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GUIÃO DE EDUCAÇÃO conhecimento, Género e cidadania no Ensino Secundário

1.2.

De que falamos quando


falamos de género?

O
sexo de uma criança é sem dúvida cores diferentes e criam um espaço físico de tal
um fator importante para o seu forma distintivo que é fácil para um observador
desenvolvimento. Não é por acaso externo adivinhar se o/a bebé em questão
que uma das primeiras perguntas é do sexo masculino ou do sexo feminino.
que se faz às mães e aos pais quando uma Assim sendo, podemos afirmar que o sexo,
criança acaba de nascer é se é menina ou para além de ser um fator biológico, é também
menino. O próprio nome que se escolhe um fator social e cultural, uma vez que as
para o/a bebé deixa antever o seu sexo e a pessoas tendem a reagir de maneira diferente
presença de um bebé ou de uma criança em perante uma criança do sexo masculino ou
do sexo feminino. Reações
essas diferentes não só ao
“ Acredita-se que os brinquedos oferecidos às meninas (conjuntos de
panelas e tachos, bonecas e bonecos, electrodomésticos em miniatura,
nível de aspetos concretos,
como a oferta de brinquedos,
estojos de cabeleireira, kits de maquilhagem, etc.), uma vez que têm uma
mas também ao nível da
finalidade habitualmente prevista, fomentam nelas uma menor criati-
formação de expectativas de
vidade do que os brinquedos oferecidos aos rapazes (pistas de carros,
legos, construções, bolas, transportes em miniatura, etc.). Os segundos,
desempenho, da expressão
pelo facto de não terem uma utilidade tão pré-definida, tendem a ser de elogios e encorajamentos,
mais fomentadores da criatividade e inclusive de uma maior ocupação do estabelecimento de
do espaço circundante. Esta desigualdade na estimulação cognitiva interações verbais e não-verbais
despoletada pelos brinquedos poderá reflectir-se, mais tarde, de forma e da linguagem utilizada.
diferente em ambos os sexos, em aspectos tão diversos como a capaci-
dade de resolução de problemas, a apetência para enfrentar desafios, a
Esta caracterização (que
auto-confiança para a exploração autónoma do espaço, etc. ” podemos apelidar de quase
Jeanne Block, 1984. “automática”) dos homens
e das mulheres em termos
pessoais e sociais, a partir do
relação à qual se desconhece o sexo suscita conhecimento da sua categoria biológica de
sentimentos de desconforto naqueles que a pertença, abriu caminho a raciocínios simplistas
rodeiam. Ainda que nos primeiros meses de de explicação dos comportamentos individuais,
vida as crianças de ambos os sexos tenham à crença na estabilidade dos atributos individuais
características físicas semelhantes, a mãe e e à ideia de que seria “normal” que os seres
o pai começam logo a construir um mundo masculinos tivessem certas características
permeado por aprendizagens de género para psicológicas e os seres femininos evidenciassem
o/a bebé: dão-lhe um nome, vestem-no/a de outras, distintas. Para além desta visão dicotómica

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ENQUADRAMENTO TEÓRICO l Género e Cidadania

não ter qualquer fundamento científico – sendo sim de desigualdade, de hierarquia e de posse
por isso de toda a conveniência examinar dissemelhante de poder e de estatuto social.
e refletir em torno da origem das eventuais Neste enquadramento, e tendo presentes os
diferenças entre homens e mulheres – a objetivos que norteiam este Guião, parece-nos
discussão desta problemática ganha ainda extremamente pertinente e útil, para uma
maior relevância se pensarmos que a diferença atuação pedagógica que contrarie preconceitos
não tem sido sinónimo de diversidade, mas e discriminações, a distinção entre sexo e género.

“ Um catálogo intitulado “Festa dos brinquedos”, difundido por um hipermercado no período de


Natal (1999), apresenta os artigos organizados em vários capítulos, entre os quais analisámos dois
que correspondem às seguintes designações:
» Menina (12 páginas) » Rapaz (14 páginas).
Passando ao lado das questões linguísticas (meninas vs. rapaz), apresentamos a seguir a lista dos
brinquedos incluídos em cada um desses dois itens (...).
Um brinquedo não é um objecto neutro: é um veículo de simulação e de aprendizagem da vida
adulta, encaminha os comportamentos e as práticas sociais e culturais, define lugares na comunida-
de e na família. Nesta óptica, que informação nos transmite o catálogo do hipermercado?

Feminino Masculino
Brinquedo nº de vezes Brinquedo nº de vezes
Boneca bebé 24 Motorizada 3
Banheira para bebé 3 Figuras espaciais 2
Alcofa para bebé 5 Nave espacial 1
Cadeira para bebé 1 Robots 5
Carro para bebé 6 Heróis de BD e cinema 21
Casa das bonecas 2 Avião de guerra 2
Baloiço para boneca 1 Viaturas de heróis 2
Boneca adulta - tipo “Barbie” 10 Hidrojet 1
Casa da Boneca 5 Submarino 1
Automóveis para boneca adulta 2 Porta aviões 1
Boneco adulto - tipo “Ken” 1 Pista de carros 4
Parque infantil para boneca 2 Garagem 5
Escola e enfremaria 1 Conjunto de carrinhos 3
Consultório de pediatria 1 Jeep 1
Castelo encantado/ palácio 4 Helicóptero 2
Acessórios de toilette 3 Carro teleguiado 24
Cozinha/equipamento de cozinha 5 Gruas 2
Supermecado/produtos 2 Comboio eléctrico 2
Bonecos Disney 2
Maleta de teatro 1
Secretária 1
Patins 2

Permite-nos detectar dois perfis distintos: um encaminha as crianças para a maternidade, para as
tarefas domésticas e para a estética do corpo; outro aponta claramente para a tecnologia, incluindo
alguns elementos de violência ou, pelo menos, de conflituosidade. ”
Isabel Margarisa André, 1999: 98-99.

por: Cristina C. Vieira (coord.), Conceição Nogueira e Teresa-Cláudia Tavares 021


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O género inscreve-se no domínio da cultura


e remete para a construção de significados
sociais. Para além das diferenças genéticas
entre os sexos espera-se, na maior parte das
sociedades, que os homens e as mulheres se
comportem de uma maneira diferente e assumam
papéis distintos. Ainda na linha do pensamento
da autora atrás citada, convém ter presente que
os conceitos de feminilidade e de masculinidade
diferem em função de especificidades culturais,
No sentido de clarificar a ideia de que as o que significa que variam no espaço e no tempo,
diferenças observadas entre os sexos não se apresentando definições distintas de época para
justificam simplesmente pela pertença da pessoa época e, num mesmo período histórico, de região
a uma categoria biológica presente à nascença, para região e são ainda sujeitos a readaptações
mas que resultam sobretudo de construções de acordo com outras variáveis, como a classe
culturais, Ann Oakley propôs, em 1972, que social, a idade, a etnia e a religião.
se efetuasse a distinção entre os termos sexo
e género, distinção essa que passou a servir O estudo da importância do género para a
de referência para as Ciências Sociais. Em seu compreensão da vida individual de homens e de
entender, o sexo com que nascemos diz respeito mulheres tem despertado a atenção de cientistas
às características anatómicas e fisiológicas com origens teóricas diversas que, fazendo
que legitimam a diferenciação, em termos uso de abordagens e metodologias distintas,
biológicos, entre masculino e feminino. Por seu trouxeram para a discussão desta problemática
turno, o género que desenvolvemos envolve os argumentos de extrema relevância, ainda que
atributos psicológicos e as aquisições culturais nem sempre facilmente conciliáveis entre si. Este
que o homem e a mulher vão incorporando, facto tem tornado ainda mais profícuo o debate e
ao longo do processo de formação da sua contribuiu indubitavelmente para a compreensão
identidade, e que tendem a estar associados da natureza socialmente construída do género,
aos conceitos de masculinidade e de a qual legitimou todo um sistema de relações
feminilidade. Assim, o termo sexo pertence sociais – de dominação e de subordinação –
ao domínio da biologia e o conceito de pautadas, ao longo da história, por desigualdades
de poder tanto ao nível material
como simbólico, como escreveu
“ Que significa ‘ser homem’ do ponto de vista social?
A pergunta é tão complexa quanto aparentemente ingénua. Para a lar-
a historiadora Joan Scott
(1986). Já em 1949 Simone
guíssima maioria das pessoas, para o nível a que nas Ciências Sociais
chamamos senso comum, ser homem é fundamentalmente duas coisas:
de Beauvoir falava desta
não ser mulher, e ter um corpo que apresenta órgãos genitais masculi- legitimação da construção de
nos. A complexidade encontra-se precisamente na ingenuidade – agora diferenças sociais com base nas
sim –, de remeter para caracteres físicos do corpo uma questão de iden- diferenças sexuais, ao defender
tidade pessoal e social. Isto porque ‘ser homem’, no dia-adia, na interac- que o ser humano do sexo
ção social, nas construções ideológicas, nunca se reduz aos caracteres feminino não nasce mulher,
sexuais, mas sim a um conjunto de atributos morais de comportamento,
mas sim torna-se mulher pela
socialmente sancionados e constantemente reavaliados, negociados,
incorporação de modos de
relembrados. Em suma, em constante processo de construção. ” ser, de papéis, de posturas
Miguel Vale de Almeida, 1995: 127-128. e de discursos condizentes
com o modelo de feminilidade

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ENQUADRAMENTO TEÓRICO l Género e Cidadania

dominante na cultura a que


pertence. O mesmo poderá
dizer-se a propósito da
“ como aprendem as crianças pequenas de sexos diferentes os seus
diferentes papéis na sociedade? Que tipos de comportamentos foram
aprendizagem do que é ser classificados por algumas sociedades como masculinos ou femininos?
homem por parte dos seres Quais os comportamentos que não estão classificados como próprios de
humanos que nascem do sexo um determinado sexo? Quais as semelhanças e as diferenças que algu-
masculino, os quais tendem a mas sociedades estabelecem entre homens e mulheres? Não pergunta-
mos de início se há diferenças especiais de personalidade que estejam,
ser socializados de acordo com
sistematicamente, e independentemente da cultura, associadas ao sexo
as características distintivas da masculino ou ao feminino, tais como passividade, iniciativa, curiosida-
masculinidade culturalmente de, capacidade de abstracção, interesse pela música. Perguntamos sim,
preponderante da sua geração. como os diferentes povos encaram o comportamento dos recém-nasci-
dos, como se servem da diferença de sexo para definirem a diferença do
As investigações, papel na sociedade e como conseguem o comportamento desejado. ”
sobretudo de natureza Margaret Mead, 1970: 61-62.
psicológica e sociológica,
dedicadas à descoberta
de diferenças/semelhanças acordo com determinadas desenvolvem-se em sintonia
entre homens e mulheres, características. Certos com uma multiplicidade de
nem sempre têm conduzido traços como independência, influências que são inerentes
a conclusões coincidentes competitividade, agressividade ao processo de socialização
e há quem tenda a destacar e dominância continuam a e que começam logo a partir
sobretudo as diferenças entre ser associados a homens, do momento em que se toma
os indivíduos – a chamada reunidos sob a designação conhecimento do sexo da
perspetiva do enviesamento de instrumentalidade criança, ou seja, mesmo antes
alfa – enquanto outros masculina; a sensibilidade, do nascimento.
se inclinam a evidenciar a emocionalidade, a gentileza,
principalmente as semelhanças a empatia e a tendência para Estudos efetuados
– a chamada perspetiva do o estabelecimento de relações com mulheres grávidas
enviesamento beta1. De facto, continuam a estar associadas
e descritos por Carole
apesar de numerosos trabalhos às mulheres, sob a designação
concluírem pela inexistência de expressividade feminina. Beal (1994) permitiram
de diferenças sexuais em concluir que existe
domínios como, por exemplo, Quer se dê destaque às eventuais uma tendência, por
o cognitivo2, outros apontam diferenças encontradas entre parte das futuras mães,
para a existência de diferenças os sexos, quer se valorize a para percecionarem de
entre homens e mulheres, perspetiva que defende serem
maneira diferente os
sobretudo ao nível da mais as semelhanças, o que
personalidade na vida adulta, é importante realçar é que as
movimentos fetais, em
quando se pede às pessoas características observadas função do conhecimento
que se auto-decrevam3 de nos homens e nas mulheres do sexo do bebé.

1 Para a compreensão desta distinção, recomenda-se a consulta do artigo de Rachel T. Hare-Mustin e Jeanne Marecek (1988).
2 Ver, a este propósito, as revisões de estudos específicos que foram efetuadas por Janet Hyde (1981) e por esta autora e seus
colegas (1990).
3 A revisão de estudos publicada por Alain Feingold (1994) e a investigação de doutoramento de Cristina C. Vieira (2003; 2006)
retratam claramente estas distinções que é possível observar entre homens e mulheres, no que concerne às suas auto-descri-
ções individuais.

por: Cristina C. Vieira (coord.), Conceição Nogueira e Teresa-Cláudia Tavares 023


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No caso de estarem à não esquecendo (se o objetivo A continuar-se com esta


espera de um rapaz, for a compreensão das falsa dicotomia, dividindo as
singularidades individuais) o características e as atividades
as mulheres em análise seu necessário cruzamento em masculino e feminino,
tendiam a descrever com outras categorias pessoais estar-se-á a transpor para a
os movimentos fetais e sociais de análise, algumas compreensão do humano um
como vigorosos, delas atrás mencionadas. sistema de oposições homólogas,
como escreveu Miguel Vale
verdadeiros tremores
Por esta razão, e seguindo de Almeida (1995), como
de terra e calmos, mas o pensamento de Conceição alto/baixo, sobre/sob, fazendo
fortes. Caso a criança Nogueira (2001), não pode crer que a diferença estaria na
em desenvolvimento continuar a acreditar-se natureza dos seres e não num
fosse do sexo feminino, que diferenças de natureza processo de aprendizagem e
estática, bipolar e categorial de apropriação diferencial de
as mães inclinavam-se
se situam dentro dos indivíduo normas e valores. Esta clarificação
a descrevê-las em que os sexos são opostos5. é crucial em virtude das suas
como apresentando
movimentos muito
suaves, não excessiva­ Sensivelmente a meio do séc. XX, e partindo de uma
análise dos comportamentos das pessoas adultas
mente ativos, e vivos,
(da cultura ocidental) – especialmente dos pais e
mas não muito enérgicos. das mães – na família e em pequenos grupos, os
sociólogos Talcott Parsons e Robert Bales (1955)
Além disso, as diferenças
defenderam que a mulher estava mais predisposta
observadas dentro de cada
ao estabelecimento de interações sociais e à
grupo formado com base na
categoria sexual (grupo das
manutenção dos laços e da harmonia familiares.
pessoas do sexo masculino e Era, por isso, sobretudo expressiva, deixando
das pessoas do sexo feminino) o homem livre para o desempenho dos papéis
são mais numerosas do que as instrumentais. Entre os comportamentos mais típicos
diferenças entre esses mesmos dos indivíduos do sexo masculino encontravam-se,
dois grupos4, pelo que as por exemplo, a orientação para o alcance de metas
categorias ‘mulher’ e ‘homem’ e o estabelecimento de relações entre a família
não poderão continuar a ser e o mundo exterior. Tal distinção deu origem ao
vistas como homogéneas nem aparecimento de duas categorias de atributos
como passíveis de traduzir da personalidade, que viriam a ser utilizadas em
modelos ideais e exclusivos outras áreas para classificar e distinguir os homens
(de um grupo ou de outro) das mulheres, fazendo corresponder diretamente
de conduta. Para espelhar a (e perigosamente) a distinção biológica a diferenças
diversidade de formas de ser psicológicas: instrumentalidade masculina e
e de estar, os termos deverão
expressividade feminina.
inclusive ser formulados no
plural – mulheres e homens –,

4 Ver o trabalho de Hugh Lyntton e David Romney (1991).


5 Para uma compreensão mais aprofundada desta posição teórica recomenda-se a consulta da obra de Mary Crawford (1995).

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ENQUADRAMENTO TEÓRICO l Género e Cidadania

implicações educativas e daí ser


necessário desconstruir toda a
lógica determinista usada para “ A minha definição de género tem duas partes e várias alíneas. Estão
interligadas mas são analiticamente distintas. O cerne da definição reside
prescrever a homens e mulheres numa relação completa entre duas proposições: género é um elemento
atributos, competências e constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças visíveis de sexo
interesses decorrentes da e género é uma forma primária de nos referirmos a relações de poder.
diferenciação biológica. (…) Enquanto elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas
diferenças sexuais, género engloba quatro elementos intimamente liga-
dos: primeiro, os símbolos disponíveis numa determinada cultura que
No campo da psicologia, e
evocam múltiplas (e frequentemente contraditórias) representações
no âmbito de uma tentativa – por exemplo, Eva e Maria como símbolos de mulher na tradição cristã
de compreensão do ocidental (…) Segundo, conceitos normativos que avançam interpre-
comportamento dos homens tações dos sentidos dos símbolos, que tentam limitar e conter as suas
e das mulheres ao longo do possibilidades metafóricas. Estes conceitos são expressos pelas doutri-
ciclo de vida, uma das visões nas religiosas, educativas, científicas, legais e políticas e mantêm tipica-
mente a forma de oposições binárias fixas, que estabelecem de maneira
mais consensuais do conceito
categórica e inequívoca os significados de homem e mulher, masculino
de género foi influenciada pelos e feminino. (…) O terceiro aspecto (...) inclu[i] não só os laços de paren-
trabalhos de Janet Spence tesco como também (...) o mercado de trabalho (…), o sistema educativo
(1985; 1993), que o considera (…) e o sistema político (…). O quarto aspecto do género é a identidade
de natureza multidimensional subjectiva.
e o explica recorrendo aos A primeira parte da minha definição de género contém, portanto, estas
princípios do desenvolvimento quatro vertentes e nenhuma delas funciona independentemente de
humano. Quer isto dizer que qualquer das outras. contudo elas não funcionam em simultâneo, como
ao falarmos de género nos se uma fosse simplesmente o reflexo das outras. (…) O que me proponho
é tornar clara e objectiva a forma como devemos analisar a influência do
referimos a um conjunto de
género nas relações sociais e institucionais uma vez que esta análise não
componentes, que incluem, é, na maior parte dos casos, feita de forma precisa e sistemática. Uma
para citar apenas algumas, teoria sobre género é portanto desenvolvida na minha segunda formu-
a identidade de género, a lação: género é uma forma primária de demonstração das relações de
orientação sexual, os papéis de poder. Ou, melhor dizendo, o género é o primeiro domínio com o qual
género, as características da ou através do qual o poder se articula. ”
personalidade, as competências Joan Scott, 2008:66-67 (adaptado).
pessoais e os interesses.

No entender da autora atrás integram o género podem com o género que cada pessoa
citada, os aspetos que apresentar graus e tipos de é susceptível de manifestar nas
contribuem para a diferenciação associação variados entre si. diferentes situações que tiver de
de cada factor integrante do O comportamento exibido enfrentar. É ainda fundamental
género possuem histórias de (por homens e mulheres) resulta salientar, como referiram Susan
desenvolvimento idiossincráticas da interação complexa das Egan e David Perry (2001),
sempre distintas de pessoa suas diversas componentes que a consistência com que
para pessoa e são influenciados de género. Por este motivo, os homens e as mulheres
por uma multiplicidade de é possível observar uma apresentam comportamentos
variáveis não necessariamente considerável variabilidade típicos de género, em diferentes
relacionadas com o género. – intra-sexo e entre o sexo dimensões (por exemplo: papéis
Para além disso, durante os feminino e o masculino – de género, orientação sexual),
diferentes períodos da vida de quanto à constelação de poderá ser apenas modesta.
cada sujeito, os fatores que características congruentes Mas esta visão psicológica

por: Cristina C. Vieira (coord.), Conceição Nogueira e Teresa-Cláudia Tavares 025


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nem biologicamente inerentes,


A tendência do pensamento de senso comum é nem permanentemente
para uniformizar a caracterização das diferentes socializadas ou estruturalmente
componentes de género de uma pessoa, a partir do predeterminadas. Segundo este
conhecimento de apenas uma delas. Na sequência ponto de vista, o género não é
de estudos efetuados por Key Deaux e Melissa Kite apenas algo que a sociedade
(1993), foi observado que é uma crença corrente impõe aos indivíduos. Mulheres
que as mulheres com uma orientação homossexual e homens escolhem certas
apresentam características típicas dos homens e opções comportamentais e
ignoram outras e, ao fazê-lo,
que os homens com uma orientação homossexual
elas e eles fazem o género.
tendem a exibir comportamentos ditos femininos,
Pode dizer-se fazer o género,
o que não corresponde à realidade nem traduz
isto é, comportar-se de maneira
a diversidade de características de uma pessoa,
que, seja qual for a situação,
independentemente da sua categoria sexual. sejam quais forem os atores, o
comportamento dos homens
Na tentativa de contrariar práticas erróneas e e das mulheres seja visto, em
discriminatórias para ambos os sexos, o compromisso cada contexto, como adequado
básico do pensamento e dos movimentos feministas, às expectativas de género
em diferentes domínios do conhecimento, tem sido a socialmente delineadas para
luta pela permanente erradicação das desigualdades cada um dos sexos. Nesta
de género, tentando acabar com os enviesamentos que sequência, acredita-se que o
prejudicam as mulheres, mas também os homens. género é performativo6.

Este entendimento7 sobre o


do género constitui simplesmente um dos que é o género ajuda a reconciliar os resultados
múltiplos contributos que diferentes áreas do empíricos, de que mulheres e homens são mais
saber têm trazido para o debate, havendo similares que diferentes na maioria dos traços e
outras perspetivas feministas (mais críticas – e competências, com a perceção comum de que
aparentemente opostas àquelas) que defendem parecem comportar-se de forma diferente. Com
o seu relativismo e a sua natureza situacional. efeito, mulheres e homens ainda que tenham
as mesmas competências, ao enfrentarem
Hoje em dia a perspetiva feminista mais diferentes circunstâncias, constrangimentos
crítica e mais próxima das perspetivas e expectativas podem ser condicionados a
pós-modernas recusa a possibilidade de tomar decisões distintas relativamente ao seu
discursos universalizantes e generalizáveis repertório de opções. Desta forma, ao agirem em
acerca do género. Esta perspetiva desafia aparente conformidade com o que é esperado
o carácter natural da diferença de género, para as pessoas do seu sexo, acabam por
sustentando que todas as características sociais reafirmar os arranjos baseados nas categorias
significativas são ativamente criadas e não são sexuais como sendo naturais, fundamentais

6 Para um desenvolvimento suplementar deste assunto, ver os trabalhos de Judith Butler (1990; 2002; 2006).
7 Segundo Chris Beasley (1999), trata-se de uma visão influenciada pelo chamado construcionismo social, o qual apareceu
como resposta alternativa à epistemologia positivista, que defendia a existência de uma verdade fundamental na explicação de
todos os fenómenos, a qual era possível apurar através da razão. Contrariando esta posição, para os construcionistas sociais
são defensáveis, como escreveram Sara Davies e Mary Gergen (1997), os seguintes pressupostos: 1) O conhecimento é so-
cialmente construído; 2) Não existe uma versão única da verdade; 3) Os significados são constituídos através do discurso; 4)
Os indivíduos são vistos como passíveis de expressões múltiplas.

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ENQUADRAMENTO TEÓRICO l Género e Cidadania

e imutáveis, legitimando educar de maneira diferente individual de cada cidadã ou


consequentemente a o rapaz e a rapariga para o cidadão, na formação das
ordem social. Poder-se-ia desempenho dos mais variados respetivas competências para
então imaginar que a papéis ao longo da vida, como o exercício pleno da cidadania.
simples mudança na forma se a diferenciação biológica Em qualquer sociedade, as
como homens e mulheres determinasse as características crenças associadas ao género
fazem o género poderia pessoais, as oportunidades de tendem a constituir, para ambos
ser o caminho para a desenvolvimento e os percursos os sexos, normas – muitas vezes
transformação. No entanto, de vida de uns e de outras. silenciosas – condicionantes
é importante ter em atenção da formação de valores e de
que os constrangimentos Daí que seja imperativo falar atitudes, com influência direta
institucionais, a hierarquia de género quando se quer na auto e hetero avaliações
social e as relações sociais promover uma cidadania das variadas expressões
de poder limitam a capacidade ativa. Na realidade, o género comportamentais e nos desafios
de ação. deve ser encarado como um que uns e outras acreditam
dos princípios organizadores serem capazes de enfrentar
Deste modo, podemos afirmar da construção do percurso com sucesso.
que é o reconhecimento de
que o género resulta de uma
construção social que nos “ Longe de afirmar que as estruturas de dominação são a-históricas, ten-
tarei estabelecer que são um produto de um trabalho incessante (portan-
permite compreender como
to histórico) de reprodução para que contribuem agentes singulares (…)
a discriminação continua,
apesar de todo o trabalho
e instituições, famílias, Igreja, Escola, Estado. ”
de cientistas feministas Pierre Bourdieu, 1999: 30.
– os/as quais, minimizando ou
maximizando as diferenças,
esperavam contribuir para a “ A categoria analítica de género tornou-se mais presente em Portugal
nos anos 90 [do séc. XX], tendo como nó fulcral os aspectos relacionais da
eliminação das desigualdades
de género na sociedade, tanto construção social do feminino (e do masculino). Tornou-se numa palavra
passe-partout, nomeadamente na sua emigração e tradução em con-
nos espaços públicos como
textos institucionais cuja utilização – nessa tradução institucionalizada
no domínio privado. – é muitas vezes indevida, por escamotear a crítica que essa categoria

Passados cerca de cinquenta


analítica implica, podendo-se fazê-la ‘despolitizar’ a luta das mulheres. ”
Teresa Joaquim, 2004: 89.
anos desde que o género
foi identificado como uma
categoria de análise, sabe-se
que muito está por conseguir
no que diz respeito à igualdade
“ O fundamental na diferenciação entre o masculino e o feminino não
são os atributos que, aparentemente, os distinguem (…) mas sim o facto
entre homens e mulheres e às dos conteúdos que definem a masculinidade estarem confundidos com
assimetrias de poder material outras categorias supra-ordenadas, como a de pessoa adulta, enquan-
e simbólico daí recorrentes nas to os significados femininos definem apenas um corpo sexuado. É neste
processo de construção social que o simbolismo masculino se constitui
diversas esferas da vida. Com
como referente universal relativamente ao feminino que permanece
base em ideias sem qualquer
suporte científico, a família e
marcado pela categoria sexual. ”
todos os restantes agentes Lígia Amâncio, 2002: 59.
de socialização continuam a

por: Cristina C. Vieira (coord.), Conceição Nogueira e Teresa-Cláudia Tavares 027


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na escola, citem-se, por


exemplo, os trabalhos sobre
“ Incorporámos, sob a forma de esquemas inconscientes de percepção
e de avaliação, as estruturas históricas da ordem masculina; arriscamo- os estereótipos de género nos
nos portanto a recorrer, para pensar a dominação masculina, a modos Manuais Escolares, adotados
de pensamento que são eles próprios produtos da dominação.” oficialmente no ensino básico,
Pierre Bourdieu, 1999: 30. de Eugénio Brandão (1979),
Ivone Leal (1979), Maria
Isabel Barreno (1985), José
A investigação em torno das diferentes Paulo Fonseca (1994), Fernanda Henriques e
problemáticas do género, impulsionada, Teresa Joaquim (1995), Maria de Jesus Martelo
como se disse atrás, pelo pensamento e (1999) e Anabela Correia e Maria Alda Ramos
movimentos feministas, e produzida com (2002); a investigação de Teresa Alvarez Nunes
maior intensidade desde as décadas finais (2007) sobre as representações de cidadania
do século XX, chamou a atenção para a associadas ao masculino e ao feminino nos
complexidade cultural dos estereótipos de Manuais de História e no software educativo
género, para o carácter imbricado das ideias utilizados no ensino secundário; o trabalho de
associadas à masculinidade e à feminilidade e Luísa Saavedra (2005) sobre a aprendizagem
para as arbitrariedades advindas da promoção promovida pelo currículo e pela organização
e manutenção de um raciocínio dicotómico, escolar do que é ser rapaz ou ser rapariga; a
conformista e alicerçado em estereotipias. pesquisa de Laura Fonseca (2001) sobre as
Estudos portugueses desenvolvidos, subjetividades na educação das raparigas;
sensivelmente desde essa altura, também já e o trabalho de Teresa Pinto (2008) sobre a
colocaram em evidência, por exemplo, o papel associação (historicamente construída) do ensino
dos recursos pedagógicos utilizados em industrial ao sexo masculino.
contextos formais de ensino na manutenção
de normas sociais de género adotadas pelo No que concerne ao que se passa no nível
coletivo e assumidas como inquestionáveis, pré-escolar, uma investigação de Fernanda
ainda que ‘naturalizem’ hierarquias de poder Rocha (2009) mostrou que os/as educadores/as
e legitimem situações de desigualdade entre de infância são também propensos/as ao uso de
homens e mulheres. Correndo-se o risco de estereotipias de género, quer na organização dos
deixar de fora deste elenco muitas pesquisas espaços didáticos, quer nas interpretações que
importantes de cientistas portuguesas/es fazem do comportamento dos pais e das mães.
empenhadas/os no estudo das questões No que diz respeito à fraca representação das
de género e da sua ligação ao que se passa raparigas em profissões não tradicionalmente
femininas, um trabalho
realizado por Luísa Saavedra
“ As investigações têm mostrado que o ensino misto não se substan-
ciou em práticas educativas conducentes à transformação das relações
(1997) deixa antever grandes
dificuldades a médio prazo
sociais de género no processo de socialização e de construção da iden-
na alteração dos estereótipos
tidade de raparigas e de rapazes. Constata-se a persistência de estere-
ótipos de género, seja nos materiais pedagógicos, seja nas interacções de género associados às
no espaço escolar, que sustentam um imaginário social que representa profissões, pois esta mudança
assimetricamente as identidades feminina e masculina e reproduz parece exigir uma modificação
expectativas diferenciadas para raparigas e rapazes no que respeita às ideológica das representações

várias dimensões da sua vida presente e futura. associadas à posição social do
Teresa Pinto, 2007: 142. grupo feminino face ao grupo
masculino.

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