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GUIÃO DE EDUCAÇÃO conhecimento, Género e cidadania no Ensino Secundário

1.4.

A formação da
identidade de género

F
oram várias as posições teóricas e alunas que se encontram sobretudo já nos
desenvolvidas durante o séc. XX que anos intermédios da adolescência, importa
tentaram esclarecer o processo de compreender o processo de formação da
formação da identidade de género. identidade de género logo desde os primeiros
Com o intuito de dar uma certa organização anos da infância. Por essa razão, optámos
teórica e conceptual às mesmas Susan por apresentar nesta secção do capítulo
Freedman (1993) reúne-as em duas classes uma visão psicológica sobre a formação da
distintas. A primeira (onde inclui, por exemplo, identidade de género, que a perspetiva como
as ideias psicanalíticas e evolucionistas) agrega intrinsecamente ligada ao desenvolvimento
teorias que tentam explicar as possíveis causas humano em outros domínios (cognitivo,
das diferenças entre os sexos. Trata-se de saber emocional e social). Esta opção não significa,
por que é que os sexos podem apresentar contudo, que outras abordagens mais críticas e
diferenças. A segunda categoria agrupa as reflexivas – como aquelas que são influenciadas
teorias (como as da aprendizagem social, pelo construcionismo social ou determinados
teorias cognitivo-desenvolvimentistas e teorias posicionamentos feministas, cuja análise tende
da interação social) que abordam os processos a centrar-se na compreensão das múltiplas
conducentes à observação das diferenças entre determinantes dos comportamentos dos
homens e mulheres. Neste caso, a preocupação homens e das mulheres na vida adulta – sejam
dos/as respetivos/as autores/as gira em torno vistas como menos interessantes ou com menor
de como é que os sexos enveredam por formas valor heurístico. Apenas por uma questão
distintas de comportamento. prática não serão aqui referenciadas.

Como se disse anteriormente, a coexistência de Na psicologia, a perspetiva cognitivo-desen-


diferentes perspetivas e o recurso a metodologias volvimentista – onde merece especial destaque
de análise distintas sobre o género – e as suas o pioneirismo do pensamento de Lawrence
implicações para a organização da vida pessoal Kolhberg (1966) – reconhece à criança um
e social das mulheres e dos homens – tornam papel ativo na construção da sua identidade
difícil a tarefa de apresentar princípios explicativos de género e a impossibilidade de dissociar
e modelos que reúnam unanimidade entre este processo do próprio desenvolvimento
os especialistas e que espelhem a riqueza e das capacidades intelectuais. Considerando
complexidade das abordagens. o ciclo de vida, e salientando a importância
da interação social entre as crianças de
Apesar de este Guião se destinar a docentes ambos os sexos destacada por Key Bussey e
do ensino secundário, que lidam com alunos Albert Bandura (1999), pode afirmar-se que a

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ENQUADRAMENTO TEÓRICO l Género e Cidadania

primeira etapa do processo de compreensão que a criança a criança é capaz de começar


desenvolvimento das diferentes evidencia acerca do que é o a compreender determinadas
dimensões do género consiste género está intrinsecamente categorias sociais – como é o
na formação da identidade ligada ao seu desenvolvimento caso do género.
de género. Ao observar o cognitivo13, isto é, ao seu nível
mundo das pessoas adultas, de compreensão geral do As ideias de Lawrence Kolhberg
para as crianças são muito mundo em que vive e do seu (1966) a respeito do papel da
mais aparentes as diferenças papel no mesmo. motivação no desenvolvimento
exteriores (de vestuário, de do género reuniram grande
corte de cabelo, de tamanho Neste enquadramento, por consenso na comunidade
e forma do corpo) do que as volta dos dois/três anos a científica. Na sua opinião,
diferenças relativas aos órgãos criança está apta a designar para que a criança se sinta
genitais. É partindo da cons- corretamente grupo social a motivada a valorizar os outros
tatação destas distinções entre que pertence em função do do mesmo sexo e inicie o
pessoas adultas que a criança género (o das meninas ou o dos processo de ensaio/imitação dos
se inclui num dos grupos (isto meninos). Todavia, a formação comportamentos, tem de estar
é, se classifica como do sexo da identidade de género, que assegurada alguma estabilidade
masculino ou do sexo feminino) se estende, como se disse, no seu processo (interior) de
e começa, inevitavelmente, a aproximadamente dos 2 aos 7 identificação; ou seja, tem de ter
fazer avaliações da realidade. anos de idade, é um processo consciência de que ainda que
que acompanha a transição algumas características externas
Para Kolhberg, as ideias da para o período das operações ou o próprio comportamento,
criança acerca dos papéis concretas14 e durante o qual exibido em situações particulares,
dos homens e das mulheres
são determinantes para a
exibição de comportamentos Partindo de estudos realizados com crianças e adoles-
consonantes com os modelos centes, Susan Egan e David Perry (2001) apresenta-
dominantes de masculinidade e ram uma possível definição de identidade de género
de feminilidade; e a motivação com recurso a quatro proposições teóricas. No seu en-
para a aprendizagem desses tender, a identidade de género abrange:
mesmos papéis resulta da “(a) A tomada de consciência individual da pertença
sua necessidade individual do sujeito a uma das categorias de género;
de se identificarem com um (b) A sensação de compatibilidade com um dos
dos grupos. Por esse motivo, grupos formados a partir da categorização
acredita que durante o processo anterior (…);
de formação da identidade de
(c) O sentir-se pressionado/a a estar em
género a criança é capaz de
conformidade com as normas sociais de género;
compreender o género, em
(d) O desenvolvimento de atitudes para com os
vez de, simplesmente, imitar
grupos de género”
o comportamento daqueles
que são do mesmo sexo que (p. 451)
o seu. Assim, a progressiva

13 Ver os trabalhos de Jeanne Brooks-Gunn e Wendy Matthews (1979).


14 Em virtude da saliência do género na organização da vida individual, Diana Ruble e Carol Martin (1998) defendem que a ‘con-
servação da categoria sexual’ pode ser considerada uma das primeiras manifestações de pensamento operatório por parte da
criança.

por: Cristina C. Vieira (coord.),


por: Cristina
Conceição
C. VieiraNogueira
(coord.) e Teresa-Cláudia Tavares 033
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venham a sofrer modificações, o sexo biológico família, na escola, na comunicação social, que
e a identidade de género do indivíduo são funcionam como modelos. Nesta sequência,
caraterísticas que tendem a permanecer estáveis. a criança imita os modelos do mesmo
Pelo facto de não ser capaz de alcançar, sexo que o seu e exibe, preferencialmente,
antes de determinada idade, a permanência comportamentos típicos de género, já que
do objeto (noção piagetiana segundo a qual esses mesmos desempenhos são considerados
existe constância nas características físicas os mais adequados (e os mais aprovados
dos objetos) não é de prever que com três pelas outras pessoas) e estão em consonância
anos apenas a criança consiga, por exemplo, com o seu autoconceito, enquanto rapaz ou
desenvolver uma identidade de género rapariga, e com a sua identidade de género
permanente. Ilustremos esta afirmação com em formação. Na linha do pensamento
uma referência aos trabalhos de Jean Piaget kolhbergiano, a vontade da criança de agir em
(1932) sobre a compreensão da conservação: conformidade com as normas adequadas ao
pode aplicar-se ao modo como as crianças seu sexo precede o próprio comportamento,
compreendem o género a explicação para a em virtude da sua compreensão da realidade.
incapacidade das crianças, até determinada Ela envereda pela adoção de comportamentos
idade, de acreditarem que o número de objetos típicos de género, movida pela sua necessidade
numa torre se mantém, ainda que a disposição de coerência interna e de desenvolvimento de
física dos mesmos se altere. Enquanto não uma sólida autoestima.
atingem aquilo a que Kolhberg (1966) chamou
estabilidade de género, as crianças tendem Todo o processo de categorização cognitiva
a pensar que, tal como mudam de corte de que parece, então, ser indispensável, numa
cabelo ou de vestuário, as pessoas podem primeira fase, para a progressiva consolidação
mudar de sexo, ou podem pertencer a um ou a da identidade de género nos primeiros anos
outro grupo de género. Segundo este nível de de vida da criança abre, no entanto, caminho
pensamento infantil, como escreveu Margaret à apropriação de normas comportamentais
Matlin (1996), "uma mulher pode tornar-se rígidas, ou de estereotipias, as quais
homem se cortar o cabelo muito curto e um poderão ter uma influência perversa na
homem pode tornar-se mulher se decidir usar autenticidade da trajetória de desenvolvimento
uma mala de mão" (p. 99). individual, subsequente, dos rapazes e das
raparigas. Torna-se, por isso, fundamental o
À medida que vão compreendendo, dos 2 aos 7 desenvolvimento de uma atuação pedagógica
anos aproximadamente, a imutabilidade do facto adequada e concertada – entre as várias
de serem do sexo masculino ou do feminino fontes de influência, como seja a escola, a
– isto é, à medida que vão consolidando a família, os media – que corrija as mensagens
estabilidade do género – as crianças sentem-se estereotipadas sobre o género que a criança
motivadas a procurar informação sobre os vai aprendendo e solidificando nas suas redes
comportamentos considerados adequados cognitivas de informação.
ao seu sexo, pela observação dos outros na

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