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GUIÃO DE EDUCAÇÃO conhecimento, Género e Cidadania no Ensino Secundário

4.4.3.

Teoria Literária Feminista e atitude


face ao literário – da análise de
texto à análise do quotidiano:
resistências e pacificações

M
ais do que respostas, essencial da memória de uma comunidade,
estas questões podem um inestimável património que deve ser
suscitar muitas outras, conhecido e estudado” (Programa, 2014:8)
diretamente ligadas às .Pelo contrário: à prática frequente de debate
realidades sociais próprias de cada em aula sobre a sacralização/reificação do
contexto educativo. E como também as literário, sobre os processos de criação
perceções da atitude a ter face à Educação de valor histórico-cultural e patrimonial ou
Literária podem ser distintas consoante sobre a articulação entre canonicidade,
a quantidade de capital cultural possuída representatividade e popularidade (ver
por estudantes e docentes, convém texto em caixa) segue-se, como seu
relembrar que a Teoria Literária Feminista reflexo imediato, a maior disponibilidade de
ao analisar criticamente os textos literários estudantes e docentes para o conhecimento
está a ‘levar a sério a literatura/o cânone/a histórico aplicado à análise das obras
língua’. A Teoria Literária Feminista não literárias propostas e para a reanimação (ou:
nega ser a literatura um “repositório des-reificação) dos textos literários em geral.

Caso este Guião se dirigisse apenas a docentes com


experiência, desnecessário seria escrever que tanto durante
a realização de atividades de identificação e análise crítica
dos critérios que legitimam a exclusão ou inclusão de
textos no cânone, assim como durante outras atividades
de questionamento do cânone ou dos textos – literários
e não literários –, convirá que cada docente estruture
e reformule as suas intervenções orais as de alunas e
alunos, de forma a fazer-lhes sentir que a promoção da
análise crítica não se confunde com o menosprezo do
literário ou da memória coletiva que os textos canónicos
veiculam; pelo contrário, a prática de análise estruturada
testemunha respeito: só o que é importante se critica.

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Conhecimento e intervenção educativa: sugestões práticas ll
Cânone Literário e Igualdade entre Mulheres e Homens l

Concretizando, este trabalho pode realizar-se simplesmente


lembrando que os textos literários indicados no Programa merecem
ser analisados como textos que se destacaram dos demais a ponto de
impressionar favoravelmente agentes relevantes do sistema literário,
e que estudantes e docentes beneficiam em saber quem os destacou e
por que razões. Essas razões explicitadas, questionar se se mantêm, se
surgiram outras entretanto… Lembre-se que a utilização de exemplos
promove a própria formação docente – com efeito acontece não apenas
estudantes, mas também docentes não se aperceberem das razões de
entrada no cânone de obras como Os Maias ou O Ano da Morte de
Ricardo Reis, para além de serem produzidas por autores canónicos.

Atendendo a que das análises de textos em sala interpretativas da teoria


de aula, a/o docente conduz Literária Feminista pode criar
as questões de
cada estudante a desvelar e a as condições para que os/
género transcendem examinar criticamente o código as estudantes, mormente
o campo da teoria, de género presente num texto, se vivem em realidades
em consequência de o/a docente cria condições para sociais/ em contextos
um contacto com as que o/a estudante autonomize fortemente desigualitários,
e expanda o seu pensamento, criem e exteriorizem as suas
formas de interpretar e
o que pode ser sentido pelos/ próprias dúvidas a respeito
avaliar textos utilizando as estudantes como uma prática da realidade social que
a Teoria Literária desestabilizadora. Isto é: estrutura o seu quotidiano;
Feminista, a/o estudante a análise de textos nas e, se os/as estudantes
aulas de Português, quando concebem novas perguntas
poderá modificar a
realizada segundo estratégias e obtêm novas respostas,
sua interpretação e
avaliação de textos,
Pressupomos que a aceitação acrítica
mas, sobretudo, poderá
do cânone fomenta a passividade e a
modificar a forma como sujeição às flutuações do gosto individual,
percebe a realidade gosto esse frequentemente condicionado
social de que faz parte pela ausência de capital cultural e do
– o que implica que são convívio com textos complexos
de esperar as “resistências
psíquicas” que acompanham
todas as hipóteses de
Por código de género entende-se aqui o
transformações significativas
conjunto dos condicionamentos sociais
da mundovisão.
(condicionamentos esses estruturantes
Na verdade, de todas as de atitudes e comportamentos)
vezes que, no decurso da ligados a cada um dos dois sexos
sua prática de orientação

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essa mesma novidade de conteúdos realidade social que minimizam os direitos e as


emocionais-cognitivos, a par de uma autonomia oportunidades de cada qual; ou seja, deverá
de pensamento também ela nova, pode ser fazer-lhes sentir que não é o conhecimento que
sentida como dissolvente, e até angustiante. é ameaçador, mas esses aspetos negativos da
Cabe à/ao docente mostrar às/aos estudantes realidade social; e que, pelo contrário, conhecer
que a capacidade de diagnóstico de uma esses aspetos negativos e a seguir enfrentá-los
realidade social desigualitária vai de par com tais quais são, constituem passos necessários
a capacidade de alteração dos aspetos dessa para lidar eficazmente com eles.

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4.4.4.

(Vantagens da)
Análise Interseccional

O
utro dos riscos da prática de presente no contexto escolar porque deriva de
análise de textos atendendo algo apontado acima: o próprio processo de
às questões de género em constituição do cânone português que tende a
contexto escolar é que caso excluir ou a invisibilizar a autoria feminina, como
o desvelamento das assimetrias de poder o demonstrou, por todos para o século XX,
ligadas ao género seja efetuado de forma Chatarine Eldfelt (2006). Assim, não é de
binária (i. e., numa posição avaliativa que estranhar que os/as estudantes fiquem com
apenas considere os pólos ‘texto sexista’ a ideia de que ‘todos os textos’ são sexistas,
vs ‘texto não-sexista’, texto após texto) quando, por exemplo, a maioria dos textos que
leve docentes e estudantes à conclusão lhes são apresentados como representativos
que ‘todos os textos são sexistas’ e se da literatura portuguesa são textos de autores
desinteressem de uma ferramenta de análise pouco igualitários, até pelos condicionalismos
aparentemente redutora. Este é um risco muito das épocas em que viveram.13

As diferentes épocas condicionaram os autores representativos da literatura


portuguesa. Épocas em que os autores consideravam a submissão das mulheres
uma condição e garantia da paz social, como é, por exemplo, o caso dos
autores anteriores à revolução liberal, ou o caso dos autores da geração de
setenta; ou épocas em que os autores consideravam a anulação dos valores
ligados à esfera do feminino (a paz, o amor) uma condição e garantia do
desenvolvimento estético e cognitivo, como é o caso da geração do Orpheu.
Visto o desenvolvimento destas alegações exceder os propósitos deste Guião,
note-se, apenas, que a prevalência dada a autores integrados em correntes que
defendem mundividências como as apontadas pode conduzir à menorização
no cânone de autores/as que encarnam ideologias de sinal diverso; por
exemplo, a atenção dada pela academia ao pensamento estético de Pessoa
pode conduzir essa mesma academia à menorização da obra de Florbela.

13 A respeito das condicionantes da atribuição de valor literário, veja-se a obra de Cláudia Pazos-Alonso Imagens do Eu na Poesia
de Florbela Espanca (1997, Imprensa Nacional, Lisboa) e para a relação entre o Orpheu e a autoria feminina o texto de Anna
Klobucka “A mulher que nunca foi: para um retrato bio-gráfico de Violante de Cysneiros.” Colóquio/Letras, 117/118 (1990), pp.
103-114, ou, num registo diverso mas não menos informative, Klobucka, Anna; Sabine, Mark (eds.) (2010) O Corpo em Pessoa.
Corporalidade, Género, Sexualidade. Lisboa: Assírio & Alvim, [2007 para a edição norte-americana]

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