DOUTRINAL

Revista doutrinária da Polícia Militar de Pernambuco

Artigo publicado no Vol.03 Nº01 - Edição de JAN a JUN 2014 - ISSN 2318-3152 -
Versão on-line disponível em: http://www.portais.pe.gov.br/web/pmpe/revista-doutrinal

FORMAÇÃO PROFISSIONAL NAS ACADEMIAS DE POLÍCIA: reflexões sobre a
construção de política formativa voltada para proteção dos Direitos Humanos

Benôni Cavalcanti Pereira1
Kátia Maria da Cruz Ramos2

RESUMO
O clamor da sociedade por segurança faz da formação policial uma área desafiante
e necessária diante da superação do paradigma repressivo e reconhecimento do
caráter preventivo como fundamento formativo do profissional de segurança pública.
Nesta perspectiva, o presente estudo teve como foco de atenção a natureza do
policiamento ensinado na respectiva Academia de Formação desse profissional,
nomeadamente através da percepção dos Oficiais lá formados e da análise da
malha curricular do CFO/PM. Para tanto, foram realizadas entrevistas junto a
tenentes que atuaram na operacionalidade entre os anos de 2009 a 2011, cujos
dados obtidos apontam para percepções distintas em torno da teoria ensinada e da
prática institucional, suscitando reflexões em torno da construção de política
formativa voltadas à proteção dos Direitos Humanos.

Palavras-chave: Formação Policial; Segurança Pública; Direitos Humanos.

Introdução
O clamor social por uma polícia mais eficiente e protetora dos direitos
humanos é patente. E dentro do contexto atual da Segurança Pública, a formação
policial deve receber destaque e atenção de todos os segmentos da sociedade, não
mais somente dos que fazem as instituições policiais. A segurança pública passou a
ser um tema complexo e analisado sob a ótica das mais diversas camadas da

1
Capitão da Polícia Militar de Pernambuco, Doutorando do Programa de Pós-graduação em
Educação (PPGE) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e-mail
benoni_pmpe@yahoo.com.br
2
Professora da UFPE, membro do Núcleo de Formação Continuada Didático-Pedagógica dos
Professores da UFPE (NUFOPE) e membro colaborador do Centro de Intervenção e Integração
Educativa (CIIE) da Universidade do Porto (U.Porto), e-mail katiamcramos@gmail.com

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sociedade principalmente tendo em conta a transição paradigmática que aponta
para uma redefinição da atividade de policiamento e reflexão sobre a reforma da
polícia e a formação de seus profissionais no sentido mais protetor dos direitos
humanos.
É nessa perspectiva que o presente estudo se insere. E para dar conta do seu
propósito, na primeira seção trataremos dos estudos a respeito das concepções
sobre as atividades de policiamento na perspectiva da proteção dos direitos
humanos. Na segunda, apresentaremos a perspectiva curricular da formação do
Oficial da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) na sua relação com os conteúdos
relacionados com a atividade de policiamento e direitos humanos. Por fim, na
terceira seção, traremos dados de uma pesquisa junto a Oficiais Subalternos
atuantes das unidades operacionais, evidenciando desafios para uma reformulação
curricular perspectivada em função do caráter educativo e protetor dos direitos
humanos, que devem ser inerentes à formação policial.

1. Concepções sobre as atividades de policiamento na proteção dos direitos
humanos
Nas origens das atividades de policiamento percebemos que se trata de uma
atividade das mais antigas. Segundo os trabalhos de Bayley (2002) sobre os
padrões de policiamento, já no ano cinco a.C., em Roma, os governantes definiam o
policiamento público como aquele designado através de uma polícia com
responsabilidade de manter a Ordem Pública.
A polícia nos moldes atuais tem suas origens no século XIX, passando pela
experiência de reorganização do aparelho policial em Londres, criada para atuar no
controle social, de natureza equilibrada entre militar e civil. No mesmo século, foi
criada nos Estados Unidos nos moldes da hierarquia militar. As polícias militares no
Brasil têm seu surgimento também neste século, embora se tenha registro da força
militar de patrulhamento, no ano de 1775. No caso da PMPE sua origem remonta ao
início do Império, com a criação de um Corpo de Polícia, tendo como incumbência
manter a tranquilidade e a segurança pública, respondendo pela estabilização da
paz social.
É importante notar que a perspectiva de manutenção da ordem pública se

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perpetua ao longo dos tempos. O policiamento ostensivo é entendido como
exclusividade da Polícia Militar para o cumprimento de suas missões, legitimando
sua ação tanto nas atividades preventivas quanto nas repressivas, quando assim for
preciso.
O pesquisador francês Monjardet (2003, p.299), levanta a reflexão em torno
das atividades de policiamento a serviço dos valores da sociedade democrática,
chega à

seja mediatizada, ou seja, reinserida na sociedade democrática na construção
permanente da ordem social.
Discutindo o policiamento moderno, Tonry e Morris (2003, p.428) afirmam que
-se à preservação da paz, isto é, à manutenção de uma forma
de fazer as coisas, em que as pessoas e propriedades estão livres de interferência
não ju
numa nítida idéia de consistência em tratar das questões que envolvem a segurança
na sociedade, agregando ao policiamento valores maiores do que a simples
presença, pois deve promover a continuidade da paz, livre de ameaças, ou seja,
promotora dos direitos humanos.
Todavia, como atualmente é concebido, vem falhando no controle e na
prevenção do crime, pelo fato de se resumir em aplicar a lei de forma profissional,
defendendo que o policiamento deve ser entendido como atividade profissional que
venha a fortalecer os laços com a comunidade. No seu ensaio, Tonry e Morris (2003)
acrescentam que a atividade de policiamento deve englobar a preservação da paz,
garantindo segurança às pessoas, seus direitos e sua propriedade.
Percebe-se assim, a preocupação com o reducionismo na definição de
policiamento, para que suas atividades não se limitem apenas às respostas da
polícia aos cometimentos de ilicitudes, mas sim às ações voltadas para promoção da
paz social e proteção dos direitos inerentes à pessoa humana. O debate acerca da
atividade de policiamento ganha um enfoque próprio na discussão promovida nos
estudos de Brodeur (2002) acerca das questões entre um policiamento de reação,
prevenção e manutenção da ordem desenvolvida pelas forças policiais modernas,
instituídas há um século, e um policiamento orientado para administração e

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minimização dos riscos a ser desenvolvido por uma força policial contemporânea.
Para Goldstein (2003) o bom policiamento é aquele desempenhado pela
polícia de modo a combater incansavelmente aos crimes e, ao mesmo tempo, estar
dentro da lei, além de proteger os direitos dos cidadãos. O trabalho da polícia deve,
portanto, ser baseado no equilíbrio das relações entre polícia e uma sociedade livre
e democrática. Debate fortalecido por Balestreri (2003) que aponta para
caracterização do policial como agente de segurança pública, como atributos de
ouvidor social, tratando da perspectiva de afirmação de um novo paradigma de
segurança pública.
Nesse contexto, a formação policial tem lugar de destaque por constituir-se
lugar privilegiado de onde emanam os padrões de policiamento e políticas de ação
policial, no sentido de cumprir a missão constitucional, manter a ordem pública e
garantir a paz social.

2. Perspectiva curricular na formação do Oficial da PMPE
A formação do Oficial da PMPE é realizada na Academia de Polícia Militar do
Paudalho (APMP). O Curso de Formação de Oficiais (CFO/PM) é reconhecido como
de nível superior. Em termos curriculares, sua última atualização ocorrida no ano
2002, deu-se através da Comissão Permanente de Validação de Currículo,
composto por membros internos da PMPE
Na oportunidade do primeiro momento da pesquisa, a APMP passava por um
processo de integração, passando à condição de Campus de Ensino da Academia
Integrada de Defesa Social (ACIDES). No ano de 2008, foi credenciada como
Instituição de Nível Superior, passo considerado importantíssimo na construção de
uma política educacional na formação dos profissionais de segurança pública no
Estado de Pernambuco.
É importante notar que esta nova relação entre os operadores de segurança
pública e os profissionais da área do ensino superior tende a render frutos
imensuráveis. Na experiência americana acerca desta relação, trazida por Goldstein

pessoal da polícia, e neles se matricularam milhares de policiais que aspiravam a
ro que, esta proximidade, além de benéfica,
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trará consigo a pesquisa e o estudo mais avançado em torno da própria natureza do
trabalho e a formação profissional do policial.

3. Caracterização do Currículo do CFO/PM
A malha curricular do CFO/PM dividiu-se em três etapas bem definidas
durantes os anos de formação profissional, sob a coordenação disciplinar e
pedagógica da APMP. As distribuições das cargas horárias por ano podem ser
observadas na tabela abaixo, bem como a relação entre as disciplinas que envolvem
o estudo do policiamento executado pela PMPE e o total da carga horária ministrada
no aludido curso de formação.
Tabela - Distribuição da Carga Horária (CH) do CFO/PM, relacionando-a com as
disciplinas atinentes ao estudo do policiamento, referente às turmas de
formação nos anos de 2004, 2005 e 2006.
Estudo do Policiamento CH ANUAL
Ano % CH Anual
(h/a) (h/a)
1° 285 1215 23%
2° 390 1230 32%
3° 555 1095 51%
Total dos 03 anos 1230 3540 35%
Outras Disciplinas 2310 65%
Fonte: Divisão de Ensino da APMP.

Constata-se, nesta tabela acima, que a grande concentração do estudo sobre
policiamento dar-se-à no terceiro e último ano do curso, consolidando os conteúdos
traçados para os anos anteriores e relacionados com o tema, representando 51% da
carga horária relativa àquele ano letivo.
No cômputo geral, as disciplinas cujos conteúdos são relacionados com as
atividades de policiamento que serão desenvolvidas, acompanhadas ou planejadas
pelo futuro Oficial da PMPE representam 35% da carga horária total do curso de
formação.
Verificando os conteúdos das disciplinas, identificamos aquelas relacionadas
diretamente com a natureza do policiamento ensinado na formação policial,
excluindo as disciplinas que tratam das leis penais por entender, de forma análoga
ao raciocínio de Muniz (2001), que tais ensinamentos são limitados, no que se refere
às estratégias de ação e execução do policiamento.

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Neste contexto, destacamos as disciplinas de Policiamento Ostensivo I, II e III,
as quais se desenvolvem ao longo dos três anos, perfazendo o total de 390 h/a,
iniciando com o estudo teórico inicial da atividade de policiamento, a começar pelo
fundamento básico até as estratégias de policiamento, antes de desenvolver os
conteúdos de procedimentos em ocorrência e as técnicas de abordagem policial.
Em termos de direitos humanos, os cadetes tiveram a oportunidade de
trabalhar a temática no primeiro ano de formação, representando 30 horas-aula de
estudos, tratando das questões ligadas ao direito internacional humanitário e
princípios dos direitos humanos, relações de respeito à diversidade, debate sobre a
olícia e os direitos humanos e visitas de estudos, mas sem relacionar diretamente
com a prática do policiamento.
É a partir do segundo ano de curso que percebemos a inserção de um nível
mais ampliado de disciplinas presentes no primeiro ano e outras disciplinas que se
relacionam com a forma de pensar e agir em termos de policiamento, entre as quais:
Sociologia do Crime e da Violência e Fundamentos de Polícia Comunitária. Já no
terceiro, as disciplinas terminam seu ciclo de complexidade, como no caso de
Policiamento Ostensivo III, contudo, deveriam se relacionar com as disciplinas de
Planejamento Operacional de Policiamento Ostensivo, Sistema de Segurança
Pública no Brasil, Abordagem Sócio-Psicológica da Violência e Gerenciamento de
Crises, que oportuniza o discente a entender a natureza do policiamento, do crime
como fenômeno psicossocial e conhecer os estudos sobre segurança pública na
contemporaneidade.

4. Caracterização da pesquisa de campo
As entrevistas foram realizadas junto a 09 (nove) Oficiais formados nas
turmas dos anos de 2004, 2005 e 2006 - alvo das últimas alterações curriculares
promovidas pela Corporação sendo 03 (três) de cada turma, dentre aqueles
atuantes no policiamento há pelo menos dois anos. Os sujeitos foram escolhidos por
representar a base do oficialato que se envolve diretamente nas ações de comando
das atividades de policiamento, agindo também como gestores operacionais das
ações e desdobramentos do trabalho da polícia.
Na parte da entrevista sobre a natureza do policiamento notamos que os

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tenentes detêm uma visão legalista acerca dessas questões, afirmando
categoricamente que é de características ostensivas, atuando na prevenção, mas,
nessa parte, sem fazer menção à proteção dos direitos humanos. Tanto que, na
grande maioria das entrevistas, ficou evidente que o atual foco da atuação do
trabalho policial é o policiamento repressivo, atuando nas ocorrências e na redução
de índices de violência, como se vê na e

No que se refere ao sentimento de preparo profissional para atuar nas
atividades de policiamento ao qual está submetido na Instituição Policial Militar,
encontramos de forma predominante a sensação de que os militares estaduais se
sentem preparados, mas com pouca prática de vivência policial, mas que, ao passar
do tempo, advêm à segurança almejada na execução das atividades de

-me preparado, no curso temos o norte, a segurança vem com
o pós-
Quando tratamos acerca da visão deles em torno do nível de formação que
tiveram no CFO/PM, em termos de suas atuais atividades de policiamento, os
Oficiais apresentaram uma harmonia interessante deixando a sensação de que o
CFO/PM foi uma atividade pedagógica muito proveitosa em termos de
aprendizagem, fazendo inclusive referencias comparativas interessantes, tais como
a nenhum outro na área de
uer outro

Apesar disso, a metade dos entrevistados deixou a entender que, embora
classifiquem o aludido curso como de bom nível, a parte prática concernente à
aplicabilidade dos conhecimentos teóricos e práticos estudados na Escola de
Formação, exatamente no cotidiano das atividades de policiamento desempenhadas
pelos Oficiais nas próprias Unidades Operacionais, o que representa a realidade do
trabalho da polícia, deixou a desejar nesse ponto, como podemos comprovar nas
seguintes afirmativ -a-

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Quando os entrevistados se viram à frente das questões que envolviam os
conteúdos estudados durante sua formação, refletindo sobre aqueles que julgavam
mais importantes diante das atividades atuais de policiamento, a tendência
majoritária foi apontar as disciplinas voltadas para o campo do conhecimento
operativo, tais como policiamento ostensivo (abordagem policial) e tiro policial, mas
sem se esquecer afirmar a imprescindível necessidade de relacionar estas
disciplinas com as do conhecimento cognitivo das áreas de direito e gestão
operacional e administrativa, como pode se constatar nas passagens a seguir:
údos práticos, abordagem, tiro e modalidades de policiamento, por

aulas de abordagens a edificações, veículos e pessoas, que é o que fazemos
diariamente, junto a parte de

Nesta linha da entrevista, ficou bem caracterizada, por unanimidade, a
importância de aliar as disciplinas de natureza teóricas às de natureza práticas,

pol
Excetuando-se um dos entrevistados, quando o assunto foi relacionado à
insuficiência ou não contemplação de conteúdos julgados indispensáveis, na visão
profissional de cada um, mas com foco na atividade de policiamento, o alvo maior da
totalidade das entrevistas foi exatamente a falta de aproveitamento das
oportunidades de estágios durante a vida acadêmica e de exploração dos momentos
destinados a essa prática. Nas entrevistas, era possível notar a ênfase e as
expressões corporais ao falar deste tema, das quais destaco as seguintes: (OF.1)

a prática
cotidiana do Oficial, o EHP3
conteúdos importantes, deveríamos ir mais às Unidades Operacionais para aliar a

3 Estágio de Habilitação Profissional refere-se ao período em que o cadete em formação é alocado numa
OME para desenvolver a prática supervisionada das futuras atribuições do Oficial de Carreira (QOPM).

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dos discentes.
Verificamos ainda a preocupação de alguns tenentes com a prática de

sistêmica
relação entre a parte de direitos humanos e a parte de policiamento ostensivo geral,

pedagógico, agora na articulação das disciplinas.
Na parte final da entrevista, notamos as mais diversas percepções em torno
da sua prática de policiamento, os Oficiais Subalternos apresentaram apenas um
elemento em comum quando estimulados a testemunhar como se vêem nesta
atividade profissional, que fora justamente o fato de que se constituem os policiais
com características de estarem à frente das situações, na condição de
à
estar à
No âmbito da pesquisa foi interessante relacionar a atividade de policiamento
com a sociedade, pois quando pedimos para expressar sua percepção acerca do
policiamento esperado pela sociedade, parte dos entrevistados demonstrou um
pensamento de que a sociedade não aceita ser abordada ou deseja nossa constante

Outra parte dos entrevistados, por sua vez, mostrou-se mais perspicaz ao
-ativo, não apenas repressivo, com uma
, entendendo o lado
spera um bom atendimento, respeitador e

Um dos entrevistados levantou a tese de que a visão da sociedade sobre a
-formada da polícia,
resquícios antigos, mas ela espera
andamento da entrevista, numa perspectiva de tentativa de justificativa pela não

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proximidade da polícia, nos dias atuais.

5. Perspectivas e desafios na formação dos Oficiais da PMPE
Da análise que se pode fazer do currículo na formação do Oficial da PMPE,
observa-se que policiamento ensinado não se alinha bem com a execução oferecida
na ponta pela polícia, apresentando-se como proposta ainda legalista e distanciada
da prática. Como apresentou Poncioni (2005) em seus estudos, a postura legalista
resumida não tem surtido muitos efeitos positivos dentro da atual realidade social,
sendo indispensável repensar o papel de polícia no cenário da segurança pública,
sob pena de formarmos policiais simplistas e irreais, descartando a essência do
aprendizado.
Quando pesquisamos em torno das origens e definições do trabalho de
polícia, pudemos constatar nos estudos de Bayley (2002) e Monjardet (2003) o
quanto é antiga a perspectiva da manutenção da ordem pública, mas, embora as
atividades de policiamento desenvolvidas pelos policiais militares pareçam óbvias,
elas se revestem de extrema complexidade frente aos avanços da nossa sociedade
democrática, e o que mais chama a atenção é a dificuldade apresentada pelos
gestores em operacionalizar esta mudança, como verificou também Mesquita Neto
(2004) em suas análises.
Ficou bem caracterizado o sentimento do preparo policial, mas não o
direcionamento deste sentimento em termos de policiamento. Obviamente, o
conceito em si do trabalho policial, em termos da natureza do policiamento
repressivo ou preventivo é muito importante, pois reflete diretamente na sua prática
de ação. Tudo bem que, como diria Kahn (2002), a percepção destes profissionais
em torno da necessidade de agir de forma preventiva para combater o crime já se
constitui num grande avanço, contudo, é preciso que, já na formação, o policial
entenda que a essência do policiamento ostensivo é a prevenção, a causa deve ser
combatida com ações efetivas e duradouras, embora se saiba que a repressão é
igualmente necessária, e as conseqüências devem ser remediadas. Isto precisa ser
estudado, discutido e incrementado na formação.
Como notou Bayley (2002), é possível na mente desses jovens Oficiais, mas
lhe faltam oportunidade e liberdade de exercitar. A ótica da prevenção dos delitos,

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com a polícia trabalhando ativamente e próxima da população, já está permeando o
pensamente deles, contudo, ainda um pouco desordenado.
É imprescindível notar, portanto, que a base de formação do policial
consubstancia-se num elemento fundamental neste processo de mudança de
filosofia de policiamento, como pudemos aprender no trabalho coordenado por
Ratton e Barros (2007, p.267):

Embora a polícia tenha sido instituída para atuar muito mais como força
repressiva do que preventiva, ou seja, atuando na ótica da punição do que
da prevenção, os novos paradigmas constitucionais têm exigidos processos
de redefinição tanto no modelo de gestão, quanto dos processos de
formação, de regulamentação da ação policial e de controle social.

Não adianta, por exemplo, implantar qualquer filosofia de trabalho preventivo,
sem antes preparar uma formação focada para atuar nesse policiamento. Revisitar o
currículo constitui-se num ponto crucial do processo evolutivo do trabalho policial,
principalmente em se tratando dos futuros gestores operacionais. Constatamos isso

o policial venha a ter esse papel na comunidade é necessário um amplo programa
de treinamento e de conscientização, não só do policial, mas também de toda a linha

6. A formação policial na perspectiva de debate educacional
Poncioni (2005, p. 592) destaca uma discussão importante acerca da
formação e o trabalho
adquirido para o desempenho do trabalho policial nos bancos das academias e a

tratar o trabalho da polícia de forma simplista, e quando o assunto é a formação
profissional do policial, é preciso enxergar a sua complexidade.
O desafio de debater currículo é muito grande, mas deve ser enfrentado com
muita pesquisa e profissionalismo. Atualmente, percebemos uma crescente
enfatização de concepções curriculares mais abertas e flexíveis, centradas em
processos de gestão das aprendizagens adequadas às finalidades e aos que se
destinam, por oposição ao currículo como listagem rígida de conteúdos, conforme

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nos ensina Roldão (2003).
Como vimos anteriormente, a distribuição da carga horária do estudo do
policiamento é gradativa. Contudo, em termos de conteúdos abordados, não
observamos a presença desta gradação, pois o discente praticamente não estuda as
correntes teóricas e experiências em policiamento e tem apenas uma oportunidade
de refletir e debate as questões ligadas aos direitos humanos, além da ausência de
articulação entre eles, apontando para necessidade de revisar criteriosamente o
currículo e seus propósitos.
É óbvio que estamos tomando como referência as competências e
habilidades pretendidas para o futuro policial, dado os desafios da sociedade
contemporânea, e a formação enquanto processo educativo, que deve agregar
conteúdos, valores, atitudes e experiências de forma crítica para execução de suas
atividades. É um propósito que se aproxima do esforço de outras áreas, como a
Pedagogia, na busca de afirmar o Plano Nacional de Educação em Direitos
Humanos, que, como nos diz Dias e Porto (2010, p.29), seu objetivo principal "é a
difusão de uma cultura de direitos como forma de prover sustentação às ações de
promoção, proteção e defesa dos direitos humanos".
No seu estudo sobre o modelo policial e sua formação, Poncioni (2005)
destaca a importância da formação nas academias de polícia para a construção da
identidade profissional, como etapa que faz considerável diferença para a vida
profissional. E o momento de busca na formação, o desenvolvimento de valores da
profissão bem como das competências e habilidades para o campo de trabalho
policial. Ele precisa, então, entender o que é ser policial num determinado modelo de
policiamento, cuja essência permeia a proteção social.
De forma bem categórica, os sujeitos do presente estudo, Oficiais formado na
APMP, atestaram o desejo de aproximação, enquanto antigo discente, com sua
futura atividade de policiamento. O planejamento de um curso de formação,
principalmente numa área como a segurança pública, deve se preocupar com esta
maior interação do formando com os integrantes de sua futura Instituição e, por que
não, da sociedade, seu objeto de proteção, atuando como sujeito ativo no processo
formativo.
Nos seus estudos sobre o ensino policial, Lima et. al. (2006) aponta que

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planejar a atuação de maneira flexível permite uma adaptação às necessidades dos
alunos. É preciso, assim, ir além da execução das atividades de estágio
supervisionado, o ideal é justamente o acompanhamento disciplinar dos docentes
nestas atividades contextualizadoras do conhecimento teórico ensinado na escola de
formação, devendo, para tanto, promover atividades que permitam relação direta
com o conteúdo trabalhado.
No que se refere à proteção aos direitos humanos - debate bem atual da
sociedade contemporânea - ficou evidenciada a carência da relação interdisciplinar
do tema com as disciplinas responsáveis por desenvolver a capacidade de realizar
policiamento. Se considerarmos a relevância de se desenvolver um trabalho de
integração dos conteúdos das disciplinas que tratam do policiamento com as outras
importantes áreas do conhecimento para atividade policial, sem dúvida, trazer os
avanços na área de direitos humanos para o debate de realizar o policiamento
ostensivo e preventivo é imprescindível para uma melhor formação policial. Candau
e Sacavino (2010, p.128) nos ensina a respeito do princípio da integração que:
Os temas e questões relativas aos direitos humanos devem ser integrados
no desenvolvimento das diferentes áreas curriculares [...] Não se trata de
incluir novas disciplinas ou unidades didáticas [...] O desafio está em
integrá-los tato no plano cognitivo, quanto afetivo e comportamental no dia a
dia das escolas em suas diferentes dimensões.

Em síntese, relacionar as teorias trabalhadas nas disciplinas a cada momento
da formação policial com a prática das ações, em termos de policiamento, e integrar
os conteúdos nos planos cognitivos, afetivo e comportamental, trata-se de atividade
pedagógica indispensável. Nesta pesquisa, ficou esse alerta, que nos parece indicar
a necessidade de revisitar o currículo numa perspectiva de inclusão de uma política
de proteção dos direitos humanos na atividade de policiamento.
Numa passagem de sua obra sobre a polícia e os direitos humanos, Balestreri
(2003, p.14) entende o policial como um legítimo educador por meios de suas
atitudes e comportamentos, afirmando que:

É por esse caminho, da busca de paradigmas novos no campo a formação
do agente, que gostaria de fazer um primeiro bloco de afirmações: na
qualificação da prestação de qualquer tipo de serviço, a qualificação do
servidor tem primazia, antecedendo e transcendendo até mesmo as

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condições objetivas que se lhe oferecem para trabalhar.

Por fim, é importante notar que a afirmação do paradigma preventivo exige
um novo enfoque da atuação policial e, consequentemente, da sua formação, cujo
papel apresenta-se como decisivo neste momento transformativo. Dessa forma, a
criação de uma estrutura organizacional capaz de permitir maior integração social
para resolução dos problemas da insegurança pública requer mudanças na forma de
agir, ser e atuar do policial, voltada para aprimoramento de suas ações e, assim, dar
conta de sua missão institucional: a prevenção dos delitos e proteção dos direitos
humanos.

Considerações Finais
Destacamos, novamente, que não teve o propósito de generalizar as
informações e percepções detectadas nos Oficiais Subalternos da PMPE,
entrevistados sobre a natureza do policiamento ensinado na formação, mas sim,
proporcionar subsídios necessários ao debate acerca da construção de política
formativa de seus profissionais de segurança pública voltada para proteção aos
direitos humanos.
Reforçamos também que, assim como foi percebido por Caruso et. al. (2007),
é preciso discutir a realidade da polícia com seus próprios integrantes, no interior de
sua instituição, e assim, romper com os pré-conceitos, construindo um ambiente
propiciador de diálogo ativo. Para, assim, ser capaz de permitir aos seus integrantes
falar abertamente de seus dilemas, inquietações e desafios na formação do
profissional de segurança pública e no estabelecimento de uma política de
policiamento mais voltado para proteção dos direitos humanos.
Nesse sentido, ficou evidenciado que é imprescindível promover o debate
curricular sem perder de vista os temas atuais em torno do trabalho policial e a
formação de seus profissionais. Dessa forma, é igualmente importante refletir sobre
o requisito de ingresso na carreira. A graduação em Direito, por exemplo,
possibilitaria focar mais a matriz curricular da formação profissional na atuação
policial, considerando que o cadete já entraria qualificado no que se refere aos
conteúdos jurídicos.

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DOUTRINAL
Revista doutrinária da Polícia Militar de Pernambuco

Artigo publicado no Vol.03 Nº01 - Edição de JAN a JUN 2014 - ISSN 2318-3152 -
Versão on-line disponível em: http://www.portais.pe.gov.br/web/pmpe/revista-doutrinal
Entretanto, a revisão dos parâmetros curriculares deve romper com pré-
conceitos e paradigmas, estendendo este debate em fóruns interdisciplinares,
permitindo o diálogo entre policiais e profissionais de ensino na construção de
políticas educacionais para formação dos profissionais de segurança pública.
A pertinência do debate permanente acerca da formação dos Profissionais de
Segurança Pública, pelo seu caráter dinâmico, perspectivada na atuação preventiva
e educativa é notória. As atividades futuras de policiamento a ser desempenhadas
pelos futuros policiais devem se alinhar à realidade da nossa sociedade
contemporânea.
O avanço das ações formativas é fundamental. O enfrentamento de desafios
nesse debate - em construção - na perspectiva de efetivar políticas de policiamento
em proteção aos direitos humanos, no âmbito das Academias de Formação dos
Policiais, faz parte da caminhada pela formação profissional do agente de
Segurança Pública voltada para atender os anseios da sociedade contemporânea. E
trilhar o ensino policial no compromisso de qualidade, em busca do maior objetivo da
função policial: a paz social e proteção dos direitos humanos.

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