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25 e 26 de novembro de 2016 – Porto Alegre/RS

Eixo 10 – Educação para a infância


Professora, O Que A Minhoca Come? Dialogando Sobre O Meio Ambiente Na
Educação Infantil

Gislaine Rodrigues Couto1


Lucas da Silva Martinez2

Resumo

Esse trabalho insere-se no conjunto de práticas da Educação Infantil relacionadas


ao meio ambiente. O objetivo é refletir sobre práticas pedagógicas que favorecem
aprendizagens significativas às crianças de 3 a 4 anos de idade relacionadas ao
tema do meio ambiente. O trabalho estrutura-se como relato da prática pedagógica
na Educação Infantil, e, os registros são realizados a partir das anotações da
professora, fotos e vídeos. Salienta-se que o cotidiano da Educação Infantil mostra-
se um espaço privilegiado de aprendizagem onde professores e crianças se
assumem como sujeitos epistemologicamente curiosos.

Palavras-chave: Crianças. Educação Infantil. Meio ambiente.

Introdução

De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil –


RCNEI, um dos objetivos da Educação Infantil enquanto etapa da Educação Básica
de 0 a 3 anos é “explorar o ambiente, para que possa se relacionar com pessoas,
estabelecer contato com pequenos animais, com plantas e com objetos diversos,
manifestando curiosidade e interesse” (BRASIL, 1998, p.163). Na faixa etária de 4 a
6 anos busca-se “estabelecer algumas relações entre o meio ambiente e as formas

1 Mestranda em Políticas Públicas e Gestão Educacional (PPPG/UFSM). Universidade Federal de


Santa Maria – UFSM. E-mail: gihcouto@gmail.com.
2 Mestrando em Educação (PPGE/UFSM). Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. E-mail:
lukasspedagogia@gmail.com.
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de vida que ali se estabelecem, valorizando sua importância para a preservação das
espécies e para a qualidade da vida humana” (BRASIL, 1998, p.163).
Neste sentido, construímos este artigo com o objetivo de refletir sobre práticas
pedagógicas que favorecem aprendizagens significativas às crianças de 3 a 4 anos
de idade relacionadas ao tema do meio ambiente.
Os objetivos do planejamento, objeto de nossa reflexão, consistiam em:
Pesquisar sobre a minhoca; Organizar e registrar informações por meio de desenho
e imagens; Saber da importância desse animal para o solo e plantas; Promover o dia
da coleta de minhoca; Trabalhar comparação de maior e menor.
O trabalho estrutura-se como relato da prática pedagógica na Educação
Infantil, e, os registros são realizados a partir das anotações da professora, fotos e
vídeos. A prática foi realizada em uma turma de Pré I, possuindo 12 crianças de 3 à
4 anos de idade em uma escola privada de Santa Maria/RS.
Paulo Freire se torna um dos referenciais principais, ao refletirmos que o
processo educativo não se faz “para a vida”, mas a partir dela, da nossa realidade
social e cultural, das nossas inquietações e da nossa forma de ser e estar no
mundo, através da nossa curiosidade, quando nos assumimos sujeitos
“epistemologicamente curiosos” (FREIRE, 1996).
O tema da minhoca é apresentado aqui como central, visto o sentido
atribuído pelas crianças através da prática. Ao perguntarem: “Professora, o que a
minhoca come?”, foram pensadas algumas atividades nas quais buscamos
contextualizar e discutir nesse texto. Lembrando Freire (1999, p.42), precisamos
viver na utopia de construir uma escola na qual seja “o espaço em que a criança,
popular ou não, tenha condições de aprender e de criar, de arriscar-se, de
perguntar, de crescer”.

Desenvolvimento das atividades

Minhoca, Minhoca, me dá uma beijoca


Não dou, não dou, então eu vou roubar
Minhoco, Minhoco, você é mesmo louco
Beijou do lado errado, a boca é do outro lado
25 e 26 de novembro de 2016 – Porto Alegre/RS

(Canção Infantil)

A partir do interesse das crianças quando ouvem a professora cantando e


gesticulando a música acima apresentada, elas perguntam: “Professora, o que
a minhoca come??” A professora3 respondeu que precisavam pesquisar sobre o
assunto. Logo, sentiu a necessidade de organizar um momento para saber o que as
crianças já sabiam sobre as minhocas e as suas curiosidades.
A observação é requisito necessário para a prática pedagógica. Através dela
os professores podem caracterizar as situações pedagógicas e realizar proposições
que qualifiquem, pautadas no interesse das crianças, bem como as necessidades
por elas expressas (MARTINEZ; PEREIRA, 2016).
Em roda, a professora realizou as seguintes perguntas às crianças: Vocês
sabem onde as minhocas vivem? O que vocês acham que as minhocas comem?
Qual a importância das minhocas? O que acontece com as minhocas quando são
expostas ao sol? Como elas andam? Como elas nascem? Como é o seu corpo?
Minhoca faz cocô? Freire defende que,
O fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles, do
professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não
apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que
professor e alunos assumam epistemologicamente curiosos (FREIRE, 1996,
p.96).

Na rodinha, as crianças responderam que as minhocas viviam na sua toca.


Mas onde fica sua toca? Na terra! Alguns disseram que as minhocas comiam frutas
como a maçã, outros disseram que elas comiam folhas e moscas. Elas andavam se
arrastando, nasciam de um ovo bem enroladinho e o seu corpo era assim: S
(sinalizavam com as mãos uma forma ondulada). Responderam também que o cocô
das minhocas eram bolinhas. O RCNEI (1998) contextualiza que,

O mundo onde as crianças vivem se constitui em um conjunto de


fenômenos naturais e sociais indissociáveis diante do qual elas se mostram
curiosas e investigativas. Desde muito pequenas, pela interação com o meio
natural e social no qual vivem, as crianças aprendem sobre o mundo,
fazendo perguntas e procurando respostas às suas indagações e questões.

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Embora a construção do texto seja a partir do pronome nós (primeira pessoa do plural), a prática foi
realizada por um dos autores e aparece durante o relato como a professora, portanto (terceira pessoa
do singular).
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Como integrantes de grupos socioculturais singulares, vivenciam


experiências e interagem num contexto de conceitos, valores, ideias,
objetos e representações sobre os mais diversos temas a que têm acesso
na vida cotidiana, construindo um conjunto de conhecimentos sobre o
mundo que as cerca (BRASIL, 1988, p.152).

A professora, com base nas respostas das crianças começou a explicar sobre
as minhocas, buscando ampliar seus conhecimentos prévios, contando que as
minhocas são encontradas nos jardins, que elas existiam em diferentes tipos
(africanas, californianas, etc). Ao considerar os conhecimentos que as crianças
trazem consigo, lembramos Freire (1996), ao afirmar que é necessário respeitar
esses saberes que os educandos trazem e, utilizá-los na busca de uma
reelaboração e qualificação, onde conceitos cotidianos e científicos se encontram.
No dia seguinte, as crianças ouviram atentamente a história abaixo ilustrada.
Tabela 1 – A minhoquinha curiosa
A minhoquinha curiosa – autora: Cora Schueler
Certo dia, lá no fundo da terra, numa toca de minhoca, uma minhoca conversa com sua
filhota. Uma minhoquinha pequenina que estava aprendendo os segredos da terra. A Minhoquinha é
muito curiosa e quer saber o que acontece fora da terra também. E lá em cima o que tem? Ora
filhota, lá em cima tem um monte de bichinhos, plantinhas verdes, o lugar se chama Jardim, enfeitado
com flores e capim. Que mais? Tem um grilo cantante e que pula bastante, e uma borboleta
cintilante. E depois? Em cima do jardim tem o céu. O que é céu
um lugar lindo, azul cheio de ar, com passarinhos a voar E quando é que chega o fim? O fim de que?
Do céu se continuar subindo? O céu nunca acaba Ai quanta curiosidade! Me leva lá em cima
e acaba a confusão! Vamos então filhota minhoca, está mesmo na hora de conhecer o que há lá fora.
Eba!!!
A minhoca levou a filhota para fora da toca. A minhoquinha não sabia que o sol é tão forte e
que o vento resseca. As minhocas enxergam de um jeito diferente, ela é sensível a luz do sol, por
isso a minhoca levou para a filhota o filtro solar, óculos de sol e saíram as duas a se arrastar.
Finalmente a filhota viu o mundo fora da toca, conheceu o Sr. Grilo Cantante e a Borboleta Cintilante.
A minhoca apresentou a filhota e a borboleta contou sua história com emoção de quem um dia foi
lagarta e já se arrastou pelo chão.
A minhoquinha ficou encantada com a borboleta e então perguntou. Todo bicho que se
arrasta vira borboleta? eu quero virar borboleta, ela é linda. Não, Não filhota! você não vira borboleta
não! Eu serei minhoca pelo resto da minha vida? Claro querida a terra precisa da gente, ser minhoca
é muito importante. Nosso corpinho é feito para mexer a terra, transformamos a terra e tornamos o
solo mais fértil, para que as sementes jogadas nela brotem e assim o jardim tenha sempre alimento
para os grilos, borboletas e tantos outros bichinhos que dependem de nós. Não tinha ideia quanto é
importante meu trabalho. E assim voltaram as duas para a toca e a minhoquinha estava muito
orgulhosa de ser minhoca.
Fonte: A Minhoquinha Curiosa. Disponível em: <http://historiasdacora.blogspot.com.br/2014/05/a-
minhoquinha-curiosa.html>. Acesso em: 30 jul. 2016.
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Figura 1 – Contação da história “A minhoquinha curiosa”

Fonte: Acervo dos autores.

Ao final da história, as crianças achavam que as minhocas realmente


utilizavam protetor solar e óculos de sol. A professora então explicou que as
minhocas, assim como nós, precisam proteger a sua pele. Como elas moram dentro
da terra não precisam de protetor solar, mas, podem morrer queimadas quando
expostas por muito tempo ao sol. Na verdade, as minhocas não gostam da luz
externas, elas preferem estar dentro da terra, em um ambiente escuro. A curiosidade
mostra-se aqui como uma realidade presente no cotidiano da Educação Infantil. De
acordo com as orientações dispostas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação Infantil - DNCEI,

As práticas pedagógicas da Educação Infantil precisam garantir


experiências que: Incentivem a curiosidade, a exploração, o
encantamento, o questionamento, a indagação e o conhecimento das
crianças em relação ao mundo, ao tempo e à natureza (BRASIL, 2010, p.26,
grifo nosso).

Junto a essa explicação, foi levada em consideração a importância da


minhoca para o solo, que o seu cocô (chamado húmus) torna-se um adubo natural
para a terra ficar forte e as plantas se desenvolverem melhor. Assim, as minhocas
ajudam na decomposição dos alimentos e são produtoras ativas na terra.
Como na escola as crianças não encontraram nenhuma minhoca, no outro
dia, a professora levou de casa para que as crianças tivessem contato com as
mesmas. Ao observar as minhocas e tocar nelas, as crianças ficaram eufóricas.
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Algumas crianças gritavam, outras tinham medo, algumas queriam pegar na mão
para ver como ela era. Durante o contato com as minhocas levadas para a sala de
aula, algumas crianças disseram que: a minhoca tinha dente e que mordia, por isso
tinham muito medo de pegá-las com as suas mãos. A professora ofereceu luva para
as crianças que queriam utilizar. Também foi explicado que a minhoca não tinha
dente, logo era inofensiva, comiam apenas resto de frutas, vegetais e insetos
mortos. Abaixo, a imagem da exploração das minhocas pelas crianças.

Figura 2 – Exploração das minhocas

Fonte: acervo dos autores.

Um destaque a ser realizado refere-se à importância do Planejamento das


práticas pedagógicas. Para Ostetto (2000 apud OSTETTO, 2008, p.58) o
planejamento
é atitude e acima de tudo está relacionado com o compromisso que cada
educador tem com sua profissão, com o respeito que ele tem para com o
grupo de crianças e com os valores nos quais ele acredita; parte do ato de
observar as experiências vividas pelas crianças, de ouvi-las, enfim, de dar
voz aos seus pensamentos e às suas criações.

Implica também que, os professores tenham articulação entre as diferentes


teorias construídas historicamente com a sua prática. É nesse sentido que a teoria e
a prática sempre andam juntas, pois precisamos da teoria para compreender melhor
a nossa prática e a realidade do cotidiano escolar (GHEDIN; ALMEIDA; LEITE,
2008).
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Concluindo, salientamos que outras atividades foram desenvolvidas buscando


explorar o tema, minhocas, tais como: a apresentação de slides, músicas como “A
minhoquinha que faz ginastiquinha” e “A minhoca atleta”, as crianças mediram
através de desenhos e réguas, os diferentes tamanhos entre as minhocas, as cobras
e os seres humanos (crianças).
Passamos às considerações finais sobre a experiência, buscando finalizar o
escrito, mas não a reflexão.

Reflexões e Considerações finais


Portanto, o trabalho sobre as minhocas foi importante e significativo
expresso pelas crianças, pois além de o interesse ter surgido da turma, foi possível
conhecer este ser vivo e a sua importância para o meio ambiente. Assim,
assumimos “o dever de lutar pelos princípios éticos mais fundamentais como do
respeito à vida dos seres humanos, à vida dos outros animais, à vida dos pássaros,
à vida dos rios e florestas (FREIRE, 2001, p.67)”.
Outro aspecto relevante é que este é um momento de reflexão da própria
prática na busca de potencializar o conhecimento tanto das crianças quanto dos
professores envolvidos mostrando a importância do planejamento na Educação
Infantil. O papel da escola e do professor da Educação Infantil é organizar um
espaço, que seja adequado a faixa etária, desafiador e prazeroso, que favoreça a
exploração, a expressão e possibilite a criança vivenciar inúmeras experiências e
aprendizagens, pois são estas que também irão impulsionar o seu desenvolvimento
e aprendizagem (COUTO; LEAL, 2014).
O cotidiano da Educação Infantil mostra-se um espaço privilegiado de
aprendizagem. Lembrando Arendt (2014), a educação é onde decidimos se amamos
o mundo o suficiente para cuidar das novas gerações e investir coletivamente na
renovação do mundo.

Referências
25 e 26 de novembro de 2016 – Porto Alegre/RS

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2014.

BRASIL. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Vol. 3.


Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. —
Brasília: MEC/SEF, 1998

______. Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil. Ministério da


Educação. Secretaria de Educação Básica. Brasília: MEC, SEB, 2010.

COUTO, Gislaine Rodrigues; LEAL, Mariele Ferreira. Vivências Pedagógicas no


contexto da Educação Infantil: um diálogo entre o estágio curricular e o extra-
curricular. Anais do V Encontro Nacional das Licenciaturas – ENALIC/2014,
UFRN, em CD, ISSN: 2318-6771, Natal.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática


educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

______. A educação na cidade. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1999.

______. À sombra desta mangueira. 4. ed. São Paulo: Olho D‟Água, 2001

GHEDIN, Evandro; ALMEIDA, Maria Isabel de; LEITE, Yoshie Ussami Ferrari.
Formação de professores: caminhos e descaminhos da prática. Brasília: Líber livro
editora, 2008.

OSTETTO, Luciana Esmeralda (Org.). Educação infantil: saberes e fazeres da


formação de professores. Campinas, SP: Papirus, 2008.

MARTINEZ, Lucas da Silva; PEREIRA, Jane. Construindo a docência na educação


infantil: da observação à práxis. RELACult – Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura e Sociedade V. 02, nº 02, abr-ago., 2016, p. 57-68