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REFORMADOR

Cristianismo Redivivo

Haroldo Dutra Dias


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Sumário
História da Era Apostólica.................................................................................................... 3
(Século I) – Parte I ............................................................................................................... 3
História da Era Apostólica.................................................................................................... 7
(Século I) – Parte II .............................................................................................................. 7
História da Era Apostólica.................................................................................................. 10
Supranaturalismo x Racionalismo ..................................................................................... 10
História da Era Apostólica.................................................................................................. 13
Racionalismo ..................................................................................................................... 13
História da Era Apostólica.................................................................................................. 16
Novas perguntas ................................................................................................................ 16
História da Era Apostólica.................................................................................................. 19
Jesus – Governador Espiritual do Orbe ............................................................................. 19
História da Era Apostólica.................................................................................................. 22
A fé transporta montanhas................................................................................................. 22
Esperança.......................................................................................................................... 25
História da Era Apostólica.................................................................................................. 28
Nascimento de Jesus......................................................................................................... 28
As parábolas de Jesus....................................................................................................... 31
História da Era Apostólica.................................................................................................. 34
A crucificação de Jesus ..................................................................................................... 34
O candidato a discípulo ..................................................................................................... 37
História da Era Apostólica.................................................................................................. 41
Os alicerces da Igreja Cristã .............................................................................................. 41
A lição do arado ................................................................................................................. 44
História da Era Apostólica.................................................................................................. 47
O Primeiro Mártir ............................................................................................................... 47
No trato com a Revelação ................................................................................................. 50
História da Era Apostólica.................................................................................................. 53
A conversão de Saulo ........................................................................................................ 53
Caminho para Deus ........................................................................................................... 56
História da Era Apostólica.................................................................................................. 59
A preparação no deserto ................................................................................................... 59
Revelação Divina ............................................................................................................... 62
História da Era Apostólica.................................................................................................. 65
O regresso a Tarso ............................................................................................................ 65
Vida e morte ...................................................................................................................... 68
História da Era Apostólica.................................................................................................. 71
A Igreja de Antioquia.......................................................................................................... 71
História da Era Apostólica.................................................................................................. 74
Síntese da Cronologia ....................................................................................................... 74
História da Era Apostólica.................................................................................................. 78
Ainda a Síntese Cronológica ............................................................................................. 78
Profecias bíblicas ............................................................................................................... 82
O Novo Testamento ........................................................................................................... 85
Redação ............................................................................................................................ 85
O resgate do Cristianismo Nascente ................................................................................. 88
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Reformador Junho 2007 - Ano 125 Nº 2.139 – PAG 34/240 – 36/242

1 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


(Século I) – Parte I
“Não podemos conhecer o Jesus ‘real’ através da pesquisa histórica, quer isto signifique
sua realidade total ou apenas um quadro biográfico razoavelmente completo. No entanto
podemos conhecer o ‘Jesus histórico’. Por Jesus da história, refiro-me ao Jesus que
podemos ‘resgatar’ e examinar utilizando os instrumentos científicos da moderna
pesquisa histórica.”(1)
_______________
1. MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. 3. ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1993. p. 35.

HAROLDO DUTRA DIAS

No Dallas Theological Seminary (Texas, USA), no mês de maio de 1965, Harold


W.Hoehner defendeu sua tese de doutorado sobre a cronologia da Era Apostólica. Seu
trabalho contrariava a tradicional e respeitada posição dos eruditos do seu tempo,
propondo uma completa releitura das fontes históricas sobre o tema. Ao estabelecer uma
nova cronologia para o primeiro século do Cristianismo, o autor apontava a necessidade
de revisar todas as conclusões dos estudiosos que o antecederam.
A tese de Hoehner foi timidamente acolhida nos meios acadêmicos, a ponto de
receber o nome de “cronologia alternativa”. Atualmente, porém, vários pesquisadores têm
confirmado as proposições do professor norte-americano, incorporando muitas de suas
ideias.
Surpreendentemente, a leitura meticulosa dos romances psicografados por
Francisco Cândido Xavier revelou um fato inusitado: as datas estabelecidas pelo Espírito
Emmanuel, nessas obras, eram frequentemente idênticas àquelas defendidas por Harold
Hoehner. À guisa de exemplo, podemos citar três episódios da vida do Cristo: o seu
nascimento (ano 5 a.C.), o início do seu ministério (ano 30 d.C.) e a crucificação (ano 33
d.C.), todos ocorridos, segundo estes dois autores, nas datas acima especificadas. Vê-se
que Jesus foi crucificado com trinta e oito anos! (2)
_______________
2. XAVIER, Francisco Cândido. Crônicas de além-túmulo. Pelo Espírito Humberto de
Campos. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Cap. 15, p. 90 (a data de nascimento de Jesus
será abordada com maiores detalhes em futuros artigos desta coluna).

No romance Paulo e Estêvão, o Espírito Emmanuel desenvolveu um quadro


cronológico das atividades apostólicas que se assemelha àquele elaborado pelo professor
do Texas. Um detalhe, porém, salta aos olhos: o romance foi psicografado no primeiro
semestre de 1941, na provinciana cidade de Pedro Leopoldo (MG), ao passo que a tese
foi defendida 24 anos mais tarde, na famosa universidade de teologia norte-americana.
A constatação desses fatos nos conduz a profundas reflexões sobre o caráter da
Revelação dos Espíritos, e, mais especificamente, sobre o tríplice aspecto da Doutrina
Espírita. O Espiritismo é uma Ciência com identidade própria, já que possui objeto de
4

estudo próprio (o mundo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo) e método de
pesquisa próprio (mediunidade).
Nesse sentido, são valiosas as considerações do Codificador a respeito do
assunto:
Assim como a Ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do
princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do
princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da Natureza,
a reagir incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, segue-se
que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do
outro. O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente [...].(3)
_______________
3. KARDEC, Allan. O espiritismo na sua expressão mais simples. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
Cap. III, item 16, p. 100.

Essa relação de complementação entre a Ciência e o Espiritismo pode ser vista


como união de esforços com vistas ao aprimoramento do saber humano, já que possibilita
uma abordagem integral dos problemas, levando em conta seus aspectos materiais e
espirituais concomitantemente.
No prólogo deste artigo há uma citação do historiador John P. Meier, professor na
Universidade Católica de Washington D. C., considerado um dos mais eminentes
pesquisadores bíblicos de sua geração. Ao estabelecer os limites da Ciência e da
investigação humanas, ele adverte: “Por Jesus da história, refiro-me ao Jesus que
podemos ‘resgatar’ e examinar utilizando os instrumentos científicos da moderna
pesquisa histórica”.
A atitude de cautela e humildade, esboçada por inúmeros cientistas como John
Meier, tem sido o traço da Ciência pós-moderna, favorecendo o diálogo com a Doutrina
Espírita, que, por sua vez, oferece subsídios valiosos, inacessíveis aos “instrumentos
científicos da moderna pesquisa histórica”.
Não se trata de sobrepujar a Ciência, desprezar suas conclusões, numa atitude
mística incompatível com a fé raciocinada. O desafio é “complementar”, “unir”, “dialogar”,
onde as duas partes estão dispostas a ouvir e falar.
As palavras do Codificador, mais uma vez, lançam inestimáveis luzes sobre a
questão em debate.
A Ciência e a Religião não puderam, até hoje, entender-se, porque, encarando
cada uma as coisas do seu ponto de vista exclusivo, reciprocamente se repeliam.
Faltava com que encher o vazio que as separava, um traço de união que as
aproximasse. Esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o
Universo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo, leis tão imutáveis
quanto as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres. Uma vez
comprovadas pela experiência essas relações, nova luz se fez: a fé dirigiu-se à
razão; esta nada encontrou de ilógico na fé: vencido foi o materialismo. Mas,
nisso, como em tudo, há pessoas que ficam atrás, até serem arrastadas pelo
movimento geral, que as esmaga, se tentam resistir-lhe, em vez de o
acompanharem.[...] (4)
_______________
4. KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 126. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
Cap. I, item 8, p. 61.

Seguindo as pegadas de Allan Kardec, Emmanuel e outros Benfeitores do mundo


espiritual, o presente artigo inaugura uma nova coluna na revista Reformador, intitulada
“Cristianismo Redivivo”. Nossa proposta é salientar a contribuição oferecida pela
revelação espiritual no equacionamento de graves problemas relativos à história de
5

Jesus, dos seus seguidores diretos e do Cristianismo, de modo geral, visando a


apropriação, com maior segurança e legitimidade, da essência da Boa Nova, alicerce de
todas as propostas de renovação veiculadas pela Doutrina dos Espíritos.
O esforço não é novo. A tarefa de unir pesquisa histórica e revelação espiritual
pode ser encontrada na obra A Caminho da Luz. Desse livro monumental, destacamos
dois trechos que servem de baliza à nossa iniciativa, ao mesmo tempo em que definem os
rumos da nossa busca.
Não deverá ser este um trabalho histórico. A história do mundo está compilada e
feita. Nossa contribuição será à tese religiosa, elucidando a influência sagrada da fé
e o ascendente espiritual, no curso de todas as civilizações terrestres. [...] (5)
_______________
5. XAVIER, Francisco Cândido. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 34. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2006. “Antelóquio”, p. 11.

Esse esforço de síntese será o da fé reclamando a sua posição em face da


ciência dos homens, e ante as religiões da separatividade, como a bússola da
verdadeira sabedoria.(6)
_______________
6. Idem, ibidem. “Introdução”, p. 13.

O Espírito Emmanuel esclarece que não tem a função de repetir o trabalho dos
historiadores, competindo-lhe, essencialmente, revelar o ascendente espiritual da
evolução humana. Com isto, depreende-se que a leitura dos historiadores, a conjugação
das informações por eles oferecidas com a revelação dos Espíritos, enfim, a pesquisa
puramente humana, representa a parcela de trabalho que nos compete nessa empreitada.
Feitas estas considerações, convidamos o leitor a iniciar uma longa jornada pelos
trilhos da história do Cristianismo, conjugando fé e razão, revelação mediúnica e pesquisa
histórica. Dedicaremos inúmeros artigos à construção da cronologia do primeiro século do
Cristianismo, utilizando, basicamente, a tese de Harold W. Hoehner e a obra Paulo e
Estêvão. Paralelamente, aproveitaremos o ensejo para abordar questões históricas,
geográficas, culturais e linguísticas necessárias ao aprofundamento da análise. Nesse
caso, será indispensável recorrer à literatura especializada, relacionando-a com o acervo
mediúnico de Francisco Cândido Xavier, como um todo.
Como nossa proposta é fomentar o diálogo entre Espiritismo e Ciência, por vezes
será necessário esclarecer o estado atual da pesquisa acadêmica antes de cotejar os
dados oferecidos pela Espiritualidade Superior.
Todavia, uma advertência se impõe. Não se trata de oferecer todas as respostas,
nem de resolver todos os enigmas. Por vezes, teremos de nos contentar com o
aprimoramento de nossas indagações. Afinal de contas, saber perguntar é o primeiro
passo para encontrar a verdade. Mais uma vez, é Emmanuel que vem em nosso socorro.
Além do túmulo, o Espírito desencarnado não encontra os milagres da
sabedoria, e as novas realidades do plano imortalista transcendem aos quadros
do conhecimento contemporâneo, conservando-se numa esfera quase inacessível
às cogitações humanas, escapando, pois, às nossas possibilidades de exposição,
em face da ausência de comparações analógicas, único meio de impressão na
tábua de valores restritos da mente humana. Além do mais, ainda nos
encontramos num plano evolutivo, sem que possamos trazer ao vosso círculo de
aprendizado as últimas equações, nesse ou naquele setor de investigação e de
análise. É por essa razão que somente poderemos cooperar convosco sem a
presunção da palavra derradeira. Considerada a nossa contribuição nesse
conceito indispensável de relatividade, buscaremos concorrer com a nossa
modesta parcela de experiência, sem nos determos no exame técnico das
6

questões científicas, ou no objeto das polêmicas da Filosofia e das religiões,


sobejamente movimentados nos bastidores da opinião, para considerarmos tão- -
somente a luz espiritual que se irradia de todas as coisas e o ascendente místico
de todas as atividades do espírito humano dentro de sua abençoada escola
terrestre, sob a proteção misericordiosa de Deus.(7)
_______________
7. XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007. “Definição”, p. 20.

Assim, está dado o primeiro passo da nossa jornada de muitas milhas. Que Deus nos
abençoe os propósitos.
7

Reformador Julho 2007 - Ano 125 Nº 2.140 – PAG 34/280 – 36/282

2 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


(Século I) – Parte II
“Do Jesus revolucionário e violento ao Jesus mago e folgazão, do fanático apocalíptico ao
mestre de sabedoria ou filósofo cínico e indiferente à escatologia, qualquer situação que
se possa conceber, qualquer teoria extrema que se possa imaginar já foram há muito
propostas, com as posições antagônicas anulando-se mutuamente e com os erros do
passado sendo repetidos por novos escritores afoitos. Num certo sentido, existem tantos
‘livros sobre Jesus’ que dariam para três vidas, e um budista pecador poderia muito bem
ser condenado a passar as próximas três encarnações lendo-os todos.”(1)
_______________
1. MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. 3. ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1993. p. 13.

HAROLDO DUTRA DIAS

Prosseguindo em nossa jornada pelas estradas do Cristianismo do primeiro século,


torna-se necessário esclarecer o estado atual da pesquisa acadêmica, fazendo um
balanço dos seus avanços e retrocessos nos últimos três séculos, antes de relacioná-la
com as revelações da Espiritualidade Superior.
Duas razões justificam esse procedimento. De um lado, a constatação de que
foram propostas, ao longo do tempo, as maiores extravagâncias com relação à pesquisa
da vida de Jesus, “com os erros do passado sendo repetidos por novos escritores afoitos”,
na feliz expressão de John Meier, exigindo do leitor alta dose de senso crítico, antes de
defender essa ou aquela ideia. De outro lado, o reconhecimento de que as obras
mediúnicas, igualmente, reclamam exame acurado, para que não se adote postura
mística incompatível com a fé raciocinada.
Corroborando nossas assertivas, a advertência de Emmanuel é providencial.
Além do túmulo, o Espírito desencarnado não encontra os milagres da
sabedoria, e as novas realidades do plano imortalista transcendem aos quadros
do conhecimento contemporâneo, conservando-se numa esfera quase inacessível
às cogitações humanas, escapando, pois, às nossas possibilidades de exposição,
em face da ausência de comparações analógicas, único meio de impressão na
tábua de valores restritos da mente humana.(2) (Destaque do autor)
_______________
2. XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. “Definição”, p. 20.

Assim, ao combinar revelação mediúnica e pesquisa histórica, torna-se essencial


definir quais autores serão consultados, tanto no plano físico quanto no plano espiritual.
Do ponto de vista espiritual, privilegiamos a Codificação e a produção mediúnica de
Francisco Cândido Xavier, sem que isso represente qualquer menosprezo de nossa parte
a outros médiuns confiáveis e honrados. O motivo da escolha se deve à especificidade do
tema em estudo, mais amplamente desenvolvido neste conjunto de obras.
8

Com relação aos trabalhos acadêmicos, a questão se torna mais tormentosa. A


investigação histórica sobre Jesus e sobre o Cristianismo do primeiro século, como todo
trabalho científico, apresenta fases de desenvolvimento, refletindo o progresso da
pesquisa. Nesse sentido, é imperioso saber a que fase pertence determinado autor, sob
pena de se tomar como verdade conclusões que já foram amplamente rechaçadas pela
geração posterior de estudiosos.
Vê-se que o desafio será, a cada passo, conjugar revelação espiritual segura com
pesquisa histórica atualizada, séria, embasada.
Feitas essas considerações, faremos um breve resumo das fases da pesquisa
sobre o Cristianismo Primitivo, apontando os autores mais representativos de cada etapa,
suas propostas, conclusões, erros e acertos. Mãos a obra!

Primeira Fase:
Nos domínios da Oralidade

Nos três primeiros séculos do Cristianismo, a busca pelo “Jesus histórico” era
realizada junto às testemunhas oculares, que haviam presenciado seus feitos, suas
prédicas, seu sacrifício extremo. Todos queriam beber na fonte da tradição apostólica. O
material de consulta disponível era fruto da narrativa dos apóstolos e dos demais
seguidores do Mestre, bem como do testemunho dos beneficiários das curas, dos
milagres, enfim, das confidências de todas as pessoas simples e anônimas que tiveram o
privilégio do contato direto com o Cristo.
Nessa época, a história do Cristianismo Primitivo estava sendo construída, ao
preço do sacrifício e da renúncia. Muitas vidas foram ceifadas para que a luz da Boa Nova
pudesse atravessar os séculos. Com o sangue do martírio foram traçadas as mais belas
páginas desta epopeia.
Neste quadro de perseguição, é compreensível o pouco interesse pela
sistematização da história do Cristianismo. Coube a Lucas, sob a orientação de Paulo de
Tarso, dar os primeiros passos, compondo dois livros: O Evangelho e Atos dos Apóstolos.
Todavia, o objetivo deste autor, com a redação destas obras, é mais de um evangelizador
do que de um historiador. Nem poderia ser diferente.
Com a conversão do imperador Constantino (ano 312 d.C.), o Cristianismo se torna
a religião oficial do Império Romano. No entanto, as autoridades da época enfrentam um
problema crucial para a sobrevivência dessa aliança. Como conciliar a simplicidade e
pureza daquele movimento, cujo fundador fora um galileu humilde, que vivera nas
margens do Tiberíades, com a pompa do Império? Como harmonizar os aspectos
essencialmente judaicos da Boa Nova, resultado de mais de dois mil anos de história do
povo hebreu, com a cultura greco-romana?
Por fim, como estabelecer o monoteísmo onde vigorava o culto aos deuses
tutelares da família, da agricultura, da raça? A Igreja Romana foi a resposta,
historicamente bem-sucedida, para essas indagações.
A institucionalização das igrejas, o estabelecimento do papado, a pompa
emprestada ao culto, a proliferação de imagens e rituais aplacou a sede greco-romana
dos cidadãos do Império, convertidos ao movimento do Profeta de Nazaré, não obstante
sua doutrina tenha sido completamente descaracterizada, sobretudo em razão do
rompimento total com as suas origens.
No período compreendido entre o ano 400-1700 d.C., o profeta galileu, simples e
austero, bondoso e justo, considerado pelos seus contemporâneos como o Messias de
Israel, foi transformado em uma das pessoas da Trindade, ao mesmo tempo Filho e Pai,
9

feito da mesma substância do Criador. Um verdadeiro Deus, à moda dos deuses gregos
Zeus, Apolo, Hermes.
Esse “endeusamento” da figura do Cristo estancou a busca pelas suas origens, sua
cultura, seus ensinos. Nessa época, vigorava a mais absoluta confusão entre o “Jesus
histórico” e o “Jesus da fé”. Adorado como o Deus encarnado, nenhum estudioso tinha
tamanha autonomia intelectual para transformar esse personagem em objeto de pesquisa
histórica, nem coragem para enfrentar as fogueiras da Inquisição.
Num mundo de escassos pergaminhos e reduzidos leitores, de hegemonia da
tradição oral, de confusão entre Religião e Estado, não seria de se admirar que a
abordagem objetiva, imparcial, criteriosa da vida de Jesus fosse uma utopia.
Essa primeira fase, cuja duração atingiu a marca dos dezessete séculos, pode
muito bem ser compreendida como a etapa da abordagem puramente religiosa e
teológica. Não havia Ciência, tal como é hoje compreendida, razão pela qual crença e
preconceito, opinião e certeza, frequentemente, se misturam, exigindo prudência.
10

Reformador Novembro 2007 - Ano 125 Nº 2.144 – PAG 36/442 – 38/444

3 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


Supranaturalismo x Racionalismo
“A Ciência e a Religião não puderam, até hoje, entender-se, porque, encarando cada uma
as coisas do seu ponto de vista exclusivo, reciprocamente se repeliam. Faltava com que
encher o vazio que as separava, um traço de união que as aproximasse. Esse traço de
união está no conhecimento das leis que regem o Universo espiritual e suas relações com
o mundo corpóreo, leis tão imutáveis quanto as que regem o movimento dos astros e a
existência dos seres. Uma vez comprovadas pela experiência essas relações, nova luz se
fez: a fé dirigiu-se à razão; esta nada encontrou de ilógico na fé: vencido foi o
materialismo. Mas, nisso, como em tudo, há pessoas que ficam atrás, até serem
arrastadas pelo movimento geral, que as esmaga, se tentam resistir-lhe, em vez de o
acompanharem [...].”(1)
_______________
1. KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 127. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
Cap. I, item 8, p. 61.

HAROLDO DUTRA DIAS

Em edições anteriores, destacamos que a Primeira Fase do estudo da vida de


Jesus pode muito bem ser compreendida como a etapa da abordagem puramente
religiosa e teológica. [Ver Reformador dos meses de junho/ 07, p. 34, e julho/07, p. 34.]
O “endeusamento” da figura do Cristo estancou a busca pelas suas origens, sua
cultura, seus ensinos. Nessa época, vigorou o chamado supranaturalismo(2), visto como
credulidade ingênua nos milagres e nas curas de Jesus, e na unidade da natureza divina
e da natureza humana na pessoa do Cristo (dogma da encarnação).
_______________
2. O que acontece na natureza, mas não decorre das forças ou dos procedimentos da
natureza e não pode ser explicado com base neles. É um conceito próprio da Teologia
Cristã, que atribui à fé a crença no sobrenatural, assim entendido.” ABBAGNANO, Nicola.
Dicionário de filosofia. 5. ed. revista e ampliada. Martins Fontes. p. 1080.

Na esteira do Empirismo Inglês (3) (Francis Bacon, 1561-1626) e do Racionalismo


Continental (4) (René Descartes, 1596-1650) surge Baruch Spinoza (1632-1677),
propondo a leitura e interpretação dos livros bíblicos, como todo e qualquer escrito, à luz
do Racionalismo.
_______________
3. Corrente filosófica para a qual toda ideia é proveniente de uma percepção sensorial
(cinco sentidos), logo a experiência é critério ou norma da verdade. Nesse sentido, toda
verdade pode e deve ser posta à prova, e, em consequência, modificada, corrigida ou
abandonada. Entre seus representantes podemos citar Francis Bacon, Hobbes, Locke,
Berkeley, Hume.
4. Posição filosófica dos séculos XVII e XVIII, na Europa, supostamente em oposição à
escola que predominava nas ilhas britânicas, o Empirismo, tendo como expoentes
Descartes, Malebranche, Spinoza, Leibniz, Wolff.
11

A oposição à fé e à religião, herança do Renascimento, culminaria no


estabelecimento do Iluminismo (Aufklärung). Immanuel Kant, um expoente da filosofia
desta época, definiu o Iluminismo como “a saída dos homens do estado de menoridade
(não-emancipação) devido a eles mesmos. Menoridade é a incapacidade de utilizar o
próprio intelecto sem a orientação de outro. Essa menoridade será devida a eles mesmos
se não for causada por deficiência intelectual, mas por falta de decisão e coragem para
utilizar o intelecto como guia. Sapere aude! Ousa saber! É o lema do iluminismo”.(5)
_______________
5. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5. ed. revista e ampliada. Martins Fontes. p.
618.

O século das luzes, trazendo em seu bojo o Empirismo, o Racionalismo, a crítica


histórica e textual, o Enciclopedismo, não poupou os textos bíblicos. O complexo
desenvolvimento de concepções e metodologias, abrangendo várias áreas de estudo,
favoreceu a aplicação da crítica aos textos sagrados.
A leitura tradicional e piedosa dos Evangelhos, filha da credulidade ingênua, eivada
de dogmatismo religioso milenar, sofre duro golpe. Influenciado pelo Iluminismo, H.
S.Reimarus (1694-1768) inaugura a abordagem rigorosamente histórica dos quatro
Evangelhos. Tem início, com a publicação dos seus fragmentos, a “busca do Jesus
histórico”.
A Segunda Fase (6) do estudo da vida de Jesus, iniciada por Reimarus, é marcada
pelo espírito da época – Racionalismo. Nesse contexto, há uma resistência sistemática a
todos os fatos ditos miraculosos, descritos nas páginas do Novo Testamento. O
nascimento virginal, a ressurreição, as curas e os milagres despertam o interesse de
inúmeros pesquisadores, que buscam, cada um à sua maneira, explicações “racionais”
para esses eventos extraordinários da vida do Mestre.
_______________
6. A maior parte dos estudiosos do tema prefere chamar o período inaugurado por H. S.
Reimarus de Primeira Fase, já que desconsideram toda a produção do Supranaturalismo.
Em certo sentido, estão corretos já que não se pode falar em “busca do Jesus histórico”,
antes do trabalho daquele autor. Todavia, como pretendemos traçar um esboço do estudo
da figura de Jesus, em sentido amplo, preferimos incluir o período anterior ao Iluminismo.

Assim, concomitante ao lançamento dos “fragmentos de wolffenbüttel”, (7) há uma


profusão de publicações conhecidas como “Vidas de Jesus do Racionalismo”,
caracterizadas como tentativas da Teologia alemã de explicar, do modo mais claro e
racional possível, o elemento supranatural das narrativas evangélicas.
_______________
7. Nome dado aos sete fragmentos escritos por H. S. Reimarus, publicados por Gothold
Ephraim Lessing, em 1778, na Alemanha.

A premissa básica desses autores consiste em rejeitar, por falta de embasamento


histórico, todos aqueles fatos que não possam ser compreendidos com o auxílio das leis
naturais. A dimensão espiritual da vida é rotulada de “sobrenatural” e, consequentemente,
desprezada. A Ciência, embora ensaiando os primeiros passos, já se revestia da
arrogância, tão duramente criticada na Religião.
Na próxima edição, traçaremos um esboço das ideias principais dos racionalistas,
citando os autores mais representativos do período. Antes, porém, cumpre avaliar a
atitude desses estudiosos à luz da revelação espiritual.
Abordando a questão do Racionalismo, o Espírito Emmanuel faz considerações
valiosas a respeito do assunto:
12

Questão 199 – Poderá a Razão dispensar a Fé?


– A razão humana é ainda muito frágil e não poderá dispensar a cooperação da
fé que a ilumina, para a solução dos grandes e sagrados problemas da vida.
Em virtude da separação de ambas, nas estradas da vida, é que observamos o
homem terrestre no desfiladeiro terrível da miséria e da destruição. [...]

Questão 202 – No problema da investigação, há limites para aplicação dos


métodos racionalistas?
– Esses limites existem, não só para a aplicação, como também para a
observação; limites esses que são condicionados pelas forças espirituais que
presidem à evolução planetária, atendendo à conveniência e ao estado de
progresso moral das criaturas.
É por esse motivo que os limites das aplicações e das análises chamadas
positivas sempre acompanham e seguirão sempre o curso da evolução espiritual
das entidades encarnadas na Terra.(8)
_______________
8. XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2003.

Vê-se que a proposta da Espiritualidade superior reside na conjugação da Razão e


da Fé, não somente nos assuntos relacionados ao conhecimento, mas, sobretudo, na
construção de uma sociedade pacífica, justa e fraterna. Na feliz expressão do
Codificador,(9) é preciso encher o vazio que separa Religião e Ciência com o
conhecimento das leis que regem o Universo espiritual e suas relações com o mundo
corpóreo.
_______________
9. Texto utilizado como epígrafe deste artigo (Referência 1).

Uma vez compreendidas essas relações, os milagres, as curas, e outros


fenômenos eminentemente espirituais, descritos nos Evangelhos, serão vistos como
decorrentes de leis imutáveis. Vencida essa resistência tola, imposta pela ciência
materialista pós-iluminista, o aprendiz do Mestre estará em condições de extrair o espírito
da letra, recolhendo as lições imorredouras que fluem dos fatos extraordinários da Vida de
Jesus.
13

Reformador Dezembro 2007 - Ano 125 Nº 2.145 – PAG 32/478 – 34/480

4 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


Racionalismo
“Como apreciar os racionalistas que se orgulham de suas realizações terrestres, nas
quais pretendem encontrar valores finais e definitivos? – Quase sempre, os que se
orgulham de alguma coisa caem no egoísmo isolacionista que os separa do plano
universal, mas, os que amam o seu esforço nas realizações alheias ou a continuidade
sagrada das obras dos outros, na sua atividade própria, jamais conservam pretensões
descabidas e nunca restringem sua esfera de evolução, porquanto as energias profundas
da espiritualidade lhes santificam os esforços sinceros, conduzindo-os aos grandes feitos
através dos elevados caminhos da inspiração.”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 24. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2003. Questão 203.

HAROLDO DUTRA DIAS

A Segunda Fase do estudo da vida de Jesus, resultado do Iluminismo, é marcada


pelas características daquele movimento – Racionalismo, Empirismo, oposição aos
dogmas da Igreja – e pode muito bem ser compreendida como a primeira etapa (2) da
abordagem científica dos textos bíblicos.
_______________
2. A maior parte dos estudiosos do tema prefere chamar o período inaugurado por H. S.
Reimarus de Primeira Fase, já que desconsideram toda a produção do supranaturalismo.
Em certo sentido, estão corretos já que não se pode falar em “busca do Jesus histórico”,
antes do trabalho daquele autor. Todavia, como pretendemos traçar um esboço do estudo
da figura de Jesus, em sentido amplo, preferimos incluir o período anterior ao Iluminismo.

Albert Schweitzer (3) divide esse período (Segunda Fase) em quatro etapas
distintas: 1a) Inicial (H. S. Reimarus), 2a) Racionalismo primitivo (J. J.Hess, F.V.
Reinhardt, J. A. Jakobi e J. G.Herder), 3a) Racionalismo pleno (H. E. G. Paulus, K. A.
Hase, F. E. D. Schleiermacher), 4a) Final (David. F. Strauss). Os dois autores principais
deste período, sem dúvida, são H. S. Reimarus e David F. Strauss, responsáveis pelo
surgimento e pelo encerramento deste Movimento.
_______________
3. SCHWEITZER, Albert. A busca do Jesus histórico. São Paulo: Novo Século, 2003

Em edições anteriores, apresentamos um breve resumo da contribuição de


Reimarus ao estudo dos textos evangélicos, salientando seu caráter inovador, em razão
de ter adotado uma perspectiva puramente histórica no tratamento do tema, e destacando
suas duas preciosas contribuições: a divisão metodológica entre o “Jesus histórico” e o
“Cristo da fé”, e a proposição de que a pregação de Jesus só pode ser compreendida a
partir do contexto da religião judaica do seu tempo.
Por outro lado, urge esclarecer que, simultaneamente ao lançamento dos
“fragmentos de wolffenbüttel”,(4) houve uma profusão de publicações conhecidas como
14

“Vidas de Jesus do Racionalismo Primitivo” (2a etapa), sobre as quais discorreremos


nesta edição.
_______________
4. Nome dado aos sete fragmentos escritos por H. S. Reimarus, publicados por Gothold
Ephraim Lessing, em 1778, na Alemanha.

O Racionalismo primitivo coloca-se entre o sobrenaturalismo ingênuo, que confia


cegamente no dogma embora seja receptivo aos aspectos espirituais da vida, e o
racionalismo pleno, que aceita apenas os aspectos racionais da religião com absoluta
exclusão do elemento espiritual.
Na avaliação de Schweitzer, as melhores características do Racionalismo primitivo
são a ingenuidade e a honestidade. É digno de nota o esboço desta etapa traçado pelo
ilustre autor(5):
_______________
5. Albert Schweitzer (1875-1965) foi organista concertista de fama, teórico da música,
pastor e pregador, professor de Teologia, diretor de um seminário teológico, médico,
humanista, e ganhador do Prêmio Nobel da Paz.

As primeiras Vidas de Jesus racionalistas estão, de um ponto de vista estético,


entre as menos agradáveis de todas as produções teológicas. O sentimentalismo
de suas representações não tem limites. Sem limite também, e ainda mais
inaceitável, é a falta de respeito para com a linguagem de Jesus. Ele tem que
falar de uma forma racional e moderna, e portanto todas as suas falas são
reproduzidas num estilo da mais polida modernidade. Nenhuma frase foi deixada
como foi falada; todas elas são feitas em pedaços, parafraseadas, expandidas, e,
algumas vezes, com o fim de torná-las realmente vívidas; elas são refundidas no
molde do diálogo livremente inventado. Em todas estas Vidas de Jesus, nem uma
só de suas falas mantém sua forma autêntica. E, no entanto, não podemos ser
injustos com os seus autores. O que eles pretendiam era trazer Jesus para perto
do próprio tempo deles, e assim fazendo tornaram-se os pioneiros do estudo
histórico de Sua vida. Os defeitos de suas obras, em relação ao senso estético e
ao fundo histórico, são suplantados pela atratividade do pensamento propositado
e não preconceituoso que aqui desperta, espreguiça-se e começa a mover--se
com liberdade.(6)
_______________
6. SCHWEITZER, Albert. A busca do Jesus histórico. São Paulo: Novo Século, 2003. Cap. III,
p. 39.

Os autores da Segunda Fase esforçam-se por libertar a mensagem do Cristo dos


séculos de dogma e superstições que a encobriram. No entanto, a proposital exclusão do
elemento espiritual bem como a confiança cega na incipiente ciência da época nos
transmite a impressão de que houve apenas a troca do dogmatismo religioso pelo
dogmatismo científico.
Encerrando esse período, surge
a figura de David F. Strauss, o mais renomado expoente do Racionalismo pleno. Na sua
concepção, todos os elementos extraordinários da vida de Jesus devem ser
categorizados à conta de mitos.
Partindo do estudo comparativo das religiões, Strauss procura identificar nas
narrativas evangélicas grandes temas míticos, também presentes nas demais religiões do
Orbe, imprimindo às suas avaliações um cunho fortemente psicológico.
A proliferação de biografias liberais de Jesus no século XIX, incluindo os nomes de
David F. Strauss (1808-1874), de Ernest Renan (1823-1892), de H. H. Holtzmann (1832-
15

1910) e de Johannes V. Weiss (1863-1914), revela que o ideal da objetividade e da


isenção, tão proclamado pelo Racionalismo, nunca foi atingido. Albert Schweitzer (7)
formula dura crítica à concepção que orientou a investigação realizada pelos autores do
século XIX, revelando a fragilidade e a inconsistência das “vidas de Jesus” escritas no
espírito do liberalismo da época. Ficou demonstrado que cada autor retratava Jesus à sua
própria imagem.
_______________
7. Idem, ibidem.

O conhecimento desses fatos serve de alerta, sobretudo para os espíritas,


competindo-nos examinar as pesquisas dos estudiosos do mundo com atenção e
cuidado, mas sempre cotejando suas conclusões com a revelação espiritual. Em suma,
urge reconhecer o caráter eminentemente subjetivo da ciência humana, ainda distante
das equações definitivas no que respeita ao estudo dos textos sagrados.
Consoante às orientações do Benfeitor Emmanuel no lide deste artigo:
[...] os que amam o seu esforço nas realizações alheias ou a continuidade
sagrada das obras dos outros, na sua atividade própria, jamais conservam
pretensões descabidas e nunca restringem sua esfera de evolução, porquanto as
energias profundas da espiritualidade lhes santificam os esforços sinceros,
conduzindo-os aos grandes feitos através dos elevados caminhos da
inspiração.(8)
_______________
8. XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 24. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2003. Questão 203.

Assim, fugindo de toda extravagância intelectual, mantendo a humildade,


vivenciando o ensino do Mestre, aprimorando a capacidade de análise através do estudo
metódico e consistente, nos habilitamos ao recebimento da inspiração superior, que nos
conduz, invariavelmente, ao porto seguro da verdade.
16

Reformador Janeiro 2008 - Ano 126 Nº 2.146 – PAG 34/32 – 36/34

5 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


Novas perguntas
“A diversidade de imagens de Jesus levanta a suspeita de que os retratos de Jesus sejam
na verdade auto-retratos de seus autores.”(1)
_______________
1. THEISEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2002. p. 31.

HAROLDO DUTRA DIAS

O reinado de Guilherme II (1859-1941) assistiu, na Alemanha, ao florescimento do


liberalismo teológico e da pesquisa “clássica” sobre a história do Cristianismo, cuja
característica marcante foi a exploração histórico-crítica das fontes literárias, visando a
reconstrução da personalidade e da vida de Jesus, ao menos na concepção dos seus
expositores mais destacados.
Inaugurava-se a Terceira Fase da pesquisa histórica do Cristianismo sob a
influência de desmedido otimismo. F. Baur defendia a primazia dos sinóticos sobre o
Evangelho de João. H. Holzmann propunha a teoria das duas fontes, segundo a qual
Marcos e “Q” (2) representavam as mais antigas e confiáveis fontes para a reconstrução
do quadro biográfico do Cristo.
_______________
2. Termo alemão que significa “fonte”. Schleiermacher foi o primeiro a propor a existência
de uma coletânea de declarações de Jesus como uma das fontes dos evangelhos. Alguns
críticos acreditam que Papias faz referência a esse documento quando menciona a
existência das “Logias” de Levi. Todavia, cumpre salientar que não há comprovação
histórica da existência do referido documento. O trabalho dos estudiosos tem sido
selecionar ditos de Jesus, nos evangelhos de Mateus e Lucas, ausentes no evangelho de
Marcos, propondo que essa seleção aponte para a suposta fonte “Q”. Em resumo, estamos
diante de uma hipótese que deve ser analisada com cautela.

O colapso do liberalismo teológico, porém, veio mais cedo do que se imaginava,


em virtude de três fatores: a constatação do caráter fragmentário dos evangelhos, que
impediria qualquer esforço de extrair um “desenvolvimento” da personalidade de Jesus a
partir da sequência narrativa do evangelho de Marcos; o caráter tendencioso das fontes
antigas, visto que o evangelista privilegiava determinada mensagem, ainda que em
detrimento de uma suposta “precisão histórica”; o elemento projetivo das biografias sobre
Jesus, uma vez que os biógrafos retratavam a personalidade do Mestre ao sabor das
suas preferências e conveniências pessoais.
O ocaso da Teologia Liberal contribuiu para o surgimento da chamada “Teologia
Dialética”, herdeira da filosofia existencialista de Heidegger, segundo a qual “o ser
humano conquista sua ‘autenticidade’ apenas na decisão, a qual não pode ser
assegurada mediante argumentos objetiváveis (como o conhecimento histórico). Para um
existencialismo cristão a decisão é a resposta ao chamado de Deus no querigma (3) da
cruz e da ressurreição de Cristo, que o ser humano compreende por meio de um morrer e
viver existencial em Cristo”.(4)
17

_______________
3. No grego, essa palavra (querigma) significa “a coisa pregada”, a pregação dos primeiros
cristãos, ou melhor, o conjunto de crenças básicas por eles defendidas e divulgadas.
4. THEISEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2002. p. 31.

O trabalho de R. Bultmann (1884-1976), o mais destacado exegeta da Teologia


Dialética, reflete o ceticismo histórico que tomou conta dos pesquisadores, após o colapso
da pesquisa tradicional. Na sua concepção, o Cristianismo começa apenas com a
Páscoa, razão pela qual conclui que o ensino de Jesus não é relevante para uma
Teologia Cristã. Nessa abordagem, o Jesus histórico não é objeto nem fundamento da
pregação neotestamentária, que se baseia exclusivamente no “Cristo” percebido e
divulgado após o Pentecostes (Cristo Querigmático).(5)
_______________
5. O Cristo retratado na pregação dos apóstolos e dos primeiros cristãos do Século I.

A Quarta Fase da pesquisa, desenvolvida no círculo dos discípulos de Bultmann,


propõe uma “nova pergunta” pelo Jesus histórico, buscando o elo entre a pregação pós-
pascal dos apóstolos e a pregação do próprio Jesus. Enquanto a “antiga pergunta”
(Teologia Liberal) contrapunha Jesus à pregação da Igreja, a “nova pergunta” procura
harmonizar esses dois elementos.
No lugar da reconstrução crítico-literária das fontes, a metodologia da Teologia
Dialética se concentra na comparação entre a história das religiões e a história da
tradição evangélica. Nesse contexto, assume papel relevante o intitulado “critério da
diferença”, segundo o qual, para se reconstruir um mínimo de tradição autêntica sobre
Jesus, torna-se necessário excluir tudo que possa ser derivado tanto do Judaísmo quanto
da pregação apostólica, na busca da voz “original” do Cristo.
Na opinião dos estudiosos do tema:
[...] com o fim da escola bultmaniana ficaram cada vez mais evidentes as
arbitrariedades da “nova pergunta” pelo Jesus histórico. Ela era basicamente
determinada pelo interesse teológico de fundamentar a identidade cristã ao
distingui-la do judaísmo e de garanti-la ao separá-la de heresias cristãs primitivas
(como a gnose e o entusiasmo carismático). Por isso ela deu preferência a fontes
ortodoxas e canônicas.(6)
_______________
6. THEISEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2002. p. 28.

Assim, o esforço para minimizar os contornos judaicos da mensagem cristã


constitui o aspecto problemático dessa abordagem, já que favoreceu o anti-semitismo,
desfigurando o pano de fundo histórico dos evangelhos para torná-lo mais palatável aos
existencialistas. A Quinta Fase da pesquisa, também conhecida como terceira busca
(Third Quest), que se desenvolveu, sobretudo, nos países de fala inglesa, procura superar
essas idiossincrasias. Nela, o interesse histórico-social substitui o interesse teológico, ao
passo que a inserção de Jesus no Judaísmo substituiu o interesse de separá-lo das suas
bases históricas e sociais. Há, também, maior abertura a fontes não-canônicas (em parte
heréticas), tais como os apócrifos.
Em suma, munidos dos novos instrumentos da pesquisa hodierna, tais como
história antiga, crítica literária, crítica textual, filologia, papirologia, arqueologia, geografia,
religião comparada, os atuais pesquisadores tentam reconstruir o ambiente sociocultural
de Jesus, de modo a experimentar o efeito que as palavras do Mestre produziram nos
ouvintes da sua época.
Nesse esforço, procura-se evitar juízos preconcebidos, premissas rígidas,
preconceitos étnicos, deixando que a mensagem se estabeleça ainda que contrariamente
18

às expectativas dos crentes atuais. No entanto, ao montar o quebra--cabeça da história


do Cristianismo Primitivo com as escassas peças disponíveis, nem sempre é possível ao
pesquisador humano dispensar certa dose de imaginação.
Na avaliação de Gerd Theisen:
[...] todas as descrições de Jesus contêm um elemento construtivo que vai além
dos dados contidos nas fontes. A imaginação histórica cria com suas hipóteses uma “aura
de ficcionalidade” em torno da figura de Jesus, assim como a imaginação religiosa do
Cristianismo primitivo. Pois tanto aqui como lá atua uma grande força imaginativa, acesa
pela mesma figura histórica. Em ambos os casos, ela opera de forma aberta: símbolos
religiosos, imagens e mitos permitem sempre nova interpretação, hipóteses históricas
permitem sempre nova correção. Neste processo, nem a construção religiosa, nem a
reconstrução histórica da história de Jesus procede com arbitrariedade, mas com base
em convicções axiomáticas. A imaginação religiosa do cristianismo primitivo é conduzida
pela sólida crença de que por meio de Jesus é possível fazer contato com Deus, a
realidade última. A imaginação histórica é determinada pelas convicções básicas da
consciência histórica: todas as fontes se originam de seres humanos falíveis e devem,
portanto, ser submetidas à crítica histórica.(7)
_______________
7. THEISEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2002. p. 31.

O espírita-cristão, abençoado pela revelação dos Espíritos superiores,


especialmente na produção mediúnica de Francisco Cândido Xavier, conta com um
elemento precioso, muitas vezes negligenciado. Os romances do Benfeitor Emmanuel
constituem detalhado processo de reconstrução dos três primeiros séculos do
Cristianismo.
Nesses romances, alguns dados da pesquisa histórica puramente humana são
confirmados, todavia, muitas retificações são feitas, de forma sutil. Exige-se do leitor
exame cuidadoso, sob pena de serem divulgadas informações espiritualmente incorretas,
apenas porque determinado pesquisador encarnado as defenda em suas obras.
Nesse sentido, é valiosa a advertência de Emmanuel:
[...] Hipóteses incontáveis foram aventadas, mas os sábios materialistas, no
estudo das ideias religiosas, não puderam sentir que a intuição está acima da
razão e, ainda uma vez, falharam, em sua maioria, na exposição dos princípios e
na apresentação das grandes figuras do Cristianismo.
[...] É que, portas a dentro do coração, só a essência deve prevalecer para as
almas e, em se tratando das conquistas sublimadas da fé, a intuição tem de
marchar à frente da razão, preludiando generosos e definitivos conhecimentos.(8)
_______________
8. XAVIER, Francisco Cândido. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007. Cap. XIV, item “A redação dos textos definitivos”, p. 124-125.
Vê-se que a proposta da Espiritualidade superior reside na conjugação da Razão e
da Fé, razão pela qual, antes de iniciarmos nosso estudo da “História Apostólica”, à luz da
obra Paulo e Estêvão, decidimos fazer um histórico da pesquisa acadêmica, a fim de
evitar, ou pelo menos conhecer, as extravagâncias e equívocos de seus expositores.
19

Reformador Março 2008 - Ano 126 Nº 2.148 – PAG 31/109 – 33/111

6 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


Jesus – Governador Espiritual do Orbe
“Não podemos conhecer o Jesus ‘real’ através da pesquisa histórica, quer isto signifique
sua realidade total ou apenas um quadro biográfico razoavelmente completo. No entanto
podemos conhecer o ‘Jesus histórico’. Por Jesus da história, refiro-me ao Jesus que
podemos ‘resgatar’ e examinar utilizando os instrumentos científicos da moderna
pesquisa histórica.”(1)
_______________
1. MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. 3. ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1993. p. 35.

HAROLDO DUTRA DIAS

Um longo itinerário foi percorrido para que pudéssemos resumir as fases da


pesquisa histórica sobre o Cristianismo, antes de compará-la com o material revelado
pela Espiritualidade superior.
Novamente, utilizamos como epígrafe a citação do historiador John P. Meier,
professor na Universidade Católica de Washington D. C., considerado um dos mais
eminentes pesquisadores bíblicos de sua geração. Ao estabelecer os limites da ciência e
da investigação humanas, ele adverte:
Por Jesus da história, refiro-me ao Jesus que podemos “resgatar” e examinar
utilizando os instrumentos científicos da moderna pesquisa histórica.
A atitude de prudência e humildade esboçada por esse autor, favorece o diálogo
com a Doutrina Espírita que, por sua vez, oferece subsídios valiosos, inacessíveis aos
“instrumentos científicos da moderna pesquisa histórica”. Não se trata de sobrepujar a
Ciência, desprezar suas conclusões, numa atitude mística incompatível com a fé
raciocinada. O desafio é “complementar”, “unir”, “dialogar”, onde ambas as partes estão
dispostas a ouvir e a falar, sem submissão ou subserviência.
Doravante, destacaremos a contribuição oferecida pela revelação espiritual no
equacionamento de graves problemas relativos à história de Jesus, dos seus seguidores
diretos, e do Cristianismo, de modo geral, visando à apropriação, com maior segurança e
legitimidade, da essência da Boa Nova, alicerce de todas as propostas de renovação
veiculadas pela Doutrina dos Espíritos.
Nessa linha de raciocínio, somos inevitavelmente levados a indagar: Quem é Jesus
na visão da Espiritualidade superior? A resposta, em O Livro dos Espíritos, é sobejamente
conhecida, mas ainda nos convida a profundas reflexões:
625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe
servir de guia e modelo?
“Jesus.”
Para o homem, Jesus representa o tipo da perfeição moral a que a
Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no lo oferece como o mais perfeito
modelo, e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque,
20

sendo Jesus o ser mais puro que já apareceu na Terra, o Espírito Divino o
animava.
Se alguns dos que pretenderam instruir o homem na lei de Deus, algumas
vezes o desencaminharam, ensinando-lhe falsos princípios, foi porque se
deixaram dominar por sentimentos demasiado terrenos e porque confundiram as
leis que regulam as condições da vida da alma, com as que regem a vida do
corpo. Muitos deles apresentaram como leis divinas o que eram simples leis
humanas, criadas para servir às paixões e para dominar os homens. (Comentário
de Kardec.) (2)
_______________
2. KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Edição Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de
Janeiro: FEB, 2007.

O Benfeitor Emmanuel, por sua vez, enriqueceu nossos estudos com


surpreendentes informações sobre o papel desempenhado por Jesus na condução dos
destinos humanos:
Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os
fenômenos, do nosso sistema, existe uma Comunidade de Espíritos Puros e
Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as
rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias. Essa Comunidade
de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos, ao que
nos foi dado saber, apenas já se reuniu, nas proximidades da Terra, para a
solução de problemas decisivos da organização e da direção do nosso planeta,
por duas vezes no curso dos milênios conhecidos.

Espíritos puros:
Superioridade intelectual e moral absoluta

A primeira, verificou-se quando o orbe terrestre se desprendia da nebulosa


solar, a fim de que se lançassem, no Tempo e no Espaço, as balizas do nosso
sistema cosmogônico e os pródromos da vida na matéria em ignição, do planeta,
e a segunda, quando se decidia a vinda do Senhor à face da Terra, trazendo à
família humana a lição imortal do seu Evangelho de amor e redenção.(3)
_______________
3. XAVIER, Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. Cap. I, item A Comunidade dos Espíritos Puros, p. 17.

Diante do assombro dessas revelações de Emmanuel, resta-nos indagar o que são


Espíritos puros. A informação é encontrada em O Livro dos Espíritos, nas respostas
dadas pelos benfeitores espirituais a Allan Kardec, nas seguintes questões:

112. CARACTERÍSTICAS GERAIS – Nenhuma influência da matéria.


Superioridade intelectual e moral absoluta, com relação aos Espíritos das outras
ordens.
113. Primeira classe. Classe única. Percorreram todos os graus da escala [ver
questões 100 e seguintes] e se despojaram de todas as impurezas da matéria.
Tendo alcançado a soma de perfeição de que é suscetível a criatura, não têm que
sofrer mais provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação
em corpos perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.
..................................................................................
21

128. Os seres que chamamos anjos, arcanjos, serafins, formam uma categoria
especial, de natureza diferente da dos outros Espíritos?
“Não; são os Espíritos puros: os que se acham no mais alto grau da escala e
reúnem todas as perfeições.”
..................................................................................
170. Em que se transforma o Espírito depois da sua última encarnação?
“Em Espírito bem-aventurado; em Espírito puro.”(4)
_______________
4. KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Edição Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de
Janeiro: FEB, 2007.

É forçoso concluir, com o professor John P. Meier, que os instrumentos científicos


da moderna pesquisa histórica não são capazes de nos mostrar o “Jesus real”. Talvez
seja essa a razão pela qual os historiadores, como demonstrado nos artigos anteriores,
acabam por apresentar uma imagem distorcida de Jesus.
Jesus é o Governador Espiritual do Planeta, em cujas mãos repousam os destinos
de toda a humanidade terrena.
A tentativa de reduzir o Mestre aos parâmetros estritamente humanos decorre da
visão materialista da maioria dos pesquisadores. É nesse ponto que a revelação espiritual
pode contribuir para a reconstituição do “Jesus real”, restabelecendo a legítima
compreensão do Cristianismo.
Emmanuel destaca a relevância da atuação do Mestre, a pujança da sua influência,
no que diz respeito aos rumos do progresso terrestre.
Encerramos este artigo com mais uma notável citação desse Espírito, que
descortina detalhes do Governo espiritual do Cristo:

Vê-se, então, o fio inquebrantável que sustenta os séculos das experiências


terrestres, reunindo-as, harmoniosamente, umas às outras, a fim de que
constituam o tesouro imortal da alma humana em sua gloriosa ascensão para o
Infinito.
..................................................................................
Na tela mágica dos nossos estudos, destacam-se esses missionários que o
mundo muitas vezes crucificou na incompreensão das almas vulgares, mas, em
tudo e sobre todos, irradia-se a luz desse fio de espiritualidade que diviniza a
matéria, encadeando o trabalho das civilizações, e, mais acima, ofuscando o
“écran” das nossas observações e dos nossos estudos, vemos a fonte de
extraordinária luz, de onde parte o primeiro ponto geométrico desse fio de vida e
de harmonia, que equilibra e satura toda a Terra numa apoteose de movimento e
divinas claridades.
Nossos pobres olhos não podem divisar particularidades nesse deslumbramento,
mas sabemos que o fio da luz e da vida está nas suas mãos. É Ele quem sustenta
todos os elementos ativos e passivos da existência planetária. No seu coração
augusto e misericordioso está o Verbo do princípio. Um sopro de sua vontade
pode renovar todas as coisas, e um gesto seu pode transformar a fisionomia de
todos os horizontes terrestres.(5)
_______________
5. XAVIER, Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. “Introdução”, p. 14-15.
22

Reformador Abril 2008 - Ano 126 Nº 2.149 – PAG 31/149 – 33/151

7 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


A fé transporta montanhas
“Acredita-me, mulher, vem a hora em que nem nesta montanha nem em Jerusalém
adorareis o Pai [...] Mas vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores
adorarão o Pai em espírito e verdade.”(1)
_______________
1. Bíblia de Jerusalém. 3. ed. São Paulo: PAULUS, 2004. João, 4: 21-24, p. 1851.

HAROLDO DUTRA DIAS

A passagem acima citada diz respeito ao encontro da mulher de Samaria com


Jesus. A samaritana indaga quanto ao verdadeiro local de adoração a Deus, se no monte
Gerazim (Samaria) ou, ao contrário, no monte Sião (Jerusalém). O Mestre lhe responde,
todavia, que os verdadeiros adoradores adoram a Deus em espírito e verdade, não em
pontos geográficos fixos.
Com o Cristo, transportam-se as montanhas sagradas, da tradição bíblica, para o
interior da alma. Assim, haverá um santuário espiritual erguido
ao Criador em todos os lugares da Terra onde estiver presente um espírito sincero e
fervoroso, visto que a adoração terá lugar portas adentro do coração.
A fé transporta montanhas.
Mudando o enfoque, urge reconhecer que a edificação do “Reino de Deus”
representa verdadeira obra divina a desdobrar--se, também, no coração dos seres. No
entanto, não raro, exige trabalhos ingentes, inúmeros sacrifícios e lutas acerbas,
decorrentes do esforço de superação das nossas deficiências íntimas.
Desse modo, com o propósito de debelar o pessimismo, o desânimo, a incerteza, a
hesitação, Jesus nos ensina que: “[...] se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a
esta montanha: transporta-te daqui para lá, e ela se transportará, e nada vos será
impossível”.(2)
_______________
2. Idem, ibidem. Mateus, 17: 20, p. 1735.

A fé “é força que nasce com a própria alma, certeza instintiva na Sabedoria de


Deus que é a sabedoria da própria vida [...]”,(3) não obstante as adversidades de cada
dia. Consoante o ensino de Emmanuel:
_______________
3. XAVIER, Francisco C. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2006. Cap. 6, p. 32.

Ter fé é guardar no coração a luminosa certeza em Deus, certeza que


ultrapassou o âmbito da crença religiosa, fazendo o coração repousar numa
energia constante de realização divina da personalidade.
Conseguir a fé é alcançar a possibilidade de não mais dizer: “eu creio”, mas
afirmar: “eu sei”, com todos os valores da razão tocados pela luz do sentimento.
23

Essa fé não pode estagnar em nenhuma circunstância da vida e sabe trabalhar


sempre, intensificando a amplitude de sua iluminação, pela dor ou pela
responsabilidade, pelo esforço e pelo dever cumprido.
Traduzindo a certeza na assistência de Deus, ela exprime a confiança que
sabe enfrentar todas as lutas e problemas, com a luz divina no coração, e
significa a humildade redentora que edifica no íntimo do espírito a disposição
sincera do discípulo, relativamente ao “faça-se no escravo a vontade do
Senhor”.(4)
_______________
4. XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. Questão 354.

Sensível aos desafios que o progresso espiritual apresenta, Allan


Kardec asseverou:
[...] As montanhas que a fé desloca são as dificuldades, as resistências, a má
vontade, em suma, com que se depara da parte dos homens, ainda quando se
trate das melhores coisas. Os preconceitos da rotina, o interesse material, o
egoísmo, a cegueira do fanatismo e as paixões orgulhosas são outras tantas
montanhas que barram o caminho a quem trabalha pelo progresso da
Humanidade.[...] (5)
_______________
5. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 127. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
Cap. XIX, item 2.

A fé transporta montanhas.
Noutro giro, consultando o dicionário constata-se que o vocábulo “fé” cobre um
amplo espectro de significados, tais como: “[...] confiança absoluta (em alguém ou algo);
[...] crédito, [credibilidade] (um homem digno de fé); [...] asseveração, afirmação,
comprovação de algum fato; [...] compromisso assumido de ser fiel à palavra dada, de
cumprir exatamente o que se prometeu”. (6) (Destaque do autor.)
_______________
6. HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles; FRANCO, Francisco M. M. Dicionário
Houaiss da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: OBJETIVA, 2007. p. 1317.

A palavra “fé” é utilizada para traduzir, na Bíblia hebraica (Velho Testamento), o


radical “aman” (confirmar, sustentar; estabelecer-se; ser fiel; estar certo, crer em), bem
como os seus derivados, em especial, os termos “omen” (verdade, fidelidade) e “emuna”
(firmeza, fidelidade).
Vê-se que, no âmago dos significados dessa raiz, está a idéia de certeza, mas
também o sentido de “ser fiel” (2 Crônicas 19:9).
Por sua vez, no Novo Testamento, utiliza-se o vocábulo “fé” para traduzir a
expressão grega (7) “pistis” (fé, confiança depositada nas pessoas ou nos deuses), e
especialmente seu derivado “to piston” (confiabilidade ou fidelidade daqueles que se
obrigam por um contrato).
_______________
7. Todos os manuscritos do Novo Testamento, encontrados e catalogados até o presente
momento, estão redigidos na língua grega, excetuando-se os manuscritos referentes às
diversas traduções desse mesmo texto.

Nesse ponto, Humberto de Campos vem em nosso socorro, reproduzindo


belíssimo diálogo de Jesus com os discípulos:
24

– Na causa de Deus, a fidelidade deve ser uma das primeiras virtudes. Onde o
filho e o pai que não desejam estabelecer, como ideal de união, a confiança
integral e recíproca? Nós não podemos duvidar da fidelidade do nosso Pai para
conosco. Sua dedicação nos cerca os espíritos, desde o primeiro dia. Ainda não o
conhecíamos e já Ele nos amava. E, acaso, poderemos desdenhar a
possibilidade de retribuição? Não seria repudiarmos o título de filhos amorosos, o
fato de nos deixarmos absorver no afastamento, favorecendo a negação?
..................................................................................
[...] É certo que as forças destruidoras reclamarão a indiferença e a submissão do
filho de Deus; mas, o filho de coração fiel a seu Pai se lança ao trabalho com
perseverança e boa vontade. Entrará em luta silenciosa com o meio, sofrer-lhe-á
os tormentos com heroísmo espiritual, por amor do Reino que traz no coração
plantará uma flor onde haja um espinho; abrirá uma senda, embora estreita, onde
estejam em confusão os parasitos da Terra; cavará pacientemente, buscando as
entranhas do solo, para que surja uma gota d’água onde queime um deserto. Do
íntimo desse trabalhador brotará sempre um cântico de alegria, porque Deus o
ama e segue com atenção.(8)
_______________
8. XAVIER, Francisco C. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 3. ed. especial. Rio
de Janeiro: FEB, 2007. Cap. 6, p. 49-50 e 53-54.

Munidos de fé sincera estaremos em condições de atravessar esses difíceis


momentos de transição do orbe terrestre, bem como triunfar nas provas e expiações,
rumo à iluminação espiritual.
É preciso procurar “[...] as águas vivas da prece para lenir o coração, mas não nos
esqueçamos de acionar os nossos sentimentos, raciocínios e braços, no progresso e
aperfeiçoamento de nós mesmos, de todos e de tudo, compreendendo que Jesus reclama
obreiros diligentes para a edificação de seu Reino em toda a Terra”.(9)
_______________
9. XAVIER, Francisco C. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2007. Cap. 69, p. 180-181.

A fé transporta montanhas.
25

Reformador Maio 2008 - Ano 126 Nº 2.150 – PAG 34/192 – 36/194

8 - Cristianismo Redivivo

Esperança
“[...] Que providências adotar contra o desânimo destruidor? – Espera! – disse ela [Abigail]
ainda, num gesto de terna solicitude, como quem desejava esclarecer que a alma deve
estar pronta a atender ao programa divino, em qualquer circunstância, extreme de
caprichos pessoais. Ouvindo-a, Saulo considerou que a esperança fora sempre a
companheira dos seus dias mais ásperos. Saberia aguardar o porvir com as bênçãos do
Altíssimo. [...]”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007. Segunda Parte, cap. III, p. 381-382.

HAROLDO DUTRA DIAS

O Apóstolo dos gentios nunca perdeu o ensejo de exaltar as virtudes cristãs nas
inúmeras cartas que dirigiu às comunidades do Cristianismo nascente.
Recordando-se, talvez, das lições recebidas de sua noiva espiritual, Abigail,
sempre manteve o firme propósito de debelar o pessimismo e o desânimo, conservando e
semeando a esperança, mesmo no curso de dolorosas provações. Em meio a açoites,
calúnias, perseguições, naufrágios, prisões e padecimentos físicos, o Apóstolo sempre
encontrava a palavra de bom ânimo.
As inspiradas exortações de Paulo se tornaram célebres:

[...] permaneçamos sóbrios, revestidos com a couraça da fé e do amor, e com o


capacete da esperança.(2)
_______________
2. Bíblia do peregrino. São Paulo: PAULUS, 2002. I Tessalonicenses, 5:8, p. 2841.

O que se escreveu então foi para a nossa instrução, para que pela paciência e
consolação da Escritura tenhamos esperança.(3)
_______________
3. Bíblia do peregrino. São Paulo: PAULUS, 2002. Romanos, 15:4, p. 2732.

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, e a caridade. [...](4)


_______________
4. Bíblia sagrada. Revista e Atualizada. Traduzida por João Ferreira de Almeida. 2. ed. São
Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. I Coríntios, 13:13, p. 1232.

A palavra portuguesa “esperança”, encontrada nessas passagens, é uma tradução


do vocábulo grego elpis (esperança, expectativa), substantivo derivado do verbo elpidzo
(esperar, ter esperança, prever). Não é difícil perceber que a esperança é luz espiritual
que “[...] vem de cima, à maneira do Sol que ilumina do alto e alimenta as sementeiras
novas, desperta propósitos diferentes, cria modificações redentoras e descerra visões
mais altas”.(5)
_______________
26

5. XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2008. Cap. 75, p. 173-174.

É, no mínimo, curiosa a metáfora utilizada por Paulo de Tarso, quando compara a


esperança a um capacete, ao lado da fé e do amor no papel de couraça, já que esta
indumentária é típica de um guerreiro.
Consoante o ensino de Emmanuel:

O capacete é a defesa da cabeça em que a vida situa a sede de manifestação


do pensamento e Paulo não podia lembrar outro símbolo mais adequado à
vestidura do cérebro cristão, além do capacete da esperança na salvação.
Se o sentimento, muitas vezes, está sujeito aos ataques da cólera violenta, o
raciocínio, em muitas ocasiões, sofre o assédio do desânimo, à frente da luta pela
vitória do bem, que não pode esmorecer em tempo algum.
Raios anestesiantes são desfechados sobre o ânimo dos aprendizes por todas
as forças contrárias ao Evangelho salvador.

Por isso mesmo, talvez, o apóstolo não se refere à touca protetora.


Chapéu, quase sempre, indica passeio, descanso, lazer, quando não defina
convenção no traje exterior, de acordo com a moda estabelecida.
Capacete, porém, é indumentária de luta, esforço, defensiva. E o discípulo de
Jesus é um combatente efetivo contra o mal, que não dispõe de muito tempo para
cogitar de si mesmo, nem pode exigir demasiado repouso, quando sabe que o
próprio Mestre permanece em trabalho ativo e edificante.(6)
_______________
6. XAVIER, Francisco Cândido. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. Cap. 94, p. 243-245.

Allan Kardec, com extrema sensibilidade, ao organizar os capítulos do livro O


Evangelho segundo o Espiritismo, selecionou belíssima comunicação de “Um Espírito
amigo”, que assevera:

A vida é difícil, bem o sei. Compõe-se de mil nadas, que são outras tantas
picadas de alfinetes, mas que acabam por ferir. Se, porém, atentarmos nos
deveres que nos são impostos, nas consolações e compensações que, por outro
lado, recebemos, havemos de reconhecer que são as bênçãos muito mais
numerosas do que as dores. O fardo parece bem menos pesado, quando se olha
para o alto, do que quando se curva para a terra a fronte. Coragem, amigos!
Tendes no Cristo o vosso modelo. [...] (7)
_______________
7. KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 127. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
Cap. IX, item 7, p. 180-181.

Para bem compreendermos as virtudes do Cristo, necessitamos estudá-lo nos


momentos de adversidade. Já foi dito alhures que ninguém passa pela última prova do
seu caráter enquanto não sofre. A vinda do Mestre ao Orbe se deu em época de
recenseamento, obrigando seus pais a longo deslocamento, não obstante a gravidez
adiantada de Maria. Não havia lugar para Ele. Sua única estalagem foi a manjedoura
humilde. Tão logo é anunciado seu nascimento, o rei Herodes determina sua morte.
Conserva--se na casa simples de Nazaré, por longo tempo, em trabalho ativo na
carpintaria do pai.
27

Inicia seu ministério na Galiléia, região rural, repleta de homens simples e rústicos,
pescadores e lavradores, gente humilde e sofrida, calejada pelo tempo e pelo trabalho
árduo.
Não há maior teste à paciência de um artista do que ser obrigado a utilizar
instrumentos demasiadamente grosseiros à expressão do seu ideal, incompatíveis com o
seu talento e apuro. No entanto, na edificação do Reino Divino, os ignorantes do mundo,
os fracos, os sofredores, os desalentados, os doentes e os pecadores seriam, nas mãos
do Embaixador Celeste, material de base, semelhante a formoso mármore, destinado à
eterna e sublime construção.
Seus companheiros de ideal, apóstolos e discípulos, mal conseguem entender a
grandeza da sua missão, perdendo-se em querelas sobre qual deles seria o maior,
entregando-se ao fermento da discórdia e da traição, como no caso de Judas,
abandonando o Mestre no momento mais áspero do testemunho.
Nos derradeiros instantes da sua missão divina, despede-se do mundo em meio a
zombarias, acusações, ingratidão dos beneficiários, abandono dos amigos e seguidores,
açoites e martírios. Suas últimas palavras, no entanto, são filhas do perdão incondicional
e da inabalável esperança na vitória final do bem.
Toda a vida do Mestre é um cântico de esperança, a despeito das dificuldades
enfrentadas.
Nesse ponto, confirmando o otimismo e a esperança do Cristo, Humberto de
Campos nos brinda, reproduzindo a exortação de Jesus ao discípulo Bartolomeu,
conhecido pelo seu temperamento grave e sensível, porém, profundamente triste:

– A nossa doutrina, entretanto, é a do Evangelho ou da Boa Nova e já viste,


Bartolomeu, uma boa notícia não produzir alegria? Fazes bem, conservando a tua
esperança em face dos novos ensinamentos; mas, não quero senão acender o
bom ânimo no espírito dos meus discípulos. Se já tive ocasião de ensinar que o
meu Reino ainda não é deste mundo, isso não quer dizer que eu desdenhe o
trabalho de estendê-lo, um dia, aos corações que mourejam na Terra. Achas,
então, que eu teria vindo a este mundo, sem essa certeza confortadora? [...]
..................................................................................
– A vida terrestre é uma estrada pedregosa, que conduz aos braços amorosos de
Deus. O trabalho é a marcha. A luta comum é a caminhada de cada dia. Os
instantes deliciosos da manhã e as horas noturnas de serenidade são os pontos
de repouso; mas, ouve-me bem: na atividade ou no descanso físico, a
oportunidade de uma hora, de uma leve ação, de uma palavra humilde, é o
convite de nosso Pai para que semeemos as suas bênçãos sacrossantas. [...]
..................................................................................
[...] O Evangelho não poderia reclamar estados especiais de seus discípulos;
porém, é preciso considerar que a alegria, a coragem e a esperança devem ser
traços constantes de suas atividades em cada dia. Por que nos firmarmos no
pesadelo de uma hora, se conhecemos a realidade gloriosa da eternidade com o
nosso Pai? (8)
_______________
8. XAVIER, Francisco Cândido. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 3. ed.
especial. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Cap. 8, p. 66-68.

Agora, portanto, permaneça a esperança em nossos corações.


28

Reformador Junho 2008 - Ano 126 Nº 2.151 – PAG 30/228 – 32/230

9 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


Nascimento de Jesus
“Para quem está familiarizado com a história antiga, não deve ser motivo de perturbação
o fato de que as principais datas na vida de Jesus sejam apenas aproximadas. [...] Na
verdade, as datas de nascimento até mesmo de alguns imperadores romanos não são
certas [...].”(1)
_______________
1. MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. 3. ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1993. p. 367.

HAROLDO DUTRA DIAS

No prólogo deste artigo há uma citação do historiador John P. Meier, professor na


Universidade Católica de Washington D. C., considerado um dos mais eminentes
pesquisadores bíblicos de sua geração. Ao estabelecer os limites da ciência e da
investigação humanas, ele adverte: “Por Jesus da história, refiro-me ao Jesus que
podemos ‘resgatar’ e examinar utilizando os instrumentos científicos da moderna
pesquisa histórica”.(2)
_______________
2. Idem, ibidem. p. 35.

A pesquisa histórica baseia-se em fontes (documentos, registros, inscrições,


ossuários, obras de historiadores, achados arqueológicos) e adota métodos específicos,
adequados ao tipo de fonte analisada, com vistas à interpretação consistente dos dados
coletados.
Por vezes, seja em razão da escassez dessas fontes, seja em decorrência da
ausência de parâmetros na interpretação dos dados colhidos, somos obrigados a
reconhecer a limitação dos “instrumentos científicos da moderna pesquisa histórica”.
Nesse ponto, consideramos preciosa a contribuição dada pela Doutrina Espírita no
equacionamento de graves questões. No caso da cronologia da vida de Jesus, é lícito
concluir que a obra psicográfica de Francisco Cândido Xavier supre inúmeras lacunas,
impossíveis de serem transpostas sem o auxílio da revelação espiritual, tendo em vista as
limitações da historiografia.
Os dados cronológicos mais importantes da vida de Jesus encontram-se nas
narrativas da infância (Mateus, 2; Lucas, 1:5, 2:1-40) e nas narrativas da paixão (Mateus,
26-27; Marcos, 14-15; Lucas, 21--23; João, 13-19). Outros dados relevantes podem ser
encontrados nos evangelhos de Lucas e João (Lc., 3:1-2 e 23; Jo., 2:20).
Os historiadores do Cristianismo, porém, chamam a atenção para o fato de que os
Evangelhos não são essencialmente obras de história, no sentido atual da palavra. Os
Evangelistas não pretendiam produzir uma biografia completa ou mesmo um sumário da
vida de Jesus. Ao contrário, escreveram com a finalidade de transmitir o ensino do
Mestre, os fatos principais da sua vida, de modo a legar à posteridade o testemunho da
fé.
29

Nesse sentido, é justo considerar que os Evangelistas organizaram o material da


tradição (oral e/ou escrita) de acordo com um propósito redacional. Compilaram e
organizaram as narrativas sem se preocuparem com a ordem histórica dos
acontecimentos. É o que nos demonstra o pesquisador norte-americano:

[...] Tais compilações ainda são visíveis em Marcos: por exemplo, as passagens
polêmicas localizadas no início do ministério de Jesus na Galiléia (2:1; 3:6), em
contraposição a outra série de passagens semelhantes já em Jerusalém, ao final
do ministério (11:27; 12:34); uma seção central de relatos de milagres e palavras
de Jesus, agrupados pela palavra--chave “pão” (6:6; 8:21) e uma coletânea de
parábolas (4:1; 34). Não há motivo para considerarmos essas compilações como
tendo preservado a inviolável ordem cronológica dos eventos, especialmente
porque Mateus e Lucas não o fizeram. Mateus, por exemplo, reordena livremente
os relatos de milagres que aparecem em Marcos, para criar um grupo conciso de
nove relatos divididos em três grupos intercalados por material de “enchimento”
(Mateus, 8-9). O grande Sermão da Montanha, em Mateus, reaparece, em parte,
em Lucas como o Sermão da Planície, menor que o outro (ambos como tendo
ocorrido na Galiléia) e, parcialmente, em material espalhado por todo o longo
relato da jornada final de Jesus até Jerusalém, em Lucas, 9:51; 19:27 [...]”.(3)
_______________
3. MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. 3. ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1993. p. 50-51.

Por outro lado, seria temerário acusar os Evangelistas de terem distorcido os fatos
para adequá-los a propósitos teológicos. Nesse caso, vale lembrar que escreveram para
contemporâneos, muitos deles testemunhas oculares dos fatos narrados, razão pela qual
não se justifica o ceticismo exagerado com relação aos dados contidos nos Evangelhos.
Deve ser encontrada uma posição de equilíbrio que prime pela fé raciocinada.
Assim, considerando o relato dos Evangelistas, pode-se afirmar que Jesus nasceu
no tempo do imperador Augusto (37 a.C.-14 d. C.), antes da morte de Herodes, o Grande.
No ano 525 d.C., o papa João I (470-526 d.C.) pediu a Dionísio (4) que elaborasse
um calendário com o cálculo dos ciclos pascais, as datas futuras da Páscoa. Frei Dionísio,
além de elaborar uma efeméride pascal, estabeleceu um novo calendário, em oposição
ao sistema alexandrino, da era diocleciana, fixando a data do nascimento de Jesus em 25
de dezembro de 753 A.U.C.,(5) declarando 1º de janeiro de 754 A.U.C. como o início do
primeiro ano da Era Cristã, o “Anno Domini” (Ano do Senhor).
_______________
4. Dionysius Exiguus (470-540 d.C.) nasceu na Scythia Menor (Romênia/Bulgária),
transferindo-se para Roma por volta do ano 500 d.C., onde se tornou tradutor de inúmeras
obras da Igreja Romana, importantes para o direito canônico, além de ter elaborado a tabela
com as datas da Páscoa. Todavia, seu nome entrou para a história por ser o criador do
“Anno Domini”, alterando o calendário da época.
5. A.U.C. (Anno Urbis Conditae) – Ano da fundação da cidade de Roma. Os historiadores
fixam a data da fundação daquela cidade no ano 753 a.C., acolhendo os informes do
historiador romano “Varrão”. É comum confundir-se a sigla A.U.C. com Ab Urbe Condita,
título do livro de Tito Lívio sobre a história de Roma.

Posteriormente, descobriu-se que a data estabelecida por Dionísio estava


absolutamente equivocada, visto que fixava o nascimento de Jesus três anos após a
morte de Herodes, o Grande.
Para se encontrar a data da morte de Herodes, utilizou-se preciosa informação
fornecida pelo historiador judeu Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas, livro XVII, cap. 6, §
30

4, item 167), segundo o qual teria ocorrido um eclipse lunar pouco antes do falecimento
daquele monarca. Com base em cálculos astronômicos precisos, é possível afirmar que a
morte daquele rei se deu por volta de março/abril do ano 750 A.U.C. (4 a.C.), logo após o
referido eclipse.
Desse modo, concluem os exegetas que Jesus, seguramente, nasceu antes do ano
4 a.C. (data da morte de Herodes, o Grande). Todavia, esses pesquisadores são
unânimes em reconhecer a impossibilidade de se determinar o ano exato do nascimento
de Jesus, com base nas fontes históricas atualmente disponíveis.
Os “instrumentos científicos da moderna pesquisa histórica” nos permitem chegar
somente até esse ponto.
É nesse momento que a revelação espiritual pode e deve ser conjugada com as
pesquisas humanas, no intuito de resolver questões intricadas, mas extremamente
relevantes para o estudo do Cristianismo Nascente.
Nesse sentido, merece ser transcrito o extraordinário texto do Espírito Humberto de
Campos, revelando a data do nascimento do Cristo:

[...] o Senhor chamou o Discípulo Bem-Amado ao seu trono de jasmins matizado


de estrelas. O vidente de Patmos não trazia o estigma da decrepitude, como nos
seus últimos dias entre os espórades. Na sua fisionomia pairava aquela mesma
candura adolescente que o caracterizava no princípio do apostolado.
– João – disse-lhe o Mestre –, lembras-te do meu aparecimento na Terra?
– Recordo-me, Senhor. Foi no ano 749 da era romana, apesar da arbitrariedade
de Frei Dionísio, que, calculando no século VI da era cristã, colocou erradamente
o vosso natalício em 754.
– Não, meu João – retornou docemente o Senhor –, não é a questão cronológica
que me interessa, ao te arguir sobre o passado. É que nessas suaves
comemorações vem até mim o doce murmúrio das lembranças!...
– Ah! sim, Mestre Amado – retrucou pressuroso o Discípulo –, compreendo-vos.
Falais da significação moral do acontecimento. Oh!... se me lembro... a
manjedoura, a estrela guiando os poderosos ao estábulo humilde, os cânticos
harmoniosos dos pastores, a alegria ressoante dos inocentes, afigurando-se-nos
que os animais vos compreendiam mais que os homens, aos quais ofertáveis a
lição da humildade, com o tesouro da fé e da esperança.[...] (6) (Grifo nosso.)
_______________
6. XAVIER, Francisco Cândido. Crônicas de além-túmulo. Pelo Espírito Humberto de
Campos. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Cap. 15, p. 89-90.

Assim, consoante a revelação espiritual, pelas mãos do respeitável médium


Francisco Cândido Xavier, Jesus nasceu no ano 749 da era romana. Considerando que
o primeiro ano do calendário gregoriano (Anno Domini – Ano 1), atualmente em vigor no
mundo ocidental, corresponde ao ano 754 U.A.C. (ano da fundação de Roma), e tendo
em vista que não há ano zero, nesse calendário, basta considerar a sequência 753 U.A.C.
= 1 a.C.; 752 U.A.C. = 2 a.C.; 751 U.A.C. = 3 a.C.; 750 U.A.C. = 4 a.C. e 749 U.A.C. = 5
a.C.
Desse modo, pode-se concluir que o nascimento do Mestre se deu no ano 5 a.C.
31

Reformador Julho 2008 - Ano 126 Nº 2.152 – PAG 30/268 – 32/270

10 - Cristianismo Redivivo

As parábolas de Jesus
“As parábolas do Evangelho são como as sementes divinas que desabrochariam, mais
tarde, em árvores de misericórdia e de sabedoria para a Humanidade.”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2008. Questão 290.

HAROLDO DUTRA DIAS

Uma das características mais marcantes do ensino de Jesus é a utilização,


frequente e admirável, das parábolas. Muitas delas inspiraram poetas, artistas, moralistas,
pensadores, e influenciam, até hoje, a linguagem cotidiana: o bom samaritano, esconder
uma candeia, enterrar um talento...
A interpretação das parábolas de Jesus, todavia, tem sido dificultada pela falsa
compreensão da sua natureza. Que é uma parábola? Quais ditos de Jesus pertencem a
essa categoria? Estamos diante de um método pedagógico que utiliza palavras ou textos
simples, historinhas límpidas e de fácil compreensão para transmitir uma mensagem? A
parábola é uma espécie de simplificação, clarificação, exemplificação?
O vocábulo grego parabolé deriva do verbo “parabállein (colocar ao lado de;
comparar)”, razão pela qual significa literalmente “(palavra) colocada ao lado de”. O
sentido comum é de uma “justaposição, comparação, analogia, ilustração”.
A noção ocidental de parabolé encontra-se em Aristóteles, na sua obra intitulada
Retórica, II, XX, 2-4, com o sentido de justaposição, ou seja, colocação de uma coisa ao
lado de outra com a finalidade de comparação, ilustração, indicação de casos paralelos
ou análogos.
Nesse tratado, o grande filósofo grego classifica as figuras de linguagem, formas
específicas de discurso retórico, em: 1) Imagem (eikón); 2) Metáfora (metaphorá); 3)
Comparação (homoiósis); 4) Parábola (parabolé); 5) História ilustrativa (parádeigma); 6)
Alegoria (allegoría).
Nesse quadro teórico, a parábola era vista como um recurso simples e
convincente, destinado a iluminar o que estava obscuro, ajudando a platéia a
compreender alguma coisa, quando lhe fosse difícil seguir uma longa série de raciocínios
abstratos. Chegava-se a afirmar que uma parábola deve ser de mais fácil compreensão
do que aquilo que pretende ilustrar, razão pela qual seria um erro, no uso desse recurso
retórico, o emprego do desconhecido e do pouco familiar.
Essa é a ideia que uma inteligência formada pelos métodos ocidentais de
pensamento faz das parábolas da Bíblia. De fato, em alguns casos essa noção é
adequada e suficiente. Existem parábolas nos Evangelhos que podem ser tomadas como
exemplos concretos destinados a ilustrar, esclarecer, iluminar um princípio geral, como no
caso da Parábola do Bom Samaritano (Lucas, 10:29-37).
Todavia, o exame acurado das ocorrências do vocábulo parabolé no Novo
Testamento revela as limitações e inconsistências desse modelo teórico grego quando
aplicado a textos semítico--orientais da Palestina do primeiro século.
Eis alguns exemplos:
32

Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as


folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. (Mateus, 24:32.)

Disse-lhes Jesus: Sem dúvida, citar-me-eis esta parábola: Médico, cura-te a ti


mesmo; tudo o que ouvimos ter-se dado em Cafarnaum, faze-o também aqui na
tua terra. (Lucas, 4:23.) Também lhes disse uma parábola: Ninguém tira um
pedaço de veste nova e o põe em veste velha; pois rasgará a nova, e o remendo
da nova não se ajustará à velha. (Lucas, 5:36.)

Propôs-lhes também uma parábola: Pode, porventura, um cego guiar a outro


cego? Não cairão ambos no barranco? (Lucas, 6:39.)

Então, lhes propôs Jesus esta parábola(2) Qual, dentre vós, é o homem que,
possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e
nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la? (Lucas, 15:3-4.)
_______________
2. JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. Tradução de João Rezende Costa. 8. ed.
São Paulo: Paulus, 1986. p. 13.

Nada há no exterior do homem que, penetrando nele, o possa tornar impuro; mas
o que sai do homem, isso é o que o torna impuro.
Se alguém tem ouvidos para ouvir ouça!
E quando, ao deixar a multidão, entrou em casa, seus discípulos o interrogaram
sobre a parábola. (Marcos, 7:15-17.)

Essas passagens são suficientes para demonstrar que o uso do vocábulo parabolé
nos Evangelhos se afasta sensivelmente do quadro teórico proposto pelos gregos. Isso se
deve ao fato de que a palavra parabolé é regularmente utilizada na LXX (Septuaginta) (3)
para traduzir o substantivo hebraico mashal, ou a expressão aramaica mathla.
_______________
3. A Septuaginta, também conhecida como Versão dos Setenta (LXX), é a tradução grega da
bíblia hebraica, feita aproximadamente no ano 200 a.C., segundo a tradição, por duzentos
sábios judeus. Essa tradução exerceu profunda influência nos autores cristãos do primeiro
século, inclusive nos Evangelistas, que a utilizam como modelo de escrita. Muitas citações
do Velho Testamento, encontradas nos Evangelhos, são cópias quase perfeitas dessa
tradução.

Na literatura hebraica, o termo mashal/mathla apresenta uma enorme variedade de


significados. Os Evangelistas, não obstante utilizarem em seus escritos o idioma grego,
operavam mentalmente com categorias semíticas, utilizando constantemente as mesmas
expressões encontradas na tradução grega da bíblia hebraica (Septuaginta).
Nesse ponto, merece destaque a lição do renomado exegeta bíblico Joachim
Jeremias, em obra específica destinada ao tema:

[...] O mashal hebraico e o mathla aramaico designava, mesmo no judaísmo pós-


bíblico, sem que se possa fazer um quadro esquemático, toda sorte de linguagem
figurada: Parábola, comparação, alegoria, fábula, provérbio, revelação
apocalíptica, dito enigmático, pseudônimo, símbolo, figura de ficção, exemplo
(tipo), motivo, argumentação, apologia, objeção, piada. [...].(4)
_______________
33

4. JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. Tradução de João Rezende Costa. 8. ed.


São Paulo: Paulus, 1986. p. 13.

Em resumo, a expressão parabolé assume no Novo Testamento o sentido de


narrativa parabólica (Lucas, 10:29-37), comparação (Lucas, 5:36), de figura simbólica
(Marcos, 13:28), provérbio ou máxima (Lucas, 4:23, 6:39), enigma (Marcos, 7:17), ou
simples regra (Lucas, 14:7). Desse modo, deve ser entendida no sentido largo de
mashal/mathla.
Como salienta Jeremias, forçar essas passagens a se encaixarem no quadro das
categorias da retórica grega seria “impor às parábolas de Jesus uma norma que lhes é
estranha”.(5)
_______________
5. Idem, ibidem.

Na mesma linha, afirma o filósofo francês Paul Ricoeur:

[...] A parábola não é um meio auxiliar de prova. Não há pensamento literal [...]. O
erro inicial consiste em identificar o mashal da literatura hebraica com a parabolé
da retórica grega que é, por sua vez, uma parte da lógica aristotélica [...]. O
mashal hebraico liga diretamente a significação do que é dito com a disposição
correspondente na esfera da existência humana […].(6)
_______________
6. RICOEUR, Paul. A hermenêutica bíblica. São Paulo: Loyola, 2006. TT6. p. 181.

Nesse sentido, é lícito concluir que, enquanto a parábola grega foi qualificada como
figura de retórica, o mashal/mathla deve ser qualificado como “hermenêutico”, tendo em
vista o trabalho de interpretação que ele requer para a sua exata compreensão.
Na tarefa interpretativa dos ensinos de Jesus, contamos com a Doutrina Espírita,
possibilitando-nos não somente a compreensão mas, sobretudo, propiciando terreno fértil
para a vivência, para a exemplificação, consoante a advertência dos Espíritos superiores:

Já que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus, qual a utilidade do ensino


dado pelos Espíritos? Terão eles mais alguma coisa a nos ensinar?

“Muitas vezes a palavra de Jesus era alegórica e em forma de parábolas, porque


Ele falava de acordo com a época e os lugares. Agora, é preciso que a verdade
seja inteligível para todos. É necessário explicar e desenvolver aquelas leis, já
que pouquíssimos são os que as compreendem e menos ainda os que as
praticam. [...].”(7)
_______________
7. KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Ed.
Comemorativa. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Questão 627.
34

Reformador Setembro 2008 - Ano 126 Nº 2.154 – PAG 33/351 – 35/353

11 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


A crucificação de Jesus
“Para quem está familiarizado com a história antiga, não deve ser motivo de perturbação
o fato de que as principais datas na vida de Jesus sejam apenas aproximadas. [...]”(1)
_______________
1. MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. 3. ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1993. p. 367.

HAROLDO DUTRA DIAS

Os dados cronológicos mais importantes da vida de Jesus encontram-se nas


narrativas da infância (Mateus, 2; Lucas, 1:5, 2:1-40) e nas da Paixão (Mateus, 26-27;
Marcos, 14-15; Lucas, 21-23; João, 13-19). Outros dados relevantes podem ser
encontrados nos Evangelhos de Lucas e João (Lc., 3:1-2 e 23; Jo., 2:20).
Os historiadores do Cristianismo, porém, chamam a atenção para o fato de que os
Evangelhos não são essencialmente obras de história, no sentido atual da palavra. Os
Evangelistas não pretendiam produzir uma biografia completa ou mesmo um sumário da
vida de Jesus. Ao contrário, escreveram com a finalidade de transmitir o ensino do
Mestre, os fatos principais da sua vida, de modo a legar à posteridade o testemunho da
fé.
Nesse sentido, é justo considerar que os Evangelistas organizaram o material da
tradição (oral e/ou escrita) de acordo com um propósito redacional. Compilaram e
organizaram as narrativas sem se preocuparem com a ordem histórica dos
acontecimentos.
Assim, em se tratando de cronologia do Cristianismo Nascente, por vezes, é
preciso contentar-se com o estabelecimento de intervalos temporais, dentro dos quais há
maior probabilidade de ocorrência de determinado fato. As limitações das fontes históricas
disponíveis justificam essa situação.
Seguindo o relato dos Evangelistas, entre o nascimento de Jesus e o início de seu
ministério público, houve um período de “cerca de trinta anos” (Lucas, 3:23).
Considerando que seu nascimento se deu no outono/inverno do ano 5 a.C.,(2) é
possível estabelecer que sua missão pública entre os homens desenvolveu-se entre os
anos 25 e 45 d.C. O intervalo é excessivamente extenso, e pode ser reduzido com base
em outros dados.
_______________
2. Consultar o artigo intitulado “Nascimento de Jesus”, publicado na revista Reformador,
de junho de 2008, p.

Jesus foi crucificado quando Pôncio Pilatos era procurador da Judéia (TÁCITO,
Anais, XV, 44; FLÁVIO JOSEFO, Antiguidades Judaicas, XVIII, 63; Relato dos
evangelistas), ou seja, entre 26 e 36 d.C. Já conseguimos uma considerável redução no
intervalo.
35

João Batista iniciou seu ministério no ano décimo quinto de Tibério César (Lucas,
3:1). Levando-se em conta as divergências na fixação desta data,(3) tal fato ocorreu entre
os anos 27 e 29 d.C.
_______________
3. Alguns pesquisadores consideram, para contagem dos quinze anos, o período em que
Tibério César se tornou co-regente de Augusto, ao passo que outros recusam esse método
de contagem asseverando que deve ser contabilizado apenas o período em que ele regeu
sozinho, após a morte do imperador. Visto que Augusto faleceu em 19 de agosto de 14 d.C.,
a contagem deveria se iniciar após essa data.

Jesus, por sua vez, deu início ao seu ministério público após João Batista ter
iniciado o seu. Computando-se um período razoável de duração do ministério do Cristo, o
ano da sua morte, na opinião da maioria dos pesquisadores, deve se situar entre os anos
29 e 34 d.C. Nesta, houve uma redução drástica daquele intervalo temporal inicialmente
proposto.
Sobre isso, julgamos oportuna a transcrição de pequeno trecho sobre a
crucificação encontrado em famoso dicionário bíblico:

[...] Dentre as tentativas feitas para determinar o ano da crucificação, a mais


frutífera tem sido feita com a ajuda da astronomia. De conformidade com todos os
quatro evangelhos, a crucificação teve lugar numa sexta-feira; mas enquanto que
nos sinóticos essa sexta-feira é 15 de Nisã, em João é 14 de Nisã. Portanto, o
problema que tem que ser solucionado com a ajuda da astronomia, é o de
determinar em qual dos anos 26--36 d.C. é que 14 e 15 de Nisã caíram numa
sexta-feira. Mas, visto que nos tempos neotestamentários o mês judaico era lunar,
e o tempo de seu início era marcado pela observação da lua nova, esse problema
é basicamente o de resolver quando a lua nova se tornou visível. Estudando esse
problema, Fotheringham e Schoch chegaram cada qual a uma só fórmula
mediante cuja aplicação descobriram que 15 de Nisã caiu numa sexta-feira
somente no ano 27 d.C., e que 14 de Nisã caiu numa sexta-feira somente nos
anos 30 e 33. Visto que o ano de 27 como ano da crucificação está fora de
questão, a escolha recai entre os anos 30 d.C. (7 de abril) e 33 d.C. (3 de abril).
[...].(4) (Grifo nosso.)
_______________
4. DOUGLAS, J. D. O novo dicionário da bíblia. 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2006. p.

Portanto, usando todos os recursos e métodos da moderna pesquisa histórica,


pode-se afirmar que a crucificação ocorreu no dia 7 de abril do ano 30 d.C. ou no dia 3 de
abril do ano 33 d.C.
A opção por qualquer dessas datas não isenta o pesquisador de responder a
objeções fundadas. É nesse ponto da pesquisa que julgamos conveniente conjugar
esforço humano e revelação espiritual, numa operação chamada por Allan Kardec de “fé
raciocinada”.
Nesse sentido, dois textos encontrados
na obra psicográfica de Francisco Cândido Xavier chamam nossa atenção:
Nos primeiros dias do ano 30, antes de suas gloriosas manifestações, avistou-se
Jesus como Batista, no deserto triste da Judéia, não muito longe das areias
ardentes da Arábia [...].(5)
_______________
5. XAVIER, Francisco Cândido. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 3. ed.
especial. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap.
36

Aproximava-se a Páscoa no ano 33. Numerosos amigos de Públio haviam


aconselhado a sua volta temporária a Jerusalém, a fim de intensificar os serviços
da procura do filhinho, no curso das festividades que concentravam, na época, as
maiores multidões da Palestina [...].
..................................................................................
[...] De uma sala contígua ao seu gabinete, notou que Públio atendia a numerosas
pessoas que o procuravam particularmente, em atitude discreta; e o interessante
é que, segundo as suas observações, todos expunham ao senador o mesmo
assunto, isto é, a prisão inesperada de Jesus Nazareno – acontecimento que
desviara todas as atenções das festividades da Páscoa, tal o interesse
despertado pelos feitos do Mestre, em todos os espíritos. [...] (6)
_______________
6. XAVIER, Francisco Cândido. Há dois mil anos. Pelo Espírito Emmanuel. 48. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007. Primeira Parte, cap. VIII, p. 144, 147 e 148.

Assim, consoante a revelação espiritual, pelas mãos do respeitável médium


Francisco Cândido Xavier, Jesus iniciou seu ministério no ano 30 d.C. e foi crucificado no
ano 33 d.C..( Ora, considerando-se que a crucificação se deu em abril//maio do ano 33
d.C.,(7) a conversa se deu após o outono de 34 d.C., mas antes de abril de 35 d.C. ou
seja, antes de se completarem dois anos da crucificação.)
_______________
7. A festa da Páscoa começa no crepúsculo da sexta-feira (14 de Nisã), ou seja, no início do
sábado (15 de Nisã), uma vez que os judeus contavam o dia a partir das dezoito horas. Essa
festa durava uma semana, findando no sábado seguinte (22 de Nisã).
37

Reformador Outubro 2008 - Ano 126 Nº 2.155 – PAG 36/394 – 38/396

12 - Cristianismo Redivivo

O candidato a discípulo
“[...] O Compositor compõe uma música, e a obra está terminada. O Escultor cinzela o seu
mármore, e um dia a estátua está acabada. Mas a tarefa do exegeta nunca tem fim. Ele
pode parar, apenas, para registrar, um tanto timidamente, as suas descobertas em certo
ponto do tempo, orando para que elas tenham alguma utilidade para outras pessoas, e
para que ele tenha sido fiel ao que lhe foi dado, até então. [...].”(1)
_______________
1. BAILEY, Kenneth E. Through peasant eyes. Michigan: Eerdmans Publishing Company,
1983. Preface, p. 7.

HAROLDO DUTRA DIAS

N a visão profética de Jeremias, Deus compara sua palavra com “um martelo que
despedaça a rocha” (Jr., 23:29). E o Talmud comenta: “Tal qual a rocha que se parte em
muitos fragmentos sob o golpe do martelo, assim cada palavra do Santíssimo, bendito
seja, foi dividida em setenta expressões” (B. Shabat, 83b) – uma multiplicidade de
significados e interpretações. Por esta razão, diz o Midrash que “a Torah(2) tem setenta
faces” (Midrash Rabá, Números, 13:15).
_______________
2. Torah, em sentido amplo, significa a “revelação divina”. Em sentido estrito, significa o
pentateuco mosaico, ou seja, os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica.

Advertidos da complexidade que envolve a atividade do intérprete das Escrituras,


podemos examinar a bela passagem do Evangelho de Lucas, na qual o candidato a
discípulo pede a Jesus a concessão de tempo, antes de aceitar o convite para segui-lo;
eis o texto:

E disse a outro: Segue-me. Mas, ele disse: Permite-me ir primeiro enterrar meu
pai. Mas, ele respondeu: Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém,
vai e proclama o Reino de Deus. (Lucas, 9:59-60.)

Muitos intérpretes acreditam que o pai acabara de morrer ou estava prestes a


expirar. Nesse caso, o candidato a discípulo pedia singela permissão para oferecer ao
cadáver do genitor a bênção da sepultura.
O sepultamento dos pais era considerado um dever religioso dos judeus, uma
espécie de desdobramento do mandamento “honrar pai e mãe”. (Gênesis, 50:5; Êxodo,
20:12;Deuteronômio, 5:16; Tobias, 4:3-4.) Desse dever estavam isentos somente o sumo
sacerdote e aqueles que fizeram o voto de nazireu (Levítico, 21:10-11; Números, 6:6-7).
Não ser sepultado era uma maldição, uma vergonha (Deuteronômio, 28:26;
Salmos, 79:2), razão pela qual o dever do sepultamento tinha primazia sobre o estudo da
Lei, o serviço do Templo, o sacrifício da Páscoa, a observância da circuncisão, a recitação
do Shemá e a leitura da Megillah (B. Berakhot 3a; B. Megillah 3b). Até os sacerdotes, que
deveriam evitar a contaminação do contato com cadáveres, tinham permissão para
sepultar seus pais (Levítico, 21:2-3).
38

A questão, posta nestes termos, oferece enormes dificuldades ao exegeta.


Joaquim Jeremias salientou algumas delas:

[...] Ao chamar para o círculo dos discípulos que o acompanhavam, Jesus


imprimiu um tom de urgência ao seu apelo. A Eliseu foi permitido despedir-se da
sua família (1Rs., 19:20), mas Jesus não concede essa licença (Lc., 9:61), e até
mesmo rejeita o pedido de um filho que roga se lhe permita cumprir o mais
elementar dever de um filho, a saber, o de sepultar o seu pai. O sepultamento se
fazia na Palestina no próprio dia da morte e em seguida faziam-se dois dias de
luto, quando a família enlutada recebia as expressões de condolência. Jesus não
pode conceder essa prorrogação. Por que tanta urgência? [...].(3)
_______________
3. JEREMIAS, Joaquim. Teologia do novo testamento. São Paulo: Editora Hagnos, 2008.
Cap. IV, p. 208.

Observando essa primeira “face” da interpretação do texto, concluímos que a


exigência de Jesus é superior à de Elias, que permitiu a Eliseu despedir-se de seus pais
(1Reis, 19:19-21), mas iguala-se à exigência de Deus, que não permitiu ao profeta
Ezequiel fazer luto por sua mulher (Ez., 24:15-24).
Jesus redefine o núcleo familiar sobre as bases da obediência à vontade de Deus,
e não sobre os laços sanguíneos (Mateus, 12:46-50), advertindo que o discipulado é duro,
e exige um compromisso absoluto e permanente.
Allan Kardec resume magistralmente essa ideia:

Sem discutir as palavras, deve-se aqui procurar o pensamento, que era,


evidentemente, este: “Os interesses da vida futura prevalecem sobre todos os
interesses e todas as considerações humanas”, porque esse pensamento está de
acordo com a substância da doutrina de Jesus, ao passo que a idéia de uma
renunciação à família seria a negação dessa doutrina.(4)
_______________
4. KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 127. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
Cap. XXIII, item Abandonar pai, mãe e filhos.

Os comentaristas orientais, por sua vez, considerando os aspectos culturais do texto,


fazem observações interessantes. Ibn al-Salibi comenta:

Deixa-me ir sepultar significa: deixa-me ir e servir meu pai enquanto ele é vivo;
depois que ele morrer, eu o sepultarei e virei.(5)
_______________
5. IBN AL-SALIB, apud BAILEY, Kenneth E. Through peasant eyes. Combined Edition.
Michigan: Eerdmans Publishing Company, 1983. Chapter 2, p. 26.

A mesma idéia é apresentada pelo comentarista árabe Sa’id:

[...] O segundo (discípulo) está olhando para um futuro longínquo, pois adia sua
decisão de seguir Jesus para um tempo posterior à morte do seu pai [...]. Se o
seu pai tivesse realmente morrido, por que naquele exato momento ele não
estava velando o corpo dele? Na verdade, ele pretende adiar o assunto de seguir
Jesus para um futuro distante, quando o seu pai, velho, morresse. Mal sabe ele
que Jesus, dentro de muito pouco tempo entregará o seu espírito. [...].(6)
_______________
39

6. SA'ID, apud BAILEY, Kenneth E. Through peasant eyes. Combined Edition. Michigan:
Eerdmans Publishing Company, 1983. Chapter 2, p. 26.

Kenneth Bailey, após ter vivido 47 anos em comunidades agrícolas do Oriente


Médio, pesquisando os aspectos culturais e literários que estão por trás dos textos do
Novo Testamento, afirma:

[...] A frase “enterrar o pai” é expressão idiomática tradicional que se refere


especificamente aos deveres do filho de ficar em casa e cuidar de seus pais até
que eles jazam em paz, para descansar com todo o respeito. Este escritor ouviu
exatamente esta expressão sendo usada repetidamente entre os habitantes do
Oriente Médio discutindo a emigração. Em certo ponto da conversa alguém
pergunta: “Você não vai sepultar primeiro a seu pai?”. A pessoa que interroga
geralmente está se dirigindo ao futuro emigrante, que tem cerca de trinta anos de
idade. Geralmente, o pai em discussão ainda deve ter cerca de vinte anos para
viver. A ideia é: “Você não vai ficar até cumprir o dever tradicional de tomar conta
de seus pais até a sua morte, e depois pensar em emigrar?”. Outros
coloquialismos expressam a mesma ideia cultural Na língua síria coloquial de
aldeias isoladas da Síria e do Iraque, quando um filho rebelde procura reafirmar a
sua independência em relação ao seu pai, a repreensão final e contundente do
pai é: kabit di gurtly (“Você quer me enterrar”). A ideia é: “Você quer que eu me
apresse a morrer para que a minha autoridade sobre você termine, e você fique
por sua própria conta” [...]. Aqui estamos tratando de expectativas da
comunidade, que podem ser mal traduzidas em termos ocidentais [...]. O recruta à
margem da estrada está dizendo: “A minha comunidade me faz certas exigências,
e a força dessas exigências é muito grande. Certamente, o senhor não espera
que eu frustre as expectativas da minha comunidade, não é?”. Não obstante, é
exatamente isto que Jesus requer [...].(7)
_______________
7. BAILEY, Kenneth E. Through peasant eyes. Combined Edition. Michigan: Eerdmans
Publishing Company, 1983.Chapter 2, p. 26.

Observando essa segunda “face” da interpretação do texto, concluímos que o


candidato a discípulo pedia muito mais tempo do que o necessário para o sepultamento.
Na verdade adiava o compromisso por tempo indeterminado. No entanto, a resposta de
Jesus engloba as duas situações expostas na primeira “face” e na segunda “face” da
interpretação. O sentido de prioridade, urgência e devotamento exigidos pelo
chamamento do Cristo permanece intacto nas duas abordagens.
Allan Kardec, ao comentar os versículos em estudo (Lucas, 9:59--60), asseverou:

A vida espiritual é, com efeito, a verdadeira vida, é a vida normal do Espírito,


sendo-lhe transitória e passageira a existência terrestre, espécie de morte, se
comparada ao esplendor e à atividade da outra. O corpo não passa de simples
vestimenta grosseira que temporariamente cobre o Espírito, verdadeiro grilhão
que o prende à gleba terrena, do qual se sente ele feliz em libertar-se. [...] Era
isso o que aquele homem não podia por si mesmo compreender. Jesus lho
ensina, dizendo: Não te preocupes com o corpo, pensa antes no Espírito; vai
ensinar o reino de Deus; vai dizer aos homens que a pátria deles não é a Terra,
mas o céu, porquanto somente lá transcorre a verdadeira vida.(8) (Grifo nosso.)
_______________
8. KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 127. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
Cap. XXIII, item 8.
40

No tocante ao ensino “deixa que os mortos enterrem seus mortos”, é valiosa a lição de
Emmanuel:

O cadáver é carne sem vida, enquanto que um morto é alguém que se ausenta da
vida. Há muita gente que perambula nas sombras da morte sem morrer.
Trânsfugas da evolução, cerram-se entre as paredes da própria mente,
cristalizados no egoísmo ou na vaidade, negando-se a partilhar a experiência
comum. Mergulham-se em sepulcros de ouro, de vício, de amargura e ilusão.
[...].(9)
_______________
9. XAVIER, Francisco Cândido. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed. 1a reimpressão.
Rio de Janeiro: FEB, 2008.Cap. 143.

Espiritualmente falando, apenas conhecemos um gênero temível de morte – a da


consciência denegrida no mal, torturada de remorso ou paralítica nos
despenhadeiros que marginam a estrada da insensatez e do crime. É chegada a
época de reconhecermos que todos somos vivos na Criação Eterna.(10)
_______________
10. ______. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Cap. 42.

Urge atender ao chamado do Cristo no tempo intitulado “hoje”.


41

Reformador Novembro 2008 - Ano 126 Nº 2.156 – PAG 34 – 36

13 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


Os alicerces da Igreja Cristã
“Os filósofos do mundo sempre pontificaram de cátedras confortáveis, mas nunca
desceram ao plano da ação pessoal, ao lado dos mais infortunados da sorte. Jesus
renovara, com exemplos divinos, todo o sistema de pregação da virtude. Chamando a si
os aflitos e os enfermos, inaugurara no mundo a fórmula da verdadeira benemerência
social.”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007. Primeira parte, cap. III, p. 72.

HAROLDO DUTRA DIAS

A s festividades da Páscoa,(2) na Palestina do ano 33 d.C.,(3) terminaram de forma


inesperada, gravando no coração dos Apóstolos as penosas lições do calvário. O Mestre
deixara-se imolar, aceitando o supremo sacrifício sem qualquer reprovação ou murmúrio.
_______________
2. A festa da Páscoa começa no crepúsculo da sexta-feira (14 de Nisã), ou seja, no início do
sábado (15 de Nisã), uma vez que os judeus contavam o dia a partir das dezoito horas. Essa
festa durava uma semana, findando no sábado seguinte (22 de Nisã).
3. Consultar o artigo intitulado “A crucificação de Jesus”, publicado na revista Reformador,
de setembro de 2008, p. 33, no qual se demonstrou que a crucificação ocorreu por volta do
dia 3 de abril de 33 d.C.

De alma envolta em perplexidade e tristeza, o colégio apostólico se dispersou.


Jesus, todavia, compadecendo-se da fragilidade humana, ressurgiu das sombras da
morte confirmando a imortalidade da alma.
A notícia espalhou-se rapidamente, nutrindo o coração dos seguidores de
imorredoura esperança.
Ao cabo de sete semanas (cinquenta dias),(4) na festa de Pentecostes, quando
Jerusalém recebia os mais diversos peregrinos, inaugurou-se nova era para a
Humanidade sob os auspícios “[...]dos Espíritos redimidos e santificados que cooperam
com o Divino Mestre, desde os primeiros dias da organização terrestre [...]”,(5) também
conhecidos pelo nome de Espírito Santo. Nesse sentido, o texto de Emmanuel é
esclarecedor:
_______________
4. A festa de Pentecostes, palavra grega que significa cinquenta, é celebrada sete semanas
após a Páscoa, ou seja, no quinquagésimo dia após o sábado Pascal. Os hebreus a
denominam “festa de Shavuot” ou festa das semanas, na qual celebram o recebimento da
Torah no monte Sinai, razão pela qual é também conhecida como a festividade do “dom da
Torah”. Nesse caso, o pentecostes descrito no livro “Atos dos Apóstolos” ocorreu por
volta do dia 24 de maio de 33 d.C.
5. XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 1ª
reimpressão. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Questão 312.
42

No dia de Pentecostes, Jerusalém estava repleta de forasteiros. Filhos da


Mesopotâmia, da Frígia, da Líbia, do Egito, cretenses, árabes, partos e romanos
se aglomeravam na praça extensa, quando os discípulos humildes do Nazareno
anunciaram a Boa Nova, atendendo a cada grupo da multidão em seu idioma
particular.
Uma onda de surpresa e de alegria invadiu o espírito geral. Não faltaram os
céticos, no divino concerto, atribuindo à loucura e à embriaguez a revelação
observada. Simão Pedro destaca-se e esclarece que se trata da luz prometida
pelos céus à escuridão da carne.
Desde esse dia, as claridades do Pentecostes jorraram sobre o mundo,
incessantemente. Até aí, os discípulos eram frágeis e indecisos, mas, dessa hora
em diante, quebram as influências do meio, curam os doentes, levantam o espírito
dos infortunados, falam aos reis da Terra em nome do Senhor.
O poder de Jesus se lhes comunicara às energias reduzidas. Estabelecera-se
a era da mediunidade, alicerce de todas as realizações do Cristianismo, através
dos séculos.
Contra o seu influxo, trabalham, até hoje, os prejuízos morais que avassalam
os caminhos do homem, mas é sobre a mediunidade, gloriosa luz dos céus
oferecida às criaturas, no Pentecostes, que se edificam as construções espirituais
de todas as comunidades sinceras da Doutrina do Cristo e é ainda ela que,
dilatada dos apóstolos ao círculo de todos os homens, ressurge no Espiritismo
cristão, como a alma imortal do Cristianismo redivivo. (6) (Grifo nosso.)
_______________
6. XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 1a
reimpressão. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 10, p. 35.

Doravante, guiado pela Espiritualidade superior, Simão Pedro transfere-se para


Jerusalém, no segundo semestre do ano 33 d.C., fundando a instituição conhecida como
“Casa do Caminho”, posto avançado de atendimento a inúmeros necessitados, além de
foco irradiador da Boa Nova.
A descrição de Emmanuel da veneranda instituição é insuperável:

Desde que viera do Tiberíades para Jerusalém, Simão transformara-se em célula


central de grande movimento humanitarista. [...]
..................................................................................
Era por esse motivo que a residência de Pedro, doação de vários amigos do
“Caminho”, regurgitava de enfermos e desvalidos sem esperança. Eram velhos a
exibirem úlceras asquerosas, procedentes de Cesaréia; loucos que chegavam
das regiões mais longínquas, conduzidos por parentes ansiosos de alívio;
crianças paralíticas, da Iduméia, nos braços maternais, todos atraídos pela fama
do profeta nazareno, que ressuscitava os próprios mortos e sabia restituir
tranquilidade aos corações mais infortunados do mundo.
Natural era que nem todos se curassem, o que obrigava o velho pescador a
agasalhar consigo todos os necessitados, com carinho de um pai. Recolhendo-se
ali, com a família, era auxiliado particularmente por Tiago, filho de Alfeu, e por
João; mas, em breve, Filipe e suas filhas instalavam-se igualmente em Jerusalém,
cooperando no grande esforço fraternal.[...] (7)
_______________
7. XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007. Primeira parte, cap. III, p. 72-73.
43

Vê-se que o ano 33 d.C. representa um marco inicial para o Cristianismo Nascente.
O retorno do Mestre ao mundo espiritual implicaria a distribuição de encargos e
responsabilidades graves, tendo em vista a necessidade de concretização no plano físico
do prometido “Reino de Deus”, fruto da vivência plena do Evangelho.
Jerusalém nunca mais seria a mesma. As sementes do Cristo, quais minúsculos
grãos de mostarda, se transformariam em frondosas árvores de amor e sabedoria. Em
meio ao pântano das mais pervertidas paixões, desabrochariam lírios de pura
espiritualidade.
O Espiritismo, na sua feição de Cristianismo Redivivo, repete o esforço dos
primeiros cristãos, procurando conjugar, na intimidade da “Casa Espírita”, os verbos amar,
estudar, compreender, perdoar, buscando a legítima caridade. Nesse esforço de
aperfeiçoamento, encontra nas primeiras instituições do Cristianismo Nascente um
modelo de vivência cristã à altura dos ensinos de Jesus.
A “Casa do Caminho” é exemplo vivo, não obstante o transcurso dos séculos. Por
esta razão, urge estudar e refletir sobre os grandes acontecimentos que marcaram o
primeiro século do Cristianismo, não somente pelos vultos que trabalharam pela causa do
Mestre, mas também pela experiência registrada por estes pioneiros, que jamais pode ser
esquecida, sob pena de cometermos antigos e graves erros capazes de comprometer
nossa ascensão espiritual.
Irmãos de jornada, avancemos! Luz acima!
44

Reformador Dezembro 2008 - Ano 126 Nº 2.157 – PAG 31/469 – 33/471

14 - Cristianismo Redivivo

A lição do arado
“O ato de seguir a Jesus não é definido como a sensação de uma luz interior, ou a
percepção de uma consciência intelectual, mas é comparado com a execução de uma
tarefa criativa, consumidora e ativa, como a de colocar a mão no arado e dirigir uma junta
de bois.”(1)
_______________
1. BAILEY, Kenneth E. Through peasant eyes. Michigan: Eerdmans Publishing Company,
1983. Cap. 2, p. 32.

HAROLDO DUTRA DIAS

Narra o Evangelho de Lucas a pitoresca história do impetuoso candidato a


discípulo, cuja lealdade estava divida entre a obediência aos padrões culturais da sua
época e o suave jugo do Cristo:

Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas permita-me despedir-me dos


que estão em minha casa.
Jesus, porém, lhe disse: Ninguém que põe sua mão no arado e olha para trás é
apto para o Reino de Deus. (Lucas, 9:61-62.)

Muitos intérpretes salientam que o “despedir-se” da família, no mundo oriental,


implicava o pedido de permissão para partir. A autoridade dos genitores, sobretudo a do
pai, era suprema, motivo pelo qual a pessoa que partia precisava pedir permissão a quem
ficava.
Quando alguém iniciava um novo empreendimento, costumava visitar seu pai na
aldeia a fim de lhe pedir a bênção e a permissão para o cometimento, ainda quando se
tratasse de um homem independente.
No caso em exame, o candidato condicionava sua adesão ao Cristo à aprovação
dos pais, ou seja, buscava conciliar a exigência social da sua época com a convocação
espiritual do Mestre.
Em resposta à sua súplica, Jesus estabelece um programa árduo, mostrando que a
tarefa de segui-lo exige concentração, dedicação e abnegação.
Arar a terra na Palestina do primeiro século envolvia um conjunto complexo de
providências. Joaquim Jeremias salientou algumas delas:

[...] O arado palestino, muito leve, é guiado com uma só mão. Esta mão,
geralmente a esquerda, precisa ao mesmo tempo conservar o arado na posição
vertical, regular a sua profundidade mediante pressão, e levantá-lo por sobre
pedras e rochas que estejam em seu caminho. O arador usa a outra mão para
guiar o boi teimoso com um aguilhão com cerca de um metro de comprimento,
provido de uma ponta de ferro. Ao mesmo tempo ele precisa ficar olhando
continuamente entre as pernas traseiras do animal, para não perder o sulco de
vista. Esta forma primitiva de arado requer destreza, atenção, e concentração. Se
o arador olhar para os lados, um novo sulco é aberto fora da linha. Desta forma,
45

quem quiser seguir a Jesus precisa estar resolvido a quebrar os laços com o
passado, e fixar os olhos apenas no Reino vindouro de Deus [...].(2)
_______________
2. JEREMIAS, Joaquim. As parábolas de Jesus. 9. ed. São Paulo: Editora Paulus, 2004.
Parte III, cap. VI, p. 196.

Não bastasse a dificuldade de manejo do arado, o processo de aragem do campo


desdobrava--se em múltiplas atividades, tornando a tarefa muito mais exigente do que se
imagina à primeira vista:

[...] A aração era cuidadosa e minuciosa; logo que se quebrava o restolho depois
da colheita, abriam-se sulcos com margens largas entre eles, para facilitar a
absorção das chuvas. Ao arar, depois das primeiras chuvas, sulcos mais
próximos, divididos por canteiros, eram abertos para propiciar a drenagem; só na
terceira aração, antes da semeadura, os sulcos eram feitos consecutivamente,
sem canteiros entre eles. O trabalho final era o de cobrir a semente... esse
implemento era maior e mais pesado do que o moderno arado árabe, que em
geral se parece com ele [...].(3)
_______________
3. APPELEBAUM. The jewish people in the first century, apud BAILEY, Kenneth E. Through
peasant eyes. Combined Edition. Michigan: Eerdmans Publishing Company, 1983. Cap. 2, p.
30.

Kenneth Bailey, após ter vivido 47 anos em comunidades agrícolas do Oriente


Médio, pesquisando os aspectos culturais e literários que estão por trás dos textos do
Novo Testamento, afirma:

[...] É claro que a aração era uma operação muito exata, iniciando-se com a
abertura de estrias para a absorção da água. Em um estágio posterior, os sulcos
eram feitos de forma a permitir a drenagem. Uma terceira aração preparava o
solo, e uma quarta cobria a semente depois do plantio. Obviamente qualquer
pessoa que desejasse desincumbir-se de uma responsabilidade destas precisava
dar atenção irrestrita ao que estava fazendo [...].(4)
_______________
4. BAILEY, Kenneth E. Through peasant eyes. Combined Edition. Michigan: Eerdmans
Publishing Company, 1983. Cap. 2, p. 30.

Refletindo acerca da lição do arado, é forçoso concluir que o arador distraído


poderá bater com o arado em uma rocha, quebrar sua ponta de madeira, cansar
inutilmente a parelha de animais, cortar, sem rumo, o campo não arado, ou destruir o
trabalho já realizado. Em suma, o arador deve equilibrar o serviço feito, o que está por
fazer, e aquele que está sendo realizado, já que qualquer distração tornará sua ação não
apenas improdutiva, mas também destruidora.
No tocante ao símbolo do arado, é valioso o ensino de Emmanuel:

O arado é aparelho de todos os tempos. É pesado, demanda esforço de


colaboração entre o homem e a máquina, provoca suor e cuidado e, sobretudo,
fere a terra para que produza. Constrói o berço das sementeiras e, à sua
passagem, o terreno cede para que a chuva, o Sol e os adubos sejam
convenientemente aproveitados. É necessário, pois, que o discípulo sincero tome
lições com o Divino Cultivador, abraçando-se ao arado da responsabilidade, na
46

luta edificante, sem dele retirar as mãos, de modo a evitar prejuízos graves à
“terra de si mesmo”.
..................................................................................
Um arado promete serviço, disciplina, aflição e cansaço; no entanto, não se deve
esquecer que, depois dele, chegam semeaduras e colheitas, pães no prato e
celeiros guarnecidos.(5)
_______________
5. XAVIER, Francisco Cândido. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. Cap. 3.

O servidor do Cristo conhece o cansaço, jamais o desânimo. Conhece o peso e a rotina


do arado, mas aprende no trabalho de cada dia que a disciplina não é um cárcere, é a
chave da porta, como dizia Chico Xavier.
47

Reformador Janeiro 2009 - Ano 126 Nº 2.158 – PAG 29/27 – 31/29

15 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


O Primeiro Mártir
“Em teus dias de dor, recorda alma querida, que a dor é para vida, aquilo que o buril,
severo e contundente, entre as mãos do escultor, é para o mármore sem forma. Golpe
aqui, golpe ali, outro mais e mais outro, um corte de outro corte se aproxima, e o bloco se
transforma em celeste beleza de obra-prima das.[...]”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco Cândido. Mãos marcadas. Espíritos Diversos. São Paulo: Instituto de
Difusão Espírita, 1972. Cap. 13 –“Maria Dolores”.

HAROLDO DUTRA DIAS

O alicerce da obra imorredoura do Cristo formou--se à base de renúncia, sacrifício


e abnegação.
Três séculos de Cristianismo Nascente testemunharam o martírio de discípulos
corajosos, que se imolaram no altar da fé para que a luz do Evangelho se estendesse ao
mundo, inaugurando nova era de fraternidade e amor.
Inspirados no exemplo do próprio Mestre, eles conheceram as feras, o suplício, a
perseguição, o confisco, a brutalidade em todos os seus matizes, gravando para sempre,
no coração dos homens, a lição da resignação, do amor e do perdão.
Na seara de Jesus, os trabalhadores da primeira hora foram mártires.
Estêvão, o grande mártir da Era Apostólica, inaugurou o “tempo dos sacrifícios”.
Seu testemunho de fé e de bravura, diante da mais alta corte judicial da nação hebraica,
mudaria os rumos do movimento cristão e deixaria marcas indeléveis no coração do seu
próprio algoz, um homem intrépido e sincero, que se tornaria o responsável pela
universalização do Cristianismo – Paulo de Tarso.
O apedrejamento de Estêvão se deu no verão do ano 35 d.C.
A informação pode ser encontrada na obra mediúnica Paulo e Estêvão,(2) mas
somente após uma leitura inteligente e atenta dos textos. Na verdade, é necessária uma
combinação harmoniosa e criteriosa de dados.
_______________
2. XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007.

Emmanuel descreve acontecimentos, aparentemente desconexos, com enorme


precisão. Uma vez reunidas, essas descrições formam um quadro cronológico coerente e
convincente, senão vejamos:

A manhã enfeitava-se de muita alegria e de sol [...].


No ar brincavam as mesmas brisas perfumadas, que sopravam de longe [...].
..................................................................................
Nesse ano de 34, a cidade em peso fora atormentada por violenta revolta dos
escravos oprimidos.
48

[...] Em breve, a galera das águias dominadoras, auxiliada por ventos favoráveis,
trazia no bojo as autoridades da missão punitiva, cuja ação deveria esclarecer os
acontecimentos.(3)
_______________
3. Idem, ibidem. Primeira parte, cap. I, p. 11-13.

[...] O coração paternal adivinhava. Àquela hora, Jeziel, conforme o programa por
ele mesmo traçado, arava a terra, preparando-a para as primeiras
semeaduras.[...] (4)
_______________
4. XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007. Primeira parte, cap. I, p. 20.

De Corinto, a grande embarcação aproara em Cefalônia e Nicópolis, de onde


deveria regressar aos portos da linha de Chipre, depois de ligeira passagem pela
costa da Palestina, consoante o itinerário organizado para aproveitar o tempo
seco e tendo em vista que o inverno paralisava toda a navegação.(5)
_______________
5 Idem, ibidem. Primeira parte, cap. III, p. 60.

– Há mais de um ano – exclamou o Apóstolo apagando a vivacidade com a


lembrança triste – foi crucificado aqui mesmo em Jerusalém, entre os ladrões.(6)
_______________
6. XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2007. Primeira parte, cap. III, p. 76.

Estamos na velha Jerusalém, numa clara manhã do ano 35.(7)


_______________
7. Idem, ibidem. Primeira parte, cap. IV, p. 84.

Naquelas primeiras horas da tarde, o sol de Jerusalém era um braseiro ardente.


Não obstante o calor insuportável, a massa deslocou-se com profundo interesse.
Tratava-se do primeiro processo concernente às atividades do “Caminho”, após a
morte do seu fundador. [...] (8)
_______________
8. Idem, ibidem. Primeira parte, cap. VIII, p. 187-188.

Antes de comparar os textos, é imperiosa uma ligeira exposição a respeito do


clima, agricultura e navegação na região da Acaia (sul da Grécia). Nos países banhados
pelo Mar Mediterrâneo, o clima é muito semelhante, com verões secos e quentes, e
invernos moderados e chuvosos. As estações do ano se dividem em dois grandes blocos:
primavera–verão (abril–setembro) e outono–inverno (outubro–março).
A semeadura de cereais se dava no início do outono, após a preparação da terra
no final do verão, com vistas ao máximo aproveitamento da época das chuvas (inverno).
Pela mesma razão, a navegação no Mar Mediterrâneo começava em abril e se encerrava
em outubro. Era extremamente perigoso navegar no inverno, em razão das tempestades
e da impossibilidade de se orientar pelo Sol e pelas estrelas.
O livro se inicia com a descrição de uma manhã de sol, com brisas perfumadas, e
ruas desertas, além da presença maciça de guardas romanos nas vias públicas, em
decorrência de uma revolta de escravos ocorrida em Corinto, naquele mesmo ano, ou
seja, em 34 d.C.
49

A galera romana teria aproveitado os ventos favoráveis para se deslocar de Roma


até Acaia, a fim de conter o levante, o que nos permite concluir, seguramente, que a
navegação se deu na primavera, pois o tempo favorável à navegação começava em abril.
Na sequência, o pai de Jeziel (Estêvão) o encontra arando a terra, preparando-a
para as primeiras semeaduras. Naquela região do Mediterrâneo, a terra era arada no final
de setembro (fim do verão), ao passo que a semeadura se dava no final de outubro (em
pleno outono).
Sendo assim, conjugando a informação da “manhã de sol, com brisas perfumadas”
e “aragem da terra”, pode-se concluir que a tragédia que acometeu a família de Estêvão
se deu no final do verão do ano 34 d.C.
Jeziel (Estêvão) é enviado para as galeras, como prisioneiro, realizando uma
viagem marítima, cujo itinerário foi organizado para “aproveitar o tempo seco” já que “o
inverno paralisava toda navegação”. Nesse ponto, a descrição de Emmanuel é
rigorosamente precisa. Não há margem para dúvidas. A embarcação partiu no outono do
ano 34 d.C.
Após sua chegada em Jerusalém, Jeziel é acolhido por Simão Pedro, na Casa do
Caminho. Nesse momento, surge o diálogo entre eles, no qual o pescador de Cafarnaum
relata que “há mais de um ano [...] foi crucificado”, referindo-se a Jesus.
Ora, considerando-se que a crucificação se deu em abril//maio do ano 33 d.C.,(9)
a conversa se deu após o outono de 34 d.C., mas antes de abril de 35 d.C. ou seja,
antes de se completarem dois anos da crucificação.
_______________
9. Consultar o artigo intitulado “A crucificação de Jesus”, publicado na revista Reformador,
ano 126, n. 2.154, setembro de 2008, p. 33.

Mais adiante, afirma Emmanuel: “Estamos na velha Jerusalém, numa clara manhã
do ano 35”, confirmando todos os cálculos precedentes.
Por fim, quando descreve o martírio de Estêvão, o Benfeitor espiritual utiliza a
seguinte expressão: “Naquelas primeiras horas da tarde, o sol de Jerusalém era um
braseiro ardente. Não obstante o calor insuportável [...]”. Assim, é lícito concluir que
Estêvão foi martirizado no verão do ano 35 d.C.
50

Reformador Fevereiro 2009 - Ano 127 Nº 2.159 – PAG 29/67 – 31/69

16 - Cristianismo Redivivo

No trato com a Revelação


“Ninguém põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, o vinho novo estourará os
odres, derramar-se-á, e os odres ficarão inutilizados. Põe-se, antes, vinho novo em odres
novos.” (1)
_______________
1. Bíblia de Jerusalém. 3. ed. São Paulo: PAULUS, 2004. Lucas 5:37-38.

HAROLDO DUTRA DIAS

Reunidos na modesta residência de Simão Pedro, em Cafarnaum, comentavam os


presentes a sublimidade da nova revelação, quando Sara, esposa de um criador de
cabras da região, expôs ao Mestre suas dificuldades para vencer o egoísmo, o ciúme e o
apego, não obstante reconhecesse a grandeza do Evangelho.
O Mestre, reconhecendo a legitimidade das suas dúvidas e a sinceridade da sua
confissão espontânea, utiliza elementos do cotidiano daquela nobre senhora, que vivia da
venda do leite de cabras, encarecendo a necessidade de se lavar, cautelosamente, o
vaso em que ele seria depositado, sob pena de azedume de todo o líquido, recolhido com
enorme esforço.
Transpondo o ensino para o domínio das realidades espirituais, Jesus alerta os
ouvintes para a necessidade de se adotar o mesmo cuidado no trato com a revelação
divina, e acrescenta:

– Assim é a revelação celeste no coração humano. Se não purificamos o vaso da


alma, o conhecimento, não obstante superior, se confunde com as sujidades de
nosso íntimo, como que se degenerando, reduzindo a proporção dos bens que
poderíamos recolher. Em verdade, Moisés e os profetas foram valorosos
portadores de mensagens divinas, mas os descendentes do povo escolhido não
purificaram suficientemente o receptáculo vivo do Espírito para recebê-las. É por
isto que os nossos contemporâneos são justos e injustos, crentes e incrédulos,
bons e maus ao mesmo tempo. O leite puro dos esclarecimentos elevados
penetra o coração como alimento novo, mas aí se mistura com a ferrugem do
egoísmo velho. Do serviço renovador da alma restará, então, o vinagre da
incompreensão, adiando o trabalho efetivo do Reino de Deus.
..................................................................................
– O orvalho num lírio alvo é diamante celeste, mas, na poeira da estrada, é gota
lamacenta. Não te esqueças desta verdade simples e clara da Natureza.(2)
_______________
2. XAVIER, Francisco Cândido. Jesus no lar. Pelo Espírito Neio Lúcio. 37. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2008. Cap. 3, p. 21-22.

Findo o encontro com Nicodemos, em conversa íntima com Tiago a respeito do


escândalo e do resgate das faltas, o Mestre voltou ao tema da dificuldade humana em
lidar com as revelações divinas:
51

O Mestre apreendeu a amplitude da objeção e esclareceu aos discípulos,


perguntando:
– Dentro da lei de Moisés, como se verifica o processo da redenção?
Tiago meditou um instante e respondeu:
– Também na lei está escrito que o homem pagará “olho por olho, dente por
dente”.
– Também tu, Tiago, estás procedendo como Nicodemos – replicou Jesus com
generoso sorriso.– Como todos os homens, aliás, tens raciocinado, mas não tens
sentido. Ainda não ponderaste, talvez, que o primeiro mandamento da Lei é uma
determinação de amor. Acima do “não adulterarás”, do “não cobiçarás”, está o
“amar a Deus sobre todas as coisas, de todo o coração e de todo o
entendimento”. Como poderá alguém amar o Pai, aborrecendo-lhe a obra?
Contudo, não estranho a exiguidade de visão espiritual com que examinaste o
texto dos profetas. Todas as criaturas hão feito o mesmo. Investigando as
revelações do Céu com o egoísmo que lhes é próprio, organizaram a justiça como
o edifício mais alto do idealismo humano. E, entretanto, coloco o amor acima da
justiça do mundo e tenho ensinado que só ele cobre a multidão dos pecados.
[...].(3) (Grifo nosso.)
_______________
3. XAVIER, Francisco Cândido. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 3. ed.
especial. 1a reimpressão. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 14, p.118-119.

Não são raros os comentaristas que se debruçam sobre o texto de Lucas, naquela
passagem que trata do vinho novo em odres velhos, na tentativa de opor a revelação do
Velho Testamento ao Evangelho, asseverando, equivocadamente, que os odres velhos
representam o trabalho dos profetas.
No entanto, é preciso reconhecer que, sob a direção e assistência de Jesus, “[...]
os homens receberão sempre as revelações divinas de conformidade com a sua posição
evolutiva”.(4) Sendo assim, não há problema com o “vinho” da revelação divina, nossos
desafios dizem respeito aos recipientes, “odres”, que simbolizam o coração do aprendiz.
_______________
4. XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 1ª
reimpressão. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Questão 271.

A misericórdia do Cristo envia, de tempos em tempos, missionários e benfeitores,


desde as mais remotas eras. O próprio Cristo desceu ao Orbe, espalhando bênçãos e
consolações, mas o coração humano permanece atado ao egoísmo e ao orgulho.
Os Espíritos superiores que conduziram o trabalho do Codificador adotaram um
emblema para a Revelação Espírita:

Porás no cabeçalho do livro a cepa que te desenhamos, porque é o emblema do


trabalho do Criador. Aí se acham reunidos todos os princípios materiais que
melhor podem representar o corpo e o espírito. O corpo é a cepa; o espírito é a
seiva; a alma ou espírito ligado à matéria é o bago. O homem quintessencia o
espírito pelo trabalho e tu sabes que é somente pelo trabalho do corpo que o
espírito adquire conhecimentos.(5)
_______________
5. KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Ed.
Comemorativa. Rio de Janeiro: FEB, 2007. “Prolegômenos”, p. 71.

Não deve causar admiração o fato de Jesus ter escolhido o vinho para simbolizar a
revelação espiritual.
52

Urge renovar o coração, libertando-o das sombras do egoísmo destruidor, para que
o vinho celeste não se transforme no vinagre das criações puramente humanas. A
Doutrina Espírita é orvalho límpido e reluzente, ofertado pelos céus. É imprescindível,
porém, purificar os vasos da alma, sob pena de misturarmos a bênção do Cristo aos
velhos enganos, que insistem em dominar nossos corações.
Expressando, talvez, sua preocupação com esse quadro desalentador, afirmou o
Benfeitor Emmanuel:

Asseveram muitos que o Céu estancou a fonte das dádivas, esquecendo-se de


que a generalidade dos crentes entorpeceu a capacidade de receber.
Onde a coragem que revestia corações humildes, à frente dos leões do circo?
onde a fé que punha afirmações imortais na boca ferida dos mártires anônimos?
onde os sinais públicos das vozes celestiais? onde os leprosos limpos e os cegos
curados?
As oportunidades do Senhor continuam fluindo, incessantes, sobre a Terra.
A misericórdia do Pai não mudou.
A Providência Divina é invariável em todos os tempos.
A atitude dos cristãos, na atualidade, porém, é muito diferente. Raríssimos
perseveram na doutrina dos apóstolos, na comunhão com o Evangelho, no
espírito de fraternidade, nos serviços da fé viva. A maioria prefere os chamados
“pontos de vista”, comunga com o personalismo destruidor, fortalece a raiz do
egoísmo e raciocina sem iluminação espiritual.(6)
_______________
6. XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2008. Cap. 39, p. 97-98.

Não podemos nos esquecer de que os puros de coração verão a Deus.


53

Reformador Março 2009 - Ano 127 Nº 2.160 – PAG 36/114 – 37/115

17 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


A conversão de Saulo
“O Mestre chama-o, da sua esfera de claridades imortais. Paulo tateia na treva das
experiências humanas e responde: – Senhor, que queres que eu faça? Entre ele e Jesus
havia um abismo, que o Apóstolo soube transpor em decênios de luta redentora e
constante.”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. Breve notícia, p. 9.

HAROLDO DUTRA DIAS

A s lições sublimes do Evangelho, como pérolas, se revelam nos menores gestos


do Mestre. Do círculo dos perseguidores do Cristianismo, Jesus convoca o verdugo de
Estêvão, o primeiro mártir, para transformá-lo no apóstolo dos gentios.
O chamado de Saulo guarda a marca do perdão, com que a Providência Divina
renova as oportunidades aos filhos transviados.
Verdugo e vítima se unem, espiritualmente, para a maior tarefa de propagação do
Cristianismo Nascente, conferindo à mensagem da Boa Nova seu inigualável sabor de
universalidade.
A universalização do Cristianismo é contribuição de Paulo, no plano físico, e de
Estêvão, no plano espiritual, sob a égide do Cristo, que não cessa de prodigalizar
bênçãos e serviços, visando o aprimoramento de seus tutelados na Terra.
A conversão de Saulo representa a retomada de um destino, de uma missão
espiritual, que corria o risco de soçobrar, não fosse a misericórdia do Mestre. Neste artigo,
focalizamos a data da referida conversão, em nossa tentativa de levantamento dos fatos
marcantes do primeiro século do Cristianismo no mundo.
Novamente, urge realizar uma combinação harmoniosa e criteriosa de dados, com
vistas à formação de um quadro cronológico coerente e convincente, baseado nas
informações de Emmanuel:

“Estamos na velha Jerusalém, numa clara manhã do ano 35”.(2)


_______________
2. Idem, ibidem. P. 1, cap. 4, p. 84.

Naquelas primeiras horas da tarde, o sol de Jerusalém era um braseiro ardente.


Não obstante o calor insuportável, a massa deslocou-se com profundo interesse.
Tratava-se do primeiro processo concernente às atividades do “Caminho”, após a
morte do seu fundador.[...] (3)
_______________
3. Idem, ibidem. Cap. 8, p. 187-188.
54

Oito meses de lutas incessantes passaram sobre a morte de Estêvão, quando o


moço tarsense, capitulando ante a saudade e o amor que lhe dominavam a alma,
resolveu rever a paisagem florida da estrada de Jope, onde por certo
reconquistaria o afeto de Abigail, de maneira a reorganizarem todos os projetos
de um futuro ditoso.(4)
_______________
4. Idem, ibidem. Cap. 9, p. 210.

Quando as sombras crepusculares se faziam mais densas, dois homens


desconhecidos entravam nos subúrbios da cidade. Embora a ventania afastasse
as nuvens tempestuosas na direção do deserto, grossos pingos de chuva caíam,
aqui e ali, sobre a poeira ardente das ruas. As janelas das casas residenciais
fechavam-se com estrépito. Damasco podia recordar o jovem tarsense [...]. (5)
_______________
5. XAVIER, Francisco C.Op. cit. P. 1, cap. 10, p. 250.

Antes de comparar os textos, é conveniente relembrar algumas datas importantes


do primeiro século do Cristianismo, todas detalhadamente explicadas em edições
anteriores desta revista.
Sendo assim, considerando-se que a crucificação se deu em abril/maio do ano 33
d.C.,(6) o encontro de Estêvão com Simão Pedro, na Casa do Caminho, ocorreu após o
outono de 34 d.C., mas antes de abril de 35 d.C., ou seja, antes de se completarem dois
anos da crucificação.(7)
_______________
6. DUTRA, Haroldo D. Cristianismo redivivo: história da era apostólica, a crucificação de
Jesus, Reformador, ano 126, n. 2.154, p. 33(351)-35(353), set. 2008.
7. Idem, ibidem. O primeiro mártir, Reformador, ano 127, n. 2.158, p. 29(27)--31(29), jan.
2009.

Ao introduzir o episódio do martírio de Estêvão, afirma Emmanuel: “Estamos na velha


Jerusalém, numa clara manhã do ano 35”, confirmando todos os cálculos precedentes.
Na descrição, propriamente dita, do referido martírio, o Benfeitor espiritual utiliza a
seguinte expressão: “Naquelas primeiras horas da tarde, o sol de Jerusalém era um
braseiro ardente. Não obstante o calor insuportável [...]”. Assim, é lícito concluir:
O apedrejamento de Estêvão se deu no verão do ano 35 d.C.(8)
_______________
8. Idem, ibidem.

Decorridos oito meses da morte do primeiro Mártir, Saulo procura Abigail na


pequena propriedade rural situada na estrada de Jope, surpreendendo-a em grave estado
de saúde.
Esse dramático encontro entre Saulo e Abigail só pode ter ocorrido no início do
ano 36 d.C. Saulo de Tarso, profundamente abatido com a morte de Abigail, renova os
processos de perseguição aos cristãos e organiza a célebre viagem à cidade de
Damasco, em busca de Ananias.
Na véspera de sua chegada, após viagem longa e penosa, o apóstolo dos gentios
é surpreendido pela visita do próprio Cristo, alterando-se definitivamente o rumo da sua
existência.
Adentrando em Damasco, acometido de temporária cegueira, o jovem Saulo sente
que “grossos pingos de chuva caíam, aqui e ali, sobre a poeira ardente das ruas”. Nos
países banhados pelo mar Mediterrâneo, o clima é muito semelhante, com verões secos e
55

quentes, e invernos moderados e chuvosos. As estações do ano se dividem em dois


grandes blocos: primavera–verão (abril–setembro) e outono–inverno (outubro–março).
A primavera tem início no mês de abril, quando cessam as chuvas.
Nesse caso, é plausível postular, com base nos informes de Emmanuel, que a
conversão de Saulo se deu antes da primavera, ou seja, no primeiro trimestre do ano
36 d.C.
56

Reformador Abril 2009 - Ano 127 Nº 2.161 – PAG 36/154 – 38/156

18 - Cristianismo Redivivo

Caminho para Deus


“Eu sou o Caminho.”(1)
_______________
1. Bíblia de Jerusalém. 3. ed. São Paulo: PAULUS, 2004. João, 14:6, p. 1879.

HAROLDO DUTRA DIAS

Às vésperas da sua prisão no Getsêmani, o Mestre reuniu a pequena comunidade


dos seus discípulos diletos, com desvelado carinho, revelando os ásperos testemunhos
que os aguardavam, apontando as diretrizes do trabalho apostólico e consolando o
coração aflito e temeroso dos seus seguidores.
Naquele momento, entregaria o Cristo aos homens a revelação inesquecível
acerca da sua pessoa e missão: “Eu sou o Caminho, a Verdade, e a Vida. Ninguém vem
ao Pai a não ser por mim”.1 O emissário celeste, com vistas à implantação do Reino de
Deus no mundo, estabelecia o sublime roteiro, consubstanciado no seu Evangelho de
Amor.
A presença do Cristo no Orbe era prova de que o Céu descera à Terra, vencendo
gigantesco abismo, para revelar e provar a bondade e a misericórdia infinitas de Deus.
Pelo trabalho infatigável de suas mãos augustas, surgira para a Humanidade o luminoso
caminho entre o coração humano e o Pai. A comunhão da criatura com o Criador tornara-
se uma realidade.
A comunidade cristã primitiva, incluindo os apóstolos, costumava utilizar em suas
citações do Antigo Testamento uma versão grega, elaborada no século II a.C., conhecida
como Septuaginta ou Versão dos Setenta (LXX).
Na Septuaginta, o vocábulo grego hodos (caminho) traduz a palavra hebraica derek
(caminho). No sentido comum, esse termo indica o lugar no qual se anda, dirige ou
marcha. Porém, desde a Antiguidade, a expressão é empregada em sentido figurado,
significando “medidas, procedimentos, o meio de atingir o alvo, o estilo e o modo de
realizar algo”, ou ainda “o modo pelo qual se vive”.
Assim, hodos (caminho) pode significar os atos ou o comportamento dos homens,
a forma como a vida é conduzida (Êxodo, 18:20). A vida como um todo, ou nos seus
aspectos individuais, pode ser chamada “um caminho” (Salmos, 119:105; Isaías, 53:6).
Nesse contexto, a vida de uma pessoa pode ser qualificada de um modo positivo
(Jeremias, 6:16; Provérbios, 8:20) ou de um modo negativo (Jeremias, 25:5; Provérbios,
8:13). O ponto de referência, no Antigo Testamento, para avaliar o caminho que o homem
segue, é a vontade de Deus. Se o homem permite que a vontade Divina seja o fator
determinante das suas ações, significa que anda no caminho de Deus. Caso contrário, ele
apenas segue um caminho que escolheu para si (Jeremias, 7:23--24), que é o “caminho
dos pecadores” (Salmos, 1:1).
Por esta razão, os textos dos Profetas constituem um verdadeiro chamamento ao
arrependimento dos maus caminhos (Jeremias, 25:5; Isaías, 55:7). É nesse sentido que
pode ser entendido o trabalho de João Batista como precursor, ou seja, aquele que
57

prepara o caminho para Jesus, mediante o anúncio da vinda do Messias, e também,


mediante o chamamento ao arrependimento.
Expressando esse ângulo do ensinamento, asseverou o Benfeitor Emmanuel:

Se o determinismo divino é o do bem, quem criou o mal?


– O determinismo divino se constitui de uma só lei, que é a do amor para a
comunidade universal. Todavia, confiando em si mesmo, mais do que em Deus, o
homem transforma a sua fragilidade em foco de ações contrárias a essa mesma
lei, efetuando, desse modo, uma intervenção indébita na harmonia divina.
Eis o mal.
Urge recompor os elos sagrados dessa harmonia sublime.
Eis o resgate. [...]
O Criador é sempre o pai generoso e sábio, justo e amigo, considerando os filhos
transviados como incursos em vastas experiências. Mas, como Jesus e os seus
prepostos são seus cooperadores divinos, e eles próprios instituem as tarefas
contra os desvios das criaturas humanas, focalizam os prejuízos do mal com a
força de suas responsabilidades educativas, a fim de que a Humanidade siga
retamente no seu verdadeiro caminho para Deus.(2) (Grifo nosso.)
_______________
2. XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 1. reimp. Rio de
Janeiro: FEB, 2008. Q. 135.

Não é por outra razão que a expressão “andar nos caminhos do Senhor” significa, no
Antigo Testamento, agir de acordo com a vontade de Deus, revelada em seus
mandamentos, estatutos e ordenanças (1Reis, 2:3; 8:58).
A lei de Deus é chamada “o caminho do Senhor” (Jeremias, 5:4), e os Profetas se
esforçam para convencer as pessoas da necessidade de sua observância, porque Israel
sucumbe, vezes sem conta, à tentação de evitar as admoestações Divinas (Êxodo, 32:8;
Malaquias, 2:8). Considerando-se as enormes dificuldades encontradas para manter-se
fiel aos desígnios divinos, pode-se entender a euforia do salmista: “Guardei os caminhos
do Senhor” (Salmos, 18:21).
Nessa linha interpretativa, Emmanuel assim se expressa:

A vida deveria constituir, por parte de todos nós, rigorosa observância dos
sagrados interesses de Deus.(3)
_______________
3. Idem. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2008. Cap. 21.

É por essa razão que vemos o Messias coroando sua obra com o sacrifício
extremo, tomando a cruz da ignomínia sem uma queixa, deixando-se imolar, sem
qualquer reprovação aos seus algozes. Do cimo do madeiro, exemplificava a sua
fidelidade a Deus, aceitando serenamente os desígnios do Céu, em testemunho sublime
do seu inexcedível amor pelos rebeldes tutelados.
Na hora sombria da cruz, caminha humilde, coroado de espinhos, ensinando a
renúncia por amor ao Reino de Deus, revelando à Humanidade o caminho da redenção.
Emmanuel, enfocando essa nuance do ensino, relata:

A localização histórica de Jesus recorda a presença pessoal do Senhor da Vinha.


O Enviado de Deus, o Tutor Amoroso e Sábio, veio abrir caminhos novos e
estabelecer a luta salvadora para que os homens reconheçam a condição de
eternidade que lhes é própria.(4)
58

_______________
4. Idem, ibidem. Cap. 133, p. 282.

Por fim, no Evangelho de João, a palavra hodos (caminho) se aplica à pessoa de


Jesus, de modo sem igual no Novo Testamento. O discípulo amado registra para a
posteridade as suaves exortações do Senhor, nos últimos instantes de sua presença
física entre eles.
Mais uma vez, Emmanuel esclarece o tema:

Jesus é o nosso caminho permanente para o Divino Amor. Junto dele seguem,
esperançosos, todos os espíritos de boa vontade, aderentes sinceros ao roteiro
santificador. Dessa via bendita e eterna procedem as sementes da Luz Celestial
para os homens [...] (5)
_______________
5. Idem. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
Cap. 25.

Não podemos nos esquecer.


59

Reformador Maio 2009 - Ano 127 Nº 2.162 – PAG 34/192 – 36/194

19 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


A preparação no deserto
“O ex-rabino modificara o próprio aspecto, ao contato direto das forças agressivas da
Natureza. [...] Entretanto, a solidão, as disciplinas austeras, o tear laborioso, lhe haviam
enriquecido a alma de luz e serenidade. Os olhos calmos e profundos atestavam os novos
valores do espírito. Entendera, finalmente, aquela paz desconhecida que Jesus desejara
aos discípulos.”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. P. 2, cap. 2, p. 313.

HAROLDO DUTRA DIAS

O romance mediúnico Paulo e Estêvão representa uma dádiva da Espiritualidade


superior. Além de relatar o perfil dos personagens mais destacados do Cristianismo
Nascente, bem como suas transformações ao longo do tempo, fornece dados históricos
extremamente importantes para a reconstrução do primeiro século, tornando possível a
compreensão de pontos obscuros do Novo Testamento.
Novamente, urge realizar uma combinação harmoniosa e criteriosa de dados, com
vistas à formação de um quadro cronológico coerente e convincente, baseado nas
informações de Emmanuel:

Quando as sombras crepusculares se faziam mais densas, dois homens


desconhecidos entravam nos subúrbios da cidade. Embora a ventania afastasse
as nuvens tempestuosas na direção do deserto, grossos pingos de chuva caíam,
aqui e ali, sobre a poeira ardente das ruas. As janelas das casas residenciais
fechavam-se com estrépito.
Damasco podia recordar o jovem tarsense [...] (2)
_______________
2. Idem, ibidem. P. 1, cap. 9, p. 250.

Naquela tarde, Gamaliel deixou a rústica choupana, dirigindo-se com o ex-


discípulo à casa do irmão, que acolheu, desde então, o jovem tarsense [...]
[...] o velho rabino de Jerusalém expôs ao negociante a situação do seu protegido.
[...] esclareceu que ele tencionava trabalhar como tecelão nas tendas do deserto
[...]
Daí a três dias, Saulo despedia-se do mestre, debaixo de profunda comoção.(3)
_______________
3. Idem, ibidem. P. 2, cap. 2, p. 301-302 e 304.

Quando mais de um ano havia corrido sobre aquela soledade, uma caravana
vinda de Palmira trazia-lhe um bilhete lacônico. O negociante comunicava-lhe a
morte súbita do irmão, aliás de há muito esperada.
60

A partida de Gamaliel para os reinos da morte não deixou de ser uma dolorosa
surpresa. [...] (4)
_______________
4. XAVIER, Francisco C. Op. cit. P. 2, cap. 2, p. 314.

Com efeito, depois da passagem da grande caravana que lhes trazia os


substitutos, servidos de um camelo, os três irmãos do “Caminho” deixaram o
oásis em direção a Palmira, onde a família de Gamaliel os acolheu com
desvelado carinho.
Áquila e a mulher ali ficariam algum tempo ao serviço de Ezequias, até que
pudessem realizar o formoso ideal de trabalho na poderosa Roma dos césares,
mas Saulo de Tarso, agora resistente como um beduíno, depois de agradecer a
generosidade do benfeitor e despedir-se dos amigos com lágrimas nos olhos,
tomou novamente o rumo de Damasco, radicalmente transformado pelas
meditações de três anos consecutivos, passados no deserto. (5) (Grifo nosso.)
_______________
5. Idem, ibidem. p. 320.

Em dois minutos achou-se novamente na via pública. Era quase meio-dia, um dia
quente. Sentiu sede e fome. Consultou a bolsa, estava quase vazia. Um resto do
que recebera das mãos generosas do irmão de Gamaliel, ao deixar Palmira
definitivamente. [...] (6)
_______________
6. Idem, ibidem. P. 2, cap. 3, p. 340.

Antes de comparar os textos, é conveniente relembrar algumas datas importantes,


todas detalhadamente explicadas em edições anteriores desta revista.
Após organizar a célebre viagem à cidade de Damasco, em busca de Ananias,
Saulo adentra em Damasco, acometido de temporária cegueira, e sente que

[...] “grossos pingos de chuva caíam, aqui e ali, sobre a poeira ardente das ruas”.
Nos países banhados pelo mar Mediterrâneo, o clima é muito semelhante, com
verões secos e quentes e invernos moderados e chuvosos. As estações do ano
se dividem em dois grandes blocos: primavera–verão (abril–setembro) e outono–
inverno (outubro–março).
A primavera tem início no mês de abril, quando cessam as chuvas.
Nesse caso, é plausível postular, com base nos informes de Emmanuel, que a
conversão de Saulo se deu antes da primavera, ou seja, no primeiro trimestre
do ano 36 d. C. (7)
_______________
7. DIAS, Haroldo D. Cristianismo redivivo: história da era apostólica, a conversão de Saulo,
Reformador, ano 127, n. 2.160, p. 36(114)-37(115), mar. 2009.

O tempo de permanência do antigo doutor da lei no deserto de Palmira foi


estabelecido de forma precisa por Emmanuel: três anos. Durante sua estada no Oásis de
Dan, foi surpreendido com a notícia da morte do seu grande orientador, Gamaliel.
Retornando para Damasco, Paulo se vê obrigado a fugir da cidade, em razão de
mandado de prisão expedido pelo Sinédrio. Empreende, então, a primeira viagem à
cidade de Jerusalém, após sua conversão.
Nesse ponto, o Benfeitor Emmanuel, utilizando recurso por nós conhecido,
menciona as condições climáticas da cidade de Jerusalém, de modo a construir sua
61

cronologia com base nas estações do ano, evitando-se imprecisões decorrentes da


conversão do calendário judaico para o gregoriano.
Sendo assim, não é difícil concluir que a chegada de Paulo em Jerusalém se deu
num dia quente de verão, três anos após sua conversão em Damasco. Portanto, a
primeira viagem de Paulo a Jerusalém ocorreu no verão do ano 39 d.C.
Trata-se de uma data importantíssima para toda a cronologia do primeiro século do
Cristianismo, bem como para a cronologia da própria vida de Paulo.
Na segunda epístola aos Coríntios, Paulo menciona que o “etnarca do rei Aretas”
guardava Damasco por ocasião de sua fuga dramática em um cesto (2 Cor. 11:32-33).
Ora, o rei nabateu Aretas IV morreu entre 38 e 40 d.C. (provavelmente em 39 d.C.).
Asseveram os pesquisadores ser improvável o controle nabateu de Damasco antes do
ano 37 d.C., quando a ascensão de Calígula ao trono assinalou uma nova política romana
para com os reis dependentes.
Por esta razão, acreditam que a fuga de Damasco se deu entre 37 e 39 d.C. O
romance mediúnico nos confirma que a fuga se deu no ano 39 d.C.
Na epístola aos Gálatas (Gl., 1:16-20), o Apóstolo dos gentios descreve sua
conversão, sua permanência de três anos na Arábia e sua primeira visita a Jerusalém,
que, somadas ao relato de Atos dos Apóstolos (At., 9:1-30), nos confirmam os eventos,
todavia, não nos oferecem um referencial seguro para a estruturação da cronologia.
Nesse caso, as indicações detalhadas de Emmanuel, na obra mediúnica,
representam uma importante contribuição da Espiritualidade para a determinação precisa
desses marcos cronológicos.
62

Reformador Junho 2009 - Ano 127 Nº 2.163 – PAG 29/227 – 31/229

20 - Cristianismo Redivivo

Revelação Divina
“Eu sou [...] a Verdade.”(1)
_______________
1. Bíblia de Jerusalém. 3. ed. São Paulo: PAULUS, 2004. João, 14:6, p. 1879.

HAROLDO DUTRA DIAS

Frequentemente, nas proximidades do Tiberíades, o Mestre reunia seus discípulos


para a pregação da Boa Nova do reino. Não raro, inúmeras pessoas, entre transeuntes e
moradores da região, se juntavam ao grupo de seguidores do Cristo, atraídos pela doçura
e pelo vigor daquelas palavras.
Assim, as primeiras peregrinações de Jesus e de seus discípulos alcançaram
inesquecíveis triunfos, sobretudo entre os desfavorecidos e marginalizados, que se
enchiam de consolações ante promessas divinas do Evangelho.
Naquele tempo, a palavra reinava soberana, por se tratar de uma cultura em que
predominava a transmissão oral do conhecimento, reservando-se à escrita uma posição
secundária.
Na verdade, os textos que compõem o Novo Testamento representam apenas uma
minúscula parcela da tradição oral. Podemos afirmar com segurança que o Evangelho é
fruto da pregação e da exemplificação do Cristo. João Evangelista inicia seu livro com a
frase: “No princípio era o Verbo”, demonstrando a força da pregação na difusão do
Cristianismo.
No texto hebraico do Antigo Testamento, a palavra emet (verdade) significa aquilo
que é fidedigno, confiável, razão pela qual muitas vezes é traduzida como fidelidade,
lealdade, firmeza.
No contexto sociocultural do Antigo Testamento, a verdade não era meramente um
conceito abstrato, teórico, localizado em um âmbito atemporal, ou extra-histórico, mas
pelo contrário era vista como algo que podia ser comprovado na experiência prática,
aquilo que era testemunhado diariamente na palavra e na conduta do homem. Pode-se
confiar em uma verdade deste tipo, pois ela é firme, segura. Daí o sentido de fiel,
fidedigno, confiável.
A LXX (Versão dos Setenta) traduz emet (verdade) não somente como aletheia
(verdade), mas também como pistis (fé ou fidelidade). Desse modo, pode-se concluir que
essa palavra hebraica abarca os dois sentidos, verdade e fidelidade, razão pela qual,
constantemente, é usada em oposição a engano ou falsidade.
No Novo Testamento, encontramos Jesus utilizando a palavra verdade em muitas
de suas pregações. Seus ditos atacavam a hipocrisia, ou, de modo mais geral, qualquer
discrepância entre a palavra e a ação, ou entre a palavra e a realidade. Condenava todas
aquelas atitudes enganosas, baseadas numa contradição entre o que se diz e o que se
faz.
Jesus é o Messias em palavras e em ações, mostrando uma vida íntegra que
culmina na cruz. Sua vida fornece o exemplo de suas prédicas. Não apenas prega como
também testemunha, demonstrando absoluta correspondência entre palavra e ação.
63

Considerando essa relação entre ação e palavra como uma das características da
verdade, foi que Jesus ensinou: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar
testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz”. (João 18:37.) Noutra
ocasião afirmou: “Santifica-os na verdade; tua palavra é verdade”. (João, 17:17.)
O Benfeitor Emmanuel, com pleno conhecimento desse aspecto do vocábulo
verdade, bem como da importância da tradição oral, na época do Cristo, asseverou:

Toda dissertação moldada no bem é útil. Jesus veio ao mundo para isso, pregou
a verdade em todos os lugares, fez discursos de renovação, comentou a
necessidade do amor para a solução de nossos problemas. No entanto, misturou
palavras e testemunhos vivos, desde a primeira manifestação de seu apostolado
sublime até a cruz. Por pregação, portanto, o Mestre entendia igualmente os
sacrifícios da vida. [...] (2)
_______________
2. XAVIER, Francisco C. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2008. Cap. 38, p. 92.

Um dos usos mais distintivos que Paulo faz da palavra aletheia (verdade) é o
emprego deste vocábulo para designar o próprio Evangelho. (Gálatas, 2:5; 5:7.) Nesse
contexto paulino, a Boa Nova é a mensagem da salvação, revelada por Deus, em
contraste com meras imaginações humanas. Paulo herda o ponto de vista profético
hebraico de que a verdade divina se opõe à idolatria, precisamente porque a idolatria é
logro e ilusão. (Romanos, 1:25.)
Essa nuance de significado da palavra verdade não passou despercebida do
Espírito Emmanuel:

[...] Alicerçando o serviço salvador que Ele mesmo trazia das esferas mais altas,
proclama o Cristo à Humanidade que só existe um Senhor Todo-Poderoso – o Pai
de Infinita Misericórdia. Sabia, de antemão, que muitos homens não aceitariam a
verdade, que almas numerosas buscariam escapar às obrigações justas, que
surgiriam retardamento, má vontade, indiferença e preguiça, em torno da Boa
Nova; no entanto, sustentou a unidade divina, a fim de que todos os aprendizes
se convencessem de que lhes seria possível envenenar a liberdade própria, criar
deuses fictícios, erguer discórdias, trair provisoriamente a Lei, estacionar nos
caminhos, ensaiar a guerra e a destruição, contudo, jamais poderiam enganar o
plano das verdades eternas, ao qual todos se ajustarão, um dia, na perfeita
compreensão de que “o Senhor é nosso Deus, o Senhor é um só”.(3)
_______________
3. Idem. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 105.

No Evangelho de João, no entanto, aletheia (verdade) se liga à pessoa do próprio


Cristo. (João, 14:6.) Jesus é o caminho e o alvo, ou seja, aquilo que o homem busca e o
modo de atingi-lo. Nesse sentido, a verdade não é abstrata, pelo contrário é revelada na
vida pessoal e real do Cristo.
Por outro lado, Jesus é a revelação de Deus aos homens, portanto, o testemunho
do próprio Deus. Ele diz Deus, na medida em que reflete o Criador em toda sua pureza.
(João, 14:7.)
Nesse sentido, vale transcrever o ensino de Emmanuel no tocante a este aspecto
do vocábulo:

Diante de cada discípulo, no reino individual, Jesus é a verdade sublime e


reveladora.
64

Todo aquele que lhe descobre a luz bendita absorve-lhe os raios celestes,
transformadores... E começa a observar a experiência sob outros prismas, elege
mais altos padrões de luta, descortina metas santificantes e identifica-se com
horizontes mais largos. O reino do próprio coração passa a gravitar ao redor do
novo centro vital, glorioso e eterno. E à medida que se vai desvencilhando das
atrações da mentira, cada discípulo do Senhor penetra mais intensivamente na
órbita da Verdade, que é a Pura Luz.(4)
_______________
4. XAVIER, Francisco C. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2008. Cap. 175, p. 388.
65

Reformador Julho 2009 - Ano 127 Nº 2.164 – PAG 34/272 – 35/273

21 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


O regresso a Tarso
“Concedamos que pudéssemos atrair para o Mestre toda cidade. E depois? Deverias e
poderias responder por todos os que aderissem ao teu esforço? A verdade é que poderias
atrair, nunca, porém, converter. [...] Se Jesus, que tudo pode neste mundo sob a égide do
Pai, espera com paciência a conversão do mundo, por que não poderemos esperar, de
nossa parte?”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. P. 2, cap. 3, p. 363.

HAROLDO DUTRA DIAS

Paulo de Tarso, ao retornar pela primeira vez a Jerusalém, após sua conversão, é
constrangido a colher os frutos da sementeira infeliz, realizada anos antes, quando se
arvorou em perseguidor implacável dos primeiros cristãos.
A Lei Divina, com suas disposições soberanamente justas e misericordiosas,
proporcionaria ao Doutor da Lei o ensejo da renovação dos quadros dolorosos de outrora,
mediante o trabalho paciente e árduo.
Por esta razão, a primeira visita a Jerusalém reveste-se de significado especial na
vida do Apóstolo dos Gentios. Não obstante a profunda transformação espiritual,
favorecida pela longa permanência no deserto, ao contemplar o panorama de lutas,
trabalhos e sacrifícios que o aguardavam, Paulo sente necessidade de retomar sua vida
no ambiente familiar de Tarso.
A cidade natal do tecelão oferecia as condições favoráveis para que a planta tenra
do Evangelho pudesse alcançar o crescimento e a robustez indispensáveis ao
desempenho dos compromissos assumidos na seara do Cristo.
Por conseguinte, fixar a data em que Paulo se instalou em Tarso, bem como o
tempo de sua permanência naquela cidade, equivale a lançar luz sobre os primeiros dias
de sua atividade missionária.
Novamente, combinando textos, estabelecemos um quadro cronológico baseado
nos informes de Emmanuel:

[...] Saulo de Tarso, agora resistente como um beduíno, depois de agradecer a


generosidade do benfeitor e despedir-se dos amigos com lágrimas nos olhos,
tomou novamente o rumo de Damasco, radicalmente transformado pelas
meditações de três anos consecutivos, passados no deserto.(2) (Grifo nosso.)
_______________
2. Idem, ibidem. p. 320.

Em dois minutos achou-se novamente na via pública. Era quase meio-dia, um dia
quente. Sentiu sede e fome. Consultou a bolsa, estava quase vazia. Um resto do
66

que recebera das mãos generosas do irmão de Gamaliel, ao deixar Palmira


definitivamente. (3) (Grifo nosso.)
_______________
3. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. P. 2, cap. 3, p. 340.

– À vista do que ocorreu – prosseguiu o ex-pescador serenamente –, importa que


te vás logo que caia a noite. A luta iniciada na Sinagoga dos cilícios é muito mais
importante que os atritos de Damasco. [...] (4)
_______________
4. Idem, ibidem. p. 364.

[...] A atitude paterna só lhe agravara as desilusões. Repelindo-o, o genitor


lançava-o num abismo .Agora começava a compreender que, reencetar a
existência, não era volver à atividade no ninho antigo, mas principiar, do fundo
dalma, o esforço interior, alijar o passado nos mínimos resquícios, ser outro
homem enfim. [...]

Quando deu acordo de si, a noite havia fechado de todo. O céu oriental
resplandecia de estrelas. Ventos suaves sopravam de longe, refrescando-lhe a
fronte incandescida.[...] (5)
_______________
5. Idem, ibidem. p. 375-376.

Mais tarde na II Epístola aos Coríntios (12:2-4) Saulo afirmava: – “Conheço um


homem em Cristo que há 14 anos [...]”. Dessa gloriosa experiência o Apóstolo dos
gentios extraiu novas conclusões sobre suas ideias notáveis, referentemente ao
corpo espiritual. (6) (Grifo nosso.)
_______________
6. Idem, ibidem. Nota de rodapé, n. 1, p. 376-377.

Assim, durante três anos, o solitário tecelão das vizinhanças do Tauro


exemplificou a humildade e o trabalho, esperando devotadamente que Jesus o
convocasse ao testemunho.(7) (Grifo nosso.)
_______________
7. Idem, ibidem. p. 385.

Sabemos que a chegada de Paulo em Jerusalém se deu num dia quente de verão,
três anos após sua conversão em Damasco, ou seja, no verão do ano 39 d.C. Sua
permanência na Judeia foi extremamente curta, pois se viu obrigado a fugir da
perseguição dos membros da Sinagoga dos cilícios, após ter feito ardorosa pregação
naquele local.
Confirmando a sequência cronológica, Emmanuel descreve mais uma vez,
aparentemente de forma despretensiosa, a situação climática de Tarso. Não há dúvidas
de que continuamos no verão do ano 39 d.C.
Adormecendo naquele ambiente agreste, Paulo foi transportado espiritualmente à
região de grande elevação, onde encontrou Estêvão e Abigail. Em nota de pé de página,
Emmanuel esclarece que essa visão foi narrada na II Epístola aos Coríntios 12:2-4.
Nessa carta, diz o Apóstolo que a experiência se deu 14 anos atrás. Logo, a carta
foi escrita no ano 53 d.C. Essa data confere com as hipóteses levantadas pelos
estudiosos que situam sua redação entre os anos 53 d.C. e 56 d.C.
67

O tecelão permaneceu em Tarso por três anos, até que Barnabé o convidasse para
os trabalhos promissores na Igreja de Antioquia.
68

Reformador Setembro 2009 - Ano 127 Nº 2.166 – PAG 30/348 – 32/350

22 -Cristianismo Redivivo

Vida e morte
“Eu sou [...] a Vida.”(1)
_______________
1. Bíblia de Jerusalém. 3. ed. São Paulo: PAULUS, 2004. João, 14:6, p. 1879.

HAROLDO DUTRA DIAS

No limiar do Saltério, encontramos o belíssimo verso “Feliz o homem que não vai
ao conselho dos ímpios, não para no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda
dos zombadores”. (2) (Grifo nosso.) Este Salmo oferece uma síntese perfeita dos
ensinamentos morais encontrados nas Escrituras. Há dois caminhos: o do justo e o do
injusto.
_______________
2. Idem, ibidem. Salmo, 1:1, p. 864.

O primeiro nos conduz à plenitude da “vida”, ao passo que o segundo nos leva à
perdição da “morte”. Comentando o referido poema, os sábios da Palestina diziam haver
uma espécie de encadeamento, uma progressão na prática do mal. Quem segue o
conselho dos criminosos acaba se detendo no caminho dos perversos, e termina por
zombar das realidades divinas.
Por outro lado, aquele que se entrega à prática do bem é semelhante a uma árvore
frondosa, plantada próxima de um riacho, cujas folhas nunca murcham e os frutos nunca
se acabam, segundo a linguagem poética do referido salmo.
No Evangelho de João encontramos a inusitada afirmativa de Jesus: “Eu sou [...] a
Vida”. A assertiva merece atenção e reclama interpretação cuidadosa à luz dos
ensinamentos trazidos pela Espiritualidade Superior, sistematizados e codificados na
Doutrina Espírita.
Sugerimos que, para a judiciosa compreensão do vocábulo “vida”, no sentido
empregado por Jesus naquele versículo, é imperioso o exame de sua antítese: “morte”.
Compreendendo o significado do termo “morte” nas Escrituras, poderemos apreender o
sentido pleno da palavra “vida”.
Há três textos de Emmanuel que podem nos socorrer nessa tarefa:

Espiritualmente falando, apenas conhecemos um gênero temível de morte – a da


consciência denegrida no mal, torturada de remorso ou paralítica nos
despenhadeiros que marginam a estrada da insensatez e do crime.(3) (Grifo
nosso.)
_______________
3. XAVIER, Francisco C. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 1. reimp. Rio de
Janeiro: FEB, 2008. Cap. 42.

No concerto das lições divinas que recebe, o cristão, a rigor, apenas conhece, de
fato, um gênero de morte, a que sobrevém à consciência culpada pelo desvio da
Lei; e os contemporâneos do Cristo, na maioria, eram criaturas sem atividade
69

espiritual edificante, de alma endurecida e coração paralítico. [...] (4) (Grifo


nosso.)
_______________
4. Idem. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro:
FEB, 2009. Cap. 108.

O bem semeia a vida, o mal semeia a morte. O primeiro é o movimento evolutivo


na escala ascensional para a Divindade, o segundo é a estagnação.
Muitos Espíritos, de corpo em corpo, permanecem na Terra com as mesmas
recapitulações durante milênios. A semeadura prejudicial condicionou-os à
chamada “morte no pecado”. Atravessam os dias, resgatando débitos escabrosos
e caindo de novo pela renovação da sementeira indesejável. A existência deles
constitui largo círculo vicioso, porque o mal os enraíza ao solo ardente e árido das
paixões ingratas.(5) (Grifo nosso.)
_______________
5. XAVIER, Francisco C. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 2. reimp.
Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 35, p. 85-86.

É notória a semelhança entre o vocabulário utilizado pelo salmista e por


Emmanuel. Pode-se concluir que essa intencional analogia de palavras, adotada pelo
Benfeitor espiritual em seus comentários do Evangelho, tenha uma finalidade didática:
facilitar o processo interpretativo.
Essas lições nos revelam que o caminho da injustiça, da maldade e da inferioridade
moral guarda a marca da “paralisia” espiritual, da “estagnação”. Enfim, da prisão do ser ao
“círculo vicioso” retratado no Salmo acima citado.
Mesmo quando o mal procede do exterior, somente se enraíza em nosso ser, se
com ele nos afinamos, na intimidade do coração. Por esta razão, advertem-nos os amigos
espirituais que a extensão de nossa inferioridade se mede pela natureza das coisas e
situações que nos atraem.
O mal, nesta ótica, é a estagnação da alma que permitiu o desvio dos seus
sentimentos mais nobres. Milênios de fixação nos caminhos do mal acabam por constituir
em nós “o fundo viciado e perverso da natureza humana primitivista”.(6)
_______________
6. Idem, ibidem. Cap. 129, p. 274.

O Cristo, tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para lhe servir de
guia e modelo, representa a “vida” – estado de alma alcançado por aquele que se dispõe
a trilhar o “caminho” do amor, expressando em sua individualidade os clarões da
“verdade” – pois o Mestre reflete a bondade e a sabedoria divinas em sua conduta,
conforme atestam os registros evangélicos acerca da sua passagem pela Terra.
Não é por outra razão que Jesus ressuscitou Lázaro, símbolo da Humanidade
escravizada no mal, e “morta no pecado”. Da mesma forma, continua ressuscitando cons
ciências, devolvendo-lhes o sagrado dom da “vida”.
Nessa linha interpretativa, Emmanuel assim se expressa:

Em razão disso, o Divino Mestre veio até nós para que sejamos portadores de
vida transbordante, repleta de luz, amor e eternidade. [...]
Não nos visitou o Cristo, como doador de benefícios vulgares. Veio ligar-nos a
lâmpada do coração à usina do Amor de Deus, convertendo-nos em luzes
inextinguíveis. (7) (Grifo nosso.)
_______________
70

7. XAVIER, Francisco C. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 2. reimp.
Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 166, p. 347-348.

A alma voltada para o Cristo quase sempre foi ressuscitada por seu amor,
escapando à sombra dos pesadelos intelectuais que operam a morte do
sentimento... Muitos homens estão mortos, soterrados nos sepulcros da
indiferença, do egoísmo, da negação. Quando um companheiro, como Lázaro,
tem a felicidade de ser tocado pelo Cristo, eis que se estabelece a curiosidade
geral em torno de suas atitudes. Todos desejam conhecer-lhe as modificações.(8)
(Grifo nosso.)
_______________
8. Idem, ibidem. Cap. 113, p. 241-242.

Por fim, cumpre ressaltar que a expressão “caminho, verdade e vida” constitui uma
autêntica progressão no bem e no amor. Primeiramente é preciso trilhar o caminho do
justo, traçado no Evangelho pela exemplificação do Mestre. Em seguida, é imperioso
harmonizar palavra e ação, de modo que nossa vida reflita verdadeiramente nossa fé. Por
fim, cumpre edificar o “Reino de Deus” no coração, para que nos desvencilhemos dos
laços da “morte” no mal, a fim de alcançarmos a plenitude da vida imortal com o Cristo.
Nesse contexto, vale lembrar as assertivas do Benfeitor Emmanuel:

[...] Expressões transitórias de poder humano não atestam o Reino de Deus. A


realização divina começará do íntimo das criaturas, constituindo gloriosa luz do
templo interno. Não surge à comum apreciação, porque a maioria dos homens
transita semicegos, através do túnel da carne, sepultando os erros do passado
culposo.
A carne é digna e venerável, pois é vaso de purificação, recebendo-nos para o
resgate preciso; entretanto, para os espíritos redimidos significa “morte” ou
“transformação permanente”. O homem carnal, em vista das circunstâncias que
lhe governam o esforço, pode ver somente o que está “morto” ou aquilo que “vai
morrer”. O Reino de Deus, porém, divino e imortal, escapa naturalmente à visão
dos humanos.(9) (Grifo nosso.)
_______________
9. Idem, ibidem. Cap. 107, p. 229-230.
71

Reformador Outubro 2009 - Ano 127 Nº 2.167 – PAG 34/392 – 36/394

23 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


A Igreja de Antioquia
“A instituição fora iniciada por discípulos de Jerusalém, sob os alvitres generosos de
Simão Pedro. [...] Antioquia era dos maiores centros operários. Não faltavam contribuintes
para o custeio das obras [...] entretanto, escasseavam os legítimos trabalhadores do
pensamento. [...] A instituição de Antioquia era, então, muito mais sedutora que a própria
igreja de Jerusalém. Vivia-se ali num ambiente de simplicidade pura [...]. Havia riqueza,
porque não faltava trabalho. Todos amavam as obrigações diuturnas, aguardando o
repouso da noite nas reuniões da igreja, qual uma bênção de Deus. [...] A união de
pensamentos em torno de um só objetivo dava ensejo a formosas manifestações de
espiritualidade. Em noites determinadas, havia fenômenos de ‘vozes diretas’”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. P. 2, cap. 4, p. 387-388, 391-392.

HAROLDO DUTRA DIAS

Sabemos que a chegada de Paulo em Jerusalém se deu num dia quente de verão,
três anos após sua conversão em Damasco, ou seja, no verão do ano 39 d.C. Sua
permanência na Judeia foi extremamente curta, pois se viu obrigado a fugir da
perseguição dos membros da Sinagoga dos cilícios, após ter feito ardorosa pregação
naquele local.
Em seguida, aconselhado por Simão Pedro, o tecelão fixou residência em sua
cidade natal, Tarso, pelo período de três anos, até que Barnabé o convidasse para os
trabalhos promissores na Igreja de Antioquia.
Novamente, combinando textos, estabelecemos um quadro cronológico baseado
nos informes de Emmanuel e Irmão X:

Assim, durante três anos, o solitário tecelão das vizinhanças do Tauro


exemplificou a humildade e o trabalho, esperando devotadamente que Jesus o
convocasse ao testemunho.(2) (Grifo nosso.)
_______________
2. Idem, ibidem. P. 2, cap. 3, p. 385.

[...] Ainda, aí, entrou a compreensão de Pedro para que não faltasse ao tecelão
de Tarso o ensejo devido. Observando as dificuldades, depois de indicar Barnabé
para a direção do núcleo do “Caminho”, aconselhou-o a procurar o convertido de
Damasco, a fim de que sua capacidade alcançasse um campo novo de exercício
espiritual. [...] Pressuroso e prestativo, Saulo de Tarso em breve se instalava em
Antioquia, onde passou a cooperar ativamente com os amigos do Evangelho.(3)
_______________
3. Idem, ibidem. P. 2, cap. 4, p. 388.
72

Com efeito, daí a meses, um portador da igreja de Jerusalém chegava


apressadamente a Antioquia, trazendo notícias alarmantes e dolorosas. Em longa
missiva, Pedro relatava a Barnabé os últimos fatos que o acabrunhavam. Escrevia
na data em que Tiago, filho de Zebedeu, sofrera a pena de morte, em grande
espetáculo público. [...] (4) (Grifo nosso.)
_______________
4. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2007. P. 2, cap. 4, p. 395.

Onze anos após a crucificação do Mestre, Tiago, o pregador, filho de Zebedeu, foi
violentamente arrebatado por esbirros do Sinédrio, em Jerusalém, a fim de
responder a processo infamante.
[...]
O antigo pescador e aprendiz de Jesus é atado a grande poste e, ali mesmo, sob
a alegação de que Herodes lhe decretara a pena, legionários do povo passam-no
pela espada, enquanto a turba estranha lhe apedreja os despojos. (5) (Grifo
nosso.)
_______________
5. Idem. Contos desta e doutra vida. Pelo Espírito Irmão X. 2. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro:
FEB, 2008. Cap. 23, p. 111-112.

Imensas surpresas aguardavam os emissários de Antioquia, que já não


encontraram Simão Pedro em Jerusalém. As autoridades haviam efetuado a
prisão do ex-pescador de Cafarnaum, logo após a dolorosa execução do filho de
Zebedeu. [...] (6)
_______________
6. Idem. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007. P. 2,
cap. 4, p. 396-397.

Dentro em pouco, cheios de confiança em Deus, Saulo e Barnabé, seguidos por


João Marcos, despediam-se dos irmãos, a caminho de Selêucia. A viagem para o
litoral decorreu em ambiente de muita alegria. De quando a quando, repousavam
à margem do Oronte, para a merenda salutar. À sombra dos carvalhos, na paz
dos bosques enfeitados de flores, os missionários comentaram as primeiras
esperanças. (7) (Grifo nosso.)
_______________
7. Idem, ibidem. p. 410.

Considerando que Paulo permaneceu três anos em Tarso, podemos concluir que a
sua chegada em Antioquia se deu por volta do ano 42 d.C., durante ou após o verão.
No livro Atos dos Apóstolos (Cap.11, 12 e 13), há relatos de inúmeros fatos
ocorridos durante a permanência do Apóstolo em Antioquia. Alguns merecem especial
destaque para os nossos propósitos: 1) A mudança do nome dos seguidores de Jesus,
que passaram a se chamar “cristãos”, um ano depois da chegada de Paulo (Atos, 11:26);
2) As previsões do profeta Ágabo a respeito dos martírios em Jerusalém (Atos, 11:28); 3)
O martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e irmão de João Evangelista (Atos, 12:2); 4)
A prisão de Simão Pedro (Atos, 12:3); 5) A morte de Herodes (Atos, 12:23); 6) A
viagem de Paulo e Barnabé a Jerusalém (Atos, 12:25); 7) A primeira viagem missionária
de Paulo e Barnabé (Atos, 13:2-4). O martírio de Tiago ocorreu, segundo o relato do
Espírito Irmão X, onze anos após a crucificação. Em publicações anteriores
demonstramos que a crucificação de Jesus se deu em abril/maio do ano 33 d.C., (8)
73

portanto, Tiago morreu no ano 44 d.C., data em que Simão Pedro escreveu a missiva
para Barnabé, que se encontrava em Antioquia.
_______________
8. Consultar o artigo intitulado Cristianismo redivivo: história da era apostólica, a
crucificação de Jesus,Haroldo Dutra Dias, publicado em Reformador, ano 126, n. 2.154, p.
33(351)-35(353), set. 2008.

Herodes Agripa I, filho mais novo de Herodes Magno (Herodes, o Grande), foi
condecorado com o título real pelo imperador romano Calígula no ano 37 d.C., mas
somente reinou, efetivamente, a partir do ano 41 d.C. Os historiadores divergem quanto à
data da sua morte, especulando que ela tenha ocorrido entre setembro/outubro de 43 d.C.
e fevereiro de 44 d.C.
Harold Hoehner, em sua tese de doutorado intitulada Chronology of the Apostolic
Age,(9) postula que Herodes morreu no ano 44 d.C., apresentando diversas evidências
documentais e arqueológicas bastante convincentes.Ademais, sua data se encaixa
perfeitamente com aquela informada pelo Espírito Irmão X.
_______________
9. O leitor não deve confundir essa tese de doutorado, não publicada, com outro livro de
Harold Hoehner intitulado Chronological Aspects of the Life of Christ, publicado pela
editora Zondervan, de caráter estritamente religioso. Sua tese de doutorado reúne todos os
requisitos que uma obra acadêmica deve apresentar para ser aceita pelos especialistas da
área, ao contrário do seu livro, acima citado, que foi dirigido ao público religioso.

Após o recebimento da carta de Simão Pedro, Paulo e Barnabé se dirigiram a


Jerusalém, onde foram surpreendidos pela ausência do próprio Simão, que havia se
retirado da cidade, em função da sua anterior prisão. Ao regressarem da cidade santa,
formulam o plano da primeira viagem missionária, que foi integralmente endossado pela
Espiritualidade superior. Nessa viagem, Paulo e Barnabé trouxeram de Jerusalém o
jovem João Marcos, que se tornaria mais tarde o conhecido evangelista.
Não é demais lembrar, repetimos, que nos países banhados pelo Mar
Mediterrâneo, o clima é muito semelhante, com verões secos e quentes e invernos
moderados e chuvosos.As estações do ano se dividem em dois grandes blocos:
primavera–verão (abril–setembro) e outono–inverno (outubro–março).
Emmanuel, ao descrever o início da primeira viagem missionária, faz referência aos
“bosques enfeitados de flores”, nas margens do Oronte. Essa referência – já o sabemos –
não é meramente ilustrativa ou poética. Sua função é nos esclarecer que a referida
viagem teve início na primavera do ano 44 d.C.
74

Reformador Janeiro 2010 - Ano 128 Nº 2.170 – PAG 33/31 – 35/33

24 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


Síntese da Cronologia
“Desde já, vejo os críticos consultando textos e combinando versículos para trazerem à
tona os erros do nosso tentame singelo. [...] e ao pedantismo dogmático, ou literário, de
todos os tempos, recorremos ao próprio Evangelho para repetir que, se a letra mata, o
espírito vivifica.”(1)
_______________
1. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. 2. reimp. Rio de
Janeiro: FEB, 2009. Breve notícia, p. 10.

HAROLDO DUTRA DIAS

A simplicidade e humildade do Benfeitor espiritual Emmanuel pode levar o


estudioso iniciante a crer que haja erros nas informações trazidas pelo romance histórico
Paulo e Estêvão. Na época em que essa extraordinária obra veio a lume (1942), é certo
que a maioria dos dados históricos, sobretudo aqueles relacionados à cronologia,
estavam em discordância com as pesquisas bíblicas publicadas na primeira metade do
século XX.
Ainda hoje, enciclopédias, dicionários bíblicos, artigos esparsos, produzidos por
autores daquele período ou por pessoas que não atualizaram seus estudos, contêm
dados, datas, informes diametralmente opostos ao daquela obra mediúnica. Por outro
lado, a mais recente pesquisa acadêmica (1980-2009) parece confirmar cada detalhe
deste romance espiritual, como se pode constatar do trabalho de John P. Meier, E. P.
Sanders, W. D. Davies, Craig Evans, Bruce Chilton, James H. Charlesworth, Joseph
Fitzmyer, Barth Ehrman, David Flusser, Geza Vermes, Haroldo Hoehner, para citar
apenas os mais conhecidos.
Temos abordado nesta coluna, ainda que de forma resumida e simples, as datas
mais significativas do primeiro século do Cristianismo, conjugando essa recente pesquisa
histórica com as revelações espirituais presentes na obra Paulo e Estêvão, no intuito de
fornecer um quadro cronológico desse período, capaz de auxiliar o leitor na leitura e
compreensão do Novo Testamento, em especial do livro Atos dos Apóstolos.
Nesse sentido, transcorridos mais de um ano desse esforço, sentimos necessidade
de fornecer um resumo dos dados apresentados até o presente momento, na esperança
de que essa “tabela cronológica” seja útil a todos que anseiam por uma compreensão
mais precisa da “História da Era Apostólica”, com vistas a uma melhor apropriação do
conteúdo espiritual da mensagem evangélica.
Naturalmente, não poderemos explicar meticulosamente todas as datas
apresentadas, remetendo o leitor aos números anteriores da revista Reformador, onde
poderão ser encontrados informes mais detalhados, com a dedução de cada data
específica.
Todas essas datas são apresentadas com a menção da estação do ano
correspondente, tendo em vista a impossibilidade, na maioria dos casos, de se fixar o dia
e o mês exato do evento. Por esta razão, cumpre lembrar que nos países banhados pelo
75

Mar Mediterrâneo o clima é muito semelhante, com verões secos e quentes e invernos
moderados e chuvosos. As estações do ano se dividem em dois grandes blocos:
primavera–verão (abril–setembro) e outono–inverno (outubro–março).
É importante ressaltar que o romance mediúnico Paulo e Estêvão representa uma
espécie de “bastidores”, making-off do livro bíblico Atos dos Apóstolos, razão pela qual é
indispensável sua leitura e citação. O fio condutor de toda a história apostólica se
encontra em Atos dos Apóstolos e Emmanuel irá seguir esse roteiro de forma rigorosa.
A crucificação de Jesus se deu em abril/maio do ano 33 d.C.,(2) ao passo que
Pentecostes (Atos, 2) ocorreu cinquenta dias depois daquela data. Ainda nesse ano,
Pedro discursou no Templo de Jerusalém (Atos, 3:1; 4:31).
_______________
2. Consultar o artigo intitulado “A crucificação de Jesus”, publicado na revista Reformador,
ano 126, n. 2.154, setembro de 2008, p. 33(351)-35(353).

No ano 34 d.C., Pedro fixa residência na cidade de Jerusalém, fundando a “Casa


do Caminho”, primeiro núcleo cristão de assistência aos necessitados e divulgação do
Evangelho. Por essa época, ocorreu a pitoresca morte de Ananias e Safira (Atos, 4:32;
5:11).
Os primeiros acontecimentos descritos no romance Paulo e Estêvão ocorreram na
primavera/verão do ano 34 d.C., ocasião em que Jeziel (Estêvão) é levado cativo para as
galeras romanas (outono de 34 d.C.), e acaba aportando doente em Jerusalém, sendo
conduzido para a “Casa do Caminho” no inverno de 34/35 d.C., ou seja, final daquele ano
e início do outro.
Nesse mesmo período, talvez, Pedro foi preso e discursou no Sinédrio (Atos, 5:12-
42), sendo libertado em função da célebre intervenção de Gamaliel.
Na primavera do ano 35 d.C., Estêvão é nomeado para ser um dos sete
trabalhadores que cooperariam com os Apóstolos nos trabalhos da igreja nascente (Atos,
6:1-7), sendo preso e apedrejado pouco tempo depois, no verão do ano 35 d.C.(3) (Atos,
6:8; 7:60).
_______________
3. Consultar o artigo intitulado “O primeiro Mártir”, publicado na revista Reformador, ano
127, n. 2.158, janeiro de 2009, p. 29(27)-31(29).

Decorridos oito meses da morte do primeiro Mártir, Saulo procura Abigail na


pequena propriedade rural situada na estrada de Jope, surpreendendo-a em grave estado
de saúde. Esse dramático encontro entre Saulo e Abigail só pode ter ocorrido no início do
ano 36 d.C.(4)
_______________
4. Consultar o artigo intitulado “A conversão de Saulo”, publicado na revista Reformador,
ano 127, n. 2.160, março de 2009, p. 36(114)-37(115).

Adentrando em Damasco, acometido de temporária cegueira, após a gloriosa visão


do Cristo, o jovem Saulo sente que “grossos pingos de chuva caíam, aqui e ali, sobre a
poeira ardente das ruas”.(5) A primavera tem início no mês de abril, quando cessam as
chuvas.
_______________
5. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. 2. reimp. Rio de
Janeiro: FEB, 2009. P. 1, cap. 10, p. 250.

Nesse caso, é plausível postular, com base nos informes de Emmanuel, que a
conversão de Saulo se deu antes da primavera, ou seja, no primeiro trimestre do ano 36
d.C.(6)
76

_______________
6. Consultar o artigo intitulado “A conversão de Saulo”, publicado na revista Reformador,
ano 127, n. 2.160, março de 2009, p. 36(114)-37(115).

Após breve estada em Damasco, Paulo se retira para o deserto (Atos, 9:8-25;
Gálatas, 1:15-18). O tempo de permanência do antigo doutor da lei no deserto de Palmira
foi estabelecido de forma precisa: três anos (Gálatas, 1:17-18). Emmanuel confirma e
esclarece detalhes sobre esse período. Durante sua estada no Oásis de Dan, Paulo foi
surpreendido com a notícia da morte do seu grande orientador, Gamaliel.(7)
_______________
7. Consultar o artigo intitulado. “A preparação no deserto”, publicado na revista
Reformador, ano 127, n. 2.162, maio de 2009, p. 34(192)-36(194).

Ao retornar do Oásis de Dan, no deserto da Arábia, Paulo passa por Damasco


(Gálatas, 1:17), de onde se retira às pressas, escondido em um cesto, tendo em vista a
ordem de prisão contra ele expedida (Atos, 9:19-25).
A chegada de Paulo em Jerusalém (Atos, 9:26-29; Gálatas, 1:18--20) verificou-se
num dia quente de verão, três anos após sua conversão em Damasco, ou seja, no verão
do ano 39 d.C. Sua permanência na Judeia foi extremamente curta, pois se viu obrigado a
fugir da perseguição dos membros da Sinagoga dos cilícios, após ter feito ardorosa
pregação naquele local.(8)
_______________
8. Consultar o artigo intitulado “O regresso a Tarso”, publicado na revista Reformador, ano
127,n.2.164,julho de 2009,p.34(272)-35(273).

Aconselhado por Simão Pedro, o tecelão fixou residência em sua cidade natal,
Tarso (Atos, 9:30; Gálatas, 1:21), pelo período de três anos. Essas informações podem
ser encontradas no romance Paulo e Estêvão:

[...] Saulo de Tarso, agora resistente como um beduíno, depois de agradecer a


generosidade do benfeitor e despedir-se dos amigos com lágrimas nos olhos,
tomou novamente o rumo de Damasco, radicalmente transformado pelas
meditações de três anos consecutivos, passados no deserto.(9) (Grifo nosso.)
_______________
9. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 39. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2003. P. 2, cap. 2, p. 320.

Assim, durante três anos, o solitário tecelão das vizinhanças do Tauro


exemplificou a humildade e o trabalho, esperando devotadamente que Jesus o
convocasse ao testemunho.(10) (Grifo nosso.)
_______________
10. Idem, ibidem. p. 385.

Desse modo, a permanência de Paulo em Tarso se estendeu do verão do ano 39


d.C. ao verão do ano 42 d.C., “até que Barnabé o convidasse para os trabalhos
promissores na Igreja de Antioquia”.(11)
_______________
11. Consultar o artigo intitulado “O regresso a Tarso”, publicado na revista Reformador,
ano 127, n. 2.164, julho de 2009, p. 34(272)-35(273).

Em resumo, da data de sua conversão em Damasco até sua chegada em


Antioquia, transcorreram seis longos anos (primeiro trimestre do ano 36 d.C. até o verão
77

do ano 42 d.C.), nos quais o Apóstolo dos Gentios consolidou as profundas


transformações que o encontro com Jesus lhe provocou.
78

Reformador Fevereiro 2010 - Ano 128 Nº 2.171 – PAG 34/72 – 36/74

25 - Cristianismo Redivivo

História da Era Apostólica


Ainda a Síntese Cronológica
“Desde já, vejo os críticos consultando textos e combinando versículos para trazerem à
tona os erros do nosso tentame singelo. [...] e ao pedantismo dogmático, ou literário, de
todos os tempos, recorremos ao próprio Evangelho para repetir que, se a letra mata, o
espírito vivifica” (1)
_______________
1. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. 2. reimp. Rio de
Janeiro: FEB, 2009. Breve notícia, p. 10.

HAROLDO DUTRA DIAS

Atendendo ao alvitre de Simão Pedro, Barnabé convidou Paulo para os trabalhos


promissores na Igreja de Antioquia. No artigo anterior [publicado em jan. 2010, p. 33-35],
concluímos que, da data de sua conversão em Damasco até sua chegada em Antioquia,
transcorreram seis longos anos (primeiro trimestre do ano 36 d.C. até o verão do ano 42
d.C.), nos quais o Apóstolo dos Gentios consolidou as profundas transformações que o
encontro com Jesus lhe provocou.
Consoante os informes de Emmanuel e Irmão X:

[...] Ainda, aí, entrou a compreensão de Pedro para que não faltasse ao tecelão
de Tarso o ensejo devido. Observando as dificuldades, depois de indicar Barnabé
para a direção do núcleo do “Caminho”, aconselhou-o a procurar o convertido de
Damasco, a fim de que sua capacidade alcançasse um campo novo de exercício
espiritual.
[...]
Pressuroso e prestativo, Saulo de Tarso em breve se instalava em Antioquia,
onde passou a cooperar ativamente com os amigos do Evangelho. [...] (2)
_______________
2. Idem, ibidem. P. 2, cap. 4, p. 388.

Com efeito, daí a meses, um portador da igreja de Jerusalém chegava


apressadamente a Antioquia, trazendo notícias alarmantes e dolorosas. Em longa
missiva, Pedro relatava a Barnabé os últimos fatos que o acabrunhavam. Escrevia
na data em que Tiago, filho de Zebedeu, sofrera a pena de morte, em grande
espetáculo público. [...] (3) (Grifo nosso.)
_______________
3. Idem, ibidem. p. 395.

Onze anos após a crucificação do Mestre, Tiago, o pregador, filho de Zebedeu, foi
violentamente arrebatado por esbirros do Sinédrio, em Jerusalém, a fim de
responder a processo infamante. (Grifo nosso.)
[...]
79

O antigo pescador e aprendiz de Jesus é atado a grande poste e, ali mesmo, sob
a alegação de que Herodes lhe decretara a pena, legionários do povo passam-no
pela espada, enquanto a turba estranha lhe apedreja os despojos.(4)
_______________
4. XAVIER, Francisco C. Contos desta e doutra vida. Pelo Espírito Irmão X. 2. ed. 2. reimp.
Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 23. p. 111-112.

Imensas surpresas aguardavam os emissários de Antioquia, que já não


encontraram Simão Pedro em Jerusalém. As autoridades haviam efetuado a
prisão do ex-pescador de Cafarnaum, logo após a dolorosa execução do filho de
Zebedeu. [...] (5)
_______________
5. Idem. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 44. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB,
2007. P. 2, cap. 4, p. 396.

Nos capítulos 11, 12 e 13 do livro Atos dos Apóstolos encontramos uma descrição
parcial dos fatos ocorridos durante a permanência do Apóstolo em Antioquia, entre eles a
mudança do nome dos seguidores de Jesus, que passaram a se chamar “cristãos”, um
ano depois da chegada de Paulo (Atos, 11:26); as previsões do profeta Ágabo a respeito
dos martírios em Jerusalém (Atos, 11:28); o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e irmão
de João Evangelista (Atos, 12:2); a prisão de Simão Pedro, a morte de Herodes (Atos,
12:3 e 23) e a viagem de Paulo e Barnabé a Jerusalém (Atos, 12:25).
Essa descrição parcial é bastante enriquecida com os dados trazidos pelo Benfeitor
Emmanuel, no romance Paulo e Estêvão, permitindo-nos organizar um quadro
razoavelmente detalhado do período.
Desse modo, conjugando as informações, é possível determinar que o martírio de
Tiago ocorreu, segundo o relato do Espírito Irmão X, onze anos após a crucificação. Em
publicações anteriores demonstramos que a crucificação de Jesus se deu em abril/maio
do ano 33 d.C.,(6) portanto, Tiago morreu no ano 44 d.C.,(7) data em que Simão Pedro
escreveu a missiva para Barnabé, que se encontrava em Antioquia.
_______________
6. Consultar o artigo intitulado “A crucificação de Jesus”, publicado na revista Reformador,
ano 126, n. 2.154, set. 2008, p. 33(351)-35(353).
7. Consultar o artigo intitulado “A Igreja de Antioquia”, publicado na revista Reformador,
ano 127, n. 2.167, out. 2009, p. 34(392)--36(394).

Herodes Agripa I, filho mais novo de Herodes Magno (Herodes, o Grande), foi
condecorado com o título real pelo imperador romano Calígula no ano 37 d.C., mas
somente reinou, efetivamente, a partir do ano 41 d.C. Os historiadores divergem quanto à
data da sua morte, especulando que ela tenha ocorrido entre setembro/outubro de 43 d.C.
e fevereiro de 44 d.C.
Harold Hoehner, em sua tese de doutorado intitulada Chronology of the Apostolic
Age,(8) postula que Herodes morreu no ano 44 d. C., apresentando diversas evidências
documentais e arqueológicas bastante convincentes. Ademais, sua data se harmoniza
perfeitamente com aquela informada pelo Espírito Irmão X.
_______________
8. O leitor não deve confundir essa tese de doutorado, não publicada, com outro livro de
Harold Hoehner intitulado Chronological Aspects of the Life of Christ, publicado pela
Editora Zondervan, de caráter estritamente religioso. Sua tese de doutorado reúne todos os
requisitos que uma obra acadêmica deve apresentar para ser aceita pelos especialistas da
área, ao contrário do seu livro, acima citado, que foi dirigido ao público religioso.
80

Após o recebimento da carta de Simão Pedro, Paulo e Barnabé dirigiram-se a


Jerusalém, onde foram surpreendidos pela ausência do próprio Simão, que havia se
retirado da cidade, em função da sua anterior prisão.
Não obstante, Barnabé e Paulo entregaram a coleta de donativos ao apóstolo
Tiago, regressando a Antioquia profundamente impressionados com as mudanças
ocorridas na Igreja de Jerusalém, que perdera suas características de simplicidade e
independência.
O resumo das datas mencionadas neste artigo e no anterior pode ser conferido na
tabela acima, enriquecida com outros eventos mencionados no livro Atos dos Apóstolos.

_______________
9. Consultar o artigo intitulado “A crucificação de Jesus”, publicado na revista Reformador,
ano 126, n. 2.154, set. 2008, p. 33(351)-35(353).
10. Consultar o artigo intitulado “O primeiro Mártir”, publicado na revista Reformador, ano
127, n. 2.158, jan. 2009, p. 29(27)-31(29).
11. Consultar o artigo intitulado “A Igreja de Antioquia”, publicado na revista Reformador,
ano 127, n. 2.167, out. 2009, p. 34(392)-36(394).
81

EVENTOS DATA REFERÊNCIA


Crucificação abril/maio do ano 33 Mateus 27:27-50;
d.C.(9) Marcos, 15:16-37:
Lucas, 23:26-46;
João, 19:17-30
Pentecostes maio do ano 33d.C. Atos, 2:1-36
Escolha dos Diáconos primavera do ano 35 Ato, 6:1-7
d.C.
Martírio de Estevão verão do ano 35 Ato, 6:8; 7:60
d.C.(10)
Conversão de Saulo 1º trimestre do ano 36 Atos, 9:1-18
d.C.
Paulo em verão do ano 36 Atos, 9:8-25; Gálatas
Damasco/Arábia d.C./verão do ano 39 1:15-18
d.C (10).
Primeira visita a verão do ano 39 d.C. Atos, 9:26-29; Gálatas
Jerusalém 1:18-20
Paulo em Tarso verão do ano 39 Atos, 9:30; Gálatas 1:21
d.C./verão do ano 42
d.C.
Paulo em Antioquia verão do ano 42 d.C. Ato, 11:25-26
Martírio de Tiago ano 44 d.C.(11) Ato, 12:1-23
Segunda visita a verão do ano 44 d.C. Atos, 11:30; Gálatas 2:1-
Jerusalém 10
82

Reformador Março 2010 - Ano 128 Nº 2.172 – PAG 36/114 – 38/116

26 - Cristianismo Redivivo

Profecias bíblicas
“O resultado final de um acontecimento pode, portanto, ser certo, por se achar nos
desígnios de Deus; como, porém, quase sempre, os detalhes e o modo de execução se
encontram subordinados às circunstâncias e ao livre-arbítrio dos homens, podem ser
eventuais os caminhos e os meios.”(1)
_______________
1. KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap.
16, item 14.

HAROLDO DUTRA DIAS

Ao discorrer sobre o fenômeno da predição do futuro, em sua magnífica obra A


Gênese, o Codificador esclarece que a Providência Divina regula os acontecimentos que
envolvam interesses gerais da Humanidade, salientando que os homens concorrem para
a execução dos desígnios divinos, mas nenhum deles é indispensável ao seu
cumprimento, visto não estar o Criador à mercê de suas criaturas.
Por esta razão, “os detalhes e os modos de execução” constituem estratégias da
Providência Divina, que podem variar segundo o grau de adesão da Humanidade aos
propósitos celestes, que buscam invariavelmente o progresso e o aperfeiçoamento
intelectual e moral dos seres humanos.
O livre-arbítrio do homem, relativo e sempre subordinado à vontade soberana do
Criador, pode opor inúmeros obstáculos ao progresso individual e coletivo, como também
pode representar poderosa alavanca na execução desses desígnios.
Em matéria de predição dos acontecimentos concernentes ao futuro da
Humanidade, ou seja, no tocante à profecia bíblica, urge compreender e meditar a
respeito das questões acima mencionadas, de modo a não incorrer em falsas
interpretações ou em alarmismo inconveniente.
Nunca é demais lembrar que o amor e a misericórdia integram a Justiça Divina,
razão pela qual os planos da Providência visam sempre o aperfeiçoamento dos seres.
Nesse caso, provações, expiações, calamidades, guerras constituem instrumentos
didáticos da pedagogia divina, que jamais desampara os seres durante seus sofrimentos,
por considerá-los todos como filhos de Deus, Espíritos imortais em evolução.
No limiar do Apocalipse, encontramos o belíssimo versículo: “E dei-lhe um tempo
para que se arrependa, mas não quer se arrepender da sua prostituição”.(2)
_______________
2. Ap., 2:21. Tradução do articulista.

Emmanuel mais uma vez nos socorre na tarefa de interpretação deste versículo:

Muita gente insiste pela rigidez e irrevogabilidade das determinações de origem


divina, entretanto, compete-nos reconhecer que os corações inclinados a
semelhante interpretação, ainda não conseguem analisar a essência sublime do
amor que apaga dívidas escuras e faz nascer novo dia nos horizontes da alma.
83

Se entre juízes terrestres existem providências fraternas, qual seja a da liberdade


sob condição, seria o tribunal celeste constituído por inteligências mais duras e
inflexíveis?
A Casa do Pai é muito mais generosa que qualquer figuração de magnanimidade
apresentada, até agora, no mundo, pelo pensamento religioso. Em seus celeiros
abundantes, há empréstimos e moratórias, concessões de tempo e recursos que
a mais vigorosa imaginação humana jamais calculará.(3) (Grifo nosso.)
_______________
3. XAVIER, Francisco C. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 2. reimp. Rio de
Janeiro: FEB, 2009. Cap. 92, p. 199-200.

O Altíssimo conjuga todas as providências e recursos para que o progresso das


almas se efetue em clima de harmonia e paz, sob os auspícios do seu infinito amor. A
tormenta, o desajuste, o desequilíbrio e a expiação decorrem do abandono voluntário do
Amor Divino.
Não há determinações rígidas e irrevogáveis nos códigos celestes. Se o
condenado(4) pela justiça humana é acompanhado durante o cumprimento de sua pena,
tendo em vista a possibilidade da concessão de diversos benefícios, dependendo do seu
comportamento na prisão, não há razão para aguardar comportamento diverso da
Providência Divina, no curso das nossas expiações e provas.
_______________
4. Na legislação brasileira, o condenado, durante a execução de sua pena, é chamado de
“reeducando”, o que revela a nova visão humanista do Direito Penal.

“A profecia é revelada para que não se cumpra”


Pelo contrário, a programação espiritual de uma existência ou de um ciclo de
progresso da civilização humana é sempre feita com base em cálculos de probabilidade.
Os caminhos são tão intricados e dependem de tantas variáveis que lembram uma teia de
aranha, com suas vigorosas ramificações.

Nessa linha interpretativa, Emmanuel assim se expressa:

Cada homem possui, com a existência, uma série de estações e uma relação de
dias, estruturadas em precioso cálculo de probabilidades. [...](5)
_______________
5. XAVIER, Francisco C. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. 1. reimp. Rio de
Janeiro: FEB, 2008. Cap. 113, p. 258.

Nesse contexto, podemos asseverar que todas as predições/profecias da Bíblia se


acham subordinadas a um paradoxo, que pode ser expresso nos seguintes termos: “A
profecia é revelada para que não se cumpra”.
A afirmação pode causar certa estranheza ao leitor. Pensando nisto,
transcrevemos a seguir o trecho de uma entrevista concedida pelo médium Francisco
Cândido Xavier sobre o assunto em estudo, que muito tem nos auxiliado na compreensão
desse palpitante tema:

O Célebre Nostradamus assinala os meses de julho e outubro de 1999 como


sendo o período final do tempo que estamos atravessando; com a ocorrência de
imensos cataclismos astronômicos e sociais. Nostradamus deve ser levado a
sério?
84

– Com respeito às profecias de Nostradamus que, aliás, devemos estudar com o


maior respeito ao mensageiro humano dos vaticínios conhecidos, pede-nos
Emmanuel para lermos com meditação a Parábola de Jonas no Antigo
Testamento.(6) (Grifo nosso.)
_______________
6. XAVIER, Francisco C.; ARANTES, Hércio M. C. Autores diversos. Encontros no tempo.
São Paulo: IDE, 1979. Cap. 1, q. 6.

Sendo assim, no tocante ao cumprimento das profecias, sobretudo as bíblicas, o


paradigma deve ser a Parábola de Jonas, encontrada no Antigo Testamento (Jonas, 3-4),
segundo nos orienta o Benfeitor Emmanuel.
O profeta Jonas foi encarregado de transmitir à cidade de Nínive tenebrosos
vaticínios de destruição e morte, caso os cidadãos daquele local não se arrependessem
dos seus erros.
Todavia, contrariando as expectativas do profeta, os habitantes de Nínive se
arrependeram, passando a viver segundo as determinações da Lei Divina, motivo pelo
qual a profecia foi anulada, não obstante a revolta de Jonas, que se sentiu humilhado pelo
suposto fracasso da sua missão.
Quando o profeta descansava do Sol ardente, sob a sombra de uma mamoneira,
Deus enviou vermes que destruíram a planta, expondo o profeta novamente ao calor
escaldante.
Diante da revolta de Jonas, Deus exclamou, na instrutiva parábola do Velho
Testamento:

“Tu tens pena da mamoneira, que não te custou trabalho e que não fizeste
crescer, que em uma noite existiu e em uma noite pereceu. E eu não terei pena
de Nínive, a grande cidade, onde há mais de cento e vinte mil seres humanos,
que não distinguem entre direita e esquerda, assim como muitos animais!”(7)
_______________
7. Bíblia de Jerusalém. 3. imp. São Paulo: PAULUS, 2004. Jonas, 4:10-11, p. 1.633.

Sendo assim, considerando-se o infinito amor de Deus por todas as suas criaturas,
bem como o caráter pedagógico de toda revelação acerca dos acontecimentos futuros,
individuais ou coletivos, é lícito asseverar que “a profecia é revelada para que não se
cumpra”
85

Reformador Junho 2010 - Ano 128 Nº 2.175 – PAG 34/248 – 36/250

27 - Cristianismo Redivivo

O Novo Testamento
Redação
“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”(1)
_______________
1. DIAS,Haroldo D. (Tradutor). O novo testamento. Brasília: EDICEI, 2010. João, 8:32.

HAROLDO DUTRA DIAS

N a época de Jesus eram utilizados rolos de papiro ou de pergaminho para o


registro de livros, cartas, documentos públicos ou privados. Havendo necessidade de uma
cópia do original (autógrafo), recorria-se ao trabalho dos copistas profissionais, que
estavam munidos de equipamento e técnica indispensáveis ao êxito da difícil empreitada.
Do contrário, o interessado deveria lançar-se ao trabalho meticuloso e exaustivo de
produzir sua própria cópia, correndo o risco de perder o material, papiro ou pergaminho,
por falhas no processo de escrita, acondicionamento ou preparo físico das tintas e dos
rolos.
Ao longo dos séculos, os livros que compõem a coletânea chamada Novo
Testamento (NT) foram copiados por milhares de pessoas nos mais diversos locais ao
redor do Mar Mediterrâneo. A maior parte dessas cópias se perdeu, algumas por
desgaste natural do material utilizado, papiro ou pergaminho, outras por ignorância do
local onde foram guardadas pelos copistas.
Por volta do século XVIII, foram descobertos diversos locais naquela região onde
estavam acondicionados manuscritos do Novo Testamento. Essas descobertas
desencadearam verdadeira corrida em busca dos “papiros e pergaminhos” antigos.
Atualmente, estão catalogados cerca de 5.500 manuscritos gregos do NT, sem
contar os manuscritos das traduções feitas ao longo dos séculos, tais como manuscritos
da Vulgata Latina, da versão Siríaca, Armênia, Egípcia (Copta), além das citações dos
Pais da Igreja.
A catalogação e comparação desses manuscritos ganharam fôlego na década de
70, ocasião em que se reuniram os maiores especialistas do mundo para publicarem as
duas edições críticas do texto grego do NT, uma, destinada aos tradutores (UBS), e outra,
aos especialistas (Nestle-Aland). As duas adotam o mesmo texto--padrão, variando
apenas as notas de rodapé, que no caso da edição Nestle-Aland é mais robusta e
completa.
A essa altura o leitor deve estar se perguntando: o que vem a ser uma “edição
crítica”?
Antes de responder a essa aparentemente singela pergunta, convém esclarecer
alguns pontos. O ramo do conhecimento que lida com a comparação e catalogação de
manuscritos antigos se chama “Crítica Textual”. O estudioso da área, por sua vez, é
denominado “Crítico Textual”.
Considerando que a imprensa foi inventada somente no século XVI, não é difícil
imaginar que, antes dessa data, há uma profusão de manuscritos, nas mais diversas
línguas, de um número incalculável de autores. Existem os manuscritos gregos de
86

Homero, Platão, Aristóteles; os manuscritos em latim de Virgílio, Horácio, Santo


Agostinho; os manuscritos egípcios, hindus, hebreus, chineses, entre outros. Em suma,
toda a literatura antiga está preservada em cópias manuscritas.
Desse modo, os críticos textuais acabam se especializando em determinado autor
e/ou livro, razão pela qual não devemos nos surpreender com a existência de
especialistas em manuscritos do NT.
O primeiro trabalho de um crítico textual consiste na catalogação, datação,
determinação da origem de cada manuscrito em particular que contenha determinado livro
ou fragmento dele. Uma vez realizado esse trabalho preliminar, compete-lhe a explicação
da história da transmissão daquele texto, separando os manuscritos por região, época,
tipo de escrita, tradição textual.
Ao reconstruir a história da transmissão do texto, o crítico textual deve especificar
quais são os manuscritos mais antigos, os mais completos, os mais bem redigidos,
demonstrando como esses ancestrais chegaram até nós e quais cópias derivam deles,
numa espécie de construção da árvore genealógica dos manuscritos.
Encerrado o trabalho de catalogação, inicia-se a comparação crítica de cada frase
para se descobrir em quais pontos os manuscritos divergem. Essas divergências são
conhecidas como “variantes textuais”.
Obtida a lista de variantes para cada frase do texto, no caso do NT para cada
versículo, o crítico textual deve ser capaz de explicar a existência de cada uma em
particular, apontando quais delas são alterações intencionais e quais são decorrentes de
erro ou desatenção do copista.
A edição crítica de um texto antigo, portanto, representa a definição do texto
adequado, ou seja, aquele que melhor reflete o “texto original perdido (autógrafo)”, após
catalogação e comparação do maior número possível de cópias manuscritas disponíveis,
acompanhadas de notas de rodapé com as variantes textuais mais importantes.
Em se tratando de textos redigidos antes da invenção da imprensa, os
especialistas utilizam apenas edições críticas, pois elas constituem um resumo de todo o
material manuscrito disponível para determinado livro, possibilitando ao estudioso a
comparação das variantes textuais e a reconstituição da história da transmissão daquele
texto. É o caso do Novo Testamento, que dispõe de duas edições críticas, como já
mencionado, cuja diferença reside apenas nas notas de rodapé, uma contendo mais
variantes textuais do que a outra.
Considerando que essas duas edições críticas somente foram publicadas na
década de 70, todas as traduções do NT feitas no século XX se baseiam nesse texto
crítico da UBS//Nestle-Aland.
O estudo da edição crítica do texto grego do Novo Testamento nos permite
compreender as variantes textuais de todos os versículos, para podermos avaliar de
forma crítica quais foram introduzidas com interesse teológico e quais são resultado de
simples erro dos copistas.
Por outro lado, é muito comum alguém dizer que determinado versículo foi
acrescentado, mas sem embasamento da Crítica Textual, ou seja, sem dizer em quais
manuscritos aquele texto está ausente, de modo a comprovar suas afirmações. Não vale
apenas dizer algo, é preciso demonstrar mediante provas manuscritas a veracidade das
afirmações. Para tanto, é imprescindível conhecer a “edição crítica” a fundo.
É bom lembrar que é ilusão buscar o autógrafo (manuscrito original) dos textos
antigos. No caso do Novo Testamento, nenhum original foi encontrado. Todos os
manuscritos que possuímos (5.500) são cópias feitas ao longo de 1.500 anos.
Esse fato, porém, não nos deve preocupar. Há livros antigos de autores famosos
cujos manuscritos são escassos. Alguns deles contam com apenas dois ou três
manuscritos descobertos, mas nem por isso duvida-se da autenticidade deles.
87

O Novo Testamento é o único livro antigo que conta com essa infinidade de cópias
manuscritas, portanto, é o livro mais bem atestado da Humanidade. A imensidade de
cópias, não obstante o trabalho que oferece aos estudiosos, representa nossa maior
segurança, pois permite a definição do texto-padrão com muito mais segurança do que
qualquer outro livro antigo.
Seguramente, foi a estratégia adotada pela Espiritualidade superior para
preservação dos textos da segunda revelação.
88

Reformador Novembro 2010 - Ano 128 Nº 2.180 – PAG 11/425 – 12/426

28 - Entrevista HAROLDO DUTRA DIAS

O resgate do Cristianismo Nascente


Haroldo Dutra Dias, articulista desta Revista e recente tradutor de O Novo Testamento,
comenta suas motivações para os estudos sobre os Evangelhos e destaca a vasta
contribuição da obra de Emmanuel, psicografada por Chico Xavier, para o resgate do
Cristianismo Nascente

Reformador: Qual foi sua motivação inicial para redigir a coluna “Cristianismo Redivivo”
nesta revista?
Haroldo: Após anos de pesquisa em torno da obra Paulo e Estêvão, percebi que havia
sérias questões, relacionadas à cronologia e história do Cristianismo Nascente, que eram
revisadas pelo autor espiritual daquele romance histórico. Emmanuel propunha uma nova
cronologia do primeiro século da Era Cristã, além de abordar e esclarecer inúmeros
pontos obscuros. Pude notar, igualmente, que os dados históricos contidos naquele livro
estavam em total desacordo com a literatura acadêmica produzida na primeira metade do
século XX, mas em absoluta concordância com as mais recentes pesquisas sobre o
assunto, levando-nos a concluir que essa obra mediúnica havia antecipado descobertas e
pesquisas históricas que seriam feitas somente 50, 60 anos mais tarde. Esses fatos
motivaram a redação da coluna “Cristianismo Redivivo”. A intenção é compartilhar essas
informações com os leitores de Reformador.

Reformador: Você dá ênfase às obras de Emmanuel? Por quê?


Haroldo: Acreditamos que Emmanuel tem a missão, como atesta a vasta literatura por
ele ditada a Chico Xavier, de resgatar o Cristianismo Nascente, na sua integral pureza e
originalidade, tudo com base na Codificação Kardequiana. Nesse sentido, sua obra é um
monumento espiritual a desafiar nossa capacidade de leitura, estudo, pesquisa e reflexão.
Os livros produzidos por esse Benfeitor espiritual representam “parada obrigatória” para
todos os estudiosos sérios do Cristianismo, que já entenderam o papel complementar da
revelação mediúnica para a pesquisa acadêmica relativa a esse tema.

Reformador: E a tradução de O Novo Testamento – há pouco editada pela EDICEI –,


tem relação com os estudos citados?
Haroldo: A tradução de O Novo Testamento é fruto desse esforço para compreender a
vasta contribuição legada pelo Benfeitor Emmanuel. Na medida em que aprofundávamos
na pesquisa, cada vez mais sentíamos necessidade de um texto do Novo Testamento
neutro, objetivo, fidedigno, que pudesse ser apresentado com isenção a qualquer
estudioso sincero. Noutro giro, considerando as inúmeras pesquisas e descobertas
científicas relativas aos manuscritos gregos do Novo Testamento, ao ambiente cultural,
histórico e linguístico no qual viveu Jesus, era necessária uma tradução atualizada,
moderna, que pudesse incorporar todas essas recentes descobertas.

Reformador: Como concretizou tal tradução?


Haroldo: A tradução foi feita em três anos, nos quais trabalhava em média seis horas por
dia, embora ela tenha sido precedida de uma pesquisa que já dura dezessete anos. Para
esse escopo, formamos uma biblioteca especializada em Cristianismo com mais de três
89

mil volumes, fora a viagem feita a Jerusalém, onde foi possível adquirir meia tonelada de
livros da tradição judaica, o mesmo material que serviu de base para os estudos de Paulo
de Tarso. Foram consultados mais de 40 dicionários especializados em grego, em mais
de cinco idiomas, dezenas de dicionários de hebraico, aramaico, inúmeras enciclopédias
e dicionários bíblicos, e mais de 120 traduções do Novo Testamento em português,
inglês, espanhol, francês, alemão, latim, siríaco.

Reformador: Como avalia o impacto da análise dos Evangelhos pela psicografia de


Chico Xavier?
Haroldo: A interpretação do Novo Testamento feita por Emmanuel representa uma
profunda mudança de paradigma na hermenêutica bíblica. Páginas sintéticas, vazadas
em linguagem simples, escondem soluções de profundos enigmas exegéticos, como
também revelam o caráter prático e vivencial desse trabalho, todo voltado para a vivência
efetiva e plena do Evangelho. Acreditamos, sinceramente, que esse material
interpretativo, embora trazido diretamente por Emmanuel, tenha sua origem em esferas
superiores, nas quais esse Benfeitor pôde colher sugestões e a colaboração de grandes
vultos do Cristianismo Nascente.

Reformador: Qual sua percepção pelo Centenário de Chico Xavier?


Haroldo: O Centenário de Chico Xavier tem sido a grande oportunidade para nos
reunirmos em torno da grandiosa literatura por ele psicografada, com o objetivo de
entender a dimensão e a profundidade desse trabalho, além de representar um valioso
momento de reflexão acerca da exemplificação desse grande missionário que, com sua
vida e seu trabalho, traçou para todos nós um roteiro de como pode e deve ser a vida de
um verdadeiro discípulo de Jesus.

Reformador: Uma mensagem para o leitor de Reformador.


Haroldo: Com os leitores desta respeitável Revista tenho a grata satisfação de
compartilhar uma reflexão que muito me conforta: se a Humanidade mereceu o carinho e
o esforço da Espiritualidade superior que permitiu se concretizasse no mundo a obra
insuperável do Codificador e essa literatura mediúnica subsidiária, como continuidade ao
trabalho iniciado por Moisés e exemplificado por Jesus, podemos guardar a certeza de
que todos estamos mergulhados em um oceano de amor, no qual Deus aguarda o nosso
aprimoramento espiritual como um Pai afetuoso que pretende nos atrair para o seu
coração amoroso.