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PARECER JURÍDICO

OBJETO: Direito das Sucessões. – Existência de


herdeiros necessários. – Disposição testamentária. –
Observância à legítima. – Possibilidade.

I – RELATÓRIO.

Trata-se de consulta formulada por familiares do


senhor Suares Rocha Porto acerca da legalidade na pretensão exarada por este, qual
encontra-se consubstanciada em disposições testamentárias que viriam a beneficiar com
parte de seu patrimônio (um apartamento pequeno), um filho menor concebido fora da
união conjugal.

Informam, ainda, que seria da vontade do pretenso


testador que o restante de seu patrimônio próprio, qual seja, uma casa e um carro,
fossem divididos em partes iguais entre o cônjuge e outros três filhos maiores, frutos do
casamento.

Sendo a síntese do necessário. Passamos à


manifestação.

II – FUNDAMENTAÇÃO.

Preliminarmente à questão nuclear da presente


consulta, insta salientar que, independentemente do filho menor ter sido concebido fora
do casamento, por força do disposto no §6º, artigo 227 da Constituição Federal, a este se
aplicam os mesmos direitos dos demais filhos, vedadas quaisquer designações
discriminatórias relativas à filiação.

Posto isto, se faz possível a abordagem em relação


às disposições testamentárias propriamente ditas.

O Código Civil Brasileiro, pela dicção de seu artigo


1.845, consagrou como herdeiros necessários os descendentes, os ascendentes e o
cônjuge, aos quais, por força do artigo 1.846 do mesmo Diploma Legal, pertencem de
pleno direito, a metade dos bens da herança, constituindo a legítima.

Assim, temos que metade dos bens do testador


(50%) devem ser reservados em função da legítima1, todavia, os outros 50% (cinquenta
por cento), podem ser livremente dispostos em testamento.

In casu, verifica-se que o dispoente possui cinco


herdeiros necessários, sendo o cônjuge (exceto se casado em regime de comunhão
universal ou em separação obrigatória de bens) e quatro filhos e, pretende, via
testamento, deixar a apenas um deles um apartamento pequeno.

Pois bem.

Supondo que, do monte partível (abatidas as dívidas


e as despesas do funeral) o valor do referido apartamento encontre-se abarcado pela
parte disponível, inexiste quaisquer óbice à pretendida doação.

Não menos importante, temos que ao beneficiar um


dos filhos com a parte disponível, este não será excluído dos demais bens que compõem
o acervo hereditário, uma vez que a disposição testamentária em seu favor não lhe retira
a condição de herdeiro necessário, devendo ele participar da sucessão legítima, senão
vejamos:

Art. 1.849. O herdeiro necessário, a quem o testador deixar a


sua parte disponível, ou algum legado, não perderá o direito à
legítima.

Na mesma esteira é a lição de Orlando Gomes,


verbis2

1
“Art. 1.857. Toda pessoa capaz pode dispor, por testamento, da totalidade dos seus bens, ou de parte
deles, para depois de sua morte.

§ 1º A legítima dos herdeiros necessários não poderá ser incluída no testamento.” [g.n.].
2
GOMES, Orlando, 1909-1988. Sucessões / Orlando Gomes. - 15. ed. rev. e atual. / por Mario Roberto
Carvalho de Faria - Rio de Janeiro: Forense, 2012.
A existência de herdeiros necessários impede a disposição, por
ato de última vontade, dos bens constitutivos da legítima ou
reserva. Pode dispor, entretanto, da outra metade, calculada
sobre o total dos bens existentes ao tempo do óbito, abatidas
as dívidas e as despesas do funeral. Se dispuser dessa metade,
deixando-a a herdeiro obrigatório, nem por isso perderá
este o direito à legítima. [g.n.].

Logo, se esse fosse o caso, a outra casa e o carro


seriam partilhados entre o cônjuge, observada a disposição do artigo 1.832 do Código
Civil, os três filhos maiores e ainda, o filho menor, já agraciado em testamento como
legatário.

Da mesma forma, a disposição testamentária seria


válida caso sua soma se mantivesse dentro dos limites da parte disponível cumulada
com a quota da legítima à que o filho menor faz jus.

De outra banda, se a disposição testamentária


exceder os valores em questão, essa deverá ser reduzida por inteligência do artigo 1.967
e parágrafos, verbis:

Art. 1.967. As disposições que excederem a parte disponível


reduzir-se-ão aos limites dela, de conformidade com o disposto
nos parágrafos seguintes.

§ 1º Em se verificando excederem as disposições


testamentárias a porção disponível, serão proporcionalmente
reduzidas as quotas do herdeiro ou herdeiros instituídos, até
onde baste, e, não bastando, também os legados, na proporção
do seu valor.

§ 2º Se o testador, prevenindo o caso, dispuser que se inteirem,


de preferência, certos herdeiros e legatários, a redução far-se-á
nos outros quinhões ou legados, observando-se a seu respeito a
ordem estabelecida no parágrafo antecedente.

Outrossim, o desejo exarado pelo dispoente no


sentido de que “a casa e o carro fosse divido, entre partes iguais, ao cônjuge e aos
filhos maiores” só seria aplicável se tais bens e valores correspondessem às quotas
estabelecidas para cada um dos herdeiros necessários, considerando, para tanto, também
àquela recebida pelo filho menor.
Tal se depreende do teor consignado no artigo 2.014
do Diploma Civil Brasileiro, ipsis litteris:

Art. 2.014. Pode o testador indicar os bens e valores que devem


compor os quinhões hereditários, deliberando ele próprio a
partilha, que prevalecerá, salvo se o valor dos bens não
corresponder às quotas estabelecidas.

Feitas tais considerações, temos que sendo elaborado


testamento válido, suas disposições devem ser cumpridas, desde que não contrariem a
legislação pátria.

III – CONCLUSÃO:

Mediante o consubstanciado no presente parecer,


tecemos as seguintes conclusões:

O testador pode acrescer a legítima de um herdeiro


necessário outorgando-lhe alguma outra porção de herança ou um legado, vez que, a
parte disponível poderá ser deixada pelo testador a quem bem lhe aprouver, inclusive
herdeiro necessário.

Destarte, por via testamentária, nada impede que um


filho herdeiro receba mais do que seus irmãos.
IV - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Constituição Federal. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/


constituicao/ConstituicaoCompilado.htm> Acesso em 03 de novembro de 2017.

BRASIL. Lei nº 10.406/2002. Institui o Código Civil. Disponível em: <


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078compilado.htm>. Acesso em 03 de
novembro de 2017.

GOMES, Orlando, 1909-1988. Sucessões / Orlando Gomes. - 15. ed. rev. e atual. / por
Mario Roberto Carvalho de Faria - Rio de Janeiro: Forense, 2012.