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Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Instituto de Geo-Ciências
Programa de Pós-Graduação em Geografia

Aluno: Luciano Costa Gomes


Professor: Álvaro Heidrich
Disciplina: GPG00018 - Espaço social e condição territorial

O urbano e o rural em Porto Alegre na década de 1780

1. Introdução

Na história da constituição do domínio português sobre o território que formou o


Continente do Rio Grande de São Pedro, Porto Alegre representou um papel de razoável
destaque. Após a conquista espanhola do Rio Grande no ano de 1763, o então Porto dos
Casais se transformou num importante ponto estratégico devido a sua privilegiada posição
geográfica, às margens do Guaíba. Pelo caminho fluvial, se poderia chegar tanto ao Rio Pardo
– via rio Jacuí – como ao Rio Grande, os fronts de combate contra as forças espanholas. Por
esse motivo, a capital da Capitania foi transferida de Viamão para Porto Alegre, no ano de
1773.
Dentro dos muitos aspectos que podem ser pensados relativos a Porto Alegre no
período colonial, pretendemos aqui analisar a formação dos espaços urbano e rural. Alguns
autores já estabeleceram que foi neste período que o núcleo urbano se constituiu, ainda que de
maneira bastante lenta. Nosso objetivo, neste sentido, é apresentar uma pequena contribuição
para delimitar com maior clareza as possíveis distinções entre o urbano e o rural naquela
época.

1
Os documentos que utilizamos são os róis de confessados1, a relação de moradores
de 17842, o primeiro livro de batismos, o primeiro livro de casamentos3 e alguns inventários
post-mortem. A partir destas fontes faremos análises de cunho demográfico e econômico para,
justamente, tentar averiguar se havia diferença nos perfis populacional e ocupacional das duas
áreas. Precisamos, ao início, fazer alguns apontamentos sobre os primeiros estudos que
abordaram o assunto.
Em linhas gerais, os autores que trabalharam os primeiros tempos da cidade focaram
cinco aspectos, que são: a distribuição das terras que formariam a Porto Alegre em sesmarias;
o crescimento da população e o aporte representado pela migração açoriana; a atuação do
engenheiro Alexandre José Montanha, responsável pela planificação das primeiras ruas e pela
distribuição das meias datas de terra em 1772; a construção dos primeiros edifícios e
equipamentos urbanos; e, por fim, a formação da estrutura administrativa local (estatal e
eclesiástica) e seu papel na história política da Capitania4. A divisão espacial entre urbano e
rural da localidade, assunto que nos interessa, fica evidente quando os autores abordam os
dois últimos assuntos.
Estes autores deram ênfase às construções levadas a cabo durante o último quartel
do século XVIII. A mando de José Marcelino de Figueiredo, em 1773, foi construída a linha
de fortificações que delimitariam a “zona urbana”. Entre 1772 e 1800, se construíram as
fontes públicas, a Igreja Matriz, a Casa da Junta, a Casa da Tesouraria da Real Fazenda, a
Câmara, a Cadeia e a Casa da Comédia. Em 1803 foi concluída a Santa Casa de Misericórdia,
obra iniciada em 17955. Assim, os estudos precedentes assinalaram a circunscrição do
perímetro urbano no período anterior ao século XIX em termos principalmente arquitetônicos
1
Fonte: róis de confessados de Porto Alegre de 1779, 1780, 1781, 1782, 1790 e 1792, Arquivo Histórico da
Cúria Metropolitana de Porto Alegre (AHCMPA). O rol de confessados é uma fonte de origem eclesiástica na
qual se encontra o registro da participação dos moradores nos sacramentos pertinentes a Quaresma; a riqueza
dessa fonte consiste no fato de que estes moradores estavam organizados de acordo com o fogo (isto é, o
domicílio) em que residiam. Sobre a fonte, ver SIRTORI, 2008 (especialmente o capítulo 2); SCOTT, 2008.
Sobre os róis que utilizamos e a forma de tratamento dispensado aos mesmo, ver GOMES, 2009, 243-245; e
artigo no prelo: “Uma economia escravista? Apontamentos sobre a população e a estrutura de posse de escravos
em Porto Alegre, 1779-1792”, a ser apresentado e publicado na VIII Mostra de Pesquisa do Arquivo Público do
Estado do Rio Grande do Sul.
2
Fonte: “Relação de moradores que têm campos e animais no Continente” – ANRJ, cód. 104, v. 6, 7 e 8. A
relação de moradores é um arrolamento das propriedades agrárias de todo o Rio Grande de São Pedro, feito no
ano de 1784, na qual constam os rebanhos possuídos pelos moradores e a quantidade e forma de acesso a
propriedade fundiária. Agradecemos a Prof.ª Helen Osório por gentilmente ceder as informações relativas a
Porto Alegre. Sobre a fonte, ver OSORIO, 2008, p. 79ss.
3
Fonte: “Primeiro livro de batismos de Porto Alegre”, AHCMPA. “Primeiro livro de casamentos de Porto
Alegre”, AHCMPA.
4
Dentre algumas das obras, citamos: OLIVEIRA, Clóvis Silveira de. A fundação de Porto Alegre. Porto Alegre:
Ed. Norma, 1987; MACEDO, Francisco Riopardense de. Historia de Porto Alegre. Porto Alegre: UFRGS, 1993;
FRANCO, Sérgio da Costa. Gente e espaços de Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS,
2000. Para uma síntese, ver DURÁN ROCA, Luisa. Açorianos no Rio Grande do Sul: antecedentes e formação
do espaço urbano no século XVIII. Porto Alegre: Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Planejamento
Urbano e Regional da UFRGS, 2009. (Tese de doutorado) p. 464-471.
5
Ver Oliveira, A fundação..., p. 102s; Durán Roca, Açorianos..., p. 468.

2
e urbanísticos. Limitada pelos muros levantados por José Marcelino, foi essa a área que
recebeu os poucos mas necessários equipamentos voltados para a organização da freguesia.
De nossa parte, acreditamos que análises de deste cunho são importantes, mas
insuficientes para pensar a caracterização espacial de qualquer localidade. É necessário
evidenciar as relações que então moldaram a estrutura econômica e social e que
permitiam a divisão social do trabalho. Como afirma Guy Di Meo, as evoluções ritmadas da
economia não apenas são passíveis de serem integradas na análise dos princípios da
construção social e espacial, como são elas a s causas maiores de sua estruturação6.
Sendo assim, nosso esforço foi o de caracterizar a área interior e a exterior aos
muros então existentes em termos econômicos e demográficos. Nossas análises tomaram por
base os dados oferecidos pelo rol de confessados de 1782, no qual a população é relacionada
de acordo com as ruas ou áreas rurais onde residiam. Temos na área interior aos muros as ruas
da Praia, da Igreja, Formosa e mais uma cujo nome está corroído. As áreas exteriores aos
muros são as seguintes: a região “fora do portão”, o Capão da Fumaça 7, o Cristal e o Passo de
Ornellas.
A distribuição espacial da população apresentada neste rol tem sua origem, no
mínimo, a partir de 1769, quando da morte de um dos sesmeiros da região, de nome Sebastião
Francisco Chaves. Suas terras, que ficavam na área do Cristal, foram em parte doadas à
família de um compadre seu e, em outra parte, vendidas a alguns indivíduos 8. A partir de
1772, quando se iniciaram a divisão da sesmaria que foi de Jerônimo de Ornelas e as
distribuições das datas de terra, formaram-se as demais áreas, inclusive o perímetro urbano9.

2. População

No rol de confessados de 1782 constam 248 domicílios, sendo que 169 se encontram
na área urbana e 79 na rural, e o registro de 1611 de moradores 10. Nesta fonte, a população é
arrolada a partir do domicílio em que residiam e categorizada de acordo com sua relação com
o chefe do domicílio, isto é, se eram seus familiares, escravos ou agregados. Assim sendo, são
possíveis análises que enfoquem a organização e composição das famílias, tomando em
consideração o local em que residiam.
6
DI MÉO, Guy. Géographie sociale et territoires. Paris: Nathan, 1998. p. 22.
7
Na transcrição do documento aparece como Capão da Tumasa.
8
Ver Oliveira, A fundação..., 37. A data de falecimento de Sebastião Francisco Chaves se encontra no Primeiro
Livro de Óbitos de Viamão, folha 62, AHCMPA.
9
Ver Oliveira, A fundação..., 41.
10
A fonte em questão apresenta perda de informação devido ao mal estado de conservação. Restaram, ao todo,
os registros de 1577 indivíduos, algo em torno de 85% dos registros originais. Para tentar reparar o dano,
empreendemos o trabalho de recuperar informações a partir de comparações com os róis dos anos vizinhos, que
são dos de 1779, 1780 e 1781. Vide nota 1.

3
Na tabela seguinte apresentamos estes dados, de acordo com a região de residência
dos indivíduos. Os indivíduos estão divididos em três categorias designadas a partir da relação
de cada indivíduo em relação aos chefes de fogo.

Tabela 1
População de Porto Alegre, segundo posição em relação ao chefe de domicílio,
em 1782, por área
Posição em relação Dentro dos muros Fora dos muros Total
ao chefe de fogo # % # % # %
Familiares 535 54,2 392 62,8 927 57,5
Escravos 376 38,1 223 35,7 599 37,2
Agregados 76 7,7 9 1,4 85 5,3
Total 987 100,0 624 100,0 1611 100,0
Fonte: rol de confessados de Porto Alegre de 1782, AHCMPA.

A maioria da população listada residia dentro dos muros, na região considerada


urbana. Precisamos recordar que estes muros circunscreviam um espaço bastante limitado,
desde a praça do Arsenal, nas margens do Guaíba, até o portão. Esta área corresponde no
atual centro de Porto Alegre ao espaço que vai desde a rua General Salustiano até a praça
Argentina, em frente à Santa Casa de Misericórdia11. Por outro lado, a menor parte desta
população, cerca de 39%, residia fora dos muros. Esta região, exterior aos muros,
corresponderia ao restante da sesmaria que foi de Jerônimo de Ornelas, excluindo a parte que
foi reservada para o perímetro urbano, e às outras duas sesmarias então existentes.
Verificamos, assim, visível concentração populacional dentro dos muros.
Um dos dados mais significativos apresentados nesta tabela é a expressiva presença
de escravos na localidade, em um período tão recuado da história de Porto Alegre. Os
escravos representam mais de um terço da população, sendo que estão equitativamente
distribuídos entre as duas áreas. Já abordamos alguns aspectos relativos à estrutura escravista
da considerada área rural e, dentre nossas conclusões parciais, destacamos a hipótese de que a
escravidão representou, em termos de mão-de-obra, um papel tão relevante quanto àquele
disponibilizado pelo trabalho familiar12.
Quando comparamos os valores relativos apenas à população livre, verificamos
diferenças na composição dos domicílios. Se na área externa os familiares são quase 99% dos

11
OLIVEIRA, A fundação..., p. 117 (anexo).
12
Ver nossos artigos citados na nota um e o artigo apresentado no Encontro Estadual da ANPUH de 2010, a ser
publicado no endereço da mesma instituição: “Uma sociedade escravista? A escravidão na área rural de Porto
Alegre na década de 1780”. Ver também CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil
Meridional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. p. 59.

4
livres, na interna são 87%. Ao que parece, a presença de agregados (e o recurso à mão-de-
obra dos mesmos) era característica dos lares urbanos.

3. Ocupação econômica

A caracterização das ocupações dos moradores de Porto Alegre apresenta


dificuldades devido à inexistência desta informação para a maioria da população descrita no
rol de confessados. Apenas para religiosos, militares e alguns poucos funcionários do Estado
e comerciantes obtivemos esta informação. No entanto, graças aos dados obtidos em outras
fontes – como a relação de moradores de 1784, o Almanaque de Porto Alegre de 180813 e
inventários post-mortem – e por meio de pesquisas já realizadas sobre a localidade, obtivemos
a ocupação de alguns outros moradores.
A categoria dos lavradores encontra-se disponível na relação de moradores de 1784.
Dos 64 indivíduos listados em Porto Alegre, excluindo três sem a descrição de ocupação,
todos são qualificados como lavradores. Procuramos estes indivíduos nos róis de confessados
para tentar delimitar o local onde residiam, se dentro ou fora dos muros. O resultado da
pesquisa se encontra na tabela seguinte.

Tabela 2
Localização das propriedades de lavradores, se
dentro ou fora dos muros de Porto Alegre, em
1782
# %
Fora dos muros 41 67,2
Dentro dos muros 3 4,9
Casos duvidosos 10 16,4
Não encontrados 7 11,5
Total 61 100,0
Obs.: foram excluídas as informações de três indivíduos
dos quais não constava a ocupação produtiva.
Fonte: rol de confessados de Porto Alegre de 1782...;
relação de moradores...

Um mínimo de dois terços dos lavradores da relação de moradores encontrava-se


registrado fora dos muros de Porto Alegre. Apenas três dos lavradores achados residiam no
perímetro urbano, todos com rebanhos de gado vacum de até 30 cabeças, valor inferior a
13
Fonte: “Almanaque de Porto Alegre de 1808”, de autoria do comerciante Manuel Antônio de Magalhães (obra
transcrita em FREITAS, Décio. O capitalismo pastoril. Porto Alegre, EST, 1980).

5
média local de 53 cabeças. Estes dados apontam para duas considerações importantes: é
indiscutível que as unidades de produção agropecuária se encontravam na área exterior aos
muros, pois a maioria dos lavradores encontrados aí residia; por outro lado, encontramos
indícios de que esta produção também se executava na área interior aos muros, mas em
pequena escala.
Os comerciantes foram todos encontrados de maneira indireta 14. Ao todo,
encontramos dez comerciantes listados no rol de 1782, listados, sem exceção, dentro dos
muros. De outras ocupações, encontramos referências apenas a um armeiro 15 e um boticário16,
também moradores do perímetro urbano.
Os militares são pouco citados no rol de 1782, somando sete indivíduos.
Encontramos um soldado, um furriel, um major, dois tenentes e dois capitães. Com exceção
do furriel, todos estão descritos na parte do rol relativa ao interior dos muros. Em
compensação, há uma série de mulheres casadas que estão com seus maridos ausentes, a
maioria deles militares. No rol do ano anterior, encontramos um total de 34 militares, dos
quais apenas quatro residem na região exterior aos muros da localidade, sendo dois deles
furriéis e os outros dois, soldados. Nesse sentido, a maioria dos militares residia na região
interior aos muros. Os militares de mais alta patente eram todos moradores do perímetro
urbano.
Entre outros funcionários do Estado, encontramos no rol de 1782 o provedor da Real
Fazenda, o governador da Capitania, o então juiz de órfãos, o escrivão e o porteiro do juiz17.
No rol de 1780 está listado o auditor. Encontramos também dois eclesiásticos. Todos eles se
encontram listados no interior dos muros.
A partir do levantamento destas informações, podemos concluir que existia uma
distinção funcional nítida entre as áreas interior e exterior aos portões da Freguesia. Nesta se
encontrava a maioria dos lavradores da localidade listados na relação de moradores de 1784.
Naquela, encontramos comerciantes, padres, militares e outros servidores do Estado, como o
governador da capitania e o provedor da real fazenda, um armeiro e um boticário. Dito de
outra forma, os muros demarcavam, sim, a divisão social do trabalho na localidade. Passemos,
agora, a averiguação da origem dos moradores.

14
Parte deles foi descoberta por abrigarem em suas casas caixeiros, indício seguro de ocupação no comércio.
Alguns foram encontrados no almanaque de Porto Alegre de 1808. Outros, por fim, foram citados na dissertação
de Adriano Comissoli (COMISSOLI, Adriano. “Os Homens Bons” e a Câmara Municipal de Porto Alegre (1767
– 1808). Porto Alegre: Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre, 2008.).
15
Rol de confessados de Porto Alegre de 1780, fogo 59 (AHCMPA).
16
Inventário post-mortem de João Antônio Fernandes, Comarca de Santa Catarina, 1º Juizado de Órfãos de Porto
Alegre, ano de 1781, auto 84.
17
Os três últimos cargos foram encontrados no já referido inventário de João Antônio Fernandes.

6
4. Origem dos casais chefes de domicílios

Procuramos descobrir a origem dos casais chefes de domicílios para averiguar se


esta variável distinguia as populações das áreas de dentro e de fora dos muros. Os documentos
que permitiram este esforço foram os livros de batismos e de casamento, pois informam as
origens tanto dos pais das crianças e dos avôs, quanto dos noivos e dos pais dos noivos. Os
resultados encontrados estão na tabela seguinte.

Tabela 3
Origem dos casais chefes de fogo, segundo área, em Porto Alegre, 1782
Dentro dos muros Fora dos muros
Origem Homens Mulheres Homens Mulheres
# % # % # % # %
Açores 13 23,2 9 16,4 34 54,0 33 52,4
Portugal 14 25,0 1 1,8 7 1,1
Colônia do
Sacramento 1 1,8 4 7,3 – – – –

Espanha 2 3,6 – – 2 3,2 – –

África 1 1,8 2 3,6 – – – –

Bahia 1 1,8 – – – – – –
Pernambuco – – 1 1,8 – – – –

Rio de Janeiro 11 19,6 4 7,3 1 1,6 1 1,6


São Paulo 3 5,4 3 5,5 1 1,6 1 1,6
Minas Gerais 1 1,8 – – – – 1 1,6

Santa Catarina 7 12,5 8 14,5 3 4,8 6 9,5


Rio Grande 2 3,6 23 41,8 15 23,8 21 33,3

Total 56 100,0 55 100,0 63 100,0 63 100,0


Obs.: não constava a informação de origem da esposa de um morador da área interior aos muros.
Fonte: rol de confessados de Porto Alegre de 1782, AHCMPA; primeiro livro de batismos de Porto
Alegre, AHCMPA.

Ao se comparar o número de casos que obtivemos a origem do chefe de fogo de


cada área com o número de domicílios existentes, verificamos visível desproporção. Isso se
explica pelo fato de que poucos moradores da área urbana possuíam registro nos livros de
batismo e casamento. Encontramos apenas um terço desses chefes, enquanto que dos chefes
da área rural encontramos o registro de 71% deles. Apesar de este fato representar um
empecilho na análise na origem dos moradores urbanos, ele nos fornece um indício

7
importante: apenas uma parte dos moradores desta área tiveram interesse e conseguiram se
fixar na localidade, criar uma família e, assim, ter seu nome registrado como pai de um
batizado ou, mesmo, marido recém-casado.
A partir dos dados expostos, constatamos que existiam diferenças de origem entre os
chefes de fogos das duas áreas. Enquanto na área rural o grupo masculino predominante é
composto por açorianos (54%) e seus filhos nascidos no Rio Grande (24%), no perímetro
urbano os grupos mais expressivos são, em ordem, os nascidos em Portugal (25%), seguidos
pelos açorianos (23%) e por aqueles nascidos em diferentes localidades do Rio de Janeiro
(20%). A área urbana apresenta um aspecto heterogêneo, em que os nascidos em Portugal e
na América portuguesa, especialmente da região sudeste do Brasil, representam metade da
população. Na área rural, por outro lado, a maioria da população masculina é composta por
açorianos e seus filhos.
A população feminina apresenta um perfil diferente, pois as mulheres nascidas em
Santa Catarina e no Rio Grande apresentam números expressivos em ambas as áreas. No
interior dos muros, formam o grupo predominante (56% do total), sendo seguidas pelas
açorianas. As nascidas na Colônia do Sacramento nos bispados do Rio de Janeiro e de São
Paulo somam juntas uma parcela significativa (20%). Na área rural, por outro lado, não
encontramos mulheres nascidas em Portugal ou na Colônia do Sacramento, e aquelas oriundas
do sudeste representam apenas 5%. Predominam as açorianas (52%) e suas filhas de açorianos
nascidas no Rio Grande e em Santa Catarina (43%).
A posse de terras foi, no princípio, possibilidade restrita à população açoriana, o que
explica o fato de que quatro quinto dos chefes de fogo da área rural eram ou açorianos ou seus
filhos nascidos em Santa Catarina ou em outras localidades do Rio Grande. Ainda assim, o
casamento com as filhas destes proprietários abriu acesso à posse da terra a indivíduos
oriundos de outras regiões, como Portugal, da Espanha e o sudeste do Brasil.
Na área urbana, como já apontamos, o perfil de origem era deveras diversificado.
Dentre os nascidos na América, a maioria era originária do Rio de Janeiro e de Santa
Catarina. Um quarto destes nascidos na Colônia era formado por militares. Três eram
designado como forros. Do conjunto, apenas um terço possuía escravos. Desta forma, se
alguns destes homens, nascidos no América conseguiram se estabelecer na localidade e,
inclusive obter cativos, a maioria sem escravos, poderiam ser “andarilhos da sobrevivência”.
Esta expressão foi cunhada por Sheila de Castro Faria para designar brancos e libertos pobres
que encontravam na migração para áreas de recente povoamento uma estratégia de
sobrevivência18.

18
FARIA, Sheila de Castro. A Colônia em movimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. p. 102.

8
Entre os portugueses, encontramos os militares e os poucos comerciantes casados.
Se levarmos em consideração também os homens solteiros, incluiremos o restante dos
comerciantes, muitos militares e os clérigos. Podemos lembrar também dos caixeiros
viajantes encontrados, possivelmente originários da região portuguesa do Minho19. Assim
sendo, encontramos dentre os originários de Portugal tanto indivíduos responsáveis pela
organização da ordem imperial na região, quanto os indivíduos que vieram testar a sorte no
Brasil, com a expectativa de sucesso.
Desta forma, podemos pensar que o perímetro urbano representava único local
disponível ao recebimento dos recém-chegados, visto que a totalidade da área externa aos
muros já possuía dono. A área urbana também foi, para muitos de seus moradores, um local
de passagem, residência temporária, até que a sorte ou a necessidade obrigasse nova mudança.
Podemos citar três casos de indivíduos que residiam no interior dos muros de Porto Alegre e
que, em alguma oportunidade, se mudaram. O capitão-mor e comerciante Manuel Bento da
Rocha, encontrado em todos os róis de confessados entre 1779 e 1782, se transferiu para a
vila de Rio Grande após 178320. O governador José Marcelino de Figueiredo é encontrado
apenas nos róis de 1779 e 1780, sendo que no último ano acabou seu mandato21. Um caso
interessante é o de Antônio José Carneiro, um jovem de 22 anos, possuidor de 1 escravo,
arrolado em 1779. Seu nome consta no leilão dos bens do falecido comerciante João Antônio
Fernandes22, de quem comprou uma casa na vila de Rio Grande. Depois desta data, não
encontramos o referido Antônio José que, possivelmente, se mudou.

5. Famílias

Como os róis discriminam os membros dos domicílios, podemos analisar se existem


diferenças na composição das famílias nucleares das áreas urbana e rural. Na tabela seguinte
apresentamos as medidas de tendência central e de dispersão relativas ao tamanho das
famílias de ambas as áreas.

Tabela 4
Tamanho das famílias de Porto Alegre, segundo área,
em 1782
Dentro do muro Fora dos muros
Núm. médio de 3,3 5,0
19
Ver OSÓRIO, O império português..., p. 283.
20
KÜHN, Fábio. Gente da fronteira: família, sociedade e poder no sul da América portuguesa – século XVIII.
Niterói: PPGH – UFF, 2006. (tese de doutorado) p. 135.
21
KÜHN, Fábio. Gente da fronteira..., p. 125.
22
Inventário post-mortem de João Antônio Fernandes, Comarca de Santa Catarina, 1º Juizado de Órfãos de Porto
Alegre, ano de 1781, auto 84.

9
familiares
Mediana 3 5
Moda 2 5
Desvio-padrão 2,0 2,6
Fonte: Rol de confessados de Porto Alegre de 1782, AHCMPA.

Os resultados apontam severas diferenças entre as famílias das urbanas e rurais.


Enquanto que metade das famílias que residiam fora dos muros possuíam até cinco familiares,
no interior dos muros as famílias eram bem menores, com mediana de três indivíduos.
Acreditamos que estes valores se explicam pelos diferentes padrões produtivos e de migração
características das populações de cada área. Na se área rural encontramos o predomínio de
lavradores açorianos, com seus filhos e escravos, na área urbana nos deparamos com um
perfil ocupacional e de origem diversificado.
Um aspecto interessante é observar o perfil de sexo dos chefes de fogo de ambas as
áreas, conforme a tabela seguinte.

Tabela 5
Sexo dos chefes de fogo de Porto Alegre, segundo área, em
1782
Sexo dos chefes de Dentro dos muros Fora dos muros
fogo # % # %
Masculino 116 73,0 71 91,0
Feminino 43 27,0 7 9,0
Total 159 100,0 78 100,0
Obs.: os dados se referem apenas aos domicílios com chefes de fogo.
Foram excluídos domicílios chefiados por escravos e agregados e
aqueles cuja descrição do chefe estivesse corroída.
Fonte: rol de confessados de Porto Alegre de 1782, AHCMPA.

Em ambas as áreas há o predomínio da chefia masculina. No entanto, no perímetro


urbano constatamos expressiva presença de mulheres chefes de domicílio. Se fora dos muros
elas são 9%, dentro são 27%. Em sua maioria, estas mulheres são esposas de indivíduos
ausentes, militares em grande medida.
Na próxima tabela, analisaremos o estado civil destes chefes, se solteiros, casados ou
viúvos. Cabe notar que a categoria dos não informados era composta, em sua maioria,
possivelmente por solteiros.

10
Tabela 6
Estado civil dos chefes de fogos, segundo área, em Porto
Alegre, 1782
Estado civil Dentro dos muros Fora dos muros
# % # %
Casados 95 65,5 72 94,7
Viúvos 15 10,3 1 1,3
Solteiros 13 9,0 1 1,3
Não informado 22 15,2 2 2,6

Total 145 100,0 76 100,0


Obs.: os dados se referem apenas aos domicílios com chefes de fogo.
Foram excluídos domicílios chefiados por escravos e agregados e
aqueles cuja descrição do chefe estivesse corroída.
Fonte: rol de confessados de Porto Alegre de 1782, AHCMPA.

Os dados da tabela apontam para uma sensível diferença no que tange ao estado civil
dos chefes de domicílio das áreas de dentro e de fora dos muros. Na área rural, a quase
totalidade dos chefes era ou casada ou viúva, sendo poucos os solteiros. Na urbana, os
casados e viúvos ainda são a maioria, mas a percentagem de solteiros é muito superior àquela
verificada no lado externo ao muro. Estes representam um mínimo de um décimo da
população desta área e, se somados com aqueles de quem não havia esta informação, teremos
quase um quarto dos chefes dessa área23. Assim sendo, chefes de domicílio solteiros aparecem
de forma expressiva apenas dentro dos muros da localidade. Quatro deles são comerciantes,
um é o vigário e outros dois são o governador da Capitania e o Provedor da Real Fazenda.
Na tabela seguinte, apresentamos as medidas de tendência central e de dispersão
relativas aos filhos dos chefes de domicílio casados ou viúvos. Os valores referem-se apenas
aos chefes que apresentam filhos arrolados, sendo que não o apresentavam 37% dos chefes da
área urbana e 20% da rural.

Tabela 7
Filhos dos chefes de domicílio casados, segundo área,
em Porto Alegre, 1782
Dentro dos muros Fora dos muros
Núm. médio de
filhos 2,7 4,0
Mediana 2 3
Moda 1 3
23
Frisar – nem todos são solitários – problemas de descrição.

11
Desvio-padrão 1,6 2,26
Obs.: dentro dos muros – 76 fogos e 206 filhos; fora dos muros –
59 fogos e 235 filhos.
Fonte: rol de confessados de Porto Alegre, 1782.

Os dados apontam nova diferença na estrutura familiar entre as áreas. Era nos
domicílios rurais que existiam as melhores condições para geração de filhos. Apesar de
apresentar um menor número de domicílios, a área rural contava com 53% de todos os filhos.
O número mediano e modal de filhos é três, que somados ao casal de pais, resulta no número
mediano e modal de familiares verificada na tabela 4. Na área interior, metade dos chefes
possui até dois filhos e o valor mais recorrente, modal, é de um filho.

Tabela 8
Número médio de filhos dos chefes de fogos casados ou viúvos,
segundo faixas etárias, em Porto Alegre, 1782

Dentro dos muros Fora dos muros


Idade do Número Número médio Número de Número médio
chefe de fogo de chefes de filhos chefes de filhos
14 |--| 19 2 0,5 2 0,5
20 |--| 29 18 2,4 17 2,5
30 |--| 39 40 1,7 13 2,7
40 |--| 49 17 2,2 13 5,5
50 |--| 59 22 1,2 16 3,6
59 < 3 0,5 12 2,4
Fonte: rol de confessados de Porto Alegre de 1782, AHCMPA.

Quando cruzamos as informações de idade dos chefes de domicílio casados ou


viúvos com o número de seus filhos, verificamos nova diferença. Na área exterior aos muros
encontramos uma tendência nítida de crescimento com cume aos 49 anos, segundo a qual
aumenta o número de filhos de acordo com o avanço da idade dos chefes. A partir da faixa
dos 50 anos, o número médio de filhos declina, resultado do amadurecimento da maioria dos
filhos e de sua saída do lar paterno. Além disso, a distribuição de indivíduos por faixa é
equilibrada, com exceção dos menores de vinte anos. Na área interna, por outro lado, não
encontramos padrão algum na relação entre idade e número de filhos dos chefes de fogo,
resultado de existência de diferenciadas formas de organização familiar. A distribuição chefes
por faixas é desequilibrada, pois são poucos os indivíduos com mais de 59 anos e
predominam aqueles na casa dos trinta anos.

6. Conclusão

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Esperamos que tenha ficado patente, ao longo deste trabalho, o esforço em pensar as
configurações econômicas e sociais de Porto Alegre da década de 1780 a partir de suas
espacialidades, utilizando as fontes disponíveis para o período. Devido aos objetivos de nosso
trabalho e as peculiaridades das fontes consultadas, não elaboramos – nem tivemos condições
de fazer – uma análise das muitas territorialidades que certamente surgiram no período24.
Procuramos, pelo contrário, verificar se a divisão espacial entre o urbano e o rural pensada
pela historiografia em termos principalmente urbanísticos e arquitetônicos possuiria
correspondência no plano produtivo e social.
Com os dados até agora arrolados, traçaremos a definição conceitual do urbano e do
rural em Porto Alegre. Maria Encarnação Sposito e Ângela Maria Endlich destacam dois dos
aspectos normalmente considerados quando se procura diferenciar o urbano do rural. São eles
o patamar demográfico e a diferenciação social e ocupacional/econômica25.
Um dos principais meios para um definir a existência de uma cidade é o uso de
padrões de tamanho de população. Mas, devido à variedade de situações demográficas
existentes entre diversas regiões e países, este critério recebeu críticas, no sentido de
considerá-lo como uma medida grosseira para avaliar a urbanidade26. Para superar os limites
oferecidos pelos números absolutos, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento
Econômico propôs o uso do cômputo da densidade demográfica para determinar a urbanidade
ou ruralidade de uma localidade. Se a ruralidade se caracterizaria pela dispersão populacional,
a urbanidade se definiria pela concentração. Entretanto, criticou-se neste modelo o fato de que
a densidade urbana é uma medida tão ampla e indefinida quanto o número de habitantes, pois
os recenseamentos costumeiros enumeram apenas a população noturna – isto é, com foco na
residência dos indivíduos –, o que faria com que zonas industriais, não habitadas à noite,
fossem consideradas não-urbanas27.
Apesar dos limites deste último critério, concordamos com Sposito quando afirma
que reconhecer a urbanidade de uma determinada área a partir de seus níveis de densidade
habitacional é sempre um ponto de partida, nunca um ponto de chegada para a análise 28.
Nesse sentido, ao verificar que no rol de confessados de Porto Alegre do ano de 1782
encontramos dois terços dos habitantes e 70% dos domicílios localizados numa pequena
24
Nesse aspecto, as obras de Antônio Álvares Pereira, o Coruja, e Aquiles Porto Alegre podem ser
particularmente interessantes para um período posterior. CORUJA, Antônio Alvares Pereira. Antigualhas:
reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: ERUS, 1983; PORTO ALEGRE, Achylles. História Popular de
Porto Alegre. Porto Alegre: UE/SMC de Porto Alegre, 1994.
25
SPOSITO, Maria. A questão cidade-campo: perspectiva a partir da cidade. In: SPOSITO, M.; WHITACKER,
A. Cidade e campo: relações e contradições entre urbano e rural. São Paulo: Expressão popular, 2006. p. 111 –
130; ENDLICH, Ângela. Perspectivas sobre o rural e o urbano. In: SPOSITO, M.; WHITACKER, A. Cidade e
campo..., p. 11 – 32.
26
RYBCZYNSKI apud ENDLICH, Perspectivas..., p. 15.
27
WIRTH apud ENDLICH, Perspectivas..., p. 16.
28
SPOSITO, A questão cidade-campo..., p. 113.

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parcela de uma das três sesmarias locais, no deparamos com uma evidência que aponta para a
existência de concentração demográfica no interior dos muros. Temos, assim, um indício,
ainda que pouco preciso, que sustenta a hipótese de que os muros da cidade representavam
um marco que separava o urbano do rural.
O segundo aspecto considerado para definir a distinção entre o urbano e o rural está
relacionado à diferenciação social e produtiva. Segundo Marx, a maior divisão de trabalho
material e trabalho espiritual que surgiu na história do homem foi a separação entre campo e
cidade. É com a esta oposição “que aparece pela primeira vez a divisão da população em duas
grandes classes, repousando diretamente sobre a divisão do trabalho e dos instrumentos de
produção”29. Por esta perspectiva, ao rural se vinculam atividades primárias, principalmente
agropecuárias. Ao urbano, por outro lado, estão associadas as atividades de administração do
bem público e a política, assim como atividades secundárias e terciárias, como o artesanato, o
comércio e as finanças30.
Em Porto Alegre, verificamos nítida distinção de ocupação entre as duas áreas. Fora
dos muros, encontramos a maior parcela dos lavradores registrados na relação de moradores
de 1784. Dentro dos muros, encontramos a maioria dos militares e todos os comerciantes,
eclesiásticos e outros funcionários do Estado. Nesta última área encontramos também os
únicos armeiro e boticário localizados. Assim sendo, havia uma sobreposição entre a divisão
social do trabalho e a divisão espacial marcada pelos muros construídos por José Marcelino
de Figueiredo.
A partir da análise destes dois aspectos, podemos compreender as diferenças na
organização das famílias urbanas e rurais. Verificamos, assim, uma associação íntima entre
produção do espaço social, ocupação econômica e formação das estruturas familiares. Os
resultados relativos à área externa são coerentes com padrões típicos de famílias camponesas.
Ligadas a terra e dependentes da mão-de-obra familiar, os lares da área externa são quase
todos chefiados por casais e apresentam maior número de filhos. Em sua maioria, estas
famílias são compostas por açorianos que chegaram ao sul da América portuguesa na década
de 1750 e seus filhos. Por trabalharem no campo, o crescimento da prole se apresentava como
uma exigência para obtenção de mão-de-obra. Conforme observou Sheila de Castro Faria,
“em zonas agrárias, a presença da família, pelo menos constituída pelo casal, era condição
básica para o estabelecimento de unidades domésticas de produção, em particular para os
mais pobres. A necessidade de uma maior estabilidade levava ao casamento legal.”31.
29
MARX apud GURVITH, George; COURTIN, P. Classes urbanas e classes sociais. In: QUEIROZ, Maria
Isaura (org.). Sociologia Rural. Rio de Janeiro: Zahar, 1969. p. 65 – 76.
30
ENDLICH, Perspectivas..., p. 16.
31
FARIA, A Colônia em movimento..., p. 155. Ver também BACELLAR, Carlos de Almeida Prado.
Viver e sobreviver em uma vila colonial. Sorocaba, séculos XVIII e XIX. São Paulo: Annablume /

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Na área interior aos muros, pelo contrário, aparecem muitos indivíduos solitários e
as famílias são bem menores, em geral, compostas por casais jovens e sem filhos. As famílias
com três indivíduos são compostas, em sua maioria, por um casal acompanhado de um filho.
Estes resultados parecem estar associados a um padrão de migração solitária, em que os
indivíduos recém-chegados permaneceram solitários ou, então, consumaram há pouco tempo
o casamento. Este é o perfil familiar de muitos dos mercadores, militares e, mesmo,
“andarilhos da sobrevivência” que chegaram a Porto Alegre no período.
Ao fim, chegamos à conclusão de que os espaços separados pelos muros foram
produzidos por diferentes configurações econômicas e sociais. A área urbana era o locus da
administração e do comércio e o único espaço que permitia o recebimento de novos
migrantes. Assim, nela se instalaram tanto os militares portugueses como os três forros
cariocas. Por outro lado, a área rural, era formada por uma maioria de açorianos e seus filhos
nascidos na América. Eram estes os produtores de parte do trigo enviado aos portos do Rio de
Janeiro no período32. Assim sendo, nosso estudo confirma a distribuição espacial já verificada
na historiografia, como aponta para a importância tomá-la em consideração como variável
para se analisar os muitos aspectos da população do Continente do Rio Grande. De maneira
especial, esta divisão social e econômica será fundamental para compreender a estrutura da
escravidão na localidade, assunto que não tivemos condições de abordar no presente trabalho,
mas que o faremos em breve.

7. Referências bibliográficas

BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. Viver e sobreviver em uma vila colonial. Sorocaba,
séculos XVIII e XIX. São Paulo: Annablume / FAPESP, 2001.
CARDOSO, F. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1977.
COMISSOLI, Adriano. “Os Homens Bons” e a Câmara Municipal de Porto Alegre (1767 –
1808). Porto Alegre: Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre, 2008.
CORRÊA, Roberto Lobato. Espaço: um conceito-chave da Geografia. CASTRO, Iná; et al
(Org.). In: Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, p. 15-
48.
DURÁN ROCA, Luisa. Açorianos no Rio Grande do Sul: antecedentes e formação do spaço
urbano no século XVIII. Porto Alegre: Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em
Planejamento Urbano e Regional da UFRGS, 2009. (Tese de doutorado) p. 464-471.
GURVITH, George; COURTIN, P. Classes urbanas e classes sociais. In: QUEIROZ, Maria
Isaura (org.). Sociologia Rural. Rio de Janeiro: Zahar, 1969. p. 65 – 76.
FRANCO, Sérgio da Costa. Gente e espaços de Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da
Universidade/UFRGS, 2000. Para uma síntese, ver

FAPESP, 2001. p. 130.


32
OSÓRIO, O império português..., p. 198s.

15
MACEDO, Francisco Riopardense de. Historia de Porto Alegre. Porto Alegre: UFRGS,
1993;
OLIVEIRA, Clóvis Silveira de. A fundação de Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. Norma, 1987;
OSÓRIO, H. O Império Português no sul da América. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2007.
SCOTT, A. Família e relações intergeracionais: limites e possibilidades de abordagem a partir
do estudo de Porto Alegre no final dos anos setecentos. In: III Congresso da ALAP.
Córdoba: Universidad Nacional de Córdoba, 2008. Disponível em:
<http://www.alapop.org/2009/images/DOCSFINAIS_PDF/ALAP_2008_FINAL_298.
pdf>. Acesso em 13 jun. 2009.
SIRTORI, Bruna. Entre a cruz, a espada, a senzala e a aldeia. Hierarquias sociais em uma
área periférica do Antigo Regime (1765-1784). Rio de Janeiro: UFRJ, 2008.
Dissertação de mestrado.

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