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REPRESENTANDO CORPO E VIOLÊNCIA

A invenção da “violência doméstica”


em Timor-Leste*

Daniel Schroeter Simião

* Uma versão preliminar deste texto foi originalmen- Em maio de 2002, após quatro séculos de
te apresentada no Seminário Temático “Corpo, colonização portuguesa, 24 anos de ocupação
Sexualidade e Identidade” do 28º Encontro Anual militar indonésia e quase três anos de administra-
da Anpocs. Agradeço os comentários dos colegas ção das Nações Unidas, Timor-Leste emergiu
do Seminário, especialmente de Maria Filomena
como país autônomo no cenário mundial. A parte
Gregori, Sérgio Carrara e Júlio Assis Simões. Este
texto é resultado de parte de minha pesquisa de
mais recente desta história começa em setembro
doutorado, para a qual contei com bolsa de estu- de 1999, quando um referendo realizado por uma
dos da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento missão das Nações Unidas revelou que quase 80%
de Profissionais de Ensino Superior) e do CNPq da população timorense era contrária à proposta
(Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecno- de tornar o território uma província autônoma da
lógico). Agradeço a meu orientador, Luís Roberto República Indonésia. O referendo, resultado de
Cardoso de Oliveira, e a minha colega Kelly Cris- anos de negociação política e resistência armada,
tiane da Silva pela constante interlocução de que tornou insustentável a presença indonésia no ter-
resulta o material aqui apresentado.
ritório. Sua retirada, porém, não se deu sem gran-
des conflitos. Grupos milicianos favoráveis à inte-
gração de Timor-Leste à Indonésia deflagraram
uma campanha de terror que resultou, em um
período de menos de duas semanas, na destruição
de 70% da infra-estrutura física do território e na
Artigo recebido em janeiro/2005 morte de cerca de um terço da população nativa.
Aprovado em fevereiro/2006

RBCS Vol. 21 nº. 61 junho/2006


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Ao desastre de 1999 seguiram-se duas grandes se devia a um aumento real nos casos – os mari-
missões das Nações Unidas para a reconstrução do dos não se tornaram subitamente mais violentos
país – a missão pacificadora (Interfet) e a adminis- de um ano para o outro. Devia-se, diziam, a uma
tração transitória (Untaet). Esta última foi reconhe- maior estrutura para denunciar tais agressões.
cida internacionalmente como um marco nas mis- Assim, muitas mulheres que antes não denuncia-
sões da ONU – era a primeira vez que as Nações vam seus casos por falta de ter a quem recorrer,
Unidas tomavam a si a montagem dos poderes agora viam um caminho para tornar pública sua
Executivo, Legislativo e Judiciário de um país em dor, caminho aberto pelas campanhas de sensibi-
formação. Foi também responsável por um enorme lização e pelo aparelhamento do poder público.
afluxo de pessoas, recursos materiais e financeiros, É possível que, em parte, isto seja verdadei-
projetos, princípios e valores para o território. ro. Há, contudo, uma dimensão anterior que pre-
Com o fim da Untaet e a restauração oficial cisa ser considerada para se compreender muitos
da independência da República Democrática de dos fenômenos relacionados a este aumento das
Timor-Leste, em 20 de maio de 2002, os holofotes denúncias. Para que haja uma denúncia não basta
da mídia internacional tornaram-se bem mais haver quem a receba. É preciso antes haver um
modestos no país. Mas se hoje Timor-Leste saiu caso de “violência doméstica” a ser denunciado,
do palco em que circulam mensagens e valores isto é, é preciso que um gesto de agressão seja per-
internacionalizados, este palco não saiu de Timor- cebido como atitude intolerável por parte de
Leste. É impressionante como um universo de alguém, percebido como violação e como violên-
valores internacionais circula pelo país, em espe- cia.
cial pelas ruas de sua capital, Dili. Conceitos, O aumento do número de denúncias deve
valores, modos de pensar e estar no mundo pró- ser analisado, assim, dentro do processo de cons-
prios de ideologias globalizadas fazem-se presen- trução de uma narrativa de gênero que altera a
tes com a mesma força e vigor que formas muito forma como a corporalidade é vivida em grande
particulares de se organizar a vida cotidiana. parte do país. Gestos e atitudes em relação ao
Uma das dimensões mais marcantes dessa corpo usualmente tidos como naturais tornam-se
presença está nos projetos em curso para a afir- atitudes de violência. A criação dessa nova forma
mação da igualdade de gênero. Em novembro de de significar dimensões do corpo (e, de modo
2002, apenas em Dili, dezesseis organizações não- mais incipiente, da sexualidade) implica o estabe-
governamentais desenvolviam ações em favor da lecimento de ligações delicadas com outras repre-
igualdade entre homens e mulheres. Uma parte sentações existentes, percebidas como marcado-
considerável desses projetos dirigia-se ao comba- ras de identidades locais – aquilo evocado como
te à violência doméstica, sendo este o propósito “a cultura” (budaya) ou os “costumes” (adat, em
de um programa do Fundo das Nações Unidas indonésio, lisan, em tétum) timorenses. Nesse
para as Populações (FNUAP/UNFPA) em parceria sentido, a construção de um discurso postulante
com o governo local, que destinava quase 300 mil da igualdade de gênero e o conseqüente proces-
dólares a campanhas de prevenção e combate a so de criação das condições para que a agressão
este tipo de violência. física intrafamiliar seja qualificada como “violên-
De fato, entre 2001 e 2002 cresceu conside- cia doméstica” podem ser entendidos como um
ravelmente o número de denúncias contra violên- processo de construção de narrativas sobre a
cia doméstica em Timor-Leste. Entre os atendi- identidade nacional.3 Por meio dos conflitos pro-
mentos feitos pela Polícia Nacional de Timor-Leste vocados pela afirmação desse novo tipo de narra-
(PNTL), os casos de violência doméstica ocupa- tiva de gênero podem-se ver disputas entre dife-
vam o quinto lugar em 2001,1 representando 8% rentes projetos de construção nacional,
das ocorrências em todo o país. No ano seguinte, especialmente em torno de três eixos centrais:
esta participação praticamente dobrou, chegando corpo, gênero e justiça.
a 15% e empatando com “furto” no segundo lugar Neste texto, proponho-me a explorar os dois
do ranking de ocorrências policiais.2 As organi- primeiros eixos. Analiso o encontro entre um con-
zações de mulheres consideravam que isso não junto de ações do poder público e da sociedade
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civil, preocupado em combater aquilo que cha- A violência em si não é percebida


mam de “violência doméstica” em Timor-Leste, como problema
com algumas formas locais de viver e pensar
sobre o corpo e a violência. Apresento inicial- No relatório final de uma pesquisa qualitati-
mente alguns dados sobre a violência doméstica va sobre justiça tradicional, que ouviu em pro-
em Timor-Leste e suas relações com modos de fundidade relatos de 25 mulheres que passaram
ver e pensar sobre corpo, família e educação. Em por experiências variadas de violência doméstica,
seguida, enfoco algumas das políticas públicas o IRC (International Rescue Committee) aponta
que o Estado timorense e as organizações da uma particularidade das formas tradicionais de
sociedade civil vêm implementando no sentido julgamento. Segundo o texto, “um administrador
de criar uma sensibilidade contrária à violência de justiça resolve os casos focando os eventos
doméstica no país. Ao chocar-se com muitos dos que ocorreram antes do ato de violência. Seja
saberes locais sobre corpo e gênero, essas políti- quem for que seja visto como culpado durante
cas criam reações curiosas, de oposição e síntese, aquele período será então culpado pela violência
expressivas de uma modernidade timorense. Creio [...] poderá ser o acusado, a vítima ou ambos”
que entender melhor como esses choques operam (IRC, 2003b, p. 3). A preocupação de um lia
é uma forma de lançar luzes sobre dilemas mais na’in, operador da justiça tradicional, ao ouvir os
gerais da recriação do Estado e da sociedade civil relatos das partes é a de recuperar as atitudes
em Timor-Leste. anteriores à agressão e inseri-las em seu contexto
original, buscando entender quem provocou o
quê até chegar ao ato de agressão em si.5 Assim,
Desnaturalizar uma categoria: ato de o agressor não é, de antemão, culpado pelo gesto
agressão ou atitude de violência? de violência.
Tal postura das formas tradicionais de justiça
Mesmo com o aumento de denúncias verifi- é criticada no relatório do IRC por nelas não se uti-
cado de 2001 para 2002, tanto a polícia como as lizar o princípio, orientador da justiça de Estado, de
organizações de mulheres em Timor-Leste reco- que a violência doméstica é crime, independente-
nheciam que as queixas que chegavam a ser regis- mente da intenção do agressor. Assim, enquanto
tradas eram apenas uma pequena parte dos casos para o direito positivo uma determinada atitude de
que poderiam ser classificados como “violência violência é sempre condenável, para a sensibilida-
doméstica” (Untaet, 2002; GPI, 2003a). Isso ocor- de jurídica de grande parte das aldeias timorenses
ria não só porque a maior parte dos conflitos ten- um gesto de agressão, por mais intencional que
dia a ser resolvida por mecanismos tradicionais de seja, não é, em si, motivo para condenar alguém.6
mediação e justiça,4 mas também pelo fato de que Se para a justiça de Estado “vítima” e “agressor”
muitas mulheres não viam a agressão física como são duas categorias fixas e opostas, isso não acon-
ofensa a algum direito (por exemplo, à integrida- tece necessariamente nos processos alternativos
de física) e, portanto, como motivo de queixa. de resolução de disputas.7 Em lugar de um sistema
Conhecer a situação da violência doméstica classificatório dual (vítima versus agressor), os ope-
em Timor-Leste exigia, portanto, dar um passo radores destas formas locais de justiça utilizam um
atrás em relação às estatísticas. Antes de buscar a sistema de ao menos quatro categorias (agredido
incidência desse tipo de violência era preciso versus agressor, vítima versus culpado) em que, a
observar o que se definia, localmente, como tal: depender do histórico do relacionamento entre as
que percepções existiam sobre o ato de agressão partes, o culpado pode ser o agredido.
interpessoal e como isto se relacionava com os Entre outras coisas, isto nos diz que, para
sentidos de justiça. Algumas pesquisas conduzidas muitas aldeias, o uso da força não tem, por si só,
por organizações não-governamentais (ONGs) nos uma conotação negativa. Não é visto como agres-
últimos quatro anos trazem dados importantes são e, portanto, não se constitui como problema
sobre este aspecto. para o grupo. Usar de força física na relação
interpessoal não é necessariamente uma ofensa e
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pode, em certos contextos, ser até mesmo um marido tem o direito de bater em sua esposa se
dever de quem a utiliza. Essa constatação exige esta o desobedecer.
deixar bem clara a separação analítica entre as O relatório da pesquisa em Covalima afirma
dimensões física e moral do ato de agressão, uma ainda que “em geral, tanto homens quanto
questão bastante explorada por L. Cardoso de mulheres tendem a considerar certas formas de
Oliveira (2002) e, como veremos adiante, de agressão como normais e, por conseqüência, não
grande utilidade para se compreender os senti- vêem tais formas de agressão como situação de
dos da violência em Timor-Leste.8 Assim, mesmo risco, mas como parte normal de um relaciona-
que o uso da força tenha sido percebido por mento” (OCAA, 2003, p. 12). As formas geral-
uma das partes como agressão (um gesto inde- mente aceitas de agressão estão relacionadas à
vido), ele não necessariamente será moralmente punição (física ou não) como modo de castigar
condenado pelo lia na’in. Na recuperação do um comportamento indevido anterior, visto como
contexto da agressão, o que é visto como pro- inadequado.10 As mulheres participantes da pes-
blema passa a ser a ruptura de uma ordem ante- quisa enfatizaram que não aceitam uma agressão
rior.9 Aquele que for responsável pelo rompi- gratuita, mas a análise do contexto que gerou a
mento desta ordem (e que pode ter, com isso, agressão pode resultar na validação do gesto. Nesse
levado alguém a uma reação violenta) é quem sentido, também as mulheres costumam castigar
será considerado culpado. seus maridos, rasgando suas roupas ao lavá-las ou
O uso da força passa, assim, a ser visto propositadamente errando a mão na hora de pre-
como mecanismo de reposição da ordem no parar uma refeição.
domínio das relações interpessoais. Pode ser, por- Recuperando então a separação entre as di-
tanto, uma ferramenta legitimada socialmente mensões física e moral da agressão, percebe-se que
para regular relações na comunidade e seu uso um ato de uso da força, mesmo podendo ser senti-
legítimo está longe de ser considerado um mono- do como agressão física por parte de quem o sofre,
pólio do Estado. pode não ter maiores implicações no plano moral –
pode não ser percebido como insulto e, portanto,
não gerar ressentimento (Cardoso de Oliveira, 2002).11
Violência e gênero: visões do corpo O que definiria a percepção de uma agressão como
uma ofensa moral seria a leitura feita por uma das
Outra pesquisa, conduzida por uma ONG partes acerca da intencionalidade da outra. De certa
australiana com grupos focais em todos os subdis- forma é isto que está sendo enunciado por homens
tritos do Distrito de Covalima e da qual tive a opor- e mulheres de Covalima, ao identificarem na inten-
tunidade de participar, traz informações importan- ção supostamente educadora do uso da força um
tes sobre como a lógica da agressão justificada elemento de atenuação do significado moral do uso
opera em conjunto com algumas representações da força.
de gênero naquele distrito (OCAA, 2003). De fato, aquilo que tendemos a chamar de
Em dois dos subdistritos os grupos focais violência e adjetivar negativamente no imaginário
foram unânimes em concordar que “um homem moderno ocidental ganha um outro estatuto em
pode bater em sua mulher para ensiná-la” (mane algumas situações do sudeste asiático.12 O uso de
bele baku nia fe’en atu hanorin nia fe’en). Na comportamentos agressivos e a prática da puni-
média geral do Distrito esta frase chegou a 50% ção corporal são, de várias maneiras, encorajados
de aceitação, tanto entre homens como entre como formas de socialização. Essas marcas positi-
mulheres. Essa tendência é confirmada por outra vas da agressão podem ser entendidas como
pesquisa, um survey estatístico realizado entre expressões de diferentes formas de compreensão
outubro de 2002 e fevereiro de 2003 com mulhe- do corpo e de sua função socializadora.
res de todo o país (IRC, 2003a). Segundo o sur- O grau de tolerância para com o que seria
vey, 84% das mulheres concordam que casos de uma agressão justificada costuma estar relaciona-
violência doméstica são assunto para ser resolvi- do a excessos visíveis no corpo. Agressões que
do dentro da família, e 51% consideram que um resultem em sangramento ou seqüelas físicas visí-
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veis tendem a ser menos toleradas.13 Assim, além 2002). Algumas observações devem ser feitas com
da intenção original do agressor, as marcas sobre relação a estes argumentos. Falar da posição das
o corpo não deixam de desempenhar, elas tam- mulheres na estrutura familiar é complicado por
bém, um papel na significação moral do ato de vários motivos. Do ponto de vista analítico, várias
força. A agressão ao corpo, de certa forma, é mais autoras já indicaram que não há muita utilidade
facilmente percebida como violência injustificável em analisar uma posição de sujeito fixada por
caso materialize-se em marcas sensíveis que extra- uma identidade de gênero, uma vez que na dinâ-
polam certos limites. Essa sensibilidade relativa mica das relações sociais os sujeitos não estão
para com a integridade do corpo também é evi- congelados em identidades fixas (de gênero ou
denciada na pesquisa de Covalima. Ao indagar outras), mas articulam identidades variadas, evo-
sobre os riscos de sucessivas gestações para as cadas nas situações e nas relações (Butler, 1990;
mulheres – que costumam ter em média 7,5 filhos Costa, 1994) No caso timorense, em função da
(Unicef, 2002, p. xi), embora seja comum encon- diversidade étnica da ilha, criar uma abstração
trarmos famílias de até doze irmãos – a pesquisa aplicável a todo o país é tão ilusório quanto inú-
revela que os participantes não fazem necessaria- til. Mesmo em Covalima, Distrito relativamente
mente a ligação entre a atividade reprodutiva e a pequeno, as situações em que o gênero faz algu-
saúde do corpo. O risco de uma mulher ter mui- ma diferença nas relações sociais variavam bas-
tos filhos está em não conseguir completar o ser- tante entre os subdistritos conforme predominas-
viço doméstico por ter que cuidar das crianças, o sem grupos Bunak, matrilineares, ou Tétum e
que justificaria uma agressão por parte do marido. Kemak, patrilineares. Ainda assim, alguns traços
O saber médico que na modernidade oci- gerais da organização social dos grupos timoren-
dental construiu uma sensibilização para os cui- ses podem ser reconhecidos e relacionados às
dados com o corpo como condição para o bem- formas como diferenças de gênero são evocadas
estar físico e mental parece não operar em muitas para justificar tratamentos diferenciados a homens
aldeias de Timor. O corpo e seus sentidos pare- e mulheres.
cem ter, mais do que um papel para o bem-estar Timor-Leste possui mais de trinta grupos
individual, uma função na socialização da pessoa. étnicos diferentes.15 Todos adotam um sistema de
É pelo castigo corporal que se educa. Isto é evi- descendência unilinear, majoritariamente patrili-
dente nos relatos de estrangeiros acerca do que near e virilocal – apenas dois são matrilineares
consideram um uso abusivo da violência (uso da (em alguns lugares utilizando-se virilocalidade,
força física e do que consideram situações de em outros a matrilocalidade). A riqueza da noiva
humilhação) nas escolas timorenses.14 O que cha- (barlaque) existe entre todos estes grupos, mas é
maríamos de violência doméstica não está, por- especialmente importante entre os grupos patrili-
tanto, apenas relacionado à posição das mulheres neares, nos quais o pagamento do barlaque per-
na estrutura familiar, mas a certas concepções mite ao casal fixar residência entre o grupo do
sobre a punição corporal como forma de educa- homem. O barlaque, porém, não é condição para
ção e à educação do corpo como um instrumen- que haja casamento. É comum que jovens casais
to a serviço da produção de subjetividades. morem juntos por algum tempo sem o pagamen-
to desta obrigação. Neste caso, contudo, chama-
do de kaben tama (literalmente “cônjuge entra”),
Gênero e diversidade étnica o casal deve morar junto à família da mulher,
somente podendo fixar residência própria, junto
Se é verdade que o uso da força contra ao grupo de origem do homem, depois de acer-
mulheres não se orienta apenas por uma questão tado o pagamento do dote. Isto implica que a
de gênero, por outro lado a posição das mulheres jovem esposa é geralmente “estrangeira”, recém-
na estrutura familiar e a referência a uma “cultura chegada em sua nova casa, devendo prestar obe-
patriarcal” são argumentos constantemente evoca- diência às mulheres mais velhas do grupo familiar.
dos nos discursos e nas práticas de ONGs e Alguns vêem nisso um fator de vulnerabilidade da
governo acerca da violência doméstica (Untaet, mulher ante o cônjuge, que, por ter “pago” o bar-
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laque, se sentiria “dono” da esposa e, portanto, no que aspecto da vida social se está focando.
direito de tratá-la como bem entendesse. Podemos, Nas representações sobre a constituição do
porém, fazer a interpretação inversa, e dizer que o corpo, porém, vê-se que o gênero é um marcador
pagamento do barlaque cria uma rede de prote- operante e, em alguns casos, pode ser base para
ção à esposa. Por ser um compromisso entre fa- discriminação e violência. O comércio local, por
mílias (o pagamento é feito pela família do noivo exemplo, costuma ser considerado uma atividade
à família da noiva), o barlaque enquadra o rela- na qual as mulheres são bem-vindas, desde que
cionamento entre cônjuges em um contexto que não implique grandes deslocamentos.16 A preocu-
vai além da díade formada pelo casal, obrigando pação com o deslocamento indica já uma percep-
os cônjuges a responderem por seu comporta- ção diferenciada sobre a constituição corporal de
mento perante as famílias. A vontade do marido homens e mulheres. Nesse sentido, as mulheres são
estaria assim limitada por uma obrigação social. O vistas como não tendo força suficiente para carre-
que algumas organizações de mulheres afirmam é gar e utilizar armas (a katana) e são, por isso, tidas
que esta seria a intenção original do barlaque, que como vulneráveis nos deslocamentos, não sendo
hoje teria sido corrompida pela primeira interpre- autorizadas a se distanciar de suas aldeias natais.
tação (GPI, 2003a, p. 15). Ainda no campo das representações sobre o
A hierarquia entre gerações é um princípio corpo e a atividade reprodutiva é importante notar
altamente observado e, com certeza, mais impor- que a reprodução é considerada uma responsabi-
tante do que as diferenças de gênero no nível lidade das mulheres – mais do que simples res-
doméstico das aldeias. Assim, a mulher mais velha ponsabilidade, costuma ser tida como dever.
da casa tem um poder considerável sobre homens Apesar dos protestos da Igreja, ainda é comum a
e mulheres das novas gerações. Em um grupo de idéia de que se uma mulher não der filhos ao
mesma geração, a mulher mais velha pode usar os marido, este está socialmente autorizado a buscar
serviços de suas irmãs mais jovens para execução outra esposa. A infertilidade é, assim, sempre um
das tarefas domésticas enquanto estas não se ca- problema da e para a mulher.
sarem. Desse modo, embora a jovem esposa tenha,
a princípio, um baixo prestígio na casa, à medida
que o tempo passa e ela envelhece novas mulhe- Novos elementos em cena
res entram na casa (incluindo as filhas do casal) e
assumem a manutenção da rotina doméstica. Não O cenário descrito é bastante característico
é por acaso que os mercados timorenses costu- das regiões rurais do país, onde vive 76% da
mam estar repletos de mulheres idosas negocian- população timorense (Unicef, 2002, p. vii). O
do principalmente produtos agrícolas, uma vez ambiente urbano de Dili, porém, tem trazido
que elas não precisam passar todo o dia envolvi- constantes desafios para muitas das características
das com as atividades domésticas ou de colheita. descritas acima. Uma história que chegou a meu
É nesse sentido que nas relações de poder conhecimento em Dili, em finais de 2002, é bas-
por trás do uso da força nas relações domésticas, tante expressiva a esse respeito. Um timorense,
o gênero não opera sozinho e, talvez, seja um técnico de impressão em uma gráfica local, esta-
fator menor diante de outros marcadores, como o va casado havia onze anos e sempre batera em
geracional. Além disso, embora o gênero faça dife- sua mulher. Ela sempre sentira a dor física, mas
rença em muitos aspectos da vida social, as dife- nunca se incomodara com isso. Até o momento
renças étnicas são muito mais marcantes nas rela- em que pediu a separação. O marido não com-
ções cotidianas. A grande diversidade étnica desta preendeu. Não via motivos, afinal aquele vinha
metade de ilha produziu uma história de peque- sendo o padrão de conduta do seu relacionamen-
nas e grandes batalhas e uma tradição de piadas e to há mais de uma década, e nunca a incomoda-
provérbios que evocam conflitos entre as identi- ra. A novidade era que agora a sua mulher traba-
dades locais. Assim, gênero parece não estabele- lhava no escritório local da Cruz Vermelha, junto
cer uma diferenciação crucial nos discursos e nas com vários funcionários estrangeiros. O marido
práticas sociais em Timor-Leste. Isso depende de convenceu-se de que os estrangeiros estavam “co-
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locando coisas” na cabeça de sua mulher. Certa- dade tem também mudado a forma como as pes-
mente, de algum modo, é isso que aconteceu. A soas procuram resolver o que passam a considerar
dor física que ela sentiu durante anos agora se uma disputa – ou um conflito a ser resolvido. Esta
somava a uma dor moral. nova categoria engloba diferentes atitudes que
Conversando com a chefe do funcionário da antes tinham também diferentes estatutos local-
gráfica, procurei entender o que teria motivado a mente. Um exemplo disso é a agressão física entre
esposa a não mais suportar o ato de agressão. cônjuges. Em tétum, a língua franca e um dos idio-
Segundo ela, a mulher agora envergonhava-se por mas oficiais do país, ela é definida por um verbo
apanhar do marido. Diante do grupo que partilha- reflexivo, baku malu (bater-se, confrontar-se). Isto
va seu dia-a-dia no espaço de trabalho, aquele ato indica uma nova percepção em que a violência
ganhava outra conotação: produzia vergonha e não é praticada por um agressor e sofrida por uma
humilhação – um tipo de dor que só ocorre no vítima, mas é um ato de desentendimento recí-
insulto. Podemos dizer que, diante de um novo proco, o que faz com que os esforços do media-
contexto, o ato de agressão física tornou-se uma dor tradicional sejam para remediar tal desenten-
atitude de insulto à pessoa daquela mulher. Tal dimento, mais do que para punir um agressor.
como L. Cardoso de Oliveira (2002), não podemos Enquanto baku malu não caracteriza uma disputa,
deixar de ver aqui um tipo novo de dor, uma dor “violência doméstica”, sim. A primeira é desarmo-
que não tem existência ontológica, mas depende nia que precisa ser harmonizada; a segunda é con-
da percepção do insulto para existir no mundo. flito em que há um lado certo e um errado, e o
De alguma forma aquela mulher agora se errado deve ser punido.18
sentia envergonhada por apanhar do marido, e A preocupação em consolidar a idéia de que
esse novo tipo de dor ela não suportava. Em violência doméstica é crime, independentemente
grande parte por força do convívio com os estran- das motivações do agressor, levou o GPI a propor
geiros, a agressão física ganhou um novo signifi- uma legislação específica sobre o tema, instituin-
cado, motivo de vergonha e humilhação. Penso do o crime de violência doméstica e dando ampa-
que podemos dizer que o que era antes agressão ro legal para os operadores do direito de Estado.
física tornou-se violência doméstica. Assim, entre 2002 e 2003, um projeto de lei foi
Mas essas idéias não vêm apenas de expa- elaborado por um grupo de consultores e ativis-
triados (funcionários estrangeiros) do sistema da tas de direitos humanos e uma consulta no âmbi-
ONU. Há importantes atores locais agindo para to nacional foi realizada para discutir o projeto
incorporar a igualdade de gênero na agenda com as comunidades locais (GPI, 2003b). A pro-
nacional e dar um novo sentido à agressão contra posta de lei resultante desse processo é totalmen-
mulheres. Além de diversas ONGs timorenses de te orientada por padrões internacionais de direi-
defesa dos direitos das mulheres,17 o governo pos- tos humanos e de respeito à igualdade de gênero,
suiu um Gabinete de Assessoria ao Primeiro- preocupando-se em criar mecanismos de suporte
Ministro para Promoção da Igualdade de Gênero à vítima e reeducação dos agressores. Além da
(GPI), posição ocupada por uma ativista do movi- nova legislação, GPI e FNUAP desenvolveram, em
mento de mulheres timorense, envolvida com conjunto com a Procuradoria Geral de Timor-
esta causa desde 1975. Leste, um manual de procedimentos para a ação
O GPI, em projeto conjunto com o Fundo das dos procuradores públicos nos casos de violência
Nações Unidas para a População (FNUAP) vem, doméstica (Guia, 2003).
desde 2002, capitaneando uma série de eventos – Se essas medidas visavam a fortalecer a ação
campanhas, consultas, elaboração de legislação, dos operadores de direito nos tribunais timorenses,
programas de rádio e televisão – que vão aos pou- por outro lado o FNUAP e o Gabinete para a
cos consolidando, especialmente no ambiente Promoção da Igualdade trataram de fortalecer tam-
urbano de Dili, a expressão “violência doméstica” bém a outra ponta do sistema legal: a polícia. Um
como definidora de uma nova moralidade que módulo sobre violência doméstica foi, então,
torna inaceitável a agressão física dentro da famí- incluído no treinamento de cadetes na academia
lia, especialmente às mulheres. Esta nova morali- de polícia de Dili, fazendo com que todos os poli-
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ciais formados para os quadros da PNTL tivessem acusação de estupro. Ao proceder à investigação,
tanto noções básicas de atendimento às vítimas contudo, os policiais descobriam que o quadro era
como alguma familiaridade com termos como um pouco diferente. Em muitos casos os jovens
“direitos humanos”, “direitos das mulheres”, envolvidos já namoravam há algum tempo e
“igualdade de gênero” etc. Além disso, um traba- tinham a intenção de casar, mas as famílias não
lho conjunto com o gabinete nacional da Unidade tinham entrado em acordo quanto às trocas matri-
de Pessoas Vulneráveis (UPV) da PNTL tratou de moniais envolvidas na riqueza da noiva. Em alguns
realizar sessões de treinamento em todos os dis- casos havia impasses na negociação, e, envolvendo
tritos para as unidades locais da UPV, capacitan- a polícia na história, a família da moça buscava
do policiais para o atendimento a casos de vio- pressionar a família do rapaz a aceitar suas exi-
lência sexual e doméstica. gências. O policial não sabia como agir nessas
Paralelamente ao governo, projetos de ONGs situações. Estava ou não diante de um caso crimi-
e grupos com maior influência no interior do país nal? Deveria ou não aceitar a acusação de estupro?
também têm tratado da violência contra mulheres. Era ou não um caso a ser levado ao tribunal?20
Oficinas de formação de treinadores sobre violên- Parecia-lhe que não, mas os pais se enfureciam
cia sexual foram realizadas pela Caritas australiana quando lhes dizia que talvez não se tratasse de um
em vários distritos. Em outros, ONGs de defesa crime. Para aqueles pais, não poderia haver viola-
dos direitos das mulheres, como a Fokupers, con- ção maior do que aquele acesso não-autorizado
duziram oficinas de mobilização comunitária para ao corpo de suas filhas.
grupos locais.19 Mais do que um caso de uso equivocado da
Este conjunto de ações tem causado impacto polícia, este me parece ser um caso de uso estra-
na forma como as mulheres dão sentido às agres- tégico das novas categorias trazidas pelo discurso
sões que sofrem. Com isso podemos entender o da igualdade de gênero. Sabendo ou não que o
incrível aumento das queixas de violência domés- caso em questão não constitui crime aos olhos da
tica à polícia (de 8%, em 2001, para 15% das quei- lei, aquelas pessoas iam à polícia por ser este
xas, em 2002) como uma expressão de que algo mais um expediente que poderia resultar em
está mudando de fato na forma como corpo, pressão junto à família do rapaz para forçar o
gênero e violência são significados em Timor- pagamento do barlaque. Teríamos, assim, a mani-
Leste. Neste processo, conceitos locais encontram- pulação de um instrumento da modernidade oci-
se com idéias e valores emprestados da moderni- dental (a polícia, instituição do Estado moderno)
dade ocidental, produzindo sínteses curiosas, nem para assegurar um direito tradicional – ou melhor,
sempre desejadas pelo discurso postulante da visto como legítimo à luz da tradição local, mas
igualdade de gênero. sem nenhum amparo legal na moderna estrutura
Um exemplo deste tipo de efeito imprevisto de Estado ou no sistema de justiça formal. Mais
surgiu durante uma sessão de treinamento à polí- ainda, teríamos a população local manipulando
cia, acompanhada por mim em um distrito do inte- um conceito novo e próprio da modernidade oci-
rior do país. No treinamento, no qual se apresen- dental (“violação ou violência sexual”) com a
tavam rotinas para investigação de casos de finalidade de equacionar uma disputa relacionada
violação sexual, um dos policiais locais levantou o a costumes locais.
braço. Tinha uma dúvida. Nos últimos meses esta-
vam recebendo um grande número de queixas de
violação sexual. Aos olhos das estatísticas pode- Gênero e identidade nacional
ríamos então dizer que o discurso da igualdade de
gênero estava operando transformações no local. A relação da nova narrativa de gênero com
Estariam aqueles timorenses se tornando menos o que é percebido localmente como próprio da
“tolerantes com a violência”? Muitas queixas eram cultura ou dos costumes timorenses (o barlaque,
prestadas por pais que vinham acusar um ou outro por exemplo) é delicada. O próprio GPI, na cam-
jovem de sua aldeia de ter seduzido sua filha, e panha lançada no dia internacional de combate à
pediam à polícia que o jovem fosse preso sob a violência contra a mulher em 25 de novembro de
REPRESENTANDO CORPO E VIOLÊNCIA 141

2002, apresentou o slogan: “Violência de gênero violência, denominada “violência de gênero”,


não faz parte da cultura timorense” [“violensia realmente não faz parte da cultura timorense. E
basea ba gender la’os kultura Timor-Leste nian”, nesse sentido podemos afirmar que a “violência
em tétum]. doméstica” não é “parte da cultura timorense”,
Este slogan era claramente um esforço para mas está sendo “inventada” atualmente nesta
responder às críticas de que a instituição de uma sociedade.
nova moralidade para as relações de gênero
poderia ameaçar a cultura local. A eficácia deste
processo – sua capacidade de surtir efeito no coti- Conclusão
diano de grande parte da população local –
depende, em grande medida, de como ele se rela- Timor-Leste tem sido há séculos um espaço
ciona com a legitimidade das formas locais de de encontros de diferentes povos, diferentes for-
autoridade. Não se pode imaginar que este novo mas de organização social e de valores culturais.
discurso seja incorporado pela população – ou Esta tradição de espaço fronteiriço parece se repe-
mesmo percebido como legítimo – sem algum tir neste momento no processo de combate à vio-
tipo de sanção das lideranças tradicionais. O dis- lência doméstica, em que se observam diferentes
curso da igualdade de gênero não pode prescin- sensibilidades em confronto no que diz respeito
dir tão facilmente do apoio local. Referindo-se ao não só ao tema da violência doméstica, mas ao
momento histórico de um tipo semelhante de próprio sentido deste conceito. Neste encontro,
compromisso – proposta de um projeto nacional os desencontros são o mote. Ora o que a lei defi-
(modernizante) com as autoridades tradicionais ne como crime não é assim percebido no imagi-
em Timor-Leste – Jannisa afirma: nário das comunidades locais, ora o que se per-
cebe localmente como crime não é assim definido
Diria mesmo que os níveis “moderno” e “tradicio- pela lei.
nal” – ou a elite e o maubere – da sociedade timo- Nesse cenário, contudo, há um movimento
rense realmente não se uniram até o início dos geral no sentido de transformar, no plano moral,
anos de 1980, quando as Falintil, sob o comando o significado subjetivo (embora publicamente
de Xanana, perguntou pela primeira vez à popu- partilhado) do uso da força nas relações domésti-
lação se deveriam continuar combatendo; mudou- cas. Para coibir tal uso, instaura-se no repertório
se, então, o foco da luta pela resistência, que se
local a idéia de violência doméstica como uma
afastou de uma lógica militar em direção a um
forma de valorizar negativamente um ato de
combate que efetivamente envolvesse todas as
camadas da sociedade. Quando os katuas, os
agressão; como forma de instituir uma mudança
anciãos, juntamente com a maioria absoluta da na dimensão moral da violência que altera radi-
população, em 1981, decidiram apoiar Xanana e calmente o sentido de sua experiência física.
as Falintil, encamparam ao mesmo tempo uma Assim, antes mesmo de ser combatida, a violência
idéia abstrata de Timor-Leste, uma comunidade doméstica tem que ser inventada.
imaginada, nos termos de Benedict Anderson Chamar a atenção para o caráter socialmen-
(2002, pp. 26-27). te construído da violência, contudo, não significa
desconsiderar dores de outra natureza, não neces-
Assim também o discurso da igualdade sariamente nomeadas como violência doméstica.
busca se afirmar evitando o confronto com sím- Pelo contrário, ao atentarmos para essa dimensão
bolos que são tomados como fazendo parte da tra- do fenômeno podemos inclusive dar visibilidade
dição local. Esse tipo de preocupação levou o GPI a dores que muitas vezes não passam pela mate-
a formular sua estratégia de luta sintetizada naque- rialidade do corpo ferido. Durante o processo de
le slogan. Se lembrarmos, contudo, da dimensão consulta para a elaboração da lei sobre violência
moral que deve estar presente para tornar o ato de doméstica, por exemplo, era comum que os gru-
agressão uma atitude de violência, o slogan ganha pos (especialmente as lideranças tradicionais) não
outro sentido. De fato, a idéia de que a agressão aceitassem a idéia de que toda violência é um
física sobre corpos femininos é uma atitude de crime. Os grupos tendiam a estabelecer diferentes
142 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 61

níveis de violência, considerando a agressão leve, diana em corpos marcados por gênero e geração,
ou feita com a intenção de educar, algo normal do a violência doméstica pode ser considerada um
relacionamento. Embora os participantes resistis- tema particularmente importante para se com-
sem a ver como crime alguns tipos de “violência”, preender alguns dilemas da modernização timo-
o escopo do que poderia ser entendido como tal rense. Ao mesmo tempo em que falam de confli-
era consideravelmente vasto. De acordo com um tos privados, encarnados em corpos e relações
dos grupos, se um homem arranjasse outra mulher particulares, as contradições do processo de com-
sem o consentimento da primeira, isto seria um bate à violência doméstica aludem mudanças em
caso claro de violência. Assim, mesmo não se per- curso na sociedade timorense em um âmbito mais
cebendo a agressão física como violência, dava-se geral, articulando diferentes noções de direito,
vida social a um outro tipo de dor, que nada tinha justiça e indivíduo.
a ver com o corpo; uma dor que só pode ser
explicada em função da percepção de uma ofen-
sa moral.
Em outro grupo, dizia-se que um homem BIBLIOGRAFIA
não poderia jamais obrigar sua mulher a obede-
cê-lo contra sua vontade. Isso seria uma ofensa ACCIAIOLI, G. (2001), “Grounds of conflict,
ao direito da mulher de ter sua opinião e vontade idioms of harmony: custom religion and
respeitadas dentro de casa, desde que, evidente- nationalism in violence avoidance at the
mente, sua vontade não implicasse o abandono de Lindu Plain, central Sulawesi”. Indonésia,
seus deveres. Em outros grupos, considerava-se 72: 81-114, Cornell.
muito mais grave que um tapa o fato de um ARAGON, L. (2001), “Communal violence in
homem não consultar a primeira esposa antes de Poso, central Sulawesi: where people eat
tomar uma segunda, ou qualificava-se como vio- fish and fish eat people”. Indonesia, 72:
lência o desrespeito ao direito da mulher de não 45-80, Cornell.
querer levar o caso à polícia (Simião, 2005).
Desnaturalizar a categoria “violência” permite, BUTLER, Judith. (1990), Gender trouble: feminism
assim, perceber a maneira pela qual atos que não and the subversion of identity. Nova
necessariamente passam pela agressão física York/Londres, Routledge.
podem ser lidos, à luz da moralidade local, como CARDOSO DE OLIVEIRA, Luís R. (2002), Direito
formas muito graves de insulto – estas sim, casos legal e insulto moral: dilemas da cidada-
de violência para muitas mulheres timorenses. nia no Brasil, Quebec e EUA. Rio de
Por outro lado, além dos conflitos entre dife- Janeiro, Relume Dumará.
rentes concepções sobre violência, o material
observado parece indicar conflitos entre sabres COSTA, Cláudia de Lima. (1994), “O leito de
locais (também eles múltiplos e contraditórios) e Procusto”. Cadernos Pagu, 2: 141-174,
um saber técnico e político próprio da moderni- Campinas.
dade ocidental. Desse encontro de saberes sobre EDWARDS, Louise & ROCES, Mina. (2000),
corpo, família, gênero e violência, mediado pelas “Contesting gender narratives, 1970-2000”,
intencionalidades de um jogo político e manipu- in L. Edwards e M. Roces (eds), Women
lado localmente por homens e mulheres, resulta a in Asia: tradition, modernity and globali-
produção de uma modernidade timorense. Uma sation. Sydney/Ann Arbor, Allen &
modernidade na qual diferentes sensibilidades Unwin/University of Michigan Press.
quanto ao corpo, à justiça e às relações de gêne-
GEERTZ, Clifford. (1998), “O saber local: fatos e leis em
ro interagem, produzindo respostas diferentes a
uma perspectiva comparada”, in _________,
cada momento.21
O saber local: novos ensaios em antropologia
Além disso, por articular tanto representa-
interpretativa, Petrópolis, Vozes.
ções mais gerais sobre corpo, violência e educa-
ção como vivências localizadas de uma dor coti- GUIA para o exercício da acção penal em casos de
REPRESENTANDO CORPO E VIOLÊNCIA 143

violência doméstica. (2003), Dili, Procu- Bewitching women, pious Men. Berkeley,
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Century”, Estocolmo, Utrikespolitiska Insti-
tutet, The Swedish Insitute of International 1 A Polícia Nacional de Timor-Leste foi formalmente
Affairs, 21 de maio. instituída em maio de 2002, com a restauração da
JAYAWARDENA, Kumala. (1994), Feminism and independência. Antes disso, porém, o atendimento
policial e o registro de ocorrências já eram feitos
nationalism in the third world. Londres,
pela polícia das Nações Unidas (Unpol) em conjun-
ZedBooks.
to com timorenses. Os dados de 2001 referem-se,
OCAA (Oxfam Australia). (2003), Underlying cau- pois, aos atendimentos feitos pela Unpol, mas que
ses of gender inequality in Covalima – constam do histórico de estatísticas da atual PNTL.
Timor-Leste: final report. Dili, OCAA 2 Em 2001, segundo relatório da PNTL, de um total de
(mimeo). 4.917 ocorrências, 382 foram de violência domésti-
ca. Em 2002, as queixas de violência doméstica che-
ONG, Aihwa & PELETZ, Michael (orgs.). (1995),
garam a 853 de 5.576 ocorrências.
144 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 61

3 Para uma discussão acerca do papel de narrativas de são “apenas parte de um grande processo que
gênero em disputa na afirmação de identidades nacio- busca ligar passado e futuro, trazendo a sociedade
nais no sudeste asiático, ver Ong e Peletz (1995), para um estado último de estabilidade social, no
Edwards e Roces (2000) e Jayawardena (1994). qual a paz, a tranqüilidade e a honestidade preva-
leçam”.
4 Timor-Leste possui apenas quatro tribunais de
Justiça em todo o país, o que torna difícil o acesso 10 Exemplos de mau comportamento das mulheres
físico à justiça de Estado. Embora a polícia tenha estão geralmente relacionados ao não cumprimen-
uma penetração maior no país, a população tem to das tarefas domésticas, ao passo que maus com-
receio de levar casos familiares às delegacias, uma portamentos masculinos são associados à perda de
vez que durante os 24 anos de ocupação a polícia dinheiro com apostas e embriaguez.
esteve majoritariamente na mão de indonésios.
11 L. Cardoso de Oliveira busca em Strawson um
5 Um lia na’in de Dili relatou-me um exemplo desse exemplo elucidativo de como o ressentimento se
tipo de atitude em relação a um caso de conflito relaciona menos aos fatos em si do que à percep-
entre vizinhos. Um morador levara o caso à sua ção das intenções por trás de uma atitude. “Se
presença acusando o vizinho de ter matado um alguém pisa na minha mão acidentalmente,
porco seu. O vizinho explicou que o porco estava enquanto tenta me ajudar, a dor pode não ser
destruindo sua roça e que advertira anteriormente menos aguda do que se ele pisá-la em um ato de
o acusador para que este prendesse seu porco. desconsideração ostensiva à minha existência [...].
Como o porco não fora preso e continuou a des- Mas, geralmente, devo sentir no segundo caso um
truir sua roça, o vizinho matou o porco. No julga- tipo e grau de ressentimento que não devo sentir
mento feito pelo lia na’in, a reação do vizinho fora no primeiro” (Strawson, apud L. Cardoso de
justa e, portanto, não lhe cabia culpa pela morte do Oliveira, 2002, p. 82).
porco. O porco fora morto pela negligência de seu 12 Recentemente, um colega que regressava de sua
dono, e não cabia neste caso multa ou reparação. pesquisa de campo em Java Ocidental contou-me
6 Sobre a noção de sensibilidade jurídica e de como que um filme de luta norte-americano que, nos
ela constitui diferentes sentidos de justiça em dife- Estados Unidos, retratava a batalha entre um herói e
rentes culturas, ver Geertz (1998). um bandido, recebera em Java a tradução de “Os
dois heróis”. Sobre o sentido da violência na media-
7 Utilizo a expressão “processos alternativos de reso- ção de conflitos de diferentes ordens na região, ver
lução de conflitos” para me referir às formas tradi- Robinson (1995), Aragon (2001) e Acciaioli (2001).
cionais de justiça (formas locais de mediação e jul-
gamento de disputas coordenadas pelas lideranças 13 Uma senhora que entrevistei no tribunal distrital de
tradicionais das aldeias timorenses). Não confundir Dili e que havia sofrido agressão física forte por
com a mediação, também alternativa aos tribunais, parte de seu marido disse-me literalmente: “bater
mas feita sob a égide da justiça de Estado. para ensinar é uma coisa, isto aqui (apontando para
a cabeça enfaixada) é outra”.
8 Penso que para enfatizar tal diferença devemos usar
com mais precisão palavras como violência, agres- 14 Algumas professoras portuguesas que, a serviço da
são e força. Proponho falar em “uso da força” para missão portuguesa em Timor-Leste, atuaram duran-
me referir à dimensão factual, “agressão física”, te vários meses em escolas timorenses costumavam
quando a força for percebida publicamente como expressar grande constrangimento com o que con-
sideravam castigos despropositados que seus cole-
excesso indevido, e “insulto”, quando ganhar cono-
gas locais aplicavam aos alunos. Eram comuns rela-
tação moral negativa. Nesse sentido, um ato de
tos de meninos obrigados a manter-se em pé
força, mesmo podendo ser sentido como agressão
debaixo do sol durante horas, ajoelhados sobre
física pode não ser caracterizado como insulto, uma
grãos de milho ou simplesmente tratados a tapas
vez que a dimensão moral pode mudar radicalmen-
por pequenas desordens em sala de aula.
te o sentido da experiência física.
15 O número exato de línguas e grupos étnicos em
9 Vários autores consideram o sentido da justiça tra-
Timor-Leste é motivo de polêmica. A esse respeito,
dicional timorense um ritual de reposição da ordem
ver Schouten (2001).
social e de uma harmonia quebrada que precisa ser
restaurada (Soares, 2002; Hohe, 2003). Para Soares, 16 Homens e mulheres participam dos mercados
por exemplo, os rituais para resolução de conflitos quase que em mesmo número, mas comercializan-
REPRESENTANDO CORPO E VIOLÊNCIA 145

do produtos diferentes. Normalmente as mulheres


vendem vegetais, ovos e produtos industrializados,
importados (ou contrabandeados) da Indonésia,
enquanto os homens lidam com carne (búfalos,
gado, frangos, porcos e cabritos) e bebidas alcoó-
licas (o vinho de palma, tua mutin, e seu destila-
do, tua sabu).
17 O movimento de mulheres em Dili contava, em
2003, com dezesseis organizações. Duas ONGs
destacavam-se no atendimento a mulheres vítimas
de violência: Fokupers, conduzida atualmente por
jovens ativistas educadas em universidades indo-
nésias; e Etwave, fundada e dirigida por uma mili-
tante dos direitos das mulheres.
18 O caráter relacional da violência doméstica já fora
apontado em estudos como os de Gregori (1993) e
Grossi (1998), que deslocaram o foco de análise da
mulher para a conjugalidade. Nesse sentido, mesmo
em contextos nos quais a agressão física é social-
mente percebida como violência e representada
juridicamente como ação de um sujeito sobre uma
vítima, não deixa de estar presente um jogo de res-
ponsabilidades recíprocas.
19 É interessante notar, porém, que organizações de
mulheres como OPMT e OMT, históricas e de massa,
têm estado relativamente distantes do tema da vio-
lência doméstica, desenvolvendo predominantemen-
te atividades relativas à geração de emprego e renda.
20 A instrução dada pelos treinadores, adequada aos
procedimentos formais, era para que o policial não
recebesse esse tipo de caso, uma vez que se a relação
sexual fora consentida, não havia crime nenhum
em causa. O que ele poderia fazer era sugerir que
a família entrasse com um processo civil no tribu-
nal distrital.
21 Para uma compreensão detalhada dos diferentes
projetos em disputa na construção de um Estado
moderno em Timor-Leste, ver Silva (2004).
224 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

REPRESENTANDO CORPO E REPRESENTATIONS OF BODY REPRESENTANT CORPS ET VIO-


VIOLÊNCIA: A INVENÇÃO DA AND VIOLENCE: THE MAKING LENCE : L’INVENTION DE LA
“VIOLÊNCIA DOMÉSTICA” EM OF “DOMESTIC “VIOLENCE DOMESTIQUE” AU
TIMOR-LESTE VIOLENCE” IN EAST-TIMOR TIMOR ORIENTAL

Daniel Schroeter Simião Daniel Schroeter Simião Daniel Schroeter Simião

Palavras-chave: Direitos Keywords: Human rights; Gender; Mots-clés: Droits de l’Homme;


humanos; Gênero; Violência; Violence; Anthropology; Asia. Genre; Violence; Anthropologie;
Antropologia; Ásia. Asie.

Timor-Leste passa por um rápi- East Timor is now faced to a Le Timor Oriental passe par
do processo de transformação social strong social and political change, un processus rapide de transforma-
e política que, no campo do gênero, which implies, on gender issues, the tion sociale et politique qui, dans le
se expressa na construção de uma building of a new morality about domaine du genre, s’exprime par la
nova moralidade acerca da agressão domestic physical aggression. Based construction d’une nouvelle morali-
física doméstica. Tendo por base a on the local translation of gender té à propos de l’agression physique
tradução para a realidade local dos equality principles – seen as universal domestique. Ayant pour base la tra-
valores da igualdade de gênero, tidos values – a set of actions against duction vers la réalité locale des
como universais, um conjunto de domestic violence is questioning local valeurs de l’égalité de genre, consi-
esforços de combate à violência practices and attitudes regarding dérées universelles, un ensemble
doméstica tem posto em causa práti- representations of body, gender and d’efforts de combat à la violence
cas sociais locais relativas a represen- sexuality, such as polygamy, the obli- domestique trouble des pratiques
tações de corpo, gênero e sexualida- gations to childbirth and the respon- sociales locales relatives aux repré-
de. A partir de dados produzidos em sibilities on contraception. Based on sentations du corps, au genre et à la
um ano de trabalho de campo no one year fieldwork in the country, sexualité. À partir de données pro-
país, o autor discute como saberes this paper discusses the way the duites en un an de travail dans le
especializados se apresentam em knowledge of experts on the field of pays, l’auteur discute de quelle façon
projetos políticos que contribuem gender and development reflects des savoirs spécialisés se présentent
para a modelação de uma sensibili- upon political projects which contri- dans des projets politiques qui con-
dade particular na experiência do bute to the shaping of a specific way tribuent au modelage d’une sensibi-
corpo, reinscrevendo a punição física of experiencing the body, inscribing lité particulière dans l’expérience du
em um universo de significados mui- physical punishment into a new uni- corps, en réinscrivant la punition phy-
tas vezes alheio àquele que predomi- verse of meanings, many of them sique dans un univers de significa-
nam no interior do país. Os conflitos considerably different from those in tions très souvent étranger à celui qui
e as sínteses observados nesse pro- force at the countryside. Conflicts and prédomine dans l’intérieur du pays.
cesso apontam para a importância de syntheses emerged from this process Les conflits et les synthèses observées
se compreender a construção local de show the importance of being aware dans ce processus indiquent l’impor-
identidades de gênero em relação a of the relationship of the building of tance de comprendre la construction
disputas políticas/simbólicas em um local identities faced to broader poli- locale d’identités de genre par rapport
plano mais amplo, bem como indi- tical and symbolic disputes as well as aux disputes politiques et symboli-
cam limites na relação entre práticas the limits of the binding of local prac- ques dans un cadre plus ample, ainsi
locais e valores supostamente uni- tices and values thought as universal que les limites dans la relation entre
versais. ones. les pratiques locales et les valeurs
apparemment universelles.