Você está na página 1de 99

Edição 1

turismo existencial_Ivan Lessa

Eu conheço esse cara

Depois de se mudar de vez para Londres há 28 anos, seis meses e sete dias, o escritor Ivan
Lessa volta ao Rio para passar dez dias. De sunga azul, na praia, ele pergunta: Cadê as
bundudas? Cadê o arrastão?

esquina_Cassiano Elek Machado

Búfalo soldiers

Os chifres exuberantes de um batalhão da PM de Marajó

esquina_Cassiano Elek Machado

Raquetadas no piauí

Teresina se rende ao badminton (apesar de Bro-Bró)

esquina_Paulo Werneck

O Púcaro búlgaro

Ainda há gente vasculhando os escombros dos associados

esquina_Antonia Pellegrino

Paladar absoluto

A arte, a técnica e a ciência de tomar café

esquina_Dorrit Harazim

O coronel morreu antes


As reflexões de um ex-preso do pavilhão 9 do Carandiru sobre a morte do coronel Ubiratan

esquina_Roberto Kaz

Relato de uma guerra

Baianas no candomblé insistem que Jesus não comia acarajé

esquina_João Moreira Salles

Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo

No dia da eleição, Roberto Jefferson oferece lições de retórica e política

despedida_Luiz Maklouf Carvalho

O pedreiro que gostava de reggae

A vida breve e a queda mortal de José Roberto Santos, trabalhador

horóscopo_Chantecler

Horóscopo por Chantecler

Este será um mês difícil para as pessoas que acreditam em horóscopo, sejam elas de que signo
forem.

ficção_Rubem Fonseca

Miriam

Miriam, a mulher com um problema na garganta

diário_Cecília Giannetti

Hoje o bicho pega na boate

O registro das aventuras e desventuras de uma jovem brasileira que mora em Nova York sem
documentos.

ensaio_Roberto Pompeu de Toledo

Papagaio!
Ave desconhecida dos europeus, o papagaio falante se tornou símbolo do Brasil e da
malandragem nacional.

chegada_Marcos Sá Corrêa

A primeira menina do mundo

A descoberta de Salem, a menininha de três anos que viveu na África há 3,3 milhões de anos, e
pode nos ajudar a entender a infância da humanidade

perfil_Danuza Leão

O cheiro de cimento me inebria

O estilista Guilherme Guimarães explica como escapou do serviço militar: comparecendo ao


exame de seleção

internacional_Silvio Ferraz

Desaparecido no deserto

Quase um ano depois, o seqüestro do engenheiro João Vasconcellos Júnior no Iraque continua a
angustia

mundo do trabalho_Vanessa Bárbara

Bom-dia, meu nome é Sheila

O que se ensina nos cursos de telemarketing, um dos setores da economia nacional que mais
cresce, e já emprega 630 mil jovens
Eu conheço esse cara
Todo suicida volta ao local onde, tresloucado, ateou fogo às próprias vestes

por Ivan Lessa

Estou na bica de mandar uma bala na minha cabeça.

Tiro o caderno de capa verde, em espiral, do bolso. Anoto lá: 13.8.06. É a hora em que pousamos no
Galeão: 17 e 20. São 28 anos, seis meses e sete dias sem dar o ar de minha graça. Ausência é
palavra muito forte para a paisagem vista lá de cima.

O aeroporto está vazio e, para mim, novinho em folha. Minhas malas são as primeiras a surgirem no
carrossel. O Rio não costumava me dar esse tipo de colher de chá. Alfândega, receita, polícia,
chamem do que quiserem, mas são todos muito solícitos, embora com a indiferença que afeta os
pobres que têm de trabalhar no domingo.

*
No carro, a caminho do hotel, vou não reconhecendo nada. O que é um ótimo ou um péssimo sinal.
Num certo ponto do trajeto, um fedorzinho familiar. Agora, sim. Mais adiante, lá em cima, um marco:
Manguinhos? Igreja da Penha? Tanto faz. Toda minha fé está nas paisagens.

Estou em plena Linha Vermelha. Pergunto pela Amarela. Há anos leio horrores sobre ambas. Bato no
bolso do paletó conferindo passaporte e carteira. Aguardo a pista bloqueada, os meliantes armados
saltando da murada e dando início ao saque das 6 da tarde. Pergunto pelos traficantes da favela da
Maré, que costumam fechar as pistas para atravessar carregamentos de drogas e armas. Ninguém
sabe do que estou falando. Ninguém viu o filme. E as balas perdidas Parece que no sábado uma ou
outra pessoa achou duas ou três, informa um companheiro.

Não há bala perdida. Apenas desencontros.

Olha aí, a paisagem continua impondo sua presença diante da equipe adversária: lagoa Rodrigo de
Freitas. Quando publicitário, ajudei a vender muito apartamento com linhas mendazes: “Viva uma
vida de luxo num recanto tranqüilo da Lagoa”. A mortandade trimestral de peixes ficava pelos
arrastões das entrelinhas. Idem os ninhos de gaviões (até na Prudente de Moraes tinha), que atacavam
residentes pacatos e, vez por outra, arrancavam seus olhos, como nas histórias de fadas. Continua
bonitona a lagoa. Cresceu uns cinco ou seis andares.

Amo hotel. Não conheço o Rio de hotel decente. As noitadas no — não citarei nomes — não contam.
Aqui sou hóspede e não truão. Pelo menos até onde a criadagem (Nossa! Como tem criadagem nesta
cidade. Voltarei ao assunto, se encontrar alguém alfabetizado e que conheça taquigrafia) é capaz de
sacar ou dizer. Desfaço mala, chuveiro-me, vou para onde sou esperado por amigos.
*

Quando me preparava para este pulo, peguei uma folha e comecei a escrever o nome de amigos e
amigas que gostaria de rever. Preparava-me para encher ao menos um caderno de bom tamanho. Não
chegaram a dez. Dou-me a desculpa de que morreram todos ou foram para Petrópolis ou Brasília. A
verdade é que, mesmo morando nesta enorme (então bem menor) cidade, minha vida sempre se
passou — a sério, para valer — entre uma dúzia de pessoas e outros tantos quarteirões. O resto era
paisagem (ela de novo, sempre ela), pano de fundo, cenário para dar clima. Isso. O Rio era um clima.
Ao menos, não me esborracho no lugar-comum do “Rio ser um estado de espírito”. Estado de
espírito é agora, com sete mil homicídios anuais, onde antes só tinha Dana de Teffé, Crime do
Sacopã, Caso Aída Cury, Fera da Penha e, essa última, sejamos francos, não podia ser mais classe
operária. Pobre morria muito pouco e, mesmo em jornal vagabundo, com o mínimo de estardalhaço.
Morriam feio, como sempre, mas baixinho. Agora, virou manchete. Pelo menos dura um dia só. Os
dois jornais e 1/3 do Rio fazem aquele estardalhaço na primeira página e, dia seguinte, esquecem,
não dão seqüência. Deve ser por isso que, até agora, com essa filmarada americana toda, não se
conseguiu traduzir “serial killer” para, digamos, “assassino seqüencial”.

Mas eu estava entre os amigos, surpresa para uns, chatice para outros. Sim, estou bastante queimado.
Sol de Cascais, no Estoril. Londres não dá para isso. Ninguém diz o que está pensando: “Como
estamos acabados, meu Deus!”

Procuro ser rápido no gatilho, que já o fui. Nada. Não me ocorre uma observação inteligente ou bon
mot, conforme dois ou três ainda diziam, quando me mandei. Repito e ouço repetida a frase que nem
por isso deixa de ser verdadeira: “Puxa, o tempo passa, hein?” E o coro, “É verdade, é verdade...”

Na manhã de segunda-feira, maus amigos me levam à Visconde de Pirajá, dão-me refresco de açaí
(aqui em Londres o indiano da esquina vende. É engarrafado e comercializado por uma indústria
chamada “Monkee”) e, como o dia está boni-to e beira os 28º neste inverno, decidem que devo ir à
praia. Fazem com que eu compre uma sunga azul grotesca (de lycra, creio) e um par de havaianas,
que os brasileiros juram ser invenção deles (não é). Depois de fuçar duas livrarias empostadíssimas,
vou mudar de roupa na casa de um deles que, como todo mundo que é gente, mora na Vieira Souto, o
metro quadrado mais caro do mundo, conforme gostam de se gabar os brasileiros (não é). É biboca
após biboca na Visconde de Pirajá. Todas aos urros, aos berros. Coisas escritas. Em acrílico, nos
toldos. Farmácia, drogaria, butique. Não sabem, mas estão todas liquidando. Papai Noel ficou
maluco, é hoje só amanhã não tem mais, salvados do incêndio. Isso, incêndio. Estão todas em plena
conflagração comercial e não o sabem.

De sunga azul de lycra (o pissilone é indispensável) e havaianas, as ilegítimas, vou à praia. Ali por
volta da Montenegro e Joana Angélica. Pela primeira vez na vida, acho, sem camisa com maço de
cigarro e isqueiro no bolso. Olho para baixo e nada. Estou assexuado. Uma vergonha. Confesso-me
ao companheiro e, dando um toque de erudição e humor, conto a história de Hemingway, que um dia
cismou de botar roupa de toureiro e ir treinar numa tourada. Olhou para baixo e, tal como eu, neris de
pitibiriba — e parece que Papa era bom de pitibiriba. A. E. Hotchener, seu amigo e mais tarde
biógrafo, consolou o escritor: “Dominguín usava dois lenços, Hem.” Sem lenço, sem documento, mas
nunca um Caetano, vou no meu doce balanço, caminho do mar.

Eu reconheceria esta areia em qualquer praia ou deserto do mundo. Primeiro, a relva tímida em torno
dessa novidade dos quiosques. Depois, um ligeiro declive, areia pelando como psoríase, corridinha
(ai!) até chegar àquela parte mais fina, varrida por ventos noturnos, onde se formam pequenas telhas,
que, ontem, como hoje, dá para se ir arredondando até formar um biscoito com um furo no meio e,
então, jogar nos outros meninos. Não faço isso porque tenho medo de apanhar. Por fim, a areia fofa,
revirada por maquinário especial todas as noites (e os namorados?), assegura-me o companheiro.
Faço-me croquete em dois segundos. Talvez seja a falta de lenços.

Eu reconheceria esta água em qualquer praia do mundo. Deixo-me afundar um pouco, já que o tempo
do mergulho se foi, sinto o sal na boca e na narina, conto nas pernas as camadas da água. Uma mais
fria até o tornozelo, depois mais morna perto das coxas, mais fria de novo na cintura. Não fico dez
minutos na água.
Uma senhora tomou conta de minhas havaianas, as fajutas, e das chaves do companheiro. Um
nordestino traz a água de coco com canudinho para a gente tomar. Gozado, eu só passei a apreciar,
para valer, água de coco em Londres, onde só tem, quando tem, industrializada.

Cadê as bundudas? Cadê o arrastão?


*

De tarde, acertando os fusos horários no hotel, vou ao caderno verde em espiral e hieroglifo uma
outra pequena dúvida. Há um problema aqui e pela proa: o que fa-zer com estes dias? Onde botá-los
depois? Foto não me diz nada. Confio tanto em palavra escrita quanto em nossa Constituição. Não
tenho mais tempo para esquecer mais coisas.

Há uma técnica para se deixar o país em que se nasceu, não chega a ser arte. Simples como o quê:
seguir em frente e não olhar para trás, feito a mulher de Lot ou Orfeu. É imprescindível não recorrer
nem à Bíblia (tem uma na gaveta da cabeceira) nem à poesia. Principalmente poesia. Em prosa, não
contam Proust (com exaltado fervor), Fitzgerald, Thomas Wolfe, retratos de Itabira na parede e até o
melhor e menos citado, Camões, que, em português de seus dias, e nossos ainda, escreveu, “a grande
dor das coisas que passaram”. Via mais com um só olho o grande vate português do que nós com
todos três.

Confiro o frigobar, mexo em todos aqueles vidrinhos no banheiro, apalpo o exagero de toalhas e
roupão de velour, abro a sacola de praia com suas recomendações antiassalto e subseqüente morte.
Ligo e desligo a televisão. Estão todos tentando falar português e não conseguindo.

Dizem as moças ancoradas a seus ânco-ras na televisão: “Pois é, Cláudio...”, “É isso mesmo,
Fernandes...” Estão improvisando, dando naturalidade, interagindo, disseram para elas. Sempre e
sempre pondo a ênfase na palavra errada, em geral um pronome possessivo. As âncoras começam a
entrevistar autoridades como a prostituta — ou prostituto, estava escuro — no Jardim de Alá, “O
Senhor quer fazer um amorzinho legal?” “São apenas 50 reais, senhor” Ô Senhor! O gênio da língua
pede algo diferente, senhor nunca no fim ou no começo da frase. Isso é dublagem, sô! Um pouco mais
de intimidade e é “seu” mesmo. “Seu” Manuel, quer fazer um amorzinho legal por 10 reais?,
conforme se pergunta para o dono do armazém.

Bengalo-me por um ou dois quarteirões da Vieira Souto. O verbo “bengalar” não existe, mas eu uso
uma bengala e, como estou no Brasil, passa a existir. Aqui se inventa, aqui se dá asas ao homem, aqui
se planta, aqui se dá. Mas eu me bengalava. Pego um táxi. Sugiro uma volta pela praia com voz
tristonha de manco (para que não me assalte e mate), mesmo sentado no banco de trás. Peço que vá
devagar. De onde dá para se ir, no Arpoador, aquele edifício pó de pedra, que era o único que
driblava o gabarito de quatro andares (isso, como tudo mais, nunca ficou claro), até a subida para a
Niemeyer, é uma jaula só. Pobres ricos, pobres elites, pobres classes dominantes: tudo vivendo atrás
de grades, guardadas por nordestinos incompetentes com calça azul-marinho e camisa branca puídas.
Visualizo as classes abastecidas, à noite, uivando em seu cativeiro. Os porteiros fingindo não ouvir,
afiando suas peixeiras.

Teve o muro de Berlim, há a menos divulgada muralha erguida por Israel e a ainda mais invisível
Barreira da Orla Marítima Carioca. À noitinha, camionetas (chamam agora de “van”) passam pela
Vieira Souto e Delfim Moreira e gritam nomes, para mim cabalísticos, que serão amanhã
documentários e filmes premiados com palmas, leões de ouro e oscars: “Cunhataí, Serependi, Nove
Cabeças, Xerebendim” e por aí afora. Tem gente, ou quase gente, entrando e indo. Parece que é a
outra parte da vida deles. Parecem palestinos com sua trabalheira para — inevitável a construção
verbal — irem trabalhar.

Tenho que ter em mente duas ou três coisas que fazem parte deste meu périplo. Primeiro, que todo
suicida volta ao local onde, indigitado e tresloucado, ateou fogo às próprias vestes. Segundo, que
tudo que eu escrever poderá ser usado contra mim. Ainda, que aqui não reconheço nada e nada faz
questão de me reconhecer ou conhecer.

Qualquer pessoa com seus quarenta anos, não tem nada a ver comigo, nada terá a ver comigo, nestes
dez rápidos dias. Quem tinha doze anos, ou por aí, quando peguei a Avenida Brasil e segui para o
Galeão, é de uma nacionalidade outra, beira o alienígena. Meu negócio são cabelos brancos.

Deve ser por isso que paro e olho para trás, ou para o outro lado da rua, quando vejo alguém de
cabelos brancos. Digo alto, sozinho ou para quem quiser me ouvir: — Eu conheço esse cara.

Sempre no táxi, anoto algumas frases para logo mais no caderninho verde em espiral. Não há, neste
passeio, esquina ou canto em que eu não tenha sido brutalmente infeliz ou estupidamente feliz. Em
algum lugar alguém deve ter escrito que uma cidade é aquilo que dela se resolveu ver ou lembrar.
Também que não é que a gente se lembre da cidade, é uma parte misteriosa e calada da cidade que se
lembra da gente, mas finge que não, que não é com ela, que não sabe nada de nós. E eu que tinha
jurado para mim mesmo e meus patrocinadores que não tentaria em linha nenhuma ser “interessante”.
Perdão, patrocinadores. Perdão, chofer de táxi. Por penitência, resolvo citar, atravessando o sinal
verde do lugar-comum, uns versos do Borges: “Y la ciudad, ahora, es como un plano de mis
humillaciones y fracasos.” E cuidado que ainda vem Jorgito por aí.
*

Eu: “Casa da Feijoada”, “Delícia Tropical”. Tá certo. São nomes nossos, são nossos nomes. Agora,
que frescura é essa de “Doncaster, “Nero´s Palace”, “Desir d’Ar-gent”?

Chofer de táxi: O senhor é um nacionalista, estou certo?

Eu: (com medo de muita intimidade) Mais ou menos. Depende da nação.

Na praia, para um moleque, pegando uma água de coco num quiosque, talvez minha 34a em três dias:

Eu: Ei, garoto!

Garoto: Quequiqué?

Eu: Você é de assalto ou de drogas?

Garoto: Os dois.

Eu: (fechado em copas) Faz muito bem, meu filho. — E me mando.

Essas minhas duas conversações mais interessantes em dez dias. Teve também uma apenas telefônica
com a Clementina, empregada (gozado essa palavra me insulta um pouco) do Jaguar. O papo foi
pessoal demais e não estou autorizado a reproduzi-lo sob qualquer forma.

Gozado. A gente vê aquele Cristãozão láno morro, o mar, as ilhas, o verde todo e, mentalmente, como
um elevador, vamos fazendo uma musiquinha enlatada interna. Em geral, “Aquarela do Brasil”,
“Onde o Céu Azul é Mais Azul”, “Corcovado”, “Garota de Ipanema”, “Rio de Janeiro”, “Valsa de
uma Cidade”, por aí. Para ser franco, nada descreve melhor o Rio do que — quem diria? — o
Aloysio de Oliveira, com música do Tom. “Inútil Paisagem”. Confiram:

Mas pra quê


Pra que tanto céu
Pra que tanto mar
Pra quê
De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde
De que serve a tarde
Inútil paisagem
Estou certo ou não estou certo? Certíssimo, claro, tira a paisagem e sobra aquilo que a gente — que
vocês — sabem. De cartão-postal, plano geral e bandeja feita com asa de borboleta, não vale. Assim
até Brixton, aqui em Londres, é páreo.

E o tédio de tudo que passou, a chatice do passado? Essa não ocorreu a nosso querido Marcel, que,
mais uma vez, dormiu demais, acordou quando já era
noitinha. O passado é meio ridículo. Feito aqueles filmes mudos, granulados, coberto de riscos. As
pessoas andando pra cima e pra baixo em passo acelerado, os homens de bigodinho, tirando e pondo
o chapéu, olhando para a câmera, dizendo coisas ininteligíveis. Tudo pronto para cair de bunda no
chão.

Muita força para achar graça no que me cerca. Eu fui, olhei para trás e me transformei numa
“estáltua” (como dizem os teleatores) de paçoca. Agora chove, ven-ta, troveja e tanto meu projeto
“Aquarius” quanto o do maestro Isaac Karabtchevsky foram para as picas. Desmilinguo-me no ar
condicionado do quarto de hotel diante das Cagarras, nós dois, que nos vimos tanto e até hoje não
nos cumprimentamos.

Cumprimento, subindo a Niemeyer, em perigoso passeio noturno, o portão da casa de Elis, quando
ela estava casada com Ronaldo Bôscoli e, aos domingos, expulsava da casa, aos berros, quem
estivesse puxando um fumuzinho legal, conforme se dizia. Como subiu gente! E continuamos a
subidinha cautelosa.

De noite, na Vieira Souto, esperando um amigo, sempre de carro e com ar condicionado (ninguém
sente calor. Sente-se é assalto) ouço um baita ruído, meio trovão contido, em nada familiar. Logo me
dou conta: foi o Vidigal que avançou mais dez centímetros.

No boteco, pela segunda vez, para as empadinhas. Só então me dou conta, fora buteco mesmo,
daqueles com u, balcão para a cachaça, duas mesas de mármore barato e havia, pregado na parede,
um telefone. Queria ter um pastel de ar por telefonema dado depois de meia-noite para uma jovem
senhora que morava nas cercanias. Seu telefone tinha 8, tinha, 9 e tinha 0, que essas coisas, esses
números a gente não esquece nunca, nunca, nunca. Era briga feia após briga feia, as pazes — não
chamemos aquilo de pazes — feitas de madrugada. Às vezes, eu muito alto, não tinha peito para falar.
Ela dizia para que eu viesse, que ela abria a porta da portaria. Eu caminhava o quarteirão e meio até
a entradinha do pequeno edifício onde ela já me esperava. Só dei pela coisa de volta a Londres.
Tenho um frio na barriga e uma porção de lugares-comuns pelo corpo de nosso cancioneiro e cheguei
a botar na vitrola Elizeth cantando “Que é Que Vamos Dizer”, do Marino Pinto, que eu pedia para
meu compadre, Mister Eco, botar mil vezes seguidas no som, para escarafunchar mais a coisa. Nem
dá para chamar de ferida. Na época, com aquela idade, menos de trinta anos, devia ser bom. A uma
certa altura, eu não tinha mais como distinguir a diferença. Borges ataca de madrugada e eu o
parafraseio: numa certa faixa de disco, será sempre 1963.

Domingo no Centro. Tudo fechado. Ninguém nas ruas. Meus cicerones não são daqui, não manjam
porra nenhuma do Centro. Querem me mostrar a Colombo. Expliquei que está fechada, como o resto.
Fomos assim mesmo. Nada mais desolado no mundo. Eu ia dizer que estava saigonizada a cidade,
mas Saigon, pomba, se estourou toda, mas saiu vitoriosa de não pouca bosta. Vamos errando caminho
por caminho. Pude constatar mais uma vez a destruição do Palácio Monroe pelo Geisel, que parece
agora que é “Sacerdote” ou “Feiticeiro”. Bobagem da turma. Chama tudo de “Açougueiro” e
“Carniceiro” e faça-mos as pazes com a realidade.

Apesar de eu explicar direitinho onde fica a Gonçalves Dias, estamos na Praça Tiradentes e eu posso
apontar curiosidades, o Recreio, o João Caetano, falar do Baile das Atrizes. Também passamos por
Senhor dos Passos, sem restaurante árabe, e, bobeássemos, iríamos até a Aldeia Campista, Gamboa,
por aí. Ninguém na rua. Estacionamos na Rio Branco onde deveria estar aquela galeria que eu não me
lembro o nome. Na esquina de Ouvidor, um nordestino — sempre, sempre os nordestinos — com
uma camiseta escrita “Fuck you!”, armado apenas de iPod, revela que a Colombo é aquele toldo azul
lá embaixo. Muito chique, aliás.
*

Ligo para a primeira namorada. Está divorciada. Combinamos nos ver. Em Cascais, achei fotos
nossas tiradas em 1951. Sorridentes no Posto Seis, crentes que tudo ia acabar bem. De certa maneira,
estávamos certos. Acabou e aqui estou eu, aqui estás tu, eu Joujou, tu Balangan-dãs.Tirei cópia de
todas fotos e trouxe num envelope pardo. Passados 55 anos, falamos calmamente um com o outro,
sem sentimentalismos, sem aflições. Somos a coisa mais natural desse mundo, só que 55 anos mais
velhos. Marcamos encontro no bar do hotel, meio da tarde. Tomamos refresco de morango. Eu, dois,
para não perder a fama de exageradão. Falamos de coisas normais, gentes normais. Nada mais nos
espanta. Nenhuma hora da saudade. Apenas o inegável prazer de nos vermos. Por menos de hora e
meia. Ocorre-me um dado fantástico. Digo para ela nos imaginar, em 1951, falando sobre os
acontecimentos passados há 55 anos, lá por volta de 1897. Estaríamos então discutindo Canudos e a
morte ainda recente de Antônio Conselheiro. É a única maneira de se contar o tempo, de se usar um
calendário de verdade. Ir à história para valer.

Rimos do susto.

Por sobre as nossas cabeças brancas, duas fadinhas, feito aquela do Peter Pan, a Sininho, jogam
peteca na beira da água do Posto Seis. Riem, em seus maiôs de duas peças, e aumentam a velocidade
do ritmo do jogo, que é disputado com aquela peteca formada de várias camadas de borracha
redonda, com algumas penas amarelas em cima. E nos despedimos, os quatro. A gente se vê. Afinal,
eu tenho em casa os discos de Jacob do Bandolim, Jorge Veiga e tudo que pude de Sílvio Caldas.
“Todo mundo chorou de saudade, todo mundo menos eu.” Ah, sim, a gente se vê. Se vê.

Mataram, no meio da semana, um rapaz português em frente a um hotel que agora fica onde era o Cine
Rian, que é Nair ao contrário. O rapaz levou a sacola do
hotel anunciando-se turista. Levou uma peixeira no estômago. Deu um dia no jornal. No outro, sumiu.
Feito sumiu o assalto e a morte de um procurador na avenida Brasil, uma ou duas semanas antes.
Ambos não viveram mais que o tempo de uma manhã. Feito as rosas de um poema

Tiro uma tarde para render homenagem às nossas estátuas. Começo no Leblon, com Zózimo Barroso
do Amaral, o paletó pendurado em dois dedos de uma das duas (ou seriam três?) mãos. Um livro do
lado simboliza a eternidade de seu pensamento e sua obra. Em seguida, passo por Drummond, na
beira da praia, de costas para o mar. Deveriam é ter botado (ou colocado, conforme enfiam agora) na
fila do ônibus da Francisco Sá, esquina de Conselheiro Lafayette, bem depois da cabrochinha que ia
para a Central. O poeta com a expressão concentrada de quem já começou a bolar as candentes
entrelinhas de sua coluna no JB condenando algumas das arbitrariedades (ao menos contra livro, pô!)
do regime militar. Depois passamos pelo Ibrahim, agora de ouro, em praça própria, na semi-rotunda
de quem vai entrar no Copacabana Palace. Ainda é perigoso fazer qualquer brincadeira com o Turco.
Mesmo a salvo, em Londres, enfio o galho. A de Ary Barroso, a pessoa que dirige o carro se nega a
me levar. Perigoso demais. Morei 100 metros adiante, na Ribeiro da Costa, quando eu é que era
perigoso. Mas a melhor estátua, a que vai para o trono, a que ganha o troféu “Fernando Pessoa na
Brasileira em Lisboa”, é a do Braguinha, o João de Barro, ainda vivo, compositor de milhares de
sambas e marchas inesquecíveis, tais como “A Mulher do Fu Manchu”,”A Serpente do Faquir” e
“Bandeira de Minha Terra”, todas três em parceria com Alberto Ribeiro. Não entendo é por que não
botam todos eles a cavalo. Afinal, estátua eqüestre é muito mais respeitada. Vejam só a do
Marechal Deodoro.

Mais uma vez, antes de me mandar, peço para ver os edifícios de nossa orla marítima. Quero guardar
na retina e nos ouvidos o doudo vernáculo arquitetônico, por trás das grades, deblaterando em suas
jaulas, falando em línguas. O preciso equivalente à menina do Exorcista, quando tomada pelo
demônio Pazuzu. Edifícios que dão uma volta de 360º na cabeça, viram os olhos para dentro, ficam
verdes, e vomitam na cara dos turistas. Alguém tem de ir e preparar um “coffee-table book” com
eles. Sem esquecer daquele cara do Bar 20.

Lá vão eles de novo pela Avenida Atlântica. Os vinte macaquinhos daquele episódio de “Os
Simpsons”. Na vida real, são iguaizinhos aos retratados pelo Matt Groening. Os tambores de
gasolina jamaicanos, sempre presentes, reforçam ainda mais a realidade dos fatos.

Tardinha e vou encontrar, na velha Taberna Atlântica, o amigo que não vejo há sessenta anos. Tarde
também para nós, velhos também. Passamos a nos falar apenas de alguns anos para cá. Email. Troca
daqueles pequenos filmes, graças, gracinhas e graçoilas informáticas. Ele trouxe as fotos oficiais do
colégio para os anos de 1944 a 1946. Lá estamos os dois, no meio de uma porção de outros meninos,
nas três fotos dos três anos em que estávamos na mesma classe. No lusco-fusco (ô alegria de enfim
usar a palavra de dois barris!), ele me aponta quem é quem e o que anda fazendo ou parou
inteiramente de fazer. São os famosos dois dedos de prosa: o sinal da vitória dado na direção geral
do tempo. Aqui estamos, ó Tempo, eu tomando a água de coco que ele teve a gentileza de ir pegar,
logo em frente; ele pronto para entregar, de cor e salteado, a ficha técnica de toda uma leva dos anos
40. E você aí, Tempo, gaguejando a mesma coisa dia após dia. Em sessenta anos, não trocamos tantas
palavras quanto nos quarenta minutos em que estivemos juntos. O papo continuará por outros
caminhos — cibernéticos, claro. A vitória sobre o Tempo — tome lá mais uma maiúscula, paspalhão!
— é nossa e foi de lavagem.

Fui prudente e não perguntei “Então, o que é que há de novo?”

No quarto do hotel, o rapaz (do norte, ora se!) veio me deixar o bombom que, de certo por recato,
deixa na mesa de cabeceira e não pousado no travesseiro. Como em outras oportunidades, despede-
se com “um abraço, ‘seu’ Ivan”. Gosto da intimidade, prezo o “seu” em vez de “senhor”.

Vou até a janela pegar os 180º de Arpoador a Leblon e ver se o Vidigal, aquele cágado gigantesco
sofrendo dos efeitos da explosão atômica, como nos péssimos filmes de ficção científica, cresceu
mais uns centímetros de ontem para hoje. Uns metros, seria o ideal. Lá estão as vans e suas falas
cabalísticas. Nenhum ônibus da Favelastur. Não são bestas de fazerem excursão à noite. Só entre
nove e duas da tarde. Um pouco mais à direita, a tenda branca que me confundiu há uns dias. Tinha
uma bandeira do Brasil, que essas estão em toda parte, e uma da Itália. Perguntei ao companheiro se
era jogo de vôlei ou sofríamos a visita de algum alto dignatário italiano, inaugurando novo
restaurante metido a besta nas cercanias. O companheiro explicou que não era nada disso. Apenas
uma forma que os hotéis da orla encontraram para não se chatearem com as prostitutas. Os encontros
amorosos são marcados na tal tenda e a bandeira indica a nacionalidade, e, conseqüentemente, a
língua, do freguês em potencial. Um “fucktur” paradão, por assim dizer. A bandeira da Itália tremula
muito nas areias de Ipanema. Buona gente. Espero que não fajutem tanto quanto nos restaurantes
arrogantes que melhor presença fariam na New Jersey de Os Sopranos.

E que paguem o que é justo a nossas jovens que se fazem passar por “demaiores”, fazendo-as assim
um pouquinho mais felizes do que diante de, digamos,
um ravióli de pato, ou um misto quente travestido de tramezzino.

Dezessete amigos, nove ex-namoradas, 146 conhecidos, 48 parentes, 329 botecos, 112 restaurantes,
18 cinemas, e paro por aí, deprimido, fazendo a lista de perdidos, nestas quase três décadas. Preciso
de um Lexotan. Preciso de muito Lexotan. Não vejo outra coisa a não ser gente, de minha intimidade
ou não, tomando Lexotan. Isso me lembra o Zagallo e aquele campeonato do mundo, perdido também.
Não sei se Zagallo entra na lista ou não. Amanhã pergunto a alguém, que, como é costume nosso,
prazeroso me dará a notícia, caso calhe de ser infausta.

Zapeio. Dei a sorte de pegar temporada de eleições. Vans de verde e amarelo nas ruas quase
atropelando os macaquinhos dos Simpsons. Na televisão, tem o horário gratuito de campanha
eleitoral. Surgem na tela, uns por um tempinho, outros por um tempão, uns homenzinhos estranhos,
todos com sotaque nordestino, dizendo de forma enfática coisas incompreensíveis. Fosse na rua,
daria uma gorjeta pra todo mundo e pediria que saíssem de minha frente. Parece que há um sistema
aleatório de partidos. Siglas todas, ou quase todas, começando com P. Detenho-me num comercial
filmado no antiqüíssimo cacoete do cinema verité. Trata-se de um homem, suponho que seja o
candidato, num cenário paupérrimo, sendo argüido judicialmente. Esse pelo menos o que bolaram em
matéria de “cenário” (roteiro, guión), conforme agora cismaram de escrever, dizer, chamar. São
perguntas idiotas, sem pé nem cabeça, respondidas pelo,
quero crer, futuro deputado, senador ou governador, que une sobriedade à sua inegável objetividade.
No encerramento do comercial eleitoral gratuito, o candidato é mostrado como se flagrado às
escondidas, conversando com um, suponho, cabo ou sargento eleitoral. “Então, como é que foi,
Marcola?” E o futuro eleito, sem titubear: “Foi ridículo.” Tinha toda razão. Fora mesmo. Seu partido,
se é que consigo decifrar direito o que garatugei aqui num recibo do “Bob’s”, é o PCC. Pena. Deve
ser comunista.

Eu falei em recibo do “Bob’s”. É mesmo, está aqui do meu lado olhando para mim. Este o cartão-
postal que resolvi trazer comigo. Lá está, “Venbo comércio de Alimentos Ltda, rua Visconde de
Pirajá, 463, loja a, Ipanema. 1 milk shake ovo, R$ 5.80.” Não, não é de ovo. É de Ovomaltine. Tomei
uns quatro ou cinco na tem-porada. Justifica — e como! — o slogan da Venbo: Gostoso como eu
gosto. Pena a decadência das instalações. Era todo de metal reluzente, gente muito limpinha e bem
treinada servindo. Agora... Bem, deixa pra lá.
*

Na banca de jornais, depois de mais um milk shake, este tamanho grande. Como temos jornais e
revistas e nada, nada para se ler. Isso é que é vida. Sobrar tempo para os livros que vão empilhando
em casa, hein? Jornal carioca eu adoro. Pego de manhã, na entrada do refeitório (é isso?) do
breakfast (esse é isso) no hotel e rigo-rosamente estão lidos em cinco minutos os dois e 1/3. Nem dá
para sujar as mãos. Até outro dia, eles melhoravam muito quando catados na Net. Agora foram e
“melhoraram”. Você é obrigado a ler aqueles classificados todos, tudo quanto é anúncio de loja de
eletrodomésticos e loções para bronzear — hmmmm — a pele.

O refeitório do breakfast. Bem cedinho, umas sete da manhã. Lá estão, naquele uniforme esportivo,
dois ou três soldadinhos americanos com tema de camuflagem tropical. No peito, em cima do bolso
direito, “US Army” e uma bandeirinha. Na Comunidade Européia daria, não digo casus belli, mas, ao
menos, um papo entusiasmado, interessante, entre certos segmentos da população e os defensores e
distribuidores e atacantes do nobre jogo democrático.

Na banca, eu acabo comprando é paçoquinha e mariola, que um companheiro paulista insiste em


chamar de “bananinha”. Eu e o jornaleiro rimos muito. Pobres paulistas, bem que merecem aqueles
baianos todos. Baiano é como eles chamam os nordestinos.

A via dos corredores perto dos quiosques. Devem estar ficando fortes e saudáveis, formosos é que
não. Não mesmo. Aprendem ainda a esquecer, a deixar para lá. Deve ser bom estar fechado naquele
corpo, suando e ofegando. Depois vem um idiota, escreve que somos hedonistas e tem todo mundo
que ficar rebolando por aí, digitalizado, diante dessas câmeras. Anda-se na rua e, acima da zoeira
dos toldos, luminosos ou não, lá estão: centro de malhação após centro de malhação. Malhai-vos,
cariocas suleiros, malhai-vos, antes que venha o derradeiro arrastão para a última malhação. Mas
isso só pode ser mágoa de um caboclo que, como eu, tem de ir com bengalinha até a esquina.

Final de temporada. Dez dias é um pouco por sobre o demais, feito se dizia. Mesmo protegido por
excelente hotel e ainda melhores amigos. Todos preocupados em servir bem ao velhinho, nesta
cidade de moços. Eu não consegui encaixar, em papo ou texto, uma única observação digna de nota
ou nota digna de observação. Um presente enorme assalta — deve ser o tal do arrastão — o passado,
todo retalhado em postas fedidas (faisandés, digamos), com que vivo em Londres, satisfeito que
tenha acabado e que, a cada dia, vou aprimorando mais, ajudado por velhos filmes, velhas revistas,
velhas fotos, velhos livros. Um velho se cercando de velharias para atravessar o dia, a semana, o
mês, e, com sorte, o ano. O presente me assalta e me leva todos os documentos. Tudo cópia
fotostática, que o original deixei em Londres, que eu não sou besta. Faz sentido? Não vem ao caso. O
que interessa é que passei, de algum tempo para cá, a me entender comigo mesmo, que é o que
importa. Eu manjo de perder cidades. De estalo, seria capaz de citar três ou quatro. Mas isso é muito
pessoal e as gentes com a papelada em ordem para passar pela minha aduana são poucas. Mesmo se
levarmos em conta que eu sou o único brasileiro, vivo ou morto, que não sabe batucar em caixa de
fósforos ou coisa alguma.

Copacabana, Ipanema, Leblon, Centro, zonas Leste e Oeste, o que quiserem. Curtam o pôr-do-sol,
recortem o Corcovado e os Dois Irmãos e botem à venda no eBay. Virá gente. Muita gente. Mas uma
vezinha só, ao contrário de Naomi Cambell, que, como se sabe, nasceu e continua assombrando o
pobre do bairro de Catumbi. Aqui, no Rio, como poderia escrever o poeta sobre Macau, nada de
interessante ou sério aconteceu ou acontecerá.

De que eu mais gostei, além da imensa alegria de rever amigos? Daqueles guetos que eu continuarei a
conhecer de propaganda, cinematográfica ou televisiva, pois é isso que fazem deles. Desses imensos
campos que por pouco escapam do horrendo apodo de serem chamados “de concentração” ou “de
extermínio”. São assentamentos ou colonatos, bantustões, a que dão o pitoresco nome de
“comunidades” ou o sentimental “favelas”.

Trepada num balde, diante do carro parado diante do sinal (uma gentileza, já que as autoridades
recomendam não respeitá-los), uma menina tenta equilibrar três bolas amarelas de tênis, enquanto um
— comparsa? — pendura no espelho retrovisor um saco de balas pobres que nunca, nunca será
vendido.

*
Passam de novo os macaquinhos dos Simpsons, enquanto um moleque taludo faz xixi no meio da rua,
diante de todos, mexendo assim com o equilíbrio do meio
ambiente mundial, ajudando no cavar o abismo da desigualdade social reinante no país. Essa turma
dos Simpsons é tudo uma canalha só!

Sabe-se que a noção de indivíduo nasceu com a Renascença. Quando nasceu, ou nascerá, o carioca?
Ou o brasileiro? Quem fez a caricatura maldosa? Millôr ou Jaguar?

O ar do Rio tem uma luminosidade que, em nele se procurando tocar, sente-se uma mistura do recato
da ostra diante da gota de limão ou de virgem, com falsa modéstia, frente a frente ao marzapo
ebúrneo. (Também dá uma tosse danada em quem sofre de enfisema. Nisso que dá tentar fazer
literatura barata.)

Um cidadão, numa mesa de bar, eu tomando um caldo de feijão, me falou da lúcida e violenta alegria
sexual de se abrir um rombo com chumbo na cara de alguém e depois ir revirar os bolsos do presunto
para roubar suas coisas, enquanto, do lado, a meninada joga bola de gude. É, ele usou as palavras
“alegria sexual”.

A sisudez estúpida do futuro. A imbecilidade enfadonha do presente. Bom mesmo é o passado, com o
qual a gente pode bulir, mexer, atirar a língua, depois sair correndo e, do outro lado da rua, gritar
“Fiau!”. Mas há um preço enorme a ser pago e não aceitam cartão de crédito.

Seguinte: para cada naipe de passado guardado, há uns dez ou doze de presente tentando cobrir. Para
cada sorvete do Moraes, há um milk shake de Ovomaltine se interpondo. Para cada porteiro do cine
Ipanema que fechou, há uma moça na portaria do hotel perita em ligar laptop (“Temos nomes iguais.
Eu sou Ivana. Meu pai era Ivan também.”). E assim por diante. Dez dias não dão para apagar. Da
mesma maneira com que lutei durante o mesmo tempo com as luzinhas vermelhas do telefone do
hotel, sempre apagando e acendendo, sempre eu derrubando tudo pelo quarto, sempre tendo que
chamar o arrumador, o mesmo que, logo no segundo dia, perguntou se podia aspirar, e eu — o grande
brincalhão! — disse que “só se for com o aspirador.” Deve ser por isso que me desejava um abraço
cada vez que me via. Essas coisas fazem uma algazarra temporal dos diabos na cuca.
*

Aí entra a bala na cabeça que mencionei há — quanto tempo foi mesmo? Ela passou dez dias
escavocando e escarafunchando aquilo lá. Espalhando miolo e fibras nervosas pela aura do córtex
cerebral, os segredos do lugar onde o hipocampo seleciona novas sensações a serem comparadas às
antigas. Neurotransmissões se calaram com os estalos dos fogos de artifício sinápticos. A bala foi
detonada no Galeão e fez seu percurso de dez dias a 700 km/h.

Eu quase que não senti. Agora é tentar me recuperar, e a algumas coisas, e botar tudo em seus
devidos lugares. Só um troço: que coisas? Que devidos lugares?
Búfalo soldiers
Um batalhão da PM e o segredo de seu brilho fulgurante

por Cassiano Elek Machado

Toda corporação militar costuma ter segredos. O segredo mais bem guardado do 8o Batalhão da
Polícia Militar do Pará pode ser encontrado em prateleiras de qualquer mercadinho do país. Talvez
não resolva embates contra pccs e cvs, mas o frasco marrom-escuro, com um belo perfil de índio
desenhado em seu rótulo branco, não custa mais do que R$5 e dá ao tal pelotão um brilho que poucos
regimentos conhecem. A substância secreta chama-se óleo de peroba.

O líder do batalhão marajoara entende de brilho. Dourado, nome do tenentecoronel, diz que o
primeiro passo é lavar muito bem. As mangueiras são atarraxadas diretamente na caixa d'água, e os
jatos saem fortes como os de um lavarápido. lavarápido. Depois é a vez dos escovões, com
impiedosas cerdas de aço. Potes de graxa preta - "tem de ser da marca Nugget" - são usados em
seguida. O trabalho dos recrutas só termina depois que os chifres estão tinindo.

Nenhuma polícia do mundo tem chifres como esses. Longos e curvos; curtos e retos; embicados para
o céu ou apontados para o chão; chifres brilhantes, cuidadosamente besuntados com óleo de peroba.
Quando eles passam, altivos, pela praça central, são motivo de muita boca aberta. Pares de chifres
não faltam em Soure. A cidade mais importante de Marajó tem seis vezes mais chifres do que
pessoas. Mas nenhum brilha tanto quanto os do 8º Batalhão da Polícia Militar do Pará, a única
polícia montada em búfalos de que se tem notícia no planeta.

Meio milhão de búfalos vagueiam pelas terras alagadas da Ilha de Marajó. O prefeito de Soure,
Carlos Augusto Gouvêa, diz: "Os búfalos são a nossa redenção". A redenção dele também: o
prefeito, apelidado de Tonga, cria seus búfalos na Fazenda Mironga - até onde foi possível apurar,
não foi para o prefeito que Vinicius compôs a misteriosa canção A Tonga da Mironga do Kabuletê - e
não raro leva comitivas oficiais para conhecerem seu rebanho. Não são os únicos búfalos
funcionários públicos. Em Soure, búfalos puxam carroças de lixo a R$ 20 por caçamba cheia; dão o
leite do qual se faz o queijo marajoara (bem mais "rude" do que a mozarela de búfala); viram
saborosos filés ou a típica "fritada de vaqueiro". Mas nenhum dos milhares de exemplares bufalinos
de Soure são tão queridos quanto os vinte do efetivo do coronel Dourado.

Por trás de cada um desses pares de chifres lustrosos existe uma história. Bajara é o mais veloz -
recentemente faturou um prêmio de R$ 500 em uma corrida de búfalos. "Temos búfalos mais rápidos
do que o touro Bandido, da Globo", diz com algo mais do que orgulho o tenente-coronel Dourado.
Pimpolho é um dos mais queridos. O mais velho tem 30 anos e atende por Preto Velho. O predileto
do soldado Nogueira é Rabicho.

Nogueira, Rian (sim, em Soure existe um soldado Rian), Martins: todos eles entendem daqueles bois
de cara preta. São os soldados do batalhão - ao todo, duzentos - que lavam, escovam, engraxam e
passam óleo de peroba nos chifres dos búfalos. São eles que montam seus lombos, tanto em dias
festivos como em missões em Chaves, Santa Cruz e Cachoeira, três dos sete municípios sob o
comando do coronel Dourado. Antonio Augusto Gomes Dourado, 45 anos, 26 dos quais na pm, diz
que nesses pedaços de terra só se chega de canoa ou no lombo de Rabicho, Pimpolho, Bajara e
companhia.

As estatísticas criminais de Soure são baixas. Há mais de ano e meio a cidade não tem homicídios.
Na cadeia estão três dezenas de homens. O prefeito Tonga diz que a lei seca decretada por ele é
responsável pela torneira fechada de crimes. O tenente-coronel Dourado garante que isso é uma
grande bobagem, e que a criminalidade é baixa porque as pessoas não têm o que roubar. De acordo
com os dados mais recentes do governo paraense, nos 3,5 mil quilômetros quadrados de Soure
existem 72 fornos de microondas, 127 automóveis e 30 microcomputadores - para uma população de
20 mil almas.

O prefeito Tonga e o coronel Dourado discordam em quase tudo. Um deles já se referiu ao outro
como "um Hitler". Os dois só aparecem juntos na fotografia quando o assunto é policial montado em
búfalo. O prefeito Tonga diz que os búfalos são mais fortes e nadam melhor. O coronel Dourado diz
que só búfalo entra em mata fechada e que a versatilidade dos animais é tamanha que eles podem ser
usados até para matar cobras e arraias: o vaqueiro experiente sabe fazer um tipo de manobra na qual
o bovino fica rodando e pisoteando o chão com seus mais de mil quilos, exterminando todos os tipos
de bicho no meio do caminho.

No dia 7 de setembro, Tonga e Dourado (assim como Rabicho, Martins, Rian, Nogueira, Pimpolho...)
costumam se encontrar em Belém. No desfile anual de todo o efetivo militar paraense, os rapazes do
8o Batalhão passam garbosos sobre os animais. Nessa ocasião, o comandante Dourado não
economiza esforços. Manda um de seus comandados ao mercado comprar potes e potes de óleo de
peroba e de graxa marca Nugget, preta.

Abrindo a caravana vão os dançarinos de carimbó e o homem mais velho da região, Preto Juvêncio,
que, do alto dos seus mais de cem anos, desfila sobre um cavalo. O lugar de honra, porém, é da
guarda montada em búfalos. Uma das canções mais conhecidas de Bob Marley chama-se Buffalo
Soldiers. Foi composta para os quatro regimentos do exército americano que, no século xix, eram
formados só por negros. Mas não ficaria mal se fosse cantada aqui. O público sempre aplaude muito
o destacamento militar de Soure. Fitas de vhs no escritório do comandante Dourado atestam o fato.
Batem palmas, gritam, assobiam. O oficial acredita que um dos grandes motivos é a beleza de seus
animais. "Todos os criadores de búfalo da região me perguntam que tipo de alimentação eu dou para
que eles fiquem assim todos brilhando e bonitos. Mas eles só comem mesmo capim. O segredo eu
nunca conto", afirma Dourado. Não contava. O segredo custa menos de R$ 5 e é vendido em frascos
marrons.
Raquetadas no piauí
Teresina se rende ao badminton (apesar de Bro-Bró)

por Cassiano Elek Machado

Henry Matheus tem oito anos, 1,40m de altura e mora na rua Três de Itararé. Anrrí é a pronúncia que
ele dá ao seu prenome, como se fosse homônimo de Thierry Henri, o atacante da seleção francesa. A
camisa estropiada com que joga futebol, no entanto, é da seleção brasileira mesmo. Henry não é o
Ronaldinho da sua turma no Escolão do Parque Itararé, na periferia de Teresina. Mas é ídolo de outro
esporte bastante popular na capital do Piauí. Os alunos do Escolão do Parque Itararé são jogadores
de badminton.

Henry mostra uma peteca modelo Tournament ws 8500, da marca americana Wilson. Ela viajou meio
mundo antes de chegar a Teresina. Foi fabricada em Guangzhou, na China, pela empresa Double
Happiness, que produz 45 milhões de petecas por ano. A China é imbatível na produção de petecas:
as dezesseis penas que compõem cada uma delas estiveram espetadas na asa de algum ganso, e o
ganso é um prato popular entre os chineses.

Os chineses começaram a jogar peteca há uns 2500 anos. Pouco a pouco, seus vizinhos indianos
tomaram gosto pelo jogo. Foi com os indianos que seus colonizadores, os ingleses, aprenderam a dar
raquetadas em petecas de pena de ganso (dizem que as da asa esquerda são as melhores). O jogo do
qual Henry Matheus é um ás foi batizado com o nome de badminton em 1873, por um seu xará, Henry
Charles FitzRoy Somerset, o oitavo duque de Beaufort. Foi naquele ano que o duque promoveu um
campeonato do tal jogo em sua propriedade rural, no sudoeste da Inglaterra. O palácio que servia de
sede para a propriedade tinha o nome-justamente- de Badminton House.

O badminton existe hoje na China, na Índia, na Inglaterra, no Brasil e em outros 152 países. Há quem
sustente (mais só em rodinhas de adeptos) que se trata do segundo esporte mais praticado no mundo,
com cerca de 200 milhões de jogadores. São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas são os principais
centros nacionais de badminton. De dois anos para cá, entretanto, o Piauí é motivo de orgulho na
diretoria da Confederação Brasileira de Badminton. "Acreditávamos que o calor seria impeditivo, já
que o badminton é jogado em quadras fechadas, sem vento e sem iluminação direta", diz um diretor
da entidade, Gilberto Pupo Nogueira. "Mas, para nossa surpresa, o desenvolvimento do esporte tem
sido mais rápido lá do que no Sul."

"Impeditivo" é um adjetivo talvez ameno para o calor em questão. Alguém já o definiu como
"anecúmeno", que o Houaiss explica ser "região geográfica que não é habitada pelo homem". De fato,
o Instituto Nacional de Meteorologia afirma que Teresina é a capital mais quente do país. Os
piauienses inventaram a palavra bro-bró para designar o período de calor mais lancinante, os quatro
meses de terminação igual: setembro, outubro, novembro e dezembro. Setembro é o pior dos meses, e
o início da tarde é o pior dos horários.

No começo de uma tarde de setembro, Henry Matheus começou seu treino de badminton no ginásio
do Escolão do Parque Itararé. Numa partida, o jogador chega a percorrer mais de seis quilômetros
numa quadra que tem dimensões quase iguais às do tênis. O objetivo do jogo é fazer a peteca
ultrapassar uma rede, mais baixa do que a de vôlei e mais alta do que a de tênis, e cair no campo do
adversário. Assim como no tênis, o vocabulário do esporte vem do inglês. No calor brutal de
setembro, sob o teto de zinco que transforma o ginásio numa fornalha, Henry e seus amiguinhos
gritam Out! e Net! para comemorar smashs, forehands e top spins.

O badminton do Piauí tem data de nascimento precisa: 21 de março de 2005. Naquele dia o
Aeroporto Senador Petrônio Portella, de Teresina, recebeu Francisco Ferraz, que voltava de um
período de estudos em Curitiba. Ferraz é o Charles Miller do badminton piauiense. Ele trazia na
bagagem as raquetes, redes e petecas necessárias à prática do seu esporte predileto. Sendo
minguadas as expectativas que acalentava quanto à popularização do badminton - "o nome é
esquisito, o esporte não usa bola e nem é coletivo" -, trouxe também um adversário, seu amigo Paulo
Bastianini. Mas prevaleceu a fé no esporte: Ferraz enfiou o amigo e o equipamento num carro e saiu
batendo em portas de escola, oferecendo- se para ensinar badminton.

Suas perorações renderam. Existem agora oito lugares para jogar badminton em Teresina, incluindo
três escolas da prefeitura. No começo do ano, a peteca começará a voar no ensino superior, na
Universidade Federal do Piauí, que oferecerá o esporte como disciplina optativa. "Só ganho das
escolas particulares", conta Ferraz, 27 anos, presidente da Federação Piauiense de Badminton. "Nas
outras, vou para fazer trabalho social e divulgar o esporte."

Em frente ao ginásio do Escolão do Parque Itararé, Ferraz conversa com a garotada para decidir
quem representará o estado num torneio em São Paulo. Os candidatos enumeram seus feitos. "Ferraz,
Ferraz, eu fui campeão, vice e terceiro lugar!", diz Luan, de 13 anos. "Você é o melhor do badminton
aqui, Luan?" "É, mas tem também o Augusto, o Arielson e o Mongol."

A decisão sairia dias depois. Enquanto Dunga relacionava o nome dos 24 homens que enfrentariam
as seleções do Kuwait e do Equador, Ferraz fechava a lista dos convocados a defender o verde, azul
e amarelo do Piauí no ginásio do seleto Club Athletico Paulistano. Escolheu apenas o professor
Jeslley, a atleta Gilmara Cristina e o pequeno Henry. Aos oito anos e 1,40m, o garoto da rua Três de
Itararé vai aproveitar e conhecer esse outro bicho que voa, o avião.
O Púcaro búlgaro
Ainda há gente vasculhando os escombros dos associados

por Paulo Werneck

Há um vazio no espaço reservado ao 13º andar, no quadro que exibe o nome dos escritórios de um
velho edifício comercial na Avenida Liberdade, no centro de São Paulo. A julgar pelo que diz o
homem que se encontra numa das salas do andar, José Candido Sobrinho, de 71 anos, não haveria
mesmo o que escrever ali: "Eu não sou nada". Na falta de um qualificativo mais preciso, ele ganhou a
alcunha de Zezinho da Massa Falida, que carrega faz uns vinte anos, desde que sua vida profissional
se converteu numa obsessão: a busca dos seus cruzeiros-Cr$ 27 milhões que lhe eram devidos
(pouco menos de R$ 200 mil em dinheiro de hoje) relativos a direitos trabalhistas, quando as
emissoras de rádio e televisão dos Diários associados faliram ou tiveram sua concessão cassada
pelo governo.

Oficialmente, Zezinho de fato não é nada: não tem patrão, não tem cargo ou função específica em
nenhuma instituição, não recebe salário. Dá expediente no escritório da Avenida Liberdade porque
quer. O lugar tem todos os clichês de um filme de detetives: o vidro leitoso na porta, móveis escuros
e pesados, o telefonão bege, com disco e botões luminosos a, b, c. O telefone toca, Zezinho aperta um
botão e diz: "Advocacia", embora não seja advogado - o advogado, no caso, é a pessoa com quem
divide o escritório, um homem a serviço de Walter Abrahão, ex-vereador do extinto pds, dono da
sala. De olhos fechados, conversa com paciência, olha o relógio (que usa virado para o lado de
dentro do pulso), e desliga. Quem telefona são ex-funcionários da Tupi, querendo dar baixa na
carteira, para se aposentar, ou à procura de documentos, de processos perdidos. Quando mudam as
leis da aposentaria, eles vêm aos cardumes.

Na mesa do zelador da massa falida, apenas papéis - antigos e amarelados ou também papéis mais
novos, organizados com igual esmero e talvez precocemente amarelos só por estarem ali. Zezinho
não usa a internet nem computador. "Não preciso", diz. Mas não seria útil, por exemplo, para conferir
as exaustivas tabelas de correção monetária, que passaram por seis trocas de moeda? Não, Zezinho
confere tudo na munheca, recorrendo no máximo a uma calculadora: aponta os erros por amostragem
e o juiz manda o contador recalcular tudo. Quando o sindicato dos radialistas não sabe orientar quem
procura a entidade, dá ao necessitado o telefone do Zezinho da Massa Falida. O curioso é que
Zezinho raramente pode fazer alguma coisa de concreto, pois não quer ter obrigações formais, não
quer se comprometer, não presta serviços nem tem procuração de ninguém. O que costuma ter é um
palpite, uma sugestão, uma pessoa para indicar.

Zezinho entrou na rádio Tupi em 1952, aos 16 anos, como contínuo, e chegou ao cargo de gerente
administrativo.Jamais imaginou que seria o último a apagar as luzes. Quando a Tupi de São Paulo fez
água, começou a luta - a dele e de outros empregados da rádio Difusora, onde a carteira fora
registrada-para manter o emprego e garantir o pagamento dos direitos trabalhistas. O envolvimento
encarniçado de Zezinho com os escombros da empresa levou-o a salvar da destruição centenas de
fichas de registros de funcionários, provas importantes em processos judiciais. Ao saber que os
arquivos da Tupi, depois de passar anos amontoados nos porões do antigo prédio da emissora, na rua
Sete de Abril, estavam se deteriorando e seriam despejados num depósito no bairro da Penha, uma
espécie de cemitério de empresas falidas, Zezinho providenciou uma Kombi e transferiu as fichas
para o prédio da avenida Liberdade, onde sobreviveram até que o sindicato se encarregasse delas.
Algumas dessas fichas ainda circulam em sua mesa, quebradiças, esfarinhando-se, pois ele está
sempre ajudando a regularizar a situação de algum ex-funcionário. De vez em quando lhe oferecem
uma contribuição que ele aceita de bom grado. Cobrar, jamais. Ganha R$ 1.730 de aposentadoria -
direito conquistado na Justiça, em ação contra os Diários Associados.

Zezinho resolveu dedicar a vida à falência da Tupi não só para receber seus Cr$ 27 milhões, dos
quais já chegaram 95%, mas também porque não consegui use desembaraçar da empresa e dos
colegas. Enquanto houver bens a serem vendidos, valores a serem pagos, ele estará a postos. Hoje a
rapa do tacho da Tupi equivale a R$ 665.740,98, para ratear entre mais ou menos 1400 funcionários,
cujo paradeiro muitas vezes se ignora. Alguns têm a receber valores que não pagam nem a passagem
de ônibus até o banco: R$ 1,83, R$ 0,97. Doze pessoas quase abocanharam 95% do bolo - mas
Zezinho detectou um erro no rateio e foi preciso recalcular tudo de novo. Até hoje o dinheiro está
preso.

A história da falência da Tupi, como toda falência, é chata e cheia de detalhes dificílimos de
reconstituir, além de incluir rapinagens do início ao fim. Fundados por um homem que não pagava
impostos porque "estava administrando um bem público" - a concessão da Tupi -, os Diários
Associados, de Assis Chateaubriand, eram administrados por um condomínio de 22 membros
vitalícios sem direito a controle. Com essa astúcia, nenhum condômino poderia responder a uma
eventual execução da empresa, já que, formalmente, não passaria de um administrador. Assim que a
falência foi decretada, em 1981, e o presidente João Baptista Figueiredo fechou sete emissoras de
TV do grupo, começou na Justiça a correria dos credores para cobrir os prejuízos.

A batalha maior de Zezinho é provara existência de direito do Condomínio dos Diários Associados,
"pois existir de fato, todos sabem que ele existe". Como diria Nelson Rodrigues: podemos apalpá-lo,
farejá-lo, tomar-lhe dinheiro emprestado.. Bem, isso talvez não. Não há um CNPJ único que
responda pelo grupo - apenas os 22 CPFs que Chatô determinou. Assim, não é possível executar os
sócios nos processos de falência.

Há em Zezinho algo do narrador de um romance de Campos de Carvalho - um sujeito que se obstina


em provara existência da Bulgária. É sabido que os Diários Associados existem, assim como a
Bulgária. Eles são um grupo de seis emissoras de TV, treze de rádio e doze jornais. Obtiveram
formidáveis vitórias na Justiça, como a indenização de R$ 220 milhões pelo fechamento da TV
Rádio Clube de Pernambuco, então lucrativa. Para tentar cumprir sua promessa de "implodir os
Diários Associados", o que Figueiredo fez foi presentear a Viúva com uma bomba-relógio.

O pagamento da indenização, diz Zezinho, seria a peça para dar carnadura legal ao Condomínio dos
Diários Associados. Gilberto Chateaubriand, o filho de Chatô que há quase meio século briga com os
condôminos, obteve vitórias que, na interpretação de Zezinho, poderiam provar a existência formal
do Condomínio. Mas, para tanto, seria preciso um "advogado tinhoso". Enquanto ele não chega,
Zezinho recorta notinhas que saem na imprensa sobre o andamento dos processos de Gilberto.

Por maior que seja seu envolvimento nos processos da Tupi, Zezinho não é capaz de relatar uma
derrocada pessoal ou familiar causada pela falência da Tupi. Ou prefere não fazê-lo. Diz saber que
essas histórias existiram e menciona uma ou outra que ouviu por alto. "Eu estava preocupado com o
problema da Justiça Federal, quando é que os bens tinham que ser leiloados. Preocupado com o
dinheiro que não chegava." Ele não é de cultivar dramas. Para saber a respeito "dessa outra parte",
não é a fonte indicada. Zezinho tem mais o que fazer: associado do Instituto de Defesa do
Consumidor (Idec), no momento está brigando com a Golden Cross por reajuste abusivo das
mensalidades. Ele acha que vai ganhar
Paladar absoluto
A arte, a técnica e a ciência de tomar café

por Antonia Pellegrino

Fernando Henrique Freire está diante de uma mesa redonda. Dispostas sobre o tampo giratório, há
cinqüenta xícaras de vidro. Elas contêm dez provas de cinco diferentes amostras de café da nova
safra brasileira. O pó a ser classificado repousa no fundo das xícaras. Freire, de 61 anos, há 38 é
provador de café. Para ele, coar a bebida é dispensável. Um assistente vem até a mesa. Segura um
bule de alumínio amassado e gasto pelos anos de uso. Deita água fervente em cada uma das amostras.
Primeiro, usa o olfato: com uma colher de prata, escuma a superfície do líquido, de modo a levantar
fumaça. Inclina-se para frente, aproxima o nariz, sente o aroma. Repete o gesto com cada uma das
xícaras. A mesa gira, as provas são deixadas para trás. Aos poucos, o café moído e levemente
torrado ganha o fundo das xícaras. A mesa faz o giro completo. A primeira xícara está diante dele
novamente. É hora de usar o paladar. Freire leva a colher até a boca e suga o líquido com um schlurp
que seria considerado deselegante em qualquer outra circunstância. A prova é breve. O líquido é
cuspido num vasilhame ao pé dele. Em dois segundos, o paladar de Freire entende qual é o sabor.

Freire sabe, por exemplo, se determinado sabor remete a uma árvore arábica (Coffea arabica) ou à
outra espécie, a robusta (Coffea canephora). Sabe também discriminar suas variedades, tais como
conilon,para esta, e bourbon, catuaí ou mundo novo para aquela. Cada amostra guarda marcas da
região, do clima, da latitude e da altitude onde a árvore está plantada - e Freire é capaz de dizer se o
fruto foi cultivado a pleno sol, se choveu muito naquela safra ou se choveu pouco. Também conhece
os segredos da derriça - o método de extração dos frutos. Se no momento da colheita havia mais
grãos verdes, amarelos ou vermelhos na árvore. Sabe dizer se o café foi posto para secar num
terreiro ensolarado ou se houve chuva excessiva durante a secagem, assim como poderia dizer se o
fruto foi mexido de maneira homogênea ou não. E mais: se o despolpamento da fruta para a obtenção
do grão de café foi feito ao natural ou de modo artificial, fermentado em grandes tanques de água que
eliminam os açúcares e fazem a acidez predominar. O paladar de Freire apreende tudo isso em dois
segundos, da mesma forma que o ouvido de certos músicos identifica exatamente qual nota foi
tocada. É o paladar absoluto.

"Em café, não existe melhor ou pior, tudo é questão de gosto", ensina. "Particularmente, não gosto do
café Rio, mas é o café que atende ao paladar dos gregos, turcos e sírios." Embora nunca tenha saído
do Brasil, ele tem na ponta da língua um mapa empírico do paladar cafeeiro humano: "O alemão
gosta de café ácido; os italianos e os americanos gostam do encorpado; japoneses e escandinavos
preferem o suave. Os franceses tomam o suave e encorpado. Já os holandeses adoram os sabores
encorpados e levemente ácidos."

O paladar só existe se há um vocabulário para expressá-lo. O léxico do café é misterioso, raro: Sul
de Minas ligeiramente ácido, Mogiana duro suave, Baiano apenas mole e encorpado, Consumo
interno duro ligeiramente sujo e verde, Rio zona. Freire conhece as minúcias do gosto contidas em
cada uma dessas expressões. Munido desse conhecimento, ele prepara a liga, a mistura dos variados
grãos, os blends brasileiros a serem exportados para diferentes países. Embora exista uma média de
produção em cada fazenda, há muitos desvios de uma safra a outra. Ano após ano, uma mesma
fórmula geográfica não corresponde a idêntico sabor. No entanto, o paladar dos escandinavos,
alemães ou americanos se mantém absolutamente constante. Por isso, todo ano é criada uma alquimia
especial entre diversas qualidades de café, para satisfazer o gosto dos fregueses.

O laboratório do alquimista chama-se sala do café. Está localizado no centro do Rio de Janeiro, num
prédio que um dia já foi exclusivamente ocupado por empresas cafeeiras. O espaço é amplo, cheio
de janelas. Há um móvel grande com gavetas e prateleiras repletas dos instrumentos do ofício:
anotações de variedades, peneiras e latinhas de rótulo rosa (para amostras à espera de exame) ou
verde (para as já classificadas), balanças de precisão, cartelas pretas com a tipologia dos defeitos
dos grãos. No centro da sala estão duas mesas de classificação, a mesa de prova, algumas cadeiras e
duas cuspideiras. Contígua à sala do café fica a sala de torra, onde há um moedor de grãos e um
torrador de ferro de 1909.

Há uma dimensão estética no mundo do café. Ser ardido, verde, preto, marinheiro, concha, choco,
quebrado, brocado limpo, brocado rendado, casca, côco, pau, pedra, tudo isso é defeito, feiúra.
Quanto mais defeito, menos valia. E quanto maior o grão, menos defeito, maior perfeição e valor de
mercado.

Freire virou classificador de café por acaso. Era office-boy da multinacional Anderson Clayton e foi
designado para trabalhar na sala do café. "Achava aquilo uma loucura", lembra. "Os caras
misturavam o café, depois jogavam fora, misturavam de novo, parecia que não sabiam o que estavam
fazendo." Embora Freire os achasse doidos, os classificadores mais experientes notaram que o
garoto era um deles: tinha paladar absoluto. Decidiram ensinar-lhe a linguagem do café. "Uma parte
do trabalho é matemática - a mistura precisa das variedades - e outra é a confiabilidade do que se diz
sobre um paladar em relação ao sabor que se sente na boca." Freire já ensinou a tanta gente o ofício
de classificador de café que até perdeu a conta. Hoje, seu pupilo é Tomás Paulino de Luna, morador
do Vidigal e ex-office-boy da exportadora Valorização, onde ambos trabalham.

A profissão, passada sempre de mestre para aprendiz, é artesanal. Existem cerca de 200 bons
classificadores de café no mundo. Vários deles vêm trabalhar no Brasil, país de tradição e boa
técnica cafeicultora. Entre os conhecedores, brinca-se que o café é um dos únicos ramos comerciais
em que falar português é vantagem. São séculos de história, de produção em volumes colossais - o
Brasil é responsável por mais de 30% do café bebido no mundo. Entre os especialistas, o café é
assunto apaixonado, como o vinho na França. "Ninguém consegue largar o café", brinca Freire.
"Dizem que é praga de escravo."

Com o dia chegando ao fim, depois de tantas provas e misturas Fernando Freire se sente ligeiramente
enjoado. Ainda assim, toma um copinho de café no escritório. Nunca em botecos: "Levo para casa a
mistura que eu mesmo preparo", diz. Em seguida, pega a van que o conduz até Piedade, bairro da
Zona Norte onde mora com a mulher, Valéria, e a mais nova de suas duas filhas, Fabiane. Freire janta
com a família. Fritura, gordura, bebida alcoólica, cigarro e perfume não fazem parte do seu
cotidiano: atrapalham o paladar. Terminada a refeição, o café é servido num copinho de requeijão ou
geléia. Freire adiciona um pouquinho de açúcar. É o oitavo, o último do dia.
O coronel morreu antes
Ubiratan Guimarães está morto. O preso sobreviveu.

por Dorrit Harazim

Em dias normais, o engarrafamento que se forma na confluência da Avenida Washington Luís com a
alça de acesso ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, é sinônimo de penitência para quem
pretende viajar. Nas sextas e nas segundas-feiras, o nó se espreme ainda mais. Em início e final de
férias ou feriados, chega ao estrangulamento. Para José Izabel da Silva Filho, quanto pior, melhor. E
aquele início de semana prometia. Graças ao feriado espichado do 7 de Setembro, que este ano fez o
favor de cair numa quinta-feira e despejou levas adicionais de passageiros em Congonhas, o
movimento de retorno, na segunda-feira, anunciava-se caótico. Para os viajantes, uma via-sacra a ser
percorrida com irritação. Para José Izabel, a redenção. Imaginou que venderia fácil o lote completo
de 48 garrafas de água que leva diariamente para o funil metropolitano.

José Izabel da Silva Filho, de 55 anos, mora com a mulher no Morro do Piolho, a mil metros do
aeroporto. Em dias de movimento, volta para casa sem carga nos ombros e com R$ 32 reais no
bolso. Naquela manhã, havia acordado cedo e se preparava para assumir o ponto-de-venda quando a
televisão deu a notícia sobre um coronel da PM assassinado com um tiro à queima-roupa. "Quando
ouvi o nome do coronel Guimarães, nem me mexi, prestei bem atenção", conta. "Quem tira cadeia
aprende a ter certeza antes de decidir se uma coisa é ou não é."

No caso, era. Ubiratan Guimarães, 63 anos de idade e 35 de corporação, fora encontrado nu,
enrolado numa toalha de banho, com um tiro na barriga. Morreu sem chance de defesa ou revide e,
segundo apontam as investigações, alvejado pela própria namorada, 23 anos mais nova. Foi uma
morte chinfrim para quem chefiou a temida rota, a unidade mais truculenta da polícia paulista. Foi,
também, um final insólito para o comandante do chamado "massacre do Carandiru", o enfrentamento
de uma rebelião de presos que, em 1992, resultou em 111 detentos mortos. Guimarães chegou a ser
condenado a 632 anos de prisão por um júri popular. Recorreu da sentença e foi absolvido em
fevereiro último. Não perdeu a liberdade um só dia. Sabia estar jurado de morte pela facção
criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC. Morava com sete armas num apartamento da região
dos Jardins.

"Você viu o que aconteceu lá com o homem?", ouviu José Izabel logo que chegou ao cruzamento para
vender água. A voz vinha de um carro às suas costas. Virou-se. Reconheceu o taxista, um ex-
presidiário dos tempos do Carandiru. O ex-companheiro mais não disse, e seguiu viagem manhã
adentro. "Como a vida é, hein? Ela dá mas ela também tira", comenta o ambulante José Izabel da
Silva, que era conhecido como "Monarca" no maior presídio da América Latina. Enquanto existiu, o
complexo do Carandiru manteve uma taxa de homicídios intramuros mais elevada do que a da
superviolenta Colômbia dos anos 90: 26 mortes por 10 mil detentos. José Izabel entrou no Carandiru
aos 23 anos de idade, em 1975,
e só saiu 26 anos depois, transferido para outro presídio, às vésperas da implosão
do sombrio conjunto de nove pavilhões. Foram, ao todo, 9325 dias e noites.

José Izabel/Monarca, condenado a 56 anos e seis meses por dois homicídios e outros crimes,
sobreviveu a tudo. Para tanto, seguiu ao pé da letra a regra prisional de que "a palavra da gente não
dá curva". Quando o PCC começou a germinar no Carandiru, e a aliciar lealdade junto às levas de
criminosos que iam chegando, ele já era "o seu Monarca", veterano da casa. Foi deixado em paz.
Quando o coronel Ubiratan Guimarães chefiou a operação que matou 111 no pavilhão 9, Monarca fez
como um vizinho de cela: deitou-se no chão do xadreze aguardou o estampido. Estava com 40 anos,
tinha dezessete de Carandiru e achou que sua vida acabaria ali, em meio aos 515 tiros disparados
pela polícia, a maioria na cabeça dos detentos. Ouviu os estampidos que mataram os ocupantes da
cela ao lado e, não sabe como, saiu ileso da chacina. É possível que Ubiratan Guimarães não tenha
feito nenhum dos disparos, pois sofreu um acidente logo na invasão do pavilhão 9, e foi retirado
enquanto seus comandados executavam as ordens. Mas, dos 121 acusados pelo massacre, ele sempre
se comportou como o chefe da operação. Reivindicou para si a responsabilidade por tudo o que
ocorreu, a começar pelas mortes.

Cinco anos atrás, já condenado, o coronel desfilou em jipe aberto na parada do 7 de Setembro, à
frente dos veteranos da Revolução de 30 com quem não tinha nenhuma relação. Na época, as celas do
Carandiru ainda abrigavam perto de 7500 detentos e mais de mil televisores. Monarca foi um dos
presos que assistiu à transmissão do desfile em sua cela. "A gente ficou sem entender nada, ele de
terno, desfilando e acenando de pé, e a gente preso", relembra.

Mais recentemente, José Izabel da Silva Filho reencontrou Ubiratan Guimarães na tela da televisão.
Sentado no sofá roto de sua casa, o ex-detento acompanhava o horário eleitoral gratuito quando viu o
coronel pedir voto como candidato a deputado estadual. Vinha amparado no número de inscrição
sinistro: [14] 111. Em 2002, a mesma senha de conotação explícita rendera-lhe assento na
Assembléia Legislativa, com 56 mil votos. "Em homenagem a um amigo leal, a inscrição 14.111 não
será mais usada", anunciou no enterro o líder do PTB paulista, deputado Campos Machado, ao
decretar a aposentadoria do número 111.

Apesar de ter um título de eleitor novinho em folha, ainda não foi desta vez que José Izabel pôde
votar. Juridicamente ele ainda deve ao Estado, embora tenha cumprido a pena máxima prevista no
Brasil - trinta anos - e passado para o regime de liberdade condicional, em janeiro de 2005. "Se ele
cometer algum delito antes do término da condenação, volta para a cadeia para cumprir o que resta.
A condenação permanece para efeitos jurídicos", explica Sergio Zeppelin Filho, diretor da
Penitenciária de Serra Azul II, para onde Monarca fora transferido depois da desativação do
Carandiru.

Contrariando as estatísticas brasileiras, que apontam uma reincidência no crime da ordem de 50%,
José Izabel conseguiu atravessar nove meses incólume. Quando deu entrada no Carandiru, tinha
apenas quatro anos de escolaridade. Ao sair de lá, quase três décadas depois,continuava no mesmo
ponto. "Eu até queria aprender um pouco mais", ele conta, "mas o professor também era companheiro
[presidiário], então não dava certo e desisti. Só passei a acompanhar a classe na penitenciária de
Serra Azul, onde as aulas eram dadas por um professor de rua [não presidiário]. Depois, na unidade
de Mongaguá, consegui aprender a fazer conta de divisão, que é a mais difícil. Saí de lá levando os
cadernos como recordação."

Segundo profissionais de reabilitação prisional (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais), a


primeira visita à família tem tudo para ser a mais problemática. O preso chega em casa e se depara
com uma penca de problemas, como filho doente ou contas a pagar. Para não decepcionar,
freqüentemente perde a cabeça e vai tentar arrumar dinheiro rápido. "Na prisão fica muito claro o
que é certo e o que é errado, mas na vida fora, não", constata José Izabel.

José Izabel herdou da nora o ponto no cruzamento do aeroporto. Para sobreviver, faz bicos de
pedreiro, carregador e o que aparece. Nunca mais quis passar na frente do que foi o Carandiru. Não
comemorou a morte de Ubiratan Guimarães, registrada em presídios paulistas com panelaços nas
grades. "Que jeito de morrer!", exclama apenas.
Relato de uma guerra
Baianas no candomblé insistem que Jesus não comia acarajé

por Roberto Kaz

Às nove e meia de uma manhã de domingo, abrem-se as portas de um templo de cinco andares da
Igreja Universal do Reino de Deus, a Catedral da Fé, em Salvador. O culto das oito terminou. Os
crentes, que entraram ávidos pela palavra
de Deus, agora saem famintos. Diante do templo, uma família trabalha há catorze
anos vendendo acarajé, comida típica do candomblé. A frase pintada no toldo afasta qualquer
suspeita de heresia: "Em Cristo Jesus somos mais que vencedores". Tânia Palma dos Santos é
evangélica - e acorda todo dia às cinco da manhã para preparar o seu "acarajé de Jesus".

O acarajé de Jesus deve ser entendido como uma espécie de cruzada menos gastronômica do que
teológica. Explica-se: com respaldo da prefeitura de Salvador e apoiada no Decreto n° 12.175, de
1998, a Associação das Baianas de Acarajé e Mingau - responsável pela fiscalização dos tabuleiros
- exige que as profissionais do acarajé se vistam como baianas. Isso implica adotar as vestimentas do
candomblé, como a vistosa bata de cartão-postal. Na segunda-feira, as cores das batas são livres,
pois é dia de todos os santos. Na terça, deve-se usar azul em homenagem a Xangô. Na quarta, dia de
Iansã, usa-se vermelho. Dizem que as mais ortodoxas estendem a norma cromática até as roupas de
baixo. Tudo isso é inaceitável para as quituteiras evangélicas. A solução é cair na ilegalidade.

Na Avenida Sete de Setembro, próximo ao centro histórico, uma evangélica chamada Maria de
Lourdes veste bata somente porque a prefeitura obriga-mas
se recusa a usar os colares igualmente previstos no decreto de 1998. No bairro de São Caetano, onde
predominam famílias de classe média baixa, é mais comum encontrar o quitute nas mãos de
evangélicas do que de baianas regimentais. E no largo da Amaralina, o ponto de acarajé mais antigo
de Salvador, uma evangélica chamada Josélice - que só aceita dar entrevista mediante pagamento -
trabalha com a Bíblia aberta sobre o tabuleiro.

Quando Tânia chegou à Catedral da Fé, não vestia saia, bata, torço ou colar. Era uma baiana à
paisana. Ilegalmente à paisana. Depois de montar o tabuleiro, pôs um boné vermelho e o avental
branco de cozinheira, uniforme que usa diariamente, ignorando as regras da Associação das Baianas
de Acarajé e Mingau. Às dez e meia da manhã, estava com o tabuleiro montado - e começavam a
brotar clientes para o seu acarajé.

Um dos primeiros é um homem na faixa dos trinta, de calça social preta, camisa de botão fechada e
Bíblia na mão - um obreiro do templo. Pediu acarajé com camarão, ao preço de R$1, 50, um pouco
mais barato do que os de rua, os dentro da lei, que costumam custar R$2,00. Comeu e se despediu:
"Adeus, irmã". A Catedral da Fé é um dos raros lugares onde a profissional que prepara acarajé é
chamada de "irmã", e não de "baiana".

Tânia foi baiana por dois dias, o tempo que demorou até que ela aprendesse a driblar a fiscalização.
Se exigissem, compraria uma bata, mas se recusaria a usá-la antes da bênção do pastor - segundo ela,
a maneira teologicamente correta de neutralizar todo traço do candomblé e fazer da roupa um simples
uniforme.

Para as evangélicas que se vestem de baiana, a roupa não passa disto: um uniforme. Já o acarajé não
passa de um "bolo de feijão-fradinho feito no azeite", como explica Roberto Quirino, membro da
Congregação Cristã do Brasil. Quirino faz acarajé há vinte anos, desde que ficou desempregado:
"Entrei nesse ramo por necessidade e não vejo problema. Para mim, o acarajé é uma comida
africana, sem nada que ver com feitiçaria. O que faço é uma merenda que podia ser cachorro-quente
ou batata frita. Por isso uso guarda-pó e chapéu de cozinheiro, como qualquer um que trabalhe num
ramo de comida".

Rita Maria Ventura dos Santos, vice-presidente da Associação das Baianas de Acarajé e Mingau, diz
que preparar o bolinho de Iansã sem a roupa apropriada é "terminantemente proibido. Quem coloca
Bíblia ou adesivo de Jesus no tabuleiro está na completa ilegalidade". É bem verdade que a maioria
das baianas - evangélicas ou não - trabalha na ilegalidade. Há 5 mil pessoas fazendo acarajé em
Salvador, mas apenas 450 são registradas. As outras, talvez por falta de condições, preferem não
pagar a mensalidade de R$5,00 da Associação das Baianas e a anuidade de R$ 119,00 cobrada pela
prefeitura. Estão sujeitas às punições da lei.

Miraci é uma baiana que nunca esteve na ilegalidade. Trabalha há quinze anos no Pelourinho, último
reduto do acarajé tradicional: "Se nós entramos com a nossa roupa e esses colares num templo
evangélico, eles nos expulsam. Então, também não deixamos baiana evangélica entrar no Pelourinho.
Quando vejo um tabuleiro com letreiro escrito 'acarajé de Jesus', pergunto à baiana se ela por acaso
já viu Jesus comer acarajé. Quem é que já leu na Bíblia que em tal ano Jesus comeu acarajé? Jesus
come é pão. Não sou contra Jesus - Ele é o Todo-Poderoso -, mas se os evangélicos dizem que o
acarajé deles está com Jesus, é porque, na lógica, o nosso só pode estar com o demônio".
Em frente à Catedral da Fé, ninguém acha que o quitute feito por Tânia tenha parte com o demo. Um
dia, durante uma pregação, um bispo da Universal anunciou que nunca tinha comido acarajé, e que
ficaria feliz se algum fiel o presenteasse com um bolinho. Foi a senha para que o acarajé saísse do
index proibitorum e caísse definitivamente nas graças do mundo evangélico.

Ao meio-dia, termina o segundo culto. Homens, mulheres e crianças, que vieram de longe com suas
melhores roupas, fazem fila diante do tabuleiro de Tânia. Rosany Amorim de Araújo é uma delas.
Formada em antropologia pela Universidade Federal da Bahia, veste um uniforme em que se lê:
"Exército de Cristo em Ação - Grupo de Evangelização". Ela só come acarajé de Jesus, e usa seus
conhecimentos antropológicos para reconhecer uma baiana evangélica: "Procuro sempre pelos
adesivos de Cristo no tabuleiro". Ângela Maria Santos Silva é outra freguesa. Diz que não come
acarajé de fora "porque pode estar amaldiçoado". Explica: "Tem acarajé pro mal e pro bem. O gosto
não muda, mas o fato de Deus faz diferença".

E pode fazer mesmo. Euflazio Bispodos Santos é um senhor de bengala. Está convencido de que
passa mal da barriga quando come acarajé de rua. Quando come o de Deus, não. Já tendo certa idade,
prefere ser cauteloso. Só come acarajé de Jesus. E dane-se se for ilegal.
Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo
No dia da eleição, Roberto Jefferson oferece lições de retórica e política

por João Moreira Salles

Poucos falam como Roberto Jefferson Monteiro Francisco, 53 anos. "Construí minha vida com
fidúcia", proclama, luxuosamente, no carro que o leva para Petrópolis no dia em que o país decidiria
mandar ao segundo turno o presidente que ele ferira. Havia passado a manhã acompanhando a filha,
Cristiane Brasil, candidata a deputada federal pelo PTB, que não se elegeu. Para os jornalistas que o
seguiram na caminhada pelo Flamengo, serviu-se de sentenças e expressões ornamentais: "política
farisaica do PT", "manifestações populares eloqüentes que me aquecem o coração", "o poder hoje já
não emana do povo, mas dos concursos públicos que escolhem procuradores e policiais federais", "a
campanha não terminou com um aglomerado de eleitores, mas com uma pilha de dólares". Cada
construção foi avidamente registrada. Roberto Jefferson não fala - perora. Há um ano, durante as
CPIs instaladas por sua causa, o país se rendeu à sua oratória. Do presidente da República ao
motorista de ônibus, todos ficaram pendurados nas suas palavras.

Seu vocabulário é manuseado com cuidados de relojoeiro. Pinça sempre as palavras mais raras que
tem à disposição. Sobre a maneira como o então deputado federal Geraldo Alckmin se desincumbiu
de uma missão que ele lhe confiara, afirma: "Ele se houve maravilhosamente bem". Tem grande
admiração pelo explorador britânico Sir Ernest Shackleton: "Que têmpera! Que irredentismo!".
Shackleton enfrentou a impiedade do mar antártico. Jefferson não fala em ondas; prefere um sinônimo
precioso, vaga. Não é acho, é creio.

Os arabescos do fraseado são arma poderosa para cativar o eleitor. Já para o público interno - seus
pares -, Jefferson emprega a sabedoria de uma vasta experiência como deputado. No Santana 2002,
guiado por Eduardo Nunes Serdoura, seu motorista há 25 anos, ensina leis básicas de sobrevivência
no mundo da política. Meia hora antes, ao passar pelo subúrbio carioca de Cavalcanti, reduto
eleitoral da filha, um homem na porta de um bar, tendo avistado o carro do ex-deputado, gritara a
plenos pulmões: "Eu ainda não votei! Meu voto está à venda!". Jefferson nem registrou. Ele não
presta atenção a botequins, sabe os perigos. "Nunca se deve fazer campanha em bar. É lugar de
homens exaltados. Eles bebem, perdem a compostura." Isso na coluna das proibições. Na dos
deveres, está a obrigação de tratar bem quem se empenha na campanha. Um delegado do PTB, major
aposentado, enfia os braços pela janela do carro, aperta-lhe a mão: "Estou fazendo um trabalho forte
por você". Jefferson devolve o cumprimento, pondo a mão sobre a do correligionário: "Não vou te
esquecer. Você se integrará ao grupo". O ex-major sorri, se afasta.

Lealdade e demonstração de apreço são virtudes que Jefferson julga essenciais ao bom
funcionamento da vida política. Por isso admira Fernando Henrique Cardoso. "FHC te faz
importante, te chama, te seduz, busca tua opinião. Ele, o presidente da República; você, apenas líder
de partido. É a relação do romance, em oposição à relação do PT, que é a da prostituta." Explica
melhor: "FHC voltara de Washington, onde havia sido homenageado por Clinton. Na mesma tarde
liguei para ele a respeito de uma questiúncula do Congresso. Ele disse: 'Roberto, venha cá'. E eu fui,
um dia depois de ele haver estado com o presidente americano. Falou-me do encontro, fez
confidências. Saí de lá maior do que eu mesmo. Na volta da posse do Bush, a mesma coisa. Ele me
disse: 'Roberto, essa Condoleezza Rice é da direita furiosa. Corrige o presidente, não o deixa
falar...'. Já Lula só me recebeu em 2005. E Dirceu só me chamava para o toma-lá-dá-cá".

Assim como Deus, o apreço também está nos detalhes. Na política, cada gesto deve ser medido,
julgado. Certa vez, Jefferson foi convidado para ir à casa do então deputado José Roberto Arruda, o
mesmo que acaba de se eleger governador do Distrito Federal. Arruda estava insatisfeito no PFL e
queria assuntar a possibilidade de se transferir para o PTB. "Ele recebeu a mim e a dois
companheiros. Serviu-nos um vinho arrolhado - foi na geladeira e trouxe a garrafa já aberta, com a
rolha parcialmente para fora. Não nos deu importância. Demonstrou desapreço." Foi o primeiro
sinal. Daí em diante, a conversa desencaminhou. Arruda não foi aceito no PTB. História parecida
aconteceu com Cesar Maia. Maia havia sido eleito prefeito do Rio pelo PTB. Jefferson e dois
companheiros foram à casa dele. "Ele nos recebeu de chinelo. Eu e meus companheiros levamos
nossas esposas. Maia conversou conosco por uma hora e não teve a elegância de chamar sua mulher
para que nós a conhecêssemos. Sequer nos ofereceu uma água. É errado. Fiquei quieto, mas julguei.
Maia nos perguntou: 'O que vocês querem?'. Um companheiro pediu a direção da Comlurb, outro
reivindicou não sei mais que cargo. Maia concordou, virou para mim e perguntou: 'E você?'.
Respondi: 'Nada, eu já tenho o prefeito'. Era um teste. Ele gostou tanto da resposta que, no dia
seguinte, espalhou-a aos quatro ventos. Se sou eu, não ouço isso em silêncio. Nesse dia, rompi com
ele em meu coração. Pensei: 'Esse homem é pólvora molhada'. Três meses depois, ele estava fora do
PTB." Maia diz que a história é "verdadeiríssima".

Segundo Jefferson, para sobreviver em Brasília três coisas são necessárias: relações, palavra
empenhada e não ser pequeno. O que significa "não ser pequeno"? "Significa não sucumbir à pequena
negociata, ao dinheiro miúdo para aprovar essa ou aquela emenda. Ninguém resiste ao pequeno
delito. É o caminho sem volta rumo ao baixo clero." Mas decerto a lealdade não deve ser condição
necessária, visto que inúmeros homens sobreviveram a várias traições políticas. Renan Calheiros,
por exemplo, traiu Collor, traiu Fernando Henrique. "A lealdade política pode sofrer oscilações, não
é esse o problema. Não busque em Renan solidariedade; busque negócios: tratou, ele cumpre."
Cumpre sem olhar voltar para trás, em silêncio. 'É a omertà."

A conversa desperta uma velha angústia do motorista Eduardo Serdoura. Escudeiro fidelíssimo de
Roberto Jefferson, Edu, como é conhecido, está intranqüilo. Era vendedor de jornal em sinal de
trânsito quando conheceu Jefferson. É tratado pelo patrão como um igual, senta-se à mesma mesa,
recebe beijos da família. Já em Petrópolis, pergunta a uma das dezenas de pessoas que comem
feijoada na casa do ex-deputado: "Você não acha que esses escândalos desmoralizaram a nossa
classe?". O interlocutor pergunta se ele se refere à classe dos políticos. "Não, à minha classe, a dos
homens pequenos. Todos esses casos começaram com um motorista, uma secretária, um caseiro.
Estamos nos saindo muito mal. Parece que somos todos traidores. Se um dia eu deixar de trabalhar
para o Roberto, acho que não consigo outro emprego. Vão me tomar por X-9." Alguém lhe dá um
abraço, assegura que não. Edu se anima (mas não muito).

Já são quase 16 horas. As urnas irão se fechar em breve. Jefferson solta um alea jacta est, chama
Edu, entra no carro e vai visitar o pai. Roberto Francisco é um homem de 72 anos, professor
aposentado de matemática. É elegante, forte, vivaz. Tem um rosto redondo, um bigode à antiga e
cabelos imaculadamente penteados para trás. A barriga é pronunciada, a voz é tonitruante como a de
um barítono. Roberto Francisco a emprega para declamar poesias. Há 30 anos preside a União
Brasileira de Trovadores. "Meus amores de menino/ dos belos tempos de antanho/ me foram forja do
destino/ com têmpera, sem tamanho".

Trata dona Neuza, mãe de Jefferson, de mãe; ela o trata de papai. São casados há 55 anos. O estilo
Roberto Jefferson não existiria sem o professor Roberto Francisco. "Meu pai, Ibrahim, me obrigava a
aprender um novo vocábulo por dia, com pelo menos cinco sinônimos. Nos dias de aniversário,
tínhamos de escrever sonetos para o aniversariante. E éramos forçados a discursar por cinco minutos
sobre temas irrelevantes: um copo, a maçaneta, um grão de feijão. Aprendíamos a manter o interesse
do ouvinte, a erguer a voz na hora certa, a pontuar a fala com pausas dramáticas. Tomei gosto pela
língua. Era o melhor dos alunos. Só uma vez falhei. O professor pediu que eu lhe desse o imperativo
positivo de resfolegar. Respondi: "Resfólega tu, resfolegai vós". Errei. Na época, o verbo ainda era
irregular. O correto era resfolga tu. Tudo isso passei a meus filhos." Desde cedo, Jefferson aprendeu
a salpicar drama nas suas falas. Era cobrado nas disciplinas de oratória e retórica. Nas CPIs, não
improvisava. "Na véspera, à noite, eu fazia prelibações..." Sopesava imagens, sentia o gosto das
metáforas. Recordava os parnasianos.

Roberto Jefferson cresceu entre as trovas do pai e as lições do avô Ibrahim. Certa vez, em dia que
chuviscava, avô e neto caminhavam quando viram um homem que regava uma planta. O avô
perguntou: "O que você vê, meu filho?". "Um homem regando plantas, vovô". "E o que cai do céu?"
"Chuva" "Então dirija seus olhos para a catedral de Petrópolis e dê graças a Deus. A vida é uma
competição, e um homem que rega plantas em dia de chuva jamais será seu adversário. Um a menos."

O professor Francisco não hesita um só instante antes de responder quem é o seu poeta do coração:
"Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac - um alexandrino perfeito até no nome". É também o poeta
predileto de Roberto Jefferson. O pai pergunta ao visitante se ele conhece A alvorada do amor. Não.
O professor suspira, toma fôlego, apura a voz, ergue a mão e começa: "Um horror, grande e mudo, um
silêncio profundo...". Roberto Jefferson sobrepõe sua voz: "...no dia do Pecado amortalhava o
mundo". Pai e filho vão até o fim dos 43 versos. O pai tem os olhos marejados. O filho olha com
admiração para o pai. Seu mestre.
O pedreiro que gostava de reggae
José Roberto Santos é agora uma estatística

por Luiz Maklouf Carvalho

Eram quase 10 horas de uma calorenta manhã de setembro quando o advogado Gilberto de Oliveira,
62 anos, chegou ao seu apartamento, no Portal do Morumbi, condomínio de classe média em São
Paulo. De short e sem camisa, ele se preparava para tomar banho quando ouviu uma explosão. Da
janela, viu um andaime em chamas no prédio ao lado. Foi logo para o térreo, tentar ajudar. O
advogado conta o que viu: "O homem estava pendurado no andaime, segurando uma corda com a mão
direita. De cima do prédio, o pessoal da Brigada de Incêndio tentava jogar uma outra corda, mas o
fogo atrapalhava. O homem dependurado não agüentou muito tempo. Ele tentou trocar de mão. Vi o
rosto dele perfeitamente, a vontade que ele teve de pegar a outra corda. Não deu. Ele caiu numa
velocidade enorme, em chamas, ao lado de um pé de uvaia. Houve outras duas ou três explosões. No
chão, ainda vi o homem abrir e fechar os olhos".

O homem morreu pouco depois, na ambulância do condomínio, a caminho de um pronto-socorro. Ele


se chamava José Roberto Santos. Era um pedreiro baiano de 36 anos, doido por reggae, que morava
no Capão Redondo, na periferia paulistana. Tinha dois filhos, João Pedro, um bebê de sete meses, e a
garota Sabrina, de doze. Todos os sábados, por volta das 19 horas, infalivelmente, o pedreiro saía de
sua casa, de dois cômodos. Ia para o bar que construíra embaixo, e botava um CD no aparelho de
som. Lá ficava, até de madrugada, tomando cerveja e ouvindo, no volume máximo, discos de Bob
Marley, Edson Gomes, Tribo de Jah e Itamaraty. A irmã dele, Cristina, calcula que Santos tinha uns
cinqüenta CDs de reggae. "Foi seu único luxo na vida", diz. O pedreiro trabalhava havia três anos no
Portal do Morumbi. Só com o salário, aos poucos construiu sua casa e o bar, que só abria aos
sábados. A polícia, às vezes, passava lá e reclamava do barulho. Santos não ligava.

Na manhã de 14 de setembro, ele contou a um colega, Sebastião Nunes, que tivera um "sonho
terrível": ao atingir o 25° andar, o andaime em que trabalhava teve problemas. Em seguida, Santos
subiu num balancim de aço, acompanhado por Aderlândio Cordeiro. Pouco mais de um metro abaixo,
num outro andaime, estavam Sebastião Nunes e Gildete Fagundes. Quando Santos atingiu não o 25°,
mas o 23° andar, houve a explosão.

Pegaram fogo as latas de thinner e outros produtos químicos, usados na limpeza do prédio. Em
chamas, Cordeiro caiu sobre o andaime debaixo, incendiando as latas com as quais Fagundes e
Nunes trabalhavam. Fagundes se desequilibrou, mas conseguiu segurar uma corda. Agarrado a ela,
desceu até a altura do sétimo andar. Então, não agüentou mais, soltou a corda e caiu - em queda livre.
Cordeiro e Nunes puderam ser içados pela Brigada de Incêndio. Os três sofreram queimaduras
graves.

Instalado numa área de 170 mil metros quadrados, com dezesseis prédios, o Portal do Morumbi tem
276 funcionários, e um orçamento anual de R$13 milhões. Seus administradores não falam sobre o
acidente. Jornais paulistas publicaram que a explosão ocorreu quando Santos acendeu um cigarro.
Sua irmã Cristina nega que ele fumasse. Não se sabe se as condições de segurança dos quatro
pedreiros eram as exigidas pela legislação. O que se sabe é que não poderia haver latas de thinner no
solo. Foi sobre elas que Santos caiu, provocando novas explosões. Sebastião Nunes, o colega que
ouviu Santos contar seu sonho terrível, disse que os quatro acidentados estavam seguros nos
andaimes.

Nunes foi levado da obra para a Santa Casa, no centro de São Paulo. "Ô Preta, Jesus apagou o fogo
da minha roupa", disse ele à mulher, Altina, no leito do hospital. Ela mandou a filha Fabiana, de 26
anos, evangélica como os pais, procurar na Bíblia o significado da frase. A jovem desconfia que
achou o significado em Isaías, 41-43: "Quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama
arderá em ti". A Santa Casa deu alta a Nunes no dia seguinte ao acidente. "Ele veio para casa
visivelmente sem condições", reclama sua mulher. Ao ser levado para os curativos num outro
hospital, Nunes foi reinternado.

No Capão Redondo, gente que reclamava da altura em que o José Roberto Santos ouvia seus CDS
agora sente falta do reggae das noites de sábado. "Ele era um cara firmeza", diz o motoboy Fabiano
Nogueira, de 21 anos. "Zé Roberto era bacana, humilde, respeitava todo mundo", lembra Jeferson
Aparecido, de 17. O pedreiro baiano é agora uma estatística. O último levantamento oficial informa
que 2.801 brasileiros morreram, em 2004, em acidentes de trabalho
Horóscopo por Chantecler
O mar não está para Peixe

por Chantecler

Apesar da remuneração pífia, aceitei o convite para escrever o horóscopo deste mês de piauí por
duas razões, ambas de cunho materialista, se bem que uma seja utilitária e a outra, política. Primeiro,
porque é melhor ganhar um dinheiro medíocre do que nenhum. E depois porque, como ensina o
sagitariano Arnaldo Jabor, o zodíaco é terreno apropriado para propagandear a yoga tântrica, em
baixa desde a invasão do Iraque, mas ainda assim a única bússola capaz de orientar as massas
oprimidas rumo, se não às telenovelas, ao menos a um mensalão, ou a um cargo de confiança ou, para
os chegados a uma adrenalina, um a dossiê com razoável chance de comercialização num segundo
turno estadual.

ÁRIES [21.03-20.04] Há pessoas por aí com toda espécie de desejos. Elas se chocam o tempo todo,
se encontram, experimentam a companhia das outras, e pode ser até que seus desejos sejam
compatíveis, ainda que em graus diferentes. Isso está claro, como também está claro que na maioria
das vezes as pessoas deixam seus desejos de lado e se acomodam confortavelmente em padrões de
relacionamento já experimentados, dos quais se tornam funcionárias. E no meio do caminho elas
esquecem de investigar seus desejos mútuos, e sobretudo de explicitar seus próprios desejos para
que o outro tenha a opção de saciá-los. E por isso você, ariano (a) inflexível, vai querer
simplesmente ficar sozinho (a) de dois em dois anos, se não for forçado a mudar de caminho.

TOURO [21.04-20.05] Cuidado com o excesso de tolerância. Olhe ao redor: você com certeza vive
num lugar em que tudo e todos já são suficientemente aceitos. Não faz sentido seguir reivindicando
igualdade universal e irrestrita. Com a Lua quarto crescente em Escorpião, o mês será propício para
exercer seus preconceitos e tirar do sério algumas minorias que ainda se acham discriminadas.
Escolha vítimas de Sagitário, Aquário e Libra, signos que não combinam com o seu.

GÊMEOS [21.05-20.06] Plutão (sim, Plutão!) está passando em sua vida, exercendo o costumeiro
efeito devastador. Pode ser uma boa gastar todas as suas economias para mandar reformar, e
transportar por milhares de quilômetros, aquele antigo piano no qual você aprendeu a tocar na
adolescência. Faça com que seja içado até a janela do seu apartamento e posto na sala de estar. Todo
dia, a partir daí, toque o piano de madrugada para sublimar a angústia de estar exatamente aí, neste
apartamento, agora, sem dinheiro, neste lugar e em nenhum outro, sendo esta pessoa e não qualquer
outra, imaginando como teria sido se tivesse investido dinheiro numa passagem de avião para um
país distante, para bem longe da pessoa que está deitada no quarto ao lado, olhando para o teto,
comovida com a música que você toca. Ou então dê ouvidos à sua outra metade, compre a tal
passagem de avião e suma (de preferência em Paris).

CÂNCER [21.06-22.07] Você quer alguém em quem possa pensar o tempo todo, e essa é uma
expectativa deletéria. Não é preciso ir tão longe, nada além de algumas poucas noites em claro,
lembrando sempre que o prazer pode ser comparado a disparos de eletricidade que percorrem a pele
em circuitos mais ou menos previsíveis, os quais devem ser estudados e explorados. Seu signo é
regido pela Lua: aproveite para calcular a posição das janelas e a arrumação dos quartos de maneira
que a luz da Lua cheia incida diretamente sobre as camas nas noites de céu limpo. E cuidado com o
pâncreas.

LEÃO [23.07-22.08] Haverá diversos mas breves instantes de transcendência nos anos que seguem,
e a tarefa mais complicada será sobreviver a eles, ou manter uma visão entusiasmada da existência
no meio-tempo entre um e outro. Você gosta de ser o centro das atenções, mas prepare-se para ser
esnobado. Distraia-se dos problemas, finja que essa vida de vazio e terror está sob controle. Tome
um porre para não pensar em mais nada (mas evite licor de ovo e conhaque de alcatrão) e no dia
seguinte passe duas horas praticando seu esporte favorito: imagine que você está segurando a morte
pelo pescoço, impedindo que a maldita respire, nem que seja por alguns instantes.

VIRGEM [23.08-22.09] Para os virginianos que adoram ordem no meio da desordem, pequenos
rituais individuais são substitutos mais eficientes para os rituais coletivos, que tendem a ser
niveladores e dogmáticos. Identifique os pequenos rituais que você já cultiva e não pense duas vezes
antes de criar novos. Experimente, por exemplo, passar alguns minutos por dia estourando as
bolhinhas de um plástico-bolha - mas nunca, jamais, em dia de Lua nova e na companhia de um
sagitariano: as conseqüências podem ser nefastas. Depois de exercitar seus pequenos rituais
pessoais, o simples ato de sair para a rua e pegar um ônibus, ou entrar em um shopping,
proporcionará aquela fisgada de uma experiência coletiva e sagrada.

LIBRA [23.09-22.10] Olhe para o céu: Vênus está quase apagada. Seu magnetismo está
comprometido. Esqueça os rins e as dores na lombar, pois a carência será a grande doença do futuro
próximo. Ideais amorosos nunca foram tão traiçoeiros quanto nesses próximos dias. Alivie os
sintomas com colo, abraços longos, aconchego. Logo você estará mais preocupado em encontrar a
pessoa certa do que em ser a pessoa certa, o que será o passo final para que você se torne um
autômato, um pobre coitado definitivamente solitário, ainda que, como sempre, sejam mantidas as
aparências.

ESCORPIÃO [23.10-21.11] Para você, sexo é quantidade, intensidade, desempenho, sujeira e


degradação. Para o seu parceiro é carinho, respeito, fruto ocasional de uma configuração muito
especial de fatores emocionais. Você quer a mão inteira, mas só consegue agradar ao outro com a
ponta dos dedos. É hora de tomar uma atitude. Chame uns amigos e alugue uns DVDs.

SAGITÁRIO [22.11-21.12] Pode ser verdade que somos apenas uma combinação particular de
átomos imbuídos da ilusão de havermos sido extraídos do resto do universo, que amamos somente
aquilo que tememos perder, que estamos permanentemente simulando uma desejada conexão com o
que existe fora de nós (a tal epifania que só será alcançada com a morte) e que aí será tarde demais e
blablablá, mas o sagitariano, de alguma forma, percebe-se como uma negação de tudo isso. Erro
grave. Os eruditos sabem que até Júpiter pode tremer. Atenção: os astros garantem que você ainda é
um mortal.

CAPRICÓRNIO [22.12-20.01] Todos os erros que você cometeu na vida foram por excesso de
bondade. É hora de errar por maldade, por egoísmo, por insensibilidade. Torre seu dinheiro em
benefício próprio. Informe a todos que dependem de você que de agora em diante eles estão
sozinhos. Compre um revólver. Compre uma moto. Fique doente e torne-se um fardo. Já está na hora.

AQUÁRIO [21.01-19.02] A qualquer instante, qualquer coisa que pode acontecer tem 50% de
chance de acontecer e metade de não acontecer. Qualquer outra estatística é bobagem. Neste exato
momento, se você olhar pela janela, há 50% de chance de você ver um cachorro ser atropelado. Se
você fechar esta revista e reabri-la, há 50% de chance de dar de cara com esta mesma página.
Observe o mundo com distanciamento e verá que isso é verdade. Só não espere que essa revelação
torne sua vida mais feliz.

PEIXES [20.02-20.03] Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão [sim,
Plutão!], o décimo planeta recém-descoberto, o Sol e a Lua desenham um dodecaedro. Hora de
repensar suas convicções. Pense bem nos seus livros favoritos, nas músicas que lhe dão vontade de
ser um cantor e compositor capaz de suspender a respiração alheia com dois acordes e quatro versos,
nos filmes que você comprou para assistir novamente a determinada cena, em todos os fragmentos de
verborragia confessional que você despejou num diário, num blog ou no ouvido alheio e pergunte-se:
são eles que dizem quem você é ou, é você que cede toda vez mais um pedacinho da sua vida pelo
conforto de se ver refletido neles? Quebre todos os espelhos de casa. Evite lanchas, pranchas,
veleiros, bóias, corvetas e esquis. O mar não está para Peixes.
Miriam
por Rubem Fonseca

O banco onde eu trabalhava fazia anualmente um exame médico para verificar o estado de saúde dos
seus empregados mais graduados. Era um exame completo, sangue, urina, fezes, radiografias, exame
de vista, ginecológico - no caso das mulheres, como eu -, otorrinolaringológico etc.

Quando o otorrino me examinava, eu lhe disse que sentia como se tivesse um corpo estranho na
garganta.

"Sinto quando engulo alguma coisa", expliquei. "Eu até ia lhe fazer uma consulta, mas ando tão
ocupada que acabava sempre transferindo de um dia para o outro."

Eu já conhecia o médico, doutor Lipton. Ele me examinara em outras ocasiões. Era tido como
profissional competente.

Depois de examinar cuidadosamente a minha garganta usando um espelhinho na ponta de uma haste,
ele disse, "a senhora não tem nada na garganta, dona Miriam".

"Mas eu sinto, doutor Lipton, sempre que engulo alguma coisa, até saliva."

Engoli saliva e senti a presença do corpo estranho. Não era dor, era como se algo me fizesse
perceber que eu tinha garganta. A gente nunca sente que tem coração, fígado, pâncreas e outros
órgãos que funcionam dentro da gente, sabemos que eles existem mas não tomamos conhecimento
deles a não ser que ocorra alguma anormalidade. O mesmo acontece com a garganta. Eu estava
sentindo que tinha garganta.
"Pode ser psicológico, dona Miriam. Às vezes uma pessoa estressada e nervosa tem sintomas que
são puramente psicológicos. A senhora mesma acaba de dizer que tem andado muito ocupada, sem
tempo de ir fazer uma consulta médica."

"Eu disse que andava muito ocupada, não disse que andava nervosa."

"O seu trabalho no setor de empréstimos pessoais deve ser muito estressante. Negar empréstimos a
pessoas que precisam deve ser algo que mexe com os nervos de quem nega. Eu ficaria muito
nervoso."

"Mas eu não fico, recuso os empréstimos sempre que há risco de a pessoa não pagar."

"Mas isso deve deixar a senhora nervosa. Inconscientemente."

"O senhor quer saber mais do que eu? Eu não estou nervosa. Eu sei o que estou sentindo. Um corpo
estranho na garganta. Puxa vida!"

"A senhora não precisa se aborrecer. Isso vai deixá-la ainda mais nervosa."

"Eu não estou nervosa, eu sei o que estou sentindo, um corpo estranho na garganta, que merda."

Eu disse essa frase aos gritos.

O doutor Lipton tirou os óculos, limpou-os num papel especial que apanhou sobre a mesa e disse,
delicadamente, "está vendo como a senhora está nervosa?"

Suspirei. "Desculpe, doutor Lipton", engoli, engoli, "mas eu estou sentindo um corpo estranho na
garganta", engoli, engoli, "tenho certeza de que não é produto fictício de uma mente estressada. Eu
faço esse trabalho há vários anos, como o senhor sabe."

"Hum...", ele disse.

Ficamos em silêncio, eu engolindo saliva e sentindo a presença do corpo estranho.

"Vamos fazer o seguinte", disse o doutor Lipton escrevendo no seu bloco de receitas, " a senhora vai
procurar este especialista, diga que fui eu que a recomendei, e fale a ele dos sintomas que está
sentindo."

Peguei a receita, agradeci e voltei para a agência.

Claro que recusei quase todos os pedidos de empréstimos, pessoa física quando pede dinheiro
emprestado ao banco está mesmo em má situação, quase sempre não vai poder pagar e o meu
trabalho é, nesses casos, negar a concessão de empréstimos. Não me emociono mais com o choro das
mulheres e de alguns homens, nem me comovo com exortações como "eu preciso desse dinheiro, pelo
amor de Deus, meus filhos estão morrendo de fome, eu vou me matar" etc. Alguns ameaçam se matar
na porta do banco segurando um cartaz no peito com os dizeres "dona Miriam me matou", mas até
hoje ninguém fez isso. Esses pobres-diabos têm que aprender a viver dentro das suas posses, mas
não, eles querem ter DVD, telefone celular, máquina fotográfica digital, máquina de lavar roupa,
máquina de lavar pratos, freezer, e querem comer churrasco todo fim de semana. Quem não tem
dinheiro tem que se contentar com a novela das oito e apertar o cinto.

Afinal pude ir ao tal especialista, que se chamava doutor Romênio. Diziam que ele era um bambambã
e ele tinha cara e consultório de bambambã. Demorou uma hora para me atender.

Afinal fui chamada para ser examinada pelo doutor Romênio. Contei para ele que sempre que engolia
algo, até mesmo saliva, sentia um corpo estranho na garganta.

"Vamos ver", disse ele, com o espelhinho na mão. Mandou que eu abrisse bem a boca.

Depois de me examinar durante dez minutos ele disse, "a senhora não tem nada na garganta".

"Como que eu não tenho nada na garganta? Estou sentindo, eu conheço o funcionamento do meu
corpo," eu disse, sem esconder a minha irritação.

"E o funcionamento da sua mente, a senhora conhece?", ele perguntou irônico.

"Que merda, não vai também me dizer que eu estou nervosa. Foi o doutor Lipton quem lhe disse que
eu estou nervosa, não foi?"

"Não, senhora. Não era preciso que ninguém dissesse isso para mim, estou constatando com os meus
próprios olhos."

"Está bem, doutor Romênio, aceito, eu estou nervosa. Mas sinto um corpo estranho na minha
garganta", engoli, engoli, "eu estou sentindo, por favor, faça outro exame."

"Está bem", disse ele com um suspiro, "mas a senhora terá que ser anestesiada para esse exame que
eu vou fazer. É uma coisa desagradável e inútil, mas se a senhora insiste..."

O doutor Romênio anestesiou a minha garganta. Depois pediu à enfermeira, uma mulher grande, de
braços grossos, que agarrasse a minha língua e a puxasse para fora.

"Mais, mais, dona Assunta."

Eu já via a minha língua a um palmo de distância, agarrada pelas mãos da dona Assunta.

"Mais, mais, dona Assunta."

Nunca pensei que a gente tivesse uma língua tão comprida.

Então o doutor Romênio enfiou um tubo na minha garganta com uma luz na ponta e olhou
demoradamente.

"A senhora tem mesmo um corpo estranho na garganta, bem no fundo, difícil de ser visto num exame
de rotina. É um cisto. Vamos ter que observá-lo periodicamente, mas é benigno, posso lhe assegurar
desde já."

Minha garganta doía. Eu não tinha vontade de falar, nem mesmo jubilosamente, "eu não disse, eu não
disse?".

"Vou enviar o exame para o doutor Lipton."

No dia seguinte examinei dez pedidos de financiamento. Recusei todos. A choldra tem que aprender a
viver dentro dos seus recursos. Eu não tenho câmera fotográfica digital nem máquina de lavar pratos.
Nem freezer.
Hoje o bicho pega na boate
O primeiro emprego em Nova York ninguém esquece

por Cecília Giannetti

Cecília Giannetti é carioca da Ilha do Governador, tem 29 anos e é formada em jornalismo pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem um livro de contos publicado e um romance no forno.
Um belo dia, decidiu ir embora, para sempre. "Quando falei com os editores de piauí sobre escrever
um diário de imigração, fiz piadas sobre não suportar mais a monocultura de pagode, o milionésimo
renascer da Lapa. Mas deixei de fora o principal. Ninguém deve achar normal viver num lugar onde a
violência é encarada como algo corriqueiro. Vários de meus amigos debandaram, todos na faixa dos
20 aos 30 anos. Alguns têm diploma, outros não. Desembarquei em Nova York só com uma mala e
vou trabalhar ilegalmente. Radical, eu? Radical é viver sem plano de saúde, sem direitos, salário
perigando não sair."

DIA 12 DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA Saí para procurar emprego à noite. Só tenho coragem de
arriscar um tímido-mas-firme: are you hiring? (tem vaga?) em alguns dos estabelecimentos mais
baixa-renda - uma pizzaria que não passa de uma portinhola numa calçada; um pub irlandês vazio em
que o barman bebe sentado com um garoto punk, deixando abandonado o balcão. Todos me dizem
para voltar no dia seguinte e falar com o gerente.

Passo por um lugar de fachada preta e dourada e vidros fumê refletindo a rua, guardada por duas
estatuetas egípcias pretas de mais ou menos 1,80m. Idênticas, têm saiotes dourados, levantados à
frente que lembram uma ereção de gesso. Procuro espiar através do vidro e uma porta se abre. Um
sujeito aparece, sentado num dos bancos altos em frente ao bar. Ele me dá brecha para falar. Eu peço
trabalho, qualquer trabalho. Ele tem cabelo castanho-claro e um penteado complexo, num moicano
empinado só à frente, e barbicha pontuda que parte do queixo. É branco e tem olhos verde-claros, usa
jeans estrategicamente rasgados e camisa social branca por baixo de uma camiseta marrom. Anéis
prateados distribuídos por quase todos os dedos. No pescoço, um pingente com o símbolo da
fertilidade egípcio.

-O que você é? [Traduzido do inglês quebrado e sotaque pesadão do gerente]

- Sou jornalista. [Tenho a impressão de que não era exatamente a resposta para pergunta, mas a
pergunta não tinha ficado clara.]

- OK, come back tomorrow 5 start training. [A resposta é claríssima].

DIA 13, QUARTA-FEIRA Foi a pior entrevista de emprego de todos os tempos - me diz Mo no dia
seguinte, segurando na minha mão. Como dezenas de egípcios e árabes a quem serei apresentada esta
semana, enquanto treino para virar bartender no Tutankamon, este não é seu nome. Ele usa um apelido
em vez do nome que todos eles têm em comum: Mohammed. O dono do lugar é a exceção;
diferentemente de Mo, do chef e do ajudante de cozinha, o dono desta combinação de boate e
restaurante egípcio se chama Lateef, e se apresenta como Alex.

Mo entra na cabine de DJ e comanda um karaokê sobre as bases pré-gravadas da indescritível dance


music árabe. A garçonete Mona (apelido de Monifa) grita tão alto que não precisa do microfone para
ser ouvida de onde estou. Morena baixinha, do tipo "gostosa" - poderia ser brasileira, à primeira
vista - coloca a mão no lado esquerdo do peito decotado e depois a leva até Mo, que lhe dá um
beijinho. Depois de Mona, a barman Katie recusa sua vez de cantar. Mo não tem nenhuma canção
grega e ela não vai arriscar hip-hop americano. Sou a próxima da fila. Mo coloca "Clandestino", do
Mano Chao - o mais próximo de música brasileira que se pode chegar neste lugar - e me manda para
o microfone. Conheço a letra, é minha piada interna musical: "Solo voy con mi pena, sola va mi
condena (...) me dicen clandestino, por no llevar papel".

As meninas passam a falar sobre amor. É seu único assunto - cíclico, inesgotável, a distração
preferida quando os olhos verdes de Mo não estão por perto. Isso e os drinks que acompanham cada
rodada de decepções, confissões e conselhos trocados por cima do balcão no bar.

Quando o chefe Alex vai embora, por volta de meia-noite, começa uma movimentação diferente em
direção ao subsolo da boate. Chega uma dupla de garotas que não estavam aqui durante o dia. Fadma
e Nashiema, marroquinas. O expediente está só começando. Há outra cabine de DJ, pista de dança,
um segundo bar e uma cama cheia de almofadas de cetim brilhante, véus coloridos e lençóis
estampados com motivos egípcios. No porão acontecem tanto os afterhours oficiais da casa, aos
sábados, quanto os clandestinos, organizados por Mo. Esses costumam ir até as 10h da manhã de
quinta-feira. Mo pergunta se eu tenho que ir para casa cedo ou se eu quero ficar e ver como é o
afterhours. Eu fico. Diz que qualquer coisa de que eu venha a precisar basta pedir que ele resolve.

Correram apenas sete ou oito horas do meu primeiro dia de trabalho e já sei algumas coisas sobre
Mo. Sei que ele cheira, que ele bebe, que ele carrega Xanax - um ansiolítico, no bolso da calça -, que
só dorme depois de ter passado três noites seguidas acordado, que ele tem uma namorada em casa e
meia dúzia fora. Deixa claro que, se eu quiser integrar o harém, há espaço.
Só posso creditar a alguma espécie de Síndrome de Estocolmo de imigrante o fato de eu ainda me
sentir agradecida ao gerente por ter me dado meu primeiro emprego. Donos de restaurantes
brasileiros não tinham nada para uma recémchegada sem experiência: bati na porta do Sushi Samba,
Esperanto - nada. Num curso de português para estrangeiros com vagas para professores, respondi
errado a uma pergunta: você tem Social Security (registro no INSS americano, que serve de
identificação nacional)? Eu disse que não. A vaga continua aberta. Sequer exigem experiência. Vai
ver é melhor fazer um Social Security falso. No bairro de Queens, consegue-se um por 200 dólares.
Basta procurar pelos trambiqueiros certos que circulam pelas ruas ou em algumas lojinhas pequenas,
negócios de fachada, com placas na porta: Passport photos. Saio da boate às sete da manhã; o
afterhours segue no porão do Tutankamon. Como um sanduíche num mercadinho e só consigo apagar
às 11h.

DIA 14, QUINTA-FEIRA O cozinheiro me chama para jantar com os outros funcionários. Ontem não
comi porque não sabia que tinha direito à refeição. O Chef me dá uma dica: hoje Alex chega mais
cedo e só sai quando o último cliente for embora, então é bem possível que eu já ganhe algum
dinheiro, mesmo estando em treinamento.

A primeira vez que senti qualquer coisa parecida com nostalgia em relação ao Brasil foi dentro de
um restaurante mexicano, próximo ao Tutankamon. Foi hoje, no primeiro dia com os egípcios.
Cheguei uma hora antes do horário marcado (saí de casa cedo demais, com medo de me perder por
não conhecer direito o caminho ainda) e fiquei matando tempo, com uma Corona gelada e fatias de
limão. Até que olhei para o lado e me dei conta das paredes pintadas de azul-claro, os rodapés
brancos, os mexicanos falando alto. Uma birosca. Não chega a ser um restaurante étnico temático,
como o Tutankamon. Não é um parque de diversões exótico. É uma autêntica birosca mexicana,
porque aqueles caras ali não conseguiriam fazer de outro jeito nem que se esforçassem muito.
Cortinas brancas curtas, de renda, e detalhes em azul-claro, toalhas de plástico em cima das mesinhas
espalhadas pelo salão, uma jukebox tocando dores-de-cotovelo. Parecido demais com um lugar do
mundo real para existir em Nova York, onde tudo se esforça para ter um sabor artificial.

Por um motivo qualquer, minha cabeça ligou aquele lugar ao Brasil. Mas aí é pagar a cerveja e sair,
Tutankamon espera. Não esquecer de deixar gorjeta, está todo mundo no mesmo barco.

Para achar emprego como jornalista, eu preciso arrumar um número de Social Security e um Work
Permit (autorização de trabalho para estrangeiros), emitidos pelo governo americano. Ou então
arranjar um "patrocinador", alguém que queira não só me dar um emprego como assumir um processo
conjunto comigo diante da imigração, afirmando que tenho, como trabalhadora, habilidades
específicas que servem a um propósito para o empregador.

Luciana, uma brasileira que conheci ainda no Rio de Janeiro, teve a sorte de encontrar uma
patrocinadora logo que chegou aos Estados Unidos. Sua sponsor era uma fotógrafa (especialidade de
Lu) e a contratara como ajudante num estúdio. Era o processo perfeito, do tipo que a imigração aceita
sem problemas. Tão perfeito que foi revendido a terceiros pelo próprio advogado de Luciana. É uma
prática comum aqui: quando a papelada está toda em ordem e a probabilidade de se conseguir a
licença é grande, o estrangeiro com recursos compra uma papelada já em andamento. O advogado
abandona o cliente original sem lhe dar maiores justificativas.

Vim para cá sabendo que, se eu desse sorte, o começo seria em restaurante. A maioria dos meus
amigos de adolescência está em NY agora, casada(os) com americanos(as) e legalizada(os). Todos
tiveram um começo duro, hoje recompensado com estabilidade. Vitor, 36 anos, nosso vizinho aqui e
ex-vizinho no Rio, trabalha em construção civil. "Trabalho de peão", diz ele, que tem fins de semana,
de tarde e de noite livres. E pode chegar a fazer, em época boa, mais de 100 dólares por dia, 800 por
semana. Isso permite que more no Lower East Side, área moderninha e valorizada em Manhattan,
viaje de férias para o México com a mulher (americana, professora de inglês para estrangeiros),
pague escola particular para o filho. E sobra para o lazer: a família gosta de música eletrônica e de
caprichar no visual gótico - Calvin, de 15 anos, usa moicano e cabelos roxos, os pais vestem sempre
roupas escuras e costumam freqüentar as boates da moda. Vive-se direitinho. "E não preciso pagar
academia. Derrubar parede é musculação suficiente", diz.

DIA 15, SEXTA-FEIRA Chego no Tutankamon às 17h e me avisam que hoje o bicho pega na boate. A
noite de sexta é uma das mais movimentadas. A música romântica árabe enche o salão que fica no
nível da rua, faz tremer os copos e balança as saias curtas das egípcias no ritmo rápido. Mas quem
sou eu para criticar, se também estou usando o uniforme da casa - blusa preta e saia preta pregueada,
do tipo jogadora-de-tênis, com botas de caubói vermelhas de cano alto, gastas, que mastigam as
pontas dos meus dedos como qualquer par de botas emprestado?

Mo sumiu da boate depois de uma discussão em altos decibéis na calçada do Tutankamon. Alex, ele e
Nashiema gritavam em árabe até que Mo entrou numa picape e arrancou. Ninguém me explica o que
aconteceu.

Dinheiro? Garçonete - ainda não é o meu caso - faz 200 dólares por noite só de gorjeta. Esta semana
começo a poder aceitar pedidos nas mesas. Mas não vou ficar no restaurante. O faraó está abusado.

DIA 16, SÁBADO O dia é um borrão, durmo. Pernas e pés latejando. A noite no Tutankamon é igual,
correria. E nenhum sinal do Mo.

Quando saio, já é dia. Na esquina da Bowery com Houston, Mo bota a cabeça para fora de um carro
e grita meu nome. Estaciona e vem falar comigo. Pergunta se foi tudo bem, se me deixaram ficar no
emprego. Pergunta se ainda tem alguém na boate. Ele tem dois arranhões na altura do nariz e da testa,
além de um hematoma pequeno, esverdeado, abaixo do olho direito.

DIA 17, DOMINGO Coquetel Tutankamon: duas doses de Absolut Mandrin, Stoli Razberry, Malibu,
duas colheres de sucos de limão, abacaxi e cramberry. Não era bem isso que eu esperava escrever na
minha caderneta Moleskine quando paguei 14 dólares por ela numa livraria-sebo metida à besta. As
cadernetas vêm com um folheto que explica, em cinco línguas, todo o peso que existe em se adquirir
uma tradicional caderneta Moleskine. "Moleskine é a legendária caderneta usada por artistas
europeus e pensadores dos últimos dois séculos, de Van Gogh a Picasso, de Ernest Hemingway a
Bruce Chatwin. Esta companheira de viagem confiável, em formato de bolso, já guardou rascunhos,
anotações, histórias e idéias antes que se tornassem imagens famosas ou páginas de livros
reverenciados."
Ora, pitombas.

O livrinho preto cabe no bolso da minissaia, jeans e ainda sobra espaço para uma caneta e um batom.
Seguindo ordem do gerente deste restaurante-boate egípcio, a bartender versa os ingredientes de cada
drink sem se deter em detalhes, como quantidade ou jeito de misturar. Ela sabe que não tenho
experiência, mas não cogita dar uma ajuda.

O meu coquetel Tutankamon é uma porcaria. O meu Sex on the Beach é uma porcaria. Manhattan,
Cosmopolitan, Metropolitan, Tequila Sunrise, Piña Colada - qualquer coisa que eu sacudo nessa
coqueteleira com símbolos egípcios gravados em alto relevo fica uma porcaria. Quando o movimento
no Tutankamon é zero, e todas as garçonetes desaparecem para fumar na calçada, e a bartender
desaparece para fumar na esquina e fazer ligações para o ex-namorado casado, e eu fico sozinha
atrás do balcão, lá vem ela, a chinesinha que trabalha na cozinha. Surge discretamente, com passos
miúdos, sem qualquer ruído; parece que tem uma esteira móvel debaixo dos pés.

- Drink? Me?
- O que você quer? O inglês dela é bem limitado. Ela dá de ombros. Jogo na coqueteleira os
ingredientes para criar minha versão do Long Island Ice Tea.
- Você tem idade para beber?
- Yes!
- Você é menor de idade?
- Yes!
- Há quanto tempo você está nos Estados Unidos?
- Yes, yes!

Ela desaparece, levando duas cervejas da geladeira do bar para a cozinha.

Domingo é um dia devagar no Tutankamon, e este está especialmente lento. Há um jogo dos Yankees
e os fregueses estão todos em casa bebendo sua cervejinha em frente à TV ou em bares que têm
televisão. As garotas retomam a falação do ponto de onde todas as suas conversas começam e
terminam. Paixão, traição, motéis.

O namorado novo da garçonete egípcia embarca dentro de uma semana para o Iraque com o exército
americano, do qual faz parte. Ele é árabe.

- Se ele conseguir ajudar. traduzir quando as coisas ficarem difíceis, sei lá, quando os dois lados
precisarem conversar... Talvez ele consiga evitar que matem gente inocente descobrindo quem é
civil, interrogando. Mas se ele for para o inferno, eu vou junto.

Quando o clube fecha, por volta das 2h da madrugada de segunda-feira, Alex me oferece uma carona
até a Avenida D, onde moro. Oferecer é maneira de dizer. Ele diz: "Get in da car." com um tom
desagradável de autoridade na voz, que pode ser impressão falsa por causa do sotaque e do inglês
quebrado. Ou pode ser a atitude machista que ele adota no clube com todas as garçonetes.
Passamos pela Avenida D e ele não pára o carro.

-You eat something.

Insiste que eu tenho que jantar antes de ir para casa. Passa por vários restaurantes e não pára.
Começo a ficar nervosa. A dance music árabe continua gemendo dentro do carrão do chefe. O som
alto e o excesso de colônia masculina no carro fechado se juntam ao frio na barriga. Se eu tivesse
comido alguma das especialidades do Tutankamon, não estaria melhor. Comida egípcia e medo são
uma combinação terrível.

Ele estaciona numa rua escura próxima à área do Bowery. Sem dizer qualquer palavra, salta do
carro, dá a volta pela frente e abre a porta para mim do outro lado. Se eu tentar correr com essas
botas acho que não chego até a esquina. Ou chego. Desespero faz milagre.

- Vegetarian. You don't meat, you?

Ele estava rodando atrás de um restaurante que tivesse comida vegetariana para mim. Escolhemos
uma mesa de canto. Espero que ele sente à minha frente mas ele se aboleta ao meu lado no banco
encostado à parede. Peço uma panqueca de queijo. De volta ao carro Alex tira o cinto de segurança e
pula em cima de mim, já perto da Avenida D.Consigo voltar à conversa: não é assim que estou
acostumada a conhecer pessoas você é meu chefe, nós não nos conhecemos etc.

- I work 16 hours a day. I don't have girlfriend. I like you. Anything you need, I give to you. At work,
nobody touch you, protect. If you like me, we go out. If you don't, it's ok. You need job, I give you. I
give you shift you want. (algo como: Trabalho 16 horas por dia. Não tenho namorada. Você me
agrada. Tudo o que você precisar eu dou. No trabalho, ninguém toca em você, protegida. Se você
gosta de mim, saímos juntos. Se não, tudo bem. Você precisa de trabalho. Você faz o plantão que
quiser).

Em casa, num dos raros intervalos em que não estou no Tutankamon, nem me recuperando de 16
horas no Tutankamon.

- Lavei a roupa hoje naquela lavanderia que tu recomendou, a do chinês da rua d. Ele é todo amigo,
veio ajudar e tal, todo sorrindo.

- Acho que o cara é coreano, não é chinês não. Chinês não é amigão assim, é carrancudo e não sai de
trás do balcão para nada.

- E indiano não dá gorjeta! É o que as garotas lá do Tutankamon diziam. E eu vi!

Desde que cheguei, estou tendo de me policiar para não virar uma maluca, dessas que categorizam as
pessoas por raça. Na teoria, é fácil refrear o preconceito. Mas aqui fica muito difícil não repetir o
que se ouve, principalmente depois de uma semana no Tutankamon. Minha experiência ruim não foi
só com um árabe; foram dezenas de árabes, todos eles fazendo questão de tentar passar a mão. No
final da noite você acaba dizendo sem pensar: odeio árabe. Minha amiga define: "Preconceito
acontece é na diversidade, quando um monte de povos de tudo que é lugar do mundo se mistura numa
cidade só."

DIA 21, QUINTA-FEIRA O Gouverneur Healthcare Center é o hospital de Nova York conhecido
como immigrant friendly - trata os imigrantes como nenhum outro.

Logo no meu primeiro dia de NY, devido a um osso quebrado na perna direita da minha amiga, fui
apresentada ao Governeur. E me assustei. Menos de trinta minutos depois de chegarmos para uma
consulta, Tatiana foi chamada para tirar o gesso. Seu status no país ainda não é legal, mas nenhuma
pergunta em relação a isso foi feita - aqui, o foco do médico e da enfermeira deve se manter no
tratamento. Sua ficha foi acessada em um terminal de computador, e lhe deram a opção entre usar uma
bota ortopédica ou engessar a perna uma segunda vez. No Brasil, da última vez que me machuquei,
paguei cerca r$ 80 pela bota que usei durante um mês - e isso porque eu tinha plano de saúde e fui
atendida numa clínica particular. Aqui, uma brasileira em situação ilegal ganha a bota.

Meus pais trabalharam a vida toda em postos de saúde, em Bangu e na Ilha do Governador. Não
tinham com quem me deixar, então eu passava metade dos meus dias, depois da escola, em hospitais
públicos. Quando não estava ouvindo alguma desgraça irremediável na sala do serviço social, onde
minha mãe era diretora, acompanhava na ala médica (onde meu pai atuava) a falta de gaze, soro,
gesso, muletas, óculos, material básico para tratar ou beneficiar quem não poderia obter essas coisas
de outra maneira. Faltavam médicos para atender todo mundo e muitas vezes - eu ouvia as fofocas
pelos corredores - faltava vergonha na cara. Alguns diretores tiravam a verba do hospital para enfiar
no próprio bolso.

A diferença em relação aos postos de saúde pública brasileiros que conheço muito bem é brutal. Ar-
refrigerado funcionando, chão encerado, salas de espera com cadeiras para todos. Faço o teste do
banheiro: limpo. Pelos corredores, folhetos e murais com avisos em espanhol, russo, japonês, chinês
e inglês, com informações sobre perigos e doenças comuns que podem ser evitadas com certos
cuidados.

E meus remédios, como é que vou fazer depois que acabarem os que trouxe? Preciso tomar um
medicamento para a tireóide que, nos Estados Unidos, só se consegue com receita médica. Se aqui
até pílula contraceptiva só se compra apresentando receita, como é que eu vou fazer?

"Não esquenta, você não vai ficar sem o seu remédio", explica Tatiana. "Basta escrever uma carta ao
hospital, declarando que você não tem condições de pagar pelo tratamento, e você paga só 15
dólares pela primeira consulta."

E se alguém me dedurar porque sou imigrante ilegal? Cairia no vazio - o status legal do imigrante que
cruza as portas de um hospital público em Nova York só interessa aos agentes do serviço de
imigração. É por essas e outras que tantos americanos gostariam de livrar o país das massas de
ilegales - ou, então, alterar a lei que lhes franqueia o uso de hospitais e escolas públicas.

Só mais tarde fiquei sabendo que minha amiga tinha sido vítima de negligência médica, em outro
hospital da mesma Nova York. Aconteceu três meses antes. Quando sofreu a queda que lhe
arrebentou o joelho durante seu turno de garçonete de restaurante, saiu do setor de emergência do
Hospital Bellevue com uma tala que parecia improviso de escoteiro e, na seqüência, três botas
imobilizantes igualmente equivocadas. Deveria ter sido submetida a uma cirurgia nas 72 primeiras
horas após a queda. Mas Tatiana não tem carteirinha do INSS americano e cirurgias são caras. Ou
seja, após uma primeira impressão sempre pode haver uma segunda.

Enquanto isso, meu nome passa a existir no sistema bancário por meio de uma conta aberta no
Washington Mutual na minha segunda semana de estadia em Nova York. Tudo que precisei apresentar
foi meu passaporte, e um pequeno depósito de 15 dólares. Também existo para o sistema de saúde do
Estado. Na primeira semana do segundo mês em NY, preciso de receita médica para comprar pílula
anticoncepcional e um medicamento indicado para o controle da tireóide.

Se no Washington Mutual levei dez minutos para passar a existir no sistema bancário, o hospital me
tira duas horas numa segunda-feira. Eu mesmo escrevo e entrego a carta à funcionária do hospital, e
nela atesto apenas que não tenho emprego no momento e preciso de cuidados médicos. Uma consulta
é marcada para o dia seguinte e imediatamente ganho um cartão com meu nome, número de inscrição,
endereço e um adesivo azul que indica que sou desempregada e não posso pagar mais do que 15
dólares por uma consulta médica.

Sabendo disso, a ginecologista que me atende no Governeur decide que não vai me dar apenas a
receita para as pílulas anticoncepcionais. Faz o exame completo, e finge que não escuta quando
garanto que fiz todos os exames necessários em sua especialidade imediatamente antes de deixar o
Brasil. "Melhor fazer agora, você pode passar um tempo sem poder pagar consulta, e quero ter
certeza de que você está bem". Ela pede ainda exames de sangue, que faço na mesma tarde, e me
manda procurar o endocrinologista do Governeur, por achar estranho que a minha médica, no Rio de
Janeiro, pedisse e meus exames de sangue relativos à tireóide somente de três em três meses. "Aqui,
casos de tireóide em que o paciente toma remédios para controlar a glândula devem ser observados
num mínimo de três em três semanas", explica. Não discuto e faço o primeiro exame de sangue. O
hospital ligará, quando os resultados estiverem prontos, e me mandará para uma consulta com o
endocrinologista.

DIA 22, SEXTA-FEIRA Faltam só cinco dias até a próxima quarta-feira, dia da semana em que o
morador de Nova York estoca na calçada, de forma organizadíssima, todas as bugigangas das quais
quer se livrar. Para quem vive apertado, ou acaba de aportar na cidade, é uma bênção. Pode-se
montar uma casa inteira recolhendo o que fica exposto até a passagem do caminhão de lixo.

Chamo a instituição de Fada do Lixo. Seus truques são admiráveis e a maneira como opera - como
escolhe o que dar a quem e quando - é precisa. O primeiro presente que Ela me deu, na minha
segunda semana aqui, certamente não impressiona muito os leigos: um cinto preto de tachinhas
brancas, em excelente estado, pronto para segurar a minha saia ou a minha calça, que já começavam a
cair (desde que cheguei perdi cinco quilos). Mas o presente que Ela deu a Vitor talvez dê uma pista
da engenhosidade e infinita bondade dessa criatura que amadrinha imigrantes e nova-iorquinos de
boa vontade: ele encontrou um Moog no lixo. Vitor é fã de música feita com sintetizadores. E o que a
Fada do Lixo lhe deu - nada menos que a marca mais famosa, fetiche de todo maluco por
sintetizadores - estava funcionando perfeitamente.
O segundo presente deixado para mim na rua foi uma churrasqueira. Pequena, inteira, deu para
carregar na mão pra casa, onde agora repousa no quintal. E me foi dada no feriado de 4 de Julho,
quando o país inteiro faz a mesma coisa: churrasco.

Assim funcionam os desígnios da Fada do Lixo. Ela é quem faz nós encontrarmos na rua, muitas
vezes protegidos por caixas, os itens de que precisamos, quando mais precisamos deles. Todos
saúdem a Fada do Lixo. Ela É A Maior.

Meu companheiro de república estava voltando de um ensaio com sua banda, segurando na mão a
guitarra. "Preciso comprar uma capa pra essa coisa", chegou a comentar com a mulher, Tatiana.
Adivinha o que ele encontrou alguns passos adiante? Voltou pra casa com a guitarra devidamente
vestida.

O terceiro presente que recebi Dela foi o que mais me tocou até agora. Estava perdida perto da
Lexington, procurando o salão de beleza onde Luciana trabalha, quando topei com dezenas de caixas
de papelão empilhadas umas sobre as outras. Todas tinham uma etiqueta em que se lia "Discard", e
estavam abarrotadas de livros. E não eram qualquer coisa. Se eu tivesse entrado num sebo e
escolhido a dedo os títulos que estavam naquelas pilhas, a seleção não encaixaria tão bem com meu
próprio gosto para leitura e necessidades. Era um workshop de literatura criado pra mim:

Becoming a Writer, A Writers Guide, The Art of Fiction, Writers Writing, Writing For Many Roles,
Technical Writing [Professional Guide For Writers And Editors], Writing With Power, Forms Of
Wondering [A Dialogue On Writing For Writers]- Todos livros para escritores, todos novos.

Stories From The New Yorker - Um livrão comemorativo do aniversário de 35 anos da revista, com
contos que mostram o auge de escritores como Dorothy Parker e J.D. Salinger.

The Sherwood Anderson Reader - Antologia de um dos meus reis da contradição preferidos.

Tuttle Dicionary of Dedications - Uma antologia com mais de 1.500 dedicatórias famosas de livros
de Jane Austen a Kurt Vonnegut. Divertido.
Papagaio!
A tradução ornitológica na nacionalidade

por Roberto Pompeu de Toledo

Se os Estados Unidos ostentam a águia como símbolo, a França o galo e o Chile o condor, o Brasil
tem o papagaio como tradução ornitológica da nacionalidade. À diferença desses outros países, o
papagaio não figura nos escudos, nos selos, nas medalhas, ou em outros sinais pelos quais o Estado
anuncia sua presença. Talvez não o tenham julgado digno de tais honrarias. Ele não é forte como a
águia, não tem a autoridade do galo nem voa alto como o condor. Exibe um ar matreiro e carrega uma
reputação galhofeira que não o recomendam para o papel de representar oficialmente a pátria.
Apesar disso, está presente na história no Brasil em manifestações que vão da carta de Pero Vaz de
Caminha ao Zé Carioca. "Terra Papagalli" foi um nome que concorreu com o de "Brasil", e até com
certa vantagem, nos anos que se seguiram à Descoberta. Se tivesse vingado, nosso país seria
conhecido hoje por um nome de bicho, como a República dos Camarões, e nós seríamos os
"papagaienses", ou "papagaianos", o que talvez soasse de mau gosto, mas de modo algum seria
despropositado. O papagaio brasileiro se fez presente, ao longo dos séculos, em autores que vão do
filósofo inglês John Locke ao romancista francês Gustave Flaubert. Pousou no ombro dos piratas e
virou protagonista de piadas. Em todos esses casos, de uma forma ou de outra, apresentou-se a
serviço das cores nacionais, que por acaso (ou não seria por acaso?) são as mesmas de suas penas.

A carta de Caminha tem cinco menções a papagaios. Na mais expressiva delas, dois índios que
tinham sido trazidos à nau capitânia, ao observar "um papagaio pardo, que o capitão traz consigo",
logo acenam para a terra, "como se os houvesse ali". A informação é valiosa. Ficamos sabendo que
"o capitão", quer dizer, Cabral, tinha um "papagaio pardo". Muito provavelmente se trata do
papagaio cinza existente na África. Os navegadores portugueses mantinham trato com a África havia
já mais de sessenta anos, ao chegar do Brasil. O fato de Cabral possuir um desses bichinhos indica
que o hábito de conservá-los como animais de estimação, possivelmente contraído dos africanos, já
começava a cativar os portugueses. Mas que eram os papagaios africanos, diante dos brasileiros? Os
daqui apresentavam-se em copiosa variedade e exuberante colorido. A própria carta de Caminha faz
menção a "papagaios vermelhos, muito grandes e formosos", bem como aos "verdes, pequeninos". Os
primeiros eram provavelmente araras e os segundos periquitos - a palavra "papagaio" cobria toda
sorte de psitacídeos. Não importa. Nossos papagaios têm mais cores, assim como nossos bosques
têm mais flores e nossa vida mais amores.

Em duas outras menções da carta de Caminha papagaios são arrematados por membros da comitiva
em troca de artigos oferecidos aos índios. Os portugueses não poderiam deixar de incluir na bagagem
amostras dessas aves. A primeira nave de Cabral a chegar de volta a Portugal, a Anunciada, que
aportou em Lisboa em junho de 1501, trazia a bordo nossos psitacídeos. Não há dúvida de que
causaram forte impressão. Tanto assim que desde logo serviram de apelido às novas terras, como
comprova a carta que o italiano Matteo Cretico, secretário do embaixador de Veneza em Lisboa,
enviou ao dodge. Nela, ele dá conta da descoberta, "acima do Cabo da Boa Esperança", de uma certa
"terra delli papagá". No famoso mapa-múndi de Alberto Cantino, de 1502, o primeiro em que
aparece o Brasil, um trio de coloridos psitacídeos decora nosso território. Em mapas imediatamente
posteriores, a nova descoberta portuguesa será identificada como "Terra Papagalli".

Araras, periquitos, maracanãs, canindés, tuins - todos exibiam bela plumagem, e foram todos
responsáveis pelo deslumbre do europeu. Mas o papagaio propriamente dito tinha ainda outra
qualidade: juntava a beleza ao talento de, assim como o papagaio africano, imitar muito bem a voz
humana. Suas qualidades não escaparão aos cronistas dos primeiros tempos. Fernão Cardim, depois
de dar conta de que os papagaios oferecem "boa carne" para comer, deixa registrado, em seus
Tratados da Terra e Gente do Brasil (escritos entre fins do século XVI e inícios do XVII), que "são
de ordinário muito formosos e de muito várias cores e quasi todos fallão, se os ensinam". Pero de
Magalhães Gandavo, na História da Província de Santa Cruz (1576), informa que os papagaios "vêm
a ser tam domésticos que põem ovos em casa, e acomodam-se mais à conversaçam da gente que outra
qualquer ave por mais doméstica e mansa que seja". O mesmo autor acrescenta que essas aves gozam
de "tanta estima" entre os índios que uma delas só é negociada em troca de "dous, três escravos".
Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (1627), exercita a veia crítica ao escrever que a
primeira coisa que os portugueses ensinam os papagaios a falar é "Papagaio real, para Portugal".
Tudo, afirma, irritado, o religioso, os colonizadores queriam arrancar da terra e carregar para a
metrópole.

Não só os portugueses. Os franceses por esses anos andavam igualmente empenhados em surrupiar o
possível das riquezas da nova terra - e nesse mister demonstravam igual gosto pelos papagaios.
Prova disso é um precioso documento, relativo ao apresamento em 1538 do navio francês La
Pélérine pelos portugueses, em um dos inúmeros entreveros entre os nacionais de um e outro país na
costa brasileira. Os franceses, julgando-se esbulhados, exigiram indenização dos portugueses, e para
instruir a demanda elaboraram um rol das mercadorias existentes no navio e respectivos valores.
Além do pau-brasil, o produto mais disputado por estas bandas, La Pélérine transportava 600
papagaios. 600! Mais espantosas ainda eram as estimativas de valor de uma mercadoria e outra. Um
quintal de pau-brasil (o quintal equivalia a 58 quilos e gramas) era avaliado em 800 ducados,
enquanto um papagaio (um único!) em 600 ducados.

A febre pelos papagaios tomava conta da Europa. Os franceses mantinham em terra agentes que,
ludibriando a vigilância dos portugueses, encarregavam-se de convencer os índios a cortar o pau-
brasil e transportá-lo para bordo dos navios. Esses agentes, chamados de "intérpretes" porque tinham
por primeira missão aprender a língua dos índios, também aproveitavam para capturar papagaios e -
importante - ensiná-los a falar francês. Um papagaio que já chegasse papagaiando algo na língua de
Montaigne valeria mais nos mercados de Honfleur ou Paris. Jean de Léry, integrante da comitiva de
Villegagnon na aventura da França Antártica, conta em Viagem à Terra do Brasil (1578) que ganhou
de um intérprete um papagaio que já havia três anos esse intérprete tinha consigo. "Pronunciava ele
tão perfeitamente as palavras da língua selvagem e da francesa que não era possível distinguir a sua
voz da de um homem", escreve.

Léry conheceu um papagaio ainda mais impressionante, pertencente a uma índia. "Dir-se-ia que
essa ave entendia o que lhe falava a dona", afirma. Em troca de um pente ou um espelho, a índia fazia
o papagaio saltar do poleiro, assobiar, falar e imitar o grito de guerra da tribo. "E quando a dona
dizia para cantar, ele cantava, e também dançava quando ela lho ordenava." Conclui o cronista de
Villegagnon: "Se os antigos romanos foram bastante sábios para fazer suntuosos funerais ao corvo
que, em seus palácios, os saudavam por seus próprios nomes, tirando mesmo a vida a quem o
matava, como nos refere Plínio, imagine-se o que não teriam feito se tivessem possuído um papagaio
tão perfeitamente ensinado!"

A Holanda foi outro país tomado pela moda. Erasmo de Roterdã, numa obra de 1518, constrói um
diálogo entre duas mulheres em que uma pergunta à outra quanto tempo levou para ensinar seu
papagaio a falar. Mas em nenhum momento nosso bichinho aparece com desempenho tão espetacular
quanto numa história relatada pelo príncipe Maurício de Nassau, o governador da colônia holandesa
implantada no Nordeste do Brasil no século XVII. Nassau contava que, tendo ouvido falar de um
prodigioso papagaio, pediu para que o trouxessem em sua presença. Assim foi feito. Ao ser
introduzido na sala onde o esperavam o príncipe e membros de seu séquito, o papagaio teria
exclamado: "Quantos homens brancos por aqui!" Um dos presentes apontou para Nassau, e perguntou
ao papagaio quem seria aquele homem, paramentado em trajes militares. O papagaio teria
respondido: "Um general ou algo assim".

A história é extraordinária. Maurício de Nassau acreditava que os papagaios, ou pelo menos aquele
papagaio, eram capazes de raciocinar e dialogar como seres humanos. O embaixador inglês em Haia,
William Temple, ouviu a história do próprio príncipe, e deixou-a registrada em suas memórias. A
cena prossegue da seguinte forma, no relato de Temple: "Quando trouxeram o papagaio para perto do
príncipe, este indagou: 'De onde vens?'. A resposta foi: 'Do Maranhão'. O príncipe: 'A quem
pertences?'. O papagaio: 'A um português'. O príncipe: 'Que fazes ali?'. O papagaio: 'Vigio as
galinhas.' O príncipe riu: 'Guardas as galinhas?'. O papagaio: 'Sim, guardo, e muito bem'; e quatro ou
cinco vezes fez o 'xô, xô' que se usa para chamá-las."

Não se sabe o que mais admirar - se a credulidade do supremo agente da Companhia das Índias
Ocidentais ou a naturalidade com que se entrega ao diálogo com o bicho. Mas esta é apenas a
primeira parte deste caso. A segunda, e ainda mais impressionante, é que a história passou-se com
armas e bagagens para um livro do filósofo inglês John Locke, um dos pais do moderno
racionalismo. No livro 2, capítulo 27, de seu Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690), Locke
transcreve o relato de William Temple. E não o faz para ilustrar a atração humana pelo impossível,
ou para abrir um intervalo de humor em suas explanações. O ponto que defende é que não é apenas a
racionalidade que define o ser humano, mas a forma de seu corpo Assim, "se deparamos com um ser
da nossa mesma forma e matéria, embora não seja mais dotado de razão do que um gato ou um
papagaio, ainda assim o chamaríamos de homem". Inversamente, "se ouvíssemos um gato ou um
papagaio discursar, raciocinar ou filosofar, nem por isso deixaríamos de pensar neles como um gato
ou papagaio". Segue-se, em defesa do argumento, a história do papagaio de Nassau, que Locke
endossa porque narrada por um príncipe "a quem se atribui grande honestidade e piedade", e
transcrita por um autor "de grande notoriedade". Segundo Afonso Arinos de Melo Franco, autor de
um livro, O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa, em que cita o episódio, este pode ser
considerado "a primeira anedota de papagaio do anedotário popular brasileiro".

Os micos e sagüis se constituíram no segundo animal brasileiro mais querido pelos estrangeiros, nos
dois primeiro séculos da colonização. Também eles eram arrancados das matas pelos caçadores de
novidades comercializáveis nos mercados europeus e também eles obtiveram sucesso. "Os nossos
macaquinhos faziam (.) as delícias das casas ricas. As damas, sobretudo, eram loucas por eles",
escreve Arinos no livro citado. Os sagüis aparecem ao lado dos papagaios num clássico da literatura
portuguesa, a Carta de Guia de Casados (1650), de dom Francisco Manuel de Melo. Com seu jeito
entre moralista e irônico, a certa altura o autor passa a condenar o hábito das mulheres de manter
bichinhos de estimação. Fala mal dos "cachorrinhos enfeitados", investe contra os rouxinóis, que têm
fama de provocar saudades ("De que servem saudades estando o marido em casa?") e, quanto à dupla
de bichinhos brasileiros, afirma: "Papagaios, sagüis, são praças mortas, mui escusadas, e que as mais
vezes induzem ligeirezas".

O que o autor quer dizer com "praças mortas, mui escusadas", é, segundo esclarece o lexógrafo
Mauro Villar, co-autor do Dicionário Houaiss (num caso desses, só pedindo seu socorro) que são
seres inúteis, como os soldados que só estão no quartel para comer e dormir ("praças mortas"), e
além disso supérfluos ("escusados"). Mas o mais interessante é a afirmação de que papagaios e
sagüis "induzem ligeirezas". Por que será?

Os dois bichos, tão diferentes, apresentam um traço comum: são ambos humanos. Os papagaios,
como lembra Julian Barnes, autor de que se falará mais adiante, são tão humanos que tanto seu nome
em inglês, parrot, como em francês, perroquet, derivam de Pierre, assim como o espanhol perico
deriva de Pedro. Vá lá, não é que sejam humanos. Mas possuem características que lembram os
humanos. Por isso mesmo, são engraçados. É como se as pessoas se olhassem num espelho de parque
de diversões, no caso dos micos e sagüis, e como se se ouvissem num eco brincalhão, no do
papagaio. Se temos em conta que induzem ao riso e à zombaria, fica mais fácil entender que podem
induzir a "ligeirezas", como diz o autor seiscentista. Mas há ainda ligeirezas piores a que papagaios e
micos podem remeter: um com palavras, outro com gestos, são ambos chegados a obscenidades.

Deixemos os micos e sagüis. Eles tinham a desvantagem de não se adaptar aos climas frios nem ser
tão fáceis de manter em casa. Fiquemos com o papagaio, que é o nosso tema, e agarremo-nos em suas
penas para dar um salto em direção ao perigoso terreno da identidade nacional. Se o papagaio
lembrava o Brasil, na mente dos estrangeiros, e se é um animal identificado com um comportamento
folgazão, ou malandro, podendo chegar ao obsceno, pode-se daí concluir que o Brasil era
identificado com essas características de folgazão e malandro, talvez obsceno? A resposta
inescapável é sim. Como lembrou Gaspar Barléu, o cronista do Brasil holandês, não existe pecado
abaixo do Equador. O Brasil não só era, como é, identificado como terra folgazã/malandra/obscena,
tanto na visão estrangeira como na dos próprios brasileiros. Está aí o carnaval a comprová-lo.

O papel que o papagaio desempenha nas anedotas é esse mesmo do folgazão/malandro/obsceno. O


papagaio das anedotas é um estereótipo do brasileiro, numa de suas vertentes mais difundidas. O
papagaio é Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

Não sejamos reducionistas, porém. O papagaio é isso, mas não só isso. Para ter melhor noção do
bichinho, é aconselhável acrescentar um pouco de ornitologia a esta conversa. Nossa escala agora é
num dos mais antigos edifícios da Cidade Universitária, em São Paulo, sede do Instituto de
Biociências da USP, onde trabalham a doutora Elizabeth Höfling e seu orientando Renato Gaban-
Lima. São curiosos, esses ornitólogos. A doutora Beth vive de estudar bichos, mas em toda a vida
teve um só bicho de estimação, um pássaro preto que habitou a gaiola da casa em que morava com os
pais entre os quatro e 18 anos de idade. Renato Gaban-Lima vive de observar e dissecar psitacídeos
mas não gosta de se aproximar muito dos exemplares vivos: o contato o repugna, as bicadas o
assustam. A doutora Beth é autora de numerosos trabalhos nos campos da ornitologia e da anatomia
dos vertebrados. Gaban-Lima dedica-se à pesquisa da origem comum dos psitacídeos que
conheceram evolução separada nos diversos continentes.

Quando se fala em papagaio é preciso saber antes de mais nada de que papagaio se está falando.
Existem muitos tipos deles, na América do Sul, na África e em partes da Ásia e na Oceania. No
Brasil, um dos gêneros mais conhecidos é o Amazona, sendo a espécie mais popular o Amazona
aestiva, que ocorre nos ambientes não-florestais do centro da América do Sul (chaco, pantanal,
cerrado e caatinga). O povo o chama, com razão, de "papagaio verdadeiro". É ele, na grande maioria
dos casos, que se tem como animal de estimação. É dele, preferencialmente, que estamos falando. Em
sua plumagem predomina o verde, sendo o amarelo, ao redor dos olhos e na extremidade superior
das asas, a segunda cor que mais aparece.

As leis rigorosas contra a captura e comercialização dos animais estão fazendo bem aos papagaios.
A doutora Beth já viu bandos de Amazona aestiva no próprio campus da USP. O papagaio, quando na
natureza, vive em bandos que gritam ao voar, mas ficam quietos em repouso, sobre os galhos das
árvores. Por isso, explica Renato Gaban-Lima, quando parados, são difíceis de localizar. Ficam
como que camuflados, seu verde confundindo-se com o verde das árvores, e silenciosos como um
vegetal. Uma vez localizados, é fácil capturá-los. Eles fazem ninhos no oco das árvores. E, mesmo
que os ovos sejam retirados, voltarão ao mesmo lugar e porão outros ovos ali mesmo. São bichos
monogâmicos. E fiéis ao parceiro, ou parceira, mesmo depois da morte: se um dos membros do casal
morre, o sobrevivente não se juntará a outro. Os papagaios apegam-se também aos seres humanos.
Gaban-Lima conheceu um, na Chapada Diamantina, que quando o dono morreu entrou em depressão e
não interagiu com mais ninguém. Bichos fiéis ao parceiro, capazes de afundar na depressão: eis-nos
às voltas com características que encaixam mal no estereótipo do folgazão/malandro/obsceno.

A pergunta suprema a fazer a um ornitologista é: por que os papagaios falam? Um começo de


resposta é que a siringe - o órgão vocal das aves - no papagaio apresenta características especiais. É
dotada de "uma estrutura complexa, com cartilagens, membranas e músculos", explica Gaban-Lima.
A galinha, por exemplo, não tem músculos exclusivos da siringe. A siringe dos papagaios possui dois
pares de músculos. Mas isso, se fornece uma base de onde partir, não explica tudo. Os psitacídeos
em geral possuem siringes complexas, e também outros pássaros. A do sabiá é complexa, ao
contrário das do bem-te-vi e do joão-de-barro.

Outras hipóteses para explicar pela pura fisiologia a habilidade do papagaio em imitar a fala humana
têm base no formato da língua ou do bico, mas o fato é que esse equipamento seria pouco menos que
inútil se não fossem duas qualidades de outra ordem encontradas no bichinho: a atenção e a
capacidade de aprendizado. Eis-nos levados a outro terreno, o da inteligência. O papagaio tem o
cérebro maior do que outras aves do mesmo porte, o que será uma explicação para sua inteligência
superior quando ficar provado (ainda não está, e sabese lá se um dia será) que inteligência tem a ver
com o tamanho do cérebro. Há outros pássaros inteligentes. Beth Höfling cita um tentilhão das ilhas
Galápagos que utiliza espinhos de cáctus para retirar dos troncos os insetos com que se alimenta. Ou
seja, faz uso de uma ferramenta. A inteligência do papagaio apresenta a especificidade de se externar
em algo que o aproxima dos humanos. No Dicionário dos Animais do Brasil (1940), de Rodolpho
von Ihering, obra clássica da zoologia brasileira, lêse: "Não se pode concluir dizendo que formem os
papagaios o grupo de aves mais bem aquinhoado de todos quanto aos dotes úteis para a vitória da
luta pela vida, mas pouco lhes falta para tanto".

A mais nobre aparição de um papagaio na literatura ocorre na obra-prima "Um Coração Simples", de
Gustavo Flaubert, conto escrito em 1876 que gira em torno da vida sem eventos da dedicada
empregada doméstica Felicité. Sem eventos? Para quem um dia é sempre igual ao outro, não tem
amores nem conhece outras terras senão a pequena Pont l'Évêque, grande evento foi quando uma
família vizinha mudou-se e deixou-lhe de presente o papagaio que tinha em casa. O papagaio passa a
absorver-lhe a afeição. Um dia morre, e ela manda empalhá-lo. O papagaioreina agora imóvel em
seu quarto, "esplêndido sobre um galho de árvore parafusado a um pedestal de acaju". Na igreja, ao
contemplar a pomba que simboliza o Espírito Santo, Felicité começa a achá-la parecida com o
papagaio. Mais um pouco, e chega à conclusão de que o papagaio simboliza melhor o Espírito Santo
do que a pomba, pois é dotado do dom da fala. No recôndido do quarto, Felicite adquire o costume
de, ao se pôr a rezar, voltar os olhos para o papagaio. Enfim, em seu leito de morte, ao exalar o
último suspiro, ela "acredita ver, no céu que se entreabre, um papagaio gigantesco, planando sobre
sua cabeça".

Não há intenção de comicidade, no autor, e sim de flagrar a simplicidade de alma em estado puro. E
para isso escolhe um papagaio! O bicho aqui desempenha papel oposto ao do malandro falastrão,
com inclinações fesceninas. Enquanto se ocupou do conto, Flaubert manteve sobre a escrivaninha um
papagaio empalhado, que tomou emprestado do Museu de História Natural de Rouen. A intenção era
deixar-se tomar pelo espírito da ave, segundo escreveu a uma amiga. Seria brasileiro o papagaio de
Flaubert? O do conto viera "da América". "Seu corpo era verde, a ponta das asas rosa, a fronte azul,
e a garganta dourada". Flaubert era um sacerdote da precisão, mas, com todo o respeito pelo mestre,
a "garganta dourada" seria mais propriamente amarela, pois cor dourada falta, no repertório dos
papagaios. Da mesma forma, a ponta rosa da asa seria mais exatamente vermelha. E pronto: com toda
a probabilidade, estamos diante de um Amazona aestiva. Um dos nossos. Verde, amarelo e azul,
como a bandeira nacional.

Quanto ao papagaio que Flaubert tinha sobre a mesa, foi objeto de cerrada investigação por parte do
romancista e ensaísta inglês Julian Barnes, autor de um livro de 1984 chamado, justamente, O
Papagaio de Flaubert. Barnes (ou o personagem que ele inventa para o livro, mas que faz uma
investigação real) visita o Hôtel-Dieu (equivalente a uma Santa Casa no mundo luso-brasileiro) de
Rouen, onde Flaubert nasceu, filho do cirurgião residente, e lá, num museu com reminiscências do
escritor, depara com um papagaio empalhado descrito como o que Flaubert manteve consigo
enquanto escrevia "Um Coração Simples". Depois vai ao museu instalado no que resta da casa onde
o escritor morou, em Croisset, nos arredores de Rouen, e lá depara. com outro papagaio, igualmente
descrito como o de Flaubert. Qual seria o verdadeiro? Barnes chega à conclusão de que nem o
Museu de História Natural, que emprestou o bicho ao escritor, sabe qual o verdadeiro - e que, ao ser
solicitado, destacou um exemplar qualquer de sua coleção para presentear tanto o museu do Hôtel-
Dieu quanto o de Croisset.

O do Hôtel-Dieu é possível visitar pela internet. Na página do Museu Flaubert de História da


Medicina (Musée Flaubert d'Histoire de la Médecine), opção "algumas peças da coleção" (quelques
pièces de collection), surge-nos um bichinho de plumagem verde, entremeada de amarelo no peito e
ao redor do bico e dos olhos, cocoruto azul, um pouco de amarelo também no alto das asas. Ele se
exibe trepado num poleiro que mais parece um telefone antigo. A legenda especifica que se trata de
um Amazona. As cores são de um Amazona aestiva. Mais uma vitória. Também o papagaio tido como
de Flaubert no Hôtel-Dieu de Rouen é nosso.

Pode parecer estranho, o papagaio no papel de ave sagrada, mas isso vai ao encontro de tradições
antigas e medievais, do tempo em que os europeus tinham dele apenas vagas noções. Sérgio Buarque
de Holanda dedica a esse tema um trecho do livro Visão do Paraíso. Antes da exportação em massa
dos papagaios da América, raro era o europeu que tivesse visto a ave. Afirmava-se que era
originária da "Índia", um lugar meio mágico, que não se sabia bem onde ficava, ao qual se atribuíam
prodígios de variada espécie. Nas Navegações de São Brandão, repositório medieval de origem
irlandesa em que se misturam lendas célticas e cristãs, fala-se de uma ilha milagrosa, só habitada por
papagaios. Eles descenderiam dos anjos que, com Lúcifer, foram expulsos do paraíso. Como porém
só tinham acompanhado o mestre por costume, e não por se identificar com sua maldade, receberam
um castigo menor, o de se transformarem em pássaros.

O mesmo livro de Sérgio Buarque dá conta de outras obras medievais em que os papagaios são tidos
como aves do paraíso. Nosso psitacídeo aparece em versões piedosas mesmo na tradição brasileira.
Alexandre de Gusmão (1695-1753), o diplomata brasileiro que assinou o Tratado de Madri,
empurrando as fronteiras brasileiras para além do previsto no Tratado de Tordesilhas, conta num
livro dedicado à educação das crianças a história de um papagaio que sabia rezar o padre-nosso e a
ave-maria. Uma vez, perseguido por um gavião, conseguiu safar-se graças à fé.

O papagaio vai retomar sua feição laica e extrovertida, quando não malandra e folgazã, na figura
desse ícone das relações Brasil-Estados Unidos que é o Zé Carioca - ou Joe Carioca, na versão em
inglês. O Zé Carioca fez sua estréia no filme chamado Alô Amigos no Brasil, Saludos Amigos no
resto do mundo, uma obra de Walt Disney que teve sua première mundial apropriadamente realizada
no Rio de Janeiro, no dia 24 de agosto de 1942, seis meses antes da apresentação nos eua. O filme
incluía-se no esforço de guerra americano, para o qual Hollywood fora convocada. Disney escolheu
fazer sua parte cultivando a amizade da América Latina, cujos países deveriam estar unidos no apoio
aos eua. Alô Amigos apresenta episódios que se passam no Chile, na Bolívia e na Argentina, antes de
chegar ao Brasil.

O grande momento do episódio brasileiro é quando o americano Donald, o pato, em visita a nosso
país, e o brasileiro Zé Carioca, se vêem frente a frente pela primeira vez. Zé Carioca oferece um
cartão de visitas ao estrangeiro - "José Carioca, Rio de Janeiro, Brasil" - e pede que o outro faça o
mesmo. Donald saca então o seu - "Donald Duck, Holywood, USA - e ao lê-lo, e se dar conta de que
está em frente ao querido personagem do cinema, Zé Carioca tem um ataque de euforia. "O Pato
Donald! O Pato Donald!", diz repetidas vezes, enquanto pula de alegria. "O Pato Donald!" Por fim,
abre os braços e aproxima-se do outro. "Ora venha de lá um abraço", diz, em característica
linguagem anos 40. "um abraço bem carioca, bem amigo, um daqueles de quebrar as costelas" - e
abraça o americano com efusão. O Zé Carioca desta cena não é bem o malandro - é o homem cordial.
Sob sua tutela, Donald rebolará a cauda à exaustão, ao som de Aquarela do Brasil.

No filme seguinte, Você Já Foi à Bahia?, de 1944, (The Three Caballeros, no original), um terceiro
personagem, o galo mexicano Panchito, se juntará a Donald e Zé Carioca, e os três viverão aventuras
em que a tônica será o estado de delírio a que se entrega o pato na presença das belas brasileiras e
das belas mexicanas. Donald fica incontrolável. Extasia-se, arrebata-se e perde o juízo primeiro
diante de Aurora Miranda, a se requebrar enquanto canta Os Quindins de Iaiá, e depois diante das
moças de maiô na praia de Acapulco. Os estúdios Disney, tão família, desta vez nos oferecem um
pato priápico. Donald encarna o turista sexual, com a corda toda na América Latina. Só pode ter sido
a má influência do papagaio, bicho que, como sabemos, além de malandro e folgazão, é vulnerável
aos impulsos fesceninos.

O papagaio é o Brasil. É folgado e fescenino como os brasileiros. É um bicho que, como os micos e
sagüis, distingue-se pela capacidade de imitação. Não é agradável admitir isso, mas os brasileiros
somos também imitadores. Ocorre que o papagaio é também inteligente, dotado de atenção e de
capacidade de aprender. Ponto para nós. É malandro. O Zé Carioca das revistinhas produzidas no
Brasil é"o terror dos credores", e não é à toa que a palavra "papagaio", entre suas muitas acepções,
tenha a de nota promissória de valor duvidoso. Ponto contra. É um bicho alegre, de aparência
carnavalesca, mas também pode ficar triste ao ponto da depressão. É considerado farrista, mas é fiel
ao parceiro ou à parceira. Tem um lado místico, com o qual se aproxima do Brasil devoto dos padres
Cíceros e dos Antônios Conselheiros. Com esta síntese, voltamos ao terreno da identidade nacional,
para concluir que o papagaio encarna à perfeição, sim, a identidade do brasileiro, mas não uma
identidade só. Ele encarna as variadas, as múltiplas identidades do Brasil.
A primeira menina do mundo
Nasceu na África há 3,3 milhões de anos

por Marcos Sá Corrêa

A primeira criança do mundo é uma menina. Chama-se Salem. Veio à luz num deserto batido por
hienas, leões e guerras tribais, a 450 quilômetros de Adis Abeba. Foi batizada pelo ministro da
Cultura e do Turismo Mohammud Drir com esse nome que, na Etiópia, quer dizer paz. E anunciada
como "a filha de Lucy", herdeira de todos os títulos do Australopithecus afarensis.

Lucy Amharic, a mãe, é 150 mil anos mais nova que a filha. Foi achada, em 1974, a seis quilômetros
da colina onde estava Salem. Ela mostrou que o primeiro passo do macaco para chegar ao homem
não saiu propriamente de sua cabeça, mas de sua bacia. Em seus ossos ficou gravado o momento em
que a espécie começou a andar de pé. Lucy não passou a andar porque era mais inteligente, mas
simplesmente porque podia.

No jargão científico, o Australopithecus afarensis não passa de um macaco bípede do Hemisfério


Sul, encontrado na Grande Falha de Afar, um vale e escaldante no noroeste da África. O nome
mistura latim, grego e dialeto árabe. Mas Lucy o tornou tão comum que os jornalistas já nem se
preocupam em traduzi-lo quando aparece mais um tesouro antropológico naquele pedaço remoto da
Etiópia. Ali é o berço da humanidade, um lugar quente, salgado e varrido por súbitas tempestades
torrenciais, que arrastam os jipes dos paleontólogos. Lucy consta dos anais antropológicos como al
288-1. As letras antes dos números se referem, em inglês, à "localidade Afar". Em compensação, o
apelido veio da canção "Lucy in the sky with diamonds", dos Beatles.

Sem ela, a história de Salem seria outra, desde o princípio, porque a equipe que encontrou a menina
descende diretamente da fama de Lucy. Só Lucy explica a existência no Museu Nacional de Adis
Abeba de um currículo como o do paleoantropólogo Zeresenay Alemseged, que semanas atrás
apresentou oficialmente "o mais velho e mais completo corpo de criança jamais descoberto".
Zeresenay é etíope, com pedigree acadêmico firmado pelo Instituto Max Planck de Antropologia
Evolucionária, de Leipzig, na Alemanha, e carreira de explorador lastreada nos recursos da National
Geographic Society, de Washington.

Zeresenay tem em casa uma filha de colo, Alula. Mas cuida com desvelo paterno da "menina de
Dikika". Há quase seis anos, ele retira, com uma broca de dentista, os ossos da mortalha de lama
petrificada que guardava Salem numa bola do tamanho de um melão. Durante esse parto trabalhoso, a
menina foi apenas um fóssil chamado dik-1/1, que os pesquisadores etíopes avistaram pela primeira
vez, em dezembro do ano 2000, aflorando de uma ravina poeirenta "como se estivesse mirando o
vale". Dikika é o lugar onde foi encontrada. Significa "teta" no dialeto local, em tributo à forma da
montanha mais próxima.

Sua cabeça parecia a caveira de um chimpanzé. Coube na palma da primeira mão a pegá-la. Jazia
numa colina que a equipe de Adis Abeba vasculhava desde 1999, desenterrando fósseis, mas sem
achar vestígios importantes do Australopithecus afarensis. Pelo porte e pelas circunstâncias, Salem
passaria facilmente pela carcaça de um macaco, se a testa alta e os caninos curtos não chamassem a
atenção da pesquisadora Tilahun Gebreselassie, uma das 40 pessoas que compõem a equipe de
Zeresenay.

Salem morreu aos três anos. Ainda tem nas arcadas os dentes de leite. Na garganta, sob a língua, traz
intacto um osso em feitio de ferradura, o hióide, base do aparelho fonético que muito mais tarde os
seres humanos usariam para se comunicar com palavras. Suas vértebras estão alinhadas na coluna.
Um joelho conserva a rótula, miúda "como ervilha seca". Em resumo, é "o tipo da coisa que só
acontece uma vez na vida", disse Zeresenay. Os paleontólogos costumam montar quebra-cabeças com
cacos desencontrados. Salem veio pronta.

Salem não é, como se diz dos recémnascidos, a cara da mãe. Lucy, um fóssil de 3,2 milhões de anos,
não tem cara, e sim um rosto presumido, gerado por conjeturas científicas. Faltam-lhe o crânio e a
maior parte da cabeça, acima do maxilar, para orientar um retrato mais preciso. Lucy tem apenas 1
metro de altura. A estatura identificou-a como fêmea. Mas Salem trouxe da noite dos tempos uma
caveira completa, com mandíbula e caixa craniana. Teve o sexo determinado pelo exame da arcada
dentária. "A diferença mais impressionante entre elas duas é que esta criança tem um rosto", garante
Zeresenay.

É, à primeira vista, a fisionomia de "um chimpanzé imaturo", como admitem até os paleontólogos.
Tem tufos de pêlo ralo no topo da cabeça, orelhas de abano e nariz achatado. Mas abriu um sorriso
típico de criança no queixo saliente de macaco para a revista National Geographic, que lhe reservou
a capa da edição de novembro. Fotografada a partir de um busto de silicone em tamanho natural, que
os holandeses Adrie e Alfons Kennis esculpiram com espantoso rigor anatômico. Não é para menos.
Eles assinam em museus do mundo inteiro as mais convincentes reconstituições do homem de
Neandertal.

Da cintura para baixo, Salem é quase humana. Dos joelhos aos quadris, seus fêmures se encaixam no
ângulo adequado a quem caminha sobre os dois pés. Já seus braços são compridos demais para o
tronco, e os ombros terminam em espátulas semelhantes às de um jovem gorila. Nas mãos, os dedos
finos e longos, um deles ainda curvado, como se agarrasse um galho fino, são indícios de que
passaria um bom tempo da vida pendurada em árvores. A menina estava a meio caminho entre a copa
da floresta e o chão da savana. Ou seja, entre o macaco e o homem.

Programados para andar, seus pés sem artelhos preênseis acabariam alterando os hábitos coletivos
da família Australopithecus, que zanzou durante cinco milhões de anos pela África como espécie
dominante de hominídios. Não serviam para se agarrar aos pêlos da mãe, como fazem os filhotes de
macacos. Salem precisava de colo. Com os braços ocupados, a fêmea que se encarregasse de
carregá-la perdia desembaraço durante o aleitamento. Daí a se sentir atraída por um macho com
vocação para a vida monogâmica seria um pulo, sugere o professor de Anatomia Evolucionária Fred
Spoor, do University College de Londres. Convém não esquecer que, nessa mescala da vida privada,
um pulo pode cobrir milhões de anos.

No crânio da menina há espaço para um cérebro de 330 centímetros cúbicos, como o de qualquer
chimpanzé nessa idade. Mas, aos três anos, o encéfalo de um macaco está praticamente maduro. E o
cérebro de Salem ainda poderia crescer, aumentando seu volume em até 37%, o que levaria tempo,
impondo uma carga extra à maternidade. Ter cérebro grande é um luxo caro. Ele custa a desenvolver-
se. Prolonga a infância, estendendo seus prazos de carência para além do limite em que mamíferos
com menores ambições intelectuais se sentem adultos. E consome mais energia do que qualquer outro
órgão do corpo. Nos seres humanos, devora um quinto de tudo o que eles consomem. Não é fácil
sustentar muita massa cinzenta com dieta estritamente vegetariana, vivendo em árvores a poder de
folhas e frutos, lembra Spoor, que joga no time de Zeresenay.

Começavam ali, na época de Salem, transformações que fariam os sucessores do Australopithecus


viverem bem mais do que os outros primatas, mas a maior custo. O cérebro em desenvolvimento lhes
daria motivos e instrumentos para cortar carnes que não poderiam ser dilaceradas com dentes sem
pontas ou quebrar ossos para lavrar a mina de proteínas que eles escondem no tutano. Ou plantar
para comer. Ou a comprar o almoço no supermercado via internet.

Não é à toa que Salem parecia tão vulnerável quando foi tragada pela lama do rio Awash, no coração
da floresta equatorial que existia no Afar, e tão indestrutível ao ressurgir 3,3 milhões de anos depois,
no leito seco de um vale desértico. No dia em que ela renasceu, havia no mundo 286,7 milhões de
meninas com sua idade. Salem teve, no fim das contas, uma longa vida. A nossa.
O cheiro de cimento me inebria
Guilherme Guimarães, o estilista das noivas, gira sem parar num carrossel de extravagâncias

por Danuza Leão

Em meados dos anos 60, Guilherme Guimarães era considerado o maior costureiro do Brasil. Seus
vestidos de gala e de noiva eram, como se dizia na época, a coqueluche das grã-finas. Poderia
também ter sido um decorador de sucesso extraordinário. Por que não foi? "Porque não agüentaria
que um casal viesse me dizer que queria uma sala com hometheatre para ver novela com as crianças",
responde, na lata. "Gente assim, só matando." Suas casas foram muitas. Pelo andar da carruagem,
ainda serão muitas mais. No momento, ele tem um apartamento na avenida São Luís, no Centro de
São Paulo, com um Miró na parede, e outro no Rio, no Flamengo. "Gosto de andar na contramão. Fui
morar na Barra quando a Barra era um mato, e agora que todo mundo foi para lá, eu vim para o
Flamengo." Na casa da Barra havia uma piscina retangular. Um dia, ele juntou uma turma de
pedreiros para mudar a posição da piscina. Apenas uma virada, como se faz com um cinzeiro. "Sou
louco por uma obra, o cheiro do cimento me inebria", ele diz. Nas suas infindáveis reformas, jamais
recorre a arquitetos e decoradores. Faz tudo sozinho.

É quase impossível descrever seu apartamento no Rio. Há pouco tempo, numa noite de sexta-feira,
ele fez um tour pela propriedade, respondendo às perguntas minhas e de um amigo. Havíamos
marcado o encontro para as 19 horas. Cometemos a imprudência de chegar com três minutos de
antecedência. Tocamos a campainha e ele só apareceu, saltitante, três minutos depois, alegríssimo
consigo mesmo e com sua pontualidade. O apartamento fica no térreo de um edifício antigo (no
Brasil, antigo quer dizer anos 50). Atravessamos uma porta pesada, viramos à esquerda e caímos
numa contradição: uma saleta enorme-quando é sabido que as saletas, por definição, são pequenas. A
salinha ficou grande porque há espelhos por todo lado, do chão ao teto, refletindo um lustre de cristal
um pouco menor do que a catedral de Chartres, cortinas pesadas como mármore e um deslumbrante
busto marroquino, de mármore de verdade.

O andar de baixo tem 150 metros quadrados. Guilherme achou pouco e comprou o de cima, com 180
metros quadrados. Cada centímetro cúbico está ocupado por bibelôs, peças de antiguidade, objetos
artísticos, adereços, cadeiras, almofadas, tapeçarias, biombos, estatuetas, cinzeiros, revistas, tapetes
de zebra com rabo e tudo, pufes, poltronas forradas de pele de tigre, porta-retratos com fotos das
maiores amigas do proprietário, estantes com livros encadernados em couro, vasos de todos os
tamanhos e formatos, troços, coisas, trecos. Orgulhoso, ele nos mostra um pequeno tinteiro recoberto
com couro de crocodilo negro do Nilo, e com estabilizador, para o caso de o navio balançar-foi do
Titanic. Guilherme sabe de onde cada objeto veio, quando o comprou e onde o viu pela primeira vez.
Ele aponta tudo, e, estranhamente, não nos convida a sentar. Parece um tanto aflito quando
ameaçamos tocar em algo. Esclarece que é proibido sentar nos sofás e cadeiras, para não amassar as
almofadas de plumas. Também não se bate a cinza nos cinzeiros, para não sujar. Uma de suas muitas
loucuras é ter a casa arrumada, arrumada em excesso, arrumadéssima, repleta de flores e com suas
centenas de objetos no lugar certo. Se um deles estiver um centímetro mais para lá ou para cá, ele,
enquanto conversa, dá uns passinhos curtos e o põe no ponto exato em que deveria estar.

À direita da entrada fica um escritório. É nele que Guilherme recebe suas clientes. Ele as escuta com
atenção, faz desenhos pequenos com as idéias que trazem, fixa o preço do trabalho-e estamos
conversados. "Se a cliente não abre o talão de cheque, não fico feliz", resume. E se não fica feliz,
neca de roupa. O tour prossegue, e caímos num salão. Há estantes e mais estantes de livros
encadernados em couro e com apliques dourados. Há um bureau com dezenas de revistas de
decoração estrangeiras. Todas têm na capa papeizinhos amarelos, chamando a atenção para
determinadas páginas. Nelas estão assinalados objetos de desejo de Guilherme.

Desde criança, Guilherme sempre foi fascinado pelo glamour social-do Brasil e do mundo-, pelas
artistas de cinema, por objetos de decoração e roupas. Alimentava o fascínio comprando as revistas
Vogue, Harper's Bazaar e, no Brasil, Cena Muda, Sombra e Rio Magazine. Anotava tudo o que lia
num caderninho e sabia-sabe até hoje-quem casou com quem, como era o vestido, como eram as
jóias, como foi a festa, o que foi servido e quem eram os convidados (isso, sem conhecer ninguém).
Com essas preocupações, não podia ser um bom aluno. Passava as aulas desenhando vestidos e só se
interessava por aprender inglês, francês e geografia. "Eu sonhava com os lugares do mundo onde
pretendia ir, e precisava saber as línguas para poder viajar."

Um dia, aos 14 anos, lia num jornal sobre um crime que acontecera no Rio e que se tornaria célebre:
um homossexual havia sido morto por seu caso com um castiçal na cabeça. Sua mãe o viu e disse
apenas uma frase: "Eu preferia ter um filho morto a ter um filho homossexual". A vida tem suas
coincidências cinematográficas: Guilherme estudava num colégio de padres barnabitas e, no dia
seguinte, um dos homens de batina o chamou para dar uma notícia triste: Guilherme seria expulso do
colégio. Mas por quê? Porque as mães dos outros alunos haviam feito um abaixo-assinado pedindo a
expulsão, por ele ser "diferente".

O garoto, que morava em Laranjeiras, passou o dia inteiro zanzando pelo bairro, sem saber o que
fazer, como chegar em casa, como contar à mãe. Já de tarde, entrou nas Lojas Americanas para
comprar um caderno de desenho e topou na porta com um rapaz que conhecia de vista, nadador do
Fluminense. Em desespero, pensou: "Se ele me chamar, eu vou". Ele chamou, Guilherme foi, e teve
sua iniciação sexual. Atenção: o rapaz era lindo. Quando chegou em casa, a mãe já sabia da expulsão
e lhe perguntou: "O que é que você vai ser na vida, sem estudo?". "Não sei, só sei que vou sair na
coluna de Ibrahim todo dia", respondeu, eferindose à coluna social mais em evidência. A si mesmo
Guilherme jurou, à Vivien Leigh em E o vento levou: "Eu vou ser rico e famoso e nunca mais vou me
importar com o que falarem de mim!" Uau.

Agora é a hora de subir a escada. O costureiro chamou um arquiteto para projetá-la, achando que não
saberia fazê-la sozinho. O arquiteto fez um orçamento. Coisa de R$50 mil. Um pedreiro disse que
saberia como fazê-la. Guilherme desistiu do arquiteto e fez a escada com o pedreiro. No que era o
hall do andar de cima, ele vedou a porta do elevador com um espelho. Nesse pequeno ex-hall,
instalou o bar. Sobre a mesa, com todas as bebidas que se possa imaginar-além dos copos certos
para cada uma delas, de vários abridores de garrafa, saca-rolhas, guardanapinhos -, também se vê o
ponteiro que indica em qual andar está o elevador. Uma vez, Guilherme comprou uma casa projetada
pelo arquiteto Zanini Caldas, que construía casas em madeira, chamou um engenheiro e lhe perguntou
se ele podia derrubar tudo. Como podia, na manhã seguinte entraram os operários e puseram a casa
abaixo. "A cabeça do Zanini estava na Bahia, a minha em Hollywood, e eu queria uma casa só de
vidro e espelhos." Zanini nunca mais falou com ele.

Sem freqüentar mais o colégio, Guilherme começou a circular em torno da praça Tiradentes, nos
tempos em que Walter Pinto e Carlos Machado, como se dizia, arrasavam no teatro rebolado. Só
havia um problema: ele não podia entrar, era menor de idade. Vidrado em mulheres bonitas, um dia
viu na praia uma das coristas do clube Night and Day que conhecia de fotografias. Arriscou chegar
perto e suplicou: "Meu sonho é ver uma peça de teatro. Você não podia me ajudar"?". A vedete,
Marlene Rosário, disse-lhe que chegasse mais cedo e ela o levaria até o lugar onde ficava o
iluminador. Guilherme foi e se deslumbrou com as moças, que desciam de um disco cobertas de
plumas e paetês, cantando e dançando, quase nuas. Passou a ir todos os dias, e até hoje é capaz de
descrever a roupa de cada uma, ou de cantar as músicas que elas cantavam. Viu que seu futuro tinha
de seguir por ali: roupas maravilhosas para mulheres maravilhosas. Descobriu assim a sua vocação.

Antes de poder realizá-la foi convocado a prestar o serviço militar. Ele pediu a seu padrasto, general
do Exército, que desse um jeito de conseguir a sua dispensa. "Você vai prestar serviço militar para
aprender a ser macho", disse-lhe o oficial, enfatizando ao máximo a palavra macho. Guilherme só
não se desesperou porque não sabe o que é isso. Uma noite, encontrou um amigo que, como ele, se
tornaria costureiro famoso: Denner. Pediu um conselho, e o amigo lhe disse para fazer o que ele
havia feito para escapar do Exército: raspar as pernas e, em vez de cuecas, vestir Zazá, uma calcinha
famosa naqueles tempos, que existia nas cores rosa, amarelo e azul. "Você vai ter que ter muito
peito", disse-lhe Denner, "porque vai entrar numa sala com vinte machões, e todo mundo vai tirar a
roupa e ficar de cuecas". Dito e feito. Quando Gui tirou as calças, todos os machões riram e o
sargento caminhou firme em sua direção. "Eu só pensava em sumir dali o mais rápido possível, foi
preciso ser muito macho para enfrentar a situação", diz ele, enfatizando militarmente a palavra
macho. "Você está isento!", gritou-lhe o sargento. "Aqui é lugar de homem!" Era tudo que Guilherme
queria ouvir.
Gui não sabia como concretizar sua vocação. Se fosse estudar, só seria alguém aos 30 anos, e ele
tinha pressa. Queria ser famoso logo. Um amigo, que encontrou num lotação (um misto de táxi e van
que foi extinto com os dinossauros) contou que a Varig estava fazendo um concurso para o uniforme
das aeromoças; por que ele não tentava? Contou também que o resultado seria decidido pela
poderosa Charlotte Franklin, diretora da companhia em Nova York, que chegaria ao Rio na manhã
seguinte. Guilherme perguntou: "Do que ela gosta?". "De rosas vermelhas", foi a resposta. Na manhã
seguinte, bem cedo, GG estava na porta do Hotel Glória, sobraçando um colossal buquê de rosas.
Ficou horas ali, até que Charlotte chegou. Entregou-lhe as flores e os croquis para o concurso, que,
aliás, ganhou. Prêmio: uma passagem para Nova York e US$500. Apaixonou-se pela cidade e foi
ficando, ficando

Charlotte, por sua vez, se afeiçoou a Guilherme e encomendou-lhe alguns vestidos, que ela provaria
quando viesse ao Rio. Ele a convenceu a fazer o contrário: iria ele a Nova York para as provas dos
vestidos. Para variar, o atilado carioca levou a melhor, ganhou uma ponte aérea Rio-ny e uma casinha
alugada, por coincidência na Gay Street, no Village. Passava as tardes andando pela Sétima Avenida,
o lugar dos atacadistas de moda, mostrando seus croquis. Às vezes, vendia algum por US$10, e assim
ia vivendo. Conheceu pessoas, fez amizades e, através do amigo de um amigo de um amigo, chegou à
poderosa Loretta Scanell, diretora da revista Town & Country. Marcou hora, levou os desenhos e
teve como resposta um vago "Eu te ligo".

Demorou, mas um dia ela ligou, convidando Gui para um chá no hotel onde um costureiro italiano
estaria apresentando sua primeira coleção. Seu nome: Valentino. Nessa mesma tarde, Loretta sugeriu
a GG fazer um desfile na cidade, e perguntou se ele tinha condições. Ele não tinha, mas disse que
tinha. "Então vá, faça a coleção e me telefone", disse Loretta. Guilherme voltou ao Brasil sem saber
o que fazer: como comprar tecidos, como pagar as costureiras? Soube então que havia uma grande
fábrica em Petrópolis, com todos os tecidos de que precisaria. Tomou um ônibus, bateu na porta,
pediu para falar com o dono e expôs a situação. "O senhor me daria os tecidos?", perguntou, na maior
candura. O empresário disse que sim, bastava que Guilherme dissesse quantos metros precisaria de
cada um. Em três dias os croquis estavam prontos, e os cálculos das metragens, feitos. Telefonou a
Loretta e marcaram a data do desfile. Havia um pequeno senão: ele deveria levar cinco manequins

Cinco manequins quer dizer cinco passagens, fora hotel, cachês etc. A Varig, que patrocinou o
desfile, ofereceu as passagens, mas só três. O cachê ficaria para a volta, quando ele vendesse a
coleção. Como manequins, quando estão começando, topam qualquer coisa, inclusive dormir no chão
de um quarto de hotel, tudo se resolveu lindamente. O desfile foi um sucesso e deu página inteira no
New York Journal American, com foto de Guilherme, chamado de "Guillaume from Brazil". A
reportagem foi reproduzida na revista Manchete, e Gui chegou ao Rio já consagrado. Rapidinho, o
grand monde começou a aparecer no seu pequeno ateliê, já com três costureiras contratadas. Recebeu
um telefonema de Tonia Carrero, dizendo que ia a Londres para a estréia do filme The V.I.Ps e que
precisava de vestidos para a viagem. Guilherme não só fez os vestidos, como foi levá-la ao
aeroporto, com direito a foto na primeira página de O Globo. A estrela subia, e rápido.

Avançamos na procissão de salas e objetos. É como estar num cenário de filme do século XIX, com
alguns recuos para o XVIII. Entramos no closet e... surpresa! Todas as roupas são imaculadamente
iguais. Só há calças jeans, camisas jeans azuis, conjuntos cáqui, desses usados em safáris, sapatos
Funaro e blazers azul-marinho. Nosso costureiro não gosta de variar o que usa. Mas, atenção, há um
sobretudo forrado de vison.

Chegamos agora ao coração do apartamento. É um cantinho de 12 metros quadrados. Um quarto-e-


sala. Um conjugado. Há um sofazinho, uma mesinha, um fogãozinho de quatro bocas (para ferver água
para o chá) e uma pequena geladeira vazia. Ou melhor: vazia de comidas. Há garrafas de champanhe,
vodca, vinho branco e água mineral. A salinha dá para o que Guilherme chama de "alcova". É um
miniquarto, com uma cama imaculada. "Para dormir, nada melhor do que uma alcova", explica ele,
"um quartinho com o leito praticamente colado às paredes." Por fim, num canto, há o banheiro, um
luxo. Sobre a mesa há dezenas de tesourinhas, uma para cada modalidade de corte. Ficamos ali um
tempão, papeando. Tomamos champanhe, de boa marca e boa safra, enquanto Guilherme traçava seus
uísques. Ele bebe bem. Mas não parece. Aos 66 anos, está bem conservado, e é com imenso
divertimento que relata seu início de carreira.

Logo o ateliê ficou pequeno. GG alugou um apartamento maior e contratou mais costureiras. Corria o
ano de 1968. Foi quando a rainha da Inglaterra veio ao Brasil. Boa parte das elegantes do Rio
encomendou vestidos a Guilherme. Mais glórias, mais reportagens na imprensa. Aos 25 anos, ele era
rico e famoso, exatamente como havia jurado. Mas a consagração mesmo veio quando um dia
telefonou Carmem Mayrink Veiga, que ele não conhecia, mas idolatrava furiosamente. Carmen queria
vários vestidos para o verão, entre eles um de baile, vermelho, para usar com seus rubis. "Quero
coisas sensacionais", disse. Foram os primeiros de centenas, e até hoje Carmem continua fiel ao
costureiro, além de ser uma de suas maiores amigas. "Era tudo muito chique", suspira Guilherme.
"No verão as mulheres só usavam jóias de turquesa, coral, marfim e jade; esmeraldas, safiras, rubis e
diamantes, só no inverno. Havia também as bolsas de ouro, que se chamavam Farah Diba. Quem não
tinha uma não era ninguém." Suspira de novo e arremata, com um meneio dramático: "Que tristeza, as
mulheres de hoje só querem saber de musculação". (Por falar em musculação, há alguns anos
Guilherme resolveu fazer cooper no calçadão de Copacabana. O seu carro, com o motorista
uniformizado, ia ao lado, na mesma velocidade. Quando ele se cansava, o automóvel parava, ele
entrava e voltava para casa. Pode?)

A vida de Guilherme virou um carrossel de extravagâncias. Suas roupas foram notadas no Swan Ball,
em Nashville, ele fez um desfile no Waldorf-Astoria, em Nova York, e outro para a marca Neiman
Marcus, no Texas, vestiu a rainha da Suécia, conheceu Elke Maravilha e a levou para desfilar suas
roupas na Suíça. Desenhou os uniformes, chiquérrimos, para o corpo feminino da Marinha. Foi
chamado por Glauber Rocha para fazer os figurinos de Terra em transe-de graça, pois a produção não
tinha dinheiro. Só ouviu do diretor uma recomendação: que as roupas fossem deslumbrantes.

Ufa, é bom tomar fôlego. Seguimos para um restaurante das imediações. Vamos a pé. Ele janta
costeletas de cordeiro, duas taças de vinho e café. Guilherme fala sem parar. Conta que o empresário
André Brett pediu que ele fizesse uma coleção de prêt-à-porter e jeans. O salário seria de US$ 8 mil
mensais. GG pensou, pensou e aceitou. Foi morar em Nova York. Viajava para o Brasil duas vezes
por ano, para trabalhar nas coleções. Alugou uma town house na rua 82, entre Madison e Park, e,
como não tinha dinheiro para decorá-la do jeito que queria, colava pedacinhos de papel nas paredes
e no chão. Num escrevia "quadro de Picasso", noutro "escrivaninha francesa", em mais outro "sofá de
plumas", e assim ia. "Quando eu olhava em volta, achava minha casa a mais linda do mundo, porque
via o quadro de Picasso, a escrivaninha francesa e o sofá de plumas. Eu vejo o que quero ver e
acredito no que quero acreditar."

Todo domingo a mãe telefonava de manhã, chorando, preocupada com a solidão dele. Guilherme
respondia: "Mamãe, estou tomando um Bloody Mary, lendo o New York Times, estou felicíssimo".
"Mas meu filho, bebendo a essa hora?", ela perguntava. E Guilherme, nem aí. O contrato com André
Brett acabou, e GG resolveu abrir uma boutique na avenida Madison. Tudo ia muito bem, até que a
boutique foi assaltada e ele perdeu tudo o que tinha. Terminaram os belos dias e começaram os duros
tempos em que comia pedaços de pizza, bebia Coca-Cola. Se tivesse acreditado mais em sua
cartomante, Zazá (Guilherme não fazia nada sem perguntar a ela), não teria aberto a boutique. Zazá
havia dito que a aventura nova-iorquina não daria certo. Mas profetizou também que, depois, ele
trabalharia numa grande maison de costura francesa. Pela primeira vez, Guigui não acreditou em
Zazá.

Foram meses de penúria. Depois de sete anos em Nova York, GG voltou ao Brasil, em agosto de
1985, sem nada, a não ser um apartamento vazio em São Paulo; sem dinheiro para comprar uma
cama, dormia num colchão no chão. Mas aí toca o telefone. Era uma proposta: ele não gostaria de
fazer um teste para trabalhar com Christian Dior? Para tanto, deveria ir a Paris ser entrevistado. Dior
pagou a passagem e lá se foi Guilherme, que passou em todos os testes e assinou um contrato para
ficar em Paris por um mês, para "diorizar" a cabeça antes de começar a trabalhar. Zazá tinha razão!

Durante seis anos, Guilherme fez a ponte aérea Rio - Paris. Ficava num hotel perto da Maison Dior,
na avenida Montaigne. Trabalhava das sete às sete e, segundo ele, foi a época mais feliz de sua vida.
Até que, depois de seis anos na Dior, teve problemas. Ele se sentiu injustiçado, e processou a casa
por quebra de contrato. Processou, ganhou, voltou para São Paulo em 1991 e, com o dinheiro,
comprou um apartamento. Os anos haviam passado e ninguém mais lembrava dele. "Como recomeçar,
se ninguém mais sabe quem eu sou? O que vai ser da minha vida?" Pois ele recomeçou e recuperou
suas clientes, uma a uma. E passou a costurar também para suas filhas e netas. Ele veste Carmem
Mayrink Veiga, a filha Antonia e a neta Maria; Lourdes Catão, a filha Bebel e a neta Amanda; Evinha
Monteiro de Carvalho, a filha Lilibeth e a neta etc. etc.

Guilherme continua firme no seu trabalho, agora fazendo a ponte aérea Rio-SP duas ou três vezes por
semana. "Não quero mais meu nome nos jornais, não tomo conhecimento das fashion weeks da vida,
nem pensar em desfilar meus modelos. Tudo isso eu já fiz, muito. Demais. Agora chega", proclama.
Cada vez mais, GG fica no Rio. Segundo ele, em São Paulo "quem tem dinheiro está preso". Sua vida
é organizadíssima e cheiíssima. Ele costuma tomar um vôo até São Paulo com um vestido debaixo do
braço, para que a contramestre faça um retoque porque a cliente engordou ou emagreceu um quilo, e
volta no mesmo dia, trazendo o vestido pronto, para que ela possa usá-lo na mesma noite. Porque ele
não delega.

E é capaz também de sair de casa para comer uma paella no restaurante do aeroporto Santos-Dumont,
que acha a melhor do mundo. Isso depois de tomar dois ou três dry martínis no bar do mesmo
aeroporto, melhores, segundo ele, do que qualquer dry martíni do melhor bar de Nova York. Quando
fala da moda atual - assunto que pouco interessa -, não perdoa: "Hoje alguns costureiros franceses
são tão jovens que não sabem que houve um dia uma doença chamada paralisia infantil, pois calçam
seus manequins com verdadeiros sapatos ortopédicos". Não poupa nem Karl Lagerfeld: diz que é um
assassino, por ter transformado as roupas de Chanel em uniformes nazistas

Segundo Guilherme, um ateliê de costura é, na verdade, um ateliê de tortura. Às seis da manhã, ele já
está se preparando para sair e procurar o forro de um vestido, e se não encontra o tecido no tom
exato, vai para o tintureiro e manda tingir. Depois, cruza São Paulo, da avenida São Luís, onde mora
num soberbo e imenso apartamento bem tradicional, com o Miró na entrada, e vai para a Vila
Mariana encontrar a bordadeira e orientá-la a fazer o bordado exatamente como ele imaginou. São
três ou quatro idas até que o bordado fique exatamente como ele quer - isso depois de ter os croquis
e as amostras de tecido aprovados. "É dura a vida da bailarina, meu bem", diz ele, rindo muito. A
partir daí, o vestido começa a ser feito e será provado várias vezes num manequim com as medidas
exatas da cliente, até a primeira das várias provas no corpo da própria. "Quando faço um vestido de
noiva, dez dias antes do casamento está tudo absolutamente pronto", informa. "E, no dia, quatro horas
antes da hora marcada, eu vou, com a contramestra, vestir a noiva dos pés à cabeça, e ainda oriento o
maquiador e o cabeleireiro, e só saio quando a noiva entra no carro para ir para a igreja."

O preço de tudo isso? "Não digo nem sob tortura", resiste Guilherme. "Isso é um assunto entre mim e
as minhas clientes". Algumas de suas clientes, indiscretas, contam que um vestido de noiva feito por
Guilherme pode custar mais de R$ 5 mil. Em 40 anos de trabalho, só teve três contramestras.

Segundo ele, bons empregados gostam de patrões exigentes. Quem trabalha para ele deve se preparar
para varar a noite e os fins de semana, se for preciso - e com um sorriso nos lábios. Dorme às nove e
meia, dez da noite, jamais vai a festas. Acha que o chique é cozinheira da casa fazer o jantar.

Guilherme tem várias agendas: uma das clientes para as quais está trabalhando no momento, outra
dos compromissos marcados, outra das ligações que deve fazer naquele dia, uma de Paris, outra de
Nova York e mais uma de Buenos Aires, não só com o endereço dos amigos e dos restaurantes, mas
com a descrição dos pratos de que gostou e pode querer repetir, outra com os telefones para onde
deve ligar se perder os cartões de crédito (com os respectivos números), uma de São Paulo, mais
uma do Rio. Todas elas-dos últimos 20 anos-estão guardadas. Algumas clientes de GG são loucas
por roupas. Se ele ligar para Carmem Mayrink Veiga, Lourdes Catão ou Lucia Flecha de Lima, às 11
da noite, dizendo que acabou de desenhar um vestido que é a cara dela, no dia seguinte, às oito da
manhã qualquer das três estará lá, rente que nem pão quente, para ver o desenho - e encomendar a
roupa correndo.

Sentado no restaurante, à espera do café, ele se entusiasma e recita o seu credo: "Não saio com quem
não fuma e não bebe, não entro em fila, não vou a restaurantes da moda. Quando vou, é às cinco da
tarde, quando o almoço já acabou e o jantar ainda não começou. Tenho horror a futebol, e nunca
liguei, nem jamais ligarei, para nenhum número 0800, e não entro em clubes. Odeio. Para mim, quem
pretende ser sócio e leva bola preta, merece. Quem mandou querer entrar? Clube é para gente de
mentalidade estreita, que escolhe viver num mundo pequeno, de pessoas geralmente decadentes, que
não encaram a vida e só lá dentro se sentem protegidas do mundo. Eles se casam entre eles, se traem
entre eles. Tenho verdadeiro horror a quem freqüenta clubes. Em matéria de comidas, prefiro aquelas
de baixíssimo calão, tipo fígado, rognon, dobradinha, boudin, essas coisas". Quando lhe perguntam
"Mas você não tem nem um aparelho de som, Guilherme? E se quiser ouvir uma música?"", vem a
resposta: "Ora, eu canto".

GG gosta de bebidas que não sejam doces, mas prefere, a qualquer outra, o uísque Old Eight com
club soda (e em Buenos Aires, toma o local, Los Criadores, que está marcado na sua agenda
portenha). Aos amigos, serve Black Label, que ele faz o sacrifício de tomar, às vezes. Champanhe,
nem pensar. Se vir um pote de margarina na sua microcozinha, é capaz de ter um troço. Comida, em
sua casa, sob nenhuma hipótese - e empregada também não. Luiz, o faxineiro, vai uma vez por semana
fazer a limpeza, e é proibido de emitir qualquer som enquanto trabalha. Ele não tem celular, nem
secretária eletrônica, nem televisão, nem computador; não usa tênis, nem boné, nem camiseta; de
tempos em tempos manda trocar os números de seus telefones - e liga para dar os novos
(exclusivamente) a quem quer.

Para Guilherme, o luxo da vida é pegar um avião na hora que quiser, para onde quiser, sem ter que
dar satisfação a ninguém, comprar objetos de arte-tem uma tapeçaria de Lurçat e um biombo
Coromandel, além do Miró. Aliás, a compra do Coromandel foi em duas etapas: como estava sem
dinheiro, comprou meio biombo e combinou com o vendedor que compraria a outra metade assim
que as coisas melhorassem. Um dia, chegou lá com o cheque na mão e levou a outra metade.

Apesar de ter dois apartamentos luxuosos, GG lê os anúncios imobiliários todo domingo. Se acha
que há algum interessante, vai vê-lo. Se gostar muito, mas muito mesmo, compra-o e parte para uma
nova obra, e uma nova decoração. Não tem o menor apego às coisas que possui, e, quando vende uma
casa, costuma ser de porteira fechada, com tudo dentro. Alguém lhe pergunta se ele às vezes não
acorda de madrugada, sem sono. Ele diz que sim. E o que faz quando isso acontece? "Acendo todas
as luzes da casa, corto uns pedacinhos de queijo, como canapés, preparo um uísque e imagino que
estou numa festa maravilhosa, com todas as pessoas que adoro, de Marilyn Monroe a Balenciaga,
passando por Greta Garbo e pela viscondessa de Ribes. Aí, durmo como um anjo."

Guilherme se levanta. Não diz, mas foi ao maître e pagou a conta, para não haver discussão na mesa.
Volta e prossegue o seu credo: "Tenho horror a Madonna, aos Beatles, a gente que se veste de branco
e vai desfilar pedindo o fim da violência, ao povo da moda, que se veste de preto e não tira os
óculos escuros, me recuso a ler qualquer coisa sobre Yoko Ono, que odeio, detesto velho careca de
rabo-de-cavalo, bermuda, tênis e mochila, e quase vomitei ao ler sobre o casamento gay de Elton
John". Conhece pelo menos 5 mil gays, mas próximos mesmo, só dois. "Não tenho paciência para
papo de gay", diz. Jamais passou perto de uma passeata gay. Tem poucos amigos - "uns dez" - e não
quer conhecer mais ninguém.

Adora sua cachorra, Maria, uma miniatura de galgo italiano. Nunca foi à Bahia, nem pretende. Não
tem nenhum interesse pela política. Conta sobre o dia em que viu Zélia Cardoso de Mello na
televisão, garantindo que não mexeria na poupança; na hora, lembrou que dias antes, numa festa em
Brasília, Zélia tinha usado uma estola de pele, e aí ele pensou: "Não é possível acreditar em quem
usa uma estola de pele no calor de Brasília" - e tirou todo o dinheiro da poupança. GG aprendeu:
quando ligam dizendo que o dólar vai baixar, ele compra, e quando dizem que vai subir, ele vende,
sempre na contramão. Tem se dado muito bem assim.
A conversa adquire um rumo, digamos, íntimo-filosófico. "Só quem já viveu a solidão a dois sabe
dar valor a uma boa solidão a um", é o que ele diz. Guigui jamais deitou num divã de analista. "Acho
que passar a vida botando a culpa na mãe e no pai é coisa de quem não tem coragem para enfrentar a
vida. Eu não ponho a culpa de nada em ninguém, e, por outro lado, não sei o que é culpa."

Guilherme diz, sem pestanejar, que sua melhor cliente é Lucia Flecha de Lima. Ele a vestia antes,
durante o tempo em que ela foi embaixatriz em Londres, Roma e Washington, e ainda agora. Mandava
os croquis, ela aprovava e os vestidos iam prontos e perfeitos. Em 1991, hospedado na embaixada
em Londres, Lucia ligou para o quarto dele e disse que queria apresentá-lo a uma amiga. GG desceu,
muito à vontade, e deu de cara com uma moça loura, altíssima e linda, vestida de jeans e uma jaqueta
vermelha. Era Diana, a princesa de Gales. Disse que gostava muito das roupas que ele fazia para
Lucia e que adoraria ter vestidos dele, mas o protocolo a impedia: ela só podia usar roupas de
costureiros ingleses. Guilherme aproveita para alfinetar Ruth Cardoso, que no dia da posse de
Fernando Henrique usou um vestido de Issey Miyake, "e, ainda por cima, preto".

O jantar chega ao fim. Guilherme faz as suas derradeira considerações: "Todas as loucuras já foram
feitas, na hora certa, e meus prazeres hoje são comprar todas as revistas de decoração e percorrer os
antiquários. Meus luxos diminuem a cada dia. Ainda amo passar o réveillon em Paris e ir várias
vezes a Buenos Aires, mas cada dia perco mais a vontade de viajar. A Nova York, não pretendo
voltar jamais, com aquela doença de não poder carregar mala de mão e ter que ir para a calçada se
quiser fumar. Estou fora."

No Rio, adora ver revistas na Letras e Expressões do Leblon, mas quando a livraria começa a encher
com os habitantes do bairro, "me irrito e pego o primeiro táxi para casa". Ele odeia o Leblon, "o
bairro mais cafona do Rio. Só no Leblon se vê pai passear com filho com brincos maiores do que os
da Carmen Miranda e a mulher andando atrás, olhando as vitrines. Essas aberrações não acontecem
no Flamengo nem na Urca, o bairro mais chique do Rio, meu bairro querido, onde às vezes eu vou
passear, mas onde não posso morar, porque é o mais caro da cidade".

Terminado o jantar, acha melhor pegar um táxi, apesar de estar a cem metros de casa. Seguimos
juntos no táxi, que faz uma volta imensa, pois o prédio dele fica na contramão. A última surpresa:
Guilherme manda o carro parar na frente do Hotel Glória. E nos informa, como se fosse a coisa mais
natural do mundo, que nunca, nunca mesmo, dorme no apartamento. Ele tem uma suíte permanente no
Glória, e sempre dorme nela quando está no Rio. "Faço como Mlle. Chanel, que morava na rue
Cambon, mas dormia no Ritz." Meu palpite: dorme fora para não desarrumar a cama.
Desaparecido no deserto
Mistérios do seqüestro do engenheiro brasileiro no Iraque

por Silvio Ferraz

Ao tocar a pista do aeroporto de Guarulhos, em fevereiro, o Boeing 747 da Air France, procedente
de Paris, trazia uma carga de esperança. Para a família Vasconcellos, de Juiz de Fora, os passageiros
que poderiam vir com a boa-nova eram um engenheiro da Odebrecht e um empreiteiro jordaniano,
embarcados em Amã. Eles traziam uma pequena caixa de isopor, hermeticamente lacrada, com um
dedo mínimo envolto em gelo seco. Amputado de uma mão direita, o dedo saíra de um vilarejo na
fronteira do Iraque com o Irã. Ele foi levado com rapidez para Campinas, para o Centro Médico
Especializado Professor Walter Pinto Jr., onde uma equipe de legistas retirou-lhe diversas amostras,
para serem comparadas ao sangue dos pais do engenheiro João José Vasconcellos Júnior. Se o DNA
deles fosse compatível, haveria finalmente a prova de que o engenheiro, seqüestrado no Iraque em 19
de janeiro de 2005, estaria vivo. Em outubro de 2005, um outro funcionário da Odebrecht trouxera de
Amã um chumaço de cabelos que, supostamente, seria de Vasconcellos. Ao recebê-lo, porém, os
legistas descartaram-no logo como material capaz de identificar o DNA: o cabelo fora cortado rente,
mas sem os bulbos, imprescindíveis para o exame.

A incerteza quanto ao destino do engenheiro, raptado na estrada de 180 quilômetros que liga a cidade
de Beiji à capital do Iraque, Bagdá, assombra os dias e as noites de sua mulher Tereza, e de seus três
filhos Rodrigo, Tatiana e Gustavo. Militares britânicos, que atuam na área do seqüestro, descartam a
possibilidade de que Vasconcellos Júnior tenha escapado de seus raptores e fugido pelo deserto. Nas
areias iraquianas, as temperaturas atingem 46 graus centígrados durante o dia, e a umidade não passa
de 10%. À noite, o termômetro pode cair abaixo de zero. É freqüente o forte sopro do vento Shamal,
que provoca tempestades de areia e inutiliza os aparelhos de GPS - Global Position System -
essenciais à orientação na região.

Em São Paulo, no bairro de Vila Olímpia, o irmão do engenheiro, Luís Henrique Vasconcellos,
diretor de um empreendimento imobiliário às margens do rio Pinheiros, fala sobre o seqüestro com
cautela. Para abrir a conversa, ele pede cafés expressos à secretária, e de passagem nega qualquer
divergência da família com o governo e com a Odebrecht. Diante de uma exposição sobre a viagem
do chumaço de cabelo que pertenceria a seu irmão, pensa longamente antes de falar: "Essa
reportagem não vai ajudar em nada". Cala-se novamente, e pouco depois confirma a história. A
história do dedo é mencionada. Luís Henrique passa as mãos abertas no rosto, aperta os olhos,
empurra os óculos para a testa. Com vagar, baixa as mãos, ajeita os óculos confirma também o caso
do dedo decepado e corrige o número de amostras: "Não foram cinco amostras, foram 12". Nega ter
ido a Dubai. Mas depois de alguns segundos em silêncio, confirma que, sim, esteve na maior cidade
dos Emirados Árabes Unidos. Para buscar o corpo? "É", responde.

Um grupo de funcionários da Odebrecht conhecido como "célula de inteligência" reúne-se


periodicamente na sede da empresa, no Rio de Janeiro. Eles se recusam a dizer qualquer coisa sobre
suas investigações a respeito do paradeiro de Vasconcellos. Um deles explica: a divulgação de
informações, mesmo que irrelevantes, poderia "romper o tênue fio de interlocução" que pessoas
ligadas à empreiteira mantêm com "um grupo extremista", cujo nome não revela. Depois da entrevista
frustrada, um dos integrantes da célula de inteligência esclarece, reservadamente, o significado das
palavras tênue fio de interlocução: "Jamais se chegou a qualquer negociação concreta".

Com vinte anos de Odebrecht, João José Vasconcellos Júnior é respeitado na empresa. Sua ligação
estreita com a empreiteira é incompreendida por alguns de seus familiares. "Por que o João foi para
uma região conflagrada, deixando para trás mulher, três filhos, seus pais e uma família unida, que já
havia sofrido a perda prematura de um filho?", indaga sua irmã Isabel Cristina. Cabelos negros
compridos e gestos eloqüentes, ela atua, segundo sua própria definição, como a pedra no sapato da
Odebrecht e do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Na confortável casa do Vale do Ipê,
bairro tradicional de Juiz de Fora, ela tenta organizar protestos contra o seqüestro.Ao longo da
conversa, Isabel Cristina perde a convicção paulatinamente, até reconhecer: "Não tenho mais
esperanças". Casada com um libanês, conta que o marido conhece bem os costumes islâmicos e
ressalta, entre eles, o de sempre se devolver o corpo de um adversário na guerra. "Os muçulmanos
nunca enterram um inimigo", diz Isabel Cristina. "Eles acreditam que, assim, enterrariam o inimigo
no seio de suas família, e com ele, todas as suas maldições."

Entre os parentes e amigos de Vasconcellos, variam as interpretações sobre a sua transferência para
o Iraque, em plena insurgência contra a ocupação anglo-americana. Para uns, ele aceitou a missão
para acelerar e melhorar a aposentadoria. Um engenheiro, em cargo de chefia numa grande obra,
numa região conturbada, chega a ganhar US$ 70 mil mensais, além de um polpudo seguro de vida.
Também adquire o direito a se aposentar mais cedo, e incorpora certas vantagens salariais. Para
outros, o engenheiro, que tinha 50 anos quando desapareceu, apenas foi atrás do que sabia fazer -
construir - já que em terras brasileiras pouco se constrói em sua área de especialização: estradas,
aeroportos, barragens.

Seu irmão, também engenheiro, acha que ele embarcou na aventura iraquiana por crer que os Estados
Unidos dariam conta da fatura bélica e política em poucos meses. "Quando João partiu, não havia a
onda de atentados terroristas a que assistimos diariamente", diz Luís Henrique. "Ele não mergulhou
num caos, com probabilidade mínima de voltar, o cenário era outro, muito mais favorável." Antonio
Caiado, diretor-geral da Odebrecht nos Emirados Árabes Unidos em Abu Dhabi, tido pela família
como um irmão de João, foi testemunha do entusiasmo com que o amigo encarou a transferência.
"João estava no Equador, fazendo os trabalhos preliminares para a construção do aeroporto de Quito,
quando recebeu o convite para dirigir as obras no Iraque", lembra. "Conversamos sobre o assunto.
Eu achava uma loucura, mas nada pude fazer. O João parecia uma criança convidada para ir à
Disney."

Em dezembro passado, o "tênue fio de interlocução" entre extremistas e a empreiteira registrou uma
novidade: em troca de dinheiro, o corpo do engenheiro poderia ser devolvido. As conversações
seriam iniciadas em Dubai. Marcelo Odebrecht, presidente da empreiteira, voou para Brasília, ao
encontro do chanceler Celso Amorim, para expor a situação. O ministro lhe disse que a empresa
deveria assumir o risco de pagar pelo resgate. "É melhor vocês darem o dinheiro para tentar obter o
corpo; se for do João, tudo bem, se não for, paciência", disse Amorim na conversa, presenciada por
dois familiares do engenheiro.

Isabel Cristina conta que a empreiteira colocou à disposição do irmão US$ 1 milhão, para pagar o
resgate nos Emirados Árabes. "Antes de Luis Henrique partir para Dubai, foi acertada uma série de
providências", diz ela. "O corpo seria entregue ao responsável pela embaixada do Brasil em Bagdá,
o único funcionário a permanecer na região conflagrada." Segundo ela, definiu-se até o tipo de avião
que resgataria o cadáver: "Tinha de ser um avião que pudesse aterrissar no aeroporto de Juiz de
Fora, sem criar alarde". Nada disso aconteceu. O corpo não foi devolvido, nem qualquer interlocutor
apareceu. Luís Henrique regressou e fez com que o milhão de dólares voltasse a quem de direito.
Desde então, a família parece ter perdido qualquer esperança. Em todas as conversas, em algum
momento, cada um deles deixa escapar: "Para mim, o João está morto".

O dedo trazido do Iraque não serviu para nada. As amostras não eram compatíveis com o dna dos
pais do engenheiro. Maria de Lourdes, sua mãe, completou 80 anos, recentemente, na maior tristeza.
"A cada dia sem notícias, morro mais um pouco", diz ela, "Por que não dizem logo que o João
morreu?", pergunta o pai, choroso. Em agosto, a Interpol iniciou a "divulgação amarela" - um alerta
geral para todas as suas agências, com amostras de sangue dos filhos e dos pais do engenheiro, além
de um modelo da sua arcada dentária. A posição oficial da Odebrecht é a de aguardar alguma
iniciativa dos raptores. Mas na célula de inteligência, que mantém contatos com o Itamaraty e
empresas de segurança da Inglaterra e dos Estados Unidos, além dos serviços secretos de países da
região, os olhares desalentados mostram que as esperanças são inexistentes.

Antonio Caiado diz que continua mantendo o nome do amigo em sua lista de endereços virtuais do
MSN, tanto no computador de mesa como no laptop. "Ainda não sei por que faço isso, pois no fundo
não acredito mais que ele volte, que esteja vivo", diz. Caiado aponta para a realidade no Iraque
como justificativa para o seu pessimismo: "São mais de 30 mortos diariamente, muitos seqüestrados.
Acho muito, mas muito difícil mesmo, que se consiga resgatar uma prova do corpo, e muito mais
difícil que esteja vivo".

João Vasconcellos Júnior liderava um consórcio da Odebrecht com a firma americana Austin para a
reconstrução de uma termoelétrica, bombardeada pela aviação americana no início da invasão. O
contrato, no valor de US$ 64 milhões, fora assinado com o Corpo de Engenheiros do Exército
americano. Um relatório dos militares resume a necessidade da obra: "Com a aproximação de março,
a temperatura no Iraque sobe e a necessidade de energia aumenta". Tratava-se de conseguir cerca de
270 megawatts - o suficiente para abastecer uma cidade com 200 mil casas - para reforçar a energia
de Bagdá. Vasconcellos e sua equipe se empenhavam em reconstruir duas turbinas, de 135 megawatts
cada, e construir duas linhas de transmissão.

Autora de um livro sobre o sumiço do irmão - Do outro lado do seqüestro, inédito - Isabel Cristina
levanta questões surgidas da leitura do relatório feito pela Janusian, empresa britânica de segurança
que trabalha para a Odebrecht. Ela e João conversavam diariamente por meio do Skype, o telefone
via internet. Em 15 de janeiro de 2005, três dias antes do seu desaparecimento, ele parecia tenso.
"João me explicou que o nervosismo era o normal na véspera de entregar uma grande obra, mas que a
tensão se agravara porque o seu laptop havia sido roubado do canteiro de obras, em Beiji", conta.
Todas as informações financeiras da termoelétrica estavam no computador portátil. "Ele só não
entrou em pânico porque tinha todos os dados armazenados em outro computador, mas mesmo assim,
ficou extremamente nervoso", diz sua irmã.

No dia seguinte, 48 horas antes do seqüestro, Isabel ligou novamente para o irmão, e ele respondeu:
"Agora, não posso". À noite, João chamou-a, e brincou: "Que irmã doida é essa que eu tenho? Eu
digo que não posso atender, e ela responde ótimo". "É porque assim sei que você está vivo",
devolveu Isabel. O engenheiro contou que, depois de entregar a obra, queria "apanhar as malas e
voar para o Brasil, e dessa vez é para valer, Isabel". Na última viagem a Juiz de Fora, Vasconcellos
dera à mulher, a psicóloga Tereza, um relógio com dois mostradores, um com a hora do Brasil e outro
com a de Bagdá. "Assim você vai poder ficar contando as horas", brincou.

No dia 18 janeiro, Isabel tentou falar com o irmão "20 vezes". Sem êxito. "Considerando o fuso
horário, cinco horas a mais no Iraque, acho que ele já estava nas mãos dos guerrilheiros, ou morto",
acredita. Logo que foi informada do desaparecimento de seu funcionário, a diretoria da Odebrecht
mandou um funcionário a Juiz de Fora para informar os pais dele. Simultaneamente, no Rio, um outro
diretor, Enio Silva, providenciou o embarque para Miami da mulher Tereza e dos seus filhos. Os
diretores da empreiteira acreditavam que, em Miami, a família poderia acompanhar melhor o
desdobramento do atentado, pois é o escritório da Odebrecht na Flórida que controla a obra no
Iraque. Todas as informações sobre o seqüestro seriam concentradas lá. Ainda em estado de choque,
Tereza embarcou para Miami e foi instalada num hotel luxuoso. Seus filhos acharam que o pai não
gostaria que se hospedassem num hotel caro, e a família toda se mudou para um outro, mais barato.
"Papai era do tipo informal, que nas férias queria andar de bermudas e chinelo", explica Rodrigo, o
filho mais velho.

O embaixador do Brasil na Tunísia, Sergio Telles, soube do seqüestro pela televisão, depois de
jantar com a mulher e os três filhos na sua casa, em Tunis. Consternado, saiu até o jardim para fumar.
Minutos depois, voltou e, no escritório, escreveu um telegrama para o chanceler Celso Amorim, se
oferecendo para participar da missão de resgate. Telles havia sido embaixador em Beirute por quase
cinco anos. Conhecia bem generais que comandavam o serviço secreto libanês, tido como eficiente.
Duas semanas se passaram antes do diplomata receber a autorização do Itamaraty. Pegou então a
mala, que já estava arrumada, e partiu para Beirute, onde se encontrou com ministros, generais do
serviço secreto e com o presidente do país, Émile Lahoud. Dos generais amigos ouviu a seguinte
recomendação: siga todas as pistas possíveis. Do presidente Lahoud, quando se despediam, escutou
um apelo: "Embaixador, não se deixe seqüestrar, por favor".
Telles partiu em seguida para Bagdá, fazendo escala em Amã. Na capital iraquiana, foi recebido por
um representante da empreiteira brasileira. Já no caminho para a casa da Odebrecht, no chamado
setor verde, onde se localizam as embaixadas e escritórios das Forças Armadas americanas, o
embaixador ouviu histórias pavorosas. Um representante da Janusian, que o acompanhava,
aconselhou-o a andar com escolta permanente. Preço da segurança: US$ 50 mil. O Itamaraty ordenou
que não aceitasse a proposta. O embaixador se abrigou na casa da Odebrecht, um misto de bunker e
escritório. "Parecia um acampamento de fuzileiros, igual ao que se vê em filmes", lembra. Na sala,
curdos fortíssimos, com metralhadoras de último tipo ao alcance das mãos, faziam exercícios em
aparelhos de ginástica.

O representante brasileiro entrou em contato com monsenhor Audi, o chefe da igreja greco-ortodoxa
no Iraque, considerado um negociador hábil. O monsenhor ouviu a história de Telles sem interrompê-
lo. Disse-lhe que iria manter abertos seus canais próprios para agir nessas circunstâncias. E
recomendou que o governo brasileiro patrocinasse algumas inserções na programação das televisões
árabes, pedindo a libertação de Vasconcellos. Sugeriu-lhe até o tom a ser usado nessas mensagens:
"Não pode ser muito súplice, tampouco arrogante". A Odebrecht custeou as inserções publicitárias.

Telles procurou os embaixadores da França, Itália, Japão, Líbano e China, que também tiveram
cidadãos seqüestrados. Todos se mostraram preocupados. Acharam que era mau sinal os
guerrilheiros só terem enviado à empresa uma carteirinha de mergulhador de Vasconcellos Júnior e
algumas cédulas de reais. O embaixador francês estranhou que os seqüestradores não tivessem
passado para o segundo ato: o pedido de resgate, acompanhado do envio de uma fita de vídeo com o
seqüestrado pedindo clemência. Com a tarimba de quem havia, recentemente, contribuído para
resgatar três compatriotas, o embaixador japonês interrompeu o brasileiro com um eufemismo,
quando ele disse que os seqüestradores não haviam entrado em contato: "Isso quer dizer que o
seqüestrado não está mais disponível". Em outras palavras, Vasconcellos Júnior estava morto.

Passado um ano e meio do seqüestro, o embaixador Telles mora em São Paulo. Ele se aposentou e,
na cozinha de sua casa, que está em obras, considera que o ataque na estrada de Beiji a Bagdá não
visava o engenheiro brasileiro. Mexe com as pontas dos dedos as pedras de gelo de seu uísque e
conta que, depois de tudo que apurou, acredita que o atentado buscava sabotar a obra da hidrelétrica,
pois, em poucos dias, ela levaria 270 megawatts a mais de eletricidade a Bagdá. "A tensão política
carregava a atmosfera naqueles dias", diz. Ele recorda o seu encontro com o xeque Ha-Ridth al-
Dhari, chefe supremo dos sunitas, na principal mesquita de Bagdá. "Com um pesado colete à prova
de bala sob o paletó, saí da casa da Odebrecht para entrar no carro blindado e me encontrar com o
xeque. Qual não foi minha surpresa, quando ouvi o chefe dos guarda-costas falar: 'Lá nós não vamos'.
Não tem problema, respondi, vou de táxi. 'O senhor vai se arriscar nos cinco quilômetros mais
perigosos do planeta? Isso é loucura', me disse o motorista iraquiano. Quando viram minha
disposição de ir de qualquer forma, dois deles resolveram me acompanhar."

Ao chefe espiritual dos sunitas, facção do islã à qual pertence Saddam Hussein, o embaixador disse
que Brasília não tinha qualquer contencioso com nenhum país árabe. Enfatizou que o Brasil sempre
recebera árabes de todos os países com a mesma hospitalidade. O xeque al-Dhari balançou a cabeça,
concordando - e não fez qualquer promessa concreta. Telles falou com políticos que formariam
dentro em pouco o atual governo iraquiano. Eles acreditavam ter havido um erro: Vasconcellos não
seria o alvo.

"As propostas que recebi foram as mais disparatadas possíveis", recorda o embaixador. Foi
procurado por um cidadão que lhe pediu US$ 20 mil para resolver a questão. Perguntado como o
faria, explicou que compraria 70 carneiros, daria uma imensa festa para os chefes de clãs. "Enquanto
comem, vou circular, conversando com todos", disse. "Garanto-lhe que, no final da festa, terei o
segredo desvendado." O embaixador considera que o seu inimigo principal, em Bagdá, foi a
incerteza. "Como costuma ocorrer no Oriente, tudo era absolutamente verdade, e tudo era
absolutamente falso."

No dia seguinte ao seqüestro, Isabel Cristina lembra que conversava com Rodrigo quando uma voz
entrou na linha, e perguntou, em inglês, o nome do pai do engenheiro, da mãe, e onde ele nascera.
"Depois de responder, aproveitei para avisar que João tomava remédio para tireóide." O intruso saiu
da linha dizendo: "Já sabemos tudo o que precisamos saber". Na época, Isabel conversou com o ex-
presidente Itamar Franco, então embaixador do Brasil em Roma. Engenheiro, ex-prefeito de Juiz de
Fora e velho amigo da família Vasconcellos, Itamar prontificou-se a entrar em contato com o serviço
secreto italiano, que tivera êxito em libertar a jornalista Giuliana Sgrena. Ressalvou que só poderia
atuar se fosse autorizado pelo Itamaraty. Itamar disse a amigos, posteriormente, que não recebeu
autorização da chancelaria. Mesmo assim, pediu à família do engenheiro que lhe enviasse
documentos e preenchesse um questionário, preparado pelo serviço secreto italiano, com
informações sobre o seqüestrado.

Houve uma ocasião em que a Odebrecht procurou a família Vasconcellos para obter sua
concordância em relação a um projeto específico: a contratação de uma equipe de resgate, que
tentaria libertar o engenheiro. Porta-vozes da empresa disseram então que nem a equipe de resgate
nem a empresa teriam qualquer responsabilidade. O seqüestrado poderia ser resgatado vivo, ou
morrer durante a operação. A família respondeu que esse era um problema exclusivo da empresa. O
engenheiro assinara um contrato com a Odebrecht e, portanto, cabia a ela decidir. Um diretor da
empresa explica que a proposta de resgate à força foi apresentada pela Janusian, a empresa britânica
de segurança que trabalha para a Odebrecht ao preço de US$ 1 milhão ao ano. Ela não deu qualquer
detalhe do plano ou indício do local onde o engenheiro estaria. Pelo sim, pelo não, a Odebrecht
resolveu repassar a proposta à família, para depois não ser acusada de não ter feito tudo que era
possível.

A versão mais aceita do que aconteceu na estrada de Beiji a Bagdá está num relatório da Janusian. O
relatório informa que os veículos usados pela Odebrecht viajavam num comboio. No único posto de
gasolina da estrada, uma enorme fila de carros aguardava o abastecimento. Ela era tão grande que
bloqueava uma pista da estrada. Os carros dos funcionários da empreiteira contornaram o posto pela
contramão e superaram o engarrafamento. Quinze quilômetros adiante, foram atacados. Os dois
primeiros automóveis do comboio já haviam ultrapassado os atacantes quando os tiros espocaram. O
terceiro carro era um BMW blindado, com vidros escurecidos por insulfilm, no qual viajava
Vasconcellos. Como todos, ele vestia um colete à prova de bala. O BMW e o quarto veículo
receberam fogo pesado. Os dois seguranças que viajavam com o engenheiro, um iraquiano e um
britânico, tombaram mortos. A Janusian acredita que os atacantes eram combatentes ("mujahedin")
ligados à Al-Qaeda, a rede terrorista liderada por Osama bin Laden.
O embaixador brasileiro, com informações obtidas junto a diversos serviços secretos, contradiz em
parte o relatório da firma inglesa. "O comboio tinha quatro carros", diz. "Quando o primeiro carro
passou, os terroristas o isolaram do comboio com uma caminhonete. O segundo carro foi separado do
BMW não-blindado onde viajava João Júnior, por um caminhão. Sobre o carro de João e o último do
comboio convergiu um enxame de balas das armas pesadas dos terroristas que, por sua violência,
não deveriam estar interessados em deixar ninguém vivo."

Apesar do tiroteio, não foi encontrada nenhuma mancha de sangue no estofamento do carro em que
estava o engenheiro. Há a hipótese de que os passageiros tenham conseguido sair do carro junto com
os seguranças, que buscariam uma melhor posição para responder aos disparos, enquanto
aguardavam reforços. O relatório da Janusian, corroborando a hipótese, afirma que seus guardas
sustentaram o tiroteio com o inimigo durante 20 minutos. "Só se fossem Rambos", comenta
ironicamente Isabel Cristina, apontando, na única foto que possui, para o tamanho dos rombos feitos
no automóvel. "João pode ter saído do carro, ou ter sido feito prisioneiro, ou fuzilado ali mesmo",
deduz.

Passados mais de 500 dias do seqüestro, Rodrigo Vasconcellos, de 27 anos, camisa de seda de
mangas compridas, fartos cabelos penteados para trás, come um hambúrguer em São Conrado, no
Rio. Ele não acredita que seu pai estivesse no Iraque em busca de uma boa aposentadoria. "Onde
tinha obra, papai estava lá", diz. Rodrigo conta que a família acompanhou o pai em obras até na
Patagônia. Os filhos estudaram em Buenos Aires quando o engenheiro se encontrava à frente de obras
na Argentina e no Uruguai. Depois do Iraque, recorda Rodrigo, o plano do pai era trabalhar em
Portugal. A ida ao Iraque foi uma coincidência. Vasconcellos desenvolvera um projeto de casas pré-
fabricadas que foi apresentado ao Exército americano. O projeto foi elogiado e começaram as
tratativas para a empresa desenvolvê-lo no Iraque. Atuando nos Estados Unidos há 15 anos, a
Odebrecht recebeu uma permissão especial para participar da reconstrução do país, privilégio que
só as empresas dos países que participam militarmente da invasão têm direito. No meio do caminho,
tornou-se prioritária a reconstrução da termoelétrica que havia sido bombardeada.

A família Vasconcellos estava habituada às longas ausências do engenheiro. Ele virava então um pai
virtual. "Quando estava do outro lado do mundo, ele era o namorado virtual de minha mãe", diz
Rodrigo. Ele conta que o pai comprou webcams para a família e para si próprio. Assim, poderiam se
ver a qualquer hora. O engenheiro controlava os fusos horários e telefonava durante o jantar. "Aí, ele
aparecia na tela do computador e nos contava o que havia feito durante o dia, perguntava o que
tínhamos feito", lembra Rodrigo. Sempre que vinha ao Brasil, era para estadias curtas. Ele logo
avisava: "Só não quero saber de carne de carneiro", o prato de resistência da culinária iraquiana. Ele
levava de volta para o Iraque camisas da seleção brasileira, com o número de Ronaldo. Disse que os
iraquianos sabiam que o Brasil era contra a guerra, e sempre fora tratado com amabilidade. Mesmo
assim, Isabel Cristina insistia para que ele usasse uma camiseta da seleção brasileira por baixo da
camisa. "Isabel, você acha que vou pagar um mico desses?" - perguntou o irmão recusando a idéia.

Rodrigo se formará em Informática no fim do ano. Ele administra o salário do pai, pago pela
empreiteira com pontualidade, como se o engenheiro ainda trabalhasse. Paga as despesas de casa, dá
para a mãe, psicóloga, o que ela pede, e mesadas aos irmãos. Sua irmã, Tatiana, formou-se em
Odontologia e começará a clinicar em breve. Seu irmão Gustavo começou um cursinho pré-
vestibular. "Eu e meu irmão nos aproximamos muito com a crise", diz Rodrigo. "Converso com ele
diariamente, trato de afastar seus medos e consolá-lo. Lá em casa, dividimos as tarefas. Tatiana paga
as contas pela internet, Gustavo rastreia informações nos sítios árabes, e mamãe, ainda se
restabelecendo do choque, recomeçou seu trabalho no consultório."

Para deixar aberto noite e dia um canal de informações sobre o paradeiro do pai, Rodrigo mantém
um blog. No dia em que o seqüestro completou um ano, ele recebeu 7.600 mensagens de
solidariedade. "É um número expressivo que se iguala ao acesso de um sítio comercial", avalia.

Ele diz que a família tem dificuldade em aceitar a idéia de que seu pai morreu. "Não podemos ficar
sem saber nada, sem termos um fim para a trágica história de meu pai", raciocina. "Se o governo e a
empresa acreditam que meu pai não está vivo, cabe a eles tomar providências para que a morte seja
declarada jurídica e oficialmente. Enquanto isso não for feito, continuamos a achar que há uma
esperança." No último réveillon em liberdade, Vasconcellos pediu aos filhos que apontassem a
webcam em direção aos fogos, no Rio. Enquanto os rojões explodiam, iluminando o céu e a multidão
em Copacabana, o engenheiro nada falou. Depois do show, com a voz comovida, disse: "Esta noite
estou para lá de Bagdá".
Bom-dia, meu nome é Sheila
Como trabalhar em telemarketing e ganhar um vale-coxinha

por Vanessa Bárbara

Fagner vendia planos de saúde pela lista telefônica. Boné na cabeça, mascando chiclete,
ele abria a letra A e começava a discar. "Bom-dia, meu nome é Fagner, com quem eu falo,
por gentileza?" Às vezes preferia trabalhar com prefixos. Butantã é 3735 e Mandaqui é
6979. Começava discando o 0001, 0002, 0003. Ou tentava qualquer combinação a esmo.
Fagner vendeu dezenas de planos usando a Lista de Assinantes Residenciais de São
Paulo, capital, e distribuindo panfletos com seu nome e telefone.

O trabalho se estendia das nove da manhã às seis da tarde, sem direito a valetransporte
ou salário fixo. Depois de três meses, pediu demissão. Há poucas semanas, estava
sentado na sala de aula de um prédio na rua Sete de Abril, no Centro
de São Paulo, e juntava bombons ao lado de seu boné.
"Bom-dia, meus guerreiros!", ataca o professor Isaac Martins. Ele não admite alunos
sonolentos. "Para ser grande profissionalmente, você precisa estar na tomada. Toda vez
que eu disser 'todo mundo ligado', é pra bater uma palma e dizer: Hai! Como os samurais".
A turma inteira responde: Hai! É o primeiro dia do curso Operação de Telemarketing. Pela
participação, Fagner já ganhou quatro bombons. "Vou sair daqui e vender", diz. "Pelo
telefone", completa um colega.

O primeiro exercício de um curso de telemarketing é praticar o bom-dia. Há pelo menos


quatro tipos de bom-dia: o tradicional, o belicoso, o sorridente e o de quem ganhou na
loteria. Operadores de SAC - Serviço de Atendimento ao Cliente - costumam adotar uma
saudação mais sóbria, a fim de evitar um bom-dia belicoso do outro lado da linha. Já os
operadores de vendas devem usar a versão sorridente do cumprimento. Para esses, o
entusiasmo é obrigatório em todas as etapas da abordagem, embora alguns especialistas
argumentem que o sorriso exigido do profissional é, na verdade, um sorriso interior, e não
físico. "Manter as comissuras labiais eternamente esticadas, em forma de sorriso, com
certeza seria de grande prejuízo para o teleoperador e para a emissão da palavra",
sustenta a fonoaudióloga Eudosia Acuña Quinteiro, autora de O poder da voz e da fala no
telemarketing. Segundo ela, a necessidade de sorrir no telefone é uma importação
equivocada de teorias de telemarketing dos Estados Unidos, país onde o smile (cheese!) e
o yes são muito diferentes do nosso "sim". A articulação da palavra no Brasil corresponde
a uma forma ligeiramente "bicuda" de falar, fruto da influência francesa. "É só pensar na
atriz Marieta Severo", recomenda a fonoaudióloga. "Ela não tem um baita bico? E você não
perde nada do que ela diz, tamanha a articulação das palavras."

Ignorando as advertências de Eudosia Quinteiro, que prevê danos irreparáveis nas


comissuras labiais, os cursos de preparação para teleoperadores ensinam a potencializar
o tom de voz conversante e a manter a entonação de quem está empolgado. "Escolha o
bom humor e não o mau humor", ensina a professora Tamires Siqueira, assistente d0
mestre Isaac Martins, dirigindo-se a uma platéia de dezoito alunos. Fagner é o primeiro a
bater palmas e o único a se oferecer como voluntário para fazer uma simulação de venda
de canetas. Também tira o boné prontamente e se livra do chiclete assim que o professor
lhe chama a atenção.

Fagner, cujo sobrenome é Queiroz Rocha, tem 21 anos. Ele fez cursos de datilógrafo e
padeiro antes de se inscrever nas aulas de telemarketing. "Tenho que ganhar dinheiro",
explica. Foi feirante, frentista, forneiro, garçom e recepcionista. Conhece o ambiente
profissional dos frigoríficos, já fechou caixa, trabalhou em padaria e efetuou, como diz,
"auxílio e apoio a força de vendas". Tradução: panfletagem em cruzamentos. Sua mais
recente experiência no mundo do trabalho foi como lavador de carros num centro
automotivo, onde conseguiu ser promovido a frentista depois de três dias de trabalho.
Fagner, que pretende terminar o supletivo em meados do próximo ano, inscreveu-se no
curso do professor Isaac Martins porque sentia dificuldade em vender pelo telefone.
Realista, também sabe que a escola indica alunos para empresas.
Fagner está numa situação parecida com a de Gabriela, de 21 anos. Ela passou três
meses no telemarketing de uma escola de informática, oferecendo prêmios e descontos
ilusórios. "Eu ligava e dizia: 'Parabéns, você foi sorteado para ganhar um curso de
informática', e precisava inventar quem é que promovia o concurso", conta. "Aí a pessoa
respondia: 'Mas eu não escuto essa rádio', e eu ficava sem ter o que dizer." É uma
situação semelhante à de Roseli, de 23 anos, que chora até em inauguração de
supermercado e se inscreveu no curso por iniciativa de um amigo. Ou de Elizabeth, de 28,
que é balconista de uma cafeteria e tem como objetivo de vida fazer faculdade. Ou de
Aretuza, 29 anos, ex-técnica de raio-x, e Daniele, de 22, que compartilham o mesmo sonho
(e até a mesma frase para resumi-lo): "Progredir junto com a empresa".

Com 630 mil operadores empregados, o telemarketing é o setor da economia que mais
contrata hoje no Brasil. Ele surge como a única saída para Daniele, Elizabeth, Fagner e
Gabriela, jovens com pouca formação escolar cujos filhos provavelmente "já vão nascer
devendo", nas palavras de um deles. Segundo um relatório do Global Call Center Industry
Project 2005, pesquisa internacional que no Brasil ficou a cargo da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo e da Associação Brasileira de Telesserviços, 74% dos atendentes
brasileiros cursaram o ensino médio e 4% têm apenas o ensino fundamental. Do total de
teleoperadores, 76% são mulheres.

No curso da rua Sete de Abril, além de gritar Hai! para ganhar bombons, os alunos passam
por dinâmicas de grupo. Levam a mão à cabeça e ao joelho, acompanhando determinada
seqüência de números para aprender a reagir de forma instantânea. Fazem um círculo,
recebem uma palma do colega da esquerda e a repassam para o da direita sem hesitar, o
que supostamente mimetiza o trabalho em equipe. Os alunos ouvem também histórias
motivacionais. Como a do cavalo que caiu em um poço-mas não se deixou enterrar-, que
termina com a seguinte lição: "Muitos jogam sobre você a terra da incompreensão; levante
e cresça com as dificuldades". Durante o curso, eles são colocados à prova e pagam seus
erros com polichinelos. "Quando você é novo, tem que pagar uns pauzinhos, trabalhar até
de graça", justifica o professor Martins. Segundo ele, o desempregado típico já chega
meio corcunda no local da entrevista, carregando a pasta de papelão azul da época do
prezinho com o currículo dentro. "Não basta ter conhecimento, experiência, você tem que
ter sangue nos olhos", garante. Como todos ali desejam ter sangue nos olhos e arrumar
emprego, a saída é pagar R$90 por dezoito horas de aulas teóricas e práticas que lhes
permitirão, no futuro, falar no telefone como se fossem uma fita cassete.

Durante os exercícios de simulação, os alunos escrevem scripts, ou roteiros de


atendimento telefônico, para telemarketing "ativo" e "receptivo". No ativo, a iniciativa das
ligações sempre parte da empresa. Nessa modalidade, os alunos começam por telefonar
para oferecer de tudo um pouco-produtos para emagrecer, fraldas descartáveis, bicicletas,
apartamentos de luxo, latas de tinta, helicópteros, kit-festa com piscina de bolinha e pula-
pula. Um aluno faz as vezes do cliente; o outro, do operador. Há também a opção de usar
o script de vendas do livro SuperMotivado, de autoria do próprio professor Isaac Martins.
Os alunos que fazem o papel de vendedor tentam seguir os preceitos básicos do
telemarketing-nunca dizer "não", trocar "gasto" por "investimento" e manter, durante toda a
ligação, o tom formal de fita gravada-, enquanto os que desempenham o papel de cliente
falam o que bem entendem:

Operador: Bom-dia, meu nome é Sheila, sou da Motivação Total, com quem eu falo, por
gentileza?
Cliente: Faaaaala!
Operador: Qual é o seu nome, porgentileza?
Cliente: É Gabriela!
Operador: Senhora Gabriela, o motivo do meu contato é estar oferecendo uma maneira
da senhora estar tendo motivação e aumento da sua auto-estima. [pausa] A senhora já
deve ter notado que, diante das dificuldades do dia-a- dia, está cada vez mais difícil
manter a sua auto-estima, não é mesmo? [pausa] Então, pensando nisso, estou ligando
para um seleto número de pessoas para convidá-las a fazer parte do clube da Motivação
Total! Não é excelente, senhora Gabriela?
Cliente: Não.
Operador [ignorando a reação e seguindo o script]: Para isso, a senhora receberá o livro
SuperMotivado, com um cd duplo em áudio contendo dezenas de histórias motivacionais e
frases quefazem com que a senhora extraia o máximo de si. O investimento será de
apenas R$ 39, com boleto para o próximo dia 10. A senhora extraia o máximo de si. O
investimento será de apenas R$ 39, com boleto para o próximo dia 10. A senhora poderia
confirmar o seu endereço? É rua ou avenida?
Cliente: [desliga].
Nova tentativa:
Operador: Bom-dia, meu nome é Sheila, sou da Motivação Total, comquem eu falo, por
gentileza?
Cliente: Marcelo.
Operador: Senhor Marcelo, o motivo do meu contato é oferecer uma maneira do senhor
ter motivação e aumento da sua auto-estima. [pausa] O senhor já deve ter nota...
Cliente: [interrompendo]: Olha, eu não estou interessado.
Operador: Então, pensando nisso, estou ligando para um seleto número de pessoas para
convidá-lo a fazer parte do clube da Motivação Total...
Cliente: Eu não quero!
Operador: Por apenas R$39,90 o senhor receberá o livro SuperMotivado, com um cd
duplo em áudio, contendo dezenas de histórias mo...
Cliente [interrompendo]: Eu sei, mas não estou interessado mesmo. Tenha um
bom-dia.
Operador: [largando o script e abrindo os braços]: Ahhh, senhor Marcelo. Ah, não, senhor
Marcelo, não faz isso!
Cliente: Bom-dia.
Operador: Não, você tem que falar "alô"!
Cliente: Alô.
Operador: O motivo do meu contato é oferecer uma maneira da senhora ter motivação e
aumento da sua auto-estima! Por apenas duas vezes de R$19,95 a senhora receberá em
sua casa o livro SuperMotivado, com um cd duplo em áudio, contendo dezenas de histórias
motivadoras que...
Cliente [interrompendo]: Não quero. A minha mãe faleceu.
Operador [com entonação penalizada]: Tudo bem. [pausa] E o que a senhora acha de dar
o livro de presente para alguém? Para o seu pai, por exemplo?

Nos Estados Unidos e na Europa, existem organizações para repelir as ligações de


telemarketing. Elas têm como armas perguntas bizarras e até as mesmas técnicas usadas
pelos operadores. O egbg (www.egbg.nl), um grupo de ativistas de Amsterdã, preparou
um roteiro em que o cliente toma as rédeas da ligação e pede ao vendedor que soletre o
próprio nome, que diga o quanto ganha por mês, se tem tempo de ir ao dentista, qual a
sua pasta de dente favorita etc. O contra-roteiro termina com uma frase padronizada, na
qual a vítima de telemarketing agradece as informações fornecidas e solicita o número do
telefone do operador para o caso de precisar de dados adicionais. Tudo isso sem usar
gerúndios.

Já no sítio www.sorrygottago.com, podem-se obter dezenas de sons que simulam


pretextos para desligar, como interferências no telefone, barulhos de helicóptero, buzinas
de carro, alarmes de incêndio, vacas que passam mugindo, crises de espirro, problemas
com moscas e o som de uma carruagem estacionando. Há também um minuto inteiro de
gravações com comentários como este: "Ahn-hã... sei...muito interessante. Como? Repete.
Ah... Ahn-hã. Estou ouvindo". Ou um arquivo de áudio que começa assim: "Você disse que
trabalha em qual empresa mesmo? [pausa] Não, não acredito... Eu trabalhei lá também!
Aquele maluco do Bill continua na área?".

A Federal Trade Commission, organismo de defesa do consumidor dos Estados Unidos,


instituiu um cadastro nacional para pessoas que não desejam receber ligações de
telemarketing, o chamado Do Not Call Registry. Toda empresa que ligar para um número
que conste da lista é multada. Só no primeiro dia de inscrições, em junho de 2003, 7
milhões de números telefônicos foram cadastrados. Hoje são 125 milhões.

Numa das maiores centrais de atendimento telefônico do Brasil, a operadora Flávia segue
a lógica da fita cassete. Sentada na sua "posição de atendimento", ou P.A. (também
chamada de "cubículo" ou "cercadinho"), ela põe a mão na cabeça e começa a pensar em
outras coisas logo que a Sra. Eunides atende do outro lado da linha. O tom de voz do
teleoperador é sempre baixo, o ritmo de Flávia faz crer que ela está conversando sobre o
assunto pela primeira vez: "Boa-tarde, senhora Eunides, meu nome é Flávia, tudo bem? O
motivo do meu contato é para informar que, mediante a sua confirmação, encontra-se
disponível na sua linha telefônica o superseguro premiado, com uma cobertura de até R$50
mil em dinheiro. A senhora é casada? Mora perto de uma casa lotérica?" Flávia não
desiste nem quando a Sra. Eunides diz que não entendeu ("Mas eu fui premiada?"); repete
todas as informações e acrescenta que "o primeiro mês é gratuito, e depois o investimento
é de apenas R$0,53 ao dia, ou seja, R$ 15,90 por mês na sua conta telefônica. Podemos
confirmar os seus dados?".

Flávia faz de 150 a 180 ligações por dia, a média entre os operadores da seguradora para
a qual trabalha. Logo que a Sra. Eunides desliga o telefone, contrariada, o computador já
disca o próximo número. Flávia volta a colocar a mão na cabeça, respira fundo e
recomeça. "Hoje está difícil", diz, e emenda: "Boa-tarde, meu nome é Flávia, o motivo do
meu contato é informar que...". A meta da corretora é alcançar cem vendas mensais por
funcionário. Os seguros são oferecidos para potenciais compradores de diversos estados.
Na maioria das ligações, no início os interlocutores não entendem o que se passa. Em
seguida, alguns acreditam que ganharam um prêmio. Às vezes, Flávia consegue chegar à
frase em que pede a confirmação dos dados, para que o seguro possa ser efetivado "a
partir da meia-noite de hoje". A maioria das pessoas consegue interromper o procedimento
antes que ele seja completado. "Até porque, depois que comprou, é muito difícil cancelar
qualquer coisa", diz Isaac Martins, o professor.

Nenhum dos cercadinhos tem isolamento acústico. Eles servem apenas para evitar que um
operador fale com o outro. Quem entra na sala se depara com muito barulho, risadas e
operadores em pé, com a mão erguida, esperando a chegada do supervisor. É impossível
prestar atenção numa conversa só, ainda que todos os atendentes pareçam absortos no
trabalho. Cada um tem um headset, o apetrecho formado por fone de ouvido e microfone,
acoplado a um dispositivo de discagem com a tecla mute. Essa tecla, que emudece o
áudio, é de enorme importância, sobretudo durante crises de tosse ou de riso, como
costuma ocorrer quando o cliente diz que esqueceu "o longuinho" (o login) ou que a marca
de seu aparelho celular é Pomarola (Motorola). As ligações são direcionadas para os
operadores automaticamente, pelo sistema, que também exibe dados sobre o cliente na
tela de cada um. Antes de começar a falar, a primeira providência de todo operador, sem
exceção, é abrir o bloco de notas no computador, para registrar o nome do interlocutor e,
em seguida, localizar informações nas telas.

Operadores de telemarketing completam, em média, 74 chamadas por dia. Segundo o


relatório local do Global Call Center Industry, o tempo de cada ligação é de 3 minutos e 27
segundos. Os dados do relatório informam que os profissionais têm capacidade reduzida
de determinar seus horários de almoço e descanso. A grande maioria das empresas (87%)
contrata empregados em tempo integral (36 horas semanais), e, embora na jornada diária
de seis horas esteja prevista uma pausa de quinze minutos para o almoço (chamada de
pausa "lanche" ou "café"), em muitas empresas a jornada é de seis horas e quinze minutos,
para descontar o intervalo. "Normalmente, somando as pausas para ir ao banheiro dá um
total de dez minutos", diz Estefânia de Andrade, 34 anos, que trabalha há seis anos numa
multinacional de atendimento telefônico. Se o operador ultrapassa o tempo de intervalo,
perde pontos e corre o risco de ser demitido. Segundo ela, tudo é monitorado por meio de
acompanhamento direto, escutas e câmeras, inclusive as ligações e a conduta dos
empregados. Todos os computadores estão ligados em rede.

Estefânia começou a trabalhar como operadora em 1989. Na época não se usava o


headset. Eram maiores, assim, os riscos de desenvolver tendinite, lordose e outros
problemas na coluna. Pelo menos em teoria. Com o passar dos anos, ficou claro que a
popularização dos novos equipamentos de telefonia e informática não resultou na melhoria
das condições de trabalho. "O operador passou a ser mais sacrificado", diz Estefânia. Se
antes a meta de um operador de telemarketing era atender cinqüenta ligações, agora a
meta mínima é 150, às vezes quinhentas. Há um tempo médio de atendimento exigido,
muitas vezes restrito a trinta segundos por chamada. Perde pontos o operador que gastar
com o cliente mais tempo do que o estipulado pela empresa.

Antes o funcionário podia decorar sua P.A. com vasos de plantas, móbiles nada no local,
pois outros funcionários ocuparão o cercadinho em seguida. Como é comum que os
objetos pessoais do operador fiquem amontoados do lado do computador, em pilhas
prestes a desmoronar, há empresas em que é proibido levar garrafas d'água para a P.A.
Também é proibido abrir as janelas da sala de operação, devido ao ar-condicionado polar.
Muitas empresas ignoram os atestados médicos apresentados pelos funcionários. Foi o
caso de Estefânia, que levou uma solicitação médica de pausa maior para o almoço. Não
foi atendida. Se fosse feita a concessão, argumentou um funcionário graduado, os demais
empregados também passariam a querer um intervalo de almoço superior a quinze
minutos. Por conta disso, era comum Estefânia sair para o trabalho às seis da manhã e
almoçar apenas às quatro da tarde, já em casa. Mesmo que a pausa fosse maior, ela não
teria condições de comer em restaurante, pois, pela convenção coletiva da categoria, as
empresas de telemarketing não são obrigadas a pagar tíquete-refeição aos empregados.
Quando pagam, o valor médio é de R$3. Na multinacional onde Estefânia trabalha, os
operadores costumam perguntar ao chefe, referindo-se ao tíquete, se já veio "o vale-
coxinha". Uma de suas colegas, grávida, chegou a receber orientação especial do
ginecologista, cansado de lidar com as negativas da empresa e com as más condições de
trabalho: "Amanhã você vai levar uma muda de roupa e vai fazer xixi na p.a.". A moça fez
exatamente o que o médico mandou. Só assim conseguiu mais pausas para ir ao banheiro.

O médico Airton Marinho da Silva, mestre em saúde pública pela Universidade Federal de
Minas Gerais e ex-auditor fiscal do Trabalho, identificou vários tipos de problemas de
saúde entre os que trabalham em teleatendimento. Eles estão ligados a patologias
osteomusculares, a distúrbios mentais e a alterações do aparelho de fonação. "As
empresas se apresentam como benfeitoras e formadoras de jovens, dizem que são uma
solução contra o desemprego e que mantêm ambientes de trabalho saudáveis, mas o fato
é que os trabalhadores manifestam uma série de queixas", diz o médico. "O que ocorre é o
adoecimento dessa mão-de-obra jovem, num trabalho sem características de formação e
sem chance de crescimento profissional. As reclamações constantes de estresse, o alto
absenteísmo, a alta rotatividade de funcionários e as dificuldades de gerenciamento são
evidências do desgaste físico e psíquico dos operadores de telemarketing."

Em sua tese, intitulada A regulamentação das condições de trabalho no setor de


teleatendimento no Brasil, Marinho sustenta que a pressão temporal exercida sobre os
operadores é o principal fator de sobrecargas emocionais e físicas. A insuficiência de
pausas no trabalho e de intervalos entre as ligações vem agravar o quadro, ao qual se
soma a imposição de scripts que restringem o diálogo do operador com os clientes. O
monitoramento ostensivo, os baixos salários e as duras exigências de produtividade tornam
a atividade potencialmente lesiva. Em São Paulo, o piso determinado pelo sindicato da
categoria é de R$510. Diversas organizações sindicais do exterior denominam os centros
de atendimento telefônico de "senzalas da era eletrônica".

Faz meio século que cinco pesquisadores, liderados pelo psiquiatra francês Louis Le
Guillant, identificaram a chamada "neurose das telefonistas", uma sensação de lassidão
profunda, de verdadeiro aniquilamento ao final da jornada de trabalho. Segundo Le Guillant,
o problema afetaria pelo menos um terço das profissionais da área. Encerrado o dia,
muitas delas se dizem com a "cabeça vazia", não conseguem estabelecer conversações,
não suportam que ninguém fale com elas. Queixam-se de uma queda significativa das
faculdades intelectuais, têm alterações de memória e de atenção, dificuldade em conversar
e não encontram argumentos nas discussões. À semelhança dos operadores de
telemarketing, cerca de 20% das telefonistas estudadas por Le Guillant admitiram
empregar, por engano, expressões profissionais no dia-a-dia. A mais comum é "Alô,
aguarde um instante", que escapa em diversas ocasiões-por exemplo, quando alguém lhe
dirige a palavra repentinamente. Irritação, agressividade e nervosismo também são
comuns a mais da metade das telefonistas pesquisadas. Para Le Guillant, o controle da
produtividade, do comportamento e das pausas cria uma atmosfera que, se não chega a
ser de medo, é de apreensão contínua. "Você nunca pode nada, não tem autonomia para
resolver o problema", concorda a operadora de telemarketing Estefânia de Andrade,
cinqüenta anos depois.

Estefânia perdeu a voz em 27 de dezembro de 2003, às 10h45, quando falava no telefone


com o Sr. Lauro. "Eu estava com o cliente na linha e a minha voz começou a sumir. Tossi
um pouco e disse: 'Acho que estou ficando rouca, seu Lauro, é resfriado, ou então estou
muito nervosa com o senhor'." Ela encerrou a conversa, indicou no computador que faria
uma pausa e procurou o médico da empresa, que a encaminhou a um otorrino. Naquela
mesma tarde, Estefânia descobriu que estava com laringite e obteve uma licença de duas
semanas. "No dia seguinte, quando acordei, minha mãe perguntou as horas e eu não
consegui dizer. Passei trinta dias sem poder falar nada. Eu andava com um bloquinho e
uma caneta e escrevia, por exemplo, '5 pãezinhos', e mostrava para o moço da padaria."
Desde então, Estefânia enfrenta uma disfonia funcional-provocada por uso excessivo da
fala-que lhe tirou 75% do timbre vocal. "As pessoas não reconhecem a minha voz no
telefone", diz. "Quando alguém perde o timbre da voz, perde a identidade. Foi o meu
caso."

Estefânia ficou quatro meses afastada, até maio de 2004, recebendo auxílio-doença do
Instituto Nacional do Seguro Social, o inss. Quatro dias depois de retornar ao serviço, foi
despedida. No "exame demissional" o médico contestou a dispensa, com o argumento de
que, se ela começara a trabalhar com boa saúde, falando e ouvindo perfeitamente, deveria
sair do emprego nas mesmas condições. Encaminhou Estefânia para o sindicato, que a
orientou na abertura de uma ação trabalhista contra a empresa. Ela foi reincorporada ao
quadro de funcionários. O processo continua na Justiça.

Se Estefânia de Andrade tivesse passado pelo curso de telemarketing, teria aprendido


que, para evitar problemas com a voz, basta comer muitas fibras e mastigar maçã, fruta
com "poder impermeabilizante na garganta". Se tivesse lido o livro da fonoaudióloga
Eudosia Quinteiro, teria ficado alerta contra a ingestão de chocolate, inimigo poderoso da
mucosa orofaríngea. O vilão, segundo a autora, é o excesso de parafina usado na
confecção da guloseima, que derrete e gruda na mucosa, comprometendo a ressonância
natural da fala. Outros grandes inimigos da voz são as balas à base de menta: "Seus
vapores gelados conseguem anestesiar as cordas vocais", explica Eudosia. Nos últimos
dois anos e meio, Estefânia se submeteu a videolaringoestroboscopias e gastou R$4 mil
num tratamento fonoaudiológico que não surtiu efeito. "Eu pagava R$120 por sessão pra
ficar na frente do espelho falando 'aaaaa, eeee, iiiii, o rato roeu a roupa do rei de Roma',
mas a fonoaudióloga já tinha me dito que não ia adiantar."

O professor Isaac Martins prefere recorrer a um método que batizou de "baleês" (a língua
das baleias), em homenagem à personagem Dory, do desenho animado Procurando Nemo.
Noseu curso da Rua Sete de Abril os alunos repetem os principais exercícios para
articulação em baleês, ou seja, bem devagar "Deeebaixxooo deee uuumaaa maaataaa
seeecaaa haviiiaaa uuumaaa caaataaatreeepa com seeeete caaataaatreeepitoooos...". A
seleção de frases para treinamento é singular: "O prato de prata premiado é precioso e
sem preço. Foi presente da princesa primogênita,irmã do procurador da Prússia". Ou: "Sou
um original que não se desoriginalizará senão quando os originais estiverem
desoriginalizados". Ou ainda: "Sófocles soluçante ciciou no Senado suaves censuras sobre
a insensatez de seus filhos insensíveis".

Quem repete as frases mais alto, naturalmente, é sempre Fagner. No último dia de curso,
ele tinha feito amizade com todos os colegas. Também aprendera os fundamentos e
macetes da profissão, como trocar o headset de hora em hora. "Desse jeito, em vez de
ficar surdo de um ouvido só, você fica dos dois", explica. Assim como Estefânia, Fagner
está pronto para ser insultado pelas pessoas para as quais telefona. Pronto para perder
parte da personalidade, ou da voz, ou da sanidade, em troca de um salário anual médio de
R$10 mil e de um vale coxinha de R$3.