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Aula 01. Quinhentismo: o espanto do homem europeu.

Um certo "humanismo": Gil Vicente e a


moral religiosa.

Pessoal, olá! Bom dia. Faz tempo que eu estive aqui, né, então não sei se todo mundo se lembra
de mim. Eu sou Henrique, dou aula de literatura, e não pude dar aula nas duas últimas semanas
porque, por conta da quantidade de aulas que eu dou, às vezes acabo chegando aos sábados
sem voz. Peço desculpas a vocês, em meu nome e em nome do pedagógico, especialmente
porque na semana retrasada não deu pra avisar nem arranjar alguém pra substituir. Então hoje
eu troquei com o Thiago e de usar esse período pra repor essas duas aulas e aí a gente fica a par
com o cronograma de aulas.

Bom, nos primeiros 50 minutos eu vou falar um pouquinho da chamada literatura quinhentista e
mais do chamado humanismo, e depois, nos outros 50 minutos, a aula vai ser sobre classicismo,
e especificamente sobre Camões. Já adianto pra vocês que, em função do nosso cronograma
apertado - uma aula de apenas 40 minutos a cada duas semanas - essa vai ser uma das únicas
aulas em que a gente vai falar de literatura portuguesa, até porque nesse período ainda não
existe propriamente uma literatura brasileira. Depois, lá no realismo, talvez, a gente aborde um
pouco dos portugueses de novo, com o Eça de Queirós, e talvez no Arcadismo a gente também
tangencie alguma coisa.

I. Quinhentismo

Bom, quinhentismo. Afinal, por que falar do que se produziu nesse período, né? Que
importância tem a carta que o Pero Vaz de Caminha escreceu para nós, hoje, e mais: que
importância isso tem como literatura? Por que que isso chega a ter valor de estudo enquanto
literatura? Embora não caia mais em vestibular, em gosto de usar pelo menos uns 20 minutos
pra dar o nome e falar um pouco sobre o que essa dita literatura quinhentista tem de
importante.

1. O mundo intelectual português do século XVI

a. Tradição e transformação

O velho e o novo. O texto que se começa a produzir a partir do Brasil é refratário da tradição
ocidental; se alimenta da tradição descritiva e bastante vinculada aos cronistas daquela época. A
esse elemento tradicional, no entanto, a literatura feita a partir do Brasil acrescenta um galho
que será de suma importância, tanto na forma quanto no conteúdo. A forma que começa aqui
no quinhentismo e que vai amadurecer bem depois é a da literatura de viagem; e o conteúdo
que começa aqui é o que a gente pode dizer hoje de antropológico ou, mais precisamente, de
etnográfico, da observação de um outro cosmo, de um outro mundo.
b. Brasil na literatura

Reparem: estou falando sempre de a partir do Brasil, e aqui eu repito: ainda não estamos em
uma literatura brasileira propriamente dita. Muitos autores vão falar não de uma literatura, mas
de uma apenas de vontade de expressão que se inicia nos nativos. O que importa é que no
quinhentismo o Brasil é objeto da literatura, e não sujeito; o Brasil é assunto, tema, e não agente
criador. É observado e não observador.

2. Obras e autores

a. Pero Vaz e a Carta

b. Pero Magalhães Gândavo e o ritual antropofágico

c. Padre Anchieta e o auto Na Festa de Natal

3. Nascimento de uma estética do exótico

Em resumo, a importância desses primeiros momentos da expressão escrita no Brasil tem valor
literário principalmente pelo poder evocativo de suas imagens, ou seja, pela riqueza das
descrições e pela multiplicidade de sugestões que os autores deixam, conseguimos imaginar,
formar uma imagem tanto da terra quanto da vida dos homens e mulheres que estavam aqui.

Para além dessa imagem e das evocações, o segundo ponto fundamental desse momento que é
o quinhentismo é a baliza do olhar e do valor do homem europeu. O que nós encontramos aqui
é, em certo sentido, o confronto do europeu com a arbitrariedade e com a mera
convencionalidade de suas próprias normas: aquilo que é valor para o europeu - pedras
preciosas ou pau-brasil - simplesmente não faz parte do mundo do nativo, não tem valor
distintivo nem importa para aquele modo de vida. E é isso, a meu ver, que torna esse primeiro
momento da literatura mais intrigante: o confronto dos valores. Lemos relatos de um europeu
que vê e que julga como certo ou errado, valioso ou depreciado, e ele está diante de um ser que
lhe é totalmente indiferente, alguém que não reconhece esses valores e que é,
fundamentalmente, indiferente, alheio a esse conjunto de valores. O nativo não conhece os
mesmos símbolos que o europeu. Este, ao ver ouro, vê por baixo a riqueza; o nativo vê, talvez,
uma pedra com uma particularidade aparente.

II. "Humanismo"

Eu coloco humanismo entre aspas aqui por um motivo bastante forte. Humanismo é o termo
que se consagrou nos manuais de literatura, tanto nos manuais escolares quanto nos
acadêmicos, só que é um termo importado de um movimento externo a Portugal. O humanismo
renascentista, na verdade, faz sentido para o que vinha acontecendo nas cidades italianas ou
holandesas e belgas. Ali, de fato, se desenvolvia uma cultura antropocêntrica, e portanto
legitimamente humanista, enquanto Portugal, culturalmente e espiritualmente, ainda se
encontrava na Idade Média. O mundo português até mais ou menos metade do século XVII até
quase 1650, ainda é fundamentalmente católico, teocêntrico. É por isso que quando a gente lê e
estuda a figura máxima do humanismo português a gente não encontra sentido nenhum, não
encontra ligação nenhuma com o nome humanismo, com aquela fórmula de antropocentrismo.

1. Moral católico-medieval

O Gil Vicente vai tratar de algo oposto a esse antropocentrismo nascente lá na Itália. As peças do
Gil Vicente falam exatamente de uma chamada moral religiosa, uma moral católica e medieval.
Entendam moral como a prescrição de uma conduta de vida, por parte de de uma instituição, de
uma cultura ou até mesmo de uma ideologia; a moral católica é, então, a forma de vida, a
conduta a ser prescrita para se atingir a salvação e a plenitude espiritual segundo essa ideologia.

2. Alegoria e tipo

Os recursos utilizados pelo Gil Vicente nas peças pra dar forma a essas moralidades são dois
grupos de personagens: a personagem alegórica e a personagem típica. A personagem alegórica
é aquela que encarna um conceito abstrato, que personifica ou antropomorfiza um conceito
como o Bem ou o Mal, ou então figuras que são ideias, como Deus e o Diabo, ou Anjo Bom e
Anjo Ruim. Já a personagem típica é, digamos, um representante de um determinado grupo ou
estrato social. É o Corregedor, o Judeu etc. São elementos típicos de uma sociedade.

3. Auto e farsa

Aula 02. Classicismo e maneirismo. Camões