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ENQUADRAMENTO TEÓRICO l Género e Conhecimento

3.2.

Para uma progressiva


leitura crítica da realidade
na adolescência

O
período da adolescência que idade cronológica, mas estar num patamar
corresponde aos anos do ensino inferior de maturidade no que diz respeito à sua
secundário, sensivelmente dos 15 cognição social, sendo, por exemplo, incapaz de
aos 18 anos de idade, é marcado participar, de forma assertiva, numa assunção
por uma complexificação das capacidades mútua de perspetivas, quando se trata de
cognitivas e das competências sociais debater problemas sociais – isto é, de considerar
dos e das adolescentes, que nesta fase da vida efetivamente que as outras pessoas podem ter
já são mais capazes do que anteriormente de ideias e posturas diferentes das suas, também
lidar, de maneira progressiva, com conceitos elas válidas, seja em problemas de natureza
abstratos (pensamento formal), de pensar moral, legal ou social.
sobre o próprio pensamento (metacognição),
de estabelecer relações com quem os rodeia Ora, estas especificidades do funcionamento
pautadas pela empatia e também de fazer uso cognitivo e social dos e das jovens, à medida
de um pensamento em perspetiva, quando se que avançam no ensino secundário, não
trata de esgrimir pontos de vista e de tomar devem ser desconsideradas, quando as
decisões. Como é óbvio, existem enormes tarefas de aprendizagem e de apropriação de
diferenças interindividuais (diversidade de conhecimentos envolvem assuntos concretos
características das pessoas entre si) e mesmo e abstratos do seu dia a dia, que lhes dizem
intraindividuais (assincronia do desenvolvimento diretamente respeito enquanto mulheres e
de cada pessoa), pelo que a idade cronológica homens, membros de uma dada sociedade, que
pode ser um fraco indicador do grau de se sabe pautada por regras implícitas e explícitas
maturidade dos e das adolescentes para nem sempre condizentes com um exercício
lidarem com a informação e para a usarem efetivo de cidadania assente na liberdade de
como guia de leitura do mundo à sua volta. escolha e no respeito pela alteridade.

Pelo exposto anteriormente, não se pode esperar Diversos estudos realizados no âmbito da
que raparigas e rapazes da mesma idade psicologia do desenvolvimento durante a
sejam capazes, de forma equivalente, de lidar adolescência, que são citados na obra de
criticamente com o que aprendem e mesmo de Norman Sprinthall e W. Andrew Collins (2011),
confrontar essas aprendizagens com o manancial revelaram que a complexidade crescente do
de coisas que supostamente já sabem. Além raciocínio implicado na compreensão do mundo
disso, um/a dado/a adolescente pode apresentar diário dos e das adolescentes tornam-nos/as
um nível de funcionamento intelectual condizente progressivamente capazes de lidar com
com o que seria de esperar atendendo à sua conceitos relativos a grandes categoriais sociais,

por: Cristina C. Vieira 097


GUIÃO DE EDUCAÇÃO conhecimento, Género e cidadania no Ensino Secundário

como grupos, comunidades, sociedades,


instituições sociais, incluindo as relações que se
Ficar pela leitura dos números sem
estabelecem entre os seus membros (cf. p. 178 e
desmontar o cenário onde eles se
ss.). Outros assuntos igualmente abstratos como
os princípios universais ligados à vivência em enquadram será, eventualmente,
democracia e ao exercício da cidadania, como uma perda de tempo e poderá,
a igualdade social, a justiça, a solidariedade, a inclusive contribuir para reforçar
tolerância, o respeito, as normas de conduta, a aceitação de que se trata de
a política e as leis tendem a ganhar uma inevitabilidades: “é natural!”;
importância crescente no modo como as e os “sempre foi assim!”; “faz parte
jovens se avaliam a si próprias/os e ajuízam as da cultura!”. A História pode
outras pessoas, incluindo a sua própria família e ajudar a desmontar esta suposta
a rede de amigos/as. naturalidade da organização social
(como mostra, por exemplo,
o pensar sobre a diferença entre o real o capítulo correspondente a
e o possível é agora, na adolescência, esta área do saber na segunda
mais do que antes, uma competência parte deste Guião).
a ser promovida, em prol do
desenvolvimento em ambos os sexos as horas despendidas por umas e outros nas
de uma autonomia crítica que promova esferas da profissão e do lar, para citar apenas
a respetiva capacidade de auto e alguns exemplos, pode agora fazer-se a partir
heteroavaliação e ainda a tomada das suas causas e das razões que, a montante,
de decisão reflexiva e informada. conduzem ao que se observa.

Os conhecimentos científicos que acabámos de O recurso a metáforas pode ser também uma
mencionar trazem-nos implicações importantes estratégia eficaz, pois a necessidade de ler para
para a prática educativa, pois nesta fase da além do imediato e de descodificar a informação
adolescência é possível ir mais além com os/as que traduz sentidos figurados por meio de
discentes, do que a mera identificação das comparações implícitas é uma tarefa desafiante.
situações, na desconstrução das estereotipias Sê-lo-á ainda mais se os materiais usados forem
sexistas veiculadas, por exemplo, pelos pares, visualmente apelativos, se provocarem alguma
media ou manuais escolares. A capacidade de reatividade inicial (logo de seguida esbatida)
compreensão crescente das diferenças entre ou ainda se usarem personagens próximas
o real e o possível (pensamento formal), atrás das e dos discentes (em termos de idade, cor
referida, abre às e aos docentes inúmeras da pele, origem étnica, desempenho escolar,
possibilidades de trabalho, partindo de sexo, artefactos culturais, etc.), tendo em vista
exemplos reais da vida do dia a dia de alunos facilitar o processo psicológico de identificação,
e alunas. A análise de dados factuais relativos que é fundamental para a apropriação correta
a problemáticas sociais, como as estatísticas do significado das mensagens. O exemplo
relativas à violência de género, o diferencial de apresentado na Figura 1, que foi disponibilizado
salários entre mulheres e homens, a segregação pela Comissão Europeia1, pode constituir um
horizontal e vertical no mercado de trabalho, bom ponto de partida, com algum recurso ao

1 Para explorar outras imagens consultar o sítio da Comissão Europeia: http://ec.europa.eu/justice/gender-equality/index_en.htm


(consultado a 15 de abril de 2015).

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culturais, étnicas (ou outras) semelhantes às suas


e às dos elementos das respetivas redes sociais
de suporte (ex: ver Figura 2), com temas que
vão ao encontro das suas preocupações mais
prementes (ex., respeito nas relações de namoro;
popularidade no grupo de pares; critérios de
sucesso autodefinidos; objetivos de vida futuros)
tende a motivar em grupos de adolescentes
o debate, a fomentar o seu envolvimento
emocional nas discussões geradas e a promover
conhecimentos novos, emancipatórios, alicerçados
na desocultação e no desmoronamento de
‘saberes’ obsoletos anteriores.
Figura 1. Uma adaptação da pirâmide
das necessidades humanas à explicação
da organização social por sexos2 Ver, por exemplo, as sugestões apresentadas
Fonte: http://ec.europa.eu/justice/ no capítulo “A Filosofia no Secundário lida
gender-equality/index_en.htm numa Ótica de Género”, deste Guião.

humor, mas há inúmeras possibilidades – menos


risíveis e, algumas delas, aparentemente, “sem
qualquer problema” – oferecidas pelas letras das
canções que gozam de grande popularidade,
pelas e pelos artistas que as interpretam, pelas
revistas de circulação corrente, que eles e elas
leem, pela publicidade, pelas telenovelas e séries
para adolescentes, entre outras fontes.

É ainda fundamental levar as e os adolescentes


a reverem-se nos assuntos tratados, mesmo que
alguns deles possam parecer-lhes longínquos
ou despropositados, em termos de projetos de
vida futura. A ilustração de conceitos abstratos Figura 2. Ilustração metafórica da questão
com exemplos reais da vida de pessoas e de da conciliação família versus carreira3
famílias, com ‘casos-problema’, em que as ou Fonte: http://ec.europa.eu/justice/gender-equality/
os protagonistas tenham características físicas, index_en.htm

2 A hierarquia de necessidades em formato de pirâmide foi introduzida pelo psicólogo americano Abraham Maslow na década
de 50 do século XX e a sua teoria assenta numa divisão hierárquica das necessidades humanas. Na base da pirâmide estão
as necessidades de nível mais baixo, sendo que cada pessoa apenas poderá avançar para as necessidades de nível seguinte
quando estas estão satisfeitas. O movimento é, por isso, ascendente, até se atingir o patamar mais elevado, que é o da auto-
realização. Ainda de acordo com este modelo explicativo do comportamento humano, as necessidades progridem das mais
primárias e imaturas (atendendo ao tipo de resposta que exigem para serem satisfeitas) até às mais civilizadas, complexas
e maduras. Segundo a metáfora traduzida na imagem, uma interpretação possível (nossa) seria a de que as mulheres terão
menos necessidades de nível superior de que os homens, razão pela qual desaparecem à medida que se sobe na hierarquia
social representada.
3 Segundo dados da Comissão Europeia apresentados num comunicado à imprensa feito em 14 de abril de 2014, as mulheres
continuam a ter de suportar a maior parte das tarefas não remuneradas relativas ao lar e à família, pois elas dedicam, em
média, 26 horas por semana às atividades domésticas e os homens apenas 9 horas. Informação completa disponível em:
http://europa.eu/rapid/press-release_IP-14-423_pt.htm (consultado a 15 de abril de 2015).

por: Cristina C. Vieira 099


GUIÃO DE EDUCAÇÃO conhecimento, Género e Cidadania no Ensino Secundário

Durante a adolescência, A utilização de dilemas que Em suma, trata-se aqui de ver


as e os jovens envolvam decisões éticas a outra pessoa como igual, nos
e políticas, a confrontação domínios micro e macro da
desenvolvem um
de pontos de vista opostos vivência da cidadania, entendida
importante potencial sobre uma mesma temática, de uma forma sistémica, a qual
devido ao pensamento o recurso a notícias da abrange uma diversidade de
formal. Em contraste imprensa (mais ou menos níveis – do individual ao global –
com as características banais) ou de videoclips4 interdependentes entre si.
conhecidos das redes
do pensamento infantil, Ver, a este propósito, as
sociais, são, de facto, bons
o pensamento das e dos pontos de partida para o várias aceções de cidadania
adolescentes abrange questionamento das formas no capítulo “Género e
uma capacidade maior de pensar de alunos e de Cidadania”, deste Guião.
para pensar acerca alunas, obrigando uns e
de possibilidades, outras a reequacioná-las, a A escola pode, pois, ser um
pensar sobre possibilidades espaço onde se criem ruturas
através de hipóteses,
de se ser pessoa, quer no estado interior das coisas de
para antever certos esteja em causa a postura cada qual, e a aprendizagem,
resultados, para refletir cívica individual, o domínio para ser efetiva e emancipatória,
sobre os seus próprios interpessoal, ou a esfera deve ter um valor de mudança,
pensamentos e para dos relacionamentos sociais primeiro em quem aprende,
ponderar sobre os e interculturais, para citar para depois poder distender-se
os três eixos da cidadania em redor. Fazendo uso das
pontos de vista das
propostos no documento suas funções educativas e
outras pessoas (…) produzido em 2008 pelo sociais, a escola poderá aliar
o pensamento pode Fórum Educação para a a transmissão de um saber
ser estimulado. Este Cidadania5. E isto inclui, historicamente construído
tipo de estimulação necessariamente, temas à – e que é ensinado – ao
primeira vista tão comuns, desenvolvimento de ferramentas
requer, no entanto,
como o respeito pelo próprio de análise crítica de alunos
uma considerável corpo e pelo das outras e alunas, que lhes permitam
alteração dos padrões pessoas, o reconhecimento analisar as suas experiências
atuais de rendimento do valor da vida humana concretas, identificar situações
e dos currículos (…) e da capacidade de de desigualdade e de diferença,
das próprias escolas. autodeterminação de cada e munir-se de recursos para
pessoa, seja em matérias da viver melhor e cooperar para o
Adaptado de Normal
esfera íntima e privada, seja bem comum.
Sprinthall e W. Andrew
Collins, 2011: 143. em assuntos que envolvam o
espaço social e público.

4 Para uma reflexão em torno do desrespeito profundo do corpo feminino e do tratamento da mulher como um objeto de diversão
e de calúnia, veja-se, por exemplo (as possibilidades de escolha deste tipo de recursos são incontáveis…), o videoclipe de
Robin Thicke – Blurred Lines ft. T.I., Pharrell, disponível no Youtube.
5 Disponível em: http://www.drealg.min-edu.pt/upload/docs/dsapoe_FECidadaniaSP.pdf (consultado a 15 de abril de 2015).

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