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Público • Sexta-feira 10 Setembro 2010 • 39

Crença na revolução levou a militante comunista a adoptar a violência – e depois a ser uma das suas vítimas

Para além da morte trágica de Sita Valles

S A
DR
ita Valles teve uma morte horrorosa. Foi tor- té aqui a jovem comunista não se distin-
turada, violada e executada com vários tiros guiria muito da grande maioria dos mi-
destinados a provocar sofrimento. Conta-se litantes radicais dessa época – ou só se
que se portou de forma corajosa e enfren- distinguiria por ser mais trabalhadora,
tou os torcionários. E também ninguém du- mais organizada, mais brilhante e… mais
vida de que a orgia de violência desencadeada pelo bonita. Só que Sita, em Angola, foi mais do que uma
regime de Agostinho Neto depois do 27 de Maio de militante. Não restam grandes dúvidas de que de-
José 1977 foi um crime só comparável aos grandes mas- sempenhou um papel maior no grupo de Nito Alves e
Manuel sacres políticos do violento século XX. José Van-Dunem. E, apesar de aí este livro ser quase
Fernandes Mas isso não faz de Sita Valles uma heroína. Ou, omisso, também não deviam restar grandes dúvidas
Extremo pelo menos, não devia fazer. Contudo, foi muito
essa imagem que passou para os jornais aquando do
de que este grupo defendia soluções para Angola no
mínimo tão radicais, e tão brutais, como as do grupo
ocidental lançamento do último livro de Leonor Figueiredo, de Agostinho Neto. As prisões de Angola não ficaram
Sita Valles – Revolucionária, Comunista até à Morte. cheias só depois do 27 de Maio. E, no próprio 27 de
Isto apesar de o livro, que mais do que uma biografia Maio, durante os confrontos que Sita acompanhou
é uma reportagem longa, não apresentar a antiga num comando de operações, os “nitistas” também
militante e dirigente da UEC – União dos Estudan- fizeram muitas vítimas (existem mesmo dúvidas se
tes Comunistas – apenas como uma idealista sem não terão mesmo executado sumariamente alguns
mácula. Isto talvez porque a obra não nos esclarece ministros afectos à linha de Agostinho Neto).
sobre o tema mais difícil: o da real responsabilidade Que papel teve Sita Valles nestes acontecimentos?
de Sita na violência que, na Angola pós-1975, não Até onde vai a sua responsabilidade na violência
surgiu apenas com a perseguição dos chamados política? Este livro, como muitos outros, é omis-
“nitistas” após o golpe fracassado. so. Mas nada nos indica que esta “Comunista até à
Quem era realmente Sita Valles? Uma revolucio- Morte” tenha sabido, ou conseguido, parar antes
nária e uma comunista, como se diz no título do de se envolver na violência política – até porque a
livro. E seguramente uma idealista, doutrina em que acreditava previa, e defendia, essa
As prisões de Angola como alguns dos que com ela con- violência política. Mais: como notou Isaiah Berlin
viveram a descrevem. Mas também em The First and the Last, “causar dor, matar e tor-
não ficaram cheias uma fanática, como se percebe de turar são actos geralmente condenados; mas se não
só depois do 27 de Maio algumas passagens da obra e como foram cometidos para meu benefício pessoal e sim
o seu percurso confirma sem mar- em prol de um ismo – socialismo, nacionalismo,
de 1977. E, durante os gem para dúvidas. Por isso valeria fascismo, comunismo, de crenças religiosas faná-
confrontos desse dia, que amartírio pena ir um pouco além do seu
para tentar perceber os
ticas, do progresso, ou do cumprimento das leis da
História –, então esses actos são aceitáveis”.
Sita acompanhou num mecanismos do radicalismo polí- Paul Hollander, que estudou a adesão dos inte-
tico, sobretudo do radicalismo dos lectuais ao comunismo em livros como O Fim do
comando de operações, jovens intelectuais que aderem a Compromisso, também notou que “o culto da since-
os “nitistas” também ideologias extremistas. ridade, dos sentimentos fortes, e do desejo de agir
O livro ajuda-nos nesta procura consoante os mesmos – quer isto dizer, da autenti-
fizeram muitas vítimas de respostas. Nascida em 1951, Sita cidade – tornou-se especialmente pronunciado na
cresceu na Luanda colonial numa década de 60”, uma época em que “a orientação
família de origem goesa da classe média alta. Era invocando a sua falta de experiência. Ou seja, a para a acção cativou os radicais e tornou-se a sua
bonita e inteligente, sabia utilizar o seu encanto e Sita Valles que nos é retratada é muito mais do que marca característica”. Sita Valles era, sem dúvida,
gozava de grande autonomia. Até entrar na Univer- uma idealista, é uma militante capaz de abdicar uma filha desses tempos, alguém que levou ao li-
sidade não teve actividade política, na Faculdade de tudo em nome das suas certezas – e poucas mite a condição de “verdadeira crente”, alguém
de Medicina de Luanda ainda se aproximou de uns doutrinas “armam” os revolucionários com tantas que acreditava numa “doutrina infalível” e, assim,
grupos maoístas, mas foi em Lisboa, para onde veio “certezas” como o marxismo-leninismo. O secta- ficava imune não só às incertezas como às reali-
estudar em 1971, que mergulhou por completo na rismo e o radicalismo de Sita, que tantos ódios dades quando estas se revelavam desagradáveis.
militância comunista e na UEC, onde se tornaria lhe granjeou na Luanda pós-independência, foi Isso cegou-a – e levou-a a não ver a tragédia que
uma das figuras de maior destaque ao lado de Zita por certo apenas a manifestação exterior desse se preparava e da qual seria, ela também, vítima.
Seabra. Adepta entusiasta do regime soviético (es- universo de “certezas” em que vivia. Jornalista (www.twitter.com/jmf1957)
tava em Moscovo no dia 25 de Abril, a assistir a um
congresso), decidiu regressar a Angola no Verão de
1975 para, naquela que considerava a sua pátria,
participar na revolução. Em Luanda aproximou-se
Notícias do nosso “Estado social”
ao sector ideologicamente mais ortodoxo do MPLA,
de clara obediência soviética, encabeçado por Nito a José Sócrates saudou o “feito” mesmo período agravaram-se as a A crise económica toca a todos
Alves e José Van-Dunem. por o nível de pré-escolarização dívidas do Estado às farmácias e à e muitos foram os pais que se
A adesão de Sita ao marxismo-leninismo foi uma em Portugal ser superior à média indústria farmacêutica. Contudo, o viram obrigados a mudar os seus
adesão intelectual, muito no espírito do tempo que da OCDE. Talvez fosse altura de antigo ministro Correia de Campos filhos das escolas privadas em que
viveu. E o porquê da sua adesão a uma doutrina reflectir sobre o sucesso neste grau disse esta semana que não sabe qual estudavam para as escolas públicas.
“global” é bem retratada nesta reflexão de Marce- de ensino, onde a oferta do sector o motivo das sucessivas derrapagens Pelo menos em Lisboa foram
lo Caetano, apesar desta se referir ao integralismo privado e cooperativo assegura financeiras do Ministério da Saúde, muitas as situações em que não
lusitano: “O jovem, não tendo experiência, rejeita 48,2 por cento das vagas (dados derrapagens essas que considera havia vagas nas escolas de destino,
o empirismo. À medida que a sua inteligência se vai de 2009) por comparação com graves, pois permitem que o Estado chegando a ser criadas novas
abrindo ao mundo das ideias, gosta de conquistar os 12,3 e 13,6 por cento que esse fique “completamente capturado turmas em escolas totalmente
certezas resultantes de raciocínios ou neles apoia- sector assegura respectivamente com elevadas dívidas”. Não inadaptadas, o que gerou tensão
das, quer poder discutir numa argumentação sem no ensino básico e no ensino compreendo como, sabendo-se que e protestos. Duas coisas parecem
falhas, precisa de ter a segurança de uma doutrina secundário. Dá para questionar estes problemas de financiamento e certas: as crianças ficam mais
bem estruturada”. o axioma de que o bom Estado de gestão são recorrentes, se insiste mal servidas e o Estado vai ter
As cartas à família, citadas abundantemente social é aquele onde a oferta é em não querer discutir o modelo de de suportar mais custos. Mesmo
no livro, revelam alguém que não duvidava das predominantemente pública. funcionamento do SNS apesar de assim, insiste-se em não discutir
suas certezas, os muitos testemunhos recordam a Os resultados negativos dos se admitir que, por este caminho, modelos alternativos ao actual,
uma militante com grande capacidade de argu- hospitais com gestão empresarial o sacrossanto serviço estatal acaba como mais liberdade de escolha
mentação e não faltam também os que recordam agravaram-se 154 por cento no por ser capturado por interesses pelas famílias, como é o modelo
terem-na desaconselhado de voltar para Angola primeiro semestre do ano. No privados. sueco.