar el
territorio, consistían en abarcar líneas de producción e incluso, adecuación de
infraestructura para fines deportivos. Posterior a la lectura conjunta de los resultados y
viendo las reales capacidades del conjunto y recurso humano y en miras a la
incorporación del TBC, las prioridades son re direccionadas hacia nuevos objetivos.

Así, las principales líneas de trabajo están dirigidas a contribuir en la mejora de la


calidad de vida de la comunidad local y quienes sean los futuros visitantes, por medio
de vivencias que sean una reflexión sobre las relaciones sociales, ambientales y
culturales. Contribuir en la construcción y fortalecimiento de las teorías y prácticas
pedagógicas. Dar mayor acceso a la cultura y dimensión artística como parte del
proceso de vivencia. Posibilitar tecnologías sociales bajo formas de organización del
espacio geográfico del asentamiento y comunidades campesinas. Promover la
integración de los diferentes conocimientos y niveles de educación. Elevar la
comprensión de los procesos económicos de la clase trabajadora en sus relaciones con el
mercado y la valorización del conocimiento local. Finalmente proporcionar condiciones
para que los militantes y los visitantes, a través del análisis y las discusiones, adquieran
los conocimientos conceptuales e instrumentales para poder elaborar acciones de mejora
de manera consciente, crítica y creativa durante su vida en el asentamiento.

Desde esta perspectiva, se busca posicionar el Turismo de Base Comunitario como una
estrategia de mejora en la calidad de vida de los habitantes de un determinado territorio,
que ven al mismo tiempo en ella una estrategia de resistencia y comunicación social,
cuyo objetivo tiene por un lado mostrar a la sociedad lo que realmente comprende el
movimiento campesino y romper con la idea otorgada por los medios hegemónicos,
ampliando, fortaleciendo y reafirmando la identidad, el territorio y los modos de vida
locales; y por otro lado, ser incorporada como una nueva fuente de ingreso
complementaria (no única) para las familias y habitantes de ITEPA.

253
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

REFERENCIAS

BOGO, Ademar. O MST e a cultura. Terceira edição, Movimento dos trabalhadores


rurais Sem Terra. 2009.

BOWEN, S. Fábrega, F. & Medel, R. Movimientos sociales rurales y problemática


medioambiental: La disputa por la territorialidad. Psicoperspectivas, 11 (1), 204-225.
2012. Recuperado desde http://www.psicoperspectivas.cl

HABEGGER, S. MANCILA, I. El poder de la cartografia social en las practicas


contrahegemonicas o la cartografía social como estrategia para diagnositcar nuestro
território, 2006.

HENRÍQUEZ, C; ZECHNER, T; SAMPAIO, C. Turismo y sus interacciones en las


transformaciones del espacio rural. Revista Ciencias Sociales. Universidad Austral de
Chile 18: 21-31 2010.

MAYORGA, A. DEL VALLE, C. NITRIHUAL,L. (2009) ―Movimentos sociales em


America Latina. Reflexiones en torno a la (des)obediência de uma tradicion
(des)bordada por la gubernamentalidad‖, en Revista Encrucijadas. Dialogos y
perspectivas, Numero 3, Febrero, Centro de Investigaciones Postdoctorales (CIPOST)
de la Facultad de Ciencias Economicas y sociales, Universidad Central de Venezuela
(UCV). Pp 167-184.

PIRES, J.H.S.; Beruski, P. Descobrindo a Base, Hosptalidade e Cultura Sem Terra. In:
Congresso latino americano de investigação turística, 5.,2012, São Paulo. USP, 2012. 1
CD-ROOM.

ROSSETO, Edna. A educacao das criancas pequenhas nas cirandas infantis do MST.
Revista Múltiplas Leituras, v. 3, n. 1, p. 103-118, jan. jun. 2010.

SAMPAIO, Carlos. LESAMA, Manoel. ARAUJO, Jussara. MENDES, Egardo.


Perspectiva do turismo comunitário, solidário e sustentável. in. SAMPAIO, C.
HENRIQUEZ, Ch. MANSUR, C. Org. Turismo comunitário, solidário e sustentável. Da
critica as ideias e das ideias a pratica. EDIFURB. Blumenau 2011.

SEIXAS, Cristina. Abordagens e técnicas de pesquisa participativa em gestão de


recursos naturais. In. Freire, P. Fikret, B. SEIXAS, C. Gestão integrada e participativa
de recursos naturais: conceitos, métodos e experiências. Florianopolis: Secco/APED,
2005.

SALETE, Roseli. MOVIMENTO SEM TERRA:lições de Pedagogia. Currículo sem


Fronteiras, v.3, n.1, pp. 50-59, Jan/Jun 2003.

254
DA CASA AO MANGUE: O USO E APROPRIAÇÃO DO ESPAÇO EM
COMUNIDADES TRADICIONAIS NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL

DE LA CASA AL MANGLAR: USO Y APROPIACIÓN DEL ESPACIO EN


COMUNIDADES TRADICIONALES EM EL COSTA SERGIPE, BRAZIL

Rodrigo Herles dos Santos


Doutor em Geografia/UFS. E-mail: rherlles@hotmail.com

Angela Fagna Gomes de Souza


Professora do curso de Geografia da UFAL/Campus do Sertão.
E-mail: angelafagna@hotmail.com

Resumo: O presente artigo aborda as diferentes formas e estratégias da apropriação


espacial exercida pelos sujeitos sociais nas comunidades tradicionais do Litoral
Sergipano. Aborda, portanto, cenas e cenários dos primeiros momentos da vivência do
sujeito, que consagram a casa e o quintal como espaços e territórios da vida, passando
pela rua e os espaços de socialização até, os espaços do trabalho, incluindo as formas de
uso, controle e apropriação dos diversificados ambientes que compõem o cenário
litorâneo sergipano. Para tanto, foi realizado um processo de investigação qualitativa,
adotando instrumentos e procedimentos para captar as diversas representações que os
sujeitos fazem de sua relação com os espaços e ambientes de vivência. Em especial,
foram realizadas oficinas temáticas nas comunidades de Terra Caída – Indiaroba/SE;
Pedreiras - São Cristóvão/SE e Tigre e Junça – Pacatuba/SE, utilizamos a produção de
representação gráfica, a elaboração de textos e a produção fotográfica como
instrumentos para que os sujeitos se expressassem. O material foi analisado para
identificar os elementos de apropriação do espaço referenciado pelos sujeitos sociais. Os
resultados apontam para a compreensão de processos de apropriação que vão se
alterando ao longo das etapas da vida dos sujeitos e que variam também segundo as
condições paisagísticas dos lugares/territórios que estão inseridos e fundamentalmente
estão circunscritos e diretamente ligados à própria dinâmica sociocultural que lhes são
inerentes.

Palavras chave: Litoral Sergipano. Comunidade Tradicional. Sujeitos sociais.


Apropriação espacial

Resumen: Este artículo analiza las diferentes formas y estrategias de apropiación


espacial ejercidas por los sujetos sociales en las comunidades tradicionales de la costa
de Sergipe. Entre los primeros momentos de la experiencia del sujeto en la fase de la
niñez que consagra la casa y el jardín como locales y territorios de la vida, caminando
por las calles y espacios de socialización a los espacios de trabajo, incluidas las formas
de uso, control y apropiación de diversos ambientes que conforman el entorno costero
Sergipe. Para ello, se llevó a cabo un proceso de investigación cualitativa, con la
adopción de instrumentos y procedimientos para capturar las diferentes representaciones
que los individuos hacen de su relación con los espacios y ambientes de vida. En
particular, se realizaron talleres temáticos en las comunidades de Terra Caída –
Indiaroba/SE; Pedreiras - São Cristóvão/SE e Tigre e Junça – Pacatuba/SE, se utilizó la

255
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

representación gráfica de la producción, la preparación de los textos y la producción


fotográfica como instrumentos para permitir a los individuos a expresarse. El material
fue analizado tratando de identificar la apropiación de elementos del espacio
referenciados por los sujetos sociales. Los resultados de esta investigación apuntan a la
comprensión de los procesos de apropiación que se cambian a lo largo de las etapas de
la vida de los individuos y también varían según las características del paisaje de los
lugares / territorios que se insertan y son fundamentalmente circunscrita y directamente
vinculado a su propia dinámica socio-culturales asociadas a ellos.

Palabras clave: Costa Sergipe. Comunidad tradicional. Sujetos sociales. Espacio de


apropiación.

INTRODUÇÃO

H
á uma ideia mais ou menos predominante de que o significado e a
importância de se morar ou de se habitar o espaço de uma comunidade
tradicional estaria desaparecendo ou em vias de desaparecer. Certamente,
nesses tempos da vida que pulsa no ritmo acelerado das grandes cidades e da exposição
cotidiana das redes sociais, parece ingênuo ou inapropriado falar de reprodução
socioespacial em pequenas comunidades tradicionais. Mesmo com todas as mudanças
recentes do modo de vida da população na modernidade, de fato, o processo social da
dinâmica de ocupação dos espaços de uma comunidade ainda é pouco conhecido.
Perguntas como: qual o significado de habitar um lugar em uma comunidade tradicional
na atualidade? Quais fatores atuam na formação de relações entre os sujeitos e o
território que habitam? Como os sujeitos percebem os lugares e as paisagens de suas
comunidades? Ainda estão carentes de análise e de entendimento.

O presente artigo aborda exatamente as formas e estratégias da apropriação espacial


exercida pelos sujeitos sociais nas comunidades tradicionais, para colocar em discussão
essa temática. O presente estudo foi desenvolvido nas comunidades do Litoral do estado
de Sergipe, nordeste do Brasil.

Para tanto, foi realizado um processo de investigação qualitativa, adotando instrumentos


e procedimentos para captar as diversas representações que os sujeitos fazem de sua
relação com os espaços e ambientes de vivência. Em especial, foram realizadas oficinas
temáticas em 05 comunidades. Utilizamos a produção de representação gráfica, a
elaboração de textos e a produção fotográfica como instrumentos para que os sujeitos se

256
expressassem. O material foi analisado procurando identificar os elementos de
apropriação do espaço referenciado pelos sujeitos sociais.

Para compreender as dinâmicas socio-espaciais, levamos em consideração a


constituição de referências socioespaciais, dinâmicas e fluidas e a existência de
processos de reconhecimento do espaço que variam de acordo com o alcance da
experiência espacial vivenciada pelos sujeitos nas suas diversas fases de vida.

Para além destes aspectos, o próprio conceito de lugar ainda se apresenta significativo
para compreender os processos de valorização, fixação e o sentimento de pertencimento
aos espaços de vida. A visibilidade do espaço é possível porque o lugar se expressa por
propriedades concretas e é um componente da própria noção de espaço sobre o qual
cada sociedade, cada grupo, desenvolve e articula as suas relações.

Devemos lembrar que ao representar um território somos também representados por ele:
quem somos, de onde falamos, como falamos, em que círculo falamos, são algumas das
formas de representação do espaço na vida cotidiana. A partir das experiências de vida
os sujeitos estabelecem ―objetivações‖ do real, enquanto território no qual podemos
repartir os ―momentos da vida em comum‖.

A apropriação do espaço nas comunidades que estudamos envolve um sentido de


experiência com o ambiente explorado socialmente. O espaço social da comunidade se
estabelece a partir da casa como território do ―meu‖, ser individual, sentido de
propriedade; nos espaços sociais como espaços do ―eu e do outro‖, sentido de
convivência e participação social e; na paisagem circundante como ―nossos‖ espaços.

Pontuamos que o cotidiano é organizado segundo uma relação móvel, mas permanente,
do aqui e agora. Cada um dos momentos da vida é uma encruzilhada entre um aqui
(espaço ocupado pelo meu corpo em meu mundo) e um agora (momento que eu vivo em
um determinado espaço do mundo), (BRANDÃO, 2008).

As representações envolvem sempre a presença e a ausência, um movimento dialético


de como percebemos o mundo, de como o concebemos e como afinal o representamos,
no processo vivido. Para representar o espaço elaboramos e re-elaboramos uma

257
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

interpretação da sociedade e da natureza. Pois o próprio ato de pensar sobre o espaço em


si mesmo é uma operação de representação.

A apropriação-valoração (significado e significante), a que ele se refere, pode ter um


duplo caráter: tanto pode operar no nível de apropriação instrumental-funcional
(atribuindo valor de uso, fonte de recursos econômicos, suporte material das relações
sociais), ou seja, território base e fornecedor de suporte físico-econômico ou ainda;
como simbólico-expressivo (valor cultural, suporte simbólico-ideativo das praticas
sociais e culturais), no qual o território corresponde ao elemento gerador de crenças,
mitos, ritos, costumes, um território como fundamento das relações que organizam o
mundo simbólico. Essas formas de apropriação são separadas apenas como recurso
analítico, pois, no que concerne a vivência cotidiana elas estão absolutamente
imbricadas e indissociáveis, território é, portanto, a base material tanto quanto é a fonte
de símbolos, ritos e mitos que alimentam as relações dos sujeitos com o espaço no
decorrer e nas temporalidades da vida, como abordaremos nas seções a seguir.

REFERÊNCIAS DO TERRITÓRIO: TRABALHAR, BRINCAR E LEMBRAR

Parece trivial para um geógrafo afirmar que o mundo consiste de espaços e que esses
espaços são apropriados de formas diferentes. Tal assertiva é a base epistêmica de nossa
ciência. Menos trivial é a constatação de que as relações entre a sociedade e o espaço
contêm marcas de usos, símbolos, signos, sentidos e sentimentos que suturam e
substantivam as dimensões material e simbólica do espaço social.

Entendemos que homem vive e se relaciona em um tempo-espaço específico,


produzindo marcas e construindo novas formas. Essa produção e construção se dá entre
formas e marcas herdadas, que são constantemente ressignificadas em novas geo-
grafias.

A disposição e o sentido dos elementos espaciais variam não só entre espaços de regiões
diferentes, diferenças regionais, mas também mudam de valor e de uso conforme varia o
sistema cultural, o modo de vida e até mesmo o tempo histórico em que se processam as

258
relações sociais. De fato, como pontuado por Sahr (2007), no fundo existem tantas
geografias como existem múltiplos sistemas culturais.

Assim, afirmamos que existem tantos processos e formas de se relacionar com o espaço,
como existem variadas formas e expressões culturais, cada qual comportando um
sistema de códigos, de valores, de representação e de significação próprios. Façamos,
portanto, o seguinte questionamento: como apreender os sentidos, linguagens, funções,
valores e relações com o espaço?

O sujeito do Litoral, entre pescadores, marisqueiras, extrativistas, caranguejeiros,


artesãs, homens, mulheres, velhos e crianças, viventes em comunidades tradicionais
como formações historicamente construídas, se relacionam com seu espaço de
referência na medida em que dele se apropriam cotidianamente. Esses sujeitos ao
apropriar-se de um espaço, segundo valores e normas, constroem signos, sentidos e
relações espaciais socialmente referendadas, passíveis de se apresentar como
construções sociais. Essas construções sociais individuais podem ser pictoricamente
representadas e interpretadas segundo seus elementos e signos (KOZEL, 2007).

A Geografia, as imagens, símbolos e signos sempre tiveram uma estreita ligação. Na


perspectiva técnico/científica serviam para transmitir informações sobre o espaço
conhecido e cartografado. No plano social, imagens ao longo da história deram suporte
para referenciar as rotas, caminhos, itinerários, segundo a experiência vivida e as
práticas culturais de cada grupo humano. No nosso caso a imagem permite observar e
analisar as experiências dos sujeitos na construção de territórios, analisando sentidos,
sentimentos e valores.

Partindo desse pressuposto, empreendemos uma proposta metodológica para captar,


decodificar e interpretar as representações que os sujeitos sociais fazem de seu território
e analisar o processo de apropriação e de representação social no espaço comunitário.
Lembrando como assevera Kozel (2007, p. 115), essas construções e representações
estão inseridas num sistema social situado no tempo-espaço, portanto, pertencem a um
―(...) contexto social, espacial e histórico coletivo, referenciando particularidades e
singularidades‖.

259
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

As representações foram tomadas como expressão das referências à paisagem do


cotidiano. Essa paisagem mostra os objetos e elementos contidos numa porção do
espaço (SANTOS, 2008), possibilitando analisar a organização espacial dos elementos,
no nosso caso, aqueles que traduzem o pertencimento e a identidade com o território.
No quadro 01 sintetizamos os elementos de representação expostos pelos sujeitos do
litoral sergipano:

Quadro 01 – Elementos referenciados pelascrianças nas comunidades

Comunidades Terra Caída Pedreiras Tigre/Junça


Elementos
Entorno da paisagem
Sol/céu
Casa (minha)
Árvores
Rio
Coqueiro
Animais
Cotidiano
Campo de futebol
Brincadeiras
Rio/maré; mar
Escola
Outras referências
Pessoas (família)
Escola
Carro e motos
Barco
Igreja
Animais
Peixe, rio, mar
Posto de saúde
Centro social
Ponte
Estrada

Legenda:
Predominante no desenho Compõem o desenho

Fonte: Vargas (2014).

260
Uma vez decodificado (identificado) cada elemento representado, os mesmos foram
organizados e analisados segundo o tipo de referencial que expressavam: paisagem de
entorno; cotidiano e; referências mais amplas, de forma a permitir uma análise do
processo de uso, significado e sentido que cada elemento desempenha na representação
do espaço e da vida do sujeito na sua fase de infância na comunidade. Os elementos
foram analisados conforme a importância atribuída pelo sujeito, partindo dos aspectos
predominantes até chegar a uma mera composição que acompanha e embeleza a
representação.

A CASA E A RUA: PRIMEIROS ESPAÇOS DE APROPRIAÇÃO

O ato de apropriar é um fenômeno social multiescalar no espaço. Ele perpassa também


múltiplas dimensões e tempos da vida. Entretanto, na maior parte dos estudos dedicados
a interpretação dos momentos e dos espaços da vida, é dada quase exclusividade sobre o
mundo do trabalho, conforme aponta Leal (2012).

Quase sempre são pessoas adultas, geralmente homens, os reais ―sujeitos‖ representados
nas pesquisas. Contudo, acrescenta a autora, sabemos que das mais simples às mais
complexas, todas as sociedades criam, em sua geografia do cotidiano, espaços e lugares
destinados à multiplicidade de sujeitos, atentando-se para o fato que um sujeito no
decorrer da vida se posiciona de maneiras diferentes frente a um mesmo espaço. Por
essa razão procuramos retratar o sujeito em sua trajetória do nascer, crescer, viver,
conviver e envelhecer.

Os elementos da representação mostram em primeiro plano que o espaço social da


comunidade é estabelecido a partir da casa como território do ―meu‖, ou seja palco e
cenário da realização individual de um sujeito. Esse Ser vai se descobrindo nas fases de
sua vida, na mesma medida em que amplia o alcance e a cobertura do seu conhecimento
sobre os espaços. A casa aparece como o primeiro lugar da manifestação do Ser
individual na sua relação com o espaço.

A criança, portanto, parte da casa e do quintal para experimentar o sentido do ―meu‖, do


individual: a minha casa, a minha família, o meu lugar de segurança. Nos lugares

261
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

sociais, como a igreja e a escola se relacionam nos espaços do ―eu com o outro‖, o
sentido de convivência e participação no futuro. Já na paisagem e nos ambientes de
entorno, temos os ―nossos espaços‖, que situa-se entre a porção do ―meu espaço‖ e o
espaço ―do outro‖, espaço este onde se estabelecem relações de reconhecimento dos
direitos do ―nosso território coletivo‖.

Desenho 1 - Representação de casa e quintal

Fonte: Oficina Minha vida em Terra Caída, 2013.

Na comunidade tradicional, a casa e seus compartimentos adjacentes, como os quintais,


geralmente arborizados, é o primeiro espaço de referência para um sujeito em sua fase
inicial de vida, conforme é expresso na representação contida no Desenho 01.

O espaço da casa significa as experiências do brincar, do conviver com os outros, ao


mesmo tempo, significa o abrigo e a segurança. Lembramos que nos primeiros anos de
vida as crianças são mantidas no convívio da unidade familiar mais restrita aos cuidados
da mãe e tem na casa o elemento espacial prioritári, (ARIES, 1981).

Não é de se estranhar que a casa apareça então como o elemento mais representado
pelas crianças. Mas não é simples a representação de um objeto técnico e suas várias
formas e possíveis arquiteturas, a casa é o mundo de vivências, significados e sentidos.

262
Desenho 2 - Representação elaborada por um aluno do 3º ano
do Ensino Fundamental, Terra Caída

Fonte: Oficina Minha vida em Terra Caída, 2013.

No desenho 02 a criança exibe a casa com predomínio no espaço, mas acrescenta outros
elementos como as nuvens, a chuva. O detalhe mais marcante são os enfeites juninos
que decoram o desenho. Para muitos sujeitos, mesmo depois de ter trilhado outros
tempos de vida, a casa continua sendo uma espécie de seu ―reino‖, um espaço seu por
natureza, dos seus e para os seus. É onde se busca o abrigo, onde se vive em segurança,
na companhia de pessoas com as quais se compartilha vínculos familiares.

Apesar da casa constituir-se um elemento central na referência espacial das crianças,


geralmente as representações da casa aparecem acompanhados de outros elementos,
tanto dos que localizam o conteúdo das relações de socialização como a escola, a igreja
e a rua; quanto os elementos da paisagem como as árvores, o céu e as estrelas.

Tomando essas duas representações, podemos verificar a presença de outros elementos


do espaço e da vida na comunidade para além da casa. Aos poucos as escolas, as ruas e
os campinhos de futebol aparecem e povoam o referencial. O mundo da casa aos poucos
deixa de ser exclusivo e a rua, os espaços de fora vão sendo incorporados ao sistema de
representação do sujeito.

263
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Nesse lugar do infantil, a criança experimenta o movimento de proximidade e


progressiva lateralização das relações, que se inicia a partir dos laços de parentesco,
abarca e envolve a relação com os parentes próximos e alcança a vizinhança
comunitária, como aponta Brandão (1995, p. 136) ―(...) alargam os limites da ordem
familiar cotidiana e se constituem como primeiros espaços extra-núcleos-familiares de
convivência e sociabilidade‖, e o quintal, a rua e a escola são espaços preferências do
desdobramento dessas relações.

Desenho 3 - Representação elaborada por aluno do 4º ano do


Ensino Fundamental, Terra Caída

Fonte: Oficina Minha vida na comunidade Terra Caída, 2013.

Devemos lembrar que a representação tem um sentido e um significado, como podemos


ver no desenho 03. As crianças representam as praças, as ruas e a escola como lugares
que gostam de estar. E gostam desses espaços porque são significantes para qualificar
alguma espécie de relação.

A primeira forma de conhecer o espaço e dele se apropriar é por meio das atividades
lúdicas, das brincadeiras infantis. Brincar é uma relação social estabelecida com outras
crianças, geralmente vizinhos, no qual em conjunto ou sozinho se brinca. A brincadeira
além do conteúdo psicológico da interação com o outro, a socialização, é também o
meio pelo qual os espaços vão sendo descortinados e reconhecidos.

264
Quando perguntamos para uma criança do povoado porque você ―desenhou‖ uma
árvore? Ela respondeu: ―(...) essa é arvore que subo para brincar, para me esconder‖.
Sendo assim, não é uma simples árvore que está sendo retratada, é a ―minha árvore‖,
aquela que tem significado e um sentido para aquela criança. Existe um sentido na
função brincadeira, mas existe ainda um significado do prazer e da emoção. Contudo,
não é só a árvore que importa, é a representação do espaço da árvore e o conjunto de
usos que a criança faz dela como um espaço.

A criança não só conhece, mas reconhece o espaço que passa a fazer parte da sua
referência cotidiana. Dele gosta e dele se lembra. Função espacial e sentimento se
fundem no reconhecimento do território, tal como apontado por Leal (2012) com base
em Tuan (2013, p. 43):

À medida que a criança cresce vai se apegando a objetos, às pessoas


importantes e finalmente a localidades. A curiosidade pelos lugares
faz parte de uma curiosidade geral sobre as coisas, surge da
necessidade de qualificar as experiências que adquirem maior grau de
permanência.

A presença de elementos da natureza como árvores, rios, peixes se tornam mais


frequentes à medida que avança a idade do sujeito. Representações da casa, da rua e da
escola ficam mais escassas e passam a aparecer o rio, a lagoa, a maré e mangue.

A natureza é aos poucos incorporada aos elementos do cotidiano. O rio é aquele que se
banha ou a lagoa que se vai escondido da mãe e do pai. O tipo de uso que se faz ainda é
o da brincadeira, tal como as representações expostas a seguir nos desenho 04 e 05 que
retratam, respectivamente o complexo de dunas e lagos em Tigre/Junça e a praia de
banho em Terra Caída:

265
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Desenho 4 - Representação elaborada por aluno 4º ano do Ensino Fundamental ,


Tigre/Junça

Fonte: Oficina Minha vida na comunidade Tigre/Junça.

Desenho 5 - Representação elaborada por aluno do 4º ano, Terra Caída

Fonte: Oficina Minha vida na comunidade Terra Caída, 2013.

Paisagens como o rio, a lagoa ou a duna, são apresentadas como locais onde se vai para
se divertir, para mudar a rotina, alterar o ritmo e a intensidade dos acontecimentos. A
diversão de um banho na maré com os colegas é a possibilidade de transgressão do
tempo da família e da escola. Por isso, o cenário é retratado com detalhes e carinho,
―(...) lá é bom para tomar banho, pular do porto, mergulhar na maré”.

266
Esse ―lá é bom‖ coloca-se em oposição à obrigação de ficar em casa, de participar do
cotidiano da casa ou da escola. É a maneira de ser criança na comunidade sem
shoppings ou playgrounds. Muito embora esses espaços seduzam e povoem a
imaginação das crianças, essas referências que chamamos do imaginário como
piscinas, shoppings, parques também chegam aos jovens das comunidades do Litoral
pelas antenas de TVs, geralmente parabólicas, as mesmas que afastam e rareiam os
mitos culturais como o lobisomem.

Segundo Tuan (2013) o horizonte geográfico da criança expande à medida que ela
cresce, mas não necessariamente em direção a uma apropriação escalar mais ampla. O
interesse imediato é pela sua comunidade local, representada pelos parentes e colegas. A
criança pode saltar inclusive localidades próximas e conhecidas e se fixar em
referências mais amplas, incluindo elementos que ele apenas imagina, como as diversas
representações de pés de maçãs, que não compõe a flora das comunidades estudadas ou
até mesmo elaboradas campos de futebol, conforme o desenho 06, que são o oposto dos
modestos campinhos de futebol que existem nas comunidades.

Desenho 6 - Representação elaborada por aluno do 5º ano, Pedreiras

Fonte: Oficina Minha vida na comunidade Pedreiras, 2013.

Há também representações de práticas sociais como a pesca, a agricultura ou o


extrativismo entre as crianças, mas, o sentido da representação quase sempre não se

267
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

refere ao valor ou ao conceito de trabalho. É importante ressaltarmos esse aspecto,


conforme exposto por Tuan (2013), pois a criança não consegue representar a
organização socioeconômica ou relações políticas. As crianças e os jovens não vêm na
pesca uma obrigação ou uma forma de obter renda, uma relação imposta socialmente.
Para eles, pescar é apreender o sentido da tradição com os pais, os tios, os avós ou
frequentemente com outros da sua idade.

Existem situações em que a possibilidade de acompanhar o pai pescador apresenta à


criança a um mundo de águas e aventuras, que tanto lhe fascina. É nesse contexto que se
aprende, por observação, a pescar. Para Leal (2012) a criatividade inventiva aliada à
vontade de ser como o pai, a mãe ou como um irmão mais velho, frequentemente
possibilita a construção e o reconhecimento de novos espaços, muitas vezes espaços
subjetivamente imaginados.

Geralmente as crianças são levadas pela família ou em companhia de outras crianças


aos espaços e ambientes do entorno da comunidade. É o caso da marisqueira que leva
seus filhos para a coleta dos mariscos ou dos filhos que acompanham os pais na prática
da pesca. Nesse sentido a criança com idade suficiente já participa da unidade familiar,
mesmo que por diversão. É a família que a introduz nos ambientes em que se pratica as
atividades tradicionais, mostrando-a como se faz, transmitindo lhes saberes, ensinando-
as os conhecimentos populares e tradicionais e principalmente, estimulando-as a
explorar novas faixas de território, aumentando, desta maneira, o repertório espacial de
referência do sujeito, conforme retratado no desenho 07.

268
Desenho 7 - Representação elaborada por aluno do 5º ano,
Ensino Fundamental, Terra Caída

Fonte: Oficina Minha vida em Terra Caída, 2013.

Porém, para a criança, o sentido contido nessas primeiras experiências de pesca não é de
trabalho, mas sim, de participar de um tempo-espaço de deleite, de aprendizado, de
novidades. A pesca, em especial, exerce um fascínio sobre os jovens pescadores. Poucos
vão obrigados, por força da coerção da família, ao contrário, em muitos casos, os pais
não querem que os filhos sigam esses caminhos da pesca, ―(...) porque isso não dá
futuro‖.

O que se impõe ao jovem pescador é a força da tradição que move a criança rumo a um
modo de vida, como singelamente a criança retrata no desenho 08: a cena é de um
barquinho contendo, provavelmente, os membros de sua família, deixando o porto para
voltar horas depois.

269
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Desenho 8 - Representação elaborada por aluno do 5º ano,


Ensino Fundamental, comunidade Pedreiras

Fonte: Oficina Minha vida em Pedreiras, 2013

Visto pela criança, como sujeito, este barquinho leva e traz nos ciclos da água um modo
de vida tradicional. A tradição não se constitui desta forma, uma opção, a qual se adere
ou não. Na tradição se nasce e se vive, ela é um meridiano que atravessa a vida. Mesmo
em algum momento dela (vida) se possa afastar por situações sociais, como no processo
de migrações ou como em mudanças nas relações de trabalhos.

É dessa forma, pela tradição que a criança é inserida no território de vivência na


comunidade, conhecendo e se reconhecendo nesse espaço, em especial, por meio de sua
apropriação, na diversão e nas brincadeiras, mas também na prática das atividades.
Nesse sentido, não há limites para a imaginação infantil que transforma um lugar às
vezes proibido em uma representação de um lugar imaginado (LEAL, 2012).

O TERRITÓRIO DE “FORA” DA CASA: TRABALHO E CONVIVÊNCIA

Reafirmamos que, para a compreensão das relações entre o sujeito e seus espaços de
referência, é central o entendimento do tempo-espaço da brincadeira como um fato
cultural que atua primordialmente no processo de apropriação territorial realizada pelo
sujeito social na fase da infância. O adulto, por sua vez, representa os espaços, mas o

270
conteúdo significante não é mais a brincadeira e o deleite. Esses valores de lazer
praticamente desparecem nas representações do território e quase não são referenciados
pelos sujeitos sociais em sua fase ―ativa‖. Nessa altura o trabalho passa a ser o vetor
predominante da apropriação cultural.

Por sua vez os ―adultos‖ em suas representações e entrevistas expressaram um quadro


de referências do espaço que parte do cotidiano do trabalho no entorno, passando por
elementos do território que indicam o uso dos espaços de participação social, tais como
as igrejas, as associações e os centros comunitários, bem como, fazem referência a
elementos simbólicos das festas e folguedos. O quadro 02 foi sistematizado com os
elementos representados por grupo de adultos participantes de oficinas temáticas
realizadas nas comunidades litorâneas:

Quadro 2 - Elementos referenciados pelos adultos


Comunidades Terra Caída Pedreiras Tigre/Junça
Referências
Pesca
Igreja/festa padroeiros
Extrativismo vegetal
Pratos típicos
Roça
Artesanato
Centro Comunitário
Vegetação
Escola
Posto de saúde
Festas populares
Folguedos
Porto* *
* Em branco não foi citado

Legenda:
Muito importante Importante

Fonte: Vargas, (2014).

271
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A exposição dos elementos de referências para os adultos indica que, na medida em que
ele exerce novas funções sociais na sua comunidade, os elementos do espaço vão sendo
mais fortemente apropriados. O entorno da comunidade é incorporado como o espaço
de referência cultural. Isso significa que o mangue, o rio, a duna, a lagoa tornam-se
centrais para as práticas de trabalho e para o modo de vida da comunidade.

O meio ambiente, os espaços e os lugares da prática de trabalho, outrora do tempo-


espaço do divertimento, são nomeados e reconhecidos segundo suas qualidades e seus
valores relativos às atividades que lá são desenvolvidas. Por essa razão, afirmações do
tipo: ―Esse lugar aqui é bom para pescar, aqui dá peixe‖, tem um significado
importante para a comunidade, pois expressa o saber tradicional, o reconhecimento e o
manejo do ambiente.

A apropriação espacial nesta fase da vida envolve principalmente a prática cotidiana do


trabalho. O ir e vir à roça, a procura pelo fruto na época da colheita, o tempo da pesca
são práticas que os situam no tempo-espaço do trabalho. Alguns autores como
(DIEGUES, 1994, 1999; BRANDÃO, 2012) corroboram sobre a importância que as
práticas de trabalho representam no modo de vida tradicional.

Se alguns sujeitos conhecem um território tradicional desde a sua fase de infância por
práticas cotidianas próprias dessa idade, o reconhecimento e o envolvimento com o
território se consolida na fase adulta, sobretudo por meio do exercício do trabalho
cotidiano. As práticas de trabalho diárias envolvem o conhecimento tradicional do
espaço, dos seus ambientes, a ecologia e o manejo social desses espaços.

O conhecimento sobre o manejo do ambiente, especialmente entre pescadores, mas não


somente restrito a eles, advém segundo Marques (1995) de dois sentidos: um vertical,
adquirido com oralidade da transmissão do saber-fazer tradicional e; outro na
horizontalidade das relações cotidianas com o meio, envolvendo o trabalho e as
representações sociais criadas na historicidade das relações vivenciadas.

Além da classificação ecológica dos espaços, as práticas tradicionais de trabalho se


estabelecem na organização social da comunidade. Quem faz parte, quem está incluído,
quem pode usar, como usar, como dividir o espaço? Esse poder de nomear e dizer o que

272
pode e quem pode e, de reconhecer direitos, envolve um código socialmente
compartilhado e reconhecido pela comunidade.

Esse poder de classificar, de qualificar é a base para o entendimento da constituição dos


espaços possuídos, estudados por Marques (1995). Ao dividir socialmente, qualificando
a natureza da posse, se estabelece mais do que uma delimitação territorial. O ato de
separar e relacionar pessoas e práticas a um espaço carrega um sentido de controle,
acesso, exclusão e inclusão. O uso dos elementos de representação para unir espaços e
sujeitos reconhecidos, equivale a estabelecer regulações espaciais nesse caminho.

Os espaços possuídos são de fato, verdadeiros territórios, tendo a pesca como elemento
espacial, o que indica a territorialidade tradicional contida nas práticas cotidianas de uso
desses espaços e no reconhecimento do respeito ao espaço do outro. Esse processo é
também observado nas regulações espaciais das lagoas para extração do junco e taboa e,
com menor nitidez, nos territórios da mangaba.

Antecipemos aqui que o ―entorno‖ das comunidades é composto por espaços e lugares
sociais comunais, ou seja, não se constituem ao menos em princípio, como propriedades
individuais no sentido mercadológico. Como são espaços comuns, sem a imposição de
títulos legais, o uso também é comunitário, contudo regulado. Essa regulação é
realizada por meio de normas e princípios socialmente reconhecidos e respeitados.

Grande parte da rotina de um pescador ou de uma artesã envolve a cotidianidade e


―convivialidade‖ no e pelo trabalho. Esse mundo vivido, do trabalho e de seus espaços é
onde se passa a maior parte da vida. Neste lugar de trabalho é possível verificar com
maior intensidade a geograficidade dos diferentes tipos de sujeitos sociais. Assim, o
trabalho é matéria vertente para a territorialidade tradicional. O trabalho significa
percorrer itinerários cotidianos que atravessam paisagens distintas e que implicam no
desenvolvimento de um estado de percepção próprio, envolvendo o ambiente e as
práticas de trabalho enquanto técnica e tecnologia.

A (geo)graficidade é a expressão no espaço de uma relação de profunda intimidade


entre o ambiente e o sujeito, revelando sua condição humana no tempo-espaço, ou seja,
a natureza cria o sujeito, na medida em que ele toma consciência de si.

273
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Os ciclos dos tempos da vida em comunidade como constata Brandão (1995), envolve
um tempo da participação social. São momentos de interação e participação em
comunidade, geralmente associados ao mundo do trabalho ou a participação em ciclos
sociais de organização do trabalho, como membro de associação de moradores, de
pescadores, de marisqueira, de artesanato.

O fato e o ato de participar além de preencher o tempo social em comunidade e


simbolizar os compromissos mútuos nas sociedades tradicionais, repercutem e se ligam
ao aspecto territorial, não só porque os espaços de participação como as sedes de
associação, uma igreja, uma escola, constituem espaços territoriais comunitários e para
esse fim são normatizados, mas, sobretudo, porque expressam um conteúdo específico
na fenomenologia da apropriação espacial na comunidade tradicional. Eles são espaços
de todos, se diferem, portanto da casa, como espaço privado da família e dos lugares de
trabalho, comuns na garantia de direitos, mas geralmente privado no tempo de uso.

Para frequentar os espaços da associação, da igreja ou do centro comunitário muda-se o


tipo de roupa que se veste habitualmente em casa e no trabalho. Uma reunião de
associação tem uma organização específica e se constitui um aspecto quase ritual, trata-
se de um evento cuidadosamente planejado, com pauta definida e realizado em horário
diverso ao trabalho cotidiano.

Frequentar a reunião é uma obrigação comunitária, mas também é um momento social


quando se afasta da rotina do cotidiano e do trabalho diário. Apesar de social, o espaço
da associação é seletivo e selecionável, só frequenta as atividades quem tem interesse ou
assuntos comuns. Nessa perspectiva é compreensível a importante referência atribuída
às sedes de associação, conforme exposto na foto 01, capturada por um participante da
oficina em Tigre/Junça. Para ele há um certo orgulho pelo bom funcionamento da
associação como elemento social relevante para a vida comunitária, mas também pelo
―valor‖ do prédio como estrutura arquitetônica, visto que ela difere do padrão de
construções do local, se constituindo na visão dos moradores como um símbolo de
prosperidade da própria comunidade.

274
Foto 01 - Sede da associação na comunidade Tigre/Junça

Fonte: Acervo do Grupo de Pesquisa Sociedade e Cultura, 2014.

Outro elemento referenciado que merece destaque é o espaço da igreja ou das igrejas. A
maioria da população das comunidades estudadas apresenta-se como praticantes da
religião católica, muitas têm um santo padroeiro ou até mesmo tem seus nomes
derivados de alguma influência religiosa.

Ainda que registrássemos a presença de outras instituições religiosas, notadamente, o


aparecimento de grupos evangélicos e a maior visibilidade social conferida
recentemente aos praticantes do candomblé, a referência espacial que mais se destaca é
da figura da igreja católica, como presente no desenho 09. Apenas na comunidade
Pedreiras e somente em uma referência a igreja evangélica foi retratada.

275
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Desenho 09 - Representação elaborada por homem adulto,


pescador e morador de Pedreiras

Fonte: Oficina Nossas Referências, Pedreiras, 2014.

O espaço religioso é apropriado em pelo menos duas dimensões: (i) o espaço do


sagrado, da prática do ritual religioso; (ii) espaço de participação, com atividades sociais
da comunidade, com reuniões. De certa maneira, a instituição igreja também participa
da vida comunitária, muitas vezes cumprindo funções de organização coletiva e se
aproximando da vida social, o que explica a pluralidade de referência à igreja, nesse
aspecto a igreja é mais missionária do que devota.

Contudo, a referência ao espaço da igreja como espaço sagrado do ritual religioso


favorece para que ela seja apropriada como paisagem cultural nas comunidades.

Na foto 02 o morador intentou mostrar além de sua referência como templo da prática
da fé católica a sua referência arquitetônica do passado, sendo uma igreja que foi
construída no início do século XX. Para esse morador trata-se de uma referência de
patrimônio histórico de Pedreiras, como uma forma espacial herdada.

276
Foto 02 - A igreja como referência espacial para moradores de Pedreiras

Fonte: Acervo do Grupo de Pesquisa Sociedade e Cultura, 2014.

Por isso, sedes de associações, igrejas e outros espaços que se prestam para os fins das
atividades de interação social são lembrados com frequência para expressar os espaços
da comunidade. A participação reforça o compromisso e o reconhecimento do território,
mas resulta em maior envolvimento dos sujeitos com o espaço de referência. As
associações cumprem uma função institucional importante na organização e regulação
do território. É para estas instituições que muitos conflitos territoriais são direcionados.

O exame do vivido, suas instituições, condutas, cenas e valores permite


compreender o sujeito no espaço. Esse mundo das vivências e da experiência é um
conjunto de coisas, objetos, valores, mitos, ritos, como um fato cultural, portador de
sentidos e significados. Portanto, trabalho, divertimento, memória, instituições e
sentidos são fatos culturais que narram à experiência do Ser no seu contexto social e no
espaço.

TERRITÓRIO NA MEMÓRIA

Se o trabalho é a prática social que, nas sociedades ―tradicionais‖, tem importância


destacada no processo de conhecimento, reconhecimento e envolvimento com um

277
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

espaço de referência cultural e social, entendido aqui como o território da comunidade


tradicional, uma vez que o sujeito tem uma idade mais avançada e o contato cotidiano
com o espaço é mais limitado, a memória dos tempos que se passaram, é, muitas vezes,
o elemento de apropriação ativada para expressar uma relação entre o sujeito e o seu
território.

O antigo pescador, a marisqueira, a artesã, o artesão mantém atividades diárias com seu
território ou com seus territórios, de muitas pescarias, de outras tantas pescarias ruins,
de sair cedo para catar marisco, de entrar num barco às vezes sozinho e atravessar um
rio ou, de catar frutos da estação na mata próxima.

Depois de atravessar décadas, cotidianamente repetindo a rotina de trabalho e labor, de


construir espaços, de se apropriar desses espaços, muitos não conseguem mais continuar
suas atividades, pois para alguns faltam força e vigor. A fase da velhice significa o
afastamento físico do rio, da lagoa, da maré ou do mangue. Mas, a memória de outrora,
de outros tempos é o recurso pelo qual a relação com as paisagens do cotidiano e com o
território segue ativa, tanto na memória vivida quanto na memória apreendida.

A memória, ato de lembrar ou de recordar é um elemento importante para a construção


das identidades, seja coletiva ou individual. Segundo Le Goof (1992) por meio da
memória38 pode-se ―reconstituir‖ identidades, seus signos e símbolos. A lembrança dos
velhos ajuda a organizar o quadro de referência espacial, além de uma participação
familiar. Nesse sentido, a memória habita um lugar no curso da historicidade cotidiana,
em que o movimento se dá em espaços e tempos outros.

O velho pescador e a velha marisqueira representam seu território por meio da


lembrança detalhada de outros tempos. A lembrança estimula a memória e gera a
saudade de quando se ―estava lá‖, fazendo, trabalhando, plantando, colhendo, pescando.

A imaginação que povoa as representações das crianças e dos jovens é substituída pelas
lembranças, pelas experiências e vivências. Esse processo de lembrar também reforça os
vínculos com o território. Segundo Brandão (1998, p. 12) nós pensamos os nossos
pensamentos, mas a memória revela quem somos nós, as nossas identidades. ―Lembrar

38
No campo da memória devemos referenciar os trabalhos de Ecléa Bosi, especialmente seu texto basilar
Memória e Sociedade de 2004.

278
refere-se ao de onde se veio. Antes com os outros, os meus, minha gente; depois
sozinho, minha alma, sua vida, minhas vidas: a de agora e as passadas, o meu eu‖.

Há um certo lirismo que muitas vezes aproxima o imaginário infantil à lembrança do


velho. As doces lembranças de uma realidade, muitas vezes, dura e áspera, são
traduções para expressar a alegria contida nas situações vivenciadas com dificuldade e a
durezas do viver em outro tempo, em que faltava toda sorte de recursos, mas que não é
suficiente para apagar um mundo da pesca do passado. Vejamos o depoimento de uma
pescadora já aposentada que nasceu e cresceu nas Pedreiras:

Eu nasci e me criei aqui. Aqui me casei, minha mãe também casou-se


e foi morar lá no Caípe Velho e depois pra “aqui” porque não deu
certo e com oito anos de nascida meu pai faleceu e fui crescendo e me
criando mais minha mãe e mais meus avós minha mãe cuidando de
três idosos: que eram meu avo meu, minha avô e uma tia de minha
mãe [...] depois me casei e muitas coisas mudaram né?! E muitas
coisas mudaram[....] Aqui na comunidade não era como antes não,
mudou assim, na segurança. Naquele tempo a gente vivia aqui, você
acredita eu vinha pra aqui pra igreja, para as festas para as novenas
rezava as novenas nessas casas todas que naquele tempo era muito
diferente hoje tá essa maioria é tudo evangélico né? E a gente rezava
mais ela mesma, a gente era as cantoras e rezava nessas casas descia
aí ia para minha casa vocês já estiveram lá. duas horas da
manhã....um hora....três horas. E ainda ficava se divertindo porque o
samba de coco naquele tempo era todo animado, mas hoje em dia é
muito diferente, a segurança aqui a gente dormia até na área no lado
de fora na calçada quando estava fazendo muito calor, mas hoje em
dia é assim “ói” a primeira segurança é a de Deus né?(...)[a
segurança foi uma....? e o trabalho?] “trabalho? Trabalhando mais
minha mãe. Estudei. Trabalhando na maré, na roça. Minha mãe ficou
viúva, tá vendo? A mãe do meu esposo também ficou viúva diferença
assim de um ano de um para outro, tá vendo? E elas começaram a
trabalhar juntas as duas viúvas trabalhava lá no sítio plantando
mandioca, plantando feijão, macaxeira, tá vendo? E minha tia ia para
maré e a gente ia pesca mais ela mesma mais comadre Inês. pescava,
pegava era tudo, tirava ostra nesse movimento daqui do interior e eu
mais o meu esposo começamos ali junto né? Trabalhando.... as mães
trabalhando e ele tirava as frutas de lá do sítio piscando o olho
aquele namorisco muito oculto pra mãe não saber né? Minha mãe
não podia saber. Minha mãe dizia assim: no dia que eu souber que
você tem um namorado você vai ver que surra eu li dou. Você vai
levar uma surra que não vai ser fácil. Eu sei que deu certo. Quando
ele completou vinte e dois anos e eu completei vinte, ele é mais velho
do que eu dois anos, se casamos. Foi naquele piscadinho(...)e me
casei com ele graças a Deus e até hoje não estou arrependida e
trabalhando. Até hoje continuo trabalhando.[ a senhora pescou a vida
toda...] pescava, tirava ostra, pegava aratu, travessava aqui esse rio
pra faxiar porque acho que vocês não sabem o que é faxiar não[não

279
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

sei o quê que é faxiar?] pois ali na ilha pequena enxia a cano de
mussinha, não era minha comadre? “era”** aí ia a gente, ia aquela
turma faxiar(...)da palha do coqueiro faz aquele faxo: pega duas
partes da palha vai marrando aqueles trechinhos assim ói, uma
pindoba e aí pra li fazer aqueles fexes enormes pra faxiar. Pegava
siri, pegava moreia, não sei se vocês conhecem por nome
demoreia?[conheço] naquela época era muito bom pegava muita
coisa, muita coisa...e me criei aqui comendo aratu, comendo siri,
comendo ostra, camarão, tudo, tudo tudo. Tudo fruto daqui. Aí minha
avó criava porco, a gente criava muita cabra, tá vendo? Últimamente
eu criava muita ovelha é porque acabamos. O terreno era pequeno.
Naquela época a gente criava muita cabra mais minha mãe, a gente
vinha marrar até por aqui. Tudo era aberto né? Era tudo na corda...
10 12 cabeças de cabra daí amarrava de manhã e cedo a gente vinha
cinco horas da manhã quando dava 10 horas a gente vinha tudo pra
cá e ficava lá no sítio. Eu nasci e me criei trabalhando, graças a
Deus. (Entrevista concedida pela pescadora Maria do Socorro 68 anos,
comunidade Pedreiras).

Percebemos que tempo-espaço da velhice é o tempo-espaço da memória transportado


para o território de hoje. É a lembrança do trabalho e da infância que se misturam e são
traduzidas para o tempo presente. A memória com o território enlaça descrições muito
detalhadas do território, do que se fazia, como se fazia e porque se fazia. Pela memória
o passado vem à tona, misturando-se com as percepções mais imediatas do tempo
presente (BOSI, 2004). A memória é ativada como um ato de profundo devir entre
experiências antigas e novas representações.

Outro aspecto a se destacar na relação entre o sujeito e seu território na fase da velhice
se estabelece na contemplação da paisagem, como prática entre a memória e o território
atual. Frequentemente, as práticas cotidianas do trabalho e da vivência cedem lugar à
contemplação, o sujeito se põe a mirar as paisagens, espaços religiosos, com os quais se
relacionou por toda uma vida. Concordamos com Oliveira (2009), ao escrever que o
tempo é a essência da memória, mas o espaço é a sua referência. O tempo age sobre os
corpos, o corpo, segundo a autora, é a memória que fala por meio da imagem.

O trabalho da memória é também atual, ele se processa no tempo presente. Lembrar é


sentir pela segunda vez e é uma sensação mediada pelo repertório cultural vivido:

Eis que os seus homens e mulheres, desobrigados de conviver sob o


imperativo da memória – hábito – ou porque já utilizaram demais, ou
porque não precisam mais tanto dela, como antes, para o exercício da

280
vida cotidiana – podem entregar-se, diante dela e para eles mesmos,
como moradores de si, como evocadores (BRANDÃO, 1998, p. 62).

A análise das entrevistas, das representações e das imagens expressas pelos sujeitos
pesquisados indica uma constante referência à paisagem como portadora de uma beleza
que se presta à admiração e que não são retratadas em outras fases da vida. Vejamos a
fotografia 03 registrada pela pescadora Darcilene em Pedreiras:

Foto 03 - Paisagem fotografada por pescadora aposentada

Fonte: Arquivo do grupo Sociedade e Cultura, 2013.

Análogo ao que ocorre na fase da infância, o território e suas paisagens não são
representados apenas como espaços de trabalho, no qual se conhece em face das
atividades que lá se pratica, mas como portador de um sentido e de um significado
completamente novo, o da beleza e o da memória. Questionada sobre razão de ter
registrado essa cena, a pescadora afirma ter pretendido mostrar o rio das Pedreiras que
ela gosta de admirar no final da tarde e pela manhã. Ele carrega o valor da
contemplação do prazer dado ao olhar, volta a ser uma paisagem, agora permeada de um
conteúdo cultural.

Devemos lembrar como asseverou Oliveira (2009) que as nossas vivências, as nossas
experiências vividas e guardadas como lembranças estão em nós como um constante

281
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

movimento. A lembrança é uma imagem construída pelos elementos que se dispõem no


conjunto de representações do tempo presente.

Assim, ocorre também com outros espaços, como é o caso das paisagens culturais
transformadas em patrimônios, como componentes arquitetônicos de uma igreja em
determinadas comunidades ou de um prédio da infância, como a antiga sede de uma
escolinha em que se aprendeu as primeiras letras e que não existe mais.

A lembrança e a memória recriam territorialmente espaços e lugares que podem ou não


existir fisicamente per si, daí o caminho para o enraizamento tradicional e o apego ao
lugar de vida.

Um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das
determinações atuais. Uma lembrança é diamante bruto que precisa
ser lapidado pelo Espirito. Sem o trabalho da reflexão e da
localização, seria uma imagem fugidia (BOSI, 2004, p. 81).

Concordamos com Kozel (2007, p. 117), que o espaço não é apreendido somente
através de um sentido, visual ou tátil. ―Ele se coloca como referência da relação ou das
relações estabelecidas pelo ser humano, emocionalmente, simbolicamente e
economicamente, de acordo com suas experiências‖. Assim, o espaço é percebido,
sentido, representado e vivenciado. As imagens que os sujeitos construíram estão
impregnadas de significados, experiências e lembranças que ativam a memória afetiva e
suas recordações mais significantes.

CONSIDERAÇÕES: DA PAISAGEM AO TERRITÓRIO

A guisa de conclusão, podemos afirmar que as experiências cotidianas desenroladas


como formas de vivências, concretas e simbólicas, isto é, na maneira intensa e profunda
com que um sujeito, seja ele um pescador ou uma artesã que retira taboa em uma lagoa
no entorno de sua comunidade, se relaciona com o espaço e com ele aprende, é que se
estabelecem conhecimentos, que se criam conceitos e que se formam os conteúdos por
meio dos quais o Ser social e individual organiza e compõe um quadro de referências do
seu espaço no mundo. Muitas vezes esse quadro referencial é próprio e peculiar sobre o

282
seu território ou sobre um território coletivo, comunitariamente partilhado e socialmente
apropriado.

Na teoria sobre representações de abordagem psicossocial, Moscovici (1978) denomina


esse processo de aprendizagem e atribuição de conceitos sociais aos aspectos
apreendidos na relação com o meio ou mesmo na relação entre sujeitos, como
―objetivações‖ 39 do real. É nesse processo de criação de sentidos no território que
podemos repartir os ―momentos da vida em comum‖. Assim sendo, a apropriação do
espaço nas comunidades que estudamos envolve a experiência com o ambiente de
entorno explorado socialmente.

A representação que as comunidades tradicionais do Litoral de Sergipe fazem sobre o


espaço de referência cultural perpassam dimensões que vão desde as brincadeiras da
infância, o cotidiano das práticas de trabalho e a memória, ou seja, um cotidiano
―organizado segundo uma relação móvel, mas permanente, de aqui e agora‖,
(BRANDÃO, 2008, p.14).

As representações envolvem sempre a presença e a ausência, um movimento dialético


de como percebemos o mundo, de como o concebemos e como afinal o representamos,
no processo vivido. Afinal, o mundo social com suas representações, contém espaços
vividos por diferentes grupos, neles são expressos suas vivências, mas, também seus
conflitos e tensões. O processo que responde a formação de objetos culturais ancora-se
nos fatores culturais, alimentando-se e retroalimentando-se na apropriação espacial
cotidiana e tradicionalmente estabelecida suturando formas e modos de ver no espaço.

Essas formas de apropriação são separadas apenas como recurso analítico, pois, no que
concerne a vivência cotidiana elas estão absolutamente indissociáveis, estão imbricadas
uma na outra, sendo desta maneira, o território a base material e também fonte de
símbolos, ritos e mitos.

O conhecimento que confere significado ao território, às paisagens parece obedecer a


um regime cíclico que se inicia na infância, na qual os sujeitos exploram o ambiente

39
Objetivações entendidas a partir das ideias de Moscovici (1978) sobre a formação das representações
sociais, envolvendo a formulação e assimilação de um novo conteúdo e sua objetivação e cristalização em
determinado contexto cultural.

283
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

desde a casa, a escola e o entorno mais imediato com uso para fins de lazer e
brincadeiras.

Nas comunidades litorâneas, como pontuamos, o alcance do uso do espaço vai se


alargando na mesma medida em que as experiências sociais também são ampliadas
quando os jovens pescadores assumem e desempenham papéis e funções sociais mais
amplas. Na perspectiva do jovem e do adulto, o sentido do trabalho determina a
incorporação dos espaços que convertem paisagens antes ligadas ao deleite e a diversão
em espaços onde se desempenham papéis e funções de trabalho e de reprodução da
vida, em última medida em lugares onde se realiza cotidianamente o trabalho.

A ocupação e o controle social da paisagem indica seu uso como a função de território.
O espaço social da comunidade se alarga: dunas, praias, rios, marés, restingas e
mangues são apropriados segundo suas qualidades naturais e sua capacidade de receber
as práticas de trabalho tradicionais para obtenção de meio de vida.

Os territórios das comunidades litorâneas estudadas são frutos da apropriação que se


realiza entre espaços e ambientes. Nesse sentido, o território é sempre múltiplo. De fato,
o território é apropriado como um complexo que se estabelece entre o sítio urbanístico,
lugar de morada e de convivência e o entorno paisagístico no qual se pratica trabalho,
lugar de trabalho. Nesse aspecto a cultura e os objetos culturais, materiais e simbólicos
conferem densidade e tessitura à relação entre espaço e sociedade, entre cultura e
território, criando sujeitos, histórias e geografias.

A apropriação do espaço e usos que qualificam certas porções da paisagem como


territórios se estabelece em função dos usos e dos significados atribuídos pelos sujeitos
sociais nas diversas fases da vida. Ainda que existam diferenças de valorização social de
classes de trabalho entre pescador, extrativista e agricultor, nas comunidades
tradicionais, o sujeito social, com raras exceções, praticam múltiplas atividades, o
pescador que entra na canoa e navega, tanto pesca quanto cata marisco: ―(...) depende
da maré e do dia, se sair peixe a gente pesca, se não sair peixe pegamos o massunim e
o aratu, o importante é não voltar com a canoa vazia, porque tem de alimentar a
família‖.

284
O sentido e o significado de cada espaço pode variar, segundo a fase de vida e o alcance
da experiência do sujeito. O rio do ―mergulho‖ com os amigos se transforma em
território de pesca quando o que está em jogo é o sustento da família. A possibilidade de
existir diferenças territoriais envolvendo gênero e grupos diferentes, o valor trabalho,
divertimento ou memória permanecem.

O trabalho por sua centralidade desempenha a função social de qualificar de forma mais
marcante o espaço, por meio do uso funcional dos ambientes nessas comunidades
tradicionais, caracterizando a situação de forte ligação e constituição de vínculos
territoriais apontados por Souza (2013).

De modo geral podemos entender que os elementos do cotidiano povoam o cenário da


vida dos jovens, a exemplo da casa e do mundo da rua. A presença de referências a
elementos da paisagem natural como as árvores, os rios, os peixes e a maré indicam a
relação de uso e de significação para a criança.

Reforçamos que a referência à paisagem, como a do rio, da duna, da maré representa o


espaço do deleite, das brincadeiras e das alegrias que vão permanecer no imaginário
individual, talvez para o resto da vida, mesmo depois de uma longa experiência de
migração, tão comum no estado de Sergipe.

Na medida em que o reconhecimento do ambiente de entorno vai se tornando mais largo


para a comunidade, com a incorporação de elementos da paisagem em espaços
referenciáveis no plano social, o território da comunidade também se torna mais amplo.
Paisagens até então ligadas à representação de cenas de diversão, a momentos de
brincadeira ou a um deleite, na fase adulta são tomadas como espaços do labor,
experimentados cotidianamente e culturalmente apropriados, são ―nossos‖ territórios,
nossos lugares, aqueles que conhecemos e frequentamos diariamente e sobre os quais
nos lembraremos no futuro.

As marés, mangues, lagoas e dunas são territórios de práticas de trabalho diárias e


continuas em que se conhece socialmente e de forma detalhada a ecologia dos lugares, a
ocorrência de espécies de peixes, os melhores horários para pesca, o regime de cheias e
vazantes, a existência de plantas aproveitáveis.

285
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

A comunidade não é somente um lugar de morada com seus quintais percorridos dia-a-
dia, do ―meu espaço‖ por excelência, mas engloba também, todo o sistema ecológico de
entorno, que é vivenciado e apropriado como um complexo territorial ecológico, sujeito
a um ajustamento funcional e simbólico bastante coerente em relação à comunidade que
o explora.

As qualidades de uso dos espaços e as paisagens resultam na configuração de um


território tradicional de inscrição da cultura em um dado contexto, em outras palavras,
conferem a uma porção de área qualquer, uma significância para um determinado grupo,
em face da espacialidade e da espacialização de uma organização social local.

A constituição do território é um processo em contínuo devir, pois tanto resulta de


formas e referências herdadas, que trazem ao presente formas e conteúdos socioculturais
de tempos históricos, quanto está sujeito a um constante movimento de novas
assimilações, interdições e negações do tempo presente, historicidades novas e
geograficidades atuantes.

Nesse sentido, as representações que os sujeitos fazem sobre seu território é


fundamental para entender os elos entre território e sujeito. Para De Paula (2009) as
representações do espaço transformam ao mesmo tempo as pessoas e os sujeitos sociais
e, as paisagens, os cenários, os lugares que se transformam em territórios, nos quais os
grupos e os indivíduos imprimem e exibem suas territorialidades. A construção a que se
refere a autora ocorre em meio a uma relação entre construção e desconstrução,
dominantes e dominados; hegemônicos e subalternos; incluídos e excluídos.

Se, enquanto sujeitos, somos os criadores, os transformadores dos lugares através da


cultura, podemos ser também transformados no e através dos espaços que habitamos.
Cada vez mais os sujeitos são tanto produtores de espaços, quanto produtos deles.

286
REFERÊNCIAS

ARIÉS, Philippe. Historia social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. 11 ed. São Paulo: Companhia das letras, 2004.

BRANDÃO, C. R. A comunidade tradicional. In: COSTA, João Batista de Almeida;


OLIVEIRA, Cláudia Luz de. (Org.). Cerrado, Gerais, Sertão - comunidades
tradicionais nos sertões roseanos. São Paulo: Intermeios, 2012, v. 1, p. 367-385.
_____. Minha casa, o mundo. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2008.
_____. Memória-Sertão. São Paulo: Cone-Sul/UNIUBE, 1998.
_____. Partilha da vida. São Paulo: GEIC/Cabral Editora, 1995.

DE PAULA, Andréa Narciso Rocha. Travessias – movimentos migratórios em


comunidades rurais no Sertão do norte de Minas Gerais. 2009, 350 fls. Tese (Doutorado
em Geografia) Instituto de Geografia, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia
– MG, 2009.

DIEGUES, Antônio Carlos. As populações tradicionais: conceitos e ambiguidades.


São Paulo: NUPAUB, 1994.
_____. Biodiversidade e comunidades tradicionais no Brasil. São Paulo: NUPAUB-
USP, PROBIO-MMA, CNPQ, 1999.

KOZEL, Salete. Mapas mentais – uma forma de linguagem: perspectivas


metodológicas. In: KOZEL, Salete; GIL FILHO, Silvio Fausto. (Orgs.). Da percepção
e cognição à representação: Reconstruções teóricas da geografia cultural e humanista.
São Paulo: Terceira Margem, 2007, p. 114-138.

LEAL, Alessandra Fonseca. Viver no lugar: os ciclos da vida, os ciclos da infância In:
COSTA, João Batista de Almeida; OLIVEIRA, Cláudia Luz de. (Org.). Cerrado,
Gerais, Sertão - comunidades tradicionais nos sertões roseanos. São Paulo: Intermeios,
2012, p. 114-128.

LE GOFF, Jacques. História e memória. 2 ed. Campinas: Unicamp, 1992.

MARQUES, José Geraldo. Pescando pescadores. 2 ed. São Paulo. NUPUAB/USP,


1995.

MOSCOVICI, Serge. A representação social da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar,


1978.

OLIVEIRA, Joycelaine Aparecida de. Ciclos de águas e vidas: o caminho do rio nas
vozes de antigos vapozeiros e remeiros do São Francisco. 2009, 144 fls. Dissertação
(Mestrado em Geografia) Instituto de Geografia, UFU, Uberlândia, 2009.

SAHR, Wolf-Dietrich. Signos e espaço mundos – a semiótica da espacialização na


Geografia Cultural In: KOZEL, Salete; GIL FILHO, Silvio Fausto. (Orgs.). Da
percepção e cognição à representação: Reconstruções teóricas da geografia cultural e
humanista. São Paulo: Terceira Margem, 2007, p. 57-79.

287
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

SANTOS, Milton. Metamorfose do Espaço Habitado: fundamentos teóricos e


metodológicos da Geografia. 6 ed. São Paulo: Hucitec, 2008.

SOUZA, Angela Fagna Gomes de. Ser, Estar, Permanecer: vínculos territoriais das
gentes que povoam as margens e ilhas do rio São Francisco. 2013, Uberlândia, 270 fls.
Tese (Doutorado em Geografia) Instituto de Geografia, UFU, Uberlândia, 2013.

TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: Difel, 2013.

288
TEMPOS E OS TERRITÓRIOS DA PESCA NO POVOADO PEDREIRAS - SÃO
CRISTÓVÃO/SE

LOS TIEMPOS Y LOS TERRITORIOS DE PESCA EN LA LOCALIDAD


PEDREIRAS - SÃO CRISTÓVÃO/SE

Ronilse Pereira de Aquino Torres


Mestre em Geografia Universidade Federal de Sergipe.
E-mail: geo_ufs@yahoo.com.br

Rodrigo Santos de Lima


Doutorando em Geografia - PPGEO/UFS - Universidade Federal de Sergipe.
E-mail: rslrodrigo@yahoo.com.br

RESUMO: Esta pesquisa buscou identificar os aspectos socioculturais dos pescadores,


bem como os territórios da pesca e as territorialidades estabelecidas na comunidade
pesqueira do Povoado Pedreiras no município de São Cristóvão/SE. Partimos do
pressuposto que a cultura e a identidade do ser pescador, seja de rios e/ou estuários se
alicerça na convivência cotidiana. Nesse sentido nos baseamos no método
fenomenológico. A fundamentação teórica deste estudo se sustenta nas acepções de
território e identidade numa abordagem a partir da geografia cultural. Analisamos na
comunidade as pessoas que praticam a pesca, buscando identificar as relações dos
pescadores com a natureza, suas práticas e finalidades. Assim, analisamos desde a pesca
artesanal até o sentido de ser pescador na comunidade, a relação com o meio natural
pela descoberta do que é pescado, como e quando, assim como, pelas memórias e
percepções sobre o passado e o presente da pesca. Identificamos que o território e as
territorialidades no povoado Pedreiras se constroem e se reconstroem pela pesca, sendo
o rio e a maré seus signos de referência afetiva com o lugar, e, portanto, propulsores de
um forte sentimento de pertença e de identidade de seus moradores.

Palavras-chaves: Território, identidade, pesca, pescadores.

RESUMEN: Esta investigación buscó identificar los aspectos sociales y culturales de


los pescadores y los territorios de la pesca y la territorialidad establecidos en la
comunidad de pescadores de la aldea Pedreiras en São Cristóvão / SE. Suponemos que
la cultura y la identidad de los pescadores, es de los ríos y/o estuarios se basan en la
vida diaria. En este sentido nos basamos en el método fenomenológico. El
fundamento teórico de este estudio se basa en la identidad territorio detecta una
aproximación desde la geografía cultural. Hemos analizado las personas de la
comunidad que practican la pesca, tratando de identificar la relación de los pescadores
con la naturaleza, prácticas y propósitos. Por lo tanto, se analizan desde la pesca
artesanal a la sensación de ser pescador en la comunidad, la relación con el medio
natural para el descubrimiento de lo que se captura, cómo y cuándo, así como los
recuerdos y percepciones sobre el pasado y el presente de la pesca. Se identificó
que el territorio y la territorialidad en la localidad de Pedreiras se construyen y
reconstruyen por la pesca, con el río y la marea de sus signos de referencia emocionales

289
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

con el lugar, y por lo tanto los conductores de un fuerte sentido de pertenencia e


identidad sus residentes.

Palabras Clave: Territorio, identidad, pesca, pescadores.

INTRODUÇÃO

onsideramos a relevância do conceito de território para as pesquisas

C referentes à pesca, em especial, à pesca artesanal, no sentido de


compreender que as realidades sociais são influenciadas por elementos
histórico-culturais de grupos responsáveis pela apropriação e construção de
determinado espaço geográfico, aspecto este, relevante para a compreensão das
dinâmicas dos locais em que se destacam os sentimentos, as intuições, os ideais, os
anseios, as experiências e os símbolos de vida cotidiana como elementos
territorializantes.

Nessa perspectiva surge este artigo, no sentido de lançar um olhar sob os pescadores
artesanais do povoado Pedreiras no município de São Cristóvão, seu modo de vida, sua
identidade com a atividade pesqueira e com o seu território.

O território aqui abordado fundamenta-se no conceito de Rogério Haesbaert que o


considera com dupla conotação, material e simbólica. Numa visão cultural(ista), em que
―(...) prioriza dimensões simbólicas e mais subjetivas, o território visto
fundamentalmente como produto da apropriação feita através do imaginário e/ou
identidade social sobre o espaço, (HAESBAERT 2002, p. 18)

Assim:
O território, imerso em relações de dominação e/ou de apropriação
sociedade-espaço, ―desdobra-se ao longo de um continuum que vai da
dominação político-econômica mais ‗concreta‘ e ‗funcional‘ à
apropriação mais subjetiva e/ou ‗cultural-simbólica‘‖ (HAESBAERT,
2004, p. 95-96).

O território é apreendido não unicamente enquanto área controlada para obtenção dos
recursos naturais, mas também como o conjunto de referentes espaciais, indissociáveis
na criação e recriação de mitos e símbolos de um grupo.

Todo território é, ao mesmo tempo e obrigatoriamente, em diferentes


combinações, funcional e simbólico, pois exercemos domínio sobre o

290
espaço tanto para realizar ―funções‖ quanto para produzir
―significados‖. O território é funcional a começar pelo território como
recurso, seja como proteção ou abrigo (―lar‖ para o nosso repouso),
seja como fonte de ―recursos naturais‖ – ―matérias-primas‖ que
variam em importância de acordo com o(s) modelo(s) de sociedade(s)
vigente(s) (como é o caso do petróleo no atual modelo energético
capitalista). (HAESBAERT, 2005, p.3).

Ainda segundo Haesbaert (2005, p. 22): ―Os objetivos do controle social através de sua
territorialização variam conforme a sociedade ou cultura, o grupo e, muitas vezes, com
o próprio indivíduo‖.

Neste bojo, a territorialidade, além de incorporar uma dimensão estritamente política,


conforme Haesbaert (2004), diz respeito também às relações econômicas e culturais,
pois está ligada ao modo como as pessoas utilizam a terra, se organizam no espaço e
dão significado ao lugar.

Ousamos afirmar que a territorialidade está para além da dimensão do poder, pois
compreende o conjunto de relações que se desencadeiam na complexidade do território.
Aí estão inseridas todas as manifestações humanas que incluem o saber, o fazer, as
disputas, os equilíbrios, os símbolos, as representações coletivas, políticas e sociais.

Haesbaert (2006) trata o fenômeno da territorialidade como um conceito simbólico


cultural, o que a nosso ver possui extremo significado para a análise da territorialidade
que propomos. Segundo ele:

(...) mais do que território, a territorialidade é o conceito utilizado para


enfatizar as questões de ordem simbólico-cultural. Territorialidade,
além da acepção genérica ou sentido lato, onde é vista como a simples
‗qualidade de ser território‘ é muitas vezes concebida em um sentido
estrito como a dimensão simbólica do território. (HAESBAERT,
2006, p. 73-74).

Assim, constatamos a relevância do conceito de território para as pesquisas referentes à


pesca, em especial, à pesca artesanal, principalmente na tentativa de aprofundar a
discussão sobre território e identidade, aliadas às práticas cotidianas dos pescadores
artesanais. Entendemos que o debate sobre território e identidade permite evidenciar as
ações e experiências concretas dos pescadores artesanais, os aspectos simbólicos, as
relações sócio territoriais e os códigos dos nativos.

291
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Desta forma ao realizar a atividade pesqueira, os homens constroem saberes e acabam


constituindo uma cultura distinta, dentro de um cotidiano muito particular. Essa
especificidade nos remete ao conceito de identidade sócio territorial, conforme
empregado por Haesbaert (1999, p.172):

Toda identidade territorial é uma identidade social definida


fundamentalmente por meio do território, ou seja, dentro de uma
relação de apropriação que se dá tanto no campo das ideias quanto no
da realidade concreta. O espaço geográfico constitui assim, parte
fundamental dos processos de identificação social.

Para teórico cultural e sociólogo jamaicano Stuart Hall a identidade não tem tanto a ver
com as questões de ―quem nós somos‖ ou ―de onde nós viemos‖, mas ―quem podemos
nos tornar‖, ―como nós temos sido representados‖ e ―como essa representação afeta a
forma como nós podemos representar a nós próprios‖. [...] As identidades são
construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como
produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e
práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas especificas (HALL, 2011).

De acordo com Hall (2011), a construção do conceito de identidade perpassa pela


percepção de concepções distintas sobre a identidade e o sujeito. Essas percepções
seriam a do sujeito do Iluminismo, do sujeito sociológico e do sujeito pós-moderno. O
sujeito do iluminismo tende a perceber o indivíduo como portador de uma razão, sendo
que o desenvolvimento deste viria a se constituir como base para a sua identidade. O
sujeito sociológico parte de que a identidade é formada na interação do ―eu‖ com e o
outro. Nesta concepção, a identidade seria determinada pela ação tanto do indivíduo
quanto do outro que com ele interage. O sujeito da pós-modernidade defende a ideia de
que as identidades não estariam relacionadas ao fator biológico e sim ao histórico. Desta
forma, as identidades se apresentariam como uma estrutura flexível e mutante.

Partindo da perspectiva de Hall (2011) salientamos que as diferentes identidades


construídas nos diferentes territórios estão relacionadas com a forma de ocupação e de
apropriação. Nesse sentido, a definição de territórios imbrica aspectos ecológicos,
históricos, sociais, culturais, políticos e econômicos, fundamentalmente ligados às bases
materiais e simbólicas da vida, tal como colocado por Rogério Haesbaert (2002).

292
Seguindo este raciocínio, Bauman (2005) afirma que o ―pertencimento‖ e a ―identidade‖
não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante
negociáveis. Os caminhos que percorrem, a maneira como agem, são cruciais tanto para
o ―pertencimento‖ quanto para a ―identidade‖, ou seja, não são definitivos nem tão
sólidos assim, mas negociáveis e revogáveis, dependendo das decisões que o indivíduo
toma, do caminho que percorre e da maneira como age.

Silva (2009, p. 121) destaca o pertencimento como elemento da identidade.

(...) por ―identidade‖, compreende-se que o conteúdo é a pertença e


também que ela define as dimensões das comparações sociais, que
(re)alimentam o seu conteúdo. Além disso, incorpora também o
conteúdo de normas específicas do grupo. Mesmo atitudes ou
comportamentos que não sejam explicitamente reconhecidos como
valores do grupo, podem ser fontes relevantes de expressão de
identidade, desde que sejam vistos como típicos ou característicos de
membros de um grupo particular e guiem as atitudes e
comportamentos dos membros desse grupo.

Destarte, esse sentimento acontece em função dos conteúdos que são próprios,
específicos do grupo social, ou seja, que aparecem em um modo de vida particular.

Nesta perspectiva, é interessante analisar nas comunidades pesqueiras o significado


cultural e a identidade que o pescador e a comunidade local têm da pesca, assim como
as práticas socioculturais que dão a estas comunidades pesqueiras características
identitárias e culturais.

Fundada na territorialidade, a construção da identidade coletiva dos pescadores remete a


uma determinada relação com a natureza e se define pelos sujeitos.

Partindo desse pressuposto os estudos sobre a pesca no Brasil40, de uma forma geral
buscam compreender o modo de vida de comunidades que vivem em áreas litorâneas e
ribeirinhas, buscando sempre compreender como os pescadores vêm produzindo seus
espaços e sua relação com a natureza.

Em geral a pesca é representada sob duas formas. A forma industrial/mercantil realizada


por empresas privadas com alto grau de produtividade e investimentos, tanto econômico

40
Ver Cardoso (2001); Diegues (1983, 1983; 1995; 1999; 2002; 2004a e 2004b); Maldonado (1993);
Marques (1995); Silva (2009).

293
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

como também tecnológico, em todo o processo de produção envolvido. E a forma


artesanal, que caracteriza-se principalmente pela mão de obra familiar ou não
assalariada, com embarcações e aparelhagem, em muitos casos, rudimentares. No Brasil
coexistem a pesca em modelos modernos e de alta produtividade e a pesca que não
atinge sequer o nível de subsistência, sendo esta, a pesca predominante no Brasil
(PIMENTA, 2001).

Historicamente a pesca artesanal está ligada à influência de três correntes étnicas que
contribuíram para a formação da cultura das comunidades litorâneas e ribeirinhas no
Brasil: a indígena, a portuguesa e a negra (SILVA, et. al, 1990). Dos índios veio os
conhecimentos culinários como o preparo do peixe para a alimentação, a confecção das
canoas e jangadas, as flechas, os arpões e as tapagens; dos portugueses os métodos e
instrumentos mais comuns como anzóis, pesos de metal, redes de arremessar e de
arrastar; e da cultura negra, herdaram a variedade de cestos e outros utensílios utilizados
para a captura dos peixes (DIEGUES, 1983).

Desta forma, pode-se afirmar que a pesca se desenvolveu de forma significativa com a
chegada de diferentes povos no território com atividades importantes no que diz respeito
ao aspecto socioeconômico do país, visto que várias cidades litorâneas se formaram a
partir de núcleo de pescadores no decorrer da nossa história.

As obras de Antônio Carlos Diegues (1983; 1995; 1999; 2002; 2004a e 2004b)
apresentam-se fundamental para a compreensão do universo da pesca artesanal no
povoado Pedreiras. À luz de suas obras apreendemos que as comunidades tradicionais
possuem uma reduzida divisão técnica e social do trabalho, sobressaindo o trabalho
artesanal, onde o produtor e sua família dominam o processo de trabalho, como é o caso
da comunidade estudada.

Para Diegues (1995) o manejo dos recursos ocorre através de um complexo


conhecimento adquirido pela tradição herdada dos mais velhos, resultando na
adequação de uso e manutenção dos ecossistemas naturais.

Ainda de acordo com o referido Diegues (1983) populações que possuem um


conhecimento adquirido e experimentado, através de gerações, para o uso e manejo de
recursos naturais, bem como do espaço vivido e concebido social e culturalmente,

294
geralmente possuem uma forma específica de apropriação e relação entre grupos sociais
e ambientes naturais. Seus conhecimentos baseiam-se na transmissão oral, quer das
formas produtivas quanto organizativas e culturais, como garantia da manutenção dos
grupos sociais distintos. Eles fazem uso de tecnologia simples, reduzida acumulação de
capital, relações de produção definidas no âmbito da unidade familiar nuclear ou
extensa, com reduzida divisão de trabalho.

MÉTODO E METODOLOGIA

Ancorados na Fenomenologia e dentro de uma metodologia de trabalho para à avaliação


da percepção sobre o meio ambiente e a pesca artesanal, demos início às atividades de
campo com o contato com o espaço vivido pela comunidade pesqueira em questão,
observando o sentindo e desvelando o lugar, seus habitantes e suas práticas
socioculturais.

Contamos com outro instrumental valioso para a apreensão e compreensão da realidade


estudada que foi a participação em oficinas realizadas na comunidade com a
participação de crianças e adultos em momentos distintos. O trabalho de campo e as
referidas oficinas aconteceram no período entre 2012 e 2014, período de construção da
dissertação de mestrado da qual resulta esse artigo.

As oficinas tiveram como objetivo desenvolver reflexões sobre o patrimônio cultural e a


identidade da comunidade. Para isso, foi utilizado como instrumental de pesquisa:
desenhos, fotografias e redações, que retrataram o cotidiano de cada indivíduo e da
própria comunidade, bem como os símbolos considerados como referência do povoado
para os entrevistados.

O trabalho de campo, bem como as oficinas de desenhos e fotografias foram momentos


profícuos, pois proporcionaram momentos de análise das relações entre os moradores e
o povoado, em que a territorialidade na sua dimensão simbólica apareceram
nitidamente, através dos desenhos e textos produzidos e do olhar fotográfico dos
participantes.

295
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

ÁREA DE ESTUDO

Conforme é colocado por Haesbaert (2005) é importante perceber a historicidade do


território, sua variação conforme o contexto histórico e geográfico. Portanto é salutar
mencionar estes aspectos, assim como os aspectos naturais para melhor entendimento da
área de estudo.

O povoado Pedreiras (figura 01) surgiu como ponto de referência, possivelmente com
essa denominação, desde o início da colonização do município de São Cristóvão. Conta-
se que o primeiro porto atracadouro de Sergipe surgiu no povoado Pedreiras e que se
chamava ―Porto das Pedras‖. Navios com enormes cargas de carne, sabão, alcatrão, breu
e louças finas, entre outros produtos atravancavam neste porto; em seguida eram
levados até a sede do município, na época capital de Sergipe, por pequenas embarcações
(BANCO DO BRASIL, 1993). Tal informação parece consistente, pois as pedras do
leito do rio neste local realmente constituem obstáculo à passagem de embarcações de
porte. Ainda sobre essas pedras os moradores relataram que ―muitas pedras foram
tiradas daqui para a construção de casas de São Cristóvão‖.

Figura 01 - Localização da área de estudo, 2012

Org.: Lima, Rodrigo.

296
De acordo com relatos de moradores mais antigos e do documento Diagnóstico do
Povoado Pedreiras (BANCO DO BRASIL, 1993) o povoado surgiu em meados do
século XIX, a partir do povoamento de duas propriedades: Tinharé e Pedreiras, esta
última de propriedade de Dona Iaiá que foi a primeira a ser loteada e posta à venda.
Posteriormente, a propriedade Tinharé também foi loteada e vendida. Estes lotes foram
adquiridos por famílias que construíram as primeiras casas na localidade, que mais tarde
se transformou em povoado.

Nesta época a comunicação com a sede de São Cristóvão se dava pelo rio. Há relatos
que a estrada só foi construída em meados de 1940, bastante precária, carroçável, ―a
mando de um ‗poderoso‘ da região‖, descendente de um dos fundadores do povoado,
aberta ―pelas mãos dos próprios moradores‖.

O Povoado Pedreiras dista 8 km da sede do município de São Cristóvão. O acesso ao


povoado se dá pela estrada municipal São Cristóvão-Pedreiras, cujo traçado aproveitou
o leito da estrada carroçável e foi construída em meados da década de 1970 pela
Petrobrás41 para que máquinas e caminhões pudessem ter acesso à base da subestação
coletora instalada no povoado. No percurso sentido São Cristóvão-Pedreiras a estrada
corta os povoados Chica e Tinharé, que assim como Pedreiras, foram assentados sobre
elevados terraços do rio Vaza Barris.

A estrada que dá acesso ao povoado Pedreiras é paralela ao vale, sobre o terreno do


grupo Barreiras, é uma estrada pouco sinuosa, mas com sucessivos aclives e declives, o
que proporciona uma bela vista das águas do rio Vaza Barris.

O que prende a atenção de quem visita o povoado pela primeira vez é a simplicidade do
arranjo espacial em conformidade com sua beleza cênica, beleza esta, que encanta a
primeira vista. Observam-se jardins floridos, muitas cores, texturas, cheiros; cenas que
denotam um cotidiano carregado de significados e singularidades como: pescadores
tecendo suas redes em suas varandas; crianças aqui e acolá brincando na rua, subindo
em árvores, barcos ancorados nos portos, ou saindo para a pescaria. A paisagem do rio
vista de cima do barranco, de onde se observa as ilhas: Grande e Pequena, os apicuns e

41
Petróleo Brasileiro S.A. é uma empresa de capital aberto, cujo acionista majoritário é o Governo do
Brasil. É considerada uma empresa estatal de economia mista. Atua no ramo de exploração e produção de
petróleo, bem como as demais atividades ligadas ao setor de petróleo, gás natural e derivados. Disponível
em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Petrobras. Acesso – em: 26 de agosto de 2015.

297
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

a exuberância dos manguezais, enchem os olhos, completando a tranquilidade que reina


no ambiente e sua gente humilde. (Figura 02).

Figura 02 - Cotidiano do Povoado Pedreiras – o que se vê: crianças brincando de


―pega pega‖; pessoas e animais pelas ruas; aratu no manguezal; pescadores
tecendo/consertando redes; canoas nos portos e; saída para a pesca

Org. TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.

É muito comum encontrarmos famílias grandes, compostas por duas ou mais gerações
vivendo no mesmo terreno. São famílias que vão estabelecendo laços sociais entre si
através dos casamentos. Constroem suas casas e estabelecem seus territórios através da
sua produção.

298
O VIVER DA PESCA

Para compreender o modo de vida de algumas comunidades ou de qualquer grupo


social, é preciso observar o seu cotidiano. Estudar o cotidiano de um grupo ou apenas de
um indivíduo de modo geral nos leva a compreender as relações que permeiam o
ambiente. Esta compreensão, já está submetida à compreensão imediata do mundo
vivido, que é a soma de todas as ações e intervenções junto ao meio onde o indivíduo
vive, criando dessa forma uma experiência de vida (GIL FILHO, 2003, p. 106).

Falar do cotidiano é falar das relações que se constroem nas tramas do dia a dia e se
materializa enquanto elemento identitário de um determinado grupo social. É o espaço
vivido, dotado de sentimentos, comportamentos, atitudes e significados, onde os atos
diários produzem a continuidade da vida de cada um. Nesse sentido, Agnes Heller
(2008, p. 31) salienta que:

A vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos a vivem, sem


nenhuma exceção, qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho
intelectual e físico. Ninguém consegue identificar-se com sua
atividade humano-genérica a ponto de poder desligar-se inteiramente
da cotidianidade.

Assim, as relações de trabalho, a vida social, as decisões políticas, os discursos


formadores de marcas identitárias e todas as ações, quando destacadas, partem da vida
cotidiana. As tradições, as identidades e as representações são então a concretização do
conhecimento e dos saberes sobre o cotidiano, sendo, pois, a cotidianidade a mais pura
manifestação da realidade.

Os pescadores do povoado Pedreiras vivenciam o cotidiano da pesca artesanal. Neste


sentido, há uma produção de significados. Estes significados estão relacionados
principalmente ao fazer, ao trabalho cotidiano, motivado pela pesca e compartilhado
entre todos.

Com base nas leituras de autores como Diegues (1983, 2004b) pode-se traçar uma
tipologia da pesca artesanal de pequenas comunidades situadas em ambientes costeiros
e estuarinos no Brasil, distinguindo: i) aquelas com atividade da pesca
predominantemente artesanal, mas que situada como alternativa de trabalho, sobretudo
quando não existe outra ocupação formal no mercado; ii) aquelas que estruturam suas

299
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

atividades econômicas, sociais e culturais em função do estuário, preservando os


costumes tradicionais, mas que também utilizam outras práticas produtivas, no intuito
de sobrevivência da própria comunidade.

Consideramos que o povoado Pedreiras é uma comunidade tradicional, mas que esta já
não se encontra em seu estado puro, intocado (DIEGUES, 1983), mas que busca obter
meios de sobrevivência desenvolvendo seus próprios conhecimentos em relação à
natureza e o seu próprio modo de viver. Daí afirmarmos que os moradores vivenciam de
fato a comunidade, vivendo da pesca, considerando que esta é a principal fonte de renda
da comunidade. No entanto, há membros da comunidade que não vivem exclusivamente
dessa atividade. Existem aqueles que procuram atividades paralelas à pesca para
complementar a renda da família, como a agricultura e o comércio.

Frente a tal contexto, também encontramos famílias que exercem a pesca combinada a
outras atividades como o cultivo de roçados e a coleta de produtos tirados da natureza.
São roças de: mandioca, milho, feijão, batata e algumas hortaliças e fruteiras; uma
minoria comercializa seus produtos, pois suas plantações são de pequeno porte e os
produtos são basicamente usados na alimentação diária. Apesar de ser a pesca a maior
provedora da economia de Pedreiras, nem só da pesca vivemos moradores do povoado,
também encontramos pessoas que trabalham em São Cristóvão e Aracaju em diversos
segmentos da economia.

Ainda sobre outras práticas paralelas à pesca, durante os períodos do defeso 42 são
praticadas outras atividades econômicas como os serviços temporários sem carteira de
trabalho assinada, para não se perder o auxílio financeiro, a exemplo de caseiros em
chácaras e sítios das redondezas, serventes de pedreiro, dentre outras.

Comunidades como Pedreiras possuem uma relação muito próxima com a natureza, pois
ela representa a subsistência dos moradores. A vivência no povoado parte desta relação
entre homem e natureza. A pesca artesanal e consequentemente o conhecimento do
ambiente em que se pesca é fator primordial para a reprodução social do grupo.

42
Constitui-se uma política estratégica, de caráter ambiental, visando proteger as espécies durante o
período de reprodução, garantir a manutenção de forma sustentável dos estoques pesqueiros e,
consequentemente, manter a atividade e a renda dos pescadores. Disponível em:
http://www.mpa.gov.br/pesca/seguro-defeso. Acesso – em: 26 de agosto de 2015.

300
TEMPORALIDADES NOS TERRITÓRIOS PESQUEIROS DO “RIO DAS
PEDREIRAS”

O pescador artesanal imprime o seu próprio ritmo de trabalho. Como o dono dos meios
de produção ele tem a liberdade para fazer seus dias e horas de trabalho. Assim, escolhe
quando e onde quer pescar. O tempo dedicado à pesca é apreendido desde o contexto
mais amplo do ritmo da natureza (marés, estações) até o contexto de um cotidiano muito
particular.

São muitas as horas dedicadas à pesca, também muitos os anos. A vida na pesca começa
cedo para os moradores do povoado Pedreiras, já na infância são introduzidos na pesca,
seja por necessidade ou por curiosidade, mas principalmente inseridos no ―fazer‖
tradicional. De acordo com relatos de alguns moradores do povoado o início da pesca
acontece na infância, por influência dos pais, também pescadores, parentes próximos e
de outras pessoas da vizinhança que praticam a atividade.

Os conhecimentos em relação aos ciclos da natureza, os peixes, as marés e o clima (os


ventos e a chuva) são adquiridos e passados pela oralidade. O pescador conhece o local
apropriado para a pesca, o período ideal e as técnicas adequadas ao tipo de pesca.
Segundo Diegues (1995), são esses conhecimentos que formam a essência do pescador
artesanal, é através desses saberes que eles se configuram como profissionais da pesca.

Destarte, Marques (1995 p. 62) coloca que a aquisição de informações sobre o meio
ambiente e seus recursos, assim como o modo de lidar com eles é estabelecido através
de uma transmissão cultural que se processa em dois sentidos: verticalmente (tradição) e
horizontalmente (meio), processa-se também pelo aprendizado individual, experenciado
pela vivência.

Segundo Diegues (1995), os conhecimentos sobre o meio de exploração, as condições


de marés, o uso e a manipulação dos apetrechos e a identificação dos pontos de pesca
são, em conjunto, os elementos que caracterizam a pesca artesanal. Sendo assim,
considera-se que o que define uma pesca como sendo artesanal não é a exclusividade da
atividade, mas a lógica que a sustenta. Dentro dessa lógica consideramos as condições
ambientais para a prática da pesca, a influência da lua e das marés e da chuva na

301
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

atividade pesqueira, bem como o domínio/conhecimento sobre as técnicas aplicadas na


atividade.

Desse modo, o pescador artesanal possui um conhecimento empírico, o qual lhe dá


propriedade para falar quais as espécies que se pode extrair nesse ou naquele momento,
nesse ou naquele local; qual apetrecho se utiliza para ter-se êxito; os melhores horários;
os sons para atrair o peixe; tamanhos e quantidades a que se pode capturar.

Assim,
(...) quanto mais ajustado o pescador com seu ambiente, mais
condições cognitivas tem ele para desvendar e se apropriar da
natureza. É por aí que ele tem acesso objetivo ao conhecimento das
relações existentes entre sua atividade e as faunas aquáticas e
terrestres; a flora; os ventos e os mares; as nuvens e a chuva e assim
por diante, cujos sinais são decodificados com sabedoria.
(FURTADO, 1993, p. 206).

A pesca artesanal e consequentemente o conhecimento do ambiente em que se pesca é


um fator primordial para a reprodução social do grupo que caracteriza a comunidade de
Pedreiras. São os ciclos da natureza que regulam a vida do pescador artesanal; este é um
mediador da natureza e a apropriação desta se expressa na figura do pescador com o
conhecimento e o domínio das práticas de pesca, (CARDOSO, 2001).

Maldonado (1993) ao estudar os pescadores marítimos paraibanos observou que os


territórios são mais do que espaços delimitados. São lugares conhecidos, usados,
nomeados e defendidos. Assim também acontece entre os pescadores do povoado
Pedreiras. Os locais de pesca são territórios específicos e apropriados pelo
conhecimento adquirido sobre o meio.

As diferentes formas de apropriação e de manutenção desses territórios podem ser


entendidas como expressão de uma territorialidade, da qual Cardoso (2004, p. 144)
coloca que ―(...) se em primeiro nível a apropriação da natureza pode ser entendida
como um processo de conhecimento construído pelos pescadores a respeito do ambiente
onde se opera as pescarias, esta apropriação pode gerar indícios de uma territorialidade
pesqueira‖.

Nesta perspectiva a pesca praticada em Pedreiras é realizada somente no estuário do


Vaza Barris. Acrescenta-se que identificamos pontos de pesca utilizados pelos

302
pescadores do povoado Pedreiras que distinguem o rio e a maré (áreas de mangue).
Para Marques (1995, p.158), isto é o indício de territorialidades na pesca que se
expressa sob vários aspectos: “inclusive, na forma de espaços possuídos que, sendo
consuetudinariamente aceitos, explicitam-se em locuções do tipo “lugá certo de”
(“o Zezinho tem um lugá certo de pescá”)”.

Os locais de pesca citados, referente aos diferentes ―pontos/partes‖ desse ambiente são
apresentados no quadro 01.

Quadro 01 – Locais de Pesca


PONTOS DE “PORTOS”
RIO MARÉ
REFERÊNCIA
Vaza Barris: rio Porto do Maninho;
Ilha Mém Em São Cristóvão:
das Pedreiras, Porto do Dedé;
de Sá, Sarafina Grande e
rio de Dentro Porto de Elze;
No Mosqueiro: Boca da Porto de Josenite;
Ilha Barra; Ponta da Veia; Porto do finado Chicão;
Santa Maria Porto de Miguelzinho;
Paraiso Baleia; Ribeira; Caju
Taipú Porto do Matias;
Paruí Porto do finado Paulo;
Água Boa Porto do finado Pedro
Outros: Ponta do Davi, de Malta
Tejupeba Ilha do
Caruara, Malacabado, Porto do Zequinha
Coqueiro Veiga
Purga e Chica Porto do Trapiche
Riacho do Carmo
Rio do Dendê
Fonte: Adaptado de MARQUES, J.G.V, 1995. Trabalho de campo, 2013.
Org. TORRES, R. P. de A.

Observa-se o conhecimento do meio e o domínio sobre o mesmo. A apropriação dos


territórios dá-se pelo domínio da Geografia do estuário do Vaza Barris atestado pela
pluralidade de pontos de referência dos rios, das marés e dos lugares.

Os bosques de mangue encontram-se em bom estado de conservação seja aqueles da


franja ou borda (popularmente nomeados de mangue sapateiro), seja os bosques mais
distantes onde ocorrem os mangues branco e preto43, que ocupam grandes extensões das
ilhas.

43
Onde ocorrem as espécies Rhizophora mangle, Laguncularia racemosa e Avicennia schaueriana,
respectivamente mangue vermelho sapateiro, mangue branco e mangue preto.

303
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Para Marques (1995, p. 161) ―Há todo um rol de topônimos relacionados a águas ou
portos que são altamente sugestivos quanto a codificação de relações sociais de posse‖.
Assim, afora os locais de pesca, encontramos também denominações para os portos e
atracadouros, complementando a ―rica‖ toponímia apresentada no quadro 01. Os
―portos‖ ficam às margens do rio Vaza Barris, em terrenos particulares, porém são de
uso comum entre os pescadores do povoado. (Figura 03).

Figura 03 - Portos de Pesca no Povoado Pedreiras.


a) Porto do Maninho; b) Porto do Dedé – povoado Pedreiras

a) b)
1 1

Organização: TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.

Às margens do rio também encontramos barracos de taipa, utilizados para


guardar as embarcações e os apetrechos de pesca, muitos deles de uso comum, o que se
configura também como um território da pesca (Figura 04).

304
Figura 04 – Depósitos de barcos e apetrechos de pesca

Organização. TORRES, R. P. de A. Fonte: Trabalho de campo, 2013.

A pescaria é praticada em todo o estuário, nos rios e nos mangues e, em todos os


ambientes condicionados pelas marés, mas margens, nas ―crôas‖, nas águas rasas e
profundas, ou seja, existe uma diversidade de territórios utilizados pelos pescadores
artesanais.

SIGNIFICADOS E RESSIGNIFICAÇÕES DA PESCA

Ao fazermos um resgate sobre as memórias dos pescadores observamos como a história


de um lugar deixa marcas em seus habitantes. Através dos relatos, de suas histórias de
vida, foi possível captar tanto momentos da vida pessoal como o modo de vida da
comunidade. Pois, entendemos que a memória é a construção do presente a partir de
vivências ocorridas no passado.

Le Goff (2003, p. 419) nos traz a ideia de que a memória é vista como ―[...] propriedade
de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de
funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações
passadas, ou que ele representa como passadas‖. Dessa forma, para uma melhor
compreensão sobre suas memórias e como elas podem revelar histórias de vida de um
indivíduo e de seu mesmo grupo, buscamos traçar um paralelo entre o passado e o

305
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

presente do povoado Pedreiras por meio das memórias e histórias de seus


moradores/pescadores, sobretudo, entendendo a identificação dos pescadores e
moradores com a atividade pesqueira e com o lugar. Pois, ―não é na história aprendida,
é na história vivida que se apoia nossa memória‖, (HALBWACHS, 1990, p. 60).

Para Le Goff (2003) ―a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar de


identidade, individual e coletiva então somente com o resgate da memória é que
podemos reconstituir a identidade, os signos e símbolos de unidade e unificação dos
grupos sociais‖.

Também para Delgado (2010) a história e a memória são suportes na formação de


identidades individuais e coletivas, formadas no processo das vidas em sociedade.

Assim, apreendemos que lembranças da infância dos moradores entrevistados estão


relacionadas aos momentos em família, a convivência com os pais; a inserção na pesca
ainda criança, acompanhando os pais ou algum parente nas pescarias; as brincadeiras na
rua e na escola; as festas que aconteciam no povoado, sempre com muita alegria; a
tranquilidade que reinava no lugar, diferente da violência que atualmente vem se
instalando no povoado; a paisagem cênica do lugar (rio, mangue, ilhas, pôr do sol). Os
momentos de sociabilidade, de alegria e lazer ainda estão impregnados em suas
memórias.

Contudo suas lembranças também remetem a tempos difíceis, no que diz respeito à
sobrevivência. A maioria dos depoimentos expõem as dificuldades enfrentadas pela
família, o trabalho na pesca e na roça.

A juventude não foi muito diferente da infância no tocante às dificuldades e ao trabalho,


principalmente para os mais velhos. A pesca, que na infância era mais uma diversão,
passou a ser uma obrigação, pois logo vieram as responsabilidades de sustentar a
família, já que muitos casaram-se novos e logo vieram os filhos. Assim, a pesca tornou-
se a única opção de trabalho e renda. Porém, para os mais jovens a ―segunda infância‖,
mais próxima para eles é pontuada pela saudade.

A distinção dos relatos, em que pese a idade dos moradores/pescadores remete-nos a


pontuar as condições de acesso ao povoado assim como as melhorias com a introdução
de equipamentos e de infraestrutura. Como já colocado, a comunicação se dava por

306
canoa, a pé ou a cavalo o que tornava a comercialização do pescado penosa. Aqueles
com idade inferior a 40 anos vivenciaram na infância a interligação pela estrada, linha
de ônibus, escola, posto de saúde e Associação de Moradores.

É interessante observar como a pesca permeia todos os momentos da vida dos


moradores. Os relatos sobre suas memórias deram suporte para compreender como a
pesca está enraizada no cotidiano dessa gente, desde muito cedo, seja nos momentos
bons e de alegrias como também nos momentos de dificuldades.

À medida que muda-se o contexto histórico e estrutural de um lugar,


concomitantemente altera-se a paisagem, surgem novas funções e novos elementos que
revelam características mais modernas, condizentes com a contemporaneidade. Neste
sentido, apreendermos pela percepção dos depoentes às mudanças ocorridas no povoado
no decorrer dos últimos anos. Mudanças estas no tocante às questões sociais, culturais,
educacionais, saúde, infraestrutura e política do povoado.

O passado mais distante e o mais próximo são postos como marcos da vida. É evidente
que o cotidiano foi alterado com a instalação energia elétrica e/ou possibilidades de
congelar o pescado e com a linha de ônibus regular que facilita a comercialização no
principal mercado, em São Cristóvão. No entanto, as benfeitorias que facilitaram a vida
há quarenta anos atrás já não mais satisfazem as exigências dos dias atuais. Por ser um
povoado antigo há a percepção da centralidade de Pedreiras com relação aos arredores
e, consequentemente, a preocupação da pressão no uso dos serviços aí existentes o que
confere maior legitimidade nas reivindicações por melhores serviços oferecidos à
população do povoado.

Para Tuan (1983), o lugar é marcado pela percepção, pela experiência e pelos valores.
Os lugares são núcleos de valor, por isso eles podem ser totalmente apreendidos por
meio das relações de quem ali vive (insider) e relações externas (outsider).

Para Del Rio (1996, p. 4), embora as percepções sejam ―subjetivas para cada indivíduo,
admite-se que existam recorrências comuns, seja em relação às percepções e imagens,
seja em relação às condutas possíveis‖.

O sentimento de ―pertencimento‖ pode significar que precisamos nos sentir como


pertencentes a um lugar e ao mesmo tempo sentir que esse lugar nos pertence. Assim,

307
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

não somente os nascidos e criados em Pedreiras carregam esse sentimento, mas também
os que optaram por viver no povoado. Pessoas que conheceram o lugar e se
―apaixonaram‖ pela paisagem natural, pela tranquilidade, ou mesmo por algum nativo
acabaram se casando e, o que antes para eles era apenas espaço de trabalho ou de lazer,
foi se tornando um lugar, no sentido de pertencer a algo, a alguém ou a algum lugar, ao
seu lugar.

OS SIGNOS E OS SENTIDOS DE SER E PERTENCER

Yi-fu Tuan (1983, p. 6) coloca ―o que começa como espaço indiferenciado transforma-
se em lugar à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor, ou seja, o lugar é
carregado de experiências e desejos pessoais, é uma realidade que deve ser
compreendida da perspectiva dos que lhe dão significado‖.

Moradores que no passado partiram à procura por melhores condições de vida em


outros lugares voltaram ao seu lugar de origem. Para estes, ―passar dificuldades na sua
terra junto aos seus é bem melhor que viver numa terra que não é sua‖.

Os lugares têm suas especificidades, tanto relacionado as características naturais, como


culturais. Distinguem-se por seus símbolos e marcas, que dão sentido de pertença e
identidade a seus moradores. Ao fazermos um levantamento sobre os dados referentes à
história de um lugar, observamos como estes deixam marcas nos sujeitos inseridos no
contexto. Estes traduzem suas experiências com seu modo de viver, com suas vivências
com a natureza, como representam e demonstram sua religiosidade e misticismo, os
quais devem ser respeitados. Tais marcas são teorizadas por Bonnemaison (2002, p.
109) ao colocar que:

o geossímbolo pode ser definido como um lugar, um itinerário, uma


extensão que, por razões religiosas, políticas ou culturais, aos olhos de
certas pessoas e grupos étnicos assume uma dimensão simbólica que
os fortalece em sua identidade.

Diante disto, lançamos a pergunta: Se o(a) senhor(a) fosse pintar um quadro do povoado
Pedreiras, o que desenharia e quais as marcas não poderiam faltar na descrição do
quadro? Neste sentido construímos o quadro 02 expondo os referenciais de Pedreiras.

308
Econômicos nas colocações citaram um ou dois elementos e concluíram: ―é só isso; é
isso‖!
Quadro 02 – Signos e marcas do Povoado Pedreiras
Paisagem Religioso Atividade Equipamentos Pessoas Outros

Escola
Posto de Saúde
Rio Igreja de Casas
Maré Santa Cruz Estrada Símbolo do
Pesca Esposa
Pôr do sol Igreja Mercearias Flamengo
Paisagem Evangélica Petrobrás
Quadra de
Esportes

12 8 1 11 1 1
Fonte: Pesquisa de campo, 2013.

Os signos são uma construção social, eles só existem dentro de um contexto que lhe dão
sentido e seus significados dependem do contexto social, histórico e cultural em que o
indivíduo está inserido. Cada elemento ajuda a compreender também a cultura do lugar.

Assim, a igreja católica, o rio, a escola e a paisagem enquanto natureza são os elementos
mais significativos. Embora a pesca tenha sido citada apenas uma vez, entendemos que
isso justifica-se porque ―a pesca não se pinta‖, ela se traduz pela importância dada ao rio
e à maré.

Estes elementos representam o povoado e produzem os sentidos de pertencimento e


identidade territorial, os caracterizando como pertencentes ao povoado Pedreiras.
Podem ser considerados geossímbolos de valor individual ou coletivo, isto é,
referenciais que dizem respeito às histórias de vida particular, bem como de toda a
coletividade.

Dessa forma, a igreja católica (Figura 05) de Santa Cruz é um símbolo do povoado, foi
construída há mais de 100 anos. Seu nome é uma alusão à Padroeira do lugar, a Santa
Cruz, comemorada todo mês de maio. É uma construção singela, mas tida como ―um
patrimônio do povoado".

309
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 05 – Igreja católica de Santa Cruz, povoado Pedreiras – São Cristóvão/SE

Organização. TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.

A igreja evangélica (Figura 06) é representada pela Assembleia de Deus e constitui uma
referência importante, pois, tem grande significado para seus seguidores. O número de
evangélicos no povoado cresceu significativamente nos últimos anos e a adesão se dá
por vários motivos, dentre eles, o de oferecer consolo e proteção nos momentos de
dificuldades enfrentadas por algumas pessoas. De acordo com relatos de evangélicos,
essa adesão é próxima a 60% da população do povoado.

310
Figura 06 – Igreja evangélica Assembleia de Deus,
povoado Pedreiras - São Cristóvão/SE

Organização. TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.

O rio (Figura 07) possui uma simbologia que representa o sustento e a tradição, ―é a
sobrevivência do povoado‖, mas também traz um conteúdo afetivo, que reforça a
identidade territorial do morador. Tal como expresso por Bonnemaison (2002) o rio e a
maré, o ―rio da Pedreiras‖ contempla os elementos materiais e imateriais. Ele traduz a
organização e a produção da base material e, também, a significação e a relação
simbólica que dá sentido à vida.

311
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Figura 07 – Rio Vaza Barris, povoado Pedreiras – São Cristóvão/SE

Organização. TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.

A paisagem (Figura 08) enquanto natureza representa a beleza cênica, a simplicidade e a


singularidade do lugar. É considerada pelos moradores como um patrimônio do
povoado. Um bem a ser preservado, que possui um potencial turístico que ―poderia ser
utilizado no ―desenvolvimento‖ do povoado‖. A paisagem de Pedreiras enquadra-se
como exuberante para o visitante. No entanto, ela é viva e dinâmica para os seus
moradores. É nela que está o rio e a maré.

312
Figura 08 – Paisagem do rio Vaza Barris - povoado Pedreiras - São Cristóvão/SE

Organização. TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.

Todavia, o sentido de patrimônio colocado tanto para a paisagem como para a igreja se
aproxima mais do sentido de pertencimento quando se avalia os depoimentos sobre
Pedreiras: ―eu amo isso aqui!‖.

O sentido da pesca como profissão caracteriza-se como o domínio de um conjunto de


conhecimentos e técnicas que permite ao pescador subsistir e se reproduzir enquanto
pescador (DIEGUES, 1983). Todavia, a atividade da pesca artesanal está para além de
um meio de produção e de sustento familiar. Conforma também um modo de vida que
envolve uma relação singular para com o meio ambiente em termos ecológicos e
simbólicos, tem-se uma apropriação e uma representação do espaço realizada pelos
pescadores.

Para Diegues (1995), o processo de construção da identidade do pescador artesanal


ocorre, em primeiro momento, pela alteridade e pelas formas como reconhecem seu
semelhante; em segundo, pelos rituais de reafirmação dos significados e sentidos
partilhados por seu coletivo; e, em terceiro, pela afirmação do sentido de pertencimento
ao lugar.

313
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

As práticas de trabalho, com características tradicionais, dizem respeito à detenção de


um determinado saber sobre a natureza por parte dos pescadores. Portanto, esse
conjunto de conhecimentos, técnicas, práticas e a pertença, conforme já mencionados,
configuram a identidade em ―ser‖ pescador.

A sincronia do presente com a tradição, tal como exposta por Claval (2002, p. 172),
―(...) o que garante ao indivíduo a autenticidade de suas escolhas é o sentimento que ele
tem de estar de acordo com uma tradição que interiorizou‖.

Já Valêncio (2007), afirma que a identidade do pescador artesanal repousa na afirmação


da sua territorialidade, do seu direito de estar no lugar para daí retirar seu sustento e
exercer um conjunto de práticas sociais extra econômicas que dão sentido à sua
existência individual e coletiva.

A identidade do pescador é apreendida no processo de formação, desde sua iniciação até


o conjunto de conhecimento que vai sendo adquirido com o passar dos anos pela
oralidade entre as gerações, pela observação e pela prática.

O aprendizado não é formal, letrado, é o do dia a dia, o cotidiano, a prática, a tradição. É


o aprendizado que se constrói a partir das relações de parentesco (pais e mães),
vizinhança ou de compadrio que muitas das vezes inicia-se ainda na infância. Começa
como um processo lúdico e vai constituindo-se e interiorizando como identidade em ser
pescador artesanal.

Assim:
Pais, avós, tios, cunhados, irmãos, colegas. A iniciação na pesca
perpassa vários níveis de parentesco e as teias de relações que se
estabelecem nas comunidades pesqueiras, fundamentais na
socialização da criança no mundo da pesca. (CARDOSO, 2005, p. 5).

No povoado Pedreiras, geralmente essa inserção tem início ainda na infância entre os 8
a 13 anos de idade. As crianças começam acompanhando os pais, ficam à beira do rio
brincando ou apenas observando o labor dos seus pais, ou mesmo ajudando na pescaria
e na mariscagem.

Os ensinamentos não partem somente de pais para filhos homens, muitas mulheres
também aprendem a pescar através da figura do pai, assim como os homens aprendem a

314
pescar com suas mães. Visto que aprenderam em outra época com os pais e outras
pessoas mais velhas e que estes tinham seu próprio modo de pescar, conforme vão
ocorrendo as mudanças nos apetrechos e na dinâmica do rio e das marés os mais jovens
vão moldando seu jeito próprio de pescar, ainda que ―a pescaria seja uma só‖.

O conhecimento adquirido atrelado à percepção faz com que o pescador crie habilidades
que o leva a identificar espécies de peixes pelo simples barulho que fazem; a relacionar
a dinâmica das marés à lua e a criar métodos de captura que vão desde a confecção dos
apetrechos de pesca até a construção e manutenção de pequenas embarcações.

Os conhecimentos produzidos, trocados e transmitidos no cotidiano de vida e de


trabalho dos pescadores artesanais caracterizam a pesca como um saber tradicional.
Estes saberes são adquiridos e construídos no interior do ambiente pesqueiro. São
conhecimentos repassados de geração a geração e readaptados conforme as práticas, os
costumes, crenças e valores de cada indivíduo. É no convívio que o saber flui pela
atitude de quem sabe e faz para quem não sabe e aprende. A esse respeito Brandão
(2003) enfatiza que o saber é fruto da convivência das pessoas umas com as outras e,
Andreoli e Anacleto (2006, p. 4) afirmam que:

Esses conhecimentos permitem ao pescador se reproduzir enquanto


tal, através da ação, onde experimentam, contrastam, atualizam e
aprendem novos saberes no meio em que atuam, que vão servir para
confirmar ou modificar algumas crenças, possibilitando um contínuo
aprendizado.

Destarte, a pesca artesanal tradicional no povoado Pedreiras representa um conjunto de


práticas cognitivas e culturais, que vai se construindo pelo saber-fazer diário, ao mesmo
tempo em que é transmitido pela oralidade com a função de assegurar a reprodução do
modo de vida do pescador e de seus descendentes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observada sob a perspectiva do território a pesca nos mostra em Pedreiras um espaço


revestido da dimensão afetiva, material e simbólica. Nesse sentido, as territorialidades
enquanto conjunto de práticas e expressões materiais e simbólicas que garantem a

315
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

apropriação e a permanência em um determinado espaço é sintetizada em Pedreiras pela


pesca.

A formação da identidade em Pedreiras está enraizada no contexto social, coletivo e


histórico. Apreendemos o processo de produção simbólica e discursiva dos moradores e
dos pescadores que realçaram os valores próprios do lugar, dando personalidade à
identidade de Pedreiras, singularizando-a. Como observado por (HALL, 2011) as
identidades são construídas dentro e não fora do discurso, produzidas em locais
históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas
específicas, por estratégias e iniciativas também específicas. Assim, entendemos como a
religiosidade embora forte e significativa nos valores comunitários não se sobrepôs ao
sentido da pesca.

Os conhecimentos dos pescadores são amplos e complexos, pois envolvem desde o


domínio dos ritmos da maré e dos ciclos da natureza, do conhecimento das espécies, até
as técnicas apropriadas para cada captura. Os instrumentos ou métodos de trabalho da
pesca são referências, carregados de significados herdados e vividos pelas histórias de
vida que marcam e tipificam os espaços da pesca.

O rio Vaza Barris traduz a organização e a produção da base material e, também a


significação e a relação simbólica (BONNEMAISON, 2002) que dá sentido à vida em
Pedreiras. O sentimento de estar de acordo com a tradição, de ser pescador, é
interiorizada pelo conjunto dos conhecimentos e práticas, demonstrado que os
ensinamentos partem dos pais para os filhos, das mães para as filhas, dos maridos para
as esposas, nas brincadeiras das crianças na maré, enfim, em todas as fases da vida os
moradores de Pedreiras, ensinam, aprendem e praticam a pesca.

Assim os pescadores de Pedreiras vivenciam o cotidiano da pesca produzindo


significados relacionados ao fazer, ao saber fazer.

316
REFERÊNCIAS

ANDREOLI, Vanessa Marion; ANACLETO, Adilson. Compartilhando saberes: os


conhecimentos tradicionais e a educação ambiental. 2006. Disponível em:
http://www.isepeguaratuba.com.br/inc/pdf/isepe_guaratuba_artigo007.pdf.
Acesso em: 09 de janeiro. 2013.

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar Ed., 2005.

BANCO DO BRASIL, Diagnostico do Povoado Pedreiras, 1993.

BONNEMAISON, J. Viagem em torno do território. In: ROSENDAHL, Z.; CORRÊA,


R. L. Geografia cultural: um século (3). Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002. p. 83-132.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação? São Paulo: Brasiliense, 2003.

BRASIL. Decreto n.º 6040 de 07 de fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de


Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais – CNPCT,
D.O.U. DE 08/02/2007, P. 316.

CARDOSO, Eduardo Schiavone. Pescadores artesanais: natureza, território,


movimento social. 2001. Tese (Doutorado em Geografia Física) - Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.
Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8135/tde-14012003-
160032/>. Acesso em: 03 de setembro de 2013.

______. Trajetórias: a formação de pescadores e a apropriação da natureza. Londrina


2005. Disponível em:
http://geografiahumanista.files.wordpress.com/2009/11/eduardo_s_cardoso.pdf.
Acesso em: 21 de fevereiro. 2013.

______. O vento, o fundo, a marca: diálogos sobre a apropriação da natureza no


universo pesqueiro. In: DIEGUES, Antônio Carlos. (Org.). Enciclopédia Caiçara. São
Paulo: Hucitec/Nupaub, 2004, v. 1, p. 133-146.

CLAVAL, Paul. A Volta do Cultural na Geografia. Mercator - Revista de Geografia


da UFC, vol. 1, n. 1, p. 19-28, 2002.

DEL RIO, Vicente; OLIVEIRA, Lívia de. (Orgs.). Percepção ambiental a experiência
brasileira. 2. ed. São Paulo: Studio Nobel, 1999.

DELGADO, L. de A. N. História oral: memória, tempo, identidade. 2. ed. Belo


Horizonte: Autêntica, 2010.

DIEGUES, A. C. Pescadores, camponeses e trabalhadores do mar. São Paulo. Ática,


1983.

317
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

______. Povos e mares. São Paulo: NUPAUB-USP, 1995.


______. Biodiversidade e comunidades tradicionais no Brasil. São Paulo: NUPAUB-
USP; PROBIO-MMA; CNPq, 1999.
______. Povos e Águas: inventário de áreas úmidas. 2. edição. São Paulo: NUPAUB-
USP, 1995.
______. O mito moderno da natureza intocada. 4. ed. SP: Hucitec; NUPAUB-USP,
2004a.
______. (Org.) Enciclopédia Caiçara. O Olhar do Pesquisador. São Paulo: Editora
HUCITEC-NUPAUB-CEC/USP, 2004b. vol 1.

FURTADO, Lourdes G. Pescadores do rio Amazonas: um estudo antropológico da


pesca ribeirinha numa área amazônica. Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi, 1993.

GIL FILHO, Sylvio Fausto. Geografia Cultural: estrutura e primado das representações.
Espaço e Cultura, UERJ, RJ, n. 19-20, p. 51-59, Jan./Dez. de 2003.

HAESBERT, R. Identidades Territoriais. In: ROSENDAHL, Zeny; CORRÊA, Roberto


Lobato. Manifestações da cultura no espaço. Rio de Janeiro: Eduerj, 1999. p. 169-
190.
______. Território territórios: concepções de território para entender a
desterritorialização. Niterói: PPGEO-UFF/AGB, 2002.
______. O mito da desterritorialização: do ―fim dos territórios‖ à
multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
______. Da desterritorialização à multiterritorialidade. In: X ENCONTRO DE
GEÓGRAFOS DA AMÉRICA LATINA. ANAIS... 20 a 26 de março, 2005.
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. p. 6774-6792. Disponível em <
http://ucbweb2.castelobranco.br/webcaf/arquivos/13147/5061/multiterritoriali
dade.pdf> Acesso em 05 de setembro de 2012.
______. Territórios alternativos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva, Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo:


Centauro, 1990.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A,


2011.
______. Identidade cultural e diáspora. Comunicação e Cultura, n. 1, 2006, p. 21-35,
1996.

HELLER, A. O cotidiano e a história. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução Bernardo Leitão. 2. ed. Campinas:


UNICAMP, 1992.

MALDONADO, Simone Carneiro. Mestres e mares: espaço e indivisão na pesca


marítima. São Paulo: Annablume, 1993.

MARQUES, José. Geraldo. W. Pescando pescadores. 2. ed. São Paulo:


NUPAUB/USP, 1995.

318
PIMENTA, E. G. Análise estatística de acidentes com barcos de pesca. Grupo de
Estudos e Projetos Especiais, GEPE. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.

ROSENDAHL, Zeny; CORRÊA, Roberto Lobato (Orgs.). Religião, Identidade e


Território. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2001.

SERGIPE, Diagnóstico do Município de São Cristóvão, 2002.

SERGIPE, Relatório de Informações Básicas Municipais do Município de São


Cristóvão, 2008.

SERGIPE, Plano de Metas do Município de São Cristóvão, 2011.

SILVA, Anelino Francisco da. Pesca artesanal: seu significado cultural. Ateliê
Geográfico. Goiânia, v. 1, n. 6, abril/2009, p. 119-136.

SILVA, T. E.; TAKAHASHI, L. T.; VERAS, F. A. V.. As Várzeas ameaçadas: um


estudo preliminar das relações entre as comunidades humanas e os recursos naturais da
várzea da Marituba no rio São Francisco. Programa de Pesquisas e Conservação de
Áreas Úmidas no Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1990.

TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Tradução de Lívia de


Oliveira. São Paulo: Difel, 1983.

VALENCIO, N. Pescadores do Rio São Francisco: a produção social da inexistência.


São Carlos: RiMa Editora, 2007.

319
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

FACES DO PARAÍSO: A LUTA PELA GARANTIA DO TERRITÓRIO


TRADICIONAL PESQUEIRO FRENTE AO PROCESSO DE
TURISTIFICAÇÃO EM SÃO MIGUEL DOS MILAGRES E PORTO DE
PEDRAS, ALAGOAS, BRASIL

LADOS DEL PARAÍSO: LA LUCHA POR LA GARANTÍA DEL TERRITORIO


DE PESCA TRADICIONAL FRENTE AL PROCESO TURISTIFICACIÓN EN
SÃO MIGUEL MILAGROS Y PUERTO DE PIEDRAS, ALAGOAS

Manuela Grace de Almeida Rocha Kaspary


Doutoranda em Cidades, FAU/UFAL; Mestra em Arquitetura e Urbanismo
Programa de Pós-Graduação Dinâmica do Espaço Habitado, DEHA/FAU/UFAL
Docente do Instituto Federal de Alagoas, IFAL, Campus Maragogi, AL
E-mail: manuelakaspary@gmail.com

RESUMO: A costa litorânea dos municípios de São Miguel dos Milagres e Porto de
Pedras, em Alagoas, apresentam um apanágio paisagístico singular e é locus de
populações tradicionalmente pesqueiras. Esses lugares, isolados preteritamente, em um
espaço temporal de quinze anos tornaram-se favoráveis a espacialização de Pousadas
denominadas ‗do charme‘ que visam um turismo seleto e exclusivo. No entanto, esse
encontro de territorialidades – tradicionais e turísticas – tem se delineado por meio de
conflitos e de interesses divergentes. O discurso de ambas territorialidades não se
mostra contrário ao desenvolvimento do turismo e a necessidade de conservação da
biodiversidade, no entanto, a apropriação do espaço pelo turismo está coibindo antigas
horizontalidades e impondo uma nova ordem apoiada por ditames de gestores locais.
Como consequência, processos de resistência e de luta pela garantia do território
pesqueiro estão irrompendo. Utiliza-se uma metodologia qualitativa através da
observação direta em reuniões e baseadas em pesquisas documentais e bibliográficas
com o objetivo de análise da tessitura do capital social operante para o alicerçamento de
processos participativos e associativos no interior dessas comunidades pesqueiras.

Palavras-Chaves: Turismo – Alagoas – Populações Tradicionais – Resistência

RESUMEN: La costa marítima de las localidades de São Miguel dos Milagres y Porto
de Pedras, en Alagoas, presenta características paisajísticas singulares y es un lugar en
el que habitan poblaciones tradicionalmente pesqueras. Este lugar, aislado en el pasado,
en un lapso de quince años se volvió favorable para la ocupación de posadas nominadas
‗do charme‘, dirigidas a un público selecto. Sin embargo, ese encuentro de
territorialidades –tradicionales y turísticas- viene caracterizándose por conflictos e
intereses divergentes. Los discursos de ambos grupos que ejercen esas territorialidades
diferentes no van contra el desarrollo del turismo ni contra la necesidad de conservación
de la biodiversidad, pero la apropiación del espacio por parte del turismo está afectando
antiguas horizontalidades e imponiendo un nuevo orden apoyado por las reglas de las
autoridades locales. Como consecuencia, están surgiendo procesos de resistencia y de
lucha por la garantía del territorio pesquero. Se utiliza una metodología cualitativa, a
través de la observación directa reuniones y basada en investigaciones documentales y

320
bibliográficas, con el objetivo de analizar la estructura del capital social operante para la
consolidación de procesos participativos en el interior de esas comunidades pesqueras.

Palabras claves: Turismo - Alagoas - Poblaciones tradicionales - Resistencia

INTRODUÇÃO

O
presente ensaio tem como proposta refletir sobre a territorialização turística
em comunidades tradicionais e suas repercussões no território. As
populações tradicionais observadas neste estudo estão situadas nas cidades
de Porto Pedras e São Miguel dos Milagres, ambas no litoral norte de Alagoas, no
Nordeste brasileiro. Nestes dois municípios, as características socioespaciais são
similares, nelas ocorre um turismo seleto e exclusivista que prioriza a espacialização do
pousadas voltadas a um número limitado de turistas, mas que no entanto requerem
onerosos serviços com a promessa do usufruto de um local repleto de signos do paraíso.

Neste estudo faremos um breve resgate histórico das duas localidades até a
compreensão da sua realidade presente, traremos as características do turismo no atual
estágio da modernidade, suas características e desdobramentos. Refletiremos sobre os
conceitos de capital social, território – processos de territorialização, desterritorialização
e reterritorialização – e os consequentes movimentos de luta e resistência
desempanhados por determinadas sociedades, para que sirvam de arcabouço teórico
para a compreensão da realidade e dos processos presentes nestes dois municípios.
Intentamos trazer as múltiplas relações oriundas das duas territorialidades, tradicional e
turística, observadas neste estudo. Seja ela na relação turista-morador, na relação
empreendedor-pescador ou na relação empreendedor-turista. E a partir desta observação
examinar como tais relações podem acarretar mudanças nos modos de vida da
sociedade, principalmente nas ditas tradicionais.

O TERRITÓRIO TRADICIONAL E UM POUCO DE HISTÓRIA

No singrar de uma jangada, no arremessar de uma rede, no transpassar de uma agulha


para a concepção de uma nova rede, no imergir ao mar para o exercício do ofício, ou

321
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

simplesmente para inebriar em sua sublimidade, no ir e vir das pessoas, na conversa


sentada na calçada, no rugir da bicicleta, no caçoar dos homens, no pilheriar das
crianças, no contato com o adventício, no trânsito de veículos, na remodelação da
paisagem, a vida em um povoado litorâneo prossegue. Um prosseguir não mais remoto
do hodierno mundo. Um prosseguir com novas configurações e outras transposições.
Em uma velocidade não tão veloz, mas também não mais letárgica. Onde a
variabilidade de relações são ascendentes e os contatos múltiplos. E esse contato ocorre
de diferentes formas e maneiras, às vezes dialogando, às vezes assimilando mudanças.

Esse povoado - banhado por um mar que por tanto tempo se manteve assedado, alisado,
agora é repartido, estriado44, para atender novas demandas - representa o cotidiano das
duas localidades refletidas neste estudo, Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres,
ambos pertencentes ao estado de Alagoas, no nordeste brasileiro. Em tais lugares, para o
exercício de pescar, somente necessitava-se ir ao encontro da concentração do pescado,
agora, esses mesmos lugares, fragmenta-se para o atendimento de novas demandas e
obedecer a determinados fins, como um patchwork (DELEUZE & GUATTARI, 1997c)
de funcionalidades, que ora se transpõem - de forma harmônica - e ora se apartam -
cumprindo ordens extra-locais45. O singrar – não mais exclusivo de jangadas – feito por
numerosos tipos de embarcações competem para o exercício da pesca, o deleite do
viajante e o emprego de prestadores turísticos, além do desbravamento cientifico.

Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres, esta segunda pertencente a primeira até
1960, foram localidades que carregam na sua história a relação estreita com o processo
de Plantation46 da cana de açúcar no final do século XVI. Desse período até meados do
século XX, as transformações socioespaciais acompanharam o processo de expansão47,

44
Conceito de Liso e Estriado, ver a obra DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs - capitalismo
e esquizofrenia. vol. 5. São Paulo: Ed. 34, 1997c.
45
A localidade está localizada na Apa Costa dos Corais, que em seu plano de manejo delimita áreas
exclusivas para pesca, exclusiva para o turismo e fechadas, as quais são exclusivas para reprodução da
vidade marinha, além disso é necessário obedecer regras como defeso.
46
Plantation é nome adotado para especificar um tipo de sistema agrícola baseado em uma monocultura
para exportação, e tem como características ser realizado em latifúndios e a utilização de mão de obra
escrava. Este modelo foi utilizado no período da colonização das Américas, África e Ásia. Atualmente
ainda ocorre em países subdesenvolvidos, porém sem o uso da mão de obra escrava.
47
O plantio da cana de açúcar foi à alternativa encontrada pela coroa portuguesa de obter a dupla
vantagem: recursos econômicos e soberania territorial, diante da anulada expectativa inicial de encontrar
ouro e prata. O açúcar foi o mais importante produto agrícola comercializado na Europa, e até ser
plantando nas Américas era um produto valioso e produzido em baixas escalas. O reino português, após
ter detectado que o clima e o solo do nordeste brasileiro apresentavam um cenário favorável, estabeleceu
para as capitanias, localizadas neste território, a missão do cultivo da cana de açúcar. Famílias europeias

322
as crises e até o declínio dos engenhos de açúcar, acompanhado dos processos de luta do
território entre holandeses e lusitanos e da abolição da escravatura. Todos esses
processos históricos refletiram no povoamento e nas migrações de ambas as localidades.
Suas terras, no século XVI, foram concedidas pelo terceiro donatário da Capitania de
Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho, uma sesmaria, que compreendia desde a
foz do rio Manguaba até o cabo de Santo Agostinho, ao alemão Christopher Linz, entre
os anos de 1575 e 1585 (DIEGUES JR, 2006).

Segundo Diegues (2006), Christopher Linz, ou Cristovão Lins Buarque, recebeu essa
sesmaria como reconhecimento pelos serviços prestados à coroa portuguesa: a
habilidade de caçar e degolar índios, e destruir tribos potiguares. E foi através da
violência que se iniciou o processo de colonização do litoral norte alagoano. No início
do século XVII, em 1608, o alcaider- mor de Porto Calvo, Cristovão Buarque, repartiu
sua sesmaria e doou parte do sul ao seu sobrinho Rodrigo Barros Pimentel, conforme
carta de doação:

―[...] dou e faço doação deste dia para todo o sempre em nome do dito
senhor Rodrigo de Barros Pimentel meu sobrinho de hua sorte de
terras que está vago em Tatuamunha que pelo norte no riaxo das
lages48 no cítio goitizeiro e holhos d´agua com hua legoa de terra [...] (
DIÉGUES JR, 2006, p. 34).

Todo o território de Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres possui reminiscências
da antiga Sesmaria de Santo Antônio dos Quatro Rios, cujo centro político-
administrativo ficava em Porto Calvo, município alagoano. O núcleo de povoamento de
Porto Calvo se dilatou em pequenos povoados, que deram origem às cidades que são
conhecidas atualmente, a maioria transformada em municípios a partir do século XIX
(LINDOSO, 2000). Porto de Pedras também foi palco, primeiro da ocupação holandesa
e depois da fuga dos holandeses após os conflitos travados com os portugueses em
meados do século XVII, tal processo deixou impressões materiais e imateriais no
território. A formação societal de Porto de Pedras e São Miguel baseou-se em uma

vieram então para esta parte do novo mundo com a missão de plantar, colher e exportar o açúcar
mascavo. Como este sistema demandava grande quantidade de mão de obra, a primeira tentativa foi
utilizar a mão de obra índia deste território, mas como estes não atenderam a exigência estabelecida,
então, a solução foi dizimá-los e trazer a mão de obra negra escrava (GALEANO, 1982).

48
Segundo Diegues Jr (2006, p. 36-37), possivelmente o riaxo das lajes refere-se ao Riacho das Lages
que banha povoado de Lages em Porto de Pedras.

323
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

sociedade patriarcal-escravocrata que era constituída pelos donos de extensos


latifúndios de terras; negros escravos; índios servos; colonos brancos pobres de origem
europeia. A inexistência de uma classe média rural era outra característica desta
sociedade. O senhor das terras possuía poder de lei dentro desta sociedade, ele decidia,
cedia, mandava e desmandava em tudo que estava sobre o domínio do seu território. O
uso da violência era uma prática adotada, desde o inicio da colonização, contra os seus
subalternos; e ainda nos séculos mais próximo contra outros senhores para a garantia do
controle social e poder político. Mesmo os brancos livres que viviam na condição de
meeiros ou rendeiros, os quais exerciam a relação de compadrio e de favores recíprocos
com o senhor de terra, na eventualidade de qualquer desavença, esse rendeiro, estava
sujeito a ser expulso do território latifundiário e sem o direito de retirar o que possuía ou
que havia cultivado (LINDOSO, 2000).

A planície litorânea, pela característica do seu solo, não era favorável ao plantio da cana
de açúcar, no entanto, grande parte sua extensão estava dentro dos limites dos
latifundiários. Nesse sentido, foi lá que permitia-se a ocupação da população livre e
pobre. A ocupação da margem do sistema canavieira era um processo interessante para
a economia canavieira da época, e para os séculos posteriores, primeiro pela condição
de reserva de mão de obra para atender a demanda braçal requisitada na atividade
econômica canavieira e também para criar processos complementares a economia -
pequena agricultura, a pesca de frutos do mar, a criação de animais e o incipiente
comércio – os denominados ―setores inorgânicos da economia‖49 para atender o própria
necessidade desse sistema, em proporções limitadas.

Segundo Rocha (2002, p. 63), ―[...] mandioqueiros e pescadores ocupavam uma posição
marginal reservada aos pobres pela matriz de produção, mas desempenhavam uma
função essencial para o funcionamento da economia açucareira‖. Além disso, muitos
dos sítios cedidos na condição de meeiro serviu para a o plantio de coqueiros, que
embora exógenos, rapidamente se introduziram ao bioma da região, e se tornaram nos
séculos posteriores uma fonte econômica apreciável. Fora os espaços cedidos pelos
senhores de engenho o processo de ocupação ocorreu, predominantemente, nas vias de

49
A denominação ―setores inorgânicos da economia‖ foi dada por Caio Prado Junior, na Formação do
Brasil Contemporâneo (PRADO JR, 1983 apud ROCHA, 2002, p. 64) para o trabalhador rural que tem
espaço cedidos em uma espécie de vassalagem e de prestação de serviços, em geral seu processo de
plantio é rudimentar e em escalas de produção limitada.

324
acesso aos povoados e municípios, fora dos domínios das propriedades latifundiárias.
Sobre a formação urbana destas localidades Andrade (1973, p. 158) nos relata que no
início da década de 1970 eram:

[...] meros aglomerados rurais transformados em centros


administrativos com a criação de municípios e distritos, com pequeno
comércio que atende ao abastecimento das áreas vizinhas [...] acham-
se isolados pela falta de transporte consequente do quase
desaparecimento das barcaças e da inexistência de uma estrada que
corta a zona.

A evolução histórica destas localidades apresentaram processos migratórios constantes.


Em Porto de Pedras, por exemplo, a ocupação teve um crescimento até as primeiras
décadas do século passado chegando a possuir 18.802 habitantes, em 1920, e, no
entanto, em 2010, contou-se com a população de apenas 8.429 moradores. Até 1960,
São Miguel dos Milagres pertencia à Porto de Pedras e , provavelmente, uma das causas
do declínio da população de Porto de Pedras, mas não a única responsável por este
declínio da população de Porto de Pedras. Sobre a população urbana, observa-se que da
década de 1980 para 2010 pouco variou, enquanto a rural entrou em claro declínio.

Tabela 1 - Evolução do número de domicílios ocupados do município de Porto de


Pedras: 1970 e 2010
Período/ Variação Total Urbana % Rural %
1901 14.018
1920 18.802
1970 8565 113 224250
1980 9835 3685 37,5 6150 62,5
1991 9615 4035 42 5580 58
Taxa de variação entre -2,23% 9, 5% -9,3%
1980 e 1991
2000 10.238 5199 50,8 5023 49,2
Taxa de variação entre 6,5% 28,9% -10%
1991 e 2000
2010 8429 4798 56,6 3631 43,4
Taxa de variação entre -17,7% -7,7% -27,7%
2000 e 2010
Taxa de variação entre -1,6% 30,2% -41%
1980 e 2010
Fonte: Compilação de dados do Indice Geral de Alagoas e do IBGE (1920; 1970,1980; 1991; 2000;
2010).

50
Os dados apontados referem-se ao número de domicílios e não ao número da população como nas
demais células;

325
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Já São Miguel dos Milagres obteve um crescimento populacional significativo entre as


décadas de 1920 e 2010. O crescimento populacional de São Miguel dos Milagres
ocorreu predominantemente na área urbana, a variação populacional rural apresentou
um leve crescimento entre a década de 1980 para 2010.

Tabela 2 - Evolução do número de domicílios ocupados do município de São Miguel


dos Milagres: 1970 e 2010
Período/ Variação Total Urbana % Rural %
51
1920 1.621
1970 3995 176 24552
1980 4807 952 19,8 3855 80,2
1991 4897 1138 23,2 3759 76,8
Taxa de variação entre 1,9% 19,6% -2,5%
1980 e 1991
2000 5860 1744 29,8 4110 70,2
Taxa de variação entre 19,7% 53,2% 9,3%
1991 e 2000
2010 7163 2261 31,6 4902 68,4
Taxa de variação entre 21,8% 29,6% 19,3%
2000 e 2010
Taxa de variação entre 49% 237,5% 27,1%
1980 e 2010
Fonte: Compilação de dados do IBGE (1920; 1970,1980; 1991; 2000; 2010).

Em uma povoação que emergiu na borda do sistema latifundiário-canavieiro, procedida


do fim das comunidades quilombolas e da necessidade de reserva de mão de obra para
atender ao sistema produtivo-econômico local, foi no mar que buscou o seu principal
meio de sobrevivência, atrelada a uma pequena agricultura de subsistência. Essa
povoação em uma estrutura predominantemente arbórea (DELEUZE & GUATTARI,
1997a), pela presença hierárquica nos seus modos de vida, seja ele na relação de
senhorio exercido pelo latifúndio, no modelo patriarcal de família, pelo prestígio
exercido pela igreja católica e pelo favoritismo enraizado no modelo político local. No
entanto, essa estrutura se rizomatiza (DELEUZE & GUATTARI, 1997a) no modus
operandi voltado para o mar, onde a horizontalidade predomina entre os pares e a
cooperação, solidariamente, serve como estratégia de sobrevivência, além disso envolve
multiplicidade de sentidos e signos na relação homem e o mar, que são quebrados,

51
Em 1920 São Miguel dos Milagres era povoado de Porto de Pedras, essa contagem refere-se a
população presente no povoado;
52
Os dados apontados referem-se ao número de domicílios e não ao número da população como nas
demais células.

326
reconstituídos e iniciados dia a dia. Tal estrutura arbórea-rizomática (DELEUZE &
GUATTARI, 1997a) vem modificando seu caráter para outras relações e forças que
paulatinamente impregnam no território, seja ela pela inserção de outros modelos
econômicos; seja pela crescente mudança na constituição de famílias; seja pela inserção
de outras formas de expressão religiosa; seja pelo ampliação do assistencialismo do
Estado e ainda pela heterogeneidade maior de atores no cotidiano, entre outros fatores,
mas principalmente pelas influências extra-locais em macroescala. Essa nova
configuração se apresenta rizomática pela sua multiplicidade e pela sua
heterogeneidade, no entanto cada uma delas, em maior e menor grau, ainda estão
arraigadas de modelos arbóreos na sua constituição. Essas novas relações, novos nós,
novas linhas - agenciamentos que possibilitam expansão, empoderamentos e, também,
perdas. Os contatos existentes ora se rizomatizam, ora se arborizam, em suas diferentes
formas de se arraigar, e transpassam o cotidiano em correlações arbóreas, rizomáticas,
arbóreas-rizomáticas, rizomáticos-arbóreas (DELEUZE & GUATTARI, 1997a).

A TERRITORIALIZAÇÃO TURÍSTICA

Um dos frutos decorrentes da modernidade sólida (BAUMAN, 2003), a atividade


turística, teve sua ascensão em decorrência do aperfeiçoamento dos meios de transportes
e pela inserção de novos modos de vida desencadeados pela Revolução industrial. Na
solidez da modernidade pós-industrial produzir em massa é o arquétipo que melhor
representa. Em nome desta nova ordem, incorporar novas técnicas e eficiência nos
processos produtivos são os trunfos a serem alçados. A solidez das plantas fabris se
expandem em tamanho e em número e tais números solidificam-se cada vez mais
distantes do seus locais de origem. A industrialização associada ao declínio da vida rural
propiciou a acelerada urbanização das cidades, tais processos derreteram e fundiram
modos de vida na sociedade.

A sociedade não seria mais a mesma, a ampliação da jornada de trabalho e a produção


em massa versaria com a expansão pela busca pelo prazer e pelo consumo em massa.
Tal conjuntura sólida-fluídica tornou favorável ao incremento do turismo na sociedade,
especialmente pelo aumento da classe média no mundo ocidental. Na modernidade pós-
guerra, nunca antes, foi tão cogitada a possibilidade de fluir entre lugares. E assim

327
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

como as plantas fabris, o turismo territorializou diferentes partes do planeta, se instalou


e impôs seu fixos, modificou paisagens e desencadeou novos fluxos para os territórios
que se apropriou.

A transição entre a modernidade sólida e liquida (BAUMAN, 2003) potencializou a


existência de um sujeito em busca da fuga do cotidiano, mas também na ânsia de
colecionar viagens, consumir paisagens e gozar experiências. Mais do que a própria
experiência, o ato de estar em diferentes lugares trouxe o ícone do status. Na era da
homogeneização global o ato de viajar também tornou-se um diferencial na sociedade
que se individualiza. No entanto, assim como os produtos manufaturados, o poder de
viajar também pode ser consumido massificamente - anúncios em escalas ofertam
pacotes de viagens pasteurizados e guiados. A ampliação de redes hoteleiras, a
concepção aviões cada vez mais velozes e com quantitativo maior de lugares, a
espacialização em territórios singulares seguem a lógica da modernidade fugaz. O
pacote de viagem, o qual oferta diferentes lugares em curtos períodos de tempo é uma
interessante representação da sociedade fluída. Qual a melhor opção do que um número
maior de lugares diante tantas alternativas? Como não escolher por aquela que oferece
um maior número possibilidades?

Se na modernidade sólida (BAUMAN, 2003) a busca pelo lazer e pela condição de


possuir uma segunda residência 53 (TULIK, 1995) Para o desfrute do ócio era o que
almeja-se, na era líquida o que impera é estar em diferentes lugares no menor tempo
possível. O ócio não parece ser parte da era fluídica, esse prazer, cada vez mais
desconhecido permuta espaço com fixações da contemporaneidade, dentre elas
presenciar os momentos efêmeros da nossa era. E na época da aparência e da imagem, o
‗estar‘ se sobressai ao ‗vivenciar‘ uma experiência. Inconscientemente, ou
conscientemente, encontrar-se em um ‗não-lugar‘ (AUGÉ,1994) como um aeroporto ou
uma rodovia, também, são insígnias desta nova era.

53
Tulik (1995, p.21) o define como ―um alojamento turístico particular, utilizado temporariamente, nos
momentos de lazer, por pessoas que têm seu domicílio permanente em outro lugar‖. No Brasil, segundo
Becker (1995, p.10), o fenômeno da segunda residência teve sua expansão na década de 1950, em
decorrência dos efeitos do período ―nacional-desenvolvimentismo‖, que gerou as seguintes
consequências: a expansão da classe média, o advento do automóvel particular, construção de rodovias e
forte urbanização.

328
No entanto, nesta dialética ambivalente, onde causas e consequências ora permutam na
hodierna conjuntura, o tenro modo ressurgi. Em uma sociedade de capitalismo tardio,
onde as lutas de classes, paulatinamente, perdem forças para os quem tem maior poder
de consumo (FEATHERSTONE, 1995), o subterfúgio é: encontrar outras formas de
fazer turismo que fuja do modelo massivo. Neste recente contexto, conhecer o exótico,
o tradicional, ter contato com novas culturas são a marca registrada do turista
cosmopolita (HANNERZ, 1999). Um turista que a principio busca o devir e fluir na
cultura do outro, mas essa fruição não ultrapassa o status de voyer. Porque embora
empenha-se em experimentar alteridade cultural, ela não é passível de ser vivida na
integra, visto que a cultura resulta de um processo de valores e modos vivenciados e
solidificados por certa coletividade (SANTOS, 1983). No entanto, as práticas, os
costumes, as aptidões não são congelados, pelo contrário, estão em contínuo processo
de derretimento e de fusão, na qual o constante contato com outras culturas
resignificam a todo instante os modus vivendi e operandi dos povos ditos tradicionais.
Possivelmente, poderíamos dizer que, o encontro de culturas - do cotidiano tradicional e
do efêmero turístico – tenha um efeito maior nos que pertencem ao lugar do que para
aqueles que estão de passagem, mas não desconsiderando que, em maior e menor grau,
esse contato também toque os que estão de passagem efêmera.

Evidentemente, o encontro de culturas, na nossa contemporaneidade, ocorre de diversas


maneiras e formas, físicas e não-físicas, e supor que sociedades tradicionais estejam na
inércia do movimento do tempo – embora o tempo possa ser outro – é ignorar o
conteúdo desses sujeitos, é encapsulá-los no tempo e no espaço. Pelo contrário,
comunidades denominadas tradicionais possivelmente vivenciem o seu cotidiano
distanciadas de complexos urbanos, mas no entanto não deixarão de estar conectadas e
subordinados as imposições extra-locais (SANTOS, 2006), mesmo que
imperceptivelmente. O pertencimento à uma comunidade, preteritamente, representava
uma referência, uma identidade ou mesmo um sobrenome. Nas comunidades atuais
pertencer pode ser fugaz e fugidio conforme as circunstâncias presentes.

Embora na modernidade sólida houvesse uma negação ao passado e ao tradicional


(BAUMAN, 2003), a homogenização deste pensamento frutificou para alguns,
paradoxalmente, o resgate do passado. A evocação do passado, tão condenada no início
da modernidade, ostenta-se diferentes formas, em diferentes substratos, no entanto, não

329
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

é um passado imutável, e, sim, multifacetado, heterogêneo e em constante processo de


reconfiguração. A exemplo disso, evidenciamos o processo de revitalização e
requalificação dos antigos centros urbanos, em que a solidez de edificações pretéritas se
liquefazem para se tornarem objeto de consumo da modernidade liquida (BAUMAN,
2003), atendendo a lógica de cidades turísticas com rico valor patrimonial. No entanto,
apenas fortuitamente concebe-se um patrimônio histórico-cultural absorto no modus
vivendi historicamente construído, avessamente a isso deparamos o desencadeamento
de processos de expulsão da população residente para a configuração da musealização
dos espaços de intervenção, o denominado gentrification, processos de engessamento
das dinâmicas socioespaciais, que qualifica a mercantilização do patrimônio edificado
(FEATHERSTONE, 1995).

Tais processos acima citados são conseqüência da adoção do modelo neoliberal em


praticamente todas as economias do globo, onde cidades se apresentam cada vez mais
competitivas para a conquista de mercado. Sob a égide dos ditames da economia global
tende-se a beneficiar setores privilegiados da sociedade em detrimento da população
geral, apesar de as políticas oficiais de turismo terem como uma das suas metas o
desenvolvimento local (CRUZ, 2006). Enquanto isso, redes hoteleiras, parques
temáticos, companhias aéreas se multiplicam e ampliam suas abrangência e sua
capacidade de carga, para atender uma sociedade cada vez mais segmentada. Tribos se
unem por gostos e interesses semelhantes e, seguindo está lógica, novos produtos
turísticos e formas de fazer turismo são criados para atender a crescente demanda de
motivações. Nesta perspectiva, paisagens e edificações fakes espelham a sociedade
líquida e concorrem com as formas de fluir da sociedade (BAUMAN, 2003).

No entanto esse fluir não ocorre somente sobre a matéria inerte, ele ocorre,
majoritariamente, no locus da vida, na sociedade. Embora em algumas localidades o
turismo já tenha se tornado parte daquela realidade, daquele cotidiano e demandado um
novo contexto. Mas ainda assim, eles estão em constante processo de troca com a vida
das pessoas que ali vivem. E é nesse contexto que buscamos pensar o nosso objeto de
estudo, Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres. Embora não sejam mais cidades
ilhadas, ainda assim apresentam uma temporalidade e uma rotina nos seus modos de

330
vida que carregam impressões de uma sociedade tradicional54. As pessoas que ali vivem
exercem uma relação espaço e tempo diferente de uma cidade de cosmopolita. Apesar
de estarmos todos conectados por dimensões virtuais, a vida naquelas sociedades
exprimem uma estreita simbiose com o meio ambiente e entre os indivíduos presentes
nele.

Nestas múltiplas configurações, o tradicional está em constante simbiose com a


modernidade, porque embora a relação de tempo seja muitas vezes distintas, a relação
com o mundo não está mais isolada, pelo contrário, em maior ou menor intensidade, ora
convergem ora divergem. E essas circunstancias podem ser aceleradas por diversos
processos, dentre eles o turismo. Esta dialética, segundo Foucault, é o reflexo da nossa
era:

Estamos na era da simultaneidade; estamos na era da justaposição, na


era do perto e do longe, do lado a lado, do disperso. Estamos num
momento creio eu, em que nossa experiência do mundo é menos a de
uma vida longa, que se desenvolve através do tempo, do que a de uma
rede que liga pontos e faz intersecções com a sua própria trama.
Poder-se-ia dizer, talvez, que alguns conflitos ideológicos que animam
a polêmica atual opõem os fiéis descendentes do tempo aos decididos
habitantes do espaço (FOUCAULT, 1986, pg. 22).

O turismo em São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras vem demandando novas
práticas e usos no território, embora a atividade turística praticada ali, não seja de
massa, pelo contrário, seja um turismo exclusivista e dotado de pousadas denominadas
do ‗charme‘, o qual prioriza um grupo seleto e com alto poder aquisitivo. E é
justamente em nome da preservação deste público, da exclusividade prometida em um
local paradisíaco que os conflitos estão ocorrendo.

54
Neste estudo, compreende-se como povos ou sociedades tradicionais aquelas apontada por DIEGUES
(et al.,1999) como aqueles indivíduos que têm cultura própria e se reconhecem como tal; possuem
organização social própria; ocupam e utilizam recursos naturais como parte de sua identidade; seu modo
de vida são fundamentados em conhecimentos, inovações e práticas tradicionais; o sistema de exploração
dos recursos naturais é adaptado às condições ecológicas locais e desempenham papel fundamental na
proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica.

331
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

O PARAÍSO E SUAS TERRITORIALIDADES

O turismo praticado em São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras é um turismo, em


principio, que permite que o turista tenha o contato com a cultura através da
convivência com os modus operandi das populações locais. No entanto, parte do
operadores das práticas turísticas, principalmente os denominados pousadeiros 55 ,
vislumbram uma prática turística utópica, e carregada de signos criados para a
construção de um imaginário necessário para a comercialização do turismo. Tais
circunstâncias são afastadas das práticas cotidianas da realidade local. E em nome da
materialidade turística antigas materialidades tradicionais estão sendo coibidas e
56
combatidas. A exemplo do que citamos, palhoças estão sendo queimadas,
marisqueiras estão sendo expulsas, embarcações estão sendo impedidas de serem
estacionadas em porções da praia e acessos a praia estão sendo fechados. Tais
processos de coerção de práticas tradicionais estão desencadeando processos de luta e
resistência por parte de pescadores e marisqueiras das referidas localidades. Embora,
não conheçam na integra os tramites legais para a buscar apoio e a garantia de uso e
acesso ao território pesqueiro, essas garantias estão sendo buscadas, dialogadas e
reforçadas por lideranças locais e pelo apoio institucional de órgão de manejo da APA
Costa dos Corais 57 , através do ICMbio/IBAMA e não governamentais, como o
Conselho da Pastoral dos Pescadores.

No entanto os conflitos existentes demonstram as forças verticais vem pressionando as


forças horizontais da comunidade. Essa pressão vertical é observada pelo discurso de
desenvolvimento trazido pelo turismo e tendo como principais apoiadores os gestores
locais, o arroubo socioeconômico dos empreendedores turísticos e os sectários do

55
Nomenclatura dada aos proprietários de pousadas pelos pescadores locais.
56
Palhoças são edificações, contruidas pelos pescadores para a guarda das embarcações e dos apetrechos
usados na pesca, como rede e outros utensilios, em algumas localidades são denominadas de caiçaras.
57
Foi criada pelo decreto de 23/10/1997 a Área de Proteção Ambiental da Costa dos Corais, localizada
nos Municípios de Maceió, Barra de Santo Antônio, São Luís do Quitunde, Passo de Camarajibe, São
Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga e Maragoji no Estado de Alagoas e São José da Coroa
Grande, Barreiros, Tamandaré e Rio Formoso no Estado de Pernambuco, e nas águas jurisdicionais, com
o objetivo de: garantir a conservação dos recifes coralígenos e de arenito, com sua fauna e flora; manter a
integridade do habitat e preservar a população do Peixe-boi marinho (Trichechus manatus); proteger os
manguezais em toda a sua extensão, situados ao longo das desembocaduras dos rios, com sua fauna e
flora; ordenar o turismo ecológico, científico e cultural, e demais atividades econômicas compatíveis com
a conservação ambiental; incentivar as manifestações culturais e contribuir para o resgate da diversidade
cultural regional.

332
discurso do desenvolvimento econômico. Tal contexto corrobora com Milton Santos
(2006) sobre a existência de uma força vertical sobre os territórios e que liquefazem as
forças horizontais, todavia, não há como negar a existência da força horizontal. Essa
força que busca mecanismos para evitar o total derretimento, através da resistência para
garantir o seu território e seus próprios interesses.

Talvez não tão coesa e, sim, repleta de elementos divergentes presentes no coletivo
interno, não tão claramente opondo-se a existência das verticalidades, mas intensa de
pontos de articulações que os una e que os conecte na luta pela sua própria existência.
Essas comunidades de pescadores artesanais que vem resistindo demonstram a
existência de elevado capital social. O conceito de capital social que nos referimos
corrobora com o pensamento de Bourdieau (1985) ―rede durável de relações‖ de
―reconhecimento mútuo‖ que asseguram a seus membros um conjunto de recursos
atuais ou potenciais na construção e no fortalecimento de poder no seio e no entorno da
sociedade e, também, pela perspectiva de Fukuyama (1995) que dilata pelas
perspectivas de confiança e cooperação por parte dos sujeitos dentro da sociedade,
referindo-se aos recursos morais e mecanismos culturais que reforçam os grupos sociais.

No entanto questionamos quais os elementos que levaram ao capital social ser


construído e enriquecido nestas duas localidades, diferentemente do que ocorre em
outras comunidades tradicionais pesqueiras em localidades próximos e com
características pretéritas similares? Através das propostas apresentadas por Putnam
(2000), o Estado apresenta o papel de interlocutor para construção do capital social.
Mas nos perguntamos, quando não há ação do Estado para que o capital social seja
construído ou em circunstância pior, não há o interesse do Estado para que esse
processo realmente ocorra?

Apesar da afirmativa do papel do Estado para a construção do capital social no seio de


uma comunidade, Putnam (2000) reitera a existência de profusão de capital social em
sociedades coesas que possuem uma cultura comum. Tal perspectiva de cultura comum
reforça o conceito de capital sinergético de Boisier (1999), ou de natureza intangível
proveniente do capital cognitivo, cultural, simbólico, social, cívico, institucional,
psicossocial, humano e midiático. Mas o que seria essa cultura comum? Quais os
elementos que desencadeiam essas sociedades se unirem e partilharem de uma mesma

333
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

cultura? É o espaço que determina essa coesão ou são as relações neles construídas que
geram esse movimento de coesão, de luta e resistência?

Segundo Durkheim (1990, p.42), a influência do ambiente físico se apresenta numa


posição secundária na conduta social, ―[...] [o] território, suas dimensões, sua
configuração a composição da população que se desloca sobre a superfície, são fatores
importantes da vida social; este é o substrato [...]‖. Ele avalia como ―forma exterior e
material da sociedade‖, apesar de defender a importância da morfologia social nas
organizações da vida coletiva e na elucidação sociológica. As materialidades da
morfologia social - costumes, edificações, monumentos, objetos fixos, leis - influenciam
na velocidade e como norteadores para evolução social, no entanto, segundo ele, não
possuem capacidade motora para engendrar o movimento. Durkheim destaca que deve
ser buscado no meio social interno - composto por elementos combinados e dispostos
no espaço, objetos e pessoas - ―[...] a origem primeira de todo processo social de alguma
importância‖ (1990, p. 98), no entanto, somente as pessoas é que geram o movimento.

[...] o número e a natureza das partes elementares de que é composta a


sociedade, a maneira pela qual estão dispostas, o grau de coalescência
a que chegaram, a distribuição da população na superfície do
território, o número e a natureza das vias de comunicação, a forma das
habitações, etc., não parecem, a um primeiro exame, passíveis de se
reduzirem a modos de agir, de sentir e de pensar. (DURKHEIM, 1990,
p. 9).

Émile Durkheim (1990) faz distinção, embora com relações limiares e intrínsecas, dos
modos de ser – fisiologia social – dos modos de agir, pensar, sentir, reagir – fato social.
Segundo Durkheim, são os elementos em sua vida comum, coletivizados por bens,
simbólicos e materiais, e gerados em uma amplitude dinâmica, que possuem a aptidão
de fator determinante da evolução da vida coletiva, no entanto na sua concepção de
determinismo social, não alcança a captação da totalidade composta por estrutura social,
espaço, história e modos de produção.

Contrapondo-se ao uso unilateral do determinismo social de Durkheim, Santos (2006,


p.137) apresenta o território como uma categoria de análise reveladora da totalidade
social, expressa por meio de objetos e ações articuladas entre si como um sistema
complexo. O território ―usado‖ tanto é resultado de um processo histórico quanto a base

334
material e social da existência dos indivíduos, em que envolve a dimensão operacional e
a complexidade de seus usos.

De forma semelhante, Braudel (apud Rodrigues, 2006), também contrariando o


pensamento de Durkheim, revela que mesmo as estruturas mais fixas, mais morosas no
processo de transformação podem influenciar o comportamento social. Estas estruturas,
tanto podem coagir, como definir ou disciplinar, como também ser motor da
criatividade humana.

Segundo Haesbaert (2004), o território, desde a sua origem, tem uma conotação dupla: a
material, representada pela dominação do poder jurídico, político e administrativo; e a
simbólica, demonstrada pelo sentido identitário, vivido e apropriado. Em uma
perspectiva muitas vezes contraditória, o território serve de palco de relações e conflitos
de poder, no qual essas relações são realizadas através de apropriação, dominação,
demarcação, identidade, pertencimento e separação. Por meio do estabelecimento de
vínculos, criações, invenções humanas e práticas sociais é que se produz território ou,
ao menos, as condições para as territorialidades envolvidas.

A condição humana de estar no território pressupõe: pertencimento a um lugar, ter


acesso aos materiais necessários à sobrevivência, ao trabalho, à habitação e às suas
relações identitárias e sociais. Nesse sentido, a perda de vínculos sociais, econômicos e
culturais implica algum afastamento, do homem ou sociedade, em relação à condição
territorial presente em determinado momento.

No caso das sociedades em estudo observa-se que apesar da existência das divergências
internas exercida pelos diferentes sujeitos pertencentes a ela, percebe-se que há uma
solidariedade que atinge o coletivo, não somente ao individuo, a garantia do uso e do
acesso ao território pesqueiro. No entanto, o território tradicional e a espacialidade
turística não se apresentam somente como lados oponentes, de um pescadores
pertencentes a comunidades tradicionais; e do outro empreendedores turísticos apoiados
por gestores públicos e com eles os turistas e visitantes - como se esses dois lados
realmente assim fossem.

Na prática a realidade apresenta uma complexidade que só pode ser compreendida com
uma visão dialética e analítica. Embora cada coletivo, comunidades tradicionais e novos

335
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

atores advindos da prática turística, apresentem diferentes interesses, há entre eles


muitos pontos de intersecção, nós que se atam e se desatam e interesses que convergem
e divergem. E é nesses pontos, nesses nós e nesses interesses que se revela a realidade
destas localidades, as quais de um momento para outro passaram simultaneamente a
serem territórios de práticas tradicionais e de práticas turísticas; território do cotidiano e
de vivência e, também, de práticas efêmeras.

Em terra, a coexistência das duas territorialidades se exibe complexa e em constante


processo de estriamento, mas onde o liso ainda persiste em existir (DELEUZE &
GUATTARI, 1997c). A relação entre o sedentário e o nômade ora se metamorfoseia ora
se destaca e o encontro de tempos intercorre. Onde a territorialização, a
desterritorialização e a reterritorialização transcorrem, onde fixos e flexíveis divergem e
convergem. O rateamento da praia, o levantamento de muros, o fechamento de acessos e
a supressão de antigas materialidades em uma paisagem ainda bucólica, ocorre
imperceptivelmente para o olhar estrangeiro, mas tão claramente para o olhar nativo.
Um estriamento que desterritorializa práticas e costumes pretéritos em detrimento de
uma territorialização de práticas efêmeras e a produção de espaços para a exterioridade
e para a intensificação da alteridade e a recodificação de signos. Tal estriamento
translaça a mudança de uma segmentaridade primitiva flexível para uma
segmentaridade binária rígida entre o visitante-nativo, pescador-pousadeiro, turismo-
tradicional, entre outras binaridades (DELEUZE & GUATTARI, 1997b).

O sedentário e o nomadismo transfiguram seus sentidos a todo instante entre os sujeitos


que tem uma relação com o lugar, seja ela momentânea ou perdurável. O nomadismo do
turista colecionador de paisagens e de experiências passageiras apresenta um certo
sedentarismo pela predominância do seu interesse no ponto e não na linha de percurso,
são as paradas, muitas vezes, que importam, e não o percurso em si (DELEUZE &
GUATTARI, 1997a). Já a relação do espaço com o habitante embora se apresente
sedentária é nômade na sua prática cotidiana, onde novos territórios são desbravados a
cada dia no mesmo território, principalmente para aquele que tem a relação com o mar e
com as matas.

Enquanto a ideologia produzida pela atividade econômica do turismo, as linhas duras,


territorializam, codificam e sobrecodificam signos ou desencadeiam a criação de novos

336
códigos, os movimentos de resistência - fluxo de quanta (DELEUZE & GUATTARI,
1997b) – que tendem a escapar da codificação imputada, e serve de eixo para
reterritorialização das práticas desterritorializadas. Embora sutis, os movimentos de
resistência são impulsionados por certas coerções, no entanto, essas relações, nem
sempre antagônicas, se revezam, ora em processo de mutação, ora de adaptação, ora em
conflito, ora em negociação, mas, provocado pelo movimento, pelo fluxo
caracteristicamente molecular.

Esse movimento molecular de resistência vem para ―contrariar‖, ―furar‖ a tenra


organização que se estabelece (DELEUZE & GUATTARI, 1997b). Desregular a
imposição dos segmentos molares, neste caso o processo de turistificação e a
superestrutura institucional (local e extra-local) de apoio. Esse fluxo molecular exercido
pelas populações pesqueiras pela garantia do seu território, as linhas de fuga, ou melhor
claramente definida pelo seu caráter molecular, fluxos de quanta, ou seja, as forças
materiais e psíquicas que suscitam o movimento de mudança ou de resistência. Tal
agenciamento é desencadeado, segundo Deleuze & Guattari (1997b), pela crenças e
desejos. São eles, crenças e desejos, os fluxos de quanta, que impulsionam o
movimento, mesmo que muitas vezes utópicos ou, aparentemente, irrealizável.

PROCESSOS CONCLUSIVOS

Este trabalho está em processo de investigação. Tais fenômenos descritos neste ensaio
são resultados da vivência e da proximidade com as diferentes atores presentes neste
território. Os contatos ocorreram por meio de diversos momentos, alguns deles pela
participação em reuniões provocadas pelos interesses das associações e colônias de
pescadores dos municípios de Porto de Pedras, São Miguel dos Milagres e Passo de
Camaragibe, em parte para a discussão dos caminhos a serem percorridos para a
garantia do uso do território pesqueiro. Outras observações ocorreram na participação
em reuniões de maior dimensão que contou com a presença dos municipios pertencentes
a Apa dos Corais 58 e através de conversas e entrevistas abertas com a população

58
A Apa Costa dos Corais abrange a costa litorânea dos municípios de Maceió, Barra de Santo Antônio,
São Luís do Quitunde, Passo de Camarajibe, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga e

337
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

tradicional. Além disso foi buscada uma aproximação para identificar o perfil de turista
e dos novos empreendedores turísticos que compõem o trade turístico local.

Todas essas impressões estão buscando ser analisadas e dialogadas com diversas áreas
do conhecimento para compreender mecanismos que geram os movimentos de luta e
resistência nestas sociedades. Para entender, observou-se que, de maneira geral, o
processo de turistificação da costa litorânea de Alagoas ocorreu sem a existência de
conflitos. No entanto, em algumas porções da costa litorânea existem movimentos de
luta para garantia do território pesqueiro. Este estudo supõe que esses mecanismos são
movidos pela existência de capital social entre as populações atingidas. A partir desta
suposição busca-se neste trabalho compreender o conceito de capital social, como ele se
forma e a explicação das diferentes respostas de determinadas sociedades ao mesmo
fenômeno. Para isso buscamos neste ensaio entender o conceito de território,
territorialização, desterritorialização, reterritorialização, além das tessituras para
formação do capital social. Tais conceitos nos levam a questionar quais os
determinismos que suscitam certas respostas e ações dados no seio de certas
coletividade: são territoriais, espaciais, ou são construídas preteritamente no meio social
interno? Tais determinismos – espacial, social ou mesmo psicológico - nos parece, a
principio, complementar para o desencadeamento de tais processos, mas ainda é objeto
de investigação a ser aprofundado e analisado neste estudo.

Dentro desta perspectiva, a territorialização da atividade turística nestas localidades


transcorre por fluxos imagéticos – que publicitam signos e símbolos paradisíacos-, por
fluxos de pessoas - motivadas pela busca do éden e pela fuga dos modos de vida
contemporâneos - e, principalmente, pela inserção de fixos turísticos - são eles os
responsáveis pela imposição de uma nova ordem. Através de novos fixos passagens são
bloqueadas e territorializações tradicionais são barradas. Em um local de apanágio
paisagístico singular a desterritorialização é imposta como subterfúgio para a
conservação paisagística natural e em nome de um progresso econômico necessário. E
aqueles que tinham uma simbiose com o seu habitat agora não mais se enquadram ao
modelo de conservação da biodiversidade. Para isso praias são loteadas, palhoças e
apetrechos pesqueiros são destruídos. No entanto, nesta desterritorialização forças de

Maragoji no Estado de Alagoas e São José da Coroa Grande, Barreiros, Tamandaré e Rio Formoso no
Estado de Pernambuco. Estes dois estados estão localizados no Nordeste Brasileiro.

338
resistência emergem, vozes ecoam e antigas materialidades de cooperação, por
momentos perdida, se reúnem para um novo objetivo - a garantia e uso do território
pesqueiro.

Em uma perspectiva macropolítica, os centros de poder voltados para o


desenvolvimento da atividade turística, que envolve trade turístico, organizações
governamentais - em diferentes escalas- e organizações não governamentais exercem
uma linha de influência sobre o território, sua força econômica, sua potência e toda a
tessitura de agenciamentos que essa potência envolve. No entanto, seu controle não é
absoluto, e está constantemente lidando com fluxos que, embora possa transmutar, não
pode controlar, essa é a sua impotência. Os centros de poder, nos parece, ser impotentes
diante as crenças e desejos de pescadores e pescadoras de uso e posse do seu território.

339
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Manuel Correia de. Aceleração e freios ao desenvolvimento brasileiro.


Petropólis: Vozes, 1973.

AUGÉ, Marc. Não-lugares. Introdução a uma antropologia da supermodernidade.


Campinas: Papirus, 1994.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de


Janeiro: Zahar, 2003.

BECKER, B. K. Levantamento e avaliação de política federal de turismo e seu


impacto na região costeira. Brasília: MMA e Amazônia Legal, 1995.

BOISIER, Sergio. El desarrollo territorial a partir de la construcción de capital


sinergético. Estudios Sociales, n. 99, Santiago de Chile, 1999.

BOURDIEU, Pierre. The forms of capital. In: RICHARDSON, J. G. (Comp.).


Handbook of Theory and Research for the Sociology of Education. Nueva York:
Greenwood, 1985.

BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.

BOURDIEU, Pierre. Las formas del capital. Lima: Editora Piedra Azul, 1998.

BOURDIEU, Pierre. El capital social: apuntes provisionales. In: HERREROS, F.;


FRANCISCO, A. de (Orgs). Capital social. Zona Abierta 95/95, 2001.

CORRÊA, R. L. Espaço: um conceito-chave da Geografia. In: CORRÊA, R. L.;


CASTRO, I. E.; GOMES, P. C. C. (Org.) Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1995. p. 15-47.

CRUZ, R. C. Planejamento governamental do turismo: convergências e contradições na


produção do espaço. In: LEMOS, A. I. G; ARROYO, M; SILVEIRA, M. L. (Org)
América latina: cidade, campo e turismo. São Paulo: CLACSO, 2006. p. 337-350.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia. vol. 1.


São Paulo: Ed. 34, 1997a.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia. vol. 3.


São Paulo: Ed. 34, 1997b.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia. vol. 5.


São Paulo: Ed. 34, 1997c.

DIEGUES JUNIOR, Manuel. O bangüê nas Alagoas: traços da influência do sistema


econômico do engenho de açúcar na vida e na cultura regional. Maceió: Edufal, 2006.

340
DIEGUES, A. C.; et al. Os Saberes Tradicionais e a Biodiversidade no Brasil. In:
DIEGUES, A. C.(org.); et al. Biodiversidade e comunidades tradicionais no Brasil.
São Paulo: NUPAUB-USP, PROBIO-MMA, CNPQ. 1999. Disponível em:
http://livroaberto.ibict.br/bitstream/1/750/2/Biodiversidade%20e%20comunidades%20tr
adicionais%20no%20Brasil.pdf. Acesso em 25 dez. 2013.

DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. São Paulo: Ed. Nacional, 1990.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura de Consumo e Pós-Modernismo. São Paulo: Studio


Nobel, 1995.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do Saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 2.


Edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1986.

FUKUYAMA F. Trust: The Social Virtues and the Creation of Prosperity. Nueva
York: Free Press, 1995.
GALEANO, E. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1982.

HAESBAERT, R. Territórios Alternativos. Rio de Janeiro: Editora Contexto, 2002.

HAESBAERT, R. O mito da desterritorialização: do ―fim dos territórios‖ à multi-


territorialidades. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

HANNERZ, U. Cosmopolitas e locais na cultura global. In: FEATHERSTONE,


M.(Coord.) Cultura global – nacionalismo, globalização e modernidade. Petrópolis:
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Censo 1970 - Alagoas. 2011.
Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-
%20RJ/CD1970/CD_1970_AL.pdf. Acesso em: 07 de setembro de 2011.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Censo 1920 - Alagoas. 2015.


Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-
%20RJ/CD1980/CD_1980_Dados_Distritais_AL.pdf. Acesso em: 07 de junho de 2015.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Censo 1970 - Alagoas. 2015.


Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-
%20RJ/CD1980/CD_1980_Dados_Distritais_AL.pdf. Acesso em: 07 de junho de 2015.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Censo 1980 - Alagoas. 2015.


Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-
%20RJ/CD1980/CD_1980_Dados_Distritais_AL.pdf. Acesso em: 07 de junho de 2015.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Censo 1991 - Alagoas. 2015.


Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-
%20RJ/CD1991/CD_1991_caracteristicas_populacao_domicilios_AL.pdf. Acesso em:
27 de junho de 2015.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Censo 2000 - Alagoas. 2015.


Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-

341
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

%20RJ/CD2000/CD_2000_Caracteristicas%20gerais%20da%20populacao_resultados%
20da%20amostra.pdf. Acesso em: 29 de maio de 2015.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Censo 2000 - Alagoas. 2015.


Disponível em:
ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2000/Dados_do_Universo/Municipios
/. Acesso em: 29 de maio de 2015.

IBGE– Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Cidades@ -Porto de


Pedras/Alagoas. 2015. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1. Acesso em: 21 de junho de 2015.

IBGE– Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Cidades@ - São Miguel dos


Milagres/Alagoas. 2015. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1. Acesso em: 21 de junho de 2015.

LINDOSO, D. Formação de Alagoas Boreal. Maceió: Cataventos, 2000.

PUTNAM, Roberto. La comunidad próspera. El capital socialy la ida pública. In:


HERREROS, F; FRANCISCO, A de (Orgs.). Capital Social. Zona Abierta 94/95,
2001.

PUTNAM, Robert D. Comunidade e Democracia: a experiência da Itália moderna. 2.


ed. Rio de Janeiro: FGV, 2000.

ROCHA, Maria Eduarda da Mota. Pobreza e cultura de consumo em São Miguel dos
Milagres. Maceió: Edufal, 2002.

RODRIGUES, A. B. Turismo e territorialidades plurais: lógicas excludentes ou


solidariedade organizacional. In: LEMOS, A. I. G; ARROYO, M; SILVEIRA, M. L.
(Org) América latina: cidade, campo e turismo. São Paulo: CLACSO, 2006. p. 297-
315.

SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo: Editora brasiliense, 1987.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: EDUSP, 2006.

TULIK, Olga. Residências secundárias: presença, dimensão e expressividade do


fenômeno no Estado de São Paulo. Tese (livre-docência) – Escola de Comunicações e
Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1995.

342
VÍNCULOS TERRITORIAIS E IDENTIDADE(S) NO ASSENTAMENTO
CRUIRI, MUNICÍPIO DE PACATUBA, ESTADO DE SERGIPE59

IDENITY AND TERRITORIAL CONNCTION IN CRUIRI SETTLEMENT,


PACATUBA, IN SERGIPE

Auceia Matos Dourado


Professora da Universidade Federal de Alagoas – UFAL
E-mail: auceiam@hotmail.com

RESUMO: O Assentamento Cruiri no município de Pacatuba, em Sergipe, foi criado


em 1989, como parte das ações do Movimento dos Sem Terra, e se configurou como um
momento de redefinição de novas relações de poder e consolidação da dimensão política
do movimento no estado. Com a criação do assentamento, 35 famílias foram assentadas,
famílias estas que ao longo dos anos de existência, estabeleceram vínculos territoriais
com seu espaço de referência e construíram uma identidade com o território, que se
expressa em formas de apropriação específicas, revelando uma dada dimensão cultural e
um processo de valorização espacial. Por meio de um trabalho de campo, ancorado na
observação direta e em entrevistas semiestruturadas, foi possível compreender que a
afirmação do território do assentamento Cruri, se deu a partir da criação de vínculos
territoriais, refletindo formas próprias de viver e de pertencer ao território. O território e
as identidades nesse espaço são elementos indissociáveis e os vínculos territoriais
instituíram essas territorialidades. Os assentados vivem, ao mesmo tempo, o processo
territorial e o produto territorial por intermédio de um sistema de relações simbólicas e
materiais. A cada dia constroem nós e malhas que os fixam no território, também
construído continuamente.

Palavras-chave: Território; Vínculos Territoriais; Identidade Territorial; Assentamentos


Rurais.

ABSTRACT: The Cruiri settlement in Pacatuba municipality located in Sergipe was


created in 1989, as part of Landless Moviment and Was configurated as a redefinition of
new relations of power and consolidation of political dimension of this moviment in this
state. With this settlement, 35 families was settled, and they established territorial
connections in their reference space and built an identity with this territory, which
express in ways of specific appropriation, revealing a cultural dimension and territorial
valorization. A research was ―in loco‖ based on the direct observation and structural
interview, to comprehend that the afirmation of the Cruri settlement territory was
raised by territorial connections reflecting their own way of living and belonging to this
territory. The territory and identities in their space are inseparable elements and their
territorial connections instituted this territoriality. The settlers live at the same time the
territorial process and territorial product by way of system of symbolic and materials
relations. Each day is built them to set in the territory connections which is continualy
built too.

59
Artigo elaborado com base na tese de doutorado intitulada ―Viver e pertencer: identidades e territórios
nos assentamentos rurais de Sergipe‖, orientada pela Profª Drª Maria Augusta Mundim Vargas do
Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe.

343
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Key-words: Territory; Territorial connections; Territorial identities; Rural settlements

INTRODUÇÃO

A
perspectiva de estabelecer uma mediação entre o conceito de identidade e os
vínculos territoriais no estudo dos assentamentos rurais, sobreveio em
função das especificidades do objeto de estudo, pois os assentamentos,
instituídos nas dimensões da luta pela terra, são concebidos nesse trabalho como
territórios. A formação dos assentamentos rurais no Brasil abrange uma diversidade de
processos sociais e sujeitos envolvidos na trajetória desses territórios construídos pela
apropriação simbólica e funcional do espaço geográfico e permeados por disputas e
conflitos, sendo resultado da heterogeneidade de situações presentes na questão agrária
brasileira.

Esses assentamentos, espaços onde se estabelecem novas relações de poder e novas


sociabilidades, resultam da luta de um grupo social que, pela apropriação, produz e usa
esse território estabelecendo múltiplas e complexas relações. Um território ―[...] objeto
de operações simbólicas [...] [onde] os sujeitos projetam suas concepções de mundo‖
(ALMEIDA 2008, p. 58). Território que antes de tudo é ―[...] uma convivialidade, uma
espécie de relação social, política e simbólica que liga o homem à sua terra e,
simultaneamente, estabelece sua identidade cultural‖ (ALMEIDA 2008, p. 58).

Os territórios dos assentamentos, em sua grande maioria, se constituem ―[...] por um


grupo de pessoas que vivem no mesmo espaço e que [...] se engajaram em um
movimento cuja identidade comum é ser sem terra, e cujo objetivo comum é a busca
pela terra‖ (MEDEIROS, 2009, p. 216). Mais que espaço físico, fronteira, abrigo, é um
lugar de continuidade, de perpetuação da descendência, de projeção de sonhos e
projetos individuais e coletivos, onde práticas sociais são forjadas, onde se cria uma
cultura própria.

Assim a diversidade e complexidade que envolve a formação dos territórios dos


assentamentos rurais, sinaliza que é necessário analisá-los de acordo com suas
especificidades, com destaque para a construção das identidades e territorialidades.

344
Nessa perspectiva trilhar o caminho da construção identitária nos assentamentos rurais,
especialmente a identidade territorial, significa compreender que a posse de um
território estabelecerá laços de pertencimento e de identificação com esse espaço,
expressos pelas territorialidades construídas, resultado das ações do sujeito sobre o
território. Somados as estratégias de vivência no novo território, os significados vão se
multiplicar em um conjunto de ações, expressas como territorialidades, ou seja, um ―[...]
conjunto de práticas e suas expressões materiais e simbólicas capazes de garantirem a
apropriação e permanência de um dado território por um determinado agente social,
Estado e os diferentes grupos sociais [...]‖ (CORRÊA, 1996, p. 251).

Essas territorialidades são construídas a partir do estabelecimento de vínculos


territoriais, um processo construtivo, definido espaço-temporalmente (HEIDRICH,
2009). Nos assentamentos, as territorialidades construídas são compostas por relações
simétricas [e assimétricas], que estabelecem trocas necessárias, equilibrando ganhos e
custos, revelando assim a multiplicidade do espaço vivido (MEDEIROS, 2009).

Nesse sentido, buscando estreitar os laços sobre a construção dos processos identitários
e a realidade dos assentamentos, toma-se como referência o Assentamento Cruiri
localizado no município de Pacatuba, Sergipe, lançando mão de elementos empíricos,
essenciais para a compreensão dos assentamentos rurais expressos como territórios, dos
vínculos territoriais e das identidades construídas.

Metodologicamente considerou-se para organização do artigo as leituras teóricas e as


pesquisas de campo (observação, coleta de dados e entrevistas) realizadas entre os
meses de agosto e outubro de 2012, no referido assentamento, tendo como norte de
análise o assentamento como espaço de referência identitária, os vínculos territoriais e
as territorialidades construídas.

ASSENTAMENTOS RURAIS: UMA LEITURA SOBRE A(S) IDENTIDADE(S) E


OS VÍNCULOS TERRITORIAIS

A perspectiva de entendimento sobre a(s) identidade(s) que permeia esse trabalho,


apesar de considerar outras formas, privilegia a identidade territorial, concebida como

345
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

aquela que ancora-se fundamentalmente nas relações com o espaço, tanto do ponto de
vista material quanto simbólico, anunciando formas de apropriação específicas,
expressões de uma dada dimensão cultural. Essa identidade abarca um processo de
valorização da dimensão espacial, pressuposto para a construção identitária.

Nesse sentido o território, as territorialidades e as identidades são entendidos como


processos indissociáveis, como uma ―trama‖. Apreendemos que a construção de um
território pressupõe a criação de vínculos territoriais que por sua vez refletem formas
próprias de viver e de pertencer a um território, um espaço social e também cultural. Ao
se relacionar com o espaço, os indivíduos demarcam seus lugares e suas culturas. O
espaço é demarcado, apropriado, institucionalizado, qualificado, sinalizado (SOUZA,
2013). O território é a ocupação do espaço e traz em si a influência da cultura na sua
constituição (CLAVAL, 1999).

Essa ocupação, a ―demarcação‖ desse território produz vínculos territoriais que se


expressam não só no uso, ocupação e/ou posse do território, mas também nos
sentimentos de afetividade e de pertencimento. Um território, como reitera Haesbaert
(2009) produto de uma relação desigual de forças, envolvendo o domínio ou controle
político-econômico do espaço e apropriação simbólica, que ora são conjugados e
mutuamente reforçados, ora são desconectados e contraditoriamente articulados.

A organização territorial do espaço do assentamento se junta às práticas, usos e formas


de apropriação transmitidas como herança, contudo sinaliza-se que é necessário também
criar e incorporar novas formas de sociabilidade. Na medida em que se desencadeia a
organização do assentamento e os desafios se apresentam, os assentados tomam
consciência da realidade existente e dos desafios de construir um novo espaço (COSTA;
SOUZA, 2012).

Deste modo concorda-se com as proposições de Cruz (2006) e Haesbaert (1999), para
inserir a identidade construída nos assentamentos como uma identidade territorial, que
envolve relações concretas e simbólicas, materiais e imateriais com o território,
resultado de um processo de vivência entre os assentados e o espaço construído, entre o
que é vivido e experienciado. Uma identidade construída pelo processo de
territorialização ―[...] em que um dos aspectos fundamentais para sua estruturação está
na alusão ou referência a um território, tanto no sentido simbólico quanto concreto.‖

346
(HAESBAERT, 1999, p. 172). Um processo guiado por objetivos e fins específicos:
abrigo, fronteira, meio de sobrevivência, espaço de referência simbólica e cultural.

No caso dos assentamentos, a luta pelo acesso ao território, ancora-se


fundamentalmente na busca pelo acesso a terra de vida e trabalho. Um território que
significa lar, repouso, abrigo físico, fonte de recursos materiais (matérias-primas), meio
de produção, além de representar um espaço de referência e de pertencimento, onde se
afirma uma identidade social e territorial, onde se produz ―significados‖
(HAESBAERT, 2005; 2004).

Se o referente identitário é o território, toma-se como ponto de análise o assentamento


(espaço físico, social e simbólico), como espaço de referência identitária, recortado
espaço-temporalmente. Nesse território se tece a experiência social e cultural, onde ―[...]
são forjadas as práticas materiais (formas de uso, organização e produção do espaço) e
as representações espaciais (formas de significação, simbolização e imaginação do
espaço).‖ (CRUZ, 2006, p. 40).

Desse modo, o assentamento representa um espaço de referência identitária, onde se


constrói identidades e onde se produz relações objetivas e subjetivas. Enquanto espaço
físico (paisagem natural e construída) é fonte de recursos, abrigo, meio de produção e de
sobrevivência. É o espaço onde se organiza as atividades produtivas e se desenvolvem
as relações de trabalho individuais e coletivas.

Enquanto espaço social é onde se estabelece relações de sociabilidade e de


solidariedade, onde as lealdades primordiais60 se colocam como um conteúdo, para além
das relações de proximidade, parentesco ou de compadrio, para se tornar um elemento
essencial à construção contínua do território. Nesse espaço se desenvolve a experiência
coletiva de apropriação e de construção de uma representação social e política.

Já como espaço simbólico e cultural, o assentamento é testemunho de uma história de


luta, do empoderamento de um grupo, da definição de novas relações. É a referência de
uma memória coletiva, a representatividade e simbologia do sonho transformado em

60
As lealdades primordiais são um conjunto de práticas que determinam a organização social e produtiva
do território. Definem a dinâmica e a trajetória dos grupos, fortalecendo os princípios de agregação social
e influência sobre outros princípios tais como os políticos e econômicos (ROMANO, 1994).

347
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

algo concreto, o acesso e/ou posse da terra de vida e de trabalho, o lugar de


enraizamento, de descendência.

Assim destaca-se que essa identidade construída se refere a um território de


pertencimento e esse pertencimento se expressa nos laços de afetividade com o espaço
apropriado, um espaço que é ao mesmo tempo físico, social e cultural. A identidade é,
portanto, uma construção social, cultural e territorial, envolvidos num mesmo processo,
como destaca Souza (2013, p. 213):

[...] o processo de elaboração de uma identidade, é também, o


processo de construção do território. Um e outro ocorrem pelas
mesmas coordenadas, apreendem e apropriam o espaço e seus
elementos, os dotam de significação, simbólica e funcionalmente. A
identidade cria as representações do território, o território as converte
em práticas cotidianas.

Viver e experienciar o território cotidianamente requer o estabelecimento de vínculos


territoriais e a construção de territorialidades. Essa apropriação material e simbólica
resulta da luta de um grupo pelo acesso ao território. Esse viver no território alude à
construção ―[...] do sentimento de pertença e do autorreconhecimento, o que implica em
nós nos reconhecermos como pertencentes a um grupo e a um território específico‖
(CRUZ, 2006, p. 39), ou seja, uma consciência socioespacial, que resultou das práticas,
vivências e ―[...] representações espaciais que envolvem ao mesmo tempo o domínio
funcional-estratégico sobre um determinado espaço (finalidades) e a apropriação
simbólico/expressiva do espaço (afinidades/afetividades)‖ (CRUZ, 2006, p. 40-41).
Refere-se ao espaço vivido, experienciado e construído, por meio dos vínculos
territoriais que se estabeleceram com o território e com as territorialidades instituídas.

As territorialidades são, pois ―[...] simultaneamente, resultado, condicionantes e


caracterizadoras da territorialização e do território.‖ (SAQUET, 2010, p. 127). Ela
resulta da ação do sujeito sobre o território, ação que vai permitir ―[...] fixação,
separação, uso, posse, [...] resultam nas marcas objetivadas pela busca do domínio sobre
o espaço.‖ (HEIDRICH, 2009, p. 275). Enquanto processo histórico são impressões:

[...] simbólicas/subjetivas [e objetivas] das relações sociais e, portanto,


produzem e são produtoras dos territórios num processo cíclico. Elas
representam mudanças e/ou permanência e estão ligadas às
temporalidades. As territorialidades são influenciadas por técnicas e
pelo modo de produção, mas se manifestam na cultura, no

348
comportamento, ou seja, ações de indivíduos e grupos sociais.
(CANDIOTTO; SANTOS, 2009, p. 323).

Assim são construídas a partir do estabelecimento de vínculos territoriais, um processo


construtivo, definido no tempo-espaço. Como resultado das ações e/ou das práticas
sociais, os vínculos territoriais, variam de acordo com os sujeitos e grupos sociais
(HEIDRICH, 2009), pois cada grupo estabelece relações com seu território de modo
específico. No caso dos assentados, atenta-se para a afirmação desses vínculos,
considerando a natureza material e subjetiva, as territorialidades, a identidade territorial,
as tradições e traduções e o sentido de ser assentado, uma identidade social.

Souza (2013) destaca que os vínculos territoriais são componentes essenciais de uma
prática no território que tanto pode ser a afirmação de uma territorialidade quanto de
uma identidade, como também pode ser uma forma de representação. Uma relação
social e cultural, que o grupo mantém com a trama dos lugares (BONNEMAISON,
2002).

Assim como o território, o estabelecimento de vínculos territoriais é um processo


histórico, cumulativo, sendo as territorialidades e as identidades elementos basilares
desta construção. A identidade e a territorialidade são, portanto, elementos capazes de
dinamizar esse processo, pois:

[...] selecionam um número de elementos que caracteriza ao mesmo


tempo, o indivíduo e o grupo: artefatos, costumes, gêneros de vida,
meio, mas também sistemas de relações institucionalizadas,
concepções da natureza, do indivíduo e do grupo. (CLAVAL, 1999, p.
15).

No caso dos assentamentos, a partir do estabelecimento dos vínculos, construíram-se


territorialidades tanto ligadas às práticas funcionais, quanto subjetivas de apropriação do
espaço, assim como a identidade territorial construída também mostra essa mediação, o
domínio funcional e a apropriação simbólica.

As territorialidades relacionadas às práticas funcionais expressam a organização interna


dos assentados, ao construírem seu espaço de referência: formas de produzir e organizar
o espaço.

349
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

No que diz respeito à apropriação simbólica, a identidade territorial construída nos


assentamentos, além de está nas experiências do espaço vivido e nas formas de ser e
estar no território, no qual os sujeitos usam e se apropriam de um território comum,
onde partilham suas experiências cotidianas, também se presentifica na valorização da
luta e na representatividade da conquista da terra.

Essa identidade também se expressa no significado do assentamento, da terra, enquanto


espaço de trabalho, mas, sobretudo como espaço de construção de uma nova
coletividade. Terra e assentamento possuem a mesma significação, são sinônimos, parte
de um mesmo processo.

É nesse fluir, nesse continuum, que demarcamos a construção das identidades no


assentamento. De um lado a imagem daquilo que se formou com o tempo, os valores, a
memória, os símbolos (SOUZA, 2013). Do outro lado à imagem daquilo que se quer
transmitir, projetar, as possibilidades, o acesso, o devir... Os vínculos de pertencimento
se constituem pelas tradições (o passado de luta, as heranças, as raízes) e pela pelas
traduções (os ensinamentos passados aos filhos, estratégias para o futuro e projetos),
(HALL, 2011).

Muito mais do que definir ―quem somos nós‖, essa identidade se funda em ―quem nós
podemos nos tornar" (SOUZA, 2013). A preservação e ao mesmo tempo a mudança são
inerentes aos processos identitários que se fundam na resistência (CASTELLS, 2008).
Preserva-se aquilo que é importante para grupo enquanto elemento de reconhecimento,
de identificação, aquilo que lhes dá garantia de existência. Muda-se aquilo que o exclui,
aquilo que pode legitimar uma ordem desigual.

Em relação à identidade enquanto tradição, um aspecto marcante nos assentamentos é a


manutenção dos valores que ligam esses assentados à terra, a condição de trabalhador e
a história da luta e resistência no território. A influência da cultura na organização do
espaço do assentamento é marcante e percebida à medida que o assentamento é
construído, expressando os jeitos e as práticas que são inerentes à condição de vida de
um grupo social que se formou.

A cultura é percebida a partir da relação com a terra e com a construção do


assentamento, enquanto espaço físico e social, que enquadra e dá sentido. As ações e

350
práticas vão incorporando outras formas de agir, acrescentado novos elementos à
existência cultural. Os elementos do cotidiano, as formas de inserção social e produtiva,
a formação de redes, as práticas sociais ressignificadas vão sendo incorporados à sua
herança cultural.

Esses aspectos denotam a dinâmica da cultura, a ―[...] soma de comportamentos, dos


saberes, das técnicas, dos conhecimentos, dos valores acumulados pelos indivíduos
durante suas vidas e, em outras escala, pelo conjunto dos grupos de quem fazem parte
[...].‖ (CLAVAL, 2001, p. 63).

Nessa construção territorial, que é funcional e também simbólica, a preservação de um


modo de vida, baseado nas relações de proximidade, a ajuda mútua e a sociabilidade, é
o que mantém esse território em constante movimento. Esse, pois são aspectos que
expressam a cultura presente nesse espaço, construída por um grupo social com seu
território de identificação. Claval (1999) enfatiza que a existência dos grupos sociais só
é possível a partir de um território de identificação. Portanto, o sentimento de
pertencimento de sujeitos e/ou grupos ao território emerge a partir de formas de
representação temporais, espaciais e sócio culturais.

Enquanto grupo social ocorre um processo de identificação marcado pela


processualidade. A origem comum, a comunhão e partilha dos mesmos ideais, não
podem ser tomados como aspectos imóveis, pois a identificação é sempre marcada pela
contingência, embora existam elementos materiais e simbólicos que a sustentam, e pela
diferença. ―A identificação é, pois um processo de articulação, uma saturação, uma
sobredeterminação, e não uma subsunção.‖ (HALL, 2011, p. 106).

É a diferença que marca o processo de identificação entre ―nós‖ e ―eles‖, os outros, o


mundo exterior. Entre quem é assentado e quem não é. Entre os que ―participaram‖ da
luta e o que ―não participaram‖: ―[...] quem teve na luta valoriza mais, porque quem
passou pelo que passei mais alguns companheiros nosso [expressão de reflexão,
rememoração]. Quando tem luta é mais sofrido.‖ (Assentado 01 – 70 anos - PA Cruiri).
Essa ideia arraigada da luta como componente de uma identidade demarca de certa
forma uma diferença, uma singularidade em relação aos ―outros‖.

351
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

Se sentem diferentes porque fazem parte de um processo histórico e singular, porque a


condição de acesso e apropriação do território marca o caráter estratégico e posicional
desse processo de construção identitária. Um movimento que é contínuo. Preserva-se
para se construir um território com as características daquele grupo, mantendo-se a
cultura, os valores, as tradições. Assim, existe uma preocupação para que a história do
assentamento seja preservada, uma história que precisa alimentar a identidade de
gerações futuras.

A identidade enquanto tradução se apresenta principalmente pelos desejos de construção


de um espaço que garanta a descendência da família, a permanência dos mais jovens na
terra e o desenvolvimento econômico e social do território. Embora reconheçam as
dificuldades e os problemas enfrentados de infraestrutura (produção, mercado ou
mesmo de natureza física) para se manterem na terra, os assentados consideram que a
condição de ―assentado‖ estabeleceu um novo lugar social para essa população, lugar
que precisa ser preenchido pelos filhos.

As traduções se expressam em diversas ordens: no fortalecimento das solidariedades e


sociabilidades e das organizações representativas, acesso ao mercado, crédito, obras de
infraestrutura e geração de emprego para os mais jovens.

Essas traduções postas como desejos ou mesmo como projetos, denotam a importância
da identidade como elemento mobilizador do território, como elemento capaz de
dinamizar as relações produtivas e institucionais, mas também as relações entre os
assentados. Representam as experiências que os homens vivenciam ao participar de um
grupo, construindo outras ―rotas‖, novos ―rumos‖. São ações que refletem os processos
de territorialização, tanto do ponto de vista coletivo quanto individual. Ao cuidar do seu
lote, zelar pelo espaço do assentamento, conservar os valores que são importantes,
valorizar a cultura própria do assentamento, reafirma-se uma identidade territorial e
social, fortalece-se os vínculos territoriais, em um processo dotado de movimento, de
sentido de mudança, de devir...

352
SUJEITOS E PROCESSOS: VÍNCULOS TERRITORIAIS E IDENTIDADE(S)
NO ASSENTAMENTO CRUIRI, PACATUBA, SERGIPE

A experiência da criação de assentamentos rurais no Brasil intensificou-se a partir da


década de 1980, resultado das lutas de trabalhadores sem-terra ou com pouca terra.
Embora haja registro na história do país da criação de assentamentos 61 principalmente
durante o governo militar, os assentamentos criados a partir desse período possuem
outra representatividade, pois são tradutores das lutas pela terra, sob a mediação dos
movimentos sociais e de entidades de defesa dos trabalhadores do campo, expressas
numa linguagem de reforma agrária.

Os assentamentos rurais podem ser definidos como unidades de produção, criados por
meio de políticas públicas governamentais, principalmente federais, envolvendo a
distribuição de terras a trabalhadores rurais, terras estas obtidas por diferentes
mecanismos: desapropriação por interesse social; compra e doação ou mesmo utilização
de terras públicas.

Para Medeiros (2003), as intervenções que deram origem aos atuais assentamentos em
todo país localizaram-se em áreas de conflito e tensão social, e também recobriram
situações bastante diversificadas: regularização de áreas ocupadas por posseiros,
rendeiros e agregados; destinação de terras a populações que organizadas pelo MST,
sindicatos e outras entidades, acamparam e/ou ocuparam áreas como forma de pressão
sobre o estado; preservação de populações e suas tradicionais formas de uso dos
recursos naturais e realocação de populações atingidas pela construção de grandes
projetos hidrelétricos, dentre outras.

Igualmente os benificiários diretos dos assentamentos, também possuem origem


diversificada. De acordo com Leite et al. (2004), do ponto de vista da inserção produtiva
encontram-se posseiros com longa história de ocupação da terra; filhos de produtores
rurais empobrecidos, que optaram por ocupações como forma de acesso a terra;
produtores atingidos por obras públicas (barragens e hidrelétricas); seringueiros que
passaram a resistir aos desmatamentos que ameaçavam seu modo de vida; assalariados

61
Os assentamentos criados nesse período foram resultado, sobretudo de projetos de colonização
implantados.

353
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

rurais; populações de periferia urbana (com origem rural), além de aposentados que
viam no assentamento uma forma de complemento de renda.

A constituição dos assentamentos tem acarretado a introdução de novos elementos e


agentes que ocasionam alterações nas relações de poder, pois como se trata de uma área
de conflito fundiário, quer envolvendo resistência quer ocupação de terras, o simples
fato de ocorrer uma desapropriação e a consequente criação do assentamento significa o
reconhecimento do conflito por parte do estado, que se concretiza na sua intervenção
mediante desapropriação, (MEDEIROS, 2003).

Para a esfera local do poder público a ―[...] criação dos assentamentos também tem
colocado desafios [...] na medida em que a ela cada vez mais se dirigem reivindicações
ligadas à infraestrutura básica [...] saúde e educação, condições para escoamento da
produção, etc.‖ (LEITE, et al., 2009, p. 10).

Essas especificidades conduzem a compreensão sobre a formação dos assentamentos


rurais no Brasil e em Sergipe, tendo como norte a processualidade histórica,
considerando a apropriação desses territórios como característica principal, seja pelo
uso ou pela multidimensionalidade das relações de poder.

Os territórios dos assentamentos foram criados pela intervenção política que ocorreu
institucionalmente por meio do estado e também pelas ações dos movimentos sociais,
como um comportamento coletivo, organizados territorialmente, através das lutas pela
conquista e posse da terra, resultando numa outra forma de produção do espaço
geográfico. Em Sergipe verifica-se essa dupla especificidade em relação à criação dos
territórios dos assentamentos: a intervenção do estado e a ação dos movimentos sociais.

A ação dos movimentos sociais, em relação à criação dos assentamentos rurais no


estado é um fato expressivo e se exprime na intensa atuação dos trabalhadores na
ocupação das terras consideradas improdutivas ou em situação irregular, mediados por
diferentes atores sociais (igreja, sindicatos e movimentos sociais). Entidades que saíram
em defesa dos trabalhadores e que guiados por preceitos ou por ideologias, reuniram
trabalhadores na busca por um outro projeto de sociedade.

Esses trabalhadores, ao se engajarem na luta pela terra, construíram uma identidade


fundada na resistência e no desejo de construir um espaço de trabalho e de

354
enraizamento. Esse espaço, pelas suas características (apropriação, relações de poder,
espaço de referência e de pertencimento) é um território, uma construção social,
marcado pelo simbolismo e que exprime a organização estabelecida por um
determinado grupo, (VARGAS, 1999, p. 469).

Cronologicamente, o marco de análise do trabalho em questão, tem como referência a


década de 1980, pois é a partir desse momento que as reivindicações pelo acesso à terra
tornaram-se mais presentes no campo sergipano e quando os conflitos passam a
expressar-se em torno de uma linguagem da reforma agrária. Esses conflitos traduzem a
insatisfação dos trabalhadores frente ao modelo de desenvolvimento implantado, que
instituiu um crescimento concentrador de riquezas e excludente.

Contudo a territorialização das lutas pelo acesso a terra em Sergipe se avolumaram


principalmente a partir de 1985, quando o MST – Movimento dos Trabalhadores Sem
Terra surge como principal força mediadora capaz de reunir trabalhadores em torno de
uma bandeira de luta. Essa territorialização que se verifica a partir desse período tem o
significado de acesso a uma fração do território. Segundo Fernandes (1996, p. 238):

[...] se territorializar é um modo eficaz de reação e de demonstração da


sua forma de organização. O espaço de luta e resistência é, portanto
resultado de um projeto de luta dos trabalhadores rurais sem-terra, de
sua sobrevivência como sujeito histórico. Este projeto foi sendo
construído por meio da reflexão, e rompendo com a ordem iminente,
os sujeitos buscaram compreender a sua foram de participação na
sociedade capitalista.

Portanto é necessário reconhecer que as lutas dos trabalhadores encontraram na Igreja 62


e posteriormente nos movimentos sociais, sobretudo o MST, a probabilidade de
construírem um espaço de socialização política, pois os mesmos possibilitam a
elaboração de práticas, de formas de luta e de enfretamento nos diferentes níveis das
relações sociais.

Essas dimensões ampliaram o sentido da luta pela terra que passou a ser entendida para
além das questões econômicas, ou seja, como um projeto sociocultural de transformação
de suas realidades, de construção de uma nova identidade, fruto dos conflitos e também
das ações desses sujeitos, com o objetivo de promover transformações específicas e

62
A Igreja Católica, sob a influência de Dom José Brandão de Castro, teve um papel fundamental na luta
pela terra principalmente no Alto Sertão e no Baixo São Francisco.

355
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

gerais nas relações de poder (FERNANDES, 1999). Ao reunirem os trabalhadores em


torno desse projeto, o movimento criou possibilidades efetivas de acesso ao território,
de construção de um espaço de afirmação enquanto trabalhadores livres e de mudanças
nas relações sociais de produção e de trabalho.

É nesse contexto de lutas pelo acesso a terra e sob a pressão dos movimentos sociais que
foi criado em 1989, o Assentamento Cruiri. Localizado no município de Pacatuba, o
assentamento possui uma área de 585 hectares, onde foram assentadas 35 famílias
(Figura 01).

Figura 01 - Assentamento Cruiri, município de Pacatuba, Sergipe (2015)

Fonte: Atlas digital de Recursos Hídricos (2012).


Org.: LIMA, Rodrigo Santos de (Jul./2015).

A ocupação da fazenda Cruiri foi a maior operação realizada pelo MST em Sergipe, até
então não superada, seguindo um planejamento na qual a conceito da luta pela reforma
agrária, como fundamento político era parte do ideário. Embora fosse consciência do
MST que todas as famílias não poderiam ser assentadas na área da fazenda Cruiri, pois a
ocupação mobilizou cerca de 4.500 pessoas, o ato de ocupar consolidava a dimensão
política do movimento: pressionar as autoridades para efetivação do plano de reforma
agrária criado em 1985; fortalecer as lutas dos trabalhadores demostrando as

356
possibilidades de ação do movimento de forma efetiva e imediata; buscar autonomia
frente a outras instituições que até então tinham a força mediadora e mesmo tutelar da
luta no estado, a exemplo da Diocese de Propriá e, se consolidar como um movimento
de massa.

Os trabalhadores ficaram acampados na fazenda Cruiri no período de 5 de fevereiro a 26


de julho de 1989, quando houve a imissão de posse. Esse período foi marcado por
intensa mobilização do governo Estado e de entidades ligadas ao agronegócio, no
sentido de desmobilizar o movimento e retirar os trabalhadores da área. Esses aspectos,
contudo fortaleceram o sentido de luta dos ocupantes, que construíram o assentamento
enquanto um espaço de luta e de ação, um espaço produtivo, mas, sobretudo um espaço
de vida (Figuras 02 e 03).

Figuras 02 e 03 - Agrovila. Assentamento Cruiri, município de Pacatuba, estado de


Sergipe

Autora: SOUZA, Angela Fagna Gomes de.


Fonte: Pesquisa de Campo, 2012.

O assentamento ao longo dos anos se consolidou como uma fração do território,


conquistado na espacialização da luta, como resultado de um trabalho coletivo, ―[...] um
espaço político por excelência [...] trunfo particular, recurso e entrave, conteúdo e
continente, tudo ao mesmo tempo‖ (RAFFESTIN, 1993, p. 59-60). Um espaço que
passou a exprimir as formas de ser e estar nesse novo território. Formou-se então uma
comunidade que faz parte de uma esfera cultural mais ampla nas quais inúmeras
significações se entrecortam, produzindo formas específicas de apropriação em grupo
ou individual, (BRANCO, 2003).

357
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

O território conquistado passou a ser trunfo e possibilidades (FERNANDES, 1996):


―[...] a gente começou um conhecimento com o MST [...]. Ai [...] eles deu essa
orientação [...]. Nóis entrou no dia 5 de fevereiro de 1989, quando foi dia 26 de julho,
recebemos a emissão de posse, ai [...] começamos a andar com nossos pés‖ (Assentado
01 – 70 anos - PA Cruiri).

Quando nós entramos aqui o INCRA doou umas lonas, depois tiramos
as lonas e ele deu umas telhas, nóis fez uma casinha. Depois veio
novamente e diz “agora o governo vai liberar um dinheiro ai pra
vocês crescer a casa”, ai doou a cada um 18 salários, então não dava
pra nóis fazer como está, mas caminhamos um pedaço bom. Ficamos,
ajeitamos depois veio uma reforma. Ai com essa reforma o que o
INCRA doou pra reforma deu e o que não deu a gente foi ajeitando e
complementando (Assentado 01 – 70 anos - PA Cruiri).

[...] quando eu tô na luta cuidando do pouco que o pai deles deixou,


eles vai comigo e faz tudo comigo [...] ele [o filho mais velho], só
falou que não quer trabalhar nas cana, porque a maioria dos jovens
aqui trabalha nas cana, cortando cana e ele não quer isso. Ai eu digo,
então estude pra ter um trabalho digno, para você quando crescer
[...] ou mesmo trabalhar na terra que é nossa (Assentada 03 – 26 anos
- PA Cruiri).

Com a formação do assentamento, os trabalhadores construíram uma nova concepção de


espaço, organização, produção, lazer, relação com o mundo e entre as pessoas e com a
própria luta. Trouxeram consigo sua cultura anterior, passando agora pela construção de
outras identidades e novas territorialidade a partir da organização do assentamento. Ou
seja, outras identidades foram instituídas fundadas no pertencimento ao território e na
afirmação de uma identidade social e territorial.

Se a conquista da terra se configura como o primeiro passo para se estabelecer os laços


de pertencimento e de identificação, a afirmação desse espaço de referência, que é o
território construído, requer um esforço contínuo daqueles que o desejaram, que o
projetaram enquanto espaço de vida e de trabalho. No caso do Assentamento Cruiri, a
construção do território, o estabelecimento dos vínculos territoriais e a afirmação das
territorialidades estão ligadas as práticas funcionais de trabalho e organização social,
mas também possui um conteúdo subjetivo de apropriação do espaço.

O modelo artesanal de produção centra-se no trabalho familiar, seguindo critérios de


produção baseados nas leis da natureza e tradição (ZAMBERLAM, 1994). O trabalho

358
no lote, com 24 tarefas (7,33 hectares), absorve todos os membros da família, tendo a
força animal como complemento (ZAMBERLAM, 1994).

Homens e mulheres dividem o mesmo espaço de trabalho que se concentra


principalmente entre os meses de março a julho: ―(...) todo mundo faz de tudo um
pouco, eu mesmo, falar a verdade, eu faço tudo. Se tiver de fazer uma roça eu faço, eu
trabalho em tudo.‖ (Assentada 03 – 26 anos - PA Cruiri).

Aqui todo mundo faz tudo. Eu roço o mato, quando eu queimo a


mulher toma conta do trabalho que é pra a gente covarar aquele
garrancho. Quando eu vou cavar a terra, a mulher tá encostada que é
pra plantar a mandiba. E os meninos nas horas vagas, eles tão mais a
gente, a hora vaga eu digo, fora da escola (Assentado 01 – 70 anos -
PA Cruiri).

Outra atividade praticada no assentamento é a fabricação de redes de pesca de arrasto e


tarrafa que se constituem como práticas sociais, majoritariamente, desenvolvidas pelas
mulheres. Realizadas geralmente de forma coletiva, no espaço da casa ou em áreas
próximas, as práticas sociais presentes no assentamento são entendidas nesse contexto
como ―[...] procedimentos, métodos ou técnicas hábeis executados apropriadamente
pelos agentes sociais.‖ (O´DWYER; MATTOS, 2010, p. 616). Essas práticas são
dinâmicas no tempo e no espaço e podem ser consideradas ―[...] herança de tradições,
normas, regras e rotinas geradas e repetidas nas atividades diárias, que alcançam, assim,
o caráter de algo legítimo [...]‖ (GIDDENS, 1984, p. 67).

No assentamento Cruiri, essas práticas acompanharam os assentados na construção do


território, pois já eram realizadas anteriormente no antigo povoado onde moravam, uma
tradição transmitida entre as mulheres, trabalho que exige habilidade, destreza ―[...]
compartilhado e realizado coletivamente por grupos de três a cinco mulheres [...]. Tecer
uma tarrafa exigia o trabalho de alguns dias de muitas pessoas [...]‖ (SANTOS, 2005, p.
51).

Essas práticas, somadas ao trabalho no lote e as relações que se estabeleceram no novo


território possibilitaram aos assentados a afirmação desse território como meio de
subsistência, ou seja, pelo trabalho e pela produção se consolidaram os aspectos
materiais e imateriais das relações sociais. A identidade territorial foi construída nas
experiências do espaço vivido e nas formas de ser e estar no território. O uso e

359
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

apropriação do território comum consolidaram o assentamento enquanto referente


espacial identitário.

Os vínculos territoriais se estabeleceram como resultado das ações e das práticas sociais
que os assentados construíram ao longo do tempo: ―Gosto muito de morar aqui‖
(Assentada 05 – 49 anos – PA Cruiri). ―[...] dizem uma parte de gente que mora em
assentamento por ai, dizem que o local mais bem organizado, com a igreja mais bonita
é esse assentamento aqui‖ (Assentado 06 – 94 anos - PA Cruiri).

[...] Eu gosto de morar em agrovila porque, desde o feitio dessas


casas, essa agrovila quem detalhou ela foi nóis, e eu fui um dos
principais. Então, fizemos a agrovila, todo mundo se agradou, veio
esse calçamento e eu tô satisfeito. (Assentado 01 –70 anos - PA
Cruiri).

Como é morar no assentamento para você? É bom, é maravilhoso


[...] é ótimo. O que você mais gosta daqui? É a união que a pessoa
tem, uns com os outros, o amor, o carinho, dedicação, respeito.
Porque aqui é donde a gente organiza tudo, n/é?... tem tudo, a gente
planta, no tempo de colher a gente colhe, e tem tudo que a gente quer.
Se não tem é porque a gente não se interessa pra fazer. (Assentada 03
– 26 anos - PA Cruiri).

Esses vínculos produziram um sentimento que tornaram os sujeitos parte do seu


território. Pertencer, ser assentado, fazer parte da comunidade, ser do lugar, querer vê-lo
crescer, deixar a terra como herança para os filhos, são sentimentos e ações que tornam
estes sujeitos enraizados, conectados ao seu território, ao seu lugar de existência.
Portanto, são vínculos criados e desvelados a partir das nuances da vida social dos
sujeitos, na sua relação com espaços de vivência, com o território (SOUZA, 2013).

Assim, denota-se que os vínculos foram construídos como resultado da mediação entre
os aspectos materiais, simbólicos e culturais. A religiosidade que tanto marcou os
períodos de enfretamento, a fé em torno da posse da terra prometida, é reafirmada,
sobretudo nos festejos dedicados à padroeira, Nossa Senhora da Paz, a cada dia 1 de
janeiro.

A visita à margem da lagoa 63 , um ―lugar de memória‖ é também um momento de


rememorar os acontecimentos, de possibilitar que a história da luta não se apague e que

63
Próximo ao assentamento há uma lagoa que se forma por ocasião das chuvas, um lugar onde se reuniam
para rezar e discutir os planos de ação do grupo.

360
sirva para manter o território, para dar continuidade a uma trajetória que iniciou-se
primeiro como um desejo, para depois firmar-se como realidade: ―[...] eu sempre falo
que o que a gente conquistou quando não quiserem usar deixe pra o filho de vocês,
ande por onde andar quando chegar tem um local pra ficar‖ (Assentado 02 – 54 anos -
PA Cruiri).

O assentamento hoje é ―abrigo‖, ―recurso‖, um elemento fundamental de identificação


ou simbolização de grupos através de referentes espaciais (CRUZ, 2006; HAESBAERT,
2005). O território construído 64 e ao mesmo tempo em construção é principalmente
relacional, com uma multidimensionalidade, para além do Estado, com variantes,
trunfos, formas, objetivos e significados. Território que ―[...] é antes de ser um fato
consolidado, é uma relação e, por isso, está sujeito a instabilidades e posições que não
lhes são concordantes, aquilo que lhe sustenta, seus elos constituintes também não são
fixos ou absolutos.‖ (HEIDRICH, 2009, p. 277, grifo nosso).

Destaca-se que as territorialidades se expressam no território do assentamento em


diversas ordens: nas atividades diárias, nas práticas sociais, nas relações materiais e
simbólicas, no pertencimento e na identidade territorial continuamente reafirmada.
Tecem redes, como tecem a vida. Cultivam a terra, como cultivam os sonhos.
Experienciam a realidade e constroem territorialidades que refletem a
multidimensionalidade do vivido territorial. Esse território é meio de vida, recurso... Os
assentados vivem, ao mesmo tempo, o processo territorial e o produto territorial por
intermédio de um sistema de relações simbólica e matérias (RAFFESTIN, 1993). A
cada dia constroem nós e malhas que os fixam no território, também construído
continuamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As histórias e memórias sobre as lutas dos assentados do Cruiri, passados 26 anos desde
sua criação, nos permite afirmar que esse território não é apenas chão, terra, mas
principalmente um espaço de identidade, de identificação, onde foram construídas

64
A concepção de construção nessa assertiva refere-se à definição de fronteiras, quando da
desapropriação da área com a demarcação dos lotes e das áreas de uso coletivo.

361
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

territorialidades, expressas como manifestações subjetivas e objetivas, através do uso e


apropriação desse território (SAQUET, 2010).

O assentamento é, pois, abrigo, fronteira, meio de sobrevivência, espaço de referência


simbólica e cultural. Um território que ―[...] não tem o seu significado apenas na
materialidade visível e no que é mensurável, e sim no conjunto de relações que pode
manter com outros elementos da vida social.‖ (ALMEIDA, 2009, p. 186). Terra e
assentamento possuem a mesma significação, são sinônimos, parte de um mesmo
processo. Nesse espaço se construiu uma identidade territorial, pelo uso no sentido
funcional e pela apropriação no sentido subjetivo: ―Essa terra significa o retrato da
minha luta. Por isso não tem preço, não tem troca.‖ (Assentado 02 – 54 anos - PA
Cruiri).

No Assentamento Cruiri, a luta pelo acesso ao território ancorou-se fundamentalmente


na busca pelo acesso a terra de vida e trabalho. Um território que significa lar, repouso,
abrigo físico, fonte de recursos materiais (matérias-primas), meio de produção, além de
representar um espaço de referência e de pertencimento, onde se afirma uma identidade
social e territorial, onde se produz ―significados‖ (HAESBAERT, 2005; 2004).

Essas nuances, revelam os pressupostos essenciais da identidade territorial, que nesse


caso é expressa pelo significado do assentamento, da terra, enquanto espaço de trabalho,
mas, sobretudo como espaço de construção de uma nova coletividade, resultado da
vivência entre os assentados e o espaço construído, entre o que é vivido e experienciado.
A partir de suas práticas os assentados articularam múltiplas posições e identificações
dos sujeitos envolvidos no processo. Essas relações que se estabeleceram foram
responsáveis pela afirmação do assentamento enquanto espaço de vida e de trabalho,
revelando os vínculos territoriais e as identidades expressas através de suas relações
cotidianas.

362
REFRÊNCIAS

ALMEIDA, Maria Geralda de. Diversidade paisagística e identidades territoriais e


culturais no Brasil sertanejo. In: ALMEIDA, Maria Geralda de; CHAVEIRO, Eguimar
Felício; BRAGA, Helaine Costa. (Orgs.). Geografia e Cultura: os lugares da vida e a
vida dos lugares. Goiânia: Vieira, 2008, p. 47-97.

ALMEIDA, Maria Geralda de. Diáspora: viver entre-territórios e entre-culturas. In:


SAQUET, Marcos Aurélio; SPOSITO, Eliseu Savério. Territórios e territorialidades:
teorias, processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 175-195.

BRANCO, Maria Tereza Castelo. Jovens sem-terra: identidades em movimento.


Curitiba: UFPR, 2003.

BONNEMAISON, Joel. Viagem em torno do território. In: CORRÊA, Roberto Lobato;


ROSENDAHL, Zeni. (Orgs.). Geografia cultural: um século (03). Rio de Janeiro:
Editora da UERJ, 2002, p. 83-131.

CANDIOTTO, Luciano Zanetti; SANTOS, Roselí Alves dos. Experiências geográficas


em torno do conceito de território. In: SAQUET, Marcos Aurélio; SPOSITO, Eliseu
Savério. Territórios e territorialidades: teorias, processos e conflitos. São Paulo:
Expressão Popular, 2009, p. 315-340.

CASTELLS, Manoel. O poder da identidade. Tradução de Klauss Brandini Gerhardt.


7. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

CLAVAL, Paul. A geografia cultural. Florianópolis: Editora da UFSC, 2001.

CLAVAL, Paul. O território na transição da Pós-modernidade. Geograpia, Niterói; RJ,


ano I, n. 2, p. 7-26, 1999.

CORRÊA, Roberto Lobato. Territorialidade e corporação: um exemplo. In: SANTOS,


Milton; SOUZA, Maria Adélia; SILVEIRA, Maria Laura (Org.) Território:
globalização e fragmentação. 3 ed., São Paulo: HUCITEC/ANPUR, 1996, p. 251-256.

COSTA, Davi Silva da; SOUZA, Heron Ferreira. Jovens no rural baiano: perspectivas
de análise a partir de múltiplas referências. ANAIS DO XXI ENCONTRO NACIONAL
DE GEOGRAFIA AGRÁRIA. ―Territórios em disputa: os desafios da Geografia Agrária
nas contradições do desenvolvimento brasileiro.‖ Universidade Federal de Uberlândia.
ISSN: 1983487X. 2012. Disponível em:
http://www.lagea.ig.ufu.br/xx1enga/caderno_enga_2012_divulgacao.pdf. Acesso
em: 19. Nov. 2013.

CRUZ, Valter do Carmo. Pela outra margem da fronteira: território, identidade e


lutas sociais na Amazônia. 2006. 199 f. Dissertação (Mestrado em Geografia). PósGeo.
Universidade Federal Fluminense, UFF, Rio de Janeiro, 2006.

363
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

FERNANDES, Bernardo Mançano. MST: formação e territorialização. São Paulo:


Hucitec, 1996.

FERNANDES, Bernardo Mançano; STEDILE, João Pedro. Brava gente: a trajetória do


MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abrano, 1999.

GIDDENS, Anthony. The constitution of society: outline of the Theory of


Structuration. Cambridge: Polity Press, 1984.

HAESBAERT, Rogério. Da desterritorialização à multiterritorialidade. ANAIS DO X


ENCONTRO DE GEÓGRAFOS DA AMÉRICA LATINA. São Paulo, 2005.

HAESBAERT, Rogério. Dos múltiplos territórios á multiterritorialidade. Porto


Alegre, 2004. Disponível
em:<http://default/files/CONFERENCE_Rogerio_HAESBAERT.pdf>. Acesso em: 14.
Abr. 2011.

HAESBAERT, Rogério. Identidades territoriais. In: CORRÊA, Roberto Lobato;


ROSENDAHL, Zeni. (Orgs.). Manifestações da cultura no espaço. Rio de Janeiro:
Editora da UERJ, 1999, p. 169-189.

HAESBAERT, Rogério. Territórios alternativos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2009.

HALL, Stuart. Quem precisa de identidade. In: SILVA, Tomaz Tadeu (Org.).
Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2011, p.
102-133.

HEIDRICH, Álvaro Luiz. Conflitos territoriais na estratégia de preservação da natureza.


In: SAQUET, Marcos Aurélio; SPOSITO, Eliseu Savério. Territórios e
territorialidades: teorias, processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p.
271-290.

LEITE, Sérgio; et al. Impactos dos assentamentos: um estudo sobre o meio rural
brasileiro. Brasília: Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura; Núcleo
de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

LEITE, Sérgio; et al. A formação dos assentamentos rurais no Brasil: processos


sociais e políticas públicas. 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009.

MEDEIROS, Leonildo Servolo de. Reforma agrária no Brasil: história e atualidade da


luta pela terra. São Paulo: Fundação Perseu Abrano, 2003.

MEDEIROS, Rosa Maria Vieira. Território, espaço de identidade. In: SAQUET, Marco
Aurélio; SPOSITO, Eliseu Savério. Territórios e territorialidades: teorias, processos e
conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 217-227.

O´DWYER, Gisele; MATTOS, Ruben Araújo de. Teoria da estruturação de Giddens e


os estudos de práticas avaliativas. Physis - Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro,

364
v. 20, p. 609 - 623, 2010. Disponível em: <
http://www.scielo.br/pdf/physis/v20n2/a15v20n2.pdf. Acesso em: 10. Dez. 2013.

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. Tradução de Maria Cecília


França. São Paulo: Ática: 1993.

ROMANO, Jorge Osvaldo. Poder, valores e conflito nos processos de organização no


interior dos assentamentos: comentários a um debate. In: MEDEIROS, Leonildo
Servolo de; et al. Assentamentos rurais: uma visão multidisciplinar. São Paulo:
Editora da UNESP, 1994. p. 271-285.

SANTOS, Marilene. Práticas sociais de produção e unidades de medidas em


assentamentos do nordeste sergipano. 2005. 80f. Dissertação (Mestrado em
Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade do Vale do Rio
dos Sinos, UNISINOS, São Leopoldo, 2005.

SAQUET, Marco Aurélio. Abordagens e concepções de território. São Paulo:


Expressão Popular, 2010.

SOUZA, Angela Fagna Gomes de. Ser, estar, permanecer: vínculos territoriais das
gentes que povoam as margens e as ilhas do Rio São Francisco. 2013. 292f. Tese
(Doutorado em Geografia). Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade
Federal de Uberlândia, UFU, Uberlândia, 2013.

VARGAS, Maria Augusta Mundim. Desenvolvimento regional em questão: o Baixo


São Francisco revisitado. São Cristovão, SE: UFS/NPGEO, 1999.

ZAMBERLAM, Jurandir. Reflexões sobre algumas estratégias para viabilização


econômica dos assentamentos. In: MEDEIROS, Leonildo Servolo de; et al.
Assentamentos rurais: uma visão multidisciplinar. São Paulo: Editora da UNESP,
1994. p. 271-285.

365
GEOGRAFIA, TURISMO E CULTURA: diálogos sobre território,
territorialidades, sociedade e natureza no Brasil e na América Latina

ESPAÇOS DE DIÁLOGO NA FEIRA VOCACIONAL DA JORNADA


MUNDIAL DA JUVENTUDE

ESPACIOS DE DIÁLOGO EN LA EXPOSICIÓN VOCACIONAL DE LA


JORNADA MUNDIAL DE LA JUVENTUD

Eliéte Furtado Cecílio e Silva


Mestranda do Programa de Pós Graduação em Geografia – PPGEO/UFS
E-mail: eliete.furtado@gmail.com

Maria Augusta Mundim Vargas


Professora do Programa de Pós Graduação em Geografia- PPGEO/UFS
E-mail: guta98@hotmail.com.br

RESUMO: A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é um evento católico itinerante


iniciado em 1986 com o papa João Paulo II, e tem por objetivo maior a evangelização
dos jovens. Escolhemos estudar a Feira Vocacional, ocorrida na 13ª edição internacional
da JMJ em julho de 2013 no Rio de Janeiro, por possibilitar a análise sobre os territórios
e as territorialidades desse evento. A Feira Vocacional é aberta aos peregrinos/turistas
com vistas a demonstração das congregações, comunidades, ordens e movimentos
católicos. Foi possível apreender a diversidade da representação da Igreja Católica bem
como suas espacializações nos continentes e países e a sua capacidade de tecer redes
seja por meio daqueles que se preocupam com o espiritual, das estruturas funcionais
como escolas, saúde, necessidades básicas ou daqueles que controlam o sistema
religioso.

Palavras chaves: Território, Territorialidade, Geografia da Religião, Representação.

RESUMEN: La Jornada Mundial de la Juventud (JMJ) es un evento católico itinerante


iniciado en 1986 con el Papa Juan Pablo II, y su objetivo principal es la evangelización
de los jóvenes. Elegimos para nuestro estudio la Exposición Vocacional, que tuvo lugar
en la 13° edición internacional de la Jornada Mundial de la Juventud en julio de 2013 en
Río de Janeiro, al permitir el análisis de los territorios y territorialidad de este evento.
La Exposición Vocacional fue abierta a los peregrinos / turistas con el fin de demostrar
las congregaciones, comunidades, órdenes y movimientos católicos. Fue posible
aprehender la diversidad de la representación de la Iglesia Católica y sus
espacializaciones en los